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“lembrar enquanto ela

“Os loucos são da proveniência mais diversa, originando em geral das camadas mais pobres da nossa gente pobre (,,,) no meio disso muitos com educação...etc

(cemitério dos vivos)”

“Oline vai se arrastando para cima com uma das mãos... etc (melancolia)”

“No fiorde etc (fome)”

Rev isao em
Os dias de inverno quando o sol quase não aquece mas tanto ilumina são dias nos quais os que chegaram ao inverno da vida ainda podem sonhar. Mesmo

doentes e que se achem inúteis. Mesmo sempre inoportunos. Ele pensava assim ao voltar do médico, coisa rara. Não pensar. Voltar do médico. Significava que tinha

ido. Não do médico. Da médica. Faz grande diferença.

Houve aquele momento em que pediu para ser internado. - Só autorizo internação em último caso. - O que falta para que meu caso chegue lá? - É quando o

paciente representa risco para os outros ou para si mesmo. Quando se torna agressivo ou pensa em suicídio. – Ah – disse ele. – Bom saber que não preencho os

requisitos. – Graças a Deus.

Com um homem parecido ela sonhou na noite anterior. Ombros largos, não troncudo. Cabelos curtos não penteados, penteados com a mão. Camiseta e

jeans. Uma mochila como essa. Em dias assim se acentua no homem o desejo de uma companheira com quem partilhe essa vontade. Uma mulher que o receba e se

tornem uma carne quente e una mas também possam depois calarem juntos na paz posterior que é tudo e as mulheres costumam matar com palavras.

- Mas e o que eu contei sobre as noites de angústia em que penso que seria melhor nem ter nascido? - Você disse que sempre passa - disse ela. - Podemos

tratar isso no ambulatório - garantiu. E repetiu: - Internação só em último caso.

O consultório está imerso em uma luz avermelhada que contraria a lógica do frio. Ela pisca de um modo teatral e seus olhos não o acompanham quando ele

se levanta e caminha até a janela. O prédio antigo no coração nervoso do centro da cidade em frente. Entradas de pinho e escadas de mármore, espelhos de prata e

arabescos de gesso. Num lugar assim eu poderia morrer. Então se virou e a viu de costas pela primeira vez. Daquele ângulo era bondosa como a imaginara na outra

consulta. Ela se lembrou ao ouvir a voz sem ver o rosto de modo ainda mais vívido do homem de seu sonho.

Ao acordar de manhã se lembrou do jaleco que havia comprado no dia anterior e foi como estava de calcinha e sutiã até o armário e experimentou diante do

espelho. Era de gabardine com detalhes em gorgurão. As fibras segundo a vendedora tinham íons de prata que elimanam bactérias e fungos. A médica reparou que

podia cortar as mangas ou até tirá-las. O espelho lhe devolveu o sorriso. Depois de tudo, ainda sabe sorrir e que bela é quando sorri.

O homem estava hipnotizado pelo branco do tecido. Era o momento clássico em que o tempo fica em suspenso esperando para que lado a conversa irá e para

onde levará as vidas. - E como seria esse tratamento?

- Medicamentoso. Terapia. - Você quer dizer antidepressivos.

Ela disse sim e ele respondeu que não ia dar certo. Tomara remédios demais ao longo da vida e das poucas coisas que restavam era o afeto feminino. Ela

continuava digitando e olhando o monitor. Tentou tranqüilizá-lo. Hoje em dia existem antidepressivos que não afetam a libido. Ele pensou em dizer que não confiava

em médicos mas ela ficaria magoada e ele perguntou se ao dizer terapia estava dizendo que iria colocar um psicólogo entre eles. Não disse exatamente isso mas era

isso.

Ela disse sim e ele concluiu que não ia dar certo. Ingenuidade pensar que daria e tivesse encontrado a solução para fazer suas traduções num lugar calmo

sem se preocupar com as refeições. Dias frios fazem esquecer a doença e a inutilidade como se o homem entrado em anos se sentisse preservado. Sim estava na melhor

idade. Até ofereciam lugar para ele no metrô. Não sempre; às vezes. Quando não, era como se as moças dissessem: “O senhor está aposentado; evite a hora do rush ou

então aguente o tranco”.

Era portanto um velho embora não se sentisse um, estava doente. Não muito doente na verdade nada diferente do esperado para um velho quer se sinta ou

não assim. Ainda bem existem os dias frios quando o sentir-se inoportuno é amenizado pela luz do sol que quase não aquece mas tanto ilumina em meio a casas

encantadas onde o tempo não se decidiu se vai nos acompanhar ou se podemos continuar sonhando. Porque geralmente não é assim mas uma sucessão de horrores

presididos exatamente pelo tempo.

Exceto quando uma mulher se senta a seu lado na praça e o olha como agora. É um olhar inconfundível que ensina a um menino de treze anos que já é um

homem e a um homem de sessenta que ainda é.

***
Johann Weingärtner chegou em Berna para estudar no ano em que a fábrica de chocolate começou a usar papel de alumínio e um pouco antes da Grande

Guerra voltou ao Rio de Janeiro onde trabalhou como ilustrador até morrer de tuberculose. Sua filha Ana também desenhava e se tornou professora de pintura. Com

vinte e um anos, ela se mudou para Porto Alegre e se casou com um outro membro do movimento expressionista. Tiveram dois filhos. A neta de Johann sempre foi o

xodó do avô embora não tivesse qualquer propensão para seguir a vocação artística da família. Interessava-se pelas pessoas de mais idade e com 19 anos, já na

faculdade, fazia a coleta de leite materno em domicílio para a Pro Matre Paulista.

Quando saía à noite com seu irmão cada um com seu par ela em geral estava com algum estrangeiro mas nunca um alemão exceto quando namorou um ator

parente de Karl Marx que tinha seu próprio teatro. Aos vinte e cinco conheceu num bar um arquiteto muito bonito e educado por meio de quem começou a se

interessar pelas expressões de arte e cultura norueguesa. – I'm Joachim and I'm from Bergen – dissera ele com um largo sorriso, pedindo para ela e o casal se

sentarem. Disse que acreditava ter também algum parentesco com Marx. – Are you serious? – espantou-se ela. – What a coincidence! – exclamou. Ficou com Joaquim

por um pouco mais de dois anos. Aprendeu o idioma dele e a gostar de Grieg e Mari Boine. – Come with me and we'll see her concert at the Oslo Opera House – ele

convidou.

A enfermeira ficou com o arquiteto em Oslo apenas na noite de natal. Ela estava com um casaco preto de couro com gola de pele e na saída do concerto

ficaram vendo o pessoal patinar. Os enfeites iluminados caindo como gotas das árvores. As luzes amarelas. O vozerio no mercado. Ele diz que ela está muito silenciosa

e ela apenas sorri. Balança a cabeça bem de leve, não dá para entender se está ou não admitindo. Não tem a menor vontade de falar. É uma cidade tão linda, Oslo.

Uma atmosfera quase bucólica em alguns momentos. E foi um concerto tão bonito. Mari estava tão elegante, ela canta tão bem. Se tiver de pensar em outra coisa, que

seja em trabalho. Em como ficar na Noruega. Conseguir o skilled worker. Ouviu dizer que precisam de pessoal para a área da saúde. O idioma afinal de contas ela ja

fala e o dinheiro que guardou deve bastar.

***

Vinte mil longos sinuosos quilômetros de mar ladeado por penhascos glaciais. O menino caminha na pedra escura molhada e pisa no lago salgado diante da

casa vinho de seu pai. - Det va en sjø-ørret, ikke en laks - disse o pescador. Debaixo d´água o esverdeado fundo de pedrinhas multicores e peixes amarelados por um

sol como quase sempre oculto além do recorte pétreo das vertentes. - Veldig bra jobba gutter. - disse o avô.

Outro menino gira o molinete com a mesma mão direita trêmula à noite pensando na amiga e na mãe da amiga na varanda vindas do interior da casa. Era

quase meia-noite e tudo ficou laranja. Era assim o verão inteiro e nem ela se acostumava com a cor de tudo àquela luz nem ele com as formas daquela cor que a

encontrava nos ombros do decote que não se espera por esses lados. Essa mão. Esse céu inteiro laranja. E agora a pedra e o mar em tons de verde: o mar sinuoso dos

fiordes.

"Puxa o peixe meu filho. Puxa e me mostra"

O menino estende o salmão como jóia numa bandeja e ri seu riso tímido ou triste. A superfície móvel e cintilante azul-escura quase negra respira também

como os seios e arfa como a filha e o pescador entende e talvez aceite agora aceite que a menina pode ser mesmo uma coisa boa; se é inevitável, que seja ela, a filha de

um amigo.

O retângulo da janela alaranjado destacava no centro o perfil da menina. Ela segura o porta-retrato em que o menino lhe sorri. Ele não sorri assim

pessoalmente mas mantém um agradável aspecto de amigo em quem se pode confiar. A filha do pescador entra com o copo de água e diz alguma coisa e se afasta de

novo. Senta-se no sofá. Bebe lentamente. A metade visível de seu rosto alaranjada. Um celular e um carregador na mesa de centro com as flores. As chaves do carro ao

lado dos retratos sobre a arca de mogno.

"Sou um ano mais velha", disse a irmã. "Sou de Libra".


"Sou de Câncer" - disse a menina. “Seu irmão é muito simpático.”

O sol lá fora parece que será eterno. A luz lateral confirma o tamanho das coisas mas prevalecerá a memória. "Ele está chegando", diz a irmã. "Parece que

já te viu".

O barco subia nas ondas escuras lançado sobre a tempestuosa superfície. Estalava a cada batida como um machado no grito da madeira; nao por virtude ou

vício mas apenas um nível acima do que é humano. Ondas perfeitas. O conhecimento não importa e não importa a suspeita e a volúpia se perdeu nos elementos.

Se fosse um filme, a câmera focalizaria uma mulher; ela eh mãe. Uma criança nos braços e outras duas irmãs uma de cada lado. Usa um vestido largo e

escuro de um tecido semelhante à lã e anda no pier pelo horizonte em chamas e o rosto fulgura dessa mesma luz. Vê que o barco esta se aproximando e aperta o passo

sem sentir os pés nos sapatos pretos de homem. Passaria pela moça desfocada, se fosse um filme. A mãe e seus filhos são protagonistas desse take e quando terminam

de passar vê-se as águas escuras cuja superfície esta fracamente iluminada pela lâmpada do poste.

Se fosse um filme, as mulheres de luto estariam olhando com dolorosa inveja. Uma delas é mãe e perdeu o filho; a outra é filha e perdeu o pai. A câmera

focaliza o rosto da médica. Outra tomada mostra o vulto do pescador desenrolando a corda. Ela se aproxima e agora o vulto dos dois são um só. Ela fala. A música

sobe lentamente. Eles se afastam do barco. Seus passos ecoam na madeira pois não é um filme. Num filme, enquanto caminhassem pela vereda ele apontaria para o

alto. Leva em si condensado o mundo de onde se expande além de seus olhos.

Luzes esverdeadas se movem no céu.

Aproximava-se de acordo com sua fome a hora do almoço. Também o indicava toda aquela gente no largo. Havia uma névoa brilhante e as sombras do meio-

dia no verão ocultas sob as pessoas moviam-se e se encompridavam ao lado delas. Era o que ele constatara desde cerca de uma semana quando passara a comparar

dias e estações. Desde que começara a observar o comportamento dos pombos em torno das migalhas e dos cães rosnando para quem se aproximava demais de seus

mendigos. Quando os dias lavados pela chuva do fim de semana se engalanaram para o período seco que deveria durar pelo menos três semanas. Então a moça se

aproximou e se sentou no mesmo banco como se o homem não estivesse ali.

Ela achava que o canto de um pássaro é bom presságio portanto sua lágrima não faz sentido mas nao pode evitar porque não pode evitar a própria

lembrança. A paisagem de súbito iluminada e de súbito a esverdeada indicação de arestas na pequena encosta ao lado da casa. A rodovia traça o prateado contorno da

varanda enquanto a porta do carro é aberta manchada pelas luzes da lanterna. Ela descera precedida pelas grossas pernas em sutil equilibro no imenso salto

pontiagudo vistas num relance em toda exuberância pelos segundos que ficaram expostas. O motorista que ela ultrapassou um minuto antes se tocou de longe ao vê-la

caminhando sob os faróis que indicavam o caminho para a garagem. Porém ela desvia antes e depois de três degraus de escada o hall se acende. A porta da frente se

abre e ela entra e a porta se fecha de novo. Senta-se na sala. Brilho difuso de um perfil de boneca entristecida. O olhar distante entre as notas girando em setenta e oito

rotações de melancólica ebonite.


Ela nunca atualizava o diário que mantinha no trabalho. Na mesma gaveta o carregador que sempre esquecia. Manchada pelos ramos da segunda árvore à

direita de quem entra viu surgir do balanço da perna o esmalte se desfazendo nas unhas cortadas rente. No dedo da mão apoiada na coxa o anel de aniversário. A

marca do caderno é o nome da empresa. Tem saudades inclusive da pressão. Da pressão em si; não da competitividade. E agora as páginas todas cheias da letra

redonda e chorosa de pensamentos depressivos como o barulho dos carros. Ela que gostava de ficar quieta em seu canto quando chegava em casa e percebia que tinha

esquecido o celular. E agora.

Ele mediu o que havia no espaço entre os dois. A saia xadrez e a blusa branca engomada. O crachá balançando entre os seios. Viu que ela havia se levantado

e se afastara um pouco. O celular no calor de seus dedos gordinhos bafejado pelo hálito de canela. Por hábito ele havia apanhado o papel de bala e se levantara para

colocar no coletor de lixo. Quando voltavam os olhares se encontram no espaço exíguo de uma impressão. Não viam as pessoas que passavam em frente à banca de

jornais do outro lado da alameda. O caminho estava inesperadamente limpo como se houvesse um homem solitário para cada bala de papel lançada fora. Ela já o

tinha visto antes — a blusa de lã fina de um azul gasto e as luvas coloridas sem dedos e até as falhas na costura do bolso lateral do jeans — e agora ele ressuscitava do

vazio de uma chamada encerrada.

Os ruídos da praça se diluíam na névoa de silêncio entre os dois. — Com licença — disse ela como se tivesse acabado de chegar. Ele assentiu com um apenas

perceptível ricto. O pássaro na gaiola sobre a banca emitiu outra nota e depois outra mais alta e então calou-se como se tivesse alcançado um nível desejado. — Que

frio, não é? — a voz da moça se propaga em ondas. Separa as sílabas como uma cantora de blues falado. — Você não gosta? — Depende.

Ele retribui o sorriso, se é que foi um sorriso.

O asiático caolho gritou no cesto da gávea. O cargueiro finlandês "Arctic Blow", de propriedade da Alliance Navigation, com bandeira do Chipre e

tripulação russa, que zarpara de Kristiansand com destino a Haia, onde deveria chegar em 4 de abril, navegava a uma velocidade entre quinze e vinte nós com um

carregamento de três mil toneladas de madeira avaliada em um milhão e meio de dólares. Um cardume de skrei vindo do mar de Barrents passa junto à superfície

mexida rumo às zonas de desova qual uma única criatura, harmônica e acéfala. A corda com a âncora tem uma bóia na outra ponta e assim o barco do pescador

norueguês avança dois mil metros. O barco fez uma curva arrojada batido por ondas apenas enormes onde há dois dias havia vagalhões. O gajeiro no mastaréu não

tirava os binóculos dos olhos e o comandante entendeu que ele falara sozinho como de costume, discute consigo mesmo, que figura.

Os homens lançaram a rede. Blocos de gelo raspavam a lateral do Aaliyah. Os pés do pescador nas botas sentiam o pulsar da maré sob o casco. As luzes do

farol ricocheteiam na superfície escura. Tantas vezes dissera que não voltaria, se estabeleceria em terra, mas sempre voltava, nômade como aqueles peixes.

Depois do jantar a mulher atendeu o chamado e entrou no quarto precedida pela sombra azulada que se movimentava à cabeceira da filha. Havia comprado

o livro no dia anterior quando voltava da empresa. Sorriu ao ver que estava aberto no colo da menina sobre a coberta xadrezada. — Essa história me lembra uma que

você contava quando eu era bem pequena. —- Que história? —- disse a mãe, lembrando. —A do rei destronado e da moça pobre no jardim de inverno. —- Como era

mesmo? —Você sabe. —-Eu sei. —- Conta. —Você está bem grandinha, pode ler. —Não tenho esse livro.

Quando a menina era bem pequena o homem e a mãe costumavam contar juntos. Era um inverno muito frio como havia muito tempo não fazia. O rei tinha

consultado uma sacerdotisa chamada Hilda e ela disse que ele desceria em paz à sepultura e seus olhos não veriam o mal porque no último momento se humilhou e

enterneceu. O homem e a moça abraçados caminharam no sentido da porta do quarto para sair. —Terminem de contar — suplicou a menina. Dias depois o rei desceu

ao jardim de inverno e disse: “Que monumento é esse que vejo?” E seus homens responderam... —Ela está dormindo — disse a mulher.
—Temos de ir também —disse o homem. —Temos de sair cedo. —Tudo bem. Mas vou pelo menos pedir para minha mãe dar uma passada por aqui. —Não

precisa, por favor. Ela tem de aprender a se virar sozinha. —Tudo bem. De qualquer maneira vou voltar mais cedo amanhã. - insistiu a mãe. A menina se virou para o

lado da janela, prateada pela lua, ressonando. —Ela precisa crescer — insistiu o homem. —Não foi assim com você?

