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COMPANHEIRA DE SEU LEITO

Ricardo de Almeida Rocha

“És nascido de mulher. E eu zombo de escárnio diante de armas brandidas por


homem nascido de mulher” (Shakespeare—Macbeth, 5º ato, cena VII)
As atividades da Organização Filantrópica de Tundra estão submetidas a uma direção colegial oculta. A
estrutura organizacional se baseia no controle da sociedade civil e das instituições. Tudo começou nas
colinas da ilha, entre refugiados dos massacres que antecederam a formação do povoado. Eles começaram
a matar gado e destruir plantações. Quem quisesse evitar a depredação tinha de fazer um acordo. Logo os
negócios se expandiram. Hoje a Organização detém o controle do tráfico, da prostituição, e do
contrabando, além da Câmara, dos Concursos de trovas e da Garota-verão. A Organização se estabeleceu
utilizando imigrantes como fachada para recrutar novos membros, agiotando os recém-chegados e
recebendo generosas doações de pessoas e empresas da região. Haofuqīn Dunguski, líder do Partido da
Independência de Tundra, foi considerado o principal vencedor desse processo. Era o primeiro nome da
Organização quando foi assassinado com um tiro na cabeça por um de seus guarda-costas, na casa de seu
afilhado político, Gerhardt Molinari, que assumiu então a chefia dos negócios...

É uma mulher escultural. Belíssima. Quando ela caminha e joga para um lado e
outro parece um barco e é assim que vem debaixo da sombrinha no crepúsculo enevoado
desejando que os fluidos de seu corpo se aperfeiçoem na lascívia e a magia dure a noite
inteira. Os cabelos escorrem pelas suas faces em movimentos de pantera. Os olhos
lembram o interior de uma igreja bizantina; conforme a luz, mudam de cor: no verão
verdes, no inverno tendem ao azul. O delicado septo desenha com o dorso do nariz a Ursa
Menor. A pele brilha como constelações quando passa o creme após o banho, do
tornozelo ao joelho pressionando pouco e nas coxas mais em direção a virilha. Uma
feiticeira que sussurrando invoca poderes de vida e morte com lábios bem delineados.
Intensa e naturalmente vermelhos. Inequivocamente femininos mesmo quando ela fala
com a energia máscula de que é possuída quando deseja alguma coisa.

— Aja, Gerhardt. Ele está apenas te usando. Você precisa fazer isso. Ele tem tudo.
E nós? o que temos?

Gerhardt acredita que as coisas virão a seu tempo. Argumenta acerca das palavras
da esposa. O futuro lhes reserva o melhor.

— O futuro? Nunca chega sem que seja conquistado. Sabe Deus se haverá outra
chance.
Graças ao amor que Leslie lhe dedicava Gerhardt Molinari se livrou de uma
infância miserável. Graças a ela conheceu a felicidade. Contempla-a. Um voluptuoso sol
resplandece. Ele adivinha o cheiro de seu hálito e os demais. O tempo não passa para ela.
Parece ter os mesmos quinze anos de quando Gerhardt a viu pela primeira vez. Nunca
mais foi o mesmo depois de passar por ela na rua principal do balneário de Tundra.

Eram então adolescentes. Ele vivia metido com uma turma malvista pela
comunidade. Leslie compreendia. Dava um jeito para que ele sempre se saísse bem.
Fazendo-se de contrariada o repreendia por essas atividades e sutilmente o incentivava
pois representava dinheiro essencial para que ela não dependesse do Deputado, como
chamava seu pai. Sempre apaixonado, não havia o que Gerard não fizesse por ela.

— Então aja, Gerhardt . Eu te conheço. É o que está querendo fazer.

Caminhou resoluto embora sem ideia do que devia dizer quando chegasse. Leslie
não se admirou nem se aborreceu; sorriu. Então descobriu onde eu moro. Então
descobriu como é fácil entrar pela janela de meu quarto. Ele desviou o olhar. Não
importava se outros o haviam precedido desde que não houvesse depois mais ninguém. A
água no copo à cabeceira ondula. E, quando ela deixou que fizesse daquele jeito logo na
primeira vez, ele já tinha certeza. Era o primeiro. Sob aquela máscara serena, ela
idolatrava o marginalzinho romântico. Ele será grande. Ela vê com a mesma clareza com
que vê o que se passa sob a calça dele. Um ou dois êxtases que poderiam ser mais
discretos. O copo cai e no baque uma mancha cresce no assoalho.

A música chega da rua em acordes sensuais. O sol se pôs. Da janela da casa dos
Molinari dá para ver na frente de uma loja, junto a caixas de velas e encartados de
incenso, uma imagem de Janaína ao lado do comércio de material de construção perto da
ponte velha entre a colina Efe e o bairro de Inbhir Nis. O sol morre numa incisão dourada
ao longo do rio, desde a serra. As águas duplicam a vegetação cerrada das margens onde
dos braços das árvores pendem sinos amarelos. Ouve-se o silvo de um navio entrando na
enseada. O vento ondula as águas rasas do oceano. O horizonte está vermelho como a
cidade.

Porque não pode mais aguentar a excitação da demora Haofuqīn Dunguski acende
um cigarro. Jantara com Gerhardt , Leslie e outros amigos. Uma grande confraternização.
Recolhera-se ao quarto de hóspedes para descansar e foi providenciada uma jovem bem
novinha. Margherita. É demais para um homem de sua idade com problemas de coração.

- O que tanto você faz nesse banheiro?

- Nada demais, queridinho. Só quero ficar bem cheirosa. Você está pagando bem,
merece.

Não voltará para casa. Não há nada para fazer à noite. Não há como conhecer
um rapaz que lhe dê a existência que deseja. Hábitos que não se renovam. Sonhos
ultrapassados na esperança do futuro, o que retira do futuro a esperança. Vida arranjada
por velhos satisfeitos com suas casas e com seus quintais pálidos e inertes. O pai diante
de um copo no balcão do armazém mexericando com vizinhos sobre vizinhos mais
distantes. Lá também se celebram acordos acerca dos filhos como no século passado. O
meu para a tua. É o que a espera. Então em Tundra não pode ser pior

- Dinheiro não é tudo. Venha logo se sente algum afeto por esse velho.

Ele realmente não aguentava mais a demora. Mas Margherita demorava.

Não é o que esperava. Dorme em quartos fétidos e suporta o que não se julgava
capaz. Até que come bem. Não há príncipe encantado e um velho desses fixo pode ser a
redenção. A mãe não sentirá sua falta exceto nas lamentações com a comadre. Saiu com
o namoradinho no final do dia de colheita pelo caminho oposto de onde estava o
caminhão. Irá abandoná-lo assim que chegarem. Tem tudo planejado e dá ainda a sorte
de encontrar Hilma embora desconfie que o modo gentil como a trata ultrapasse o
simples afeto.

Dunguski se esforçou por pensar noutras coisas. Nos projetos da organização.


Com o coração cheio de orgulho lembrava de seu discurso no jantar com o qual
introduzira Gerhardt Molinari. Dunguski o descobrira. Quando retomava o controle,
ouviu a voz de Margherita.

Ela se aproxima e senta em seu colo beijando e mordiscando sua orelha. A língua
faz uma massagem lateral no canto da boca do homem que encontra por dentro do
vestidinho um mamilo nascente. A outra mão entrou por baixo e segurou uma coxa. Ela
se levanta. Começa a remexer os quadris ao som do ritmo que entra pela janela. Dunguski
contempla deslumbrado. Margherita pega a barra do vestido e lança para o alto. Enquanto
suas pernas apareciam e desapareciam desabotoou o decote e dançou assim uns minutos.
A voz de Dunguski se junta ao som frenético dos trios elétricos.

- Venha. Safadinha.

- Calma - disse ela. Ela quer merecer cada centavo.

Ele já disse que não se importa com dinheiro – Quer ver?

Tirou três notas de um maço e lançou. Sem deixar de dançar ela se abaixou e
pegou. Colocou-as num bolsinho estratégico entre as flores de algodão.

Dunguski pensou que decerto não havia entre as prostitutas de Tundra outra tão
cruel. Quanto tempo vai levar esse jogo? Mas não reagia senão com a resposta viril
porque se agradava dessas coisas.

Ela abre mais o vestido e tira-o por cima atenta ao dinheiro ao enrolar a roupa
sobre a cadeira. Bamboleando se aproxima da cama onde Dunguski está sentado e senta-
se de novo em seu colo. Os longos cabelos negros aos cabelos grisalhos se misturam e
um dedo procura seu lugar. A mocinha tem um breve estremecimento antes de olhar para
cima com o rosto no ombro do homem.

Pela fresta da janela. Em direção ao quarto do casal.

Ela pede um laço em seu vestido de gala. Ele a atende. Costas lácteas desde os
montes. Ele não gosta de festas mas não irá dizer isso e perder o momento em que
estiverem voltando. Em que não chegarão a voltar. Nem se ocupará dela o quanto
deveria – o quanto pensou quando olhou por dentro de seu vestido. Esteve antes
deslumbrado com o bufê e os convidados poderosos que tinham de aturar sua presença
justamente por causa de Leslie. Sequer chegaram a dançar. Ouviram sentados a música
que pairou na fumaça em que o brilho do corpo dela desafiava a pouca visibilidade.
Olhos e lantejoulas. À saída veio o súbito gesto que juntou os corpos arfando como se o
desejo acompanhado da agressividade que ela adorava estivesse chegando em
retrospecto. Como se a forma como a devorava tivesse nascido ali no quarto de hotel sem
qualquer relação com o abotoamento do vestido ou o deslumbramento no salão de baile.

Leslie Molinari fala com o marido de costas para ele. Observando o movimento
no quarto de hóspedes. Se Gerhardt está tão vacilante há alguém que pode agir
imediatamente. Espera apenas um sinal. O rosto inesquecível não demonstra emoção.

- Não! Ele corre até a janela. Não! – agarra a mulher pelos ombros e a sacode.
Mande-a embora! O que pensa estar fazendo? Perdeu todo respeito? Mande-a embora!

Estava compadecida da fragilidade de seu homem. Um tanto decepcionada.


Desculpe. Não era minha intenção. Ama-o. Mas precisa ser dura. Não gosta de ser assim.
Desculpe, amor. Pensei que pudesse ser difícil pra você pelo teu envolvimento. A garota
não tem nenhum.

-Mande-a embora – diz ele. Farei o que eu tenho de fazer.

A mulher segura as mãos de Gerhardt com carinho e depois se solta. Vira-se de


novo para Marguerite. Faz sinal de negativo. Ele olha para uma e para outra. Para
Dunguski . Por fim os olhos se perdem no vazio. Tudo bem. Seu amor e seu desejo aos
quereres de Leslie se vinculam.

-Deixemos pelo menos que ele termine.

Margherita passou pelos seguranças. Leslie observa. Chegou a hora – disse. Está
iluminada. Cada vez que Gerhardt se decidia pelas suas vontades, sentia-se rejuvenescer.
Ele não se lembra mais como as coisas chegaram a esse ponto mas não pode culpar a vida
sexual perfeita por tudo. Uma coisa sabe: acompanhou um devaneio maldoso típico de
Leslie e depois como sempre não conseguiu sair dos labirintos em que ela se sente tão à
vontade. Deve ter sido isso. Não faz mais diferença.

Descem. Leslie pôs água para ferver. Gerhardt observava pela porta entreaberta,
pelo corredor de casas, a lua no oceano. Depois ficou olhando a própria sombra na
parede, com irritação.

O olhar da pequena Leslie busca alguma coisa no alto. Maravilhada e todavia


não é mais que uma manhã igual às outras na fazenda. Cinza prateada em meio ao gado
e acima de sua cabeça apenas o céu corriqueiro das manhãs de inverno. Logo o sol em
meio às nuvens. Ecos da pessoa que sobe os degraus. O assoalho vibra e as paredes
estalam. Chama pelo irmão. O que sabe ele sobre o mundo? Decerto algo. Tantos
ensinamentos do pai e proporcionais punições. Sombra e luz uma coisa só. Mortos e
vivos na mesma dimensão. Conte-me aquele seu sonho de ontem. Hoje ela sonhara algo
parecido. O irmão tem controle sobre a dor. Queria ser como ele. Mas não poderá amar
assim o homem com quem venha a se casar. Tão pequena e já pensando nessas coisas.

