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No final dos anos 80, a economia arrasada do Pais faz muitos brasileiros sonharem com a Europa.

Há formas diferentes de

concretizar o sonho. Para uma camponesa, é por meio de um casamento. Para um jornalista, através do trafico de drogas. Mas no final o sonho se torna um
pesadelo e as chances de as coisas ainda darem certo se tornam cada vez mais remotas. E, de repente, um incêndio...

Lisboa, agosto de 1988 (Portuguese Edition) Kindle Edition

by Ricardo de Almeida Rocha (Author)


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Length: 127 pages

DIANTE do postal de Kleber, no delírio de ter uma cidade


sob o sol nas mãos e estar sob o sol de outra cidade, evocou
o dia em que conheceu Francesca, levado pela relação entre
a reminiscência e os dois sóis, relacionando Francesca com
sua ida de um para o outro. Na margem do Tejo o vendedor
de haxixe abordava os estrangeiros. Eflúvios de tágide
emanavam do outro envelope, a carta de Katia. Fala de
trabalhos e estudos em Milão e de sua vida solitária e de todo
o seu tempo tomado mas dera assim mesmo um pulo até
Moscou após um giro pelas capitais da Comunidade Europeia.
Era o início da livre circulação de pessoas e mercadorias. Ela
falava. Ele podia ouvir a sua voz. Soava com a naturalidade
de quem diz que viu o crepúsculo da varanda de casa. É o
mundo de camponeses e reis e dos pedestais da aristocracia
feminina. De ternos vagabundos sob o sol.
Os pés no rio são peixes.
Viram que ele virou o papel de seda e pensaram em
pedir um pedaço. Um rapaz alto e ruivo de bermuda e camisa
floral chegou a se levantar mas desistiu quando percebeu a
caligrafia de Katia, inclinada e tensa de sua síndrome. Letra
elegante e bonita como ela própria a se movimentar pela
Praça de São Marcos entre homens de terno como se
estivesse em Piumhi conversando com a velha senhora que
foi para ele uma segunda mãe. Carta e postal próximos como
se não houvesse distinção entre as ruas de café e o percurso
das gôndolas.
Então se viu na carta. O papel fino o reflete contra o
trânsito que flui para o Porto. Acinzentado brilho imperial
cobre o casario nas ladeiras ao redor. Cheiro de vinho no ar ao
de grelha e rio se mistura. Francesca na memória de sua
língua. Tamborilam as águas da fonte nos ladrilhos rangentes
à passagem dos bondes. O prédio na esquina do paço ergue-
se triste em cicatrizes e olhos duplicado ao longo da água no
meio-fio. A gola azul de zuarte levantada até as orelhas. As
sobrancelhas se encontram na glabela.
Ergueu os olhos. Dragas empurram as ondulações contra
a superfície sáxea que margina a avenida até a torre de
Belém. As moças não sabem o que são aquelas coisas e sua
utilidade. No sol miríades de diamantes. A cidade na largura
do rio. Conforme desce a noite o tráfego na ponte aumenta e
as linhas douradas na outra banda se dissiparão; mas na
perda do fulgor as pessoas estarão em casa.
Lisboa. Repartida entre portugueses e turistas à vontade
em leves roupas coloridas ao chamado do sol ibérico e negros
provenientes das ex-colônias africanas sentados atrás da
igreja de São Domingos logo depois da Praça da Figueira ou
defronte da estação Restauradores do metrô. A primavera
traz o humor de seus dias tanto do inverno que passou
quanto do verão por chegar. Estamos num desses últimos.
- Give me light? pediu a jovem cujo vermelho da pele
acusava a palidez congênita. Os mochileiros se
movimentavam como em uma festa íntima e sua indolência
contrastava com os lisboetas fardados de sobrevivência na
Praça do Comércio.
Calçou os sapatos e desceu do muro de onde sentado
via os cacilheiros. Apanhou a mochila preta e jogou as alças
no ombro. Está cedendo na costura. Dá para ver uma
camiseta azul e um desodorante em bastão. O ruído dos
tecidos é tipo o chiado de um disco velho, chiado de um disco
velho, chiado de um disco velho. Caminha no sentido de
Santa Apolônia. À meia-noite pegará o trem para a Espanha.
O caminho era feito de incisões que costuravam as
semanas imediatamente anteriores às imediatamente
seguintes porque nunca teve memória ampla o bastante para
lembrar fatos antigos nem esperança tão grande que
compreendesse o futuro distante. Tentava juntar os dias em
que Francesca participou do torneio em Barcelona com as
possibilidades ao receber o pagamento do artigo e quem sabe
a encomenda de outro ou ser efetivado na revista. - A estação
está longe, senhor?
- Ali, depois daquele prédio.
Anoitecia e esfriava e sequer frequentou uma
universidade e não fazia sentido o legado de seus escritos
dispersos mas aceitou a encomenda do texto sobre a
passagem dos vinte anos do Maio de 68 e vai entregá-lo
pessoalmente na revista espanhola. Depois passeará em
Madrid e sentirá a respiração de uma mulher de fala cantada
e longos cabelos negros. Pele clara. Branca por assim dizer.
Coxas brancas exceto pelos arrepios e as veiazinhas entre o
azul e o vermelho. Sol numa cortina de tule. Ele tem desejo
de Espanha e das pessoas e coisas da Espanha porque não
está na Espanha.
Entrou na estação. Burburinho. Frio e fome. Sangue
aquecido e preparado, grosso. Não voltará ao mundo. Não
voltará. E se não voltará por que olha tanto para o céu e se
importa tanto com a opinião das pessoas- De nada valeu a
vivência exceto para descrevê-la- Estava cansado de lidar
com palavras. Não voltará. O que é tempo? O sopro de vida
em mim será tirado como esse trem da plataforma um.
Exceto suas ações nada restará. Com lábios trêmulos chegou
a dizer "Estou com frio". O homem a seu lado não entendeu
ou não se interessou porque decerto não estava com frio.
Na cabine solitária chegam cheiros de todas as casas na
escuridão. Camas rangendo. Armários abertos rangendo.
Relógios refletindo o luar. Sons noturnos. Sim, meu amor.
Outra camada do tiquetaquear do trem na noite. A mulher se
ajoelha e o homem por trás segura os seus seios. Ofegavam.
O leite ondulou no copo à cabeceira e pingos encheram o
vidro da janela do trem e escorreram pelas pernas trêmulas.
Estação de Atocha. Madrid pela manhã. ¿Por favor,
donde un hotel?
-Hay un bar cercano con abundantes raciones y buenas
tapas. Tienen buenos platos combinados y camareros
dispuestos.
Ficou com o quarto. Lá fora trovejava. Solidão. Solidão.
Rodinhas no piso. O carrinho gemia. Mas o corredor não era
acarpetado? A voz (do gerente talvez) diz à camareira que -
passos arrastados e outras vozes na janela. Ecos. Enchem o
quarto mas estão por toda parte. Quando era pequeno tinha
vezes que sentava no assoalho e tapava com forca os
ouvidos, a cabeça entre as pernas, e chorava em desespero
durante um tempo enorme ate que aos poucos as vozes iam
se calando como agora. É como se o carrinho do setor de
limpeza do hotel as tivesse levado. A voz no corredor se
desliga dos ecos e silenciam.

EU disse ao Sr. Jean: "Pai, precisamos fazer alguma


coisa. Ele parece tão boa pessoa e assim vai enlouquecer".
Talvez eu já estivesse apaixonada e fosse um pretexto mas
talvez nao e só estivesse se manifestando o forte instinto
maternal que eu nao imaginava viesse a ter um dia e talvez
nem precisasse porque nao queria ser mae mas depois que
dei aa luz entendi o que significa o ditado "do homem sao as
disposicoes do coracao mas Deus direciona os caminhos".
Acho que o sr. Jean me atendeu porque no fundo temia
que eu tivesse puxado a ele e logo sumisse no mundo e
quando me arrependesse fosse tarde como foi para ele e
acho que estar ali diante de mim de um lado e de sua noiva
do outro deixava isso bem evidente e doloroso para ele e eh
possivel que ali tivesse tido a ideia de me dar o apartamento
de presente se o que ele imaginava estivesse certo como
estava porque tanto me segurava perto quanto protegia o
patrimônio. Foi mais ou menos o que fez quando entregou a
administração da fazenda ao Kleber. Acho que todo pai é
assim. Mas olhando para a Mae e para mim mesma hoje vejo
que as mães são bem diferentes entre si por mais que
tenham pontos em comum.

Sentiu desconforto nos pés e tirou os sapatos e


experimentou o alivio dando uma volta no quarto. O ar que
entrava pela janela era do mesmo azul ferido do céu. A calca
apertava e estar de cuecas o remeteu de imediato a uma
Blandine rósea que soh na roça existira. Fazia cinco minutos
que a moca da limpeza passara com o carrinho mas parecia
noutra vida em que as pessoas eram boas e o sofrimento nao
era requisito para se tornarem melhores. Demorou para
entender a relevancia do caderno agora em seu colo para que
tivesse com ele tanto cuidado a ponto de notar que as folhas
estavam dobradas no canto superior. Precisava comprar um
novo.
– Pensei que ele estava – disse a camareira.
– Não, acho que nao. Por quê?
– Parece que há um recado.
Os olhos nublados doíam. Bem que seus pais avisaram.
"Você precisa fazer uma faculdade". Profetizavam essa ereção
inútil.
Caminhões municipais escovavam o asfalto. A janela
enquadrou o céu e uma estrela apareceu imponente ou
simplesmente só em sua solidão como um sinal. O relógio e o
jornal que ele lia na cama apoiado num cotovelo registravam
o final de abril. Havia tensão no avião árabe sequestrado. Na
copa das árvores o verde muito escuro retém pelas nuances a
luz do sol imerso no abismo. As vozes no corredor se
distanciam. Crescem os sons do vizinho.
Em torno da lâmpada mariposas. Com as mãos na parte
de trás do pescoço ele as olhava boquiaberto como se visse
fantasmas e lembra. Cartas caídas no chão e recortes de
jornais velhos; fotos; papéis voam da mesa e alguém exulta --
um livro! Se esvaiam na noite as luzes e restava colocar o
coração bem irrigado por exercícios e alimentação
balanceada a serviço do que deve perdurar.
Uma camareira rendeu a outra. Passava pelos quartos
abertos recolhendo a roupa de cama usada. Lembra da cara
do marido quando ela finalmente tomou coragem e disse
"Vou sair de casa, não preciso de você para sobreviver".
Recorda a cara da filha. O orgulho da moça escondida atrás
da enorme barriga. Passou com o carrinho pelo balcão vazio
da portaria. Quadros da Inspeção Sanitária. Advertência
contra crimes sexuais. O espelho e o quadro das chaves.
A que saiu se encontrou com o namorado. Seguiram pela
Gran Via e entraram no prédio e depois no apartamento. Mais
tarde comeram as iscas de fígado que ele preparou e
voltaram para a cama e no dia seguinte acordaram quase
meio-dia.
O porteiro voltou. Cantarolava a música que encerrou o
show da noite anterior. A movement is accomplished in six
stages. Banda fantástica. Era como se todas as coisas boas
que deveriam acontecer ao longo do dia – as gorjetas e a
pausa do almoço, o flerte com as hóspedes – tudo estivesse
ligado aos acordes e aos rifes e ao delírio.
As escadas desciam em voltas. Em passos normais pelo
corredor uns cinco minutos dos quartos até a rua agora
visível. A luz fazia com que a pessoa apertasse os olhos e
transeuntes se aproximavam então de quem saía. Há dois
casais parados em frente ao prédio. O ônibus ronca e retoma
seu trajeto.

