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Preferia acreditar que não seriam capazes de nada além das costumeiras chacotas.

Julgava-os apenas crianças. Crianças más às vezes é verdade; mas apenas crianças.
Recusava-se a crer que pudessem fazer algum mal à sua mulher, ainda mais acompanhada da
filhinha. Não eram pessoas hediondas. Mas havia mais de três horas que ela saíra para
comprar mantimentos e da casa na encosta do monte até o vilarejo não passava de uma hora
de carroça e outro tanto para voltar. Trovões anunciam a tempestade. Largou o machado que
brandia e, limpando as mãos calosas no brim grosso da calça, entrou na pequena habitação.
Não. Nada havia acontecido. Mas ia começar a chover forte. Na verdade, com o frio que
fazia, era possível que nevasse. O vento varria em redemoinhos.

Quando entrou viu pela janela que dava para leste a vermelhidão do céu e do outro
lado nuvens pesadas cobriam o monte. Mas como explicar aquela rubríssima luz entrando em
seus olhos vinda do firmamento? Crepúsculo sombrio. Nuvens pairavam baixas carregadas
de opressão. Saiu. Não se vê um palmo à frente. A noite desce ameaçadora. Ele precisa ir à
cidade. Não que tivesse acontecido alguma coisa com sua mulher e sua filha. Estariam
protegidas da tempestade na casa de Fiodor. Ninguém na cidade seria capaz de lhes fazer
mal. Não precisava se inquietar. Devia apenas ir encontrá-las pois talvez precisem dele para
colocar as coisas na carroça. Não estão vestidas de modo adequado. Levar-lhes-á agasalhos.
Realmente faz muito frio.

Foi um ano difícil, pensa enquanto prepara o cavalo. Novembro era um mês
especialmente árduo para os homens das montanhas. O tempo das primeiras nevascas.
Começou a sentir os pingos de chuva. Gostava do cheiro da chuva na terra mas naquele
momento respirou-o como enxofre. Uma angústia insuportável. A voz do vento severa e
gelada. Contemplou as cores fortes do horizonte. Ondas de fumaça trazidas pelos círculos. O
cheiro de fogo substituiu o cheiro da chuva e envolveu suas recordações...
Os habitantes de M* consideravam-se felizes. Quando seus domínios se reduziram ao
mínimo acreditaram que era bom sinal. Diziam que eram solidários e assim ficava mais fácil
se ajudarem uns aos outros. Poucas das casas de madeira dispostas na rua principal parecem
habitadas.

A única rua. A vida da cidade. Nesse crepúsculo em que se avizinhava a tempestade,


porém, parece-se com morte.

Desemboca na praça onde o juiz de paz, Fiodor, vive com a mulher, Helena, e os
filhos – Érika – uma bela jovem de 19 anos – e Marco – um forte rapaz saído da puberdade.
Moravam no andar de cima do cartório onde o pai raramente exerce sua profissão. O cartório
é contíguo à mercearia de onde tira o sustento da família. O movimento basta para que ele
renove o estoque por meio de um mercador itinerante com o qual divide riscos e lucros. Ali
vende aviamento para roupas e material escolar, vestimentas de montaria e garimpo, facões e
ração e alguns tipos de comida pronta. Agora Maggie está ali. Compra o que precisa para
receber seu irmão. Talvez o convença dessa vez a ficar e usufruir permanentemente da paz
que a cidade grande não propicia. Enfatizarah para convence-lo a subsistência simples mas
sem sobressaltos. Bandidos, o que poderiam querer num fim de mundo como aquele, onde a
mina estava desativada e nunca chegou a funcionar um banco? Por essa paz – e por que
mais? – os que permaneceram após a exaustão do subsolo preferem viver a decadência da
cidade. São mais felizes agora do que em sua época áurea.

Ao lado da praça numa elevação junto à ravina seca ergue-se a igreja local. Faz
também o papel de escola. Autoridades federais acreditam que isso não é adequado mas estão
longe demais. No chão, mistura-se a terra trazida por uma infinidade de botas de mineiros
que aos domingos iam agradecer a benção das pepitas. Isso agora é nostalgia. O sino só repica
de trinta em trinta dias, quando um padre da região vem celebrar a missa mensal do
arrependimento.

O som do sino. A cerimônia de casamento. Uma bela festa de núpcias e a lua-de-mel


com o diretor de uma companhia mineradora europeia. Um duque ou barão que veio
inspecionar a mina e aproveitou para caçar aves raras e a levou para Paris. Assim Érika
costuma sonhar embora vestígios de ouro estejam cada vez mais longe de M* e M* cada vez
mais longe de qualquer lugar.

Fiodor faz parte de um ciclo bem definido em que há terra e trabalho. Benjamin
vende charques na quantidade presumida da procura que ele antecipa pela experiência. Ian e
sua mulher, Nadja, são seus melhores fregueses mas estão restritos às necessidades das
pessoas cujos calçados ele produz ou conserta. É ele quem se aproxima agora da loja de
ferramentas de Walt. Os rendimentos de Walt crescem ou diminuem na proporção das visitas
do açougueiro. Tanja costura para fora, vive disso. Todos comem carne. Nem todos
substituem ou afiam regulamente suas pás e enxadas e uma boa parte das pessoas costura as
próprias roupas.

Não é um ciclo apenas económico. A aspiração moral estagna na pressão coletiva


quando surgem as manadas e uma ruptura não parece mais possível em M* porque no hábito
acostuma-se a toda sorte de necessidade e se torna fácil não pensar à frente e se torna fácil
esquecer.

Não é uma vida fácil. Todavia tranquila. Como o profundo oceano ao pôr-do-sol o
que se vê é perfeita serenidade. Um homem e uma mulher parados serenamente sobre a
elevação em que está a porta de entrada da casa azul na esquina da rua principal quando dobra
para levar à casa de Sonha. Conversam porque nada pode acontecer de mau ou de bom
enquanto estiverem conversando. No final da inclinação do terreno há um filete que pode ser
da água mais pura de alguma nascente no entorno ou pode ser esgoto em qualquer caso
desaguando no precario Jardim da casa do ferreiro onde sua filha caçula está sentada com a
boneca.

Homem bonito o jovem forasteiro que ali desembarcou. Era uma manha ensolarada
como costumavam ser as manhas de inverno naquela regiao. O sol iluminava o lado direito
de seu rosto e fazia com que apertasse os olhos. Tinha algo de nobre na aparencia Algo pelo
menos que nenhum dos habitantes de M* possuia. Uma correcao de propositos aliada aa
paixao. Mas isso ninguem ali podia afirmar. Nao tinha um rumo determinado. Foi parar ali
de carona. Achava que haveria alguém por ali que negociasse pedras preciosas. É que
encontrara uma.

Fazia muito calor quando ele chegou. Coiotes e lobos vagueavam ao redor pelas
colinas.

O condutor da carroça gritou. Estavam chegando.

- Quem é o parente que você veio visitar?

- Como assim parente?

- Não veio passar a Páscoa com parentes?

Para falar a verdade o estranho nem sabia que estavam na Páscoa.

Então Dan, o condutor, imaginou que ele veio reencontrar um velho amigo e
expressou isso em palavras. O vento em seu rosto as levou até o rapaz que respondeu. Não
conhecia qualquer pessoa naquele lugar.

– Mas meu Deus que diabos faz você nesse fim de mundo?

Disseram que havia ouro. E comerciantes de ouro. E ele encontrara uma grande
pedra.

Ouviu-se um urro. – Ouro? – ouviram-se gargalhadas.

- Aqui não há ouro faz tempo. É só um lugarejo que não quis se tornar uma
cidade-fantasma.

Ainda assim alguém poderia se interessar pela pedra.

Um mercador itinerante talvez ele se interessasse. Mas só vem de mês em mês e


partira há uma semana. Dan nada disse antes porque em vésperas de festa sempre aparece
alguém para visitar um desses pobres coitados.

– Eu mesmo sou um... – interrompeu-se. - A louca da minha irmã mora aqui. É dona
do hotel. Como se fosse algo de que a cidade precisasse – o velho analisa as próprias
palavras e completa: - Bem. Hoje pelo menos precisará.

- Mas em lugares próximos deve haver o negócio do ouro – argumentou o rapaz.

- É verdade - respondeu Dan. - Em muitos lugares...

- Então?

– O que não há é um jeito de ir para esses lugares agora além desta carroça.

- O senhor está zombando? Eu cheguei no lugar onde o senhor parou para mim em
uma diligência.

- Mas por que eu haveria de zombar? A tal diligência mudou o trajeto porque a
estrada principal estava interditada até o dia anterior.

O rapaz não queria ofender, mas insiste. - E se alguém precisar sair da cidade e o
senhor não estiver?

– Para isso há os cavalos e as carroças.

– E ninguém pode emprestar um cavalo?

- Ninguém aqui tem nada além do que necessita.

Calaram-se. Recostando-se na carroça, o rapaz tentou se conformar. Está assim agora.


O olhar vago sobre a cidade desolada. O cocô dos cavalos evoca infância. Férias na casa de
seu avô. Conforme entram pela rua principal o rapaz se torna alvo de ávida curiosidade;
quando a carroça fez a volta na praça, Érika tinha um olhar assim.

Ele não se apercebe. Olha as casas de madeira e o feno das estrebarias e os lampiões.
O desespero das pessoas no incêndio. A casa destruída. No barulho do vento, a dor da
lembrança. Perdera os pais naquelas chamas. O seguro não devolverá a vida deles. Pegará o
dinheiro e partirá dali para sempre. Então a carroça parou em frente ao hotel. O sol se
escondera atrás de uma nuvem e por instantes cessou o brilho do rifle que Dan trazia ao
alcance da mão.

– Velho cretino! – Maggie atira-se nos braços do irmão.

– Não entendo como alguém sobrevive num lugar indecente como esse - disse ele.
– Até parece que ele não...

Dan sorriu irônico e levou um cutucão.

– As crianças – sussurrou Maggie. – Olhe como estão lindos os seus sobrinhos –


fala alto enquanto o casalzinho se aproxima.

– A pequena Linda! como está linda!... E esse rapazinho tão robusto!

Dan apanhou os sobrinhos no colo um em cada braço.

Maggie perguntou quem era o rapaz.

- Alguém que vai precisar de um quarto por uma semana.

- Um hóspede? – ela já se havia esquecido o que era isso.

O rapaz nada ouve. Escuta os gritos das pessoas em todo o quarteirão e sente o cheiro
de carne humana queimada e vê os bombeiros voluntários chegando. Era tarde. De repente a
mulher estende a mão e deixa os dedos relaxados na mão dele.

- Então o senhor vai ficar uma semana conosco.

- Parece que sim.

Uma semana naquela cidade. Sim. Compreendeu enfim e não se sentiu mal. O
pesadelo estava no passado e pela primeira vez na vida tinha muito dinheiro nas mãos. Uma
semana de férias num lugar longe da civilização. Um descanso. Pela primeira na vida sentiu
alívio que não provinha de suicídio.

A primeira impressão que alguém teria ao ver o rapaz naquele momento seria a
mesma que, ao refletir sua figura, o espelho invocava. Havia desolação à janela do quarto e
ele ali lembra uma estátua cinzenta marcada pelo movimento do sol. Ao longe o barulho
contínuo de um moinho. Portas e assoalho que rangem. Vozes ao longe. Passarinhos cantam
em tamanho calor? O perfil triste recebe as últimas luzes do dia.

– Ali! Olhem o forasteiro!

Dormentes. As poucas pessoas que passam chamam a atenção por certo ar indolente
como se houvesse um muro a rodear a cidadezinha.

Mas ele havia entrado. Sente vontade de ali se estabelecer.

Batem à porta e o rapaz ao escutar uma voz feminina cantarolando sente o coração
palpitar. Ele olha o relógio. Quando a palpitação silenciar todo o resto terá silenciado.
Caminha na direção do som e abre. Estão ali para convidá-lo. Haverá uma festa – diz Érika.
No rosto o mesmo tipo de sorriso pouco antes no de Maggie.

- Nao sou muito de festas - respondeu.

Ao lado da amiga, Marina insistiu. É bom que as pessoas esqueçam as tristezas da


vida. Ela sabe tudo de tristezas porque é filha de um ferreiro.

Augusto Mando chegara a M* sem pretensão relacionada a ouro. Cidades que


crescem tão rapidamente como as cidades mineiras acabam com ouro pelas ruas e sem
serviços essenciais. Satisfeitos, os homens darão com prazer algo de sua riqueza por uma
dose de uísque e estar com uma mulher; precisarão de médicos e remédios quando doentes;
dos serviços de um correio; de escola para os filhos; de uma igreja e quem sabe de um jornal.
Suas ferramentas de trabalho não são tudo de que necessitarão. Precisarão de cavalos sadios e
equipados e carroças em bom estado – de um ferreiro, portanto.

A ideia da mudança foi agradável à filhas. Marina se sente à vontade entre os


mineiros muito mais do que entre as pessoas de sua cidade natal onde o pai tinha um patrão a
quem seus encantos não comoviam e pagava pouco a seus empregados independente da
beleza das filhas ou dos favores que pudessem lhe prestar. Lá, Marina era apenas uma
mocinha a mais na multidão, ofuscada pelo requinte das damas da sociedade e até pela beleza
dos prédios. Entre os mineiros era uma rainha.

Seu pai fingiu não perceber. Mas que lugar! – dissera Augusto então. – Nada deve à
nossa cidade em movimento. Não é, minha filha? Despida pelo olhar dos mineiros, Marina
pensou que graças a Deus as semelhanças terminavam por aí.
O silêncio do rapaz deve ser uma vontade tímida de ir ao baile e assim as amigas
insistem dando cutucões uma na outra e rindo aquele tipo de risada interna que só a
cumplicidade entende exceto por algumas sensibilidades mais apuradas ou mesmo neurose, o
que parecia ser o caso dele.

– Venha à nossa festa, estranho.

Marina garante que ele não irá se arrepender.

A única condição – diz Érica – é que não leve arma de fogo.

– Faca pode – diz Marina.

Mas o rapaz não usava arma de qualquer tipo e lhes disse.

Não usa armas nessa região e está vivo?

Não está na região há muito tempo.

Elas não escutam.

Érika acha que ele tem uma roupa européia. Um terno azul macio de listas que ela
pode sentir num abraço armado.

Marina não dá um mês para que compre uma arma de verdade. – O pai de minha
amiga vende umas ótimas.

Fiodor resistiu o quanto pôde. Não queria saber de armas mesmo em se tratando de
subsistência. Deve haver outras mercadorias que dêem lucro. Deve haver outro jeito de
conquistar a terra. Mas acabou cedendo, como em tudo.

Ao longo de certo tempo quis acreditar na própria imagem no espelho. Um homem de


aparência e temperamento e índole. Esteve naquele reflexo por muitos anos. Deixou de se
reconhecer ali aos poucos quanto mais conhecia Helena, que adorava. Então se fez tarde
demais.