Saindo ao pátio, a mulher chama a atenção imediata dos homens. Havia pouco
diziam gracinhas para Margherita. O quanto devia ser deliciosa e coisas tais. Mas surge
diante deles uma deusa na presença da qual a jovenzinha desaparecia, pulverizada.

- Olá rapazes – diz a deusa. Ela pensou que uma xícara de café viria bem. -
Suponho que estão com sono. - djsse. Bebemos muito e vocês ainda tem de virar a noite.

Era verdade. - Obrigado. Obrigado, Leslie.

– E então?

– Divino – disseram desvendando o conjunto transparente de camisão e pantalona.

Cresceu e foi como pensou. Diante de seus olhos enevoada manhã de inverno mas
seus olhos não são os mesmos após a viagem ao longo dos anos nos arrepios de seu
corpo. Os arrepios de seu corpo esses são quase os mesmos. Gerhardt do outro lado da
cama deitando-se com a expressão fechada. Será que ele nunca irá entender? Talvez
quando estiverem entrados em anos. Quando a chama estiver naturalmente mais calma.

Na noite fechada e fria no bairro de Inbhir Nis o homem se aproxima do


rapazinho assustado. Sabe que horas são? — pergunta.

– Não sei, pai; talvez umas onze.

As mãos trêmulas se tocam.

— Toma esse livro. Quero que fique com ele. E com isso também – acrescentou
Zenque, entregando a mochila.

Estava mesmo muito escuro. Gerhardt é uma sombra. —Olá, amigo — disse ele —
tudo bem?

— Tudo.

— Estava pensando...

— O que é?

— Acredita que no que o velho disse sobre teu filho?

O menino Gerhardt . Do outro lado da cidade numa casa mais que humilde,
insalubre. Sai e sente o ar úmido como um cântico religioso. E os olhos ávidos da mulher
que estendia roupa no quintal. Nesses dias nada poderá acontecer entre eles mas se
contenta com a beatífica visão de pés descalços na grama. A silhueta pintada no lençol
do varal e os movimentos do leve vestido entre lençóis. Coração disparado e passos
lentos. Imaginou o passar do tempo e o tempo efetivamente passou. A figura que do outro
lado da cama hesita e enfim se levanta é ela. A tia será ela. Vive entre essas criaturas. A
mesma. Se satisfaz com isso. Olhares furtivos e despercebidos. Pela moça com quem não
for assim, irá se apaixonar.
Leslie e Gerhardt se levantam cada qual pelo seu lado. Ele passa as mãos em
concha pelo rosto como numa prece. Se não entender logo será dissolvido num mundo
sem cor, real demais. Ela olha para ele. Vai falar alguma coisa que engole na inspiração;
vai olhar para ele e abaixa os olhos quando ele se levanta. Existe mulher que não tripudie
sobre a conquista amorosa? que possa receber um mimo sem se permitir mudar? que não
se satisfaça em ser mãe ou filha de seu homem e seja só sua mulher? Ele está disposto a
pagar para ver. Audácia, vingança e prova de amor.

Gerhardt espreita. Olha de minuto em minuto o relógio até o tempo da bula se


cumprir. Estão dormindo. Sai para o quarto onde Dunguski adormece. Precisa de pelo
menos dez horas de sono. Em casa costuma apagar antes que o locutor do telejornal diga
“Boa-noite”. A porta se abre. Estremece.

- Você me deu um susto, garoto. Aconteceu alguma coisa?

- Talvez você sinta frio.

- Em pleno verão de Tundra?

Dunguski garantiu que estava bem. Sugeriu rindo que Gerhardt se preocupasse
antes com sua linda esposa ou...

- Espero que você continue bem, paizinho, do outro lado.

A noite estava silenciosa, as estrelas pulsavam sobre a casa. Terror no olhar e


fragmentos indiscerníveis junto ao sangue. A música continuava alta na rua quando do
nada Maicon entrou. Nenhum músculo ou nervo do corpo de Gerhardt mudou de
comportamento. O verde gelado dos olhos fulminavam o inesperado personagem.

- Olha que barbaridade, meu amigo. O precioso sangue de teu pai de tal modo
derramado.

As lágrimas que brotam no filho não chegam a transbordar, nublam a vista. Esse
Gerhardt borrado é que ele vê, esse de quem Haofuqīn dissera “também é meu filho”.
- Não diz nada? – disse Gerhardt, a arma encostada no rosto do amigo. Maicon
sussurrou um inaudível “Você não é assim, o que aconteceu contigo, meu irmão?” Não,
na verdade não disse. Foi talvez o que ambos ao mesmo tempo pensaram.

Gerhardt se deteve diante de Zuìhǎn de Péngyǒu, à porta do quarto onde Haofuqīn


dormia

- Bom dia, senhor; ele já acordou?

- Ainda não;

- Eh que me pediu que o chamasse cedo.

- Tudo bem, venha.

Mas Gerhardt diminuiu o passo. Perguntou a McCartney:

- Ele parte hoje?

- Sim, Antes do almoço - deixam que Zuìhǎn de Péngyǒu entre sozinho. A noite
foi agitada, disse MacCartney.

- É, ventou muito; árvores caíram; o de sempre quando chove muito na cidade. E


disseram que ouviram gritos de dor. Talvez um gato.

- Não. Gritos de morte.

- Quisera não ter vivido para ver esse dia - Zuìhǎn de Péngyǒu saíra olhando as
próprias mãos ensanguentadas.

Gerhardt o olhava com expressão indecifrável. Nada pergunta. Zuìhǎn de Péngyǒu


tampouco nada diz além de inteligíveis murmúrios que Gerhardt podia supor. Algo como
assassino, profanação, templo do Senhor - Maquie, não estamos entendendo - diz
Gerhardt.

- Não me façam falar. Vejam vocês mesmos – Zuìhǎn de Péngyǒu vomita na


última sílaba.
MacCartney se antecipa e arregala os olhos diante do corpo ensanguentado;
Gerhardt o segue sei o que ela queria sei porque eu próprio queria mas não a esse preço
nunca ninguém poderá dizer um dia que eu sabia, eu não sabia o que é matar um homem
como se matar os que matei até ontem fosse uma outra coisa, eu não sabia que era
assim, meu Deus e por fim está ao lado da cama, os músculos de seu rosto são pedra ela
queria e pensava me manipular mas tinha que ser mais do que isso porque por mais que
eu a ame não sei ficar à sombra, nunca soube, mas não a esse preço, meu Deus. A cidade
está enevoada e mais vermelha do que nunca. Em alguma dimensão da audição Gerhardt
percebia os últimos jatos de um vômito Sempre levei isso em conta mesmo nos tempos
maus eu queria deixar um legado queria deixar alguma coisa para meu filho e não sabia
que morreria tão pequeno, oh Deus, terá algo a ver com essa minha mudança se é que
houve mudança? Simultânea ao relâmpago, a faca cortou o pescoço do vigia que
despertava. O outro fugia e caiu, afundando o queixo no chão, ossos se cruzando e
quebrando, sangue pela boca e nas costas. Gerhardt sai, enlouquecido, gritando
“Assassinos! Assassinos!” e entra em seu quarto, “Eles o mataram!” – disse, alto o
bastante para que de fora o escutassem. Abraçando-o, Leslie o beijou e percebeu o
sangue.

- Não podia ter sido mais limpo?

Observando perplexo o tremor das próprias mãos, Gerhardt vê tudo recomeçar...

Castanheiras acompanham a orla de Tundra. Praticamente uma continuação da


praia de Dois Anjos. Rente aos recifes passavam de quando em quando os barquinhos
com vultos inclinados. À direita de quem chega ergue-se o monte Santa Lúcia.
Imponente, assemelhando-se a um vulcão. Os quarteirões sobem quase verticalmente.
Quem olhe a sudoeste verá montanhas verdes algumas com casinhas nos cumes e cinzas
outras de pedra inóspita. O vento nunca para de soprar – muda de direção. No terral sabe-
se que a chuva não tardará. Entretanto às vezes tardavam tanto o terral quanto a chuva. A
viração traz um gosto de mar. As mulheres que ao longo do ano ansiosas esperaram a
temporada produzidas saíam. O barulho das ondas faz parte do cenário em qualquer lugar
da cidade e se você dormisse num outro lugar e durante o sono fosse trazido pensaria ao
acordar, antes de abrir os olhos, que estava chovendo muito.

Calor do fim de janeiro. Turistas festejam. Os nativos em minoria enveredam por


seus caminhos cotidianos. Sobrancelhas franzidas sob cenhos agitados. Gesticulam.
Falam com os que caminham ao lado. Outros sozinhos. O verão para os homens que
trabalham num balneário às vezes de terno enquanto as mulheres seminuas desfilam por
toda parte faz coisas assim. O calor agita e não raro transtorna.

A pequenina Tundra tinha alma de metrópole. Determinadas horas do dia as


pessoas se acotovelavam ao longo da rua principal sobretudo ao entardecer ou indo para
as pousadas ou para os restaurantes ou para a Câmara do Comércio ou para as lojas. Para
a prefeitura ou – como Berebger naquele dia – para o Grande Hotel. Ele veio comemorar
o êxito do grande projeto e agora se prepara. Por ele passam advogados e políticos, donos
de bares e banqueiros, hienas, macacos, tigres e palhaços. O circo está na cidade. Um
investidor em camisa polo e calça de algodão pendurado no celular. Saindo da praia
musculosos e alegres rapazes de sunguinhas se exibem com amigas em lycra enfiada. A
crente gira a sombrinha e a católica ginga cheia de compras. Moças cansadas voltam para
casa depois do dia de trabalho nos hotéis e outras passam por elas antecipando-se na
mesma situação dali a algumas horas. As horas da noite. Lavadeiras, arrumadeiras,
passadeiras e cozinheiras suportam os olhares de assédio dos turistas que compraram
cidade e habitantes quando alugaram uma casa para o verão. Quem dera fosse uma
homenagem, pensa Isabela. Que pena ser apenas devassidão.

Um, dois, três. Os namorados sempre sao de fora. Depois nao aparecem mais. Ela
até viu um deles certa noite naturalmente com outra. No ano seguinte aparecem e a
procuram. Junto das ondas douradas pára e pensa. Olha a lua, uma esfera de ouro. Nunca
viu uma assim. O empurrão por detrás a joga na água exposta à onda seguinte, roldão de
espuma. Um, dois, três. Depois de tudo, vão embora. O trovão se mistura com a voz que
a insulta. É isso o que eles são. Isso é o que querem. Nada de sério sequer romance de
verao. Só se divertir e que diversao estúpida. Não mais esperará nesse tipo de
envolvimento. Melhor profetizar que viver. Sozinha, está acostumada. Prefere a solidão e
o silêncio. É terrível ver o que não podera impedir; mas é assim que funciona, belíssima
Cassandra. Ser negra e venusta eh sua maldição.

O brilho da noite de Tundra tremeluz nos olhos nervosos de Gerhardt. Os músicos


e cantores dos trios exercem seus talentos com a mesma naturalidade dos traficantes. Dos
que nos quiosques marcam encontros abomináveis. O policial diz que passará ali em
cerca de uma hora enquanto rodeavam as árvores da praia. Podiam ouvir sem serem
ouvidos e ver sem serem vistos como num jogo de escoteiros e efetivamente escutaram
desde uma jura de amor até o planejamento de um crime, impressionando-os as duas
coisas de modo igual, não os impressionando. O calor era demasiado mesmo para uma
noite naquela região. Por isso talvez a demora do policial em ir atender ao outro som que
clamava vindo do rádio de seu carro. Como quem diz O que posso fazer, deixa o outro
junto a uma das árvores e pega o microfone no qual responde e sabe que houve um crime,
é preciso providências. Fica para mais tarde, para de madrugada – diz ao retornar ao
arvoredo. Combinado – diz o outro, como se não tivesse importância. O carro de polícia
canta pneu e some.

Começando os cultos nos terreiros. Casas simples de pescador. Paira a energia do


choque entre tradições corrompidas e viscerais. o Orixá supremo e o Jeová bíblico
debatem acaloradamente e depois se juntam num abraço que se faz sentir na terra. A luz
nascente testemunha a fantástica mistura de raças. Descendentes dos negros naquela
enseada um dia traficados. Parentes dos portugueses que os vendiam. Velhos índios.
Novos alemães. Eslavos, norte-americanos, cafuzos, mulatos, mamelucos, drogados,
devassos, corruptos e beatos.

