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ESPERANÇA

Ricardo de Almeida Rocha


Esperança © 2017, Ricardo de Almeida Rocha
Todos os direitos reservados, incluindo os direitos de reprodução total ou parcial, em qualquer formato
Rocha, Ricardo de Almeida 1. Ficção brasileira. 2. Livros eletrônicos. 3. Título.
Uma face morna molhada pela luz do abajur preso à cama. Ela se vira e depara
com olhos flamejantes. Faz meia hora que jantou uma substanciosa sopa de feijão com
ervilha e batata. Está sonolenta e mole. Sente-se gostosamente adormecer quando abrem
a porta.

O rapaz avançou a passos lentos e determinados. Ela não esboça reação. Jamais
viu olhar assim nem em seus constantes pesadelos. É verdade que os olhos do pai
possuíam brilho quase tão assustador, sem falar que são muito parecidos. Mas aqui esse
horror está em forma mais inocente, se é possível dizer isso. Não. Não é possível dizer
isso.

Num momento ela sentiu assim mas no outro reconheceu o espelho à sua frente.
Na janela uma estrela em meio às nuvens da tempestade anunciada pelos silenciosos
clarões ao longe. Conquanto não mais que cruel impressão ela quis chorar como um bebê
que descobrisse o fim dos meses de aconchego dentro do que em um ano chamará de
mamãe.

Graças a Deus. Com alívio percebe que se enganou. — Dáli… — ela disse. —
Você chegou a me assustar...

Está vestida com um chambre aberto até os joelhos e tem nas mãos presas junto
aos seios flores do campo que lhe dera um rapazinho com quem ficou na noite anterior.

Afagando as sépalas sente-se amada e protegida como os botoes e pensa em


colocar o buquê num vasinho na cabeceira. Olhe só essa pétala, pensa ao olhar o pente de
empunhadura ornamentada onde se destacava o entalhe AM.

— Não vá deixar cair uma flor tão linda e pisá-la — diz ele e afunda a haste na
seda. — Veja, Adele... O pólen sujou sua pele… Deixe-me limpar...

Não zombará mais dele. Esse tipo de sensação desde sempre o perseguiu como
um murmúrio de janelas ao vento em noite de tempestade. Agora está livre. Olhando as
flores olha as aves dos céus perversos revoando e descendo e chupa as pontas dos dedos.
— Hum...— gemeu, obsceno. — Pólen é tão gostoso...

Ela sorriu um sorriso triste que desencadeou a crise e ele apanhou o canivete.—
Seus cabelos são lindos...

Ela conseguiu balbuciar "Você está louco... "e olhava seus cabelos no chão como
se pudesse reavê-los só de olhar.

— Louco? — disse ele. —Você ainda não viu nada — soletrou. Seu braço

entra pela abertura, erguendo o chambre. Lágrimas escorrendo pelo rosto, ela consegue
balbuciar: — Por quê?

Nascem cinco filetes no alto de sua coxa e fechando os olhos e erguendo o queixo
ela gritou e onde o grito se prolongava o braço de Dali ganhou impulso para cima. — Por
quê? — jogada na cama é tudo o que ela consegue dizer, o corpo inteiro chorando. —
Por quê?

— Por quê? — ele leva à boca a garrafa. A voz ecoa sobre a da irmã — Por quê?
— diz, arrastando as palavras — Ora. Se o Luciano pode, por que teu amado irmão não
poderia?

Lá fora o sol se esconde no magnífico tom róseo da paisagem crepuscular. Ela


não pode deixar de notar alguma dificuldade inicial. Meu Deus e o que isso importa?
Uma linha de sangue onde estará a futura cicatriz. Desesperada duma dor dilacerante suas
lágrimas se avermelham num líquido cujo amargor também a possui. O grito é ouvido em
todo o prédio e vizinhança. A porta é arrombada tarde demais. A mãe aterrorizada sabe
de sua culpa.