Então é isso a juventude, pensou a moça. Então isso é o amor. Essa dor inacreditável no peito, essas lágrimas. Pensou que os dois homens eram parecidos

apesar do modo como se vestiam e de um fumar e outro não e do jeito diferente de olhar. Nesse dia ela esperou o amante até o último momento bebendo cerveja na

estação. Afinal ela também não viajou por causa do outro, o senhor na praça.

Quando atravessaram a rua estava garoando. A subida da longa avenida. Dobraram na segunda à esquerda. Uma rua estreita que dava para o crepúsculo.

Casas de tijolos aparentes Nenhum carro estacionado. Reflexos dos postes e telhados se confundindo com os vultos nas janelas. Ninguém os conhecia. Talvez algum

funcionário da padaria ou uma enfermeira – o hospital não era longe. Mas em algum momento deixaram de pensar nos outros como sempre acontece quando nasce a

esperança.

Caminharam uns três ou quatro quarteirões ao deixarem a praça. Viraram juntos na esquina e adiante ela seguiu à esquerda e ele pelo lado oposto para ir

até seu quarto. Ela foi sozinha para casa. Ele entrou em seu quarto e apanhou o que tinha ido apanhar e saiu de novo apesar de ter pensado quanto mais demorasse

mais expectativa. Não era longe e uns dez minutos depois entrava no apartamento onde ela o esperava na penumbra folheando o número nove de um mangá erótico.

Virou-se e se achegou a ele.

Quando a mulher acordou de manhã ele havia saído para fazer umas compras com o dinheiro da rescisão do contrato dela e ela ficou impressionada porque

estava traumatizada com o antigo amante. O homem disse sairia cedo e iria no mercado para ela e fez isso. Disse quando saiu depois do almoço voltarei amanhã para

arrumar o chuveiro e voltou e arrumou. Portanto quando ela sugeriu que morassem juntos estava convicta de que seriam felizes e durante um tempo foram.

Ele não se sentia tão seguro mas a iniciativa de passarem a noite partiu dele e ela sempre lhe atribuiu uma virtude que ele possuíra um dia mas perdera como

tantas outras - razão pela qual inventou a história de destronado quando a moça o colocou como rei na história que contava para a filha dormir.

***

Acima da latitude sessenta durante o solstício de verão no mesmo assento do lado esquerdo de onde o horizonte norte incendiou o campo magnético, sobre o

mapa vivo e verde, enquanto a menina falava e sorria deixava à mostra a ponta da língua e uma covinha se formava sob as maçãs. Passavam as nuvens como lençóis

esfarrapados estendidos pela brincalhona arrumadeira de Deus amiga decerto dos pastores de rena com os quais desejava dessa vez comer escondidinho de purê de

batata com mirtilo junto ao fogo. Ouvia a própria voz e via o rosto do companheiro de viagem como um intruso em seu sonho, é como o via, pelo menos num primeiro

momento, um intruso; mas depois disse a si mesma “Por que não? não vou me casar com ele” e sorriu e deu confiança à conversa fiada e os dois entraram num espaço

comum entre as poltronas, tipo de espaço que fazia muito a menina deixara de proibir. Lenta e inocente abotoou o último botão da blusa e desfez o sorriso e olhou de

novo para o encosto vermelho da poltrona do assento da frente.

***

- Tudo bem, vamos para sua casa – disse a moca. – Só por favor não me magoe.
A situação havia mudado de tal sorte que ele temeu porque o ambiente propício a desastres está impregnado de felicidade. Tudo a tornou tão vulnerável e

acessível e tão temerosa que indiretamente tornou possível o breve período da felicidade que viveram, em grande parte por conta da confiança que passou a nele

depositar.

Assinou com o coração disparado o recibo que o carteiro estendeu na prancheta. Olhou uma vez para o destinatário e depois para o remetente e outra vez o

destinatário. Não havia dúvida era para ela e era do hospital e parecia letra de mulher. Ou era a rapidez com que o sol de inverno se movia ou ela perdia longos

minutos com coisas tão simples como rasgar o envelope e desdobrar o papel de carta e sobretudo ler e sobretudo se conscientizar das palavras. Lembrará mais tarde

que estava com os pés e mãos frios apesar das meias e luvas de lã.

Entrou na cozinha e disse para a empregada que precisava sair, dissesse para a filha que... não... — Não diga nada. Quando voltar eu converso com ela. —

Está bem, madame. — Já disse para não me chamar assim — disse a moça, satisfeita por um momento que não podia durar. Logo via batida de carros e homens

armados e becos escuros e se via no prédio do instituto médico legal com tamanha clareza que pensava eram lembranças do que ainda não acontecera; tinha esse dom,

sua mãe dizia.

— Desculpe por ter tomado o seu tempo — disse o homem - Não tomou — disse a médica. — Tenho pensado em você. — Reconsiderou quanto à internação?

— Faz tanto tempo... Ainda pensa nisso? — Quero trabalhar e morrer paz. — E precisa ser em uma clínica? — Não importa onde. — E quanto aos efeitos colaterais

da medicação? — Não me importo mais. — Eu sim — disse ela.

Ficaram se olhando em silêncio. Ele pensou em dizer tudo: havia saído da consulta anterior e encontrado a moça na praça e ele foi ao apartamento dela e

agora moravam juntos e ontem lá estava o cara que não havia ido quando a moça o esperou e não deixara a esposa e agora aparece do nada.

— Você ainda faz traduções? — Sim. — Como conhece tantos idiomas se não terminou sequer o ginásio? — Sou pescador. Fui pescador em muitos lugares.

— Da outra vez vc falou em países escandinavos. Du snakker norsk? — Litt. — Ela passou as folhas impressas. — “Bipolar lidelse: En sjelden tilfelle i Trondheim”. -

Não sei se saberia fazer preço para você. - Cobre o que vem cobrando há anos: sua internação. - Sério? mas você disse que não podia, no meu caso. - Não podia em

uma clínica.

Mais ou menos naquele momento o amante saía do prédio com passos lentos. Mascava indolente um chiclete com o olhar hesitante de quem não se

convenceu apesar de ter ouvido e visto. A partir daí a moça não parou de olhar o celular e ver as horas e constatar que não havia ligações. Não de novo. Tinham

marcado às oito. Súbito deu por si. A hora em que desceu para falar com o antigo amante na porta do prédio e lhe dizer acabou, estava com outro homem, tinham

uma filha.

— Vocês eram felizes? — perguntou a médica.

Ela entrou no escritório amplo de teto alto seguindo a trilha invisível em meio às mesas quase encostadas uma na outra cercadas por rapazes pálidos em

ternos impecáveis alguns ainda com pastas 007 e contornou a última em que o monitor era maior. A secretária se levantou e a seguiu levando em uma das mãos a

xícara de café e uma resma balançando na outra. — A senhora caiu? — perguntou ao ver a mancha roxa no olho esquerdo.

— São esses os documentos? — respondeu ela.


A secretária fez que sim. A chefe apanhou os papéis e deixou-os no mesmo impulso cair sobre a mesa num baque surdo e passou a assiná-los pensando em

como crescera rapidamente na empresa e imaginando o quanto a secretária devia invejá-la e temê-la e nem sonhava o quanto ela sim a invejava e invejava os

programadores e toda essa gente que a cerca. A moça do cafezinho e a da limpeza e sobretudo a projetista que assumiu o seu lugar quando ela foi promovida.

Ainda pensa a respeito no bar do hotel. Estética de lâmpadas tubulares nos tampos prateados. Ângulos inesperados nos pés das mesas e suas sombras nos

tacos. Ainda outro dia quando o conheci não estava muito melhor do que ele; agora que a carreira é um sucesso, ele partiu. Decidira não ir ao teatro com os colegas. Era

uma noite clara e a névoa apagava imperfeições como o desfoque em uma foto. Efeito semelhante distrair-se. Ainda espera ouvir a batida na porta. Não sabe se é o

caso de alguém pedir perdão e por quanto tempo esperará mas como sempre abrirá mão das lembranças para voltar a viver.

As luzes dos carros passando brincavam no teto do apartamento. A varanda da sala dava para leste ali onde a médica costumava ver tomar o café da manhã

no conforto de um sol recém-nascido. Mas agora vai anoitecer e viu o homem caminhando em direção ao prédio. A vermelhidão atrás dele como um apocalipse e a

cortina fina atrás dela reproduzindo seu corpo no tecido. O corpo em que até ali habitara angústia sem remédio e agora a umidade mancha.

Atravessou o quarto e entrou no banheiro de onde saiu perfumada, de camisola. Olhavam pela janela para a mesma região vívida no horizonte vermelho e

lacrimoso.

-- Você poderia vir com mais frequencia -- ela pede. -- Você pode?

-- Não sei -- respondeu ele, pensando nas possibilidades.

-- Sinto que vou perder você -- diz a médica. - É como se ela tivesse esse direito e como se eu não tivesse. Porque naquele dia você já poderia ter dormido aqui

ou pelo menos na clínica onde...

-- Estaria sob teu controle? -- completou ele.

-- Você nunca estará sob qualquer controle -- disse ela. -- Nem o seu próprio - ele deu uma risadinha ao ouvir. - Pode-se dizer que é uma sina - completou ela.

A camisola também aponta para o céu. Ergueu o pé direito soltando a ave do tapete. Ele esperou. -- Você vem? - repetiu ela.

-- A tradução acabou -- disse ele. Ela esperou. Depois disse:-- Não acabou. É trabalho de uma vida.

Quando ela era adolescente seus pais a levavam para grandes caminhadas aos domingos pelas ruas iluminadas do inverno e a medica manteve esse hahbito

ao longo da vida soh falhando nos domingos em que dava plantão. Na época ela chamava a atencao por sua cabeleira sobre os ombros refletindo o sol e a pele

amarronzada sinal evidente de miscigenação e também os olhos verdes enormes e claros. Ouvia as vozes em torno entrecruzadas como diversos filmes em abas de um

navegador mas nao tentava mais imaginar o cotidiano de cada uma daquelas pessoas. Apenas ouvia. O exercício da psiquiatria a ensinara.

Ele continuava esperando. -- Você a ama? Vai voltar para ela?

-- Você sobreviveria? -- ele perguntou. Sorriu e ela entendeu e se aproximou. A mao esquerda apoiada no beiral de madeira.

-- Quer um pouco? -- disse a médica estendendo a taça de vinho.

***
Ela ficou horas contemplando o pescador não muito longe das mulheres no raso lidando com os covos e coletando sargaços. A força dos braços segurando o

timbale. A serenidade diante do grupo de jubartes. Nem as baleias nem os pescadores se impressionaram e sumiram da vista uns dos outros. Ela ficou horas naquele

dia e voltou no seguinte. Ficou fascinada quando ouviu das mulheres sobre a casa assombrada. Entendeu melhor quando conheceu os assombros da casa. Mas o que

está feito está feito.

Era enfermeira. Era alemã. Foi ela quem apresentou o homem ao pescador. Estavam num quarto amplo e o homem à mesa ereto e os dedos sobre o livro

aberto - na verdade folhas mimeografadas encadernadas.

O dia amanheceu como sempre embaralhando as decisões da noite anterior imediatamente antes que ela adormecesse. O telefonema da médica emergiu

desses pensamentos.

- Um estudo sobre depressão nos pescadores escandinavos.

- Um amigo norueguês? — disse a enfermeira. — Pescador? Teu amigo é pescador?

- Meu paciente.

Ela ficou ali num canto sentada ouvindo as ondas nos intervalos da conversa entre os dois homens. A consciência derramava-se como um fogo que parecia

incendiar até sua terceira blusa e o primeiro de seus dois jeans. Entre o arfar do colo e a garganta: se um enfarte naquele momento a fulminasse iria originar-se ali.

Quando o viu pela primeira vez foi como se ali existisse uma morada na qual ele passou a habitar.

O menino correu com as compras nas mãos antes que a enfermeira chegasse. Lá estava ele sentado nas escadas esbaforido. Ela chegou uns minutinhos depois

e deu-lhe as moedas como se vivenciassem alguma lenda nórdica nas quais com devoção acreditavam. O homem recém-chegado nao destoou do ritual embora entrado

em anos e queimado de sol.

Sou a moça que falava ao telefone junto à fonte. A moça abandonada. Precisava de alguém que me dissesse que eu ainda era desejável. Que ainda era qualquer

coisa, que existia. Leu no jornal exposto sob o pássaro, justo no dia em que voltou à praça pela primeira vez após ter ido morar com o homem, que ele ia viajar. Dera

uma entrevista, imagine. E ia para longe. Pode levar a filha, por que não? Estou cansada. Cansada. Foi encontrá-lo. Foi tudo estranhamente simples e rápido, indolor.

As coisas aconteceram e a logo menina, uma mocinha toda orgulhosa num vestidinho azul, estava pronta à espera. O pai passou de noitinha. A rua estava azulada

quase negra e saia fumaça do chão. Assim que ele despontou o gato passou a seguir seu passo lento e firme. Essa lembrança me machucará e fascinará para sempre.

Nenhuma noite sem recuperá-la de sabe Deus que abismos há em mim. Estava escuro como agora naquele dia quando ele deu uma passada em seu quartinho para

apanhar o gel lubrificante.

Ela ouviu a voz dele pedindo licença e se virou atenciosa e alheia enquanto ele se aproximava na luz turva que envolvia o pequeno apartamento um tanto

sórdido mesmo para os padrões da região. Era a luz da rua. A lâmpada havia queimado na noite anterior bem na hora em que eles chegaram. Ela não percebeu que

ele trocara de roupa, uma camiseta cinza por outra, a última dentre as limpas que guardava justamente para ocasiões assim. Ele ajoelhou-se à beira do colchão no

assoalho refletindo uma luz que não havia mais e as mãos se abriram sobre as pernas do jeans e ela notou o quanto era grande o espaço entre os dedos. Eram dez e

meia.

- Você não tem medo de andar pelas ruas desse bairro a essas horas?
A menina seria gerada nessa noite ao menos assim ele pensava convicto e sempre que se aproximava da filha fazia essa relação.

- Papai! Papai! — gritou a menina da varanda.

Sim, essa lembrança me machucará por todo o sempre.

- Talvez eles tenham mais medo de mim do que eu deles — respondeu. — Não tenho mais nada — acrescentou levantando com as pernas dormentes e

tremores de frio nos braços.

- Ah sim você tem alguma coisa — disse ela sentando-se e chegando mais perto e subitamente entendendo seu papel naquele universo de vulnerabilidade.

Talvez da panela de feijão que ainda estava sobre a pia desde a hora do almoço ou talvez do brim amontoado que a calça dele se tornara tocando de leve o lençol

marcado na ponta pelo taco do assoalho, subiu o cheiro inelutável acompanhado do pássaro distante como se o som sequer fosse um canto real mas o espírito de um

limbo degenerado que crescera em alguns segundos.

As mãos da moça estavam apoiadas para trás mantendo o dorso reto a uma altura que parecia de antemão combinada. Sempre acontece, pensou ela

lembrando do primeiro dia na empresa quando uma colega a alertou para a questão ergonômica dos computadores e da disseminação da LER de que ela nunca se

ressentiu. Daí a lembrar-se do amante foi um estalar da memória e o homem notou como os traços dos olhos fechados se curvaram e o entorno umedeceu e a

inspiração seguinte pareceu dolorosa antes que a hábil mão direita trouxesse para os lábios diferenças e semelhanças. Os olhos se abriram. No átimo em que ela olhou

para cima o amarronzado da íris puxou para o violeta e depois para um falso púrpura que prevaleceu no andar da lua. Um gato miou e um cão respondeu. O pássaro

silenciara.

— Papai! — grita outra vez a menina da varanda. — Papai!

O homem olha outra vez para cima e sorri.

***

A menina vai à frente do rapaz. Segura as sandálias na mão esquerda. O olhar perdido no horizonte vermelho da Noruega. A areia fina e gelada. O mato de

um verde palido bem perto das pequeninas ondas. A lamina de mar azul prateado e mais tarde as luzes do norte dançando no céu. Conhecera o rapaz numa espécie de

bar ali perto. O mesmo onde um dia seu pai assistira na TV o encontro da primeira-ministra com o presidente da terra corrupta de escravidão e florestas devastadas.

O horizonte se confunde com os telhados do vilarejo. Os passos do rapaz mantém certa distância. Pegadas é tudo o que ele vê embora tenha em seus olhos as

pernas grossas luzidias no pub em que havia a confraternização. A festa de aniversário em que ela presenteou um outro pescador com o que tinha de melhor.