Passou a entrar nos hotéis às escondidas. Quando apanharam o trem, ela estava
rindo. Com o semblante decaído ele sentou-se a seu lado no último assento à direita do
último vagão da cobra metálica fumegante de cuja janela se via as pessoas mexendo os
lábios ao som dos passos ecoando no soalho como martelos e sininhos dependendo se era um
homem ou uma mulher. Ela abriu um livro. Ele vê a paisagem lentamente passar pela janela
como se nada estivesse vendo.

A terra ao redor do hotel era árida e um cãozinho acompanhava a sombra pensando


onde poderia ter conseguido enterrar o osso naquele solo seco e duro e pelo jeito eterno. À
noite o rapaz sonharia com o cãozinho que depois se transformaria nele próprio no sonho mas
em cujo despertar, súbito e vivo, era realmente ele. Meu subconsciente quer me dizer alguma
coisa – pensou, sentindo o corpo esfriar. Os músculos entrelaçados aos nervos que tremiam
sem qualquer manifestação externa além da luz da lua sinuosa e traiçoeira como uma serpente
de desenhos xadrezes e mornos como os da coberta sobre a cama.

– Não tenho nenhum terno, moça – disse o rapaz. Quanto à arma ele não vai precisar
mas agradece.

- O baile é às dez. Passamos nove e meia para pegá-lo.

– É em uma casa fora da cidade.

No ofuscante meio-dia ele sente os cheiros feminis.

- Por favor me desculpem mas tenho de recusar o convite. Nao estou com espírito
para festas.

As paredes do hotel são úmidas e há um vazio no ar quando as moças descem.


Calaram-se e se entreolharam e depois de uma pausa Érika segurou a amiga pelo braço e a
puxou, irada. Ouviram-se seus passos descendo as escadas e saindo do hotel. O rapaz suspira
e fecha a porta.

O delegado Alan está sentado à mesa de seu almoço, trazido por Helena. As duas
moças entram e Érika aponta na direção do hotel. Acaso o delegado investigou esse rapaz?
A voz de Marina é arrastada e desagradável. Se tivesse uma oportunidade o delegado daria
uma lição no pai dela. Filha é filha. Ou talvez ela mesmo merecesse uma lição. Essa voz...

- Ele pode ser cúmplice do chinês. Veio para ajudá-lo a fugir.

O delegado passa a manga da camisa na gordura em seus lábios finos.

– Calma, meninas. Podem ficar tranqüilas.

Dan esteve com Alan e conversaram, disse o delegado. Ele e o chinês não se
conhecem. Isso ele pode garantir.

- Quer apenas vender uma pepita, meninas. - Nem queria ficar mas não teve
alternativa.

Diante de Dan frescas e mornas. Seus vultos contra a luz da estrebaria. Os cavalos
desatrelados se esticam e cascam, bufam e relincham.

Como estão ficando apetecíveis, pensou ele. Que cor é essa da pele delas?

- O senhor não é rigoroso com as pessoas a quem dá carona. Ele nos come com os
olhos.

Dan se irrita.

- Podem estar certas de que ninguém minimamente suspeito entra na minha carroça
ou, se entrar, não terminará a viagem.

– Então o que diz desse rapaz?

– Quem? o talzinho? É um coitado...

As aparências enganam – dizem elas.

Ele concordou com um sorriso sarcástico.

Érika pensa por que os homens de M* são tão vulgares.

– O senhor acredita que ele recusou o convite?

- É verdade – confirma a outra. - Foi grosseiro.


Receiam ao ver Dan aborrecido. “Olhem” - diz. Ele anda com aquela carroça por todo
Oeste e pode se orgulhar de conhecer as pessoas. Sabe que mente. Se Maggie não fosse sua
irmã... Mas garantiu que o rapaz não quer ir ao baile e isso é tudo. Argumentou: não achavam
elas melhor assim? não seria bom se ele aceitasse e depois saísse por aí...

- Será que esse fogo impede vocês de raciocinarem? (falava por experiência própria).
Ah essas mocinhas estão se tornando realmente muito apetecíveis.

Em silêncio e com as cabeças baixas concordam com o cocheiro. Érika murmura


entre dentes. “ -Não ligue. O estranho é meio esquisito mesmo” . Assim que bateu os olhos
nele viu que não gosta de mulher. Marina desafivela os cabelos e balança o rosto.

- É isso! – exclama – Vamos espalhar que ele anda desarmado e não gosta de mulher!

Augusto chamava a filha. Seu grito atravessava o mar de silêncio e calor, perdendo-se
em algum ponto do infinito. Que ela fosse logo terminar a comida. Sabe que no baile não se
come antes da meia-noite e o pai estava faminto.

- Que vida – praguejou a moça.

Érika diz a ela que tenha calma. Poderia ser bem pior sem o baile. É – concordou a
amiga. “ -Marina!” Poderia mesmo ser bem pior se não tivessem o baile.

- Qualquer coisa que o senhor precisar – diz a camareira ao deixar o quarto do


hóspede com um jogo de lençóis enrolados que parecia estar há séculos na cama em que
acabavam de ser trocados.

Ele desfez a mala. Precisa tomar um banho e se trocar e Maggie lhe disse que a água
estava quente. - Obrigado, senhora! - respondeu. Tirava as roupas para entrar na tina e a
própria Maggie e Nadja e Helena sufocavam os risinhos. Elisabeth, a camareira, está em pé
ao lado delas mas desvia o olhar.

Campos de êxtase eram aqueles por onde cavalgava Elisabeth todas as manhãs. Rios
de nomes tão doces! Columbya, que corria a maior parte do tempo pelo planalto sedimentar
em vale profundo; Yakima, na depressão que terminava em Puger Sound; Ellenburg, que ela
atravessava exultante em comunhão com a Natureza amiga. E o grande monte D´Or. E os
vales arborizados. Ao norte a fronteira banhada pelo Oceano, terra natal de Elisabeth, terra
abençoada, memórias alegres de uma infância perfeita, de um primeiro namorado perfeito,
de um casamento perfeito.

Nunca saíra dali. Sua terra. Os montes da cadeia Cascade, o orvalho rosado das
manhãs, as florestas altas, os passarinhos no arvoredo, a cultura dos vales a sudeste, e sua
felicidade. O arredor de sua casa sem vizinhos exceto por Lucas Rourky e seu filho no
rancho ao longe - crepúsculo de sonho para os lados do oceano - sua casinha, os frutos no
quintal, a névoa fina que a recebia em cada despertar ao sair pela porta de madeira
rangendo uma canção de paz. E lá ia Elisabeth trilha afora.

Poderia cavalgar para qualquer direção que sempre havia um caminho mais belo do
que o do dia anterior. Sim era feliz, sim, Christian, sou muito feliz. Chegou de tanta
felicidade a hesitar ao pedido, mas não se arrependeu, permaneceria feliz, pelo menos até a
viagem para o ouro, por que mesmo precisavam de tanto ouro? Não havia ouro por aqueles
caminhos em qualquer direção na aura dourada dos amanheceres?

Jamais esquecerá as palavras do pai em seu leito de morte - Filha, ele é seu marido;
você deve segui-lo - disse ele. E acrescentou: - Mas cuide-se. Porque você não é assim,
nunca foi ligada a dinheiro e bens materiais. Talvez não esteja preparada.

Ela o beijou com um sorriso.

A jovem e bonita Elisabet. Seus seios brancos, redondos e firmes; uma camisa
branca simples de linho e cambraia rendada; os dedos de seus pés saindo das sandálias
apaches; suas pernas compridas enchendo as calças de seu pai. Elisabeth dos olhos
claros que refletiam como lagos e os que eram refletidos se perguntavam o que guardavam,
e guardavam a alma de menina que para colher uma flor mais bonita poderia correr grandes
distâncias e sacrificar boa parte de seu tempo que não era tão disponível desde o casamento.

Vivia agora para a casa e o marido, o bom rapaz Christian Rourky que tanto
agradara ao pai e ganhara a confiança da mãe. Deram-lhe a filha com alegria não muito
comum a pais que estão entregando a filhinha que criaram para si mesmos. É verdade.
Tinha pouco tempo para si a jovem Elisabeth exceto satisfazer pequeninos desejos como o de
colocar uma flor rara e fresca no vaso da mesa na sala e colher uma linda e rara flor com
seus dedos macios e perfeitamente roliços. Suas mãos são níveas e carnudas, as mãos que
Christian adora; e esses braços roliços como o das criadas negras – semelhantes no
formato, porque a brancura dos braços de Elisabeth era de leite. De leite.

Assim era Elisabeth.Toda a alegria e todo o tormento de Christian. A suave


rouquidão da voz. As frases eram poemas de amor. Enlouquecia-o a simples hipótese de que
algum dia alguém poderia entender assim e ver a mulher que era apenas dele e nascera ela
para ser sua deusa da cintura fina por onde a pegava todas as noites introduzindo o amor
– a cintura, o rosto juvenil, o pescoço delicado – era um bom homem, um bom marido,
Christian Rourky, um homem bom e atraente, um pouco ciumento talvez, mas como não ser
com tal preciosidade dentro de casa movendo-se por sua vida?

O rapaz chega a ver o pequeno buraco entre os aposentod geminados mas não
imagina. Depois os gritos em que não se distinguem as palavras. Homens chamam lá
embaixo.

- O que esses imbecis querem?

- Melhor ir ver.

As três se levantam, ajeitando os vestidos. Descem. - Hei! - Maggie fala com os


homens. - O que está acontecendo?

Vozes de álcool perguntam pelo rapaz que chegara à cidade. - Traga-o e prepare o
quarto aqui do térreo.

Então Maggie pediu, quase ordenou. - Psiu. Silêncio. Ele pode escutar. Estão
malucos? Pensam que estão em Sodoma?

- Algo parecido - diz um deles.

Helena intervém. - Parem com isso. Querem estragar tudo?

Outro dos homens percebe Nadja e pergunta se ela não tem uma filha.
Ela era a filha.

Lembra-se do senhor bondoso com quem a mãe se casara. De como o atormentava.


Ele lendo os jornais de domingo e ela pulando no sofá entre gritos e risinhos. A mãe na
cozinha. Ela perguntando se ele já lera tal artigo na revista tal e se abaixando para pegar.
Ele a estava olhando, decerto. Tanto que quando ela se endireitou viu que o jornal era um
escudo.

Ela riu e disse isso, apontando.

- Pare com isso, menina.

- Ah, deixa disso, papai. Deixe-me agradecer tanto que tem feito por nós duas.

Não, ela não tem filha. Mas tem plenamente a si mesma, responde.

Passa a língua nos lábios e sorri para o jovem embriagado.

Após o banho ele quer sair e pensar. Errou para fora dos limites da cidade. Montes e
depressões. A aragem e o calor suave da tarde em sua pele. Olhou para trás e lá estava M*: a
torre da igreja dominando todo o cenário. Com o dinheiro da pedra comprará uma casinha ou
viajará pelo mundo. Ali é a janela de seu quarto no hotel pequenina do lado esquerdo da
estrebaria. Do outro lado a taverna. Os rolos cinzentos das chaminés são os únicos sinais de
vida. Adiante vislumbra um vale muito verde e um lago onde adivinhou um lugar
adequado. Caminhou quarenta minutos antes de ver de uma outra elevação. novamente o
lago. Desceu pela encosta verdejante e conforme se afastava da cidade o ar ficou mais
respirável. Aspirou e segurou nos pulmões e soltou de uma só vez. Oh agradável
entorpecimento! Uma aragem. Ligeiramente ocultas por árvores, as águas do lago
encrespadas. Passa a ouvi-las... as águas... as águas... Mais além o mar.

Cheiro de mato envolve as cores da Natureza. As flores e os troncos das árvores. Uma
tarde agradável. Nem fria nem quente como se a dimensão onde calor e frio se estabelecem
tivesse sido substituída pela ausência de temperatura dos sonhos. As plantas igualmente dum
verde indizível vindo de um sonho colorido que indica segundo dizem a estada numa outra
realidade e não apenas a manifestação em preto e branco do subconsciente. As ramagens
balançavam por efeito de pássaros inquietos. Arranca do pé e coloca na boca umas frutinhas
vermelhas que nascem nuns arbustos espinhosos .

Então ele a viu e a respiração quase parou. Aproximou-se. Que emoção é essa? É
ela? Estava a umas quinze jardas. A verdadeira pérola. Desviara duas vezes de seu caminho
para conhecer a jovem oriental de vestes terrosas. A vez anterior havia uma semana e pouco,
pouco antes de seguir caminho e encontrar a pedra (ainda um pouquinho e Dan lhe daria a
carona). Ali estava. Bela. Não muito na verdade – bela o bastante. Uma luz magnífica na
inclinação do sol e sons de animaizinhos e sombras de árvores e murmúrio de águas e a
serenidade do lago. Cenário adequado para um milagre.

A chinesinha possuía uma expressão bondosa, cativante logo à primeira vista.


Alguém poderia ser feliz com semelhante amada, boa e atraente, meiga e trabalhadora.
Aonde a levará quando estiverem juntos? Quem havia desistido do amor e da própria vida...
Ah. Ela não está com a menina. Isso dá uma perspectiva de intimidade que da outra vez, ao
não existir, tornara-se razão de seguir caminho. Como se simplesmente não a tivesse visto na
praia. Estava então num vestidinho largo de algodão e ouviu-se o gritinho de criança após o
que a apareceu a menina correndo até a areia dura junto às ondas. A mãe está pálida mas há
um tom afogueado na têmpora como se estivesse febril. Sua sombra na terra e a terra onde
estava sua sombra como um tapete de folhas de algarobos estendia-se da areia até os pés do
rapaz que olhava maravilhado.Olhava e olhava o corpo como a um vaso e o rosto como a uma
visão refletida em cada linha seu semblante até por fim levantar as sobrancelhas e contrair os
olhos como resposta ao olhar que recebeu. É ela? - perguntou-se. Sem dúvida.

Taiorie quando ainda não tinha percebido a chegada do estranho continuava a se


refrescar com a mão esquerda no braço direito e a direita no outro e depois as duas no rosto.

Assustada ao percebe-lo ela faz menção de fugir mas os olhos dele suplicam que não
o faça e ela obedece. Ao redor os montes entardecidos ensombrando os recantos do vale e
uma canção na paisagem. Ela também a escuta porque dá forma às coisas que sente.
Arregaçou as mangas úmidas e olhou o horizonte. A andorinha raspou em seus
cabelos e retornou de onde viera e para ainda mais além. No céu a menina estava viva e nas
nuvens ela brincava. No reflexo do mar a mãe chorou. Filhinha! Viva nas trevas de um
coração e de um oceano. Devia ter aceitado quando o irmão disse que a ensinaria a nadar mas
é que tinha medo e cansava fácil. E o pavor do mar.

Aprenderia a amar a última habitação da menina. O que há mais a temer ?

Faz muito frio aqui e está escuro e ela anda em círculos segundo o testemunho da
areia. Sim, pois morreu. A sombra que caminha junto dela está destinada a um sepulcro
menos belo, a um túmulo diabólico.

Odor amadeirado de lago. Atravessam arroios sobre seixos e retomam o caminho da


relva rala e muito verde envolvidos num ar de sonho e distantes renovam a brisa calma no
murmúrio de águas. O cheiro de mato eh como o perfume de um vidro derramado a cada
passada. Como fumaça saindo de seus pés. As sombras se derramando ao lado dele mais
compridas cada vez.