Eu queria fazer amor com seu o professor . Não estava


apaixonada, longe disso, mas o admirava. Saboreava a
intensidade desse desejo sem culpa enquanto minhas amigas
acendiam, e quando o baseado fez efeito passou pela minha
cabeça a reação de Hans se soubesse e do jeito que as coisas
eram certamente haveria de saber. Em nenhum momento
senti menor meu sentimento por Hans desde que viu o outro
no campus e quis estar com ele ao menos uma noite.
- Ele é muito lindo! - Você só pensa nisso, Valerie... - Por
que outra razão eu me ligaria ao movimento estudantil? -
disse eu. E dei risada.
Ele chegou e disse "Oi pessoal". Eu já tinha tudo
planejado e pouco depois a gente estava no alojamento. Do
outro lado da parede tocava Beatles, Revolution. Os outros
deviam estar tagarelando Well you know sobre sistema
educacional e política e Vietnã mas no fundo tudo o diziam é
que eu tinha o direito de fumar unzinho e depois fazer sexo
com aquele homem.

PELOS labirintos do metrô, ele chegou ao outro lado da


cidade no princípio da noite. Arrefecido o horário restou a
oferta de corpos e o burburinho nos bares e adolescentes
discutindo qualidade e preço. Apertos de mão em código.
Socos de camaradagem e beijinhos. Ao se dispersar um
grupo alguém deixa um pedaço gratuito como prova de
amizade.
Estava sentado sob o toldo no degrau diante da porta
comercial de enrolar e rabiscava a página do caderno.
Durante tanto tempo sonhou estar no lugar em que estava
mas isso não significava mais nada. Pouco depois estava na
avenida de Daroca e ventava. De Vicalvaro a Las Musas
entrava no mundo que nasce quando morre o diurno e sua
retidão.
Apanhou a linha sete até Pueblo Nuevo e a cinco até
Ventas. Havia ali cinemas e sopas e madrugadas segundo o
suplemento. Viu o cartaz e entrou. A inverossimilhança do
castelhano perfeito de Sting e Kathleen Turner fez da sessão
um tipo estranho de terapia e saiu sereno e bem disposto.
Não lhe ocorreu qualquer associação entre o filme e Blandine
mas havia Trieste. Se relacionasse os cenários com os
arredores da Via della Sorgente onde ela vivia e
caminhava ao sol e aquele mar do filme com o mar que agora
a extasiava, teria ficado ansioso e triste. Mas não lhe ocorreu
qualquer ligação e saiu ileso graças a esses complexos
mecanismos mentais que nos protegem de nós mesmos.
Meses depois quando voltasse a assistir o filme em
Lisboa numa sessão reservada a jornalistas para mostra dos
processos de Alta Definição, por causa
ambientado em uma vila de pescadores cultuada por artistas durante a época da expansão da

internet, o livro narra o auge de uma pintora a partir da chegada de um forasteiro para administrar a pousada local. ele se apaixona e todavia se torna
seu genro. uma história de arte e morte, de vício e doença, de amor e sexo, tudo como todas as coisas submetido à passagem do tempo.

A senhora Lens (Portuguese Edition) Kindle Edition


by Ricardo de Almeida Rocha (Author)

A senhora Lens fechou os olhos. Arfava. A respiração a enchia da vida exterior. As


cigarras dividiam a madrugada em finas fatias de desespero. O mar ao longe parece aqui.
Dentro do quarto. Nos pensamentos relativos ao momento imediato imprimiu-se um
colorido digressivo. No pio da ave noturna há um desenho aos pés de uma freira e o raio em
que nasce o cântico das contrações retroage à madrugada em que uma menina saiu à luz.
Ouviu os morcegos, céleres; lágrimas ambíguas em seus olhos. As reminiscências levaram
o corpo quieto na cama para as praias da adolescência povoadas de gaivotas. O pulsar do
colchão de molas ateara um rubor vivíssimo às partículas de pó. Um arrepio na parte de
dentro das coxas. O que se leva do mundo? Nada, pensou ao levar os dedos. O gatinho sobe
na cama e se aconchega ao corpo quente para atravessar a passagem escura como a
madrugada perto do amanhecer e, mesmo antes do sol, pelo sol redimida.
Houve um momento em que o mundo se desligou da noite. O primeiro efeito foi a
perda do contraste das estrelas em relação ao céu, preguiçosamente amanhecendo. Logo a
azáfama dos passarinhos e o espaço entre os galos se alarga. Uma e outra revoada. E outra
mais. Fez-se uma daquelas ocasiões especiais em que o minuto que passou pouco apresenta
em comum com o atual e o seguinte terá igualmente atributos peculiares, distando uns dos
outros não o período de tempo que os separa mas todos os séculos culminantes no Juízo. O
gato se agita e ergue os olhos para o teto como se visse os pássaros de um súbito bando. Ela
ensaia um sorriso traduzido pelas primeiras luzes do dia a tangenciar o monte diante do
qual o mar bramia seu misterioso refrão de louvores metálicos.
Por um instante o sol emprestou à varanda do prédio em frente um amarelo vivo no
crescendo do canto dos pardais salpicado de curruíras. Altivez barulhenta de um adejo.
Letras num vento passam pela casa. A mulher escuta o motor e a mudança da marcha. A
janelinha enquadrou um homem, de um homem jovem, primeiro de perfil – nariz
ligeiramente arrebitado e lábios bem definidos; a testa larga à luz da lampadinha sob o
bagageiro – e depois maxilar e queixo alongados no rosto estreito. Voltando-se para reter o
hibisco no jardim, o perfil do outro lado realçou os óculos de armação curvada. A silhueta
da janela oposta com voz feminina fez a pergunta e após os segundos de praxe, quando ao
olharmos um estranho decidimos se nos é simpático ou desagradável em sua extroversão,
responderam. “Talvez vinte minutos, não mais”. O rapaz no ônibus passa os dedos das duas
mãos pelos cabelos. A mulher na cama sente um arrepio no alto da cabeça. O silêncio
intensifica os sons do vizinho — pessoas, portas e vozes. O gatinho entra nas cobertas e
ronrona.

O ângulo da luz matinal concedeu um brilho azulejado à sacada do prédio em frente.


Onde refletia o sol, surgiu a intensidade da paleta da senhora Lens Lens. Tanta luz não
podia mais ser apenas registrada. Decidiu dar-se o dia. Descansaria. Descansaria na praia.
Erguendo a cabeça ela contemplou a circunferência incandescente, um gesto
orgulhoso da manhã, em contraste com uma mulher mais e mais humilhada e doente,
melancólica. Vive com o peito oprimido e uma sonolência mórbida. Os intestinos trancam a
emoção num desconforto que parece a estar inchando. Os lados da cabeça se revezam em
aura na disputa do lugar em que sofrerá sua crise diária de enxaqueca. A natureza ao redor
em sua eflorescência se mostra indiferente aos males humanos. Lá fora as pessoas
caminham indolentes por causa do calor.
Seu porte em casa é como se estivesse num salão de festas. A solenidade que
empresta sentar-se ou apanhar alguma coisa no chão ou no alto do armário, só de camiseta.
A maneira de segurar o pincel e monologar. Seminua diante de seus rascunhos, a poucos vê
e para tantos vive.
Uma cidade muito pequena aa beira-mar cultuada por artistas. Ruas onde andara
com a menina agora notada, nao há de ser um sinal que Rose envelheceu.
- Bom dia, senhora Lens ! - alto e magro e com uma expressão bondosa e sexual, o
homem hipnotizou as pontas prateadas pela soma de tecido e sol. - Quantos? - perguntou.
- Um só - disse ela. - A Michele ja foi.
Passado e futuro estão para se encontrar no presente e o acorde de pão quente que
chega no ar no ar chegará ainda e o amargo da boca desfeito pelo dentifrício se converterá
em si mesmo quando ela acordar trêmula e molhada com a imagem do estranho no dia do
aniversário de Michele.

Pôs o pó na cafeteira. O cheiro forte de perfume no banheiro indicava que a filha


tinha ido para a escola. E essa blusa jogada na porta do quarto. Sobrepõe a peça na blusa
que ela própria vestia. O mesmo número. Mas a menina tem postura e nunca reclamou de
dor nas costas; suas pernas são firmes e ela não herdou o arco; porém as pernas de Rose são
também bem torneadas pelos agachamentos constantes no ateliê.
A idéia ocorreu quando ela estava colocando a roupa na máquina. Os vizinhos da
frente tinham acabado de mudar. Não tinham filhos e saíam toda noite. Estavam justamente
chegando trajados a rigor. Fazia aquele silêncio insuportável quando o que se contempla
está perto e longe demais. Ela imaginou que do outro lado havia um bosque muito verde e
que ao crepúsculo o casal sentava debaixo de uma canafistula. Dentro do bosque um lago
refletia o fogo no horizonte.
Num de seus arroubos sexuais George tinha dito que lhe daria o céu se ela quisesse.
Ela pensou que o céu não adiantaria muito ao lado de um homem sempre embriagado mas
um lugarzinho onde pudesse trabalhar em paz com certeza cairia muito bem.
- Sim, sim, vou providenciar o estúdio para a minha gatinha - disse ele. - Só porque
ela tem essas pernas gostosas — completou apalpando-a, quase babando.
Ela caminha em torno da mesa azul de fórmica, nessas pernas. Há um volume
escuro na grossura das coxas, da parte externa do joelho até quase a virilha. A água ferve.
Sentou-se com um ranger de cadeira nova. No caderno de receitas ao lado do forninho
escreveu algo que agora cobre e recobre.
Num canto do terreno havia o fícus, baixo, da altura da cerca. Na temporada
quando não estava chovendo suas folhas eram alaranjadas de poeira pois parte da rua de
terra se transportava para elas até a próxima chuva antes da qual seus pais vieram fazer a
única visita depois que a filha casou. Além da má impressão que esse pó grosso causara,
havia as poças e os buracos em que se formavam e que os dois ou três dias entre uma e
outra chuva não eram suficientes para secar.
Quando o taxi parou e o motorista perguntou se a casa era aquela, o velho demorou
a responder e precisou reouvir com a memória de retrospecto, curta e precisa. Junto à voz
da pergunta ouviu-se a do trovão. A mãe de Rose olhou o marido com um misto de piedade
e vergonha e se antecipou dizendo que sim era aquela a casa. O cãozinho como sempre
ouviu primeiro buzina e palmas e com os latidos as luzes da sala e da varanda se acenderam
quase simultaneamente. Depois o cachorro pulou a muretinha para o jardim onde começava
a trilha até a porteira correndo com saltos horizontais parecendo por fração de segundo uma
espécie de cobra voadora.
O senhor e a senhora Lens Lens tinham acabado de jantar e enquanto arrastavam as
cadeiras para receber os visitantes outro relâmpago rasgou a escuridão e Rose pensou que
assim que o pai entrasse ela precisaria confortá-lo como quando era menina; mas mal ele
entrou com o blusão de couro escorrendo pelo assoalho, levou a filha para um canto e
sequer precisaria; ela sabia que ele ia falar sobre poeira e poças e barro e distância da
capital e quedas de energia e — o que não ia falar, só pensaria — era um lugar descampado
e sem para-raios. Então todos se tornaram sombras de lá para cá rumorejando no súbito
silêncio negro do século passado.
— Não tem sequer uma igreja por perto — disse a mãe ao substituir o marido junto
à filha. — Nós não vamos à igreja, mãe.
A mulherzinha arregalou os olhos como se tivesse sido ofendida e Rose jamais teria
oportunidade de perguntar se ficou mesmo ou talvez se desculpar por ter sido tão franca
pois os pais faleceram na mesma semana, um mês após a visita. Como resposta à reação da
mãe, Rose disse, com um singelo desafio no olhar: — Ele ainda bate em você? —e
enfatizou: — Não parou, mesmo doente? — porque a mãe justificara a ferida no lábio com
uma queda na cozinha. Sabe-se lá. Pode ter sido mesmo. Ou uma mordida do amante.
Dia após dia a senhora Lens Lens se afastava do tempo de resgate que foi seu
namoro com George — a página em branco que então preenchia, como todo novo amor —
e entrava mais e mais nessa vida tediosa que decorre da maturidade. Não almoçavam mais
juntos e não faziam mais nada juntos exceto dormir. Se ele tinha outras mulheres isso era
relevado no mundo dos homens — morador que não gosta da casa mas é proprietário e
sente-se no dever de zelar pelo imóvel. Ela esmaga a casquinha de pão quando pensa que
certas preferências do marido tinham mais a ver com uma vontade real de machucar. Mas
se fosse diferente, gentil como - como era mesmo o nome dele? — enfim — como aquele
rapaz - Reinaldo? — decerto não teria lhe dado a mínima.
Na noite anterior ouviram-se gritos no quarto e tinir de copos à cabeceira. “Cale a
boca!” Pulsos arroxeando. Uma janela se abriu lá fora e os corpos se estenderam nos
Um beijo mais profundo que esse abismo
By Ricardo de Almeida Rocha