Relampeja sem parar. Lágrimas nos olhos da mãe. Sua mão repousa um
crisântemo no peito inerte da criança. Gerhardt passa à janela. Diante agora do Grande
Hotel envolto no nevoeiro. Entradas de pinho, escadas de mármore, espelhos de prata,
arabescos de gesso. Um cheiro acre rescende longe. Nos cartazes com mulheres nuas
reflexe o fogo alto e trêmulo no terreno baldio ao lado. Hostes de vagabundos que
estendem mãos súplices. Com Gerhardt estava Zenque. Um homem pardo, pacato, de uns
38 anos. Pneus trepidam atrás dos dois. O grupo de moças sai com estardalhaço, eles
entram. Zenque senta-se ao lado do balcão. A última que passou por eles tinha uns vinte e
dois anos puídos no rosto por excesso diário de pintura. Parecia doente. O mais velho de
seus três filhos mexia com drogas – ela confidenciava há segundos com seu
acompanhante. O barman percebeu imediatamente o que estava para acontecer e mandou
que a esposa não entrasse com o papel que tinha nas mãos, uma conta não paga decerto.
Gerhardt deslizou como um espectro, um terno de grife apenas, célere no salão. Caminha
diretamente para a mesa no canto esquerdo. A mão dentro do blazer. Cumprindo seu
dever. Ao fundo um zumbido poderoso e irritante. Quatro homens sentados sem tempo de
reagir. Dois quase conseguem. Fuzilados por tiros vindos do balcão. A moça que seduzia
o homem tomando uísque em meio aos próprios gritos tenta fugir mas a bala perdida a
colhe na jugular e se aloja na cartilagem. Ela cai e o sangue anuncia a morte. Lá fora a
noite negra adequada a todo tipo de espíritos.

Passos no vento ruidoso. Casas amplas. Uma igreja. A praia. Os conhecidos viram
o rosto na rua e mudam de calçada.

- Sim, excelência, acredite. O menino Gerhardt matou-os a todos que planejavam


o golpe.

Mostrará a eles. Não repetirá a atitude gentil sempre interpretada como


subserviência. Mas não adianta. Daí a importância dessa moça.

Grande Gerhardt! Retirou de dentro do jeans mais que a satisfação de um desejo.


Levanta-a e gira com ela. Leslie não pode deixar de se comover apesar de achar
repugnante esse tipo de gentileza. Mas não é mais um menino. O deputado casou com ele
a filha única. Ela deu todas as deixas mas ele não entendeu.

Sabe o quanto a decepciona mas não podia deixar de dar a ela a oportunidade de
respeitar um outro tipo de homem, outro tipo de prazer. Há de existir um equilíbrio. O
relacionamento deles é especial, tem de haver um equilíbrio. Não estará mais abatido.
Fará com que ela acredite em coisas novas.

Assaltou, furtou, extorquiu. No primeiro roubo ventava assim. Seu coração


disparado. O sorriso simpático se sabia sedutor mas não era hipócrita. Sabe-se lá que
extremo a atraiu. Foi um dos extremos sem dúvida. Porque ele era na maior parte do
tempo um rapaz como os outros fazendo os que os outros faziam e tendo sonhos
semelhantes.

Por isso se aproximou da defensora pública.

Uma mulher bonita, elegante, respeitada na comunidade. O primeiro alvo do


ciúme de Leslie. Também a causa da consolidação de seu amor. Andava de lá para cá na
sala, preparando bebidas e sorrindo, sedutora. Ele teria preferido que ela não fosse tão
óbvia. Que fosse como Leslie. Nenhuma será. Insano pôr em risco sua intimidade com
Leslie. Não há outra Leslie. Esteve perto de dizer alguma coisa. Recusar os favores da
advogada. Aí sim teria perdido o seu amor e Leslie não o teria levado a sério. A imagem
refletida na entrada do prédio escorregou para a janela lateral enquanto ele entrava.

– Seu pai pediu que eu a buscasse. É tarde.

– Ele me trata como se eu fosse uma menina.

Ela era. Sempre seria. A lua impedia que as ruas de volta para casa estivessem tão
escuras quanto o deputado dissera. Subitamente pede que ele a beije. Foi assim. O
empregado e a filha do patrão. Ele aproximou os lábios dos lábios mas os encostou na
pele perfumada do rosto. Esteve ali, o rosto na direção do vulto que subia as escadas, sem
idéia da fúria que sua deferência causara. Sem a qual (deferência ou fúria) não estariam
agora no quarto dela.

Mas que ele não pensasse que era assim tão fácil com todos. Ou que quem
desdenha quer comprar. Ela não é assim. Sequer acreditava em felicidade. Não será feliz.
Não importa com quem esteja. Quando muito terá o prazer doentio que compensarah não
ser saudavelmente feliz como todos buscam. Não precisa de bons sentimentos tanto
quanto não de segurança financeira. Ele por sua vez precisa possui-la e ter a si mesmo.
Era um ótimo acordo.

Um homem correndo no jardim InbhirNis defronte ao parque de diversões. É a


casa de Dunguski. Embarcados de um navio liberiano apareciam num e noutro lado da
cidade. Entra e resfolegando interrompe a reunião. Dunguski fazia cálculos e
determinava nomes e datas. Parou. Meu Deus, Leo; o que houve?

Berebger e se uniram. Planejavam um golpe. Molinari descobriu. Molinari os


matou.

- E onde está Molinari?

Raiou o dia. Molinari e Zenque escapam pelo amanhecer. A pé sem um destino.


Sobreviver até as coisas esfriarem. Atentos a qualquer um que se assemelhasse ao
estereótipo.

– Você conhece esses caras? – perguntou Zenque .

Oito homens recostados em dois carros com as portas abertas. Seriam homens de
Berebger? Zenque responde que não ficará ali para descobrir.

No minuto seguinte escutam o som de motores. Enveredaram por ruelas


despistando os perseguidores porém Tundra não é tão grande. O país inteiro é pequeno
quando se trata de homens visados pela Sociedade, ainda que por uma facção dela.

Uma porta entreaberta. Entreolham-se e silentes concordam. A deliciosa mestiça


lá dentro sorri para eles. Por aqui – diz ela. O oluô os espera. Desconcertados entram no
aposento.

O futuro deus chorará. O futuro inimigo, hoje amigo, estará morto. Você tem sido
um homem justo. O que aconteceu, Gerhardt ? Teu amor não pode ser motivo. Sinta seu
sangue e as alterações visíveis. A lascívia dos teus olhos e a infidelidade de teu coração.
O sol amanhã será o mesmo que hoje, e você? Não tema o que mundo teme nem deseje o
que o mundo deseja. Chamas trovejam nos corredores. Meu filho é o filho dele. Por que
não poderia ser? Um baque. Um nó no estômago. Escuto, vejo. Eu, Isabela, a maldita.
Não queira saber.

Não é de todo uma situação desconhecida. Gerhardt lembra-se da tia. Mulher


estranha. Inspiração de fantasias mas muito estranha. Agora na fumaça de incenso devem
surgir imagens e velas, charuto e cachaça. Ou um velho sentado à mesa e búzios
espalhados. Fique à vontade, meu filho. Sentou-se. Zenque permanece de pé, vigiando
pela janela. Gerhardt na verdade não se preocupa tanto assim com o futuro. Não tirava da
cabeça a mulata que os recebeu. Não tia, não é que eu não acredite nessas coisas. Mas
não posso me concentrar. A senhora não percebeu que não sou mais um garoto? Não
imaginava que devotas podiam ser tão lindas. Mas nada que se comparasse à sua mulher.

O que reserva afinal meu destino?

Grandes coisas no futuro imediato, você não suportaria ouvir tudo, não agora, é
assim tão terrível?

Depende, diga, quando estiver preparado, quanto, não levarei em conta a ofensa,
diz o velho.

As mulheres intuíam que ele sabia coisas além das coisas que um homem costuma
saber. Tinha um jeito simples e direto de as levar a deixar fazer o que ele queria fazer,
sem intimidação ou assédio, em meio a risos sem constrangimento. Ele não vai senão até
onde elas querem que ele vá, nada menos. A mãe sabia que daria um bom médium. Ele
talvez tivesse motivações diferentes para seu dom. Angústias surgem inesperadas nas
conquistas noturnas desde os quartos menos prováveis. Ele se admite assustado com as
visões. Quando do desejo satisfeito, não estava minimamente realizado. Perda de um
tempo de vida essencial.

- Na verdade a maioria tornou o dom um comércio. São mais ofensivos do que tua
insinuação. Não preciso de dinheiro. Gerhardt guarda o bolo de notas. E o que quer?

- Que você fique quieto.

Enfadado com o médium, faz menção de sair. Desculpe, mas preciso ir -

– Você será grande.

Han? – O mais querido e também o principal. Conquistou um lugar. Mas não se


deixe levar pela ambição.

Não acredito nessas coisas. – Acreditará quando ganhar na loteria no domingo.

Era como se Zenque não estivesse ali até que falou.

- Vamos - disse ele. Não corremos mais perigo.


– E quanto a você, Zenque , seu destino será trágico.

- Ah sim? – Sim, mas haverá compensação, seu filho herdará o lugar que você não
terá.

Meu filho? O velho realmente nada sabe. Não há oferenda no mundo que desvie
Benévolo de seu caminho. É um jovem e promissor advogado. Jamais se meteria naquele
tipo de negócio. – Não enquanto eu estiver vivo.

— É você que está dizendo...

— Vamos — diz Gerhardt ao perceber que a profecia abalara o companheiro —


Vamos embora.

Estão saindo e trocam um longo olhar com a jovem mestiça.

— O babalaô não erra - diz ela. E pensa no que profetizou no dia anterior: que ela,
Isabel teria um filho de olhos verdes, como os de Gerhardt . – Escute-o

Mais do que por amor ou por desejo casou com Leslie Henning. Precisava de uma
companhia para enfrentar o mundo. Porém com o correr do tempo ela percebeu uma face
dele que não conhecia ou pensava desconhecer: a determinação, a vontade férrea. Então
não seria correto dizer que a ascendência de Leslie sobre ele era absoluta.

Mas estremecia diante dela. Como para um bebê a presença materna: terá seu
próprio caminho ao crescer. Essa devoção desnuda uma timidez que a marginalidade não
destruiu mas exacerbou. Um homem meigo. Demais. Apaixonado, demais. Bondoso
demais. E como ela também o amava demais, era preciso harmonizar a vida do casal
num mundo hostil e ela tomou para si ser a sua força. Para não deixar de amar seu
homem, fazia com que os méritos coubessem sempre a ele. Ela o acendia; mas ele era o
fogo.

Ele perguntou se alguém ligara. A dona da pensão respondeu que a sta. Henning.
Não é a filha do Doutor Joaquim? Estou fazendo um serviço para ele. Não deixou
recado? A mulher disse que ela o encontraria em frente à Assembléia. Gerhardt estava lá
na hora mencionada. Encontrou-a lendo um livro que não podia imaginar que a
interessasse. Ela fez perguntas sobre assuntos ligados ao pai e ele respondeu
objetivamente. Ele fez perguntas sobre ela. Não creio que seja da sua conta. Ele
perguntou se aquela atitude era por causa de um beijo no rosto. Ela disse que talvez. Que
isso tampouco lhe dizia respeito. Se você me atraiu um dia, esse dia passou. Então ele
passou a falar do livro que ela lia e de outros similares. Leslie se surpreendeu. Não
importa se amor ou paixão ou respeito ou afeto, tudo começa na admiração. Com que
então ele mais que gosta do que ela gostava, a compreende. Dará partida e o carro irá
para um bar afastado do centro. Pessoas para lá e para cá, burburinho. Ele tem mais a
dar do que ela podia imaginar. Ela está tensa, imagine. Excitada como nunca. Como
quase nunca.

Quando Gerhardt disse que iria à boate acabar com Berebger, Leslie deu todo
apoio, sem o qual não teria ido. Não por ter ela qualquer coisa contra o inimigo de
Haofuqīn. Pelo contrário. Admirava todos os que não se submetiam. E não gostava de
Dunguski . O que fez um dia pelo menino Molinari fez com o intuito conseguido — a
gratidão eterna de alguém cheio de potencial; um jovenzinho rebelde, inseguro, disposto
a fazer qualquer coisa contra a lei que não o protegera de uma infância infeliz. Agora
Leslie passava momentos de angústia sem saber como as coisas haviam transcorrido.
Esperava o marido, ansiosa. Onde estaria?

