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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 00ª VARA DA INFÂNCIA E

DO ADOLESCENTE DA CIDADE.

Autos nº. 7777.33.2222.5.06.4444.


Representante: Ministério Público Estadual
Representado: João das Quantas

[ PEDIDO DE APRECIAÇÃO URGENTE – MENOR APREENDIDO ]

Intermediado por seu mandatário ao final firmado, causídico


inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Ceará, sob o nº. 112233, comparece o
Representado, com todo respeito à presença de Vossa Excelência, na forma do que dispõe
o art. 152, caput, do Estatuto Juvenil c/c art. 316 da Legislação Adjetiva Penal e,
ainda, art. 5º, inciso LXVIII da Constituição Federal , para oferecer pedido de

RELAXAMENTO DE APREENSÃO,

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em face de Representação agitada em desfavor de JOÃO DAS QUANTAS , já qualificado
na exordial da peça inaugural, consoante abaixo delineado.

1 – SÍNTESE DOS FATOS

Colhe-se dos autos que o adolescente ( apreendido em


flagrante) fora representado pela suposta prática de ato infracional equiparado ao crime de
tráfico de entorpecentes (Lei de Drogas, art. 33 ). Referida representação fora recebida por
Vossa Excelência na data de 33/11/0000.

Em face da decisão que repousa às fls. 17/18 destes autos,


este Magistrado, na oportunidade que recebera a representação, acolheu o pleito formulado
pelo Ministério Público e, por isso, determinara a internação provisória do Representado. O
Parquet fundamentara a postulação da segregação cautelar sob o enfoque da gravidade do
suposto ato infracional e que, se solto, certamente tornaria a cometer atos dessa natureza.

Com efeito, este Magistrado processante acolhera o pedido de


internação e, em síntese apartada, com suporte nos artigos 108, parágrafo único c/c art.
174 do ECA , determinara o recolhimento do adolescente ao Centro de Custódia de Menos
Xista, onde, de fato, lá se encontra. (fls. 20)

Todavia, temos que a hipótese em ensejo (tráfico de drogas)


não tem abrigo nas hipóteses taxativas estipuladas no art. 122 da Legislação Menorista .

Com isso, é de imperiosa necessidade o relaxamento da


apreensão do Representado.
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2 – DA ILEGALIDADE DA INTERNAÇÃO PROVISÓRIA

É inconteste o rol taxativo de circunstâncias que autorizam a


internação provisória do adolescente. O tráfico de drogas, por sua natureza, certamente é
excluída dessas condições.

Em conta disso, salutar evidenciar o que rege o Estatuto


Juvenil:

ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

Art. 122. A medida de internação só poderá ser aplicada quando:


I - tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência a
pessoa;
pessoa;
II - por reiteração no cometimento de outras infrações graves;
graves;
III - por descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente
imposta.
(os destaques são nossos)
nossos)

Nesse passo, resta configurado notório constrangimento ilegal


contra o Representado. É dizer, a segregação cautelar do Representado escapa da rígida e
cogente delimitação fixada em lei.

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O delito de tráfico de drogas não traz consigo qualquer
violência à pessoa, como assim reclama o texto da lei. Igualmente, resta aqui demonstrado
que o adolescente não responde por outra(s) representação(ções) com o trato de violência à
pessoa. (docs. 01/03)

Com esse enfoque, é altamente ilustrativo trazer à baila o


magistério de Luciano Alves Rossato:

“ Não autorizam a internação o furto e o estelionato o tráfico ilícito de


entorpecentes, dentre outros. Sobre o tráfico, instalou-se verdadeira
controvérsia nos tribunais, sendo decidido, em inúmeros precedentes do STJ
e do STF, no sentido da inaplicabilidade, porque o ato não traz ínsita a grave
ameaça ou violência à pessoa.“ (ROSSATO, Luciano Alves; LÉPORE, Paulo
Eduardo; CUNHA, Rogério Sanches. Estatuto da criança e do adolescente
comentado. 2ª Ed. São Paulo: RT, 2011, p. 344-345)