Por um minuto Adele hesitou na porta. Escuta a madrugada entre dois mundos.
Não há volta. Sua perna direita se adianta no último passo o a marcar com a sola gasta de
suas sandálias baixas a erva rala das frinchas e o pó acumulado no cimento. O caminhão
passou trêmulo sob seus pés e depois ela cruzou convicta a rodovia. O silêncio
escrupulosamente quebrado aqui por um grilo e ali por um latido. Lembra uma cena de
filme, uma canção: a menina fugindo de casa. Onde estavam antes seus olhos e de onde
tirou o coração esse pesado pulsar?

Para onde agora?

Deu por si inteira no vestido rosa, sim, porque era um vestido, um vestido leve, de
crepe chiffon, e sim era de um rosa quase obsceno. Tinha despertado. Nao queria ser
grande, sequer reconhecida entre seus pares, que agora tinha certeza seriam medicos. Não
Era o que de pior tinham feito a ela: fragmentala em mil pedacos dispersos por um
numero quase igual de mundos. Mas o que sabe não eh sinonimo do que eh capaz de
viver. Porque nao coincidia ou nao exatamente com o que queria. Entao se prometeu isso.
Definir o que queria. Depois executar esse desejo do jeito mais simples. Tipo linha reta.
Talvez com paradas para respirar. Mas isso ela ainda nao tem certeza. Nao tem quaisquer
exceto que o vestido realca seu corpo e nao tem medo de que tenha um corpo assim.
Serah um amigo, o melhor. Mas para que serve um amigo ela nao sabe.

De uma forma ou de outra teria chegado a esse momento; se não precisava ter
sido por meio dessa dor não faz tanta diferença a partir do momento em que a realidade
se cristaliza. Quando os fatos estão estabelecidos e a liberdade se fez. Porque é disso que
se trata. Estava livre. Nunca mais família e conversas inúteis e visitas e pessoas dizendo o
que ela deve fazer; ninguém gritando; nunca mais portas batendo. O silêncio e a solidão
por tanto tempo desejados.

A amiga de infância agora estava casada e morando no Rio de Janeiro. Na festa de


seu casamento a convidara. Poderia se casar uma segunda e terceira vez — dissera
Sandra — mas não mais teria outras amigas de infância. Ela a viu da janela quando
chegava. Tão triste. Por quê? Prefere não pensar que foi por causa do pai mas sabe que
foi. Mas terá tudo o que precisar para ser feliz no que depender de Sandra.

— Adele! Oi! Entra! Keko! Amor!

Ela se desculpa pela hora sem encarar a amiga.

— Não precisa dizer nada. Tome esse copo de água com açúcar

— Tome tudo.
Ela olhou para cima na direção da voz e olhou fundo nos olhos de Keko.

Passou depressa pela praça do coreto e avançou pela rua do jornal e nessa altura
ergueu os olhos para a serra espirada pelo sol. Ficou ali com as faces muito rígidas e os
ombros empedrados tentando discernir o prédio e ver dentro de uma qualquer de suas
janelas. Era sua sina, melhor se sujeitar de uma vez. Umas loja de discos com aqueles
velhos fones de ouvido pendurados. Telhados que absorviam água. Que pena. Porque de
resto eh bem bonita, bem pensada. Meu pai teria feito parecido exceto pelo telhado.

O pai. Um sujeito querido de todos. Aquele monte de gente no velório. Se bem


que sempre pode ser de alívio. Aquele velho estava. Era talvez um confidente? Olhar tão
desagradável. Mas todos passam. Adele seguiu pela velha ponte. O mato crescendo na
estrutura. Os carros passando e os assedios de praxe. Pai, de que adiantou, qual o sentido
disso. Não seria melhor o amor de uma filha e de uma jovem que de bom grado aceitaria
a corte de um respeitável construtor?

Em algum momento do caminho entre a casa da amiga e o motel, olhando as


crianças vindas da escola municipal, ela pensou que a sua infância tinha sido boa. Disso
não podia reclamar.

