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Daniel Kupermann

A libido e o álibi do psicanalista


Uma incursão pelo Diário clínico de Ferenczi

Este ensaio pretende destacar algumas das principais contribuições ao entendimento do


que é o psicanalisar encontradas no Diário clínico de Sándor Ferenczi. Através do exame
da sua concepção do papel dos afetos na constituição do campo transferencial/
contratransferencial, de análise pelo jogo e, finalmente, de análise-mútua, demonstra-se
de que modo Ferenczi é responsável pela criação de uma nova sensibilidade clínica no
campo psicanalítico.
> Palavras-Chave:: clínica psicanalítica - sensibilidade - afetividade - jogo - Sándor Ferenczi

This essay is presented to emphasize some of the main contributions to the


understanding of psychoanalytic work found in Sándor Ferenczi’s Clinical Diary. By
examining his conception of the role of the affects in the constitution of the field of
transference/countertransference, of analysis through play and, finally, of mutual
analysis, this paper shows how Ferenczi was responsible for the creation of a new artigos > p. 47-57
clinical sensitivity in the psychoanalytical field.
> Key-Words:: Psychoanalytical clinic, sensitivity, affectivity, play, Sándor Ferenczi

A psicanálise, para mim – se me permitem 2002, merece ser comentado. Havia re-
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mais esta outra confidência – seria o outro cém-defendido uma tese sobre o humor
nome do “sem álibi”. A admissão de um “sem e a sublimação na psicanálise, que me re-
álibi”. Se fosse possível. metera aos primórdios da concepção da
análise como “jogo” proposta por Fe-
ano XVI, n. 168, abr./2003

Jacques Derrida, Estados-da-alma da renczi no final da sua obra. Desde então,


psicanálise, 2001 pude me debruçar mais atentamente no
Diário clínico, que é uma espécie de lega-
Preâmbulo do derradeiro, acessível somente aos “ini-
Um fato curioso referente a esse ensaio, ciados” – e mesmo assim com ressalvas,
baseado em palestra proferida em um já que é considerado por grande parte da
congresso psicanalítico durante o ano de comunidade psicanalítica um escrito da
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loucura… de Ferenczi. Desse modo, quan- rio clínico, e me imputam O Seminário 11!
do me foi solicitado, pela organização do Logo, a elaboração que se sucedeu me
evento, um título, estava inclinado a apre- fez pensar que minha resistência em te-
sentar ou algo relacionado ao humor na matizar a libido (e os álibis) do psicanalis-
clínica, ou aos questionamentos ferenc- ta junto a um público ampliado se fez es-
zianos acerca do trabalho realizado pelo cutar de alguma maneira, e ainda que tal-
psicanalista, e acabei optando, apesar da vez não se tratasse de minha resistência
resistência em abordar as idéias contidas apenas, mas de um fenômeno que concer-
no Diário clínico, junto a um público mais ne à atualidade do campo psicanalítico.
amplo, por partir de um tema que nele é Afinal, o Diário clínico é certamente um
exaustivamente tratado: a libido do psica- dos escritos menos conhecidos pelos psi-
nalista. “A libido do psicanalista”, este foi o canalistas, o que se pode constatar pelo
título escolhido e devidamente comunicado. simples fato de que é um dos menos co-
Além de estar afinado com o tema do mentados e, decerto, o contato com as
congresso, esse título atendia bastante questões nele tratadas não se faz sem al-
bem aos meus propósitos, já que, por guma perturbação, podendo mesmo pro-
meio de um jogo com as palavras, pode- vocar alguns lapsos – vale lembrar que,
ria ser lido também como “álibi do psica- apesar de escrito em 1932, o Diário ficou
nalista”. E assim, de uma só tacada, abor- décadas sob a tutela de Balint, que não
daria o que pretendia dizer e também o viveu para vê-lo publicado pela primeira
seu contrário: as resistências e os álibis vez, em 1985, na França.1
encontrados no campo psicanalítico para
se evitar justamente a problemática, cru- O Diário clínico: contexto e situação
cial para a clínica psicanalítica, das mani- O Diário clínico é composto de notas e
festações libidinais e afetivas do analista comentários escritos entre janeiro e ou-
nas análises que conduz – decerto a pro- tubro de 1932 – Ferenczi morreria em
vocação lançada por Derrida em sua con- maio de 1933 – sendo, portanto, contem-
ferência pronunciada nos Estados Gerais porâneo da conferência pronunciada por
artigos

