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CO!~A · KLOISAS' < .A:. Que ,côriiida em lata? _: ' :'" B: Você. não foi sempre cbmo
. ;;--. B: -Presuntada, Bingo', só isso. -você é. O que te aconteceu? Mulhe-
./ Samuel Beckett Dá pra conservar a alma e o corpo res? Jogo? Deus?
juntos, só isso. O bastante pra con- A: Eu fui sempre ,..... assim.
Tradução de Millôr Fernandes servar a alma e o corpo juntos, até B: Quêquê isso! (Violentameri-
o ~erão; poupando. Não? Um pu- te.): Eu fui sempre assim, agacha..
nhado de batatas, também. Você do no escuro, arranhando um -rata..
gosta de batata, Bingo? Podemos plã velho aos quatro ventos. (Via..
até deixar elas criar broto e aí, na lentamente.): Tivemos nossas mu-
hora certa, enfiar na terra, podia- lheres, não tivemos? Você as tuas
mos tentar isso. (Pausa.) Eu escolhia para te guiar pela mão e eu as mi..
o lugar e você enfiava no chão nhas pra de noite me tirar da ca..
(Pausa.) Não? (Pausa.) deira e me botar na cadeira de novo
A: Como é que estão as árvores? de manhã e me empurrar até a es..
B: ,É difícil de dizer. É inverno: quina quando ele perdia a cabeça.
você sabe. (Pausa.) A: Aleijado? (Sem [moção.)
A: É de dia ou de noite? Pobre infeliz!
B. Oh .. . (Olha pro céu.) . . . de B.: Só um p,roblema: "' virada.
TEATRO I dia, se você prefere. Sem sol; natu- MUltas vezes eu ~chava, enquanto
ral não você N t estava tentando a virada > eu acha-
" nao pergun ava. . áoid .
Esquina. Ruínas. A, cego, senta.. (Pausa.) Você seguiu meu racicd- va qfue era mais rapr o continuar
-do num banco de dobrar, arranha n.o? ..
(Pausa .) Voce am da tem Bl-I em
A •

A rente,d
dar a volta ao mundo.
um violino. Ao lado,.a caixa do vio.. gum tino na cabe B' t té o ia em que descobri que po..
. . d d' ça, mgO' B~ eu? dia voltar pra casa de marcha..à..ré.
[ino, meio aberta, em pé. Em cima tmo am a a pro qaso, t mgo. (P e ) P I
a tigela das esmolas. Pára de to.. M I? CI (Olh ' ) 'au a. or exemp o, eu estou em
' aS'1caro. aro. a pro Iceu.. A. (Se empurra um pOl/COpra fren..
car, vira a cabeça pra direita do pú.. E. caro, nao tem outra pa avra. te ' ) E
N

p Q , para. u me empurro pra B.