Mais à esquerda da direção que agora tomaram, montanhas. Um tom abaixo de verde em relação à vegetação da praia. Caso seguissem caminhando e

deixassem a areia e chegassem ao asfalto veriam a luz do sol nos abetos que ladeavam a rodovia vazia exceto por um barulhento trator de cuja fumaça surgirão as

caixas de correio. Uma casa e depois outra e uma e depois outra antena parabólica. Umas após outras ovelhas seguindo tranqüilas pelo meio da pista. Caso seguissem

naquela direção, veriam.

Os cabelos ruivos esvoaçam. As sombrancelhas muito ben feitas. Os olhos sob pestanas negras e longas estao de novo distantes. - Du bør ikke røyke så mye -

disse o rapaz. Ela sabe e responde na verdade não devia fazer nada do que costuma fazer.

- Principalmente sair com homens como o Knut - disse o rapazinho.

Ela concordou cabisbaixa como se estivesse arrependida

O rapaz insistentente argumentou que homens como Knut apenas a faziam lembrar o pai, nao reencarnava neles.
Ela bem o sabia. Disse a ele que bem o sabia. Seus cabelos contra a brancura salpicada de verde produziam um efeito de pintura que foi ainda úmida coberta

de verniz.

O rapaz disse que nao entendia.

Ela olhou para ele pensando o quanto era bonito. Em como seria amar um rapaz cuja idade regulasse com a dela.

A madeira do pub é branca, envernizada. Os guarda-sóis das mesas balançam.

- E você, deveria estar aqui? É diferente deles? Não estava namorando a Sigrid?

***

O homem cresceu em uma cidade grande que jamais foi para ele maio do que seu bairro. Amava o mar sem conhecer outra praia além da que via da janela

do apartamento de seu avós. Na medida em que ele se tornava adolescente, percebia-se a insegurança da vontade e a firmeza dos passos; os cabelos despenteados e a

barba aparada; a voz firme e a timidez. Herdou de sua mãe os olhos e do pai o corpo longilíneo e de seus avós o medo da miséria.

Menininhas de seu prédio diziam entre si que deviam aproveitar enquanto ele era menor de idade para que não sofresse o risco de ser acusado e as mais

velhas para não se incriminarem elas próprias. Eram boas com ele, as mulheres. As amigas da mãe mais que a própria. As primas mais que a irmã. Um tipo de sina.

Pensava que a obsessão acontecia com todos. Que ereção matinal era como o sol. Que qualquer menino de treze anos remexe nas gavetas de lingerie das

empregadas e dão um jeito de visitar as tias antes que tivessem tempo de trocarem a camisola ou com sorte o baby-doll.

Seu avô foi um político respeitado desde quando prefeito de uma cidadezinha no interior de Minas Gerais e depois de chegar a assessor de um ministro de

Dutra. Sua avó era adorada pelas vizinhas por conta de tantos bastidores e pelas suas famosas receites de peixe.

Desse mundo o homem, criança, emergiu. Não entendeu logo. Tomava no café da manhã suco de frutas frescas e mingau de aveia e vitamina além do

generoso filé coberto de queijo derretido. Para ele era normal o que não fazia idéia era impensável para a maioria de seus conterrâneos.

***

O futuro patrão calculou o degrau de baixo segundo o passo da menina. Disse que ela gostaria do emprego. As sombras que os acompanham por todos os

lados são esverdeadas e se seguem e se separam e tornam-se muitas e depois quase somem no verde luminoso das paredes. - I'm very good to my employees - repetiu.

Ela não precisava olhar para ele para saber que olhar acompanhava suas palavras. Desce com a mão esquerda delicada deslizando pelo corrimão muito de

leve quase sem tocá-lo. Seu vestido marron escuro não se parece nada com as roupas que costuma usar entre os pescadores. A alça da bolsa cruzada passa discreta

entre seus seios pequenos. As sombras desaparecem de vez no início da escada e o sol menos que morno contorna os cabelos da menina. Não vou desistir exceto se ele

me tocar. O pai vai se orgulhar do quanto ela se tornou trabalhadora e responsável. Deve sentir saudades dela, esteja onde estiver. Na casa do pai há muitas moradas,

não é assim?

O futuro patrão recua e abaixa os olhos na direção da menina por um segundo de costas. O chão do pátio é arenoso e frio. A sensação do súbito sol sempre

deliciosa. No chão na entrada da oficina há bergfrues e ao longe liljekonvalj. A menina estremece ao ver.
Quando entram, ele a segura pelo cotovelo. Há uma bancada e logo à frente um barco emborcado. - Our work is a quality job - disse ele. Disse de novo que

ela iria gostar. Explica que é um serviço muito fácil fazendo um parêntesis em dialeto do norte para um funcionário ao lado da bancada. Ela só terá de anotar os

serviços. Nada mais do que isso. Se preferir pode escrever em inglês. Todos os clientes falam inglês, é claro.

- Du må være veldig bra med dem, også — diz ela.

Ele diz que sim, claro, mas que sobretudo é uma troca entre cavalheiros.

A lâmpada de um abajur de ferro alto e torto incide sobre as peças que agora sem que ninguém as manuseie jazem na bancada erguida sobre cavaletes

dourados pela luz do norte.

***

De pé na popa quando o barco virava a última curva do fiorde antes da vila elas viram a casinha vinho entardecendo em tons de setembro terminando no

branco do horizonte anterior à linha dos montes com os quais se confundia. Aproximando-se da luz amarela que indicava a porta em contraste com a noite as duas

mulheres olharam uma para a outra com indisfarçável orgulho. O pescador pediu para que por favor entrassem.

A casa que estava abandonada desde a morte do avô do pescador fizera parte da política habitacional de Gerhardsen. Era uma casa de madeira revestida de

pinho, assimétrica, e havia cascas de bétula pelo chão .As mulheres entram e se sentem acolhidas embora haja ali mais freezers que mobilia e o anfitrião não seja de

muitos sorrisos. As janelas dão para o sul. Privacidade ali não seria um problema, pensa a mulher mais moça, tentando se lembrar qual foi o último ser humano que

viu antes do pescador. O ambiente é escuro e as tábuas de madeira da parede lateral irregulares. O flue da chaminé é feito com duas tubulações metálicas interligadas

que levavam a alma do pescador aos céus que escolhera.

- Myndighetene er fornøyd med søket — disse a mais jovem. Haviam aceitado a teoria de controle e ele seria o capitão de um dos barcos.

- En brigade for å bekjempe ulovlig fiske — disse a mais velha enquanto a outra via um homenzarrão de cerca de quarenta anos nem magro nem gordo à

vontade como se fizesse parte da casa e em seguida viu a mão enorme que estendeu com um sorriso enigmático. Ela olhava para seu medo que tanto crescera desde

que ouviu falar do pescador pela primeira vez havia um ano quando ele ainda morava em Trondheim.

A medica sentara-se na mesa junto à janela e abrira seu caderno de anotações. O trabalho não estava rendendo. Levou os papéis para a poltrona e depois

para a cama e por fim decidiu sair.

***

Pelo olhos azuis passavam as lembranças. As pestanas são negras e o cabelo está preso e os lábios grossos entreabertos. É uma mulher ainda jovem e vivida

sentada na sala, lembrando. Como os acontecimentos levam as pessoas por caminhos que não planejaram e é inútil qualquer pretensao de ter algum controle sobre a

vida
Naquele dia atendeu no ambulatório uma dependente química, uma menina linda. - Sabe por que você é assim? Porque não é amada.

- Você está ficando dependente disso também.

- Tlavez você, porque pensa nisso quando não estou falando disso.

- E do que está falando? - a médica quase perguntou, mas deteve-se.

- Estou falando de generosidade. De misericórdia. De humildade.

Agora o marido vai chegar. Médico também, bem mais velho. Ele providenciou a primeira receita para ela depois de uma noite em que fizeram plantão

juntos. . COmo suportar sem algum tipo de ajuda? Mas era diferente. Era trabalho. E casar com ele foi diferente. Era trabalho. E agora o que é?

“Vou embora” , pensou. "Vou hoje mesmo", pensou a médica. Ao fundo o disco de vinil repetia o mesmo lamento, repetia. "Vou embora agora mesmo.

Estarei livre e será trabalho também".

***

A aura sedutora que de seu rosto emanava escurecia todas as coisas ao redor inclusive seu corpo considerado perfeito pelas colegas de quarto. Seu rosto. O

resto é fundo, indefinição. Como não se apaixonar? Mas o filho do pescador era ainda um menino. E ela própria, já se tornara uma mulher? Em que ponto do tempo

isso acontece? Estão na sala da casa do pai dele. As tábuas envernizadas da parede, o linóleo. Os estalos da madeira. Mudanças constantes de luz segundo os

movimentos da cortina.

***

Círculo macio acinzentado em que nasce o desfigurado azul e ali e ali e ali uma duas três e tantas outras nuvens do puro branco a quase o cinza da parte

interna da janela do avião no formato cujo fim é semelhante ao da dor e distribui o estresse pelo pulsar do corpo enfraquecido. O bico do avião em sentido contrário

encosta na ponta da asa vista pela metade se estendendo ao winglet preciso o bastante para amenizar o arrasto e não demora a menina vê os campos verdes mais e

menos escuros um pouco aquém da curva do horizonte e logo não mais verde e o branco das nuvens estará abaixo à direita móvel exceto pela turbina onde em branco

sobre o vermelho repousa a palavra mágica: “scandinavian”.

Os cinzas se tocaram quando ela atravessava as nuvens e de cristal se umedecia na nebulosa massa agora ruidosa em céleres jactos alimentados pela

turbulência detectada no radar da memória e ela fecha os olhos. O filho do pescador quer ser arquiteto. Quer planejar a própria casa. A menina quer morar nessa

casa. Mas não logo. Ele sim. Mas sem crianças. Ela quer.

A estrada passando a traz de volta. Os abetos verdes e as casinhas vermelhas. O recorte dos montes. O céu desbotado. A neve esfarelada. O companheiro de

viagem decora a linha dos olhos fechados da menina ainda nas nuvens e acompanha cada risco da franja e a luz dissolvida no ombro cortado pela alça trêmula na

larga abertura do pulôver.


- Estamos chegando — diz ele.

Ela não abriu os olhos.

O trem rompe devagar o branco gelado fumegante dentro do qual caminha o funcionário da estrada de ferro todo de negro ou talvez um azul bem escuro

como um pássaro num quadro de paisagem invernal. Ela é esse pássaro. Voa e se dissolve no trecho de subúrbio em que a combinação de luz do sol com o som do

vagão determina que sim ela estava chegando. Cansada tremia entregue aos arrepios. Morar logo. Sobre crianças, dá-se um jeito.

***

Era o começo do inverno. O pescador diante do mar com o olhar distante. Mulheres de luto passando cochichavam e apontavam com o queixo. Estava

atraído por ela como um cardume pelo plâncton. Lembrava. O olhar dela distante e verde sobe de súbito e o encontra. Nesse momento. Desde então não sabe para

onde caminha mas seja para onde for ela estará lá, como o sol da meia-noite.

- Por que você não quer tomar a medicação?

- Porque tenho esperança — disse ele.

Salvo algum eventual cochilo, ele não dormira ao longo daquela noite. Pretendia chegar a Ålesund antes do pôr-do-sol. Estava cansado. Quanto mais fria a

água, maior o peixe. Um homem que desafiava as tempestades de ondas geladas e gigantes tremer assim por causa de um sorriso? Um homem dos fiordes vencido

por rios interiores e lagos montanhosos de um corpo feminino. “Meu Deus”, dizia para si mesmo. “O que está acontecendo?”

E podia vê-la levantando o olhar e o encontrando. Podia vê-la ainda que diante de si houvesse apenas o mar imenso encrespado. A espuma qual cristais de

uma neve inversa e branca. A superfície subindo e descendo, subindo e descendo; não se move para frente. Bem lá ao fundo o recorte azul-escuro das montanhas do

qual se adivinhava as gaivotas e as casinhas do vilarejo.

***

A enfermeira se sentia lisonjeada com a proposta mas como viveriam nessa época em que os pescadores mais cedo ou mais tarde se tornam urbanos e

embarcam como operários e morrem à míngua nas cidades grandes?

O pescador num sorriso indecifrável pelo menos num primeiro momento (ah ele era tão charmoso, o pescador!) disse que viveriam muito bem em uma

pequena e bela comunidade diante daquele belo maciço de montanhas. E com efeito viveram por um tempo longo como o fiorde, criando e plantando em torno da

casinha.

- Fra tid til annen kan jeg gå til det åpne hav og gi deg litt hvile ...

Ela disse que não queria isso, entende, disse ela.

- Jeg vil ikke ha det! — disse. Disse que não queria perdê-lo para o mar, preferia dividi-lo com a pobreza na cidade grande.
Todo envaidecido o pescador a abraçoue disse que ela nunca o perderia, mas ele sim, ele a perderia e, quando acontecesse, não sabia como iria suportar.

A expressão dele era tal que ela acreditou e essa convicção fez com que seus braços relaxassem e não mais resistiu.

Um tempo a menina acordava com a imagem do pescador e demorava para se levantar porque hesitava mas mais dia menos dia iria levantar e se vestir

pensando como explicaria sua presença e de fato em uma manhan clara de verao, o sol concedendo ao azul dos lençóis tons de mirtilo, ela respirou fundo e abriu bem

os olhos e levantou-se trazendo para junto de si o robe de cetim que lhe dava ares de uma debutante na manhã de sua festa e, por contraste, fazia pensar nos

contrafortes dos muros de um palácio. Quando voltou do banheiro abriu o armario e pegou entre as blusas curtas coloridas e os jeans apertados seu velho querido

vestido largo que mal tocava seu corpo.

O pescador disse que nao era uma questao nova. Mas podiam competir justamente por causa da tecnologia. E, por exemplo, exploravam os nichos vedados

a barcos maiores.

Nesse mesmo dia a menina havia visto o rapaz andando de lá para cá na varanda e soube depois que era o filho. Devia ser muito esperto também. Sabia

decerto lançar e reconhecer a rede como ninguém.

O pescador disse que por isso eram chamados de mestres. A menina perguntou se o filho dele tambem seria. Ele respondeu que esperava que sim pois esse eh

o desejo de um velho pescador artesanal.

O sol nascera. Pelas ruas do bairro onde o pescador morava ela pensava que estava próxima de conhecer alguém e o insight refletia em seu rosto no espelho.

Seria um homem não havia dúvida. Um homem acostumado ao perigo. Sábio e seguro. Solitário. Deseja permanecer solitário. Sabe guardar segredo. Não se arrisca

além do necessário.

Seu filho nao estava preparado para isso.

Entao viu que os olhos da menina eram também muito azuis.

Daria a vida para que o rapaz encontrasse o mundo duas vezes perfeito que um homem habita imediatamente antes e imediatamente depois do primeiro

amor físico. Quando a lembrança nao está muito distante da esperança de conquista. Olhou a menina que subitamente desconhecia. Não era mais a filha do amigo mas

sua nora. Simples e vibrante como uma resposta de Deus.

Alguns anos mais tarde ao caminharem pela praia falavam alto para se sobrepor um ao outro. Depois se olharam e calaram. Ele saiu andando e voltou e

ficou assim de lá para cá e ela perguntou:

- O que foi?

- Não está funcionando - disse ele. - Jeg er redd.

Um homem corajoso. Que sabe se manter atualizado e em contato com as fontes de financiamento. Que não perde a noção de familia nem a necessidade de

silêncio. Um homem que anda de lá para cá e sabe que nao há como controlar as marés.

- No dia em que teu pai nos apresentou, eu vi vc na varanda e pensei “ Que rapaz bonito” e ele respondeu:

- É que você me viu de muito longe.


Ela está de pernas cruzadas diante dos dois homens como se fosse uma acareação. Olha para um e outro mas nenhum dos dois percebe: parece que faz

anotações e está muito concentrada.

- O que achou? —

- Que são dois homens muito atraentes.

- Estou falando sério.

- Eu também.

A coxa iluminada pelo último sol sobre os telhados cinzas. A luz que a acompanhou durante sua caminhada desde a estação. O olhar do pescador como o

olhar dos franciscanos na esquina da rua. Os braços do homem estão imóveis como se fizessem parte da mesa sobre a qual os dedos do pescador tamborilavam.

A moça havia passado bons tempos na firma. Subira rápido e rapidamente se tornou muito amiga do chefe. Ninguém percebe que tem um problema com

álcool. É uma moça alegre. É competente no trabalho. Apenas gosta de sexo e fica triste quando o amante não está. Aceitou a viagem mesmo relutante por causa da

outra porque se convenceu de que o relacionamento do amante com a esposa não iria muito longe, com ou sem ela.

Ela foi para o bar e ficou tomando cerveja. Uma eternidade mas não chegou a uma hora. Então se levantou e saiu sem destino. Encontraria alguém que ou se

compadeceria dela ou percebendo-a bêbada se aproveitaria. O homem na praça porém apenas pegou o papel da bala e começaram a conversar.