da Psicanálise em Paris, a de que a Ferenczi em Wiesbaden que deu origem


psicanálise, mais do que qualquer saber/ ao polêmico ensaio “Confusão de língua
fazer, deveria ser “sem álibi”, se ofereceu entre os adultos e a criança”. No Diário,
como uma espécie de espectro e de ins-
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Ferenczi retoma algumas temáticas que já


piração (cf. Derrida, 2001). vinham sendo tratadas em sua obra,
Mas, surpreendentemente, no programa como a teoria da traumatogênese, agora
do evento, o título da palestra apareceu ilustrada à exaustão através de exemplos
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transmutado em “O desejo do analista”. clínicos, e avança nas formulações acer-


Inicialmente, fui assaltado pelo espanto – ca do psicanalisar. Porém, por se tratar
afinal, pretendia fazer referência ao Diá- do diário de uma prática clínica, sua aten-

1> Antes de seguir adiante, no entanto, convém ressaltar que os problemas suscitados por Lacan (1964)
através da noção de “desejo do analista” não são estranhos aos problemas tratados por Ferenczi em seu
Diário clínico.

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ção maior recai sobre os processos psí- Diário clínico manifesta uma denúncia
quicos que ocorrem no psicanalista ao contra a prática corrente da psicanálise
longo das sessões, o que havia nomeado na época. A primeira frase nele escrita é:
de “higiene” ou “metapsicologia do analis- “A insensibilidade do analista”, seguida de
ta” (Ferenczi, 1928). Ou seja, Ferenczi não comentários a respeito da postura distan-
apenas indaga como se analisa mas, so- te e neutra adotada então pela maior par-
bretudo, como enfrentar as dificuldades te da comunidade dos psicanalistas. Aliás,
e as resistências que se impõem ao ana- este é não apenas o primeiro, mas um dos
lista no curso do seu ofício. principais temas tratados por Ferenczi: a
A primeira questão que se pode colocar insensibilidade do analista entendida
frente ao Diário clínico, portanto, é a de como uma forma de hipocrisia, uma recu-
que tipo de testemunho se trata. Não é, sa, por parte do psicanalista, dos próprios
percebe-se rapidamente, um mero relato afetos de amor e, sobretudo, de ódio, sus-
de casos – apesar de incluir uma série de citados nas análises. Convém notar que a
fragmentos clínicos –, tampouco um tra- noção de sensibilidade, oriunda do cam-
tado de técnica psicanalítica. Poderia ser po da estética, é empregada por Ferenczi
considerado o relato de uma análise: no seu sentido rigoroso como a capacida-
auto-análise – nos moldes de A interpre- de de afetar e de ser afetado pelo outro,
tação de sonhos (Freud, 1900), sendo e não no sentido coloquial, que poderia
que, no Diário, a auto-exposição é muitís- nos remeter às idéias de plácida benevo-
simo maior do que no sonho da injeção lência ou de compreensão ilimitada e
de Irma, por exemplo, já que Ferenczi passiva etc., que foram apressadamente
analisa o modo como é afetado “a quen- associadas a sua figura. A insensibilidade,
te” por seus analisandos durante e após ou a hipocrisia é, assim, a principal figu-
as sessões –; ou análise-mútua, segundo ra do álibi passível de ser empregado pe-
as associações apresentadas por Ferenczi los analistas para escapar das duras con-
a alguns de seus analisandos e por eles in- seqüências do ato analítico.
terpretadas. Ou ainda, poder-se-ia levan- Dessa maneira, ao longo do argumento
artigos

tar a hipótese de que o Diário é o teste- encontrado no Diário, a hipocrisia – a re-