Uma mulher jovem sozinha na cidade. Abandonada pelo amante caminha sem ter para onde ir. Um rapaz que
passa por ela pensando nas coisas de seu trabalho e nos livros que pegará na biblioteca. Uma revelação...

OS LADRILHOS da fachada amarelejam ao longo do caminho para o fim.


As bordas da blusa ondulam sob o voo leve do pássaro de um sonho. A textura
da saia não permite que se determine a cor e adeja, mansa e inexaurível,
tomada de suntuosidade súbita. Os traços de seu rosto na aura de medo não
se atribuem a beleza que os transeuntes detectam. Para o fim. Ela escuta nos
carros que passam. Está escrito no arrebol entre os prédios.

É véspera do inverno e está um frio a que não está acostumada desde


que chegou há uma semana. Disseram que o centro não estava longe. Que
seguisse a avenida até o parque e virasse à direita no semáforo. Não disseram
quantos quarteirões isso significava. O ônibus passou por esta avenida. Foi na
frente daquele café que ela o viu pela primeira vez. Um pouco antes ouvira que
falavam dele. Está doente. Bem feito, alguém disse. É um canalha. Morrerá
sozinho como sempre viveu. O fim que merece. Ela o seguiu de longe.
Aproximou-se quando ele deixou a mesa. Deixara cair alguma coisa. Ela
abaixou-se e apanhou a pequenina rosa.

Luzes de uma janela. Vozes de criança. Um vulto recortado contra a sala.


Ela disse aos vizinhos que o emprego estava certo. - Não precisa ir, Alice. Não
precisa ir. Você tem tudo aqui. Devia terminar a faculdade. Fazer um
doutorado.

Um dia ela achará o mesmo. Um dia como sempre quando não mais for
possível.

ELA NÃO FALA há dias. A última conversa foi com a moça que viajou a
seu lado. Saiu do ônibus sentindo o esforço. Seu duplo exausto passou pela
vitrine enquanto lá dentro a vendedora apanhava uma sandália. Parece seu
número. Tiras e ligas, do tipo que ela gosta. A atendente é bem bonita mas que
vale a beleza? Dinheiro é o que vale. Um após outro eles passam. De Darken
Pöbel a Öffner Hilo. Com um ficou na ponta dos pés e com outro deixou o
celular cair. Permitirá tudo. Pomba gemendo em círculos sobre o farelo de
tempos de um mundo inóspito mais inóspito quanto vivos os sonhos.
Ele surgiu do nada: — Aceita um café? — disse. Que moça sozinha na
cidade grande recusaria? Era gentil e muito lindo. Ensina como se chega à casa
da moça. Ela não teria de passar a noite na rodoviária ou numa casa de
acolhida.

Havia platibandas e arranjos de ramos entrelaçados nas janelas do


restaurante e todas as pessoas tinham celulares ao lado das xícaras. Para a
garçonete ficou manifesta a diferença de altura quando os viu pela janela. —
Olhe que sorriso sincero — disse para a colega que servia a mesa que dava
para a rua.

O sol da tarde nos cabelos fazia de Alice uma santa aureolada. O ombro
esquerdo no lado direito do peito rígido. Não é um rapazola nem tão mais velho
como ela a princípio imaginou. O tecido da blusa lhe cai bem. O que estou
dizendo? Não o conheço.

Visto do vão dos prédios, o trânsito se arrastava. Ele apanhava papéis de


bala e maços amassados no chão e colocava nas lixeirinhas. — Após o teatro a
primeira rua à esquerda. Do outro lado aparecerá uma padaria. Costuma ter
muito movimento.

Se ela quisesse mesmo procurar a casa da amiga.

Alice devolveu o sorriso franco.

Um dia ela se refugiará naquela padaria para comer sonhos em meio ao


burburinho dos bebedores de cerveja do fim de noite e operários tomando
café. — O seu é preto não é, senhorita? Terá fãs por ali.

No momento a última coisa que quer é procurar a casa de uma moça


cujos propósitos não ficaram claros, ainda mais agora que havia conhecido o
amor de sua vida. Por isso não resistiu. Foi um beijo perfeito o primeiro sob a
lua.

PEDRO ANDREAS HOFFMANN veio do interior para São Paulo estudar


arquitetura mas logo a necessidade fez com que mudasse para Análise de
Sistemas e bem a seguir um curso técnico voltado ao desenho de móveis.
Antes de terminar os estudos já estava casado e foram passar a lua de mel na
Europa e cumprindo uma promessa levou a mulher para a Praça de São Pedro
mas naquele domingo o Papa pela primeira vez não fez a oração dominical e
estava estabelecida a primeira de muitas frustrações do casal. Em 2013, o
relacionamento estava desgastado mas nem um nem outro admitia
abertamente, na esperança de que a gráfica que ele tinha aberto viesse a
mudar as coisas, sobretudo se ela engravidasse.
Essa evolução material não se fez acompanhar de progresso espiritual
ou sequer do alívio da anedonia e logo seus corpos refletiam isso e ela, outrora
magra, tornou-se fornida e cadeiruda e ele ganhou a barriguinha típica dos
prósperos infelizes, e nos dois casos os fazia tanto mais atraentes para
terceiros quanto se entediavam um ao outro.
Em junho ela viajou para sua cidade natal, vizinha à dele. Passou dois
dias e na volta esperava que o assento ao lado estivesse vago pois estava
muito cansada e queria se esticar durante aquelas quatro horas e
definitivamente não estava com paciência para conversar com estranhos. Mas
a jovem que sentou ao lado, no momento exato em que o motorista ligava o
motor, imediatamente angariou sua simpatia ao se encolher junto ao braço
lateral da poltrona, quase pedindo desculpas por estar ali. Conversaram sobre
estudos e mercado de trabalho e de passagem Sonja, a esposa de Pedro,
mencionou as confusões na capital por causa do aumento das passagens e a
outra apenas sorriu constrangida por não ter a menor ideia do que se tratava.

A VITRINE reflete a cabeça inclinada. A dor no movimento é resquício da


posição na viagem. Não é uma dor má: evoca o ombro da companheira. Alice
está sozinha sobre o viaduto. Ao longe o trecho de superfície do metrô. Essa
que agora eu sou, como a onda solitária que entre outras é a única que enche
e não arrebenta, orla de espuma abortada e cansada, tensa, sozinha,
carregando um mundo destruído, oh Deus — pensou ao focalizar a luz
amarelada nos ladrilhos.

Encheu os pulmões. Ajeitou a meia e se demorou no relevo escuro da


parte de trás do joelho. Como quem faz uma verificação, deslizou os dedos
mais para acima e sentiu a maciez morna. A música nos carros faz parte do
brilho metálico que se dilui no ar.

Continuou caminhando ao passar pela entrada do metrô e se despegou


da massa humana na qual pensara se integrar. Atravessou a rua com uma
corridinha quando o verde abriu. Sua sombra corria fiel a seu lado e se uniu à
sombra dos cabos elétricos, ultrapassando-os. Parou em frente à lan-house.
Entrou. As pernas doem. Está suada apesar do frio e precisa ir ao banheiro. Diz
seu nome ao pagar a hora ao atendente. O rapaz que entra em seguida
escutou e logo terá oportunidade de repetir em voz alta.

Olhou de soslaio os computadores na penumbra da sala. Tirou o livro da


bolsa. Os cantos das primeiras páginas unidos na mesma dobra. O planeta
girou e se aproximou em mapas e nomes, em números e mares. Puxou a
cadeira de modo que suas mãos se acomodassem melhor ao teclado. Por meio
de dedos treinados, acompanhando as telas com olhar amortecido e lábios
compactos, deu-se conta de que um mundo estivera em pleno andamento ao
longo de sua depressão. A respiração retornava ao normal. No prédio em
frente, a primavera caía sobre o muro. O atendente esticou o queixo e logo
seus olhos obtiveram o desejado ângulo.

Está escuro mas os usuários não percebem ou não reclamam. Lado a


lado cada um olha seu monitor como se contemplasse o nascimento do mundo.
A cor no rosto de Alice vem da tela. Uma e outra vez sem virar a cabeça ele vê
o perfil de beleza e serenidade entre cortinas ruivas. O sol se pôs atrás dos
prédios laterais no reflexo d vidro escuro que os separava da rua. O som da
geladeira onde estão os refrigerantes se confundia com uma chuva que de há
muito não caía. O rapaz que a seguia se imagina com Alice pelas ruas do
entorno. Chegou a pensar num motel, mas descartou a idéia. Então por que
está ali — perguntou-se sem resposta. De moças bonitas seu trabalho está
cheio.

