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O brilho da inFelicidade

KALIMEROS
Escola Brasileira de Psicanálise
Rio de Janeiro

Apresentação:
Lenita Bente.r
Copyright © 1998, Kalimeros

Organização Geral
Lenita Bentes
Ronaldo Fabião Gomes

Conselho Editorial
Clara Lúcia !nem, Eliane Schermann, Ftlippo Olivieri,
Lenita Bentes, Maria Anita Carneiro Ribeiro
Maria Beatriz Barra, Mirta Zbrun, Ronaldo Fabião Gomes

Projeto Gráfico e Preparação


Contra Capa

O brilho da infelicidade I Kalimeros - Escola Brasileira de Psicanálise -


Rio de Janeiro. Lenita Be_ntes e Ronaldo Fabião Gomes (Orgs.) - Rio de
Janeiro. Contra Capa Livraria, 1998.
272 p.; 14 x 21 cm

ISBN 85-860 1 1-09-6

1. Psicanálise. 2. Toxicomanias. 3. Alcoolismo. 1. Bentes, Lenita, org. li.


Gomes, Ronaldo Fabião, org. Ili. Kalimeros. Escola Brasileira de Psica­
nálise. IV. Título.
CDD 150.195

1998
Todos os direitos desta edição reservados à
Contra Capa Livraria Ltda.
<ccapa@easynet.com. br>
Rua Barata Ribeiro, 370 - Loja 208
22040-000 - Rio de Janeiro - RJ
Tel (55 21) 236-1999
Fax (55 21) 256-0526
SUMÁRIO

Apresentação 09
Lenita Bentes

Toxicomanias: saber e gozo

Uma passagem clandestina 15


Celso Rcnnó Lima
A mordaça infernal 21
Núcleo de Pesquisa em Toxicomanias e Alcoolismo
Clínica do supereu e as toxicomanias 31
Daniel Sillitti
Os novos objetos de gozo 37
Gleuza Maria M. Salomon

Ética

Sobre a segregação 43 ·
Colette Soler
O mal-estar na cidade: segregação e toxicomania 55
Cláudia HensdJel de Lima & Antônio José Alves Júnior

Toxicomanias e diversidades clínicas

A nomeação e o recurso às drogas ou a operação de nomear no


discurso analítico 65
Ernesto Sinatra
O ato de consumir drogas e a realidade virtual 79
Célio Garcia
O social e as novas formas do sintoma: as toxicomanias 91
Fernando Teixeira Grossi & Cristina Sandra Pinelli Nogueira
O mal-estar das toxicomanias: a questão do desejo
Eclipse do desejo 99
Clara Lucia lnem
Toxicomania - um gozo cínico? 107
Ana Martha Wilson Maia
O inferno do desejo e o deserto do gozo · 117
Maria Anita Carneiro Ribeiro

Identidade do toxicômano e Função Paterna


Adolescência e droga: um caso 125
Sônia Alberti
O lugar variável do objeto droga 13 5
Carlos Genaro Cauto Fernández
Toxicomanias: onde opera o· analista? 141
Maria Luiza Mota Miranda

Entrada em tratamento / Sintoma analítico?


Uma experiência vazia 149
Maurício Tarrab
Segredos, danos e perdas: um caso clínico 157
Marcos Baptista
Atrás da droga, o vazio das mulheres 167
Andréa Brunetto

Algumas proposições sobre o fenômeno toxicomaníaco


para um tratamento possível das toxicomanias
A psicanálise diante da toxicomania 173
Fillipo 0/ivieri
O objeto droga e o objeto criança: algumas considerações 179
Elisabeth da Rocha Miranda
Angústia, sintoma e objeto droga 187
Mirta Zbrun
A toxicomania e a demanda 191
Gilberto Rudeck da Fonseca

Alcoolismo e gozo

A função do teatro, do álcool e da mendicância na economia


pulsional 203
Mi/a Palombini de Alencar
Se o álcool comparece, o sujeito desaparece 211
Maria Beatriz Barra

Toxicomanias: o recurso na psicose

Toxicomania e suplência 219


Antônio Beneti

A·morte anunciada: morte, ato e significação

Amor à into-x-icação 227


Eliane Schermann

Psicossomática: toxicomanias e corpo

Toxicomania e FPS: aproximações 237


Núcleo de Pesquisa em Psicossomática: Psicanálise e Medicina

Descriminalização e legalização

Drogas: a irracionalidade da criminalização 249


Maria Lúcia Karam
APRESENTAÇÃO

Poucas são as vezes· em que encontramos nos textos de


Freud e Lacan referências sobre as toxicomanias ou o alcoolismo.
Entretanto a genialidade de ambos fez do pouco que disseram pre­
ciosas revelações.
Freud retoma do poeta Bockling uma observação: a que
design ava a ligação do bebedor com o vinho como o modelo do
casamento feliz, pois "por não comportar nenhuma alteridade se­
xual ao seu programa, tal casamento outorga àquele que com ele se
compromete, a certeza de nunca correr o risco de ser acusado pelo
parceiro de ter usurpado seus direitos ou ter falhado em seus deve­
res" (Lecoeur, 1992, p. 20). Aqui não se trata de, ao oferecer-se à
conquista, poder obter a recusa. A satisfação obtida conduz a um
gozo auto-induzido, monocultivado e imediato. Trata-se do gozo
do.Mesmo.
Na segunda de suas "Contribuições à psicologia da vida
amorosa" (1912), Freud trata a "relação do bebedor com o vinho"
como exceção tanto para as modalidades da escolha do objeto
quanto para as condições da relação de amor. Tanto a clivagem
mãe-puta, significações contra o incesto, quanto as condições que
este produz não comparecem na relação do bebedor com o vinho;
esta relação faz exceção. Dito de outro modo, esta relação não
procede de nenhuma clivagem e nem de nenhuma disjunção entre
o amor e o desejo. O laço com o vinho é tão bem estabelecido que
O Brilho da InFeliddade

obtura as falhas às quais comumente o homem se apega. Nesta


parceria o objeto não está fora de alcance; o sujeito goza de seu
objeto de forma satisfatória, o que faz do bebedor um amante
atípico: um amante saciado, satisfeito por seu objeto.
A frase de Freud diz ter o bebedor substituído a mulher
pelo vinho. Ele o colocou no lugar em que se teria visto confronta­
do com o abismo feminino. O vinho não é uma mulher. Uma
mulher é Outra e o vinho é Um. Como Outra para o sujeito, ela
aparece sendo do Outro; por exemplo, nos delírios de ciúme dos
alcoolistas. Já o vinho é do sujeito e se sustenta como gozo do Um.
Desejar uma mulher é ser causado por uma alteridade; o vinho é
garantia contra a castração ao se apresentar como sendo o mesmo.
Se uma mulher é um sintoma, afirma Lacan, é porque o
homem nela crê, ou seja, crê que ela poderia dizer algo e que ele só
teria que decifrar seus ditos como um sintoma. O sujeito alcoolista
curto-circuita o objeto a naquilo que se refere às suas coordenadas
lógicas, alojando-se em um discurso que carece de sua dialética pró­
pria, por não deixar lugar à falta.
A lei não está ausente do Outro, mas a distância que dela
mantém não atrapalha a busca do objeto, ign orando as suas restri­
ções. A lei não tendo validade, leva o sujeito a constituir um estatu­
to de exceção, visando se fazer esquecer como sujeito do desejo. A .
embriaguez realiza o esquecimento. Trata-se do conhecido "Bebo
para esquecer".
Identificado ao mais-de-gozar, temporariamente as conse­
qüências da divisão são aliviadas. Conseqüências que "cabem" ao
parceiro do alcoolista suportar, ora denunciando seus maleficios,
ora provendo-o de seu produto, desse objeto em que há o sinal de
um excesso do qual extrai um mais-de-gozar.
O bebedor recria um corpo pleno - o que também faz o
toxicômano - não recortado pela ação do significante. Esta é a
sua crença: por seu ato reunir o sujeito ao corpo, anulando os efei-

10
únita Bmlu

tos da divisão subjetiva, banalizando-a. A ele falta mais um trago


para recuperar o que lhe falta. Isola-se assim das variáveis da vida e
em especial da vida amorosa em que o cortejar e o ser cortejado
relançam o semi-dizer da palavra.
''No tempo da embriaguez, utilizando o materna dos discur­
sos proposto por Lacan, o estatuto do sujeito pode se escrever assim:

Sujeito Outro
o 1
O sujeito amordaçado está alienado ao discurso capitalista.
Este sujeito visa um objeto que o anteparo da fantasia detém. Um
mais-de-gozar sustenta o sujeito reduzido ao "eu", afirmando o
poder do enunciado. Um sujeito satisfeito, sem sintomas, restrito a
um corpo que goza" (Lecoeur, 1992, p. 52 e 61).

----- x----
$

sl ' a
S2

É pela simples razão do anteparo da fantasia não funcionar


que não podemos dizer que as toxicomanias e o alcoolismo sejam
casos de.perversão, posto que a perversão supõe o uso da fantasia,
e um uso muito específico.
Se Freud falou do matrimônio feliz, Lacan nos disse que:
"a droga é o que permite romper o casamento com o pipi" (1975).
"Trata-se de uma formação de ruptura com o gozo fálico, cujas
consequências são: 1) poder gozar sem a fantasia, 2) ser uma ruptura
com o Nome-do-Pai que não implica em psicose; 3) faz surgir o gozo
Uno como não sexual, pois o gozo sexual não é Uno; ele é fraturado,
apreensível pela fragmentação do corpo." (Laurent, 1997, p. 19).
Portanto, no alcoolismo, o objeto visado neste gozo infini­
to continua a ser o falo, razão pela qual o alcoolismo é tão bem
tolerado, podendo-sé até observar uma certa cumplicidade social com

11
O Brilho do lnFelicidade

o bebedor e seu heroísmo viril. No toxicômano, não é o objeto fálico


o que está em causa, o que os torna exóticos e intoleráveis.
Em que um matrimônio ou um divórcio pode contribuir
para que daí se extraia a felicidade? Ou para que serve um marido?
Já aí vislumbramos algo do brilho da infelicidade. ''A felicidade -
diz Freud - não se acha incluída no plano da criação" (1930).
É preciso ser dois para fazer o amor (pelo menos dois) e é
por isto que o coito, longe de abolir a solidão, a confirma. Os
amantes o sabem. São os corpos que se tocam, que se amam, que
gozam, que permanecem . . . Lucrécio o descreveu be�: "Essa fusão
que se busca, às vezes freqüentemente, mas que nunca se encontra,
ou se crê encontrar para logo depois se perder" (apud. Comte­
Sponville, 1997, p. 250-2).
Daí o fracasso, sempre; a tristeza, tão freqüentemente. Eles
queriam ser um só e ei-los mais dois do que nunca. "Da própria
fonte dos prazeres - escreve magnificamente Lucrécio - surge
não sei que amargor, que até nas flores sufqca o amante . . . Isso não
prova nada contra o prazer, quando ele é puro, nada contra o amor,
quando ele é verdadeiro, mas prova algo contra a fusão, que o
prazer recusa exatamente quando acreditava alcançá-la. Post Coitum
Omne Animal Triste... " (ibid. ). Porque se vê novamente entregue a si
mesmo, à sua solidão, à sua banalidade, a esse grande vazio do
desejo nele desaparecido. Ou se escapa à tristeza, e se isso acontece,
é pelo maravilhamento do prazer do amor, da gratidão, em suma,
pelo encontro que supõe a dualidade; jamais pela fusão dos seres ou
pela abolição das diferenças. Verdade do amor: mais vale fazê-lo do
que sonhar. Dois amantes que gozam simultaneamente são dois praze­
res diferentes, um misterioso ao outro; dois espasmos, duas solidões.
O corpo sabe mais sobre o amor do que os poetas. Men­
tem-nos sobre o corpo. De que têm medo? De que querem se
consolar? De si mesmos, desta grande loucura do desejo (ou de sua
pequenez a posteriori?), desse animal neles, deste ábismo tão de-

12
Lenita Bmtes

pressa preenchido, dessa paz que de repente parece a morte. . . A


solidão é nosso quinhão e esse quinhão é o corpo.
Sócrates recolhe a verdade sobre o amor de uma mulher,
Diotima: "O amor não é um Deus nem Deus. De fato, todo amor é
amor a alguma coisa, que se deseja e que falta" (ibid.)
Entretanto sabemos que por mais próprio que sejam, nem o in­
consciente nem o corpo são nossos. Temos um corpo que deve ser simbo­
lizada O toxicômano pensa que não está em outra parte senão no corpo
O saber é inconsciente, causa da perda da universalidade
do gozo no ser falante. Põe em jogo um lugar que é Outro sexo e,
como tal, fonte de equívocos, um lugar em que se diz a sexualidade;
não o sexo que o exclui.
Como manejar a cura para que estes sujeitos se disponham
a trocar gozo por amor? Como fazer para que a demanda de feli­
cidade, na qual se empenham, desvie-se desse objeto de satisfação e
nos seja dirigida?
"Se o sign ificante para explicar o todo não existe e portan­
to não é a droga que faz o toxicômano, mas o toxicômano que faz
a droga" no dizer de Hugo Freda (1987), trata-se de desintoxicar
não da-droga, mas sim a droga como sign ificante a partir do qual o
sujeito se nomeia, permanecendo entretanto anônimo, pois "quan­
do ele sonha com um gozo sem sexo, o corpo do Outro lhe faz
sign o para lembrar-lhe que só a relação com a castração faz dele
um mamífero diferente dos demais" (Freda, 1996, p. 108).
Desintoxicar a droga quer dizer desintoxicar não de uma
substância, mas de um gozo que faz viver a esperança de um mun­
do em que a reprodução é sem sexo. O que ganharia o sujeito com
isso? Ao abandonar sua "felicidade", encontrar em sua intimidade
os contornos da causa que o determina e deixar de ser o objeto do
Outro, do mercado do capital perverso. "O homem está casado
com o falo. Não há outra mulher que isso" (Lacan, 1974).

13
O Brilho da InFelicidade

É neste sentido que procuramos reunir no presente livro o


desenvolvimento das seguintes linhas de pesquisa: a droga como
"formação de ruptura" e os efeitos dessa ruptura nas estruturas
clínicas, suas modalizações em cada sujeito, as dificuldades da entra­
da em análise, os impasses durante o tratamento, a "foraclusão
standard" do sujeito do inconsciente que o discurso da ciência pode
produzir, a toxicomania cruzada, o recurso frente à psicose, a ética,
o discurso capitalista e a função paterna, a descriminalização e a
legalização. Esperamos assim seguir a orientação de Lacan - "Me­
lhor que renuncie quem não possa unir a seu horizonte a subjetivi­
dade de sua época" .

Lenita Bentes

Referências Bibliográficas

COMTE-SPONVILLE, A. Pequeno tratado dai grandei virt11dei. São Paulo,


Martins Fontes,. 1997.
FREUD. S. "Contribuições à psicologia da vida amo.rosa" (1912). Em: Obrai
rompletai, vol. XI. Rio de Janeiro, Imago, 1980.
____ . "O mal-estar na civilização (1930). Em Obrar rompletas, vol. XXI.
Op. cit.
FREDA, H. "Da droga ao inconsciente", IX Jornadai do CMT, Subversão do
sujeito na clinica das toxicomanias. Belo Horizonte, 1996.
----· "Fascículos do FEMIG", n. 4. Belo Horizonte, 1987.
LACAN,J. "Função e campo da fala e'da linguagem em psicanálise" (1953).
Em: Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.
____. O Seminário, livro 22: R S. I (1973-4). Inédito, aula de 17 de
dezembro de 1974.
LAURENT, E. ''Três observações sobre as toxicomanias". Em: SNjeto, lf)Ce y
modernidad II, Buenos Aires, Atuel-TyA, 1995.
LECOEUR., B. "O homem embriagado". Belo Horizonte, CMf-FEMIG, 1992.
SINATRA, E. "Da monotonia a diversidade". Em: SNjeto, !f1" y modernidad fil
Buenos Aires, Atuel-TyA, 1995.

14
UMA PASSAGEM CLANDESTINA

Celso Rennó Lima


Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

Há mais ou menos dois anos, numa apresentação no Nú­


cleo de Toxicomania da EBP-RJ, escutei o relato de cinco ou seis
casos de adolescentes que fazem ou fizeram uso de drogas. Em
todos os casos relatados um ponto me chamou à atenção: a descri­
ção que os adolescentes faziam dos efeitos do primeiro contato
com a droga muito se assemelhava ao que já escutei ou li, e até
mesmo pude viver, sobre a experiência dos passantes no que diz
respeito ao momento do Passe na análise, ou seja, ao momento em
que a queda das identificações propicia o atravessamento da fantasia.

Logo depois, desta vez numa apresentação no Núcleo de


Toxicomania da EBP-MG, escutava um trabalho de um colega so­
bre o Grafo do Desejo e pude, na ocasião, formular alguns comen­
tários sobre o que chamei de "uma travessia selvagem da fantasia",
para dizer destes momentos da primeira experiência com a droga.

Para fornecer subsídios ao desenvolvimento de minhas idéi­


as, buscarei trechos de um texto que escrevi e que se encontra publi­
cado em Opfào Lacaniana, n. 1 1 com o título: "Uma brecha no
fantasma" " (1 994) . Na ocasião procurava elementos que pudessem
esclarecer o que seria um traço de perversão. Foi então que, após
uma pesquisa no �exto freudiano, pude constatar que, ao contrário

* N. do E. Uma vez que atualmente são utilizadas duas traduções para o


termo alemão Phanta.tie, " fantasia" e "fantasma", informamos ao leitor que,
salvo indicação em contrário, serão mantidas ao longo deste livro as traduções
indicadas por cada um dos autores.
O Bn"/ho da lnFelicidade

do que observamos em suas traduções (português, espanhol, inglês


ou francês), são utilizadas por Freud três palavras distintas para o
que se traduziu como traço, o que, a meu ver, promove recortes
conceituais diferentes.
A primeira é Zeichen. Freud u tiliza este significante na
"Carta 52". Ele diz, por exemplo: "O essencialmente novo em
minha teoria é a afirmação de que a memória se apresenta não de
uma forma, mas de várias formas, em diferentes maneiras de tra­
ços [Zeichen = indícios, insigínias]". A primeira camada do modelo
psíquico apresentado por Freud nesta carta será denominada de
Wahrnemungszeichen, consistindo no primeiro registi:o [NiederschriftJ
que estará "organizado de acordo com associações por simultanei­
dade, sendo sua conscientização totalmente incapaz de se fazer".
A segunda palavra é Zug. Este sign ificante é utilizado por
Freud em poucas ocasiões: "Uma criança é batida" e "Psicologia
das massas e análise do eu", de onde Lacan retira o famoso concei­
to de Einzjger Zug (cf. Freud, 1 920, p. 1 00) . Sem dúvida trata-se de
um traço, de um sulco que tem como conseqüência lógica a Befahung
primordial. Mas é no texto "Uma criança é espancada", primeiro pa­
rágrafo da segunda parte, que encontramos uma passagem que nos
será muito útil: "Uma fantasia deste tipo, proveniente talvez de causas
acidentais na infância e mantida para o propósito de satisfação auto­
erótica pode, à luz de nosso conhecimento presente, somente ser vista
como um traço primário rPnmamn Zug] de perversão" (1 91 9, p. 233).
A terceira é Spur. Esta é a palavra alemã para traço que
Freud mais utiliza ao longo de sua obra. Na "Carta 52", nossa
referência fundamental, vamos vê-lo utilizando Spur ao dizer que na
camada denominada Wahrnemung nenhum traço [kein .ipu,] do que
acontece permanece, pois isto só é possível quando do segundo
registro [Niederschrift]: Unbewusst, onde "traços do inconsciente
[ Unbewusst.ipuren] são algo equivalente a lembranças conceituais
[Begnffierinnemngen] ' '.

16
Ceho Rennó Li111a

N este ponto é importante trazer à cena o primeiro esque­


ma do aparelho psíquico desenvolvido por Freud na Carta 52:

W --- WZ --- UB --- VB --- Bews

E, com toda a ousadia que _me é permitida num momento


como este, proponho introduzir o conceito de Zug, mais especifica­
mente, de einzeger Zug entre as camadas Wz e UB:

W -- WZ -- enzjger Zug -- UB -- VB -- Bews

Minha hipotese é que há traços, Zugen, que não sofrem tra­


dução para Spur, permanecendo como pontos de gozo, memória
de gozo, como nos diz Jacques-Alain Miller (1 995), a partir de um
acontecimento, ou acidente que promoveu a fixação e que "foram
mantidos com o propósito de satisfação auto-erótica" 1 •
Esta "não-tradução" traz, como conseqüência, o que cha­
mei na ocasião de uma "brecha na fan tasia", um pon to de
"Verleugnung", de desmentido que possibilita um ponto de passa­
gem, digamos, clandestina.
Sabemos que a fantasia primordial é a interpretação que o
sujeito fez do seu encontro com a falta no Outro [S(t4{.)] . Sabemos
que esta interpretação é o que sustenta o sujeito como sujeito
desejante, proporcionando-lhe uma certa estabilidade, um certo
ponto de certeza que se traduz no pouco de realidade que mantém
o quadro de sua existência. Ao mesmo tempo, e aqui é importante
lembrar-lhes o Grafo do Desejo, a fantasia fundamental está estra­
tegicamente localizada entre a falta no Outro [S(?'-)] e o sintoma
como significação do Outro ls(A)] abrindo-se ao desejo (d) .

17
O Bn"/ho da InFeli&idade

É de nosso conhecimento que a instalação desta maquini­


nha de transformar gozo em prazer, como nos disse J.-A. Miller,
apresenta uma brecha estrutural. Este ponto de conjunção-disjunção,
que aí está entre o sujeito e seu objeto, nos diz disto. Ou seja, diante
do objeto o sujeito se esvanece (jading), só encontrando paradoxal­
mente na identificação a este objeto o seu ponto de ancoragem.

=
É por isso que a travessia da fantasia no final de análise
pode ser maternizada como S a, como muito bem nos demons­

=
trou Bernardino Horne em uma conferência na EBP-MG. Na tra­
vessia da fantasia, a equação S a nos diz do que propicia uma
passagem, aí mesmo, no ponto em que o sujeito se apresenta como
resposta do real.
Esta travessia de final de análise só acontece quando, após
um percurso em que uma cena fantasmática pode ser construída,
uma interpretação desmonta o enlaçamento do sofrimento que trouxe
o sujeito à análise, ou seja, a fantasia e o sintoma, deixando o sujeito
frente a frente com o seu desejo.
O que esta interpretação visa, portanto, é desvencilhar este
enlaçamento entre Simbólico e Imaginário, que é feito pelo sintoma aí
mesmo onde, por estrutura, vemos incidir a falha na transmissão da
castração - lugar onde a fantasia vai se articular nos dizendo do
desejo que o sustenta e do gozo que o mantém. Este objetivo só
poderá ser alcançado se, ao apontar a impossibilidade do sentido, a
interpretação promover um efração do real na brecha que ela abre
no plano das identificações. Então acontece uma passagem que
pos sibilitará ao novo suj eito que daí resulta, e fetuar um novo
enlaçamento entre Real, Simbólico e Imaginário.
A travessia de final de análise tem conseqüências, portanto:
a produção de um desejo inédito como efeito de um novo sujeito
a partir da própria mudança de sua relação com o obj eto que o
sustentava na fantasia. Ali onde o percurso pulsional produzia an-

18
Celso Rennó Li,11a

gústia, veremos surgir, ao final da curva, um novo afeto: o entusias­


mo. Em outras palavras, onde havia um objeto a, mais-de-gozar,
encontramos "este elemento de vida, este elemento de gozo vivo
que é o objeto pequeno d' (Miller), como causa de desejo.
O que acontece nestes momentos que não são conseqüên­
cia de um percurso analítico, nem de uma construção, nem tampouco
de uma interpretação que propiciará a travessia, mas sim o efeito de
uma droga qualquer? Acontece uma passagem, uma "travessia",
que chamamos de "selvagem", ocorrendo em um ponto qualquer
da tela protetora da fantasia em que exista uma certa fragilidade,
conseqüência da permanência de um traço sem tradução. Esta "tra­
vessia", esta passagem, digamos, clandestina, não produz um novo
saber como conseqüência do retorno do S 1 produzido - como na
travessia de final de análise - mas sim um retorno de algo que vai
exatamente negar a presença deste significante que faz borda no
real. O que retorna é um traço saturado de gozo'-, incapaz de impedir
uma "vontade de gozo" onde um desejo deveria surgir. Desta for­
ma é "como se houvesse acontecido um gozo inesquecível e que
em seguida todas as repetições só tivessem por objetivo encontrar
este gozo inesquecível. A ponto de que, enfim, o significante não
parecesse de todo, aqui, permitir um deslocamento, mas ao contrá­
rio só abrir a uma comemoração", como nos diz ].-A.Miller, para
acrescentar: "A fixação designa o fato de que o sujeito permanece
agarrado a um modo de gozo quando ele deveria ultrapassá-lo,
substituir um outro modo de gozo. É isso o que define, no fundo,
o arcaísmo eventual de um modo de gozo. [. . .] Em Freud, o modo
de gozo supostamente ultrapassado pode se encontrar reativado
[pela] regressão libidinal [e pela] fixação de gozo" (Miller, 1 995) .

19
O Biilho da InFelicidade

N OTAS

1 . "A memória está no nível do gozo que se inscreve, é antes de tudo o que
resta do gozo ... " /e sens-jouil' é outra coisa que a verdade... é o sentido entanto
que o gozo aí se fixa".
2. "Le désir, que est suppôt de cette refente du sujet s'accommoderait sans
doute de se dire volonté de jouissance" (Lacan, 1 966, p. 773).

Referências bibliográficas

FREUD, S. "Uma criança é espancada" (1 9 1 9). Em Studienausgaben, vol. VII.


Frankfurt, Fischer Taschenbuch Verlag, 1 982.
________ . " P s i c ol ogia d a s m a s s a s e a n á l i s e do e u " ( 1 9 2 0) . E m :
Studienausgaben, vol. IX. Op. cit.
LACAN, J. Écrits. Paris, Seuil, 1 966.
MILLER, J.-A. "Silet". Inédito, aula de 29 de março de 1 995.
REN NÓ LIMA, C. "Uma brecha no fantasma", Opção úzcaniana, n. 1 1 , 1 994.
A MORDAÇA INFERNAL

Núcleo de Pes q uisa em Toxicomanias e Alco o lismo*


EBP- Rio de Janeiro

Certa feita, Freud é interpelado por Einstein sobre a per­


gunta: por que a guerra?
Se Einstein propõe a correlação direito e poder para
explicá-la, Freud prefere substituir a palavra poder "por uma pala­
vra mais nua e crua: violência". Segundo Freud, "os conflitos de
interesses enti:e os homens são resolvidos pelo uso da violência"
(1932, p. 246). Uma facção tem de ser compelida a abandonar suas
pretensões ou objeções.
Eliminar o adversário traria a vantagem de reforçar o po­
der da facção vitoriosa e impedir que outras a seguissem, matar
opor-se-ia a reflexão de que o inimigo pode ser utilizado na realiza­
ção de serviços úteis. O subjugar assim veio a substituir a morte.
Passa então a haver um caminho que se estende da violência ao
direito à lei. Estes elementos de força desigual trans formam-nos
em senhores e escravos.
Freud aprofunda a questão da lei quando fala de uma utili­
zação diferente por aqueles que a aplicam colocando-se acima dela,
acima das proibições que aplicam a todos, o que os fazem passar
da lei à violência. A recusa em admitir a mudança leva à rebelião.

* Relatores: Lenita Bentes e Ronaldo Fabião Gomes.


Colaboradores: Clara Lúcia lnem, Cláudia Henschel, Eliana Bentes, Fillipo
Olivieri, Maria Beatriz Barra, Mila Alencar; Vânia Olivieri e Vera Nogueira.
O Brilho da !11Fe/icidade

A esse respeito Lacan nos diz: "o povo acuado, impedido, toma a
palavra através do acontecimento histórico quando essa palavra lhe
é negada. O povo vai colocar em ato suas falas impossíveis quando
se vê sufocado sob 'a mordaça infernal' da censura que vai impeli­
lo a passagem ao ato de rebelião" (1 95 1 , p. 223).
Robert Musil diz que "a política é um mandamento, um
preceito" (1 989) porque engendra a noção de poder e, como exer­
cício de poder, exerce a censura. Como tal, o discurso da política
pode ser considerado o discurso da censura por excelência em que
vão aparecer as falas cortadas de sentido, destinadas aos sujeitos­
escravos que não as compreendem e cujo direito à palavra é recusa­
do. Esses sujeitos só conseguem reaver seu direito pelo ato de vio­
lência, de rebelião.
Tal exercício do poder manifesta historicamente o desloca­
mento do discurso do mestre ao discurso capitalista. O capitalista
manda e o proletário se lamenta diante das inegociáveis condições
de trabalho em que a exigência da produção chega ao ponto de
�ma extorsão da sobrecarga de trabalho. Aí o laço social corre o
risco de romper-se uma vez que as demandas dos capitalistas sur­
gem como imperativos categóricos e as preces dos proletários se
dirigem a este "outro lugar sem palavras que representa o exercício
do poder dos sign ificantes mestres do discurso capitalista" (Naveau,
1 988, p. 1 1 4).
Lacan no Seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise (1 969-70)
denuncia que o Estado está aí enraizado e a marcação do limite,
escondido no imperativo vociferado: "Circulem! Dispersai-vos!".
Lacan fala de um diálogo de surdos, um diálogo que não cessa de
se escrever. Trata-se de um "Goze!" que se dirige ao proletário
como um "Trabalhe!".
Em seus escritos, Marx também fala de uma intriga a
ser construída para ser resolvida por meio de uma encenação:

22
NIÍcleo de Pesq11isa em Toxicomanias e Alcoolismo

"a fabricação da mais-valia, esse grande segredo da sociedade mo­


derna, vai enfim se desvelar" (1 985, cap. VI, p. 1 36-7). No drama
social retratado por Marx, há duas personagens: uma traz a máscara
do capitalismo exprimindo a insolência e o escárnio. A outra, a do
proletário que exprime timidez e hesitação. O proletário como s er
falante não importa, mas sim o que produz. O dis curso capitalista
se caracteriza por um movimento circular em que a apropriação do
mais-de-gozar não está obstaculizada por nenhuma barreira. Tal
discurso rech�ça a castração.

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discurso do amo discurso do capitalista

O discurso capitalista perverte o dis curso do mestre por


efetuar uma reapropriação do gozo que faz com que a realidade
advenha como fantasia. Tal discurso pretende transformar o real,
embaraçando-o ao ''gadget". É por es te embaraço, por saberem
com o quê e como gozam que o toxicômano e o alcoolista não
fazem sintoma, e não são a mesma coisa. No sintoma, a satis fação
que se realiza é inconsciente e é o que o faz interpretável. Que fique
claro que CJ.Uando falamos da perversão do dis curso do mes�re
efetuada pelo discurso capitalista estamos nos referindo a uma não
orientação ao pai, pois: ''um pai só tem direito ao amor e ao respeito,

23
O Biilho da InFe/icidade

se o dito amor e o dito respeito forem pere-vers-amente orientado, ou


seja, se ele fizer de uma mulher o objeto a, que causa seu desejo"
(Brousse, 1997, p. 77). Vers quer dizer em direção a, rumo ao pai.
Trata-se da transmissão da lei no semi-dizer do sentido. Ser de algu ­
ma forma a lei sem identificar-se com ela, o que dele faz alguém
que reconhece a castração e pode transmiti-la ao fazer de uma mu­
lhe.r seu sintoma.
Os fenômenos toxicômanos exemplificam como a não
' 'pereversion", a não orientação ao pai tem como efeito sustentar o
gozo no corpo e romper com o Nome-do-Pai sem ser uma psico­
se, desmentir a mulher sem ser uma perversão e manter o recalcado
sem sintomatizar como na neurose. O Nome-do-Pai não garante
mais uma função de amarração, ou seja, a divisão, a não identidade
consigo mesmo, cede a vez a um ser-metre, um m 'être, que Lacan designa­
va como uma "degenerescência catastrófica". Como fenômeno, tem a
função de velar a esttutura. Na cultura da droga, pode sobreviver ao
mal-estar do desejo, ou seja, gozar em detrimento do desejar. Por que
não é uma perversão? O perverso, este goza com a fantasia e de for­
ma específica (É. Laurent, 1994) e o toxicômano não.
Se pensarmos o sintoma no âmbito proposto em ''A Ter­
ceira" (1 974), podemos pensar a toxicomania como uma nova for­
ma de sintoma para o mestre moderno, uma vez que, como pro­
duto da ciência, retorna como uma espécie de mito, organizando,
ordenando, classificando o mal-estar na civilização.
O gozo da droga está no corpo que o toxicômano julga
ter. Quer se unir ao Outro real por negar que este esteja fora de
alcance. É esta ilusão que a ruptura com o falo produz, posto que o
gozo sexual faz obstáculo a isso, é defesa contra o gozo do Outro
ou do corpo como totalidade. A determinação fálica faz malograr
tanto o gozo do corpo_ como Outro, como o gozo do corpo do
Outro. Trata-se do "had Um" corpo que ninguém possui. Na ilusão

24
Núcleo de Pe1q11isa e,11 Toxicoma11ias e Alcoolismo

de tê-lo, pode criar fora do tempo lógico sensações cronológicas,


programadas. Mais uma dose por isto ou por aquilo, no momento
em que tudo for insuportável. Onde faltam as palavras "had Um"
corpo que é um "pró [pó]-grama" da felicidade.
Ign orar que não se tem o corpo e o inconsciente é tentar
dar, via indução, via substância, consistência a este Outro como
corpo do qual se goza de uma hipotética infinitude, de uma ruptura
que, por não passar pelo simbólico, fica tudo a dever ao gozo femi­
nino que não desconsidera o falo. Não se trata do gozo do Outro
sexo, mesmo que excluído, mas do gozo do Outro corpo.
O gozo da droga não faz "ex-sistir" o lugar central em sua
função de referência; faz consistir o gozo do Outro ao preencher a
hiância que ele indica por não ser limitado pelo gozo fálico. Aqui, o
alcoolista, por colocar o vinho no lugar da mulher, embora não
rompendo com o falo, mesmo do alto de seu heroísmo viril, tam­
bém a exclui, ao potencializar um Outro que não ele próprio. Tal­
vez haja aqui um entre toque entre ambos: o toxicômano e o alcoolista.
Do que se trata, poderíamos nos perguntar? Com certeza,
não é de tirar o sujeito da droga, mas sim de extrair do ser o sujeito.
Para tal, é preciso ter claro que é o discurso analítico o que mais
além da censura tenta manter o sujeito na via do desejo, único dis­
curso que pode trazer à luz o gozo que repousa na obscuridade de
um ganho ilimitado.
Dizer que o s'!ieito sobre quem operamos em psicanálise só pode ser o
s'!ieito da ciência talvezpasse por um paradoxo. É aí, no entanto, que se
deve faZ!r uma deman:ação sem o que tudo se mistura e começa uma
desonestidade que em outros lugares é chamada de oijetiva: mas que éfalta
de audácia efalta de haver situado o oijeto que malogra. Por nossa posição
de s'!ieito, sempre somos responsáveis. Que chamem a isso como quiserem,
terrorismo. Tenho o direito de sorrir, pois não era num meio em que a
doutrina é abertamente matéria de negociatas que eu temia chocar quem
quer que fosse, ao formular que o erro de boa fé é dentre todos o mais
imperdoável (Lacan, 1 965, p. 873 ).

25
O Brilho da lnFelicidade

Se naquela época Freud tentou responder a pergunta "Por


que a guerra?", é lícito, na modernidade, nos perguntarmos "Por
que a droga?" É quando Freud concorda com Einstein a respeito
da existência no sujeito de uma pulsão de destruição - "o ego teria
se tornado masoquista por influência do supereu s ádico" (1 932,
p. 252) -, que Lacan, ao retornar ao conceito freudiano de
puls ão de morte ou de destruição, des taca o gozo como algo
q u e n ã o p o d e s er p l e n a m e n te a b s o rvido p el a i n s t â n c i a
significante do falo. S u a tese é a d e que o desej o e o falo não
podem dar conta da dimensão do gozo. É nesse sentido que, na
seção cons agrada aos paradoxo s do gozo, Lacan o tratará a
partir da perspectiva da transgressão: frente ao desej o e ao falo,
o gozo é uma transgressão, escapando sempre à determinação
significante.
A partir desse momento de seu ensino, Lacan afirma a teo­
ria da pulsão de morte em sua vertente residual: há sempre um
resíduo de gozo. No Seminário, livro 1 7 (1 969-70), depreendemos o
avanço de sua tarefa na formalização do gozo. O gozo é situado
em três eixos : a) retifica o es tatuto do gozo, que antes abordara
pelo viés da transgress ão; neste Seminário, ele aparece a partir
da es crita do obj eto a como mais-de-gozar, resíduo da opera­
ção significante; b) logifica o obj eto a em uma relação com ou­
tros três elementos S I ' S 2 e '/. constituindo a fórmula dos quatro
discursos; c) faz do gozo uma instância primária, fundamental,
a partir da qual podem ser situados tanto o significante como o
sujeito.
No Seminário, livro 22: RS.I. (1 974-5), Lacan propõe dois
gozos: o jouis-sens (na interseção do imaginário e do simbólico) e o
gozo do Outro, na interseção do imaginário com o corpo real. O
gozo do Outro está fora do simbólico, porém não do corpo,
embora o gozo fálico es teja fora do corpo, porém não fora do
simbólico.

26
Núcleo de Pesq11iia e111 Toxi,omanias e Akoolis1110

Sentido

Significante
(alcoolista)

Fenômeno toxicomaníaco
Fenômeno alcoolista

Nesta articulação, do mesmo modo que o sintoma fixa o


gozo fálico em uma letra que "ex-siste" ao inconsciente, o gozo do
Outro constitui o gozo fálico que constitui o corpo Outro.
Uma questão. Em que classe de gozo se encontram as toxi­
comanias? E mais, se estas não podem ser consideradas um sinto­
ma, visto que têm um gozo distinto do gozo do s intoma, têm o
gozo segundo o saber da ciência (destituído tanto do desejo quanto
da singularidade do sujeito), o gozo no corpo como Outro, não do
corpo pulsional decorrente da afetação pela linguagem. Seu corpo
é seu cadáver, um corpo sobre o qual trabalha, conhece a anatomia,
os caminhos, as eficácias, os melhores tempos para alcançar a produ­
ção de gozo, a produção do fenômeno pela ruptura com a estrutura.
Tentam por meio de um objeto que escapa as determina­
ções da função fálica, em termos de semblante, dar consistência ao
gozo do Outro, como gozo no corpo, em um infinito que não
podendo ser limitado pela função fálica, o é pela morte. A propos­
ta da psicanálise aqui é a de que o sujeito se dirija do fenômeno à
estrutura, de onde se fez escapar, recusando-se a nela se encontrar.

27
O Brilho da l11Felicidade

Diferentemente , o alcoolista não está fora da cadeia


sign ificante e de suas leis. Não rompe com o Outro, antes dirige-se
a ele para que denuncie o gozo de sua posição fantasística, fazendo
emergir a vergonha, a divisão e a culpa. Entretanto por estar na
cadeia sign ificante de forma particular, ao mesmo tempo que pro­
voca o Outro à denúncia, a desativa. Quando Freud referia-se ao
"casamento feliz", denunciava a não necessidade da interdição so­
bre o objeto para alcançá-lo, o que sugere a evitação do supereu via
desvanecimento subjetivo. Oferecer-se à interpretação injuriosa do
Outro pode ou não propiciar a produção de sintomas e a divisão
que torna presente a identificação ao desejo do Outro. Podemos
aqui também afirmar a existência de um gozo que não curto-circuita
a fantasia. Ao colocar-se como objeto para o Outro, faz entrar em
jogo fantasias de triunfo e heroísmo que antecedem um gozo que,
embora transgressor, faz laço social.
Nas toxicomanias a ausência dessa identificação faz da nome­
ação do gozo uma forma de representar-se: "Sou toxicômano".
Trata-se de um sujeito desaparecido, amnésico, com poucas chances
de ser encontrado senão pelo fato de que ao ir ao an_alista, possa
demandar encontrar outra identificação.
O "Eu sou toxicômano'.', esta ficção do mestre moderno
da morte, faz "Aufhebung' do gozo fálico. Diferente do mestre anti­
go que renunciando, em ato decisivo, ao gozo para se fazer sujeito
da morte, se institui. A chave da passagem do discurso do mestre
antigo está em Sócrates, ilustre histérico: "Por paradoxal que seja a
asserção, a ciência toma seus impulsos do discurso histérico [...] o
histérico é o sujeito dividido, dito de outra maneira, é o inconsciente
em exercício que põe o mestre contra a parede para produzir um
saber. Tal foi a ambição induzida no mestre grego sob o nome de
Episteme. Aí onde a 'doxa' o guiava no essencial de sua conduta,
foi intimado - e em especial por um Sócrates histérico confesso
que disse não entender senão de assuntos de desejo, patente em seus

28
Nticleo de Pe.rq«i.ra e111 Toxico111ania.r e Alcooli.r1110

sígnos patognomônicos - a fazer festa de algu ma coisa que valesse


como a 'techne" do escravo e justificasse seus poderes de mestre"
(Lacan, 1 977, p. 6 1 ) . O ficcional esvazia o Outro, trans forma-o em
pó, em inexistente, para que desta maneira a falta, a castração como
real, não ocorra. É um puro agir segundo sua consciência. Sem um
nome próprio, do sintoma neurótico, e sem ter como fazer-se um
nome, como J oyce, o toxicômano ou alcoolista leva o nome do
Outro, do produto.

Retomando Lacan em "Radiofonia",


A mais-valia é a cama do desefo da qual u111a economia.fez seu princípio:
aquele da produção extensiva, portanto insadáve� da/alta de gozar. Ela se
acumulaporum ladopara munentaros meios destaprodução a título do capital Por
outro, estende o mnsumo, sem o qual esta produção seria vã, justamente de ma
inépcia empromo/Jf!f" umgozo do qual elepudesse desaalerar-se (1 970, p. 87).

Em "Por que a guerra?", Freud respondeu que é sempre


com violência que o suj eito vai reagir ao ser desalojado do poder
(imaginário) que ocupa, quer via opressão, quer por uma via mais
romanesca, a religião. Neste sentido, Marx, Freud e Lacan formam
uma série perfeitamente coerente com a ética frente ao saber. Outra
resposta de Freud foi a existência de uma pulsão de ódio e destrui­
ção que coopera com os esforços dos mercadores da gu erra. O que
diferenciaria os mercadores da guerra dos mercadores do capital?

Para concluir: se existe a pulsão de destruição para a qual


Freud encontrou duas s aídas , o vínculo amoroso e o vínculo
identificatório, recomendando contrapor a ela o seu antagonista Eros,
então não há porque nos envergonharmos de falar de ámor, nos
diz ele, e nunca se fala de outra coisa, diz Lacan.

E por que a droga? Ou, com É. Laurent (1 995) , qual é a


situação do gozo em nosso mundo? Ou por que a crença ou neces­
sidade da ciência moderna de ter apostado na clonagem química da
felicidade? E a que preço?

29
O Brilho da InFelicidade

Referêndas bibliográficas:

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freudiano". Em: Arquivos da Biblioteca, n. 1. Rio de Janiero, Escola Brasileira
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SOLER, C. "O retorno sobre a questão do sintoma e o FPS", OpfàO Lacaniana,
n. 17, 1997.

30
CLÍNICA DO SUPEREU E AS TOXICOMANIAS

Daniel Sillitti
Membro da Escuela de la Orientación Lacar,.iana

Na obra de Freud, o supereu nasce como uma ins tância


normativizadora ligada à ins tauração da proibição do inces to e à
repressão das tendências agressivas. Sob o nome de consciência
moral, toma a forma de "percepção interna da repulsa de determi­
nados desej os" com a caracterís tica de não ter neces sidade de invo­
car razões (Freud, 1 9 1 2) . Ou seja, ao mesmo tempo que introduz o
suj eito nas normas que são o próprio sus ten to das civilizações, o
supereu se apresenta como uma ins tância caprichosa, tirana, que
prescinde de justificativas e razões para gerar esta repulsa. Neste
sentido, é uma instância relacionada com o sentimento de culpa.

Assim, se vincula ao Outro, exercendo de modo crítico sua


representação. Freud inclusive chega a dizer que "a consciência moral
foi primeiro uma encarnação da crítica parental" - exercida de
viva voz pelos pais (1 9 1 4) . Viva voz que, na paranóia, retorna como
alucinação na injúria ao suj eito.

Como ins tância, se define então como aquilo que, pela via
da repressão, ins tala o sujeito na cultura ao articular a proibição do
incesto na representação do pai ligado à cas tração. Aqui o supereu é
herdeiro do Complexo de Édipo no que repres enta a relação do
suj eito com seus progenitores (Freud, 1 923) e sua forma depende
diretamente dele: "o supereu conserva o caráter do pai e quanto
O Biilho da InFeliddade

maiores forem a intensidade do Complexo de Édipo e a rapidez


de sua repress ão, mais severamente reinará depois sobre o eu como
consciência moral ou como sentimento inconsciente de culpa"(ibid.).

Não obs tante esta instância tem a possibilidade de adoecer. é


o modo como Freud descreve em "Luto e Melancolia" (1 9 1 7) o
particular en furecimento do supereu visto que o eu permaneceu
identificado ao obj eto perdido.

Na melancolia, o supereu se faz "ouvir" no tormento que


in fringe ao eu. Todavia há também uma forma de adoecer que
emudece o supereu, uma forma opos ta à melancolia e que não é a
mania: é o enamoramento. Ali toda crítica possível ao objeto se
desvanece, o eu carece de toda vontade e fica à mercê das disposi­
ções do objeto amado, até chegar - por aplacação desta ins tância
- ao crime sem remorso.
Vem o s a s sim o s up ereu funcionar s o b o imp ério da
normativização, por um lado, ligado à cas tração e, por outro, em
sua face patológica, tornar-se independente de sua função e adquirir
um matiz martirizante para o suj eito. Neste ponto o supereu funci­
ona a serviço da pulsão de morte: sua hipermoralidade, a crueldade
com que Freud o descreve na melancolia, o faz representante da
pulsão de morte dirigida contra o eu e que, nos casos extremos,
alcança a morte do sujeito.

Entretanto não devemos equiparar a pulsão de morte com


a morte. Para Freud, trata-se dos efeitos de des truição, mas ainda é
pela relação com o sadismo e fundamentalmente com o masoquis­
mo que se pode definir o valor da pulsão de morte.

Em "O Mal-es tar na civilização" ( 1 9 30) , o supereu adquire


seu caráter paradoxal: já não só representa uma instância que vigia o
cumprimento das normas morais, como também, além de exigi­
las, quanto mais se as cumpre, mais severo se torna e maior é a
exigência.

32
Daniel Sillilli

Neste texto em que Freud dá sua definição mais acabada


da função dos tóxicos, como instrumentos que permitem aliviar o
peso do encontro com a impossibilidade da felicidade, instrumen­
tos que, em sua rápida ação sobre o corpo, asseguram um efeito de
satisfação e também "a ilusão de independência do mundo exteri­
or" (ibid.), ele atribui ao supereu a função do que proíbe a satisfa­
ção pulsional ao mesmo tempo que se satisfaz desta mesma proibi­
ção. Instaura então um paradoxo e um impossível: para aplacar o
supereu é preciso desobedecê-lo, mas ao mesmo tempo, ao acatar
sua ordem, é impossível aplacá-lo.
Entende-se a definição de Lacan quando este dá ao supereu
o caráter de um imperativo de gozo e o define como uma figura
obscena e feroz; este empuxo a um gozo impossível constitui um
dos eixos a respeito do supereu.

Em sua conferência "Clínica do supereu" (1981), Jacques­


Alain Miller articula esta figu ra do supereu ao desejo materno, tal
como Lacan o define no interior da metáfora paterna, um desejo
sem lei, caprichoso, antes de ser interpretado pelo si gn ificante do
Nome-do-Pai, significante que, na estabilização das significações entre
o sign ificante e o sign ificado, abre à instância fálica como esta outra
coisa que deseja a mãe.
Neste ponto se produz o giro da dialética de ser o que satis­
faz o desejo do Outro para ter o que poderia satisfazê-lo. É no não
introduzido pela instância paterna no discurso da mãe que o falo se
impõe como o que se tem ou não. Não obstante Lacan, no Seminá­
rio, livro 2 1 : ús non dupes e"ent (1973-4), introduz uma variante a esta
fórmula: nesta o desejo da mãe situaria o sujeito em uma dimensão,
a do ser nomeado para, que substituiria o Nome-do-Pai e o colocaria
em um projeto ligado à demanda do Outro. Ali define esta fórmula
como significando existências, provocando catástrofes, sobretudo no
ponto em que o socialganha relevo e se apropria deste nomear para.

33
O Brilho da I11Felicidade

Em outros trabalhos (Sillitti, 1995) , consideramos a im­


portância que tem o Outro que nomeia para a configuração da
categoria da toxicomania, no que este faz consistir uma categoria (o
toxicômano) à qual vemos se identificar fil\1 certo número de sujeitos.
A formalização feita por Éric Laurent em seu trabalho "Tres
observaciones sobre la toxicomania" (1995) , no qual propõe o
materna <j> para escrever a ruptura com o falo implicada na fór­
0

mula que Lacan dá em 1975, nos abre uma perspectiva para enten­
der a incidência do supereu na toxicomania. Se aceitamos a mesma
escritura proposta por Miller para o supereu em sua conferência de
1 98 1 , vemos a incidência desta ins tância operando pela via de um
empuxo ao gozo, um gozo que, prescindindo da passagem pelo
corpo do Outro, evitando a castração, retorna sobre o corpo do
sujeito "na ilusão de independência do mundo exterior".
Assim, a alienação no ser nomeado para se nos apresenta como
uma via de sujeição à demanda do Outro, consentimento do sujeito
que, desde o ponto de vista da ética, faz uma eleição de goz? que
suprime a palavra, obtura a falta, e só aceita e crê no gozo possível
de ser obtido no próprio corpo, assegurado pelo efeito tóxico.
Gozo cínico (Sinatra, 1995) .
Podemos pensar o gozo implicado nas adicções como es­
tando ligado ao supereu; o que está em jogo aí é o "Goza!" -
estado puro da demanda.
Assim, a função do tóxico se situa no impasse que produz
em relação ao desejo do Outro. A droga opera no sentido da recu­
peração de gozo eludindo o semblante fálico, que implica a castra­
ção, isto é, a falta no Outro.
É necessário precisar que neste ponto o que entra em jogo
em relação ao desejo da mãe não é o "amor de mãe"; ali opera a
relação à sexualidade feminina; é a mãe como mulher, no sentido
de um sujeito em relação à falta estrutural (Miller, s/ d).

34
Da11iel Sillilli

O catastrófico é a colocação do sujeito no lugar do que


falta à mãe como mulher. O sujeito identificado a este lugar não
deixa brechas para que o inconsciente possa operar. É então no
fracasso da droga ou na quebra desta identificação que se abre a
perspectiva para uma análise que conduza o sujeito na via de seu
desejo "vivido por fora do registro da culpa" (Laurent, 1994) .

* Tradução: Sara Fux

Referências bibliográficas:

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Editora Biblioteca Nueva, 1 983.
___. "lntroducción dei narcisismo (1 9 1 4). Em: Obras completas,
Tomo II. Op. cit.
-----· "Duelo y melancolia" (1 9 1 7) . · Em: Obras completas, Tomo II.
Op. cit.
-----· "El yo y el ello" (1 923). Obras completas, Tomo III. Op. cit.
_____ . "O malestar en la cultura" (1 930) . Em: Obras completas, Tomo
III. Op. cit.
LACAN, J. O Seminário, lillT'O 2 1 : les non dupes errent (1 973-4). Inédito.
LAURENT, É. "Tres observaciones sobre la toxicomanía". Em: Sl!feto, !fJZ.º
e modernidade II. Buenos Aires, Editora A tuel-TyA, 1 9 95.
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1 994.
MILLER, J-A. "lntroducción a la lógica de la cura dei Pequeiio Hans". Con­
ferência de Abertura às II Jornadas Anuais da EOL, Buenos Aires, s/d.
_____. Seminário "Clínica do supereu", 1 981 .
SILLITTI, D. "La eficacia dei nombre: los llamados adictos". Em: Sl!feito,
!PZ.º y modernidade I. Buenos Aires, Atuel-Tya, 1 995.
SINATRA, E. "Variantes dei argumento ontológico en la modernidad".
Em: Sl!feto, gozo y modernidad I. Op. cit.

35
OS NOVOS OBJETOS DE GOZO

G leuza Maria M. Sa lomon


Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

Hoje nos surpreende que o ensaio freudiano sobre a sexu­


alidade infantil tenha causado certo horror na comunidade científi­
ca. A disposição polimorfa infantil subsiste sob o recalcamento da
vida adulta. Esse conceito é formulado de outro modo por Jacque s
Lacan: ''A criança nasce como objeto".
O avanço do discurso da ciência produz o fenômeno da
"infância generalizada", caracterizado em 1 967 p or Lacan como as
respostas segregativas relativas ao tempo do "Outro que não exis­
te", tema do curso de Jacques-Alain Miller e Éric Laurent.
Trata-se do real, tendo em vis ta que, segundo Lacan, ele
não tem sentido: "Tudo implica uma noção de real, que devemos
distinguir do simbólico e do imaginário. O único aborrecimento é
o real fazer sentido neste assunto, j á que o real s e funda no próprio
fato de não ter sentido, que exclui o sentido, ou precisamente por s e
dispor a ser excluído".
O real contemporâneo se verifica na forma do gozo; goza­
se diretamente do objeto.
Ainda em 1 967, Lacan, em seu "Discurso de encerramento
das Jornadas sobre as psicoses na infância", anunciava que a criança
es taria, num futuro próximo, literalmente no lugar de objeto de
gozo. Alertava-nos Lacan: ''Pelo fato da ignorância com que este
O Brilho da lnFeli&idade

corpo é tomado como sujeito da ciência, vai se chegar justamente a


recortá-lo para troca".
Hoje, suspeita-se que o tráfico de órgãos es.teja ligado com
o desaparecimento de crianças. Por outro lado, vemos a exploração
da disposição polimorfa infantil, crianças-mercadoria submetidas à
extração de um gozo anônimo, tanto pelos pais como pelos trafi­
cantes na exploração do trabalho e da prostituição infantis. O modo
contemporâneo de gozo vem situar a criança como um novo ob­
jeto de gozo.
Pedaços de real, novos sintomas que encontramos princi­
palmente nas toxicomanias - o uso freqüente da cola, que atual­
mente subs titui o uso do cra,-k. É um sintoma social, sem dúvida.
Seria, porém, um sintoma na criança?
O gozo obtido pela criança no objeto droga é um gozo
autista, sustentado por sua recusa em es tabelecer laço social, man­
tendo-se fechada em si mesma. Encontramos a possibilidade do
gozo autista no exemplo pulsional freudiano: a boca que se beija a si
mesma, particularidade da pulsão que propicia a exis tência de um
gozo autista.
Penso no relato de um educador de rua. Após horas a fio
fumando ,rack alternadamente, dois jovens se deparam com uma
nova quantidade da droga no mocó. Essa quantidade é suficiente
para os dois, porém qual deles fará uso primeiro?
A não possibilidade de escolha - ou um ou outro - leva
a um es faqueamento. O que comete o ato de violência sai correndo
em busca de socorro, chama a ambulância e acompanha de longe o
atendimento do colega. Quando aquele se res tabele, continuam
amigos.
Só podemos pensar esse Outro, se nos remetermos ao en­
smo de Jacques Lacan, não só sobre o objeto a como também
sobre a geometria do sintoma: o nó borromeano.

38
G/e11za Maria M. Salomon

corp o
(Im,gin;,icobôl i co


Aproximamo-nos do conceito de "furo estrutural" das úl­
timas elaborações de Lacan, no qual ele nos mostra que o simbólico
comporta um furo que corresponde ao recalcamento originário
freudiano.
Conseqüentemente, deparamo-nos com o conceito de
"foraclusão generalizada" proposto por J acques-Alain Miller,
paradigma do furo estrutural lacaniano.
No dia 2 de dezembro de 1975, em con ferência no
Massachusetts Institute of Technology, Lacan, respondendo a Roman
Jakobson sobre e a inibição e sua localização no nó borromeano,
diz: ''A inibição: o imaginário se formaria de inibição mental. O
significante não é o fenômeno. O sign ificante é a letra. Não há senão
a letra que faz buraco" (1976, p. 60).
Queremos nós romper a inibição? Sim, certamente. Então
é o que tentamos fazer ao nos aproximarmos do Lacan lógico,
para quem não existe o espaço em si: é em função dos nós que
pensamos o espaço. Para ele, os nós representam a coisa que do
espírito é a mais rebelde.
Vemos, em ''A Terceira" (1 975), como Lacan situa o objeto
a: como nó que se agarra à fixação do simbólico, do imaginário e
do real. É do lugar de objeto a que o analista responde àquilo que é
sua função: oferecê-lo como causa de desejo aos seus analisantes.