No outro lado da cidade, os homens enviados por Dunguski encontraram


Gerhardt e levaram-no ao patrão. No interior de um aposento luxuoso e sombrio,
Dunguski Dunguski discursa para um pequeno séquito. — Você foi achado nas ruas
negras da madrugada de Empatia atrás de droga e trazido para nosso seio. E se mostrou
digno de confiança – falava mirando diretamente o rapaz mas logo ampliou o olhar para
todos – Nossa Sociedade é algo de que um homem pode se orgulhar em ser membro.
Debatemos o futuro da humanidade. Vigilantes, retiramos de seu convívio os que não
merecem fazer parte dela. Somos uma família que gosta das coisas boas da vida.
Gostaríamos que todos fizessem parte mas nem todos estão preparados. Berebger é uma
prova viva do que estou falando.

– Uma prova morta – comentou um dos homens.

Todos riram.

Dunguski prossegue:

— Queremos que floresça a fraternidade. Pretendemos influenciar nações no


sentido de nossa filosofia de vida baseada nessa fraternidade. Temos tutano. Somos a
medula da sociedade. Bem-vindo, Gerhardt Molinari.

No quarto da casa de Gerhardt , distante cerca de dez minutos de carro (vinte de


bicicleta, quando Gerhardt trabalhava como mensageiro), Leslie pensa em Dunguski . Na
terrível influência que exerce sobre seu homem. No quanto Gerhardt o admirava àquele
ponto de matar por ele. Matar. O que definitivamente não era coisa fácil para ele. Tinha
horror a sangue. Desmaiara ao presenciar o parto do único filho do casal, que ainda com
poucos dias de vida morreria. Leslie não gosta de Dunguski . Não gosta nada de
Dunguski . Fala de família, de comunidade futura livre das mazelas do presente.
Hipócrita. Estavam unidos sim mas não por livre vontade, por medo. Uns dos outros e de
não saberem viver uns sem os outros.

- Sem nossa sociedade secreta, o que seríamos? Quantos fomos ajudados por
irmãos quando estávamos à beira da ruína? Quantos salvos da miséria pela caridade
fraternal? E agora, os que foram salvos, são eles próprios instrumentos de salvação!
Quem está livre da violência e da desumanidade do mundo? Poderíamos ser mortos por
esses tantos desgarrados que andam loucos por aí. Teria sido assim comigo se não fosse a
iniciativa desse bravo rapaz. Sem que ninguém mandasse, ele decidiu cortar o mal pela
raiz!

Entretanto deveriam observar que, além dos rebeldes, ninguém fora ferido no
atentado da boate. Gerhardt tivera esse cuidado. Evitando o olhar de Zenque , não pode
ele nesse momento deixar de pensar na mulher do balcão.
Alguém avisa. Senhor, aqui estão alguns dentre os que chamou. Entram os
homens de Berebger. Não se assuste, meu caro Molinari. Eu os mandei vir aqui. Queria
lhes falar. Não podiam ser tão insanos como aquele perdido. Escutariam. Porque acima de
você estão os interesses de nossa sociedade mas abaixo de mim agora você é o primeiro.
Herdeiro de meu lugar e da gestão de nossos negócios.

Ouviu-se um burburinho respeitoso. Dunguski falara.

Gerhardt sorriu discretamente. Mais tarde, ao descer no elevador, ele estava nas
nuvens. Dunguski falara. Ter o dom da profecia é algo extraordinário. Desde o princípio
simpatizara com aquela gente. Embora o velho nada tivesse feito além de verbalizar o
inevitável.

Quando Gerhardt chegou em casa Leslie dormia profundamente. Tem um


primeiro impulso de acordá-la e compartilhar a alegria. Ecoam em seus ouvidos as
congratulações de seus empregados, homens que Dunguski lhe destinara para a
segurança pessoal. Agitação na alma, e ver sua mulher, nereida branca em pala de renda
sem abotoamento, não era calmante.

Ela está de lado, a barriga desvendada em tonicidade adolescente, os braços


recolhidos. Dá a volta na cama. Desvia os olhos para uma réstia de mar ao longe.
Suspira. Aproxima-se enfim da cama e senta. Leva a mão pelo sulco. Os feixes nervosos
enviam mensagem confusa de amor e animalidade.

Depois, Gerhardt conta a respeito do velho.

- Oluô? O que é isso?

Um tipo de médium. Um babalorixá. Não sabe se o nome é esse. O que importa é


que acertou em cheio. Sim. Impressionante como. Vivera ali a vida inteira naquela cidade
de macumbeiros sem nunca se sensibilizar com essas coisas.

- E agora, porque a predição foi legal, resolveu acreditar.

Leslie está enganada. Gerhardt argumenta que ele mesmo não acreditou na hora.
O velho acertou, é um fato. Quando Dunguski morrer eu serei o primeiro.
- Vaso ruim não quebra fácil, meu menino.

Gerhardt não entende a implicância de Leslie com relação a Dunguski . Ele é um


homem bom. É como um...

– Pai para você.

Ela sabe.

– Não, só sei que você quer se convencer disso.

Dunguski ama Gerhardt porque fez isso, porque fez aquilo. Nunca embora.
Berebger foi fiel durante tanto tempo. Errou uma vez e se tornou anátema. E quem
arriscou a pele para eliminá-lo?

- E quem garante que amanhã não seja você?

O que é estar acima dos demais estando abaixo de Dunguski ? Permanece serviçal
só que com a inveja de todos. Só há uma maneira do que ele disse ter uma utilidade
prática.

Gerhardt têm o ar de um menino a quem roubaram seu doce. - E qual é?

- Ser o mais alto abaixo dele quando ele não existir mais. Essa hora já chegou, se
você quiser.

Leslie se põe de pé num salto. Teriam enfim as coisas que sonharam ao se casar.
Lembra?

A fronte de Gerhardt está banhada. Sem captar exatamente do que se trata, pensa
no que a mulher diz.

Quando se casaram nada tinham além do amor. E os planos. Viagens à Europa;


uma casa isolada nas montanhas; uma mansão na praia cheia de mantimentos e amigos
todo o tempo todo, que o tivessem na mais alta conta social. As recordações se
encadeavam. Aspira as duas carreiras que acabara de dispor no espelhinho, hábito que
Leslie abominava – mas dessa vez ela não reclamou.

Fez um carinho longo enfiando os dedos a partir da nuca, levando-o a um arrepio.


Filha do futuro que descortinara, ela anda com as palmas das mãos e os joelhos sobre a
cama. Beija-lhe o peito nu; beija-lhe a barriga. Amar Leslie preenche toda sua existência.
Enquanto ela usa os lábios e a língua, Gerhardt pensa que não resistiria se a perdesse.
Temia a separação. Vibrando deixa-se conduzir a um êxtase cheio de dilemas.

Bateram à porta.

Gerhardt enfia a calça e vai abrir; Leslie fica onde sua nudez não possa ser vista.
Chega à janela. Olha e vê Margherita passando na rua, toda faceira como sempre. Teve
pena dela. Tão menina pelas ruas. Invejou-a. Leslie chegara em Tundra aos dezesseis
anos. Queria se livrar da presença do pai moralista que em casa se transformava,
sobretudo dentro do quarto da menina. A vida correta que pregava era tão enfadonha que
precisava. Pior quando começou a menstruar. Ela lhe implora uma trégua. Ele não a
poupa, exige mudanças. Extrapolou, pensa ela. Tomou coragem e contou à mãe, que não
acreditou ou sempre soube. Se não tem prazer em ficar, é convidada a sair de casa.

Sozinha veio de Pai-Bó numa carona que a iniciou na prostituição. Tentaria mudar
de vida quando chegasse em Cascatinha. Lá o mercado de trabalho era bom. Conheceu
um rapaz em Tundra, um médico que em poucos dias de namoro lhe propôs casamento.
Estando ela em dúvida, pois não o amava embora não desgostasse de sua companhia,
aceitou o convite para lhe dar uma resposta durante um jantar na casa dele. Com que
então minha princesa ainda não decidiu?

— Por favor não se ofenda, mas acho que é melhor a gente continuar amigos —
dissera ela. - Está me fazendo de bobo? -Claro que não. Gostava muito de vc. Só que—

Ele avança com fúria. Rasga as roupas dela entre bofetadas. Violenta-a. Ela
espera-o numa tarde depois do trabalho. O que é? está querendo mais, doçura? A faca na
mão de Leslie desceu no meio dos olhos dele. Quando levou as mãos ao rosto, a lâmina
movimentava-se de baixo para cima entre as suas pernas.

Foge pelas ruas de Tundra em pleno carnaval. Viu Gerhardt. Ouviu? Leslie! Não,
querido... O que foi?

Dunguski pedira que ela fizesse um jantar bem gostoso. Dará a honra de jantar
aqui em casa. Leslie diz que precisavam comprar alguns fogos. Ah, querida... Não seja
sarcástica.
— Você é tão ingênuo. Não percebe que ele o humilha? Apenas usa você. Não
quero viver ao lado de um homem que se deixa usar assim.

Molinari estremeceu.

Ela disse que até faria o jantar. Desde que lhe servissem a morte de sobremesa.

Estava louca.

Se você fizer isso, me submeto com você a essa humilhação – continua Leslie
como se não tivesse ouvido o comentário. Que um outro homem mande a mulher
cozinhar para ele. Não vê? Só faltou pedir um prato especial.

Ele pediu, disse Gerhardt cabisbaixo.

Não acredito! – com gestos largos, Leslie levou as mãos à cabeça. O que ele quer?

Chuleta de boi na grelha.

Com ou sem pimenta?

Com pimenta e champignon.

Constrangido ele a viu dar uma gostosa risada.

Leslie olhou o tabuleiro e derrubou o rei. Gerhardt sorriu e ela devolveu o sorriso
que passou a transmitir antes orgulho que chateação. Olhe só. Com o dedo na umidade do
vidro ele traçou o contorno rude de um rosto que ria.

- Que horrível.

- Não tenho culpa. É o modelo.

- Ah, ah. Desenho muito melhor. Olha você.

Enquanto o outro rosto escorria, Leslie iniciou um novo. Gerhardt segurou sua
mão. Deixe, disse ele. Sei que seus dedos são capazes de melhor que isso. Você está
falando disso?

- Você não se cansa?

- Ela fechou os olhos, sorriu e se calou.


Haofuqīn se movimenta pelo jardim. Não chegava a ser uma figura que impusesse
respeito. Não era autoritário. Tocava as pessoas pelos flancos, como a cavalos que logo se
punham bem domados. Suas ordens eram a bem dizer carinhosas. É isso que Leslie mais
teme. Agora ele toca as pétalas das calêndulas que ela havia plantado. Como ela podia ter
escolhido alguém tão insignificante? Ela poderia ter príncipes, reis. O futuro nas chamas
de um fogão. Ele vai entrar, pare.

O rosbife fumega. Os talheres retinem. Dunguski já lhe dissera que estava linda?
Sorrindo, com vontade de derramar o vinho na careca nojenta, responde que sim. A carne
está deliciosa. Dunguski lambe os beiços. Bem temperada, tenra, perfeita, diz, olhando
de soslaio o colo de Leslie, que não se pinta mas gosta de decotes. Os outros homens
igualmente se fartavam. Macarrão importado acompanha o prato principal salpicado de
milho e atum. Carne de fato muito tenra. Leslie se esmerara em batê-la. Levou a cozinhar
o tempo certo. Tudo cronometrado para que todos ficassem satisfeitos. A aparência dos
pratos fez água na boca de todos. Fora um dia difícil. Ninguém relaxara. Agora, com a
adesão dos homens de Berebger, enfim relaxados, estão todos exaustos e famintos.

A adesão dos homens de Berebger... Os mesmos que pela manhã seguiam


Gerhardt e Zenque pelas ruas batidas de Tundra. Estão dispostos a seguir as ordens de
Molinari quando por alguma razão Dunguski não estivesse. O corpo de Berebger nem
esfriara estirado no Instituto Médico Legal de Empatia.

Limpam os lábios com guardanapos que apenas mulheres mais atentas


perceberiam encardidos. Então Dunguski fala. Deixem-me arrazoar um pouco mais
sobre esse rapaz cuja existência nos deixa tranqüilos. Alguém com tal zelo assim pelo
nosso bem e o bom andamento de nossos assuntos. Temos Gerhardt Molinari. Mais tarde,
todos já se haviam retirado, mas Dunguski deve ficar. Foi veementemente convidado
embora nem fosse necessária tanta insistência de Leslie para que passasse a noite.

A cadela...

- Leslie Molinari?

- Como descobriu meu número?