Quando assumiu o cargo de chefia na empresa todos os anos eleita


como a melhor para se trabalhar no País, Pablo Andreas Hoffmann tinha
realmente o melhor currículo dentre todos os candidatos. Ótimas faculdades,
mestrado, especialização. E o entrevistador percebeu ainda uma vantagem
adicional: ele sabia lidar com pessoas. Não soube isso na entrevista. Tinha
vasculhado a vida do futuro funcionário nas redes sociais. Suas namoradas e
seus livros, suas bravatas irresistíveis.
Ele não decepcionou seus empregadores. Bastou uma semana para
saberem que ia longe na carreira. Não se dava descanso. Sem qualquer
dificuldade de se passar de companheiro de happy hour ao homem que dá as
ordens. Fazer de seu apartamento um abatedouro e as lebres renascerem em
colaboradoras dedicadas de projetos no dia seguinte.
Esticava o horário de expediente em restaurantes com mulheres ou
clientes e as vezes intercalando uns e outras. Em dias inspirados praticamente
não dormia. Ontem ainda foi um desses. O lugar era um casarão dos anos 20
adaptado segundo os prédios holandeses de containeres. O proprietário tinha
ficado muito satisfeito com as soluções para o wifi e a segurança da rede e
particularmente com o uso de blocos de aço, um projeto de arquitetura
sustentável que ficou quase de graça, pois nessa época os irmãos não só ainda
se falavam mas davam sugestões no trabalho um do outro.
Pablo e sua acompanhante ficaram muito a vontade num sofá de couro
sintético alaranjado perto de uma das varandas. O atendimento foi gentil e
discreto, adoraram. Saíram pelo corredor lateral as duas e meia da manhã.
Ventava um pouco e o farfalhar da organza sob a jaqueta dialogava com os
sussurros.

UM RIO CORRE lá embaixo. Uma linha cintilante segundo quem olha.


Quando Pablo tornou a olhar para Alice, ela via a terra girando. Continuava
procurando a casa que devia ter procurado no primeiro dia, mas não podia
fazer as coisas do modo mais simples; não ela. Talvez porque gostasse da
sofisticação das frases nos livros que amava. De como mantinham a clareza e
apesar de todas as curvas chegavam sempre ao entendimento, que é vida.
Nisso, ela e a mãe concordavam. Alguma coisa para atraí-las precisava antes
de qualquer coisa ser mais que verossímel, precisava ser verdadeiro; tinham
esse objetivo comum nas direções opostas que tomavam. A terra. Fotos de
satélites em alta resolução.

A tarde termina. As árvores escurecem mas as copas refletem a luz


dos...
SE CONTIGO DEVEREI HABITAR
by Ricardo de Almeida Rocha (Author), Ricardo de Almeida Rocha(Author

uma bela jovem é a única suspeita de uma série de assassinatos mas há algum problema com a investigação
pois ela mesma tinha sido a primeira vitima. e os assassinatos continuam e tudo ainda aponta para ela. mas ela está morta

)
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Language: Portuguese

Na janela junto à ponte se debruça absorta. A correntinha reluz em


seu pescoço. Na trilha do parque por onde ereta voltou como se nada
tivesse acontecido, arde a devassidão das aparências. Havia nas árvores
aves como essa — canto de um mundo que a abandonou. Ouve o
barulho do mar exatamente como em sua caminhada matinal. Em cores
fortes e reflexos passam os automóveis. Inquieta respira fundo. Afasta-
se da paisagem com um impulso no parapeito e num último relance
deixa o sol filtrado entrar na sala quase líquido sobre os móveis.

Enquanto procurava entender onde estava ao acordar suando frio


no meio da noite cruzara os braços sobre o peito e levara as mãos em
cruz ao calor do ventre. Recordou-se menina. Seu primeiro amor foi uma
coleguinha de classe. Um dia saiu de casa e esteve diante da portaria de
seu prédio por quase uma hora. Um dia foi magra sem indício de
atrativos em vestidinhos que ela masculinizava. Uma menina obediente
e bondosa. Merecia um corpo despercebível em que habitar. Jamais
usaria maquiagem. Jamais iria beber ou mentir. Cultivará todo propósito
virtuoso.

Estava sempre ajeitando o biquíni sem que seus pais entendessem


a razão e em casa ficava horas olhando o nada. No enterro do avô o
tempo todo chorava e dizia "Vou sentir tanto a sua falta! Vou sentir tanto
a sua falta!" Mas ama agora a integridade de um homem e tudo que lhe
diz respeito incluindo a indócil virilidade que ele está longe de imaginar
tenha tal efeito apaziguador.

Livrara-se do passado e enfim seria feliz se não tivesse sido de


novo transtornada pela humilhação renovada, outra perda da inocência.
Em que medida era culpada e como conviver com essa culpa? Como
conviver com esse ódio?

Gisele Drabska. Uma jovem simpática que todos achavam


belíssima. Que vantagem se a beleza só traz sofrimento? Um dia
morrerá e nada ficará além de seu caráter. Dos objetos pessoais
impregnando de saudade a pessoa amada. Os poemas na maior
angústia.

Apesar da longa ducha parece que ainda dorme mas já é dia.


Sobre a cabeceira o relógio acusa seu atraso. Na penteadeira o perfume
que recebeu no Dia dos Namorados. Veja no espelho o quanto você é
bela, dama triste de olhar perdido na sacada da firma. As colegas a
imaginam realizada com os homens que quer. E amaldiçoam,
amaldiçoam sempre, às vezes com gracejos e outras simples
maledicência.

Sobre a cômoda antiga as bonecas de porcelana numa cena


perfeita de reflexão acerca da infância que chegou a ser tão boa durante
algum tempo. Uma colina ao longe cuja neblina jamais se dissipa. Com
uma última ajeitada no cabelo desdenha de tempo ou contratempo.
Deu uma olhada ao sair percebeu que há orvalho nas folhas da
árvore em frente, a única do quarteirão. A grama do condomínio está
dourada. Até que horas durará esse brilho? No rosto pálido a resposta:
não mais que alguns minutos, o tempo da alegria de alguém.

O vermelho vivo passa e na distância marcada pelo motor se


mistura o som do telefone. Não achava que ele fosse capaz de ligar. –
Vamos terminar num lugar discreto o que a gente começou na trilha?

Gisele continua caminhando. Nem por doença falta ao trabalho e


não costuma se atrasar.

Se tivesse deixado o cabelo crescer seriam cachos marrons e angelicais. Mas


gostava assim curto, era mais ele mesmo; embora isso seja uma questao de que nunca se
livrou e de resto acha que jamais se livrarah. Seus labios bem desenhados Gisele achou de
primeira que foram feitos para dizer as mais delicadas e platonicas palavras de amor.

David não usava o celular mas atendeu o pedido de Gisele e levava


consigo para um caso de emergência. Conheceram-se no ônibus. Não
tinha certeza de onde saltar. Gisele sabia? – Ah! – respondeu ela. –
Também desço nesse ponto.

Ela se angustiava com a possibilidade de uma ligação. Como ela


também...
Tundra é dominada por uma Organização que em seus primórdios era uma sociedade filosófica e artística mas hoje mantém o poder por meio de
atividades criminosas. Haofuqīn Dunguski era seu presidente até ser assassinado e agora o assassino subiu ao seu lugar. Era o plano perfeito de uma
mulher perfeita. Mas saiu do controle.

É uma mulher escultural. Belíssima. Quando ela caminha e joga


para um lado e outro parece um barco e é assim que vem debaixo da
sombrinha no crepúsculo enevoado desejando que os fluidos de seu
corpo se aperfeiçoem na lascívia e a magia dure a noite inteira. Os
cabelos escorrem pelas suas faces em movimentos de pantera. Os olhos
lembram o interior de uma igreja bizantina; conforme a luz, mudam de
cor: no verão verdes, no inverno tendem ao azul. O delicado septo
desenha com o dorso do nariz a Ursa Menor. A pele brilha como
constelações quando passa o creme após o banho, do tornozelo ao
joelho pressionando pouco e nas coxas mais em direção a virilha. Uma
feiticeira que sussurrando invoca poderes de vida e morte com lábios
bem delineados. Intensa e naturalmente vermelhos. Inequivocamente
femininos mesmo quando ela fala com a energia máscula de que é
possuída quando deseja alguma coisa.

— Aja, Gerhardt. Ele está apenas te usando. Você precisa fazer


isso. Ele tem tudo. E nós? o que temos?

Gerhardt acredita que as coisas virão a seu tempo. Argumenta


acerca das palavras da esposa. O futuro lhes reserva o melhor.
— O futuro? Nunca chega sem que seja conquistado. Sabe Deus se
haverá outra chance.

Graças ao amor que Leslie lhe dedicava Gerhardt Molinari se livrou


de uma infância miserável. Graças a ela conheceu a felicidade.
Contempla-a. Um voluptuoso sol resplandece. Ele adivinha o cheiro de
seu hálito e os demais. O tempo não passa para ela. Parece ter os
mesmos quinze anos de quando Gerhardt a viu pela primeira vez. Nunca
mais foi o mesmo depois de passar por ela na rua principal do balneário
de Tundra.

Eram então adolescentes. Ele vivia metido com uma turma


malvista pela comunidade. Leslie compreendia. Dava um jeito para que
ele sempre se saísse bem. Fazendo-se de contrariada o repreendia por
essas atividades e sutilmente o incentivava pois representava dinheiro
essencial para que ela não dependesse do Deputado, como chamava
seu pai. Sempre apaixonado, não havia o que Gerard não fizesse por ela.

— Então aja, Gerhardt . Eu te conheço. É o que está querendo


fazer.

Caminhou resoluto embora sem ideia do que devia dizer quando


chegasse. Leslie não se admirou nem se aborreceu; sorriu. Então
descobriu onde eu moro. Então descobriu como é fácil entrar pela janela
de meu quarto. Ele desviou o olhar. Não importava se outros o haviam
precedido desde que não houvesse depois mais ninguém. A água no
copo à cabeceira ondula. E, quando ela deixou que fizesse daquele jeito
logo na primeira vez, ele já tinha certeza. Era o primeiro. Sob aquela
máscara serena, ela idolatrava o marginalzinho romântico. Ele será
grande. Ela vê com a mesma clareza com que vê o que se passa sob a
calça dele. Um ou dois êxtases que poderiam ser mais discretos. O copo
cai e no baque uma mancha cresce no assoalho.

A música chega da rua em acordes sensuais. O sol se pôs. Da


janela da casa dos Molinari dá para ver na frente de uma loja, junto a
caixas de velas e encartados de incenso, uma imagem de Janaína ao
lado do comércio de material de construção perto da ponte velha entre a
colina Efe e o bairro de Inbhir Nis. O sol morre numa incisão dourada ao
longo do rio, desde a serra. As águas duplicam a vegetação cerrada das
margens onde dos braços das árvores pendem sinos amarelos. Ouve-se
o silvo de um navio entrando na enseada. O vento ondula as águas
rasas do oceano. O horizonte está vermelho como a cidade.