39
O Brilho da InFelicidade

Esse objeto a, Lacan o cria relacionando-o à lógica. Isso


significa que assim o torna operante no real. Se o torna operante n o
real, o que é o real? A definição primeira d o real efetuada p o r Lacan
é: "o que retorna sempre ao mesmo lugar". A ênfase nessa frase
recai sobre "retorna". Como comenta Miller, é o lugar do s em­
blante. Num segundo tempo, o real é relacionado à lógica modal,
remete-se ao impossível. Por outro lado, é somente pela psicanálise
que o obj eto a constrói o cerne elaborável de gozo. Porém só se
sustenta com a existência do nó, com três de círculos de barbante
que o constituem (ver figu ra) .
Em seu Seminário "O Outro que não existe e seus comitês
de ética", Miller pergunta o que se inscreve no real, no lugar do real,
pois, como vimos, isso não é o saber, mas talvez seja um significante
"um". E é por isso que Lacan define o sintoma como aquilo que
do inconsciente se traduz por uma letra.
Eventualmente o S 1 no real é o que Freud chamaria de fixa­
ção, fixação de gozo. Na psicanálise lacaniana o que faz junção entre
o sen tido e o real é precisamente esta fixação de gozo.
Lacan aponta para uma disjunção entre Real, Simbólico e
Imaginário, que se mostra claramente no nó borromeano, ao mes­
mo tempo em que os pensa como três, pois apenas dois não se
anelam. A seguir, considera uma variante: se três não se enlaçam,
talvez quatro o façam. Junta então o sintoma como quarto nó.
Podemos pensar a toxicomania na infância a partir da droga
como objeto a, que fixaria um gozo, o da própria exclusão estrutu­
ral? Terá o objeto droga a função de sintoma que virá então amar­
rar os três registros, Imaginário, Simbólico e Real?
Por outro lado, a criança, dada a recusa ao Outro, no tem­
po do Outro que não existe, está posta como objeto de gozo. Essa
posição de objeto será reforçada através da universalização do gozo
ao ser design ada como toxicômana. O tratamento que assim no-
Gle11za Maria M. Salomon

meia a criança e que a ela se oferece só viria a fixá-la ainda mais na


posição de exclusão e de gozo, como no exemplo citado.
É a alienação à droga que faz surgir a separação sob a for­
ma de "acting-ouf' em que o gozo fálico está ausente. Resta a aposta
no discurso analítico a partir do ensino de Lacan, oferecendo a
possibilidade de um vazio, um lugar para o surgimento de um sujei­
to que antes identificava-se ao objeto de consumo.

Referências bibliográficas

FREUD, S. "Três ensaios para uma teoria sexual" (1905). Em: Obras Comple­
tas, Tomo II. Madrid, Biblioteca Nueva, 1973.
LACAN, J. ''Verdades primeiras". Em: O Seminário, livro 23: o sinthoma. Inédi­
to. Aula de 13 de janeiro de 1976.
____. "Discurso de encerramento das Jornadas sobre as psicoses na
infància" (1967). Inédito.
____. "Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines"
Em: Sei/icei, n. 6/7. Paris, Seuil, 1976.
____. O Seminário, livro 22: RS.J. (1974-5) . Inédito.
____. "La troisiême" (197 5). Em: Lettres de I' École Freudienne, . n. 16,
1975.
MILLER, J-A & LAURENT, É. "O Outro que não existe e seus comitês de
ética" (1996-7). Inédito.
SOBRE A SEGREGAÇÃ0 1

Co lette Soler
Membro de la Érole de la Cause Freudienne e da Esrola Brasileira de Psicanálise

Boa tarde. Penso que não tenho nada de especial para �nsi­
nar a respeito do tema da segregação. Então, apresentarei algumas
cons iderações. Nada para ensinar, mas talvez algo a dizer-lhes.
É um fato que hoje o tema da segregação esteja na moda.
Não somente no que diz respeito aos psicanalistas, mas em todas as
partes. E não era esse o caso há vinte e cinco anos atrás quando, em
1 967, Lacan fez sua predição a respeito daquilo que chamava de
"uma extensão sempre mais intensa dos fenômenos de segrega­
ção". Nessa época, o tema não estava na moda por uma simples
razão. Especialmente na França, na 'época da revolta estudantil de
maio de 1 968, funcionava a ilusão, a espera de que talvez houvesse
uma possibilidade de subverter o capitalismo. Parece-me que agora
ninguém, ao menos em nossos países ditos civilizados, acredita nisso.
Temos uma tese: a tese de Lacan de 1 967, que faz da segre­
gação, de seu desenvolvimento recente, um efeito, ou melhor, uma
conseqüência inevitável daquilo que caracterizamos como sendo a
universalização introduzida na civilização pela ciência. É uma tese
simples, forte: segregação, efeito de, conseqüência da universalização.
Deter-me-ei um momento sobre a universalização. De que
se trata? Evidentemente trata-se de fazer funcionar um "para to­
dos", ou seja, como se depreende imediatamente, supressão das
diferenças. E é claro que as diferenças que nos importam são, em
O Brilho da InFelicidade

última ins tância, as diferenças ao nível do desejo e do gozo. Tam­


bém é um fato que a universalização que denominamos de "cientifica"
consiste em uma redução, em uma homogeneização dos modos de
gozar da civilização.
Bem, não é de hoje que podemos afirmar que a civilização
manda no gozo; desde sempre. Mas é verdade que existiram civili­
zações nas quais o arranjo dos modos de gozo passava por outras
vias. Podemos dizer que passava pelas vias do que Lacan chamou
de significante mestre. A civilização científica inaugurou a crise do
significante mestre, a crise deste significante único e unificador, em
p rove i t o da fragm en tação, p o deria q u a s e dizer, d e u m a
esquizo frenização d o sign ificante mestre, e isto muda muitas coisas.
Podemos nos perguntar como se tratavam as diferenças
antes ou fora da civilização da ciência. Observo que, ao contrário
do que se diz, às vezes rapidamente, segregação e discriminação
não são sinônimos. Podemos encontrar civilizações discriminatórias
mas não segregativas. Sem entrar em detalhes, se pensamos na soci­
edade do Antigo Regime do Ocidente, vemos uma sociedade per­
feitamente discriminatória, ou seja, que definia lugares, espaços di­
ferenciados ou tipos de indivíduos; por exemplo, os nobres e os
demais, cada um com seus direitos, seus deveres e seus privilégios.
Se digo cada um com seus privilégios, então era uma sociedade
com uma discriminação potente, inclusive supostamente fundada em
um Direito Divino. O Direito Divino não pode se sustentar senão no
significante mestre, mas não era uma sociedade segregativa. Todos
juntos, vivendo juntos, inclusive nas mesmas casas. Não somente no
mesmo país, no mesmo bairro, como também nas mesmas casas.
Podemos evocar ainda a sociedade escrayista da Antigüida­
de, discriminatória, mas não segregativa. Assim como a sociedade
da Í ndia, as castas na Í ndia, mescladas e discriminadas. Então ve­
mos que quando o significante mestre se encontra potente, permite
em última instância tratar as diferenças dos gozos (porque as dife-

44
Colette Soler

renças dos gozos claramente implicam muitas outras diferenças),


permite tratar as diferenças dos gozos sem a segregação.
E por que na civilização científica a única via para tratar as
diferenças parece ser a segregação? Podemos entendê-lo, pois a
universalização é uma universalização que não passa pelo significante
mestre; é uma universalização que passa pelo que denominamos,
um pouco apressadamente, de o mercado. Ou seja, que passa por um
dever que não o da proliferação dos valores dos ideais, mas um
dever real do manejo dos meios econômicos e, em nossos dias, nos
deparamos finalmente com zonas cada vez mais extensas nas quais
a gente, como se diz, vive como os demais (mesmas casas, mesmos
vestidos, mesmos objetos, mesmos carros etc.). Então, quando se
manifestam diferenças resistentes, diferenças que não são passíveis
de redução, ou seja, sujeitos que não entram na distribuição dos
bens da civilização atual, qual o meio para tratar tais diferenças? É
um meio que quase podemos denominar de espacial: cada um em
seu devido lugar, ou seja, uma solução que poderíamos caracterizar
como sendo pela via da repartição territorial.
Como podemos acompanhar pelas reportagens, em Zuri­
que, por exemplo, foi demarcada uma zona para os toxicômanos
em que eles podem fazer o que quiserem, se picarem, ingerirem sejá
lá o que for, enfün, uma zona em que não há nenhuma proibição e
na qual os toxicômanos são deixados em paz. Evidentemente é
aterrorizante ver o que se passa nestas zonas quando as câmeras de
televisão mostram o lugar. Por isso é qµe Lacan pode dizer essa
palavra, tão impactante em 1967, ao abordar o nazismo e seus cam­
pos de concentração: precursores. Uma palavra em geral tão posi­
tiva usada para eles: precursores. E, anos depois, veremos o que
vemos. Efetivamente, começamos a ver.
Agora, -quero lhes fazer observar outra coisa. Tomamos a
segregação em geral como um fenômeno negativo. Mas cuidado;
existe a segregação voluntária. Podem tentar, a fim de se divertirem,

45
O Brilho da InFelicidade

fazer uma coleção de algu ns modos de segregação voluntária. Não


a segregação suportada apesar de si, mas a segregação eleita.
Consideremos, por exemplo, a prática que existe em al­
guns países, na França certamente, talvez também na Argentina,
daquilo que se chama country-dubs. De que se trata senão de um
modo tranqüilo de segregar-se de uma massa qualquer, certamente
em nome da idéia da elite.
Podemos evocar também uma segregação desapercebida,
a dos es tudantes nos Estados Unidos, sob a maneira de constituir
parques, parques nacionais de es tudantes: os mesmos, com a mes­
ma idade, no mesmo lugar. Podemos evocar ainda as reservas indí­
genas na América, es ta, é claro, um caso de segregação imposta.
Portanto, deve-se observar que a segregação se apresenta
como uma via de tratar o insuportável, o impossível de suportar.
E talvez a pergunta que se imponha seja a de saber se todo
discurso, digo todo discurso, não seria uma fonte de segregação,
uma vez que todo discurso é, esta é a tese de Lacan, racista. Lacan
fala do racismo dos discursos em ação, e temos que entender o que
ele quer dizer. É 1 ógico que cada discurso é uma ordenação, uma
ordem de gozo. Todos, inclusive o discurso analítico. Cada discurso
então procura se instituir, fazer funcionar, captar indivíduos em sua
ordem, de modo que entre eles há uma rivalidade, uma polêmica,
uma intolerância. Vê-se muito bem o racismo dos discursos, não sei
se do discurso analítico. Mas, em todo caso, é evidente no que se
refere ao discurso do Mestre, ao discurso universitário e ao dís cur­
so da ciência. Falamos verdadeiramente de uma maneira às vezes
pouco recomendável, devo dizer.
A pergu nta de saber se o discurso analítico pode ser não
s egregativo se impõe a mim nos seguintes termos. Ele é, como os
demais discursos, um discurso discriminatório. Então como esse
discurso pode evitar a segregação?
Colei/e Soler

Quero evocar também, teria sido melhor evocá-lo antes,


um tratamento da diferença segregativa e positiva. O que é a cultura
do pitoresco? O que se visa, quando se busca o pitoresco? Busca-se
um Outro, um Outro com letra maiúscula que não tenha o mesmo
modo de gozo. E cada uma pega sua câmera e tira fotografias ou
faz safaris na África. Darei uma volta no lugar do gozo do Outro,
para assegurar-me de que ele talvez exista sempre. Depois cada um
sonha com o outro lado do planeta, onde há uma goz.o mais pací­
fico e frutífero. A civilização atual comercia com o pitoresco, há
todo um comércio que inclusive chega a conservar artificialmente
as insígn ias do gozo Outro para os turistas. Entre a cultura do pito­
resco e a segregação eleita ou imposta não há tantas vias para tratar
as diferenças. E também hi em nossos dias uma crise do pitoresco.
Não se sabe aonde ir para encontrar um Outro que seja verdadeira­
mente o Outro.
Devemos investigar também um correlato desapercebido
da segregação: a ascensão da religião. Lacan afirmou em Televisão
(1 97 4) que não podemos continuar mais o que ele chama de
"humanismo obrigado" nos países do Outro, entre aspas, pois daí
Deus recobrará suas forças. O que isto sign ifica? Significa que Deus
cada vez mais resta como a única figu ra, o único nome do lugar do
gozo Outro. Outro distinto do nosso fragmentado e que se conso­
me nos pequenos mais-de-gozar que conhecemos. O que fazer en­
tão com os processos de segregação?
Começamos a perceber que protestar não muda muito as
coisas. Pode inclusive reforçá-las. Não protestar tampouco parece
ser muito satisfatório; seria uma forma de resignação. Observo que
a universalização produz, ao lado dos processos de segregação, ide­
ologias próprias, correlativas da universalização. E à qual cada um
de nós adere.
A ideologia dos Direitos Humanos é uma secreção dos
processos de segregação, um protesto em um mundo no qual cada

47
O Brilho da lnFe/icidade

indivíduo começou a ser um instrumento do mercado; neste ponto,


podemos sempre nos referir a Karl Marx. O muro de Berlim caiu,
o comunismo foi um fracasso, mas a análise de Karl Marx não esta
totalmente invalidada por isso. Não só a instrumentalização genera­
lizada dos indivíduos de nossa civilização parece hoje patente, como
a distribuição não igu alitária dos benefícios do progresso - supos­
to progresso da ciência-também o é. Dessa forma, temos não só
mais segregação como também um discurso de igualdade dos di­
reitos e a reivindicação pela justiça distributiva. Todos podem apro­
veitar do pouco de satisfação, podem desfrutar do que a civilização
permite. Não tento explicar-lhes que devemos pensar de outro
modo, mas lhes faço observar que essas ideologias de justiça
distributiva poderiam ser descritas como uma função, se escrevo a
função com um P, não para evocar o pai, porém para evocar o que
mais ou menos se chamou desde o século XVIII de progresso, para
evocar todos os bens que a civilização tem que distribuir a cada um.
A ideologia comum para todos é P função do progresso.
Como o discurso psicanalítico poderia ser não segregativo
uma vez que, como todo discurso, institui uma ordem do gozo e
da falta de gozo? E uma vez que de todos os discursos que conhe­
cemos, ele o único que não preconiza a justiça distributiva? Não
sei . . . devemos entender bem o que Lacan diz quando sustenta que o
analista não é o Cervantes da justiça distributiva, ou seja, da justiça
que distribui de maneira igual para cada um. Há aqui um pequeno
problema teórico para ser resolvido.
Temos a civilização que certa vez chamei de unissex. Ou
seja, que todos são parecidos e o 'todos' inclui homens e mulheres.
Uma civilização unissex e que funciona. É divertido ver até que
ponto funciona o unissex em todas as partes. Homens e mulheres
podem agora fazer as mesmas coisas. Evidentemente, quase tudo.
Vamos deixar de lado a zona de exceção que faz -1 ao todo: a zona
da relação sexual. Mas o espaço que do todo não pertence à relação

48
Colette Soler

sexual é aparentemente o da igualdade. Por exemplo, acabamos de


ver pela televisão Isabel Ortiz ganhar sozinha pela primeira vez a
corrida da volta ao mundo com uma diferença de vinte e quatro
horas sobre o segundo colocado. Em todos os campos vemos que
as performances, que outrora pertenciam à parte da população cha­
mada de masculina, aparentemente se misturam.
Então, como situar a civilização unissex e o discurso analíti­
co? Fazemo-lo evidentemente dedicando-nos ao "quase", daquilo
que chamava de "quase todos são iguais". O discurso analítico se
dedica a curar os sintomas renegados da esfera sexual. Dessa for­
ma, tem a peculiaridade de resistir mais que os demais discursos à
ideologia igualitária. O discurso analítico pretende escapar à segre­
gação pela via do um por um, o que é astuto. Ou seja, é um discur­
so que aparentemente não segrega ninguém, salvo o fato de que
todos não entram, que todos não podem entrar. Assim, o psicana­
lista sabe que o pitoresco, cada vez mais raro no planeta, agora se
encontra unicamente em casa, no domicilio, ou seja, entre os sexos.
Lacan afirmou que Deus se sustentará novamente sob o
fundo dos processes de segregação. E também evocou a mulher
como uma figura de Deus... Então talvez não seja do outro lado do
planeta que para o discurso analítico ocorra a discriminação maior.
Esta encontra-se em casa, mais precisamente na cama.
Há tentativas de tratar no mundo esta discriminação que a
psicanálise cultiva, a discriminação sexual. Discriminação quer dizer:
diferença afirmada e mantida. Portanto temos que seguir o que os
termos querem dizer, quando Lacan escreve as fórmulas da sexuação;
ele escreve fórmulas de discriminação, no sentido de diferença, pre­
cisarrl:ente situadas e definidas. Digo que esta discriminação sexual é
talvez um dos últimos pontos que o discurso universalizante da
ciência não logra reduzir; ele tenta, mas não o consegue completa­
mente. Devemos observar que em algumas partes se tenta tratar
esta discriminação em termos de segregação. Os "lobl?J gcry'' nos

49
O Brilho da InFeliddade

Estados Unidos são tentativas de segregar os sexos discriminados.


E certo que es ta não é a linha da psicanálise. E ainda que não possa
muito sobre esse ponto, ela não vai nesta direção.
Até agora, não falei dos toxicômanos. Por que se segregam
os toxicômanos? Na realidade, teríamos que pensar sobre a toxico­
mania e seus correlatos, as condutas correlativas que não são toxi­
cômanas, mas em geral de delinqüência. o fato de que o toxicôma­
no, para obter a droga, deve ter dinheiro, já que, como toxicômano,
não é um grande trabalhador, não é rico - se fosse rico, isto seria
uma solução para ele - e cai na delinqüência quase automatica­
mente. E por isso que agora começa com intensidade, ao menos na
França, não sei se aqui, o tema das drogas substitutivas. Todo o
tema da Metadona ou da venda livre das drogas está em discussão,
mas podemos tratar o elemento delinqüência separadamente, per­
manecendo o problema do toxicômano.
É verdade que se trata de uma pergunta saber se podemos
tratar a toxicomania como um sintoma. Podemos fazê-lo, se toma­
mos o sintoma no sentido mais amplo da palavra. Ou seja, um
tratamento de gozo. Quando dizemos o toxicômano, falamos de
uma figura de gozo. Há muitas figuras de gozo, entre elas o cínico.
Lacan evocou que se tratava de uma figura completamente diferen­
te. Direi, sem maiores explicações, qual é a minha idéia. O toxicômano
é um insubmiuo ao gozo universalizado da civilização. Quer ele o saiba ou não.
Ele não o sabe, ou seja, é alguém que se recusa a entrar no que
chamamos de o gozo fálico, visto que o gozo fálico não é apenas o
gozo do órgão, mas também o gozo que sustenta toda competição
social, toda a circulação da competição no mundo social. Ele se
põe de lado, não entra, não aceita correr como todos os demais
para fazer uma carreira, para afirmar-se e alcançar algo na vida, ou
seja, tudo o que em geral algu ém sonha para s eus filhos: uma reali­
zação social. O toxicômano se recusa a entrar na carreira. Curiosa­
mente é a mesma palavra que se encontra em "carreira universitá­
ria"; é um equivoco excelente." E, evidentemente, inclusive se subtra-

50
Colette Soler

únos as conseqüências da delinqüência que a toxicomania implica


em si mesma; como insubmissão ao gozo fálico competitivo (o que
alguns chamam, em publicidade, de agressividade comercial neces­
sária aos chefes para seguir carreira), ele é um perigo para a civiliza­
ção da ciência, para o mercado etc. A toxicomania é um perigo
porque se ela é reduzida, é possível criar mais áreas como as de
Zurique. Mas se ela começa a se multiplicar . . . Ou seja, o toxicôma­
no faz greve, a greve dofalo. Neste sentido, eu me perguntava acerca do
que ele tem em comum com o cínico.
O cínico moderno é uma figura bas tante difícil de situar. O
cinismo de Diógenes era um cinismo de exceção. Diógenes é a
figu ra emblemática da filosofia que se chamou Cinismo. Em minha
opiniã�. o cinismo de Diógenes era completamente diferente do
cinismo moderno; era um cinismo que tinha um interlocutor: o
mestre antigo, Alexandre. Podemos dizer que Diógenes não se con­
tentava somente com gozar de seu órgão em seu tonel; ele contes­
tava Alexandre, ou seja, era uma figura de protesto e de opos ição
ao mestre antigo.
O cinismo moderno é definido por um cada um cultiva
seu pequeno gozo pessoal. Este nada tem de subversivo. Trata-se
de um todos como os demais e talvez . . . cada um esperando ter um
pouco mais que o vizinho. E por isso crê que o vizinho tem o
pequeno "mais", porque ele próprio quer tê-lo.
O cinismo moderno não tem qualquer virtude subversiva.
Em minha opinião, é uma figura do homem moderno que não tem
mais significantes ideais consistentes. É ao mesmo tempo divertido
e bastante triste ver o que se passa hoj e com os escândalos na Itália,
na França e suponho que também aqui. Escândalos, escândalos,
escândalos . . . e no fim a gente pede alguém que sirva de exceção.
Vamos buscar finalmente alguém que seria íntegro. Buscamos, bus­
camos, como dizia Diógenes com sua lanterna: "Busco um ho­
mem" . Nós buscamos um que não seria um cínico abusivo.

51
O Biilho do InFe/icidade

Temos uma crise dos canalhas. Há uma crise ao nível dos


canalhas na civilização da ciência. Porém cuidado: o cínico e o cana­
lha não são a mesma coisa. São duas figuras opostas, ao menos na
definição de Lacan. Lacan tem uma definição muito precisa do
canalha, que não é uma figura do gozo. Ele chama de canalha a
posição de algu ém que tenta se fazer de Outro, que tenta dividir o
desejo e mandar no gozo do Outro. Por isso chama os filósofos,
por exemplo, de canalhas. Parece um pouco surpreendente, figuras
tão nobres. Lacan fala da canalhice filosófica e, às vezes, também
do mestre como canalha. Ou seja, aquele que tenta mandar no desejo,
aquele que diz fazer-se de Outro para - algu ém.
Há uma crise agora a respeito da sustentação dos canalhas;
eles necessitam do significante mestre para dirigir, para assegurar
seu poder de direção. E . uma vez que os ideais já não são consisten­
tes, há uma crise neste nível. Quando todos se tornam cínicos, é
difícil para os canalhas dominarem. Porque o cínico não se domina,
o cínico é dominado pelo seu próprio gozo.

Então o toxicômano tem em comum com o cínico sua


oposição ao regime generalizado do gozo fálico; ele é o elemento
de oposição, de objeção. O que mais há de comum entre o cínico e
o toxicômano? Não é o tipo de gozo. E é verdade que o horizonte
do toxicômano, o mestre último do toxicômano, é a morte. Um
gozo mortífero. Às vezes é possível descrever os estados produzi­
dos pela droga como paraísos. Seja ou não o inferno, de todo modo
inferno com algumas drogas ou paraíso com outras, o horizonte é
sempre a morte. Então é uma figura não somente destrutiva, como
também ameaçadora para o conjunto social.
Que posição pode tomar o psicanalista frente ao toxicô­
mano? Primeiro, não podemos dar uma resposta generalizada, posto
que o p sicanalista, a cada vez que a ele se pede uma resposta geral,
contes ta: "Oh!, vejo caso por caso, um por um". Assim, um por
um. . .

52
Co/ette So/er

No âmbito geral, não s�i se a civilização poderia esperar


muito do psican�lista no que diz respeito ao toxicômano. Isto por­
que a primeira idéia dos toxicômanos não é a de vir à análise quan­
do são toxicômanos decididos. Não é o caso de todos, seguramen­
te há casos de toxicomanias transitórias. Mas também porque a
análise consiste em analisar e não retificar o gozo em sua orientação
fundamental. O que torna complexa esta afirmação é que o analisante,
isso se modifica. É um fato. Então analisando-o, se o modifica. Só
que se o modifica sem que se saiba antecipadamente em que dire­
ção se vai modificar e o que acontecerá na saída, ou seja, não há
previsão possível. Por isso digo que a civilização não pode esperar
muito do dis curso analítico. E se vê que esta não conta muito com
o psicanalista. Conta antes com a Metadona, para que possa ter um
resultado. Detenho-me com estas observações.

N OTAS

1 . Conferência pronunciada em 25 de outubro de 1 994 no Seminário


do TyA "Psicanálise: uma clínica não-segregacionista".

* Tradução: Cláudia Henschel de Lima


O MAL-ESTAR NA CIDADE:
SEGREGAÇÃO E TOXICOMANIA

Cláudia Henschel de Lima


Correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise, Rio de Janeiro

Antonio José Alves Junior

''Qu 'eit-ce quiJait qui cet Autre eit Autre? Qu 'eit-ce quifait qu 'on
/e hait dani ion être? C'eit la haine de lajouiliance de l'Autre -
qui eit même la forme la plui génerale que l'on puim donner de ce
raciime moderne te/ que noui /e vérifioni -, la haine de la façon
particuliêre dont l'Autrejouit [...] . La queition de la tolérance ou de
l'intolérance ne vüe pai du tout /e iujet de la icience ou dei droiti de
l'homme. Elle ie place à un autre ni1,eau, qui eit celui de la tolérance
ou de l'intolérance à lajoui11ance de l'Autre, de l'Autre en tant qu 'il
est foncicrement ce/ui qui me dérobe la mienne " Qacques-Alain
Miller, Extimité, apud. Zizek, 1 99J) .

1. Introdução

A escandalosa atualidade do texto de Jacques-Alain Miller


situa-se no fato de revelar a estrutura de um acontecimento próprio
de nossos dias e já antecipado por Lacan no final dos anos 1 960.
Trata-se da segregação. A tese que Lacan sustenta a respeito desse
fenômeno é a de que a segregação é o e feito do processo de unifi­
cação do gozo operado pelo saber científico, tal como ele compa­
rece no interior do discurso capitalista. Uma escrita mais precisa
desse discurso nos é oferecida pela fórmula que Lacan escreve uma
única vez, entre os anos de 1 972 e 1 977, nas Conferencia.r ltalianal".
O Brilho da InFeliddade

A partir da enunciação dessa tese e interrogando-nos acerca


do laço social con temporâneo - marcado pelo avanço do proces­
s o de globalização, como ponta-de-lança do capitalismo - é pos­
sível formular duas indagações: Como se apresenta, no s eio de nos­
sos dias, essa unificação? Em que medida a unificação do gozo
opera s obre o laço social con temporâneo? E em que sentido essa
operação se articula com o fenômeno da toxicomania que, em nos­
sos dias, já se trans formou em tema de relações internacionais?

A definição dominante, hegemónica e de cunho liberal, da


globalização defende a utopia universalizan te. De acordo com tal
perspectiva, a globalização traria em si mesma a pos sibilidade do
melting pot, ou seja, do bom convívio com a diferença. Assim, no
mundo globalizado, terminologias como united colors ef the world ou
1vor/d music manifestariam o otimismo que cerca o melting pot. Mas
que isso não nos engane. Um exemplo que denuncia a impossibili­
dade do meltingpot e, conseqüentemente, o laço entre a uniformiza­
ção e a segregação, encontra- se presente no conteúdo de uma notí­
cia extraída de um importante j ornal americano. Na primavera de
1 994, o periódico The Washington Post noticiou a eclosão de uma
atitude s egregacionista no espaço universitário norte-americano. O s
estudantes universitários reivindicaram uma repartição d o território,
através da cons trução de um alojamento sep arado para cada co­
munidade. Assim, negros, hispanos, asiáticos, gays, lésbicas, wasp e
muçulmanos, defendiam o agrupamento em aldeias distintas e se­
paradas (Guillebaud, 1 997) .

O motivo que fundamentou tal reivindicação foi bas tante


preciso: havia um pro fundo sentimento de repugnância por parte
dos estudantes de cruzar com os diferentes grupos p elo anfiteatro

56
C/áll({ia Henschel de Lima & A 11to11io José Alves ]1111ior

ou pelo estádio da Universidade. Essa reivindicação não foi realiza­


da através do uso da violência, ou através de discursos inflamados
ou politicamente incorretos. Ao contrário, foi marcada pelo pacifis­
mo. Trata-se de um ato de segregação voluntária, cuja aparição não
foi justificada por qualquer explosão de violência direcionada aos
diferentes grupos que habitavam o espaço universitário. Como uma
tentativa de revelar e res olver a pre s ença, no s eio da u topia
universalizante de nossos dias, do insuportável que ronda a relação
com o próxi.tno, os estudantes recusavam pacificamente o melting
pot, ou s ej a, o princípio fundador d o s o n h o americano da
globalização. O registro jornalístico desse acontecimento revela o
novo status que o apartheid assume no interior de nossa época. Ele
não se constitui como uma exceção à utopia universalizante da
globalização. Comparecendo em todas as partes em que ardem as
chamas da globalização, o apartheid é a forma de se tratar as diferen­
ças relativas aos modos de gozar. Renascimento dos paa:iotismos
de principado, de micro-nações ou províncias, recrudescimento do
fundamentalismo no seio das grandes cidades são acontecimentos
que se encontram na ordem do dia da globalização.
Diferentemente da interpretação hegemônica, que apresen­
ta a globalização como uma solução derradeira para o problema
das explosões segregacionis tas, os acontecimen tos citados acima
demonstram a pertinência da manutenção da tese lacaniana - a de
que a segregação é um fenômeno articulado ao discurso capitalista
- e que, neste trabalho, fundamentá nossa primeira hipótese. Sen­
do o capitalismo, em nossos dias, definido pela utopia universalizante
da globalização, defende-se que o laço social que o acompanha é a
segregação. Esta hipótese é importante para · o presente trabalho
precisamente porque, ao se apoiar na tese lacaniana, traz à luz de
nossos dias um ponto crucial do texto freudiano "O mal-es tar na
civilização" (1 930) . Trata-se da função que o estupefaciente assume
diante da mais inevitável fonte de sofrimento humano: a relação

57
O Brilho da I11Felicidade

com o próximo. A droga seria uma resposta ao mal-estar oriundo


da impossibilidade de realizar o mandamento cristão do amor ao
próximo. Sendo assim, a segunda hipótese deste trabalho é que a
toxicomania é um fenômeno segregacionista, cuja formalização é a
segregafãO do outro.

2. Globalização e Segregação

Nos anos 1 980, com a ascensão de Thatcher e Reagan e a


implementação de políticas liberais, os EUA e a Inglaterra deram
um forte impuls o ao proces so de globalização. A interpretação
hegemônica sustenta que a revolução tecnológica - em especial
nas comunicações e processamento de infórmações - encontra-se
no cerne deste processo. Segundo esta perspectiva, ela induziu a
aceleração dos fluxos de mercadorias e de capitais em escala mun­
dial, aumentando a integração entre os países e gerando progressi­
vamente uma economia cada vez mais interdependente. Este pro­
cesso, marcado por uma absoluta impessoalidade, teria como agente
as empresas multinacionais, cujos interesses crescentemente passari­
am a diferir e até mesmo conflitar com os interesses estatais - que
em tese subordinariam objetivos econômicos ao fortalecimento do
Estado-nacional.
Ainda na linha argumentativa da concepção hegemônica,
esse conflito é inviável frente ao poder das grandes corporações,
precisamente em função das implacáveis forças de mercado que
provocariam o esvaziamento progressivo do poder dos Estados­
nacionais. Nessa perspectiva, o papel dos governos estaria muito
mais próximo dos assuntos internacionais, devendo restringir-se
basicamente à provisão das condições necessárias ao funcionamen­
to pleno de mercados livres e competitivos. O que inclui a defesa de
uma ordem internacional - como é o caso recente da proposta
americana de repressão ao tráfico de drogas -, a proteção dos

58
Cláudia Henschel de Uma & Antonio José Alves Junior

direitos de propriedade, a limitação da formação de grupos eco­


nômicos com excessivo poder de mercado e a garantia de estabili­
dade da economia como um todo. Essa redefinição do papel do
Es tado, em direção a um modelo liberal, garantiria, em última ins­
tância, que os benefícios de uma economia de livre competição se
difundissem para todos os povos. Dito de outro modo: "If uni­
versal free trade were to exist, all countries would enj oy the highest
level of utility and there would be no economic basis for internacional
conflict and war" (Frieden & Lake, 1 997, p. 1 1) .

A concepção hegemônica d a globalização reforça o impé­


rio da lógica do mercado no discurso capitalis ta. É a época das
cifras, da especulação financeira - da síndrome das loterias e do
livro dos recordes - que apresentadas em seu estado bruto mani­
fes tam o espírito de nossos dias : o espírito da magia dos números,
da utopia universalizante que ign ora a diferença dos modos de
gozo. Registros que res saltam a exorbitância dos salários dos exe­
cutivos e dos lucros em determinados setores econômicos são o
glamour de nossos dias.

Mas ao lado das façanhas financeiras - que se apresentam


como uma promessa de realização para todos os que aderirem às
regras do jogo da gl<;>balização - há o anúncio humilhante do número
de desempregados em função da crise no setor automobilístico, a ex­
pansão dos bolsões da fome, como é o caso do Nordeste brasileiro, o
aumento do número de homeles.r nos Estados Unidos. Estes são apenas
algun s dos contrastes que podemos citar como sendo paradigmáticos
da segregação, no interior de uma época reificada em torno do impe­
rativo universalizante do mercado. Diante dessa exposição de contras­
tes, uma pergunta se impõe: como é possível que a utopia universalizante
- e, quem sabe, unissex (Soller, 1 995) - dos mercados auto-regula­
dos e a produção de miséria e de segregação caminhem lado a lado? O
campo lacaniano, definido como sendo o campo do gozo (Lacan,
1 969-70), possibilita o estabelecimento de uma relação en/:te a utopia
uniformizante própria à globalização e a segregação.

59
O Brilho da InFelicidade

Testemunhamos, através da interpretação hegemônica da


globalização, o triunfo e o reinado do discurso capitalista em nossa
época. Verdadeira perversão do discurso do mestre, ele demonstra
seu império através da produção de objetos, de bens de consumo,
que se expandem pelo mercado, para além de qualquer fronteira ou
nacionalidade.
Entre 1972 e 1977, nas Conferências Italianas, Lacan escreve a
fórmula do discurso capitalista, operando uma torção da fração
esquerda da fórmula do discurso do mestre. Essa torção expressa
uma mudança no estatuto do gozo. Se no discurso do mestre há
uma relação de impossibilidade entre o sujeito e o objeto, no dis­
curso capitalista essa impossibilidade simplesmente desapareceu, con­
forme podemos depreender de sua escrita:

A pergunta que podemos formular a partir da situação do


gozo no discurso capitalista é a seguinte: haverá uma relação direta,
imediata entre o sujeito e o objeto? Encontrar um caminho que
possibilite a construção de uma resposta exige o próprio esclareci­
mento da função que o saber científico assume no interior do dis­
curso capitalista, já que, segundo a escrita da fórmula, ele é o res­
ponsável pela produção dos objetos técnicos.
No discurso capitalista, o sign ificante-mestre (S 1 ), está situa­
do no lugar da verdade, abaixo do lugar de agente, ocupado pelo
sujeito (J,) . No lugar da verdade, S 1 assume o caráter de valor, de
dinheiro. Nesta época da globalização - marcada pela hegemonia
da especulação financeira - a cifra, o dinheiro, sustenta por si só a
lógica do mercado. Situado abaixo do sujeito, ele manifesta a utopia
universalizante, imanente ao mercado, que ign ora a diferença entre

60
Clá11dio Hen.rchel de Uma & Anto11io José Alves ]1111ior

os modos de gozo. Assim, quando se direciona ao sujeito a pergun­


ta Quem é você?, obtém-se como resposta, uma cifra, ou seja, o seu
valor de mercado. Mas S 1 também incide diretamente sobre o lugar
do outro, ocupado, por sua vez pelo saber (Si). Essa incidência que
a fórmula escreve manifesta a relação entre o dinheiro em sua posi­
ção de verdade e o saber científico. Lecoeur (1995) caracteriza essa
incidência do dinheiro sobre o saber através da conjunção entre os
seguintes termos: (Saber)-Fazer-Dinheiro. Assim, trata-se de um saber
cuja via de sobrevivência no discurso capitalista não poderia deixar
de ser outra: ele está fundamentalmente voltado para a produção
de objetos, de gadgets que cumprem a função de assegu rar um gozo
para todos e, conseqüentemente, de assegurar a manutenção de zonas
nas quais o sujeito viva como todos os demais: todos consumindo
grifes, carros importados, notebooks e celulares. Nesta perspectiva,
cabe ainda indagarmo-nos pelo status do sujeito contemporâneo:
será que podemos sustentar sua divisão?
A promessa imanente à ideologia da globalização é a reali­
zação do se!f. a transparência do indivíduo que consome os gadgets
contemporâneos: objetos de brilho efêmero que se enfileiram nas
prateleiras do mercado como uma rede de existência, ofertando ao
sujeito a consistência de um indivíduo. Dessa forma, os gadgets reve­
lam a própria estrutura da globalização. Trata-se de produzir obje­
tos que saturem o mercado. Com efeito, sustentados na utopia
uniformizante, esses objetos visam realizar o impossível e, conse­
qüentemente, resolver a divisão subjetiva: o acesso ao gozo, ao bri­
lho do efêmero, a todos e por igual.
No império do mercado e da monotonia imanente à
homogeneização dos modos de gozo, a segregação não se constitui
como um fenômeno raro. E certamente devemos fazer retornar os
ecos da tese de Lacan (1967) que sustentava a expansão crescente
do processo de segregação. Acontecimento imanente - talvez, a
outra face da moeda da globalização - a segregação se apresenta

61
O Brilho da InFelicidade

como o furo, a dimensão do impossível, que condena a utopia


universalizante dos tempos do capitalismo. Se, por um lado, o fun­
damental da globalização é que o intercâmbio no mercado é me­
lhor do que a eclosão de uma guerra em nome de ideais, se a
globalização é a forma que o discurso capitalista encontrou para
prevenir a explosão de guerras, se ela é a resposta que o capitalismo
oferece aos impasses, obstáculos e sofrimentos oriundos da relação
com o próximo, por outro, a reivindicação - ainda que pacífica -
dos universitários em nome de alojamentos separados, o
renascimento de províncias ou as explosões de violência étnica e a
aparição dos homeless revelam a impossibilidade da realização da
utopia universalizante do capitalismo contemporâneo. Até o mo­
mento, pretendemos mostrar que a verdade crua e dura desta uto­
pia é a manutenção da miséria, o renascimento do nacionalismo, o
acirramento dos massacres étnicos, a divisão territorial de acordo
com a multiplicação de diferentes grupos e, enfon, o recrudesci­
mento de todas as modalidades de segregação que conhecemos no
capitalismo de nossos dias. Violenta ou pacífica, imposta ou volun­
tária, a . segregação define o laço social característico do funciona­
mento do capitalismo hoje. De acordo com o que afirmamos aci­
ma, ela é a outra face da moeda da globalização. Ora, o que o
campo lacaniano pode formular a respeito dessa conjunção? O
preço pago pela realização da utopia universalizante é a estratificação,
a ordenação, a hierarquização do campo social em guetos e grupos,
tendo como critério único e soberano um traço de gozo a mais.

3. Segregação e Toxicomania

A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós;proporcio­


na-nos muitos sefrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de
suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. Não pode­
mos passar sem construções auxiliares, diz-nos Theodor Fontaine "
(S. Freud, O mal-estar na civilização).

62
Cláudia Hensch,I de Lima & Antonio José Alves Junior

Quando Freud, em "O mal-estar na civilização" (1 930) ,


afirma que o sofrimento é uma experiência mais comum d o que a
felicidade, e aponta que, das três fontes de sofrimento, a relação
com o próximo é a mais diflcil de ser suportada, ele nos indica que
devemos buscar aí a expressão de um gozo, em si mesmo, ign ora­
do. Gozo cujo estatuto é o de ser o princípio de malignidade imanente
ao homem. Gozo malign o do qual nada se quer saber. Gozo que
ronda inexoravelmente o mundo capitalista enraizado na utopia da
universalização da felicidade. Mesmo diante desse estado de coisas,
é possível apostar no risco da relação com o próximo. Mas é pos­
sível também decidir pelo brilho das medidas paliativas. É nesse
segundo caminho que situamos a toxicomania.
A toxicomania apresenta-se como um fenômeno singular
no interior do discurso capitalista. Trata-se de uma figura do gozo,
que de um lado se coloca como uma via de obj eção à utopia
universalizante de nossos dias. E neste sentido caracteriza-se como
uma recusa a ingressar no gozo fálico que, em nossa época, compa­
rece na forma da competição social (Soller, 1 995) . Como êxtimo
em relação à lógica competitiva do mercado - que se manifesta
no imperativo de ser viril, de alçar uma carreira universitária a fim
de ter uma profissão, de ter cada vez mais dinheiro - o toxicôma­
no se recusa a assumir esses emblemas sociais. Mas, de outro, o
toxicômano é, a princípio, o consumidor ideal e permanente. Aquele
para o qual a especificidade da droga já não tem mais importância.
Em nome do acesso direto ao gozo, paga-se por qualquer coisa -
cocaína, pó de mármore com anfetamina ou, simplesmente, águ a
injetada. Nesse circuito, da ruptura artificial com o gozo fálico, da
segregação do outro, vale apenas o gozo que se obtém no corpo:
1 ve gotyou under my skin em detrimento de 1 can get no sati.rfattion ... but 1
try. E, diferentemente de uma concepção comum - que considera
que qualquer coisapode vidar: sefa o sexo, ofeijão ou a droga - o gozo que
se obtém no corpo não é o mesmo gozo que se extrai do consumo
dos bens do capitalismo, como é o cas o das griffes, automóveis,

63
O Brilho da InFelicidade

notebooks e celulares, cujo consumo ainda se sustenta no gozo fálico.


A partir do campo lacaniano, ou seja, a partir da herança que Lacan
nos deixou a respeito da teoria do gozo, é possível estabelecermos
a modalidade de gozo que está em jogo no fenômeno da toxico­
mania e sua especificidade no interior das estruturas clínicas.

Referências Bibliográficas

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Atuei, 1993.
CARN EIRO RIBEIRO, M. A. "Mesa redonda: A política da psicanálise".
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XXI. Rio de Janeiro, Imago, 1983.
FRIED EN, J.A. & LAKE, D. A. International Política/ Economy. London,
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1997.
LACAN, J. O Seminário, livro 1 7: o avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de
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____ . Conferências Italianas (1972 - 1977). Inédito.
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TARRAB, M. "La segregación dei Otro". Em Tya, S,yeto, gocey modernidad, III.
Op. cit.
ZI ZEK, S. L 'Intraitable: psychana(yse, politique et culture de masse. Paris,
Anthropos-Economica, 1993.

64
A NOMEAÇÃO E O RECURSO ÀS DRO GAS
OU A OPERAÇÃO DE NOMEAR NO
DISCURSO ANALÍTICO

Ernesto Sinatra
Membro da Escuela de la Orientación Lacaniana

1. Uma mãe carinhosa

O que acontece quando é o analista quem utiliza seu nome


de gozo para dirigir uma cura? O caso Ferenczi parece suficiente­
mente instrutivo a este respeito 1. Em sua biografia de Sigmund Freud,
Jones diz que Ferenczi, com sua técnica ativa, havia se trans formado
em um terapeuta que reduziu a psicanálise "a um agradável j ogo
entre mãe-filho" (1 953, p. 1 80) a tal ponto que freqüentemente os
papéis se intercambiavam em sua tentativa de "compensar a infeli­
cidade de seus pacientes" (ibid. , p. 1 79) .
A resposta de Freud não se fez esperar, foi epistolar:
'Já que lhe agrada desempenhar o papel de mãe carinhosa com os demais,
talvez vocêpossafazê-lo consigo mesmo. Neste caso, seu único remédio será
escutar uma brutal advertência paterna ... Não me acompanha a esperança
de causar-lhe nenhuma impressão. Em nossas refaçõesfalta a base necessá­
em
ria para taL . . Porém de minha parte, ao menos, fiz tudo o que pude
meu papel paterno. Agora cabe a você seguir a diante (Carta de 1 3 de
dezembro de 1 93 1 , ibid., p. 1 7 1 ) .
O Brilho da I11Felicidade

Na "Proposição de 9 de outubro de 1967", Jacques Lacan


alertou sobre a aberração de reduzir o final da análise à função da
identificação paterna, esta relacionada com "a constituição que Freud
deu às sociedades" (1967, p. 26) . Logo acrescentando que: "o pai
ideal, quer dizer, o pai morto, condiciona os limites nos quais perma­
necerá o desenrolar do processo analítico. Ele coagula a prática em
uma finalidade desde então impossível de articular e que obscurece
em um princípio o que se deve obter de uma psicanálise didática"
(ibid.)
A questão do pai com freqüência conduz os analistas a se
. confundirem com seus nomes de gozo. Pois, embora o nome de
gozo de "mãe carinhosa" que Freud "empresta" a Ferenczi tenha
toda sua pertinência, não é Ferenczi quem chega a construí-lo sob
transferência; trata-se de uma construção de Freud lançada fora do
discurso e que ele próprio considerava de antemão inútil: "Não me
acompanha a esperança de causar-lhe nenhuma impressão. Em nossas
relações falta a base necessária para tal".
Sua intervenção se acha fora do discurso analítico não por­
que este nome tenha sido proferido "fora da sessão"2, mas porque
o próprio Freud se nomeia com um nome de gozo singular (uma
advertência brutalmente paterna) que se torna complementar ao de
Ferenczi: fazendo existir por um instante. . . a relação sexual entre
uma "mãe carinhosa" e um "pai brutalmente admoestador".
Interpondo uma observação no melhor estilo dos condici­
onais contrafactuais, talvez tivesse sido diferente se, em uma sessão
de análise, Freud tivesse feito passar para o lado de Ferenczi o gozo
de "mãe carinhosa". Por exemplo, fazendo semb/ant disso e lhe di­
zendo algo corno: "Pobrezinho, está com frio? Deve se agasalhar
bem ao sair, para não adoecer" 3 •
Freud responde aqui com o semb/ant do pai denunciando
um nome de seu gozo, o do próprio Freud, no lugar de fazê-lo
com o semb/ant de gozo de seu analisante. Neste ultimo caso, o

66
Ernesto Sinatra

analista como função emprestaria sua pessoa à investidura do sinthoma,


com o que Freud 'se deu conta', ainda que tardiamente, que Ferenczi
estava prestes a identificar-se 'no final'.
Ressaltamos que se trata de uma ficção argumentativa a partir
do caso Freud-Ferenczi, já que Ferenczi não concluiu sua análise e
que a elaboração do nome de gozo com o que é suposto identifi­
car-se correu por conta do analista e não do analisante.
Recordamos assim que o sinthoma é o produto da análise na
orientação que um analisante empreendeu rumo ao Real, na junção
com o simbólico4 • Esta operação corresponde à nomeação analítica e
consis te no resultado final do procedimento.
Nos fragmentos de casos a seguir evidenciaremos tentati­
vas, êxitos e fracassos de alguns analisantes em nomear o gozo com
o qual se identificam, com a 'ajuda' de substâncias tóxicas.

2. 'Don Juan ': um nome transitório de gozo

A busca das drogas como veículo de sabedoria tinha leva­


do Juan ao precipício, literalmente. Um dia, bêbado, logo após ter
fumado maconha e cheirado, uma vez mais, quase uma lata inteira
de cola, decidiu chegar à janela "para enfrentar de vez a morte
invulnerável". Só a providencial presença de um amigo e compa­
nheiro de viagens evitou que caísse no vazio: ele o abraçou quando
já tinha perdido o equilíbrio.
Sua presença em · meu consultório não anunciava nada de
animador. Quase não falava, só o fazia por obrigação porque en­
tendia a desesperança de seus pais e estava ali frente a mim com sua
boca aberta e com suas frases monotemáticas já sabid�s. Estava claro
que as coisas eram assim: ele era seu próprio "crocodilo" e nós dois
sabíamos que se tivesse chance de fazê-lo, eu teria que bancar o "toco
apaziguador" (Lacan, 1 969-70, p. 1 1 8) 5 . Mas não havia muito tempo.

67
O Brilho da InFelicidade

A entrada foi através da literatura, Castaõeda e Os ensinamentos de


Don Juan, na verdade seu único livro de referência, livro no qual a droga
toma um valor iniciático ao ser introduzida pelo xamã, Don Juan.

O problema é localizado: o curto-circuito de gozo no cor­


po que o toxicômano procura na substância estava, neste caso, asse­
gurado por um sujeito suposto saber ... gozar. Para Juan, todo seu
consumo era filtrado através dali, pela transcendência que obteria
com esse caminho. Compreendi então que esse era também meu
único acesso a sua intimidade; por isso, com extrema paciência,
escutei seus relatos, aqueles que começou a soltar algu m tempo de­
pois que me dispus a escutá-lo.

Sua história familiar começou a tecer-se em torno de Don


Juan, do mesmo modo que suas relações com seus amigos e suas
desventuras com as mulheres. Este Don Juan moderno, para seguir
a lógica dos tempos, não estava certo de não ser homossexual e
temia tanto as mulheres que quase não podia se aproximar delas.
Havia tentado inicialmente, fazendo uso de álcool e de maconha,
algumas vezes também com cocaína. Logo, já resign ado, se meteu
com a cola, quase levando-o ao ostracismo. Já quase não via seu s
amigos, não estudava, não trabalhava, apenas esperava algo de Don
Juan; mas cada vez mais eram menores suas expectativas de alcan ­
çar a viagem que o redimiria. Começou a trazer-me escritos que
denunciavam as dificuldades em suas "viagens": suas cheiradas eram
cada vez piores - sua forma preferida de gozo - já que o tormento
de seus pensamentos ameaçava arrasar sua frágil estabilidade psíquica.

No decorrer de muitas ·entrevistas surgiu, para sua surpresa


- e também para minha -, um sonho que permitiu localizar uma
lembrança. Neste sonho, sua mãe, mulher rígida e distante, era bo­
nita e o convidava para fumar maconha, quando "de repente entra­
vam dois homens e a violavam". Tudo ocorria diante de Juan, de
seu desespero. Inclusive pareceu-lhe ver seu pai e seus dois irmãos
maiores chorando na cena.

68
Ernesto Sinatro

Há vários anos havia presenciado uma cena na qual seu pai,


veterano marido da garrafa, estava uma vez mais alcoolizado. Mas
desta vez, diferente das outras, não estava triste nem violento como
de costume. Além disso ·a mãe de Juan não estava com ele; seu pai
estava acompanhado de duas estranhas mulheres e um homem. Só­
depois, Juan qualificou o encontro como a "festa de meu velho
com duas putas e seu cafetão".
Na verdade, e sem que tenha notado, sua carreira tóxica
havia começado logo após aquela cena de ''pére-version", a partir da
qual começou seu interesse por Don Juan.
Só então começou a desmanchar-se sua relação tóxica com
o gozo, interpondo-se encadeâmentos simbólicos associativos que
Juan consumia lentamente, substituindo-os às substâncias. De mi­
nha parte, com silêncio e algumas pontuações, que sempre questio­
navam a certeza de gozo que queria me demonstrar, havia me trans­
formado em seu xamã.
Foram necessárias outras tantas sessões para localizar um
sonho que havia precedido exatamente sua passagem ao ato (a qual,
somente na elaboração onírica a que se dedicou, denominou de
"minha tentativa de suicídio''). Ele tinha "violentas" relações sexuais
com uma belíssima mulher que no sonho se chamava "a bruxa".
Ela gozava sem parar e ele, com ela. Ele estava assustado, mas
assim mesmo continuava gozando.
Sem querer saber nada mais, no dia segu inte atirou-se no
vazio, perseguido por uma voz que - só então lembrou - lhe
dizia: ''Mata-te... caso tu não mereças viver". Muito angustiado, pôde
observar que, antes de precipitar-se, ele tinha contado a seu amigo
drogado o sonho que havia tido e este lhe recordara, zombando,
que "bruxa" era o nome com o qual Juan tinha batizado a sua
própria mãe. Já quase solto no ar, embora o "parapeito" 6 fosse
insuficiente para segurá-lo, a arriscada manobra de seu amigo evi­
tou o desenlace mortal; só então pôde gritar: " Papai!... Papai!".

69
O Brilho da InFelicidade

Tendo alcançado este ponto, Juan se "descolou" da culpa


pelo gozo incestuos o (com "a bruxa") do tormento do pai do
gozo (o que o empurrava a morte) . Assim, Juan foi paulatinamente
perdendo o interes se tanto nas drogas - seu recurso inefável e
místico - como por aquele Don Juan - seu mito do pai, em
nome do qual "autorizava" seu consumo - até deixar que os dois
caíssem definitivamente.
A queda des ta figura do pai ideal que perturbou o gozo que
obtinha com a droga (em especial com a cola) ao mesmo tempo
des fez a identificação do sujeito com o traço de impotência -
alcoólica - do pai, figura do gozo do Outro que, trans formada
em "pai morto", o e1npurrava ao vazio.
Só então ele descobriu as ressonâncias "sexuais" que habi­
tavam seu nome de gozo eleito e se interrogou sobre o que era a
sua verdadeira preocupação: a relação com as mulheres 7 .Para Juan,
a partir de então, a análise se transformou em assunto sério.

3. As mutações de Gulliver

a) A substância do conrnmo. Um homem de meia idade veio a


consulta pelo que ele chamou de "suas adicções". Desde jovem,
tinha visto sua vida correr perigo em numerosos encontros com o
que chamou de seu "destino". Ao interrogá-lo, surge com clareza a
força de um eufemismo: dizia "des tino" em vez de "polícia". Após
um destes encontros em que escapara correndo pelos trilhos da
estrada de ferro, bêbado e drogado, após um ato delituoso, trope­
çou e caiu, salvando-se por acaso.
Sua vida de delitos iniciara-se aos 1 6 anos, época em que
começou a consumir freqüentemente todo tipo de subs tâncias tóxi­
cas : anfetaminas, cocaína, maconha, álcool... Dizia ter sido um
transgressor, e que se salvou casualmente de morrer arrebentado
pelas drogas. Finalmente confes sou que veio consultar-se por

70
Emesto Sinatra

imposição de sua esposa, que o ameaçara com a separação se não


recorresse ao tratamento.
b) O "esquecido ': sintoma. Nem bem iniciaram as entrevistas,
começou a localizar um problema que deslocou o motivo da con­
sulta: seus freqüentes esquecimentos. Ante perguntas que eu lhe for­
mulava - por sinal, óbvias - sobre datas e acontecimentos fami­
liares, nunca sabia o que responder. No extremo da angústia, um
dia manifestou-se surpreso com suas próprias palavras:· "Não lem­
bro nada, não tenho his tória!"
Depois de várias entrevistas voltou a essas perguntas, para
começar a situar, muito vagamente, os acontecimentos que marca­
ram sua vida.
Pas sado es te longo perí odo de entrevis tas em que as
rememorações surgiram de um modo prolífico, concluiu com uma
afirmação inesperada: "Não posso crer que tenha esquecido tantas
coisas que eu sabia!"
c) Um pregador do bem comum. No início de suas entrevistas
falava de seu pai como de um desconhecido; o acusava de não lhe
ter pres tado jamais atenção e de ser o verdadeiro responsável por
sua precoce· adicção às drogas. Pedro dizia ter necessitado dele, mas
que cada vez que o esperava, ele não estava; seu pai parecia ter
estado demasiado ocupado em predicar s obre o bem a seus seme­
lhantes. Era um líder de bairro, muito apreciado na comunidade,
que predicava especialmente não fumar e não tomar álcool; tentava
argumentar que o bem comum estaria garantido se as pessoas se
esforçassem em não cometer nenhum excesso.
Ainda que Pedro tratasse de lhe mostrar que fazia exata­
mente o contrário do que recomendava em suas prédicas, seu pai se
fazia de desentendido.
d) Não pensar em nada para que nada aconteça. O Outro, sem­
pre malign o, era representado por Pedro como um pai hipócrita

71
O Brilho da lnFelicidade

que, além disso, tinha um filho vagabundo (o próprio Pedro) que


constituía claramente seu avesso identificatório.
Entre idas e vindas, surgem nestas entrevistas, restos de re­
petidos sonhos de angústia, acompanhados por incompreensíveis
medos dos quais padecia desde criança. Até que, com extrema difi­
culdade, Pedro localiza uma frase pronunciada, e repetida, por seu
pai como resposta a tal insistência de seus padeceres: "Concentra-te
e pensa só nisto: que tens que pensar em nada. Assim nada irá acon­
tecer". Ele se abala. face à presença desta frase paradoxal, a qual
havia sido seu amuleto desde a infância. Cada vez que seus medos e
angústias de morte o perseguiam, ele apelava a este recurso paterno
para neutralizá-los. Este remédio o levava ao esquecimento, já que
tinha que pensar... em nada para que nada (lhe) sucedesse.
e) A fantasia do homem da faca. Foi então que uma fantasia
esquecida e que constituía o centro de seus terrores noturnos apare­
ceu em seu relato: um homem podia entrar em sua casa, especial­
mente à noite, e assassiná-lo com uma faca. Suas tentativas para
evitar esta morte (que antecipavam seus pesadelos e que mostravam
suas fantasias entre a vigília e o dormir), haviam se transformado
em uma terrível obsessão que o levou a efetuação de complicados
rituais, defesas secundárias contra a agressão tão temida.
f) A loucura de um pai mutante. Imediatamente, seguindo o
tênue fio de sua memória, surgiu uma lembrança fundamental: ti­
nha cinco anos e o pai, carinhoso e compreensivo com ele (de quem
era até este preciso dia o filho preferido), tornou-se um completo
estranho, um sujeito despótico que podia bater-lhe sem razão algu ­
ma. Neste momento não pode precisar por quê. Foram necessárias
ainda muitas entrevistas para chegar a situar outro acontecimento,
também absolutamente esquecido, e que precedeu a tal modifica­
ção de caráter: quando ele era pequeno seu pai tinha sido internado
num manicômio.