Passaram meninas num andar bamboleante quase uno. Uma olhou para ela com
um rosto asiático e as alças do sutiã apareciam vermelhas mais escuras que o vermelho da
blusa e parecia temê-la ou invejá-la como se soubesse o que ela estava para fazer dali a
alguns minutos.

Seria virgem, pensou Adele. Deve ser virgem. As vozes se perdem na distância.
Ela vira e vê a da cara asiática ajeitando o elástico sob a blusa e percebe que tem até uma
barriguinha, imagine, nessa idade; e culotes; e os próprios seios escapam. Repara na
diferença física entre as amigas mas estão no mesmo ano escolar ao que parece. Outra é
magrinha como a própria Adele um dia.

O quarto de um dos melhores hotéis do bairro. Abre a cortina da janela e olha o


homem entrando e fecha a cortina novamente.

Ele guiou seu rosto e as coisas ao redor sumiram no cheiro do lençol lavado.
Entregou-lhe gentil as roupas com o pagamento e enquanto se vestia perguntou se o nome
dela era mesmo Adele. — Devia usar outro.

— Um nome de guerra?

Ele sorriu. Ela nem precisou pensar. Engracado que há muito tempo, quando nem
poderia imaginar tal necessidade mas outras decerto que no fim das contas apontavam
para um mesmo caminho de disfarce, pensara em algo assim, para desbravar incognita
um novo mundo.

A última sílaba da resposta de Adele saiu grossa, cavernosa. Na ausência do


homem o ambiente cresceu e perdeu a obscuridade. Ela ouviu os passos suavizados pelo
carpete se perdendo na escada abstrata que o levava para a ampla entrada de vidro que
tanto a impressionara uma hora antes.

_________________________

Carros ressoam no crepúsculo ao longo da Avenida Atlântica atrás de mim. O


oceano transmite a velha paz que nao consigo manter. Deus, aqui estou de novo tentando.
Pode ser o começo de uma história, de minha história. Até aqui nada fiz além de sonhar e
abortar sonhos mas descalço na areia sinto que minha existência é real e mais que isso,
necessária. Sempre fui aquele que poderia ter sido. Tudo o que fiz foram as coisas que
deixei de fazer. Um sonhador, prefiro considerar; um perdedor — será irreversível
admitir?

Mas pode estar para acontecer alguma coisa neste fim de dia. Parece vir de longe
o prenúncio na brisa. Alguns banhistas se chocam com as ondas, eu mergulho. Saio das
águas gotejando e ponho os cabelos para trás. Enquanto caminho para casa imagino o que
está errado comigo. Casais se beijam nos bancos. O homossexual passeia seu cão.
Adolescentes em grupos na esquina. Mães e suas crianças correndo. Há quanto tempo
tenho andado por essa trilha à beira da estrada? As luzes começam a aparecer nas janelas
e desce quente a noite sobre o Rio de Janeiro. É como se a vida me mostrasse um sinal.

Minha mãe pediu para que eu levasse uma encomenda que ela trouxe de Paris
para sua amiga Teresa. Tomo banho como quem tem pressa. Não tenho respostas. Visto a
camisa e vou à cozinha. Anatólia, a empregada, está cantarolando. Faço um sanduíche de
queijo e como com uma coca. Teresa tem uma filha de minha idade mas que insensato
chorar por alguem que nao lembra que você existe. Não vou suportar por muito tempo
essas refeições rápidas sozinho e continuar me vestindo com destinos circunstanciais. No
saguão do prédio hesito antes de entrar na marcha da normalidade e fazer parte dos
passos das pessoas lá fora.

Vou a pé da Rua Paula Freitas até a Sá Ferreira. Quando Sarah abre a porta eu a
vejo, Esperança. Ela empurra com cuidado o velho na cadeira de rodas.

— Oi — diz Sara.

— Oi — respondo. — Tudo bem? Como tem passado o seu pai?

— Um derrame é um derrame; o estado dele não tem muitas alterações; eu e


mamãe já aprendemos a conviver com isso.