munho de um “passe”, que incluiria a ela- cusa em ser afetado e em afetar o outro
boração de restos não analisados da sua – pode se manifestar seja pelo rígido ape-
experiência de análise com Freud, a par- go à técnica, regulada pelo princípio de
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tir da exposição das próprias dificuldades abstinência, abandonado muito cedo por
encontradas por Ferenczi na condução da Ferenczi, seja pelo rígido apego à teoria e
análise de seus analisandos. No entanto, para ao intelectualismo, que resultou nas co-
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além de todas essas considerações, o Diário nhecidas caricaturas das “análises” que
clínico é, certamente, um dos mais impor- não souberam fazer mais do que reificar,
tantes testemunhos encontrados ao lon- por meio da racionalização, a miséria psí-
go da história da psicanálise, da busca e da quica e erótica dos analisandos que a elas
constituição, por parte de um analista, de se submeteram.
um espaço psicanalítico autêntico. Uma formulação de Ferenczi, encontrada
Ao mesmo tempo, é incontestável que o nas notas do dia 12 de abril de 1932, e que
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pretende ser uma autocrítica as suas pró- “espontaneamente” no setting, ou seja,
prias limitações como analista, se impõe como uma produção exclusiva do psiquis-
também no contexto do seu questiona- mo do analisando, sem que se considere
mento sobre o modo como Freud anali- suficientemente o modo como ela é efe-
sava e sobre o “estilo” de escuta adotado tivamente produzida pela própria oferta
então pela comunidade psicanalítica: “Ao de uma modalidade bastante específica de
invés de sentir com o coração, sinto com escuta. A contratransferência seria a
a cabeça. A cabeça e o pensamento ocu- reação “humana” (e indesejada) ao impac-
pam o lugar da libido” (Ferenczi, 1932, p. to sofrido pelo analista frente aos afetos
123). Ferenczi acreditava que a libido do do analisando. É o que se encontra em
psicanalista tinha um papel crucial na Freud, nas “Observações sobre o amor
promoção do acontecimento clínico, e transferencial” (1913), quando discute o
que o trabalho de análise só poderia que fazer com o apaixonamento de uma
ocorrer se promovesse um autêntico en- analisanda:
contro de afetos, o que propiciaria o “diá- ... a experiência de se deixar levar um pouco
logo de inconscientes”, para o qual o psi- por sentimentos ternos em relação à paciente
canalista deveria comparecer de corpo não é inteiramente sem perigo. Nosso contro-
presente.2 le sobre nós mesmos não é tão completo que
Idéia delicada e arriscada: analisar com o não possamos subitamente, um dia, ir mais
“coração” – a libido – e não com a “cabe- além do que havíamos pretendido. Em minha
ça” – retroalimentada pela razão teórica! opinião, portanto, não devemos abandonar a
Mas antes de rechaçá-la, seria preciso neutralidade para com a paciente, que adqui-
acompanhar o questionamento decisivo rimos por manter controlada a contratransfe-
promovido por Ferenczi acerca do saber rência (…) O tratamento deve ser levado a cabo
– freqüentemente excessivo – do psica- na abstinência. (Freud, 1913, p.214, grifo nosso)
nalista. É no sentido de um questionamen-
Os termos escolhidos são contundentes –
to do saber que compete ao psicanalista neutralidade, controle, abstinência – e
que se pode postular que, em Ferenczi, a vêm indicar que, no que concerne ao par
artigos

libido do psicanalista está efetivamente transferência/contratransferência, o pro-


implicada no processo analítico, sem álibis. blema privilegiado por Freud é o dos limi-
tes a serem dados à experiência. De fato,
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A “contratransferência real” até onde ir? Qual o limite de uma análise,


A problemática da libido do psicanalista ou para uma análise?
remete diretamente ao problema da Uma análise só avança até onde pôde ir a
transferência e da chamada contratrans- análise do psicanalista; essa é talvez a
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ferência. Na tradição psicanalítica, a consideração mais instigante de Freud


transferência é concebida, grosso modo, (1910), e é justamente essa compreensão
como um fenômeno que se instaurara que fez Ferenczi conceber a mutualidade,

2> Idéia sugerida por Ferenczi e adotada por Freud (1912) nas suas “Recomendações aos médicos que
exercem a psicanálise”.