Não por menos o Egrégio Superior Tribunal de Justiça


já assentou o entendimento supra-aludido:

HABEAS CORPUS. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. ATO


INFRACIONAL ANÁLOGO AO CRIME DE TRÁFICO DE DROGAS.
INTERNAÇÃO. ART. 122 DO ECA. ROL TAXATIVO. CONSTRANGIMENTO
ILEGAL EVIDENCIADO. ORDEM CONCEDIDA.

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1. A medida socioeducativa de internação pode ser aplicada quando
caracterizada uma das hipóteses previstas no art. 122 do Estatuto da Criança
e do Adolescente e caso não haja outra medida mais adequada e menos
onerosa à liberdade do adolescente. 2. O ato infracional análogo ao tráfico de
drogas, por si só, não conduz obrigatoriamente à imposição de medida
socioeducativa de internação do jovem, com fulcro no art. 122, I, do ECA.
Súmula n. 492 do STJ. 3. A medida extrema não pode ser fixada ao paciente,
com fundamento no art. 122, II, do ECA, pois não há registro de prática de
ato infracional anterior ou notícia de descumprimento reiterado e
injustificável de medida anteriormente imposta (art. 122, III, do eca). 4. Ante
a diversidade e a natureza das drogas apreendidas (50 eppendor de crack e
21 invólucros de cocaína), o registro de evasão escolar e a conclusão do
relatório de diagnóstico, de que o jovem apresenta "envolvimento estrutural
no meio infracional ", deverá ser fixada a medida de semiliberdade, por
período a ser determinado pelo juízo das execuções, mais adequada para
mantê-lo afastado da situação de risco social em que se encontra. 5. Habeas
corpus concedido para aplicar ao paciente a medida socioeducativa de
semiliberdade. (STJ; HC 326.266; Proc. 2015/0134418-5; SP; Sexta Turma;
Rel. Min. Rogério Schietti Cruz; DJE 09/10/2015)

HABEAS CORPUS. SUBSTITUTO DE RECURSO. IMPOSSIBILIDADE. ESTATUTO


DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. ATO INFRACIONAL EQUIPARADO AO
DELITO DE TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES. APLICAÇÃO DE MEDIDA
DE INTERNAÇÃO POR PRAZO INDETERMINADO. GRAVIDADE ABSTRATA DA
INFRAÇÃO. REITERAÇÃO NÃO CONFIGURADA. ART. 122 DO ECA. ROL
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TAXATIVO. INCIDÊNCIA DO ENUNCIADO DA SÚMULA Nº 492/STJ. ART. 49,
II, DA LEI N. 12.594/2012. LOCAL DE RESIDÊNCIA DO MENOR. DIREITO A
INSERÇÃO EM MEDIDA EM MEIO ABERTO. COAÇÃO ILEGAL
DEMONSTRADA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA
DE OFÍCIO.
1. O Supremo Tribunal Federal, por sua primeira turma, e a terceira seção
deste Superior Tribunal de justiça, diante da utilização crescente e sucessiva
do habeas corpus, passaram a restringir a sua admissibilidade quando o ato
ilegal for passível de impugnação pela via recursal própria, sem olvidar a
possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante
ilegalidade. 2. O art. 122 da Lei nº 8.069/1990 estabelece que a internação
do adolescente somente será cabível quando o ato infracional for perpetrado
com violência ou grave ameaça à pessoa ou na hipótese de reiteração na
prática de outras infrações graves ou de descumprimento reiterado e
injustificado de medida prévia. 3. No caso, constata-se a insuficiência da
fundamentação da decisão que impôs medida de internação com base
apenas na gravidade abstrata do ato infracional, praticado sem violência ou
grave ameaça, notadamente quando se leva em consideração que o
adolescente, pelo que consta dos autos, é primário. Súmula n. 492/stj. 4. Nos
termos do disposto no art. 49, II, da Lei n. 12.594/2012, é direito do
adolescente "ser incluído em programa de meio aberto, quando inexistir
vaga para o cumprimento de medida de privação da liberdade, exceto nos
casos de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência à
pessoa, quando o adolescente deverá ser internado em unidade mais
próxima de seu local de residência ". 5. Habeas corpus não conhecido.
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Ordem concedida de ofício para determinar que seja aplicada ao paciente a
medida de liberdade assistida, a ser cumprida em seu domicílio. (STJ; HC
330.777; Proc. 2015/0176147-1; SP; Quinta Turma; Rel. Min. Reynaldo Soares
da Fonseca; DJE 30/09/2015)