Porque não pode mais aguentar a excitação da demora Haofuqīn


Dunguski acende um cigarro. Jantara com Gerhardt , Leslie e outros
amigos. Uma grande confraternização. Recolhera-se ao quarto de
hóspedes para descansar e foi providenciada uma jovem bem novinha.
Margherita. É demais para um homem de sua idade com problemas de
coração.

- O que tanto você faz nesse banheiro?

- Nada demais, queridinho. Só quero ficar bem cheirosa. Você está


pagando bem, merece.

Não voltará para casa. Não há nada para fazer à noite. Não há
como conhecer um rapaz que lhe dê a existência que deseja. Hábitos
que não se renovam. Sonhos ultrapassados na esperança do futuro, o
que retira do futuro a esperança. Vida arranjada por velhos satisfeitos
com suas casas e com seus quintais pálidos e inertes. O pai diante de
um copo no balcão do armazém mexericando com vizinhos sobre
vizinhos mais distantes. Lá também se celebram acordos acerca dos
filhos como no século passado. O meu para a tua. É o que a espera.
Então em Tundra não pode ser pior

- Dinheiro não é tudo. Venha logo se sente algum afeto por esse
velho.

Ele realmente não aguentava mais a demora. Mas Margherita


demorava.

Não é o que esperava. Dorme em quartos fétidos e suporta o que


não se julgava capaz. Até que come bem. Não há príncipe encantado e
um velho desses fixo pode ser a redenção. A mãe não sentirá sua falta
exceto nas lamentações com a comadre. Saiu com o namoradinho no
final do dia de colheita pelo caminho oposto de onde estava o caminhão.
Irá abandoná-lo assim que chegarem. Tem tudo planejado e dá ainda a
sorte de encontrar Hilma embora desconfie que o modo gentil como a
trata ultrapasse o simples afeto.

Dunguski se esforçou por pensar noutras coisas. Nos projetos da


organização. Com o coração cheio de orgulho lembrava de seu discurso
no jantar com o qual introduzira Gerhardt Molinari. Dunguski o
descobrira. Quando retomava o controle, ouviu a voz de Margherita.

Ela se aproxima e senta em seu colo beijando e mordiscando sua


orelha. A língua...
Uma jovem psiquiatra viaja para o norte da Noruega a fim de fazer o estudo de caso de sua tese sobre
depressão nos pescadores. Como não fala Bokmål, contrata os trabalhos de um paciente que é tradutor e também foi pescador na
Noruega

Os dias de inverno quando o sol quase não aquece mas tanto ilumina são dias nos

quais os que chegaram ao inverno da vida ainda podem sonhar. Mesmo doentes e se achem

inúteis. Mesmo sempre inoportunos. Ele pensava assim ao voltar do médico, coisa rara. Não

pensar. Voltar do médico. Significava que tinha ido. Não do médico. Da médica. Faz grande

diferença.

Houve aquele momento em que pediu para ser internado. - Só autorizo internação em

último caso. - O que falta para que meu caso chegue lá? - É quando o paciente representa

risco para os outros ou para si mesmo. Quando se torna agressivo ou pensa em suicídio. – Ah –

disse ele. – Bom saber que não preencho os requisitos.

– Graças a Deus.

Com um homem parecido ela sonhou na noite anterior. Ombros largos, não troncudo.

Cabelos curtos não penteados, penteados com a mão. Camiseta e jeans. Uma mochila como

essa. Em dias assim se acentua no homem o desejo de uma companheira com quem partilhe

essa vontade. Uma mulher que o receba e se tornem uma carne quente e una mas também

possam depois calarem juntos na paz posterior que é tudo e as mulheres costumam matar

com palavras.

- Mas e o que eu contei sobre as noites de angústia em que penso que seria melhor

nem ter nascido? - Você disse que sempre passa - disse ela. - Podemos tratar isso no

ambulatório - garantiu. E repetiu: - Internação só em último caso.


O consultório está imerso em uma luz avermelhada que contraria a lógica do frio. Ela

pisca de um modo teatral e seus olhos não o acompanham quando ele se levanta e caminha

até a janela. O prédio antigo no coração nervoso do centro da cidade em frente. Entradas de

pinho e escadas de mármore, espelhos de prata e arabescos de gesso. Num lugar assim eu

poderia morrer. Então se virou e a viu de costas pela primeira vez. Daquele ângulo era

bondosa como a imaginara na outra consulta. Ela se lembrou ao ouvir a voz sem ver o rosto de

modo ainda mais vívido do homem de seu sonho.

Ao acordar de manhã se lembrou do jaleco que havia comprado no dia anterior e foi

como estava de calcinha e sutiã até o armário e experimentou diante do espelho. Era de

gabardine com detalhes em gorgurão. As fibras segundo a vendedora tinham íons de prata

que elimanam bactérias e fungos. A médica reparou que podia cortar as mangas ou até tirá-

las. O espelho lhe devolveu o sorriso. Depois de tudo, ainda sabe sorrir e que bela é quando

sorri.

O homem estava hipnotizado pelo branco do tecido. Era o momento clássico em que o

tempo fica em suspenso esperando para que lado a conversa irá e para onde levará as vidas. -

E como seria esse tratamento?

- Medicamentoso. Terapia. - Você quer dizer antidepressivos.

Ela disse sim e ele respondeu que não ia dar certo. Tomara remédios demais ao longo

da vida e das poucas coisas que restavam era o afeto feminino. Ela continuava digitando e

olhando o monitor. Tentou tranqüilizá-lo. Hoje em dia existem antidepressivos que não afetam

a libido. Ele pensou em dizer que não confiava em médicos mas ela ficaria magoada e ele

perguntou se ao dizer terapia estava dizendo que iria colocar um psicólogo entre eles. Não

disse exatamente isso mas era isso.

Ela disse sim e ele concluiu que não ia dar certo. Ingenuidade pensar que daria e

tivesse encontrado a solução para fazer suas traduções num lugar calmo sem se preocupar

com as refeições. Dias frios fazem esquecer a doença e a inutilidade como se o homem

entrado em anos se sentisse preservado. Sim estava na melhor idade. Até ofereciam lugar

para ele no metrô. Não sempre; às vezes. Quando não, era como se as moças dissessem: “O

senhor está aposentado; evite a hora do rush ou então aguente o tranco”.

Era portanto um velho embora não se sentisse um, estava doente. Não muito doente

na verdade nada diferente do esperado para um velho quer se sinta ou não assim. Ainda bem

existem os dias frios quando o sentir-se inoportuno é amenizado pela luz do sol que quase não

aquece mas tanto ilumina em meio a casas encantadas onde o tempo não se decidiu se vai nos

acompanhar ou se podemos continuar sonhando. Porque geralmente não é assim mas uma

sucessão de horrores presididos exatamente pelo tempo.


Exceto quando uma mulher se senta a seu lado na praça e o olha como agora. É um

olhar inconfundível que ensina a um menino de treze anos que já é um homem e a um homem

de sessenta que ainda é.

***

Johann Weingärtner chegou em Berna para estudar no ano em que a fábrica de

chocolate começou a usar papel de alumínio e um pouco antes da Grande Guerra voltou ao Rio

de Janeiro onde trabalhou como ilustrador até morrer de tuberculose. Sua filha Ana também

desenhava e se tornou professora de pintura. Com vinte e um anos, ela se mudou para Porto

Alegre e se casou com um outro membro do movimento expressionista. Tiveram dois filhos. A

neta de Johann sempre foi o xodó do avô embora não tivesse qualquer propensão para seguir

a vocação artística da família. Interessava-se pelas pessoas de mais idade e com 19 anos, já

na faculdade, fazia a coleta de leite materno em domicílio para a Pro Matre Paulista.

Quando saía à noite com seu irmão cada um com seu par ela em geral estava com

algum estrangeiro mas nunca um alemão exceto quando namorou um ator parente de Karl

Marx que tinha seu próprio teatro. Aos vinte e cinco conheceu num bar um arquiteto muito

bonito e educado por meio de quem começou a se interessar pelas expressões de arte e

cultura norueguesa. – I'm Joachim and I'm from Bergen – dissera ele com um largo sorriso,

pedindo para ela e o casal se sentarem. Disse que acreditava ter também algum parentesco

com Marx. – Are you serious? – espantou-se ela. – What a coincidence! – exclamou. Ficou com

Joaquim por um pouco mais de dois anos. Aprendeu o idioma dele e a gostar de Grieg e Mari

Boine. – Come with me and we'll see her concert at the Oslo Opera House – ele convidou.

A enfermeira ficou com o arquiteto em Oslo apenas na noite de natal. Ela estava com

um casaco preto de couro com gola de pele e na saída do concerto ficaram vendo o pessoal

patinar. Os enfeites iluminados caindo como gotas das árvores. As luzes amarelas. O vozerio

no mercado. Ele diz que ela está muito silenciosa e ela apenas sorri. Balança a cabeça bem de

leve, não dá para entender se está ou não admitindo. Não tem a menor vontade de falar. É

uma cidade tão linda, Oslo. Uma atmosfera quase bucólica em alguns momentos. E foi um

concerto tão bonito. Mari estava tão elegante, ela canta tão bem. Se tiver de pensar em outra

coisa, que seja em trabalho. Em como ficar na Noruega. Conseguir o skilled worker. Ouviu

dizer que precisam de pessoal para a área da saúde. O idioma afinal de contas ela ja fala e o

dinheiro que guardou deve bastar.

***
Vinte mil longos sinuosos quilômetros de mar ladeado por penhascos glaciais. O

menino caminha na pedra escura molhada e pisa no lago salgado diante da casa vinho de seu

pai. - Det va en sjø-ørret, ikke en laks - disse o pescador. Debaixo d´água o esverdeado fundo

de pedrinhas multicores e peixes amarelados por um sol como quase sempre oculto além do

recorte pétreo das vertentes. - Veldig bra jobba gutter. - disse o avô.

Outro menino gira o molinete com a mesma mão direita trêmula à noite pensando na

amiga e na mãe da amiga na varanda vindas do interior da casa. Era quase meia-noite e tudo

ficou laranja. Era assim o verão inteiro e nem ela se acostumava com a cor de tudo àquela luz

nem ele com as formas daquela cor que a encontrava nos ombros do decote que não se espera

por esses lados. Essa mão. Esse céu inteiro laranja. E agora a pedra e o mar em tons de verde:

o mar sinuoso dos fiordes.

"Puxa o peixe meu filho. Puxa e me mostra"

O menino estende o salmão como jóia numa bandeja e ri seu riso tímido ou triste. A

superfície móvel e cintilante azul-escura quase negra respira também como os seios e arfa

como a filha e o pescador entende e talvez aceite agora aceite que a menina pode ser mesmo

uma coisa boa; se é inevitável, que seja ela, a filha de um amigo.

O retângulo da janela alaranjado destacava no centro o perfil da menina. Ela segura o

porta-retrato em que o menino lhe sorri. Ele não sorri assim pessoalmente mas mantém um

agradável aspecto de amigo em quem se pode confiar. A filha do pescador entra com o copo de

água e diz alguma coisa e se afasta de novo. Senta-se no sofá. Bebe lentamente. A metade

visível de seu rosto alaranjada. Um celular e um carregador na mesa de centro com as flores.

As chaves do carro ao lado dos retratos sobre a arca de mogno.