72
Ernesto Sinatra

A partir desse momento se apresentaram em sua memória


uma enorme série de lembranças que davam conta de seu descon­
certo frente à presença monstruosa de seu pai . Ele não sabia o que
tinha acontecido a seu pai, para mudar tão abruptamente seu modo
de ser: de bonachão e carinhoso a despótico e agressivo: "Ele se
transformou em um mutante". Teria sido a partir deste momento
(sem sabê-lo) que sua vida mudou: nunca mais seria o mesmo. O
medo da loucura ficou assim vinculado ao medo da morte.
g) O homem do cemitério. Neste momento surgiu uma nova
lembrança. Este homem, que parecia, segundo suas próprias pala­
vras, não ter história própria, tinha todavia um gosto muito singular.
Desde criança, quando podia, fugia e percorria os cemitérios: ali
contava as lápides segundo um ritual muito característico, finalizan­
do sua missão só quando encontrava uma tumba (sempre de um
desconhecido) que deveria ter inscrita uma data que superasse a
mais antiga que até esse momento tivesse encontrado em suas pere­
grinações anteriores. O adolescente que não tinha que o recordar,
exorcizava a morte deste modo.
h) Os nomes da droga. Finalmente foi possível precisar o se­
gredo de sua relação com as substâncias tóxicas. Ele pode situar a
correlação en tre o medo de sua loucura e o esquecimento da
internação de seu pai no manicômio. Os pesadelos que o assola­
vam desde criança, e que não cessavam, se iniciaram a partir do que
nem ele nem seu pai sabiam: a causa da loucura de seu pai 'exposta
dolorosamente'. Durante muito tempo guardou um saber sem sabê­
lo: sua crença de que a loucura do pai lhe havia sido transmitida
geneticamente. A frase aprendida ("Concentra-te e pensa só nisto:
que tens que pensar em nada. Assim nada irá acontecer") funcio­
nou, durante algum tempo, como uma defesa frente ao temido
gozo do Outro (condensado na fantasia do homem da faca). Foi
possível localizar duas versões antinômicas do pai. Enquanto uma
o aterroriza, a outra o tranqüiliza. Com uma responde (como defe­
sa) ante a ameaça da outra (que o invade).

73
O Brilho da I11Felicidade

Curiosamente, recordou então que, quando anos mais tar­


de recorreu aos tóxicos, os sonhos ameaçadores se detinham. Ou
seja, "drogar-se" e "embebedar-se" funcionavam também como
antídotos - paradoxais - da loucura. Com eles adormecia (mes­
mo que depois s e exaltasse) porque deste modo não pensava, outra
vez mais . . . em nada.
O medo da loucura também se lhe apresentou, desde cri­
ança, sob a forma de uma alucinação, que nunca antes havia conta­
do, precisamente pelo medo de ser encarcerado. . . como seu pai: via
os obj etos se distanciarem e diminuírem lentamente.
O tratamento que deu a esta nova forma de retorno "vin­
gativo" da identificação ao pai pode ser precisado no trabalho ana­
lítico a partir de um j ogo infantil, repetido até a exaustão) : ele era
Gulliver no país dos anões e fazia com que eles o respeitassem. Por meio
desta fantasia chegava a "dominar" as alucinações, mas ao cometer
certas crueldades c o n tra o s a n õ e s , o cas tigo lhe re torn av a
potencializado uma vez mais e m seus pesadelos e alucinações, en­
gordando o círculo vicioso do medo da loucura.
Res ta dizer o nome que ele dava as suas pequenas figura­
ções visuais: chamava-as de "alucinetas". Neste ponto se dá conta
do nome usual de uma das drogas que consumia: as "anfetas". Só
assim lernbra que começou a tomar an fetaminas para "ser mais
homem", ou seja, para manter-se desperto e lutar contra os pesade­
los que persistiam em sua adolescência. Quer dizer, para manter-se
no sonho da inação, no circuito marginal do dormir, assegurando
sua identidade sexual.
As lembranças permitiram então retornar sobre aquela cena
de s eus cinco anos, quando pela primeira vez teve a imagem des­
con trolada de seu pai, na ocasião - que só então pode deduzir ­
da primeira de suas internações. O pai estava em sua casa, tinha
tomado chá com uns amigos e de repente se dirigiu a ele e, sem
dizer-lhe nada, desferiu-lhe um soco. Ao interrogá-lo, respondeu

74
Ernesto Si11atra

sem hesitar: "O que bebeu o deixou louco", para pross eguir dizen­
do: "Eu devo ter pensado que no que tomou havia uma droga".

Finalmente, Pedro recordou que ele gozava de forma s e­


creta de um favor que supunha lhe ser concedido por sua condição
de homem: ser o preferido de sua mãe. Mãe que precisamente
gostava de denegrir o pai ante seus filhos.

O "tradicional" horror da ca s tração que cabe a todo filho


em relação a cada mãe, horror produzido pelo saber extraído de
seu posicionamento es trutural como s eu obj eto - impossível -
de satis fação, encontrou desta vez como resposta uma di-versão (di­
versión) do pai. Um pai que não pensa em nada e propõe não s aber
nada, "outro" pai que goza de seu filho, cas tigando-o de um modo
incompreensível.

Porém é n e c e s s ário des tacar que es tas versões foram


cons truídas a partir das fantasias de Pedro, o qual respondeu de
diferentes maneiras para tentar escapar de s eu "des tino" mortal.
Aqui se enlaçam a loucura e a morte em sua junção com a cas tração.

A labilidade simbólica de um indivíduo foi tratada sem mais


mediação pela direta incorporação de obj e tos da tecnologia. Por
es te meio, o valor de verdade das di ferentes identificações ao pai
eram ao mesmo tempo recusadas e mostradas.

Aparecia o papel que certas subs tâncias tóxicas cumprem


no preciso lugar do fracasso da identificação significante ao pai, ao
mesmo tempo que sus tentam a substância do esquecimento - aqui,
do gozo - com a qual protegem de um modo paradoxal o sujeito
das cons eqüências de seus atos. Tal é sua verdadeira condição de
homem moderno.

A carreira das drogas des envolveu- s e nes ta seqüência:


primeiro álcool, logo tranqüiliz ant e s , depois "an fe tas " e final­
mente cocaín a . D e s s e mo do se e s tabelece um circuito dividido
em duas fases aparentemente opos tas, embora complemen tares.

75
O Brilho da InFelit:idade

Com o álcool e os comprimidos para dormir tentou des fazer-se


do gozo do pensamento, ao pas so que com as an fetaminas e a
cocaína, tentou tratar sua - lábil - posição sexual.
O pensamento dele goza fazendo existir um pai-assassino,
enquan to com o pensamento tenta não pensar em nada, em que lhe
vai acontecer. . . nada.
Precisamente isso foi o que havia feito com sua vida: tentar
seguir a vida como um homem "normal", sem sobressaltos. Po­
rém foram os tormentos de seu pensamento que se infiltravam
entre o s interstícios de sua "adaptação ao meio" (adaptação exigida
por sua mulher) que verdadeiramente o conduziram a encontrar-se
com um analista.

4. As bandeiras do kamikaze
Um homem chega à consulta dizendo "encarnar as forças
do mal" além de se apresentar com evidentes contusões e feridas.
Seu motivo de consulta é bastante razoável: quer seguir vivendo,
mas não está certo de poder fazê-lo. Afirma que não pode deixar
de fazer certas "coisas" que lhe causam cada vez mais dificuldades.
Seu pacto com a morte adquiria renovadas formas: com as
subs tâncias tóxicas que empregava, até extremos de freqüentes
overdoses; com a angústia que provocava em suas parceiras, amea­
çando-as até o ápice de suas resistências; oferecendo-se para ser
espancado de forma selvagem, vez por outra, até extremos nos
quais sua vida sempre dependia do acaso de sua resistência física.
Não pode deixar de tomar álcool para ter a coragem que
necessita, nem abandonar as drogas que consome, sobretudo a co­
caína e que habitualmente combina com seus "drinques". Seu discur­
so é elíptico, de dificil alcance e pleno de alusões, enquanto espera de
mim uma cumplicidade de sentido, a qual naturalmente recuso. Eu
lhe formulo então sucessivas perguntas, demons trando minha ig­
norância a respeito dos sintagmas fixos, com os quais pretende

76
Ernesto Sinatra

sustentar o diálogo, a maioria deles extraído da cultura analítica. Ao


colocar-me nesta posição, começa a falar não sem resistências, de
sua "consumição", significante que se encontrará a posteriori ligado
à uma seqüência que circunscreverá sua � condições de gozo em seus
encontros com as mulheres, a partir de oito momentos repetidos
de modo sucessivo sem alteração de seu caráter ordinal. Eu os
enumerarei: 1 . Sedução; 2. Enamoramento; 3. Desprezo; 4. Coerção;
5. Terror; 6. Arrependimento; 7. Entrega; 8. Humilhação.
Mas, uma vez isolado o circuito no qual o dito sujeito
condensava sua satisfação, e precisamente quando parecia encontrar-se
em posição de reconhecer-se nele a partir do significante "consumição"
( que ligava à coação exercida sobre o outro, ao sofrimento de sua
existência com as ingestas tóxicas), o entrevistado adotou um último
recurso: tentar coagir uma mulher que o havia abandonado por sua
crueldade - uma vez mais - para que ela retomasse para ele através
de uma criança a qual havia instruído para "adulá-la". Esta mulher era
estéril e ele sabia o impacto que exercia sobre ela este recurso.
Foi neste momento que decidi suspender as entrevistas, fa­
zendo-lhe saber porque razões não lhe daria entrada em análise: ele
pretendia mais uma vez rechaçar sua responsabilidade com respeito
aos atos que realizava em sua vida, utilizando qualquer recurso para
conseguí-lo. Na posição analítica não podia - nem devia - revalidar
essa falta de ética.
Consumir ou ser consumido, tal é o véu com o qual se desenro­
lava, neste sujeito, uma fantasia de vampirismo. Por este viés, era
comum que, ao oferecer-se como instrumento do gozo do Outro,
ele passasse a se trans formar no Outro propriamente dito. Querer ser
o Outro e deixar que o outro, seu semelhante, finalmente se sacrifi­
que por ele, denuncia, por este viés, sua canalhice: um "bem apete­
cível", também do perverso. Por fim, quer dizer, assim que lhe foi
comunicada a interrupção das entrevistas entregou a "verdade" de
seu nome de gozo: "Eu sou as bandeiras do kamikaze; o problema
é como entregar esse produto a outro".

77
O Brilho da lnFelicidade

NOTAS

1 . Retomo neste ponto considerações desenvolvidas no artigo "Sobre o


autor e a nominação" (1990) .
2. Lembremos que já fa zia um bom tempo que Ferenczi não estava em
análise com Freud.
3. Luminosa observação de Susana Toté.
4. Re tomo aqui um desenvolvimento do último capítulo do livro A
racio11alidade da pncanálise (1996), ''.A Escola de Jacques Lacan e suas garantias".
5. N. do T. No original, "paio apaziguador'. Para os comentários de Lacan a
respeito, cf. p. 1 05 da edição brasileira do Seminário, livro 1 7.
6. N. do T. No original, "paio de piedrd'. Referência também ao "paio apazigua­
dor'; cf. nota 5. Observamos que em castelhano, "paio" pode significar um
dano ou injúria que se faz por desconhecimento ou por precipitação, como
também forma a tradução do provérbio de origem francesa "de tal paio, tal
astilla", "de tal pai, tal filho".
7. Preocupação que, com o apelativo de Don Juan, ao mesmo tempo mostra­
va e dissimulava.

*Tradução: Lenita Bentes

Referências bibliográficas:

JONES, E. Vida y obra de Sigmund Freud; Tomo 3 ( 1 953) . Buenos Aires,


Paidós, 1986.
LACAN, J. "Proposición dei 9 de octobre de 1967 (1 '. Versión)", Ornicar?, 1987.
----· Semi11ano XVH: EI reverso dei psicoanálisis. Buenos Aires, Paidós, 1990.
SINATRA, E. La racionalidad dei psicoa11álins. La Paz, Plural Editores, 1 996.
-----· "Sobre el autor y la nominación", Descartes, n. 8/9, 1990.

78
O ATO DE CONSUMIR DROGAS E
A REALIDADE VIRTUAL

Célio Garcia
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

Un deal est une transaction commerr:iale portant s11r des v�leurs


prohibées ou strictement contrôlées, et qui se cone/ui, dans des espaces
neutres, indéfinis et non prévus à cet usage, entre pourvqyeurs et
quémandeurs, par entente tacite, signes ,·onventio11nels 011 conversation
à double sens (Koltes, 1 986).

A · Filosofia

A filosofia se ocupa habitualmente com o pensamento; a


psicanálise por seu turno se mostrará interessada no pensamento
como sucedâneo do ato. Para a psicanálise, não há antinomia entre
pensamento e ação.
Coube à filosofia discutir sobre a anterioridade do ato frente
à potência, sobre o ser potencial e o ser atual. Para Aristóteles, o
movimento vem a ser atividade do ser como potência; o movi:­
mento é uma mediação entre a potência e o ato, graças a ele se
realiza o que se encontra em estado virtual no ser.
Contemporâneo nosso, Austin (1 962) introduziu a catego­
ria dos enunciados performativos. Dizer um desses enunciados é
ao mesmo tempo realizar um ato sem outro tipo de ação ou movi­
mento além de dizê-lo. "Eu prometo. . . " implica prometer pelo sim­
ples fato de dizê-lo.
Veremos logo abaixo um tratamento especial que o pró­
prio deu à mesma questão.
O Brilho da lnFeliddade

A Psicologia

A psicologia moderna entende o ato como sendo um re­


sultado, conseqüência de uma escolha racional, por exemplo. A teo­
ria organizacional prevê uma série de ações, eventualmente encadeadas
em função de um fluxo, de um organograma. Ao final da cadeia,
temos um "out puf'.
É bem verdade que há um "starf'; operação normalmente
dissimulada, ela dá impulso ao sistema. Veremos que ela é uma
promessa de satisfação, repartição de prazer, anúncio de recom­
pensa: se você for até o final da cadeia, encontrará o que procura.
As ações parcializadas raramente podem estar sob a responsabili­
dade de algu ém; a rigor, o bom administrador delega.
Curioso e paradoxal: para a psicanálise, o responsável pelo
ato é o sujeito, ele mesmo, por sua vez, efeito do ato. Para a psico­
logia, antes do ato o sujeito pode se considerar culpado, mas não
responsável. Responsável é aquele que responde pelo ato que reali­
zou, não pelo que ele imaginou.
Freud e Lacan, no entanto, apontaram para o crime quan­
do cometido por força de consciência de culpabilidade. Aqui culpa
e responsabilidade estão confundidas.
Austin nos deu igualmente uma teoria do que chamou
"infeliciry'' do ato, ou seja, quando o ato performativo é malogrado
ou resulta em abuso. Traduziremos "infeliciry'' por "infortúnio". Logo,
tiraremos partido da tradução quando percebermos que o termo
"infortúnio" contém fortuna, ou ainda o termo grego "tukt'. lnfortú-
· nio corresponde a desencontro, ou encontro marcado/de�marcado.
Chamamos de "infortúnio" do ato em psicanálise o efeito
produzido no real, produção esta sem qualquer significação que a
ela devesse ser atribuída; só sabemos que algo não anda bem. O
"acting-out' é o mais instrutivo dos infortúnios do ato para a psica-
Célio Gordo

nálise, verdadeira advertência para o analista, evidência de um resto


que o analista há de encarnar, devando-o à função de causa do desejo.
No "acting-ou!' o que se diz não é sujeito, mas verdade, dirá Lacan.

Escolha racional e escolha forçada

O termo escolha racional é encontrado na atual "teoria da


ação" elaborada pela filosofia analítica (Elster, 1983), orientação
mais freqüentemente encontrada na literatura de língua inglesa. Já o
termo escolha forçada é proveniente de referências psicanalíticas.
Haveria lugar para aproximação entre resultados e posições prove­
nientes de uma e outra orientações, considerando-se que temos na
referência aqui trazida contribuições e campos de trabalho inicial­
mente distantes?
O problema da escolha é encontrado ao longo da história
da filosofia; ele nos interessa especialmente quando temos em cena
dois argumentos para a escolha, a saber, a causalidade fisica e a
causalidade psíquica. Nem sempre os dois tipos de causalidade es­
tiveram separadas; terá sido Kant (1781) quem estabeleceu o caráter
segregativo assumido em nossa modernidade por essa questão.
Garantida essa repartição, estabelecia-se a ciência tal como a conhe­
cemos: para fazer valer o princípio de razão, mostrava-se ela ciosa
em restringir o mecanismo entre causa e efeito ao que fosse atinente
à realidade fisica.
Em Aristóteles a separação não fica estabelecida; a questão
trazida em termos de "automaton" e "tukê' não separa a causalidade
natural física de uma causalidade ligada à psique ou à liberdade.
Não há distinção entre uma causalidade necessária e uma causalida­
de livre. Todavia encontramos claramente posto em Aristóteles o
problema que nos interessa ao examinarmos escolha forçada x es­
colha racional: como seria possível agir contra melhorjuízo?

81
O Brilho da lnFelicidade

A "akrasia" (termo de Aristóteles) coloca um problema


para uma teoria da escolha racional. Frente a este problema, de um
lado, encontramos a orientação intelectualista; de outro, as teorias
fundadas sobre o desejo, anti-intectualistas por conseguinte. Já se
anuncia o lugar onde terá a filosofia analítica reencontrado, eventu­
almente mencionado, a psicanálise. I gualmente veremos mais adian­
te como a referência a Aristóteles pode nos ajudar a explicitar o que
está em jogo na atual teoria da ação.
Podemos encontrar atualmente uma teoria da racionalidade
que não exige unidade do sujeito, quase sempre por demais ideali­
zada, nem integração da experiência individual. Essa teoria da
racionalidade diz: "Nem tudo o que as pessoas fazem coincide com
crenças e desejos esposados, nem tudo o que as pessoas concebem
ou executam tem resultado apropriado". Não fica estipu,lado que
todas as ações e crenças devem ser racionais no sentido de resulta­
do apropriado para o interessado, ou seja, quando o agente pensa
que seus desejos serão satisfeitos.
Resumindo, tanto uma racionalidade ideal quanto uma
racionalidade nula parecem pouco prováveis. Os casos de violação
estarão contidos na expressão "no! too ma,ry", critério para essa
racionalidade mínima. Por conseguinte, trata-se de uma tese a ser
verificada ao nível de cada um, e não ao nível do universal. A esco­
lha racional mobiliza, pois, crenças trazidas pelas percepções, dese­
jos ligados a fins e necessidades, tudo isso resultando no comporta­
mento. Há finalmente uma estrutura semântica que dá conta de ex­
pressar a escolha em questão.
A condição de segregação por parte da ciência - já encon­
trada por nós, quando marcamos o divisor de águas a partir Kant -
será instaurada e mantida em se tratando da psique, quando as ciências
da cognição, por demais comprometidas com as · neurociências, blo­
quearem a aproximação que tentamos nesta nota. A partir de então, a
causalidade fisica se impõe como mecanismo necessário e suficiente.

82
Célio Garcia

Tomaremos um caso de atualidade. Como seria possível


ao drogadito agir contra melhor juízo, perseverando no consumo
da droga? Como considerar 'O ato de consumir drogas?

Psicanálise e toxicomania
A psicanálise tem a ver com o sujeito uma vez que _ este se
inscreve na função fálica. No tratamento de toxicômanos, é habitual
falarmos de privação e não de cas tração. Se o suj eito de que fala a
psicanálise está articulado com o falo, e ainda assim preferimos falar
em privação, temos que jus tificar o critério adotado na abordagem
da toxicomania (Miller, 1 983) .
A respos ta seria: o uso e abuso d a substancia tóxica obstrui
o passagem para que se tenha acesso ao problema sexual. A toxico­
mania apresenta, pois, caracterís ticas sobre as quais os efeitos de
verdade não têm vez. Pretender convencer um usuário de que ele
pode abandonar a droga, convencê-lo pela palavra que diz a verda­
de sobre a cas tração, parece colocar o carro na frente dos bois; o
abandono da droga ou o uso como símbolo privilegiado seriam
condição para a cura analítica (Zafiropoulos & Delrieu, 1 996) . No
entanto, temos que entender que o uso da droga pode levar a uma
experiência, autêntica experiência para o sujeito.
Por seu lado, a psicanálise assinala que alguma coisa se opõe
à entrada em analise por parte do usuário de droga; trata-se pois de
uma afirmação que nega, trata-se de um saber negativo. Em psica­
nálise, sabemos, estamos interessados na questão da relação da dro­
ga (ou da coisa) com o sujeito.

A droga e o corpo do drogadito


Aqui o procedimento segregativo da ciência tem efeito no­
tável; como sabemos, não nos diz a ciência como distinguir entre o
tóxico, droga de _que faz uso o drogadito e o caráter tóxico de uma

83
O Brilho da lnFelicidade

substância. O corpo do drogadito onde se dá o prazer e o corpo


sobre o qual age a droga química ficam confundidos. A abolição de
uma dimensão resulta numa descontinuidade evidenciada por oca­
sião de posicionamento frente ao grande Outro, nos seguintes ter­
mos: o usuário da droga se reporta ao Outro, alteridade marcada
pela descontinuidade, com a qual ele só mantém algum comércio se
mediado pela ciência segregativa. Interessante lembrar que Freud
teria incorrido no mesmo gesto quando esperava que o conteúdo
tóxico da libido fosse um dia estabelecido; estariam assim confun­
didos o corpo libidinoso e o corpo onde atuaria a química da libi­
do. O uso da droga associado ao ambiente "belle époque", o en­
cantamento laudatório de drogas e os produtos disponíveis no
mercado como o vinho Mariani à base de coca fizeram com que
Freud, de início, não mantivesse no caso da cocaína a mesma dis­
tância frente ao objeto de estudo e à observação, como foi notori­
amente o caso em outras ocasiões.
Em 188 7, quando Freud, ao reavaliar os efeitos da cocaína,
admite voltar atrás e não insiste na inocuidade da droga, estava ele
se alinhando a postura recém-adotada pelas últimas publicações ci­
entíficas, uma delas em tom nitidamente de antecipação, quase pro­
fético, 1nencionava o "terceiro flagelo da humanidade".
No entanto Freud nos deixa um testemunho extraordiná­
rio de participação e presença em aspectos de sua época. Longe do
"furor sanandt" da medicina, teve ele outra postura frente ao que já
era objeto de interpretação fóbica por parte dos médicos. Cientista,
teria ele descoberto os efeitos da droga para fins de anestesia local;
de fato, teve que atribuir a façanha a Koller. "Drogmarl ' (Eigu esyer,
1983), isto é, intérprete de produções oníricas e presságios, sentido
em que Eyguesier usa o termo, o sonho de Irma (datado de 1895,
data em que Freud utilizou cocaína) fez que com a psicanálise en­
contrasse sua lingu agem, seus códigos. Afinal, terá sido a questão da
droga como artifício do que lança o homem na decifração de seu
destino, inspiradora de dispositivo que viria a ser a psicanálise!

84
Célio Garcia

Afinal, esta a questão que trazemos: de fato, o uso de droga


tem sido apresentado como experiência autêntica por parte de ini­
ciados (Leary, 1979). No caso, a autenticidade certamente resulta no
reencontro da dimensão abolida pela ciência segregativa. Sabemos
que a referida autenticidade não isenta o usuário dos efeitos do
discurso da ciência em que o drogadito reconstrói abusivamente a
dimensão (abolida) e que diz respeito ao corpo do sujeito. O cor­
po do drogadito é ao mesmo tempo o laboratório onde ele realiza
as experiências "científicas" e o corpo onde se dá o prazer; basta
atentar para a segurança com que falam sobre as próprias experi­
ências. Só ele sabe o que acontece!
Tudo isso na tentativa de sup rir a descontinuidade
segregativa operada pela ciência; ele dá continuidade ao que havia
sido interrompido pelo discurso da ciência. A estrutura semântica a
que fizemos alusão em se tratando da teoria da ação encontra aqui
guarida; basta que a ela se dê o tratamento adequado, ou seja, uma
teoria do sentido que não esteja na dependência da segregação im­
posta pelo procedimento da ciência. Há escolha por parte do usu­
ário, escolha racional até certo ponto ("not too maf!i' foi a expressão
encontrada na literatura de língua inglesa); há escolha forçada diria a
psicanálise, j á que a droga substitui o sintoma habitual (veja-se efeito
de liberação quanto a inibições, tantas vezes ocasião de testemu­
nhos). A toxicomania acode a fim de se evitarem os efeitos da volta
do recalcado, já que o sintoma representa esse recalcado.
Eis a liberdade humana, ela se manifesta quando não visa­
mos tão somente a causalidade física mantida pela ciência segregativa.
A liberdade é a escolha forçada da Psicapálise, na própria medida
em que esta escolha pode ser considerada uma escolha racional,
desde que seja restabelecida a dimensão abolida pela ciência. Esco­
lha, ela envolve causa, mas igualmente consentimento.

85
O Biilho da lnFelicidade

Novas formas do sintoma

"Novas formas do sintoma" é um termo freqüente em


nossa atualidade. "Um certo tipo de paciente" é mencionado quan­
do constatamos um desaparecimento da supremacia do simbólico; o
referido processo teria como conseqüência, entre outras, uma mo­
dificação da noção de estrutura clínica, o que nos leva a uma redefinição
do sintoma. Há nos 'termos grifados disponibilidade para encarar o
consumo de drogas sem que o saber adquirido nos impeça uma
abordagem inovadora.
Abordaremos a última parte da presente nota, ao propor
uma saída, senão uma solução para os pontos apontados.

Realidade virtual

Em paralelo com o uso do tóxico, a realidade virtual tem


sido considerada como uma situação propiciadora de prazer de
alcance incalculável e efeitos ainda não bem avaliados (Burdea &
Coiffet, 1 993).
Certas patologias atuais, entre elas a toxicomania e/ ou ou­
tras modalidades de subjetivação, parecem manipular im agens que
dão acesso ao gozo diretamente ancorado em cada movimento ou
escansão, sem que qualquer pretensão ao sentido sintomático venha
a se cristalizar. Ess.a observação me levou a pesquisar a produção
de imagens sintéticas, a profusão de imagens e a extraordinária ex­
perimentação propiciadas pelo cinema, pela Tv, pelo vídeo, mon­
tagens cada vez mais liberadas de códigos consagrados, ao que pa­
rece criando novas condições de modelização do sujeito e do mun­
do. A tal ponto que a linguagem do vídeo pôde ser identificada
como uma nova modalidade para a qual a realidade não é mais
problema. Chegamos finalmente à chamada realidade virtual a qual,
nos é dito, não se opõe ao real, mas sim aos ideais de verdade. A

86
Célio Garcia

realidade virtual abala nossa relação tradicional com o mundo das


imagens; a era das imagens e da representação cede lugar para o
"tempo do visual" e o tátil. Seria o caso de apontarmos para uma
ruptura nos modos de representação do mundo? O que seria o
"tempo do visual"?
Nova forma de escrita, a realidade virtual faz com que as
imagens precedam o real ao fazer existir o que nunca foi, ao dar
corpo ao que poderá ser. Já que não podemos reduzir a realidade
virtual a um espetáculo (reprodução), ela será dita "escrita do real"
(Quéau, 1994).
O virtual, não sendo tampouco o contrário do real, o si­
mulacro, não bastaria como parâmetro para dis cutir a questão. Nem
podemos nos contentar em denunciar o simulacro, pretendendo
com isso haver solucionado o problema.
Cientistas e industriais já se apoderam do novo artefato,
colocando-o a serviço de métodos de simulação, técnicas para a
formação e treinamento em cirurgia, criação de lugares de encon­
tro (sexual) e comunicação entre humanos. O ciberespaço é citado
como um substituto positivo da droga, ainda que também possa
levar numerosos adeptos a se tornarem dependentes dessa nova
droga.

Por outro lado, como o prazer sexual é fundamentalmente


ligado aos sentidos, é evidente que os investimentos industriais na
área buscam a "mídia" que possa atingir o corpo por inteiro, dando
ao participante a ilusão de estar num mundo real em companhia de
parceiros até então somente sonhados. Por exemplo, já existe o ter­
mo "cibersexo".

O sujei.to que "opera" e a construção de imagens sintéticas

A construção de imagens graças à chamada síntese numéri­


ca opera ponto por ponto, a cada ponto sendo atribuído um valor

87
O Brilho do InFelicidode

numérico logo traduzido na linguagem binária do computador; ten­


do-se como referência o eixo das coordenadas cartesianas, a cons­
trução se faz a partir da bi-climensionalidade. As imagens sintéticas
subvertem a teoria da percepção como modelo técnico de conhe­
cimento ou como visão obj etiva do ser: Com efeito, a imagem
sintética já não imita a coisa em si; a determinação de um cálculo
s endo o bas tante, as imperfeições já não são deformações com
relação ao modelo. Um tal dispositivo já não exige uma co-presen­
ça da coi sa, do olho e da imagem, no espaço de tempo ideal conce­
dido para a tomada de vista. A síntese numérica já não reduz o
sujeito ao ponto geométrico do olho, nem permite ao utilizador
identificar-se com o ponto de vista transcendental do Criador.
Se não há lugar para o · sujeito, o qual desde sempre estava
manifesto no ponto geométrico do olho, no enquadramento do
utilizador numa faixa apropriada para que a percepção operasse,
no chamado ponto de vista transcendental, se não estamos traba­
lhando com este caso, vale dizer que a imagem sintética se impõe
sem deixar margem para que o sujeito opere. Neste caso, a imagem
opera s em abrir qualquer margem em que associaríamos operação
e percepção. Lacan chegou a criar um neologismo para dizer que o
suj eito "operçoit', misto de operação e percepção.
A elaboração aqui trazida visa patologias contemporâneas
para as quais foi usado o termo "novas formas do sintoma" já que
apresentavam form�s assintomáticas em que o caráter estrutural
encontrava-se oculto ou havia desaparecido. Incluímos entre esses
pacien tes manifestações do tipo toxicomania em que imagens
prevalentes es tão coladas ao real, sem deixar margem para que o
sujeito s e sinta algum dia autorizado a intervir na leitura a que chega­
ria graças a um dispositivo do tipo simbólico, escrita que permite
reinscrição. Na. fenomenologia da toxicomania, encontramos de­
poimentos com menções numerosas às imagens que se destacam
sobre um fundo, que dão prazer, que p ovoariam a "viagem" do
usuário. "Bad trip" foi desde sempre uma maneira de dizer que ao

88
Célio Garcia

consumidor não restou outra saída senão a de se entregar às manobras


impostas por certas imagens, perdendo o controle das operações.

Conclusão -

As "novas formas do sintoma" apresentando-se de prefe­


rência com uma envoltura social, teremos no nível dos laços sociais
ocasião de evidência da patologia em questão. Mais que na cura
analítica, será no nível dessa fenomenologia social que tais manifes­
tações terão que ser entendidas. A revolta de jovens frente aos mo­
delos familiares, os comportamentos e rótulos -"Sou um toxicô­
mano" - que identificam o próprio sujeito, em vez de passarem
os interessados pelas identificações dirigidas a figuras mais velhas
habitualmente encontradas na familia, afastamento do convívio fa­
miliar, tudo isso compõe o quadro a que nos referimos. Tais pato­
logias atendem maciçamente demandas que provêm do Outro so­
cial; o gozo é garantido graças a resíduos do discurso da ciência. O
sujeito já não se faz uma pergunta, nem o sintoma pode ser tomado
em termos de discurso em que a verdade finalmente se manifestaria.
Se as tatuagens· e as insígnias marcam no corpo um lugar no
grupo, nenhuma menção é feita a um Outro simbólico; assim tam­
bém as inscrições nos muros (pichações ) são na maioria das vezes
desprovidas de toda sign ificação, sem menção a um "tesouro de
significantes" a que se recorre, ou "lugar da Lei" que a nós se im­
põe.
Atendendo a esta sugestão de "nova escrita do real", ao
desaparecimento da supremacia do simbólico, à modificação da
noção de estrutura clínica, e à redefinição do sintoma, pensamos
em modelo provido de autonomia imaginária em detrimento de base
simbólica, ou ainda, como poderia ter dito Freud em se tratando de
imagens, à maneira de um "holograma", sem passar pelo modelo
ótico. Para resumir, tomo como exemplo o labirinto.

89
O Biilho do InFelir:idode

No interior do labirinto, Teseu tratou de desenrolar o fio


fornecido por Ariadne, marcando assim seu caminho, retificando
(intervenção do simbólico) de alguma maneira o tortuoso e extravagante
labirinto; só assim conseguiria sair do labirinto e derrotar o Minotauro.
Labirinto de Teseu, labirinto da realidade virtua� labirinto
da "viagem", o consumidor de drogas entra no labirinto sem pen­
sar dele sair; quer conhecer os tortuosos caminhos, as bifurcações
todas elas, à direita e à esquerda. Vai e volta a cada bifurcação,
atravessando enganos, engodas, descaminhos, locahnente envolvi­
do com a verdade a cada canto (autonomia do imaginário) , maravilha­
do que está pela hiper-realidade virtuahnente dada.
Os consumidores de drogas parecem ter se antecipado tão
somente ao que chamamos atuahnente de "realidade virtual no
ciberespaço", "hiper-texto no espaço literário".

Referêndas bibliográficas

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ZAFIROPOULOS, M. & DELRIEU, A. Le toxicomane n 'exifte pa1. Paris,
Anthropos, 1 996.
O SOCIAL E AS NOVAS FORMAS DO
SINTOMA: AS TOXICOMANIAS

Fernando Teixeira Grossi (relator)


Membro da Escola Brasileira de Psicanálise
Cristina Sandra Pinelli Nogueira
Membro aderente da Escola Brasileira de Psicanálise

Introdução

A descoberta analítica se deu a partir do encontro do psica­


nalista · com o s i ntoma . Em 1933, Freud nas Conferências
introdutórias sobre a psicanálise, em "A dissecção da personalidade
psíquica", situa assim esse momento inaugural:
Não foi uma coisa sem importância, para o curso do desenvolvimento da
psicanálise ou para a acolhida que ela encontrou, ofato de ter começado seu
trabalho sobre aquilo que é, dentre todos os conteúdos da mente, o mais
estranho ao eu - sobre os sintomas. [. . .] Os sintomas são derivados do
recalcado, são por assim dizyr, seus representantes perante o eu; mas o
recalcado é estrangeiro para o eu. [... ] A trajetória conduziu dos sintomas
ao inconsciente, à vida das pulsões, à sexualidade '�

Essa trajetória sublinhada por Freud demonstra que o inte­


ress·e central da psicanálise, como prática do discurso, se atém à
experiência do sujeito, acentuada por Lacan como ponto em que
devemos nos fiar, já que o próprio sujeito é a matéria única do trabalho
psicanalítico (1966, p. 61).
O Brilho da InFelicidade

Portanto o essencial da prática psicanalítica se dirige às es­


tratégias do sujeito para aliviá-lo do encontro com o real. Sabemos
que uma dessas estratégias cabe ao sintoma. Em "A Terceira" (1975b)
Lacan define o sintoma corno sendo aquilo que vem do real. Defi­
nição muito próxima da estabelecida por Freud em "Inibição Sin­
toma e Angústia": o sintoma é um dizer do isso no eu, o que, por
sua vez, faz consonância à afirmação de Lacan em sua conferência
de Yale : o isso é o real (1976, p. 40).

As novas formas do sintoma

O fundamental a ser destacado é o fato dessa estratégia


realizada pelo sintoma manter estreitos laços com sua época. O
significante laço nos remete à definição de discurso como laço social
(Lacan, 1975, p. 43).
Nesse sentido, nossa época está marcada pelas incidências
do discurso da ciência no discurso do mestre, no qual o agente é o
significante com sua potência.
Essa modificação, produzida pelo discurso da ciência, é de­
nominada por Lacan como discurso capitalista, no qual se observa
uma mudança no agente do discurso, de S 1 para f,, clara alusão à
perda da eficácia do poder do significante como agente do discur­
so, e uma moderna máquina de saber produzindo objeto: S/ a.

si S2 g S2

'1 Xai
············· -- · �

� // a si

Discurso do Mestre Discurso do Capitalista

92
Fernando Teixeira Grossi & Cristina Nogueira

O que nos interessa como psicanalistas é sabermos: 1nc1-


dência dessa conjunção discursiva no sujeito do inconsciente?
A época vitoriana de Freud é compatível com a eficácia do
mecanismo do recalque nas formações do sintoma, época áurea do
reinado dos sign ificantes mestres, determinando incidências nos la­
ços sociais e no porvir dos sintomas - época dos sintomas histéri­
cos de conversão.
Podemos inferir que o sentido do sintoma era plenamente
compatível com a associação significante, e que pudesse ser plena­
mente interpretado na diacronia significante. "Foi como uma bofeta­
da", sentença significante de uma neuralgia facial - no caso Frau Cecilie
(Freud, 1893-5, p. 227) nos dá um exemplo desse poder significante.
Em nosso tempo é possível reproduzirmos sintomas histé­
ricos como nos tempos de Charcot?
Uma coisa é certa: tanto a ciência quanto o discurso do
capitalismo, cada um à sua maneira, pregam a revogação do in­
consciente. A ciência, pela vertente significante, evacua a responsabi­
lidade do sujeito. É o caso atual das depressões; ao serem formula­
das como doença, como um déficit de neuro-hormônios transmis­
sores, a ciência retira a responsabilidade do sujeito, apagando sua
subjetividade, ign orando sua singularidade e determinando um
mesmo tratamento para todos.
O sujeito do inconsciente é desconsiderado, acarretando
incidências sobre o estatuto da divisão subjetiva. A ciência realiza
sobre os sintomas um apagamento da incidência simbólica. Por
exemplo, a noção de estranheza, que acompanhou a noção freudiana
de sintoma, abrindo o chamamento ao Outro, sofre uma torção
diferente daquela feita pela obsessão, que implica a participação do
eu e de seus mecanismos, transformando-os numa familiaridade.
No sintoma obsessivo constatamos uma força pulsional substitutiva,
responsável por seu caráter de compulsão e repetição. Não estaríamos

93
O Brilho da ln.Felicidade

nessas novas formas de sintomas diante de uma nova modalidade


de torção, que se daria pela própria subversão do mecanismo do
recalque na gênese de suas determinações?
A metáfora não está no posto de comando dessas novas
formações sintomáticas, isto é certo. Isso posto, trará como efeito
uma formação sintomática, ao avesso das formações sintomáticas
do inconsciente, inclus ive do suj eito suposto saber, denominado
por Lacan como uma formação sintomática do inconsciente (1988,
p. 1 32) . Um sintoma com um saber negativo, que impede a suposi­
ção do saber ao Outro, pivô da trans ferência, imaginarizando o real
veiculado, coloca questões sobre o lugar da interpretação, assun
como o consentimento com o inconsciente.
Esta é a bas e da cultura da medicalização que tem compli­
cado singularmente o campo da demanda, como já situou Lacan:

A ciência está produzindo cettos e:feitos que deixam de implicar cenas


apostas. Materializemo-lo sob aforma dos diversosprodutos que vão desde
os tranqüilizantes até os alucinógenos. Isso complica singularmente o
problema do que até agora se qualificou, ele modo puramente policial, como
toxicomania. Se um e/ia estivéssemos de posse de um produto que nos
permita recolher ieformações sobre o mundo exterior, não vqo como uma
contenfãO policialpoderia exercer-se (1 966b, p. 93 ) .

Por outro lado, o discurso do capitalismo realiza sua opera­


ção de minimizar a divisão subjetiva pelo lado do objeto. O reino
do consumo é uma operação complexa em que o suj eito é reduzi­
do ao consumidor, remanej ando a divisão subjetiva no sentido de
uma circunstância de um encontro com os objetos do consumo.
Não há afânise do suj eito entre um si gnificante e outro, como é
demonstrado pelo dis curso do inconsciente.
Es tamos num tempo de um fort-da moderno, agenciado
por obj etos de consumo. Não gos taríamos de passar uma visão

94
Fernando Teixeira Grossi & Cristina Nog11eira

nos tálgica da efetividade da noção de representação. O próprio


Lacan nos aponta a hipótese de uma esperança em uma vida mais
satis fatória, uma vez que passássemos por debaixo da noção de
representação" (1 974, p. 42) . Aí ele se referia aos gadgets. A saber que
os gadgets capturam algo do desej o humano por se inserirem na
cadeia metonímica dos produtos, abrindo a dimensão do resto,
operador fundamental da causa do desejo.
O problema reside no apelo de fazer Um com os produ­
tos, busca que Lacan comparou à observação de se tomar o auto­
móvel como uma mulher - uma falsa mulher (ibid.), fazendo alu­
são obviamente ao falo e com a ressalva de que o sujeito, tomando
o automóvel como uma falsa mulher, estaria livre das interpelações
do Outro sexo, modalidade de driblar a castração.
O que está em j ogo nessa adesividade do sujeito com os
obj etos de consumo é a subversão da noção de obj eto a como
causa do desej o. É o que podemos observar: um empobrecimento
da função do fantasma nessa clínica. Aqui não há surpresa, a satis­
fação não é regrada pela lógica do fantasma; há um curto circuito
na gramática pulsional. Não observamos uma decalagem no gozo; a
satisfação esperada é obtida: "Beber mais uma". A lógica é a da
soma, na qual se perfila a consumação do mais de gozar, sem novi­
dade, se1npre o mesmo: mesma droga, mesmo copo.
A escrita que Lacan propõe para o discurso do Capitalismo é
a de um trajeto fechado sobre si mesmo, sem ponto de fuga. Não há
furo no tonel. Nesse discurso podemos ler que o sujeito, estando na
posição dominante, tem acesso ao gozo sem passar pelo fantasma. O
saber produz objeto para circular no mercado do gozo, sofrendo uin
efeito de atração pela produção dos objetos, mais-de-gozar. Por isso
Lacan fez a observação de que se nos encontrássemos na posse de um
produto que nos permitisse recolher informações sobre o mundo,
dificilmente abriríamos mão dele. É a operação de reduzir o saber a
um fazer, a um manejo com o objeto de consumo.

95
O Brilho da lnFelitidade

Esse aspecto é muito elucidativo no filme Trainspotting.


Referimo-nos aqui ao argumento do p ersonagem principal, no
momento em que fala da escolha da droga:

Escolher uma vida, escolher um emprego, escolher uma carreira, umafamí­


lia. Escolher uma televisão grande, máquina de lavar, carros, toca-discos,
abridor de lata elétnco. Escolher sa,íde, colesterol baixo, seguro dentário.
Escolherpre.rtaçàl1.ffixas para pagar. Escolher uma casa. Escolher amigps.
Escolher roll/)as e acessórios. Escolher um ternofeito do melhor tecido. Se
masturbar domingo de manhã pensando na vida. Sentar no sofá e ficar
vendo televisão. Comer um monte de porcarias. . . acabar apodrecendo no
final Escolher umafamília e se envergonhar dosfilhos egoístas que pôs no
mundo para substitui-lo. Escolherfuturo, escolher uma vida. Por que eu
iria querer isto ? Preferi não ter uma vida. Preferi ter outra coisa. E
motivos. . . Não há motivos. Para que motivos, se tem heroína?''.

Essa redução do saber a um saber fazer traz como conse­


qüência um sujeito sem sintoma, sem divisão subj etiva, sem vacila­
ção do gozo, provocado pela tela fantasmática, implicando que o
gozo es teja à mão, podendo ser � corporado.

O soda[ e a nomeação

Verificamos na clinica das toxicomanias que ao operarmos


um deslocamento em que a droga sai de cena, há o surgimento de
questões tais como fenômenos psicossomáticos e depressões, indi­
.cando a problemática do real que a identificação ao "ser toxicôma­
no" tenta esconder. Esse aspecto remete à função paterna cuja
efetividade pode evitar a cristalização des ta orgia imaginária sob a
forma de um real prematuro (Santiago, 1 995) .

A problemática lacaniana da droga se insere nessa mudança


de perspectiva do lugar do pai na civilização, trazendo conseqüênci­
as na constituição do sintoma. Faz-se necessário o es tabelecimento
Fernando Teixeira Grossi & Cristina Nogueira

de uma estrutura psíquica para possibilitar a passagem da natureza à


cultura; é a montagem do Complexo de Édipo: a lei-do-pai que
proporciona ao sujeito o acesso à linguagem e, conseqüentemente,
à cultura.
Lacan desde 1 938 destaca o papel primordial da familia na
transmissão da cultura como sendo aquilo que "preside os proces­
sos fundamentais do desenvolvimento psíquico" (Lacan, 1 990) . Neste
processo a maior importância cabe aos lugares e funções ocupados
pelas personagens da novela familiar. Os lugares de pai e de mãe
são operantes e efetivos já que eles se referem a uma relação lógica
a uma terceira instância (Garcia, 1 997) . Portanto a familia tem como
função refrear o gozo, função da castração.
É pelo exercício desta função, que aquele que advém na sua condição de
vivente enquanto produto sexual, será admitido a um lugar simbólico, que
lhe assinala um laço de parentesco, uma posição nas gerações e uma identi­
dade civil Desse produto sexual, afamília tem a tarefa defazer advir um
.r,yeito do de.rifo, assegurando uma subscrição ao inconsciente " (Suárez,
1 992, p. 1 3).

Nesse final de século constatamos uma crise do lugar do


p ai e de sua função de nomeação. Nesse declínio da função paterna,
estranhamente o social vem fazer suplência a essa falha da nomea­
ção paterna: "Ser nomeado de alguma coisa eis o que coloca uma
ordem que se encontra efetivamente, em sê substituir ao nome do
pai" (Lacan, 1 976).
Esta maneira de utilização do social é revelada na apresen­
tação: '.'Eu sou toxicômano", que advém no lugar do nome pró­
prio, num discurso sem falhas. O sujeito aí se encontra sem perda
em seu ser. O efeito deste tipo de identificação é o de congelar o
discurso (Viganó & Verdicchio, 1 995) .
O toxicômano padece das conseqüências da desvaloriza­
ção da função paterna. Se o sintoma comporta um gozo como

97
O Brilho da InFeliddade

opacidade subjetiva, a droga indica um gozo que não é oculto; o


toxicômano só quer um gozo: o do seu próprio corpo e esse é todo.
O gozo do toxicômano não responde a esta operação do
simbólico, mas efetivamente ao que vem no lugar da falha do nome
do pai. É uma solução encontrada: a partir de um gozo se obtém uma
nomeação, utilizando significantes produzidos pelo Outro social.

Referências bibliográficas

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VIGANÓ, C & VERDICCHIO, O. "La clínica de Jacques Lacan en un Centro
para toxicomanos y alcoholicos" . Em: Sl!J'"eilo, gocey modernidad III. Op. cit.

98
ECLIPSE DO DESEJO

Clara Lucia Inem


Membro-aderente da Escola Brasileira de Psicanálise

Eclipse é o fenômeno em que um astro deixa de ser visível


totalinente ou em parte. Eclipsar quer dizer esconder, encobrir,
ocultar-se, desaparecer. Uma vez que esta estra�égia de eclipse assi­
nala um nada querer saber e visto que aquilo que conduz um sujeito à
análise é o endereçamento a um suj eito suposto saber, o que esse
sujeito dito toxicômano demanda? Sabe-se que toda demanda é
demanda de amor; entretanto o sujeito, preso a esse Outro absolu­
to do qual é complemento, serve-se da droga para encobrir a
incompletude e dirige um apelo ao Outro para que intervenha nes­
sa relação narcísica com o objeto. É isso que de início o toxicôma­
no vai buscar ao procurar ajuda: uma dose de pai real que interve­
nha em sua relação com um objeto que o consome; algu ém que
faça cessar os efeitos da castração quando cessam os efeitos da
droga. A falta de uma substância e não uma falta a ter ou falta a ser;
isto não tem a ver com o inconsciente mas com sua recusa. Ao se
definir como sujeito por uma prática codificada pelo Outro, ele nos
oculta a estrutura e seu sintoma. Deste modo, o acesso ao tratamen­
to pelo enunciado "Eu sou toxicômano" é uma tentativa de eclip­
sar seu sintoma, ocultá-lo, encobri-lo. Ele faz da droga a razão de
sua demanda a fim de eclipsar a causa que provoca a droga como
resposta (Soler & Freda, 1 986).
O Brilho da lnFelicidode

A droga aparece aí para colocar na s ombra o que surge:


prática de escape, ocultação de algo, es tratégia de fuga. O toxicô­
mano tenta persuadir a todos de seu encon tro com o impos sível de
suportar e só tem uma resposta - drogar-se e/ ou desaparecer -,
mas e s s e fenômeno eclipsar se dá através de um gozo. "É a clínica
do eclipse face ao impossível suportar" (idem, p. 48) .

A demanda de felicidade e a promessa do mercado

Freud em s eu artigo "O mal-es tar na civilização" (1 930)


aborda a ques tão da felicidade e do sofrimento, distinguindo três
fontes de sofrimento: nosso próprio corpo, condenado à decadên­
cia e à dissolução e abrigando o sofrimento e a angústia; as forças
des truidoras do mundo exterior; e, finalmente, a ameaça que cons­
titui nossos relacionamentos com os outros. O sofrimento que pro­
vém do nosso relacionamento com o outro é mais penoso do que
qualquer outro. S egundo Freud,

Há vários métodos para evitar o sofrimento, contudo os métodos mais


interessantes são os que procuram influenciar nosso próprio organismo. O
mais eficaz é a intoxicação. O serviço prestado pelos veículos intoxicantes
na luta pelafelicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apre­
ciado como um benefício, que tantos indivíduos quanto povos lhes concede­
ram um lugar permanente na economia da libido. Com o auxílio desses
amortecedores de preocupações, épossível, em qualquer ocasião, afastar-se da
pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio " (1 930, p. 85).

Podemos então situar a droga como tentativa de resposta


àquilo que os homens mos tram ser o propósito e a intenção de suas
vidas : a felicidade. A busca de felicidade s e cons titui numa eterna
demanda e a resposta de Freud é a de que não há felicidade porém
satis fação, e esta satis fação revela um paradoxo estrutural, pois con­
tém no seu boj o a pulsão de morte e vai contra o bem-estar do
sujeito.

100
Clara L,1cia ]nem

O mal-estar na civilização, tratado por Freud a partir do


paradoxo do supereu, exige cada vez mais renúncias pulsionais. Para
dar conta deste mal-estar, existem atualmente várias drogas que
conjugam de um modo mais ou menos eficaz a relação custo-be­
neficio que rege o mercado capitalista. Como afirma Joel Birman:
Antes de mais nada, as drogas se transformaram numa indústria poderosa
e num comércio efluente. As drogas criaram um dos maiores negócios, no
registro da economia política, na segunda metade deste século. Existem,
assim, intereues imensos e incalculáveis inscritos nos circuitos da produ­
ção, da circulação, da distribuição e do consumo de drogas. No entanto as
drogas não são mercadorias como as outras, pois inscrevem em si uma marca
de magia que não se pode subestimar. Este traço mágico é justamente
aquilo que confere às drogas o seu valor espec(!ico, no sentido estrito de seu
valor de uso e de troca " (1 988, p. 1 O).

Sendo a droga uma mercadoria regida pelas leis do merca­


do, a toxicomania aparece na cena social como o paradigm a do
discurso capitalista ou mesmo como um paradigm a do sintoma
moderno, aquele que, organizando o consumo, anula o sujeito. As­
sim, toxicómano é um sign ificante que nomeia não somente uma prá­
tica de consumo como "con-some" o sujeito. É a prática do "Sou
onde não penso" como recusa ao inconsciente. Ou seja, uma práti­
ca de ruptura entre o sujeito e o sign ificante fálico, aquele que intro­
duz a castração.
É preciso que se indague sobre o estatuto desse sujeito dito
toxicômano, que, em seu apego e devoção a um produto, ratifica o
discurso capitalista visto que, assim como o proletário, não tem
outra escolha senão trabalhar para o Outro, para o gozo do Outro.
Nesse sentido a droga dá acesso a um gozo que não passa pelo
corpo do Outro como sexual e sim pelo próprio corpo, um gozo
auto-erótico, tendo em comum com a pulsão a anulação do outro.
Nomear-se como toxicômano é também um modo de consentir
com uma forma de exclusão e de ser design ado por uma forma de
gozar (Soler, 1995).

101
O Brilho da InFelicidade

A experiência clínica indica que esse sujeito dito toxicôma­


no encontra-se unificado por um modo particular de gozo. O so­
frimento a que este se refere não tem a ver com o sujeito dividido
por um conflito entre os ideais do eu e as exigências pulsionais. A
droga assim como a produção extensa e insaciável de objetos de
consumo se propõem a suturar a divisão do suj eito. Como sinaliza
Colette Soler, o corpo mortificado em seu gozo passa a fazer parte
de um capital cuja expressão é a suspensão do gozo: a mais-valia.
Lacan nos diz que a mais-valia é um "plus-de-gozo" que adquire o
estatuto de causa de desej o, "a causa da produção extensiva e, por
conseguinte, insaciável de objetos de consumo" (1 974, p. 59).
Se, por um lado, a toxicomania aparece no cenário social
como paradigma do discurso capitalista, por outro, as ins tituições
nomeadas para tratar os toxicômanos ratificam a generalização, a
promoção e a consistência dos sign ificantes toxicómano e toxicomania,
uma vez que a dita categoria atende a um mercado promissor (Álvarez
& Picario, 1 994) .
Frente a algu ns dispositivos de atenção que perpetuam a
monotonia e a cronicidade da "intoxicação", o dispositivo analítico
in troduz a diversidade, pois ao contrário do discurso capitalista, a
psicanálise questiona as sutilezas do coletivo em cada suj eito, abrin­
do espaço através de sua experiência ao desej o de cada ·um.

Uma dor lancinante

Luiz veio nos procurar após várias tentativas de tratamen­


to; havia freqüentado as "salas" e/ ou "grupos de mútua ajuda",
tendo se submetido ao que ele chamou de "lavagem cerebral". Na
ocasião da entrevista, "es tava limpo", quer dizer, não fazia uso de
drogas há aproximadamente quatro meses. Há cerca de um ano
havia feito conosco algumas entrevis tas preliminares e interrompido.

102
Clara Luâa lne111

Nesta ocasião, Luiz consumia, além de cocaína, álcool e anfetaminas.


Seu envolvimento com as drogas teve início na adolescência e per­
durou até a idade adulta. Aos 43 anos, ele se considera um "depen­
dente químico" e um "romântico irrecuperável".
Após vários anos de consumo e tentativas de parar, Luiz de­
cidiu procurar ajuda. Na primeira vez que nos procurou, pedia-nos
para ajudá-lo a recuperar o controle sobre as drogas , particular­
mente a cocaína. Segundo ele, durante vinte anos conseguiu admi­
nistrar o consumo, mas agora perdera "o controle". "Não posso
parar! Eu não posso mais com ela!", "Me ajude a me livrar dela!".
Esta era a maneira pela qual Luiz sinalizava seu mal-es tar, no qual
pela primeira vez a simulação de controle do objeto começou a
falhar, dando vazão ao imperativo do gozo.
Ao cabo de algumas entrevistas, Luiz teve o que ele deno­
minou "uma recaída"; após esta re-caída na angústia, interrompeu as
entrevistas. Ao nos procurar novamente, após um ano, justifica-se:
''A última vez que estive aqui no seu consultório saí meio confuso e
com algumas dúvidas que me fizeram pensar; talvez agora, você
possa me ajudar". E acrescenta: "Desta vez eu preciso falar de coi­
sas que não pos so revelar nas salas, diante de várias pes soas, e que
são difíceis de falar até mesmo para uma analis ta".
O fato de não estar mais se drogando o colocou frente a
uma "angústia insuportável". Diz não saber o que está ocorrendo
com a sua "virilidade"; indaga se o fato de ter feito uso abusivo de
drogas durante muitos anos poderia torná-lo "impotente"; questio­
na sua condição de toxicômano e pergunta o porquê de não conse­
guir "consumir o ato sexual"; dá-se conta do lapso e corrige: "con­
sumar o ato".
Vivendo atualmente com uma companheira "mais jovem e
bonita", não consegue "ter desejo sexual". Relata que anteriormen­
te, sob o efeito da cocaína, tinha uma "vida sexual ativa". Às vezes

103
O B,ilho da lnFelicidade

pensa em se separar da mulher, pois sente-se muito angustiado por


deixá-la "em falta". Esta situação o levou a procurar um médico
"especialista" para tratar do que chamou de "sua impotência". Sub­
meteu-se a vários exames e nada foi constatado. A partir daí resol­
veu procurar um analista.
Nas entrevistas subseqüentes, relata-nos uma experiência
homossexual na puberdade, fato que ficou marcado devido a "dor
lancinante que sentiu no momento da penetração". A partir desta
experiência só conseguia ter relações sexuais com mulheres e
"penetrá-las", se tivesse feito uso de cocaína.
Pode-se depreender que para Luiz a droga permitia diluir a
angústia sexual e liberá-lo de seu compromisso frente ao seu ser
sexual. A droga era uma resposta aos impasses recorrentes do con­
fronto com o outro sexo, encontro faltoso por excelência. Desse
modo, seu encontro com a mulher só era possível pelo recurso à
droga, pelo desvio do gozo fálico.
As palavras de Hugo Freda acerca do sign ificante toxicô­
mano são elucidativas:
Pela antecipação de um sinal - uso de drogas - o Sff/eito oculta seu
sintoma. Por exemplo: como ser um homem para uma mulher? Resposta:
ser toxicómano. Se a verdadeira questão para esse stfieito é apropriar-se de
um significante a fim de poder estar com uma mulher, não é sustentando
sua toxicomania que poderá resolvê-la, visto que éjustamente o ser toxicó­
mano que lhe permitiu se afastar da questão " (1988, p. 1 8).