Não esperava que o amante voltasse. Acreditava que ele tinha conseguido o que queria e tinha se servido até se esgotar e agora tinha meios de saber que ela

estava com alguém, que tinha uma filha. Então ele apareceu. Insistiu. Queria vê-la, precisava. Deve ter dado algum ao porteiro. Afinal ela desceu bem na hora. Na

terceira vez que o interfone tocou. Ela desceu bem na hora em que o homem voltava para casa. Não o esperava mais e ele apareceu e trouxe as lembranças e disse

“Meu amor, me divorciei, podemos agora fazer nossa viagem”. Era o dia mais quente do inverno após aquele em que encontrou o homem no largo. O homem que

deve tê-la surpreendido com o antigo amante. Que agora pode de novo ir ao médico, aa medica. E ela, a moça, uma mulher agora, e mãe, pode partir sem magoá-lo.

A menina, uma moca agora, agradeceu e disse que estava ótimo. Um brasileiro naquela situação ofereceria o próprio quarto mas o norueguês simplesmente

arrumou o sofá na sala.

Na manhã seguinte perguntou às colegas de apartamento se agira bem e elas riram e disseram naturalmente. Como deve ser.

E acontecera algo a mais do que deve ser?


— Não, nada. — De manhã ele me acordou e disse que o café estava pronto. Depois liguei para vocês e vim.

— E nesse coraçãozinho, aconteceu algo?

Refletindo a respeito a médica concluiu que não, até porque estava antes um pouco magoada com uma gentileza que bem podia ter sido simples rejeição.

Se ela quisesse ouvir música, disse ele modificando o ângulo do aparelho de som em relação ao sofá.

Não, estava tudo ótimo, agradeceu ela, sincera.

Ele passou para ir à cozinha pela manhã e ficou contemplando absorto e muito sério a médica, que dormia.

Quando deixaram a marina havia um resquício de vento e as águas estavam onduladas. O rosto gelado da médica no capuz azulado fazia parte da linha do

horizonte à altura do filtro labial. As montanhas nevadas no céu ambíguo. Luz do norte vazando as nuvens cinzentas e baixas qual um edredom flutuante. Ela

escutava vozes falando sobre a monografia. A própria voz do pescador no café da manhã e a respiração dele no estreito catre do veleiro falavam sobre a monografia.

E ele pensava em financiamento e arenques. Não se sentia mais culpada.

As vozes ao seu redor cresciam. Sentou no banco do largo e tirou o caderno da mochila. Ficou assim por alguns minutos, as linhas flutuando. Estava

repetindo os caminhos. Primeiro parou de deixar currículos; depois não telefonava mais; pessoalmente, as coisas não aconteciam. Na época de seu primeiro emprego, lá

se vão quarenta anos, as pessoas diziam “Não” até que alguém aceitasse. Não há mais alguem. Há departamentos; não há rostos mas avatares. Falam em robôs. Como

transformarão a sociedade de robos. Se era um excelente tradutor, não faz diferença. Desviou o olhar para três homens que passavam conversando alto. Um rapaz pediu

licença e sentou e instantes depois levantou e onde havia sentado apareceu um envelope pardo. O homem quis chamá-lo mas já ia longe. Pegou o envelope e levou até o

jornaleiro. - Alguém esqueceu - disse. — O senhor pode guardar, pode ser que a pessoa volte, procurando. Parece que são documentos. - Tudo bem. Às vezes as pessoas

voltam e procuram mesmo — disse o jornaleiro. O homem agradeceu e voltou para o lugar. Guardou o caderno na mochila e se levantou. Tem muita fome. Desce as

escadas do metro. Fica juntos às portas do vagão para descer na estação seguinte. Uma jovem sentada a seu lado e as vozes crescendo.

Depois que as baleias se afastaram o pescador se lembrou de uma vez em sua infância quando uma jubarte encalhou na praia e conforme as pessoas iam

sabendo toda a comunidade se se juntou em torno dela com cordas e depois de horas enfim sacudindo a cauda como se agradecesse ela desapareceu no mar e o pai do

pescador tinha os olhos vermelhos. isso aconteceu quando tinha sete ou oito anos.

No dia em que fez dezoito anos o filho do pescador saiu de casa assim que anoiteceu. Era cerca de nove horas. Colocou o jeans muito surrado e limpo e com

dois dedos apanhou o par de tênis branco que calçou pulando numa perna só. Perto do muro baixo decorado de hera uma sombra coincidiu com a sua.

A menina acabara de se despedir do pescador. Seu vestido largo parecia nao tocar em seu corpo desenhado pela luz do radar de iluminação que destacava o

vermelho de seus cabelos e dividia seu rosto. O rapaz a achará muito bonita quando de novo se encontrarem; agora está muito assustado com a aparição.

Ele disse que sim, que era o filho, e seus olhos deviam estar arregalados e seus maxilares estavam duros. Respondeu que morava numa cidadezinha próxima

mas passava na casa do pai quase todo dia e iam ao mercado, outras vezes a bancos, mas também saíam de barco. Por fim calou-se, perturbado. Era estranha a

maneira como ela o encarava.


Ela contou que viera do Brasil com seu pai que estava traduzindo uma tese do noruegues. - Våre foreldre er venner av ungdom - disse. - Egentlig var jeg bare

med din far.

Nesse momento, passou a lembrar as partes da conversa em que o pescador mencionara o filho e tentava colocar naquele rapaz que imaginara o rosto do

rapaz aa sua frente. - Voce sabe guardar segredo? - perguntou.

Quando de novo se encontraram era de dia e a menina parecia outra, radiante como o sol. O dia o apanhara caminhando sozinho, um vulto sob o céu ainda

cinza, azulando. Respirava resedá.

Aa sua silhueta se juntaram os tordos pintados de creme pela lenta luz da aurora. Sera um lindo dia. Logo essa neblina vai se dissipar. Ele pensava como a

natureza eh maravilhosa; sobretudo a parte feminina da natureza; embora nao tivesse muita experiencia; talvez exatamente por isso. Era uma menina recatada e

simples, ele achava. Queria ser sua amiga pelo jeito. Nunca teve uma amiga. Pensando bem nem amigo, salvo a agonia do convivio com os filhos de outros pescadores

envoltos pelo acaso, apenas lado a lado.

Segue sob o ceu de agosto, o ceu de Arendal, falando baixinho.

- Å, min Gud ... . Å, min Gud ...

Pensando melhor talvez Grodun tenha sido sim um amigo, um bom amigo. Quando de subito os tordos se dispersaram no ceu cada vez mais azul mas cinza-

brilhante ainda ele chegou aa casinha proxima do estadio e ela ja estava lah sob a garoa. Nao estava frio - talvez uns quatorze graus - mas ele sentia. Ela apontou o

celular e disse: - Lag en pose. Ele sorriu.

Ele reparou que ela estava mais bronzeada. O que ela quer de mim? Com certeza vou decepcioná-la. Ele subiu as escadas na frente. No quarto nao olhou

diretamente quando ela tirou a blusa que ficou sobre o banquinho ao lado da lareira para conforto do velho gato durante muitos dias.

Às nove horas e vinte e um minutos daquela manhã os trens do metrô circulavam com velocidade reduzida por causa de uma interferência em via. As

pessoas se aglomeravam nas plataformas. O homem passou em sentido contrário ao fluxo e subiu as escadas e saiu da estação com passos largos e lentos em direção ao

largo. Vive há quase um ano num quartinho que conseguiu graças a escambo e lava a roupa na máquina de uma vizinha. Não tem família. Come no refeitório

municipal mantido por uma ong no centro da cidade mas nesse dia não porque perdeu a hora e consequentemente o número de acesso. Vinha de um bairro distante

onde soube que contratavam tradutores para uma startup especializada em cursos online. Está com uma dor de estômago ainda não incapacitante mas muito

incômoda; dói-lhe ambém a coluna e as costas; há uma aura de enxaqueca na cabeça.

Não tem amigos. Fala pouco. Não foi sempre assim, ao contrário. Na infância era muito dado, era a atração das festas de final de ano na puberdade. Mas

casou cedo. Aí começou a história da decadência. Também cedo se divorciou e começou a viajar de carona pelo País. Numa vila de pescadores no litoral da região

sudeste aprendeu a pescar. Por um bom tempo apenas fazia outras tarefas do barco tais como limpar e salgar, armazenar o peixe, cozinhar, limpar e consertar as

redes. Viveu uma década entre pescadores sem jamais ter efetivamente ter lançado uma rede ou feito um nó clinch.

Nos anos noventa, depois do confisco da poupança, viajou para a Noruega. Dois meses depois apresentou-se à polícia. Fez o curso da Rød Kors e teve visto

aprovado.

Não devia ter voltado mas acabou voltando. O inverno era demasiado escuro e tudo adormeceu na neve mas a luz está dentro das pessoas. A luz exterior é

abundante no bairro em que vive agora e as calçadas estão cheias de moradores de rua. Olhando para elas, ele se vê e lamenta ter voltado. Sempre acontece. Pensava

na aurora boreal e no sol da meia-noite, no silencio e nos fiordes e ficava abatido. As coisas ruins não trazem essa tristeza, porque passam.
A médica teve uma infância feliz. A imagem que tem de si mesma na época é a de uma garota sorridente dentro do carro esporte dos pais sempre indo ou

vindo de algum lugar onde se divertia muito. Um cinema, uma lanchonete, um parque. Um vestido branco de crochê. Sua sombra na parede da varanda à luz da lua.

Seu corpo diante da cadeira de costa alta no quarto com papel de parede florido; seus bichos de pelúcia.E de súbito as apostilas do cursinho, os livros de Daniel Carlat,

a escala de plantões. O corpo pronto. O relógio. O carro de um modelo antigo não mais fabricado. O sol lá fora e os olhos fechados. O nariz apontado para o céu e os

olhos fechados. Não é uma juventude tão feliz, pensou um dia. Talvez não exista juventude feliz.

Quando se divorciou, aos vinte e sete anos, pensou “nunca mais”. Abriu a própria clínica num sobrado branco em uma região nobre da cidade. O imóvel era

lindo de fora mas muito mal cuidado e demorou um tempo para a vizinhança acreditar que havia acabado o tempo do famoso especialista em reprodução humana, o

proprietário anterior, agora na penitenciária. Alguns meses depois da inauguração, a clínica ia de vento em popa. Ninguém podia imaginar que além de ser uma

médica experiente assim novinha ela também era uma empreendedora, uma mulher de negócios. Mas a escuridao continuava nao importava a luz de eventos, que eh

exterior. Medica, cura-te a ti mesma, pensava. Tinha de fazer esforço para se vestir e para comer. Deveria estar feliz. Era mais facil dedicar-se aos estudos. E tirou da

gaveta a monografia de mestrado abandonada.

Estava triste. Eatava constantemente triste. A tristeza nao era um sintoma nem uma sindrome mas uma doenca. Era uma doenca. A propria doenca. O que a

causou? Como evoluiu? Qual o tratamento?

Ficou gravida aos dessesseis. O irmao a manteve em carcere privado e ainda irah a julgamento. O filho a visita, eh carinhoso com ela. O casal que o cria diz

que ele eh carinhoso com ela. Esteve no consultorio na sexta antes do dia das maes. Pediu a bencao. Ela chorou. Mas eh uma tese nao uma biografia.

- Esse pescador foi um dos entrevistados no estudo de caso que usei na pesquisa.

- Uso bilhete de transportes nesta cidade - disse o homem. – Por aí você vê o absurdo do que está imaginando.

- Se é soh esse o problema, está resolvido

Era o mês de junho.

O pescador caminhou com suas botas pretas na direção do barco e subiu. O mar estava excepcionalmente calmo e cintilava. O rosto da médica desaparecia

na luz. Aproximou-se mais e o semblante dela correspondia à sua generosidade - ele a reconheceria por essa luz ainda que a não conhecesse. Ela olhou para ele e os

ombros eram largos e os cabelos estavam não despenteados mas penteados com a mão. Ele examinou-se mentalmente e percebeu que tudo estava com deveria.

Trêmula não dirá nada ao acabarem e reavivarão a chama. Depois apanhará as roupas que pusera na cadeira e sorrirá ao ajeitar a saia diante do espelho e

sairá ao sol e irá para a biblioteca - um paraíso no paraíso - e o trabalho renderá e sentirá prazer por nao ser mais enfim inatingível.

O apartamento ficou grande demais depois que o homem partiu. Foi fruto de mais de um mes de procura. Tempo bom, a moca lembra, de apaziguamento

diario. Proximidade do metro e sol da manha. Ao olhar o espelho do armario embutido ela quase ve o desejo e a letargia nos volumes de sua blusa. A mesma de

quando o conheceu. Andou ate a janela e sentiu o calor do sol em seu rosto. Poucas pessoas caminhando na rua - poucas pessoas, o que a deixava um tanto

melancolica. Subiam lentamente a ladeira e a escadaria da igreja, quase se arrastando. Na lingua pastosa um sorvete e um cafe pegariam bem. Talvez o dinheiro jah

esteja no banco mas nao se sente confortavel ao entrar na agencia em feriado. No dia anterior uma mulher foi estuprada, o que, se uma vizinha lhe contasse, ela iria

pensar que era exagero, licenca poetica de fofoca. Mas nao. A idiossincrasia nao anula a realidade e a realidade do Pais eh essa. Sorte sua, amor, essa viagem. Deus te

abencoe aih aa margem dos fiordes, Deus abencoe a Noruega.


Mais tarde passou como sempre na casa do amante Poderia recebe-o em seu apartamento. Todavia, tinha esse pudor em relação aos outros moradores do

prédio. Quando trocava a blusaq, apalpou o seio esquerdo cheio e pensou que seus cuidados tinham a ver com a possibilidade de um dia a menina tornar a morar com

ela. Se for isso não é comsciente. Gosta assim, de amar à distância, de amor aos pedaçõs. Não é uma pessoa fácil de comviver. Mas por que afinal estou chorando? Está

tudo bem. Tudo terminou da melhor maneira. Aamnhã o dinhneiro será depositado. Comprará uma blusa que valorize os seios, que desfoque o rosto. Tudo está como

deve estar, pensava quando o telefone tocou.

- Estou comendo pizza, minha filha. Marguerita.

- Estou ouvindo rádio. Randsfjord. Staut. Ei varmare.

- Estou contente por você. Talvez eu vá.Veremos juntas o sol da meia-noite com os rostos alaranjados.

Quem sabe meu amado suba as escadas nessa hora depois de ter me visto ainda lá debaixo, pensou a menina, do outro lado de tudo.

Quando a mãe desligou a chamada estava nua esparramada como o jornal sobre a cama manuseada como um e a noite ia avançada. Podia sentir o cheiro

do amante. O que era hálito e o que era suor. O que era desejo.

A formação rochosa seguia seu caminho no limo e onde encontrava a água sumia na luz. Ondas entram por impensáveis interstícios onde a química modifica

a pedra. Agora mais que vê o barco antes apenas um ponto na vastidão do mar e escuta o motor mais e mais alto. A passarela rangente do atracadouro balança sob os

homens que desceram e seguem em fila indiana. Num momento o farol e noutro a voz atrás dela. - Solen Skinner.

- Ingen sier nei.

- Har du vært her lenge?

Eram mais de três horas quando por fim adormeceu, o sono vencendo a fome. Todos os seus esforços para conseguir traduções acabavam vencidos ora

porque precisava fazer uma ligação e não tinha créditos, ora porque a pessoa que ia encomendar o trabalho desistia, ora simplesmente porque passava o dia de um

órgão a outro de assistência social até enfim conseguir uma refeição. Acordou cedo e tomou dois copos de água da torneira porque tinha sede também mas sobretudo

para aguentar um pouco mais de tempo de tempo sem comer.

Quando chegou ao apartamento naquela noite recebeu uma ligação do filho do pescador. Era para ela sair e olhar para o céu. Desceu e procurou um lugar

menos iluminado, talvez ali, pensou caminhando perto da garagem do conjunto no sentido do fiorde. Distraiu-se porém com a memória de vozes masculinas lhe

dizendo o que fazer. Eram vozes muito antigas, praticamente de sua infância, pouco mais que isso, e nunca vozes conhecidas, nunca esses homens tinham um rosto.

Fazia quatro graus lá fora. A primeira aurora de seu primeiro outono.

O céu subitamente verde entre os dois prédios do conjunto. Um pouco de rosa no verde e ela lembrou que sempre se arrependia e se arrependia a ponto de se

julgar não mais louca e sim perversa, de uma perversidade nata. Encheu-se então de pureza e seus olhos lacrimejaram. Ela, a menina, pensou que não era mais

menina e viu-se menina num mundo sem lugar que lhe oferecesse para habitar porque os puros eram mais ou menos puros e os perversos parcialmente perversos.
São quase três horas da manhã.

O rosto meigo quase tao branco quanto o cachecol e o gorro e os olhos azuis quase tao tristes quanto a neve acumulada ao lado da vereda feitos aparição de

andar aberto de pato por causa do tanto de roupa achegaram-se aa mulher de nome estranho e a aparicão disse Oi e enquanto a outra respondia abriu um imenso

sorriso amigavel. Era noite e nao iria amanhecer.

Perguntou se a outra era a enfermeira e diante da resposta afirmativa abriu ainda mais o sorriso no rosto iluminado. Dentes e seios da face. O reflexo da

lampada da patinacao nos cabelos escapando do gorro emaranhados no cachecol. Ela fala balancando a cabeca. Não se sente aa vontade como seria de supor. Entao

uma mulher madura e contida de perto é assim. Como eh morena e corada. A fala mansa e as maos inquietas. Segura as bordas do casaco e olha para baixo.