— O que se pode dizer numa situação assim?

— Estou indo ao cinema — diz ela. — Por que não diz que vem comigo?

Esperança havia sumido no corredor e reaparece não mais de branco. Me


cumprimenta e se despede de Sara. Passa por mim e pela porta. Chama o elevador.

—Tenho um compromisso — apresso-me em responder. — Outro dia a gente vai.

— Vou aproveitar o elevador.

Esperança vai me dizer seu nome.

—Você é a nova enfermeira do Dr. Carlos?

— Sou, ela sorri.

— Sou amigo da família.


—Muito prazer.

Agora sei seu nome e ela o meu. Vamos nos despedir e não sei como evitar.
Enfeitiçado pela luz nos seus olhos. Não há tempo para timidez. Digo que vou ao cinema.
— Não gostaria de vir comigo?

— Estou um pouco cansada; noutro dia a gente vai.

— Também estou — digo com súbita firmeza — cansado de esperar dias que
nunca chegam.

—- Que filme você vai ver? — ela pergunta após a pausa.

Estamos parados na esquina. Eu estou no paraíso.


Conheci Esperança em uma quinta feira numa época em que me determinara a
nunca mais chorar ou me sentir miserável exceto pela visão de crianças miseráveis
chorando. Ela gostava de ópera. Não todas nem toda uma mas aqueles trechos em que a
contralto se esgoela desprendendo a alma pela garganta. Quanto a mim, só mesmo os
velhos blues aquietavam meu espírito.

A noite arrefecera um pouco e a lua caminhava conosco. Os ônibus passavam


cheios. As pessoas caminhavam apressadas para chegar em casa e não perder a novela.
Nós andávamos devagar e ainda não tínhamos nos decidido por um filme. Naqueles
momentos eu não era nem um sonhador nem um perdedor e estava realmente fazendo o
que fazia. Aprisionado numa nuvem de pureza e glória, de serenidade. É o lugar de
Esperança, anjo. Quando mulher, se mantém limpa de rosto e limpa é a alma que expõe
perante mim.

A noite avancava para o amanhecer que combinamos ver na praia e nada existia
que pudesse mudar o que ela provocava em mim. Sua singeleza e segurança. A
sensualidade sem astúcia. O cumprimento de minhas idealizações. Quaisquer
imperfeições causadas por influência de passado ou destino não poderiam, se existissem,
afastá-la da força de meu amor. Que lei ousaria proibir o que meu ser começava a sentir,
doce revelação súbita, a felicidade?

Esperança era alta e magra. Estava no final do curso de Enfermagem. Não era tão
bonita mas parecia. Acalentava sonhos sem perder o chão. Possuía um riso triste que me
deixava indefeso. Seus olhos brilhavam. Venerava a Virgem e seus cabelos negros
emolduravam seu rosto evocando a própria Senhora.

Enquanto os créditos desciam na tela no final da sessão, Esperança disse ter se


identificado com a personagem. Acabamos indo ao Cinema Um na Rua Prado Júnior.
Ela se sentia em casa. Fomos ver um filme que conta a história de um garoto que teve
uma doença rara e seu rosto ficou deformado mas ele superou os traumas e levava uma
vida normal. Era alegre, inteligentíssimo, muito sensível e...

— Não, não— disse Esperança. — Eu me referia à mãe do garoto.

Cher interpretava a personagem. Uma mulher no limite, sempre drogada.

— Você usa?

— Claro que não. Droga é loucura — tornou-se enfática, categórica. —


Algumas tiram a gente da realidade e outras nos fazem ir ao coração da realidade mas
tirando-nos de nós, o que acaba dando no mesmo.

Para ela atenção era a chave. Uma estrela desceu dos céus e a seguimos. Sonhos
no olhar de Esperança ofuscam feridas abertas sobre as quais ela ainda não falara. Não
havíamos sequer dado as mãos. Atenção. Simples assim — repetia-se segura. Atentos
usufruimos intensidade alucinógena com temperança.