À noite ela estava calma. Seus movimentos ficaram leves e ela não tinha consciência
de seus passos. Quando chegaram à cidade, ele notou que havia no caminhar de Taiorie uma
deficiência de equilíbrio. Choveu de repente e as placas de terra molhada lançadas longe se
dissolviam no ar feito fogos. Olhou para ela e sorriu ao perceber que tinha conquistado a sua
confiança.

Ali são madressilvas?

Toda resposta dela vem através dos olhos. As vezes por gestos. Desvia agora esse
olhar para as flores. Olhos puxados, semicerrados, dois riscos no rosto.

Adianta-se. A blusa freme e as folhas caem. Rompe-se o muro entre ela a estranha e
ela a quem um homem conhecerá – no tocante às montanhas e às florestas e ao lago e ao sol
e ao vale, pelo menos. Na linha do horizonte um traço dourado contornou a nuvem cinza
encostada no mar. Em algum lugar alguém que consultasse o relógio veria que eram cinco e
meia da tarde e Taiorie olhou dentro do olhos do rapaz e estacou numa elevação em que há
pouco passara para chegar à praia.O vento soava modulado pelos ciscos de folhas e grãos de
terra e se eles falassem as palavras seriam levadas para muito longe; mas eles nao falavam.

As mãos da mulher tremem ao apanhar o copo. Ele pediu que ela bebesse pois ainda
faltava chão. A dona da propriedade onde estava o poço ficou olhando os dois se afastarem
pensando em como os anos passaram e como estava sozinha. Chegaram ela e Taiorie a trocar
essa mensagem no olhar.

Deus aprouvera puni-la, tirar-lhe a filhinha, a única, seu único laço com o afeto. Deus
o aprouvera. Funga e balança a cabeça. Sim madressilva. Passam pelo arbusto olhando o
horizonte sarmentoso.

Nem sofre tanto assim, anestesiada; como se o fruto tivesse essa propriedade.

- Você come isso? - disse ele. - Que gosto tem?

Ela interrompeu os passos rápidos e curtos. Pareceu que ia rir mas não; manteve-se
séria e aproximou a boca da boca do rapaz. O sol que sumira havia uma semana tudo tinge de
luz. Se você profundamente tocar uma árvore transformar-se-á em uma, dizi seus
antepassados. Significa que ela sim precisa. Talvez não respondesse com palavras mesmo
se pudesse.

- Quem é você? - ele pergunta de novo. - De onde você veio?

Nem mesmo um distante eco de M*. Estão sós no vale. Pelos anos seguintes será
assim.
A habitação suntuosa em estilo vitoriano é talvez a única prova de que M* teve um
passado próspero. Sao oito horas de uma noite fresca.

A pequena multidão passa pela avenida central. Muitos vão à opera. Ali estavam
Fiodor e Helena felizes. Acertaram ao se mudar para aquela linda cidade.

“Amo-te”, diziam com frequencia. Os filhos seriam bem educados ali, e felizes
também.

Fiodor vê Dan passar por ele.

A casa está abandonada. Maggie ofereceu uma recepção quando chegou em M*. Uma
lágrima molha o rosto anguloso do juiz.

Hoje não haverá recepção. Fiodor comenta com a mulher que todos passaram um
pouco da conta na bebida.

- Não acho, dissera Helena – então ele percebeu também que ela estava embriagada.

Pouco tempo depois a festa passou a ser um evento mensal e a partir dali Helena
estava mudada.

São quatro da tarde em M* e faz calor. Por Deus, faz muito calor.

Dez aposentos. Dois fazem parte do palco; outros quatro da plateia. Dois nos antigos
bastidores. O lugar onde entrarão à noite e achar-se-ão.

O prisioneiro olha pela janela do cárcere.

Camarotes, escadaria, corredores, bar, banheiros. Paredes púrpuras e tapetes


purpúreos. Fiodor não imaginava que capricho era aquele. Poltronas pelos cantos, quartos,
camas, maletas e valises.
A costureira logo estará deitada, chorando. - Não sou santa mas sou uma pessoa
decente - murmura.

Os camarotes não foram modificados. Sequer foi preciso tapetes purpúreos, pois já
havia tapetes purpúreos; apenas as paredes foram pintadas dessa cor.

Diana, filha de Jeiel, o farmacêutico, viúvo doente que só se levanta da cama para
atender os clientes. Ela está no salão ao lado do antigo palco.

- Aleluia - diz Marina. -Até que enfim!...

Era difícil compreender por que a jovem não ia às confraternizações. Estão felizes
porque enfim se decidira.

- Veja, Marco - disse. - Carne fresca...

Maggie diz que Marina não deveria falar assim. O que Diana pensará?

– Que somos felizes

– Sim – insistiu Marina. São felizes apesar de viverem em M*.

Marco segura a mão da jovem e olha para ela. Volta-se de novo para rosto de Marina
e pisca. Agita-se com as sombras que vão e vêm e o barulho que fazem e o cheiro que exalam.
Tudo afeta Diana além do imaginável. Os dedos de seus pés estão contraídos nos sapatos de
couro. Não lembra como foi parar ali, nunca deveria mas não se lembra. Teria sido envolvida
pelas vozes?

As vozes ecoando em seu cérebro como o ranger de uma de uma porta eternamente
aberta diante das criaturas que a devoram.

As escadas escuras não dão em parte alguma.

Maggie diz: - Meu amor me espera; preciso ir.


O friso nas margens do carpete são dourados

Na volta do fim da escada Maggie vê Dan. Sorriem. Marina prossegue na direção dos
homens que acabaram de chegar. Seus pés também estão contraídos, duros.

- Olá rapazes.

Grandes espaçosas mãos, grandes olhos injetados. Ar pesado sob o teto. Cabelos
curtos desgrenhados. Érika não se conformava. Você não vai se pentear antes de irmos?
Boca exageradamente vermelha, hálito de vinho. “ Saída” . Nadja entra no mesmo aposento.

No grande quarto construído a partir de um dos camarotes do lado direito, Alan pede
que a mulher interrompa a dança.

- É um instantinho só, querida - diz ele.

Recebe à parte os homens um por um. Entrega tres maços de notas a cada. Um deles
as colocou na calça.

- Cinquenta. Nada a menos.

- Sejamos razoáveis..

Helena nunca vira antes o oficial de justiça. Sentada, pensa no chinês. Talvez devesse
estar lá, consolando-o.

Walt entra e dirige-se para Helena sem tomar conhecimento dos demais. Da janela
aberta entra uma brisa úmida. O mês que vem virá em dobro. O homem se afasta, não
satisfeito, mas tudo certo. O mês que vem.

O governo pensa em reconstruir M* depois da ferrovia.

A mulher retoma a dança. Alan se sentara de novo.

Uma ferrovia... A idéia o excita, mais do que os movimentos da mulher.

Seja como for, é no colo de Walt a última peça.

Walt imergiu no perfume, cheiro de uma floresta. Naturalmente prefere o cheiro dela
ao das notas estalando.

Quando decidiram permanecer na cidade, cada qual tinha as próprias razões e


nenhuma apontava para a casa de opera desativada. Foi uma conseqüência da mistura do que
é inerente à cidade grande e das coisas peculiares aos pequenos povoados. Na época do ouro,
o hotel de Maggie ostentava uma grande pedra de mármore à entrada, depois vendida para
uns homens do Leste. Aproveitaram-na no hoje famosíssimo Taehung. As ruas eram de
excelente iluminação. Nas canaletas corria discretamente o esgoto.

Contra a sonegação tentou-se impedir a circulação do ouro com uma Casa de


Fundição mas o controle direto sobre a produção mineira terminou por atrair todo tipo de
desvio. Havia uma menina que costumava levar seu cão feroz numa coleira para passear todo
fim de tarde, mas acabaram proibindo isso, por causa da integridade das pessoas. Era a filha
do farmacêutico.

Por toda a rua principal havia muitas árvores agradáveis, depois cortadas pela
necessidade de lenha. Com a exaustão dos veios, a própria Natureza se voltou contra a cidade
– no verão um calor sufocante; no inverno, frio insuportável: pó metade do ano e lama na
outra metade. Onde ainda existem cursos d’ água?

O que fazer da liberdade numa terra tão distante das estradas? o que fazer numa
solidão tamanha, infestada de gafanhotos? Os poucos espelhos tornaram reduzida a
quantidade de reflexos. A profusão de bares e prostíbulos não deixou marcas. A única coisa
parecida é a taverna de Alfonso Negrini, apenas um ponto de encontro. Os moradores já não
precisam de um bordel.

Tanja chegou a pensar por causa da demora que Afonso não viesse mais. Diz isso
quando ele chega. Abraça-o.

- Que bom que veio.

Aproxima-se. Ele a traz para junto de si e também a abraça. Diz que demorou só para
deixá-la em suspenso.

Quando a viu pela primeira vez, não pensou que pudesse ter algo com uma mulher tão
respeitável. Sai do canto, pelo centro do aposento, a passos lentos. Está perto de Afonso, mas
quem olhasse com atenção perceberia certa distância a mais e um demasiado contraste das
cores de suas roupas.

Pensou que ele não viesse. Ora, por nada neste mundo.

Como sempre ela falou em amor com seu sotaque do sul, numa entonação insegura,
como se adivinhasse.

Ela diz para não perderem mais tempo, querido, nosso tempo é curto e para vivermos
uma noite tenho de suportar um mês de tédio sem fim.

Ele responde que fará, minha potranca, essas horas compensarem plenamente seus
dias de tédio e os meus de desejo. Diz que inventa roupas estragadas só para vê-la.

Ela pede apenas que ele seja delicado, ela adora qualquer coisa desde que seja com
delicadeza. Não gosta de violência.

A mulher que entrou diz que gosta.


Nunca o perdoará. Ela então teria de desculpá-lo mas seria uma desatenção não
atender Maria que continua entrando, esbarrando em Tanja, a se esgueirar chorosa
corredores afora.

- Maldito.

Afonso chama. - Vem cá- disse. A bofetada soa e Maria cai. No final, o vestido está
rasgado. - Trabalho para Tanja - disse. E riram.

Afonso e Maria podem ser ouvidos do outro lado da parede mas Augusto nao escuta.

Era um homem cujos sentimentos sempre estavam ligados a algum fenômeno físico.
Não se perguntava sobre certo e errado nem nunca pensou em corromper ou abusar, muito
menos alguém que amava tanto. Imaginara dar à filha uma boa educação. Até porque
precisara fazer papel de pai e mãe.

Ali está ela. Sorri, alegre no balanço, equilibra-se no alto do muro. Isso foi na última
cidade em que estiveram antes de M*. Lá a mulher o abandonara. Refletiu num
determinado toque o quanto ela era jovem e bonita, demais para alguém como ele.

A menina está comendo a comida que ele diariamente lhe prepara com minúcia e
deixa-lhe ao ir trabalhar. Sorri ainda.

Diz a si mesmo que está melhor agora, se convence de inocência, nao é o canalha
miserável que a mulher acusava. Naturalmente um raciocínio parcial de mulher despeitada
quando percebe que perdeu; e a menina não, era pura e continuou pura ao crescer, fecha os
olhos agora, olhe quanta pureza, o ar se enchia de bichinhos da noite. Ela perdeu a vontade de
chorar desde que soube que estava grávida.

O quarto é pequeno e agora ainda mais.

A jovem esposa do agente dos correios teve tudo que o dinheiro pode comprar.
Armand era um bom administrador do patrimônio que ela dissipava com ardor. Sheila é
jovem, bela, educada, culta. Seu par nas festas costuma ser Marco, mas como nessa noite está
ocupado com a iniciação de Diana, ela ficou num canto, conversando com a mãe do
delegado. Sheila tem quarenta anos. A senhora Carol teve Alan com quatorze. Uma senhora
ainda atraente e muito educada. O lampião no alto impede a escuridão total do aposento.
Sombras bruxuleiam na parede sanguínea.

Ela não entendia. - Uma mulher como a senhora parar numa cidade como M* - seus
olhos se arregalaram. O delegado foi nomeado numa cidade em que só se pensava em bens
materiais e onde se ignorava totalmente as delícias do intelecto como as conversações, bem
supremo da alma, alimento dos espíritos nobres.

A mãe diz que é realmente uma pena. - Meu filho e eu enveredamos por caminhos
sem nada em comum concluiu. Sheila sugere que talvez sim ainda tenham alguma coisa.

Sheila pergunta: - Não está com calor com esse xale?

Carol se ilumina. Revela-se para ela o poder da casa, como o poder de uma
lembrança, embora fosse sua primeira vez desde a morte do marido. Sim, está com um pouco
de calor.

- Poderia tirá-lo para mim, por gentileza? – perguntou, coquete. Os lustres altos
balançam sobre elas.

Lá fora a noite era inquieta como um animal acuado numa jaula. Na noite Jim ouve os
galos ao longe, profetas do amanhecer. Ao canto junta-se a voz dos cães latindo de longe em
longe e corvos grasnando presságios.

O entardecer distante de qualquer lugar conhecido ou sentimento e escritas no céu


palavras encorajadoras. O lago. O distante barulho do mar. A imensidão do crepúsculo. Mãos
dadas são asas.
Copas ensombradas. Flores brancas. Estrelas. É uma noite especial, não há dúvida.

Caminhavam há mais de duas horas. Atravessaram arroios e riachos sobre seixos.


Retornaram ao caminho da relva rala e muito verde. Às vezes passam por tufos de onde
surgem os arbustos com frutinhas vermelhas que eles comem.

Nunca foi uma menina de família. Agora tem a necessidade de sentir que o ama.
Porque não é de todo má e se sente forte. Fará algo pelo irmão, algo que não conseguiu fazer
pela filha. Essa paz produzirá fruto. Eis a cidade. Onde ela ficará esta noite?

Sinais. Ela esperará ali. Sinais. Algo como quadrado, cruz, não... Cárcere. Isso. O
quê? Falar com o delegado? Não. Ela gesticula ansiosa. Braço? Veias... Sangue... Do mesmo
sangue... seu irmão? O que aconteceu? Está preso? Sim. Querido.

O que fez?

Nada. Estão enganados.

Verá o que pode fazer.Pergunta por que ela não vai junto. Medo? De que tem medo?
Não o quê?

Por favor, meu anjo, apenas vá.

Um gesto de confiança.

Ele diz Obrigado. Espera merecer essa honra.

Os bastidores do teatro. Uma espécie de adega. Descem. Mais garrafas de absinto.


Cada degrau da escada provoca calafrios em Val. É o filho de um dos homens que estão com
Marina. Que lugar é este? Tímido, medroso, mas veja sua excitação, espírito que quase se
confunde com intrepidez. Érika o conhece bem. Jamais veio à Casa de Opera. Ela própria o
convidou. E estará enfim com sua deusa. --Os homens fazem sempre o que queremos, Marina
-- ela costuma dizer à amiga e repetiu ao saírem da delegacia.
Val. Basta-lhe imaginar. Por esse prazer submete-se. Veste um terno de algodão
coenizado, uma camisa de seda javanesa e um coat de gabardine. A própria Érika
confeccionara.