blico, escuta. ( ausa.) uer que eu descreva pra (Se empurra um po~co pra trás
.. vo:ê? (Pa~s~.) Quer que .eu tente te pára. ) E volto pra A (Com elán.j
A: Uma esmola prum pobre ve..
dar um? Idem des~a cIan~ade? A linha reta! O espaço livre!
Ihinho, uma esmola prum pobre ve..
A: Eu tenho a nnpressao de que (Pausa.) Começo a te comover?
Ihinho. (B entts. } Uma esmo'a
prumpobre velhinho! às vezes passo.a noite inteira aqui, A: Ouço passos, algumas vezes.
toca~do. e oU,vmdo. Eu costumava Vozes. Digo pra mim mesmo, Eles
B: -Música! Então não é um so..
sentir o crepúsculo se form.an.do e es'âo voltando, alguns estão vol..
nho! Até que enfim! Nem uma vi..
me aprontava. Largava o violino e tando, vão tentar se instalar de no..
são; elas são mudas e eu sou mudo
a tigela e e~a só .n:e levantar e ela vo, ou procurar alguma coisa que
pra elas. Pobre diabo. Agora eu
pegar na minha mao. (Pausa.) deixaram, ou procurar alguém que
posso voltar, o mistério acabou. A
B: Ela? deixaram.
não ser que a gente fique .. junto e A: Minha mulher. (Pausa.) Uma B: Voltando! (Pausa.) Quem é
viva junto, até a mcrte chegar. Oué
que vocês acham? Bingo, eu posso mulher. (Pausa.) Mas agora ... que ia querer voltar pra cá? (Pau..
te chamar de Bingo, como meu fi.. (PausJ.) 5a.) Evocê nunca chamou? (Pausa.)
lho? (N. T. mudei o nome por cau.. B: Agora! Nunca gritou? (Pausa.) Não?
sa da sonoridade. Pode voltar o A: Quando eu saio eu não sei, A: Você não observou nada?
Billy.) Você qosta de companhia, quando eu chego eu não sei, en- B: Oh, eu, você sabe, obser..
Bingo? Você gosta de comida em quan~o estou aqu~ eu não sei, se é var. " Eu fico sentado aqui, -na mí-
lata, Bingo? . de dia ou de noite. nha cocheira,' na ' minha cadeira, no
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escuro, vinte e três horas em cada A: Depois dessas horas todas de A: Você já nâo ouviu bastante?
vinte e quatro. (Violentamente.) O escuridão você não.. . As mesmas queixas e gemidos de
que é que você queria que eu obser- B (violentamente): Não! (Pau,. sempre de berço ao túmulo.
vasse? (Pausa.) Você acha que nós sa.) Nafuralmente, se você quiser B (gemendo): Faz alquma C'Oi,.
podíamos formar uma dupla, agora que eu olhe em volta eu olho. E se .sa por mim, antes de ir embora!
que você já está me conhecendo? fi você resolver me empurrar por aí
A: Olhai! Tá ouvindo? (Pausa.
A: Presuntada, você d'sse? eu vou descrevendo a cena en-
Gemendo.) Eu não posso ir embo..
B: Concernente a isso eu per- quanto andamos. ra! (Pausa.) Es:á ouvindo?
gunto, de que é que você item vivi- A: Você quer dizer que me quia-
B: Você não pode ir embora?
do esse tempo todo? Deve estar va? Eu não ia mais me perder?
A: Eu não posso ir sem a~ mí-
faminto. B: Exatamente. Eu digo, Calma,
nhas coisas.
A: Tem coifas jogadas por aí. Bin~o, tem um monte de bosta aí
B: Comíve's? na frente, dá pra trás e roda pra B: Pra que que elas te servem?
A: Às vezes. esquerda quando eu mandar. A: Pra nada.
B: Por que você não se deixa A: Você fazia iSSQ!?! B: E você não pode ir embora
morrer? B (aproveitando a vantagem) : sem e'as?
A: Nã'O. (Começa a tatear de
.... A: Somando tudo eu tenho tido Calma. Bingo, calma, estou vendo
novo, pára.) No fim eu acabo en-
sorte. N'Outro dia tropecei num uma lata redonda na sarjeita, tal..
saco de castanhas. vez seja sopa. ou feijão branco. contrando. (Pausa.) Ou deixo elas
pra trás, pra sempre. (Começa a ta..
B: Nffio! A: Feijão branco! Pausa.
tear de novo.)
A: Um saquinho, cheio de cas- B: Você está começando a gos,.
tanhas, no meio da estrada. tar de mim? (Pausa.) Ou é só mi.. B: Arruma meu tapete, estou sen..
tindo o ar Iro no meu pé. (A pára.)
B: Ótimo, até aí tudo bem, mas nha imaginação.
Eu mesmo podia arrumar, mas ia
por que você não se deixa morrer? A: Feijão branco! (Levanta, põe levar muito tempo. (Pausa.) Faz
A: Já pensei nisso. o :;iolino e a tigela no banco e ta.. isso pra mim, Bingo. Aí eu posso
B (irritado): Mas não levou a teia em direção de B.) Onde é que voltar, me enfiar de novo na m'nha
sério. você está? toca e dizer, eu vi um homem pela
A: Eu não EDUsuficientemente B: Aqui, caro amigo. (A segura última vez, bati nele e ele me socar..
infeliz., (Pausa.) Eu sempre fui a cadeira e começa a empllrrá,.la às reu. (Pausa. ) Encontrar alguns tar..
não..feliz, e infeliz, mas não sulí- cegas.) Pára! (Empurrando a ca.. rapos de amor no meu cora ção e
cientemente infeliz. deira.) : É uma benção! Uma ben.. morrer reconciliado com a minha es,.
B: Mas cada dia você deve ficar ção! pécie. (Pausa.) O que é que você
um pouquinho ma's, B: Pára! (Bate pra trás com a está me olhando ass'm, esbuqalha..
A (violentamente): Mas "nâo o vara. A solta a cadeira, encolhe,.se. do? (Pausa.) Eu d'sse alguma coisa
suficiente! (Pausa.) . Pausa. A tateia em direção a seu quenão devia? (Pausa.) Que cara
•• B: QUGr saber de uma coisa?,...., banco, pára, perdido.) Me perdoa! tema minha alma? (A tateia em di-
nós fomos feitos um pro outro. (Pausa.) Me perdoa, Bingo! reçáo '(1 -ele.)
A (gesto de compreensão): Qual A: Onde é que eu estou? (Pau.. A: Fazi um barulho.
é o aspecto geral, agora? sa.) Onde é que eu estava? (B faz. A tateia em direção a
B: Bem, eu você sabe... Eu B: Aqora eu o perdi. Estava co.. ele. pári1.)
nunca vou longe, só pra lá e pra meçando a gostar de mim e eu bati B: Você perdeu o olfato também?
cá na minha porta. Nunca tinha me nele. Vai me abandonar e eu nun- A: É 'O mesmo cheiro em toda
empurrado nem até aqui. ca mais vou ver ele. Eu nunca mais parte. (Est·ende 'a mão) A minha
A: Mas você olha em volta? vou ver ninguém. Nunca mais va.. mão está ao alcance da tua? Perma,.
. I B: Nao," nao.
" mos ouvir a voz humana. .
nece- imóvel com o braco esticado. 33
, B: Espera, você não vai me pres.., A: Vermelha? medalhas do teu pai pregadas-no
tar um favor por coisa nenhuma! B: Grená. (A retira a mão, con.. rabo e um saco de esmolas pendu..
(Pau ~a.) D:go, incondic'onalmente. tinua ajudando.) Que mãos você rado no pescoço. Você e a sua har..
(Pausa.) Deus do céu! (Pausa. Ele tem!(pat1s~.J paIQuem você pensa que é?" E me
l' pega a mão de A e puxa..o pra per.. A: Ainda é dia? obrigava a dormir no soalho. (Pau..
!t'
ta dt: sLJ , B: Dia? (Olha pro céu.) Se 5a.) Quem eu achava que era ...
A: Teu pé. você prefere, (Olha.) Não há outra (Pê.:.lsa) Ah, b o... Eu nunca
B: O que? palavra. pude . " (Pausa. Levanta.) Nunca
A: Mas já não está escurecen.. pude . . . (Começa a tatear de novo
A: Vccê Ialcu do pé.
em direção ao banco, pára, escuta)
B: Ah, se eu soubesse! (Pausa.) do? Se eu ficasse escutando bastante eu
Ah? é, meu pé, quarda ele. (A se B (inclina..se para A sacode..o.)
ouv'a, uma corda ia vibrar. '
Vamos, Bingo, levanta, você está
inclina, tateia.) De joelhos, de joe.. B: A tua harpa? (Pausa.) Que
começando a me incomodar.
lhos, você I'ca mais cômodo. (Aju.. história de harpa é essa?
da..o a Dê ajoelhar no f.:1gar certo.) A: Mas já não está anoitecendo?
(D olh(~ pro céu.) A: Eu tive uma harpa. Peque..
Ai. na. Uma harpinha. Fica quieto e
B: Dia ... Noite. .. (Olha.) As
A (irritado): Larga a minha deixa eu ouv.r, (Pausa.)
vezes me parece que a terra emper..
mão! Você quer que eu te a'ude e B: Quanto tempo você vai ficar
rou, um dia sem sol, no coração do
fica segurando a minha mão! (B inverno, no cinza do crepúsculo. assm?
solta a mão dele. A mexe no tape.. (Inclina..se sobre A, sacode..o.) A: Eu posso ficar horas escutan..
te.) Você si tem uma' perna? Vamos, B'nqo, levanta, tá cerne.. do todos os sans.(Ouvem.)
B: Só essa. çando a me perturbar. B: Que sons? '
A: E a outra? A: Tem grama em algum lunar? A: Eu não sei quais são. (Ou..
lJC1;~ ,J
B: Foi ficando ruim e remove.. B: Eu não vejo.
ramo A ((i'eemente): Não tem verde B: MaJ eu estou vendo. (Pau..
em parte alguma? sa.) Eu estou.. .
(A guarda o pé.)
B: Um pouco de limo. (Pausa. A (implorando): Você não con..
B: Tã bom ass'm? seque ficai quie'o? '
A grtlda a$.mãos no tapete e des..
A: Aperta mais um pouco. (A B: Não! (A segura a cabeça nas
cansa a cabeça [;obre elaJ.) Deus
protege mais o pé.) Que mãos você mãos.) Estou vendo ele ali, clara..
do céu! Não me diz que você vai
tem! (Pausa. Tateando em direção mente, ali em cima do banco. (Pw..
rezar]
ao torso de B): O resto todo está sa.) E se eu pegasse ele, B'nqo, e
aí! A: Não. ll ugl.' c "c 1 7 (Pausa. ) H'et,
c com e.e:
B: Ou chorar?
B: Agora pode levantar e me Bingo, que é que você acha disso?
pedir um favor. A: Não. (Pausa.) Eu podia fi.. (Pausa.) E quando aparecer um ou..
car assim pra sempre, com a minha tro velho, algum dia. sair de um
,A: O resto tcdo está aí? cabeça nos jodho s de um velho. buraco aí, vai encontrar você tocan..
B: Nada mais foi removido, se é B: No joelho. (Sacode..o rude..
do gaita. E você vai lhe falar do
o que você quer saber. (A mão de n~2ntc .) Levanta ,..... por favor!
v'olíno que teve. (Pausa. ) He'n,
A, tateando pra cima, at.'nge o ros.. A (se pondo mais confortavcl.. Bing'J? (Pausa.) Ou cantando.
t: párü.) mente): Que paz! (B empurra-o (Pausa.) Heín, BJly, que é que
A: É a tua cara. ' rudemente, A cai sobre as mãos e você diz disso? (P2.:lSa.) Ele lá
B: Confesso que sim. (Pausa.) OJ joelhos.) Dora costumava dizer grasnando no vento do inverno por..
O que é que podia ser? (Os dedos nos dias em que eu não faturava que perdeu sua qatinha (Cutuca..o
de A passeiam, páram.) I~sJ? Mi.. bem. "Você e a sua harpa! Era me.. nas toStas com a vara.) Hein,
34 nha verruga. lhor você andar de quatro com as Bingo? (A gira, pega a vara pela