Olhei para o céu recortado pelo alto dos prédios como a esperar que o Espírito me
enviasse luz que então partilharia com Esperança mas tive apenas uma vontade louca de
sair da Barata Ribeiro onde fomos tomar um café e ir logo para a beira do mar e partilhei
essa vontade com aquela a quem minha alma começava a se apegar de forma tão
desatenta.

Atenção é a chave de tudo. Desde a estrela cadente que vimos até o quebrar dessas
ondas; do tremeluzir da cidade no mar ao som de nossa própria voz; e o cheiro de sal
desprendendo-se da praia; e o cachorro quente da carrocinha. Atenção e nossos pés
vivificam o toque da areia.

Com toda essa introdução foi natural o que se seguiu. Segurei-a pelos ombros e a
virei para mim e a aura de seu perfume e sua respiração em meu rosto anteciparam o
beijo. Debruço-me no sonho em seus olhos. A luz por toda a noite intuida.

Estamos na clara manhã de sexta-feira na Avenida Getúlio Vargas, na penumbra


do prédio famigerado pela vida dupla da maioria de seus moradores, e ela de novo está à
vontade. Cumprimenta o porteiro com intimidade. A voz grave despedaça as sílabas com
sotaque de anjo. Uma amiga enfermeira de Nova Friburgo, sua cidade natal, a estava
hospedando enquanto ela não arranjava a própria casa.

A porta do elevador se abriu. No corredor escuro do décimo quinto andar um


vulto procura chaves na bolsa. Uma voz ecoa ao entrarmos. — É você, Esperança?

Embora tão pequeno o apartamento aproveitava bem o espaço e eu disse que era
um lugar bom de se morar enquanto se prepara uma vida. — Um lugar assim me bastaria
— disse ela sorrindo.

O sorriso de Esperança. Impregnado de reticências Não triste. Só não possui a


alegria que normalmente o ato de sorrir faz supor. Além da tristeza e da alegria e próximo
de alguma coisa rara, um instante perfeito. Tinha a ver com o que eu pressentira na praia
quando a conheci. Um aceno da vida a que seria herético não responder.

Após me cumprimentar e se afastar com Esperança, Magda pergunta se não era


perigoso. Esperança olha o relógio e responde. —Você está atrasada.

Quando a porta bateu ela avisou que ia tomar um banho. Eu folheava revistas
velhas sobre a mesinha de centro e ela apareceu apenas com a camiseta da noite.
Aproximou-se do sofá onde eu estava e ajoelhou-se. Tirou os meus sapatos de camurça
marrom e as meias com desenhos em ponto cruz. Meu cérebro recebia a circunstância em
crise aguda de limite e a transportava para essas reflexões taquicárdicas que nunca
chegam a ser concluídas, transportadas que são para outro gênero de pensamento,
obscuro e viajante como quando se fica na fronteira. Como quando antes do despertar
mas não mais no sono. Desabotoou minha camisa. —Você está indo muito bem — disse
ela ao abrir o zíper. É assim que deve ser. Dançar segundo a musica.

Concordei humildemente.

—Nao seja tao ansioso. Quero que se sinta bem. Quero que se sinta livre.

Das roupas já estou.

A gente não aprende a dançar senão dançando. Minhas feridas estão abertas. Ela
pode ler meus olhos. Mas se hoje é tão diferente de mim, o que nos atrai, é porque um
dia foi tão igual, o que atrai ainda mais.
O chuveiro sobre a banheira. Esperança abre a água com a mão direita e com a
outra me leva para dentro do boxe. Não entra nem tira a camiseta. Quando estou
totalmente molhado, desliga a ducha. Apanha o xampu e lava os meus cabelos.

O sabonete. Os ombros. A barriga. As costas, as nádegas. Agacha-se. As pernas,


as coxas. Vira-me. Deixa-se. Prendo o ar. Fecho os olhos. Nada falávamos. Torna a ligar
a água. Passa-a para a mangueira do chuveirinho. Enxágua meus cabelos.