AGRAVO REGIMENTAL. HABEAS CORPUS. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO


ADOLESCENTE. ATO INFRACIONAL EQUIPARADO AO DELITO DE TRÁFICO
ILÍCITO DE ENTORPECENTES. APLICAÇÃO DA MEDIDA DE INTERNAÇÃO POR
PRAZO INDETERMINADO. GRAVIDADE ABSTRATA DA INFRAÇÃO.
REITERAÇÃO NÃO CONFIGURADA. ART. 122 DO ECA. ROL TAXATIVO.
INCIDÊNCIA DO ENUNCIADO DA SÚMULA Nº 492/STJ. COAÇÃO ILEGAL
DEMONSTRADA. DECISÃO QUE DEVE SER MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS
FUNDAMENTOS. RECLAMO NÃO PROVIDO.
1. O art. 122 da Lei n. 8.069/1990 estabelece que a internação do
adolescente somente será cabível quando o ato infracional for perpetrado
com violência ou grave ameaça à pessoa ou na hipótese de reiteração na
prática de outras infrações graves ou de descumprimento reiterado e
injustificado de medida prévia. 2. A suposta gravidade do ato infracional, bem
como as condições pessoais do menor (conduta desregrada e sem respaldo
familiar), são situações que não se subsumem às hipóteses arroladas no
dispositivo aludido, razão pela qual não configuram fundamentos idôneos
para justificar a privação excepcional da sua liberdade, evidenciando,
portanto, a ilegalidade da imposição da medida excepcional. 3. Não restou
configurada a reiteração no cometimento de outras infrações graves, tendo o
próprio juízo sentenciante afirmado que o menor é tecnicamente primário. 4.
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Agravo regimental a que se nega provimento. (STJ; AgRg-HC 308.330; Proc.
2014/0284950-9; SP; Quinta Turma; Rel. Des. Conv. Leopoldo de Arruda
Raposo; DJE 10/08/2015)

De outro bordo, pondo uma pá de cal sobre o debate, urge


evidenciar que o tema já está inclusive sumulado pelo STJ:

STJ, Súmula 492: o ato infracional análogo ao tráfico de drogas, por si só,
não conduz obrigatoriamente à imposição de medida socioeducativa de
internação do adolescente.
adolescente.

Com efeito, é inquestionável a ilegalidade da segregação cautelar


em espécie, uma vez que afronta à regra estampada no art. 122 do Estatuto Menorista.

3 - EM CONCLUSÃO

Em face do exposto, espera-se o


recebimento da presente peça processual, a qual
se postula, na forma do art. 152, caput, do
Estatuto Juvenil c/c art. 316 da Legislação Adjetiva
Penal e, ainda, art. 5º, inciso LXVIII da

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Constituição Federal, o Relaxamento da Internação
Provisória do Representado, onde, por via de
consequência, aguarda-se a expedição da imediata
ordem de soltura do adolescente apreendido, ora
Postulante.

Respeitosamente, pede deferimento.

Cidade, 00 de outubro de 0000.

Fulano(a) de Tal
Advogado(a)