t'
extremidade e arranca-a do alcance . O xis: (Atenção direção: Seficar '. B: Foi 'pro breio; '(Pausa.) .
deB.) . incompreensível diier 'o xis do.pro,. A: Não estaremos engariados? '"
blem3. ) (B ttmexe nos papéis.) B (indignado): Checamos nas
TEATRO II Concluímos e damos o fora. (B re,. melhores fontes. Tudo pesado e re..
,.. mexe. ) pesado, checado e rechecadó, Nem
I No centro alto uma janela alta, B: Em pcsição. uma palavra aqui (brande um maço
aberta. Céu noturno brilhante. Lua A: Escutamos. de papel) que não seja de ferro.
invisível. B: Deixa e'e saltar. Tudo construído como uma catedral.
Na esquerda b3ixa, equidistante A: Quando? (Joga os papéis na mesa. Os papéis
da parede c do eixo da janela, me- B: Agora. se espalhamno chão.) Merda! (Cata
sinha e cadeira. Na mesinha uma A: De onde? os papéis. A lelJanta a sua lâmpada
lâmpada para leitura, apagada, e B: Daqui dá. Três a três metros e espalha a luz em volta de B.)
uma pasta atulhada de documentos. e meio por andar, vinte e c'nco me- A: Já vi tristezas piores. (Se vira
Na direita baixa, formando sime- . tros ao todo. Diqamos. (Pausa.) pra janela.) P'ores perspectivas.
tria, mesinha e cadeira iguais. Só a A: Eu jurava que estávamos só (Pausa.) É Júpiter ali? (Pausa.)
lâmpada apagada. no sexto. (Pausa.) Ele não corre '. B: Onde?
. Porta na esquerda baixa. perigo? A: Apag1 a luz. (Apagam am..
•••• De pé e imóvel na frente da me- B: Só temque aterrissar no rabo, bos.) Deve ser.
taJe esquerda da janela, e de costas da maneira que viveu. A espinha B (irritado): Onde?
pro palcô, C. quebra, e a tripa explode.
A (irritado): Ali (B estica o pes..
Pausa. A se levanta" vai à janda, coço. ) Ali, à direita, no canto.
Longa paasa.
se inclina, olha para b:ho. Se apm.. (Pausa.)
A: entra. Fecha a porta, vai até 171a, olha pro céu. Volta à cadeira.
a mesinha à direita e senta de cos-
A: Lua cheia. B: Não. (Pisca.)
tas pra parede direita. Pausa. Acen,. A: Então é o quê?
B: Nnda não. Amanhã.
de a luz, tira o relógio, consulta, co- B (indiferentt): Não tenho idéia.
A tira do bolso uma pequena
Ioca-o na mesa. Pausa. Apaga a luz. i
eg ~na a .
S:riu:-. (Acende a [.:lZ.) Bem? Tra< ,