Esperança me entrega o xampu e o sabonete. Estremeci quando ela puxou a


malha por cima da cabeça. Entra sob o jorro. Suas feições infantis contrastam com a
mulher imensa diante de mim, imenso também.

Seus cabelos ainda mais negros. A água escorre como se a vestisse. Sobre mim as
mudanças de Esperança ao longo da vida, da pobre menina feia à sedutora mulher
independente. Acompanho as metamorfoses contínuas que quando eu chegava na
suposição de entendê-las ela ali já não estava: a própria essência do prazer que me
possuia, o da impossibilidade.

O sabonete erra pela luz amarelada. Ela se vira e abre os braços. As palmas se
apoiam nos azulejos respingados. Sombras e luzes em suas costas. Quando desliguei a
água em definitivo ela encostou a cabeça em meu ombro e nosso abraço foi o das partidas
e dos reencontros.

Erbaaaaaarme ditch. Anjos. Pelas cortinas um profético fascínio purpúreo. Eu


não tenho dúvidas. O tom que nos envolve em minhas veias. Esperança, nua e tangível,
real.

— Estou morta de fome.

Passos descalços na direção da cozinha. Friozinho. Um elevador que se fecha no


corredor. Uma geladeira aberta. Risos e olhares inequívocos. Ela em meu colo comemos
os mesmos sanduíches e tomamos o refrigerante no gargalo.

Termo do suportável. Delicados preâmbulos sujeitam o deleite. Toques ternos e


afagos lentos. Murmúrios ininteligíveis. Palavras desconexas, suspiros. Profundezas.
Infinito. Umidade abissal e pulsação limítrofe. Ondas mais fortes ameaçam nos molhar.
Ainda não. Não há pressa. Não há tempo no mundo; não há mundo lá fora. Assim. Visão
de paraíso. Esperança. Suave. Ardente. Morena como a virgem em nuvem mágica de
pureza. Assim. Atentamente. Ah. Atenciosamente.

Uma fresta de manhã (ou de tarde já, talvez) na volta ao quarto divide a cama
onde seu corpo começa a pousar. Mãos apoiadas no lençol enrugado, enruga-se mais a
toalha branca. Um pedido da branca luz. Noto a cicatriz sem dizer nada. Um vermelho
mais vermelho e as mãos multiplicadas — Gemidos e outros apegado a esses. Prendo o
ar. Fecho os olhos.

Esperança adormecera em meus braços, em sua cama. O ambiente a ela familiar


me provoca o desconhecido. Eu permanecia desperto porque achava desperdício algumas
horas de descanso físico que poderia ter quando voltasse ao tempo. Ela dormindo, eu
respirava uma outra aura, não menos partilhável embora noutra dimensão. Esperança
adormecida me oferece sua ignorância de mim. Reparte comigo todo o ser que em
comunhão consciente comigo me completava mas também excluía na perfeita
contemplação dos matizes da cortina ou os desenhos do papel de parede, nas suas roupas
sobre a cadeira (visão semelhante a de seu corpo nu).

O trânsito na avenida distantes gemidos de animais pré-históricos. As vozes de


vizinhos falam coisas incompreensíveis de um mundo no qual eu nascera e ao qual não
pertencia e talvez sacudida pela minha contemplação, virou-se de costas para mim e se
encolheu, o braço para fora do lençol. No movimento descobriu ombro e seio e eu de
novo dividido. Não basta a contemplação e minhas mãos e lábios são os instrumentos
gentis do que me basta. Logo a ação deles introduz o despertar lento de Esperança.

Sussurrei. — A que horas Magda volta?— O turno dela é 24 por 48, um bom
horário. Só voltará de manhã — respondeu. O telefone toca baixinho, como já tinha
acontecido ao longo do dia. Aroma de cabelos limpos e uma pergunta. — Você nunca
atende as ligações?