"Sou um ano mais velha", disse a irmã. "Sou de Libra".

"Sou de Câncer" - disse a menina. “Seu irmão é muito simpático.”

O sol lá fora parece que será eterno. A luz lateral confirma o tamanho das coisas mas

prevalecerá a memória. "Ele está chegando", diz a irmã. "Parece que já te viu".

O barco subia nas ondas escuras lançado sobre a tempestuosa superfície. Estalava a

cada batida como um machado no grito da madeira; nao por virtude ou vício mas apenas um

nível acima do que é humano. Ondas perfeitas. O conhecimento não importa e não importa a

suspeita e a volúpia se perdeu nos elementos.


Se fosse um filme, a câmera focalizaria uma mulher; ela eh mãe. Uma criança nos

braços e outras duas irmãs uma de cada lado. Usa um vestido largo e escuro de um tecido

semelhante à lã e anda no pier pelo horizonte em chamas e o rosto fulgura dessa mesma luz.

Vê que o barco esta se aproximando e aperta o passo sem sentir os pés nos sapatos pretos de

homem. Passaria pela moça desfocada, se fosse um filme. A mãe e seus filhos são

protagonistas desse take e quando terminam de passar vê-se as águas escuras cuja superfície

esta fracamente iluminada pela lâmpada do poste.

Se fosse um filme, as mulheres de luto estariam olhando com dolorosa inveja. Uma

delas é mãe e perdeu o filho; a outra é filha e perdeu o pai. A câmera focaliza o rosto da

médica. Outra tomada mostra o vulto do pescador desenrolando a corda. Ela se aproxima e

agora o vulto dos dois são um só. Ela fala. A música sobe lentamente. Eles se afastam do

barco. Seus passos ecoam na madeira pois não é um filme. Num filme, enquanto caminhassem

pela vereda ele apontaria para o alto. Leva em si condensado o mundo de onde se expande

além de seus olhos.

Luzes esverdeadas se movem no céu.

Aproximava-se de acordo com sua fome a hora do almoço. Também o indicava toda

aquela gente no largo. Havia uma névoa brilhante e as sombras do meio-dia no verão ocultas

sob as pessoas moviam-se e se encompridavam ao lado delas. Era o que ele constatara desde

cerca de uma semana quando passara a comparar dias e estações. Desde que começara a

observar o comportamento dos pombos em torno das migalhas e dos cães rosnando para

quem se aproximava demais de seus mendigos. Quando os dias lavados pela chuva do fim de

semana se engalanaram para o período seco que deveria durar pelo menos três semanas.

Então a moça se aproximou e se sentou no mesmo banco como se o homem não estivesse ali.

Ela achava que o canto de um pássaro é bom presságio portanto sua lágrima não faz

sentido mas nao pode evitar porque não pode evitar a própria lembrança. A paisagem de

súbito iluminada e de súbito a esverdeada indicação de arestas na pequena encosta ao lado

da casa. A rodovia traça o prateado contorno da varanda enquanto a porta do carro é aberta

manchada pelas luzes da lanterna. Ela descera precedida pelas grossas pernas em sutil

equilibro no imenso salto pontiagudo vistas num relance em toda exuberância pelos segundos

que ficaram expostas. O motorista que ela ultrapassou um minuto antes se tocou de longe ao

vê-la caminhando sob os faróis que indicavam o caminho para a garagem. Porém ela desvia
antes e depois de três degraus de escada o hall se acende. A porta da frente se abre e ela

entra e a porta se fecha de novo. Senta-se na sala. Brilho difuso de um perfil de boneca

entristecida. O olhar distante entre as notas girando em setenta e oito rotações de

melancólica ebonite.

Ela nunca atualizava o diário que mantinha no trabalho. Na mesma gaveta o

carregador que sempre esquecia. Manchada pelos ramos da segunda árvore à direita de quem

entra viu surgir do balanço da perna o esmalte se desfazendo nas unhas cortadas rente. No

dedo da mão apoiada na coxa o anel de aniversário. A marca do caderno é o nome da

empresa. Tem saudades inclusive da pressão. Da pressão em si; não da competitividade. E

agora as páginas todas cheias da letra redonda e chorosa de pensamentos depressivos como

o barulho dos carros. Ela que gostava de ficar quieta em seu canto quando chegava em casa e

percebia que tinha esquecido o celular. E agora.

Ele mediu o que havia no espaço entre os dois. A saia xadrez e a blusa branca

engomada. O crachá balançando entre os seios. Viu que ela havia se levantado e se afastara

um pouco. O celular no calor de seus dedos gordinhos bafejado pelo hálito de canela. Por

hábito ele havia apanhado o papel de bala e se levantara para colocar no coletor de lixo.

Quando voltavam os olhares se encontram no espaço exíguo de uma impressão. Não viam as

pessoas que passavam em frente à banca de jornais do outro lado da alameda. O caminho

estava inesperadamente limpo como se houvesse um homem solitário para cada bala de papel

lançada fora. Ela já o tinha visto antes — a blusa de lã fina de um azul gasto e as luvas

coloridas sem dedos e até as falhas na costura do bolso lateral do jeans — e agora ele

ressuscitava do vazio de uma chamada encerrada.

Os ruídos da praça se diluíam na névoa de silêncio entre os dois. — Com licença —

disse ela como se tivesse acabado de chegar. Ele assentiu com um apenas perceptível ricto. O

pássaro na gaiola sobre a banca emitiu outra nota e depois outra mais alta e então calou-se

como se tivesse alcançado um nível desejado. — Que frio, não é? — a voz da moça se propaga

em ondas. Separa as sílabas como uma cantora de blues falado. — Você não gosta? —

Depende.

Ele retribui o sorriso, se é que foi um sorriso.

O asiático caolho gritou no cesto da gávea. O cargueiro finlandês "Arctic Blow", de

propriedade da Alliance Navigation, com bandeira do Chipre e tripulação russa, que zarpara

de Kristiansand com destino a Haia, onde deveria chegar em 4 de abril, navegava a uma

velocidade entre quinze e vinte nós com um carregamento de três mil toneladas de madeira
avaliada em um milhão e meio de dólares. Um cardume de skrei vindo do mar de Barrents

passa junto à superfície mexida rumo às zonas de desova qual uma única criatura, harmônica

e acéfala. A corda com a âncora tem uma bóia na outra ponta e assim o barco do pescador

norueguês avança dois mil metros. O barco fez uma curva arrojada batido por ondas apenas

enormes onde há dois dias havia vagalhões. O gajeiro no mastaréu não tirava os binóculos dos

olhos e o comandante entendeu que ele falara sozinho como de costume, discute consigo

mesmo, que figura.

Os homens lançaram a rede. Blocos de gelo raspavam a lateral do Aaliyah. Os pés do

pescador nas botas sentiam o pulsar da maré sob o casco. As luzes do farol ricocheteiam na

superfície escura. Tantas vezes dissera que não voltaria, se estabeleceria em terra, mas

sempre voltava, nômade como aqueles peixes.

Depois do jantar a mulher atendeu o chamado e entrou no quarto precedida pela

sombra azulada que se movimentava à cabeceira da filha. Havia comprado o livro no dia

anterior quando voltava da empresa. Sorriu ao ver que estava aberto no colo da menina sobre

a coberta xadrezada. — Essa história me lembra uma que você contava quando eu era bem

pequena. —- Que história? —- disse a mãe, lembrando. —A do rei destronado e da moça pobre

no jardim de inverno. —- Como era mesmo? —Você sabe. —-Eu sei. —- Conta. —Você está bem

grandinha, pode ler. —Não tenho esse livro.

Quando a menina era bem pequena o homem e a mãe costumavam contar juntos. Era

um inverno muito...

Uma cidade da região serrana do Rio de Janeiro, 1980. Uma jovem assediada foge de casa e se prostitui

para sobreviver. Em 1982 na capital, um rapaz tímido e solitário se apaixona pela enfeira de um professor. Mais de uma década depois, a diretora de um
hospital, desencantada de seus ideais, passa a manter contato telefônico com um maestro e se apaixona embora nunca o tenha visto. As três são a
mesma mulher e ele eh o mesmo homem. Agora, a timidez e as escolhas erradas podem levar a um final trágico.

ESPERANÇA (Portuguese Edition) Kindle Edition)


by Ricardo de Almeida Rocha (Author)
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Carros ressoam no crepúsculo ao longo da Avenida Atlântica atrás de mim. O


oceano transmite a velha paz que nao consigo manter. Deus, aqui estou de novo tentando.
Pode ser o começo de uma história, de minha história. Até aqui nada fiz além de sonhar e
abortar sonhos mas descalço na areia sinto que minha existência é real e mais que isso,
necessária. Sempre fui aquele que poderia ter sido. Tudo o que fiz foram as coisas que
deixei de fazer. Um sonhador, prefiro considerar; um perdedor — será irreversível admitir?
Mas pode estar para acontecer alguma coisa neste fim de dia. Parece vir de longe o
prenúncio na brisa. Alguns banhistas se chocam com as ondas, eu mergulho. Saio das
águas gotejando e ponho os cabelos para trás. Enquanto caminho para casa imagino o que
está errado comigo. Casais se beijam nos bancos. O homossexual passeia seu cão.
Adolescentes em grupos na esquina. Mães e suas crianças correndo. Há quanto tempo tenho
andado por essa trilha à beira da estrada? As luzes começam a aparecer nas janelas e desce
quente a noite sobre o Rio de Janeiro. É como se a vida me mostrasse um sinal.
Minha mãe pediu para que eu levasse uma encomenda que ela trouxe de Paris para
sua amiga Teresa. Tomo banho como quem tem pressa. Não tenho respostas. Visto a camisa
e vou à cozinha. Anatólia, a empregada, está cantarolando. Faço um sanduíche de queijo e
como com uma coca. Teresa tem uma filha de minha idade. Não vou suportar por muito
tempo essas refeições rápidas sozinho e continuar me vestindo com destinos
circunstanciais. No saguão do prédio hesito antes de entrar na marcha da normalidade e
fazer parte dos passos das pessoas lá fora.
Vou a pé da Rua Paula Freitas até a Sá Ferreira. Quando Sarah abre a porta eu a
vejo, Esperança. Ela empurra com cuidado o velho na cadeira de rodas.
— Oi — diz Sara.
— Oi — respondo. — Tudo bem? Como tem passado o seu pai?
— Um derrame é um derrame; o estado dele não tem muitas alterações; eu e mamãe
já aprendemos a conviver com isso.
— O que se pode dizer numa situação assim?
— Estou indo ao cinema — diz ela. — Por que não diz que vem comigo?
Esperança havia sumido no corredor e reaparece não mais de branco. Me
cumprimenta e se despede de Sara. Passa por mim e pela porta. Chama o elevador.
—Tenho um compromisso — apresso-me em responder. — Outro dia a gente vai.
— Vou aproveitar o elevador.
Esperança vai me dizer seu nome.
—Você é a nova enfermeira do Dr. Carlos?
— Sou, ela sorri.
— Sou amigo da família.
—Muito prazer.
Agora sei seu nome e ela o meu. Vamos nos despedir e não sei como evitar.
Enfeitiçado pela luz nos seus olhos. Não há tempo para timidez. Digo que vou ao cinema.
— Não gostaria de vir comigo?
— Estou um pouco cansada; noutro dia a gente vai.
— Também estou — digo com súbita firmeza — cansado de esperar dias que nunca
chegam.
—- Que filme você vai ver? — ela pergunta após a pausa.
Estamos parados na esquina. Eu estou no paraíso.
Conheci Esperança em uma quinta feira numa época em que me determinara a
nunca mais chorar ou me sentir miserável exceto pela visão de crianças miseráveis
chorando. Ela gostava de ópera. Não todas nem toda uma mas aqueles trechos em que a
contralto se esgoela desprendendo a alma pela garganta. Quanto a mim, só mesmo os
velhos blues aquietavam meu espírito.
A noite arrefecera um pouco e a lua caminhava conosco. Os ônibus passavam
cheios. As pessoas caminhavam apressadas para chegar em casa e não perder a novela. Nós
andávamos devagar e ainda não tínhamos nos decidido por um filme. Naqueles momentos
eu não era nem um sonhador nem um perdedor e estava realmente fazendo o que fazia.
Aprisionado numa nuvem de pureza e glória, de serenidade. É o lugar de Esperança, anjo.
Quando mulher, se mantém limpa de rosto e limpa é a alma que expõe perante mim.
A noite avancava para o amanhecer que combinamos ver na praia e nada existia...
O último homem (Portuguese Edition) Kindle Edition
by Ricardo de Almeida Rocha (Author) Era um cotidiano selvagem em que os mais violentos e corruptos prevaleciam e o narcotráfico
ditava as regras e as pessoas de bem viviam com medo. O homem que um dia mudara isso estava morto e tudo voltou a ser como antes. Agora,
esperam que seu filho restaure a história; agora, seu filho restaurou a história. Mas o que acontece quando toda a esperança está fundamentada em um
homem comum, cheio de sensualidade e pecado?