Precisamos conversar. Vá até esse endereço às nove da noite. Se eu não estiver
chegado ainda, pegue a chave do apartamento com o porteiro.

Por que ela deveria ir? Teve receio de fazer a pergunta. Fazia algum tempo que o
médico morrera. Séculos. Parte de outra vida. Se esse cara descobriu e pensa que irá fazer
chantagem, está muito enganado; mas o fato é que ela estava à mercê dele, logo
descobriu. Algemas de policial e terrorismo devasso. Despertou antigos desejos de dor e
morte que com Gerhardt haviam agonizado. Ela o escuta tirando o cinto da calça mas
descobrirá com as mãos presas para trás que não será com um objetivo óbvio. Está
aprisionada. Se Gerhardt fosse mais poderoso o homem temeria e desistiria antes que ela
passasse de vítima a cúmplice.

Gerhardt diz a Zenque que, sabe, estava pensando naquela ulorixá.

- É Ialorixá, senhor vice-presidente.

- Antes de tudo somos amigos. Deixe de bobagem.

Então, ele estava falando da filhinha-de-santo, a pretinha gostosa, ela disse que
Gerhardt levasse em conta a profecia, mas disse também que, se ele próprio não cuidasse
de si, nenhuma adivinhação viria em seu socorro. A cidade dorme no silêncio cansado de
outra noite bêbada. As folhas das árvores farfalham à brisa da manhã. Os que dançaram e
atravessaram a madrugada estiram agora seus corpos em qualquer lugar da praia.

Gerhardt é sincero quando grita, chora e amaldiçoa. Maldito! - Matei tantos para
preservar o padrinho, e de que adiantou? Leslie a um canto analisa a atuação do marido.
Não chega a se entusiasmar.

- Assassinos! Assassinos!

Durante o funeral, a figura imponente de Leslie chama todas as atenções. A seu


lado, Gerhardt recebe os pêsames. Os que o fazem, antes de sair, desviam olhos mais ou
menos sutis para a mulher. O que devo fazer? – pergunta Zuìhǎn de Péngyǒu à mulher. É
como se Gerhardt fosse realmente o filho. Observa que até o pessoal de Cascatinha, todos
estavam com ele. Prevê será o próximo. A Sociedade terá um final melancólico.

Não. A mulher dele, Zelhia, diz que não. Impediriam.

- Não temos como provar que Gerhardt é o assassino.

Ela sabe que sim. Que é ele. Que não podem provar.

Zuìhǎn de Péngyǒu sugere se afastar. Dar um tempo. O próprio Gerhardt em sua


ambição desmedida acabará por decair aos olhos daqueles que agora o têm por deus.
Aconteceria, sem dúvida.

- Sente-se, Zelhia, você precisa descansar.

Percebe o quanto aquilo está afetando a mulher e odeia Gerhardt na mesma


proporção de seu amor por ela. Por outro lado, caso se afastem, despertarão suspeitas.
Mas ele insiste. Vamos. Logo esse bastardinho terá corda suficiente para se enforcar.

Sentada na capela, Leslie passeia o olhar pelos presentes. Zenque trouxera seu
filho à cerimônia e o apresentava a todos com orgulho. Esse é Benévolo, meu filho,
recém-formado, um advogado. Todos ali todos eram clientes em potencial.

À noite, Gerhardt pergunta. Você viu como Zenque exibia seu filho a todos? À
beira da cama ajoelhada prepara-o e senta-se em seu colo. Ele tem um filho, diz ela entre
os gemidos; você, uma mulher. Sente o calor da barriga dele. Quando esgotado, suspirou
com força e relaxou de uma só vez soltando-se de costas na cama. Com a voz da mulher
em seu ouvido, deixa-se ninar e adormece.

O homem chamado Domenico liga e pergunta se é uma boa hora. Leslie diz que
sim. O sol tem um grau de sufocamento que em geral as paredes, tetos e janelas
costumam amainar. Faz um mês que se encontram. Ele sabe de tudo. Quem diria, está
preocupado com ela. Quando ela chegou chorando, ficou excitado e usufruiu o momento;
mas, logo que se sentiu apaziguado, suas mãos se enterneceram onde antes havia
dominação.

Chegou à janela do quarto. Vê um cachorro caminhando ao longo das árvores que


marginam a rua. Carrega um filhote de pelo muito liso e brilhante. Ao perceber a
presença à janela, começa a rosnar. Gerhardt apanha a arma e dispara sobre o cão que cai
no macadame enquanto seu filhote foge ganindo. Na rua alguém apareceu e apanhou o
animalzinho no colo, com um olhar recriminador para o homem à janela. Súbito ele atira
bem no meio do rosto de Gerhardt que sente a queimação da bala entre a boca e o nariz.

Sobressaltado, acorda e acorda a esposa. Conta o sonho em meio à respiração


entrecortada. E quando você irá cuidar do caso, querido?

- Respeito e admiro Zenque - diz ele, como se não tivesse ouvido. - É franco e
corajoso.

Ela se aproximou mais e ajoelhou-se no tapete ao lado dele. Com voz suave,
disse: - Mas está sozinho. E você está comigo – quase num sussurro, como se
cantarolasse.

Se olhavam no olho mas sem a normal solenidade sensual que costumava haver. -
Será que matamos a serpente ou apenas a cortamos? – disse ele. Não havia sequer o tom
de desafio do velho jogo de quem tem razão e quem no fim prevalecerá.

- Está feito.

- Vem, amor. Fica tranquilo. À noite verão o quanto você está bem e preparado
para ser o chefe por muitos e muitos anos.

- Não serei – a voz Zenque e Benévolo estão vivos.

- Não faz diferença. Vai ficar tudo bem.

- Você acha. Por que então você não está bem?

- Impressão tua, amor.

- Ele se impacientou quando o velho disse que eu seria grande - as cinco linhas de
expressão na testa suada de Gerhardt acompanharam a dobra da sobrancelha. - Que seu
filho ocupará o meu lugar, depois que Zenque estiver morto - O olhar cruzado
aterrorizou Leslie por um momento. – E se meu filho não me sucederá – circundou com o
dedo a parte do vestido que cobria a barriga da mulher – terei matado inutilmente uma.
Os dentes de baixo apareceram pequeninos, como um cão esboça a mordida que não dará.

- E o que você vai fazer? - mesmo acuada ela sustenta o olhar.

Então, antes da palavra na voz dele, saiu um assopro: - Não sei ainda. Mas fica
tranquila. Vai dar tudo certo.

A morte afinal nada muda para os mortos e tudo para quem fica.

Assim, diz Isabela, Gerhardt tem virtudes. O que o senhor acha? - Acho que você
está apaixonada.

Quem sabe seja bom para você fazer uma viagem, visitar seus pais. Mas ela diz
que não. Preferia ficar e ajudar no que pudesse. São tempos difíceis, paizinho. Ela não se
conforma porque Gerhardt sequer lembra dela quando eram crianças. O velho não a
repreende.

Esses meninos que jogam bola à sua porta – ele um dia – mostram o que importa
para quem queira ver e ninguém quer. Ninguém quer. Pouca coisa ainda é sagrada. A
música, livros, cinema. Agora eu sei, disse Gerhardt entredentes e entrou na casa. Que
amor é esse que me destrói e tudo a meu redor? Isabela gostaria de dizer que nem tudo
está perdido. Está calma. Ele entenderá a tempo. No fundo é um homem bom.

Para chegar, o mensageiro tem de tomar dois ônibus e pegar carona numa carroça.
Cerca de hora e meia. Zenque prefere assim. Morar longe do centro. Cultiva hortaliças e
mantém uma baia de porcos. 6 meses de vida e época da reprodução coincidindo com a
colheita. Sob os olhos do patrão, os empregados arrancam as brotações que curam à
sombra. Ali na terra em meio aos animais, caminhando entre as malváceas, ele se
esquecia da vida, dos negócios ilícitos e da saudade da mulher precocemente falecida. Se
ademais seu filho, que detestava a roça e a vida longe da cidade, concedia em ficar um
tempo com ele, como então, e passava as férias com o pai, Zenque Deckhorn sentia-se
plenamente feliz.

Levando a mensagem na ponta da língua, o garoto atravessa o Ixixe. Um dos


empregados, apesar de Zenque dizer que estava tudo bem, que o garoto era conhecido,
não tirou os olhos do menino até que partiu.

O filho pisa no pasto. Pergunta ao pai o que era. Molinari quer que a gente vá lá
almoçar, respondeu Zenque preparando o piquete para as porcas passarem o período de
aleitamento. Permanece uns momentos amassando distraidamente um tufo de forrageira.
É. Gerhardt quer conhecer você melhor. Isso enche Zenque de orgulho. Ficou
impressionado.

Mas como poderia se não trocaram mais que duas palavras todo esse tempo?

O problema com o filho eram as cismas, pensa o pai. Então lembra de como
olhava para Leslie e imaginou outras as razões de Gerhardt . Confessou-o ao pai. Ora não
não. Imagina se ele fosse ficar zangado com todos que olham para ela. Por outro lado,
não pense bobagens. Aí sim poderia ter problemas. O amor desse homem pela esposa é
algo quase doentio. E agora ele é o principal, tem poder de vida e morte. E vai ser muito
bom se você cair nas graças dela. Ela tem total domínio sobre Gerhardt .

– Patrão! Patrão! A gaiola de gestação está pronta. O senhor não quer ver?

– Estou indo!

Os empregados do sítio dormiram felizes naquela noite. Pai e filho mal pregaram
o olho. Zenque se lembrou de quando pedia carona e parou para ele. Na casa de Dunguski
, outro jovenzinho come sofregamente na cozinha. O filho sonha com gabinetes
ministeriais e púlpitos. Não deveria ser desde que soubesse dar outro nome a corrupção,
roubo e assassinato. Quando amanheceu, Zenque acordou o filho. Depressa, depressa. Os
pássaros estavam cantando. Canção do sucesso de Benévolo.

– Vamos!

Partiram pois pela manhã na direção do meio-dia em Tundra. Do almoço que


terminaria em ceia na casa de Gerhardt Molinari.
Manhã escura. Ribombar de trovões secos parece ameaças de Deus. A convulsão
dos elementos se dá em trevas densas. Pesadas nuvens pairam no céu. Torsos de pai e
filho se enrijecem. O carro parece atolar no rastro fundo. Cheiro de pólvora se mistura ao
da chuva. Tiros de todos os lados. Luz de relâmpagos nas metralhadoras. Zenque tomba
num rio de sangue. Benévolo grita pelo pai que, supliciado, pede ao filho que fuja.
Zunidos sobre suas cabeças.

Chorando, ferido no braço e na coxa. Saindo do carro e se lançando no rio, o


rapaz obedeceu.

Maldito Molinari! Os ventos que uivam sobre meu cadáver levarão a voz de
minha vingança.

Nos tilintares e na música em fendas e ombros num soustache Leslie se move


deslumbrando os presentes. A casa dos Molinari destacava-se iluminada e barulhenta
mesmo num lugar como Tundra na temporada. Na casa ao lado em outra festa era
comemorada uma arrecadação de um trilhão. Alguém diz que há pouco tempo sequer
seria capaz de imaginar tanto dinheiro. O interlocutor pensa que nem ele, e comenta num
tom de segredo:

- Às vezes penso o quanto um homem pode amealhar antes que decida parar, seja
dinheiro ilícito ou não.

No outro vizinho, apenas quem prestasse muita atenção ouviria uma voz em
murmúrio no que parece uma oração. No Bosque de InbhirNis roda a roda gigante.
Sombras das serras sobre o rio correndo para o sul. A lua polia as pedras da ilha. Danças
típicas prenunciam o carnaval. Latas de cerveja e cacos de garrafas nos caminhos da vila.
O mar busca o lixo dos turistas quando amanhece. Quiosques fechados. Cheiro de urina
nas laterais: sucesso da temporada que se abre. O sudoeste sopra entre à floresta de
antenas.

A silhueta de Leslie tomava conta dos convivas e isso ao longo das últimas sete
horas. De repente, todos se voltaram para Gerhardt. Está cansado de festas, fala alto,
quase gritando, com voz arrastada. Leslie abraça-o, afasta-o para um canto, pergunta o
que está havendo. Outras pessoas se aproximaram. Ela diz que não é nada.

- Feliz quem consegue viver como se nada tivesse acontecido – continua ele. -
Você não era assim, amor. O que houve contigo? – com a cabeça inclinada, olhou-a de
baixo para cima - O que houve conosco?

