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5 TEORIAS QUE

EXPLICAM POR QUE O


BRASIL ESTÁ NA MERDA
Nelson Rodrigues, Buarque de Holanda, Freyre, Flusser e Lévi-
Strauss: suas teorias nos ajudarão a entender como chegamos ao
fundo do poço.
Por Victor Lisboa -

28 de junho de 2016

O Brasil está há tanto tempo atolado na merda que sequer sentimos mais
seu fedor. Não percebemos mais a extensão de nossa tragédia.

Duvida? Então vou citar alguns exemplos:rompimento da barragem que


mergulhou uma cidade num mar de lama e matou um rio, cratera que se
abriu na construção do metrô em São Paulo, propinoduto petista,
privataria tucana,queda de uma ciclovia mal planejada com morte de dois
ciclistas, colisão de um avião comercial com prédio, morte da mascote das
Olimpíadas, estupro de uma adolescente por mais de 30
homens, linchamento de uma desconhecida confundida com o retrato
falado de um boato no Facebook, capotagem de um ônibus cheio de
estudantes, desmoronamento de prédio residencial por erro de cálculo no
projeto, proliferação de um vírus que encolhe a cabeça de recém
nascidos… Poderíamos encher uma página inteira com exemplos
ilustrativos do quão fundo estamos atolados na merda.

E já é lugar comum dizer que a responsabilidade por tudo isso não é dos
políticos ou do subdesenvolvimento econômico, mas nossa, de toda a
sociedade brasileira.

E isso, apesar de lugar comum, é a pura verdade. A responsabilidade é


nossa.
Mas não é suficiente assumirmos a culpa. O importante agora é
entender como e por que isso ocorre. Que características culturais são
responsáveis por estarmos na merda? Que traços de caráter transmitimos
geração após geração? Que falhas estruturais temos enquanto povo?

Sim, é um assunto difícil, mas precisamos começar a enfrentar tais


questões. E a maneira mais adequada e simples de começar é recorrer a
alguns dos principais pensadores (que se dedicaram a estudar e explicar
as características do povo e da sociedade brasileira.

Claro, as teorias desses cinco pensadores são mais complexas e


sofisticadas do que uma breve exposição aqui permite, mas a proposta
deste artigo é mais modesta do que tentar apreender a complexidade de
suas visões – vamos capturar as pinceladas mais fortes do quadro pintado
por cada um deles para tentar vislumbrar um retrato aproximado de
nossas deficiências.

1 – O HOMEM CORDIAL DE BUARQUE DE


HOLANDA
Em seu livro Raízes do Brasil, o historiador Sérgio Buarque de
Holanda dedica o quinto capítulo a apresentar o retrato mais devastador
já feito sobre nós, brasileiros: o homem cordial.

Ao contrário do que parece, o “homem cordial” não é um elogio ao


brasileiro, mas uma contundente crítica. Para Buarque de Holanda, a
“cordialidade” era o mecanismo pelo qual o indivíduo se comporta na
sociedade burlando e fugindo dos códigos de conduta da civilidade. Ser
cordial, em síntese, é um subterfúgio para não ser civilizado e
comprometido com seus deveres perante a sociedade.

A “cordialidade” significava pautar as relações no âmbito social pelo afeto


familiar, tanto no sentido positivo (amor, amizade, compadrio) como
negativo (ódio visceral, inimizade, perseguição pessoal). Mas, como
demonstra Buarque de Holanda, o espaço público não é e nem deve ser o
lugar apropriado para esse tipo de relação afetiva, pois a civilidade exige
um compromisso do indivíduo pautado pela objetividade e pelo respeito
impessoal perante os outros.

Por aí entendemos que o historiador utilizava o termo “cordial” em seu


sentido original: de algo relativo ao coração.

E para ilustrar sua tese, Buarque de Holanda exemplifica com um registro


histórico casual: o negociante inglês que se mostrou surpreso quando
descobriu que, aqui no Brasil, antes de fazer negócio, precisava primeiro
fazer amizade com os comerciantes. Mas isso não passava de
um subterfúgio para fugir dos códigos que a civilização impõe:
afinal, se um amigo não cumpre um contrato, sempre se espera que o
outro amigo seja tolerante e releve sua falta de comprometimento. É o
tapinha nas costas que a tudo perdoa, do atraso em reuniões ao
inadimplemento de cláusulas contratuais.

Basta lembrarmos do nepotismo no serviço público; das relações


promíscuas entre autoridades públicas e empresários; da nossa virulência
emocional ao debatermos questões políticas; dos favores e pequenos
presentes com que tentamos obter perdão por infrações e facilidades em
contratos privados. Tudo isso tem uma só raiz, a nossa suposta
“cordialidade”, que usamos como desculpa para não enfrentarmos o árduo
e constante exercício de tratar o outro ser humano com equânime
civilidade e respeitosa objetividade.