Val não tem o que dizer mas fala. Baile sem música é estranho, não é? Em algum
momento ela estará à disposição para que ele realize os antigos sonhos que ainda o prendiam
a M*, a própria razão de sua permanência em M*. Não entende esse olhar. Continua falando.

- Estou bem assim?

– Está ótimo, cavalheiro...

Os trejeitos dela o deixam constrangido e excitado. Música?

- Não está escutando a música que toca só para nós?

Nada ouço, pensa ele, mas tenta. Porque ela está deslumbrante no longo vestido justo
de musselina rebordada em fios metálicos. Compensa todas as suas esquisitices.

Manda que ele repita:

- Sim, querida, esta será a nossa música.

Ele repetiu. Ela se emocionou de verdade. - Meu amor... – disse. Sabe que chegou o
dia. Será tirada daquele lugar e levada para longe. Chegou a hora. Os ombros de Érika
reluzem. Suas coxas emolduradas pelo tecido.

Ela fecha os olhos e fica de perfil. Ele apanha a garrafa. A metade de um só gole. Não
sabe como manter a conversa. Leva seus lábios aos dela e na correspondência apaixonada as
mãos sôfregas tentam abrir os laçarotes.

Érika mantém os olhos fechados, murmura coisas incompreensíveis. Val não procura
sentido desde que ache o que o procura.

Deitada sobre a mesa na adega entre a seda, generosas partes precedem mãos e lábios
que a enlouquecem também e, pronta para recebê-lo, ela abriu os olhos. Ele tirara as roupas
caras de Paris! Diante dela apenas o filho de um mineiro, com o peito cabeludo, mãos calosas
e hálito de absinto.

– Idiota!

Esbofeteou-o e ordenou que apanhasse as roupas no chão e as colocasse de novo. Ele


pensa em revidar mas lembra de que há muito comprava fiado no armazém de Fiodor e
obedece.

Era como se os tempos antigos estivessem inscritos em cada pedra e em cada nuvem,
em cada árvore. A parede da delegacia caiada de branco fazia parte de um conceito moderno
de arquitetura introduzido nas cidades do oeste por um homem de ascendência árabe
chamado Nourdin. Ele acreditava que a orientação solar dos prédios e das casas favorecia a
felicidade e portanto, no caso de uma prisão, à recuperação social de um homem. O
arredondamento do contorno era brilhante e provocava um efeito de esfriamento quando se
entrava; os telhados eram cônicos, como na Itália. O rapaz entrou a passos firmes mas
lentos. Alguém no século vinte ao descrever a cena poderia dizer que ele e o chinês pareciam
bonecos de Hans Beck. Um diante do outro e as barras da cela entre eles.

- Quem é você? – perguntou o chinês.

- Um amigo.

- Então minha irmã conseguiu mesmo alguém, como disse faria. Ela sempre
consegue...

- Por que você está aqui?

- Como assim, por que estou aqui? – espantou-se. – Para ser enforcado amanhã,
quando acordarem.

- Não – disse ainda o chinês. – Amanhã eles só acordam no meio da tarde.


Os detalhes, as implicações, Jim não consegue mais reter. Ia morrer e só. O redor está
embaçado, os sons silenciados, os objetos sem peso, não sentia cheiros.

O outro está apaixonado e em paz. Talvez até febril. Mesmo assim precisa saber o
crime cometido.

- Sou oriental.

– Dizem que matou alguém.

- Por que deixaria minha boa vida nas montanhas e perderia tempo matando os
mortos?

– E por que veio?

Procurar o pai, respondeu o chinês.

- E por que seu pai o rejeitaria?

- O que você quer afinal?

- Fazer a coisa certa.

- Está num lugar estranho para quem se preocupa em fazer a coisa certa.

Quem sabe agora descubra algo sobre a estranha cidade cujo ar pesado voltara a
respirar. Já saberia se tivesse ido ao baile.

O baile...

Está cada vez mais envolvido numa coisa de que não quer participar. Sabe que o
chinês fala a verdade mas não pode escutá-lo. Diz não gostar das insinuações. Essa boa gente
lhe dera abrigo.

- Devo-lhes isso, ter conhecido sua irmã.


- Está mesmo apaixonado?

– Para sua sorte.

Jim é inocente mas está preparado para morrer.

- Se não acredita em mim, deixe-me em paz.

Eram semelhantes, a semelhança os separava, como o espaço entre a pessoa e o


espelho.

- Já disse que vou interceder por você junto ao delegado.

Como se houvesse negociação possível afinidade entre aquelas pessoas e a luz.


Meia-noite. Pássaros da noite rodeiam o cárcere.

- Irei para o hotel então e amanhã...

Será enforcado. Por que essa inútil esperança?

- Me ouvirão - diz o estranho como a pedir desculpas. Diz e sabe que não ouvirão.
Acredita no chinês. Suas almas estao ligadas.

Num momento eram a vida um do outro unidos por alguma coisa que não era de modo
algum o sangue que corria nas veias de Taiorie exceto o auge minutos antes no celeiro e a
vida de Jim de súbito sua própria vida.

Vai até a mesa, mexe nas gavetas, acha as chaves, destranca a fechadura.

Jim tem um ranchinho nas montanhas, diz. Um lugar inacessível para aquela gente,
pois teriam preguiça ou medo de subir.

- Se o culparem pela fuga. É seu. Taiorie sabe onde é. Leve-a para lá, jamais a deixe
vir aqui.

Caminha pelas desertas ruas sombrias. Vê os fantasmas de sua juventude mas nada
vê, nem a própria rua adiante nem o céu estrelado acima.

Um estrondo e a delegacia desaba. A poeira sobe semelhante a uma fumaça branca e o


cheiro semelhante ao cheiro de queimado e também grudara no rapaz que imediatamente
pensou que precisava se livrar daquela roupa e tomar outro banho assim que chegasse no
hotel pensando ainda que pelo menos não haveria ninguém quando chegasse.

Na verdade, há música nos salões. Alan pelo menos escuta. Apanha o violino e
começa a tocar. Está aliviado por causa de sua mediocridade. Não tem uma missão no
mundo?

As pessoas estão encostadas nas cadeiras da platéia, deitadas no tapete, sobre peças de
roupa que não se pode saber de quem são. Garrafas nas mãos e o tom das paredes nos
olhares.Ali o barbeiro, tonto; caminha para a mesa do banquete. Acolá Nadja, muitas mãos
sobre ela. Alguém derrama vinho e todos aceitam o brinde. A seu lado, Marina dança para
eles. Não comete a indelicadeza de trocar o nome de nenhum dos homens a quem se dirige.
Então os desafia. Ainda preferem aquele rapaz insosso?

Olham uma à outra. Desaparecem os homens ao redor. A menina que já não é.


Certamente, pensa Marina, Nadja imagina esse tipo de coisas desde sempre, mas posa de
normal. Todas as mulheres são assim, essas mulheres mais velhas que vivem dizendo o que
as filhas devem fazer e o que não. Tirou uma garrafa de uma daquelas mãos e, ao esvaziá-la
de um gole, sentiu uma pontada na região lombar. Vai passar, pensou, não é nada; mas a dor
crescia como uma dor que está ficando crônica. Não importa. Mas bem que a dor podia
passar para aproveitar melhor o prazer. Ou não, pensou. Ou não.

Todas as jovens querem ser mulheres feitas. Nadja sabe que Marina jamais se casará
ou se casar nao será por amor.Não saberá o que é a felicidade. Porque ela é bem casada, sim.
Ainda olha Ian com amor. Ou será outra coisa esse sentimento? Ódio? Indiferença? Que
importava? Tinha um marido.

– Nós damos conta, doçura...

Eles têm, diz um outro, o que elas precisam.

Um tempo, bem pequena, Marina saía em primavera, pensando no amor. Amor era a
camaradagem que nascia do desejo e o grande sol vermelho no horizonte que durante toda a
luz da tarde se anunciava em meio às colinas. Agora sabe que amor não passa do próprio
desejo, vinculado à posse. Assim é a vida. Não foi ela quem determinou o instinto dos
homens mas aprendeu a usá-lo.

À mesa chegam de todos os lados os convivas embriagados, metendo as mãos nos


pratos coloridos dispostos ao longo da toalha vermelha quadriculada – grandes pães
caseiros, biscoitos de milho, carneiro grelhado, tortas de maça feitas com sorgo no lugar do
açúcar de que M* há muito carecia. Toda espécie de caça ainda encontrável na região.
Antílopes, lebres, esquilos. E a predileta carne de porco: toucinho, lingüiça, costela – tudo
muito gorduroso.

Durante o transcorrer da festa, houve um vislumbre em cada um, diferente em tempo


mas comum a todos.

Noite, noite, as estrelas acima, perdi a conta dos dias que estive preso. Esquecera a
ultima vez consciente envolto por noite assim fresca, não muito, não são comuns noites assim
na Ásia, ele se lembra do dia em que chegou, quantos sonhos abortados, mas ao se afastar
daquela cidade maldita, estarei pleno sob semelhantes noites e livre para construir um futuro
enfim.

Noite sob as estrelas, pensa, estou livre.

Jim seguiu então no sentido noroeste. Parou quando a sombra do condor se juntou por
instantes à sua lentamente a ponto de esfriar seu corpo suado pelo muito andar - quase quinze
horas desde quando saiu do cárcere. Quando parou bateu palmas e gritou alto. Ficou depois
apoiado no mourão olhando o vulto de mulher se aproximar transformando-se em seguida na
própria mulher, com quadris muito largos no jeans e uma trança descendo do lado esquerdo
de seu rosto vermelho.

- O que você faz – perguntou ela.

- Bússolas.

- Você faz bússolas?

- Faço.

- Tenho uma bússola. Para que precisaria de alguém que faz bússolas?

- A bússola é apenas meu cartão de visitas.

A mulher olhou para as roupas do chinês pensando bem que precisava de alguém com
essa habilidade.

- Se você ao menos tivesse inventado a bússola...

- Poderia ter inventado se tivesse nascido uns séculos antes do que nasci; se eu fosse
meu tataravô.

Imagine que estou num trono, pensou ela. – Imagine que estou num trono olhando
para o sul.

- Está com fome?


- Meu nome é Sin Nam – respondeu ele. – Jim Sin Nam.

- Meus pratos são redondos, não repare.

- Estou vendo – disse ele. – A colher está apontando para o sul.

- O que mais você sabe fazer?

- Posso fazer a manutenção de instalações elétricas, repará-las – disse ele. Ela sorriu
desdenhosa.

- A senhora tem muitas frutas e verduras por aqui – disse ele. Ela manteve-se calada.
Queria dar trabalho a Jim, queria que ele ficasse, mas não havia o que fazer.

- Permita-me – disse ele.

Ela o conduziu ate a parte baixa do terreno onde havia os vasos que ele pedira.

Ele deu dois passos e pegou o vaso maior. Inclinou-se para a direita, esticou a mão e
pegou o menor. Em algum momento ela perdeu a sequencia e quando tornou a olhar para os
vasos estavam um dentro do outro com terra entre eles.

- Isso é um refrigerador?

- Quase tão eficiente quanto o elétrico.

- Devo simplesmente acreditar?

Ele olhou para ela e levantou as sobrancelhas balançando a cabeça em sinal negativo.
- Acredite nas maças e no alface - disse ele pegando uma fruta em cada mão, os dedos abertos
abarcando as folhas como se fosse um outro fruto desconhecido, muito vermelho e muito
verde nascendo de dedos-raízes. Ela não pode evitar o pensamento e pensou que estava se
deixando levar e estava se deixando levar. Eu sabia que nao devia ter esticado a conversa,
pensou. Agora estava feito.

- Esse é seu quarto - disse e saiu rapidamente.

Ele apanhou o colchão em cima do armário e deixou cair no assoalho com um som
abafado. Então deitou.

A espuma era muito fina e ficou logo fria. Jim sentiu as costas doerem e tentou
calcular quantos haviam sido os dias na cela mas tinha perdido a conta. Pensou que não ia
ganhar nada sabendo.

Foi um dia cheio. Obrigado minha irmã. Obrigado meu cunhado, murmurou.

O dia seguinte chegara inevitável e como sempre ninguém falará mais a respeito da
noite anterior até a meia-noite do dia do próximo baile.

Tinha visto de tudo na vida anterior a pedra sim tudo o que a um jovem rico eh dado
ver desde uma geração entediada bocejando por corredores azuis a restaurantes iluminados
de coro(s) angelicais. Agora está ali. Adora a cidade. A cidade representa tudo o que almejo
de bondade ao longo da vida. Porque tivera tudo e tudo perdera com a morte dos pais. Fazia
parte de sua natureza, como por encanto, sentir sono e frio, e sobretudo fome; sentado as
janela de sua cabana querida imaginou a cena: Sua mãe em seus trabalhos de parto para
dar-lhe as luz. Que coisa magnífica a agitação das criadas a voz enfática do pai "façam isso" e
"façam aquilo". E agora essa outra: seu pai sobrevivente do incendio mas tendo perdido tudo
e suplicando nas portas abrigo para sua mulher gravida tao bela mas tao acabada que nem
mais sabe como o bebe foi gerado. Esses dois homens eram o mesmo homen. Nao reste
duvida a respeito.

Sozinhos no silêncio tardio de Devils Tramping Ground, feito almas errantes dos
bosques de Old House sob trovões de Chesapeake, retomam a rotina a que ainda chamavam
de vida.

Era noite quando o delegado avistou o monte de pedras brancas e a fumaça de poeira
brotando das arestas. Não estava surpreso. Sabia que algo assim ia acontecer e não parecia
aborrecido.

Ninguém relacionou a fuga a um cúmplice, menos ainda ao estranho, nem mesmo


quando se soube que ele havia se estabelecido nas montanhas com uma jovem oriental.
Mas se encheram de interesse ao saber que ele encontrara alguém e ficaria.
Sim – disse Dan para sua irmã – Foi o que ele me disse.

- Ah, mas precisa trazê-la para que a conheçamos – diz Augusto. Marina repete.- É
verdade. Pois vivendo assim perto faz agora parte da família. Enfática quando ele parte
deseja-lhe aos gritos toda a felicidade do mundo.

Ao norte da casinha corre um rio de águas translúcidas. O verde exuberante que sobe
um ano depois estará para embranquecer.

Taiorie dá à luz uma linda menina . O leite secara no seio da mãe e a criança chora
desesperada. Tranqüilizou-os Fiodor. Poderiam cuidar de uma cabra até mesmo dentro de
casa quando o inverno chegasse. Érika riu. Ah, as crianças... São uma benção de Deus... –
Sobretudo – acrescentou Marco – o fazê-las...

Fiodor providenciará. Ele assentiu. Quer resolver o assunto e voltar para casa - assim
pensava ao tropeçar no pé em seu caminho. Caiu em cima de uns sacos de ração. Érika
pede muitas desculpas, contendo o riso.

- Não tem importância – disse ele.

Ao entrar na mercearia com o delegado, Marina diz que quem é vivo sempre aparece
e pergunta acerca da esposa. Casaram mesmo ou estão apenas morando juntos?