Se antes a droga se colocava como resposta para esse sujei­


to e o gozo não passava pelo corpo do Outro mas pelo próprio
corpo, se a droga até então era o seu parceiro, a exper1ência psicana­
lítica permitirá ao sujeito confrontar-se com o seu desejo, fazendo
emergir o inconsciente. ,

104
Clara Lr,cia Inem

N OTA

1. A expressão "eclipse do desejo" é utilizada como metáfora, a droga enco­


brindo o desejo do sujeito, o gozo em detrimento do desejo. Não se trata do
conceito de afânise e/ ou fading.

Referências bibliográficas

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SOLER, C. & FREDA , H. "Toxicomanie, toxicomanes", LÁne, n. 27, 1986,
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105
TOXICOMANIA - UM GOZO CÍNICO?

Ana Martha Wilson Maia


Membro aderente da Escola Brasileira de Psicanálise

O mal-estar e a droga
A falicidade, no reduzido .rentido em que a reconhecemo.r como po.r.ri­
vel, con.rtitui um problema da economia da libido do individuo. Não
exi.rte uma regra de ouro que .re aplique a todo.r: todo homem tem de
de.rcobnr por .ri me.rmo de que modo e.rpec!fico ele pode .rer .ralvo "
(Freud, 1 930, p. 1 03) .

Sobre os pilares da teoria pulsional, construída ao longo de


sua obra, Freud sustenta que a felicidade consiste na ilusão do en­
contro com o objeto da pulsão. Ser feliz é uma imposição do prin­
cípio do prazer que jamais será plenamente realizada, mesmo que o
sujeito utilize todos os seus es forços. A felicidade consiste num
momento efêmero de satis fação pulsional, sendo "possível apenas
como uma manifestação episódica" (1 930, p. 95 ). Passando do tex­
to freudiano ao Seminário em que Lacan (1973) descreve o caráter
circular do circuito pulsional, podemos pensar que é quando a pulsão
se encontra numa tênue distância daquilo que tampona o objeto a,
que se dá essa ilusão de encontro, a felicidade. E o eterno movi­
mento de vaivém pulsional, o que Freud (1920) chama de "curto­
circuito", é a pulsão insistindo, persistindo nessa busca. Freud (1930)
nos mostra como é singular o caminho da felicidade. Uma vez que
não existe "uma regra de ouro", cada sujeito precisa descobrir como
O Brilho da lnFelicidade

"pode ser salvo", ou seja, cada qual escolherá, dentro de sua estru­
tura clínica, o que fazer com seu gozo ao se deparar com a castra­
ção e com o mal-estar ( Unbehagen) resultante do antagonismo irre­
mediável que existe entre a pulsão e a cultura (Kultur).
O aforismo lacaniano "a relação sexual não existe" se refe­
re a toda e qualquer relação entre sujeitos, não apenas . a parceiros
sexuais. Numa conferência sobre a feminilidade, Freud fala da im­
possibilidade da plenitude no amor, como ilustra a seguinte citação:
"Tem-se a impressão de que o amor do homem e o amor da
mulher psicologicamente sofrem de uma diferença de fase" (1932,
p. 164). Há um descompasso presente em todas as relações -
entre homem e mulher, mãe e filho, pai e filho etc. - que podemos
deduzir a partir da teoria freudiana acerca da sexualidade feminina
(Maia, 1996). Neste sentido, os parceiros sexuais não podem ler
juntos uma partitura, como na música. Não existe uma partitura
amorosa. Cada um lê e toca sozinho a sua parte no amor.

Toxicomania
''..figo pelas mesmas trilhas do pensamento. No enta'!to elas parecem
agora semeadas de rosas " (Benjamin, 1 984, p. 48) .

Há duas importantes referências psicanalíticas que tratam


da relação do sujeito com a droga. No artigo ''A tendência universal
à depreciação na esfera do amor" (1912), Freud apresenta o que
seria para ele um modelo de casamento feliz, a saber, a relação do
sujeito com o vinho, e então indaga: "Por que a relação do amante
com seu objeto sexual será tão profundamente diferente?" (ibid., p.
171). Leio assim sua pergunta: que lugar ocupa o vinho na vida do
sujeito e o que pode o vinho lhe oferecer que ele não encontra no
objeto sexual?

108
Ana Martha Wilson Maia

A outra referência é a seguinte frase de Lacan, dita na sessão


de abertura das Jornadas de Estudos dos Cartéis, na Escola Freudiana
de Paris, em 1 975, quando definiu a droga como aquilo que "per­
mite romper o casamento com a coisa de fazer pipi" (1975, p. 9) .
Romper o casamento com o gozo fálico leva o suj eito necessaria­
mente ao desencontro da relação s exual: no amor, a mulher se ofe­
rece como falo para o homem, ela se faz de falo, ela representa para
seu parceiro o falo inexis tente da mãe, ela faz máscara de ser, mas ela
não o é, assim como o homem é para ela aquele que porta o falo
em seu corpo, sob a forma imaginária do pênis, ele faz máscara de
ter, mas ele não possui o falo (Maia, 1 996) . Não tendo e não sendo
verdadeiramente o falo, o homem e a mulher vivem no amor um
descompasso. Neste sentido, a função da droga é apagar a questão
do desej o do Outro que o gozo fálico impõe. A droga é um par­
ceiro privilegiado que permite ao sujeito fazer o curto-circuito do
enigm a do O utro sexo e do Outro da linguagem.

Freud já havia observado a importância da oralidade nos


suj eitos que, fixados numa satis fação pulsional oral, teriam uma pre­
disposição, um "poderoso motivo para beber e fumar" (1905, p.
1 87) . No matrimônio com a garrafa, trata-se de um gozo fálico. O
alcoólatra não rompeu com a oralidade e por isso permanece fiel à
garrafa. Porém na toxicomania o sujeito não está casado com a
droga. Se no início ele a escolhe, entre outras, num momento poste­
rior ele perde a sutileza dessa escolha e, infiel, utiliza a que estiver à mão.

A experiência clínica e a vida cotidiana mostram que, diante


da falta es trutural, para compens ar a p erda do obj eto, o suj eito
pode escolher o matrimônio com a garrafa ou selecionar uma dro­
ga específica para o seu gozo - a cocaína, a maconha, o crack, o
haxixe, obj etos procurados para velar a falta e tamponar a angústia.
"Che vuoz?", o que o Outro quer de mim? Não há como responder essa
questão, a não ser com a fantasia. E no entanto o sujeito nunca o saberá
e sempre precisará estar dirigido ao Outro para saber de seu desej o.

109
O Brilho da InFelicidade

Para Miller (1995), o consumo de drogas é uma tentativa


de romper com o gozo fálico e obter um gozo sem passar pelo
Outro. Ele conclui que o objeto droga concerne mais ao sujeito do
gozo do que ao sujeito da palavra. Nesse mais-de-gozar, a droga
materializa o gozo permitindo ao sujeito fugir da castração. Na
toxicomania não há foraclusão como a sombra que recai sobre o
objeto na melancolia, ou nas vozes na paranóia, ou ainda no corpo
na esquizofrenia. Anulando o Outro, a droga promete uma saída
para a angústia, uma "foraclusão química" (Ribeiro, 1997), um alí­
vio para o mal-estar, o que podemos deduzir dos diversos estudos
e publicações que relatam experiências com drogas, como Paraísos
Artificiais de Baudelaire, Confissões de um comedor de ópio de Thomas de
Quincey, A vida material de Marguerite Duras, Ópio de Jean Cocteau
e Ao mofo nu de William Borroughs.
Haxixe é uma coletânea de artigos e de relatórios de Walter
Benjamin sobre embriaguez e experiências com drogas. Para com­
preender "a enigmática felicidade proporcionada pelo haxixe", diz
Benjamin, é preciso "evocar o fio de Ariadne. Quanto prazer pode
caber no simples ato de desenrolar um novelo! Profundo parentes­
co entre esse prazer e o da droga, assim como o da criação"(l 972,
p. 33). Para ajudar Teseu a sair do labirinto depois de matar o
Minotauro, Ariadne, filha de Minos e Pasífae, entregou-lhe um no­
velo que ele desenrolou ao andar pelo labirinto, marcando · assi,m o
caminho de volta. Esse novelo de fio nos remete a "Infância em
Berlim por volta de 1900", narrativa autobiográfica em que Benja­
min relata suas idas ao armário, "uma aventura atraente" porque
dentro desse espaço secreto e misterioso, ele conseguia encontrar,
entre o amontoado de roupas, as meias que eram guardadas enro­
ladas como uma bolsa. A "empolgante revelação" consistia na se­
gunda etapa da brincadeira, momento em que ele desembrulhava o
par de meias, "tradição" enrolada que assim deixava de existir. "Não
me cansava de provar aquela verdade enigmática que a forma e o

110
Ana Martha Wilson Maia

conteúdo, que o invólucro e o interior, que a 'tradição' e a bolsa,


eram uma única coisa. Uma única coisa - e, sem dúvida, uma
terceira: aquela meia em que ambos haviam se convertido" (1 987,
p. 1 22). Benjamin compara essa experiência "aos contos de fadas,
que, do mesmo modo, me convidavam para o mundo dos espíri­
tos ou da magia para afinal me devolver pronta e infalivelmente à
realidade crua, que me acolhia com tanto consolo quanto um par
de meias" (ibid., p. 123). Não é à toa que Benjamin associa o prazer
à droga, à criação e às brincadeiras e histórias infantis. O novelo de
fio e o par de meias proporcionam, num jogo simbólico, o prazer
de ver o objeto se afastar e se aproximar, des�parecer e aparecer,
como no Fort-Da descrito por Freud (1920). Também na criação se
contorna o vazio do objeto, fazendo surgir um outro. Esse é o
destino da pulsão. Deste modo, Benjamin fala de um vaivém, o
circuito da pulsão que ele experimentou com o haxixe. Ele conse­
guia provar a "verdade enigm ática" da droga e depois retornar à
"realidade crua".

Um gozo cínico ?

Há alguns anos atrás, uma mãe procurou ajuda para seu


filho adolescente, conforme a indicação do psiquiatra. No decorrer
das entrevistas, a analista descobriu que, por trás do medicamento
para psicose, a "loucura" também estava associada ao uso de cocaína.
Rodrigo, como vou chamá-lo, não estava mais estudando, não se
adaptava ao trabalho na empresa do pai e só saía de casa para as
consultas psiquiátricas acompanhado da mãe porque, sempre que
possível, escapava para comprar a droga. Isolado em seu mundo, o
quarto, ele recebia poucos amigos, os que passavam pelo crivo
materno. No entanto, dizendo-se mais esperto do que a mãe, conse­
guia enganá-la com uma namorada que tinha permissão para visitá-lo,
quando fazia a mediação entre ele e o traficante.

111
O Brilho da InFeliridatk

No momento em que a analista pretendia fazer contato


com o psiquiatra, Rodrigo não quis mais ser atendido por ele. N o
início, além d a medicação havia uma proposta psicoterápica, até
que ele não quis mais conversar com o psiquiatra, que sugeriu à mãe
um atendimento psicológico. Rodrigo era amigo de um paciente da
analis ta e foi ele mesmo que lhe pediu seu telefone.
Para dar prossegu imento ao atendimento psiquiátrico, a
analis ta indicou um psiquiatra, porém a mãe de Rodrigo hesitou em
levá-lo, talvez devido ao vínculo com o ex-psiquiatra dele. Ela tele­
fonou para a analista dizendo que havia descoberto que, quando ele
ia para as entrevistas, subia com a namorada o morro situado no
bairro onde s e localizava seu consultório. Disse que ele não iria con­
tinuar, pelo menos não naquele momento.
Um fato se repetiu diversas vezes durante o período das
entrevistas : Rodrigo, num determinado momento, pedia para ir ao
banheiro. Voltava com o mesmo ar de deboche que tinha no rosto, o
nariz escorrendo, a fala lenta e descontínua, por onde contava suas
aventuras pelos morros, o medo de morrer na mão de um traficante,
e as vozes que ouvia. Numa mistura de horror e prazer, relatava suas
aventuras com a cocaína. Diante do comentário da analista sobre suas
constantes idas ao banheiro do consultório, ele ria. Certa vez a analista
lhe perguntou o que fazia lá, por que demorava. "Nada", respondeu
rindo. Que segredo ele guardava? Por que ria? O que ele estava queren­
do dar-a-ver, sem dar-a-ver? Seja lá o que fosse, o que me mostrava
com s eu riso cínico era um "Olha como eu gozo".
Miller descreve o sujeito da toxicomania como um cínico
extremo: "Digamos que é um gozo cínico que rechaça o Outro,
que recusa que o gozo do corpo próprio seja metaforizado pelo
gozo do corpo do Outro - e que cai na história, liga do à figura de
Diógenes - que opera esse curto-circuito levado à cabo no ato da
masturbação, que precisamente assegura ao sujeito seu casamento
com o pequeno pipi" (1 995, p. 1 8).

112
Ana Marlha Wilson Maia

Nos dicionários de filosofia, o cinismo é definido a partir


da figura de Antístenes de Atenas, que fundou a chamada escola
cínica. Antístenes pregav_a uma vida tranqüila, alcançada somente
através do domínio sobre . si rnesmo, da auto-suficiência. Despreza­
va o prazer, razão para eJe de to?a infelicidade, em prol da virtude
que, ao contrário do prazer, podia ser ensinada e trazia felicidade
porque colocava o sujefro "rio caminho de saber o que lhe con­
vém" (Mora, p. 1 84). É iriter�ssante observar que o autodomínio
de Antístenes não era um aufo-suplicio. Embora dissesse dele fugir,
era puro prazer. Mais do que uma filosofia, o cinismo é um modo
de viver que adquiriu o sentido pejorativo devido ao desprezo dos
cínicos pelas convenções .sociais. Diógenes de Sínope, discípulo de
Antístenes, foi na . verdade ó tnais popular dos cínicos, aquele que,
segundo Sloterdijk, trouxe . para "a filosofia ocidental a conexão
.
original entre felicidade, carê ritia de necessidades e inteligência" (1989,
p. 215 ), como mostraram os.hippies nos anos 1970. Diógenes recu­
sava as leis que orientavam à. pólis grega. Costumava urinar, evacuar
e masturbar-se na ágora ateniense e ensinava a masturbação enten­
dida como processo cultural. Ele encarnou sua doutrina e desafiava
a cultura com o seu gozo cínico: "Olhem como eu gozo!". Sua
figura é uma boa representação da relação entre o gozo cínico e a
toxicomania.
Três anos depois, Ro_drigo ligou para a analista, cujo novo
consultório ficava bem mais :distante de sua casa do que o do ende­
reço anterior. Disse que estava podendo sair e que iria sozinho, diri­
gindo. Estava gordo, · inchado, . más com o mesmo sorriso cínico.
Apesar de se apresentar com um discurso mais organizado e dizer
que queria se livrar da cocaí�a, neste segundo momento de entrevis­
tas, voltou a utilizar sistematicamente o banheiro do consultório.
Como antes, a analista. lhe perguntou o que fazia. Risos, nenhuma
resposta. Em que medida: ele queria mesmo se livrar da cocaína?
Estaria ele disposto a saber à causa de seu sofrimento? Havia sofri­
mento? Que lugar ele oferecia à analista, uma mera espectadora de

113
O Brilho da InFelitidade

um espetáculo que acontecia por trás de uma porta, a porta do banhei­


ro que os separava? No término de uma entrevista, quando já se dirigi­
am para a porta de saída do consultório, Rodrigo disse que iria ao
banheiro. A analista o esperou voltar e falou: "Não se vai a um consul­
tório de psicanálise para ir ao banheiro, se vai para se fazer análise. Até
quinta-feira". Eles se despediram e Rodrigo não retornou mais.
Em Televisão, Lacan se refere a uma posição ética do analista:
''No descaminho de nosso gozo só há o Outro para situá-lo, mas é
na medida em que dele estamos separados. [. . .] Deixar a esse Outro
seu modo de gozo, eis o que só se poderia fazer não impondo o
nosso, não o considerando como um subdesenvolvido" (1974, p.
58). Rodrigo falava de suas tentativas de dominar a droga, contro­
lar seus efeitos, mas no momento em que a analista colocou à prova
o seu interesse em saber por que utilizava cocaína, qual o seu desejo,
ele desapareceu. A questão não era "normalizar" o seu gozo, mas
responsabilizá-lo por ele.

As experiências de Benjamin constituem um importante


registro dos efeitos do consumo de drogas. Em seu relato, o filóso­
fo compara o ir e vir da droga com o fio, com a meia enrolada e
com a criação porque para ele a droga é uma forma do sujeito
poder experimentar a aproximação e o afastamento do objeto. Essa
é a conclusão que ele tira a partir do haxixe que ele mesmo experi­
mentou. É justamente neste ponto que a psicanálise traz sua contri­
buição à questão: a relação do sujeito com a droga deve ser obser­
vada no "um a um", tomando-se cada caso como um caso singu­
lar. Tanto é, que a relação com o objeto foi experimentada por
Teseu de forma diferente: Teseu matou o Minotauro, foi embora e
abandonou Ariadne, embora ela estivesse crente que ele retornaria
para os seus braços. No caso de meu analisante é pos sível dizer que
em vez de colocar a analista no lugar de semblante do objeto causa
de desejo, no lugar do ir e vir do jogo transferencial, ele colocou a
relação com a droga. No vaivém com a cocaína, Rodrigo escolheu
um caminho sem volta e perdeu, junto ao fio, Ariadne.

114
Ana Martha Wilson Maia

Referências bibliográficas

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SLOTERDIJ K, P. Crítica de la raz.ón cínica (1983). Madrid, Taurus, 1989.

115
O INFERNO DO DESEJO E O
DESERTO DO GOZO

Maria Anita Carneiro Ribeiro


Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

"Não des9ar o iefemo é uma.forma de widerstand, é a resistência '�


Jacan Lacan

O olhar de uma adolescente abre ao poeta as portas do


Inferno e o acesso ao Paraíso, ao preço de perdê-la. A Divina Comé­
dia, obra-prima da literatura universal, foi escrita no início do século
XIV, tendo como inspiração maior este olhar de Beatriz. O amor
que surge do desejo causado pelo olhar no poeta o levará a cantar
sua dama em várias obras, antes de imortalizá-la na glória divina.
Amor ideal, feito de um único olhar, na vida de um homem que
não era propriamente um asceta.
Dante Alighieri foi um homem de seu tempo. N ascido em
1265, em Florença, participou ativamente das lutas fratricidas entre
os reinos divididos da Itália medieval. Foi preso, condenado e exila­
do, antes de vir a morrer em 1321,em Ravenna, sob a proteção de
Guido da Polenta, sobrinho de Francesca da Rimini. Em Ravenna,
morava sua filha, também chamada Beatriz, que havia se tornado
freira, dedicando sua vida ao Senhor. Em Ravenna, entre as som­
bras de Beatriz, a santa, e de Francesca, a pecadora, Dante entrega
sua alma a Deus.
O Brilho da InFelicidade

É no Canto V, no segundo círculo do Inferno, que Dante


coloca a infeliz Francesca, vítima de amores adúlteros, tia de seu
patrono. Francesca da Rimini, nobre dama, casou-se por procura­
ção com Lanciotto, senhor de aparência repulsiva e dis forme. Para
representá-lo nas núpcias, Lanciotto envia seu belo irmão Paolo. O
amor pecaminoso surge entre os dois jovens e Dante, colocando­
os juntos para sempre no Inferno, interroga Francesca: "Mas dizei­
me, no tempo dos doces suspiros, como o amor vos revelou vos­
sos dúbios desejos?" (195 2 [1310 aprox.] , p. 8)1 • Francesca revela
que foi um livro, o romance do amor cavalheiresco, também con­
denado, de sir Lancelot por sua rainha, que os havia conduzido ao
primeiro beijo. O marido traído surpreendera um dia os amantes e
os trespassara com o fio da mesma espada. Condenada a vagar nas
sombras por toda a eternidade ao lado de seu amado, Francesca
confidencia ao poeta: "O amor, que não absolve o amado de amar,
tomou-me com tal firmeza que, bem vedes, nem agora me aban­
dona" (ibid. ).
O segundo círculo do Inferno é habitado por pecadores
da carne, aqueles que "submeteram a razão ao apetite" (ibid., p. 7).
Helena de Tróia, Cleópatra, Páris, Tristão. .. os grandes amantes da
história desfilam, açoitados pelo negro sopro do ar infernal. "Como
pombas, chamadas pelo desejo, com asas abertas e firmes, vêm
pelo ar trazidas por sua vontade ao doce ninho" (ibid. ). O Inferno
é habitado pelo desejo e não é à toa, nos diz Lacan, "que ningu ém
se interessa por outra coisa" na obra de Dante, "embora o que ele
conte sobre o Paraíso seja também muito interessante" (1975, p. 19).
Mais do que isto, Lacan nos diz que "o desejo do homem é
o inferno" (ibid., p. 18), o próprio inferno do impossível encontro
com o objeto. Francesca da Rimini, Helena de Tróia, Cleópatra,
Beatriz . . . figuras de mulher que falam do encontro malogrado em
his tórias que atribuem o desencontro forçoso às várias figura s do
destino: guerras, intrigas, traições.

118
Maria Anita Carneiro Ribeiro

Talvez Beatriz deva ser dentre elas destacada, uma vez que
do desencontro inevitável, marcado pela queda de um olhar, o po­
eta construiu uma obra-prima e não apenas uma infeliz história de
amor. Pois Dante sabia que o objeto não está lá, onde o sujeito
procura: "Por que vos siderar no es forço de ver algo que não tem
lugar aqui?" (1952 (1310 aprox.], p. 145).
Cego2 , o poeta vê além, para-além de Beatriz, a Mulher,
cujo lugar vazio é demarcado pelos versos que cantam o Inferno e
o Paraíso. O poeta vê em Beatriz a beleza: ''A beleza [. . .] que trans­
cende toda a medida, para além do nosso alcance, e até mesmo
acredito que só seu Criador pode gozá-la toda" (ibid., p. 152).
A beleza de Beatriz, a Mulher que não existe, está para-além
do que pode ser gozado por um homem em uma mulher, e o
poeta deve dela desistir: "Desde o primeiro dia em que nesta vida
vi sua face até esta última visão, a seqüência de meu canto não foi
cortada, mas agora devo desistir de perseguir sua belezà com meus
versos" (ibid. ).
A relação que um homem pode estabelecer com uma mu­
lher e vice-versa, o que cada um pode gozar do outro, está mediada
por um terceiro elemento - o Falo - "terceiro irredutível" (Lacan,
1975, p. 14), que torna todo pretenso encontro a dois um irremediável
ménage-à-trois.
Em 1975, Lacan pronuncia sua terceira conferência em
Roma, anunciando-a com uma paródia aos versos de Gérard de
Nerval: ''A terceira volta, é sempre a primeira [ ...]" [ibid., p. 73] . A
primeira que volta em ''A Terceira" é o Discurso de Roma, "Fun­
ção e campo da palavra e da linguagem", primeira conferência pro­
ferida por Lacan na Cidade Eterna, em 1953. Mais de vinte anos
depois, em ''A Terceira", na qual expõe o nó borromeano e os três
registros, é a esta primeira conferência que retorna para dar ênfase à
ação do significante sobre o sujeito.

119
O Brilho da InFelicidade

O significante mortifica o corpo do sujeito, tornando-o


corpo s imbólico, deserto de gozo. Deserto de gozo quer dizer que,
a partir da incidência do sign ificante, "o corpo se introduz na eco­
nomia do gozo pela imagem" (ibid., p. 91). Há que se compreender
o corpo, nos diz Lacan, como desatado do real, "que por mais que
exista nele na medida em que faz seu gozo, lhe segue sendo opaco"
(ibid., p. 89). Assim, a incidência da linguagem civiliza o gozo e ao
corpo resta gozar pela intermediação da imagem. O gozo estabele­
cido como fálico, referido ao "terceiro irredutível" introduzido pela
linguagem, é anômalo em relação ao corpo, é gozo "fora do corpo"
(ibid. , p. 91).
Francesca da Rimini e Paolo, jovens, belos e sexualmente
atraentes, descobrem seus "dúbios desejos" através de um livro,
história de cavalaria, em que o nome do herói, Lancelot, ecoava o
nome do vilão traído, Lanciotto, revelando que o amor não é nunca
um caso entre dois, típico exemplo de ménage-à-trois. Lacan cita, a
propósito deste gozo fora do corpo, o caso do escritor japonês
Mishima, que dizia que sua primeira ejaculação havia sido causada
por São Sebastião. "Deve tê-lo deixado bem pasmo, essa ejaculação!",
observa Lacan (ibid.).
É o fora-do-corpo do gozo fálico que faz com que "a
relação como tal entre os dois parceiros sexualmente diferenciados
esteja marcada pelo fato de que sua relação ao sexo seja uma rela­
ção para-sexuada". Segundo Lacan, é o que Freud aponta ao falar
de bissexualidade, ou seja, que é justamente pelo fato de ser falante
que a identificação de um sujeito a um dos sexos só vai ocorrer
"secundariamente e por acaso" [1975b, p. 14].
O inferno do desejo e o impossível do encontro entre os
sexos, justamente por ser impossível, incidem de forma diferencia­
da em cada um dos sexos. Se Francescá da Rimini e seu amado
Paolo estão juntos para sempre no Inferno, cada um deles deve
bem saber que o inferno de que um padece não é o inferno do

120
Maria Anita Carneiro Ribeiro

outro. Pois se Sartre aí se equivocou, foi por não ver que a imagem
do outro - i(a) - esconde e vela justamente este pequeno a, "ob­
jeto insensato" [Lacan, 1 975, p. 80] , "cagada ou olhar, voz ou ma­
milo que divide o sujeito e o dis farça em dejeto, dej eto este que lhe
ex-siste ao corpo"(ibid., p. 83) . R. S. I: o Imaginário vela o Real e o
Simbólico nomeia - "Tu és minha mulher" - ou ainda, como diz
Lacan: "Tu és o meu sintoma".
Uma mulher pode ser o sintoma para um homem, pois
uma vez que este se inscreve no todo fálico ('efx <l>x) , ela pode vir a
nomear a modalidade oculta do seu gozo. Mas, nos diz Lacan,
"não creio que o sintoma Homem tenha absolutamente o mesmo
lugar para uma mulher" [1 975b, p. 1 5] . Uma mulher, não-toda fálica
('efx <l>x), pode ter e freqüentemente tem relações sintomáticas com
os homens, ou com um homem em particular, porém é jus tamente
por ser não-toda que não poderá ter em um homem seu nome de
gozo, seu sintoma.
A total impossibilidade de qualquer correspondência lógica
entre um homem e uma mulher é o determinante do inferno do
desejo. E é para este ponto que a psicanálise conduz o sujeito. "Não
desejar o inferno", nos diz Lacan, "é a resistência" (ibid., p. 1 9) . Po­
rém quais os limites desta descida aos Infernos que é uma análise?
Quais os limites que nos apontam os sujeitos que consomem dro­
gas? Em que medida e com que oferta pode o analis ta contrabalan­
çar o brilho da felicidade reac!J-made? E em que medida toda pro­
messa não contraria a ética infernal que preside uma análise? Se a
resistência é a resistência do analista, é por que, ao presentificar o
objeto que falta, é ele próprio - analista - que introduz na análise
a dimensão infernal do desejo e causa também a resistência.
Paulo tem p ouco mais de trinta anos quando procura a
análise. Já havia s e submetido a uma internação para livrar- se do
vício - cocaína e álcool - binômio sinis tro que o havia levado
à degradação. Bonito, in teligente e obses sivo, sem a droga se

121
O Brilho da InFelicidade

confrontava com a angústia.- o pai devedor era um fraco; a mãe,


dele só esperava o pior: "Tudo é motivo de briga, é um inferno!",
diz. Submetido à demanda materna, que toma como seu desejo,
não pode "dar certo". Sob transferência, o confronto constante
com a analista: uma análise feita na contramão, em que o amor de
transferência quase que só pode apresentar sua face odienta. Aos
trancos e barrancos, um percurso se dá: retoma o trabalho,
reaproxima-se dos amigos, reapruma-se na vida, até que, por fim,
se apaixona. Com o novo amor, reaparece o brilho da droga e o
impasse se produz: amar ou se drogar?
Amar é o verbo transitivo que reabre para o sujeito a ques­
tão do desejo do Outro, seu inferno. O inferno de Paulo, tal como
o de Dante, pendia do olhar de sua Beatriz: ela olhava para os
outros, seria uma namoradeira? Olhava muito para outras mulhe­
res, seria lésbica? Não era muito ativa na cama, seria frígida? O pior:
era amiga, companheira, solidária e ele a desejava. É possível um
homem amar e desejar uma mulher que lhe abre tantas questões?
A cada pergunta, nova recaída. Paulo não era um novato:
da droga conhecia todos os caminhos, da satisfação ao desespero.
Aprendemos, a partir das poucas citações de Freud e Lacan sobre a
toxicomania, a distinguir toscamente entre o matrimônio do sujeito
com o álcool e a ruptura, o divórcio com o gozo fálico trazido por
outras drogas, inclusive a cocaína. Para Paulo, o álcool estava a ser­
viço do gozo autista da cocaína: bebia para cheirar e o pó lhe exigia
mais bebida, para mais uma "cheirada". Ali onde o olhar de uma
mulher abria para o sujeito sua questão fantasmática, o brilho da
droga a calava, levando-o a gozar fora do enquadre da fantasia.
Lasciate ogni speranza, deixai toda esperança, Dante escreve
nas portas do Inferno. Não que a esperança, uma das três virtudes
teologais (fé, esperança e caridade), seja de todo má. Lacan nos diz
que estas três virtudes, representadas nos murais italianos por três
senhoras bem fornidas de carnes, são sintomas, como costumam

122
Maria Anilo Carneiro Ribeiro

ser as mulheres. Sintomas que promovem "o melhor da neurose


universal, ou seja, que no final das contas as coisas não andem tão
mal e que estejamos todos submetidos ao princípio da realidade,
isto é, à fantasia" [1975, p. 94] .
Deixai toda esperança está escrito no portal de cada análise,
cuja direção é marcada pela ética do inferno do desejo. Não há
conciliação possível, se o sujeito quer chegar ao âmago de sua ver­
dade. Atravessar a fantasia é abrir mão "do melhor da neurose
universal", do consolo ilusório das gordas virtudes teologais. É uma
escolha ética que cabe a cada um fazer só, frente à causa de seu
desejo. No final de uma análise, ao abandonar toda esperança para
atravessar o quadro _ fantasmático que delimita o inferno de seu de­
sejo, o sujeito abre mão da culpa para responder - tornar-se res­
ponsável - por seu destino. O Outro não existe e o sujeito é res­
ponsável por sua vida, seu amor e seu desejo.
O amor sem limites advém daí, do ponto preciso em que o
sujeito não recua frente a sua verdade.
Dante fez de sua verdade um poema, imortalizando Beatriz,
seu sintoma, na Divina Comédia. ''Não sou poeta", nos diz Lacan,
"sou poema. E que se escreve, mesmo que tenha ares de ser sujei­
to" [1976, p. 61]. Ser um poema que se escreve em sua própria
vida; não ser o poeta, mas ser a escrita de um poema, mesmo tendo
ares de ser sujeito. . . Este é o desafio que é lançado ao analista, para
que do lugar de semblante de objeto causa de desejo possa condu­
zir um sujeito ao encontro de sua verdade.
A droga pode também ser uma escolha diante da qual o
sujeito abre mão de toda esperança. É a escolha pelo gozo que não
passa pelo Outro do simbólico, pelo gozo que abole o falo e sua
mediação no encontro com o Outro sexo. É a escolha do gozo
contra o amor e o desejo. Ao optar pela droga, o sujeito reintroduz
no corpo o gozo que o significante domestica e retira. O corpo não

123
O Brilho do InFe/icidode

. é mais deserto de gozo, mas é o próprio gozo que - vazio do


significante - é o deserto do sujeito.
Ao fazer o curto-circuito do simbólico pelo uso da droga,
· o sujeito na verdade não abre mão do Outro, não se responsabiliza,
não responde por sua vida. Aloja-se no significante que o Outro
- ·social lhe fornece e atribui ao Outro do acaso a responsabilidade de
· decidir a partida. Esta foi a escolha de Paulo. Definindo-se como
i:oxicômano, escolheu o brilho da droga ao olhar do desejo, e saiu
dizendo deixar nas mãos do destino a sua sorte: dia mais dia me­
. nos, tudo acabará numa overdose. Ao inferno do desejo preferiu o
deserto do gozo, pavimentado pela brancura do pó. Que o cami­
nho escolhido possa ter volta é um voto - desejo de analista.

NOTA S

'. 1 . A tradução, livre, é d e nossa autoria.


2 .. Alusão à passagem do Canto XX.V em que o herói é cegado pelo clarão da
·presença, em corpo e alma, de São João - cegado pelo brilho do impossível
de se ver.

Referêndas Bibliográficas

AUG HIERI, D. Great Books of Western 111orld, n. 2 1 . Chicago, Encyclopaedia


. Britannica Inc., 1 952.
' LACAN, J. "La Tercera" ( 1 975). Em: Intervenciones y textos 2, Buenos Aires,
Manancial, 1 988.
____ . "Respuesta a una pregunta de Marcel Ritter" ( 1 975b) . Em: Estudios
de Psicosomática, vol. 2. Buenos Aires, Actuel- Cap, 1 994.
____ . "Prefácio a la edición inglesa dei Seminário II" ( 1 976). Em:
Intervenr:iones y textos 2. Op. cit.

124
..

ADOLESCÊNCIA E DRO GA: UM CASO

Sonia Alberti
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

. Entram os três no consultório: o pai, a mãe e Sérgio. Na .


realidade, não foi fácil cons eguir que vies sem todos. A mã�·,
preocupadíssima com Sérgio (1 7 anos) , não tem condições finan- ·
ceiras para um tratamento dele e é por isso, me dissera, que · era· .
necess ária a presença do pai; Mas não_ tem muitas esperanças . . . poí.s'
ele não acredita que um tratamento possa resolver o problema . do
filho. O problema do filho, segundo ele, é uma fraqueza moral;· el� ·
j á lhe diss e várias vezes que s eguisse seus passos exemplares cuja l ei,
resumindo, é a lei de Gérson - a de tirar vantagem em tudo. Aliás,
foi assim que ficou rico numa empresa que criou. Durante a entre -:
vis ta com a analis ta não só atende a chamadas no telefone celulàr
como também faz ligações, s em nenhuma justificativa. Está per,
dendo dinheiro no consultório da analista e, ainda por cima, têrá
que lhe pagar. "Não há problemas com dinheiro, pago qualqu'ei:
coisa, o que for pedido, mas duvido que meu filho dará contihuidà-.
de: ele é fraco, não sus tenta o que quer, aliás, nem quer vir, não. é�
Sérgio?".

· Sérgio mora com a mãe, mas a mãe também trabalha e.,


quando sai, Sérgio não faz nada. O pai s aiu de casa há algu ns anos ,
hoj e mora com outra mulher, tem outra familia. A mãe d e Sérgio .
faz análise e recém iniciou nova relação amorosa. Sérgio ficou em .
casa, não faz nada. Quando tem que · fazer de conta de ir par� ·a.
escola, vai para a rua. Conhece muito bem a rua e todos do bairtq .
O Brilho da lnFelicidade

o conhecem. Gostam dele e, poderíamos dizer, Sérgio quer ser


adotado pelo bairro. É um bairro grande do Rio de Janeiro. Isso,
evidentemente, ele conta quando sozinho com a analista. Conta tam­
bém que toda preocupação da mãe com a droga é hoje total.mente
desnecessária, mas isso ela não sabe.
Durante a entrevista com a família, entre uma ligação e ou­
tra do celular, os pais brigavam porque Sérgio usa drogas quando
vai para o prédio do pai. É lá, no plcry do prédio do pai, que a droga
é não só negociada como consumida. Monstração: tal a jovem ho­
mossexual (cf. Freud, 1920) que insiste em passear com a Dama
sob a janela do escritório do pai, Sérgio usa drogas no play do
prédio do pai, não correndo, no entanto, nenhum risco de ser pego
pelo pai, mais ocupado com seu objeto - o celular.
O risco veio de alhures e foi por causa dele que Sérgio
largou as drogas. Há três meses, com drogas no bolso, tarde da
noite nas proximidades de uma favela, uma blitz. Sérgio correu muito,
corria com a angústia da morte: viu-se diante da morte e foi por
isso que topou vir à analista; no fundo, tentava escolher a vida. Já não
usava drogas a partir desse episódio, pois não queria, nunca mais,
confrontar-se com a morte como naquela noite. E sabia, a droga o
faria reviver isso de novo.
"Essa angústia, Sérgio, ela te faz lembrar de alguma outra
coisa?" A resposta é imediata: "A separação de meus pais". E de­
pois de um "Fale-me mais sobre isso", a associação: "Fui eu a causa
da separação de meus pais. Me sinto culpado pela separação de
meus pais, até hoje brigam por minha causa".
Sérgio não pode sustentar o tratamento, "não é, Sérgio?",
mas sem dúvida algumas considerações hão de ser feitas, pois, de
saída, se Sérgio não o sustentou é por que, antes de mais nada, seu
pai nunca o pagou. E ficou a possibilidade de Sérgio vir a pagá-lo,
ele próprio, um dia.

126
Sonia Alberti

Da pai versão ou pere-version.

Duas acepções da droga no caso. A já mencionada e perce­


bida na monstração - a droga como apelo ao pai. Apelo à função
paterna em que a droga é instrumento de transgressão com a fun­
ção de fazer existir a lei. Mas o pai não vê essa vertente. Ele não se
importa que seu filho use drogas, desde que saiba fazê-lo e não caia
na mão da polícia. Pois isso é coisa da idade, depois passa. O pro­
blema dele é que seu filho é um fraco. Se o pai de Sérgio não vê essa
vertente, não podemos nos furtar de observar aqui uma perda da
realidade, conforme Freud, efeito de uma Verle11gn11ng, um desmen­
tido particular da perversão.
E segunda acepção da droga no caso: identificação ao pai.
Tal como o pai tem seu obj eto fetiche - cuja versão "celular"
pudemos observar -, o filho também encontra na droga um moto
de vida. Só que aqui não se trata de perversão mas de um desespe­
rado apelo à identificação com o pai, frente à divisão do suj eito que
desaparece sob a terrível acusação de ter s eparado os pais e que se
fundamenta no mui neurótico complexo de É dipo ao qual procura
apegar-se a todo custo: o custo de ser culpado pela separação dos
pais.
Com vestimenta moderna, o tema clássico: todo neurótico
tem um pai que é perverso. Eis como proponho hoje interpretar o
tema da pere-version. E para isso tomo emprestado um parágrafo de
François Regnault, que traduzo: "O inferno é a miragem do neuró­
tico: a perversão da qual sua neuros e é o fracass o (1 985, p. 1 04).
Donde o fato do Pai (Pere), nome do nó, se difundir em direção
(vers) às instâncias de sua trindade, e ter a perversão como alvo ou
como limite: 'Deus é pere-verl (Ornicar? n. 5, p. 43)". Concluo:
1) A droga não está ligada a uma estrutura. Com Sérgio,
confirmamos sua utilização na miragem do neurótico. A que divide
o suj eito de forma dantesca, o que, no caso, é confirmado pela

127
O Brilho da lnFelicidade

noção de expiação. Como todo neurótico, também Sérgio prefere


a sua divisão àquela do Outro, aqui imaginarizado pelos pais.

2) Que Freud tinha mesmo certa razão quando supunha


um pai perverso às his téricas : o neurótico supõe a existência de um
pai que não fracassa e que pode sustentar sua perversão, identifican­
do, por exemplo, a mulher com o falo. Poderíamos dizer que esse é
um sentido possível p ara a neurose como negativo da perversão.
No caso, no entanto, não é bem disso que se trata.

No caso, do quê se trata?

O sujeito como tal nunca está exatamente lá onde pensa,


nem ali onde é, pois o suj eito, como Freud nos ensinou, é dividido.
Sérgio, sem dúvida, está no lugar do suj eito, entre alienação e sepa­
ração. Donde a vertente do apelo que se faz presente no discurso
de Sérgio, um apelo ao Outro que, como em todo adolescente em
dificuldade, se acirra à proporção que o Outro se dess olidariza. O
Outro parental, no caso.

Já pude dizer em outras ocasiões que o suj eito adolescente


somente irá deparar-se com a falha da função paterna s e, até então,
a metáfora paterna exerceu toda sua função. Que ele s omente po­
derá caminhar na direção de prescindir do pai, s e des te pode s e
servir. Quando i s s o n ã o ocorre, váril!.s serão as cons eqüências. Mas
a mais comum é o apelo. Nós também podemos acompanhá-lo
em S érgio, por exemplo quando se diz culpado da separação dos
pais. Porém se interpretássemos o uso da droga como simples ex­
piação dessa culpa, já es taríamos incorrendo em erro frente ao lu­
gar que ocupa como resposta ao desejo do Outro: é um fraco.

Lugar ao qual é designado na própria fala do pai que, em


vez de calar frente à p ergunta do Che vuoi?, não lhe deixa nem tem­
po, nem chance de perguntar. Design a. E o ponto aonde o levam

128
Sonia Alberti

esses desígn ios o colocam frente a frente com a despossessão. Ao


contrário da possessão, que pudemos dis cutir no texto de Latusa 2
(1 998) , na qual o sujeito se encontra entre o ter um Outro e o não
existir, Sérgio é literalmente despossuído de qualquer atributo que
lhe poderia valer uma atenção. Ele é o objeto jogado fora, na com­
pra da droga, no dinheiro que aí vai. Ele é o objeto que cai da
interseção entre alienação e separação.

A castração

Quando dizemos com Freud (1 926) que toda angústia do


neurótico é s empre angústia de castração, referimo-nos ao fato de que
o sujeito neurótico sempre acaba por dar uma significação ao encon­
tro com o real. E a significação, como sabemos, é sempre do falo
(Lacan, 1 958). Freud já o estabelecera quando, com o caso Hans, apontou
o falo como marca da diferença. Para o pequeno Hans, antes mesmo
de se perguntar sobre a diferença sexual, todo ser que possuísse um
"faz pipi" era ser animado, e todo ser que não tivesse um "faz pipi"
era um ser inanimado. Dizia que dava para ver que uma pedra, por
exemplo, era um ser inanimado porque não tinha "faz pipi". Dá
para vermos, a partir disso, que o falo é o diferenciador. Só que
esse falo não é o órgão por excelência, mas a própria marca, ou seja,
o significante da diferença, e é pela diferença que se adquire uma signi­
ficação que se dá num único campo: o da fala e . da linguagem.
Mas nem tudo no homem é da ordem do significante, pois
esse mesmo campo, o da fala e da linguagem, implica o que está
fora do significante. Quando se fala e quando se conceitua, sempre
há algo que fica não dito e, mesmo, impossível de dizer. Algo é
impossível de dizer somente porque há o dito, do qual é in/ ex­
cluído. Esse é o real, o impossível de ser simbolizado. Isso já é da
ordem da castração, ou seja, a impossibilidade. Freud a imaginariza,
em 1 937, como um rochedo, intransponível ao suj eito humano.

129
O Brilho da I11Felicidade

Atribuir uma significação à angústia permite ao sujeito velar


de alguma forma o horror do encontro com o real que o reduziria
a mero objeto da impossibilidade. É esse horror o que resulta no
final da análise, quando nada mais é velado. Por isso se dizer tam­
bém que o final da análise proposto por Lacan é ao mesmo tempo
aquele proposto por Freud como sendo o do encontro com o
rochedo da castração e um passo a mais, pois o encontro, quando
um pouco mais trabalhado, lança o horror para fora da sign ifica­
ção, um além do encontro com o rochedo da castração.
Para suportá-lo, todo um longo trabalho em análise que
solidificou, como também diz Freud em 1 937, os diques (Alberti,
1 998b), ou seja, os trilhamentos do recalque, o que também quer
dizer a possibilidade de se servir do pai na estrutura.
Mas há momentos, na vida de alguns sujeitos, em que o
encontro com o rochedo pode lançá-lo no horror da falta de signi­
ficação sem que antes este mesmo sujeito tenha podido solidificar
as es tacas simbólicas da estrutura (penso aqui na passagem trabalha­
da do caso Tõrless (cf. Alberti, 1 996, p. 243) em que o adolescente
se refere justamente à solidez necessária da referência simbólica) . A
angústia aqui não tem a significação fálica da angústia de castração
de todo suj eito neurótico; trata-se da castração como mortificação.
Daí a angústia de morte, aquela que Lacan examina justamente no
5eminário, livro 1 1: os quatro conceitosfundamentais dapsicanálise (1 964) ao
falar da alienação/ separação remetidas à pulsão que, no fundo, como
dizia Freud, é sempre de morte.
É a falta do olhar do pai no evidente apelo durante a
monstração no play que curto-circuita o objeto olhar em que Sérgio
se deixa cair na ausência da ligação pulsional que, ao neurótico, dá
um sentido. A mortificação nasce aí, ali onde Freud inscreve a
Triebentmischung - a desintrincação pulsional - que deixa a céu
aberto o que toda pulsão implica: a pulsão de morte. Puro gozo
desintrincado do desejo cujo vislumbre se toma patente para Sérgio

130
Sonia Alberli

no risco corrido junto à polícia e o faz fazer um movimento na


tentativa de construir diques frente ao gozo, ou seja, o faz vir ao
analista.
O pequeno trabalho feito, e que o levou a dar uma signifi­
cação à sua angús tia, culpabilizando-o pela separação dos pais, pode
ter introduzido uma diferença. Quem sabe? Afinal das contas, ao
poder evocar a culpabilidade, Sérgio pôde reerguer o Outro ali onde
ele já não se mostrava mais existir. Quando ele se culpa, não é o Outro
que o abandona; ele o largou primeiro. Diria que Sérgio fica aqui entre
o supereu freudiano e o lacaniano, tais como retomados por Miller
em "L'Autre qui n'existe pas et ses comités d ' éthique": "O supereu
freudiano produziu coisas como o proibido, o dever, a culpabilidade.
Tantos termos que fazem existir o Outro. São faz de conta de Outro.
Supõem o Outro. [...] O supereu lacaniano, aquele que Lacan especifi­
cou em Encore, produz, ele, um imperativo totalmente diferente -
Goze. Esse supereu aí é o supereu de nossa civilização" (1 997, p. 14).
Sérgio parece pois encontrar-se entre esses dois supereus.
Quando usa a droga, encontra-se na vertente do "Goze'' e quando
se culpa, na vertente do supereu freudiano, que implica o pai como
semblante.
Há que se saber se finalmente pôde fazer alguma coisa, ou
se continuou na cama, sem fazer nada, seguindo o caminho daquela
mortificação. Pois nesse último caso, já não se trata nem de um nem
de outro supereu, mas de depressão. E sobre a depressão Colette
Soler soube dizer: "o deprimido inquieta porque, p elo simples fato
de sua existência, ele ameaça o laço social" (1 997, p. 1 7 1 ).

Laço social e gozo

Talvez seja isso o que nos dá finalmente o sentido do traba­


lho de Sérgio, pois, com efeito, o que mais poderia deixar seu pai

131
O Brilho da lnFelicidade

maluco, a última possibilidade de ameaçar seu pai na tentativa de


dividi-lo, até então tantas vezes frustrada, é esta da qual fala Colette
Soler. Ela evidenciaria o engodo do "Goze", neutralizando-o como
laço social, produto do capitalismo selvagem no qual esse pai pare­
aa tmergtr.
Enquanto Sérgio usava droga, era conhecido na rua, no
bairro. . . À diferença de ficar na cama sem fazer nada, o uso da
droga implica um prazer. É promessa de felicidade no auto-erotis­
mo. Na adolescência, ao contrário da maioria dos casos, o uso da
droga faz laço social, a exemplo do alcoolismo no adulto. Pode-se
usar droga "socialmente", assim como se bebe "socialmente". Usa­
se a droga na vertente identificatória com o Outro grupal. A droga
é aqui instrumento que suporta a metaforização do Outro parental
a partir da eleição de novos ideais, que funcionam, fundamental­
mente, como maneira de dialetizar os ideais antigos, "herdados"
dos pais. O que novamente nos lança na vertente da alienação. Usa­
se a droga na adolescência, na identificação a esses novos ideais, no
engano de com isso separar-se do Outro, pois, no fundo, o fato
dela ser proposta pelo grupo já a implica como instrume!'-to de
alienação.
A alienação/ separação é o campo do laço social; nele o
sujeÍto vagueia entre os quatro discursos enquanto não se identifica
com o que dele cai na interseção da alienação com a separação.
Como o gozo é produto do supereu em nossa civilização, como
dizia Miller, é perfeitamente factível o uso da droga no laço social
em que se insere o adolescente. É não usá-la e não usar mais ne­
nhum de todos os produtos e gadgets dessa nossa civilização que a
denuncia, que a macula, que aponta seu furo, como diz Colette
Soler ao falar da depressão; é aí que Sérgio entra.
Se a droga é hoje tida como instrumento do que não faz
laço social é por que, como efeito da alienação, o sujeito pode ter­
minar como produto do discurso do capitalismo, rebotalho da so-

132
Sonia Albe,ti

ciedade, "lixo do bem-estar da sociedade" - como em início de


março o presidente da Nestlé alemã referia-se aos desempregados,
o que lhe valeu uma passeata em Frankfurt. Como diz Miller na
passagem assinalada, o Gozo como tal está incluído no laço social
do capitalismo e é nesse sentido que aliás Aldous Huxley já imagina­
va o Admirável mundo novo. Be happy, don 't worry é também o texto de
uma de nossas músicas modernas. No fim das contas, o que Sérgio
faz, é recusar-se a isso.

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133
O LUGAR VARIÁVEL DO OBJETO DROGA

Carlos Genaro Gauto Fernández


Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

[O homem] qwpois criaropamíso� àfarmácia, às beb«kufermenladas,


talcomo um maníaco que .IHbstituísse móveis sólidos eJardin.r verdadeiros
por cenários pintados em tela e montados em armações.
Charles Baudelaire, Poema do haxixe.

Como muitas vezes constatamos na clínica, o efeito mais


evidente do objeto droga é a felicidade. A felicidade ao alcance da
mão, ao alcance do dinheiro. Infalível, encontra-se aí o paraíso. Ar­
tificial, como o descreveu Baudelaire (1 971).
Este filósofo, em seu ''Poema do haxixe", após descrever os
efeitos desta droga e a natureza do goz0 que ela produz, reflete sobre
o valor ético de seu consumo. Assim conclui: "É a própria infalibilida­
de do meio que constitui a imoralidade". Ou seja, a objeção ética não
é o próprio produto, mas a trapaça que se faz quanto ao modo leal de ·
obter a satisfação, que deve incluir o Outro, com seu jogo de incertezas
e de surpresas sem reruar frente ao desejo enigmático que pode emergir.
Baudelaire condena o auto-erotismo que implica o gozo da
droga. Neste sentido, há um infantilismo primordial quando se pensa
na satisfação que seu uso produz.
Freud, em "O mal-estar na civilização" (1 930), escreve·que
a felicidade individual não estava prevista no plano da criação e que
o desígnio de sermos felizes, que o princípio do prazer sugere, é
irrealizável. Portanto, a felicidade possível na civilização, que está
O Brilho da lnFelicidade

organizada pela renúncia ao gozo pulsional, depende exclusivamen­


te da forma como cada um resolva, do ponto de vista econômico,
seu balanço libidinal.
A renúncia ao gozo pulsional implica uma separação do
auto-erotismo para permitir que o sujeito possa se lançar numa dialética
com o Outro. O Outro da linguagem, da Lei e da significação.
Conhecemos os caminhos do Complexo de Édipo e de
Castração como os caminhos lógicos por onde a Lei da castração é
ins_tituída. É assim que no pequeno romance familiar de cada um o
discurso toma sua eficácia. É a entrada num universo de discurso,
possível porque o sujeito consentiu com seu assujeitamento _a o
significante, que o separa de seu corpo míticamente biológico do
qual poderia gozar à vontade.
A entrada no universo discursivo não se faz sem proble­
mas. A partir de Freud e Lacan sabemos, por exemplo, como o
Pequeno Hans, um menino de cinco anos, desenvolve uma fobia quan­
do não consegue conciliar três coisas: o gozo sexual que obtém
com a ereção do seu pênis, a confluência entre seu pênis e seu corpo
próprio (que o coloca frente ao ilimitado da mãe) e a interdição
paterna. O processo civilizatório consiste precisamente na passa­
gem desse gozo ilimitado para o gozo limitado pelo falo, que deixa
um resto fora da sua dialética.
Lacan (1956-7) acentua a necessidade do casamento com o
falo, que é a via pela qual o gozo será possível para o ser falante. O
gozo fálico - ou satisfação fálica - compreende a participação na
dialética da significação organizada pelos sign ificantes da cultura,
isto é, o fato de que a cada encontro se repete o desencontro, pois
o falo se define exatamente por não estar lá onde deveria; daí a
coalescência entre a satisfação e o ato falho, que constituem o que
chamamos de encontro faltoso.
Para o menino, o pênis se constitui como lugar de satisfa­
ção. Seu gozo se localiza aí. É um avanço, mas pode permanecer na

136
Carlos Genaro Ga11to Fernóndez

masturbação. É somente mais tarde que se dará o encontro com o


Outro sexo e com o enigm a que este propõe, já que a satisfação do
feminino não é perfeitamente congruente com o gozo fálico.
''A análise presume, do desejo, que ele se inscreve por uma
contingência corporal", diz Lacan (1 972-3, p. 1 26) . Ou seja, a con­
tingência fálica é · a via pela qual podemos ter notícia da causa do
desej o. É por essa via que uma mulher pode ocupar esse lugar.
Dito de outro modo, a civilização deixa o sujeito numa
deriva quanto à questão libidinal, mas lhe propõe a mulher como
objeto capaz de lhe satisfazer, sem dizer como. Frente a este enigma
muitos recuam. Neste contexto, o objeto droga aparece como que
de contrabando para fazer um curto-circuito com relação à satisfa­
ção. Lacan escreveu des ta forma: "o objeto droga é o que permite
romper o casamento do sujeito com o pequeno pipi" (1 975) .
Feitas estas considerações d e caráter geral, o u estrutural,
verificaremos a partir da clínica, que implica necessariamente o sin­
gular de cada paciente, o lugar da droga. Conseqüentemente, não
pensamos em classificar alguém como toxicómano ou alcoólatra pelo
caráter empobrecido destes rótulos, que, além do mais, escondem
o verdadeiro âmago da questão.
Para o analista, trata-se de cernir o lugar que a droga ocupa
na economia psíquica de um analisante em particular. Deste modo,
por exemplo, a direção do tratamento dependerá de que a possibi­
lidade do casamento com o pequeno pipi possa ser encontrada.
Num sujeito psicótico, esse casamento fica impossibilitado pela au­
sência da metáfora paterna. Sem Nome-do-Pai não há significação
fálica. Entretanto a droga ou o álcool podem se cons tituir como
recursos, como suplências ao Nome-do-Pai que não funciona. Po­
deremos ter então o rompimento com o gozo fálico num paciente
neurótico ou o gozo fálico não se apresentando pela ausência da
metáfora paterna, como Éric Laurent lembra em "Três observa­
ções sobre a toxicomania" (1 995) .