Longa pausa. A: Que dia é hoje? balhamcs cu brincamos? (A acende


• t
B: entra. Fecha a porta, vai até B: Vintee quatro. Amanhã vinte a luz.) Você se esquece de que isto
a mesinha à eSQuerda e senta de c cnco, não é a casa dele. Ele só ert á aqui
costa ) pra pared~ esquerda. Pausa. A (virando páginas): Dezenove... pra tomar conta do gato. No fim do
Acende a luz, abre a oasta e essa- vinte e deis... vinte e quatro. (Lê. ) mês volta em silênc'o pra barcaça.
zia o conteúdo sobre ~ mesa. Olha "Nossa Senhora do Socorro. Lua (Pausa. Mais alto. ) Você esquece
em volta, vê A. cheia." (Torna a colocar a apenda de 9ue isto aqui não é a casa dele.
B: Bem! no bolso. ) Nós estávamos dizen.. A (irritado): Esqueço, esqueço!
A:Hsst, apaga. (B desliga a luz. do. .. que é que era .. . deixa ele E Ú , de não esquece? (Com pai..
• Longa pausa. Baixo.) Que note! saltar, Nossa conclusão. Certo? xão.) Mas é isso que nos salva!
(Longa pausa. Pensativo.) Eu ainda Trabalho, família, terceira pátria, B (procurando entre os papéis):
não en'endo (P.aasa.) Porque ele buceta, finanças, arte e natureza.co.. Memória . . . memór'a... (Pega uma
precisa de nossos serviços. (Pausa.) ração e consc'êncía, saúde, condições folha. ) Eu cito: "Um elefante pra
Um homem corno ele. (Pau:a. ) E de hab'ta çâo, Deus e o homem, tan.. alimentação, Um passarinho no céu
porque nós trabalhamos de graça. tos desastres. (Pausa.) do verão." (Nota do tradutor ,-
(Pausa.) Homens como nós. (Pau,. A (imedi:1tivo): Tem sentido? frase a ser refeita de acordo com a
\ 5a.) Mistério. (Pausa. ) Ah, bem ... (Paaea. ) Temsent'do? (Paasa. ) E nscessidade. :Não sei o . que dizer
(Pausa. Acende a luz.) Vamos lá? o senso de humor dele? De propor.. 'a do original.) Depo'mento do se..
(B acende a luz, remexe nos papéis.) ção? nhor Swell, organista no Canal 35
J
--< o ., ~ ~. . -
-" : Se~ton e amigo' de toda a vida. Deeping..Fense 'amigo de toda a xe.] Tem aquele incidente da rifa . ..
(Pausa.) vida. (Pausa.) "Não houve uma lá.. possivelmente. Se lembra?
A (mau humor): Tsstss! grima derramada em nossa família, A: Não.
B: Eu cito: "Interrogado nessa e Deus sabe que elas jorraram em B (lendo): "Duzentas rifas. .. o
ocasião" ,..... abre parêntesís ,..... torrentes, que não fosse colhida e vencedor ganha um relógio finíssi..
"(separação litigiosa )" ,..... fecha pa.. piamente preservada nesse inexau.. mo. " ouro maciço, dezenove quíla..
rêntesís ,..... "com respeito à deteria.. rível reservatório de lástimas, com tes halimark, maravilha de precisão,
ração de nossas relações, tudo que a data, a hora e a ocasião, e nenhu.. registrando ano, mês, dia, hora, mi..
ele pode aduzir foram os cinco OU ma alegria, felizmente foram poucas, nuto e segundo, super chie, molas
seis abortos que ensombraram" ,..... que, ao contrário, não tivesse sido inquebráveis, escapo cronológico de
abre par êntesis ,..... "(Oh, sem qual.. irrevogavelmente dissolvida, como 19 rubis, anti-choque, anti-maqnêti..
quer interferência minha!)" ,..... fecha por um corrosivo. Nisso ele era igual co, airtight, à prova d'água, inoxi..
parêntesis ,..... "os primeiros tempos a mim." Depoimento da falecida dável, automático, ponteiro central
de nossa união e o veto que, em Sra. Darcy-Croke, mulher de letras. de segundos, peças suíças, pulseira
conseqüência, eu Fnalmente tive que (Pausa. ) Quer ouvir mais? de luxe, crocodilo."
colocar." ,..... abre parêntesis ,..... A: Chega. A: O que é que' eu te d'sse? Ape..
(Oh, não por falta de inclinação )"
11 B: Eu do: "Ouvi..lo falar de sua sar de semesperança. O simples fato
- fecha parêntesis ,. . . "a qualquer vida. depois de uma dose ou duas, ~p. arriscar rua sorte. Eu sabia que
co'sa remotamente parecida comta.. dava a impressão de que nunca ti.. ele ainda tinha uma chama.
relas de amor. Mas, quanto à ques.. nha posto o pé fora do inferno. A
B: O problema é que não foi ele
tão da nossa felicidade" ,..... abre pa.. gente morria de rir. Preferi encarar
próprio que arriscou. Foi um pre..
rêntesís ,..... "(pois isso também se como um sketch, mais fácil de en..
sente. Isso você e-quece,
atravessou em nosso caminho, inevi.. golir." Depoimento do Sr. Moore,
tavelmerre, e-aqui minha memória ator de comédias ligeiras, a/c Merry A (irritado): Eu esqueço, eu es..
volta às primeiras promessas troca.. Weathermcore, amiga de toda a oueço! E ele. ele não. .. (Pausa.)
das debaixo da porta daquelas acá.. vida. (Pausa. ) Pelo menos ele guardou.
cias em Wooton Basset ou de novo A (abalado): Tsstss! (Pausa.) B: Se é assim que você chama.
nos primeiros quinze minutos da Tsstss! A: Pelo menos aceitou. (Pausa.)
nossa noite de núpc'as em Líttlesto- B: Está vendo. (Enfático.) Isto Pelo menos não recusou.
ne-surmer, cu outra vez durante não é a casa dele e ele sabe muito B: Eu cito: "Na última vez em
aquelas cinco kmgas e rnidadosas bem. (Pausa. ) que pus os olhos nele eu estava indo
noites no nosso ninho na Estrada A: Agora vejamos os elementos no correio pra pagar uma ordemde
Comerc'al Leste)" ,. . . fecha parên.. pos'tivos, reembolso. A área em frente ao edi..
tesis ~ sobre a questão de nossa
11 B: Positivos? Você quer dizer de fício fechada por uma fileira de pos..
felicidade nem uma palavra, 'meri'is.. uma natureza pra Iazê-lo pensar . tes, com correntes erticadas entre
simo, nem uma palavra." Depoimen.. (Hesita e aí com súbita violência.) . eles. Ele estava sentado numa delas
to da Sra. A~pásia Budd..Croker, que algumdia as coisas podemmu.. com as costas pra fábrica Thom..
bolsísta-desenh'sta de botões, Es.. dar? É isso que você quer? (Pausa. pson. Pelo aspecto geral, arrasado
trada Comercial Leste. Mais calmo.) Não tem nenhuma. e fora do mundo. Estava dobrado
A (mau humor): Tsstss! A (entediado) : Ah, não, tem em dois, as mãos nos joelhos, as
B: Ciro outra vez: "Da nossa sim, isso é que é a beleza da coisa. pernas abertas, a cabeça afundada.
epopéia nacional ele só lembrava as (Pausa. Bremexe nos papéis.) Por uminstante imaginei que estava
calamidades, o que não o impediu B ([.evantando a cabeça): Me vomitando. Mas ao me aproximar
de adquirir raz~ável sabedoria no desculpa, Bertrand. (Pausa. Reme.. vi que estava simplesmente estudan..
assunto." Depoimento do Sr. Pea.. re. Levanta a cabeça.) Ummomen.. do, entre os pés, um monte de cocô
36 berry, comerciante de Flores em to de consternação. (Pausa. Reme.. de cachorro. Com a ponta do meu
o ". ~ ." -i~~:t.: ".-,
. ':., -::~~: ., ....,,-..: . ' .:-{~
. -. -. ' . .