>50
na qual o problema passa a ser menos o de Ferenczi com Freud, da qual Ferenczi
dos “sentimentos ternos” que poderiam se queixava de que Freud produzira uma
causar um súbito incêndio no vínculo intensa idealização, ao impossibilitar o
transferencial, do que o dos sentimentos trabalho de luto por parte do analisando,
hostis experimentados pelo analista. pela desconsideração da transferência
No que se refere às ameaças da contra- negativa, no caso, a do próprio Ferenczi
transferência, logo o campo psicanalítico (cf. Sabourin, p. 183).
saberia absorver parte da concepção de Nesse sentido, Ferenczi não considera
contratransferência como algo inevitável, que a contratransferência seja a mera rea-
não mais como “falha humana” (Freud, ção afetiva, no analista neutro, das mani-
1913), porém agora sob um novo álibi. A festações afetivas do analisando, que po-
contratransferência deixaria de ser inde- deriam assim ser apropriadas “objetiva-
sejada para se tornar parte integrante do mente” como guia para a interpretação;
tratamento, uma espécie de bússola afe- tampouco apenas a reação humana inde-
tiva através da qual o analista poderia te- sejada que vem comprometer o bom an-
cer suas interpretações com precisão cien- damento das análises e que, por isso, de-
tífica (cf. Heimann, 1950). Assim, a contra- veria ser evitada a todo custo. A contra-
transferência passaria a ser concebida, transferência abrangeria tanto a expres-
grosso modo, como a reação afetiva do psi- são dos afetos oriundos dos próprios in-
canalista aos afetos experimentados pelo vestimentos transferenciais do psicanalis-
analisando na situação transferencial, ta quanto as resistências e os pontos ce-
como se o analista funcionasse efetiva- gos nele suscitados pelo impacto dos afe-
mente tal qual uma tábula rasa, cuja neu- tos a ele endereçados; mas, além disso,
tralidade permitiria transformar, imedia- abrangeria também a expressão de afetos
tamente, o modo como é afetado em sa- inéditos suscitados no encontro analítico,
ber sobre o funcionamento psíquico do precisando, como um último recurso em
analisando.3 muitos casos, ser desvelada, isto é, ser
A concepção encontrada no Diário não é “confessada”4 ao analisando,, para que o
artigos

nem a de falha humana, nem a de bússo- tratamento pudesse prosseguir. É a essa


la norteadora. Em Ferenczi, a transferên- concepção, em toda a sua amplitude e
cia é, em primeiro lugar, produzida no complexidade, que Ferenczi se refere
encontro entre analista e analisando. O como a “ contratransferência real, para
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analista está, portanto, diretamente impli- além da profissional”” (Ferenczi, 1932, p.


cado na maior parte das manifestações 42), a contratransferência “profissional”
transferenciais dos seus analisandos – e sendo a ilusão de reapropriação da expe-
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isso diz respeito à experiência de análise riência afetiva do analista por uma pseu-

3> Para um aprofundamento das vicissitudes do entendimento da contratransferência ao longo da histó-


ria da psicanálise, ver Figueira (1994).
4> A idéia de que os afetos experimentados pelo psicanalista no curso de algumas análises deveria ser
“confessada” ao analisando aparece do início ao fim do Diário clínico. Veremos adiante o sentido dessa
“confissão” ao tratarmos do caso R.N. e do nascimento da análise mútua.

>51
do objetividade científica, por meio da da de 13/12/1931, censurando a sua “técni-
qual a dimensão do acaso e da incerteza ca do beijo” e advertindo-o ironicamente
próprias da concepção de análise como para as conseqüências da sua difusão
jogo de forças é esmaecida por uma su- (Ibid.).
posta garantia atribuída à “boa análise” do O que nos importa, nesse episódio, é a
analista. leitura efetuada por Ferenczi do modo
Nesse sentido, o Diário clínico poderia ser como esse material foi trabalhado na res-
considerado o adendo de Ferenczi às pectiva análise. Em um primeiro momen-
“Observações sobre o amor transferen- to, tratara o constrangimento que se se-
cial” de Freud, agora com o enfoque guiu “com uma total ausência de afeto”
sobre a metapsicologia do analista; uma (Ibid.), ou seja, de modo neutro, como
espécie de “Observações sobre o amor (e mandava o figurino. O resultado foi o re-
o ódio) contratransferenciais”.5 crudescimento das atuações da analisan-
da, que “começou a ridicularizar-se”, re-
Quem seduz quem? lata Ferenczi (Ibid., p. 34), “de um modo
Como vimos acima, Freud advertira, nas por assim dizer ostentatório, em seu
suas “Observações sobre o amor transfe- comportamento sexual (nas reuniões
rencial” que, ao expressar-se afetivamen- mundanas, ao dançar)”. Apenas quando
te, o psicanalista poderia ir mais além do Ferenczi pôde expressar o modo como
que havia pretendido, suscitando assim a fora afetado pelo episódio, abandonando
questão dos limites de e para uma análi- a “falta de naturalidade da sua passivida-
se. O caso Clara Thompson – a analisan- de” – e podemos imaginar o quanto lhe
da à qual Ferenczi se refere como Dm. no custou essa “indiscrição” de Dm. –, a atuação
Diário clínico – pode contribuir para essa cedeu, dando lugar à compreensão de
reflexão. que se tratava aqui de uma “repetição da
Clara Thompson, uma psicanalista norte-ame- situação pai-filha”, na qual o pai sedutor
ricana em análise didática com Ferenczi, invertera a situação caluniando a filha
aproveitava das liberdades concedidas (Ibid.).. Desse modo, os afetos não recu-
artigos

