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FACULDADE MAURICIO DE NASSAU

CURSO DE GRADUAÇÃO
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS CONTÁBEIS
DISCIPLINA MATEMÁTICA FINANCEIRA

1 Fundamentos da Matemática Financeira

Segundo Hazzan e Pompeo (2016), “A matemática financeira visa a estudar


o valor do dinheiro no tempo, nas aplicações de dinheiro e nos pagamentos de
empréstimos”, fornecendo “instrumentos para o estudo e a avaliação de formas de
aplicação do dinheiro, bem como de pagamentos e empréstimos”.
O dinheiro investido é também chamado de Capital (C), cuja definição
mais formal seria: “O capital é qualquer valor monetário que uma pessoa (física ou
jurídica) “empresta” para outra durante certo tempo”.
Ao capital “emprestado” está associada uma remuneração, ou custo do
empréstimo, chamada Juro (J). O juro é calculado através de uma Taxa de Juros (i),
representada como uma porcentagem em cima do valor do capital.
𝐽 =𝐶∙𝑖
Por fim, o novo “valor do dinheiro” é chamado de Montante (M) e é pode
ser calculado pela soma do capital com os juros auferidos no período.
𝑀𝑜𝑛𝑡𝑎𝑛𝑡𝑒 = 𝐶𝑎𝑝𝑖𝑡𝑎𝑙 + 𝐽𝑢𝑟𝑜𝑠

1.1 Fluxo de Caixa

Para facilitar a análise das movimentações financeiras utiliza-se uma


representação linear chamada Fluxo de Caixa, onde as entradas (receitas) e as saídas
(gastos) são expressas por setas para cima e para baixo, respectivamente.

No eixo principal é indicado o tempo em Períodos de Capitalização (n),


que podem ser expressos em dias, semanas, meses, anos, etc. No início da aplicação,
quando 𝑛 = 0, colocamos o capital, chamado no fluxo de caixa de Valor Presente (VP)
pois representa o valor em dinheiro que se teria na data em que se realiza o
investimento, ou seja, o valor real no momento presente. Já o montante é chamado de

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Valor Futuro (VF) pois representa o valor a ser recebido no futuro uma vez que o
capital tiver sofrido alterações devido aos juros.

1.2 Regimes de capitalização

Existem duas formas de se calcular os rendimentos (juros) de um valor


investido (capital) chamadas de Regimes de Capitalização. Ambos os regimes se
baseiam em sequências numéricas, sendo que o Regime de Capitalização a Juros
Simples respeita a lei de formação de uma Progressão Aritmética (P.A.), enquanto o
Regime de Capitalização a Juros Compostos respeita a lei de formação de uma
Progressão Geométrica (P.G.)
Antes de detalhar as progressões é necessário entender o que é uma
sequência numérica. Para isso, tomemos como exemplo a tabela seguinte, que relaciona
o número de funcionários de uma empresa nos seus dez primeiros anos de existência:
ANO NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS
1 52
2 58
3 60
4 61
5 67
6 65
7 69
8 72
9 76
10 78

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A relação entre as duas variáveis (ANO e NÚMERO DE