. guà~da..chuva' empurr~i ' o co~ô ligei: novos pra ele: Devem ter liquidado A: Tira as mãos da mesa.
r~inénte· e fiquei.observando o rosto com ele. B: O quê?
dele acompanhando o movimento, se A: ·Não- necessariamente. (Pau.. A: Tira as mãos da mesa. Se êo
fixando no objetivo em sua nova po.. S8.) Alguma luz n'sso? (Papéis.) contato qualquer balancinho apaga
síçâo. Isso às três horas da tarde, Isso é vital. (Papéis.) Alguma coi.. a luz.
mefaça o favor! Confesso que não -sa. .. acho que me lembro. . . algu.. B (depois de afastar a cadeira
tive ,coragem coragem de lhe dizer ma coisa. . . ele próprio falou. um pouco pra trás) "... morbida..
que horas eram, eu estava abalado. B (papéis ): Na rubrica "Conf.. mente sensível -" (A lâmpada apa..
Simplemente enfiei no bolso dele dências" - então. (Riso breve. ) ga. Bbatenamesa com opunho fe..
uma rifa que não me interessava, de.. Rubrica fininha. (Papéis.) Confi.. chado. A lâmpada acende. Pausa.)
sejando silenciosamente que de ti.. dências. . . Confidências.. . Ah! A: Negócio misterioso, a eletrici..
vesse sorte. Quando saí do correio
duas horas depois ele estava no
A (irilpaciente): O que n dadc.
B (lendo): "... dores de cabeça B (apressadamente): ".. . mor..
mesmo lugar e na mesma atitude. bidanente sensível à opinião dos ou..
Algumas .vezes eu penso se ainda docnt'as . '. olho inflamado. '. me..
tros nessa época, quero dizer todas
está vivo." Depoimento do Sr. Fe.. doirracional de cobras . .. dor de ou..
as vezes e todo o tempo que eu as
ckman, contador públ'co e amigo vido. . .. " r-e nada pra nós aqui -
pressentia. Que diabo de chinês é
pro que der -e vier. (Pausa.) ". . . tumor Fbróíde. horror pa'o..
o •
. ?
ISSO .
A: Datada de quando? lógico a aves canoras dor de
o "
A ('n eruosamente): Não pá ra,
. B: Recente. garganta . " carência afetiva ... "
não pára!
estamos quentes - "vazio interior...
A: Tem um tom tão passado. B: ". .. todo o tempo que eu
timidez congênita distúrbio na..
(Pausa.) Nada mais?
.
B: Oh . .. pedaços e restos... as
- o ••

sal. . ." Ah! ouve isso! - "morbí..