Ela pede que eu, por favor, apenas continue. Assim.

Ficamos pois assim mexendo de quando em quando e assim quietos até o dia
terminar, quando exaustos terminamos. Cortinas abertas. As pessoas lá embaixo
derramam-se dos prédios comerciais no sentido da Central do Brasil. Sete e dez no
grande relógio da estação. Se eu estivesse lá embaixo voltando para casa depois de um
dia de trabalho, a posição dos ponteiros teria um doce significado para mime. Se já
conhecesse Esperança, essa janela, vista lá debaixo, entre tantas e igual a todas, seria
única. Vou fazer uma janta decente para nós, disse ela, nada de sanduíches.

Na penumbra do quarto, na quietude da madrugada, nas pardacentas


luminosidades da memória, na noite infinita da alma — eu me envergonhava de meus
temores, remorsos e timidez. O que você disse? — perguntou Esperança. Olhei-a. Ela
dorme. Suspira. Me enterneço. O relógio — 4h40 — tictactictac — testemunha a chegada
de boas ações que eu fizera pela existência. Disposições benfazejas para com os que me
cercavam. Reparti o meu pão. Dei meu agasalho. Chorei com o que chorava. O bem em
toda intenção. 4h50. Agora, em Esperança amo toda uma humanidade à qual revoltas
inúteis me ensinaram a desprezar.

Uma nova consciência. Nem esquecimento nem retenção das as coisas. 4h 53.
Tudo tem o seu lugar. Eu não poderia resistir muito tempo (4h56) num relacionamento
com uma mulher abençoada pela Virgem com o dom da liberdade se estivesse eu próprio
preso a espíritos em mim, 5h08. O filamento nervoso de um abajur só agora percebido
rege as nuances dos fios de seus cabelos. Um clarão do terror do que se quer alcançar e se
alcança.

5:14.

Mas assim como passamos a primeira noite sem nos tocar; assim como falamos
sobre Deus e cinema; assim como introduzimos o clima do primeiro beijo; assim como
vimos o sol nascer; assim com passamos a madrugada sem comer e comemos sanduíches
no almoço e bife com batatas à noite; assim como preparamos o amor e fizemos amor; e
dormimos; e tornamos a fazer em outras posições — a satisfação precede sempre, no
amor, um novo desejo e não o tédio. Amar será continuar amando e renovando as
mesmas coisas que fizeram nascer esse amor.

— Seja o que for que estiver pensando — diz Esperança ao recostar a cabeça no
meu peito — a gente descobrirá junto. Agora dorme um pouco.

Sempre existem horizontes quando o sol está para nascer. 5h38.

Amanhecia.

Despertei com a visão da foto de Esperança sentada num carrinho de mão cheio
de flores. Um cântaro no colo e um chapéu de palha. Nos olhos o surpreendente sorriso
sem nuvens. Todavia a foto, que me havia enternecido no dia anterior, era justamente
daquela época do mundo fechado em angústia terrível do qual me falara, não da moça
desprendida que se tornara no Rio e eu conhecera. A mãe jamais acreditou quando ela
dizia do pai. Ameaçou ao contrário expulsá-la de casa. Nenhum homem, mesmo que
fosse verdade, age assim se a mulher não o provocar. Se ele me deixar você me fará
companhia na velhice? Ela disse Mãe, pelo amor de Deus, eu não agüento mais. A porta
da rua é a serventia da casa. Os incomodados que se mudem.

Em seguida Esperança entrou e seu rosto na foto, até então sua única presença ali,
retornou a seu lugar no passado, deixando sua nova encarnação no robe
— Nosso café— disse ela, colocando na cama a bandeja com as xícaras, os pães,
a manteiga, o suco e a omelete. Digo que desse jeito ela está me acostumando mal. — E
a Magda?

— Mas sera que você não pode esquecer a Magda?

