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Fichamento elaborado por Marcia Dias como requisito parcial para aprovação na disciplina de

Teorias Clássicas – UFRRJ – Mai/2015

DURKHEIM, Émile. O que é um fato social? e Conclusão. In: As regras do método sociológico. São Paulo:
Ed. Nacional, 1978, 9ª edição. Pg. 1-13 e 145-150.

Emile Durkheim era francês. Nasceu em 1858 e faleceu em 1917. Filósofo, psicólogo e sociólogo, Durkheim
foi um dos fundadores da sociologia enquanto ciência. Escrevendo no século XIX, uma de suas grandes
preocupações era criar uma metodologia de estudo que colaborasse para que a sociologia fosse reconhecida
como ciência e não como simples ideias do senso comum. Neste sentido, este autor desenvolveu os conceitos
de fatos sociais, solidariedade mecânica e solidariedade orgânica. A partir destes conceitos, Durkheim
desenvolveu estudos sobre religião, educação e suicídio entre outros fenômenos sociais.
No texto objeto deste fichamento, Durkheim busca definir “fato social”, que segundo o autor, é o objeto de
estudo da Sociologia. Com o objetivo de evitar que todos os acontecimentos ocorridos no interior de
determinada sociedade sejam entendidos como fatos sociais e, assim, confundidos com os objetos de estudo da
biologia e/ ou pela psicologia, Durkheim enumera algumas características intrínsecas a “fato social” como
objeto próprio da sociologia como ciência.
Durkheim trabalha com a ideia de que os indivíduos são moldados pela educação – que é um fato social.
Quando nascemos encontramos prontos os valores morais, legais, religiosos, éticos que norteiam nossa vida.
Internalizamos estes valores que influenciam o modo de vestir, pensar, agir. Estes valores e “escolhas” são
percebidos como hábitos de vida, como decisão individual, quando na verdade, são regras sociais que somos
impelidos a seguir. O indivíduo tem autonomia para decidir se vai conversar ou não com outro, no entanto, ele
não possui esta mesma autonomia para decidir em qual idioma vai falar, ou qual moeda vai utilizar para
comprar os bens de consumo. A autonomia individual é limitada pela sociedade a que pertence.
Daí percebe-se que os fatos sociais são altamente coercitivos e exteriores ao individuo. Outra característica dos
fatos sociais é sua generalidade, não no geral como um todo, mas no geral em determinada coletividade. Ou
seja, os fatos sociais atingem a todos ou a grande maioria de indivíduos num determinado grupo social. As
leis, a religião, a educação são exemplos de fatos sociais, segundo Durkheim.
Resumidamente, podemos afirmar que, segundo Durkheim, “é fato social toda maneira de fazer, fixada ou não,
suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda maneira de fazer que é geral na
extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independente de suas
manifestações individuais”. (p. 13).
A sociologia, como ciência deve adotar uma metodologia específica. Esta deve ser objetiva, apartidária
(política e filosoficamente) e considerar os fatos sociais como coisa – coisas sociais.
Apesar de reconhecer a influência e até mesmo a necessidade de ter como base de estudos outras ciências já
constituídas, Durkheim destaca a relevância de a sociologia definir tanto sua metodologia quanto seu objeto de
estudo.
A sociologia deve ser independente. Não deve ser influenciada por ideologias filosóficas, como o positivismo,
evolucionismo, espiritualismo. A sociologia precisa desenvolver pesquisas originais, abordar questões não
aprofundadas pela filosofia, buscar atingir resultados práticos, “sair da generalidade e entrar no detalhe dos
fatos” (p. 146).
Em Durkheim, a objetividade já, defendida por Comte e Spencer, precisa ser, não apenas teórica, mas também
prática. Deve direcionar não apenas a escolha do objeto, mas todos os passos da pesquisa. As pré-noções
devem ser totalmente excluídas da pesquisa a fim de descobrir o que está oculto e fazer com que a que a
pesquisa não seja confundida com a simples confirmação de um sistema de ideias previamente concebidas.
Segundo o autor, “somente experiências metódicas são capazes de arrancar das coisas seu segredo”. (p. 149).

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Fichamento elaborado por Marcia Dias como requisito parcial para aprovação na disciplina de
Teorias Clássicas – UFRRJ – Mai/2015

Tratar os fatos sociais como coisas é o grande segredo desta metodologia. Ao abordar os fatos como coisas é
possível manter um distanciamento e uma objetividade alcançando deste modo, a cientificidade da pesquisa.
Concomitantemente, é necessário ter em mente que são as mudanças coletivas no interior das sociedades que
explicam os fatos sociais, ou seja, “um fato social só pode ser explicado por outro fato social” (p. 149).
Uma técnica para identificar fato social em meio a outros fenômenos é verificar se determinado fato pode ser
representado estatisticamente, por exemplo, taxas de suicídio, de natalidade, de casamento, ou seja, se
situações individuais não impactam estas taxas. O fatos social “exprime uma certa consciência coletiva” (p. 8).
Durkheim reconhece a dificuldade de pôr em prática esta metodologia com o rigor necessário, no entanto,
deve-se buscar segui-lo o mais fielmente possível a fim de legitimar a sociologia como ciência.
Em suma, as regras do método sociológico consistem em: (1). Considerar os fatos sociais como coisas –
relação de objetividade em relação ao objeto a ser estudado – a produção do conhecimento se dá a partir do
estudo da realidade objetiva; (2). Afastar sistematicamente as pré-noções; (3) Definir previamente e
objetivamente os fenômenos tratados – independentes das manifestações individuais; (4) Buscar as relações de
causa e efeito e as regularidades que levam à descoberta das leis gerais e dos fenômenos sociais.

Em Durkheim a sociedade é anterior ao indivíduo. O autor reconhece a individualidade, mas destaca que,
como metodologia sociológica, o que deve ser considerado não é o indivíduo em si, mas este como integrante
de um grupo cujos membros compartilham valores, crenças e normas coletivas que os mantém integrados. Em
Durkheim o indivíduo é fruto do processo de socialização e não existe fora da sociedade. A moralidade
individual é internalizada e naturalizada, aparecendo ao individuo como se fossem hábitos e modos de vida
adotados por escolha própria. Na verdade, eles são internalizados através do processo educacional. Deste
modo, o individuo é um reflexo da educação recebida que, por sua vez, é transmitida a partir dos valores
comuns a esta sociedade. A tese de Durkheim justifica-se se levarmos em consideração que, no momento de
sua escrita, o objetivo era legitimar a sociologia como ciência, com metodologia e teoria próprias. Além disto,
neste período, os grupos sociais eram menos volumosos (menor número de indivíduos) e menos
diversificados. Embora, em certa medida, algumas práticas sociais ainda continuem sendo regradas pela
sociedade, atualmente o indivíduo tem uma autonomia muito grande. A possibilidade de garantir um mínimo
de individualidade é a premissa em todos os agrupamentos sociais, portanto, esta teoria não subsistiria nos
tempos atuais. Por outro lado, se pensarmos no processo educacional, percebe-se como o comportamento das
crianças é moldado, como a criança é preparada para viver em sociedade. Obedecendo respeitando,
naturalizando e internalizando as regras de sua sociedade. O mesmo ocorre em relação às leis. Observando a
teoria de Durkheim e o funcionamento da nossa sociedade pode-se perceber que, apesar do indivíduo possuir
certa autonomia, muitas de suas ações ainda são norteadas por fatos sociais – normas de convivência em
sociedade que devem ser seguidas, independente de sua vontade.