Bom que tenha vindo pois, falando em orientais, ultimamente o delegado pensava
muito naquele prisioneiro, aquele fugitivo, Leonardo se lembrava? Era a única pessoa na
cidade quando ele fugiu.

Prontamente Fiodor lembra que ele próprio e Armand, e Jeiel, também estavam na
cidade.

O delegado se cala. Fiodor, Armand, Jeiel e a própria Diana, que saiu cedo da festa e
desde então entrou num mundo próprio a que ninguém tem acesso. Quanto a Armand, desde
aquela noite não se soube mais dele.

Bem, bem, não é importante, concluiu o delegado.


Marina diz “ Não atrase a vida de Leonard; ele precisa saber das cabras”. Sheila tinha
entrado para as compras, o semblante decaído e estava desabafando sem parar com o rapaz,
como se ele estivesse interessado, como se estivesse em pe´. Não se conforma com o sumiço
do marido. Um bode bom apesar de tudo.

Sacudindo a poeira, Leonard se levanta. Vão até o rancho onde Christian agora vive
só.

Morre para pedir notícias de Elisabeth a Fiodor mas se contém. Acertam o negócio.
Uma fêmea e um macho prontos e uma cabra com cria. Fiodor se encarrega do transporte dos
animais.

O céu crepuscular assim vermelho em nada combina com o aguaceiro que se anuncia.
O cheiro tampouco é o da aura de chuva, tampouco o de aromas noturnos. Os primeiros
pingos. Grossos. Angústia. Estavam em novembro e poucas coisas boas haviam marcado o
período. Tão diferente do tempo em que Halmah ainda não havia nascido.

Quando Halmah não havia nascido a vida era melhor; a vida era mais fácil. A
menina quase levou a vida de Taiorie no parto. Por causa da menina, teve de reatar relações
com as pessoas de M*. E agora por que outra razão teria sua mulher de ir à cidade? O bebê
não dorme à noite com dores de ouvido ou nas gengivas. E ele mesmo disse à mulher que
uma vez que estivesse lá seria bom aproveitar e dar um pulo na mercearia.

Ajeitou os agasalhos na sela e calcou os flancos do cavalo.

Cavalgava contra o vento gelado com os pingos se chocando elétricos em seu rosto
Puxou as rédeas desmunhecando. E depois de girarem havia outro caminho à frente por um
momento eterno em que perdeu a direção. O cheiro da neve enjoativo como que de uma
golfada. Essa criança era ele mesmo. Você que não cresce. Saíam das árvores imensas
brancos espíritos ancestrais, talvez índios, decerto a imaginação instigada pela fome pois por
causa da tempestade acabou não abrindo as latas de feijão e a carne ficou esquecida na
panela.

A montaria empina, relincha e gira de novo. Corcoveia duas três vezes. Na quarta,
Leonardo cai.

Contraiu o rosto numa careta e gemeu. Esticou uma e outra perna, os braços junto ao
corpo, as palmas da mão para cima. Quando puxou o ar, ergueu o pescoço e viu feixes de luz
saindo do coração dos espíritos atravessados pelo uivo do vento. O pulsar do sangue agora
está em sua língua denso como um remédio amargo que nao tem uma indicação específica.
Não, nada tinha acontecido.

Todo o corpo dói quando se levanta, a perna direita endurecida como se estivesse a
ponto de não mais responder. E isso, nao se mover, o que seria? depois o quê? Arranca as
luvas vomitando. Levou as mãos nuas ao bridão e deu um soco lateral com a corda. Alcançou
o estribo e subiu num outro cavalo, o apaziguado.

As nuvens baixas. Ciprestes. Ciprestes que se dobram. O firmamento vermelho como


o sangue que impetuoso circula em suas veias e sabe a fogo em sua língua. Em abertas aos
poucos se distinguem as colunas, sim de fumaça, um incêndio de grandes proporções em
meio ao temporal conjugando o maduro negror da cumulus com as línguas de fumaça.

Eles foram chegando num trote preguiçoso...

Elisabete disse a Christian que ele nunca mais tocaria nela. Nunca mais. A bela casa
nos arredores de M* está vazia sem ela. Mas mesmo sem mais negócios na cidade ele decidiu
então ficar. Não deveria ter vindo. Primeiro com sua ambição e depois com seu ciúme matou
a exuberância de seu amor. Chegou a bater no rosto dela. Louco.
A lavoura escurecendo na moldura da janela. Um e outro empregado passando com
enxadas. O homem dos porcos e das cabras. Como vai pagá-los?

- Os homens estão aí fora perguntando pelo adiantamento que o senhor prometeu


senhor Christian – disse a mulher.

Ouvia a voz de Elisabete em todas as vozes. A voz vibrante, vívida, de Elisabete


ecoando nas sombras. O céu aperta a paisagem na lama. Com a noite suas certezas sobre a
vida desapareciam e começou a achar que estava ficando doente. Conforme relaxava como
agora na cadeira de balanço, seu corpo reclamava; a treva envolvia tudo; seu campo de visão
necessitava de horizonte pois caso se sentisse acuado tinha medo de ter síncope.
Espreguiçou-se. Conseguiu espreguiçar, poderia dizer. Porém em seguida contraiu-se como à
fisgada de uma dor quando o raio cortou os céus. Quando o trovão soou, seu coração
pesadamente batia.

Todas as luzes da casa estão acesas. Mas Elisabeth não está mais ali. Está fazendo o
jantar para Maggie. Oh meu Deus Das paredes úmidas desprende-se um cheiro forte que se
mistura ao perfume de Elisabeth e da irmã de Elisabete, e da mãe de Elisabeth, e de Elisabete
menina, a da fotografia na penteadeira. Sim, pois a casa está cheia de fantasmas Desde que
ela o abandonou, fica noites e noites sentado, olhando para ela.... Se ao menos soubesse que
ela está feliz. Mas sabe que não. Não é vida para ela. Está arrumando quartos para homens.

E jamais dera motivos para ciúmes como os motivos que agora verdadeiramente
existem. Uma empregada de hotel... Naquele uniforme com avental... Como deve estar
bonita, mortamente bela, a mortalha de Christian. O perdão se tornou impossível, para
sempre? Qualquer palavra será dissipada pela sua estupidez ao atormentá-la?

Viu a esposa sempre se dedicar a ele e à casa diligentemente, ao longo dos anos.
Mesmo quando o lar passou a ser este, nesse lugar que ela jamais quis. É preciso amar o que
se tem, dizia Elisabeth, não esperar ter para amar ou amar apenas o que não se tem mais. Mas
não pôde me suportar em casa o dia inteiro. Era realmente insuportável.
O aguaceiro caiu de repente, surpreendendo a todos.

A mulher

Sheila estava com Marco nos correios. Lamentava o desconhecimento do paradeiro


de Armand em noites de dedos. O rapaz perguntou se Sheila não deveria ser mais discreta.

A chuva apanhou Val a voltar para sua casa. O teatro será um refúgio conveniente.
O telhado tamborila com violência. Entra no prédio vazio, tilintando, mas dá com o irmão de
Érika e a esposa de Armand. Que ele não fique constrangido dessa maneira, pede Sheila. Por
que não tira logo essas roupas molhadas? Ora, é um pedido que naturalmente merece o
protesto de Marco. Mas não há nada demais. Bem, na festa Marco vira-o com sua irmã.
Estaria com ciúmes? Ah que gracinha. Não há razão para ter ciúmes, ou seja lá o que está
sentindo.

– Pense que Érika não enlouqueceu como a filha de Jeiel...

Marco devia ter sido muito bruto. E Sheila cansara de mostrar como as mulheres
gostam de ser tratadas.

Tudo bem. Val ouvira. Tire essa roupa.

Ah. Naquela noite tinha sido esbofeteado por tirar as roupas.

Coisas de Érika. Ela é muito complicada. Para Sheila as coisas devem ser do modo
mais simples e natural.

Marco diz a Val que se apresse.

Sheila observou. Érika deve ser louca por preferir suas fantasias a uma realidade
assim. Então se aproxima e se ajoelha.

Val é trabalhador. Sua mãe acreditava que daria alguma coisa na vida. Agora se sente
mais confiante. Que belo exemplar de homem. Forte e saudável, cumpre sempre as
obrigações. A tempestade lá fora deixa de ser ouvida. O lobo, que se escondera quando ele
passava, está uivando. Quem sabe o respeitem a partir de hoje. Mas de súbito pensa na
relevância de ser respeitado. Ou da vaidade viril. Val olha pois os cabelos de Sheila e percebe
um reflexo do temporal.

A pesada porta se abriu como um dos trovões. Os homens invadem a sala.

O que é isso, meu Deus? Quando Marco, nu, ajoelhou-se junto dela, esvaindo-se em
sangue, Sheila recordou que Armand costumava dizer que mais cedo ou mais tarde a gente
paga as coisas que faz nesta vida.

Pobre e generoso Armand...

Digamos que ele não tenha se dado conta da vida de casado e continuou um tempo
com o espírito dos tempos de solteiro mas ela propria acreditava que a partir do caso com a
empregada ele caiu em si e quis mudar e logo inclusive comecou a dar mostras de que estava
mudando fazendo carinhos inesperados nos longos cabelos da mulher e dizendo Como foi o
seu dia?

- Foi bom - respondia ela. - Normal - e pensava que nao estava gostando muito da
mudanca.

Os homens seguem Val até a porta lateral esmurrada. O assoalho ressoa com a
grotesca queda. O cabo do rifle explode em sua cabeça e a faca é cravada por trás em seu
pescoço.

O lobo continua a uivar.

Uma janela está aberta ao lado do chapeleiro de pinho; o teto alto faz com que a
tempestade pareça estar dentro. Ah, um dia que seria tão agradável. Marco é gentil quando
quer, como ontem ao marcar o encontro; tão discreto.

Jesus!
Um dia, Fiodor estava no quarto sentado sentindo muita dor nas costas por conta de
tanto viver abaixado na mercearia arrumando as coisas e também porque o teto do depósito
era baixo e tinha de caminhar curvado. Pensara muito em dar um jeito mas era tanto serviço
que acabou se acostumando com a dor. Era tanta que quando doía pouco ele achava que não
estava doendo.

O matraquear do telégrafo se misturava ao som de uma carroça passando e vozes lá


fora e as batidas de um martelo quase em compasso com os passos na escada parecendo se
perder depois de chegarem ao chão de terra do cartório. Fiodor atendeu o telefone.

A ferrovia vai sair? - disse a pessoa na outra ponta da linha.

- Meu irmao apresentou o pleito aos técnicos. Levaram ao governador.Ele ficou de


dar uma resposta

- E isso nao eh bom, meu amigo?

- Poderia ser.

- Como assim? O que eles acharam do projeto?

- Não acharam. Mas gerou claramente expectativas.

- Eh assim que as coisas funcionam

- É uma pena. O projeto é muito bom.

- Mas nao pode ser aprovado ainda?

- Pediram um tempo. Mas sim, pode ser.

- E entao?

- Mas nao é para avaliarem a estrada de ferro, é para acertarem as doações.

- Meu Deus, as coisas estao assim?

- Esse tipo de coisa mina a eficencia economica.

- Claro. Que diferença fará no fim se é ou não um bom projeto, se a obra é ou não
necessária, se mesmo que nao for a aprovacao dependerá dessas conversas e desses acordos e
de contrapartidas?
- Eu ainda credito.

- Na ferrovia?

- Em novos tempos, meu amigo.

- Ah.

- Em falar nisso, como andam tuas costas?

- A dor nao importa mas o que se faz apesar da dor. Por isso ando chateado, porque
não tenho feito muita coisa da vida. Quando o cartório funcionava direito sentia que tinha um
sentido.

- Uma mercearia é importante para uma cidade.

-Dependendo da cidade o que provém a subsistência não provém necessariamente o


bem.

- Você anda muito negativo, Fiodor.

- Importa eh o que se faz apesar da dor - repetiu. - Se não há edificação, o que importa
a subsistência? De que vale a ausência de dor e o bem-estar?

- Então pelo menos as costas não tem doído.

- É. Faz algum tempo que não.

Ele está morto! Marco estah morto! Seu rosto é uma máscara de dor como se a dor não
houvesse cessado com o fim da vida. Um dos homens que observava com as maos na cintura
os pensamentos de Sheila em seu rosto de linhas lascivas súbito desfere com os nos grossos
de dedos grossos de pele quebradica e grossos pelos grossos e muito negros um soco que lhe
rouba o ar e ela caiu com a cabeca baixa tentando respirar palida como um cadaver.

Eh sua unica chance pensou mas precisa ser antes que esteja amarrada com as cortinas
mas agora eh tarde. Os braços e as pernas abertos, pendurada. Esses dois, salpicados do
sangue de Val, talvez sejam mais manipuláveis que os dois primeiros. Não é ainda o meu
sangue, consegue pensar, e diz Por favor... Tenta encará-los mas não acha os olhos deles.
Então grita. E a cada grito imagina o último, e implora pelo último grito, que todavia tarda e
tarda, e tarda.

Os uivos do vento e do lobo se misturam e a tempestade desce em rodamoinhos quase


paralela ao chão. Sobre a terra aparecem os quatro homens do lado de fora da casa entre a
água empocada na trilha em frente aa porta e o fogo que a porta cospe passa a seguilos na
cena imensa da tormenta inelutável como se o proprio fogo e o cheiro de enxofre eativessem
caminhando de borzequins.

- É impressionante - diz o taverneiro com os olhos na janela. Mas Maria não sabe do
que ele está falando, pois fala sem parar. - Você viu a chinesinha? Uau! Depois que o
Leonard comprou as cabras, nunca mais deixaram de vir aqui, acho que poderiam participar
do próximo baile. Será que não há homens em M* para trazê-los a força? Ora, não são as
regras... Que mal fará uma pequena infração dessas benditas regras? Como se todas as regras
ja nao estivessem quebradas e todos os lumites jah nao estivessem ultrapassados.

A portinhola está rangendo. Maria tem a pele escura. Afonso acredita que ela tem
descendência índia. Seus vestidos são simples, bem decotados, seus sapatos velhos e gastos.
Ela se crê irresistível, talvez porque tenha herdado a casa ao lado do hotel, talvez porque
tenha assistido a chegada dos primeiros mineiros, talvez porque seu cavalo é o mais veloz
dentre todos os cavalos de M*, ou porque sua pele escura é tão lisa. Ela pensa o que ele tanto
vê lá fora na chuva que parou de olhar os meus seios? Mas ele não está mais olhando para
fora.
O rio corre volumoso entre os cedros. Nunca seu nível esteve tão alto; nunca se viu
sua correnteza tão forte. Leva as pedras das margens; tem o peso de um azul profundo que se
transforma em cinza escuro em alguns pontos. Corre atrás da taverna.

O som não era nítido para Maria mas um vago pano de fundo para os vultos que
entram

– O que querem? – pergunta o taverneiro.

Um tiro o atinge entre os olhos e o outro explode em seu peito. Cai contra as garrafas
da prateleira atrás dele. O som do vidro quebrando se arrasta pela perplexidade de Maria.