Vagões. Vagões. Vagões. Quando um deles cumprirá a promessa de Marcelino, trazendo seu sucessor? A
violência voltou a tomar conta da terra. Pessoas vão e vêm tentando levar a vida; mas a cada dia se torna mais
difícil levar a vida por aqui. Como naqueles tempos…

Disparos ecoam por toda parte no calor. Enfrentam-se duas quadrilhas em meio à correria dos moradores do
vilarejo. Ali Marcelino iria aparecer e a poeira baixar por entre os raios da manhã.

Eu mesmo não estava lá. Hilson me contou o começo da história quando deixávamos o Igapó. Ele também
não estava no princípio. Esta é uma história que passou por muitas vozes até chegar a meus ouvidos. Quem
poderia imaginar que seria eu o único a sobrar para contá-la?

Fagulhas puxam os raios luminosos de quando em quando ante a solene indiferença da máscara pétrea dos
homens que atiravam atrás do monte de tijolos. O vento varre a poeira pesada de cascalho. Um tem idade para
ser pai do outro e um terceiro vem avisá-los da chegada de alguém. Os revólveres caem abandonados. Outro
homem entra suando num bar cheio de homens suando. O reboco das paredes externas está amarelado. A
sombra dos respingos é mais escura mas amarela ainda. Pela sala naturalmente mais fresca há estantes cheias
de livros e pó. A mulher encostada num balcão lembra uma espanhola de filme. A saia comprida verde. A anca
direita inclinada onde o tecido retém a luz fraca da lâmpada. O xale arrogante sobre os ombros firmes. Os
anéis da mão apoiada pingam reflexos do maçarico agora distante. Ela grita com o velho de olhos tristes e a
barba recém-feita cheirando forte a loção. Ele
observa tudo com o olhar atento. Apesar da emoção ele fala mole como se estivesse enfermo. Como se fosse
um grande esforço separar as sílabas.

-Por que toda essa confusão?

- Venha ver - diz o merceeiro esbaforido.

No zunir das balas dois homens se atracavam no chão com facas. O menino passou por eles temendo ser visto.
Não devia ter mais que uns 13, 14 anos. O sol que aparecia no horizonte ao fazer luzir em seu pescoço o
estranho crucifixo paralisou os contendores.

-É Marcelino! - um tinha a faca no pescoço do outro a largou. - A lenda é verdadeira!


Nuvens mancham o azul e se deslocam e dispersam. Os homens gritam uns com os outros. O menino
desaparece enveredando pelo meio das casas de adobe.
- Você acredita mesmo nesses contos de índios?
- É verdade. Eu também vi - na última sílaba a voz falhou; o sangue verteu pela boca e ensopou as palavras.
- É verdade. ..
- Vamos! Eles estão cercados na fazenda.

Os cavalos atrelados se agitavam. Mulheres tropeçavam nas saias ao correr. Homens que bebiam se
ajuntaram agachados atrás do balcão. Os moradores se deitavam e oravam dentro das casas para escapar das
balas perdidas.
A mulher dá de ombros como se nada estivesse acontecendo.
O amarelo escuro e as sombras do chapisco estão marrons. As poças também escureceram. Os cacos não
reluzem mais.

Era uma gente acostumada com o cotidiano selvagem onde os assaltos eram comuns e ninguém merecedor de
confiança. Os mais violentos prevaleciam e o narcotráfico ditava as regras. Quem visse qualquer coisa estava
fadado a desaparecer.
Numa cena semelhante Crisóstomo surgiu.

Ninguém sabe ao certo como tudo começou. A versão mais considerada é a do exército de 107 homens.
Conspiraram contra os coronéis e políticos corruptos e na madrugada de cinco de julho tomaram a fazenda de
um proprietário que traficava drogas e mulheres. O prefeito e o governador fugiram.
Cercados pelas tropas oficiais sustentaram a posição até o dia vinte e sete quando aderiram à guerra móbil ao
longo do rio até a fronteira. Marchavam a pé e a cavalo durante meses e escaparam de todo tipo de cerco.
Ganharam a simpatia da opiniao publica e de parte da policia. A partir desse novo ambiente se tornou possivel
o fim da impunidade e com a execuçao das penas apos decisao em segunda instancia deputados e ministros
eram presos e o proprio Governo abalado e Crisostomo crescia diante de todos, das populacoes ribeirinhas e
missionarios e chefes indígenas que lhe davam cobertura aa imprensa internacional que tentava entender os
acontecimentos.
Os poderosos temiam que preso ou morto se tornasse um mártir e, atarantados, passaram de caçadores a caça.
Logo Crisóstomo tinha suas próprias terras onde famílias se estabeleciam e passaram a se multiplicar o gado
e as culturas. Desertores dentre os traficantes a ele acorriam e eram assentados. Prostitutas. Escravos.
Mas um dia, em consequência de uma bala que se alojara em seu pescoço, Crisóstomo morreu sem que
pudesse conduzir o processo de transição. A revolta armada deve - dizia - evoluir para uma sociedade justa;
porém seus homens se dividiram na luta pela sucessão. Sua morte foi o fim dos dias em que tinham sido
banidas a injustiça e a corrupção. E a violência voltou.

O reboco está marrom e as sombras quase negras e negra também a estante e o pó dos livros desapareceu.
- O quê é, Marcelino? Que cara é essa?
O menino disse dois homens lá fora estavam lutando, pai, e pararam quando me viram. Walter olhou-o com
expressão indefinida. Entendeu que afinal chegara o dia.
- É hora de você não mais me chamar de pai.
- Não sou seu filho?
- Me entregaram você chorando. Estava entre os sobreviventes de uma chacina. Não tinha mais que dois
meses de vida.
Após o silêncio que se seguiu, Marcelino respondeu.- Por que esses homens me chamaram filho de
Crisóstomo?
O crucifixo. Na época Walter nada sabia a respeito. Um dia viu uma mulher que fazia às margens do Guaporé
o desenho de uma cruz. Enquanto falava o velho revia na memoria a revoada de emocoes. - Ela disse
chorando que representava o bem da terra. A fonte da vida. A paz.
- Eu?
- Quem mais?
- Sequer tenho o respeito dos meus amigos.
- Terá.
- E não tenho inimigos.
- Quem for inimigo da paz será seu inimigo também.
A voz de Walter é forte e clara. Sua barba branca treme ligeiramente quando ele fala.
-E o que devo fazer, meu pai?
- Não me chamar mais de pai. Eu não posso te ensinar a ser o que você é.
- Tenho medo.
Um rapazinho surgiu do nada
- Marcelino...
- Como você sabe o meu nome?
- Qualquer que conheça o desenho dessa cruz saberá o seu nome.
- E seu nome qual é?
Alonso respondeu e permaneceu quieto em adoração.
Um homem se aproximou e perguntou o que estava acontecendo. Takeda eh o pai das meninas com quem
Marcelino brincara um tempo, quando crianças; mas por alguma razão elas foram retiradas do convívio misto.
- Grande serão as provações a que você estará exposto, meu filho - diz Walter baixinho.
Do outro lado um galope traz a voz de Jerônimo, o braço direito de Crisóstomo nos tempos antigos. - O que
é isso afinal, Walter? - disse ele. - Vai querer nos impor um bastardo como chefe? - seu cavalo balancando a
cabeca relinchou como se enfatizasse a pergunta.
- Quem estiver com esse menino estará contra Crisóstomo e contra mim; honrarei sua memória - disse um
outro a seu lado.
Takeda olhou para o menino e para Jeronimo, para Walter.
- Então, Jerônimo, estou contra você.
No tiroteio, ninguém se deu conta de que o menino sumira.

O corpo ensanguentado de Takeda entrara carregado por maltrapilhos . Agora esta deitado e Alice Eiko, a
filha adolescente, coloca compressas e faz curativos. Um outro homem entrou ofegante. Estavam
encurralados, disse. Jerônimo cercara a fazenda. Devem invadir a qualquer momento. As balas zunem e
ricocheteiam. Rastros de fumaça e ecos pela floresta.

Oshieoyá... - Alice Eiko introduziu os dedos da mão direita nos....

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Um vilarejo no fim do mundo. um forasteiro. a partir de sua chegada, terão de lidar com as conseqüências funestas de seus pecados.

Preferia acreditar que não seriam capazes de nada além das costumeiras chacotas.
Julgava-os apenas crianças. Crianças más às vezes é verdade; mas apenas crianças.
Recusava-se a crer que pudessem fazer algum mal à sua mulher, ainda mais
acompanhada da filhinha. Não eram pessoas assim hediondas. Mas havia mais de três
horas que ela saíra para comprar mantimentos e da casa na encosta do monte até o
vilarejo não passava de uma hora de carroça e outro tanto para voltar. Trovões
anunciam a tempestade. Largou o machado que brandia e limpando as mãos calosas
no brim grosso da calça entrou na pequena habitação. Não. Nada havia acontecido.
Mas ia começar a chover forte. Na verdade, com o frio que fazia, era possível que
nevasse. O vento varria em redemoinhos.