- Am I good enough?

Ao ver um livro caído na estante havia aeu nome na capa. Ao passar pelo magnífico predio de um hospital no estrangeiro, estava na sala da presidência.

Levou as mãos ao bolso e o celular que apanhou atualizarra-se. Agora via diante de si o pescador e era apenas o pescador ou totalmente o pescador. Ele nunca tentará

ser outra coisa mão criará expectativas além do que eh tarde. Então não há ou há destino? Há ou não há amor? E o amor leva a esse lugar que o trabalho não

alcança? Viveria como a mulher do pescador? Viveria com o homem que não era reconhecido senão como o marido da doutora? Eram perguntas desfasadas como

queimar sutiãs. Estremeceu. A noite era fria e escura. Não tão frias e escuras como as que ainda virão. Mas muito. Estou bem, pensou. Vai passar. Perto dele tem

muito tempo para errar. Da-se esse prazer de ser determinada sem perder a timidez. Eh o que o encanta. Ela não Precisa dele nem quer precisar mas ainda parece

que sim. Não tem ilusões sobre a vida mas adora um homem que ele ainda não eh.

Ela se manteve pura e linda em sua memória. Descera do sonho num corpo mais cheio e ele pode ouvi-la descalça sobre o tapete esgarçado junto à cama.

“Jeg hadde søvn, min kjærlighet”. – disse ele. “– Tilgi meg”. A realidade se movia então para a sala onírica e prateada onde a esposa surgia ao mesmo tempo em que a

voz infantil mostrando ao papai a caixa de papelão cheia de brinquedos.

- Må de marine naturressursene bærekraftig - o pescador ouve de um lugar muito distante.

A menina diz para a mãe que o pai está dormindo; diz e cai na risada. A mãe diz que eles devem deixar ele dormir sossegado, tem trabalhado muito. O filho

mais velho não está convencido. Está emburrado e murmura que o pai não está ajudando em nada com as caixas.

Estão de mudança. O menino anda de lá para cá com outras caixas e parece zangado, parece evitar o pai. Está evitando o pai. Não quer ouvir nada acerca

garantir as espécies da cadeia alimentar, de gestão da pesca ou dos recursos haliêuticos. Quer acabar logo com tudo aquilo e se mudar de uma vez para a casa nova no

sul. Pergunta para a mãe se o pai não vai ajudar com a mudança. Ela olha para o menino e olha para o marido adormecido no sofá com o notebook no colo e pensa o

quanto é bom ter esses dois homens por perto, ter por perto essas duas espécies de conforto, mas se eles nunca ficarem em paz tampouco ela terá paz e pensa por que é

tão difícil.

Quando estavam sozinhos, a enfermeira e o pescador, era tão bom quando isso acontecia. Ela o acordava lentamente e as luzes da sala esmaeciam: a última

vez anteontem - ele sentado ressonando primeiro depois meio que dizendo tentando dizer alguma coisa que logo se revelaria irrelevante. Depois respirou fundo e disse

no meio da inspiração que isso era tão bom. Ela respondeu baixinho sussurrando que, sabe, podiam passar uns dias no sul, há quanto tempo não iam.

Ele sempre respondia não a essa pergunta porque estava tão bem, tfinalmente apaziguado e tão acomodado às noites eternas e sóis sem fim e também a

momentos como esse, sobretudo a momentos como esse – disse e segurou o rosto o rosto dela e perguntou se ela amanhã ia ao hospital.

Ela tem de ir. Eles têm de arrumar as coisas. Estão de mudança. O novo emprego dele é de suma importância para o país e para familias como as deles.

Fiskeriforvaltningens em nome do futuro. Precisam terminar de arrumar as coisas antes do jantar. Na sala não se ouvia outros sons além dos que eles faziam, como
esse estalo sutil do braço da poltrona. Naquela noite dormiram cedo no colchão puro que só então descobriam que estava com a capa de proteção toda manchada. Ela

nunca se recuperará da infecção da garganta causada por um vento encanado entre as folhas da janela que o filho fechou com os lados invertidos, naquela noite.

O estalo foi quando ele se levantou. Ficou olhando para ela e para si mesmo sem acreditar. Estava muito frio e ele só entendeu que ela não vinha mais e

emergiu do mundo onde estava e se endireitou ao ouvir a voz da filhinha crescendo enquanto os passos da mulher diminuíam dizendo que o irmão não queria ajudá-la

a arrumar a cama. O pescador perguntou onde ele estava. Der ute, disse a menininha.

O vento seguia soprando monótono entre as montanhas, monótono e sombrio, gelado. Ele adormeceu novamente por uma fração de segundo devolvendo a

esposa e as crianças para o limbo.

O rapaz está muito doente, o filho do pescador. Ela chorou quando ele contou a respeito da mágoa que tinha do pai, como implicava com ele como quando

estavam se mudando para o sul. Naquele dia, ele perguntou para a mãe se papai não ia ajudá-los com as coisas e ficou ainda com mais raiva porque ela em vez de

brigar com o marido pelo contrário chegou perto dele e ficou toda carinhosa e o filho deduziu sem precisar imaginar muito o que eles andavam fazendo no sofá

justamente onde o menino gostava de ficar vendo TV ou jogando ao longo das madrugadas, justo aí, que nojo. A menina disse em resposta que entendia, que sabia

como ele se sentia e passou a lembrar da raiva que tinha da mãe quando ela praticamente se livrou dela, a filha, deixando-a com o pai para que ele a levasse para o

exterior, pois a mãe estava cansada, cansada, e não jamais daria mesmo boa mãe. No fim foi até bom. A menina nem se imagina crescendo num lugar em que tivesse

receio de sair de madrugada e não fosse essencialmente silencioso.

Quando voltou ao Brasil para passar as férias com a mãe, na noite em que descobriu sua vocação para o amor, descobriu também o quanto deveria ser

acompanhada pela dor e sempre renovada pela memória, não nos novos momentos de dor, que se bastam, e sim nos de felicidade, por contraste. O homem com quem

estava, um engenheiro que morava em Cosme de Farias, que viajara com ela e convidou-a para o súbito desvio, levantou-se da cama antes da consumação de seu

prazer, depois de atender no celular a ligação de casa, o que até aquele momento evitara. E a menina ali, satisfeita e atônita, olhando o corpo nu de um homem pela

primeira vez, ouviu-o perguntar o que tinha acontecido e depois, num pranto histérico que ela julgava não ser próprio de homens, dizer-se culpado porque não estava

lá, porque seu filhinho tinha sido assassinado e ele não estava lá, dezessete anos, dezessete anos, seu único filho, porque não estava em casa, porque nunca estava em

casa. Ele dissera a mesma coisa quando subiam de carro a ladeira mas então não chorava, antes parecia feliz com uma boa escolha que fizera. “-Eu moro neste bairro”,

dissera ele. “Mas quase nunca estou por aqui e, quando estou, é sempre em meu recanto, no lugar que você vai conhecer”.

Era um lugar estranho, ela lembra. Até então o mais longe de casa que tinha ido era Oslo e mesmo assim com o pai, tudo sempre com o pai. Ao andar pelas

ruas da capital fingia não perceber os olhares e não ouvir, preocupada que o homem percebesse e ouvisse e quisesse brigar.

– Du kom tilbake til Meg – ouviu uma voz no centro antigo, perto do castelo. – Não é um castelo como os castelos que você visitou na Itália – explicara o pai. –

É só um palácio administrativo, digamos assim. – Mas é bem bonito – dissera a menina ouvindo uma outra voz: – Sexy dame!...

Passando pelos restaurantes da galeria ela sorriu discretamente. – Skal vi ta noe å drikke sammen?

– Reparou filha como tudo é ao mesmo tempo super moderno mas também simples e funcional?

Vakre Angel!

Era agosto e estava fazendo mais de vinte graus. Pegaram o bondinho elétrico e passaram em casa, do lado da faculdade. – Ah pai vamos sair de novo? É o

meu primeiro verão depois da festa de debutante.

- Vil du ha litt kjærlighet i kveld? – ouvirá ela mais tarde na região do pub. - Ah vamos entrar um pouco – dissera ela. – Melhor não – respondeu o pai.
Dois meses depois ali estava, não ali, mas na casa da mãe; não na casa da mãe, mas subindo a ladeira de Cosme de Farias com o engenheiro. – Recanto? – a

menina riu, embaraçada. Tampouco escutando vozes na rua e sequer num pub. Só a do pai do garoto morto. Então isso é o amor, pensava vendo o engenheiro nu ao

telefone, chorando.

– Não chore - disse ela - Vai ficar tudo bem...

Ele a olhou como se nunca a tivesse visto. Deitou em seu colo da menina e depois de alguns minutos parou de soluçar.

***

O homem desembarcou na França em uma tarde branca e calma de abril. Era uma primavera chuvosa e o termômetro do moderno terminal portuário

marcava onze graus. Viajava com a filha francesa de um pescador portugues que trabalhava havia uma década no mar da Normandia, uma mulher exuberante

chamada Josephine. Tinham se conhecido numa tasca no alto de Lisboa onde voltaram um mês depois para comemorar Maastricht. Nada mais iria separá-los. Ela

tentou comprar uma casa na região de São Martinho do Porto mas o proprietário insistiu num contrato de aluguel e agora sequer iria renová-lo. Ela disse que não

importava, que achariam outro lugar, que seriam felizes.

Josephine crescera apegada à idéia romântica de felicidade junto a um homem embora nunca tivesse aberto mão de uma participação agressiva no mercado

de ações, o que afastava a muitos; mas só afastava os que tinha de afastar, os que a amassem superariam essa dificuldade. Ela não achava que perdia o encanto por

viver em ambientes masculinos tanto em casa quanto na bolsa, pelo contrário, e havia provado sua teoria conquistando esse pescador de ombros largos que ainda por

cima era também um intelectual. Agora ele e o pai falariam por horas sobre financiamento de barcos e marés e período sazonal e ela estaria pronta para quando

voltassem ao hotel, para o tempo de descanso em que nunca descansava e tudo conseguia.

Uma vez na costa norueguesa, disse o pai ao namorado da filha, o faroleiro de Bremstein me contou que a tripulação de uma balsa viu ao longe uma imensa

criatura flutuando a oeste da ilha de Ylvingen. Era um tubarão de vinte e cinco toneladas. Levaram a criatura para terra. Não puderam estimar o tamanho na hora

devido à escuridão. O homem disse que pelo jeito parecia um tubarão-frade. São inofensivos, disse. Conhecera no ano anterior um surfista que foi atacado por um,

mas era um tubarão-tigre. O surfista contou que chutou o bicho e conseguiu fugir. Levou quarenta e dois pontos. O pai derramou mais champanhe na taça do homem

e disse que no oceano o humano é o intruso.

Josephine ainda não voltara. Disse para o homem ir na frente que o pai estava esperando e ela tinha de passar na casa de uma amiga. Pouco depois o negro

entrou no barco Uma camisa azul berrante aberta no peito e um olhar terno e aterrorizante. Lá fora os guindastes e escavadeiras como monstros pré-históricos. Os

filhos dele estão no campo de refugiados. Não estão passando fome mas quase isso. - Je paierai – disse o negro.

Do outro lado é Londres. Os africanos ficavam ali o tempo todo tentando atravessar de barco. Uns conseguem e outros não, é a vida. – Je paierai – repetiu

ele. Ela abriu a perna direita até o encosto do assento e o puxou para si pela gola. O presidente do conselho regional falava no rádio. O governo britânico deve acelerar

o processo de transferência para o Reino Unido. Trata-se de uma questão de humanidade. O vento balançava o barco. As gaivotas bicavam a espuma.
A menina caminhou pelo corredor e parou diante da porta de madeira manchada com almofadas quadradas de moldura fina. Bateu e os nós dos dedos lhe

passaram o velho sentimento orgulhoso de uma força que ela não tinha e a luz da casa entrou em seus olhos juntamente com o rosto de sua mãe e o rosto e a luz

sumiram igualmente em simultâneo e a menina apertou os olhos e balançou a cabeça como quem diz o que foi isso? O sol se punha e as sombras bruxuleavam no pátio

conforme as pessoas passavam. No prédio, a filha tornou a bater três vezes e outras três. Os olhos azuis arregalados sem acreditar. A arandela dourada pulsando e

definindo seu rosto. O hall avança contra ela trêmulo de vozes que se erguiam umas sobre as outras. Ela e o amante da mãe que agora vive com ela pararam um

diante do outro onde a porta de um outro apartamento entreaberta lança um triângulo luminoso que se expande até as unhas pintadas de vermelho vivo nas sandálias.

– Você realmente não presta! Você não vale o que come – diz ela baixinho e ele sorri, irônico sussurrando – Mas você bem que estava gostando.

Ele diz alguma coisa que ela pensa ter entendido mas não tem certeza e não tem ânimo de perguntar então simplesmente se afasta na direção das escadas e

começa a subir e quando olhar para trás verá do alto que o pai de sua criança abortada chega ao edifício pela entrada dos fundos e respirará profundanente quase

desfalecendo e balançando sempre a cabeça. O rosto bronzeado. A musculatura expressando perplexidade. O supercílio corrugado e o depressor da boca contraído. A

menina vê a mãe passar com as mãos ocupadas com o cinto do robe e o rosto anguloso como pedras jogadas contra o amante parado olhando para as costas da menina

que se afastavam. Naquele momento quaisquer ações ou palavras estavam fadadas a excitar ainda mais a hipersensibilidade generalizada e o que não fosse descoberto

seria suposto sem que ainda assim ninguém chegasse sequer perto da verdade.

Ereto na cadeira exceto pela inclinação do pescoço e ouvindo o ventilador recém-saído da estante onde ficam as coisas em desuso, a três metros mais ou

menos do sol da tarde à janela do nono andar, o homem leu a epígrafe entremeada de inspirações profundas que sem sucesso tentavam controlar a ansiedade. A frase

tirada de um romance muito antigo que se ele escrevesse textos próprios bem poderia ter escrito dizia que se pode viver em meio ao sofrimento mais intensamente do

que se vive no conforto mas não se pode viver na lembrança de momentos felizes que são lembranças de tempos que não voltam. Josephine naquela mesma noite nua

no quarto ao lado. Estirada meio de lado como uma lutadora de wrestling só com a calcinha de seda finalmente vencida cheirando a um suor não seu. Ele não disse

nada. Continuou. Desceu pela linha do abdômen. No caminho desviou o olhar e viu que a mesinha de cabeceira era baixa e forte o bastante para uma pessoa se sentar

e a cômoda da altura de uma mulher curvada. Soube então exatamente onde estava. O ar frio provocava um tremor sutil na nudez e talvez provocasse arrepios.

Inspirou inteiro um daqueles sorvos tipicos de quando trabalhava e a tradução estacava em expressões dúbias como os gatos ao hesitarem fingem cheirar o chão ou o

que seja que lhes esteja diante.

Ouvindo a chuva na noite primaveril como a respiração de um animal agonizante depois de passar o braço derrubando livro e relógio e celular, o homem

sentou na mesinha de cabeceira enrolando a seda como se fosse a de um baseado poderoso. As lâmpadas da rua e as luzinhas ao redor impunham pequeninos fachos

azuis e vermelhos à pele pálida de Josephine. – Sim você está certo – disse ela. – Eu mereço. – Não fale mais – disse ele. Senta.

Ele permaneceu protegido no escuro pela largura e altura do corpo exuberante. Era como se o corpo o protegesse como o anonimato protege e a solidão e a

humildade. Ela via com clareza desconhecida e fluida circunvagando um centro imaginário e havia peixes em seu corpo naturalmente inquietos mas serenos como ela

própria suspensa e fraca talvez com medo e sentindo-se impura mas fazia parte da fantasia e ela não via que para ele não. Olhava-a duro e distante. Descalça sobre os

papéis lembrou a mãe falando sobre o significado dos sonhos, papéis rasgados é sorte, e lembrou o pai rasgando uma folha antes de se sair para o mar. Ouviu bem

perto da janela sobre a cômoda que a chuva parara. Pensou nas crianças refugiadas. Em areia suja e naufrágios, em corpos. – S'il vous plaît oubliez l'argent – dissera

ao africano. As mãos do homem são firmes. Não se parecem em nada com o olhar que ela contemplava no espelho pairando sobre todas as luzezinhas e os sutis e

gritantes tons róseos. – Do you want some “joint” – perguntou ela. – You will feel better.

- Eu disse para você não falar-

- Está falando sério? – disse ela e ouviu-se o estalo e as nádegas tremeram e o silêncio se fez. Como se não houvesse chuva ou vento e a música não tivesse

parado mas tocasse de outra dimensão e soasse como se a qualquer segundo fosse silenciar com a a interjeição iradao, Ora, quem você pensa que é? e respondeu para
si mesma: o que no começo eu esperava e até agora há pouco edperava ainda sem mais esperança. Ela sentou e levantou uma duas vezes e na quarta o alívio de nao ser

capaz de pensar.