Agora o rio acordou em seus ouvidos. Agora a tempestade gritou aa janela. Os


homens crescem contra a luz como coroas em suas cabeças. Não pode deixar de notar o
quanto são másculos mas mesmo assim apavorada tenta fugir sem sequer lembrar que não
havia para onde e tropeça na barra do vestido e cai, a queda abafada pela convulsão dos
elementos.

O medo esta no raio que corta a negrura dos céus e do trovão que em segundos se faz
ouvir estremecendo o prédio. A bota em suas costas. O ar que falta. A água da chuva na
lufada do vento. Está toda em si mesma, inteira no chute em seu rosto. Perde aos poucos a
consciência diante dos seres embaçados. As criaturas rugentes.

Voltou a si com a água do balde. Afonso agoniza. Os homens são ainda vultos apenas
visões como se fossem demônios. Um deles a levanta; o outro desfere; o terceiro se prepara.
O taverneiro ela ve da o último suspiro e ela implora que a matem, por favor.

Só muito tempo depois foi atendida.

Quebrados os lampiões, o fogo se alastrou rapidamente.

Dan passara o dia inteiro pelos corredores do hotel, com a fisionomia distante,
lembrando-se da casa de sua mãe, onde passaram a infância no Leste – destacada do casario
pelos ramos floridos pendentes no muro – dizendo consigo mesmo o quanto fora bonita
aquela época de sua existência. Ouve a voz dos sobrinhos. Por que nascera com uma vontade
tão fraca e instintos tão acentuados? Estava a ponto de chorar ao descer para se despedir.

Elisabeth o cumprimenta. Sente vontade de perguntar por que está tão triste mas acha
porém prudente evitar sua presença. Viu o que viu. Resolveu pedir a demissão melhor não se
envolver. O que fará?

Conforme o dia avançava e tudo ia ficando limpo e arrumado batia uma vaga tristeza
como se nascesse de cada músculo dolorido e de cada um também irradiasse Abaixou para
apanhar a pá de lixo e ao levantar viu que o dia estava mais claro e sorriu sem querer e sem
querer havia apertado o passo , segura de que agora alguma coisa aconteceria, o fato novo
que tanto procurava Ocorreu-lhe que seus piores medos estavam em muito ligados a seus
anseios mais bonitos e tudo se resumia a uma escolha ou a algumas, ou muitas talvez, mas
sempre escolhas, nada diferente de escolhas e a cada uma sente-se a paz da decisão tomada.

Decerto não voltaria para Christian embora ainda o amasse mas eh tao vago isso de
amar entao respirou fundo ouvindo a voz de seu pai como sempre dizendo que ela fizesse
assim e assado sabendo que pelo menos uma vez seguiria suas recomendacoes pois era um
homem sabio e a amava. Entao talvez voltasse para a casa de seus pais. Sua mãe deve estar
precisando dela. Devia-lhe isso, concluiu.

Estavam naquela tarde em que um súbito e profundo silencio se fez e depois o vento
começou a crescer e crescer por entre as tulipas e ciclamens entre amores-perfeitos que a
irmã começara a cultivar (“ para ele” , dissera) no começo do outono. Comentou com ela
acerca da tormenta. Nunca vira nada igual. Parece o fim do mundo. De repente pensou em
algo e sorriu malicioso e a sentiu ao levar a mão quente não sabia se antes ou depois
sentindo-se liberto e a salvo de ser triste e mórbido. Pelo menos o barulho nos protege das
crianças, disse.

Dan comenta com a irmã acerca da chuva. Nunca vira coisa igual. Parece o fim do
mundo. Abriu um sorriso malicioso e agora seus pensamentos se harmonizam e ele enfia a
mão por debaixo, sentindo-se liberto e salvo de ser triste. Pelo menos, disse, o barulho
protege das crianças.

- O que é isso?

- Um carinho mais saudoso, minha potra.

- Não! O que é isso – repetiu. fazendo um gesto de silêncio com o mesmo dedo que
apontou para cima. Ouça.

Parece um incêndio.

O homem avançava pela rua central. A terra rachando iluminada.

Quem é esse? tem uns trinta anos. A testa dura e os cabelos crespos. O queixo
quadrado. Sem sinal de barba, o que parece a Dan estranho para um homem daquela região..
Parecia um bom homem apenas na medida em que um bom homem necessita sempre parecer
alguma coisa. Um assaltante, provavelmente, aproveitando-se da tempestade. Não, é
bobagem pensar tal coisa. Mas com certeza não vinha em paz.

E se Dan fugisse? Não. Melhor aproveitar a situação e ter uma morte gloriosa. Será
lembrado por todo o sempre. O homem que deu a vida pela sua família. Não fugirá. Precisa
daquela tempestade, do incêndio, do malfeitor.

Maggie sente o sangue descer; ao menos garante a ausência de conseqüências. Até


porque dois filhos eram o bastante. Pois a resistência que Dan ofereceu ao criminoso foi
decepcionante; tão débil. O rifle ficou todo o tempo encostado, inútil. O homem
aproximou-se do irmão, desferiu seis golpes e agora colhe do corpo o sangue que escorre
entre os dedos e busca o meio de Maggie, forçando, forçando para cima misturando, o que é o
quê? Dedos fortes e frios e as chamas envolvem os dois.

As crianças!
Linda e Wagner lá em cima tentam mas não conseguem descer para junto da proteção
materna. À janela, o irmãozinho pega a mão da menina e se jogam. Um baque e passa a haver
um movimento de vida na lama ardente.

Eis a chuva, a tempestade. Eis os raios e os tétricos trovões. Sua companheira, antes
de tudo uma amiga, Christian não pode perdê-la assim. Esteve todo esse tempo a seu lado,
sofreu tanto, inclusive por seu sonho do ouro, seu estúpido sonho do ouro; e nunca deixou de
ser bela e bondosa. Talvez não seja tarde. Que envelheçam juntos, a função da idade. Vou ao
hotel, pensa. Vai busca-la. Tem um pressentimento. Sai e a chuva machuca seu rosto.

– Meu Deus, amor, o que você está fazendo na rua, com um tempo desses?

Não há tempo

Leve-me daqui, diz ela.

A vida deixara de existir pois em algum momento entre a tarde e a noite todos
percebem que alguma coisa estranha está acontecendo. O fogo consome os prédios da rua
principal com tamanho ímpeto que a chuva não tem qualquer poder de amainar. Línguas
ardentes sobem das janelas da taverna e do hotel cujas paredes enegrecem estalando e caindo
em segundos. O encontro de labaredas contrárias torna-se um mesmo rodamoinho de horror
tragado pelo abismo acima da cidade, como se o mundo estivesse de cabeça para baixo –
chamas tingidas dum vermelho vivíssimo, belíssimas, pensa alguém à janela, chamas
vermelhas, folhas chamuscadas, madeira e lixo espalhado. Os cavalos empinam e relincham.
As carroças andam sozinhas.

- Socorro! - alguem grita e de uma janela proxima como um eco alguem responde.

Crianças caem da janela em meio à algazarra dos cascos chapinhando na imensa


poça. Eram tão lindas. Ninguém faz menção de ajudá-las, saber se estão vivas.
Os cavaleiros se dispersam. Não. Alguns permanecem pela rua principal seguindo na
direção da praça. A tempestade turbilhona. A roupa dos bandidos crepita em seus corpos rijos
impassíveis como se fossem bandeiras. Passam em meio ao fogo e à tempestade alheios,
como se não houvessem alma.

Um blusa dobrada com habilidade. A bainha e a renda não custarão tanto assim,
minha amiga. Na própria Tanja a bainha sobe e chama a atenção da mulher. Ela pensa que
sou um de seus clientes? Cantarola. Afonso não era homem que merecesse tristeza. Nenhum
homem. Estou ficando velha para isso. Despertando faz projeções. Está velha também para
mudar. Duas faces da mesma moeda. O que existe aqui não irá encontrar noutra parte:
homens jovens sempre dispostos. De resto, basta-lhe o trabalho. O que existe aqui é absinto e
trabalho por conta própria – as formas de prazer com que se acostumara ao longo de sua vida
solitária. Orgulha-se de si mesma e quase da própria solidão. Na verdade é uma boa bisca,
pensa Nadja.

Um último gole de café e fica comprovado que Tanja é boa no que faz desde um
simples café. Obrigada. Abre a porta. O cachorro abana o rabo e o gato se enrosca na perna de
Nadja. Um afago e ela se prepara para sair.

Moça que freqüentara as melhores escolas, Nadja não se conformava por ter se
casado com um homem que antes decidido a fazer fortuna do modo tradicional abandonou
tudo para tentar a sorte no garimpo. Ela não imaginava semelhante vida para atingir o
objetivo. Era uma dama. Mulher de sociedade. Assim a chamavam, uma dama. Pelo porte,
pelas festas, pela caridade. Enfim. Seus pais teriam fundado uma organização de ajuda aos
necessitados caso ela quisesse, caso não tivesse vindo. Em seu terror terá saudade.

Pela porta aberta não saiu: os homens entraram. Oferecer-se em troca da própria vida
é uma idéia recorrente nas mulheres de M* – uma idéia ineficaz. Distante agora como a
própria vida pela qual iriam pedir.

Nua e em sangue, o rosto contra a terra encharcada. Um grito da garganta mais escura.
Sente vergonha de alguma coisa que não saberá precisar em meio ao sofrimento mais cruel.
Nada vê. Passos que se confundem com a própria tormenta se aproximam. Lágrimas junto as
pesadas gotas que escorrem. Os cabelos pesam à altura da cintura. Mãos ásperas em
monstruosa energia. Lagrimas vermelhas e terra vermelha encharcada.

Tanja está paralisada. Nem era sua amiga, mas meu Deus. Há um momento em que
chega a pensar não será atacada, que eles estão hesitantes. Vê Marina atrás das carroças. Se
escapar terá muita história para contar. "Havia uma mulher chamada Nadja... "

Obrigada a sentir pela enésima vez o sabor a que se acostumara ao qual se acostumara
com prazer e sim tambem com os cabelos os cabelos puxados mas nao em simultâneo
violentada, assim, cadela. Onde estão o pai e a irmã?

Ela havia sentado no sofá em chamas e sua sombra estava fugindo. Pensa que é o
fim, que precisa ser, e nem essa ideia a consola.

Meu Deus, o terror dos ultimo momentos! Em que quando você acreditou que
nada deveria temer?

- Ah pai! Meu Pai!

Era como a mulher do sacerdote movendo os lábios mas nao havia quem achasse
provir da bebida e quem dera fosse.

Passou por um dos homens, ele dormia. No meio de tres ou quatro labaredas. Como
era bonito! Um outro cruzou em sua frente e outros se multiplicavam em torno dela. As
armas escoiceiam agora a esmo, escoiceiam agora, como os cavalos.

Quem está contra q1uem no tiroteio?

Mais um homem caiu na rua. Um outro e depoisw uma mlher. Nao ha fim para esses
homens e nao ha fim para essa mortes. ALi onde deveria haver olhos há fagulhas pestilentas.

Pai! - gritou. - Pai!

Gostaria de clamar por piedade. Que a figura paterna existisse e pudesse lhe dar
proteção e cuidados.Mas eh tarde
Um antigo namorado, o primeiro, o único namorado, ele despediu-se dizendo
Cuide-se, amor; assim você não vai terminar bem. Riu na cara dele, o idiota. Agora
ondeestah o seu riso?

Irrespirável parte de coisa nenhuma.

Visão turva e suor que queima. Desesperada baba e cospe. Cabelos dourados
orgulhosos. Luz de todos os lados penetra em cada um dos congelados cortes na pele atônita.
Cheiro de cabelos queimados; bola vívida em torno do rosto.

Deve estar muito feia.

Pisoteada e pisoteada. Então não é um pesadelo.

Está morrendo.

Os olhos da mulher estão vermelhos como se ela tivesse passado da conta na bebida.
E nao passou?

Ouviu-se um grito de mulher. O pai também ouviu. Está acabando. Está acabando. O
mundo em pedaços.

Tanja não a vê mais. O fogo atrás e a tempestade adiante. Onde os homens? É uma
mulher trabalhadora. Não há termos de que comparação entre ela e uma adúltera, entre ela e
uma devassa. Tem apenas fantasias; bebe um pouco socialmente. Em uma comunidade
alguém se faz respeitável pelo trabalho. Cuida de sua vida; não pactuou jamais com a
injustiça ou a maledicência. Visão de impiedade na vida, em meio da qual se destaca o corpo
do homem, não seu rosto. Não há um contexto. Não há a relevância de um plano. Nada de
lembranças. Vivera? Deus conhecia seu coração. Tira de sua fé a sua esperança. Por que
então essa aproximação fedorenta?

Naquele dia dirão também que havia uma costureira chamada Tanja.
O pai e a irmã se entreolham. Desceriam com tamanho fogo? Ouça. A mocinha não
suporta mais esse hálito de Afonso. Mas realmente era a voz de sua irmã. Gritos de sua irmã.
O abutre não deveria estar à janela. Meu Deus, o que está acontecendo? Ecos de passos que
não continuam.

Não descerão.

O delegado

sai para ver o que está acontecendo. Vê outras imagens e escuta outras palavras
pelas quais está tranqüilo e certo de que resolverá o assunto. A cena é composta por diversas
idéias pessoais, algumas tiradas de seus tempos de faculdade. Não é homem de se
impressionar fácil. Deveriam tê-lo ouvido quando solicitou que a delegacia fossem
construída num prédio mais próximo do centro. Curvado contra a tormenta e certo de não é
nada demais; já viu naquela cidade as piores tempestades e trágico incêndios. Um homem
assim não se assusta fácil. Aliás, precisa sugerir uma reunião para que as pessoas passem a
tomar os cuidados básicos com relação ao fogo.

Que bibocas mal ajambradass. Pessoas que não tinham um minuto a perder e agora
todo o tempo do mundo as consome de tédio. Delegado! O que Helena faz aqui? Alan! Tudo
é chuva e trovões, fogo e cheiro de gente queimada.

Os correios. A ////////farmácia. Não há fogo ou mortes aqui. Tudo parece calmo na


regiao da mercearia Parecem próximos, mas a voz dela não chega em seus ouvidos. O
cavaleiro que desponta no fim da rua parece ainda distante mas carrega os trovões. Seu
cavalo é majestoso; um puro-sangue inglês, dir-se-ia. O porte de homem que o monta é
excepcionalmente garboso. Passará ele as noites certamente debruçado nos livros apesar da
tranqüila situação financeira. Érika sente estranho calafrio, de prazer e terror. Deve ser essa
mistura louca de temperaturas simultâneas. Pensou em subir e colocar um vestidinho novo e
umas sandálias que realçassem seus pés, que acabara de cuidar com imersões e cremes. Não
teve tempo.

Ela estava olhando embevecida e cada vez mais excitada a ponto de quase chorar
diante deles, os cavaleiros que se juntaram ao primeiro, eram quase uma formação militar,
garbosos e organizados que sequer ligam para a convulsão natural ou para o fogo, Érika
gostaria de saber de onde vem e o que querem, sente que pode estar perto de se apaixonar
verdadeiramente. Sorri com simpatia e em seu coração os sentimentos são como os papéis no
rodamoinho.