para beijá-lo. Em certa ocasião, ela co- sados do analista, expressos na análise,
menta com outros analistas em formação permitiram transformar uma atuação em
com outros didatas: “Quanto a mim, pos- uma repetição diferencial, possibilitando
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so beijar papai Ferenczi quantas vezes o trabalho de elaboração da analisanda.


quiser” (Ferenczi, 1932, p. 33), o que logo De fato, em vez de considerar tratar-se
chegou ao conhecimento de Freud, obvia- apenas de uma provocação ou sedução
mente como denúncia aos métodos pou- histérica, através da qual a analisanda co-
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co ortodoxos de Ferenczi. Estava armado locava seu analista – e a si mesma – em


o circo na comunidade psicanalítica, e situação pública constrangedora, Fe-
Freud escreve uma carta a Ferenczi, data- renczi pôde acolher a cena criada por

5> Foi efetivamente D. W. Winnicott (1947) quem soube extrair dessas reflexões o que elas têm de mais
precioso.

>52
Dm. e se perguntar qual a sua implicação O que se segue são algumas associações
nessa atuação; em última instância, quem de Ferenczi à respeito da sua relação com
seduz quem? O que pretendia “papai Fe- as mulheres e, como era de se esperar,
renczi” com a sua postura de relaxamen- uma revisão da sua relação com a própria
to e de laissez-faire radical? mãe. Conclusão:
As exigências da paciente de ser amada corres-
Quem analisa quem? pondiam a exigências análogas que me eram
O nascimento da análise mútua feitas por minha mãe; concretamente, em meu
A experiência da análise mútua também foro íntimo, eu detestava portanto a paciente,
tem a sua “Anna O.”: a analisanda apelida- apesar de toda a gentileza aparente; eis o que
da de R.N. no Diário. No dia 5 de maio de ela sentia e ao que reagia, com a mesma
1932, Ferenczi relata uma situação que inacessibilidade que tinha também, por fim,
pode ser considerada o nascimento da forçado o pai criminoso a soltá-la.
análise mútua. O processo analítico en- A análise mútua fornece aparentemente a
contrava-se estagnado, e R.N. demandava solução. Deu-me a ocasião para dar livre cur-
cada vez mais de Ferenczi, o que o con- so à minha antipatia. A conseqüência disso foi,
duzira a uma “superperformance” – au- curiosamente, que a paciente apaziguou-se,
mento do número de sessões semanais, sentindo-se justificada... (Ibid., p. 137)
levar a analisanda nas suas viagens de fé- Finalmente, ao avaliar a quem caberia o
rias, sessões aos domingos... Essa atitude mérito pela experiência inédita, Ferenczi
teria favorecido o surgimento de material considera que caberia
referente à história infantil, mas chegara
a um ponto em que a cada final de sessão ... antes de tudo à paciente que, em sua situa-
a analisanda, em crise, o segurava por ção precária de paciente, não se cansou de lu-
quase uma hora mais. tar pelo seu legítimo direito; entretanto, isso
A situação tornou-se insustentável, e Fe- de nada teria servido se eu próprio não tives-
renczi relata que se viu obrigado a “bater se me submetido ao sacrifício inabitual de cor-
em retirada”, o que teve importantes con- rer o risco de, enquanto médico, aceitar a
experiência de me confiar a uma doente certa-
artigos

seqüências no desenrolar do tratamento.