- Ele está trabalhando demais – disse Leslie olhando em torno. - Quer fazer por
merecer o lugar de Dunguski e às vezes exagera. Está apenas cansado. Quer verificar
pessoalmente os mínimos detalhes de tudo. Apenas cansado.

- Está é bêbado, murmura alguém.

Zuìhǎn de Péngyǒu aproxima-se, paternal: - Você está exagerando no álcool e no


pó. A tradição determina que os membros não se envolvam com essas pragas.

No quarto, Leslie ajuda Gerhardt a deitar-se. Ia desafivelar o cinto quando ele se


levantou novamente. Ela pede que se deite, ia fazer uma massagem, logo se sentiria
melhor. Ele respondeu que se deite ela. Ele vai dar uma volta. Sai e bate a porta atrás de
si.

Evita a sala onde estão os convidados.

Chega molhado no terreiro.

Ela chega antes dele no ponto de destino na direção oposta. Domenico continuou
fazendo o que estava fazendo no computador na mesmíssima calma aparente de sempre e
como sempre o coração disparado. Você parece exausta. Isso ela já sabia. Uma vida em
alguma momento deixa de estar atada a sexo, dinheiro e poder? Cores do trânsito de uma
cidade grande. Ela se perguntou de onde vinha a certeza de que tampouco Gerhardt
voltaria antes do amanhecer. Quando entrou e viu o outro ali absorto soube que era bom o
papel de mulher devota que procura um homem não só pelo prazer mas também pelo
consolo de saber ou imaginar que terá no fim esse bônus entre amarrações e investidas.
Há todo um transtorno no apartamento e a porta que se abriu para ela se abriu para o raro
momento de se sentir menina com tendências anormais mas que trarão o céu. Um dia ela
verá sem mais culpa o homem no outro lado da sala junto à janela aberta para o ruído
urbano de que sente falta em Tundra, ou quem sabe um dia Gerhardt aprenda e fique tudo
bem, porque jeito é o mais importante e isso ele tem.

Como dizer o quanto ama o marido sem negar o amor daquele outro tipo de
entrega? Como se aconselhar com um amigo que fez aflorar toda a fascinação proibida?
Calma, Leslie, você precisa se acalmar. Ela concorda ao sair do prédio na luz diáfana. Se
apressa. Vai dar tudo certo. Como Domênico disse, está mais calma ainda que não se
sinta segura de que menos louca.

A mestiça cheira a ervas. Tão jovem... Dezesseis? Leslie tinha quinze quando a
conheceu. Sem dinheiro para filtro solar, estava queimadíssima. Passando por Isabela,
Gerhardt entrou no aposento bruxuleante.

O que queria?

— Sabe de mais alguma coisa?

Quem estivesse atento poderia escutar ao longe o bramido do mar sob o sol de
fevereiro.

- Não tenha medo. Mantenha o orgulho. Não se deixe levar sequer pela própria
profecia.

As águas subiam lentamente cobrindo os recifes em frente ao pé de tamarindo.


Pequenos caranguejos agitados iam de um lado para o outro nas cavidades de musgo e a
maré abafava o cheiro nauseante.

- Cuidado com Zuìhǎn de Péngyǒu. Faça a transição de volta. Liberte-me.

Atabaques calados mas ritmo de palmas. Um sorriso triste marcou o rosto de


Gerhardt e Isabela retribuiu. Sorriso alvíssimo. Um sinal fascinante na virilha.

Chove ainda quando chega em casa. Abre a porta. Uma figura branca na escuridão
do corredor. Esperam você na sala. Vá, querido. Parece que os empregados têm uma
notícia importante. Ele teria perguntado se era a respeito de Zenque , da razão de não ter
vindo à festa, mas ela parecia muito cansada. Tudo bem, diz; volte para cama, amor.
Parecia doente.
Na sala, os mensageiros disse que não se preocupasse mais com Zuìhǎn de
Péngyǒu.

O quê?

Gerhardt velava por Haofuqīn. Agora os homens de Haofuqīn velam por ele.

Do que estavam falando?

Molinari viu as ondulações na água que o menino bebia e entendeu.

Não!

A empregada bate à porta do casal. Chama. Dr. Zuìhǎn! O seu leite! Zuìhǎn de
Péngyǒu diz Obrigado abrindo a porta. Estou enjoado. Diz, virando-se para Zehlia, que
foi a comida daquela ordinária da mulher do Molinari.

- Ah, mas justamente por isso um leitinho cairia bem. Se você não quer, eu quero.

- Oi Maria, com licença; oi, mãe, queria lhe mostrar o vestido que comprei.

- Hum, que lindo, Hilma! Obrigado, Maria, pode ir.

A empregada desce as escadas. Volta á cozinha e pega a maleta. Fecha a porta


devagar. Os galhos pendentes da primavera alaranjada se arrastam em seu rosto. Ela
passou a mão no lugar, olhou o sangue no dedo e meteu-se no carro que a esperava na
esquina do sobrado.

Margherita parou do lado de fora da porta. Barulheira de coisas arremessadas.


Gerhardt e seus homens correm, imaginam vingança. Leslie gritava. Estava cansada,
cansada! Passava a mão sobre a mesa derrubando tudo. Não aguentava mais a
responsabilidade de tudo, cuidar de tudo. Não aguentava mais. Aproximando-se Gerhardt
quer saber o que estava motivando a fúria de sua divindade.

- O que está havendo? Ora - os olhos da mulher estão quase saindo das órbitas. -
O que há é que se você fosse um pouquinho menos dependente ela não precisaria ficar
tomando conta de tudo, nos mínimos detalhes.

- Não estou entendendo, querida. Que detalhes?


Tudo estava manchado de sangue.

Era apenas vinho.

- Calma, querida - diz ele e pede a Jeogshīe que providencie a limpeza. Tudo bem,
Gerhardt. Não se preocupe.

“Tudo bem, Gerhardt . Não se preocupe” – ela imita a voz e gestos de Jeogshīe.

Gerhardt fala que ela precisava relaxar. Também está cansado. Chama-a com um
piscar de olhos. Vamos para a cama.

Ela diz que não a aborreça.

- Vá para o inferno!

Está cheia dele, cheia! Cheia de tudo. Só quer um pouco de paz. Só quer voltar no
tem... – desmaia.

Foi um consolo ver a manhã. Momentaneamente dissiparam-se as angústias.

Margherita não entende por que devia ser morto um homem que teria dado tudo
que quisessem.

- Pois se deu a mim, senhora, veja. Nunca tive tanto dinheiro nas mãos - diz. Não
quer mais, seja como for, ir com outros.

- Você tem razão, menina. Fique conosco.

Desce, deixa a esposa dormindo. Quando o café é servido, a televisão exibe a


matéria da morte da mulher do empresário. Não falam em envenenamento.

— Por que não, senhor?

As palavras do empregado mal passam a máscara de dor em que se tornara o rosto


de Zuìhǎn de Péngyǒu. Enfim abre bem os olhos antes de encarar seu interlocutor. Use a
imprensa.
Não preciso da imprensa. Pensarei em Gerhardt quando aquela cadela tiver
pagado gota a gota o sangue de Zehlia. Porque jamais acreditou que qualquer coisa, boa
ou má, pudesse sair de Gerhardt sem haver saído antes de sua mulher.

— O que exatamente tem em mente, senhor?

Matar Molinari seria uma confissão; se a mulherzinha dele se acidentar será uma
coincidência. E ele sem ela estará morto. Quero que sofra. Depois terá tempo de morrer.

Alguém sugere que o rapaz, o filho de Zenque , poderia ser útil. Dizem que foi
morto numa emboscada com o pai, replica outro. A história de que desviara dinheiro e
fugira só podia ser trama de Molinari. Pela primeira vez em muito tempo apareceu algo
vagamente parecido com um sorriso no rosto de Zuìhǎn de Péngyǒu. Entrando na sala, o
jovem cumprimentou a todos e deu os pêsames ao viúvo.

Um espelho na parede frontal da casa de Zuìhǎn de Péngyǒu testemunhou a


reunião. Quando acabou, tudo estava planejado para após a morte de Gerhardt Molinari.
A viração entrava pela janela trazendo o barulho do mar.

Era um final de dia sombrio e silencioso. Durante toda a tarde as nuvens


caminharam negras e baixas pelos céus de Tundra. Pobres de nós, murmurava ao entrar
no quarto. Leslie não está na cama. Corre gritando pelos corredores que levam ao pátio e
ali Jeogshīe gentilmente o impede de prosseguir. A mulher andando de um lado para o
outro falava sozinha.

- Ele era um bom homem... podia proteger você... Uma vez ah chegou e disse isso.
Ia me proteger... Não queria que eu abandonasse Gerhardt só lhe prestasse uns favores de
vez em quando... Velho danado... Venha agora... Sei que está escondido por aqui. Hei
Dunguski ! Tudo bem! Estamos combinados! Só uns favorezinhos de vez em quando!...
Sei que o Gerhardt não vai se importar pois para ele você é como um pai... Nada demais
compartilhar coisas com os pais... Dunguski !...

Leslie era alta e a camisola esvoaçando fazia com que parecesse um fantasma
cheirando a naftalina, os pés descalços pisando o frio como em nuvens, os dedões sequer
tocando o piso.
Gerhardt puxa o ar. Fecha os olhos. Não perdeu a aura principesca dos velhos
tempos, mas emagreceu muito. Parecia até mais baixo, como se tivesse perdido alguns
centímetros. Por mais que pegasse sol, continuava muito branco e portanto as olheiras se
acentuavam. Seu aniversário é daqui a uma semana.

Eu queria a vida do velho de volta. É tudo o que eu queria. A vida do velho e a


cura de Leslie, sem a qual sequer há vida.

Estavam a dois ou três dias sem o corpo um do outro e olha a situação em que
estão.

Até as coisas perderam a vida.

As lágrimas do chefe fizeram Jeogshīe se apiedar. Ficam olhando para a mulher,


paralisados. Não. Dunguski não iria protegê-la. Só mimá-la um pouco. Mas isso
Gerhardt também faz do jeito dele. As formas magníficas transbordam da transparência.
Ela senta sob a castanheira no centro do pátio, bem perto do lugar onde servira o sonífero
aos guarda-costas.

Gerhardt não suportou mais. Nem sabia por que deixara que a cena se prolongasse
tanto. Força a passagem. Acordar alguém que está andando e sonhando, a pessoa pode ter
um ataque. Pára. Decide. Agradece pela preocupação do empregado, não a merece. Pede
que passe no escritório no dia seguinte. Gerhardt vai deixar a Sociedade. Acertariam as
contas. Talvez Jeogshīe seja a pessoa ideal para ficar no seu lugar. Quem sabe devolver os
propósitos originais da organização, se é que existiram de fato.

- Vou embora. Talvez me entregue.

O amigo não disse nada, não perguntou “Por quê?” se entregaria e a quem.

– Está delirando mais que ela, senhor.

– Não estou. Talvez alguém como você... Uma fruta colhida no pé. Eu estava na
estrada apodrecendo. Quem sabe você possa dar à Sociedade o sentido de justiça, de
religião, de caridade.

Amanhã resolveriam direitinho. Agora ela tem, de ser levada para o quarto.
Depois de deitar a esposa Gerhardt a contempla. Serena e branca, estendida sobre
a cama, o rosto inundando o quarto beleza. Fazendo-o sentir a paz da penumbra. Que
ficasse assim, ali com ele, até o dia nascer. Olhar para ela traz a lembrança do um tempo
harmonioso. A coisa mais bela que seus olhos haviam visto. A vida começou quando ele a
viu, ele nasceu quando a conheceu. A seu lado ele não tinha mais medo, ela era a sua
coragem – estendeu a mão e tocou a fronte suada. Ela o encara com olhos alheios.

Ele diz que ela parece melhor. Sabe o que vamos fazer? Vamos para longe daqui,
para bem longe. Recomeçaremos noutro lugar. Em Santa Vasta, que tal? Dariam uma bela
festa, dessas que ela tanto gosta. Construiriam uma casinha. Dizem que lá existem boas
escolas. E nós vamos precisar de um lugar bom, com boas escolas, porque longe desse
ambiente viciado de Tundra você logo ficará grávida. Nas sextas vamos ao teatro, nos
sábados aos bailes, nos domingos ao circo. Ou simplesmente ficaremos em casa, longe do
mundo. Estava pensando em uma casa na cidade e um sitiozinho nos arredores.