2 – A AUSÊNCIA DE HISTÓRIA DE FLUSSER


Quem não conhece sua história está condenado a repeti-la. E se
observarmos os contínuos escândalos de corrupção que assolam o Brasil
há mais de um século e as repetidas quebras da ordem democrática,
perceberemos que algo vai mal em nossa percepção da história.

O filósofo tcheco Vilém Flusser morou tempo suficiente no país para


sentenciar em seu livroFenomenologia do Brasileiro: os brasileiros não
têm história nem senso histórico.

Não significa que o brasileiro não tenha interesse na história, mas que o
brasileiro pensa “a-historicamente”. Ou seja, falta a nós uma genuína
consciência histórica.

É que aqueles que têm consciência histórica enxergam a sua sociedade


como um processo de superação que se inicia com uma etapa primitiva,
conservam da origem as suas virtualidades e as realiza plenamente no
momento presente. O brasileiro, porém, desprovido de senso histórico,
não consegue reconhecer qualquer linha de continuidade com o passado
e a tradição.
Assim, o brasileiro enxerga na sociedade uma fotografia instantânea do
presente, na qual os traços do passado são interpretados não como
tradição, mas como “demonstração da ideologia burguesa alienada” ou
qualquer outra etiqueta que impeça o reconhecimento do enlace histórico
entre origem e momento atual.

Pela nossa falta de consciência histórica, tendemos a encaixar


teorias e ideologias derivadas da consciência histórica de forma
forçada e defasada. Assim, como exemplifica Flusser, o marxista
brasileiro tenta captar e alterar a situação brasileira para adaptá-las a
categorias marxistas, e por isso está condenado ao fracasso. Mas por
outro lado a classe dominante também vive em uma realidade
continuamente defasada, sendo igualmente incapaz de um pensamento
histórico.
Basta lembrarmos do embate ideológico atual entre direita e esquerda
para compreendermos o que Flusser diz. No Brasil, por exemplo, parece
impensável a existência de uma ideologia política que seja ao mesmo
tempo liberal em termos econômicos e liberal em termos de costumes,
pois estamos trabalhando com categorias de pensamento e associações
já superadas após a Guerra Fria.

3 – OS TRISTES TRÓPICOS DE LÉVI-


STRAUSS
“Um espírito malicioso definiu a América como uma terra que passou da
barbárie à decadência sem conhecer a civilização”: assim o etnólogo
francês Claude Lévi-Strausscomeça o capítulo intitulado “São Paulo“, de
seu ensaio “Tristes Trópicos“, no qual relata sua memorável viagem ao
Brasil.

Para Lévi-Strauss, em algum momento de nossa transição entre o Brasil


primitivo dos indígenas e o Brasil que se pretende ver reconhecido pela
civilização ocidental, perdemos o rumo e alcançamos a decadência da
civilização sem conhecer seu ápice. Ninguém saiu ganhando, foi um jogo
de dupla perda: o índio foi degradado e o europeu tornou-se um triste
mimetizador da Europa.

E a razão para isso talvez esteja na análise fulminante que Lévi-Strauss


faz da forma como lidamos com o conhecimento, inclusive com ideologias.

No Brasil, esclarece o etnógrafo, nossa propensão é mais a


de consumir ideias do que deproduzi-las. Mas não se trata de assimilar
conhecimento de fora para trabalhar esse conhecimento de forma
aprofundada e sofisticada: nós usamos e exibimos o conhecimento
importado como alguém que usa um vestido e o ostenta em uma
festa. Assim, quando uma ideia “vira moda”, nós corremos para
“vesti-la” de forma que sejamos reconhecidos como iguais pelas
outras pessoas de nosso grupo social.
Aqui, para Lévi-Straus, a cultura é apenas um “brinquedo para os ricos”,
uma espécie de distinção social, e não uma forma de expressar
genuinamente a nossa identidade e riqueza coletiva.

Tome-se por exemplo o caso dos acadêmicos brasileiros, conforme ilustra


Lévi-Strauss. Em qualquer sociedade, as grandes mentes das
universidades representam o alicerce intelectual da nação. Mas no Brasil,
o objetivo parecia ser apenas a acumulação de dados (expressão
doconsumo de ideias), a demonstração pública de enciclopedismo, e não
o aprofundamento de formas originais de pensar.

4 – O CRETINO FUNDAMENTAL DE
NELSON RODRIGUES
E qual é o produto final de uma sociedade que apenas consome a cultura
e o conhecimento de forma superficial?
Em uma sociedade na qual a cultura, como dizia Lévi-Strauss, é um
brinquedo para os ricos, a reação dos incultos e miseráveis, a sua resposta
e retaliação, é a glorificação da ignorância, da falta de cultura. E o escritor
e jornalista Nelson Rodrigues cunhou um nome para definir o indivíduo
resultante dessa coroação da idiotice: é o cretino fundamental.

Essa figura é importante para entendermos o Brasil pois Nelson


profetizava, em meados de 1970, que em algum momento no futuro o
cretino fundamental iria vencer por simples vantagem numérica. Seria, ao
seu ver, a “rebelião dos cretinos fundamentais”.