Quando entrou viu pela janela que dava para leste a vermelhidão do céu e do
outro lado nuvens pesadas cobriam o monte. Mas como explicar aquela rubríssima luz
entrando em seus olhos vinda do firmamento? Crepúsculo sombrio. Nuvens pairavam
baixas carregadas de opressão. Saiu. Não se vê um palmo à frente. A noite desce
ameaçadora. Ele precisa ir à cidade. Não que tivesse acontecido alguma coisa com sua
mulher e sua filha. Estariam protegidas da tempestade na casa de Fiodor. Ninguém na
cidade seria capaz de lhes fazer mal. Não precisava se inquietar. Devia apenas ir
encontrá-las pois talvez precisem dele para colocar as coisas na carroça. Não estão
vestidas de modo adequado. Levar-lhes-á agasalhos. Realmente faz muito frio.
Foi um ano difícil, pensa enquanto prepara o cavalo. Novembro era um mês
especialmente árduo para os homens das montanhas. O tempo das primeiras
nevascas. Começou a sentir os pingos de chuva. Gostava do cheiro da chuva na terra
mas naquele momento respirou-o como enxofre. Uma angústia insuportável. A voz do
vento severa e gelada. Contemplou as cores fortes do horizonte. Ondas de fumaça
trazidas pelos círculos. O cheiro de fogo substituiu o cheiro da chuva e envolveu suas
recordações...

Os habitantes de M* consideravam-se felizes. Quando seus domínios se


reduziram ao mínimo acreditaram que era bom sinal. Diziam que eram solidários e
assim ficava mais fácil se ajudarem uns aos outros. Poucas das casas de madeira
dispostas na rua principal parecem habitadas.

A única rua. A vida da cidade. Nesse crepúsculo em que se avizinhava a


tempestade, porém, parece-se com morte.

Desemboca na praça onde o juiz de paz, Fiodor, vive com a mulher, Helena, e os
filhos – Érika – uma bela jovem de 19 anos – e Marco – um forte rapaz saído da
puberdade. Moravam no andar de cima do cartório onde o pai raramente exerce sua
profissão. O cartório é contíguo à mercearia de onde tira o sustento da família. O
movimento basta para que ele renove o estoque por meio de um mercador itinerante
com o qual divide riscos e lucros. Ali vende aviamento para roupas e material escolar,
vestimentas de montaria e garimpo, facões e ração e alguns tipos de comida pronta.
Agora Maggie está ali. Compra o que precisa para receber seu irmão. Talvez o
convença dessa vez a ficar e usufruir permanentemente da paz que a cidade grande
não propicia. Enfatizarah para convence-lo a subsistência simples mas sem
sobressaltos. Bandidos, o que poderiam querer num fim de mundo como aquele, onde
a mina estava desativada e nunca chegou a funcionar um banco? Por essa paz – e por
que mais? – os que permaneceram após a exaustão do subsolo preferem viver a
decadência da cidade. São mais felizes agora do que em sua época áurea.

Ao lado da praça numa elevação junto à ravina seca ergue-se a igreja local. Faz
também o papel de escola. Autoridades federais acreditam que isso não é adequado
mas estão longe demais. No chão, mistura-se a terra trazida por uma infinidade de
botas de mineiros que aos domingos iam agradecer a benção das pepitas. Isso agora é
nostalgia. O sino só repica de trinta em trinta dias, quando um padre da região vem
celebrar a missa mensal do arrependimento.

O som do sino. A cerimônia de casamento. Uma bela festa de núpcias e a lua-


de-mel com o diretor de uma companhia mineradora europeia. Um duque ou barão que
veio inspecionar a mina e aproveitou para caçar aves raras e a levou para Paris. Assim
Érika costuma sonhar embora vestígios de ouro estejam cada vez mais longe de M* e
M* cada vez mais longe de qualquer lugar.

Fiodor faz parte de um ciclo bem definido em que há terra e trabalho. Benjamin
vende charques na quantidade presumida da procura que ele antecipa pela
experiência. Ian e sua mulher, Nadja, são seus melhores fregueses mas estão restritos
às necessidades das pessoas cujos calçados ele produz ou conserta. É ele quem se
aproxima agora da loja de ferramentas de Walt. Os rendimentos de Walt crescem ou
diminuem na proporção das visitas do açougueiro. Tanja costura para fora, vive disso.
Todos comem carne. Nem todos substituem ou afiam regulamente suas pás e enxadas
e uma boa parte das pessoas costura as próprias roupas.

Não é um ciclo apenas económico. A aspiração moral estagna na pressão


coletiva quando surgem as manadas e uma ruptura não parece mais possível em M*
porque no hábito acostuma-se a toda sorte de necessidade e se torna fácil não pensar
à frente e se torna fácil esquecer.

Não é uma vida fácil. Todavia tranquila. Como o profundo oceano ao pôr-do-sol o
que se vê é perfeita serenidade.
Homem bonito o jovem forasteiro que ali desembarcou. Ele achava que haveria
alguém por ali que negociasse pedras preciosas. É que encontrara uma.

Fazia muito calor quando ele chegou. Coiotes e lobos vagueavam ao redor
pelas colinas.

O condutor da carroça gritou. Estavam chegando.

- Quem é o parente que você veio visitar?

- Como assim parente?

- Não veio passar a Páscoa com parentes?

Para falar a verdade o estranho nem sabia que estavam na Páscoa.

Então Dan, o condutor, imaginou que ele veio reencontrar um velho amigo e
expressou isso em palavras. O vento em seu rosto as levou até o rapaz que respondeu.
Não conhecia qualquer pessoa naquele lugar.

– Mas meu Deus que diabos faz você nesse fim de mundo?

Disseram que havia ouro. E comerciantes de ouro. E ele encontrara uma grande
pedra.

Ouviu-se um urro. – Ouro? – ouviram-se gargalhadas.

- Aqui não há ouro faz tempo. É só um lugarejo que não quis se tornar uma
cidade-fantasma.

Ainda assim alguém poderia se interessar pela pedra.

Um mercador itinerante talvez ele se interessasse. Mas só vem de mês em mês


e partira há uma semana. Dan nada disse antes porque em vésperas de festa sempre
aparece alguém para visitar um desses pobres coitados.

– Eu mesmo sou um... – interrompeu-se. - A louca da minha irmã mora aqui. É


dona do hotel. Como se fosse algo de que a cidade precisasse – o velho analisa as
próprias palavras e completa: - Bem. Hoje pelo menos precisará.

- Mas em lugares próximos deve haver o negócio do ouro – argumentou o rapaz.

- É verdade - respondeu Dan. - Em muitos lugares...

- Então?

– O que não há é um jeito de ir para esses lugares agora além desta carroça.
- O senhor está zombando? Eu cheguei no lugar onde o senhor parou para mim
em uma diligência.

- Mas por que eu haveria de zombar? A tal diligência mudou o trajeto porque a
estrada principal estava interditada até o dia anterior.

O rapaz não queria ofender, mas insiste. - E se alguém precisar sair da cidade e
o senhor não estiver?

– Para isso há os cavalos e as carroças.

– E ninguém pode emprestar um cavalo?

- Ninguém aqui tem nada além do que necessita.

Calaram-se. Recostando-se na carroça, o rapaz tentou se conformar. Está assim


agora. O olhar vago sobre a cidade desolada. O cocô dos cavalos evoca infância. Férias
na casa de seu avô. Conforme entram pela rua principal o rapaz se torna alvo de ávida
curiosidade; quando a carroça fez a volta na praça, Érika tinha um olhar assim.

Ele não se apercebe. Olha as casas de madeira e o feno das estrebarias e os


lampiões. O desespero das pessoas no incêndio. A casa destruída. No barulho do vento,
a dor da lembrança. Perdera os pais naquelas chamas. O seguro não devolverá a vida
deles. Pegará o dinheiro e partirá dali para sempre. Então a carroça parou em frente ao
hotel. O sol se escondera atrás de uma nuvem e por instantes cessou o brilho do rifle
que Dan trazia ao alcance da mão.

– Velho cretino! – Maggie atira-se nos braços do irmão.

– Não entendo como alguém sobrevive num lugar indecente como esse - disse
ele.

– Até parece que ele não...

Dan sorriu irônico e levou um cutucão.

– As crianças – sussurrou Maggie. – Olhe como estão lindos os seus sobrinhos –


fala alto enquanto o casalzinho se aproxima.

– A pequena Linda! como está linda!... E esse rapazinho tão robusto!

Dan apanhou os sobrinhos no colo um em cada braço.

Maggie perguntou quem era o rapaz.

- Alguém que vai precisar de um quarto por uma semana.

- Um hóspede? – ela já se havia esquecido o que era isso.


O rapaz nada ouve. Escuta os gritos das pessoas em todo o quarteirão e sente o
cheiro de carne humana queimada e vê os bombeiros voluntários chegando. Era tarde.
De repente a mulher estende a mão e deixa os dedos relaxados na mão dele.

- Então o senhor vai ficar uma semana conosco.

- Parece que sim.

Uma semana naquela cidade. Sim. Compreendeu enfim e não se sentiu mal. O
pesadelo estava no passado e pela primeira vez na vida tinha muito dinheiro nas mãos.
Uma semana de férias num lugar longe da civilização. Um descanso. Pela primeira na
vida sentiu alívio que não provinha de suicídio.

A primeira impressão que alguém teria ao ver o rapaz naquele momento seria a
mesma que, ao refletir sua figura, o espelho invocava. Havia desolação à janela do
quarto e ele ali lembra uma estátua cinzenta marcada pelo movimento do sol. Ao
longe o barulho contínuo de um moinho. Portas e assoalho que rangem. Vozes ao
longe. Passarinhos cantam em tamanho calor? O perfil triste recebe as últimas luzes do
dia.

– Ali! Olhem o forasteiro!

Dormentes. As poucas pessoas que passam chamam a atenção por certo ar


indolente como se houvesse um muro a rodear a cidadezinha.

Mas ele havia entrado. Sente vontade de ali se estabelecer.

Batem à porta e o rapaz ao escutar uma voz feminina cantarolando sente o


coração palpitar. Ele olha o relógio. Quando a palpitação silenciar todo o resto terá
silenciado. Caminha na direção do som e abre. Estão ali para convidá-lo. Haverá uma
festa – diz Érika. No rosto o mesmo tipo de sorriso pouco antes no de Maggie.

- Nao sou muito de festas - respondeu.

Ao lado da amiga, Marina insistiu. É bom que as pessoas esqueçam as tristezas


da vida. Ela sabe tudo de tristezas porque é filha de um ferreiro.

Augusto Mando chegara a M* sem pretensão relacionada a ouro. Cidades que


crescem tão rapidamente como as cidades mineiras acabam com ouro pelas ruas e
sem serviços essenciais. Satisfeitos, os homens darão com prazer algo de sua riqueza
por uma dose de uísque e estar com uma mulher; precisarão de médicos e remédios
quando doentes; dos serviços de um correio; de escola para os filhos; de uma igreja e
quem sabe de um jornal. Suas ferramentas de trabalho não são tudo de que
necessitarão. Precisarão de cavalos sadios e equipados e carroças em bom estado – de
um ferreiro, portanto.

A ideia da mudança foi agradável à filhas. Marina se sente à vontade entre os


mineiros muito mais do...