O delegado fala.

O que vocês querem?

Menciona sua autoridade ao pensar na aprovação que teve ao ser indicado para o
cargo, isso se chama popularidade, eles precisam mostrar deferência diante da autoridade.

senhora Carol grita de casa para que ele tenha cuidado, pois acabará fazendo
referências à sua fortuna escondida ganha em uma e outra negociação com autoridades da
capital e bandidos. Por ele, continuaria falando, não percebe que seus gritos se perdem na
tempestade. Mas – sabe-se como é – cada um tentando resolver o problema que discerne e o
verdadeiro problema intacto. Ele repete a pergunta. O que querem? Respondam, em nome da
Lei! Helena escuta e murmura alguma coisa entre dentes num sorriso sarcástico.

O cavalo logo à frente, relinchando, empinou. A última visão de Alan antes de cair.
Os homens vão desmontando, um após o outro. Não davam alternativa ao delegado, que
começa a atirar. As balas zuniam e os homens continuavam avançando; dois deles por fim o
agarram, erguem e arrastam para a delegacia. Há um rifle apontado quando entram. Soltem
ele! A senhora Carol repete o que disse. Se não o soltarem será obrigada a atirar. Os homens
se entreolham com expressão indefinível.
Helena está só sob o temporal. Pensa o quanto tem poder para mudar aquela situação.
Logo estarão subjugados diante dela. Basta que o primeiro prove. Terá de fazê-lo ainda que
não lhe agrade correr algum risco por causa do amante. Enfim, há um componente pessoal,
um dever que tem para consigo própria, para com sua própria vida. Sim, e Érika e Marco
podem estar correndo perigo. Agora se lembra de que não vê o filho desde que Sheila esteve
na mercearia. Sim, precisará agir, talvez por si mesma, que seja, porque no final das contas
estamos todos sozinhos neste mundo.

A cidade vermelha e quente em plena tempestade. Será que isso é neve? A senhora
Carol fala, impõe-se. Diz que soltem as armas e levantem as mãos ou será obrigada a atirar.
Um homem saca sua arma e sob o fogo do rifle dispara no seio enorme da mulher. Parece o
fim, mas não irá lamentar. A meia-idade foi bem aproveitada, rapazes mais jovens e mulheres
também. Chegou a flertar com um desses homens? Abre a boca para falar mas apenas
sangue. Seus olhos agora estão embaçados. Imagina a razão por que o filho insistiu em dizer
que o pai fora assassinado, quando seu marido morrera de câncer. Teria sabido que ela se
insinuou para o chinês? Não. Estava por demais envolvido com os salteadores e os políticos,
indo de lá para cá sempre fazendo e desfazendo acordos. Então foi com certeza por causa de
Helena, com ela o chinês tivera mesmo um caso, pelo menos foi o que ela lhe contou. Seja
como for, agora está livre e sabe Deus onde. Viva e livre. A vida é mesmo irônica, pensou
agonizando.

A noite próxima, alimentada pelo vento, se propaga rapidamente pela campina. Para
quem olha de longe, como Leonard atravessando o riacho a galope, um círculo adusto
determina os limites da cidade. Está perto agora do campanário. Deveria estar com fome.
Não comeu ao longo de todo o dia. Pensa de súbito o que faria se não houvesse mais as razões
que hoje pensa ter para viver. Pensa o que é viver afinal. Em meio ao frio vermelho, parece
mesmo que está nevando.

Cada um dos homens que cercam Alan, cada um deles tira o chapéu num movimento
coreografado e surgem as mulheres. São louras e morenas e ruivas. Apenas mulheres. O
único homem no recinto é o próprio delegado. As de trás trazem açafates, a da frente pelo
cano apanha o rifle das mãos da mãe. Uma mulher linda naquelas roupas negras ainda há esse
tempo de olhar. Depois a violência do golpe no maxilar. Grite de dor. Peça misericórdia.
Louve o Senhor. Faça alguma coisa.

Em vez da excitação e do desejo diante das coxas rijas pois ela tirara a calça em vez
disso o corpo sem resposta exceto pela morte nas veias. Precisa se torturar pensando o
significado dessas coisas? Que diferença? Amarrado na perna da mesa, nu agora, as outras
também tiram as roupas, peça a peça. Lentamente, muito lentamente. Isso um dia era estar
pronto. Agora uma por vez. Um tipo de desespero de quem realmente percebe que não há
mais esperança, porque a tortura é da mesma substância que um dia foram as idéias de prazer
e glória.

A sala some na dor mas reaparece. A virilidade se perde mas é reanimada. As


mulheres com os cestos se aproximam. A boca é aberta e enfiadas as iguarias. Está no mundo
como costumam estar os animais quando subitamente se vê homem. Levanta-se num outro
corpo. Uma criatura iluminada da noite, um anjo de luz. Plaina pela sala. Ali estão elas,
sopros de uma vida distante em meio a seu vômito. Vê a si mesmo lá de cima. Elas entendem
seus rogos e o ignoram. Ele próprio não liga para o que diz, apenas observa. Então é assim.
Vê a boca ser enchida sem possibilidade de recusa, mais uma vez, e uma outra. Espere. Agora
é uma coisa fria. Ele vê do alto o cano da arma entrando na sua boca.

Sai agora da sala e plaina pela rua. Não sente mais calor ou frio. Entra em outras
casas. Há tempo ainda. Aqueles a quem corrompeu. Estão contando o dinheiro para a fuga.
Não é mais um lugar seguro. O mundo se tornou inseguro por causa do falso brilho. O que
acontece a cada um passa pelo corpo mas não é no corpo que tudo se origina. Em que plano?
Em que esquema? Em que silenciosos infinitos? Em que horror? Agora conhece o destino.
Todos serão visitados. Sabe Deus de que maneira deixarão o corpo e o que se passará antes
que os espelhos não mais os reflitam. Agora sabe, avisá-los-ia se pudesse. Não quer estar
sozinho, como se sofrimento fosse algo que se possa partilhar.

Os homens tomam agora a direção da mercearia. Para Érika tem mesmo o porte
principesco. Uma princesa na torre. Seu amado entre eles traz para ela um anel de brilhantes.
Finalmente. Mal pode acreditar. Prepara-se para recebe-lo olhando o pai com desprezo.

A mãe entra esbaforida. -Pare com isso, menina; não vê que são bandidos?

O vestido da filha está aquecido. O pai desvia o olhar. Não parecem bandidos.

- Não viu o que fizeram com o delegado?

Alan também não é flor que se cheire. Corrupto, devasso, torturador de inocentes.
Para não falar outras coisas. Helena fulmina a filha.

-Fique calada.

Que inocente? Mas Fiodor se cala. Imaginava algo assim. Graças a Deus o rapaz
fugiu. Volta a servir Taiorie. Precisa de mais luz. Aproxima outro lampião.

Idiota! Castigo, castigo. Coisas da vida. E Marco está muito bem. Está lá na Casa,
com a mulherzinha do Armand.

- Mãe, veja, estão se aproximando. Parecem ter mesmo uma postura digna - Érika
vai lá em cima trocar seus horríveis sapatos.

Impressão ou não, Helena sabe lidar com situações assim. Lembra dos homens que
queriam... – diz a mãe (o resto em movimentos labiais) – ... o maridinho dessa porca?
Arremata por sobre o som da tempestade e os estalidos do fogo.

Passa as mãos pelo corpo, ajeitando o vestido. Detém-se abaixo da gola abrindo
botões. Vai para a porta. Abre um sorriso.
Sem qualquer dúvida. Essa vermelhidão do céu não faz parte do crepúsculo. Calca de
novo os flancos do cavalo e, levantando-se na cela, inclina-se. O animal aperta o galope.
Fumaça atrás da colina. Atmosfera apodrecida na entrada da cidade. Cruzes. Ludovico Bach
1835-1868. Por que aqui? O frio, lembra. Um montanhês forçado à inatividade durante o
inverno acaba deixando tudo para trás em migração estacional não raro definitiva. Estão em
torno dele, fantasmas. Antigos vizinhos, os moradores das encostas internas da montanha.
Não poderia estar no pequeno e íntimo campo sagrado que aquelas famílias partilhavam?

Daqui já deveria estar vendo os telhados de M*, mas apenas névoa e fumaça. Ou o
que seja além. Ou o que seja. Atmosfera apodrecida e o galope. Não pensa mais, tudo são os
olhos de Taiorie e os olhos de Halmah. E o frio. E a neve.

Na cama. As contrações aumentando. As mãos fechadas, o suor, a testa banhada. O


processo de um nascimento. Ele ali, sua presença pouco mais que um detalhe, um capricho
do destino. A filhinha agora faz parte deste mundo cruel, deste belíssimo mundo. As
dificuldades não são comparáveis à alegria que trouxe, a dor é necessária, não apenas
purifica, é necessária. Como pôde ter raiva da criança?

Nascendo e ninguém ali para ajudá-lo. Nem uma avó para cortar o cordão e enfaixar.
Halmah chora ainda junto ao seio da mãe. E ele ao lado das duas. E onde elas agora? Como?
O que é aquilo?

Ardendo. Do alto ele vislumbra a cidade. Ardendo. O cheiro horrível e a ânsia de


vômito. Vômito. Ardendo.

Numa nesga da espessura negra aparecem os restos exteriores da mina desativada.


Um lugar morto. Parece ser tudo o que as chamas recusam, o que já esteja morto. Entretanto,
quando começa a descer a colina, vê a filha de Tanja. A menina é magra e bonita, sai do
prédio como se nada estivesse acontecendo. A capa dos cadernos combina com seu vestido
gasto. Ali outras crianças e a professora. Então a igreja desvenda-se, incólume, intacta em
meio ao fogo. Ou nao. Nao estou vendo isso, pensa.

A filha lança um grito de horror. O estrondo e o corpo ensangüentado no chão da


mercearia. Um vento abriu a porta com um silvo pavoroso depois o baque e contra a
tempestade se definiu o vulto. Fiodor interpõe-se entre a aparição e a esposa mas o rifle do
bandido com apenas uma pressão o tirou do caminho com o desdém de quem pisa um
inseto.Esquadrinhou a mercearia como se procurasse alguma coisa embora não estivesse
procurando nada. Por um momento a arma colocada entre as pernas parecia uma vara de
pescar. A mao direita agarrada à coronha e a esquerda segurando o cabo da arma. Ouviu-se a
preparação como o som das duas primeiras pedras de um desmoronamento. O ruído da morte
como um caminho que é o mesmo na ida e na volta. Os olhos vivos apenas durante a fração
de segundos que antecedeu o coice da arma.

Atrás do balcão abaixada com a filhinha Taiorie viu por uma fresta entre latas outro
homem entrar. Um outro aparece como a nova fase de um pesadelo após o corpo mudar de
posição na cama. Quietinha, querida suplicou com os olhos fica quietinha.

O primeiro levantou Helena e jogou para o que havia entrado que a segurou imitando
os trejeitos da mulher um pouco antes.

O tecido se amarrota junto ao pescoço e a sufoca.

Não chore, meu anjo.

A mecha comprida cai e divide o rosto de Helena em duas partes da mesma máscara
de desespero.

O terceiro homem era diferente dos demais. Suas roupas impecáveis, sua pele limpa.
Os olhos. Num gesto lento de polidez agarrou Érika pelos cabelos e a levou até a porta. Disse
que seriam felizes por toda a eternidade. Disse que ela era tudo o que ele sempre sonhou. Os
olhos dela e os olhos dele tremeluziam juntos de horror e prazer. Veias recortadas como rios
de sangue no branco de um e de outro. Ele continuou a carícia do seio direito num aperto
sobre o vestido virando-a de frente para a porta e empurrou-a então para os companheiros lá
fora, abutres surgidos do nada sobre a vítima indefesa.

Taiorie pensa uma música para a filha. Estão ali como se estivessem num outro plano
do vasto mundo.

Uns seguram os braços e outros as pernas da moça e outros ainda rasgam o seu
vestido. Bátegas sobre o corpo. Uma brecha na calça impecável. Minha filha. Gritos na
chuva, portas gementes. No silêncio do moinho desativado folhas estavam correndo num
balé trágico e sereno. Helena quase se sente grata porque está acabando embora nao pudesse
saber que estava acabando. Corre na direção da filha, graças a Deus por semelhante
desespero, e se joga nas pernas de Érika. O rapaz de modos educados interrompe-se e com o
cotovelo devolve Helena ao chão. Fiodor... Estava só... Sempre esteve e há tanto tempo. A
face tristonha emana seu velho incondicional amor. Seu marido... Sim, foram felizes.

Parecem se multiplicar na vaga e baça visão das duas mulheres. Os cortes das facas
nos tecidos são cirúrgicos e também precisos ao arremeterem um após outro. Embora
agonizante Helena sente cada um mas eles nada sentem apesar da semente perdida, não na
carne.

O homem a viu, como se estivesse vendo todo o tempo, como se dissesse “ agora.”
Riu e se aproximou devagar. A chinesa resiste agarrada à filha. Surge outro, olhos de sangue
injetados e barba cheia de baba. Agarra seu outro braço e a desprende da criança.

Halma deu um gritinho e correu pela areia úmida. A luz no rosto do homem em sua
direção impede a mãe de discernir as feições dele. Não há sol ainda e o horizonte confunde os
elementos. Por alguns instantes o encontro pareceu inevitável mas num segundo momento
ele sumira. Evaporou-se e ela viu frustrada a gratuita alegria.

Na trilha de seus medos Leonard já vai longe. Desviara-se da mulher anjo de redenção
e avança sem rumo. Um brilho sob as águas do arroio que atravessou, a umidade multicor da
praia. De onde está agora, a única luz que percebe e determina a cor está em sua mão direita
como se fosse um ser adormecido.

Refletido na pedra o garoto tímido, um eu antigo e gasto que ele pensara morto. Tudo
o reflexo devolvia. Pega de novo o caminho azul em passos inseguros dum equilíbrio
precário que nao sabe a que atribuir - fome talvez, pensa ao lembrar que faz um dia e meio
que não come nada.

Mas ve alguém na estrada, uma carroça. É uma nova pessoa em seu encalço,
correndo; uma pessoa renovada, esbaforida. Os trancos em semitons marcam a distância do
veículo.

- Para onde vai, meu rapaz? - olha o condutor, hesita.

É torturante falar com estranhos mas é preciso, pede a carona.

- Claro, amigo. Sobe.

Estará a viagem quase inteira intimidado. Só quando chegando mencionará a pedra e


não por confiar em Dan.

Ao tremor da carroça rangendo se junta o tremor das próprias mãos. Espera que o
homem não tenha notado.

Foi ao longo da noite que se lembrou da moça na praia com a menina. Insight regido
pelo desejo que por sua vez se renovara com a pedra. O quanto tem sido desgastado pela
pobreza; mais pela pobreza do que pela solidão; pela pobreza que é solidão. Apenas por um
pouco de tempo o seguro de seus pais aliviou o cotidiano da necessidade.