as pressentia, e isso em ambos os
casos, quero dizer se de umlado pra
damente sensível à opín'âo dos ou..
boas graças de uma tia, única ascen.. me dar prazer ou ao contrário no
dente e sem herdeiros ... tros... " (Olha pra cima.) Eu não outro pra me cau-ar sofrimento, e
te disse? falar a verdade - " Merda! Onde é
A: Única sem dentes?
A (sombrio ): Tsstss! que está o verbo?
B:- . . . única ascendente... um
jogo inacabado de xadrez com um B: Vou ler teda a passagem: A: Que verbo1
correspondente na Tasmânia. . a morbidamente sensível à opi..
11 • "
B: O principal!
esperança não abandonada de viver n'ão dos outros -" (Sua lâmpada A: Eu desisto.
......, obastante pra ver o extermínio da se apaga.) Bem! A lâmpada quei..
mou! (A lâmpada acende outra
B: Agüenta aí até eu achar o
espécie. " aspirações literárias não verbo e pro diabo com todo esse
totalmente reprimidas .. a bunda de vez.) Não, não queimou! Deve ser
papo aí de meio. (Lendo.) "... es..
uma leiteira na travessa Water.. falta de contato. (Examina a lâm.. tivesse eu porém . .. pudesse eu po..
100.•• percebe' a espécie de coisa1
pada, ajeita o fio.) O fio estava tor.. , . . "C red'"
rem. o. . . . embo ra fos..
(Pausa. ) ciclo, agora está tudo bem. (Lendo.) se :. . fosse isso apenas ... " -
... A: Empacotamos esta noite, de ".. . morbidamente sensível -" (A Deus.I - Ahlo, pegueI.., eu era li

acordo?
lâmpada apaga. ) Que porra, que desgraçadamente incapaz " Pronto!
merda! A: Como é que fica agora1
B: Sem falta. Amanhã estamos
em Bury. A: Dá uma sacudidela. (B sacode B (solene): "... morbidamente
a lâmpada. Ela acende. ) Vê! Eu sensível à opinião dos outros nessa
B (triste): Não o deixamos me..
lhor do que estava, deixamos ele aprendi esse truque na Banda da Es.. ,
epoca . .. " , papo, papo, papo, papo
agora, pra nunca mais ver, e não perança. (Pausa.) - ". .. eu era desgraçadamente in..
I

.&,
l
acrescentamos nada ao que ele já B e A juntos: "... morbida.. capaz - " A luz apaga. (Longa
sabia. Todos esses depoimentos eram mente sensível - " pausa.) 37
....

A: Você se incomoda de trotar noeo.} : Isso é pra dizer que você B: Cuidado! (Longa pausa, os três
de cadeira? (pausa.) Pe~cebe o' que ficava. num silêncio mortal.)
eu estou fazendo? (Pausa.) Que B (veemente): Ah, não, sozinho A (triste): Tsstss! (Retomi o
você vem pra cá 'comos teus papé is eu não ficava! equilíbrio. ) Acende. (B acende a
e eu vou prai, (Pausa.) Não recla.. A: Me dá uma folha. (B passa lâmpada. A volta pra sua mesa, sen..
ma, Morvan, isso não adianta nada. umafolha pra ele.) Desliga. (B des.. ta" devOlv,e a folha B B.) É uma .,
B: São meus nervos. (Pausa.) liga a lâmpada.) Oh, Deus, a tua pauleira mas já estamos chegando.
Ah se eu tivesse menos v'nte anos acendeu de novo. B: Como é que ele está?
eu punha um termo aos meus tor.. B: Essa p'ada já demorou demais A: Nada 'bem.
mentcsl para mim· B: Ainda conserva aquele sorr'sí..
A: Bobagem! Nunca diga uma nho na cara?
A: Isso mesmo. Vai e desliga ela.
coisa horrível assim! Nem prum
B: Vai até sua mesa,"desliga a A: Provavelmente. "
amigo!
lâmpada. (Pausa.) B: O que é que você quer dizer
" B: Posso ficar perto de você? com provavelmente »- você não aca..
(PaUsa. ) Preciso de calor animal B: O que é que eu faço agora?
Liqo de novo? bcn de: olhar a cara dele?
(Pausa.)
A: Volta aqui. A: Quando olhei ele não tinha.
A (frio): Como você quiser. (B B (com satisfação ): Ah! (Pau..
se levanta ese aproximade A. ) Com B: Acende então até eu ver onde
53,) Nunca descobri o que é que ele
os reus arquivos, re não é incômodo. estou indo. achava cs'ar fazendo com aquele
(B vai p2gar Os papéis e 'a pasta, , Aacende a luz. Bvolta ese senta sorriso na cara. E os olhos! Ainda
volta pra junto,de A, põe as coisas em frente a A. A ap3[Ja a luz, vai esbugalhados?
na mesa de A, continua em pé. Pau.. pré! janela com a folha de papel, A: Fechados.
sa.] Você quer que eu bote você pára, contmpla o céu.
B: Fechados!
no meu colo? (Pausa. B volta pra A: E pensar que tudo isso é com..
pegar a sua cadeira, vai denovo pra bustâo nuclear! Toda essa feérf.e! A: Oh, só o suficiente pra não
perto de A, pára em frente à mesa (Se inclina pro papel e lê aos tisn.. me ver. Já deve ter aberto de novo• •
agora. (Pausa. Violent3mente.) É
de A com a cadeira nos braços. cos. ) "Com dez anos foge de casa
preciso ficar olhando a cara dele dia
Pausa.) peja prinrira vez, é trazido de vcl'a
enoite. Nunca trar os olhos de cima
B (timidaffi'2nte): Posso rentar no dia seguinte, repreend'do, per.. deles uma semana inteira! Sem que
do teu lado? (Os doi ] se olh!lm,) doado." (Paura. ) "Comquinze anos eles percebam! (Pausa. )
Não? (Pausa.) Então em frente. foge de casa a segunda vez, é arras..
B: Me parece que pegamos ele.
(Scn ~a"se em frente de A, clha pra tado de volta uma semana depois,
ele. Pausa.) Continuamos?
A (impaciente): Quê que há, não
espancado, perdoado." (Pausa) . conseguimos nada, continua aí.
A (en~rgicamente ) : Vamos aca.. Com dezessete anos foge de casa B remexe nos papéis" encontra a
bar com isso e vamos pra cama. pela terceira vez, volta furtivamente [0Ih3.
Bremexe nOs papéis. seis meses depois, o rabo entre as B' (lê em velocidade máxima) :
B: Vou pegar a lâmpada. (Puxa pernas, é encarcerado, perdoado." "morbidamente sensível à opinião
a lâmpada pra perto dele. ) Queira (Pausa.) "Com dezessete anos foge doi outros nessa época. . ." ,. . . papo,
Deus que não apague. O que é que de casa pela últ'ma vez, volta um papo, papo ,. . . ". . . eu era desgra..
íamos fazer no escuro, nós dois? ano depois, rastejando, de quatro, é çadaments incapaz de conservar isso
(Pausa.) Você temfósforos? expul:o a ponta pés, perdoado." por mais de dez ou quinze minutos
A: Nunca ando sem. (Pausa.) O (Pausa. Ele se aproxima da janela no máximo, quer d.zer o tempo ne..
que é que íamos fazer? Levantar e pra examinar o rosto de C, tem que cessário para absorver. Daí em di..
ficar na jane'a sob a luz das estre.. se inclinar pra fora um pouco, com ante era como se nunca tivesse s'do
38 las. (A lâ!npada de B acende de as costas no razo. pronunciado." (Pausa. ) Tss'ssl
m.,'*- ..'. ." .-,'":". ' '" .,. "'
~ -~ . ,~ -»>,-"" ." . ,,' ," , .f