13 7
O Brilho da I11Felicidade

Trata-se .de um paciente masculino com aproximadamente


quarenta anos de idade, professor universitário, pesquisador. Há anos
procurou um analis ta por causa de problemas de impotência sexual.
É homossexual, contudo este traço não lhe faz questão. Já conviveu
maritalmente com uma mulher mas sempre com muita dificuldade.
Atualmente tem por companheiro um homem bem mais jovem.
Com este suas relações são também complicadas, inclusive no cam­
po do sexual. Raras vezes consegue o orgasmo.
Ingere bebida alcoólica desde os 1 5 anos de idade. Já fez
uso de maconha mas hoje não mais. Seu companheiro desaprova o
consumo de bebida alcoólica.
Não é um caso de fácil diagnóstico, pois muitas vezes pare­
ce um sujeito neurótico com algumas esquisitices, mas outras vezes
se mostra como francamente psicótico. Inclino-me por este último
diagnóstico por vários motivos: a) presença de alucinações verbais;
em certos momentos diz ter ouvidos vozes que lhe acusavam de
algo sujo; b) presença de delírios de auto-referência e de interpreta­
ção: são comentários que as pessoas que passam na rua fazem a seu
respeito; por exemplo, de que sua casa foi vendida. Isto o deixa
terrivelmente angustiado; c) sua enorme dificuldade em lidar ade­
quadamente com a função simbólica de professor: tem dificuldade
em a tribuir notas e, conseqüen temente, reprovar; circula na
marginalidade, na periferia da Universidade, não estabelecendo la­
ços sociais com seus colegas.
A periferia da Universidade inclui principalmente o bar pró­
ximo, que é o lugar onde professores e alunos se encontram após as
aulas para beber. Freqüentador assíduo, ali tem inserção social. "To­
dos os professores desta universidade bebem", é sua frase. Sendo
também ele um bebedor, pode se inserir na comunidade, coisa que
não realiza por outros meios.
A bebida realiza aí uma função: a de permitir fazer o ponto de
capiton com a normalidade e com o universal: todos bebem.

138
Carlor Gmaro Gauto Fer11á11dez

Assim também quando reúne seus amigos, cada vez mais


escassos, para alinoçar ou jantar por causa de alguma efeméride, a
bebida alcoólica comparece como o principal cardápio.
A bebida o tranqüiliza. A interpretação delirante desaparece
ou diminui de intensidade quando está moderadamente alcoolizado.
A alternativa à bebida seria o aumento considerável da dose de Haldol
que toma, mas isto o deixaria "chapado", coisa que ele não aceita.
O jogo com seu psiquiatra é interessante. É intimado a pa­
rar de beber para que possa haver um melhor controle sobre a
medicação, mas ele não a cumpre. O psiquiatra é levado a admi­
nistrar doses mínimas do fármaco. Isto se mantém há muitos anos.
O álcool aqui é uma profilaxia contra a incidência abusiva da ciência
médica que pretende normalizá-lo e integrá-lo ao mercado produtivo.
Bebendo se manteve na Universidade. Bebendo escreveu e
defendeu com sucesso sua dissertação de Mestrado. Quais beneficias
ele obteria da retirada da bebida, com seu acréscimo de desagrega­
ção e de aumento das doses de Haldol?
Assumindo um certo risco, posso dizer que o álcool faz
aqui suplência ao Nome-do-Pai que não existe. Do pai o que ele
tem é apenas o gozo no real. O pai era alcoólatra e faleceu de
cirrose hepática. Algo importante em sua história familiar é o fato
de que o nome do pai, pouco antes de seu falecimento, foi apagado
da razão social da empresa que construiu. Esta empresa ficou com o
irmão, através de artificias escusos, diz o paciente. Ficou uma empresa
sem história, pois tudo nela começou a ser contado novamente do
zero. Há aí um pai apagado do simbólico, o que deixou um buraco.
Este buraco aparece num sonho: a casa do pai está erguida
sobre um riacho imundo, onde circulam fezes. Ela está apoiada em
ambas as margens do riacho que passa no meio. O sonho não foi
interpretado, há um "não sei o que isso sign ifica" difícil de ultrapas­
sar. Entretanto aparece como uma porção de real que pode ser
capturado pelo simbólico.

139
O Brilho da lnFelicidade

O alcoolismo, que poderia ser tomado como traço identificatório,


se constitui como um modo de gozo contínuo que não pode ser inter­
rompido por causa do perigo de desagregação que carrega.
A sua "desconfiança" no Simbólico se traduz em pensamen­
tos supostamente delirantes de que sua casa já foi vendida por algu ém,
freqüentemente por seu companheiro. A escritura do imóvel, que está
em seu poder, não lhe garante nada. O complô do qual muitas vezes se
diz objeto é a tentativa de dar sentido ao vazio da significação que as
palavras portam. O acompanhamento alcoólico apazigua esta situação.
O rio de merda que é o frágil alicerce de sua casa é ameaçador.
O álcool aqui não aparece como um recurso cínico frente à
dívida simbólica que o suj eito se recusa a pagar, mas é o que lhe
permite ter um certo laço com aqueles "todos" que bebem.
No entanto, tragicamente, ele sabe que seu destino é o de
ser des cartado como um pária social; bêbado e desempregado
poderá cair nesse riacho que corrói a casa paterna.
Penso que a análise tem aumentado esse caminho e dilatado
esse prazo, evitando a precipitação catas trófica nesse lugar dos
ejetados do mundo.

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140
TOXICOMANIAS: ONDE OPERA O ANALISTA?

Maria Luiza Mota Miranda


Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

É uma constatação clínica o fato de muitos indivíduos se


apresentarem nos Centros de Tratamento para toxicômanos com a
frase: "Eu sou toxicômano" 1 • É possível a partir dessa constatação
propor como primeiro ponto de análise a seguinte afirmação: o
toxicômano é um indivíduo que faz uso intensivo de drogas e que
pode ter o seu discurso reduzido à frase: "Eu sou toxicômano".
Lacan define a droga como o que permite romper o casa­
mento com o pequeno pipi. O modo como este rompimento com
o pipi, com o falo imaginário se dá, permite à droga adquirir um
valor tóxico, de objeto da necessidade. Assim, não se trata de cas­
tração, pois o objeto do desejo é subtraído já que a droga é elevada
à condição de objeto da necessidade. Pode-se nesse caso utilizar a
noção de privação, que vem para dar conta do que se chama de um
"furo no real", ou seja, a falta de objeto se dá no real e é por isso
que se fala em abstinência da droga. Só que aí o objeto é simbólico,
pois a privação é a "simples ordem simbólica", é a simbolização do
objeto no real, como diz Lacan no Seminário, livro 4: a relação de oijeto.
O que faz com que algu ém se sustente numa frase do tipo
"Eu sou toxicômano", qual a causa? Que conseqüências clínicas
podem daí advir? Como opera o analista?
O Brilho da InFelicidade

A catacrese

"Eu sou toxicômano" é uma apresentação, uma frase que apa­


rentemente substitui o Nome Próprio, localizando-se no anonimato e
em uma s érie. Há também outras apresentações como "X, o
alcoolista" ou "Y, o alcoolista".
"Eu sou toxicômano" ganha na toxicomania valor de me­
canismo de defesa, de figura de estilo: é uma catacrese.
A metonímia e a metáfora são mecanismos que permitem
ao sujeito do inconsciente se manifestar por seus efeitos; são figuras
de estilo, ornamentam o discurso; "são mecanismos de defesa utili­
zados pelo eu para acobertar o sujeito, se concentram contra a men­
sagem do inconsciente" (Lacan, 1 953).
A catacrese é uma redução, uma trans formação da metáfo­
ra quando esta perde o seu valor estilístico, tornando-se expressão
comum. Modernamente forma-se graças à semelhança de forma
existente entre os seres: há uma causa formal no sentido de 'idéia ou
modelo à qual o objeto corresponde' (Durozoi & Roussel, 1990) .
São tiradas do mundo, do uso comum e são formadas dentro do
idioma com o passar dos anos.
É no mundo moderno e também no discurso da ciência
que o toxicômano apanha a frase que lhe dá sentido e sustentação,
fazendo-a eqüivaler ao seu ser. Quem assistiu o filmeJogos de Adultos
pode lembrar da seguinte fala: "Basta dizermos aos drogados que
eles precisam de uma instituição de tratamento para se curarem, que
eles acreditam". A ciência procura cada vez mais colocar o seu dis­
curso acessível a todos , ao uso comum. É no discurso da ciência
que os toxicômanos vão buscar sua classificação e nesse discurso se
constituem.

142
Maria L,1iza Mota Miranda

A afirmação

O toxicômano se reconhece na afirmação, se apresenta


numa auto-referência ao se dar o atributo de si próprio. É no en­
tanto uma afirmativa que não se situa no mesmo nível da lógica do
inconsciente. O "sim" do inconsciente, parafraseando Miller (1991 ),
é o "sim" que não possui contrário, que não conhece a contradição
e tem valor de escrito. O "sim" do toxicômano tem valor de meca­
nismo de defesa, de figura de linguagem, do mesmo modo que o
"não" da denegação. O "não" não procede do inconsciente, mas é
o reconhecimento do inconsciente pelo eu, que se expressa através
de uma fórmula negativa, ao passo que "Eu sou toxicômano" é
uma fórmula afirmativa. Se a denegação, a metáfora e a metonímia
são mecanismos de defesa do inconsciente, a afirmativa nas toxico­
manias é um mecanismo que alimenta o s er. "Sou, não sou" é uma
questão de oposição e não de contradição, e o toxicômano não
produz essa margem de pensamento, essa aparição do s er sob a
forma do não-ser que se produz com a denegação.
O sujeito se constitui na qualidade que são as negações. Lacan
no Seminário, livro 19: ... ou pior trará quatro modalidades de negação:
a foraclusão do dizer, a discordância, a exceção e a inexistência.
Para Freud a função do juízo só é possível pela criação do
símbolo da negação que permite o pensar se liberar das limitações
do recalque e se enriquecer de conteúdos; é a atitude fundamental
da simbolicidade explicitada, segundo Hyp polite. Assim se constitui
o sujeito do inconsciente.
Na sua constituição de sujeito o toxicômano prescinde da
denegação. No Seminário, livro 14: a lógica da fantasia Lacan dirá que
tudo é permitido ao inconsciente, salvo articular "Então eu sou".

143
O Brilho do lnFelicidade

Daí podemos deduzir que no enunciado do toxicômano não há


sujeito do inconsciente, podemos pensar que há sujeito acéfalo da
pulsão.
Lacan marca que a criação do súnbolo da negação "não
pode nem sequer referir-se à constituição do objeto", pois é um
momento "de uma relação do sujeito com o ser e não do sujeito
com o mundo" (1 985) . Se a constituição do sujeito se faz na relação
com s er e não com o mundo, em sua constituição o toxicômano
rompe com esta relação, fazendo uma relação dual com o objeto
da necessidade no mundo.
O toxicômano não se encontra no nível da expulsão onde
há recalque primário. Ele teve acesso à função simbólica, mas o
rompimento com o "pipi" não lhe permite operar a separação. É
na inscrição do 0, da metáfora paterna, que a problemática se dá,
pois a metáfora do Nome-do-Pai se constitui pela exceção, como
vimos anteriormente, enunciada por Lacan como 3x-0x. É a ex­
ceção que introduz o sujeito na função fálica, permitindo-o através
do particular se constituir no universal, e isso é a castração. Por estar
na privação, o toxicômano tem o pai imaginário como o agente.

O toxicómano está no princípio de identidade

"Eu sou toxicômano" é uma frase que pode ser reduzida à


fórmula S é P, ou A=A, onde há um julgamento segundo a lei do
princípio de identidade. O princípio de identidade é uma proposi­
ção que tem a seguinte fórmula lógica: A=A, onde o primeiro A é
aquele que é posto no eu, que se comporta como suj eito absoluto e
por is so é denominado sujeito. O segundo A coloca o ser como
predicado nominal. A proposição "Eu sou" é quem funda a pro­
posição A=A. O Eu é a primeira expressão da identidade entre
sujeito e atributo; sujeito = atributo e isto ocorre pura e simplesmen-

144
Maria LHiz.a Mota Miranda

te sem outra mediação. "O Eu é aquele que põe A no lugar do


predicado em decorrência de o mesmo ter sido posto no sujeito;
sei do meu por que sou sujeito, portanto de mim mesmo, intuo
reflexivamente a mim mesmo, sou para mim o mesmo" (Fichte,
1980). É uma proposição que vale segundo a forma e também
segundo o conteúdo.
"Eu sou" se sustenta na substância, sem precisar recorrer à
materialidade do sign ificante. Se os significantes se estruturam em
torno de um vazio e não mais como presença de um ser, o ser do
toxicômano não é vazio. Nesse caso a palavra não mata a coisa,
antes há aí uma correspondência, pois pelo "Eu sou", ser que lhe
corresponde e que vai eqüivaler ao objeto de necessidade, o toxicô­
mano vai encontrar no mundo uma substância. Há aqui um engano,
pois esse enganche, esse acoplamento entre forma e tóxico, entre
frase e substância, confere ao toxicômano a ilusão de deter um
saber sobre a causa de seu gozo, já que encontra o gozo na droga e
conclui que é isso que o causa. Não é por acaso que muitas institui­
ções de tratamento ratificam esse engano ao possuírem em sua equipe
de trabalho ex-drogados. Há uma fala de saber sobre o gozo e
sobre os efeitos químicos do produto em que falta o sujeito supos­
to saber.

Há um fracasso na montagem da pulsão

Se para Freud a droga é a melhor solução ao desprazer, ao


mal-estar da civilização, numa leitura lacaniana a droga é a melhor
solução às conseqüências, ao mal-estar provocado pela inscrição do
sujeito na materialidade do significante.
A clinica das toxicomanias é bem provida de exemplos de
certas drogas, como a heroína e a cocaína, que permitem uma ob­
tenção quase que plena de gozo. Os pedidos de tratamento não se

145
O Brilho da lnFtliddadt

queixam do gozo obtido, mas das conseqüências de um uso exa­


cerbado.
Retomando Miller em São Paulo, a droga é um "modo de
gozo" (1 996) que contradiz a dialética da pulsão, já que "nenhum
objeto de nenhuma necessidade pode satisfazê-la" (1 979) , como
a firma Lacan.

Lacan inclui a pulsão na ordem simbólica: a pulsão será


tomada como "uma montagem pela qual a sexualidade participa
da vida psíquica, de uma maneira que se deve conformar com a
estrutura de hiância que é do inconsciente" (ibid.). A pulsão não
pode se satisfazer plenamente, atingir seu alvo, e assim a complexi­
dade da rede significante se dá.
Na toxicomania não se observa esse percurso pulsional. É
por isso que se pode falar em um fracasso da montagem da pulsão.
Laurent pergunta se trata-se de um novo modo de gozo ou de um
buraco no gozo (Laurent, 1 989). A pulsão se fixa, ligando-se ao
objeto em sua substância, só havendo troca de objeto quando a
substância não mais responde. Há uma identidade da substância
com a coisa, diferente do das Ding de Freud e do objeto a de Lacan
em que o referente é vazio. A posição do toxicômano revela-se a de
um ser uno e consistente, preso a uma imutabilidade, a uma fixão de
gozo, não havendo um contorno da pulsão. O objeto em sua Ílm­
ção de obj eto da necessidade é resgatado, perdendo seu valor de
obj eto a causa do desejo, indo ao objeto mais-de-gozar, como
lembra Lacan (1 979) .
Quando Miller diz que " a pulsão se satisfaz n o circuito auto­
erótico pelos meios do objeto a que vai buscar no Outro" (1 996),
tem-se aí ressaltado o movimento de chamada de algo no Outro,
campo em que a pulsão encontra os semblantes. Ao romper com o
falo imaginário, a tentativa de obtenção de gozo pelo toxicômano se
dá sem recorrer ao Outro do discurso universal, sem passar pelos
valores da cultura, "espaço onde são inventados os semblantes" (1 996) .

146
Maria Liiz.a Mota Miranda

Se o significante para Lacan é causa material do gozo (1985 ),


na toxicomania, como foi visto, há um gozo que toma sua causa
formal, posto que este é da ordem da gramática. A questão final é
a de saber qual é a outra causa que encerra o toxicômano num gozo
obtido por um produto da indústria. Há quem compare a toxico­
mania ao vampirismo, no sentido de que o vampiro necessita de
uma substância, o sangue, como um objeto vital, da necessidade.

N OTAS
1. Este enunciado _vem sendo discutido no Campo Freudiano, principalmen­
te através das contribuições de Hugo Freda.

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Inédito.

147
UMA EXPERIÊNCIA VAZIA

Maurício Tarrab
Membro da Escuela de la Orientación Lacaniana

''A operação toxicômana é aquela que não requer o corpo


do Outro como metáfora do gozo perdido e é correlativa de uma
recusa mortal do inconsciente". Esta breve definição resume o que
está em jogo no que a droga, o tóxico, exerce sobre cada um, mas
também situa o que cada um faz do tóxico, e por quais caminhos.
O que constatamos na experiência clínica é o fato de que aquilo que
se efetua na intoxicação, e que chamei de "operação toxicômana",
proceder de uma recusa do Outro. Não é de nenhuma maneira
uma mensagem dirigida ao Outro. Ela não se mostra articulada,
mas sim em ruptura com o campo do Outro.
A operação toxicômana não se reduz à combinatória
significante; ela implica um gozo não articulado, não articulado ao
parceiro, nem ao Outro sexo. Ou melhor, é uma operação que se
separa do Outro sexo, que não busca o Outro sexo. Uma operação
que procura seu gozo por um caminho que não é sexual ainda que
esteja orientada ao próprio corpo.
Por outro lado, não tem a ver com o inconsciente mas com
sua recusa; o sujeito não está ali como sujeito do inconsciente mas
como um "eu existencial". Neste sentido, nessa direção de isola­
mento, o chamado toxicômano é quase o paradigma de um mun­
do de solitários conswnidores anônimos que rechaçam o laço com
o Outro ao recusarem o que estruturalmente se perde com es se
laço. É por isso que se pode dizer que é uma eleição contra a castra­
ção, contra a divisão do sujeito e contra o inconsciente.
O Brilho da InFeliadade

A operação toxicômana se situa frente à encruzilhada sexu­


al não com uma ficção, mas com um gozo (o da intoxicação) que
está em ruptura com toda ficção. Além disso, esta operação revela a
verdade das ficções que a encruzilhada sexual segrega, ou seja, o
sintoma e a fantasia, únicos substitutos ·do gozo perdido. Ainda
assim demonstra que o jogo com o Outro não vale a pena e que
permanecer sem sexo não é senão o produto de uma operação que
é leal a essa verdade.
Nesta operação o chamado "toxicômano" é leal a seu gozo,
a seu parceiro, mas seu parceiro não é o Outro, nem o semelhante,
porém o que colocou nesse lugar de perda estrutural de gozo. O
lugar em que "não há relação sexual". E nesse lugar não vem o falo
mas o tóxico, o gozo tóxico que é justamente a ruptura com o falo.
Situada assim frente à encruzilhada sexual, a "operação to­
xicômana" oferece uma solução que em seu extremo de êxito liqui­
da a ques tão do sexo, eventualmente junto com a liquidação do
próprio sujeito.
O que o tóxico procura é uma solução ao problema sexual,
uma solução que mantenha uma relação de exclusão entre o sujeito
e a droga: a experiência da droga ou o sujeito. E isto que o tóxico procu­
ra e que supõe a exclusão, o sujeito realiza em uma experiência, na
própria experiência da intoxicação. O que chamo de "operação
toxicômana" se realiza em um fazer, no nível de uma experiência:
essa que os pacientes nos dizem que nós não temos.
Essa experiência vivida da intoxicação é uma experiência
vazia e uma experiência que não poderíamos por em série com a
experiência da análise como experiência subjetiva. Ainda que se tra­
te de uma experiência, trata-se de uma experiência vazia do sujeito
ou, ao menos, vazia do sujeito do inconsciente. Certamente uma
experiência tão vivida quanto vazia do Outro, inclusive do outro (com
minúscula) que poderia se fazer de parceiro.

150
Ma11ricio Tarrab

Vazia também de sexo, já que é muito claro que ali se trata


de um gozo a-sexual. Também uma experiência que está vazia de
sign ificação, mas que ao mesmo tempo tem uma positividade que é
a positividade do gozo.
Procuro então, com essa referência, situar o que a operação
toxicômana tem de experiência. Pontual ou extensa, circunscrita ou
generalizada, ocasional ou permanente, a operação toxicômana se
realiza por uma experiência, por um fazer pontual em que a cada
vez se obtém um ganho de gozo contra a castração.

+ gozo - castração

Uma experiência em que se trata a castração não como


uma ficção mas com o real, com a positividade do gozo tóxico em
sua dimensão de experiência. A cada vez, a cada ingestão, a cada
pico. E é com a positividade de gozo que a experiência vazia da
droga trata o vazio centrai do sujeito, isto é, esse incurável que com a
droga trata de ser abundante, às custas do próprio sujeito
Neste sentido, devemos por a ênfase uma vez mais no fato
de que a toxicomania não é uma estrutura clínica, mas uma opera­
ção sobre a estrutura. É aí que justamente se situa a chance clí�ica
que consiste em demarcar a experiência da estrutura que a experiên­
cia oculta.
É um fato que na clínica nos encontramos com as formas
em que se apresenta esta dimensão da experiência da intoxicação e
suas conseqüências. E, a meu juízo, é da maior importância proce­
der no tratamento de tal modo que, sem descuidar das complica­
ções do tema da intoxicação e dos problemas sociais e legais que a
acompanham, se deslinde a cµmensão estrutural que a experiência
da droga oculta.

151
O Brilho da lnFelicidade

Aí sim podemos começar a produzir uma ligação, uma li­


gação que permita ir da experiência da droga, que inunda a cena da
consulta, à questão do sujeito, a essa questão do sujeito que sabemos
ser anterior à droga e para a qual a droga é uma resposta.
Isto significa que consideramos que é justamente no plano
do sujeito, de suas determinações simbólicas, de sua relação proble­
mática ao gozo, que supomos que se encontram as raízes das chaves,
a cifra da problemática, aquela à qual a droga aporta sua solução.
Em outra ocasião, afirmei que justamente uma das condi­
ções para que seja possível uma intervenção, ou seja, para que exista
a chance de que uma intervenção analítica possa ocorrer, é que a
droga já não cause essa solução e que a questão do desejo se infiltre
no vazio da experiência. Não se trata de desconsiderar a relação do
sujeito com a intoxicação, porém de situar o fazer da intoxicação
em relação às determinações do sujeito. A essas determinações que
não são evidentes, já que a operação toxicômana está aí para que
não o sejam. Essas determinações que emergem, para surpresa do
sujeito, como uma desagradável verdade, isto é, como sintoma,
quando a droga fracassa ou quando interrogamos o sujeito mais
além da experiência, mais além da pretensão de sua abstinência,
mais além do que ofusca nas entrevistas, do que satura o momento
da demanda: a relação exclusiva a isso que se tornou seu parceiro.
Posso mencionar o caso de um homem que vem à consulta
logo após terminar com êxito um tratamento para deixar de con­
sumir as grandes quantidades de cocaína habituais. O êxito indubitável
desse tratamento o havia deixado, no entanto, às portas do impos­
sível de suportar. Desta vez sua demanda não era em relação à
droga, mas em relação a algo que somente agora se fazia evidente e
que havia sido rejeitado durante quase vinte anos, graças a sua rela­
ção com o tóxico e que o tratamento anterior não havia sequer
podido tocar, apesar de bem orientado. Se lhe revelava agora, já
sem a droga - que havia entrado em sua vida no início da puber-

152
Maurício Tan-ab

dade -, uma condição de gozo que lhe tornava moralmente re­


pugn ante e inaceitável e que atualmente era acompanhada de uma
insuportável impotência sexual.
Através da interpretação, tornou-se evidente como se fixa­
va ao gozo incluído na tortura moral da qual se queixava, para que
começasse a emergir a rede significante que sustentava o sintoma da
impotência que agora se formalizava na transferência. Neste senti­
do, podemos também dizer, em relação a este exemplo que menci­
onei, que a droga veio no lugar em que a fantasia se desestabilizou,
e quejusto antes de que se p,:oduz.isse o sintoma que constituiria o chama­
do ao Outro. . . se produzira a iniciação. Para situar a particularidade
deste caso, também poderíamos, parafraseando Lacan, dizer que,
no momento em que o sujeito fugazmente meteu o nariz na fanta­
sia, antes preferiu, e durante mais de vinte anos, enfiar cocaína no
nariz. É isso a operação toxicômana.
O exemplo mostra que a experiência com a droga poster­
ga a confrontação do sujeito com uma pergunta sobre a questão
sexual, que se achava a um passo de ser formulada. Isto é exata­
mente o que o tóxico procura neste caso. Para nós, não se trata
então, no nível da experiência, de avaliar o efetivamente vivido no
flash, porque ali o sujeito não está em seu lugar; o que importa é
situar o que a experiência do tóxico busca em relação a estas deter­
minações que fixam sua posição de sujeito. Pode-se concluir tam­
bém que, neste caso, o que o tóxico procura é evitar a passagem
pela prova do desejo, ou seja, ele procura subtrair-se do problema
sexual.
Vê-se então o ponto em que se aplica a operação toxicô­
mana e também se perfila o que é a função da droga na economia
de um sujeito. O sentido da "operação toxicômana", da experiên­
cia vivida e vazia da droga, é essa experiência que não tem nenhum
sentido mas que deriva do "não posso deixar de fazê-lo" e do "não
há mais o que falar". A operação toxicômana esvazia toda significação,

153
O Brilho da I11Fe/icidade

o que justifica o fato da apresentação dos pacientes toxicômanos


ser um fora da palavra.
A satisfação da toxicomania requer o silêncio uma vez que
falar já é restituir algo da sign ificação. E a significação, como qual­
quer sign ificação, é sign ificação do falo. A intoxicação requer não
falar e sabemos que a única chance clínica que temos nestes casos é
"fazer falar". Fazê-la passar ao dizer. Certamente falar não é garan­
tia de nada, mas afasta a morte ao menos por um tempo, como o
sabia Sherazade, que falava para não morrer.
A operação toxicômana é inversa. Não fala a fim de per­
manecer nessa satisfação que esvazia a significação, que evita o ma­
trimônio com o falo, que alivia da indeterminação -do desejo, que
defende contra a metonímia infinita da perda do objeto e contra
essa outra morte que o sign ificante impõe. Temos que reconhecer
que são muitas as vantagens. Ou seja, o que o tóxico procura é o
esvaziamento da significação e portanto, uma maneira de manter-se
por fora do dizer. Fora do discurso, na positividade da repetição.
Então o que o tóxico busca é oposto à operação analítica, cujo
único imperativo, cuja única demanda legítima feita ao sujeito é a de
que fale; que de passar ao ato passe ao dizer.
Para terminar, uma indicação clínica de Jacques Alain Miller
que temos que levar em conta; uma indicação muito preciosa e que
temos que observar cuidadosamente: "Deve-se conseguir que o
sujeito dê sentido, e em especial sentido sexual, à sua experiência".
Posso comentar essa indicação à luz de tudo o que disse
hoje do seguinte modo: conseguir que o sujeito dê sentido sexual à
sua experiência quer dizer que a Bedeutung do falo deve recobrir a
positividade sem palavras da experiência vazia da droga. Quer di­
zer, devemos lembrar que a própria indicação está na direção oposta
a da "operação toxicômana", já que negativiza, esburaca a experi­
ência. Nomeia; retira do fazer para o dizer.

154
MoHrir:io To"ob

Conseguir que o sujeito dê sentido sexual à sua experiência


não quer dizer dar ao sujeito um sentido sexual para a sua experiên­
cia. Essa seria não uma operação analítica porém religiosa, o que
não impediria o êxito por algum tempo. A significação religiosa
não deixa de estar dentro da lógica fálica e também conhecemos a
eficácia das religiosidades mais variadas neste campo.
Conseguir que o sujeito dê um sentido sexual à sua experi­
ência é outra coisa. É fazer com que a significação seja efeito de
uma operação sign ificante e de um encontro, apostar que neste en­
contro se abra outro tipo de determinação além do "não posso
deixar de fazê-lo", ou seja, passar da positividade muda da intoxi­
cação para a confrontação do sujeito com a questão do desejo.
Dito de outro modo, significa fazer existir o inconsciente, isto é, a
tradução em termos de saber do que a experiência realiza cqmo
gozo. Trata-se de obter essa interpretação que é o próprio trabalho
do inconsciente, de estar aí para confrontar outra vez o sujeito com a
encruzilhada sexual que sua eleição da operação toxicômana evita.
A clinica não somente mostra com evidência aqueles que
não renunciam a esta saída que é a operação toxicômana, como
também testemunha o efeito surpreendente e angustiante, para al­
guns sujeitos, da aparição de uma pergunta, uma pergunta anterior
à entrada da droga em suas vidas e que se formula no mesmo lugar
em que a intoxicação dava, até então, sua resposta muda e inapelável.
É por isso que podemos dizer que a intoxicação não se
interpreta. Sim, podemos situar a incidência da interpretação em
relação ao que emerge de sua fala, ou seja, aquilo que emerge como
discurso mais-além da experiência da intoxicação. Não se trata de
dar uma interpretação à "experiência toxicômana"; trata-se, ao con­
trário, de obter essa interpretação que é o sintoma, os sonhos, as
formações do inconsciente, a própria transferência. O que se deve
fazer existir é, em suma, o inconsciente e este somente existe, se há

15 5
O Brilho da lnFelicidade

um analista. Somente a função de intérprete do analista produz a


significação de um saber suposto.
A operação do analista, tanto na clinica com toxicômanos
como em qualquer outra, é a de inicialmente produzir a significação
de uma falta de saber como causa do padecimento. Uma direção
que vai então da droga à falta de saber. Como se vê, há uma opo­
sição evidente entre a experiência do tóxico e a experiência da psi­
canálise, entre a "operação toxicômana" e a operação analítica. Uma
rechaça o inconsciente; a outra, como operação de castração, espera
produzi-lo.

* Tradução: Ronaldo Fabião Gomes


SEGREDOS, DANOS E PERDAS:
UM CASO CLÍNICO

Marcos Bap tista


Membro aderente da Escola Brasileira de Psicanálise

A psicanálise fez do sintoma um lugar a partir do qual o


sujeito pode encontrar um mínimo de definição sobre o s eu ser.
Por outro lado, as variadas epis temes, que encontramo s no campo
das toxicomanias , tendem a fazer do toxicômano um suj eito irres­
ponsável, criando portanto situações nas quais es te evita con fron­
tar-s e com a sua causa. A psicanálise é uma pas sagem que vai da
certeza do sintoma à incerteza da causa, tornando as causas in finitas
p ara produzir um buraco no in terior da intimidade do sujeito, ou
seja, es te criará um saber s obre o seu ser, que jamais s erá finalis ta. É
assim que de finiremos a dimensão ética do sintoma.

Este trabalho foi inspirado a partir de um texto de Luz


Casen_ave (1 992) , no qual ela relata um caso clinico p arecido em que
encontramos similaridades, p ercalços de manej o e também a saída
precoce da análise. As conclusões e as dificuldades que passarei a
relatar guardam com o texto uma fidelidade de apreciação clinica e
de relato do caso.

Chega ao meu consultório uma bonita mulher de 35 anos


com nome bíblico e sobrenome de origem árabe. M. fala nestes
termos para demandar análise: "Toda a vida, sempre es tive segura,
s empre s oube o que fazer. Hoje me sinto ninguém. Somente as
bolas me permitem es tar nessa situação. Cada quantidade me revive,
me faz rena s c er. E olha ! Eu tomo uma mãozada de b olas ! " .
O Brilho da InFelir:idade

"Mãozadas?", pergunto eu e ela responde: "Cinco a seis. Mas tem


que ser a mistura dos três anorexígenos que prefiro". Ela tomava
em média cinco "mãozadas" por dia de Manzidol, Hipofagin e
Fenoproporex, seis a sete comprimidos de cada vez, ou seja, uma
média de três caixas por dia. Ela considera que todos os seus males
devem-se às bolas e ao álcool, mas relata que a cada dia ingere
maior quantidade de bolinhas. Quanto à demanda de tratamento,
oscila entre a esperança e o descrédito, dizendo: ''Já passei por várias
terapias e todas não deram em nada. Não acredito em psicanálise,
em NA, em regressão a vidas pas sadas. Acredito no dia a dia, no
'tête-a-tête', no "toma lá, dá cá". Seguindo o axioma proposto por
Zafiropoulos (1986) - "o toxicômano não existe" -· , decido
escutá-la e procurar o lugar que a droga ocupa em sua estrutura,
pois incorporar um produto é também incorporar o sign ificante.
M. conta a sua história de forma fragmentada, desvalori­
zando, por um lado, a presença do pai, "general bem sucedido", de
quem recebeu educação severa e, por outro, a história da mãe, que
obteve "êxito no comércio" - é proprietária de um ferro-velho.
Viviam juntos porém separados, dizia ela. A convivência com a
mãe era conflitiva, salpicada por discussões, que chegavam às vezes
à agressão física. Quanto ao pai, M. afirma: "É o gerador da minha
toxicomania". Relata que, aos 15 anos, quando o pai descobriu que
fumava, apagou o cigarro nos seus lábios e expulsou-a de casa.
Quatro meses depois, havia engordado trinta quilos e assim iniciou
sua trajetória com os anorexígenos, com o objetivo de emagracer.
Casou-se com um homem jovem e rico, filho de um político co­
nhecido, que, segundo ela, faz parte "daqueles que dirigem a nação
e o capital". Embora descrito como bom moço, herdeiro de boa
fortuna, ela o descreve como "um infeliz", um "bundão". Seus
relatos giram em torno de suas bolas e suas brigas com os pais,
irmãos, familiares e amigos. Ela alterna essas descrições com um
profundo sentimento de culpa, com arrependimento por ser tão
"desgraçada". Diz que ingere esta quantidade de anorexígenos por-

158
Marcos Bapti.rla

que é assessora do sogro político e "deve estar atenta a tudo que o


rodeia". Participa das reuniões políticas em que é evidente que não
gostarão dela, pois a condição de assessora e nora de político pro­
voca problemas. Em geral, reage às provocações recebidas nessas
reuniões, colocando em questão seu prestígio social. Estas condu­
tas, ela sabe que são prejudiciais ao nome do seu pai e do seu sogro,
mas as vivencia com satisfação. Bebe, agride, mostra-se hipersocial,
incomoda, revela verdades, enfim "perturba a festa".
Ela desfia sua história, revelando uma modalidade maníaca
de relação com os outros, na qual inicia trabalhos, projetos, com­
promissos, relações extra-conjugais e racionaliza, dizendo: '�s boli­
nhas ocorrem porque sou levada por um impulso; nada me faz
mal", ou para aplacar a solidão: "Eu não valho nada". As bolinhas
e o álcool lhe permitem fornecer ao seu corpo uma espécie de
opacidade, o que também a faz dizer: "Quando estou bolada, não
me sinto atravessada pelo olhar do outro, não tenho inveja, não
tenho dor, não tenho ciúmes". Esquirol, em 1 820, já dizia que os
homens se deprimem por orgulho; os adolescentes, por perdas, e
as mulheres, por ciúmes. Então, concluo que a adição de M. funciona
com vários elementos sobrepostos - remédios, bebidas alcóolicas e
pessoas (pai, mãe, familiares e amantes ocasionais) - sob um esta­
do permanente de depressão ansiosa.
Após um longo período de entrevistas, o marido e a mãe
vêm ao meu consultório para comunicar que M. deveria passar por
uma desintoxicação, pois há 72 horas não dorme e toma medica­
mentos sem parar, associados ao álcool. Estaria em casa completa­
mente maníaca, agressiva e ameaçando passar ao ato suicida. Como
sou psiquiatra em uma instituição que trabalha com toxicômanos,
pedem que assuma a internação; encaminho então a família a um
colega da instituição, ressaltando que acompanharei as indicações
clínicas do colega. Após meses entre internações, consultas de avali­
ação e trocas de medicamentos, M. telefona. Embora eu pergun-

159
O Brilho da InFelicidade

tasse sobre o seu momento atual, suas angústias e como se sentia


com o tratamento psiquiátrico, ela, sem me responder, pede uma
sessão. Nessa sessão, conta ter sofrido horrivelmente e que o psiqui­
atra, o qual indiquei, era muito severo e prepotente, fazendo com que
ela obedecesse ao marido e à família, tomando sua vida uma prisão
familiar. Entretanto, falta-lhe algo sobre o qual ela precisa falar.

A idéia de que algo não era dito ou escutado suficientemente


no consultório me ronda o tempo todo. O período que se segue
revela uma outra pessoa, agora sob os efeitos dos tranqüilizantes e
antidepressivos. M. diz portar-se como uma senhora, cumpridora
de seus deveres domésticos, pouco preocupada em assessorar o
sogro e fala, pela primeira vez, sobre um acidente sofrido junto
com um amante há três anos, no qual esfacelou o rosto, quebrou os
braços, perfurou o pulmão e seu amante nada sofrera. Para a famí­
lia, relatara um acidente provocado por ela mesma por causa dos
remédios, pelo excesso de atividades e pela velocidade que tinha
que imprimir ao seu dia a dia. Voltava de um contato político no
interior do Estado, onde o sogro era considerado trapaçeiro. "Foi
muito difícil a reunião. Era acusada de coisas que não faço, mas que
sei que fazem parte da estratégia política do meu sogro". Nesta
sessão, conta ainda que, quando teve a boca queimada pelo pai, essa
atitude fez com que ela nunca revelasse seus segredos e principal­
mente o que existia entre ela e o pai (existe aqui um lapso entre o pai
e o sogro, que somente mais tarde perceberei).
Na sessão seguinte, a paciente revela seu segredo e um so­
nho em que se via escrevendo a sua história. Tomei este fato como
o efetivo começo de sua análise e propus que se deitasse, dizendo­
lhe que, a partir daquele momento, priorizaria a associação livre.
Atônito com s uas revelaçõe s , que se a s s emelhavam a algo
confessional, cortei a sessão, dizendo que a esperava no dia seguinte.
Como compreender e cuidar de segredos no transcurso de uma
análise? Com esta questão, saí do consultório, lembrando-me que
Lacan dizia: "Quando se sai do consultório, fecha-se a porta".

160
Marcos Bapti.rta

O toxicômano renasce, de certo modo, como sujeito, pois


não há obje to que lhe seja natural, nem obj eto que lhe venha traçar
a via. Ele simplesmente tem um objeto acidental a reencontrar no
real. Ele detém uma relação particular com o s egredo e com o
saber e principalmente com os pactos, pelo fato de colocar este
saber em posição de verdade. Tudo indicava que a ocultação vo­
luntária de um dado des figurava e impossibilitava a tarefa analítica,
entretanto a apos ta es tava feita. Revela-s e então, no decorrer das
próximas sessões, que o fato de ser depositário de um s egredo
proporcionava à paciente refletir sobre sua vida, adquirir a seguran­
ça que era atribuída aos anorexígenos e, com isso, possibilitar o
des file da cadeia significante no lugar onde ela se ins titui como se­
gredo (Baptista, 1 997) .
Embora a possibilidade d e expressar seus segredos tenha
me feito pensar que ali se concluíam as entrevistas preliminares, pelo
fato de fazer do segredo um sintoma analítico, a análise possibilita­
va saber qual a significação que esse s egredo tinha para ela, pois
encerrava valores simbólicos. O toxicômano parece gozar com a
falta e daí uma certa apetência para com os representantes da auto­
ridade. Esta ressalva é essencial, pois do estado da falta nada pode­
mos esperar, uma vez que ele faz parte da economia de gozo do
toxicômano. Em contrapartida, respeitar os descaminhos da paci­
ente consistia em não tratá-la como uma perversa. Foi necessário
um tempo para que a paciente se desse conta de que eu não era um
cúmplice do s eu segredo, não es tabelecia um pacto perverso com
ela que tanto marca a toxicomania e tampouco era um sacerdote.

Quando ela começa a falar da neces sidade de revelar seu


segredo, adoece fisicamente; chamo então sua atenção para o fato
de que, naquele ano, ela contraíra três pneumonias consecutivas e
pergunto o que seu clínico pensava a respeito. Assustada, ela associa
minha pergunta às trans fusões de sangue a que se submetera logo
após o acidente e responde: "Não me diga que você pensa que
estou com AIDS!". Aí pontuo: "Pelo menos é um segredo que você

16 1
O Brilho da InFelicidade

pode revelar". En tão, ela acrescenta: "Terei que descobrir como


peguei AIDS, se com aquele amante do acidente ou com a trans fu­
são", ao que respondo: "Temos que saber quem é que está com
AIDS". O toxicômano, em geral, não se considera doente; na reali­
dade, ele tem um remédio que alivia a existência. Quando em trata­
men to, ele quer que o analista tome o lugar do produto; somos,
portanto, obrigados a aceitar o fato de que o imperativo que lhe
damos é simbólico, é este o imperativo que é preciso que ele respeite
e não um imperativo real. Senão, o colocamos em uma prisão. Não
podemos, com imperativos simbólicos, dizer-lhe para sair des ta
dimensão própria da humanidade, que é o j ogo pelo engano, a
dissimulação, a fraude. Portan to, não podemos recusar-lhe a possi­
bilidade de mentir, que ele ces se de trapacear (ibid.) .

A par tir des se momen to, a paciente submerge em intenso


desespero, falta a uma série de sessões; quando lhe telefono, manda
dizer que não está e, por fim, me telefona, dizendo que está HIV
positivo e não precisa mais de análise. Digo, então, que ela se enga­
na, pois se a AIDS não é mais segredo para ela, é para muita gente
com quem ela es teve. Com esta pontuação, ela pede para retornar à
análise e seu discurso modifica-se, suas reflexões giram em tomo de
sair desta impostura. Quando começa a se perguntar como podia ter
guardado esta impostura para seu marido e sua família por tão longo
tempo, começa então a suportar melhor a tensão psíquica que a levava
a usar anorexígenos e álcool e ser "escrava do sogro", como se definia.

Poderíamos perguntar qual seria a saída para este conflito e


que desej o o sustentava. A tarefa analítica consis tia em buscar o
desejo que sus tentava os dois mandatos anteriormente as sinalados.
A doença revelava a presença do amante e a relação com o sogro,
que jus tificava o pacto pervers o e a impossibilidade de formar sim­
bolicamente uma familia.

A pergunta, en tão, seria: "Qual o subs trato de verdade que


ocul tava os atos da paciente?". Ela percebe que suas buscas em

162
Marrns Baptisla

relações clandestinas e suas atividades políticas, de forma anônima,


operavam o desejo de conectar-se a algu ém com o qual comparti­
lhava segredos. Dizia que, nessas experiências, tinha a sensação de
ser ela mesma, insistindo assim na posição de ter sempre uma rela­
ção que era secreta, algo que não poderia dizer, que era oculto e ao
mesmo tempo na qual ela podia revelar o segredo maior. Na reali­
dade, o que estava em jogo era que ela percebesse o traço comum
entre as duas pos ições de obediência ao outro.
No caso do mandato paterno, o referente era o pai. Ela se
via numa relação imaginária em que necessitava manter-se como a
filha controlada pelo pai e, em realidade, o havia sido na pequena
infância. O desígn io de ter que ser um homem se revelava para ela
nas suas atitudes comandadas pelos anorexígenos. M. era a segunda
filha de uma fratria de sete irmãos, na qual o mais velho, desde
criança, era considerado homossexual. A necessidade de ser ho­
mem para o pai só lhe permite ser mulher como amante do sogro
- segredo e relação que já mantinha antes do casamento. Essa rela­
ção possibilitava o rompimento da castração, mantendo em segredo a
mulher que era, diferente do homem que o pai desejava. O pai era
quem mais banalizava sua toxicomania, dizendo-lhe que "como asses­
sora de um político tinha que ter o excesso de atividades, reuniões e
responsabilidades que assumira". A partir desde momento, M. pôde
falar da mãe e expressar que nunca se sentiu amada, mas que se
submetia aos caprichos matemos, pelo temor de ser abandonada. A
mãe bancava, silenciosamente, todas as suas noitadas e ainda proporci­
onava álibis para suas mentiras. M. nunca soube. porque mantinha
essa relação secreta com o sogro. A primeira vez que saiu com ele,
já estava noiva - fato que deu origem ao segredo e no qual ela
encontra uma situação ideal para construir um pacto e uma ligação, que
lhe asseguram contra o desamor da mãe e o desígnio paterno de ser
um homem. O segredo se constitui num pacto de mentira e silêncio
com referência à família, ocultando e desfigurando um fato que era
estruturante para a vítima e que tinha efeitos imprevisíveis para todos.

163
O Biilho da InFelicidade

Podemos dizer que a análise começa quando o segredo pôde


ser transformado em sintoma analítico. A paciente começou a se
perguntar como pôde fazer isso e como pôde manter esse segredo
por tanto tempo. Deprime, preocupada com as formas de expiar
seus problemas de consciência. Percebe-se aí que a necessidade de
castigo estava, paradigmaticamente, presente no psiquismo de M.,
entretanto chegava a ela induzida por outrem, não permitindo ela­
borar o dano que isto lhe provocava.
A esta altura, a p aciente vai fazendo substi tuição de
sign ificantes em que o pai, figura rígida, autoritária, "mas honesta",
toma o lugar da lei. A metáfora paterna é a substituição de um
si gn ificante por outro: o sign ificante Nome-do-Pai que substitui o
sign ificante desejo da mãe é a condição básica da estrutura neuróti­
ca. Lacan, em ''A questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose" (1 966), ressalva que a relação do pai com a lei deve ser
considerada em si mesma, pois nesta relação encontrar-se-á a razão
do paradoxo no qual os efeitos devastadores da figura paterna são
observados, com particular freqüência, nos casos em que o pai re­
almente tem a função de legislador ou se adjudica como servidor
da integridade. Estes ideais oferecem, em várias ocasiões, a possibi­
lidade de verificarmos uma postura de demérito, de insuficiência e
de fraude, a ponto de excluir o Nome-do-Pai de sua posição no
sign ificante. Dizia a paciente: "Se ele soubesse, não permitiria que eu
me deixasse envolver em tão sórdida relação". Entretanto os sinto­
mas mostravam que seu desejo circulava em torno de não revelar o
segredo, o que ela tinha comprovado, durante anos, como uma
alternativa enganosa. Esta mulher, que se apresentava superficial,
incômoda, agressiva, reveladora de verdades estonteantes, era, na
realidade, uma guardiã zelosa da moral, dos bons costumes e dos
pactos familiares.
Após a descoberta da AIDS e utilizando a desculpa que o
acidente proporcionava, ela decide não revelar ao marido suas rela-

164
Morros Boptisto

ções extra-conjugais. Havia contraído o vírus através da transfusão


após o acidente e, desde então, nunca mais tivera relação com o
sogro; este a m_olestava, mas ela fugia desse jogo perverso. Seria
interessante perguntar qual seria o substrato de verdade que oculta­
va os seus atos, tendo em vista que eram percebidos como atividade
sintomática. Ela se diz estupefata em tomar consciência e deixa de
oscilar entre os extremos do questionamento moral, para deter-se
no remorso e na culpa. É neste momento que ela começa a falar em
deixar o tratamento, sabendo que não poderia revelar o segredo à
familia, provocando uma grande dor e desestruturação.
A descoberta de portar o HIV e ter, conseqüentemente,
infectado o marido, permite-lhe partilhar uma culpa, uma dor e um
sofrimento. Parece ser esse o limite ao qual se impôs. É lógico que
logra com isto um saber do que a impulsionou ao pacto perverso
com o sogro, nada da ordem de um saber tranqüilizador, mas de
um saber sobre suas limitações e sobre suas faltas de defesa à
impulsividade. Freud, em ''.Análise terminável e interminável" (1937),
nos oferece uma longa reflexão sobre os fins terapêuticos e o fim
do tratamento, do qual, neste caso, resgataremos a diminuição do
sofrimento imposto pelo sintoma. O resultado desta análise, cujo
término foi pedido e, por muitas vezes, discutido com a paciente,
nos permite afirmar que ela obteve um esgotamento do gozo e
uma modificação de sua posição subjetiva.
Para Lacan, no Seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-60):
"o significante introduz duas ordens no mundo: a verdade e o acon­
tecimento. Porém, se algu ém quer manter-se no nível das relações
do homem com a dimensão da verdade, não pode usá-la ao mes­
mo tempo para a pontuação do acontecimento". É obvio que essa
paciente tinha uma patologia da eleição, que nasce de sua problemá­
tica edípica.
Concluiríamos com Casenave que no transcurso desse tra­
tamento, podemos diferenciar alguns passos:

165
O B,ilho da lnFelicidade

- O açodamento de sintomas e atos, que aparecem como


uma grande desordem, insistindo em manter e.scondida uma inter­
rogação, a qual não consegue enunciar a não ser pela defesa maníaca
e pelos anorexígenos.
- A manutenção e o desvelamento do segredo impregnam
a luta entre os meandros da consciência e a impossibilidade de en­
contrar uma saída viável.
- O aparecimento de uma patologia, que a coloca no viés
da morte, contrapondo a pulsão de morte ao velamento do objeto.
- Por fim, os distintos caminhos que partem do segredo,
tratado como sintoma analítico, e o movimento que vem do fantas­
ma do parricídio para o gozo do pai. Enfim ela pôde, no lugar de
matar o pai, ter uma relação sexual com ele.
- Poderíamos falar, aqui, em final de análise? Estaríamos
diante de um máximo que a estrutura da paciente poderia permitir?
Estas questões, não me aventuro a respondê-las, entretanto o limite
da análise foi dado pela própria paciente.

Referências bibliográficas

BAPTISTA, M . '�'\. intocável natureza da toxicomania". Em: Inein, C. &


Baptista, M. (org) Toxicomanias: uma abordagem clínica. Rio de Janeiro, Sette
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Madri, Editorial Biblioteca Nueva, 1968.
LACA N , ]. "D 'une question préliminaire à tout traitement possible la
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ZAFIROPOULOS, M. "Le toxicomane n'existe pas". Ana!Jtica, n. 57. Paris,
Navarin, 1986.

166
ATRÁS DA DROGA, O VAZIO DAS MULHERES

Andréa Brunetto
Membro aderente da Escola Brasileira de Psicanálise

1 . O que é o sintoma para a psicanálise?

Em "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade" (1 905, p.


1 67-ss) Freud explica a formação dos sintomas histéricos como a
substituição de processos psíquicos - desejos - que estavam car­
regados de energia libidinal e, por obra do recalque, foram desvia­
dos da descarga. Estes desejos se mantiveram no inconsciente, lu­
tando por uma expressão que fosse suficiente a sua "importância
emocional". O sintoma é assim uma transcrição à altura dos desejos
recalcados, o que levará Freud a marcar o caráter fundamentalmente
sexual no sintoma e a dizer que este processo que acontece na histeria
é típico de todos os neuróticos.
Em 1926, no trabalho "Inibições, Sintoma e Angústia", sua
definição de sintoma é a de "um sinal e um substi tuto de uma
satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente"(l 926, p.
1 1 2). Segundo Freud, este impulso pulsional, que devido ao recalque
não pode se realizar, procurou satisfação por uma via indireta. O
que traria prazer agora traz desprazer. O sintoma é produzido neste
caminho tortuoso em que a pulsão busca satisfação.
Para Freud, o sintoma é sempre sexual e elaborado por
uma falha do saber. O sintoma se forma porque o sujeito não quer
saber nada sobre o sexo e evita se defrontar com o desagradável,
que é recalcado. O sujeito se defende de algo que irá se converter no
sintoma.
O Brilho da InFelit:idade

O sintoma então produz um enigm a para o sujeito, mas


Lacan dirá que ele está em consonância e coerência com o inconsci­
ente. Para Lacan, o sintoma, como formação particular do incons­
ciente, não é uma significação: "sua relação com uma estrutura
sign ificante é o que o determina. Se nos permitem um j ogo de
palavras, diremos que se trata s empre da concordância do sujeito
com o verbo"(l 990, p. 426). E Lacan continua falando sobre o
sintoma: " é deste fragm ento de discurso, à falta de haver podido
proferi-lo pela garganta, que cada um de nós está condenado, para
traçar sua linha fatal, a fazer-se alfabeto vivo"(ibid., p. 427) .
O sintoma tem uma função estruturante: ele amarra os re­
gistros do real, do imaginário e do simbólico. Portanto o sintoma
fala de como o inconsciente do sujeito lê o desej o do Outro.

2. A toxicomania não é um sintoma

O sintoma para a psicanálise não é a mesma coisa que para


a medicina. O que acontece muito freqüentemente na clinica é que
os pacientes chegam com algum s aber sobre o que os faz s o frer,
chegam á analise com queixas, mas não se pode dizer que che­
gam com o sin toma. O sintoma s erá cons truído nas e n trevi s ta s
preliminares.
Para a medicina, o sintoma é sinal de doença; para a psica­
nálise, ele é o substituto da doença. É uma metáfora que representa
a pulsão e sempre uma relação do sujeito com a lingu agem.
As entrevistas preliminares são a passagem das queixas ao
sintoma analítico, de sua submissão a um gozo específico. Diante
deste gozo específico, o sujeito coloca uma questão, não uma questão
qualquer. Esta pergunta que o sujeito faz está orientada para aquilo
que o sujeito não sabe e que faz enigma e que, aparentemente inso­
lúvel, se dirige a algu ém que é suposto saber sobre ela: o analista.

168
Andria Brune/lo

O sintoma só existe quando algo falha. Miller dirá que o


sintoma é um gozo harmônico com a castração.
Não há nenhum enigm a no gozo do toxicômano: ele sabe
do que goza. Seu gozo é auto-erótico, desarmônico com a castra­
ção. Mas não podemos dizer que esta forma de gozar, de buscar
um gozo a mais, seja o sintoma analítico de um sujeito. Diríamos
mais: a toxicomania impede que o sujeito coloque seu sintoma.
Colette Soler (1995, p. 1 1) marcará que há conseqüências
quando estabelecemos uma classe; ao dizermos toxicômanos, estabe­
lecemos um processo de segregação, segregação conseqüente de
uma universalização introduzida na civilização pela ciência. Esta
universalização faz funcionar um "para todos" e abole a diferença.
Com esta universalização dos modos de gozo, a toxicomania po­
deria ser o _grande sintoma moderno. Mas a psicanálise é o oposto
da universalização.

3. Da certeza de ser toxic8mano à dúvida de ser homem


ou mulher

Quando Luiz procurou esta analista em uma instituição que


atendia toxicômanos, tinha 1 8 anos e já estava há seis meses sem
usar drogas. Veio com a demanda de que queria analisar seu Com­
plexo de Édipo. Diante da surpresa da analis ta pelo inusitado da
questão, con firma: "Complexo de Édipo é quando a gente ama e
odeia a mãe ao mesmo tempo, não é? Então eu quero analisar o
meu". Precisa descobrir quem ele é, além de ser um toxicômano.
Atribui o começo de todos os seus problemas com a dro­
ga ao fato de, aos nove anos de idade, ter descoberto uma carta da
mãe para o amante, tê-la seguido até uma construção abandonada e
tê-la visto tendo uma relação sexual com um homem desconhecido.
Que a cena tenha acontecido realmente ou que seja uma "constru-

169
O Brilho da I11Feli&idade

ção" pouco importa, pois ela é contada com muita angústia, sentida
como um absoluto horror. Neste momento em que vê-se confron­
tado com a castração do Outro, foge de casa. Passa a usar maco­
nha, cola de sapateiro, cocaína. Conta que o pai era um alcoólatra,
chegava sempre bêbado em casa e batia nele e na mãe.

Diz que foi visitar a família - o pai morreu há alguns anos


e a mãe está casada novamente - e uma vizinha da mãe lhe contou
que a mãe tinha medo de abraçá-lo e que ele o interpretasse como
sexual e quisesse ter relações sexuais com ela. Relata que também
ficou sabendo que a irmã está namorando três rapazes ao mesmo
tempo. ' 'Ah, estas mulheres da minha família! A minha irmã vai
acabar virando biscate, só quer saber de sexo, igual minha mãe. É
bem feito para ela". Luiz estava namorando uma moça, mas de­
pois que ficou sabendo tudo isso está com vontade de terminar,
pois as mulheres são todas falsas e vazias. Vazias? A esta questão da
analista, lembra que há dois anos atrás sua namorada o trocou por
outro "porque ele não sabia fazer sexo direito".

A partir daqui, algo do seu fantasma é tocado, pois na ses­


são seguinte traz o seu sintoma: "Eu ando na rua e se vej o uma
mulher fico excitado, mas se vejo um homem bonito também fico.
Sou homossexual, não sou?". Esta é a questão deste sujeito: fazer
com que a analista responda a dúvida sobre sua posição diante da
partilha dos sexos: "Eu estava lendo o livro da Virgínia Woolf e
nele um homem se transforma em mulher. Eu fiquei tão angu stia­
do. Eu quero que você me tire dessa e a única maneira é responden­
do se eu sou homossexual ou não." E a partir do silêncio da analis­
ta, desta resposta que não vem, conta um sonho em que sentia que
seu pênis era um órgão aparafusado e que ele tirava e colocava nele
próprio. Isto lhe lembrou um outro sonho que tinha tido há muitos
anos atrás: seu pênis era desparafusado e aparafusado na vagina da
mãe e aí ia rodando, rodando e não tinha nada mais que um vazio,
pois não parava de aparafusar nunca.

170
Andréa Bnmetto

É deste vazio que Luiz estava falando quando no seu dis­


curso apontava ao vazio das mulheres. O seu sonho aponta a cas­
tração do Outro. Lá onde o perverso colocaria um véu, um último
objeto que tamparia a castração da mãe, ele, como neurótico que é,
vê o vazio. Luiz lembra que uma vez seu pai disse que achava sua
mãe um "sapatão". Podemos entender então que sua questão sobre
o homossexualismo está entrelaçada na questão paterna. Podería­
mos dizer que tal pai, tal filho. Ambos não podem responder sobre
a Mulher.