mente perigosa. (Ibid., p. 138)
Convém acompanhá-lo:
Eu pretendia, duro como ferro, que ela devia
No seu conhecido ensaio “O ódio na con-
tratransferência”, Winnicott (1947, p. 277)
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odiar-me por causa da minha maldade a seu


respeito, o que ela negava resolutamente, mas afirma que “a análise de pacientes
por vezes, negava-o com tanta irritação que os psicóticos revela-se impossível a não ser
sentimentos de ódio acabavam sempre por que o ódio do próprio analista esteja mui-
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transparecer. Ela, pelo contrário, pretendia tíssimo discernível e consciente”. Como o


perceber em mim sentimentos de ódio e come- analisando psicótico viveria um estado de
çava a afirmar que a análise não progrediria amor e ódio coincidentes, em certos mo-
nunca se eu não me decidisse a deixar que ela mentos do processo analítico buscaria
analisasse os sentimentos escondidos em manifestações de ódio “legítimo” por par-
mim. Resisti durante cerca de um ano e depois te do analista como única maneira de po-
resolvi fazer o sacrifício. (Ferenczi, 1932, p. 136) der também se sentir amado.
>53
O que está dessa maneira presente em 6) O melhor analista é um paciente curado (...)
Winnicott, na trilha aberta por Ferenczi, 7) Questionamento das análises de controle
é que a experiência transferencial cria um (supervisões): últimos recursos: reconheci-
espaço intermediário6 que possibilita o mento e confissão de suas próprias dificulda-
encontro afetivo entre os parceiros da des e fraquezas. Controle severo pelos
análise, e é apenas o autêntico encontro pacientes! Não se defender. (Ferenczi, 1932, p. 154)
de afetos que pode propiciar a criação de A concepção da análise do analista como
novos sentidos, sobretudo para o psiquis- segunda regra fundamental aparece pela
mo do analisando, paralisado pelo sinto- primeira vez em “A elasticidade da técnica”,
ma e pela repetição.7 de 1928, ensaio que pode ser considerado o
marco, no campo psicanalítico, da pro-
Uma figura privilegiada do “sem blematização da dimensão estética da clí-
álibi”: “análise de duas crianças” nica. A partir de então, Sándor Ferenczi não se
Um último problema que não poderia pergunta mais o que fazer na clínica, mas
deixar de ser abordado, ao se tratar do como fazer no aqui e agora das sessões.
Diário clínico, é o da importância dada “Convém conceber a análise como um
por Ferenczi à análise do analista. Fe- processo evolutivo que se desenrola sob
renczi (1928) chegara a formular que a os nossos olhos”, escreve Ferenczi (1928,
análise do analista é a “segunda regra fun- p. 28), “e não como o trabalho de um ar-
damental” da psicanálise, em reciprocida- quiteto que procura realizar um plano
de à regra da associação livre imposta ao preconcebido”. Para isso, porém, seria
analisando. As anotações do dia 3 de ju- preciso criar uma nova sensibilidade clí-
nho de 1932, que ganharam como título nica, o que, em contrapartida, passaria a
“nada de didática especial!”, são bastante exigir uma crescente disponibilidade do
reveladoras: psicanalista. Daí a importância e o privi-
1) Os analistas deveriam ser melhor analisados légio conferidos por Ferenczi a uma ex-
que os pacientes e não pior. periência de análise “autêntica” – distin-
2) Atualmente, eles são pior analisados. ta da “didática” – para o analista (a pro-
blematização da análise do analista efe-
artigos

a) Limite de tempo
b) Nenhum relaxamento (segundo a opinião tuada por Ferenczi configura uma crítica
dos pacientes) explícita ao modelo de formação psicana-
(...) lítica e, sobretudo, à análise didática, ain-
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5) Análise mútua: somente um recurso usado da incipiente nos anos 1920).


na falta de coisa melhor. Seria preferível uma Revendo de maneira bastante breve o
análise autêntica por um estranho qualquer, percurso clínico de Ferenczi, é interes-
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sem nenhuma obrigação. sante notar que o abandono das técnicas

6> A noção de espaço intermediário (Zwischending ) entre sujeito e objeto aparece em Ferenczi (1928a,
p. 7) quando relaciona o interesse da criança por seus excrementos com a capacidade infantil de estabe-
lecer relações simbólicas entre seu corpo e os objetos do mundo.
7> Para uma demonstração rigorosa, seria preciso um longo desvio pela descrição dos processos
introjetivo e de simbolização em Ferenczi, que o leitor pode encontrar em “Humor e sublimação na psica-
nálise” (Kupermann, 2002, cap. 2.4).