Ir").'" .
J '.. ;'~' A (com satisfação): Você vê. um pedaço de queijo cheddar, algu.. B: Desconheço;
" (Pausa.) Onde é que está isso? ma vez lhe faltou ao respeito? (Pau.. A: Bem, pra encurtar 'a his'ór'a
B: Numa carta aparentemente sa.) Não, Morvan, olha -. .estava com a cabeça dentro do Io-
nunca enviada pruma admiratriz Um miado baixinho. 'Paasa. Se.. gão quando vieram lhe avisar que
anônima. gundo ,miado,. f!l~is alto. a mulher tinha ficado em baixo de
--r-
, A: Uma admiratriz? Ele tinha B: Deve ser o gato. ~ma a~bulâ~cia. Diabo, disse ele, eu
admiratrizes? A: Osom parece. (Longa p3usa.) não posso perder essa, e hoje tem
B: Começa ass'm: "Cara amiga e Então, de acordo? Futuro negro, um emprego fixo em Marks e Spen..
admiratriz ... " Isso é tudo que sa- imperdoável- cer. (Pausa.) Como vai Mildred?
hemos, B: Como você queira. (Começa B (desagradado): Oh, você sabe
A: Vai, Morgan, te acalma, car- a arrumar os papéis na pasta.Can.. ..... (Breve irrupção de canto de pás..
tas pra admiratrizes, nós todos sa- sado.) Deixa ele saltar. sst». Pausa.) Deus do céu!
bemos o que elas valem. Não tem A: Não tem mais documentos? A: Uma filomela! (N. Tradutor.
que tomar tudo literalmente. B: Deixa ele saltar, deixa ele sal- É o pzrmo poético pra rouxinol. Pod~
B (violentamente batendo a mão tar. (Acaba de arrumar, levanta com trocar, se for o caso.)
na pilha de papéis): O registro é a pasta na mão.) Vamos embora. B: Oh, me fez saltar o coração!
esse, acabado e final. Ê isso aqui A con~ulta o relógio. A: Hssst! (Baixo.) Ouve, ouve!
....
\
que ertamos seguindo. Tarde demais A: Agora são... dez _ e vinte (Pausa. Seg~nda irrupação de can..
pra começar a dizer que (Bate à es- e cinco. Não temos trem antes das to. Mais alto. Pausa.) Está aqui no
querda.) isto é certo e isto (B3te à onze e vinte. Vamos matar o tempo quarto! (Levanta, anda na ponta dos
direita.) errado. Você é um pé no aqui, falando de uma coisa e entra. pés.) Vem, vamos dar uma 'olhada.
saco. (Pausa.) B: Você disse onze e vinte? Dez B: Estou com medo!
A: Bom. Vamos resumir. e cinqüenta. Mas de qualqu,er forma se levanta
B: Não fazemos outra coisa. A tira um horário do bolso, abre e segu-e A, cautelosament-z. A avança
A: Um futuro negro, um passado na página devida e entrega a B. na ponta do:; pé-s até a dir.zita alta.
imperdoável - até onde ele é capaz A: Está marcado com uma cruz. B vai atrás também na ponta dos
de lembrar, instigação pra se ligar a (B consu lta o h"orano, devoi ve 'a A pés.
qualquer um, absurda, e o melhor
conselho, letra morta. e torna a se sentar. Longa pausa. A A (virando): Hssst! (Avança,
,. i
B: Absurda uma tia sem herdei- limpa 'a garganta. Pausa. Indiferen.. param no canto. A risca um fósforo,
t ~.) Quanto infelizes estariam inle- ('rgue~o acima da cabeça. Pausa.
ros? lízes ainda hoje se em tempo tíves- Baixo.) Não está aqui. (Larga o
A (caloroso): Ele não é o tipo
sem sabido o quanto o eram! (Pau.. fósforo e cruza o palco na ponta dos
interessado. (Rí:pido. ) Deve-se sa.) _ Lembra de Sm'th? pés seguido por B na ponta dos pés.
considerar o temperamento do clíen..
te. Acumular documentos não é o B: Smíth. (Pausa.) Nunca co.. Pas::am na frente da janela, param
bastante. nhecí ninguém com esse nome. no canto esquerdo alto. Fósforo
comó antes. Pausa.) Olha ele aí! (A
... B (aborrecido, batendo nos pa..
péis): Aqui, até onde me diz res-
A: Claro que conheceu! Um rui..
vo grande e gordo. Sempre ali nas se agacha. Pausa.) Me dá a mão.
peito o cliente está aqui e em ne- proximidades do Fim do Mundo. Há B: Deixa ele em paz! (A So2 apru..
nhun outro lugar. anos que não levantava uma palha. ma dolorosamente, apertando contra
A: Muito bem. Aí tem qualquer Diziam que tinha perdido a qenitá- a barriga uma grande gaiola coberta
referência a ganho pessoal? Essa tia lia num acidente de tiro. Botou um com ama seda verde, com franja de
velha, ele alguma vez foi pelo menos cano duplo entre as pernas num mo.. contas. Vai cambaleando com ela até
normalmente delicado com ela? E menta de distração exatamente sua mesa.) - Pêra ai!
essa leiteira, vamos lá, em todos quando puxava o gatilho pra acertar B ajuda a carregar a gaiola. Se..
esses anos em que ele a procura por um pato. gurando a gaiola entre eles os dois 39
.... H •• ~-,:. ;::r.
" .; ,~ .... \: -
,-C avançam com~(Íificuldade em direção (Pausa. Devagar. Sem' vibração.)
à mesa' de' A. Um velho osse de molusco.
,- A (respirando com dificuldade): B: Osso de molusco?
Agüenta um pouco. (Param. Pausa.) A:, Osso 'de ,molusco.
Vamos. (Se movem, colocam a gaio,. Deixa o pano cobrir ,~ e novo a
la na mesa com delicadeza. Alevanta gaiola. Pausa.
cuidadosamente o pano do lado con- B: Vem, Bertrand, não adianta.
trário ao publico, espia. Pausa.) Ilu- não há nada a fazer. (A pega a
mina. gaiola e vai cOm ela pra esqu-erda
B pega a lâmpada e ilumina den,. alta. B deposita a lâmpada e se
tra da gaiola. Eles prescrutam, incli,. eptets: atrás dele.) Me dá aqui.
nados. LoTiga pausa. A: Deixa, deixa! (Avança pro
, B: Tem um morto. (Espiam.) canto" seguido por B. A pára logo.)
A: Você tem um lápis? (B dá um Você ainda não cansou de me en-
lápi~ comprido. A cat·!1ca entre as cher? Quer que eu salte também?
varetas da gaiola. Pausa.) É. (Re,. (Pausa. Bvai até a mesa de A, pega ....--.. " (; ;