4. Conclusão

Por trás da pergunta "Sou homossexual?", há a questão "Sou


homem ou mulher?", suscitada a partir do livro Orlando de Virgínia
Woolf. Questão histérica por excelência. Para o sujeito histérico o
Outro é marcado pela falta e pela impotência em alcançar o gozo.
Antonio Quinet afirma que os tipos se situam distintamente quanto
ao desejo. "Este é estruturado não como uma resposta e sim como
uma questão inconsciente que se situa no nível de 'Quem sou eu?'.
Para o obsessivo, trata-se de uma questão sobre a existência (estou
vivo ou estou morto?); para a histérica, sobre o sexo (sou homem
ou mulher?) que é subsumida pela questão - tanto para o homem
quanto para a mulher histérica - 'o que é ser mulher?' " (1 991 , p. 29) .
O que queremos marcar com o relato deste extrato de um
caso clínico é que se Luiz procurou análise com a certeza de ser um
toxicômano, esta certeza se esvaiu diante da questão de quem ele é
para o Outro. E aí sim surge a questão que permeará toda sua
análise, que é uma pergunta sobre a feminilidade.
Não podemos em psicanálise trabalhar com a classe "toxi­
cômanos", como demarca Colette Soler (1995) . A psicanálise é uma
teoria do sujeito; instituir o toxicômano é autenticar um anonimato

171
O Brilho da lnFeliadade

que o sujeito institui na sua relação com as substâncias tóxicas. Se


não podemos dizer toxicômanos, podemos ao menos dizer fenômenos
toxicomaníacos.

Refer_ências bibliográficas

FREUD, S. "Três ensaios sobre a sexualidade" (1 905) . Em: Obras Completas,


vol. VII. Rio de Janeiro, Imago Editora, 1 976.
-----· "Inibições, sintomas e ansiedade". Em: Obras Completas, vol.
XX. Op. cit.
LACAN, J. "El Psicoanálisis y su enseõanza". Em: Emitas, tomo 1. México,
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QUINET, A . As 4+ 1 CondifÕes da Análise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Edi­
tor, 1 99 1 .
SOLER, C. "Sobre la segregación", Pharmakon, n. 3, 1 995.
A PSICANÁLlSE DIANTE DA TOXICOMANIA

Filippo Olivieri
Correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise, Rio de Janeiro

O que é a toxicomania?

Gostaria de iniciar este artigo esclarecendo algumas confu­


sões acerca do fenômeno das toxicomanias. Antes de mais nada,
não se trata de uma estrutura clínica por não satisfazer a mais básica
condição de uma estrutura, a de recorrer ao registro simbólico.
Tampouco é um sintoma, pois rompe com o gozo fálico; também
não pode ser reduzida à perversão, porque não é mediada pela
fantasia. Esses fatores são inerentes aos fenômenos toxicômanos:
não recorrência ao simbólico, ruptura com o gozo fálico e não
mediação da fantasia. Ou seja, a partir do fenômeno da toxicoma­
nia não é possível chegar à estrutura, como é possível no caso dos
sintomas.
É importante interrogar qual o lugar que a droga ocupa na
economia libidinal do sujeito e tal observação é crucial para a orien­
tação da direção do tratamento. Já dizia Freud, em "Mal-estar da
civilização", sobre os métodos que as pessoas lançavam mão para
evitar o sofrimento: "O mais grosseiro, embora também o mais
eficaz, desses métodos de influência é o químico: a intoxicação."
(1 930, p. 96).
O Brilho da InFeliddade

Percebemos algo que aponta para além de uma mera fuga


da realidade, tratando-se mais exatamente de uma solução encon­
trada por esses sujeitos para velar a castração. Em Freud, as drogas
seriam uma solução para o mal-estar na cultura e em Lacan, servin­
do para romper com o "pequeno pipi", aqui o gozo fálico. Assim,
o fenômeno das toxicomanias se apresenta como uma "promessa"
de encontro com o objeto perdido, promessa tanto radical quanto
enganosa na qual o sujeito do inconsciente se apaga.

Para q ue serve a toxicomania?

Uma polêmica que normalmente divide os psicanalistas é a


da toxicomania ser ou não um sintoma. Deixo claro, desde já, que
não. Melhor dizendo, a toxicomania não se constitui como um sin­
toma para o sujeito, não se dá uma formação de compromisso -
condição fundamental que legitima o sintoma - mas sim uma for­
mação de ruptura com o gozo fálico. Dessa forma, o desejo não
funciona como regulador, barreira do gozo. Vemos aqui como a
droga pode servir para alienar radicalmente o sujeito de seu incons­
ciente; logo, por não ser sintoma, a droga não faz enigma.
O toxicômano não suporta qualquer coisa que barre seu
gozo, daí sua intolerância à frustração, a qual é imediatamente supri­
da pelo obj eto droga. Na verdade, ocorre uma intoxicação pelo
significante droga. A partir disso o toxicômano encontra uma "so­
lução" para sua angústia diante do desejo do Outro. No momento
em que tal angústia se faz presente, o recurso à droga entra para
velar a própria divisão do sujeito, pois não há nada mais insuportá­
vel para esses sujeitos do que a sua divisão subjetiva.
O gozo inerente ao toxicômano não recorre à fantasia. Po­
demos entender assim o que diz Lacan ao afirmar que na toxico­
mania há o rompimento com o pequeno pipi, quer dizer, que a

174
Filippo 0/iuieri

fantasia é rechaçada e goza-se sem qualquer mediação. Trata-se de


um gozo que não passa pelo Outro ou, como diz J-A Miller (apud.
Beneti et alii., 1996) sobre a droga se tornar uma parceira do sujeito,
um gozo que lhe permite romper com o Outro. A droga seria
então não um objeto de desejo, caso pas sasse pelo gozo fálico, mas
um objeto de gozo. (Beneti et alii., 1996, p. 1 6) .
Hugo Freda fa z uma observação sobre a escolha do toxi­
cômano, pois esta recai sobre "ou um casamento com o pequeno
pipi e um sintoma, ou um "casamento feliz" sem sintoma; ele esco­
lhe a "felicidade". O toxicômano consegue essa façanha inédita de
colocar a satis fação sobre um objeto, tornando-o vivo, tratando-o
como se ele fosse uma pessoa" (1996, p. 114).

A toxicomania, o discurso do capitalista e a ciência

Através de sua dependência radical do objeto droga, o to­


xicômano, ao dela fazer uso, não é um sujeito. No momento em
que está drogado retira-se da cadeia sign ificante, exclui-se da estru­
tura; na verdade, um apagamento radical do sujeito do inconscien­
te. Ao pronunciar o "Eu sou toxicômano", ele não pensa; trata-se
de um "eu sou" que recobre o "eu pen so", havendo uma
neutralização de toda troca simbólica. É essa extrema dificuldade
em fazer prevalecer a mediação do Outro simbólico que dificulta o
estabelecimento da transferência. (Lecoeur, 199 2, p. 1 4).
Um paciente, usuário de drogas, queixa-se da falta do pai,
supondo o faltante como sendo o genitor, mas na realidade a mãe
o trafica uma vez que não aceita a enunciação da lei, oferecendo ao
filho objetos para satisfazê-lo. Esta mãe era cúmplice das faltas do
filho às entrevistas. Des sa maneira, burla a incompletude e a divisão
do sujeito e se coloca na posição do Outro absoluto e onipotente,
curto-circuitando a função paterna. Não há, então, intervenção em
sua relação narcísica com o objeto. Seu gozo não é barrado.

175
O Brilho da lnFelir:idade

Este paciente diz que com a droga terá uma personalidade


e poderá superar sua inibição com as mulheres mas, uma vez dro­
gado, ele não vê a mulher. Elevada a mulher a um nível de idealização
fantástico, a droga torna-se a "solução" para sua falta-a-ter.
A toxicomania é efeito do discurso do capitalista - segun­
do Lacan, uma distorção do discurso do mestre -, não podendo
ser chamado de discurso por não deixar lugar para a falta. Neste
discurso, o sujeito tem acesso ao objeto a sem passar pela fantasia,
ou seja, os efeitos do objeto não passam pela fantasia e estabelecem
uma colagem com o gozo, driblando a divisão do sujeito. Ao mes­
mo tempo, este objeto é depos.itário de saber encarnado no objeto
de consumo.
Por mais que o toxicômano se veja como um rebelde, ele é
um produto da ciência e como tal rejeita o gozo fálico, não acredi­
tando nos .remblant.r da cultura. Para Éric Laurent, citando Lacan, a
ciência não quer saber nada da verdade como causa, havendo um
repúdio ( Verwe,fun� da divisão do sujeito. (1992, p. 66). Para Lacan,
o desejo do "sujeito da ciência" é um desejo sem causa (1966, p.
889). Não é à toa que o discurso científico adota a idéia segundo a
qual "a droga faz o toxicômano", rejeitando assim o sujeito do
inconsciente. A psicanálise, ao contrário, aposta· justamente neste
sujeito e declara ser o "toxicômano aquele que faz a droga". A psica­
nálise propõe a desintoxicação do significante droga em vez de uma
desintoxicação química, esta servindo apenas para inflar ainda mais o
eu. Também não se trata de manter o paciente em abstinência, a qual dá
a falsa idéia de uma dependência de fundo orgânico.

O psicanalista diante da toxicomania

O mesmo paciente, citado anteriormente, procura o analis­


ta dizendo não querer mais se drogar. Diz não ter personalidade,
pois se tivesse não precisaria usar a droga para afastar suas inibições.

176
Filippo 0/ivieri

Diz es tar disposto a se tratar e a abandonar o vício, como ele o


chama, pois a droga o está prejudicando. Contudo, após algu mas
entrevis tas, droga- s e ao sair do consultório, voltando na entrevis ta
s eguinte dizendo-se arrependido. Ou então, viaja na véspera do dia da
consulta e manda sua mãe ligar para avisar ao analista que ele não irá.

No tratamento do toxicômano, ocorrem freqüentes passa­


gens ao ato em que o sujeito se situa na vertente do "eu não penso".
Tenta cons tantemente deslocar o analista de sua p osição. Como foi
dito an teriormente, este suj eito não suporta frus trações e em suas
passagens ao ato e actings-out procura evitar o enco n tro com o real e
a sua fenda de es trutura. O Outro que o toxicômano tenta dar
consis tência é acima de tudo absoluto e não furado.

O analis ta está diante de um suj eito que não suporta ver seu
gozo ques tionado. Seu dis curs o s obre a droga aponta para um sa­
ber do qual ele é o único deten tor. Fala da droga como se fosse
uma companheira, vindo no lugar da mulher. O analista deve tomar
cuidado para não se tornar uma mero parceiro do gozo deste suj ei­
to quando relata as maravilhas da droga.

Será no para além des te gozo que a intervenção do analis ta


pos sibilitará o aparecimento do sintoma inerente ao sujeito do in­
consciente em sua dimensão de enigm a, para assim se dar o esvazi­
amento do significante droga com o qual se nomeia. O p sicanalista
não deve de forma alguma se concentrar na droga. Tal postura é
comum às ins tituições atravessadas pelo discurso do mestre, que
mantém o significante droga no lugar do S I ' saturando o sujeito de
s entido.

Produzir sintomas e assim se deparar com sua divisão é o


que diz Éric Laurent: "o sujeito deve passar de um saber que traba­
lha para o saber ins talado no lugar da verdade. A verdade não deve
trabalhar, mas se revelar." (1 992, p. 26) . Em ou tras palavras, a ver­
dade que trabalha produz o gozo e a verdade que se revela faz
surgir o suj eito do incons ciente.

177
O Brilho da InFeliddade

Referêndas bibliográficas

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LECOEUR, B. "O homem embriagado", V Jornada do CMT, Belo Hori­
zonte, 1 992.

178
O OBJETO DROGA E O OBJETO CRIANÇA:
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Elisabeth da Rocha Miranda


Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

A cria do homem não é o produto de um saber natural,


imutável sobre o sexo. No entanto só na Idade Moderna a criança
deixa de ser vis ta como um ser da natureza para se tornar um ser de
linguagem. Até então ocupava na sociedade o mesmo lugar que o
escravo, a mulher e o animal, e como esses assumia a função de
obj eto. Objeto para o prazer da vida, de identificação, de gozo
inclusive sexual, da educação e também obj eto à mercê de um pa­
trão. Temos suficientes demonstrações disso ainda hoj e quando nos
deparamos na núdia com a criança oferecida aos deuses em rituais
de magia negra, obj eto da perversão sexual, da invasão p erversa
das drogas, da mediação abusiva e até como banco de órgãos. Que
lugar ocuparia a criança em relação à "droga"? Lícita ou ilícita?
Qual a inserção possível aí da psicanálise?
Quando recebemos um suj eito em análise ouvimos uma
queixa e tentamos localiz ar um sintoma. Sin toma, metáfora
significante que porta a mensagem cifrada de um mal-estar que não
pode ser dito. O suj eito demanda livrar-se do sofrimento que o
sintoma implica, porém sem pagar o preço de s eu saber, que é
sempre vinculado à castração e causa horror. O sintoma é a mensa­
gem que o sujeito recebe do Outro de forma invertida; significado
do Outro, resultado da falta de um significante no Outro que por
O Brilho da InFe/iddatle

sua vez causa o desejo. O sintoma não comporta apenas uma ver­
tente sign ificante, mas também um real irredutível "que não cessa
de não se inscrever". É o que se repete e que é articulado à pulsão
de morte e ao gozo a ela atrelado.
Frente ao enigm a do desejo do Outro, ao "Che vuoi?",
"Que quer?", ao "O que eu valho no desejo do Outro?", o sujeito
constrói sua fantasia e a partir dela seus sintomas, que têm a função
de tamponar a falta inerente ao desejo do Outro S(.;t) .
Podemos dizer que o sintoma e a fantasia são formas de se
lidar com a castração do Outro, interpretada pelo neurótico como
sua própria castração. Ao neurótico sempre �alta e ele se oferece
sintomaticamente numa tentativa de tamponar a falta no Outro.
A criança nasce banhada pela linguagem que introduz o sim­
bólico pelo significante Nome-do-Pai, instaurando o sujeito na nor­
ma fálica e dele fazendo um ser desejante. A primeira relação do
humano é a que se estabelece com o simbólico, com o sign ificante.
O par real não é mãe-criança, o par humano é o recém-chegado, e
o significante, a linguagem. A criança se constitui como sujeito em
referência a um nome vetorizado: . . pelo pai que constitui o próprio
nome do desejo, desejo que não pode ser anônimo. O nome é o
índice de um lugar vazio que encarna a lei simbólica do desejo.
Quanto à mãe, esta não é universal, é um sujeito mãe/mulher que
deve ter um desejo particular a partir da sua própria falta (penisneid') .
Logo não há o natural. A mãe deve converter-se em simbólica.
Mãe simbólica produzida pela operação da metáfora paterna e que
a partir daí pode mediar a palavra do pai, a lei.
Estamos portanto na norma fálica e desfrutamos do gozo
fálico, gozo que inclui o Outro do discurso do laço social
fantasmaticamente. Vemos isso com clareza nas observações que
Lacan tece no Seminário, livro 4: as relações de of?jeto (1 956-7), a respeito
do caso paradigmático de Freud: a fobia do pequeno Hans. Hans
se vê num jogo de engodo com a mãe, jogo imaginário, no qual ele

180
Elisabeth da Rocha Miranda

tenta localizar o falo e se interroga sobre o que ele é no desejo da


mãe. Ele fantasmatiza constantemente o falo, colocando-o na mãe,
no pai, e até nos objetos inanimados. Vive a angústia, cito Lacan,
"que é correlativa do momento em que o sujeito está suspenso
entre um tempo em que ele não sabe mais onde es tá, em direção a
um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais poderá reen­
contrar-se" (1 995, p. 23 1).
Hans se encontra no momento em que seu próprio pênis
começa a se tornar completamente real e aí aparece a angústia. Se
no j ogo imaginário é possível se satisfazer com uma imagem, surge
agora algo que se apresenta como real, se apresenta "cash", como
diz Lacan. "O que a criança tem para apresentar é algo de miserá­
vel. Abre-se diante dela uma hiância, a de ser devorada p ela mãe"
(idem, p. 232). Esse impasse só pode ser apazigu ado pela assunção
da castração. Hans coloca aí o objeto fóbico "cavalo" que por um
lado barra o gozo da mãe e por outro faz suplência à carência da
metáfora paterna.
A relação do suj eito com o Outro sexo é a relação do sujei­
to com o falo, mediada pelo falo. Nos colocamos na partilha dos
sexos de acordo com a relação que estabelecemos com o falo, e
assim fazemos laço social.
O alcóolatra, nos diz Freud, está casado com a garrafa.
Mas esse matrimônio não o exclui das leis do significante. O alcóolatra
está submetido a cadeia significante mas de maneira particular. O
objeto álcool atinge a divisão subjetiva dando consis tência ao fan­
tasma e exercendo o gozo que é fálico. O Outro está aí incluído. O
que estli em questão é o apelo a um artifício para se relacionar com
o gozo fálico que está fora do corpo, mas dá consis tência ao fantas­
ma porque o sujeito crê nas figuras do Outro privador. Observa-se
a inclusão do Outro não só nos ditos do sujeito alcoolizado, como
também na vergonha, na culpa que o acomete e as injúrias a que se
submete.

181
O Brilho da InFe/icidade

Lacan nos diz que "a droga é o que permite ao sujeito


escapar ou romper o seu casamento com o pequeno pipi" (1 976, p.
268) . Em outras palavras, a droga promove a ruptura com o gozo
fálico. É isso o que nos mostra um jovem que mantinha com a mãe
(com quem vivia sozinho desde os três anos) uma relação peculiar.
Aos 25 anos torna-se impotente, segundo seu relato, após ter che­
gado em casa num fim de semana antes do dia combinado e sur­
preender a mãe com um homem. A partir da impotência rompe
com sua namorada (muito amiga de sua mãe) e passa a "cheirar" e
depois se "picar". Aos 28 anos me procura, trazido pela mãe. Após
quatro entrevistas, me diz que não volta mais, pois está cheio das
mulheres. Desfalicizado, esse sujeito cai do lugar imaginário de com­
plemento materno.
Na impossibilidade de lidar com a falta do Outro e com
um gozo que passa pelo Outro, o toxicômano se dedica ao gozo
de seu próprio corpo, e isso é tudo. O objeto da pulsão é fixado na
sua fonte e promove um curto-circuito, numa tentativa de um gozo
impossível, o gozo do Um, proibido na trama Edípica, ou sej a, o
gozo interditado com o Outro Materno interrompendo assim a
conexão entre o Outro, o fantasma e o gozo fálico.
Lacan, ainda no Seminán"o, livro 4, nos fala do perverso como
aquele que: "diante do horror da castração, erigiu para ela, nessa
criação de um substituto, um monumento. O fetiche é um DenKma!'
(1995, p. 1 59). Um troféu, signo de um triunfo, das Zeichen des Tn"umphes.
Triunfo sobre a morte mas também triunfo da morte, já que DenKmal
é o monumento que se ergue sobre os túmulos. Com o seu troféu
fetiche o perverso manipula a própria castração a partir da castra­
ção do Outro. Diferentemente do perverso, o toxicômano rompe
com aquilo que a fantasia supõe objeto de gozo enquanto inclui a
castração. A droga é a tentativa de eliminar o Outro já que possibi­
lita obter um gozo sem passar pelo Outro. Sendo assim, não lhe é
necessário nenhum sacrificio, não é preciso pagar com a castração,
não é preciso lhe dar nada abolindo o laço social. Mesmo nos ritu-

182
Elisabeth da Rocha Mira11da

ais repetidos sempre da mesma maneira que antecedem o ato de se


drogar, ainda assim o gozo é individual, cada um com o seu pró­
prio corpo. Como nos diz Jacques Alain Miller, "na droga trata-se
de uma insubordinação ao serviço sexual" (1 995, p.19). É pura
pulsão de morte, pois é um gozo que vale mais que a própria vida,
como vital. É a tentativa do gozo do Um, ao passo que o gozo
sexual só é apreendido pelo fragmento do corpo.
Voltando a questão da criança no jogo imaginário com a
mãe, ainda no Seminário 4, Lacan nos diz que "é a partir do momen­
to em que este jogo fica sério e em que ao mesmo tempo não passa
de tapeação a criança é inteiramente sujeita àquilo que o parceiro lhe
indica. Todas as manifestações do parceiro se tornam para ela san­
ções de sua insuficiência ou de sua suficiência ... na medida em que
não intervém devido a Verwerfung que deixa fora o termo do pai
simbólico a criança se vê na situação muito particular de estar intei­
ramente entregue ao olho e ao olhar do Outro". Temos aí o psicótico.
O toxicômano não é necessariamente um psicótico. Na psicose fa­
lamos de foraclusão do Nome-do-Pai; na toxicomania, de uma
ruptura com o gozo fálico, pela carência da metáfora paterna que
não sustentaria aí a possibilidade de lidar com a falta do Outro, pelo
viés do sintoma.

Éric Laurent, em seu artigo "Três observações s obre a to­


xicomania" (1995) nos diz que o "psicótico não se apresenta com
um eu sou toxicômano". Eles são outra coisa, nos diz, mas assim
como os outros tomam um certo número de tóxicos. Para eles, não
se trata de qualquer droga, uma, depois outra, e outra, é necessário
uma que porte um significante que faça suplência, que traga um
gozo no real, no lugar de um traço de identificação ao Nome-do­
Pai no registro simbólico.
Como poderíamos pensar então a drogadição na infância?
Como pensar uma criança lançada à droga, antes mesmo de ter
uma configu ração fantasmática solidificada? ,,

183
O Brilho do lnFelicidode

Num atendimento a meninos de rua, fui surpreendida p or


um garoto de oito anos. Ao pergu ntar o que ele mais queria na vida,
ouvi um "Nada". Insisto: "O que você gos taria de ser quando for
adulto?" - "Nada". Tento: "Ser polícia, ladrão, dono de escola de
samba, cantor?". Respostas dadas por seus companheiros. Ele me
diz: "Tia, eu não chego aos dez". Explica-me que fuma duas pedras
de crack por dia. "O Cabeça já é boneco, fuma três, depois vira
presunto". Já se passam algu ns anos e ainda hoj e me lembro do
impacto que esse dito me provocou. Quem não sabia era eu. Dian­
te do Outro, ele é um morto, responde ao desej o do Outro com a
morte. Ele tinha um saber sobre a morte. A droga estaria aí como
metonímia da Morte? Que interpretação esse sujeito deu ao "Che
Vuoz?". Já que se trata de um neurótico, estaria ele previamente ao
encontro com o real do sexo, se colocando como morto diante da
impossibilidade de se situar como desej ante pela carência da metá­
fora paterna? Não foi fálico o suficiente para ser desejado pelo
Outro matemo? O que ele vale no desejo desse Outro?
O sintoma é um fenômeno de linguagem e modula as rela­
ções do sujeito com o objeto a causa de desejo. O sujeito sintomá­
tico pela via da fantasia estabelece uma relação particular com o
obj eto a. Na toxicomania o sintoma é abolido e a subjetividade
desaparece. O desej o se perde e em seu lugar surge um vazio, pre­
enchido pelo gozo mortífero. Para a criança drogada, fazer essa
ruptura com o gozo fálico que implica uma passagem pelo Outro,
seria romper com o insuportável do gozo do Outro, posto que a
criança ocupa esse lugar de objeto de gozo na família e na sociedade.
A família é sustentada pelo discurso. O drama edípico de­
sempenha um papel de saber, mas a verdade que se es conde é a do
mestre, do amo, sua própria castração. Lacan dá ao romance fami­
liar a condição de mito e lhe dá a categoria de estrutura. Só a função
paterna promove a possibilidade do sujeito enfrentar o encontro
sempre faltoso com o Outro sexo, com a Mulher, com o enigm a
desse Outro primordial cujo suporte é a mãe.

184
Elisabeth da Rocha Miranda

Poderíamos pensar, diante do número avassalador de cri­


anças drogadas, na decadência da função paterna nos tempos atu­
ais? Para o psicanalista diante do toxicômano, trata-se de fazê-lo
falar e endereçar uma demanda. Tarefa dificil já que a droga não
inclui o discurso do sintoma. A resposta é "nada", pulsão de morte.
Mesmo quando o sujeito quer se livrar da droga, quem tem um
saber sobre ela é o drogado. É comum ouvirmos acusações sobre
a nossa ign orância diante desse gozo fora do falo.
Trata-se de como cada sujeito vai se colocar com o seu
desejo diante dos sign ificantes que o representam e como esse lugar
simbolizado pode promover uma separação do real do gozo do
O utro. Como sujeitos, temos que atravessar a decepção e o
desencontro entre o ideal e o real.
Penso que o psicanalista deve se situar como um Outro não
anônimo, um Outro desejante (desejo de analista) que nomeie, que
reconheça e inscreva o toxicômano como sujeito responsável para
que possa haver uma reconstrução em relação ao ponto central que
é a divisão do sujeito, isto é, um sujeito atravessado pela linguagem
e pela falta.
As crianças drogadas abandonadas, na rua e em suas fanú­
lias, têm seus pais; podemos pensar que eles são falhos, mas sabe­
mos que pai é sempre insuficiente.

Referências bibliográficas

FREUD; S. "Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor"


Contribuições à psicologia do amor (1912). Em: Obras completas, vol. XI. Rio
de Janeiro, Imago, 1980.
LACAN, J. O Seminário, livro 4: as relações de oijeto (1956-7) . Rio de Janeiro,
J orge Zahar Editor, 1996.
____ . "Clôture aux J ournées d'études des Cartels", Letns de L 'École
Freudienne de Paris, n. 18, abril de 1976.

185
O Brilho da InFelicidade

LAURENT, É. "Tres observaciones sobre la toxicomania". Em: Sujeto, gocey


modernidad I. Buenos Aires, Atuel-TyA, 1 995.
MILLER J.A. ''Para una investigación sobre el goce autoerótico". Em: S,geto,
goce y modernidad I. Op. cit.
ANGÚSTIA, SINTOMA E OBJETO DROGA

Mirta Zbrun
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

A idéia que pretendemos desenvolver consiste em pensar a


angústia e o sintoma em relação à função do pai em psicanálise no
que esta se refere às toxicomanias.
Ir do sentido do sintoma à satisfação, rastreando o real que
o delimita é o que se propõe a "clinica do real". Isto sign ifica tam­
bém ir do gozo do sintoma à fantasia fundamental. Nesse viés pri­
vilegiado, aparecem sintoma e angústia que somados à inibição, for­
mam a conhecida trilogia freudiana (1925). Sintoma e angústia são
delimitados por um real que os circunscreve e em que a função
paterna faz barreira ao gozo do sujeito, mediante a lei que regula o
desejo. A dependência às drogas pode ser pensada na encruzilhada
em que se encontra o sujeito em determinado momento entre sua
"vontade de gozo", segundo a expressão de Lacan, e a realização
do desejo que se igu ala à lei.
O sintoma vem acompanhado, na maioria das vezes, da
angústia que o faz falar. Nas demandas de análise dos dias de hoje,
a angústia é sempre causa; dificilmente algu ém chega ao analista sem
dizer: "Vim porque estou muito angustiado". Os que vêm conse­
guem falar de seus sintomas, enumerá-los, mas para transforma­
rem essas queixas em demandas de análise e iniciarem um tratamen­
to, é necessário separar o que é próprio da função da angústia da­
quilo que é efeito do sintoma.
O Brilho da I11Felicidade

A implicação do paciente em seu sintoma, que se alcança


pela negação do pedido para depois afirmá-lo, faz aparecer o sin­
toma como sintoma analítico (Miller, 1 987) . Isso produz uma im­
plicação do sujeito de tal ordem que a angús tia deixa lugar ao traba­
lho sobre a causa, sobre o real do sintoma e sobre a fantasia. Cons­
tatamos, desse modo, na entrada em análise um real e duas verten­
tes: a da angústia e a do sintoma.
O real do sintoma é seu sentido? Na décima-sétima Confe­
rência Introdutória sobre Psicanálise (1 9 1 7) , Freud nos diz que o
sintoma tem um sentido e percorre um caminho (Die W�e). Sentido
e caminho dão conta do real do sintoma. Na sua formação, o sin­
toma percorre o caminho da fixação libidinal, buscando novos
modos de satisfação libidinal. Na vigésima-terceira Conferência,
Freud diz: "Os sintomas neuróticos, sabemos hoje que eles são efei­
tos de um con flito surgido em torno de um novo modo de satisfa­
ção da libido" (Idem, p.282-29 1).
Podemos então percorrer o caminho que vai do sentido do
sintoma à satisfação, rastreando aí o real que o delimita; ir do gozo
do sintoma à fantasia. Porque a libido dos neuróticos encontra-se
intimamente enlaçada aos sucessos da sua vida infantil, esta retorna
aos acontecimentos da vida infantil, num movimento regressivo,
após ter sido expulsa das posições que alcançou na vida adulta.
Quando circunstâncias as mais variadas produzem a perda
dos h abituais modos de satisfação, começa o movimento regressi­
vo libidinal. Os fatos que deram início a tal movimento podem ser
reais ou imaginários, nos diz Freud. Mas sempre a fantasia desem­
penha um papel preponderante na formação de sintomas; o real da
fantasia é o substrato. Ela - a fantasia - ao não ser mais que um véu
que encobre o real - o verdadeiramente real s erá o real do sintoma.
No entanto, como o assinala Freud, quando se dá a priva­
ção de um objeto da satis fação, a libido regressa a posições anteri­
ores que já tinha abandonado deixando determinadas fixações. Tais
objetos exis tem com certa intensidade nas representações da fanta-

188
Mirta Zbnm

sia. Quando a libido entra em contato com tais representações, en­


contra o caminho que a conduzirá a fixações recalcadas.
Não é tão claro que isso aconteça com a angústia, ou seja,
que ela tenha um caminho a ser percorrido para alcançar sua satisfa­
ção, e que responda a uma formação. Ela parece ser produto da pre­
sença de um objeto que causa medo, como o cavalo do Pequeno Hans
ou a cena vista da janela pelo Homem dos lobos-. objeto real ou alucinado.
A angústia é a presença do real no simbólico, como nos diz
Lacan, o real quando aparece no simbólico. Desse ponto de vista, é
algo que não pode enganar (1 962-3) . Por sua vez, o sintoma, como
o que conserva um sentido no real, o verdadeiramente real, ele sim
pode enganar. Porque, ao ter um sentido, entra no registro do real­
mente simbólico presente no real. Um simbólico que nos engana
sobre o real (Miller, 1 997) .
O sintoma é, pois, um efeito de significação; no entanto,
sua causa é uma fantasia inconsciente recalcada. A angústia emerge
no lugar suspenso que se abre entre o piso superior (fantasia-desejo)
e o inferior (eu-i(a)) do grafo do desejo lacaniano. Aí onde o desejo
do Outro cria uma suspensão, "que ele me-quer, como eu?", e onde
a função da angústia parece mostrar que desejo e identificação
narcísica são homólogos e diferentes.
Na entrada em análise encontramos sintoma e angústia en­
trelaçados e confundidos num fundo de real. Assim, na experiência
clínica podemos observar que algu ns pacientes vêm à consulta por­
que estão angu stiados, deprimidos, não conseguem fazer nada com
seus e sintomas e declaram que fazem uso de algu ma droga ou
bebem. Geralmente se declaram em depressão. A maioria dos su­
jeitos chega podendo falar seu sintoma.
O apelo que é feito às drogas se transforma num enigma
para o sujeito. Sabe sobre seu sintoma e sobre sua angústia, mas
quase nada sobre o fato de que usa drogas. O objeto droga que
"corre nas profundezas do gosto", como diz Lacan em seu escrito

189
O Brilho da InFeliddade

"Kant com Sade" a respeito do objeto do gozo, constitui um ver­


dadeiro enigma para estes sujeitos.
Desse modo temos que delimitar um real que circunscreva
o sintoma e a angústia, para obter os primeiros efeitos terapêuticos,
ao s eparar assim o objeto droga da angústia e dos sintomas. Um
paciente diz que sempre tentou saber tudo sobre suas namoradas,
sobre o passado delas, para saber que tipo de mulheres eram. Me­
receriam seu respeito ou não? Segundo o dizer de seu pai: "Existem
mulheres para respeitar, com essas você não deve fazer nada, e
outras que não merecem o respeito".
Depois de saber tudo ou quase tudo de suas namoradas,
sempre chegou à mesma conclusão: elas têm um passado duvido­
so, não preciso respeitá-las, posso fazer tudo com elas, posso go­
zar, mas não serve, não fico feliz. Então faz tudo para perdê-las e
depois sofre, fica só, e se refugia na bebida.
A fantasia liga-se sempre às palavras paternas; no entanto,
toda fantasia é um véu que encobre a cena primária e é o resultado
de um circuito libidinal entre a pulsão e o desejo. Ela se realiza, em
muitos casos, com o auxilio de um objeto que leva a obter um
gozo mortífero. Então aparece a angústia como função, para deli­
mitar o real, entre o axioma fantasmático e a identificação imaginá­
ria, nesse lugar onde a droga entra para acenar para o sujeito que a
lei pode ser burlada. Mais o desejo é sempre contrário ao gozo e
não há outra saída para o sujeito s enão submetê-lo à lei, digamos
do Nome-do-Pai e de sua função.

Referências bibliográficas:
FREUD, S. "Inibição, sintoma e angústia" (1 925). Em: Obras completas. Madrid,
Biblioteca Nueva, 1968.
LACAN, J. O Se111i11ário, livro 1 0: a angústia (1 962-3). Inédito.
MILLER, J-A. "Seminário do Campo Freudiano". Falo, n. 2, 1 987.
____ . "Seminário de Barcelona". Fre,uliana, n. 1 9, 1 996.

190
A TOXICOMANIA E A DEMANDA

Gilberto Rudeck da Fonseca


Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

Quando entramos em contato, na clínica do dia a dia, com


o uso de elementos tóxicos por parte do paciente, nos defronta­
mos em seguida com a questão: como abordarmos este uso, inclu­
sive quando o paciente demanda que seja feito algo que controle
isto? Atendemos a sua demanda e nos colocamos a controlar este
uso? Outras vezes o paciente vem trazido por familiares que de­
mandam que seja feito algo e neste caso não há mesmo uma de­
manda por parte do paciente. Assim, podemos obs ervar que a
toxicomania na clínica nos coloca frente à questão da demanda, isto
é, como trabalharmos com estas demandas ou, ainda, como traba­
lharmos com a ausência de demandas ?
Proponho então trabalharmos sobre a estrutura d a deman­
da, ou melhor, sobre o que repres enta para o ser humano uma
demanda e como ela funciona no caso da toxicomania.
O ser humano é extremamente dependente e todas as suas
necessidades, por mais básicas que possam ser, necessitam desde o
início do Outro para interpretá-las e satis fazê-las. Logo, o ser huma­
no necessita dos significantes que vêm do Outro, aliena suas neces­
sidades a esses significantes; é o que Lacan define como o primeiro
tempo da constituição do sujeito: a alienação. Esta alienação funda­
mental é o que dá formação à pulsão, expressa sob a forma de
demanda vinda do Outro, à qual o suj eito fica encarregado de satis­
fazer, isto é, fica com a tarefa de responder a estas demandas que
O Brilho da InFeliddade

passam a ser suas, e que são derivadas do relacionamento com este


Outro primordial que é a mãe.
A pulsão, Trieb, é o resultado da imersão no mundo simbó­
lico, no mundo das palavras. O que isto quer dizer? Quando ocorre
a satisfação, fica uma marca e é somente a esta marca que teremos
acesso. "Uma pulsão jamais pode tornar-se objeto da consciência,
somente seu representante, Vorstellung, que representa a pulsão, é
que pode"(Freud, 1 915c, p. 203). Esta marca constitui para o sujei­
to uma aquisição, um ganho, mas corresponde ao mesmo tempo à
marca de uma perda. Um representante que passa a fazer parte do
sujeito e no qual ele vai se constituir é uma marca que entra, e esta
corresponde sempre a uma perda, a perda do objeto. A entrada do
representante é o equivalente à pulsão de vida e a expulsão do ob­
jeto, à resposta da pulsão de destruição; ambos correspondem à
constituição do sujeito, que por um lado adquire um representante e
por outro fica marcado desta perda constitutiva, S< >a. Adquire
um representante: este é um ganho, uma compensação, uma resti­
tuição sempre atrelada a uma perda.
A pulsão visa a repetição, visa sempre este reencontro fra­
cassado com o objeto, é aí que ela se satisfaz. Isso demanda dentro
do sujeito, faz pressão e no tatear da falta, retorna com outro
sign ificante, que reafirma a falta, fura o sujeito, determinando a zona
erógena, ou seja, é uma demanda que se renova na busca desta
restituição. Mas não restitui o objeto; restitui a falta.
Esta imersão no simbólico acaba com as proporções, pois
no instinto há proporção: o que é procurado, é encontrado. Na
pulsão, a visada é o fracasso, pois o representante, fazendo parte do
mundo simbólico, está separado do objeto. Logo toda relação não
mais acontece, somente te-mediada pela palavra.
Quando o sujeito responde à demanda, ele a satisfaz mas
reduz esta à necessidade. Por exemplo, quando isso a mim demanda

192
Gilberto &1tleck da Fonseca

comer, da posição de sujeito alienado a esta demanda, não se pode


fazer outra coisa senão comer. Este seria um curto-circuito pulsional,
que é o resultado da relação do sujeito com o Outro primordial,
definido aqui como uma posição em que o sujeito sustenta a onipo­
tência do Outro. Ficando alienado ao representante da pulsão que o
representa para este Outro primordial e trabalhando para· que este
continue a representá-lo, logo ele precisa continuar comendo. Como
sair desta posição de alienação? Como sair desta relação dual com
o Outro? Como separar-se disto?
Lacan define os dois momentos de constituição do sujeito:
alienação e separação. Neste primeiro momento o sujeito se torna
escravo desta demanda, escravo da onipotência do Outro para quem
trabalha e tenta satisfazer.
O sujeito, ao ser marcado com a satisfação, obtendo uma
marca que o identifica traz junto a marca do pai ou da castração do
Outro primordial, a mãe. Como entendermos esta marca? A mar­
ca se remete a uma interpretação, isto é, uma marca quer dizer algo
para alguém, reside aqui a possibilidade da emergência do sujeito:
questionar o que esta marca quer dizer, remete-o a outro significante,
o que permite que o sujeito se localize entre os significantes e se
separe desta primeira marca com o qual estava identificado: é o
sujeito dividido. É isto ou a permanência na posição de identifica­
ção, a marca respondendo a demanda. A marca remete a outro
significante; logo introduz o sujeito na linguagem. Es ta marca
corresponde a um ato inaugural do sujeito em que ele disse sim ao
significante. A conseqüência deste ato é a introdução dos significantes,
ou ainda, a introdução do indivíduo no mundo dos significantes e
também uma conseqüência denegada pela presença das palavras,
uma conseqüência que diz não ao objeto. Sim à palavra, não ao
objeto. Fica com as marcas que são testemunho material da perda
de objeto. Logo, podemos observar que ao responder a uma de­
manda dando ao sujeito um objeto, estamos reduzindo a demanda

193
O Brilho da l11Fe/icidade

à sua necessidade e frustando o lado simbólico da demanda, isto é,


que uma marca, antes de mais nada, demanda uma interpretação,
demanda. outro sign ificante que venha interpretá-la e separá-lo da
identificação. Este é o tra!;>alho pulsional, que visa o retorno e a
determinação da zona erógena, o furo no qual o sujeito pode se
apresentar como castrado.
A marca é o atestado da entrada do indivíduo para o mun­
do simbólico e o atestado de uma perda. Elevar uma demanda à
dignidade de uma demanda é respeitá-la quanto a sua origem e
dirigi-la para uma interpretação. Dizendo de outra forma, é condu­
zir a demanda ao desejo. E o desejo é sua interpretação. É a posição
indicada por Lacan em "Direção do tratamento e os princípios de
seu poder" (1 95 8) na qual se suporta a demanda não para frustar o
sujeito, pois vimos que responder a demanda, dando-lhe algo, aí
sim é frustar a demanda. É suportar a demanda para que reapare­
çam os sign ificantes que possam vir interpretá-la, casando o sujeito
com sua castração, abrindo sua relação com o falo, marcando-o como
sexual. Interpretação que possa vir falar dessas marcas em que o sujeito
com seu ato implicou o seu nascimento como um ser sexuado.
Para s air da alienação é necessário sustentar a demanda para
que reapareçam os significantes que atestam o seu ato, implicando o
sujeito, tirando-o da sua posição de alienação, submissão ou de víti­
ma e podendo implicá-lo no que se passa com ele. Suportar a de­
manda para que reapareçam os significantes que possam dizer algo
dessas marcas que deram origem às demandas, ou interpretá-las,
trans formando-as em élesejo, com isto mudando a posição do su­
jeito. Posição esta que a princípio aparece como vítima de uma falta,
que muda para a posição daquele que participou da constituição da
falta quando disse sim ao se tornar humano, um ser pela palavra.
Muitos se queixam deste ato alegando terem sido ludibriados e
enganados, pois se separaram do objeto, tomando posse da palavra,
achando que a palavra iria substituir a perda, mas que na verdade as

194
Gilberto Rl,deck da Fonseca

palavras são apenas indenizações. É verdade que são indenizações


que permitem ao homem que voe sem ter asas, que ande a 80km
por hora, e a sociedade não pára de tentar indenizar o sujeito pro­
metendo milhões de vantagens por ele ter se tornado um adepto.
Mas é verdade que aquele objeto que o salvaria das penúrias da falta
foi para sempre perdido.
É necessário que o sujeito dê este passo a mais, pois é ver­
dade que aquele objeto está para sempre perdido, mas a marca que
dele ficou, demanda. .. , demanda .. . , não cessa de demandar, uma
demanda que vem do Outro e o assujeita, o submete, exige satisfa­
ção e o sujeito pode se identificar e sus tentar a onipotência do Ou­
tro. É necessário que ele saia dessa. É necessário que ele saia desta
alienação, que se desloque da posição de se identificar com o traço
como se este fosse o objeto, fazendo existir o para sempre perdido,
constituindo-se como sujeito perdido. Principalmente por que se
aventurando nes ta tarefa, corre um perigo, poi� fazendo existir o
para sempre perdido, ignora a morte do objeto, ign ora o que está
registrado neste traço e que não foi interpretado: a perda do objeto.
Uma i gn orância perigosa, pois fazendo exis tir o objeto perdido
colado com a marca com a qual se identifica, realiza um excesso de
trabalho que retorna com o ign orado em ato: a morte da coisa com
o qual es tá identificado. Ao exagerar no fazer exis tir, o para sempre
perdido, produz a overdose e encontra o ignorado, a morte. Ao
tentar ultrapassar a barreira das palavras, ao tentar pular este muro,
cujo o limi te é o traço, a marca, ele salta para o abismo que se
encontra do outro lado do muro, e lá só tem a falta, a morte, o
vazio que pode ser percebido ao aproximar-se do umbral da janela
de um grande prédio, este construído com as palavras.
O toxicômano faz a droga. Reduz o sempre perdido ao
seu traço, fazendo existir o perdido e completando o Outro, já que
faz com que S 1 s.eja igual ao a. •'A droga aparece como um significante
encarnado" (Beneti, 1 996). Poderíamos dizer que aqui ocorre um

195
O Brilho da InFelicidade

curto-circuito pulsional, pois Freud nos lembra que a pulsão não se


reduz ao seu representante, "que além do representante, algum ou­
tro elemento que representa a pulsão tem que ser levado em conta
e que este outro elemento passa por vicissitudes de repressão que
podem ser bem diferentes das experimentadas pela representação"
(Freud, 1915b, p. 176). Mais adiante, comenta que estas vicissitudes
dizem réspeito ao afeto, e que a pulsão falha quando separa o afeto
de seu representante. O sujeito fica então submetido a um estado
constante de ansiedade, de trabalho interrompido em que o sujeito
não se realiza.
Nessa frustração quanto ao trabalho simbólico de procura
da interpretação ocorre a regressão, ou seja, quando um objeto real
e a atividade que é feita para atingi-lo substituem a exigência simbó­
lica. A droga vem então colaborar com este curto-circuito, mas ao
prorrogar este trabalho pode reencontrar o que o afeto já denunciava,
a morte da coisa com a qual o sujeito esta identificado.
O que pode impedir o salto suicida? A sexualidade. É ela
que nos comunica nossa relação com a falta. É a sexualidade que
nos determina como sujeito faltoso, nas duas versões da palavra:
faltoso com relação ao que lhe falta, e faltoso com relação à sua
culpa, que o implica em seu ato. As formações do inconsciente -
os sonhos, os atos falhas, os chistes - estão sempre aí para denun­
ciar nossa relação com a falta, sempre relembrando, evocando, cha­
mando à falta. O sintoma com sua permanência e constância é um
aviso de nossa relação com a falta; é o que presentifica a sexualida­
de. O sintoma fala desta marca no corpo. Interrogando o sintoma,
podemos ter acesso a este saber sobre o que esta marca representa.
É a marca da castração, a marca do pai que coloca limite, o muro
que impede o sujeito de lançar-se no vazio, muro representado
como gozo fálico, dando a possibilidade dos sujeitos se localiza­
rem sexualmente com referência ao gozo fálico.

196
Gilberto Rndeck da Fonseca

As drogas são uma das indenizações da sociedade para o


ser humano por ele se tornar adepto. Elas são muito eficientes ao
nos protegerem contra a decadência física, podendo restabelecer o
funcionamento de órgãos vitais. As drogas também nos protegem
dos perigos do mundo externo, como, por exemplo, das infecções.
Mas as drogas utilizadas para amortecer nossa relação com as de­
mandas acabam trazendo muitos danos. Pois, como vimos, ao res­
ponder às demandas com o uso das drogas estamos frustando-as
quanto à sua vertente simbólica e afastando o sujeito da possibilida­
de de se reencontrar com sua falta constitutiva, com sua falta que
lhe faz sujeito. De se reencontrar com seu ato que o introduziu no
mundo dos homens, no mundo das palavras. Identificado à marca,
o sujeito fica numa posição de impostura, usufruindo de um mun­
do no qual ele ainda não está completamente implicado, nem se loca­
liza como sujeito dividido, em que fica segregado como um a mais ou
um a menos. Evita de se reencontrar como sujeito sexual, localizando­
se como homem ou como mulher. A droga é o que afasta ou rompe
o casamento do sujeito com seu pequeno pipi, nos diz Lacan.
O uso das drogas para amortecer a relação do sujeito com
a demanda provoca ainda a não emergência de sintomas que pode­
riam permitir o acesso aos significantes que interpretariam as mar­
cas, podendo tirar o sujeito da frustração. Como vimos, o uso das
drogas facilita a regressão, e é esta que impede a emergência dos
sintomas que denunciariam o sujeito como sujeito faltoso, como
sujeito sexual.
É evidente que possibilitar a esse sujeito o rompimento deste
círculo não é algo simples. Possibilitar que o sujeito se coloque na
busca da interpretação, se coloque no trabalho simbólico exigido
pela demanda nem sempre é evidente. Mesmo porque a própria
exigência da demanda pode se tornar extremamente imperativa,
obrigando o sujeito a realizar o curto-circuito da satisfação substutiva,
da regressão.

197
O B,i/ho da InFeliddade

Toda manobra que permita ao suj eito reencontrar-se com


o trabalho simbólico exigido pela demanda é bem-vinda para o
sujeito. Toda manobra que vá contra a demanda, não dando ouvi­
dos a exigência simbólica nela presente não é bem-vinda para o
sujeito.
É necessário que a sociedade possa acolher este sujeito, pois
não basta o trabalho do sujeito para reconciliar-se com seu desejo,
reconciliar-se com seu ato inaugural em que se fez adepto dos seres
humanos. É necessário haver condições para que ele possa se loca­
lizar. Só se reconhece qua�do se é reconhecido; movimento dialético
em que entra a psicanálise, dando condições para a emergência do
suj eito. Alertando para o fato de que a sociedade não responde à
exigênc1a simbólica da demanda, a tendência natural desta é forne­
cer subs titutivos, indenizações. Subs tituir é o processo natural da
entrada para o mundo dos significantes. Cabe então ao sujeito o
problema de seu desencontro fundamental com o objeto, cabe ao
sujeito sustentar sua relação com seu ato inaugural em que se insti­
tuiu como faltoso, cabe ao suj eito sustentar sua relação com a falta.
E alguém que possa acolher esta inves tida, um algu ém qualquer que
saiba suportar o suposto saber, o saber suposto em que o sujeito
possa ser reconhecido dialeticamente, este suj eito suposto pelo sa­
ber do analis ta.
Poderíamos, segu indo a idéia da procura da interpretação,
supor que elevando a demanda à dignidade de uma demanda, serí­
amo s conduzidos com a busca simbólica para o engodo de que a
demanda será satis feita com uma resposta vinda do Outro e que
is to acabaria com nossa fome, não precisando mais comer. A anorexia
é o paradigm a que vem denunciar este engodo. A anorexia tenta
denunciar com veemência a relação do sujeito com a falta ou com
o nada do obj eto, como paradigm a de recusa da resposta do Ou­
tro. Logo, não é dando um significante como uma resposta do
0utro - por exemplo, "Você é um toxicômano" - que se rom-

198
Gilberto &1deck da Fonseca

perá o curto-circuito pulsional, mas, justamente ao contrário, quan­


do o pacien te - recordamo-nos de um caso - pode retirar-se
desta identificação ao toxicômano e criar um novo sign ificante para
ele - viciado -, uma verdadeira interpretação que abriria para
toda uma significação sexual de sua posição no mundo.
A ciência tenta responder esta demanda com o seu: "Você
é um toxicômano, este engodo advém de uma ign orância". A inter­
pretação visada pela demanda diz respeito à falta e por este fato o
objeto aí colocado é indiferente, isto é, não elimina a demanda, não
elimina o impulso que, Freud nos lembra, é de força constante. Não
seria colocando aí uma palavra com consistência de obj eto que a
demanda cessaria. Para a pulsão, Freud nos dizia, o objeto não tem
nenhuma importância, ele é mesmo indiferente. A visada da pulsão é
o afastamento da substância estimulada da in fluência do estímulo (1 9 1 5,
p. 140). É propriamente uma separação o que visa a pulsão. O corte na
sessão pode restituir o circuito pulsional. Questionar a identificação
pode liberar o circuito pulsional. A pulsão visa o contorno que a libere
para relançar-se. "A pulsão é causa do ato, a condição que isto produza
uma interpretação, que passa a causar a pulsão"(Godino Cabas, s/ d).
O gozo obtido pela satis fação após a interpretação carrega
em si a castração, carrega em si a falta e logo é colocado como pura
indenização. É um a mais, já que somos cas trados; é um lucro, um
mais de gozo. Não mais se pode enganar de que atingimos o obje­
to. É uma compensação que marca justamente a falta. O gozo fálico
é o atestado da falta e por esta razão muitas vezes evitado. O gozo
fálico é o resultado da castração. Lacan no-lo comunica com sua
frase no texto de "Subversão do sujeito e dialética do desejo no
inconsciente freudiano": "É neces sário que o goz o seja recusado
para que ele possa ser atingido sobre a escala invertida da lei do
desej o" (1 960, p. 827) . Atingindo esse a mais fugidio, inapreensível,
impossível de interpretá-lo, is to é, impossível de recobri-lo com
significante. Marcando aqui a falta no Outro, no Outro do significante.

199
O Brilho da lnFe/icidade

Ao perder o objeto, aliando-se as palavras, poderia se ter a ilusão de


reencontrar aquela palavra que tudo diria, que o restabeleceria. Diga­
me uma só palavra e serei salvo. Mas o Outro falta por estrutura e
tudo não pode ser dito e a falta se renova. Isto é o que chamamos
de castração. As palavras são a referência que possibilita o acesso a
este algo a mais que habita a pulsão.
Posta a questão da demanda, as perguntas colocadas no
início deste trabalho se reformulam. Assim, quando dizemos que
não há demanda por parte do paciente, é necessário nos aproxi­
marmos e talvez utilizarmos lupas para evidenciá-las, pois se existe
sujeito elas estão lá. No esquecimento do adolescente, que deixa a
droga "sem querer" à vista de seus pais ou professores. No atrapa­
lhar-se frente a um policial, denunciando-se como portador. En­
fim, na experiência do caso a caso, ao nos alertarmos, poderemos
escutar a demanda muitas vezes onde menos se espera.
No pedido de controlar seu uso, que estejamos advertidos
da impossibilidade disto, pois a demanda é de força constante e
exigir o controle do uso é desconhecer a fonte, é não reconhecer o
afeto que aparece transtornando o sujeito. Lembremos que sob
angústia ninguém sobrevive. Atenuar a angústia, nos diz Lacan, mas
sem desculpar o sujeito, ou seja, implicá-lo no faltoso que lhe diz
respeito. É necessário muito acolhimento ao sujeito, pois a frustra­
ção empurra para a regressão.
O paciente coloca nas entrevistas sua relação sofrida com a
falta e a demanda reivindicatória, ameaçadora em que exige o res­
sarcimento, próprio de sua posição de frustração em que elide o
significante da castração. Suportar isto na transferência é dar acesso
a interpretação; sign ifica a possibilidade de implicá-lo no negócio
que realizou com o Outro. Fazer-se carne deste Outro e se retirar
deste lugar quando os impasses impedirem o prosseguimento do
trabalho. Denunciar que é ali, no esquecimento da droga à vista do
Outro, que se encontra o sujeito.

200
Gilberto RRdeck da Fonseca

Referêndas bibliográficas

BENETI, A. "Sobre as toxicomanias e o tratamento do toxicômano". Em:


S11bversão do slljeito na cUnica das toxicomanias, IX Jornada do Centro Mineiro de
Toxicomania, Belo Horizonte, 1996.
FREUD, S. "Os instintos e suas vicissitudes" (1915). Em: Obras completas,
vol. XIV. Rio de Janeiro, Imago, 1980.
----· "Repressão" (1915b). Idem.
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GODINO CABAS, A. "Seção clínica de 22 de agosto de 1996". EBP-Paraná.
Inédito.
LACAN, J. "La direction de la cure et les principes de son pouvoir" (1958).
Em: Écrits. Paris, Seuil, 1966.
_____. "Subversion du sujet et dialectique du désir dans l'inconscient
freudien" (1960) . Op. cit.
A FUNÇÃO DO TEATRO, DO ÁLCOOL E
DA MENDICÂNCIA NA ECONOMIA
PULSIONAL

Mila Pa lombini de Alencar

Chegada em análise

Nas sessões iniciais eram notáveis os sinais de ansiedade.


Queixava-se de ter "o maxilar preso", demonstrando teatrahnente
o que sentia. Era tão grande a inquietação que parecia-me estar
diante de alguém em estado de abstinência alcoólica. Nomeava-se
ex-alcoólatra já tendo feito parte de um grupo de auto-ajuda. O
uso de medicação ansiolítica (Olcadil) era incompatível com a ingestão
do álcool, segundo a médica que lhe prestava atendimento. Relatava
os sintomas como se estes se devessem a conflitos com o pai e os
irmãos por ocasião de sua mudança de moradia, o que teria acarre­
tado grandes preocupações à sua familia. Havia um sentimento cons­
tante de estreitamento dos laços familiares correspondendo ao de­
sejo manifesto pela mãe evangélica antes de seu falecimento.
No início da análise demonstrou seu desejo de ser ator pro­
fissional sem, no entanto, conseguir concretizá-lo, por se encontrar
sem oportunidades de trabalho.
O Brilho da lnFelicidade

Caso clínico

Desde a sua infância, passada no interior do Espírito Santo,


proci.lrara transformar os recursos próprios da região em elemen­
tos utilizáveis para "o cenário de seu teatro particular". Neste início
sentiu o quanto' a representação teatral era importante e se fazia
necessária em sua vida. Mesmo na ausência de um papel "oficial"
representado no palco, sempre improvisava com as pessoas ou
objetos que o rodeavam alguma encenação. Criava em sua própria
casa, no seu trabalho ou em qualquer lugar seus personagens fictícios.
O ato de representar o acompanha como algo visceral,
impuls ivo, que nem sempre conseguia justificar. Sentia-se capaz de
se transformar em qualquer coisa: desde uma mulher sedutora até
um ministro (papéis já encenados). A transformação no persona­
gem constituía-se em algo mágico para si, de onde tirava proveito
ao ser capaz de metamorfosear-se. A metamorfose como substân­
cia poderosa utilizada no seu dia a dia, inclusive nas situações desa­
gradáveis, incômodas ou frustrantes. É dela que, através do riso do
Outro, poderia anestesiar qualquer emoção desconfortável em si
mesmo e em quem o estivesse observando.
Nem sempre, entretanto, esta sua capacidade de mutação
supria as suas necessidades internas. Ao senti-las, incompleto, lança­
se para o outro lado: isola-se, deprime-se e busca de forma com­
pulsiva outras substâncias como o cigarro e o álcool. Nestas ocasi­
ões descuidava-se do corpo, de sua higiene, em atitude de
autocomiseração. Viveu na mendicância durante alguns meses. O
bom humor, ainda assim, fazia-se presente de forma significativa.
Assim, atraiu a atenção e conquistou sua atual mulher. Relaciona­
mento do qual proveio um filho, atualmente com quatro anos. Fala
de sua mulher como se fosse a sua mãe. Deposita nela expectativas

204
Mi/a Palombini de Alencar

de que seja provedora de todas as suas necessidades, aonde nada


pode faltar. A mulher é empregada doméstica e divide as atenções
com a patroa doente e com seu filho, despertando-lhe ciúmes. Ape­
sar disto, diz-se grato, procurando não lhe trazer preocupações.
Seu processo analítico durou dois anos. Evitava suas ques­
tões falando de seus personagens, como se esperasse que a analista
fosse sua platéia; assim, inútava, encenava num dizer peculiar à sua
conveniência.
Numa sessão lembrou que quando criança procurava
neutralizar a fúria freqüente de seu pai ao chegar em casa
alcoolizado, após vários dias de internação psiquiátrica, dando­
lhe um forte abraço.
Da mesma forma age com o filho diante de suas travessu­
ras. A pantomima, a caricatura e o faz-de-conta imperam, fazendo­
se valer sobre o sentimento de incapacidade, poupando-o de assu- .
mir a função paterna.
Em seu mundo peculiar de fantasias, onde tudo era permi­
tido, havia também uma inte.nção de atingir o Outro. Ao transfor­
mar-se em "fantasma bêbado" poderia assumir uma outra identi­
dade e até relacionar-se sexualmente com uma outra mulher, como
veio a relatar em uma das sessões. Desta forma teria atingido com
um só tiro dois alvos: o desejo de relacionar-se com outra mulher
e mostrar a sua mulher algo do relacionamento conjugal. Ao Ou­
tro cabia a responsabilidade por seus atos e soluções. À medida
que reconhece sua implicação, sobrevem-lhe um vago temor da
vingança do O utro. Torna-se alerta para a punição da qual julgava­
se merecedor. Estar só ou mesmo a fantasia de ser abandonado o
deprimiam. Havia um sentimento de horror ao evocar a lembrança
de que já viveu em estado de mendicância, bêbado, sujo e sem
moradia.