>54
rumo a uma estética da clínica coincide gem da regra da associação livre, mas, na
com o abandono da busca da definição percepção de Ferenczi (1928, 1930), as
de um “lugar” que pudesse ser ocupado análises careciam desse relaxamento. Jus-
pelo psicanalista junto ao psiquismo do tamente desse período data o resgate da
analisando. De outra maneira, Ferenczi noção de “tato” e a formulação das no-
vai sendo levado a abandonar a concep- ções de “empatia”, “acolhimento”, “bene-
ção de uma tópica que seria ocupada volência” e “benevolência materna” para
pelo analista como objeto de investimen- definir a postura clínica do psicanalista, e
to do analisando na transferência, em di- o “lugar” do analista foi identificado ao de
reção a uma tentativa de definição do tra- uma mãe amorosa e complacente,
balho do analista segundo uma concep- exageradamente passiva frente aos movi-
ção econômica, referente ao encontro mentos afetivos – amor ou ódio – dos
afetivo que tem vez nas análises. analisandos, sempre pronta a atender as
Vejamos: Ferenczi ficou (injustamente) suas demandas amorosas infantis.
conhecido pela aplicação da chamada Mas o princípio de relaxamento só en-
“técnica ativa”, no início dos anos 1920 (cf. controu a sua verdadeira vocação a par-
Ferenczi, 1919, 1921). A idéia era, através tir da concepção de “análise pelo jogo”,
de proibições e injunções formuladas ao formulada em “Análise de crianças com
analisando, levar ao extremo o princípio adultos”, de 1931. Se no período de expe-
de abstinência ou de frustração propos- rimentação da técnica ativa o analista pe-
to por Freud de modo a incrementar sua cava pelo excesso de intervenção, duran-
angústia, obrigando assim a retomada do te o período no qual vigorou o princípio
fluxo associativo nas análises estagnadas, de relaxamento, a passividade exagerada
fixadas no gozo do amor de transferên- e a falta de reação do analista terminou
cia. Nesse momento, o “lugar” do analis- sendo percebida pelos analisandos como
ta era identificado, como pretendia Freud distanciamento, ausência e falta de impli-
(1937), com o de um “substituto paterno” cação. A novidade, então, foi a tentativa
cuja função principal seria a de represen- de dialogar com a criança que compare-
artigos

tante da Lei inexorável da castração. O ce nas análises, mesmo nas de adultos,


resultado foi o de que as análises tendiam em vez de interpretá-la, falando sobre ela
a se tornar práticas pedagógicas, ou seja, (Ferenczi, 1931).
em vez das esperadas manifestações de Para isso, no entanto, seria preciso que o
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ódio por parte dos analisandos já analista pudesse utilizar uma linguagem
siderados e da conseqüente interpreta- apropriada para o diálogo com o infantil,
ção da transferência, a técnica ativa ter- a chamada “linguagem da ternura” (Fe-
ano XVI, n. 168, abr./2003