FUNCIONÁRIOS) define uma função, pois a cada ano de existência da empresa
corresponde um único número de funcionários. A expressão algébrica que descreve essa
função recebe o nome de lei de formação ou termo geral e a função em si possui como
domínio o conjunto {1, 2, 3, … , 10}.
De modo geral, uma função cujo domínio é 𝑁 ∗ = {1, 2, 3, . . . } é chamada de
sequência numérica infinita. Quando o domínio de 𝑓 é {1, 2, 3, . . ., 𝑛} temos uma
sequência numérica finita, como é o caso do exemplo anterior.
As sequencias numéricas são comumente representadas por meio de seu
conjunto imagem colocado entre parênteses. Para o exemplo anterior, a representação
da sequência finita seria: (52, 58, 60, 61, 67, 65, 69, 72, 76, 78).
Exemplo 1.1: Considerando uma sequência de termo geral: 𝑎𝑛 = 3𝑛2 + 2, com 𝑛 ∈
𝑁 ∗ , (a) escreva os quatro primeiros termos dessa sequência e (b) determine se o
número 4109 pertence à sequência.
a) Os quatro primeiros termos são encontrados fazendo 𝑛 = 1, 2, 3, 4:
𝑎1 = 3(1)2 + 2 = 5
𝑎2 = 3(2)2 + 2 = 14
𝑎3 = 3(3)2 + 2 = 29
𝑎4 = 3(4)2 + 2 = 50
Logo, a sequência é: (5, 14, 29, 50, … ).
b) Devemos verificar se existe 𝑛 ∈ 𝑁 ∗ tal que 𝑎𝑛 = 4109:
4109 = 3𝑛2 + 2 → 4109 − 2 = 3𝑛2
4107
= 𝑛2 → 𝑛 = √1369 = ±37
3
Como a sequência é composta por números naturais não nulos (𝑁 ∗ ), somente
o valor 𝑛 = 37 é válido. Assim, 4109 é o 37° termo dessa sequência.

1.2.1 Progressões Aritméticas

Progressão Aritmética (P.A.) é uma sequência de números reais em que


cada termo, a partir do segundo, é a soma do termo anterior com uma constante real.
Essa constante é chamada razão da P.A. e é indicada por 𝒓.

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Por essa definição, é possível escrever a razão (𝑟) como a diferença entre
qualquer termo da P.A. e o termo imediatamente anterior:
𝑟 = 𝑎2 − 𝑎1 = 𝑎3 − 𝑎2 = ⋯ = 𝑎𝑛 − 𝑎𝑛−1
Exemplos:
a) (4, 7, 10, 13, 16, ...) é uma P.A. de razão 𝑟 = 3.
b) (2; 2,3; 2;6; 2,9; ...) é uma P.A. de razão 𝑟 = 0,3.
c) (70, 60, 50, 40, 30, ...) é uma P.A. de razão 𝑟 = −10.
d) (√3, 1 + √3, 2 + √3, 3 + √3, ...) é uma P.A. de razão 𝑟 = 1.
e) (0, -1/3, -2/3, -1, ...) é uma P.A. de razão 𝑟 = −1/3.
f) (5/2, 5/2, 5/2, 5/2, 5/2, ...) é uma P.A. de razão 𝑟 = 0.

De acordo com a razão, as progressões aritméticas são classificadas em:


 Crescente, quando 𝑟 > 0,.
 Decrescente, quando 𝑟 < 0.
 Constante, quando 𝑟 = 0.
Conhecidos o primeiro termo (𝑎1 ) e a razão (𝑟), é possível escrever a lei de
formação ou termo geral da P.A., que permite obter qualquer termo da P.A.
𝑎𝑛 = 𝑎1 + (𝑛 − 1) ∙ 𝑟
Exemplo 1.2: Calcular o 20º termo da P.A (26, 31, 36, 41, ...).
A razão dessa P.A é dada por: 𝑟 = 𝑎2 − 𝑎1 = 31 − 26 = 5, logo, aplicando na lei de
formação para 𝑛 = 20:
𝑎20 = 𝑎1 + (20 − 1) ∙ 𝑟 = 26 + 19 ∙ 5 = 121

Exemplo 1.3: Determinar 𝑥 para que a sequencia (𝑥 + 5, 4𝑥 − 1, 𝑥 2 − 1) seja uma


P.A.
Para ser P.A. a razão deve se manter entre os termos, assim:
𝑟 = 𝑎2 − 𝑎1 = (4𝑥 − 1) − (𝑥 + 5) = 3𝑥 − 6
𝑟 = 𝑎3 − 𝑎2 = (𝑥 2 − 1) − (4𝑥 − 1) = 𝑥 2 − 4𝑥
Igualando as duas equações encontradas para a razão, temos:
𝑥 2 − 4𝑥 = 3𝑥 − 6
𝑥 2 − 7𝑥 + 6 = 0
Resolvendo a equação do segundo grau, temos ∆= (−7)2 − 4(1)(6) = 25, sendo 𝑥:

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−(−7) ± √25 7 ± 5
𝑥= = = 1 𝑜𝑢 6
2(1) 2
Assim, para os valores de 𝑥 = 1 e 𝑥 = 6, a sequencia apresentada é uma P.A.