205
O Brilho da InFelir:idade

Teatro, álcool e transferênda

Sua procura de análise deveu-se à "incompreensão" por


parte de seus pares em relação à atividade exercida no teatro. Cha­
mavam-no de "maluco" ou "viado".
_ Esperava que a análise "o ajudasse a arrumar sua cabeça",
permitindo-lhe assim, como acreditava, maiores chances no teatro.
Dizia, em certas ocasiões, que não compreendia porque não era
melhor aproveitado como ator, uma vez que se julgava talentoso.
Em outros momentos alegava não ter beleza física, o que lhe im­
possibilitava um acesso mais fácil aos palcos.
Justificativas como: ser igu al ao pai (maluco e alcoolista) ou
dificuldades no aprendizado escolar vinham à tona para explicar
seu estado de desânimo ao defrontar-se com barreiras reais.
A imaginação e o sonho o acompanhavam muitas vezes,
deixando transparecer que es tava na profissão errada (porteiro) e
que seu desej o era o de tornar-se um grande ator profissional. Para
alcançar este objetivo, o que lhe vinha à cabeça era a vontade de não
mais beber, pois, segundo ele, não se continha em só beber social­
mente e is to o prejudicava muito, além de denegrir a sua imagem
profissional.
Mencionava também a sua insatisfação quanto às atitudes
que tomava e que lhe causavam posteriormente arrependimentos.
Queixava-se de ser impulsivo e de muitas vezes destratar as pessoas.
Justificava suas reações em virtude de ser "uma pessoa sincera e
gostar de falar as coisas abertamente".
Trazia no início de algumas sessões, de forma culpada, que
não conseguia se contr<:>lar diante de uma situação geradora de an­
gústia. De maneira compulsiva ia a um bar beber cachaça. Deixava
claro que essa atitude não era de conhecimento de sua esposa. A ela
o omitia por não querer aborrecê-la.

206
Mi/a Palombini de Alencar

Observava que muitas vezes áo se sentir só, o que ocorria


na hora de seu almoço, procurava fazer uma sesta no intuito de
relaxar.
Em determinados momentos da análise, o acting constituía
no representar "cenas teatrais , quando a libido era travada em seu
circuito peculiar. No que concerne a libido, a análise representaria
para o sujeito um sonho dramatizado (o ato de encenar) durante a
vigília; o que levaria a sentir-se maior e notado.
Grinberg (apud Nasio, 1 987) destaca relações entre o sonho e
o acting-out. O acting-out poderia ser considerado wn sonho, "um sonho
que não pode ser realizado". Esses momentos em que representa
papéis , e que pertencem principalmente ao início ·do processo ana­
lítico, serviram como uma estréia e tentavam conduzir o analista a
um lugar de prestígio. Mais além, a representação conduz à transfe­
rência. Sempre que o analista era deslocado .de seu papel de suposto
saber, as intervenções se fizeram necessárias. No sentido de recolocar
o sujeito novamente na cadeia de sign ificantes.
A interrupção do processo analítico nos mostra mais uma
vez que a resposta ao desejo ainda vinha predominantemente na
forma de ação, de acting-out, sobre a palavra. As ofertas de trabalho,
crescente naquele momento, vinham ajudá-lo a distanciar-se do real
da angústia em que o sujeito, para não tomar atitudes ou decisões,
prefere não utilizar a palavra. O "sem sentido" (na análise) transfor­
ma-se em "dar sentido".
Segundo Heidegger , nesse momento, "o sujeito não pode
deixar-se entregar naquilo que é como é", o que ele nomeia de
"caráter do desenvolvimento" em que a essência da liberdade, a luz
da verdade se revela. O paciente nesse sentido crê na liberdade, o
que para Lacan revela que o homem é sempre prisioneiro de seu
inconsciente. E a única liberdade existente é a morte.

207
O Brilho da InFeliadade

A função do teatro, do álcool e da mendicânda na


economia pulsional

Na clinica psicanalítica, a ordem da palavra se manifesta


porém não em todos os sentidos. É a partir da trans ferência que o
sujeito se engaja em seu inconsciente e que se revela a magnífica
invenção que é o inconsciente criando s aídas que o levarão a supor­
tar a angústia de cas tração.
Sabemos que na histeria o sujeito apresenta-se alienado a
um lugar no outro. Assim, ao entrar na sessão, o sujeito indaga ao
analista s e está ou não atrasado, ocupando-se ainda de informar ao
analista se havia ou não bebido. Algo do sintoma aí se retrata no que
se refere a uma permanente expectativa em relação à crítica do
outro.
A evitação da angústia fazia-se s empre imperativa. Diante
da separação o sujeito sutura a falta p ara não se deparar com a
castração. O sign ificante "teatro", neste contexto, tem duas funções.
A primeira delas: o teatro constitui-se como o lugar dos objetos
perdidos, os quais ele utiliza como um semblante de identificação.
Isto dá lugar ao desejo de recuperação desses objetos, instaurando
a fantasia sobre os significantes ofertados pelas peças, no ato de
representar. Algo da ordem do gozo s e apresenta como ancora­
douro de sua vida.
O ato teatral c o n torna várias de s u a s demandas. O
exibicionismo, a "sensação de superioridade", a inostração como
"ato sign ificado" (termo utilizado por Lacan) , dá uma segunda fun­
ção ao significante teatro. Ao endereçar-se ao analista num acting-out,
o desejo de mostrar-se como outro faz representar de todo modo
a verdade: o desejo de ser. Assim instaura-se o acting-out, como men­
ciona Freud: "enquanto o corpo está orupado, a mente está desocupada".
A tônica demonstrativa para o outro se toma importante. Freud inda-

208
Mi/a Palombini de Alencar

ga se neste jogo imaginário "haveria uma divergência ou uma de­


gradação do vivo no inanimado" .
O texto no entanto não se sustenta por muito tempo; sai a
roupagem, a maquiagem imaginária e fica o furo do simbólico que
o sujeito não suporta. O encontro com o álcool, como vertente
imaginária, sutura a falta. Ao buscar a saída no ato de beber, despe­
de-se de seu mundo de fantasias caindo no papel, se assim posso
dizer, de "fantasma bêbado".
Do "amar o pai a todo custo" e do ódio em relação ao
mesmo - "ele me levou a tudo o que não devia" - decorre o
conflito expresso em sentimentos de culpa. Escolhendo ser um "fan­
tasma bêbado", inibe-se, não faz sintoma, buscando um outro em
quem desvanescer. Assim como a mostração teatral e o álcool apa­
recem na sessão como um apelo ao analista colocado no lugar do
Outro, a mendicância já cumpriu este lugar.
A mendicância tem em sua história uma importante articu­
lação, delimitando um marco em sua vida. O homem sem identida­
de, que habitava um banco de praça, cativa uma mulher com a qual
vem a se casar.
A partir desta relação de amor pode encontrar um teto,
constituir uma familia e procurar um analista a quem endereça seu
desejo de saber sobre seu maxilar preso e seu papel na vida. Desejo
incessante de saber de uma verdade em que o feminino como va­
zio, falta a ter e a ser, encontra sua impossível representação .

Referências bibliográficas

FREUD, S. "Estudos sobre a histeria" (1 893-5) . Em: Obrat completat, vol. II.
Rio de Janeiro, Imago, 1 969.
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VII. Op. cit.

209
O Brilho da InFelicidade

____ . "Os chistes e suas relações com o inconsciente (1 905). Em: Obras
Completas, vol. VIII. Op. cit.
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XII . Op. cit.
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Op. cit.
____ . ''.A perda da realidade na neurose e na psicose" (1 924) . Em: Obras
Completas, vol. XVIII. Op. cit.
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XXI. Op. cit.
HEIDEGGER, M. Conferências e escritos .filosóficos . São Paulo, No:va Cultural.
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LACAN, J. "Intervención sobre la transferência". Em: Escritos. México, Siglo
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LECOEUR, B. "O homem embriagado, V Jornada do CMT, Belo Horizon­
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NASIO, J-D "O acting-out, a passagem ao ato e a trans ferência". Em: Nos
limites da transferencia. RJ, Coleção Freud/Lacan , 1 987
SCILICET 6/7. "L'acting-out , realisation de l'inconscient". Paris, Seuil, 1 976.

210
SE O ÁLCOOL COMPARECE,
O SUJEITO DESAPARECE

Maria Beatriz Barra


Correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise, Rio de Janeiro

O encontro com o álcool implica a presença de um sujeito,


a existência de uma subjetividade, no sentido em que este carrega a
eleição de um objeto - o álcool - e não outro qualquer. Essa
subjetividade é condição para realizar o que Lacan nomeia como
miragem e Lecouer chama de miragem da embriaguez. Nessa mi­
ragem o sujeito embriagado faz do álcool um objeto que o com­
pletaria daquilo que lhe falta, afastando dessa maneira os efeitos causa­
dos pela separação entre o Eu e o Ser (Lecouer, 1 992, p. 65-6). O
Estádio do Espelho (1 949), Lacan coloca a construção do eu como
uma imagem completa. O fascínio da imagem para o homem é
essa completude que ela oferece. O pólo do eu se define por ser
uma tentativa de unidade e mesmo de organização. Isso é uma
ilusão. É a partir daí que se inventará um mundo, se criará uma
miragem. O eu procura nada saber, consagrando-se ao desconheci­
mento. Essa miragem supõe uma unidade que o eu não tem. Assim,
o álcool tenta dar imaginariamente uma con s istência ao eu.
Alcoolizado, o sujeito fala, pode, é, tem e faz tudo aquilo que sóbrio
não consegue. Não há dúvidas, vaciles, nem enganos na embriaguez e,
desse modo, também não há sujeito, embora algo aí se escreva.
No encontro com esse obj eto, a embriaguez tampa o lugar
da falta, mas não produz o Um. Não há um fechamento no sentido
da completude. O álcool faliciza o sujeito, indicando, portanto, que
O Brilho da InFelicidade

houve uma perda. Sob s eu efeito, porém, o suj eito pode sus tentar
momen taneamente a inexistência dessa perda, rompendo com a
divisão que o estrutura.

Preocupada com as condições orgânicas da intoxicação, a


biologia concebe o obj eto em sua exis tência real; logo, a ques tão é
encontrá-lo ou não. A caus alidade psíquica que determina o suj eito
do inconsciente é tirada do caminho e o obj eto, não es tando na
dimensão do Real, pode ser encontrado a qualquer momento. É
nessa p erspectiva biologizante que encontra-se referido o termo
dependência química. S endo assim, como diz Lecouer (1 992) , o
uso do termo alienação é melhor indicado p orque diz respeito a
um suj eito do inconsciente, suj eito do desejo, cuj a lógica não é bio,
mas subjetiva.

O alcoolis ta, bem como todo neurótico, é um suj eito alie­


nado, contudo com a inges tão do álcool ele dá um passo a mais na
direção da alienação. Através de um produto químico, ou seja, de
um obj eto da realidade, ele nega a exis tência do sintoma, tornando­
se um suj eito assintomático. O sintoma tem uma relação direta com
a divisão subj etiva. Diante do traumático da sexualidade em que
não existe complementariedade entre suj eito e obj eto, uma solução
encontrada é fazer um sintoma que permita a satis fação subs titutiva.

Ao falar que a relação s exual é impossível, o que Lacan


chama de impos sível é o perfeito encontro, a justa medida entre
suj eito e obj eto. Tudo o mais é possível.

Não é evidente que à condição do ser falante fundada na


falta, essa condição de inconsis tência e incompletude, encaminhe
fatalmente p ara a infelicidade. Não é uma falta no sentido negativo
de uma aus ência. É uma falta que produz, que convoca para um
excesso de ações e sublimações.

Falta e alegria de viver não são incompatíveis. O estar alegre


não exige uma coerência de acon tecimentos pas síveis de tornar o

212
Maria Beatriz Barra

sujeito alegre porque, a rigor, nenhum fato em si garante a alegria.


Os deprimidos provam isso a todo ins tante. Aconteça o que acon­
tecer, um deprimido decidido continuará deprimido. Mas a falta
também não condena as pessoas à melancolia.
O alcoolista é aquele que pensa que deu um jeito no impos­
sível. Ele elege um objeto com toda sua consistência, em uma tenta­
tiva de tampar a fenda estrutural. Sendo assim, ele não faz sintoma,
pois além de usar o álcool para não se deparar com a falta, esse
obj eto é consumido para tentar lhe assegurar uma função de TODO.
O álcool funciona como garantia contra a castração, tomando por­
tanto o lugar daquilo de que o suj eito é simbolicamente privado e
dando-lhe satisfação imediata, passageira.
O alcoolista é o sujeito que, quando se encontra numa situ­
ação de impasse, ou mesmo quando se defronta com o real, u tiliza
o recurso de escolher o álcool como objeto para aliviar as pressões,
obturar suas falhas, desinibir-se e sobretudo para fazê-lo esquecer
de algo que tem a ver com seu desejo. Ele precisa esquecer de seu
desejo, embora, embriagado, dele fale de certa maneira, pois se há
desejo não há obj eto, implicando logicamente na cas tração.
N o estado da embriaguez o sujeito se entrega ao Outro
desap arecendo-se nele. Nesse tempo de apagamento ele se afasta
do que lhe é desagradável. Com isso não há apenas o consumo do
álcool, mas o ·c onsumo de si mesmo uma vez que ele se desvanece
nesse objeto, assujeitando-se ao Outro do gozo. Lecouer (1 992)
afirma que o Outro é o lugar onde se sabe a embriaguez, entretanto
essa é uma experiência sem suj eito do inconsciente, conseqüente­
mente, ininterpretável. A resistência do sujeito aparece exatamente
nisso que ele não pode dizer e que é extremamente dificil de supor­
tar. É preciso que algo faça barreira ao gozo que se precipita. Pro­
duzir então uma pergunta dirigida ao não saber cumpre essa fun­
ção. Aí está uma manobra em que o desejo se coloca e o gozo se
perde.
O Brilho da InFelicidade

Apresento então um caso clínico que expõe de forma clara


os e feitos do encontro com o álcool. Silvia procura análise porque
es tava perdida e queria se livrar de suas depressões. Casada há 1 6
anos, um casamento que ia muito mal, culpava o marido pelo seu
mal-estar. Ela localiza o início das freqüentes depressões no mo­
mento em que o marido, há cerca de três anos, se apaixonara por
outra mulher, embora ela soubesse de diversos casos que ele havia
mantido ao longo do casamento. Diz ter se casado apaixonada por
esse homem vinte anos mais velho do que ela e com quem se sentia
protegida. Proteção foi um sign ificante que passou a ser trabalhado
em sua análise. Afinal, proteção do quê? Com esse marido ela esta­
va protegida contra o quê? Paradoxalmente ela passa o casamento
afastando-se desse homem, dizendo-lhe que lugar de homem é fora
de casa. Assim, se ele chega mais cedo do trabalho do que de cos­
tume, ela se incomoda, ou se ele vai para um canto da casa que ela
diz ser dela, onde fica divagando, pronto, sente-se invadida em sua
privacidade. Nesse casamento tudo estava bem para ela, enquanto
ele a considerava sua mulher. No momento em que ela se vê
deslocada desse papel e conduzida ao vazio, recorre ao álcool para
rapidamente cobrir a falta e diminuir a angústia. Como através do
álcool obtém de imediato certa satisfação, a dor também é aplacada.
Mas quando passa o efeito, ela entra em depressão, comprovando,
na verdade, que nenhum objeto consegue cobrir suficientemente
esse lugar vazio.
Silvia é filha de um único encontro de sua mãe com um
homem que sumiu ao saber da gravidez. A mãe veio grávida para o
Rio de Janeiro e a deixou sob os cuidados da avó no interior do
Estado para poder trabalhar. N o início a mãe ia vê-la com freqüên­
cia, depois essas visitas foram rareando até desaparecerem por com- .
pleto. Ela passava os finais de s emana numa espera frustrada pela
mãe que não vinha. Tinha a avó como sua verdadeira mãe e não
consegue entender por que a sua mãe teria lhe ign orado dessa ma­
neira. Já na adolescência, a mãe, que havia constituído uma outra

214
Maria Beatriz Barra

familia, volta a procurá-la para morarem juntas, na tentativa de es­


treitar os laços. Sílvia não aceita, a mãe insiste, têm um período de
brigas, mas ela acaba concordando ao considerar que no Rio teria
melhores oportunidades de estudo e trabalho.
É justamente no convívio com a mãe durante a adolescên­
cia que ela começa a se embriagar. O uso da bebida era quase diário.
Bebia para se soltar, bebia porque estava triste, bebia nem sabia o
porquê. Não suportava estar com a mãe porque ela não a compre­
endia; qualquer interesse de sua parte era interpretado como "está
se metendo em minha vida" e por mais que gostasse dela, não
podia esquecer o que de irreparável se passou.
O uso da bebida só diminui depois que ela se casa, no en­
tanto durante o casamento vai às compras compulsivamente, pen­
sando que assim ao marido sobraria menos dinheiro para gastar
com outras mulheres. O interessante é que ela se dá conta em sua
análise de que só usava o cartão de crédito e não dinheiro em espé­
cie. Havia um endereçamento certo em seu ato. Ela queria que o
marido se assustasse com o valor ao receber a fatura do cartão. Mas
o que nessa demanda estava sendo articulado do seu desejo?
Quando ela descobre que o marido está apaixonado por
outra mulher, um vazio enorme se abre. Ela começa então a beber
e ela bebe porque perdeu. Ela não bebe para substituir o marido
que não está com ela. Ela não faz substituição, não faz metáfora,
portanto, não faz sintoma. Ela sabe muito bem que a garrafa não
vem no lugar do marido. Ao embriagar-se fala do que perdeu e de
como gostaria que fosse. Bêbada, briga com o marido, diz o que
pensa, sente-se forte e consolada. Sem a bebida, sente-se frágil, de­
primida e sem desejo. A estrutura é metonímica, pois há um
deslizamento que aponta para algo do desejo dela que está perdido.
O gozo obtido é monotemático. A saída é substituir o gozo do
álcool por um gozo de saber.

215
O B1ilho da InFelicidade

Quando Sílvia vem buscar análise, ela e o marido já haviam


se reconciliado, ou melhor, o caso amoroso dele havia acabado,
mas novamente ela não consegue ir avante depois do que de irreparável
se passou. Ela esquece de esquecer. Ela não consegue esquecer que a
mãe amou algu ém além dela e que, mais tarde, o marido também
amou algu ém além dela e isso parece refixá-la no gozo. Um gozo
do qual não está disposta a abrir mão.
Logo Sílvia percebe que o convite a falar na análise é um
procedimento que lhe pode trazer conseqüências, diferentemente
da experiência com o álcool em que não tira proveito do que diz.
Com extrema dificuldade, tolera as condições de uma psicanálise.
Já chega ao consultório querendo sair, torce para que a ana­
lista não esteja, o silêncio lhe é profundamente insuportável, tendo
mesmo se levantado algu mas vezes e ido embora da sessão. Mauri­
cio Tarrab fala de um "esforço de subjetivação que nem todos
estão dispostos ou podem realizar sejam ou não sejam toxicôma­
nos" (1 996, p. 108). No caso de Sílvia, definitivamente é preciso
apostar em seu esforço em direção à subjetivação.
As intervenções analíticas visavam fazer com que se inter­
rogasse em relação ao seu desejo. Aos poucos isso vai acontecendo.
Ela passa de um ataque a outra mulher e ao marido, responsabili­
zando-os pela desgraça familiar, a um se questionar sobre sua posi­
ção. Se ela era a mulher e a outra, a amante, então o que era ser
mulher? Por que ela se espantava tanto com essa condição de aman­
te? Ser mulher era algo que a outra sabia, mas ela não. Então o que
ela quer saber? Esses questionamentos provocam uma mudança
subjetiva. Simultaneamente torna-se cada vez mais difícil sua per­
manência na sessão, embora haja um fortalecimento da transferên­
cia. Angustiada em muitos momentos, pede sessão nos finais de
semana.
Uma noite porém a analista é acordada com um telefone­
ma. Com uma voz inebriada e embriagada Sílvia diz que não con-

216
Morio B eatriz BorTO

segue ir para casa. Esteve num bar bebendo durante horas e agora
telefonava de um hotel, porque se algo lhe acontecesse, a analista
saberia onde ela estava. De que lugar ela falava? Havia a possibilida­
de de uma passagem ao ato. Silvia já vinha falando que não agüen­
tava fazer análise. Após esse episódio ela pergunta se não seria me­
lhor não saber de nada, se não seria melhor ficar sem saber, pois
sofria muito menos quando não sabia. Mas o sofrimento existia
antes. Silvia não está disposta a abrir mão de um gozo, o que tam­
bém vem com dor.
Dias depois ela telefona dizendo que está decidida a parar a
análise porque não suporta mais. Concordar com essa decisão é
algo que um analista em seu ato deve sempre recusar; por outro
lado, quando um sujeito está decidido a interromper uma análise é
algo que um analista, em seu ato, também não deve insistir.

Referências bibliobráficas

FREDA, H. "El alcoholico freudiano". Em: Sf!feto, gocey modernidad II. Buenos
Aires, Atuei, 1995.
LACAN, J. "O Estádio do Espelho como formador do eu" (1949) . Em:
Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.
LECOUER, B. "O Homem Embriagado", 5ª Jornada do CMT, Belo Hori­
zonte, 1992.
MUSACHI, G. "E! matrimonio y el alcohol". Em: S1!feto, gocey modernidad II.
Op. cit.
TARRAB, M. "Hacer existir el inconsciente", Pharmakon, n. 4-5, 1 996.
TENDLARZ, S. E. "Las parodojas de la felicidad". Em: S1!feto, gocey modernidad
II. Op. cit.

217
TOXICOMANIA E SUPLÊNCIA

Antônio Beneti
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise

Partiremos de nosso cotidiano da clínica psicanalítica e de


uma constatação: cada vez mais recebemos pacientes psicóticos e
pacientes toxicômanos - assim nomeados pelo Outro do jurídico
e/ ou social.
Nesse contexto, a posteriori, após entrevistas ou algum tem­
po de escuta, podemos constatar que muitos dos chamados toxi­
cômanos são, na verdade, sujeitos psicóticos, que na ausência da
droga (na abstinência decorrente dos efeitos da experiência susten­
tada pela palavra na cura) apresentam produções delirantes. Ou en­
tão evidenciam uma "posição psicótica", como ser, de objeto de
gozo do Outro.
A freqüência dessa constatação nos levou a hipótese de que
a toxicomania ou o consumo regular de drogas poderiam estar
hoje se constituindo em uma solução psicótica contemporânea, uma
"suplência química", uma verdadeira estabilização pela droga para
o mal-estar decorrente, nesse tipo de sujeito, do gozo do Outro.
Ou seja, o uso de drogas pelo psicótico estaria colocado em muitos
casos como uma "auto-prevenção" ao delírio, impedindo seu
desencadeamento.
Mais além de uma simples moderação de gozo, estaríamos
aqui ao nível de uma suplência estabilizadora, mesmo que mortífera
para o indivíduo.
O Brilho da InFelit:idade

A partir daí res tou-nos a pos sibilidade de tentar compreen­


der o que aí se passa através de algu mas elaborações teóricas iniciais
que trazemos aqui, res saltando que essa cons tatação não remete a
uma tese de que todos os usuários de drogas sejam psicóticos. Sa­
bemos que o uso de drogas "cavalga" as estruturas clinicas e tam­
bém que por si só não se constitui numa es trutura clinica particular.

Comecemos por algumas considerações assinaladas por


Freud e Lacan em relação à psicose e à droga.

Em Freud, a droga é uma das soluções para o mal-es tar na


civilização, independentemente da posição do suj eito com relação à
falta no campo do Outro. Não importa se ela elimina para o suj eito
a pos sibilidade de aces s o a um saber inconsciente sobre sua contri­
buição para esse mal-es tar, sobre as implicações quanto a ess e mal­
es tar, esse gozo.

Por outro lado, o delírio é uma tentativa de cura (Schreber) ,


uma solução espontânea cons truída pelo sujeito psicótico (metá fo­
ra delirante) para esse mal-es tar aí decorrente do gozo do Outro.

Em Lacan, a melhor definição da droga é: aquilo que serve


para romper o casamento da criança com o ''petit pipi'' (Lacan, 1 975).
Ou seja, com o falo.

A passagem ao ato (Irmãs Papin e Aimée) e a obra produ­


zem um "alívio efetivo". Lembremo-nos que aqui es tamos no re­
gis tro de uma passagem-ao-ato-de-s e-drogar. Com a droga ocu­
pando o lugar onde um saber deveria advir e que, considerando-s e
a s e s truturas clínicas em j ogo, teríamos e s s e s ab er recalcado
( Verdrangung) , foracluído ( Verwe,fung) e / ou ain d a r e c u s a d o
( Verleufun�.

As drogas es tão colocadas tanto por Freud quanto por


Lacan como "uma solução". Pois bem, avancemos um pouco mais
nos perguntando s obre as conseqüências dessa definição.

220
Antônio Beneti

A definição de Lacan com relação à droga indica a tentativa


do sujeito de, através de seu uso, fazer uma ruptura com o gozo
fálico. Buscar um gozo que não passe pelo Outro, que não passe
pela s ignificação fálica; um gozo ex-sexo, por fora do s exual.
Lembremo-nos de que na psicose também temos uma ruptura com
o &ozo fálico via foraclusão do significante do Nome-do-Pai. Uma
solução não-fálica da relação do sujeito com o desejo do O utro,
com a castração (Viganó, s/ d).
Em seguida, há a droga não como uma formação de com­
promisso, não como uma formação do inconsciente, não como
um sintoma mas como uma ruptura. Por isso o uso de drogas não
faz sintoma para o sujeito. A toxicomania como o surgimento de
um novo modo de gozo, de um gozo Uno como tal, não sexual.
O gozo sexual não é. Uno, há uma insuficiência de gozo. A relação
sexual (com A maiúscula) _não existe. Na toxicomania "verdadeira"
esse gozo se representa como Uno, todo, único. Ruptura com aquilo
que o fantasma supõe como objeto de gozo incluindo a castração.
A toxicomania como um uso do gozo "por" fora do fantasma.
Que não toma os caminhos complicados do fantasma. A ruptura
com o "petit pipl' sign ificando então que se pode gozar sem o
fantasma: um "curto-circuito". Então trata-se aí de um objeto que
permite obter um gozo - um objeto causa de gozo (Miller, 1989)
- sem passar pelo Outro, pelos sign ificantes fálicos; um objeto
que concerne menos à palavra, ao sujeito da palavra, do que ao
sujeito do gozo
J. A. Miller irá propor o termo de gozo cínico ao gozo do
toxicômano e nos dizer que existe uma insubordinação ao serviço
sexual com um gozo que não passa pelo corpo do Outro e sim
pelo próprio corpo, autoeroticamente - ''A droga funcionaria como
um partenaire exclusivo do sujeito e lhe permitiria fazer um impasse
com relação ao Outro (e sexual)". Um objeto da mais imperiosa
demanda e que teria em comum com a pulsão anular o Outro. Um

221
O Biilho da lnFelicidade

gozo cínico que rechaça o Outro. Um cínico moderno, contempo­


râneo, ele mesmo produto do discurso da ciência e, ao mesmo
tempo, um crítico do discurso capitalista desde que jamais causado
pelos "gadgets'' produzidos por esses discursos. Posição curiosa uma
vez que coloca-se como crítico desse, mas identificado a posição de
um resto, de uma droga que se opõe à produção capitalista como
um "não produtivo" na sociedade, à margem desse discurso.
Um gozo que rompe o interdito de gozar com o próprio
corpo. Um gozo cínico que não se constitui como um sintoma. J.­
A. Miller no último Encontro Brasileiro do Campo freudiano (São
Paulo, 1 996) nos formaliza matemicamente o sintoma:

[,8 < s (f.) > a ]

O que nos aponta para a função do sin toma como um


aparelhamento do gozo, uma mediação entre o sujeito e o gozo
pela significação do Outro. Quanto ao toxicômano, o modo de
gozar que a droga propõe responde bem ao mundo de hoje man­
tendo-se (o suj eito) alijado, afastado do Outro. Teríamos então:

[,8 <> /]

Não necessita das significações d o Outro: sem passar pela


palavra, p ela cultura e experimentando um gozo superior a um
orgasmo (Miller, 1 9 96) .
Por sua vez, É. Laurent (1 994) nos diz que a definição que
Lacan nos dá do objeto droga coloca em questão a própria teoria
lacaniana dos gozos. Nesse ponto, J.-A. Miller e E. Laurent tem
posições teóricas coincidentes. Vejamos.

222
A11tô11io B eneli

Ao acrescentar à solução schreberiana a passagem-ao-ato e


a obra como moderadores de gozo estabilizantes, Lacan abre a
possibilidade, sobretudo quando nos fala de "o alívio afetivo", de
que outras soluções possam ser encontradas ou construídas pelos
sujeitos. Sabemos, por exemplo, das próteses químicas, do uso de
psico fármacos com função de apazigu amento do gozo, do mal­
es tar na psicose e na neurose. A droga tem essa função na psicose.
É comuníssimo pacientes psicóticos utilizarem antiparkinsonianos
como se fossem drogas com o estatuto da maconha, da cocaína
etc. , numa equivalência de uma prótese química com antipsicóticos
como uma prótese química com as drogas no sentido de um "auto­
drogar-se" em busca de alívio afetivo ao s o frimento decorren te
desse gozo do Outro. Essas soluções decorrem da forclusão do
Nome-do-pai, do Outro da Lei, que faz com que o p sicótico es teja
à mercê do Outro do significante - Outro gozador - como
obj eto de gozo desse Outro. Poderíamos pensar que os ditos toxi­
cômanos verdadeiros também ocupam essa posição não com rela­
ção ao Outro da Lei, mas com relação ao Outro do sign ificante, do
Saber, de obj eto de gozo do Saber do Outro - Outro do significante
que lhe diz: 'Você é toxicômano porque usa drogas!", encontrando
como resposta do sujeito toxicômano um "Sim, eu sou toxicômano
porque você me diz", sujeito designado - e não representado pelo
significante como na neurose - tal qual o psicótico.
Em seu Seminário, livro 2 1 : /es nom dupes errent, Lacan nos
coloca que:
É estranho que aí o Social tome prevalência de nó e que h'teralmentefaça
a trama de tantas existências, e que detenha esse poder de nomear - no
ponto - e que após tudo se restitua uma ordem, ordem que é dejeTTO. Que
esse traço designe como Nome-do-Pai no real, ao passo queprecisamente o
Nome-do-Pai é foracluído, rejeitado e que a este título ele designe esta
forchuão que eu tenho dito que está no prindpio da própria loucura é que
este nomear não é signo de uma degenerescência catastrófica (aula de 1 9
de março de 1 97 5).

223
O Brilho da l11Felit:idade

Hugo Freda, em s eu texto " Forclu sion, acunación y


suplencia"(l 988, p. 1 26) sobre a clinica das psicoses, assinala que
esses três conceitos podem ser encontrados associados num mes­
mo caso ou separados em casos diferentes, abrindo a possibilidade
de uma cínica diferencial que poderíamos dizer das suplências, con­
trapondo-a à da foraclusão do significante do Nome-do-pai.

O fato é que parece-nos que o uso das drogas, o recurso às


drogas, como solução para o sofrimento devido ao gozo do Ou­
tro na psicose - sobretudo antes do desencadeamento ou nas não desencadeadas
(muitas vezes chamados toxicômanos) - se deve, tal qual na toxicomania,
a características comuns quanto à posição do sujeito com relação ao
gozo na sua vertente de objeto de gozo desse Outro.

Há no entanto uma diferença: há na psicose algo como


uma auto prevenção ao delírio, algo que impede que o psicótico se
defronte com a cas tração no campo do Outro. Na neurose com
toxicomania verdadeira há algo que, diante da castração no campo
do Outro, do desejo do Outro, inventa um novo modo que rompe
com o gozo fálico. Assim teríamos :

a) ruptura com (toxicomania verdadeira) e exclusão (psicose)


do gozo fálico.

b) um gozo que não passa pelo Outro, sem foraclusão (to­


xicomania) e exclusão do Outro da Lei (psicose) .

c) n a toxicomania, u m acidente n a transmissão d o Nome­


do-pai ao nível da cunhagem (Pragun� onde o Social vem em so­
corro ao suj eito via discurso universitário, fazendo as vezes de um
S 2 que nomeia: ''Você é toxicômano!"?

d) a droga como mediadora em ambos os casos como


uma defesa. Na toxicomania, com relação à angústia diante do de­
sejo do Outro, na paranóia, defesa com relação ao gozo localizado
no campo do Outro (Outro gozador) ; e na esquizofreia, quanto ao
gozo ao nível do corpo, o kakon, o mal, a desgraça, e seus efeitos: as
passagens ao ato de golpear a si e aos outros

224
Antônio B eneti

Viganó (s /d) comenta que, após o desencadeamento, o


psicótico não recorre mais às drogas, o que nos levaria à hipótese
de que o delírio como tentativa de cura moderadora do gozo pro­
duziria um alívio afetivo que dispensaria outras soluções psicóticas;
portanto o psicótico só faria suplência química, com as drogas nos
cas os de pré-p sicose, entendendo-se aí um es tado anterior ao
desencadeamento, ou seja, com relação a uma temporalidade sub­
jetiva. Mas o que temos percebido na clinica é que o uso das drogas
vai além do desencadeamento, sobretudo nas formas esquizofrênicas.
Seria como uma moderação do kakon? Teriámos então: a)
toxicomania na estrutura psicótica como suplência nos quadros não
desencadeados; b) toxicomania como moderadora de gozo nas
formas desencadeadas.
Por fim poderíamos pensar a droga no nó borromeano
com quatro termos:

efeitos de fato ao nível


do corpo biológico

efeitos supostos a partir


da droga como objeto
um significante S 1 causa de gozo,
suposto-saber-fazer-gozar

Como quarto termo, a suplência toxicomaníaca(?) . Fica esse


texto como proposta de trabalho - a quem · possa causar, além de
nós mesmos - a ser verificada.

225
O Brilho do lnFeli&idade

Referências bibliográficas

FREDA, F. H. "Forclusion, acunación y suplencia". Em: Clinica diftrendal de


las psicosis. Buenos Aires, Manancial, 1988, p. 1 26.
LACAN, J. "Sessão de encerramento da Jornada da E.F.P" (1975), &vista da
Letra Freudiana. Rio de Janeiro, 1988.
_____ . O Seminário, livro 2 1 : Les non dupes errent. Inédito, aula de 19 de
março de 1975.
LAURENT, E. "Três observaciones sobre la toxicom�nia", Em: Sujeito, goce
y modernidad II. Buenos Aires, Atuei, 1994.
MILLER, J.-A. "Texto de encerramento das jornadas do "GRETA" ,
Ana!Jtica, n. 57. Paris, Navarin. 1989.
-----· "VII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano" . (1 Q96). Ano­
tações pessoais.
VIGANÓ, C. "Intervenção/comentário a partir do lugar e função de "mais
um" no cartel sobre psicanálise e saúde mental". Membros · do Cartel: Antô­
nio Beneti, Fernando Grossi, Francisco Paes Barreto e Wellerson Alkmim.

226
AMOR À INTO-X-ICAÇÃO

Eliane Schermann
Membro da Escola Brqsileira de Psicanálise

"Sempre considerei - escreve Freud a Fliess em 2 de abril


de 1 896 - a neurose de angústia, e as neuroses em geral, como o
resultado de uma intoxicação". Frente à castração, à falta no simbó­
lico, a pulsão se agarra ao obj eto sign ificantizado ou não, para res­
ponder à angú s tia que vem do imp o s sível da relação s exual,
relativizando-se nas diversas modalidades estruturais. Assim, pode­
mos abordar as diferentes formas com que o objeto se veste ao ser
utilizado por um sujeito para dar conta desse impossível. Ainda,
acrescenta Freud nesta mesma carta: "a tensão sexual se transforma
em angústia quando, produzindo-se com intensidade, ela não sofre
a elaboração psíquica que a transformaria em afeto" (1 986, p. 1 81).
O que há de tóxico na angústia? Uma vez que o gozo não
pode ser todo dito pelo significante, resta algo, o mais-de-gozar
que é tóxico. Se, por um lado, esse resto de gozo intoxica o sujeito
de desejo, por outro, posto que a falta de significante torna presente
a ameaça do confronto com o vazio do objeto, o sujeito é intoxica­
do pela angústia. A operação significante faz com que, no sujeito
falante, a sexualidade esteja sempre referida ao falo. Da inexis tência
no inconsciente de um sign ificante que designe A �er resulta o
fato desta passar a r!;!presentar, para ambos os sexos, o Outro sexo,
ou seja, a cas tração. Sendo a angústia, a angústia de cas tração, as
questões que intoxicam o sujeito se referirão jus tamente à sua rela­
ção ao Outro sexo. O amor recobre a angús tia porém algo resta do
pulsional que retorna ao suj eito.
O Brilho da lnFelicidade

Para mediar uma resposta fantasmática ao ser requisitado


pela Mulher e, na tentativa de recuperar um gozo sexual no sentido
de normatizar o que dele excede ao limite do gozo fálico, o perso­
nagem do conto de Edgar A.lan Poe "O gato preto" nos desvela a
paixão devoradora pelo álcool; ou, nas palavras de Freud: o casa­
mento com a garrafa.

Interessante notar a forma com que o autor inicia o conto:


"Para a muito estranha embora familiar narrativa que estou escre­
vendo, não espero nem solicito crédito". De quem? Do Outro? O
autor continua: "Louco, na verdade, seria eu esperá-lo, num caso
em que meus próprios sentidos rejeitam seu próprio testemunho.
[. . . ] Amanhã morrerei e hoje quero aliviar minha alma". Sabemos
que, por estrutura, o sujeito "nada quer saber d'isso", porém diante
da angústia, o sujeito busca o Outro para tentar, com a palavra, preen­
cher o vazio de sua existência. "O inconsciente não conhece o tempo.
Segundo Freud, ele é ahistórico, colando-se na repetição atemporal e
sinistra do mesmo. Ele é preguiçoso" (Miller, 1 997, p. 1 32).

O personagem se descreve tendo sido uma criança dócil e


de caráter humanitário. Amigo dos animais, neles evoca o amor
abnegado e sem egoísmo, comparando-os à amizade mesquinha e
à frágil fidelidade do homem. Cedo se casou, tendo encontrado na
mulher "um caráter adequado ao seu". Dividiam a mesma predile­
ção por animais, o que lhe permitiu ter um gato que o acompanha­
va pelos quatro cantos da casa.

Graças ao que chama "diabólica intemperança" pelo uso


abusivo do álcool, com o decorrer dos anos torna-se taciturno,
irritável, descuidado dos sentimentos alheios, permitindo-se inclusi­
ve usar uma linguagem brutal e até mesmo a violência fisica contra
a mulher e o gato. O personagem esclarece: "Meu mal, contudo,
aumentava, pois que outro mal se pode comparar ao do álcool?".
Uma noite, ao voltar bastante embriagado para casa, supondo que
o gato evitava sua presença, agarra-o. E, com violência saturada

228
Eliane Schmnann

pelo álcool, extirpa deliberadamente um de seus olhos com um cani­


vete. No dia seguinte, ao experimentar uma terrível sensação de re­
morso e horror pelo crime, mergulha novamente no excesso de vinho.
O gato, pouco a pouco, sara. O personagem surpreendia­
se com a evidente aversão que, cada vez mais, sentia pela criatura
outrora tão amada e pelo corpo no qual fizera incidir a marca da
castração, sua fonte de angústia - o olho extirpado. Mas sua irritação
avança até a "queda final e irrevogável -.- o espírito de perversida­
de". "Quem não se viu centenas de vezes a cometer um ato vil ou
estúpido sem outra razão senão a de saber que não devia cometê-lo?"
Essa perpétua inclinação a violar a lei o conduzia às tentati­
vas de "compreendê-la". Torturando a si próprio, violando sua
própria natureza, insiste em continuar a consumação da tortura que
já havia infligido ao animal. Certa manhã, a sangue frio, enrola um
laço no pescoço do gato e enforca-o. Diz ter sido esse ato o resul­
tado do insuportável amor do gato por ele. Isso porque sentia que
o animal jamais lhe dera razões para ofendê-lo. Enforcou-o porque
"sabia" estar cometendo um pecado mortal.
Nesta mesma noite, o personagem é despertado do sono
por gritos de fogo. Sua casa, em inteira destruição, ardia em chamas.
Ele e a mulher quase não conseguem escapar. Todas as paredes da
casa haviam caído, exceto uma, cujo estuque havia resistido à ação
do fogo. Nesta parede, ao se aproximar, vê em baixo relevo sobre
a superfície branca a figura gigantesca de um gato... com uma corda
ao redor do pescoço. Acreditava que a visão dessa imagem ocorre­
ra com o propósito de "despertá-lo".
Durante meses não pudera se libertar do fantasma do gato.
Tomado pelo remorso, lamentava a perda do animal, indo "afogar
as mágoas nos copos de um bar". Certa noite, num desses infames
antros, o olhar retorna. Seus olhos são atraídos por um gato preto,
semelhante ao anterior, exceto por um aspecto: tinha uma mancha
branca, que cobria quase toda a região do peito.

229
O Brilho da InFelicidade

O gato ó segue, acompanhando-o até sua casa e logo é


aceito pela mulher. Essa nova amizade, passo a passo, vai s e trans ­
formando na amargura do ódio. Tende a olhar o animal com indi­
zível aversão e começa a dele se esquivar. Seu ódio aumenta quando
vê que este também fora privado de um dos olhos. Mas o gato o
seguia onde quer que fosse, ao mesmo tempo em que o persona­
gem era progressivamente dominado por um intenso pavor. Aos
poucos, a mancha do peito do animal delineava-se no preciso con ­
torno de uma forca. Os fracos restos de bondade sucumbiram e o
personagem se deixa tomar por indomáveis explosões de fúria.
O gato o perseguia e, exasperando-se até a loucura, o ho­
mem ergue um machado. Em sua cólera, esquecendo o medo, ten­
ta descarregar um golpe no animal, quando é detido pela mão da
mulher. Provocado por essa intervenção, dominado por uma raiva
demoníaca, arranca-s e da mão que o tentava impedir e des fere o
golpe contra o crânio da mulher que cai instantaneamente morta.
Executado o crime, entrega-se com forte decisão à tarefa
de ocultar o cadáver. Decide emparedá-lo na adega, de modo que
olhar algum pudesse descobri-lo. Prepara um estuque que não pu­
desse ser distinguido do antigo e, com ele, cuidadosamente recobre
o novo entijolamento. Termina satisfeito por ver que a parede não
apresentava a menor aparência de ter sido modificada. "Aqui pelo
menos meu trabalho não foi em vão", diz. Então, sai em busca do
animal, causador de tamanha desgraça, decidido a se livrar dele.
Mas inutilmente. Para sua surpresa, por uma noite ao menos, desde
que havia estado na casa, dorme profunda e tranqüilamente, "mes­
mo com o peso de uma 1norte na alma".
Os dias se passam s em que o carrasco-gato apareça. O per­
sonagem se s entia um homem livre .. . até o dia em que um grupo de
policiais procede à rigorosa investigação dos lugares em busca da
mulher. Confiando na impenetrabilidade do esconderijo, conduz o in­
vestigador à adega, na qual nenhum recanto foi deixado inexplorado.

230
Eliane Schern1a1111

Triunfante, passeando tranqüila e desafiadoramente, batia com um


bastão na parede onde havia emparedado a "mulher de seu cora­
ção". O personagem já es tava quase se despedindo dos policiais,
que em suas meticulosas buscas não haviam encontrado nenhum
ves tígio do cadáver, quando... um gemido, a princípio velado e
entrecortado, como o s oluçar de uma criança, rapidamente se
avoluma num prolongado grito. Grito este, mis to de horror e de
triunfo, que somente se pode ergu er da garganta de um condenado.
Detrás das paredes, antes solidamente edificadas, despenca o cadá­
ver. Da cabeça devastada da mulher morta, irrompe o animal, com
a boca vermelha escancarada e o olho solitário chispante. Sua voz
delatora aponta o carrasco. O personagem havia emparedado o
"monstro-animal" no túmulo.
O escritor criativo Edgar Alan Poe nos revela que "sabe"
sobre o alcoolismo, a partir de sua fantasia, muito embora tenha
demonstrado em sua história pessoal não ter sabido lidar com isso.
Longe de nos autorizarmos o direito de analisá-lo, o que só se faria
sob trans ferência, algu ns dados de sua vida despertam a nossa aten­
ção. Nascido em 1 809, filho de atores itinerantes e pobres, perde os
pais muito cedo. É adotado por uma rica família, casando-se
secretamente em 1 836 com uma j ovem prima de 14 anos. Em
1 847, morre Virgínia, sua jovem esposa. Esse é um duro golpe, do
qual Poe nunca se recuperará inteiramente. Continua a escrever, mas
passa a cortejar obsessivamente uma mulher atrás da outra, embora
sem sucesso. Finalmente, revive uma antiga paixão e, aparentemente
correspondido, chega a definir a data para o casamento. Poucos
dias antes da data marcada, foge para outra cidade, Baltimore, e
desaparece. Em 1 849, um amigo encontra Poe num bar, totalmente
embriagado e incons ciente. Recolhido a um hospital, morre após
alguns poucos dias de agonia.
A realidade do inconsciente é a realidade sexual. Ela apenas
consiste na ausência. Não tem outro lugar senão o "furo". Sexo e

23 1
O Brilho da InFelicidade

morte se ligam estreitamente, tendo na_ ign orância do Outro seu


traço fundamental. O Outro é marcado pelo não-saber. Deste lu­
gar de ignorância emerge o gozo como índice da errância angustia­
da do sujeito, cuja falta de sentido lhe dilacera o ser sob os impera­
tivos do supereu, pela necessidade de punição. No supereu, a reali­
dade sexual geme sua nostalgia de causa e de sentido perdidos. Ao
furo aberto no Outro, o falante responde com a tela da fantasia e
com o sintoma. Mas é na superfície do eu, nas bordas dos orifícios
do corpo, nas zonas erógenas que estão ligadas à abertura e ao
fechamento da hiância do saber inconsciente, que, através dessa su­
perfície, transborda o rebotalho do gozo. Poe, com sua arte, conduz o
leitor a esse ponto de impossibilidade estrutural de todo sujeito.
A cópula se realiza no lugar do Outro que, na impossibili­
dade, não dá as normas edípicas nem ordena a relação entre os
sexos. Se delegamos a palavra ao Outro, é para sustentar o saber
precisamente no lugar do saber recalcado. Podemos dizer com
Lacan: não há felicidade que não seja do falo, que irrompe na boa­
hora, a da bem-aventurança, a hora do Outro. Depois, ele acrescen­
ta: "o sujeito é feliz" (1974, p. 45). A pulsão busca um objeto, qual­
quer um que, por efeito da ferida da privação, liga-se àquilo que
pode satisfazê-la ou na representação ou até mesmo numa droga­
objeto, "da pesada". A satisfação mais parece pertµrbar a relação
do sujeito com o que lhe apraz, contrariando o princípio do prazer,
uma vez que ele goza com o que "não cessa de não se escrever".
No traço unário a repetição comemora a irrupção de gozo.
O alcoólatra busca a injúria no Outro, busca sua acusação,
para fazer emergir desde esse lugar, a repetição do mesmo que
contraria o princípio do prazer. No gozo masoquista, o prazer es­
tanca e deixa transbordar o que se perdeu com o objeto. Mais um
copo, outro mais. . . pois o alcoólatra parece "saber" que na própria
repetição há desperdício de gozo. Diversamente, o toxicômano,
usuário das drogas pesadas, fixa-se na pulsão mortífera. Nela, ele se

232
Eliane S,hermonn

petrifica com o objeto-droga. Talvez ele se agarre ao objeto como


última esperança de alcançar e extrair o gozo enigm ático emergente
da angústia frente ao real do Outro. Tentativa desesperada, simbo­
licamente excluída, de nomear o real num "eu sou". O alcoólatra,
por outro lado, movido pela culpa degradante, oscila entre o gozo
transgressor e o prazer. Submerso no álcool, alienado e dividido,
deixa vociferar a voz do Outro na figura obscena do supereu, que
lhe ordena: "Goza".
Se o sujeito é afetado pela angústia provocada pelo Outro
sexo, o amor vem se alojar neste lugar de inexistência e discórdia. O
amor depende do semblante fálico para distanciar o sujeito do gozo
destrutivo, mas, como véu, não é suficiente para dar conta da an­
gústia, pois a corrente pulsional a traz de volta. O amor então retorna
com sua face de ódio e horror, a outra face do amor.
O escritor, dividindo o personagem entre a mulher do co­
ração e o gato que evoca o ódio, confronta-o com o Outro sexo.
Como responde o homem no amor? Para o homem, na falta de
relação sexual, o acesso à parceira passa por sua fantasia. É com o
objeto de sua fantasia que ele se relaciona. Freud, ao nos falar das
condições da vida amorosa, desvela a necessária degradação do
objeto amoroso na contingência do encontro com o Outro sexo.
Esse objeto, sendo o verdadeiro parceiro as sexual, ao ser .extraído
da angústia de castração, pode então emergir como mais-de-gozar.
Muito embora um homem e uma mulher façam o ato no lugar do
Outro, do amor que deve condescender ao desejo, o que emerge é
o pulsional, isto é, o que da pulsão excede ao falo. Se as "mulheres
são mais próximas ao real", o homem é requisitado a responder ao
não-todo fálico em relação à sua existência no encontro com /.
Mulher, outro nome do Outro que não existe. Esse é um momento
em que a angústia eclode no personagem do conto. Nele se instaura
um dilema: como fazer prevalecer a norma fálica e ao mesmo tem­
po responder ao enigm a d'f{ Mulher?

233
O Biilho da InFe/icidade

Embora o personagem tentasse através do álcool fazer existir


o Um, preenchendo o lugar vazio de sua exis tência com o objeto­
garrafa, ele é aspirado pelo manejo insensato da pulsão e lançado
ao limite da es trutura. Ainda tenta enamurar a Mulher não-toda.
Por que o alcoólatra ama a garrafa e até mesmo com ela se
casa, ten tando assim um casamento "perfeito"? No matrimônio
com o álcool, o sujeito ensaia uma sign ificantização. Mas, como no
conto, a sarjeta o requisita pela necessidade de punição. Se é em
busca do saber que se mobiliza o desejo, a libido pesquisadora bus­
ca o objeto. O que quen;ria o sujeito saber? Quereria saber sobre
aquilo do qual está privado simbolicamente e que poderia funcio­
nar como causa ao ser representado no significante recalcado. Mas
o personagem bem exemplifica que, frente ao enigma do feminino,
· prefere trans formar o copo num parceiro sexual, num semblante
fálico, em lugar de encontrá-lo no corpo de uma mulher. Já nas
drogas, ditas pesadas, como a cocaína, a heroína, por exemplo, é a
pulsão em es tado bruto que atrai o sujeito. Como o próprio Poe
sabe, na insuficiência do véu do amor, o álcool produz ele próprio
o círculo vicioso de auto acusação e injúria e o personagem, ao se
acusar pelo mal que fez ao gato, deixa-se levar ao ponto de máxima
degradação. No ponto de degradação absoiuta, o toxicômano-da­
pesada e o alcóolatra não se diferenciam.
Em vão o personagem ensaiava com a garrafa realizar um
casamento "feliz", fazendo existir a relação sexual no falo. Se o falo
vale por sua detumescência, é por que, da angústia frente ao enigma
do Outro sexo, ressurge o objeto, que extirpado, pode funcionar
no lugar de causa, de mais-de-gozar. Paradoxalmente é a marca
fálica que o faz homem. Arrasado e vencido, o personagem oscila
até que um obscuro e estranho gato pula no seu pescoço, reivindi­
cando-lhe a culpa e a necessidade de punição que irrompem da
parede. Mais uma exigência para aí se haver com o indizível do
feminino. No momento em que a angús tia nele eclode, com o grito

234
Eliane Scher,11a1111

enlouquecido do gato emparedado, ressurge o cadáver que diz so­


bre aquilo que o sujeito tenta calar ao se intoxicar: a mulher e a
morte.

Referêndas bibliográficas

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POE, E. A. Histórias Extraordinárias. Rio de Janeiro, Eclitora Globo, 1987.

235
TOXICOMANIA E FPS: APROXIMAÇÕES

Núcleo de Pesquisa em Psicossomática: Psicanálise e


Medicina *
EBP- Rio de Janeiro

A surpreendente "gravidez" nervosa daquela a quem cha­


mamos Anna O. aterrorizou Breuer e � impediu de perseverar e
inventar a Psicanálise. Esta manifestação dos efeitos do amor de
transferência, que motivou a fuga de Breuer para proteger o seu
casamento, bem poderia ter ocasionado o aborto da história da
Psicanálise. Freud, porém, aceita o desafio de retomar o trabalho
do ponto onde Breuer o abandonara e prossegue, recomeça, pro­
movendo desta forma uma ruptura com o seu mestre, reconhecen­
do, sem o saber ainda, que o amor chamado de transferência é a
vertente principal do laço analítico.
Ao calar para ouvir a histérica falar 1 Freud descobre que o
sofrimento do corpo tem a mesma estrutura da fala e que os lapsos,
os atos falhas, os sonhos eram "jóias genuínas entre os efeitos de lin­
guagem da época" (M. Silvestre, 1 983, p. 1 4) Falando, a histérica se
curava dos males do corpo, males que contrariavam a anatomia
neurofisiológica, fundando uma nova anatomia, a anatomia fantasística.
Assim, nos primórdios da Psicanálise, há cem anos atrás, a
histérica era o seu principal desafio, mas, por outro lado, a melhor
parceira para o seu avanço.

* Relator: Sara Perola Fux


Colaboradores: Angela Mársico Maia, Cristiane Elael, Elizabeth Taucei, Patrí­
cia Riedel, Rejane Maurell Lobo Cruz, Romildo do Rêgo Barros, Selma Cor­
reia, Vera Naila Davet Pazos e Yossef Kamel Saad.
O Brilho da I11Felicidade

Hoje, temos novas situações clínicas com as quais somos con­


vidados a nos confrontar, situações que são uma ampliação ou trans­
formação do que já estávamos habituados a suportar. Esta abertura se
impôs: ela nos foi imposta pelo discurso social, político e médico.
Há os toxicômanos que, vindos espontaneamente ou trazi­
dos pela familia, fazem o analista se defrontar com a primazia de
um c�mportamento preciso, o da adicção. A toxicomania como
escolha subjetiva é um mal social, específico do capitalismo, para ci
qual não existe ainda uma terapêutica efetiva. Por conta da exigência
e domínio do discurso do mestre, a segregação determina e no­
meia lugares na s ociedade. Em razão do valor desta nomeação,
alguns sujeitos sào levados a recusar a abandonar o gozo que esta
nova posição propicia e que os torna "notáveis". Há os pacientes
com lesões orgânicas que procuram um terapeuta geralmente enca­
minhados pelo médico que vê esgotados seus recursos clínicos e
atribui a doença a uma "causa emocional". O enigma se torna, então,
não só biológico como também psíquico.
Os pacientes que vêm trazidos pela familia ou são encami­
nhados pelo médico são muito dificeis de formularem uma de­
manda de análise. Geralmente, não persistem no atendimento.
Diante da certeza do "Eu sou toxicômano" ou "Eu sou
hipertenso", nome do gozo com que o sujeito se apresenta ao mundo
e que o representa na sociedade ou na familia, enunciado fechado e
sem brechas para questões, o psicanalista pouco ou nada tem a
fazer. Parece que é através desta nomeação que tentam remediar a
carência paterna. Em detrimento da função do pai, a perda da iden­
tidade simbólica é preenchida por uma marca, por uma nova for­
ma de ser, pela qual pas sam a se nomear para os outros. Estes
sujeitos escolhem assim se manterem na ign orância por meio de um
gozo que os completa. É o que nos mostra a economia e a estereotipia
da sua palavra, refletindo um empobrecimento do simbólico. A
certeza subjetiva escamoteia o sujeito e o surgimento do inconsciente.