minou por produzir uma submissão cada renczi, 1933), em oposição à “linguagem da
vez maior (cf. Ferenczi, 1926). paixão” do adulto submetido à lucidez
Isso o levou a abandoná-la, e a formular unidimensional, cuja característica era a
o “princípio do relaxamento”, ou laissez- univocidade dos enunciados, presente
faire, ao lado do princípio de abstinência também na prática interpretativa da
freudiano. Claro que a idéia de “liberda- psicanálise tradicional. Desse modo, a
de” (laissez-faire) já se encontrava na ori- cena analítica passaria a ser verdadeira-
>55
mente ocupada por um teatro lúdico, no nálise efetivamente sem álibis e sem tan-
qual analista se encontraria intimamente tos semblantes? Em um contexto cultural
implicado e incluído, o que permitiria no qual Deus – ou o Pai – está efetiva-
promover a “neocatarse” – uma referên- mente morto, e não por acaso o paradig-
cia de Ferenczi ao fato de que, com a ma da ciência positivista se encontra em
análise pelo jogo, a “outra cena” atuada crise, não seria a figura de um analista-
pelas histéricas nos primórdios da criança, órfão de certezas e de garantias
psicanálise, quando da utilização do mé- prévias – e capaz de brincar, criar, entris-
todo catártico, havia sido reconstituída, tecer-se e rir junto daquele de quem se
ganhando novos sentidos. dispôs a tratar – bastante adequada para
Assim, não se tratava mais, para o analis- os desafios encontrados pela psicanálise
ta, de se posicionar nem como substitu- na contemporaneidade?
to paterno, nem como substituto mater-
no, mas de favorecer a emergência, no Referências
setting analítico, da palavra-ato, da pala- D ERRIDA , Jacques. Estados-da-alma da
vra acompanhada da carga afetiva que psicanálise. São Paulo: Escuta, 2001.
lhe permite ressignificar a existência do FERENCZI, Sándor (1919). Dificuldades técnicas de
sujeito em análise; ou seja, de mais uma uma análise de histeria. In: Psicanálise III.
vez “soltar as línguas” – é essa a expres- São Paulo: Martins Fontes, 1993.
são utilizada por Ferenczi (1933) – na ex- _____ (1921). Prolongamentos da técnica ati-
periência psicanalítica, criando modos de va. In: Psicanálise III. Op. cit.
subjetivação inéditos. _____ (1924). As fantasias provocadas. In:
Finalmente, na anotação do dia 13 de Psicanálise III. Op. cit.
março de 1932, Ferenczi extrai a conclu- _____ (1926). Contra-indicações da técnica
são radical da sua concepção de “análise ativa. In: Psicanálise III. Op. cit.
pelo jogo”, proposta no ano anterior em _____ (1928). Elasticidade da técnica psica-
“Análise de crianças com adultos”. O título nalítica. In: Psicanálise IV . São Paulo:
é “Análise de duas crianças”: Martins Fontes, 1992.
artigos

_____ (1928a). A adaptação da família à


Certas fases da análise mútua representam, de criança. In: Psicanálise IV. Op. cit.
uma parte e de outra, a renúncia completa a _____ (1930). Princípio de relaxamento e
todo constrangimento e a toda autoridade; a neocatarse. In: Psicanálise IV. Op. cit.
pulsional > revista de psicanálise >

impressão que se tem é a de duas crianças


_____ (1931). Análise de crianças com adul-
igualmente assustadas que trocam suas expe-
tos. In: Psicanálise IV. Op. cit.
riências, que em conseqüência de um mesmo
_____ (1932). Diário clínico. São Paulo: Mar-
ano XVI, n. 168, abr./2003

destino se compreendem e buscam instintiva-


tins Fontes, 1990.
mente tranqüilizar-se (...) as crianças ligam-se
_____ (1933). Confusão de língua entre os
entre si e estabelecem vínculos de amizade.
adultos e a criança. In: Psicanálise IV. Op.
(Deve a análise acabar sob o signo de uma tal
cit.
amizade?). (Ferenczi, 1932, p. 91)
FIGUEIRA, Sérvulo A. (org.). Contratransferência
Não estaria nessa formulação de Ferenczi de Freud aos contemporâneos. São Paulo:
a indicação bastante atual de uma psica- Casa do Psicólogo, 1994.
>56
FREUD, Sigmund (1900). A interpretação de so- K UPERMANN, Daniel. Humor e sublimação na
nhos, In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1980. psicanálise. Tese de doutorado. Rio de Ja-
v. IV. neiro: UFRJ, 2002.
_____ (1910). As perspectivas futuras da tera- LACAN, Jacques (1964). O seminário. Livro 11. Os
pêutica psicanalítica. In: ESB. Op. cit. v. XI. quatro conceitos fundamentais da
_____ (1912). Recomendações aos médicos psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
que exercem a psicanálise. In: ESB. Op. cit. 1988.
v. XII. SABOURIN, Pierre. Ferenczi – paladino e grão-vizir
_____ (1913). Observações sobre o amor secreto. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
transferencial. In: ESB. Op. cit. v. XII. WINNICOTT, D. W. (1947). O ódio na contratrans-
_____ (1937). Análise terminável e interminá- ferência. In: Winnicott, D.W. Da pediatria
vel, In: ESB. Op. cit. v. XXIII. à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000.
HEIMANN, Paula. On countertransference. Inter-
national Journal of Psycho-analysis, 31, Artigo recebido em dezembro/2002
London, 1950. Aprovado para publicação em fevereiro/2003

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