Diante das migrações dos pescadores europeus e da expressão dúbia, o hom pensou se pelo menos o pai de Josephine alternasse como ela o português e o

francês seria mais fácil traduzir “chaque pêcheur a sa propre théorie”. Levantou e levantou os braços e o indicador da mão direita segurou o da esquerda e alongando

ele desabafou. Oh Deus se eu continuar lembrando essa mulher não trabalho mais na vida. Mas pelo menos consolou-se porque “approche culturelle des communautés

de pêcheurs traditionnels” ficará bem como subtítulo. Josephine sorria lna foto ao lado da tela do computador

Caminhava pelas montanhas quando aconteceu. Ficou sem ar e não lhe ocorreu qualquer palavra para ao nomear o súbito sofrimento retirar-lhe o poder

com que o sufocava. Não ia morrer e isso era o trágico. Sequer lembrava o que é “morrer”. Os cumes brancos gelados ou as paredes de rochedo ou o barulho das

águas – nada lhe dizia coisa alguma. Não esquecera apenas quem era mas o que ele era. A idéia de um ser criado por Deus teria sido esdrúxula porém não a de um

Deus criador e tampouco o amor de Deus – amor tinha significado. Os pesados úmidos abetos eram amor. O caminho que descia pelo qual dias atrás subira. A

respiração ruidosa e ofegante. O desequilíbrio dos humores e a cura desse desequilíbrio que nunca porém se cristalizava.

Terminara o verão e estavam entrando no outono. Era levado a cada passo, não havia uma vontade anterior. Do final de outubro até o início de fevereiro do

ano seguinte os dias seriam escuros; mas era ainda um exuberante dia ensolarado então não é o caso de justificar com a escuridão exterior a melancolia mórbida e

tanto medo. A luz não iluminava, ofuscava; a canção do vento não vinha da vegetação mas do abismo oculto. Tão zeloso das florestas e das águas ele sucumbia a um

outro arranjo demoníaco. Respirava fundo para conter o mal. Arregalava os olhos. Toda sensação agradável abrigava uma dor latente. Tão súbito quanto sua falta, o

ar encheu-lhe os pulmões quando lembrou dos remédios pois seriam o desejado veneno quando a enfermeira partisse. Então era isso, a doença da mulher, pensou.

Não, não era.

Na pétrea inclinação de mais de setenta graus estava a meio caminho entre o pico da montanha e suas faldas molhadas mas não havia allemannsretten que

pudesse livrá-lo do demônio do sono e assim lembrou-se dos dias bons ao se deitar na relva pegada à pedra, num desnível, para não correr o risco de dormir.

Sua mãe era da Lapônia, mulher de rosto redondo que não fazia diferença entre não saber onde pusera o alicate de unha e a repentina morte de uma grande

amiga. Seu pai costumava dizer que o pai dele chegara à Sibéria pela rota migratória do norte e parecia sempre afetado pelo enfraquecimento do sinal da aurora ou o

espalhamento das neblinas. A visibilidade do mundo para eles era quase nenhuma em certos dias; certos dias era melhor para eles não ter nascido. Orgulhavam-se da

luz de suas terras, uma luz de que raramente desfrutavam. Mas o filho deles, um pescador norueguês, não inveja o sol e calor de outros mundos; prefere o infindo mar

que faz a terra mais firme. As tempestades iluminam as bonanças. Da antiga galhada da rena é feito o lustre da sala de sua casa. Erguendo a cabeça percebeu as

pedrinhas que rolavam pela encosta. Esse não era ele. Ele era outra pessoa, com a qual ele não convivia mais.

Levantou-se e o sol iluminava e aquecia o seu rosto vincado entre as sobrancelhas. O azul do fiorde atrás de si puxa para o turquesa. Levantou espanando da

blusa o que parecia ser cristais de gelo agarrados a vestígios de relva. Vira a cidade lá de cima e cumprira assim o que se prometera presentear antes que a noite se

estabelecesse. Agora ventava mas o zumbido nascia em seus ouvidos. A noite não podia alcançá-lo ali. Ou talvez sim. Quem sabe melhor. Quando se virou viu o azul

claro e escuro sinuoso e cintilante acima e abaixo do cinza e do branco e pensou não: tenho de seguir e viver. O sol descansando no azul lá em cima avermelhava a

neve mas ele viu uma avalanche suja despejar-se na entrada de mar. Ouve vozes, vozes humanas que soam apenas para ele. A fumaça gelada sobe do outro lado em

seus olhos mas na verdade tudo está calmo e seguro, no fundo ele sabe; mas é tão real. Quem sabe um presságio. O tremor não é da pedra mas a própria indescritível

fraqueza. As vezes se confundem. Deu outro passo, um pouco menos temeroso. Vira o pai por último havia uns dois meses. Tão velhinho. Era um lugar como essa

floresta onde estava plantada a casinha vermelha. Quase viu a casinha vermelha. A vida aconchegante. Ppescando no jardim de casa. Tudo tão luminoso e fácil.
O carro fez a curva a oeste e o pescador tossiu e lacrimejou e olhando à esquerda vislumbrou dois tratores parados diante da casa amarela que logo ficou

para trás. Sintonizou o blues no rádio e cantou junto. Cinco minutos depois estava na balsa encostado no corrimão e comendo um sanduíche de salmão defumado com

ovo. Os cabelos ao vento. A jaqueta surrada verde-oliva. O cheiro de sal. O fundo da embarcação batendo na água. Entrou no vilarejo. O fio de água corria da

montanha. A casa branca devolveu o ar a seus pulmões.

Eles não têm muito tempo, sabe disso. Dirigira de um ponto para os lados de Tromso uns cinquenta minutos. Os pneus trepidavam e rangiam sobre o

cascalho quase branco com toques luminosos. A grama está verde de novo. Passou a manhã toda na fazenda do cozinheiro sami. Razões para simplesmente estar ali e

ser feliz - um amor como o seu e um amigo assim. Sentiu inveja ao entrar. As galinhas ciscavam em seu ritmo à direita e à esquerda e as ovelhas baliam como se

sentissem o cheiro do pastor. Uma mulher saudável escovando o cavalo negro. Sorridentes crianças livres sabem que o pai está perto e estará. O pescador perguntou

há quanto tempo o amigo deixara o barco para se dedicar à fazenda. – “Nesten ett år siden”

Conversaram sobre leis e indústria, sobre dinheiro e o futuro. Um sabia as preocupações do outro mas sobre isso não falavam. Doença, morte; a

transitoriedade da vida. Nem precisavam. O lapão falou para ele levar um pouco de salsicha. Garantiu que era mais saudável assim. Gordura vegetal e farinha de

pinheiro. Sugeriu receitas. O pescador esteve a ponto de se irritar com o amigo. Por que estava tao nervoso e desanimado? Tudo ficará bem, garante o lapão. O

silencio era pesado mas nao parecia discordar. Por outro lado, o pescador tem a mesma esperança e quer viver. Transmitir vida ao filho e partilhá-la com a esposa,

pelo tempo que for. Sentaram no degrau e ficaram olhando as montanhas. Deus é bom, a vida é boa. Não é possível viver aprisionado pelos demônios da apatia e do

medo, essas criaturas das trevas que transitam tranqüilas à luz do dia. Tinha visto a crianca wuando chegou; era a filhinha do amigo, que lhe sorriu. Passou pelo mais

velho e trocaram um olhar simpático. O rapazinho é agora um vulto sobre a pedra. Jjoga pedrinhas na água. Há um tal silêncio que o pescador só ouve o próprio

coração. Antes que o menino jogasse a pedrinha seguinte uma outra antecipou-se e ele reteve mão e olhou para trás e viu o pescador se aproximando. Tirou os fones.

O pescador se aproximou e ficaram uns minutos calados.

- Hvordan har du det? O rapaz respondeu que ia sentir falta das coisas do lugar. - Når reiser du?

Um pouco depois estava agachado e sentiu um calor específico junto à parte externa da coxa direita e ao olhar viu a ovelhinha apoiando a cabeça e pedindo

carinho. Havia um barco junto à cerca meio de lado e ao lado do celeiro onde o rebanho ficava no inverno. Era uma casa grande e marrom. O céu acima manchado de

um branco desmaiado e a névoa esmaecendo os montes ao redor. Quis ir embora, estava sempre em toda parte querendo ir embora. Ouviu vozes na casa onde

vendiam artesanato. Era em outra vida a nova vida do cozinheiro, estranhas atividades da terra firme. Talvez devesse se acostumar, para o caso de a paralisia não

passar. Em meio aos balidos ouviu-se um grito de voz masculina e um murmúrio feminino. - Jeg er her! - o pescador disse ao cozinheiro para ir ver o que a mulher

queria. Enquanto ele ia, voltou o silêncio de balidos.

Ao meio-dia estava no carro indo para casa. Fala sozinho. Canta. Terminou a latinha de cerveja e olhou para o vão da janela aberta do carro, abaixou a

cabeça e recolheu a mão. Pegou o bolo de cenoura e ficou olhando para a cobertura de queijo como se contemplasse o mistério do universo. Toda a vida passava

diante de seus olhos como a havia pouco a paisagem.

Entrou em casa. A filha o viu e sorriu e deu gritinho ao dizer pappa. Deu um pulo nos braços do pai. Que bom que ele tinha chegado, a menina disse. A

enfermeira, deitada no sofá, sorria para ele. O filho estava junto ao fogão de onde subia um cheiro de hidrogênio.

Não se sentia bem. As pernas tremiam e o ar faltava. A paisagem, que era o filme de sua vida, o enchia de terror. Talvez deva tomar o remédio. Caso mude o

seu temperamento, terá sido uma coisa boa. Começou inúmeros pensamentos que se perderam num limbo nada abstrato, uma cerração física, lugar sem ar e sem luz,

o único som é o da própria voz, que não se reconhece. A fuga da memória apavora nem tanto pelo esquecimento mas pela monstruosa dor que chega junto. O mundo

não existe mas ele sim. Essa areia escorrendo pela mão é uma ampulheta para a qual olha com um olhar enlouquecido. Precisa descansar, há quantos dias não

dorme? Em dado momento percebeu que havia no horizonte um novo tom róseo entremeado de um quase azul envolvendo a montanha. Há nuvens de luz falseando o
contorno da terra. Talvez tenha chovido. Talvez tenha nevado. Talvez não tenha acontecido nada pois só se passou um minuto e toda a crise tenha a ver com o nível de

serotonina. Chegará em casa e irá direto ao sofá onde a mulher está e dirá para os filhos darem uma volta. É um pecado não ser feliz na estação da luz.

Faz tempo está acordado mas permanece deitado e sequer move a cabeça. Não tem ânimo de sair para o mar e não tem a vontade que daria sentido ao sair

para o mar. A casa ficou deserta depois que a enfermeira morreu. Esse inverno sem fim; essa escuridão. O lamento do vento gelado sem contornos de folhagem ou

troncos que o embalem pousa como uma camada de gelo sobre a memória das coisas boas.

Nenhum vestígio de luz sequer a lâmpada insone do abajur que faz as letras da monografia maiores e mais nítidas mesmo quando ele não está de óculos.

Vulnerável está por demais vulnerável às harpas eólicas da vizinhança que ecoam em algum compartimento de sua alma e o quarto é um prolongamento da tundra.

Ouve os movimentos do gato como se ouvisse a si mesmo ancestral andando por uma nave viking procurando fantasmas com olhos grandes e oblíquos. Se ao menos

fosse triste como antes em sua solidão feita de atos reflexos e tranqüilos. Se ao menos fosse calmo como quando o assovio da lebre ártica era um aviso de dias bons e os

sons da noite estavam carregados de consoantes pacificas como a espuma das ondas. Veio do nada e para o nada voltará.

O homem abriu a janela e o cheiro da chuva entrou enquanto os clarões pintavam o contorno dos prédios. Faz um ano se deu conta dessa dor no quadril que,

na melhor das hipóteses, seria uma inflação no ciático e, na pior, o pesadelo de um tumor. Só não estava mais pessimista porque com um escambo aqui e outro ali

conseguira pelo menos um teto. Mas a época do calor e das chuvas o deixava infeliz e o pensamento da aposentadoria esbarrava na idade insuficiente e o benefício de

invalidez em sua saúde, o que tem mesmo muita graça. Fechou de novo a janela e saiu.

O asiático caolho gritou no cesto da gávea. O cargueiro finlandês "Arctic Blow", de propriedade da Alliance Navigation, com bandeira do Chipre e

tripulação russa, que zarpara de Kristiansand com destino a Haia, onde deveria chegar em 4 de abril, navegava a uma velocidade entre quinze e vinte nós com um

carregamento de três mil toneladas de madeira avaliada em um milhão e meio de dólares. Um cardume de skrei vindo do mar de Barrents passa junto à superfície

mexida rumo às zonas de desova qual uma única criatura, harmônica e acéfala. A corda com a âncora tem uma bóia na outra ponta e assim o barco do pescador

norueguês avança dois mil metros. O barco fez uma curva arrojada batido por ondas apenas enormes onde há dois dias havia vagalhões. O gajeiro no mastaréu não

tirava os binóculos dos olhos e o comandante entendeu que ele falara sozinho como de costume, discute consigo mesmo, que figura.

Os homens lançaram a rede. Blocos de gelo raspavam a lateral do Aaliyah. Os pés do pescador nas botas sentiam o pulsar da maré sob o casco. As luzes do

farol ricocheteiam na superfície escura. Tantas vezes dissera que não voltaria, se estabeleceria em terra, mas sempre voltava, nômade como aqueles peixes.

Quando o sino da igreja soava a hora cheia, ela sa[ia de seus pensamentos viciados e se levantava e saia para a rua n’ao importa o que deva acontecer ou se

algo ir[a acontecer. Entrar na biblioteca foi a op;’ao da da v[espera de um feriado que caia na quinta. Quatro dias sem aula eram quatro dias vazios. Tinha ficado com

a caixa de costuras da m’ae quando morreu mas de nada serviam essas horas porque nao eram absolutamente prendada. Quando o cirurgi’ao apresentou-a aa mae e

sim como futura nora, ela ouviu o sino sem se mexer. Talvez ela sequer fosse uma m[edica promissora, talvez se sentisse melhor escrevndo, uma literata que se

tornasse antes serena e misericordiosa com seu trabalho.


Quando o homem era adolescente, s[o comprava Lps que trouxessem um encarte com as letras e ouvia as musicas de madrugada com um dicion[ario. -

agora, que conhece o texto, acha poss[ivel…

No dia mais quente do ano embora estivesse longe o verão, a moça bateu na porta do homem mais ou menos na hora do almoço. Agora ela conhecia dele mais

que a resistente virilidade. Deixei a menina na escola mas nao vou buscar. Você vai. Para levar ela contigo. Tudo bem. Parece que voce conseguiu. Sempre acreditei

que conseguiria. Passe de noite. Em um mes ela nem vai mais lembrar que eu existo. Ela nem precisará lembrar, pensou o homem. Seu fôlego está dentro dela. Seu

fôlego e seus músculos. A febre de seu sangue. O interrogatório sobre a médica foi delicado, sutil. Ainda estah com ela? Me esqueceu? Tanto ela quanto ele e as

perguntas e respostas apontavam na direcao da cama que ela nao conhecia e ele conhecia demais porque o ciático estava piorando e nao podia mais se exercitar.

Correr nem pensar e bicicleta não tinha e nadar nao tinha onde. - Ela nao pode te comprar uma? Nao pode te levar ao clube dos medicos? Ele a olhou de modo que

ela teve certeza que iria receber um tapa mas segundos depois estavam se beijando e se beijando ardentemente e chegou a hora do almoço e passou a hora do almoço.

No fim ela repetiu. Passe lá de noite.

Foi uma eternidade olhando cabisbaixo para o mar bravio esfarrapando-se em cristas de espuma que explodiam no recife onde seus pés estavam grudados

como garras de um pássaro do mar nidificando sozinho na pedra contra toda expectativa. A menina acenou do barco dizendo com movimentos labiais que o amava,

volta para casa, dizia. Ele continuava olhando as ondas ricochetearem perto do polder mas podia vê-la com um olhar adequado de pombo e imaginou. Primeiro ela no

molhe acenando para o prscador e depois sobre o rochedo pedindo ajuda e o pai naturalmente disse para ela subir a bordo e empurrou a tabua que depois de hesitar

aderiu enfim aa pedra. O pescador nao fez perguntas mas ela a todas respondeu contando que tiveram uma discussao na praia e o filho mergulhou na agua gelada

subindo a srguir num nado sem movimentos alem dos sutis impulsos dos pes e das coxas, os bracos colados ao corpo.

Nao era tudo. Tambem as montanhas iluminavam o renque de arvores que ladeava a estrada sinuosa e sem fim e a vida recebera uma nova chance depois da

crise de uma dor que parecia interminavel como a estrada. Essas flores amarelas. O mundo renascido. Mas estava se tornando algo preocupante a frequencia das

brigas. Tudo bem que nao eram por assim dizer causadas por nada grave e alem disso o contato fisico ganhava um toque de novidade que na rotina de paz nao havia.

Ainda assim a volta ficava cada vez mais dificil.