— Quem é você?

— Sou eu, Gerhardt .

— Gerhardt ? Alguém falou que a gente ia dar uma festa.

Sim.

E a quem convidaria?

Teremos verdadeiros amigos.

Madrugada. Contínuo o ruído de serra que havia influído no pesadelo fez


Gerhardt acordar sobressaltado. A boca quente de sono. Pegou uma latinha de suco no
freezer e só então ouviu os movimentos vindos do banheiro. Caso algum dia pensasse a
cena em retrospecto, lembraria do latido do cãozinho branco que Leslie correspondida
adorava, emaranhado com a serra. Tornou-se agudo como se avisasse, ou suplicasse.
Apanhou a arma e seguiu os ruídos com o coração pequenino. Quando abriu a porta e o
retângulo cinza tornou-se um branco luminoso, viu-a esfregando o bidê igualmente
luminoso e branco em que se haviam lavado após o assassinato de Dunguski. Falava
sozinha olhando o basculante. Que perfume tirará o cheiro de sangue de minhas mãos? A
sempre altiva Leslie agora ali ajoelhada. Esfregando e esfregando, também o piso,
enquanto cantava uma canção O inferno é sombrio... De repente pára de cantar e começa
a se orientar em relação a um som, como fazem os cegos. Seu corpo se inclina sobre o
pano, quase o tocando. São sombras do inferno o que ela vê com olhos cujos reflexos no
verde estão duplicados nas lágrimas ainda não derramadas.

A chuva tamborila no telhado.

Eram umas duas e meia quando ele enfim adormeceu; não dera três horas e
Jeogshīe chamava lá de baixo. Gerhardt virou automaticamente o rosto para o lado de
Leslie na cama. Ela ressonava. A chuva molhava dentro do quarto pela fresta nas folhas
da janela pela qual escutava os vizinhos, agora desaparecidos, ao pegar no sono.
Descendo, tornava a escutar o rio corrente de sons ao redor e se lembrou de que no final
do sonho Haofuqīn Dunguski emergia e dizia que sonhar com águas que se movimentam
significa uma mudança de vida próxima, mas logo a lembrança foi substituída pelos
banheiros sujos de sua adolescência pois os cartões nas mãos trêmulas mostravam
caricaturas de Leslie em lençóis ensanguentados varada pela concupiscência de Zuìhǎn
de Péngyǒu. Grandes, exagerados glúteos falciformes. Úberes em bocas ávidas. Junto ao
rosto todo tipo de falos. O último cartão é o mais óbvio. Coxas abertas negras no meio e
sobre um pênis o perfil de alguém cujo nariz era de um, a testa de outro e a barba de um
terceiro. É mais do que um homem pode suportar.

Gerhardt voltou ao quarto e abraçou a mulher, catatônica. Decorrem alguns


segundos em silêncio asfixiante. Intuiu que seus homens haviam sido subjugados ou
fugido. Espera ouvir a voz que efetivamente ouve. Molinari! O grito de Zuìhǎn de
Péngyǒu foi forjado pela coragem dos que tem controle da situação. Manda Gerhardt
aparecer. Venha! Diz estar ali sozinho. Agora é um caso pessoal. Entra pela sala, seus
homens silenciosos fechando o cerco. Venha – insiste num quase orgasmo. Chegou o
momento. Não vê a hora de pôr as mãos na mulher. Delira ao imaginar. Continua falando.
Gerhardt! Gerhardt!
- Ama tanto sua deliciosa mulher... Como pôde trai-la com uma negrinha de
terreiro?

Gerhardt olha para baixo, a luz do candelabro como uma coroa. Aproxima o rosto
de alguma coisa que Jeogshīe não vê. Está barbudo, os cabelos amarfanhados, o olhar
atormentado e insano. Continuava ouvindo a voz de Zuìhǎn de Péngyǒu misturada com
trovões.

- Você é um ingrato, Gerhardt. Não pensou no bem-estar de seu bom profeta. Olhe
aqui está a garantia de sua glória.

Gerhardt teria vomitado se tivesse visto o velho.

- Deixem-nos sair. Leslie está muito doente.

– Muito doente? Está brincando. Só pode estar brincando. Esqueceu de que minha
mulher está morta, porque você mandou que nos envenenassem?

– Não é verdade – disse Gerhardt, sabendo que dizia por dizer, que o outro nunca
iria acreditar. – Quando eu soube, estava feito. Me perdoe.

– Quer mesmo que eu acredite nisso? Seu medo é assim tão grande?

Era verdade. Se não a verdade dos inocentes, pelo menos a dos ignorantes.

Gerhardt olha para Leslie em seu colo, as coxas sombreadas, dividida em dois
volumes como pêssegos protegidos por um pudor inconsciente do marido que a suportava
nos pulsos , agarrando um punhado de tecido de cada lado, como se segurasse as próprias
fibras incas e malváceas. Vai fazer trinta anos, quinze dos quais de puro deleite junto a
Leslie, sem jogos ou traições, esse corpo que o ligava à própria vida. E amanhã, amanhã,
amanhã o que terá restado? Dirá que o bom tempo passou e o mundo se tornou cenário
duma história de final trágico, onde as ilusões correspondem a realidades sombrias,
contada por um louco exaltado por som e fúria sem qualquer significado?

Se depender de Zuìhǎn, com certeza, isto é, caso reste vida após a imensurável dor
de presenciar a violação desse mesmo corpo pelos muitos homens Zuìhǎn, que a dará, ele
mesmo, por inaugurada? É o que farei! Está ouvindo, Gerhardt? Ele mal levantou a voz
quando disse “ninguém tocará em Leslie”. Por que tanta confiança? Zuìhǎn de Péngyǒu
joga o conteúdo do saco que tinha nas mãos. O assoalho ecoou, macabro. Gargalhadas
pela casa como prolongamento do eco.

Olhando para Gerhardt Molinari agora Zuìhǎn de Péngyǒu não diria que é tão
grande como o velho disse. Muito menos querido. E principal apenas por obediência ao
verdadeiro guia que infelizmente se enganou. Quem você comanda apenas obedece suas
ordens não por respeito e muito menos amizade. Irritando-se, ergueu a voz.

– Agora chega! apareça de uma vez ou vou busca-lo!

Aquele ruído. Deus. Pobre devota. Gerhardt imagina como chegaram a ela.
Estuprada antes de morrer. Por que fez isso com dois inocentes? Ele pensa que matamos
também a negrinha e pensando bem deveríamos. - Ao juntarem-se a você, deixaram de
ser inocentes. Pode me matar – dissera o oluô antes de morrer – mas ninguém poderá
fazer mal algum a ele. Ao longe Zuìhǎn ouviu o som de atabaques. Podia ser que o velho
tivesse feito algum trabalho, sabe-se lá, uma invocação. “Ninguém pode fazer mal a
Gerhard”. Mas sorri. O fogo não é alguém.

Ao sinal. Velas junto às cortinas. Antes que as labaredas crescessem e subissem,


saíram. Em segundos a casa dos Molinari transforma-se num forno. O fogo, alastrando-
se, crepita. As janelas – bocarras de um dragão enfurecido – sopram as chamas e o vento
as cospe para o céu. De longe são vistas as colunas de fumaça negra e densa que provoca
náusea nos poucos transeuntes próximos, sob as pesadas nuvens. Agora as paredes.
Incendeiam-se sob calor infernal. O prédio caía em grandes pedaços abrasados de papel.

Era janeiro, época de chuvas e cidade vazia pela breve interrupção da temporada,
que voltaria dias antes do carnaval interrupção. Mas por que pensava nisso? Não sabe, é
claro. Acostumou-se a não pensar muito e quando pensava era justamente em coisas sem
maior relevância, apenas para se livrar de pensar no que realmente importava. Mas a
audição sempre foi boa. O estalar do fogo lembra bandeiras ao vento e no fundo do
crepitar há um chiado contínuo, irritante, de onde nasce a voz que o chama e que não
chega até sua consciência, apenas escuta, como escutaria a voz de um ser de sonho ou do
personagem de um filme. Também isso é um mecanismo para fugir da dor, porque
quando estiver numa situação de paz, aí lembrará com detalhes, pois não haverá mais
perigo.

- Gerhardt! Gerhardt!

- Jeogshīe! Onde você está?

Na janela que dá para o corredor. É a única chance.

A partir de determinado momento tudo se tornara material combustível. Não irá se


lembrar de todos os detalhes que agora o consomem, como se viesse a apaga-los de sua
mente por conta duma antimemória de sobrevivência semelhante ao feitiço de Crouch
contra Bertha em Harry Potter. Tudo começou onde a vela caiu, ao pé da cortina atrás
poltrona. O calor e a luz ficaram restritos àquele espaço durante um minuto ou dois. O
dióxido de carbono liberado alterando pouco a pouco, como numa analogia, o aconchego
do ambiente em que a felicidade havia sido definitiva e antropicamente afetada. Gerhardt
nada vê além do fogo. Segue a voz alta e nítida.

Percebera em desespero que a chama crescia no fantasmagórico balé bem na caixa


de revistas ao lado da marionete largada, a cabeça caindo do assento florido, ao lado do
braço do móvel. Não se lembrava mais a quem havia dado o boneco após a morte do
filho, mas sabe que o deu, a uma empregada talvez, ou ao filho do jardineiro. Agradeceu
pela inconsciência de Leslie, ela não ia suportar essa visão. O braço do sofá tornara-se
uma esfera de fogo percutindo como um estranho xilofone e subindo em volutas
semelhantes às mansões da cidadezinha.

Primeiro timidamente, depois num assédio criminoso, o sofá impôs à cadeira do


papai a entidade gasosa e radioativa. Fogo! Fogo! – era possível ouvir agora as vozes
impotentes do outro lado da parede. Os olhos semicerrados e ardidos quase podem ver o
ionizado fantasma de seu padrinho e um Zenque de plasma pois a fumaça tinha um forte
componente lisérgico. As chamas amarelas com dramáticos contornos avermelhados
atingem agora cerca de um metro e meio e as folhas da planta no vaso começaram a
murchar nos ramos vacilantes, as pontas tingidas de marrom, como os limites dos rasgos
chamuscados das almofadas. Não pode mais haver dúvida sobre o fogo e a questão passa
a ser se devorará toda a casa e a resposta afirmativa a cada seguindo se torna a única
possível na voz das labaredas.
Num ponto do muro oculto pela fumaça dos homens de Zuìhǎn de Péngyǒu, a
mão de Jeogshīe está estendida. Gerhardt se equilibra com dificuldade. Leslie sorri em
seus sonhos. Colocada nos braços do amigo. Cambaleia. Encharcados. Os olhos
vermelhíssimos ardem. As bocas secas crestam de sede. Uma rajada abriu no fumo
espesso uma clareira pela qual foram vistos.

A fumaça pára no teto e se move por ele buscando saídas que não há portanto
crescem e em pouco são como que nuvens que se vê da janelinha de um avião, o crepitar
como um instrumento musical sem outras notas além daquele tantã tétrico exceto talvez a
das rachaduras que em pouco terão derrubado o andar enquanto o calor desprendido
manterá o processo. Os tiros produzem um som agudo que se prolonga segundos após as
balas atravessarem a nuvem, misturando os cheiros de gás e pólvora. As labaredas
impedidas de continuar para cima lançam-se a si mesma para o lado, para o interior da
casa, como um homem-bala que se impulsionasse sem canhão.

A fumaça se enegrece e desce pelas paredes como um exercito de fantasmas


pecadores possivelmente de mulheres jovens pois a combustão era rápida a partir do
papeis de carta sobre a escrivaninha aberta, cerrando-se em si mesma e revoluteando mais
e mais imparável. A nuvem se dividira em duas, uma de luz cegante, arrebatadora, e a
metade de cima mais escura, indo do vermelho vivo até o preto nos pontos mais vivos do
fogo.