Qual das duas junto do mar é a criança? Esse jeito de ser que desaparece nos adultos.
Aperta mais os olhos e abre o sorriso para um peixinho mas as gargalhadas de LeThu-Xua
terminam nessa onda.
Onde está? Há um segundo sorria tanto, a mais feliz das mulheres. E agora...

- Mamãe!

Onde, meu Deus?

- Mamãe!

Da janela daquele quarto de tábuas largas pintado de vermelho cheirando a alecrim


dava para ver um pedaço da rua principal. Daquela janela há uns minutos os vizinhos se
acotovelavam para ver mas agora estão entre os homens e mulheres surrados e decapitados,
violentados, clamando pela morte fugidia, fugindo para lugar nenhum, pisoteados,
incendiados. A janela agora está vazia, a casa está vazia, uma labareda maior crepita onde o
pai costumava descansar à noite depois da sopa,chama amarela quase prateada cheirando a
enxofre, depois queimando o telhado.
- Eu disse para ele - diz uma mulher para a outra. – Eu disse para ele.

O homem tossiu algumas vezes assustando o rato que passava sobre seus pés.Suas
pegadas eram sinuosas e chegavam até o outro lado da rua e paravam por ali. Alguns se
perguntarão aonde ele estava indo e para onde efetivamente foi pois as pegadas em algum
momento desapareceram sem restar qualquer vestígio.

Houve um momento não mais esperado entre as vestes ardentes do homem clamando
aos céus como um reverendo e os escorpiões se retorcendo nas brasas em meio ao grande
estrondo de um toldo e um teto que desabaram. “ Barbeiro”, diz a placa caída, e essa outra
Bilhar no andar de cima. E como escutasse nitidamente os gritos não mais escutados,
entrou na mercearia sabendo no corpo a seqüência de atitudes. Já viu vapor assim subir para o
abismo acima no perverso passado em que o calor rosnava na espreita de cada sobrevivência;
já ouviu esses estalidos tétricos no ronco do trovão; já sentiu esse cheiro de carne humana que
com o dos porcos queimados se confundia.
O olhar distante num átimo aterrissa no bandido. Poderia ter dito: “Solte-a” . Ou
apenas arrancá-la das mãos dele com energia e ira desconhecidas. Mas apenas pensa que
pássaros são esses voando em círculos como abutres? No futuro haverá de contar isso para
os netos. As sombras bruxuleiam na parede - as sombras da pugna perdida. Ardente,
muitíssimo vermelho, o espelho multiplica raios de uma luz macabra. Taiorie é bela e é
sublime mesmo aqui, como uma santa no inferno.
No assoalho estende-se sem vida o corpo de outro malfeitor.

Saindo lentamente das casas assoladas eles vão para a mercearia. As assassinas
desdenharam de uma parada na farmácia de Jeiel; são as primeiras a chegar. Diana passa a
mão no vidro que seu hálito embaçou. Está preparada. Preparou-se desde sempre para um
momento assim.

Decerto a filha está em um mundo melhor.

Deu um vidro desses para Taiorie pois ela pediu. De algum modo pediu e Diana de
algum modo entendeu.
As duas se abraçam chorando. Como se estivessem vendo o futuro. Como se elas
próprias fossem o futuro ou o depois do futuro. Diana e Taiorie. A filha do farmacêutico e a
mulher da montanha – a chinesa das montanhas.

Uma a uma as bandoleiras vão caindo tornando-se um aglomerado inerte de corpos


desejáveis cheirando a podre e rangendo o assoalho. Diante de Leonard não são mais
mulheres. Subitamente começam a rir e mais e mais alto gargalham enlouquecidas. Levam as
mãos a coldres que parecem feitos de carne escura. Ele se adianta e pisa a própria sombra e a
sombra o fere mais que as balas que zuniam e mais que a bala agora estilhaçada em seu
ombro. Não se deterá diante do espelho ou das lágrimas. O rifle de um dos mortos se
enternece nas mãos dele, como uma folha verde no calor causticante. Por elas precisa
haver salvação. Todas as coisas de uma vida agarradas ali uma à outra.

Há cerca de duas horas a primeira labareda se levantara. Dentro do forno que era a
mercearia o som do coice das armas, os tiros entrecruzados ricocheteando na parede e no
balcão. Estilhaçam o grande espelho e as garrafas caem com grande estrondo. Taiorie segura
o ar e se contrai toda de susto.

- Taiorie! – grita Leonard. – Taiorie!


Ele dera para a filha de presente ursinho de pelúcia numa espécie de chaveiro. Cai em
suas mãos vindo do nada como que por encanto. Ele agarrou e apertou-o e o levou ao
coração.

Papai jamais havia mentido para sua filhinha. Mamãe comovida o perdoa pela
adoracao do deus das circunstâncias. Tambem ela queria crer que no dia seguinte estariam
em casa brincando.

Leonard ainda se orientava pelo cheiro da mulher. Sentia-o na garganta descendo - se


misturando aa lagrima que nascia..

Sombras se arrastam em torno da casa Sombras nas janelas do segundo andar.


Arrastam-se pelas cinzas dos documentos. Saem pela porta.
Quando a criança emitiu o som até então impedido pela mão da mãe entendeu o
quanto o pai havia envelhecido desde que ela nascera.

O vulto se contorce e se enrodilha - gane e suspira na conta dos mortos.

A mercearia está cercada por todos os lados. Acima tampouco há saída. Ao longo da
rua ainda há outros bandidos chegando. Ignoram a farmácia de Jeiel. Entram e clamam,
conjuram. As roupas roçam na madeira da parede com ruído estalado de gigantescos insetos.
Leonard sente - escuta - vê de relance os rostos alaranjados na janela. A casa circundada pela
sebe em chamas - ilhada - cercada pelos homem que se multiplicam A essa distância do mar
escuta agora som de precipício.
A fumaça negra subia das janelas pelas paredes apodrecidas envolvendo a hera.
Crepitando e perseguindo as labaredas: tornados de fogo amarelo feitos redemoinhos azuis.
Iluminam a noite absoluta que escapa do bramido desse monstro inumano. Rumor alto de
vozes simultâneas. Alarido, ruído estrondoso. Uivos. Um corredor desesperado de vento que
ia e voltava, subia e descia, levando espíritos e outros trazendo. Estrépito de
desmoronamento e de corpos desabando. Quem olhasse de fora diria que eram as roupas de
Leonard andando sozinhas em meio ao fogo. Cheiro humano entre outros que não eram. Sem
ruídos de passos mas o som apenas das tábuas do assoalho gemendo e se soltando. Sombras
saturadas tornadas vida quando ele vê o rosto anguloso de Fiodor como que pleno de carbono
e hidrogênio e atrás dele na janela maior o levante em algum lugar além .

De repente tudo parece se aquietar. Leonard e Fiodor se entreolham Olham ao redor


quietos e atentos - a respiração suspensa - os braços pendidos ao longo do corpo. Porque há
essa quietude torna-se nítida a chuva; nas lâmpadas mais intensa porque está tão escuro. A
água quebra contra a parede, escorre como um mal-estar nervoso.

No súbito silêncio entreatos se ouviu a repetição da carabina habitando o ar de pesado


e com o grito as mãos do homem se soltaram do vestido e seu rosto respingou em mãe e filha.
- Segure-a! - diz um dos homens. É a primeira vez que voz assim é ouvida no mundo.
São três ou quatro em torno delas e não há mais nada a fazer mas um instante todavia
e um outro que se segue - o facão do mostruário para a mão quadrada e os dedos longos de um
pai ferido corta o cetro daquela iniquidade não humana exibindo a carne esverdeada e
mal-cheirosa.

Mas já há outros ao redor delas, gargalhando.

Dois agarraram o pai, chutando. O ombro lancinava, as pernas, as costas. Aprendera a


conviver com a dor mas não isso, aprendera que era possível mas não a esse ponto. O gosto
de sangue na boca. O ritmo lento das veias. O pé direito solto, o pé nu no chão vermelho
inclinado. Como uma resposta à necessidade de respirar olha a luz entrando lá de fora
trazendo um dia distante do futuro onde o sol não se apagaria. O cano prateado refletindo não
sabe que luz. O reflexo é como relâmpago à janela: mesmo depois que tudo se apagar soará o
trovão.

Foi isso que viu. A luz dos disparos. Relinchos apaziguados. Um homem cai e depois outro e
outro. A noite renasce. A respiração se alarga, abrange tudo.

E Diana. Ele a viu, foi quem ele viu. Branca e magra, distante. Seu vestidinho de chita
à prova de fogo. Ela mesma parece uma chama inextinguível. Ela, a diferente - não era
assim?
Jeiel e a filha foram os únicos que o visitaram na montanha. Atrás do prédio da
farmácia o jardim viça como numa cidade verde e próspera.

Um dia na linguagem que usavam entre si elas falaram de sonhos ela e Taiorie. E de
um sonho em particular - uma casa de rosas, uma cidade baseada nessa economia. Xcxxd.

Em algum momento naquela noite Fiodor se perguntou: Nao deveria haver sangue no
assoalho e sangue na parede?

Voltam-se os demais para olhar. Do lado de fora não o fogo e a escuridão esperados e
a neve e a chuva e as bestas da noite rondando.
Então foi como se a winchester de Jim Cung Cho com seguidos estrondos dissesse:
acaso toda a prudencia de M pereceu? e clamasse: ouve! os moradores das trevas caem em
bandos!

Halmah torna a se agarrar à mãe.


Um chicote se enrosca-se no pescoço do bandido. Diana puxa e o enforca com seu
peso estirado.

Ela não pode ter tamanha força. Na verdade ela não pode sequer estar ali.

Dai para frente todo o tempo ouvia-se os caes como se fosse um unico ganido. O
cachorro de Diana entrou debaixo da cama da dona e soh saiu quando a voz da moca soou no
silencio.

Refeitos os homens não podem mais ser detidos pois deixaram de lado mae e filha
determinados a simplesmente destruir.

Parece que a cidade mineira de que falaram é essa. Pai.


Pai? Armand já tem problemas demais, ainda mais agora com essa história. Quer
apenas retomar seu casamento e o que menos precisa é de um filho súbito.

Num verão de sua juventude, Armand conheceu Sheila num balneário. Etc.
A sublimidade de estarem juntos subitamente foi comprometida quando ela
mostrou-se experiente a ponto de arrancar sangue.
– Não gosto disso, querida.
– Do que você gosta?

De manhã a luz incidiu sobre os mesmos olhos que fizeram Armand sonhar e era
esses olhos que agora iluminavam seu caminho de volta para M* num desesperado galope.

Ela corre e se aproxima. Leonard... Um galo ousa cantar a manhã que se aproxima. A
expressão serena e branca, essencial, aparece em nuvens que podem muito bem ser a névoa
última, o túnel, a perfeita realidade que só se impõe por um gesto pessoal. Leonard! – a
chinesa e a filha pisam na lama que sobe aos vestidos. A esposa abraça o corpo
ensangüentado e a menina começa a chorar.
Antes que os montes nascessem, contempla-a e sua luz é a luz de anjos. Sua mão o
guia à terra firme. O ar se renova e se faz desejável. Sente na boca o dulcíssimo beijo,
devolvendo-lhe o perdido alento; em seu colo, reclina a cabeça para dormir. Sua alma vaga
entre os astros fora do tempo. Ela tem nas mãos uma flor suficiente como consolo mais que
um jardim inteiro. Através dela entrevê coisas que eram e que serão, dentro de um tempo que
não se anseia mas se afinal se conquista. Desce às águas e é purificado de si mesmo. Ao longo
da estrada iluminada, o guia a aureolada dama. Num lugar alto e santo, junto às portas, a
distancia que ela perde à sua frente torna-a maior e mais diáfana.
Onde há pouco a noite, agora a luz da manhã nas casas que sobreviveram. O cavalo da
adolescente tem oito anos, os joelhos baixos, o peito forte, as espáduas valentes. É obediente
e livre no seu amor por ela. Recebe também as cores suaves e aquecidas espalhadas pelo
horizonte e está refletido na montra da farmácia. Ali também uma ou outra chama. O inferno
não é feito de fogo, murmura Diana, mas de pensamentos humanos.

Um trote
O reverendo está chegando. Sem dúvida irá querer fazer o culto em memória das
vítimas, quando pregará sobre as razões de uma igreja incólume. Sim. Não mencionará os
corpos dos malfeitores sob a neve desaparecidos
Um homem bem apessoado vem com ele. Jamais se esquecera da menina que serviu
como testemunha de seu casamento, aqui mesmo, meu Deus do céu, ali em cima, e o senhor
sabe, como enviuvara, e faz o pedido ao qual, bem, responde Fiodor: perdi esposa e filha e o
senhor perdeu a futura noiva.
Havia ainda um outro, o mercador itinerante. Faz algum comentário que o homem de
Deus escuta com atenção.
No dia do culto, a ausência de Taiorie será sentida. Terá desistido? É normal. Tão
nova e tanta tragédia. Mas não. Ela abrigará os trabalhadores da ferrovia, porque é de sua
propriedade boa parte do terreno por onde a ferrovia passará, lhes dará as refeições durante as
obras. E a produção das flores começará logo etcetc

No final da noite, quando amanhecia, ele morreu. Etc


A moça alta de traços orientais vê poucas pessoas ao longo da vida nos vales internos
da montanha prefere não acompanhar a mãe quando das compras na cidade ou a mãe é que
prefere ir sozinha para sossegar seu sonho no caminho. Se o sol ilumina o pequeno rebanho
logo cedo, não há como trazer à mente aqueles corpos pelo chão enquanto amanhecia, às
centenas, e logo depois corpo algum mas a rua branca, e o leitoso vale além, e a montanha
imponente e branca.
A fria manhã avança gloriosa e à paisagem branca se agrega a alaranjada luz que
sepulta a brutalidade em seu silêncio.
No rosto dourado de Jeiel registra-se um renascido desejo de vida que não supunha
felicidade. Esse homem salvou a minha filha.

Acreditará nas melhores coisas. É a mesma casa, a mesma vida. Porque as duas são
mulheres num mundo de homens, não deve deixar de esperar etcetc Diante da novidade do
espelho, ajeitou o decote da camisola inútil. Foi um amor maior, mais que verdadeiro; o
passeio no lago não se perderá, sua memória está a serviço de uma história mais ampla, de
águas sim, também de árvores e frutinhas, mas ainda de fogo e tempestade. Etcetc

dúvidas sobre a primavera. Estava certa quanto à produção de plantas ornamentais e a


qualidade de vida que a filha poderia ter numa comunidade assim. E agora que a ferrovia
chegou, há sempre essa nova perspectiva. Passou pela janela e viu ao longe, junto as cores, a
fumaça. O som inconfundível anunciou o trem.

A luz de dias assim é tudo de que precisa. A composição faz a curva e se aproxima
mais e mais da estação.

Se sua força nasceu do amor ou da tragédia, ignora; mas sabe que está ligada para
sempre às sombras do crepúsculo e às luzes do amanhecer, uma e outra coisa etc.

O vale está cheio de flores.

fim

©2001,2010 Ricardo Rocha


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Copyright by Ricardo Rocha
Texto protegido pela Lei de Propriedade Intelectual
No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998
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