O filho do pescador emergira e agarrou o bordo direito próximo ao nome da irmã no momento exato em que a traineira passou atrás do barco de seu pai

mas nao conseguiu subir porque a menina com a sola nua na cabeça dele empurrou-o de volta, rindo, e ele caiu de costas explodindo na água em gotas de arrasto em

tons de verde. Depois ela tirou o vestido por cima e mergulhou passando pelo corpo embolado do marido e voltando aa superficie uma fracao de srgundo antes e o

rsperando nrsse atimo armada do inquestionavel argunenento de um beijo molhado e ardente.

Na manha fria de uma terca feira a medica decidiu escrever uma carta para o homem uma vez que no inicio frequentes as dele rareavam cada vez mais.

Encostou os cotovelos sobre a escrivaninha e apoiou a testa no meio das palmas de suas maos. Devo lembralo talvez da primeira noite. Nao como uma referencia

romantica mas pelo pacto implicito nas descobertas. O quanto as afinidades importam mais que a paixao. Entemde? Mas ao ler ele estava antes preocupado em

discernir como a mae de sua filha diferenciava letra de mulher. Quanto aa noite, quando lembrasse, seria para constatar que todas as virtudes dessa outra mulher que

por uma vircunstancia doutorou-se em psiquiatria estavam condenadas ao esquecimento quamdo o habito de suas presencas mutuas de cristalixasse. Percebeu que

estava sentado na margem do fiode e nao podia se lembrar quando chegara ali e era um branco tao assustador que olhou em volta para se certificar que nao tinha

sonhado e realmente nao tinha mas quando da segunda comsulta naquele mrsmo mes estava dando entrada no passaporte e no mes sehuinte o pescador o hospedava.

Mas entao voce nao me amava, dirah ela num email. So se destroi a quem se ama ou pelo menos a quem se deseja mas se nao te amo, respondeu ele quando falaram

por telefone, pelo menos sim Deus seja por testemunha eu te desejo e desejo tanto que chega a doer quando lembro de voce, doutora. E esse principio, se verdadeiro

vale tambem para voce, porque nao estou destruido. Conhecer voce remiu a minha vida.
Ela releu a primeira frase. Respirou fundo. Como ele tinha sido meigo. Como ingenuo e jovem. Timido como ela nao mais serah. Antes perguntou se ela

tinha fome e depois de saciala foi buscar uma sopa quente que levou numa bandeja de prata fria sobre o fino lencol cobrindo as coxas na regiao onde ela precisava

alargar o jaleco e onde minutos antes se fizera o caminho da lingua desde as pontas retorcidas dos feixes de pelos a pairar escuras sobre ninfas intumecidas. E diante

uma da outra no odor de cafe e caramelo a lingua do homem desviou pela dobra e comunicou ao dedo confiante privilegiadas informacoes. A boca da médica consiste

de lábios superiores muito vermelhos em borda com contornos de arco e o sulco dorsolateral da língua é um fosso de fluxo contínuo. Passava o batom do centro para

as extremidades e ganhava volume com corretivo no cupido. Quando inclinaram as cabeças em direções opostas tudo pareciam consumado mas, escrevendo as coisas

na carta lembrou que os olhos fixos à sua frente continham ainda um quê de indecisão. Ele praticamente fez o que fizera no consultório: chegou à janela. Eu poderia

morrer nesse lugar; mais não agora.

As roupas dela estavam, na cadeira exceto a lingerie. As chaves no bolso do jeans pendurado na guarda ponto de cair. Dentro do quadro a cama arrumada

assim permanecerá. O homem se aproxima da estante e olha ou parece que olha algumas lombadas . - O que foi? É ela de novo? - É você - disse ele. Sentada entre as

prateleiras mais altas de mogno, ela escutava Billie. “Lembra-se da música qwue tocava? - perguntará na carta. Na manhã de uma terça-feira de grande amplitude

térmica em que a tempratura chegou a 34 graus, ela escrevendo evocou o primeiro dia de um passado comum. Uma semana depois, quando ele lia, pode-se dizer que

o verão havia começado. Estava sentado no degrau da escada do prédio. É uma boa mulher, não poderia esperar um consolo melhor para as tribulações do fim de sua

vida. Mas aqui e ali como a luz de um farol as lembranças da mulher da praça que logo, consequentemente, viriam com as da menina.

Todas as vezes que ela acordava no meio da noite era certo escutar os passos do homem no outro quarto ou o barulho de louca na cozinha ou o barulho de

louca na cozinha ou o choro insuportavelmente alto da criança. Um homem bom decerto o melhor que ela podia ter encontrado para pai de sua filha se tivesse

realnwnte desejado ser mae. Uma menina adoravel mas em que momento a adorou exceto quando saiu ao que deveria ser luz e todavia era treva ainda que bem

disfarcada no intervalo de onda a que os olhos sao susceptiveis - exceto quando saiu e mesmo menina e tao menina ensinou que alivio eh felicidade e o maximo que a

felicidade chega a ser. A unica epoca em que a moca pensou difwrente era ainda solteira e ainda nao era mae. Quando passava as tardes sob o jequitiba-rosa do

campus que se distonguia das demais arvores pela grossura do tronco e pelo amarelo das florezinhas nos comecos de verao. O deparyamento de biociencias havia dado

ao progessor Jacob a oncumbencia de formar um grupo de bons alunos para que identificassem as arvores da universidade para que fossem provifenciadas as placas

ondicativas em totem e foi ali que sr cpnheceram quando ela sofria bulling por ser do deparyanento de tecnologia e ele tepreendeu seus alunos e a cpnsolou por meses

ate o dia em que faltou ao encontro em que deveriam fugir e foi o fim das ilusoes romanticas da programadora e talvez o comeco de uma outra ilusao e cpnforto

quando depois de ir de metrp em metrp pegou afinal um pnibus azul e cansada se sentou no largo e ali desligou a chamada com desculpas esfarrapadas e pensou que

isso era o de menos o problema real eh que yeria de passar a noiye sozinha a primeira desde que se sentou junto ao jequitiba entao pensou esse velho ainda parece

inteiro o bastante.

Ano após ano. Mas não há calendário que registre com fidelidade. Sequer as infiltrações nas paredes ou o mato. Trata-se de outra coisa. Do homem

entrando no consultório de uma outra médica porque a primeira se declarara impedida ou qualquer coisa assim. Até porque não há infiltrações. A médica acabou de

fazer reformas, justamente porque sentiu-se impedida e portanto livre. E não há mato porque é um apartamento e não há nem um mísero vasinho. Estão sentados na

varanda. Ele respira fundo e olha para os olhos dela. - - Não sei quantas versões serão necessárias até a versão final. Nem imagino de quanta ajuda . A compreensão

exata do norueguês no caso de um autor que já faleceu não é simples para dizer o mínimo. Não há espaço para nada além da precisão. Se vai ser usada como

referência para uma outra obra, ainda mais. No fundo há infinitos subtextos no texto e todos essenciais. É necessaria uma pesquisa de mercado ainda que não se deva

para fins médicos se orientar por ela. O que quero dizer é que tudo ficaria mais simples e também mais preciso se você mesma fizesse a pesquisa que está procurando.

Mal escutava as próprias palavras. Por que a mulher não admitia os maltratos? Claro que se prpeocupava, era a mãe de sua filha. E quando eles voltarem

ele e a menina para a Noruega, o que vai ser? Continuará sofrendo essa violência, calada? O homem tem ojeriza de intelectuais. Vivem uma outra vida e nesta, a real,

são como que intrusos, de um modo ou de outro desajustados. Começou a chover e a medica disse "Vamos entrar".
Lá dentro conversaram de um modo que não parecia possível. Pela primeira vez ela falou como quem pede conselhos e para ele isso pareceu o mais natural e

sentiu-se capaz de ouvir. Confrontados com mundos em que a adversidade é a norma, vemos limites. Na verdade ela gostaria de abordar o assunto de uma forma

diferente . O que realmente a interessava era o personagem. E se você fosse lá? Se conversassem? Passasse um tempo com ele?

Assim de longe o que eu vejo é que a vida deles é muito difícil mas nada comparável com, por exemplo, a dificuldade de tua vida. Indigna, desumana. Pior do

que a guerra, por exemplo, porque não há um contexto de guerra que dá contornos de horror à realidade a que, na paz, quase nos acostumamos. Tudo isso ele, o

personagem-pescador, me ensinou porque existe um reflexo dele em você, ou seja, em minha vida.

Ele ouvira falar muito dos fiordes de Svalbard desde muito menino e sempre sonhou em ir para lá. A capital tem pouco mais de 2000 habitantes e é a cidade

mais setentrional do planeta. O pescador chegou por aquelas bandas em setembro. Pegara em Oslo um vôo para Tromso, no Círculo Polar Ártico, e outro, de duas

horas, até Longyearbyen, na ilha de Spitsbergen, a maior do arquipélago. Queria a princípio passar as férias da faculdade mas encontrou um português que também

veio de férias e ficaram amigos e ele acabou ficando e a apologia da segurança e da paz e do silêncio feita por pessoas que acreditam em pessoas e pessoas, incluindo os

forasteiros (e forasteiros que justificam essa crença), tudo fez nascer a vontade de ficar mais tempo.

Foi convidado de João Manuel para uma pesca a bordo de um barco ruggedspeed. Eram ele e o português e mais um casal. Achou interessante mas não de

todo. Desejou não passatempos de ricos mas viver da pesca; não pegar um lumpfish para exibir a foto. E fez por onde. Começou como ajudante de cozinha. Amava

aquela gente. Tão diferentes das pessoas de Trondheim! Quem fala em sociedade multicultural no continente fala teoricamente. Isso aqui é a prática. Suecos e

tailandeses, portugueses e brasileiros, russos e alemães, gente de toda parte em harmonia. Mas um dia sem avisar a noite polar chegou e seus meses foram muito muito

longos.

Nesses dias teve então um primeiro contato com a questão do trabalho familiar de subsistência errando no sentido da larga escala. Chegou a conversar a

respeito com João Manuel mas interrompeu-se quando percebeu que para o outro a conversa não era nada além de um passatempo para a noite escura. Um dia – num

momento em que noutros lugares da terra devia ser dia – usufruindo do convênio da universidade de Bergem, na saída de uma aula ficou de papo com uma mulher

fornida de seus trinta e poucos anos perto dos alojamentos estudantis e súbito se viu presa de um pânico absurdo por uma razão absurda tão qualquer que pouco depois

não mais se lembrava mas da sensação não se esqueceria jamais: o ar faltando, o pranto irreprimível.

- Hva føler du? – perguntou ela. Ele não respondeu. Olhando-a na verdade sentiu que não sentia nada e era exatamente esse o problema.

Na semana em que saiu do restaurante por achar que não agüentaria um só dia a mais naquele lugar, acabou parando em um hotel em Barentsburg no qual

começou a trabalhar e no mesmo dia arrumou um lugarzinho aconchegante – se é lícito dizê-lo - onde passou a morar e eventualmente dormia com a russa. Certo

dia acordaram meio-dia em pleno breu, talvez um pouco mais silencioso – se igual é licito dizê-lo. Ele não costumava beber e havia bebido e estava um pouco confuso.

Na noite anterior tinham ido em um festival de música e se divertido muito e conforme ela ia falando as gavetas da memória iam se abrindo: uma espécie de mezanino

em uma espécie de pub com uma espécie de lareira. Ali montaram os instrumentos. A cantora se chamava Nastase e era prima de sua amante. Sentada num canto

ensaiava ou seja lá o que eram seus solfejos preparando o milagre, um concerto a quase oitenta graus latitude norte em plena noite escura da alma – para ele era isso,

um outro melancólico planeta percorrido de snowmobile. Ela contou a conversa estranha que ele tentou entabular sobre o inverno no ártico e a temperatura do corpo,

sobre o calor que sentia quando se esforçava um pouco mais em qualquer atividade física e tinha de arrancar as blusas e calças a mais que momentos depois farão

falta pois é claro voltava logo a sentir frio e muito frio.

O sistema educacional norueguês é projetado de modo a que o conceito de riqueza e assistência social atinjam todas as pessoas e todas as crianças tem acesso

num sentido de direito e também de dever. – Não quero ser grosseira – disse a menina para sua companheira de quarto – mas vendo os jovens daqui não dá para
imaginar que sejam os pilares dos resultados de uma educação perfeita. A interlocutora não se ofendeu até porque não era norueguesa mas brasileira também ainda

que estivesse em Tromso há mais de quatro anos. E pacientemente, partindo dos desempregados famintos de Cristiania, desenvolveu um raciocínio convincente sobre

como as coisas aconteceram e como efetivamente a educação mudou a vida do país em todos os sentidos e a própria obra de Knut Hamsum mostrava isso.

Com sete anos anos a menina entrou na fase dos jogos, que levou cerca de três anos. Era uma criança calada ou mais certo seria dizer tornou-se. Seus olhos

compensavam isso, sombrios e fulminantes. Não havia nota mas dois professores pensaram em sugerir um acompanhamento mais atento; conversando um com o

outro porém terminaram por não levar adiante. Como o pai não parava em casa por conta das entrevistas e suas traduções, deu o dinheiro para que a filha dividisse

um apartamento com roommates. De vez em quando ela não dormia no apartamento. Trabalhava primeiro num mercadinho depois na cadeia de fastfood. Nunca

faltava mas frequentemente chegava para trabalhar sonolenta e precisando de um banho.

Um senhor se aproximou e perguntou se ela estava com problemas de moradia e passou a contar sua história. Tinha se separado e deixara o apartamento

para a mulher e tanto um quanto o outro refizeram suas vidas e o apartamento estava vazio. Ela não chegou a dizer e talvez nem tenha pensado que, bem, não vai

tirar pedaço, parece um bom arranjo e combinou com as colegas para que nada mencionassem ao pai sobre as noites que ela passava fora.

Uma menina desenvolvida com quinze anos, uma moça, quase uma mulher, confessou para si mesma que amava aquele sistema de ensino onde por exemplo

uma aula de duas horas tem três pausas. Era praticamente o barnehage que ela não chegou a freqüentar mas nem por isso deixou de viver uma vida escolar cheia de

montanhas e florestas, esqui e bicicleta, museus e parques.

Pode-se assim dizer que foi um anjo travestido de demonio quem levou o pescador às bençãos definitivas de sua vida - ter conhecido a enfermeira, o filho

como companheiro de trabalho e sobretudo o trabalho em si, o dominio das tecnicas, a sabedoria da insegurança frente ao mar, a prudencia das cotas e a firmeza

como autoridade mantenedora de seu cumprimento. No dia quatro de de dezembro, quando o céu começou a azular anunciando a noite sem fim, tomando cerveja com

a russa num bar, depois de arriscarem uns passos de dança no centro de convivência, outro casal os convidou para a mesa deles, venham, disseram, tomemos a

saideria. Eram um um português e uma brasileira. A mulher uma jovem quase mulata que contava muitas histórias de seu intercambio e estudava os lagos das regioes

extremas e vivia com sono. Ou estava dormindo ou com sono ou falando muito excitada. Foiu ela quem mencionou que andavam aa procura de taifeiros em Berger. E

o pescador estivera um bom tempo tão perto. Acontece. Ele ficou fascinado com a possibilidade de trabalhar no Instituto Biológico e manter a vida andarilha mas com

uma boa renda e de quebra fazendo o bem.

Quis conhecer o planetário e o jardim botânico. Uma criança. Estavam parados grandes navios de cruzeiro que vinham justamente de Bergem. O tipo de

coisa da qual queria fugir. Estava feliz, aliviado. Não ia dar certo ficaqr com a russa nem mesmo por um período de tempo e ainda que curto. Estava livre. Tinha

trabalho. A companhia que opera as balsas nos fiordes desde a Dinamarca o contratou como watchstanding. Zarparam em março para Bergen.

Haveria uma conferencia para celebrar o sucesso de um acordo de pesca sustentável. Era como uma especulação imobiliária do bem e no mar. O mar ali

traiçoeiro. Um cargueiro cipriota afundara em 2007 naquela região. O comandante se lembrava, é claro; mas não se deve pensar nesse tipo de coisa depois de zarpar.

Mas sim se lembrava. Iam com mais de 500 toneladas de petróleo. Mas eu te digo: Não pense em naufrágio mas na tempestade. Nao pense na taifa mas em ter um

trabalho. Nao pense em amor, apenas ame. É filosofia barata mas muito eficiente. Literatura de terceira que faz do leitor comum uma pessoa melhor. Ou na pior das

hippteses mais feliz. O pescador agradeceu os conselhos e sorriu ao prometer por em pratica. Disseram adeus e se abracaram de novo. Depois o watchman desceu a

rampa e o comandante nunca mais o viu.

O pescador cumpria suas tarefas com dedicação e zelo e era observado com admiração e simpatia pelos superiores. Dormia pouco no camarote que dividia

com um neozelandez balofo que não chegava a ser uma companhia desagradável apesar de muito chato quase sempre pelas tiradas que costuma ter acerrca do

capitaao. O capitao era um sujeito agradável, polido, mas o pescador não conseguia gostar dele, porque era muito certinho e sempre com uma declaração correta e um

olhar de desdenhosa gentileza. O fato é que todos, cada qual à sua maneira, tinham-lhe respeito e admiração e alguns chegavam a prever seu sucesso mais que
profissional, com cargos oficiais; ele mesmo porém, só desejava uma coisa, a mesma de sempre: conhecer uma mulher a quem, antes de desejar, admirasse e com

quem se satisfizessem e apaziguassem; ter uma renda suficiente para viverem viajando.