Basta lembrarmos de nossos deputados federais e do desfile horrendo de


figuras tragicômicas que há no Congresso Nacional. Quem elegeu Tiririca?
Quem elegeu Cunha? Quem elegeu Renan Calheiros? O cretino
fundamental, que já se tornou maioria.
O cretino fundamental é, pura e simplesmente, o inculto, o imbecil,
o ignorante que se orgulha de sua própria ignorância e se
movimenta em multidão feito manada. Basta lembrarmos da
glorificação do funk carioca até mesmo por parte da intelectualidade
brasileira, que nos quer convencer que as favelas não podem mais do que
isso (e a excelência do samba e de artistas como Paulinho da Viola
demonstra seu potencial criativo).

Esse indivíduo descrito por Nelson é o resultado de uma sociedade que


entroniza avulgaridade, como definida por Contardo Calligaris: ser vulgar
é ser preguiçoso demais para pensar por si mesmo e assim delimitar sua
individualidade, é deixar-se levar pelo pensamento majoritário e
predominante em nossa comunidade, não importa quão obtuso e
desastroso esse pensamento seja. É o sujeito que, de tão ignorante, não
consegue perceber mesmo aquilo que é mais óbvio.

E seria um sinal de nossa ignorância não percebermos, aqui, o


óbvio: tendemos a encarar o cretino fundamental como o “outro
brasileiro”, e não nós; tendemos a encarar que o cretino fundamental
é aquele brasileiro que discorda de nossas opiniões. Mas devemos, na
verdade, nos olhar no espelho e perguntar: o que há de cretino
fundamental em mim? Em que aspectos da minha vida eu glorifico a
ignorância e a vulgaridade? Em que momentos eu cedo à vulgaridade
de aderir cegamente ao pensamento de meu grupo social, seja ele
qual for, só porque esse é o caminho mais fácil e que me poupa de
pensar por mim mesmo?

5 – A CASA GRANDE E A SENZALA DE


FREYRE
Para Gilberto Freyre, o microcosmo do Brasil colonial criou os dois
alicerces que estruturam a sociedade brasileira até hoje. De um lado,
a Casa Grande, espaço de um grupo dominante ocioso e explorador,
beneficiado pela Coroa e que era adulado e servido pelos servos mais
dóceis. De outro, a Senzala, o espaço daqueles que eram explorados e
domesticados – ora através do insidioso favorecimento, ora através da
brutalidade.

Tratava-se de sociedade escravocrata e latifundiária, na qual o senhor-


de-engenho era a figura patriarcal dominante. Mas esse senhor do
engenho não era um empreendedor proativo, e sim um sujeito preguiçoso,
que permanecia deitado em sua rede, dando ordens e copulando – a
sexualização excessiva de nossa sociedade teria origem já ali, na relação
promíscua entre senhores e servas.

Assim, o ápice do sonho brasileiro de sucesso não é o indivíduo que


obtém sucesso graças a seu esforço e empreendedorismo, mas
sim o indivíduo que, pelo compadrio, favorecimentos escusos e
benefícios de mérito duvidoso, atinge uma posição na qual é
poupado de qualquer trabalho, vivendo da exploração do esforço
alheio. Qualquer semelhança com nossos políticos corruptos e
empresários que corrompem para obter facilmente contratos milionários
com o Estado, tem origem na figura do senhor do engenho.

Do outro lado, está a plebe, quem mora na Senzala, e aqui cabe todos
aqueles que são de alguma forma explorados hoje em dia, do pequeno
empreendedor que paga impostos exorbitantes ao morador das favelas
sem saneamento básico, todos os brasileiros estão sendo explorados para
sustentar uma classe dominante essencialmente parasitária.

Para Freyre, a dinâmica social brasileira, e que sustenta o equilíbrio entre


o explorador e o explorado, entre Casa Grande e Senzala, é a da ausência
de antagonismos. E se isso ocorria, no tempo dos grandes latifúndios, por
meio da miscigenação, da proximidade sexual entre senhor do engenho e
escravas, no brasil contemporâneo ocorre através da constante
perspectiva que os explorados têm de receberem benefícios do explorador
e, até mesmo, dese tornarem eles próprios exploradores algum dia.

Há um pacto pérfido e jamais verbalizado entre a Casa Grande e a Senzala


moderna de que é legítimo aspirar à vida ociosa e baseada na exploração
dos demais brasileiros. Assim, a classe dominante não é uma classe
estanque, protegida da “miscigenação”: a classe dominante, mais que um
grupo de pessoas, é uma lógica que seduz e atrai a todos os brasileiros,
do andar de cima e do andar de baixo.

Basta lembrar um exemplo recente: o Partido dos Trabalhadores, que


idealmente prometia beneficiar, até pela sua vocação nominal, os
trabalhadores, mas que acabou se envolvendo promiscuamente com
grandes empreiteiros como Marcelo Odebrecht e latifundiários comoJosé
Carlos Bumlai, favorecendo, no final, apenas os atuais senhores do
engenho