1.2.1.1 Soma dos 𝒏 primeiros termos de uma P.A.

A soma dos 𝑛 primeiros termos de uma P.A. pode ser calculada através de
um raciocínio utilizado pelo matemático alemão Carl F. Gauss (1777-1855) para
solucionar o problema da soma dos números de 1 a 100 (que forma uma P.A. com razão
igual a 1 e com 100 termos).

Escrevendo a série ao contrário, com os números de trás para frente (100,


99, ... 1), e somando com a série normal (1, 2, 3, ..., 100), o resultado de cada soma de
números que ocupam a mesma posição de ordem é sempre igual a 101.

Série 1 1 2 3 ... 51 52 53 ... 99 100

Série 2 100 99 98 ... 50 49 48 ... 2 1

↓ ↓ ↓ ↓ ↓ ↓ ↓ ↓

Soma 101 101 101 ... 101 101 101 ... 101 101

Dessa forma, a soma total dos termos das duas séries é igual a 100 vezes o
número 101, e a soma dos números de apenas uma das séries é metade desse valor:

100 ∙ 101
𝑆= = 5050
2

Generalizando para uma série com n qualquer, a soma de todos os


números de uma P.A. pode ser encontrada pela fórmula:
(𝑎1 + 𝑎𝑛 ) ∙ 𝑛
𝑆𝑛 =
2
Exemplo 1.4: Em relação à sequência dos números naturais ímpares, determine a soma
dos 50 primeiros termos.
O primeiro número natural ímpar é 𝑎1 = 1 e o quinquagésimo 𝑎50 = 99. Aplicando na
fórmula da soma, temos:
(𝑎1 + 𝑎50 ) ∙ 𝑛 (1 + 99) ∙ 50
𝑆50 = = = 2500
2 2

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1.2.2 Progressões Geométricas

Progressão Geométrica (P.G.) é uma sequência de números reais em que


cada termo, a partir do segundo, é o produto do termo anterior por uma constante real.
Essa constante é chamada de razão da P.G. e é indicada por 𝒒.
Por essa definição, é possível escrever a razão (𝑞) como o quociente entre
qualquer termo da P.A. e o termo imediatamente anterior:
𝑎2 𝑎3 𝑎𝑛
𝑟= = =⋯=
𝑎1 𝑎2 𝑎𝑛−1
Exemplos:
a) (4, 12, 36, 108, ...) é uma P.G. de razão 𝑞 = 3.
b) (-3, -15, -75, -375, ...) é uma P.G. de razão 𝑞 = 5.
1
c) (2, 1, ½, ¼, 1/8, ...) é uma P.G. de razão 𝑞 = 2.

d) (2, -8, 32, -128, 512, ...) é uma P.G. de razão 𝑞 = −4.
e) (-1000, -100, -10, -1, ...) é uma P.G. de razão 𝑞 = 0,1.
f) (√3, 0, 0, 0, ...) é uma P.G. de razão 𝑞 = 0.
Conhecidos o primeiro termo (𝑎1 ) e a razão (𝑞), é possível escrever a lei de
formação ou termo geral da P.G., que permite obter qualquer termo da P.G.
𝑎𝑛 = 𝑎1 ∙ 𝑞 𝑛−1

Exemplo 1.5: Numa P.G., o 4º termo é igual a 32 e o 1º termo é igual a ½. Determine a


razão da P.G. e o seu 8º termo.