Gerhardt tinha quatorze anos quando usou pela primeira vez o canivete em
alguém. Não dormiu por uma semana e não conseguia pensar noutra coisa por mais de
um mês. De igual modo, quando a vizinha de quintal estendia roupas, passou um bom
tempo guiando suas menores ações pela nova consciência do sexo. Agora, sufocado pelo
calor do incêndio, ele confirmava que as situações extremas geram uma vida que o dia-a-
dia obscurece. Leslie em seus braços, adormecida, um fruto de aucuba aos pés de um
anãozinho de jardim, olhando seu sono letárgico, ele teve vontade de chorar um pranto
que fosse ouvido além do fogo. Em seus braços, adormecida, as mãos pendentes, os
cabelos soltos, à altura da coxa direita de Gerhardt, o cheiro de leite mais forte do que o
enxofre, a mancha escura do sexo quase brotando da camisola como que também
incendiada, refletindo as chamas, e quem os visse imaginaria um único ser surgindo da
súbita réstia de luz nas nuvens acinzentadas. Os tiros produzem um som muito agudo que
se prolonga segundos após as balas atravessarem a nuvem. Os homens correm pelo fio do
muro. Atendendo sinais de Jeogshīe, Gerhardt saltou para a casa ao lado. Não os deixem
fugir, brada Zuìhǎn de Péngyǒu.

O que Isabela fazia ali? Gerhardt olha-a como se ela fosse um dos espíritos que
costuma invocar. Moro aqui, diz ela. Gerhardt portanto é um péssimo vizinho. Leslie
mantinha o ar de nobreza mesmo desmaiada dentro da camisola suja de fuligem e sangue.

Isabela fez com que os dois homens a seguissem pela trilha da mata atrás da casa.
Na jarra de centro na mesa da sala escura em pleno meio-dia, a pequena flor desapareceu
na lufada sibilante do vento.

Não longe dali, empregados da prefeitura trabalham para remover os escombros


do grande incêndio. Encontramos você nas ruas, Benévolo, fugindo de um criminoso, e o
trouxemos para nosso convívio porque você pareceu digno de confiança, como seu pai.
Esperamos muito de você. As expectativas de todos são de que tenhamos em você o
melhor presidente. Temos absoluta fé que você, com seus conhecimentos e inteligência,
nos abrirá novos caminhos. Não se deixe seduzir pela ambição. Porque a ambição não faz
qualquer sentido entre nós. Nossa Sociedade é algo de que um homem pode se orgulhar
em pertencer. Zuìhǎn de Péngyǒu ergue o brinde antes de concluir.

– Somos uma família.

O trio-elétrico sai da cidade. Meninas se fazem mulheres nos quartos.


Comerciantes, amigos de todos, se repetem. O terral varria entre os quiosques.
Passageiros aglomerados em torno do motorista. Bagageiros fechados com estrondo. O
burburinho aumentava entre as poltronas. O ar sugou a porta e a suspensão foi testada à
saída. Os passageiros sobem. Um fio cinzento seguiu o veiculo na manobra. O novelo
carbônico flutuou no ar, dissipando-se segundos depois.

O ônibus agora flui pela beira-mar. As crianças botam as cabeças na janela. Nos
apartamentos, homens de short e mulheres de biquínis. Encostados no parapeito viam a
dourada mancha fumarenta se apequenando, deixando para trás a temporada, o carnaval,
as festas, os rituais, Iemanjá e Nanan. O Cristo dos crentes e também Jeová. A alegria, a
AIDS, a luxúria, a maconha, madres, gaivotas e sátiros. Baralhos e barbáries. Colas e
coca. O lixo nas ruas e a expectativa do ano que vem. No hotelzinho na entrada de
Empatia, Gerhardt diz a Leslie que coma mais uma colherada.

Ah, mas ela não quer mais não.

Precisa se alimentar.

– Estou bem, estou bem.

Recostada em três travesseiros, sua voz ecoa pelas paredes como um pássaro
rouco. Os braços erguidos. Os cabelos negros em desalinho caem como uma cortina
entreaberta. Sua palidez ilumina o meio-dia. O olhar azul efloresce e tange em Gerhardt
um nervo de felicidade. A camisola de organza realça sua nudez entre o marrom e o
vermelho nas auréolas, abissal no umbigo, ainda mais escuro nos cabelos enrolados. O
movimento quando se ajeitou para que Gerhardt desse a colher que insistia deixa à mostra
sua magnitude.

A última colherada.

Agora chega mesmo. Ela vira o corpo num gesto dengoso e enfia o rosto nos
travesseiros. A camisola sobe um pouco mais, as lâmpadas refletindo na pele. Gerhardt
engole em seco, a respiração suspensa. Um gaviãozinho voou histericamente à janela.

Tudo bem, não vou mais insistir. Colocou o prato na cabeceira, incapaz de desviar
o olhar.

- Quer saber o que eu queria? – diz ela. - Quer mesmo saber o que eu quero? Quer
mesmo saber? Os dedinhos dos pés se afastaram uns dos outros retornando ao normal em
seguida.

Ela ainda estava doentinha.

Doentinha? Leslie ficou muito séria. Virara-se e o encarava. Doentinha? Começa


a rir. Levou os braços na direção de Gerhardt e o trouxe para si, vencido pela força que
ela não fez. Leslie sentiu a reação que provocara. As mãos de Leslie. Há quanto tempo.
As últimas mãos que percorreram seu corpo não foram as dela. Uma pontada no coração.
Os últimos lábios que o beijavam assim não foram os dela.
Alguns dias depois ao som do vento que encrespava as águas noturnas de São
Lombardo, Jeogshīe e Gerhardt conversam diante do hotel. Eu me criei em Naus,
Gerhardt . Lá pretendo morrer. Vim só me assegurar de que vocês estão bem.

Estavam sim, estavam muito bem. Graças a ele, a Jeogshīe. Querido amigo. Mas
Naus... Tinha certeza? Jeogshīe tinha toda a certeza sim. Gerhardt pode ficar tranquilo.

Imaginei um futuro de paz também para você. Agora por minha causa será
perseguido.

Que glória maior num mundo como este?

Ouviram que estava chovendo. Despediram-se. Não mais se veriam neste mundo.

Do alto do púlpito, o pastor conclamou os membros de sua igreja. Que ninguém


se engane! Sua voz soava alta e nítida, como alguém que quer se fazer ouvir em meio ao
estrépito de um fogo. Diz o Apocalipse no Capítulo 22, verso 15, que é terrível o fim dos
que se prostituem e dos adeptos da magia. Ao dizer isso – observou – não pensava nas
mulheres nem aos adivinhos, mas nos que se entregam à ambição desmedida. Que podem
fazer qualquer coisa em nome de um objetivo qualquer de pura vaidade. Aos assassinos
por motivos torpes. Aos que amam a mentira e a praticam. Aos que induzem seus irmãos
ao mal.

É preciso acabar com esse homem, diz Benévolo. Hilma diz que assim ele se
transformará num mártir.

O pior que pode acontecer, você não acha?

Por outro lado, pensa num meio de destruí-lo sem matá-lo. Aí estará realmente
morto.

Hilma. Trunfo para Benévolo. Amante deliciosa, ardil perfeito. Zuìhǎn de


Péngyǒu de mãos atadas. No caso de pensar que pode fazer comigo o que fez com
Gerhardt. Reflete sobre as palavras dela. Cumpria de fato dar um jeito nesse pastor, pior
ainda, sabia demais. Durante algum tempo pensou-se que ele não propagava o que sabia
porque pretendia fazer chantagem. Quando foram abordá-lo a respeito e voltaram com
aquela resposta – que ele não os denunciava por ter muitos amigos entre os membros e
esperança de vê-los regenerados – Benévolo resolveu: não havia solução senão matá-lo.

Aí, Hilma veio com essa conversa.

O que pretende exatamente?

Simples. Seduziria o pastor, ele ficaria desmoralizado com o escândalo e perderia


sua autoridade. Tudo então voltaria às boas.

Tudo bem, assente Benévolo, tentando controlar o ciúme. Não tinha ciúme de
Hilma com gringos velhos e tolos, mas um homem com aquela firmeza de caráter era de
fato um rival a temer.

Quando?

A filha de Zuìhǎn de Péngyǒu diz que pode ser na mesma noite.

O que garante que terá sucesso?

Ora. - Confio em meus dons. E você, Benévolo não?

Sim. Ele conhecia e temia.

Quando Hilma estava saindo, pensava. Ao seduzir o pastor, era mesmo o melhor
entregá-lo à perdição? uma vida ao lado de um homem assim será a remissão. Quem sabe
a felicidade. Hilma entregou-se à preparação de sua visita. O que fazer caso se
apaixonasse? Veste uma delicada blusa de viscose. Liga os botões às casas com visível
prazer diante do espelho. Não será ignorada mas precisa ser discreta. A saia listrada é
bem comprida, nos calcanhares. Admira-se, jovial. Solta os cabelos.

Jeogshīe, deslumbrado, não pode negar aconselhamento mesmo à filha daquele


homem. Seu espírito se fortaleceu depois do incêndio, mas atrás de alguém que ele
pensou ser aguardava-o quem ele realmente era. Graças a Deus, um homem íntegro. Não
se atreverá mais a pecar contra seu Deus.

Hilma foi tocada. Sente-se uma pessoa melhor. Agrada-se de si mesma. Feliz,
vibrante e pode dizer, amparada pela Bíblia: santa. Harmonizara com seu temperamento
leonino o estar diante de um homem a quem pode, enfim, obedecer e respeitar. Está
realmente linda. Mansa, esperançosa.

Quando os homens invadiram a igreja, Jeogshīe imaginou uma armadilha mas não
amaldiçoou a moça. Ergueu uma prece. Também ela o fez. Morreu feliz, redimida.
Amando. Pela primeira vez na vida.

Durante todo o tempo de seu pastorado, a influência de Jeogshīe na comunidade


foi enorme, sobretudo junto aos convertidos vindos do candomblé, até o dia em que foi
morto numa noite de tempestade. Alguns acreditavam que não havia nada entre os dois.
Outros, lamentavam um homem tão bom, mas a carne é fraca.

Quando tempos mais tarde soube do crime, durante as cheias de verão, Gerhardt
vivia pacato criando gado e cultivando cacau nos arredores de Santa Vasta, nem muito
perto nem muito longe das águas barrentas do rio. Ele e Leslie mantinha uma escola com
oficina e computadores para os filhos de seus vizinhos, por quem eram muitíssimo
queridos.

Depois da previsão do tempo, a notícia. Ele tinha acabado de fazer o cheque para
a família da moça da boate. Uma vida não tem preço, mas sente-se obrigado. Agora
senta-se junto ao rebanho sobre a forragem prestando uma homenagem ao amigo.

Margherita chora por sua protetora. Sou ainda uma menina. Não quero terminar
assim. Estou exposta aqui. Há meninos promissores e um belo professor, é verdade. É
bem meu tipo e se veste de um jeito bem legal. Sinto meu corpo arder quando se
aproxima. Mas não posso me deixar levar por essa coisa de paixão e amor. Preciso pensar
em alguma coisa. Voltar para a casa de meus pais pode ser uma saída. Alguns de meus
antigos amigos estão formados e bem de vida. Sei que gostarão de me ver. Algum decerto
há de se apaixonar e me tirar novamente de lá. Que tudo isso me sirva de exemplo. Há
tempo para tudo. Agora é planejar o futuro. Amanhã estarei de novo livre. Em breve
quando me olhar de novo no espelho olharei para o cumprimento da profecia de Hilda:
serei uma mulher inesquecível. Encaixada no verde lá embaixo, a casinha sobe no
orvalho, refletida pelo pequeno lago.

Gritam o nome de Gerhardt . Há um tom diferente na voz da esposa.


Decididamente diferente. Quem poderá ser? A moça deseja vê-lo. Aos poucos a figura
toma forma. Leslie tem o cuidado de não insinuar nada mas o cãozinho avisa em latidos
aflitos. Quieto, MacBeth!

A visão de Isabela é deslumbrante embora pareça cansada. Até poderia se dizer


mais alta. Deve ser o ângulo. Seja como for é impressionante efígie materna. Fantasma
vívido, Deus do céu! Num mesmo olhar captou a deusa – razão de viver. Quando aperta a
mão da mulata, treme um pouco. Não iria escapar desse dia. Então agora vamos ver o que
pode ser feito.

Quem era aquela criança?

A irmã morreu, a sobrinha ficara sem ter quem a criasse.

Ah, sim.

O casal lamentou.

Sabendo que Isabela vinha se estabelecer em Santa Vasta, Molinari apressou-se


em apresentá-la a seu capataz, um certo Domênico. Um homem bom e forte elogiado
desmesuradamente pelo patrão enquanto suplementava o capim com ureia e sal.
FIM

©1994,2010 Ricardo Rocha

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Texto protegido pela Lei de Propriedade Intelectual

No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998

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Junho 2010

Fênix SP

Versões para pdf e eBookLibris abril 2006

Zuìhǎn de Péngyǒu

Gerhardt Molinari