23 8
Núcleo de Pesquisa ·e'(' Psicosso,nática

O analista, na sua prática clínica, se defronta então com duas


formulações de demanda: a demanda propriamente dita, que é a
demanda de amor, de amor ao saber suposto, e a demanda a um
Outro completo, Outro do saber, que teria a resposta à certeza do
tipo "Você sabe o que eu tenho, então me cure", ou "Me livre
disso", demandas que são da ordem da necessidade. Mes mo ali
onde aparentemente não há pedido de s er candidato a analis ante, o
desafio ao analista é como transformar esta demanda, que chama­
remos de urgência, em demanda de análise.
A toxicomania e a lesão orgânica não são consideradas sin­
tomas analíticos. O sintoma analítico é aquele que, para além da
queixa do suj eito ou do seu so frimento, e mesmo além de consti­
tuir, como na medicina, um sign o, um sinal de que algo está aconte­
cendo, pede uma função que o complete: a do analis ta.
Há, portanto, um so frimento endereçado ao analista e sua
intervenção se dá através da articulação desta queixa com uma su­
posição de saber. A queixa é uma palavra; o sofrimento, uma pai­
xão. A grande ques tão é como fazer com que o sujeito abra mão da
paixão pelo sofrimento, para formular uma verdadeira demanda
de análise.
De um sintoma a um sintoma analítico é necessário um ato,
um passo que vai da queixa à responsabilidade. É preciso a formu­
lação de uma questão dirigida ao analista a quem se supõe ter a
resposta. Diante de uma queixa, uma toxicomania ou uma dor, o
suj eito deve estar diretamente implicado na s ua questão, o que pro­
move uma retificação subjetiva frente ao real, a entrada em análise
como escolha e, conseqüentemente, o completamento do sintoma
pelo analis ta.
Assim o sintoma tem um estatuto particular para a p sicaná­
lise. É uma formação do inconsciente, com es trutura de linguagem,
suscetível à operação de sign ificação em que a relação ao Outro é
constitutiva.

239
O Brilho tia InFelicidade

Tanto na toxicomania quanto no FPS, porém, as soluções


encontradas são bastante diferentes daquela do sintoma. Rompen­
do com o gozo fálico, estes dois fenômenos se colocam ali onde
poderia advir o sintoma. Se na toxicomania, segundo É. Laurent
(apud. Tarrab, 1 996, p. 104), há uma formação de ruptura com o
Outro mais do que uma formação de compromisso, o FPS, segun­
do J.-A. Miller (1 990, p. 89), contorna o Outro da linguagem, pro­
duzindo um nó de inércia dialética.
Se estes pacientes não apresentam propriamente um sinto­
ma - tal como o entende a psicanálise - é no sentido em que são
eles próprios sintomas e é no plano do ser que pagam, eventual­
mente, um altíssimo preço.
Na toxicomania, o sign ificante droga está no lugar do sin­
toma como uma satisfação substitutiva. O sujeito do inconsciente é
anulado. Há um rechaço do inconsciente, um rechaço do laço com
o Outro. A droga como objeto de culto sutura o sujeito, o que lhe
dá um caráter de insubstituível. Nesse sentido, é muito mais objeto
causa de gozo, como aponta Miller, do que causa de desejo. Um
objeto causa de desejo possui certas regras, leis e o caráter de
alteridade. A droga não se inclui na subjetividade do toxicômano
da mesma forma que os objetos externos que conduzem à sign ifi­
cação do falo. É essa característica de insubstituível o que nos atesta
que o gozo está fora do falo, isto é, a droga não está submetida ao
regime de equivalências que a linguagem determina e que permite
que um objeto se suceda a outro. É um objeto cuja função não
pode, a princípio, ser preenchida por nenhum outro. Ele não possui
um equivalente, o que transforma a droga num objeto absoluto e,
pior, acessível a qualquer momento. É esta fixidez, este congela­
mento, que não permite o deslizamento necessário para que a fala
possa fluir.
Como objeto causa de gozo, então, a droga impede o
deslizamento da cadeia significante, introduzindo um "nada querer

240
Núcleo de Pesqlfisa em Psirosso111ática

saber" da castração, uma forma extrema da paixão da ign orância.


Na ruptura com o Outro, o gozo é auto-erótico, gozo cínico, se­
gu ndo Miller, que se orienta ao corpo próprio e se contrapõe à lei
de interdição do incesto. Tudo é permitido. Suprime-se, de certa
forma, o enigma do desejo do Outro, obturando e eliminando
momentaneamente a frustração e, conseqüentemente, a função
castradora.
Se o objeto causa de desejo condensa o particular do gozo
de cada um, a droga, como objeto causa de gozo, homogeneiza.
Abolindo o singular, a droga obtura a falta, mortificando o desejo.
Para C. Soler, o toxicômano é "um sujeito que cedeu sobre o seu
desejo, sacrificou sua particularidade, caiu na armadilha dos tem­
pos" (apud. Godoy, 1994, p. 69).
Até mesmo Freud, em "O mal-estar na civilização" (1 93 7),
nos aponta as drogas como a solução mais efetiva, mais imediata
para o mal-estar na cultura, ao lado da religião, do amor, do isola­
mento. A droga, ainda segundo Freud, permite em alguma medida
a independência do mundo externo, o que apresenta a droga como
causa de um gozo fora do campo do Outro.
O sujeito se deixa então ser capturado pelo universal: uma
mesma droga para aqueles que sofrem de um mesmo conjunto de
mal-estares. A droga devolve ao sujeito a sensação de plenitude. Ela
aplaca momentaneamente o vazio: não possui sentido em si mes­
ma, mas suspende o tempo e o desejo, convocando o sujeito a um
gozo absoluto, sem furo. A droga permite, pois, ao toxicômano
crer que o objeto perdido pode de fato ser reencontrado; a
completude é possível, a plenitude, alcançável.
Opondo-se à castração e conseqüentemente à intervenção
analítica, o toxicômano parece usar a droga como um recurso con­
tra o acesso à problemática sexual. Antes do que uma solução para
este problema, a toxicomania seria uma espécie de refúgio diante

241-
O B,ilho da InFe/ir:idade

da possibilidade de se colocar diante dele. Instaura-se, então, um


circuito que obriga ao aumento do consumo. O aumento da exi­
gência de gozo relança à insatisfação, que, por sua vez, impõe o seu
uso. Na sua relação solitária com a droga, o alienado imaginariza
dominar não só os seus desejos, como também o mundo.
Tal organização do mundo situa a toxicomania como um
superinvestimento narcísico de função de órgão, ligando as quanti­
dades de excitação, orientando a libido, tal como no surgimento de
wn FPS, neutralizando o sofrimento neurótico, instalando-se na eco­
nomia psíquica do sujeito. E, segundo Freud, este superinvestimento
narcísico pode proteger o sujeito contra a ação do trauma sexual,
contra a ação do trauma de se deparar com a impossibilidade da
relação sexual.
Na toxicomania, então, parece ter havido uma cristalização
da elaboração fantasística . O tempo em que esta elaboração
fantasística teria se cristalizado foi aquele no qual os "por quê?" da
criança, as suas questões fundamentais, questões que apontam para
o enigma da diferença entre os sexos, ficou em suspenso. Esta sus­
pensão é o que produz o fechamento narcísico.
Se na toxicomania se supõe uma cristalização fantasística,
no FPS há uma espécie de congelamento significante, a holófrase,
que interrompe o deslizamento da cadeia significante, bloqueando a
associação livre. A holófrase é uma situação limite, uma interjeição,
que vale por uma frase completa, palavra congelada na qual o sujei­
to está suspenso numa relação especular ao outro. Esta aglutinação
de sign ificantes resulta num e feito patógeno para o corpo.
Para a psicanálise, uma lesão orgânica só é um FPS se pu­
dermos verificar que ela ocorreu por indução ou causalidade
sign ificante, ou seja, se ela apresenta surgimento, mobilizações, de­
saparecimento e agravamento em função de acontecimentos deter­
minados, datas específicas ou até de u,ma palavra. É então que Lacan

242
Núcleo de Pesq11isa em Psicossomática

nos aponta que se estes fenômenos concernem à linguagem, eles


seriam permeáveis à psicanálise. É o corpo próprio que se les iona,
não o corpo fantasístico. É isso que revela a potência desordenadora
da palavra, em sua ess ência de equivocidade. O FPS nos remete
às relações entre as falhas da linguagem e certas funções biológicas
do corpo.
O órgão atingido funciona como um órgão roubado ou
herdado de outro, enxerto imaginário, porção de um corpo O utro,
materialização do objeto a. Há, então, que se substituir este órgão
herdado, patógeno, por outra herança mais conseqüente, o nome
próprio dado pelo pai, já que o gozo corporal é um chamado ao
pai.
Com seu FPS, o sujeito goza como supõe que gozava o
Outro perverso encarnado pela mãe. Seja a mãe ou até mesmo,
quem sabe, o pai, o certo é que o sujeito parece se submeter ao
imperativo do gozo do Outro. Um FPS seria ·assim, antes de ser
uma questão, uma resposta a este Outro gozador, de quem o sujei­
to teria tomado "os primeiros banhos de gozo específico" (Guir,
1 994, p. 1 42) e de quem então teria se tornado refém. É por esta
razão que se, numa análise, inadvertidamente, o analista ocupa a
posição materna, um FPS pode eclodir ou se agravar.

É este gozo específico que Lacan coloca no registro do


auto-erotismo - ao qual uma análise pretende dar um sentido -
que permite ao sujeito dar consistência ao seu corpo. A lesão dá ao
doente a sensação de possuir um corpo, de existir através da doen­
ça, principalmente quando ela vem acompanhada de dor. Se do
lado do gozo fálico situamos a fantasia do neuró_tico, o sintoma e o
gozo sexual masculino, o gozo específico do FPS se situa do lado
de um gozar-Outro enigm ático.
Lacan conceitualiza as fórmulas da sexuação a partir da
impossibilidade da relação sexual, tendo em vista a nossa condição

243
O Brilho da InFelicidade

de seres falantes. É enquanto a função fálica pode não funcionar


para alguém que se funda a diferença entre os sexos. A conseqüên­
cia imediata desta lógica é a existência para a mulher de um gozo
suplementar. A posição feminina implica então um gozo diferente,
enigm ático. É do lado deste gozar-Outro que C. Soler (1995, p.
118) situa o gozo específico da psicossomática ao lado também do
gozo da psicose e do gozo de morrer da neurose traumática.
Se podemos supor que o FPS surge, é agravado ou sofre
remissão através da enunciação de uma palavra ou da vivência de
uma determinada situação, uma das questões que a toxicomania
nos coloca é a de saber se a escolha e o acesso ao gozo da droga
não seriam também sempre condicionados pelo significante, se não
teriam sido traçados pelo que retorna ao sujeito através da palavra.
Tanto a sedimentação fantasística quan to a gelificação
sign ificante impediriam assim a elaboração de um questionamento
e de um saber que propiciasse a abertura da via de acesso ao enig­
ma do desejo do Outro, acesso este interditado por uma certeza,
por uma mesma e idêntica resposta do corpo.
Quem busca um analista por causa de uma lesão orgânica
quer, antes de tudo, achar um sentido para a sua doença, não aceita
ser obrigado a se ver diante de um puro capricho do acaso. O
doente esperaria assim conseguir trazer para si próprio ou para a
sua história a responsabilidade do seu mal, imaginando que poderia
desta forma mais facilmente debelá-lo ou controlá-lo.
Esta demanda mais característica, a de poder dar sentido à
doença, o analista deve acolher. Talvez seja até a única maneira de
algu ns sujeitos conseguirem fazer um tratamento médico, após es­
vaziarem a fantasia de que o que lhes acontece é efeito de um desejo
de mor te de um Outro absoluto, cujo representante mais próximo
é a mãe primitiva,' agente do capricho e senhora da vida, da morte
e dos órgãos do corpo.

244
Núcleo de Pesq11iso em Psicossomático

Um toxicômano que procura um analista por iniciativa pró­


pria busca conseguir forças para abandonar o uso das drogas; O
suj eito entende a relação com a droga como alguma coisa de quase
ex terior, compulsiva; a rigor, ele s e d e fin e como fora d e s s a
compulsão, como se a sua prática fo s s e algo colado artificialmente
a ele e da qual pode dizer muito pouco. Geralmente, o drogado
busca o analis ta por "overdose" de mãe, um amor materno alienante
que o teria levado a se en trincheirar na transgressão.

Assim, tal como na emergência do FPS, se a posição do


terapeuta é querer "o bem" do suj eito, o paciente só tenderá a recu­
sar e desafiar esta nova forma de s edução. É a "abstinência" do
terapeuta, antes da abs tinência do drogado, que funda a possibilida­
de de um espaço para a fala.

O que falta, porém, a es tes pacientes é a disponibilidade de


reconhecerem na relação com a droga ou no sofrimento da lesão
um traço qualquer que sej a o indício de um sujeito e do s eu desejo:
tu do s e passa como s e jus tamente fosse esvaziada a dimensão
desejante. No lugar da falta inerente ao desejo viriam o uso da
droga ou a lesão, que impediriam o deslizamen to dos obj etos causa
de desejo que, no final das contas, constituem a história de cada um
de nós.

Tanto no FPS quanto na toxicomania, a dificuldade é levar


o ca� didato a analisante a formular uma nova queixa, uma nova
fonte enigmática de so frimento, ali onde o imediatismo das respos­
tas do corpo obtura as questões.

O gozo autista aparece no lugar da angústia, a angús tia de


castração em relação ao Outro. Sabemos inclusive a relação de ex­
clusão entre a angústia e o FPS.

A posição do analista frente à "clínica das certezas" o obri­


ga a não recuar 'e a colocar um grande empenho no seu desej o. O
encobrimento da divisão subj etiva leva o sujeito a não produzir

245
O Brilho do lnFelicidode

enigin as, a ficar no lugar do engodo, no lugar do "Eu sou . . . " como
evitação da angús tia frente ao desej o do Outro, angústia que a míni­
ma vacilação fantasística poderia produzir.
O processo de separação, de abertura ao desejo do Outro
está obstaculizado. A instauração da trans ferência, por conseqüên­
cia, é particularmente dificil, já que na transferência o analista encarna
o objeto a, um "nada" que é preenchido pela droga ou pela lesão.
Nesse sentido, há uma certa incapacidade, tanto na toxico­
mania quanto no FPS, de se formular uma verdadeira demanda de
análise, o que nos remete ao fenômeno de inibição tal como Freud
o definiu: ''A inibição é uma limitação que o eu se impõe para não
despertar o sintoma de angústia" (1 926, p. 1 08) . Eis então que, mais
do que nunca, deve vigorar o desej o do analista.
Assim, o critério fundamental de indicação de uma análise é
a própria demanda do candidato a analisante. É a partir daí que se
impõe o conselho que Freud deixou para os analistas de considera­
rem cada novo caso como se fosse o primeiro. Se em Medicina as
indicações, contra indicações e diagnóstico clinico são o ponto de
partida; se o médico inicia a sua intervenção a partir de um saber a
priori, em psicanálise, o saber que realmente conta é aquele adquiri­
do a posteriori.
D e p e n derá da p o s i ç ã o p r ó p ria d e c a d a a n ali s ta o
gerenciamento solitário de sua prática clinica. O que norteia todo
tratamento, porém, continua sempre s endo o advento do suj eito
frente ao s eu desejo e o que nos ocupa primordialmente são os
meios para chegar a isso.
Se tanto a toxicomania quanto o FPS rechaçam o Outro do
inconsciente, fazer exis tir o inconsciente é uma responsabilidade do
analis ta. Ou, na pior das hipóteses, "criar-lhes um inconsciente", como
indicou Hugo Freda no encerramento da Jornada do Instituto do
Campo Freudiano em Paris, em 1 995, fazendo-os minimamente

246
Núcleo de PesqHi.ra em P.ricouomálica

reconhecer que são tomados por determinações que os ultrapas­


sam, tornando-os assim responsáveis por suas condições de gozo
(I'arrab, 1 996).

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247
O Brilho da InFeliddade

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Op. cit.
DROGAS: A IRRACIONALIDADE DA
CRIMINALIZAÇÃO

Maria Lúcia Karam

1. Introdução

Assistindo aos enormes avanços e conquistas da revolução


científico-tecnológica, introdutores de um novo degrau na escala
evolutiva do modo de produção capitalista, as formações sociais
do capitalismo pós-industrial assistem também a uma crescente in­
capacidade de solução dos problemas gerados pelo próprio desen­
volvimento excepcional das forças produtivas, a provocar fortes
abalos no campo do convívio social.
Os avanços e conquistas da revolução científico-tecnológica,
fazendo-se acompanhar da desaceleração do ritmo de crescimento
nos centros dinâmicos da economia mundial e de uma queda estru­
tural nos níveis de emprego, convivem com o enfraquecimento das
normas e instituições do controle informal e com um processo de
isolamento individual e de ausência de solidariedade nas relações
sociais, favorecedores de um forte sentimento de incômodo, de
insegurança e de um medo coletivo difuso, caracteristicamente pre­
sentes em todas as formações sociais do capitalismo pós-industrial.

Convivendo ainda com o desmoronamento das tradições


reais do socialismo, atravessam as sociedades contemporâneas a
decepção enfraquecedora das utopias e o abandono de antigos ide­
ais transformadores. Sem inimigos reais e sem perigos .concretos
O Brilho do lnFelicidode

com os quais acenar, as formações sociais do capitalismo pós-in­


dustrial, das quais não mais se exige a demonstração de sua superi­
oridade democrática ou o enfrentamento da perspectiva de sua
efemeridade, vivem a necessidade de criação de novos inimigos e
fantasmas capazes de ass egurar a coesão social, ameaçada pelos
desequilíbrios e pela potencial desestruturação econômico-social que
o dito "fim da história" não consegue apaziguar.
Neste quadro, reavivam-se as premissas ideológicas de afir­
mação da autoridade e da ordem, abrindo espaço para a intensifi­
cação do controle social, através da ampliação do poder do Estado
de punir. O vitorioso Estado mínimo da pregação neoliberal, com
suas propostas de privatização das áreas de intervenção econômica,
de desregulamentação do mercado e liberalização financeira e co­
mercial, corresponde, no campo do controle s ocial, ao Es tado
máximo, vigilante, onipresente, valendo-se de ampliadas e moder­
nas técnicas de investigação e de reavivadas concepções retributivistas
para subs tituir a abandonada assistência dos afastados modelos do
bem-es tar social, assim abrindo espaço para novas e mais intensas
formas de intervenção e de restrições sobre a liberdade individual.
É, como lembra Alberto Toron, o neoautoritarismo surgindo como
a contraface do neoliberalismo (1 996, p. 1 41) .
A manipulação do sentimento de insegurança e do medo
coletivo difu s o, p roduzindo crescentes preocupações com a
criminalidade e trazendo a conseqüente busca de segurança e re­
pressão, constitui fenômeno que, notado em nível mundial, adquire
especial ressonância em nosso"s países periféricos. Aqui, os efeitos
do desequilíbrio e da potencial desestruturação econômico-social
naturalmente se fazem sentir de forma muito mais grave, tornando
especialmente necessários o foco na criminalidade e a intensificação
da repressão e do castigo, não só para permitir a necessária coesão
social e substituir os afastados modelos do bem-estar social, mas
fundamentalmente para prevenir reações sociais mais conseqüentes
e trans formadoras.

250
Maria Lúcia Kara,n

A intensificação do controle social, através da ampliação


do poder do Estado de punir, alimentando-se daquela manipula­
ção dos sentimentos de medo e insegurança, encontra hoje seu cam­
po mais fértil no mistério e fantasia que cercam as drogas qualifica­
das de ilícitas, nas falsas informações que apressadamente as associ­
am com as ameaças reais ou imaginárias do mal definido fenôme­
no da chamada criminalidade organizada, no superdimensionamento
das eventuais repercussões negativas da disseminação de suas oferta
e demanda, com elas atendendo-se àquela necessidade contempo­
rânea de criação de novos initnigos e fantasmas, que, comovendo e
assustando o conjunto da sociedade, provocam a busca dos rigores
da repressão, da maior intervenção do sistema penal - alternativa
tão palpável quanto irreal de solução de problemas, de sat;isfação
de desej os imediatistas de proteção, tranqüilidade e segurança.
É no tema das drogas que mais fortemente hoje atua a
enganosa publicidade que consegue "vender" o sis tema penal como
o produto des tinado a fornecer as almejadas proteção, tranqüilida­
de e segurança, fazendo deste instrumento - na realidade, estimu­
lante de situações delitivas e criador de maiores e mais graves con­
flitos - o centro de uma política supostamente destinada a conter
ou até mesmo acabar com a irracionalmente temida circulação de
tais mercadorias.

2. Alguns aspectos históricos, econômicos e políticos

O discurso universal e atemporal, dominante no tema das


drogas, ao encobrir os condicionamentos sociais, políticos, econô­
micos e culturais historicamente determinantes do relacionamento
com tais subs tâncias, bem como das formas de controle de sua
u tilização, talvez s eja um dos mais expres sivo s fatores da
desinformação e da conseqüente criação dos falsos es tereótipos e
falsas soluções, presentes nos valores que, profundamente enraiza-

251
O Brilho da lnFelicidade

dos no conjunto das sociedades contemporâneas, garantem o gene­


ralizado aplauso à irracional política centrada na repressão; política
motivadora da criminalização de condutas relativas à produção, à dis­
tribuição e ao consumo de determinadas drogas qualificadas de ilícitas.
As preocupações, sempre ditadas pelos países centrais, se­
quer diferenciam os papéis reservados pela ordem econômica in­
ternacional a produtores e consumidores de tais bens. Simplesmen­
te transplanta-se para nossos países periféricos o alarme causado
pelo uso descontrolado de drogas mais pesadas, inobstante neles
não se encontre a tendência a se tornarem grandes centros consumi­
dores destas substâncias. O menor desenvolvimento de nossos
mercados internos, gerador da lógica do produzir para exportar
matérias-primas e alguns produtos acabados, naturalmente opera
também neste mercado das drogas ilícitas. A esta lógica são soma­
das as condições que fazem dos países periféricos os produtores
naturais de tais mercadorias - mão-de-ob1-a abundante e barata,
regiões atrasadas, locais de difícil acesso pela carência de vias de
transporte e comunicação, aparelhos administrativos deficientes -
não sendo, por outro lado, seus habitantes os alvos do consumo, até
porque, como consumidores, não nos é dado o mesmo potencial
dos moradores do Norte, para gerar os fabulosos lucros que presi­
dem este mercado.
Mas nem sempre as drogas foram geradoras de grandes
lucros, como nem sempre foram geradoras de grandes problemas.
A his tória mostra que, em todas as formações sociais, de uma for­
ma ou de outra, as substâncias psicoativas se fizeram ou se fazem
presentes.
São conhecidas as informações sobre sua utilização entre
os povos antigos seja com finalidades religiosas ou rituais, seja em
práticas medicinais, em atividades bélicas ou ainda em atividades
produtivas 1 .

252
Maria Lúcia -Karam

Porém as drogas não tinham, naquela etapa his tórica, um


valor econômico. É somente com o advento do capitalismo que
tais subs tâncias adquirem valor de troca, trans formando- s e em
mercadorias, cuj o papel no proces so de acumulação legal do capi­
tal; nos s éculos XVI a XIX, foi bas tante significativo, época em que
s equer se levantava qualquer objeção moral à sua circulação, como
mos tra a forte narrativa de Galeano, em seu clássico As veias abertas
da américa latina, a revelar que na América da colonização espanhola
não s e furtava a Igrej a a cobrar o dízimo sobre as plantações de
coca, em Cuzco e Potosí (1 978, p. 5 8) .

Mas talvez o mais significativo exemplo deste papel das


drogas, hoj e qualificadas de ilícitas, no proces s o de acumulação le­
gal do capital se encontre na conhecida his tória das guerras do ópio
na China. Com o fomento da produção na costa oriental da Índia,
a Inglaterra, em plena era vitoriana, realizou grandes lucros com a
comercialização na própria Índia e, especialmente, com a exporta­
ção para a China, chegando as vendas de ópio, promovidas pela
East India Compa'!Y, a representar a s exta parte do to tal das rendas da
Índia Britânica. A primeira das guerras do ópio (1 839-1 842) , finda
a qual a Inglaterra ob teve a cessão de Hong-Kong, foi declarada
em nome do "livre comércio". Já na segunda guerra do ópio, inici­
ada em outubro de 1 85 6, a Inglaterra teve a s eu lado a França, que,
até a primeira metade do século XX, realizou grandes lucros com a
importação, produção e comercialização de ópio na Indochina, onde
teve, desde 1 899, o monopólio es tatal sobre aquelas atividades 2 •

O ava n ç o do capitalismo, com a s up eração da e tapa


colonialista, igualmente repercu tiu neste ramo da economia. Com a
criação e o desenvolvimento de novos mercados, as drogas produzi­
das nas antigas colônias passaram a ter sua comercialização explorada
nos países centrais, sendo, geralmente, as que serão, no século XX, qua­
lificadas como ilícitas, atingindo, notadamente a partir dos anos 1 960 e
1 970, a notável expansão que hoje movimenta cifras as tronômicas.

253
O Brilho da lnFe/icitlade

Se as drogas hoje exercem papel relevante na economia


dos países produtores e exportadores - estimando-se que, especi­
almente na Colômbia, a massa monetária proveniente de sua pro­
dução e comercialização supere a receita das exportações legais -,
também é certo que, como determinam as regras que regem a or­
dem econômica internacional e à semelhança do que__ ocorre em
outros setores da economia, não são os países produtores e expor­
tadores os maiores beneficiários dos lucros fabulosos gerados neste
mercado. As multiplicadas cifras que darão o preço de venda final
destes produtos nos países centrais alimentam, de forma muito mais
intensa, o circuito financeiro internacional, integrando-se ao capital
legal, através das chamadas operações de lavagem, realizadas por
sólidas e respeitadas instituições financeiras 3.
A expansão dos mercados consumidores de drogas ilícitas,
obedecendo à lógica da criação de demandas artificiais, caracterí sti­
ca da economia capitalista, é certamente fator determinante da pro­
dução, abrindo novas oportunidades de acumulação de capital e de
geração de empregos, assim suprindo as limitadas oportunidades
o ferecidas pelas atividades econômicas lícitas. O quadro hoje exis­
tente na produção e comercialização das drogas ilícitas em boa par­
te reproduz o que se desenrolara nos Estados Unidos da América, na
época da proibição do álcool (1920-1932), em que tal mercado, torna­
do ilegal, abriu oportunidades de enriquecimento aos recém-chega­
dos imigrantes italianos, que já encontraram as atividades no mercado
lícito reservadas a outros grupos sociais (cf. Pearce, 1980, p. 1 61-9) .
Por esta lógica econômica já se pode antever a inevitável
ineficácia de uma política de controle fundada na intervenção do
sistema penal: os empresários - grandes ou pequenos - e os
empregados das empresas produtoras e distribuidoras de drogas
ilícitas, quando presos ou eliminados, são facilmente substituíveis
por outros igualmente desejosos de oportunidades de emprego ou
de acumulação de capital, oportunidades que, por maior que seja a

254
Maria L,ícia Karam

repressão, subsistirão enquanto estiverem presentes as circunstâncias


s a cio-econô micas favorecedoras da demanda criadora e
incentivadora do mercado: onde houver demanda, haverá oferta�.
A política mundial de combate às drogas ilícitas, no entan­
to, se concentra na investida contra os países produtores e exporta­
dores, aqui se revelando sua extrema funcionalidade no campo in­
ternacional.
A opção pela chamada "guerra contra as drogas", adotada
pelos Estados Unidos da América na década de 1 980, impôs uma
crescente internacionalização da política de drogas, pressionando os
países periféricos, especialmente os latinoamericanos, em limites
atentatórios à sua soberania, bastando lembrar de alguns episódios
mais signi ficativos como a inusitada invasão d e t r o pas
norteamericanas no Panamá, para prisão do General Noriega, ou o
desembarque daquelas mesmas tropas na Bolívia, na chamada Ope­
ração Blast-Furnace.
A internacionalização deixou sua marca na própria lingua­
gem, com o uso generalizado do radical da palavra inglesa narcotics
- utilizável também em espanhol e em português - que passou a
ser acríticamente adotado, incorporando-se até mesmo ao vocabu­
lário de amplos setores da esquerda, todos passando a falar de
narcotráfico, narcodólares etc. , inobstante o principal alvo da políti­
ca de combate às drogas - a cocaína - sequer possa ser visto
como narcótico, tratando-se, ao contrário, de evidente es timulante.
A fu ncionalidade política da internacionaliz ação
responsabilizadora dos países produtores e exportadores traduz-se
ainda na criação do estereótipo delitivo latinoamericano, de que fala
Rosa Del Olmo (1 988), reproduzindo-se internamente em cada país
com a função simbólica, representada pela figura do traficante ou,
nos países centrais, pelos grupos marginalizados de aditas, função
simbólica que, entregando àqueles o papel do mau, do inimigo, do

255
O Brilho da lnFelicidade

perigoso, para neles concentrar a hostilidade da maioria, em muito


contribui para a coesão social e para o conveniente desvio das aten­
ções de outros problemas mais graves.

3. A irracionalidade do tratamento penal das drogas: a


legislação brasileira

Desde sua fonte mais remota (o Decreto-lei 891 /38, incor­


porado na redação original do antigo artigo 281 do Código Penal
Brasileiro), às diversas alterações legislativas, que culminaram na Lei
6. 368, com mais de vinte anos de vigência - a lei data de 1 976 -, a
política de drogas traduzida na legislação brasileira, fruto da opção
pela criminalização de condutas relativas a determinadas substânci­
as daquela natureza qualificadas como ilícitas, tem na irracionalidade
des ta opção repres s ora o s eu centro, irracionalidade cujo
aprofundamento se reflete em cada um dos projetos supostamente
inovadores, que vez por outra se apresentam para substituir a lei
vigente.
Esta irracionalidade da pretensão de controle da oferta e
da demanda de determinadas drogas, qualificadas de ilícitas através
da proibição, atinge seu ápice na vertente do consumo, com a
criminalização da posse de tais substâncias para uso pessoal.
A criminalização da posse de drogas para uso pessoal é
claramente incompatível com os postulados de racionalidade que
devem informar os atos de governo em um Estado Democrático
de Direito, seja quando se pune tal conduta com pena privativa de
liberdade, como, no Brasil, prevê a Lei 6.368/ 76 ainda em vigor,
seja para impor penas de outra natureza - multa ou restrição de
direitos, de que é exemplo a prestação de serviços à comunidade
-, como sugerem projetos aparentemente mais liberais, dentre eles
o Substitutivo, adotado por Comissão Especial, constituída pelo

256
Maria Lúcia K.aram

Presidente da Câmara dos D eputados, para apreciar os diversos


proj etos de lei que dispõem sobre a política nacional de drogas,
votado e aprovado, no final de 1 996, naquela Casa e ainda penden­
te de votação no Senado.

A posse de drogas para uso pessoal é conduta que, situan­


do-se na e sfera individual, não atinge a terceiros , assim se inserindo
no campo da intimidade e da vida privada, em cujo âmbito é veda­
do ao Es tado - e, portanto, ao Direito - penetrar. Assim como
não se pode criminalizar e punir - como, de fato, não se pune -
a tentativa de suicídio e a autoles ão, não se pode criminalizar e punir
a posse de drogas para uso pessoal, que, menos danosa do que
aquelas, pode encerrar no máximo um simples perigo de autolesão.

A função geral da ordem jurídica de proteção da dignidade


da pessoa, que em nossa ordem constitucional surge como um dos
fundamentos da República, expresso no inciso III do artigo 1 º da
Cons tituição Federal, gera princípios limitadores do poder de pu­
nir, vinculantes do legislador.

Como assinala o Professor Juarez Tavares, em importante


ensaio s obre o tema (1 992, p. 75-85) , tais princípios fazem do dano
social p onto de referência obrigatório para a fixação de parâmetros
na con fecção das normas incriminadoras.

Reforçando esta obrigatória consideração do dano social,


tem-se ainda a norma contida no inciso X do artigo 5 ° da Consti­
tuição Federal, que, assegurando a inviolabilidade da intimidade e
da vida privada, desautoriza qualquer intervenção estatal sobre con­
dutas que, res tritas à es fera individual, não tenham potencialidade
para atingir bens ou interesses de terceiros.

As modernas concepções em torno da tipicidade p enal, tra­


zendo-lhe um caráter material que é dado pelo bem jurídico objeto
de tutela da norma incriminadora - concepções que se podem
traduzir na fórmula nullum crimen sine iniuria e únicas compatíveis

257
O Brilho da InFe/icidade

com a necessária consideração do dano social como ponto de refe­


rência para a fixação de parâmetros na confecção da norma -
impõem a assertiva de que a tipicidade de uma conduta não se
esgota nos aspectos meramente descritivos encontrados na regra
legal (com seus aspectos objetivos e subjetivos), só se revestindo de
tipicidade penal a conduta que, descrita no tipo legal, afete o bem
jurídico tutelado pela norma anteposta ao tipo, seja lesando-o, seja
provocando um perigo concreto de lesão àquele bem jurídico, que
naturalmente há de ser um bem jurídico de titularidade de terceiros.
No que concerne a condutas relacionadas com drogas, en­
quanto houver destinação pessoal para a posse e enquanto seu con­
sumo se fizer de modo que não ultrapasse o âmbito individual, não
se poderá nelas enxergar tipicidade penal, desde que ausente a con­
creta afetação de qualquer bem jurídico de terceiros.
Aqui se têm condutas privadas, que, como tal, não podem
ser objeto de criminalização, constituindo esta criminalização uma
inautorizada intervenção do Estado sobre a liberdade individual, a
intimidade e a vida privada5 .
A nocividade individual de uma conduta privada poderá
ser uma boa razão para ponderações ou persuasões, mas nunca
para que o supostamente prejudicado seja obrigado a deixar de
praticá-la. Há mais de um século, já assim alertava Stuart Mill, ao
discorrer sobre a liberdade, em afirmação que bem traduz o alcan­
ce da garantia constitucional que, assegurando os direitos concernentes
à intimidade e à vida privada, faz com ela incompatíveis os disposi­
tivos legais criminalizadores da posse de drogas para uso pessoal.
Se, sob este ângulo, a descriminalização é um imperativo
nascido do indispensável respeito à liberdade individual, é ainda na
vertente do consumo que se encontra outra_ das mais fortes razões
para o rompimento com . a irracional política legislativa, política esta
que, explicitando a intenção de proteger a saúde pública, contradi-

258
Maria Lúcia Karam

toriamente cria, com a proibição, maiores riscos à integridade física


e mental dos consumidores daquelas substâncias proibidas.
Impondo a clandes tinidade à distribuição e ao consumo, a
criminalização favorece a ausência de um controle de qualidade das
substâncias comercializadas, aumentando as possibilidades de adul­
teração, impureza e desconhecimento de sua potência, com os ris­
cos maiores daí decorrentes <•.
A clandes tinidade também favorece a falta de higiene, ques­
tão especialmente preocupante, nestes tempos de disseminação da
AIDS, isto sem falar nas resistências e oposições à implementação
de programas de trocas de seringas, entre aditas, fundadas na ab­
surda mas corrente interpretação de que tais programas se consti­
tuiriam em hipótese da criminalizada contribuição para o incentivo
e a difusão do uso indevido de drogas, interpretação que o já refe­
rido Substitutivo, votado e aprovado pela Câmara dos Deputados
e pendente de votação no Senado, até procura afastar, embora limi­
tando a ressalva autorizadora, ali expressa (artigo 1 2, inciso VI, par­
te final), a ações empreendidas pela autoridade sanitária, assim ex­
cluídas as geralmente mais eficazes ações desenvolvidas por organi­
zações não governamentais, mantida, no Substitutivo, de todo modo,
a amplitude da descrição típica hoje encontrada na regra do inciso
III do § 2º do artigo 1 2 da Lei 6.368/76, amplitude certamente
violadora do princípio da taxatividade-determinação como desdo­
bramento do princípio da legalidade.
Há, neste aspecto, uma outra consideração a s er feita: a con­
tradição da interpretação apontada com o comando emanado da
norma traduzida no artigo 268 do Código Penal, a criminalizar a
infringência de determinação do poder público des tinada a impe­
dir introdução ou propagação de doença contagiosa, determinação
que certamente se há de ver nos programas de redução de danos,
adotados por órgãos públicos.

259
O Brilho da !,,Felicidade

Ressalte-se ainda que as condições clandestinas em que se


realiza o consumo geram maiores tensões, podendo acentuar a pro­
blemática original sintomatizada por uma eventual adição, assim
freqüentemente funcionando como um realimentador na busca da
droga. A isto se somam as limitações ao controle terapêutico­
assistencial, a clandestinidade do consumo, pela necessária revelação
da prática de uma conduta tida como ilícita, sendo um natural
complicador para a procura do tratamento, cujo êxito, por outro
lado, se condiciona, como é sabido, à voluntariedade de sua busca,
o que é contrariado pela concepção expressada tanto na legislação
vigente, quanto nos projetos que pretendem alterá-la, todos traba­
lhando com a imposição do tratamento.
Na outra vertente - a da produção e distribuição,
configuradoras do tráfico - as contradições embutidas na opção
pela proibição igualmente recomendam o rompimento com a po­
lítica criminalizadora. Somando-se à ineficácia da intervenção do
sistema penal na contenção do mercado, os pesados ônus que a
ilegalidade traz revelam-se nos altos custos sociais que em muito
superam os raros e isolados êxitos que eventualmente possam advir
desta irracional forma de controle das drogas.
Os consumidores de tais substâncias, tornadas ilícitas, além
de atingidos pelos maiores riscos à saúde, sofrem a superexploração
decorrente dos preços artificialmente elevados, a freqüentemente
levá-los a se . empregarem no tráfico ou a adotarem a prática de
outros comportamentos ilícitos para obter a droga. Como anota­
do por Emílio Lama de Espinosa (1 983), ao falar do consumo de
heroína na Europa, "o toxicômano não é delinqüente porque usa
droga; é delinqüente porque se vê privado dela", para assinalar,
mais adiante que, com a proibição, conseguiu-se produzir um espe­
tacular aumento de roubos a farmácias, posteriormente substituí­
dos, nas grandes cidades, pela troca direta de objetos roubados por
heroína.

260
Maria Lúcia Karam

As sim se despej ando s obre os consumidores, os altos cus­


tos sociais da criminalização se espraiam pelo conjunto das socieda­
des, que, sem p erceber a irracionalidade de suas reivindicações, cla­
mam pela solução penal, quando, na realidade, é o próprio sis tema
penal o verdadeiro criador dos problemas que enganosamente anun­
cia poder resolver.

A criminalização aparece como uma variável introduzida


na es trutura do mercado: aos custos normais de produção s erão
n e c e s s ariam e n t e adicion a d o s os cus tos p o ten ciais de p erdas
provocadas por eventuais apreensões, bem como as despesas com
a segurança exigida pela ilegalidade do empreendimento, a natural­
mente repercutir s obre o preço final do produto, ao que vem se
somar o fato de empreendimentos des ta natureza ilícita em geral se
des envolverem em es trutura oligop olizada, a redução da . concor­
rência j á se fazendo pelo natural afas tamento daqueles que não se
dispõem a en frentar a ilegalidade, outorgando- s e, as sim, uma espé­
cie de franquia àqueles dispostos a violar a lei.

Provocando, com estes e outros mecanismos, a artificial


elevação dos preços 7 , que irá gerar enormes lucros, a criminalização
acaba por paradoxalmente funcionar como um dos mais podero­
sos incentivos à produção e ao comércio des tas mercadorias ilícitas.

Os lucros exagerados, es tabelecendo uma relação funcional


com a circulação legal do capital, trazem imenso p oder de corrupção:
o mercado das drogas ilícitas vai produzir graves desvio s , peri­
go samente con taminando órgãos do aparelho es tatal e do sistema
financeiro.

É também à criminalização que se pode, em grande parte,


atribuir a criação e diss eminação de drogas que apresentam maior
nocividade à saúde. Eventuais êxitos repressivos , redutores da ofer­
ta, acabam por incentivar produtores, dis tribuidores e consumido­
res a bus car outros produtos, acabando assim por introduzir no

261
O Brilho da I11Felicidade

mercado novos produtos mais lucrativos, mais potentes e mais pe­


rigosos. Isto ocorreu, por exemplo, nos Estados Unidos da Améri­
ca, após a década de 1970, com o crescimento da oferta de cocaína
e heroína, em grande parte conseqüência da repressão à maconha e
aos alucinógenos de origem mexicana, por elas substituídos. A in­
trodução do crack, no final dos anos 1 980, segue lógica econômica
análoga.
Não são, portanto, propriedades farmacológicas de umas
drogas que levam ao consumo de outras, como costumam anunci­
ar os que vêem o consumo de determinadas substâncias, por exem­
plo maconha, como "passagem" para putras drogas mais perigo­
sas. Os diferentes ciclos do consumo obedecem a outros fatores,
determinados fundamentalmente p�r razões econômicas.
Mas a criminalização tem um outro efeito ainda mais grave.
Ao tornar ilegais determinados bens e serviços, o sistema penal
funciona como o real criador da criminalidade e da violência, fenô­
meno que se pode perceber também em relação ao jogo. Ao con­
trário do que se costuma propagar, não são as drogas em si que
geram criminalidade e violência, mas é o próprio fato da ilegalidade
que produz e insere no mercado empresas criminosas - mais ou
menos organizadas - simultaneamente trazendo, além da corrupção,
a violência como outro dos subprodutos necessários das atividades
econômicas assim desenvolvidas, com isso provocando conseqü­
ências muito mais graves do que eventuais malefícios causados pela
natureza daquelas mercadorias tornadas ilegais. Como lembra Frank
Pearce (1980), antes da Proibição, a Máfia norte-americana não ti­
nha maior importância, limitando sua atuação às "aldeias urbanas"
italianas, sendo a demanda em grande escala por um produto tor­
nado ilícito - o álcool - o que propiciou sua expansão.
Sendo o real criador da criminalidade e da �iolência relaci­
onadas com as drogas ilícitas, através da intervenção do sistema
penal sobre o mercado, o Estado se vale destas mesmas criminalidade

262
Maria LJcia Kam,n

e violência, para, manipulando o medo e a insegurança provocados


pelas ações reais ou imaginárias daí decorrentes, ampliar o poder puni­
tivo e intensificar o controle sobre a generalidade dos indivíduos.
Como dito de início, é neste tema das drogas qualificadas
de ilícitas que a intensificação do controle social, através da amplia­
ção do poder do Estado de punir, encontra seu campo mais fértil.
O abandono de princípios de um Direito garantidor, em
prol de uma repressão mais rigorosa e supostamente mais eficaz, é
tendência que há muito vem se aprofundando, em todo o mundo8 •
Nos Estados Unidos da América, seu resultado se traduz em um
assustador aumento, nesta década de 1990, do número de pessoas
encarceradas (mais de um milhão de presos e outros dois milhões e
meio submetidos a outras medidas penais), representando o mais
alto percentual de pessoas encarceradas de qualquer país democrá­
tico em toda a história da humanidade, das quais, nos Estados mai­
ores, cerca de 30 a 45% condenadas por violação de leis p enais
concernentes a drogas (apud. Nadelmann, 1991)
Até mesmo em um país visto como tradicionalmente libe­
ral, especialmente neste tema das drogas, como a Holanda, registra­
se, nos últimos dez anos, conforme dados oficiais do Governo
daquele país, uma elevação de cinco mil para doze mil vagas na
lotação do sistema penitenciário, motivada fundamentalmente pelo
aumento no número de condenações a penas privativas de liberda­
de por tráfico de drogas.
Vale ainda mencionar o exemplo de um outro paí s, igual­
mente tido como liberal - a Noruega -, onde, até 1964, a máxi­
ma punição para condutas relacionadas com drogas era de seis meses
de prisão. Depois de 1964, as condenações podiam atingir à, então
considerada elevada, pena de dois anos de reclusão. Mas, em 1968,
a pena máxima já era de seis anos; em 1972, de dez anos, até chegar,
a partir de 1984, aos 21 anos de prisão, a pena máxima admita
naquele país (apud. Christie, 1993) .

263
O Biilho da InFelicidade

No Brasil, basta lembrar que foi sob o pretexto de repres­


são às drogas e a urna suposta criminalidade organizada, com elas
identi ficada, que, no final do ano de 1994, quando da chamada
Operação Rio, se abriu espaço para que, desviando-se das funções
que a Constituição Federal lhes atribui, fossem as Forças Armadas
chamadas a intervir no Rio de Janeiro, para assumirem as tarefas de
um alegado combate ao crime. O anestesiante quase consenso cria­
do em torno da suposta necessidade desta intervenção militar criou
também a tolerância com o desrespeito à Constituição Federal, que
foi muito além daquele inicial desvio das funções atribuídas às For­
ças Armadas: restrições ao direito de locomoção, revistas violadoras
da intimidade dirigidas até mesmo contra crianças, exigências de
identificação e conseqüentes prisões arbitrárias por falta de docu­
mentos ou para averiguações tornaram-se a inquestionada rotina da
repressão militarizada.
A repressão às drogas e a uma suposta criminalidade orga­
nizada, com elas identificada, também serve de pretexto para a
produção de leis que, à semelhança das legislações excepcionais cri­
adas para a repressão política das ditaduras, se afastam de princípi­
os garantidores, em claro desrespeito às normas constitucionais,
sem que sofram maiores questionamentos quer por parte do con­
junto da sociedade, quer por parte dos operadores jurídicos, do
que constituem eloqüentes exemplos a Lei nº 8.072, de 25 de julho
de 1990 - a chamada lei dos crimes hediondos - ou a Lei nº
9.034, de 3 de maio de 1 995, que, dispondo sobre a utilização de
meios operacionais para a prevenção e repressão de ações pratica­
das por organizações criminosas, reafirmou a premiação da dela­
ção, já prevista na Lei 8.072, ainda prevendo a irracional "ação con­
trolada" de agentes policiais, com a troca da imediata interrupção
de condutas delituosas por uma eventual obtenção de maiores in­
formações e provas, escalada repressiva completada com a mais
recente Lei nº 9. 296, de 24 de julho de 1996, que, ampliando onde
a Constituição Federal mandou restringir, veio regulamentar a

264
Maria L,ícia Karam

interceptação de comunicações telefônicas para fins de investigação


criminal, parecendo pretender fazer deste meio excepcional de bus­
ca de provas a regra investigatória, meio excepcional cuja verdadei­
ra eficácia não é a de, como se anuncia, viabilizar um supostamente
mais eficaz controle da criminalidade, mas sim uma maior interven­
ção sobre a intimidade e a liberdade de todos os cidadãos, como
bem ilustra a experiência americana9 •
O Substitutivo da Comissão da Câmara dos Deputados,
subscrito e aprovado por representantes de todos os partidos polí­
ticos, os mais progress�tas acenando com a chamada política do
possível, que na realidade acaba por sufocar qualquer voz
questionadora, voltada para o futuro, para a utopia, adere a esta
tendência de abandono de princípios de ,um Direito garantidor, em
prol de uma repressão mais rigorosa e supostamente mais eficaz,
negociando os pequenos avanços no tratamento do consumo de
drogas - avanços que, de todo modo, mantêm a inadmissível
criminalização da posse para uso pessoal -, ao preço do desmedi­
do rigor repressivo no que concerne ao tráfico.
Assim é que o Substitutivo propõe a elevação de penas,
sugerindo a equiparação de seu mínimo à pena de um homicídio,
até mesmo para a criada figura de uma específica receptação (artigo
15 ), ou para a restabelecida "quadrilha de dois" (que talvez se pu­
desse chamar de "duilha" - artigo 14). Ainda mais gravemente se
pretende violar a vedação de dupla punição por um mesmo fato
- princípio do ne bis in idem - ao transformar a reincidência em
causa de aumento de pena de um a dois terços (inciso I do artigo
19). Mantém-se a criminalização indireta de meros atos preparató­
rios, sobre eles fazendo incidir, como na regra do inciso IV do
artigo 18 da Lei 6.368/ 76, causa de aumento de pena (incisos V e
VI do artigo 1 9). Acentuam-se as violações ao princípio da
individualização da pena, ao não só se pretender impor o regime
fechado obrigatório, mas ainda vedar o livramento condicional (ar-

265
O Brilho da lnFeliddade

tigo 2 1 , em redação extremamente imprópria, excepcionando a


hipótese do artigo 1 7, que ali não é, nem poderia ser, contemplada) .
Elevam-se os prazos máximos para a prisão provisória (artigos 26
e 29 a 34) . Finalmente, apro funda-se o rompimento com o indis­
pensável conteúdo ético que deve presidir as atividades estatais, ne­
gado pela busca de meios de prova através da delação, no artigo 20
do Substitutivo, premiada, mais do que com a redução da pena,
com a própria impunibilidade.
Esta escalada consagradora do sistemático abandono de
princípios de um Direito garantidor, em prol de uma repressão
supostamente mais eficaz, traz resultados que confirmam a adver­
tência de Nils Christie de que o maior perigo da criminalidade nas
sociedades modernas não é o crime em si mesmo, mas sim o de
que a luta contra este acabe por conduzir tais sociedades ao totalita­
rismo (1 993) .

4. Conclusão

As visíveis ameaças a princípios fundamentais do Estado


Democrático de Direito, embutidas nos caminhos da repressão penal
às drogas qualificadas de ilícitas, já deveriam ser razão suficiente
para a busca de outras alternativas de tratamento desta questão.
Mas poder-se-ia taml?ém seguir uma outra linha e
compactuar com o apelo ao medo e à insegurança, com a contem­
porânea histeria criada em torno da violência ligada à criminalidade.
Aí se teria um outro decisivo argumento a indicar o caminho da
descriminalização. Bastaria olhar e seguir o exemplo da história: quem
derrotou a violência da Chicago dos anos 1 920 e 1 930 não foram
os Intocáveis de Eliot Ness; foi, tão somente, o fim da Lei Seca 10 .
O it:racional tratamento que elege as drogas ilícitas como
principal pretexto para um maior rigor da repressão penal, o

266
Maria Lúda Karam

mistério e a fantasia que as cercam, as falsas informações que apres­


sadamente as associam com as ameaças reais ou imaginárias do mal
definido fenômeno da chamada criminalidade organizada, seu pa­
pel entre os novos inimigos e fantasmas, que, comovendo e assus­
tando, ensejam a intensificação do controle social, através da ampli­
ação do poder do Estado de punir, curiosamente aproxima as for­
mações sociais contemporâneas do passado, dando-lhes um certo
toque medieval.
Esta mesma irracionalidade se manifestava no tratamento
que outrora receberam a bruxaria e a heresia. Milhares de pessoas
foram torturadas e mortas em fogu eiras por conta dos fantasmas
que povoaram a Europa dos séculos XIII a XVIII. Naquela época,
também se criaram práticas legislativas e judiciárias de exceção, tam­
bém se elaboraram detalhados códigos, que permitiam identificar e
esti gmatizar bruxas e hereges.
Como ocorria então, também neste tema das drogas vive­
se não a realidade, mas a fantasia que permite acreditar nestes novos
fantasmas e em supostas soluções mágicas e perversas.
Quando a racionalidade prevalecer e afastar a enganosamente
salvadora intervenção do sistema penal, assim afastando uma for­
ma de controle que pouco controla, que paradoxalmente estimula
o lucro e cria a violência e a corrupção, que, direta ou indiretamente,
incentiva o consumo problemático das substâncias que proíbe, quan­
do se tiver maior tolerância com as diferenças, compreendendo-se
que nem tudo que se desconhece ou que majoritariamente se rejeita
é necessariamente mau, quando se puder perceber que eventuais
adições - não só a drogas - são fatos da vida que devem ser
enfrentados com soluções nascidas da convivência, da solidarieda­
de e da aproximação ao conflito, talvez se possam criar condições
para uma efetiva redução dos problemas que cercam o consumo
de drogas, sejam as hoje tidas como licitas, sejam as ainda qualifica­
das de ilícitas.

267
O Brilho da InFelicidade

Liberadas dos negativos efeitos da criminalização, as dro­


gas certamente se mostrarão menos problemáticas. Liberadas dos
anseios repressivos, das perversas fantasias punitivas e dos desejos
imediatistas de tranqüilidade e segurança, talvez as pessoas possam
voltar a sonhar com a construção de sociedades mais justas, mais
iguais, mais livres, em que, havendo maiores oportunidades para a
felicidade, certamente menores serão as necessidades de se drogar.

NOTAS

1 . Vejam-se as informações trazidas por Beristain sobre a utilização de tais


substâncias entre diversos povos da Antigüidade no ensaio "Dimensiones
histórica, económica y política de las drogas en la criminología crítica" (1979, p.
527-9) .
2. Interessantes informações a 'este respeito, do papel das drogas no processo
de acumulação de capital, na etapa colonialista, podem ser encontradas no
trabalho já citado de Beristain (p. 530-5) , em Sean O'Callaghan, Les chemi11s de
la drog11e (1 969, p. 1 1 -ss) e em Luís de la Barreda Solórzano, "Capitalismo y
drogas" (1 987, p. 65- 7).
3. Em ensaio intitulado "Novos caminhos para a questão das drogas" (1 993,
p. 21 -68), trago alguns dados sobre estes aspectos da economia das drogas.
Neste tema, devem ser consultados, especialmente, os trabalhos de Alain
Delpirou e Alain Labrous se, Coca coke: prod11tores, co11S11midores, trqftca11tes e
go vernantes (1 988) e de Jean Ziegler A suíça lava 111ais branco (1990) .
4. Vejam-se, a propósito, as observações de Ethan Nadelmann sobre os
deslocamentos da produção de heroína, a partir do começo da década de 70,
no ensaio ''.America's drug problem" (1 991).
5 Às páginas 1 2 1 a 1 37 do já citado livro De crimes, penas e fantasias, há ensaio
intitulado '�i\quisição, gu arda e posse de drogas para uso pessoal: ausência de
tipicidade penal" em que sustento a inaplicabilidade de dispositivos legais
criminalizadores da posse de drogas para uso pessoal. Em sentença proferida
por Conselho Permanente de Justiça para o Exército da 2ª Auditoria da 1 ª
Circuns crição Judiciária Militar (Processo nº 17 /95-5, julgamento em 07 de
agosto de 1 996) , foi reafirmada esta concepção, que também fundamenta

268
Maria Lúcia Karam

pronunciamento da Corte Constitucional da Colômbia (publicado no nú­


mero 12 da Revi.ria Brasileira de Ciências Criminais, p. 251-62) , ali se assinalando
que, diante do direito ao livre desenvolvimento da personalidade, há de se
concluir que as normas que fazem do consumo de drogas um delito são
claramente inconstitucionais.
6 . Como observa Ethan N adelmann, no trabalho já citado, a razão das
"overdoses" de drogas ilícitas encontra-se fundamentalmente nestas suas
freqüentes adulteração, impureza e potência desconhecida. Em suas observa­
ções, N adelmann pede que imaginemos um consumo de vinho ou de aspi­
rina, em que desconhecêssemos o teor alcoólico daquele ou ignorássemos se
estávamos tomando uma dose de 5 miligramas ou de 500 miligramas daque­
la. Como ele . diz, a vida ficaria um tanto mais perigosa.
7. Jeffrey Miron eJeffrey Zwiebel, no trabalho ''.Alcohol consumption during
prohibition" (1981) , referem que os preços de bebidas alcoólicas, nos EUA,
em 1930, alcançavam aproximadamente o triplo de antes da proibição.
8. Baratta, em "lntroducción a una sociología de la droga" (1991) registra
investigação realizada, em 1988, pelo Instituto de Pesquisas das Nações Uni­
das para a Defesa Social (UNSDRI-Roma) , sobre medidas penais no campo
das drogas, em um número representativo de países, com sistemas políticos
diversos e diferentes níveis de desenvolvimento em que já se constatava a
tendência das legislações pesquisadas em se afastar de princípios gerais do
Direito.
9. Dados vindos dos EUA registram números bastante pequenos de conde­
nações fundadas em provas obtidas através de interceptações de comunica­
ções telefônicas, ao mesmo tempo que demonstram a enorme quantidade de
pessoas atingidas por tais interceptações - naturalmente, quando se realiza a
escuta em telefone de alguém que está sendo investigado, não são ouvidas
apenas as manifestações de seu pensamento, mas a de todos os que se utili­
zam daquela linha telefônica, sejam familiares, empregados ou outros mora­
dores do local onde está instalada, sejam pessoas que com eles entram em
contato através de tal linha telefônica -, indicando aqueles dados proporções
de cerca de cem condenações para cem mil pessoas atingidas.
10. Fiz esta observação, anteriormente, em artigo intitulado "O exemplo da
lei seca" e publicado na edição do dia 05 de novembro de 1994 da Folha de
São Paulo.

269
O Brilho da lnFe/icidade

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