Sabendo que 𝑎1 = 1/2 e 𝑎4 = 32, encontramos a razão:


1 3
𝑎4 = 𝑎1 ∙ 𝑞 4−1 → 32 = ∙𝑞 → 𝑞 3 = 64
2
3
𝑞 = √64 = 4

Determinamos o termo 𝑎8 como segue:

1 7
𝑎8 = 𝑎1 ∙ 𝑞 8−1 → 𝑎8 = ∙ 4 = 8192
2

1.2.2.1 Soma dos 𝒏 primeiros termos de uma P.G.

Para uma P.G. com número finito de termos, a soma dos 𝑛 primeiros desses
termos pode ser calculada pela fórmula:

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𝑎1 (𝑞 𝑛 − 1)
𝑆𝑛 =
𝑞−1
1 1 1
Exemplo 1.6: Calcular a soma dos 8 primeiros termos da P.G. (27 , 9 , 3 , … ).

Sabendo que 𝑎1 = 1/27 e 𝑎2 = 1/9, encontramos a razão:


1 1 27
𝑎2 = 𝑎1 ∙ 𝑞 2−1 → = ∙ 𝑞1 → 𝑞= =3
9 27 9

Aplicando na fórmula com 𝑛 = 8, temos:

1 8
𝑎1 (𝑞 8 − 1) 27 (3 − 1) 1 3280
𝑆8 = = = ∙ (38 − 1) =
𝑞−1 3−1 54 27

1.2.2.2 Soma dos termos de uma P.G infinita.

Se a P.G. possuir número infinito de termos e razão maior que um inteiro, os


números ficam cada vez maiores, de forma que a soma dos termos tende ao infinito. Já
para uma P.G. onde a razão seja menor que um inteiro (−1 < 𝑞 < 1), os números
tendem a ficar cada vez menores, de forma que quanto maior a ordem (n), mais próximo
de zero será o elemento da P.G. Dessa forma, para qualquer P.G. com −1 < 𝑞 < 1,
representamos o enésimo número na forma do limite:

lim 𝑞 𝑛 = 0
𝑛→∞

Não faz muito sentido calcular a soma de uma P.G. que vai até o infinito
(pois essa soma eventualmente resultará em infinito), mas pode ser interessante
conhecer a soma dos números de uma P.G. com −1 < 𝑞 < 1, pois essa soma tende a
um número real, que pode ser encontrado pelo limite:
𝑎1
lim 𝑆𝑛 =
𝑛→∞ 1−𝑞

Exemplo 1.7: Calcular a soma dos termos da P.G. infinita (1/2, 1/4, 1/8, ...).

Sendo 𝑞 = 1/2 , temos:

1
𝑎1
lim 𝑆𝑛 = = 2 =1
𝑛→∞ 1−𝑞 1−1
2

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Exemplo 1.8: Resolver, em R, a equação:

𝑥2 𝑥3 𝑥4 4
𝑥+ + + +⋯=
4 16 64 3

Sabendo que 𝑎1 = 1/27 e 𝑎2 = 1/9, encontramos a razão:


𝑥2 𝑥
𝑎2 = 𝑎1 ∙ 𝑞 2−1 → = 𝑥 ∙ 𝑞1 → 𝑞=
4 4

A soma da equação é dada por:

𝑎1 4
lim 𝑆𝑛 = =
𝑛→∞ 1−𝑞 3

Assim:

𝑎1 4 𝑥
= → 3𝑎1 = 4(1 − 𝑞) → 3(𝑥) = 4(1 − )
1−𝑞 3 4

3𝑥 = 4 − 𝑥 → 3𝑥 + 𝑥 = 4 → 𝑥=1

Ou seja, para que a soma da P.G. dada seja igual a 4/3, devemos ter 𝑥 = 1.

REFERÊNCIAS

IEZZI, Gelson; DOLCE, Osvaldo; DEGENSZAJN, David; PÉRIGO, Roberto;


Matemática Volume Único. 5ª Edição. Editora Atual, São Paulo, 2006.

HAZZAN, Samuel; POMPEO, José Nicolau; Matemática Financeira. Editora Saraiva.


7ª Edição, 2016.

ZENTGRAF, Roberto. Matemática Financeira Objetiva. ZTG Editora. 9ª Edição,


2011.

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