A renda parecia garantida quando Phill o convidou para fazer parte da tripulação da Lacoste Drill. Phill era o nome do neozelandês. Ganhara algum

dinheiro na loteria e investira num barco espaçoso e prático, muito resistente. Não costumavam ir muito longe mar adentro mas até poderiam. Um dia foram.

Tardaram mais que as esperadas duas horas para ganhar o mar aberto. O sol tinha nascido às 04:00 e deveria estar com eles até as 23. A traineira ia que era uma

beleza, mal sentiam as correntes sob os pés. Era um dia ensolarado, frio, não muito. Além de Phil estavam com o pescador dois irmãos, um dos quais era o

comandante. Phil era o balofo típico, bonachão, simpático, sem estilo. Podia ser qualquer coisa que quisesse, dependendo do momento – jamais um comandante. Este

era um homem de trinta anos, impetuoso, no mar desde sempre. Chamava-se Peter. Talvez devesse se conter com o haxixe. Achava que ficava mais lúcido e o

raciocínio prático e eficiente quando estava sob efeito e talvez fosse isso mesmo. Mas naquele momento estava vendo mastros demais e quinas de mesa de menos.

Tinha ficado escuro muito depressa. Mal tinha amanhecido e o sol ia se por. Difícil saber o que é nuvem e onde o céu está limpo. Caem como que uma

garoa que não parece mais que um transbordamento da umidade trevosa do ar. Mais que uma embarcação, era um espírito que, exposto à treva e a umidade,

apodrecia. O casco divide o mar por onde passa mas é como tudo uma ilusão. O mar permanece. Essa batida da proa parece desintegrar a rota dos pássaros. Deus

deve ter se esquecido dessas pessoas, não há outra explicação. Escuro e cada vez mais e o respirar das ondas tornaram-se como pulmões prestes a gritar um clamor do

mais puro e espumante desespero. As botas derrapam na neve sobre a madeira e sibilam em compasso com o assobio do vento a canção de uma louca nereida. Mais

tarde saberão que o observatório contou... (etc)

Se alguém visse a médica naquele momento, compreenderia. Ela acariciava a pequenina estante e as lembranças assaltavam seu coração de modo visível,

com efeitos físicos. Tremores e arrepios. O mar distante. Intestinos. Ficava acariciando as lombadas e percebeu na letra do titulo de um Faulkner que só havia livros

em português e lembrou que ele nunca falava em outro idioma, nunca, mesmo quando uma situação exigia. – Era um menino bom – disse ela.

O pescador a olhou como a perguntar - Garoto?

Mas ela não precisou responder. Era um menino bom, ele passou a lembrar enquanto ela continuava passando os olhos dedos nos dedos, sem ciúme ele

lembrava do dia em que se conheceram e saíram lágrimas de seus olhos, embora sempre pensasse que não era bom para alguém se ligar muito a pessoas. Não

depender de relações para viver. Era justamente o contrario para o homem. A conversa entre os amigos sempre empacava quando chegava nesse ponto.

O caminho entre os portos e a beleza e a partidas e os reencontros. A imensa costa escandinava. Liberdade e subsistência. Nada disso combina com

melancolia e tristeza. Vamos combinar. A porta se abriu e o watchman entrou gritando interrompendo a divagação do pescador, que tinha ido levar o café para o

comandante Peter. Nao vamos escapar, disse o rapaz. Acho que as velas do motor estão molhadas. O outro tentou manter uma aparência de calma e disse: Usem o

telegrafo.

Henriques Alonso nasceu num vilarejo ao sul da Espanha e estudou para entrar na Marinha Marinha Mercante numa escola naval de Vitória e depois de

campanhas na Terranova e Groenlândia por uma grande empresa pesqueira espanhola decidiu escrever romances sobre o mar para aproveitar sua experiência de

quase vinte anos.

O País Basco está entre as duas mais importantes comunidades autônomas espanholas da pesca e da indústria de transformação de seus produtos. A cada

posto de trabalho no mar correspondem quatro outros e são mais de 2 500 em embarcações e cerca de 2 000 na indústria transformadora e 1 500 na comercialização.

A atividade se desenvolveu a partir da Pesquerías y Secaderos de Bacalao de España, situada em Pasaia (Pasajes, em espanhol) com um conceito de escfa industrial

que descobriu o desenvolvimento economico pela via da adaptação às mudanças tecnológicas mas sucumbiu na exploração predatória dos recursos marinhos.
Henriques Alonso ficou mal com tamanha estupidez e sua consciência do crime de que era cúmplice coincidiu com a época em que descobriu a traição da

mulher. Tornou-se assim nos anos 70 um ativista da causa de um mar sustentável em seus livros um dos quais ganhou um grande prêmio de literatura. A trama se

passava na Noruega no final dos anos dessa década. Mas não podia esquecer a infância no litoral basco quando ia como a mãe se despedir do pai com um barquinho

nas mãos qual o menino de George Haquette e tampouco o grande amor de sua vida, Maria, uma operária da empresa de conserva de Usurbil. E menos ainda apagar

a imagem dos naufrágios como o do Tifón e do Server. Portanto, quando o rapazinho entrou em seu camarote todo esbaforido ele gelou e passou esse filme em sua

mente qual as luzes do código. Três pontos, três traços, três pontos. Deus nos ajude.

Passou toda a tarde na biblioteca em que ressoava o que tanto podia ser o rugido do metro ou um trovão anunciando o recomeço da tempestade que tinha se

renovado ao longo de todo o dia cinza e chumbo. Escrever era vida possível, uma outra, e ele a ousava pensar assim, vida, embora não coincidisse com a realidade,

onde as criaturas sobrevivem sem posteridade e sequer a atenuante do regozijo. Quando chegou seu tempo o homem surpreendeu também e sobreviveu. Aí está ele. Os

ombros largos e ereto de pura teimosia pois nunca acreditou que o clichê da postura correspondesse a um elemento autêntico de saúde. Quando muito estética.

Parado diante do terminal consulta digitalmente o acervo. Pesca. Depressão. Noruega. Não há tanto material quanto pensou mas o pouco que há parece o bastante.

Imaginou que uma determinada atendente pudesse estar olhando e encheu o peito e endureceu o rosto, não por nada, por costume, não tinha pensamentos a sério

senão para a psiquiatra. Começou a repetir o número que indicava a localização nas estantes e caminhou assim, falando baixinho com uma voz que não reconhecia.

Hoje ele faz sessenta e três anos. A escuridão lá fora veio para seu aniversário. Shishosetsu. Se fosse um escritor. Alucinação e realidade a mesma coisa.

Então é isso. Vida. Ou literatura. Que depende tanto da tradução. Uma questão pessoal ou algo assim. Vida, é isso. Com essa idade, quem diria. Deixara um dia o

consultório com passo alegre insesnsato entre os carros. Dois dias depois entregará a chave do quartinho. Dois meses depois saberá que é pai outra vez. Um ano

depois trocará de apartamento e amor. Dois anos e meio depois passará na casa da mãe de sua filha para apanhar a menina e levá-la ao aeroporto. Sobreviverá. Como

os móveis de sua antiga casa e como se tivesse se desdobrado a partir da cama inerte que ficou para os novos moradores e na carne quente da médica que esperará

ansiosa sua volta e de bônus viverá na vida da menina a e no espírito que ela deitar sobre os móveis do apartamento na Noruega, quando estiver morando sozinha. Por

agora, o silencio inquieto no salão de leitura repercute em seu corpo ereto. As mesas menos ocupadas conforme chega as oito, hora de fechar. Os funcionários

prefeririam que bibliotecas não tivessem leitores que tirassem os livros do lugar pois era sexta e ninguém quer ficar recolocando depois da hora.

O ar em uma biblioteca circula como os próprios livros e vai em frente sabendo que voltará com cada um dos freqüentadores ue assim se renovará no dia

seguinte e no outro depois e assim sucessivamente, como as casas e os amores e as viagens – que tipo de relação existirá entre as pessoas que após as oito serão

desconhecidos na rua? Então ele estará erguendo a gola de uma blusa azul fina que hesitou em trazer. Pegará o metro em uma hora em que não estará mais cheio.

Meninos e meninas na noite do acaso que precederá um sábado qualquer até aquele sábado em que te conheci, meu amor. Mas pode demorar. Num extremo pode

nem chegar. Cco tinuam pois a fazer o que se espera que facan os meninos e as meninas. Os velhos com sorte podem quem sabe renascer e isso surpreendera a todos e

no caso do homem a ele mesmo. A rua esta rscura e deserta quando ele passa de volta um pouco mais cedo. Ela esta ali, a mae de sua filha, conversando com o antigo

amante no hall. O homem que devia se enfurecer respura fundo e vai para um hotel. De lah liga para a medica mas quando ela atende ele desliga.

Um ano pode nao ser uma medida arbitraria de tempo como todos pareciam cada qual aa sua maneira pensar. Abriga por exemplo as diferentes luzes das

estações induzindo diferentes modos de sentir e pensar. Pense nas chuvas de verão encurtando os dias ao exigir precauções desde o calcado e guarda-chuva aas rotas

para o trabalho e horários de saída da fabrica ou do escritório ou a espera do ciclo de relâmpagos caso você tenha um cachorro que tenha pavor do som dos trovões.

Ou, abandonando tais superfluidades, se voce esta na outra extremidade do mundo e o sol desaparece - o que é afinal uma noite? - e o elkhound está adoentado e você

correr sozinho na escuridao gelada para nao morrer, não haverá o tempo reservado à queixa e o tempo será portanto será alargado, mas haverá um preço. Estamos

portanto ampliando a idéia introduzindo no tempo latitudes e longitudes e diferentes animais e outros tipos de cor e a mais extrema delas que habita a ausencia de luz.

Ou ao contrário, quantas horas terão os dias em que o sol não se poe? e onde está a hora que foi perdida na mudança para o horário de verão?
A filha dos pastores direcionou as renas para o curral consciente de que o amigo siberiano do pai a observava e descansou na perspectiva de se casar com um

homem de verdade e nao com um desses lapoes efeminados que delegam tudo para as esposas e aos estrangeiros passam por bem-humorados ao assumirem que elas

sao as chefes da familia. Foi um sentimento profetico. Olhe o quanto.

Ela anda na maior parte do tempo nua com as mãos presas e os olhos vendados mas as roupas da família estão sempre muito limpas e bem dobradas e seu

pelmeni tem mais carne e o tempero que o marido adora afasta os lobos. Mas certa noite ela não demonstrou muito ânimo para brincadeiras e também na noite

seguinte e no outro dia amanheceu gripada e no final da semana apareceram erupções em sua pele muito branca e depois ela, que nunca reclamava, começou a

queixar-se de lombalgia e dor nos dedos e nevralgia no rosto tamanha que um dia disse que alguém colocara uma maldição sobre ela e quando se excitava assim seu

coração disparava e o pai do pescador não a conseguia controlar. Quando por fim foi diagnosticada a borreliose, estava fraca demais, era muito tarde. O siberiano

ficou com o coração partido e morreu também uma semana depois.

Agora o quarto do casal está vazio e o pescador rapazinho ainda frequentemente está ali, sorumbático. Acariciando a lombada dos livros, ouvindo a madeira

estalar; mas o silêncio, por longo que seja, será sempre em algum momento quebrado. Famílias estarão sempre de mudança vindas de Kittilä para se estabelecerem

num mundo com um número menor de estações, talvez apenas quatro, como aves migratórias.

Ou andando pelos corredores do prédio antigo no centro de São Paulo chegar à porta dos fundos e sair para a gráfica e captar a transitoriedade humana

como se tivesse o silêncio uma camada diversa quando imerso no frio de um ar condicionado cheirando a éter e os laços familiares parassem o tempo e também as

razões religiosas e claro as profissionais detivessem o homem que então morava num albergue naquela região e todos seus conhecidos tinham alguma relação com a

igreja mantenedora da casa de recuperação para drogas na qual recém ficara cerca de nove meses, uma gestação que transparece nos ladrilhos e em cada rosto por

que passa, lentamente, embora seja esperado antes das oito da manhã para uma reunião dos impressores de off-set quando será mandado para a empresa que

fábrica as máquinas e será um tempo bom, esse do curso e ajudará quando o homem necessitar de habilidade para manusear as peças de um barco pois antes nunca

trabalhara senão em escritório e não distinguia entre um rolo gráfico e um rolamento de encosto. Foram seis meses praticamente calado, atento às palavras do

instrutor, e o silêncio decerto alarga o tempo e o silêncio pode ser retido, como o tempo numa fotografia, e a educação e o sofrimento recompõem a justiça que os

homens modificaram. Esse mesmo corredor é também óbvia metáfora, como a superfície da mesa em que se janta ou as almofadas do sofá da salinha em que os

clientes esperam. Ali, onde o homem apanhou a resma, e ali onde pôs a cortadeira em funcionamento, naquele mesmo canto, as paredes anos depois estarão

escurecidas, úmidas, mas a janela ainda dará para um arbusto de beijinhos cujas flores ainda serão brancas e vermelhas quando ele voltar vinte anos depois em

busca dos papéis para a aposentadoria, hospital e gráfica ainda separados por uma rua sem saída estreita e imensa, dependendo como o cheiro de éter ou o

imaginado gosto de salitre modificava o seu humor.

Com 61 anos desembarcará em Oslo em outubro e a partir daí medirá o resto de sua vida em semanas. Na quadragésima quarta do primeiro ano, deu a

tradução por encerrada. Pela janela a ópera e uma vizinha discreta na porta ao lado. Seu olhar se tornou direto e melancólico. Um trabalho a realizar e um dinheiro

a receber, é tudo. Não tem saudades dos corredores antigos mas não pode tampouco sonhar com o novo mar porque há um tempo entre os desejos possíveis definido

como o animal do limbo e tempo há para os tipos de sofrimento. Almoçou na casa nova, língua de bacalhau num prato raso. Fizera sol e chovera pela manhã e à

tarde esfriou e depois fez calor de quase vinte e um graus. A dor agora é do tipo simples: sofre pelo que não há outra alternativa; não antecipa e não se queixa.

Parece curado. Os pais morreram e os tios não se importam e ele tampouco agora. Na região em que vai morar havia fábricas. De metrô até o centro não leva dez

minutos, nada mal para a primeira semana do ano sessenta e um. De Oslo a Tromso são duas horas de avião. O tempo de dois homens convergindo ligados por uma

voz feminil e calma de médica.

Os cachorros estão latindo. Há uma escada encostada na parede junto à janela. A tosse do entregador se junta a seus gemidos. Nunca beberam tatno leite na

casa. Depois ele e a menina iam tomar alguma coisa nos fundos do mercadinho. Nem perceberam que chovia quando ele a olhou de um jeito diferente, Ele saiu de

repente sem tocar no copo. Ela ficou olhando para as costas dele, para a blusa vermelha de veludo. Ele estava a meio caminho de casa, à beira da rodovia deserta,

quando ela o alcançou. O que foi, ela perguntou. Ele continuou aandando na mesma passada, olhando para baixo. Nesse momento lea sentiu algo estrnho como se

tivesse lembrado de um sonho. A mulher do sonho nao tinha rosto mas era sua mae. Inconfundível em seus jeans apertados. Mas ela certamente nunca havia deitado

em um leito de feno, sequer há no Brasil esse tipo de estábulo típico de Tromso. O que foi?, ela repetiu. O som dos passos dos dois adolescentes era como o andar de

um mesmo animal das florestas de conoferas.


- Det var ingenting - disse ele. - Du.

Ela estava perdendo a onta desse súbito comportamento dos rapazes. O sol baixo avermelhado atravessava os abetos e contornou de dourado o perfil do

menino. A respiração dos dois sonora acompanha os passos mais alta a cada metro percorrido. Passaram por umas ovelhas como se fossem fantasmas ou as ovelhas.

Só então ele olhou para ela elegante pedalando como uma equilibrista de monociclo. O vento gelado no desfiladeiro e de longe eles apenas pontinhos. O lago na curva

não dá sinais de que vá descongelar logo embora estejamos em...

Porque ele estava com sono ela desconfiou que ele não estava sóbrio. Foi a própria médica quem disse, a que substituiu a primeira, a que se declarou

impedida. Perguntou se ele era ansioso com O se estivesse descobrindo a pólvora e como se alguém no vasto mundo pudesse responder que não. Ele sob efeito de um

antidistônico podia mas aí ela dirá "ah o efeito. Um dia aconteceu e ela disse. Ele estava mesmo com um sono incapacitante. Decidiu não tomar mais remédio w de

fato. Ela o olhou e entendeu os motivos da colega. Não dirá para ele e ele nunca saberá. Talvez o outro, o norueguês, quando ela for.

Entao estao proximos mas ainda fora de epoca. Ela estah obcecada com a monografia. Aumentará suas chances de um