. ": ;-; ;~--


.

tira o lápis, guarda no bolso.) a pasta ea cadeira, v?i até sua mésâ'
e sentade costas pra ,ianela. Acende
B: Hei!
a lâmpada, apaga imediatamente.)
A lhe devolve o lápis. Espiam. A Como terminar? (Longa pa.!1sa. A
pega a mão de B e muda a sua po,. vai à janela, risca um fósforo, segu,.
sição. ra-o no alto 'e examina a cara de C.
A: Ali. O fósforo acaba, ele o atira pela ja,.
B: É macho ou fêmea? neia.) Hei! Dá uma olhada níssol
A: Fêmea. Olha como é mal feita. (B não se mexe. A risca.. outrl). fÓS,.
fofO,_ segum-o no -alto e examina a
B (íevoltado): E ele continua cara de C.) Vem cá Depressa! (B
cantando. (N. T. Prefiro "E o filho não se mexe. O fósforo acaba. A
da puta continua cantando!" (Pau- deixa-o cair.) Bem, eu quero ser... !
sa. ) O amor perfeito dos rouxinó 'sl A tira umlenço elevanta--o timi,.
A: Rouxinóid (Risada.) Ah Mor- damente em direção à cara de C.
van, você me matara se eu estivesse
sul'cíentemente vivo! Roux:nóis! FIM
(Gargalhada.) Pintassilgos, idiota!
Olha esse lindo rabinho pretol E as
costas verdes! E o peito dourado!
(Didático.) Ncte sobretudo o tri-
nado característico, p.ntasrilqo, não
tem a menor dúv.da. (Pausa.) Oh.
bicho enqra çadínho, oh, meu passa-
rinho ossudo. (Pausa. Sombrio.) E
pensar que tudo isso é lixo orqân'co]
Todo esse esplendor! Espiam. Não
tem alpiste. (Pausa. ) Nem água.
40 (Aponta.) Que é isso aí? Isso?

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