Segunda-feira sera feriado. Haverá uma festa no domingo. Podemos passar o


sábado juntos. Ir à praia talvez. Por volta das seis e meia ela teria de estar no serviço na
casa de Teresa. Horário em que saía uma das outras enfermeiras. A mão nas costas de
minha mão. Será assim. Eu a deixarei na Sá Ferreira no final da tarde quando se iniciará o
rito de minha saudade amparado pela certeza de que lá pelas dezoito e trinta do domingo
eu a reencontraria.

Quando Magda chegou sonolenta e cansada estávamos prontos para sair. A amiga
não tem cuidados quanto a mim, o que a tornou uma mulher diferente e trouxe outro tipo
de aura. Quase gostaria que ela chegasse como saiu, desconfiada, pois também devolveria
os ainda incertos instantes em que eu não sabia tudo o que estava por acontecer nas horas
seguintes com Esperança. O prazer da expectativa. Um quê de mistério. A própria manhã
anterior para a qual sua reação serviu de referência. Isso acontecerá mais tarde. Por agora
me senti bem em compreender que o Rio é uma cidade violenta, todos os dias os
noticiários exibem casos escabrosos, portanto nada mais natural que a cautela anterior de
Magda, dissipada junto a meus constrangimentos.

Ela pergunta bocejando:

—Onde vocês vão?

Arpoador. As ondas deslizam ao longo do limo na pedra. Um recanto de


privacidade no monte que sobe do parquinho infantil. Ali passamos a tarde ao sol e nos
divertimos e conversamos e cantamos em prelúdio de nós. Como eu posso lhe dizer que
não? O pôr-do-sol começa a avermelhar tudo ao redor. A mulher capaz disso sem
embaraço será, imagino, guiada por um verdadeiro amor.
— Mas não se engane comigo —diz Esperança subitamente séria.

Ela havia criado essa resistência, diz, sua alma foi cauterizada. Criou bloqueios
necessários para a liberdade. Amar fragiliza. O amor expõe ao sofrimento. O amor expoe.
- E nem mesmo por amor -disse - eu quero sofrer mais.

-— Não é necessariamente sofrer.

— Sim, necessariamente.

Fica então apenas assim, Esperança, sua cabeça em meu colo. Fica então apenas
assim, pousada em mim como um pássaro ferido. O sol se põe, um flamejante disco-
voador. Ali, descendo sobre as lajes da favela. Vamos, mostrarei a você no caminho
razões para você me amar.

O crepúsculo atrás de nós concedia-lhe magenta majestade quando a olhei pela


última vez antes que ela fosse na direção do prédio onde o Dr.Carlos sobrevivia.

Nessa época, eu costumava passar a maior parte de meu tempo em casa, tocando
violão e compondo em meu quarto, só saindo para as refeições. Na terça-feira porém,
esse cotidiano, já afetado pelo conhecimento de Esperança, deveria se modificar mais,
pois eu começaria o emprego numa biblioteca. Em meu quarto, por todas as paredes,
havia fotos, razão quase única de minhas saídas de casa, para pegar as cenas do nascer do
sol e do poente, pescadores, turistas, jogadores de futevôlei, corredores no calçadão.
Fotografava crianças e mendigos, feirantes e todo tipo de figura exótica do velho Rio. Às
vezes conseguia captar um rosto de mulher como esse, também colado no mural que me
guarda do mundo apreendido. Mas há uma janela e além agora Esperança Acordes de
uma nova canção.

— Oi.

Cantando distraído na lembrança de Esperança e de minha vida de reveses agora


resgatada, Sarah entrou no quarto sem bater, sorridente.

—Será que hoje sai nosso cinema? — pergunta ao colocar a bolsa na cama e me
beijar com uma intimidade que não tínhamos.

Lá fora vadiava um vento veemente de presságios.

Eu não queria acreditar, mas a vida é assim. Tantas vezes desejei Sarah, na
elegância de seu corpo bronzeado, quando vinha com Teresa para ir à praia com minha
mãe, mas por algum bloqueio relacionado decerto à relação de nossas famílias, por medo
do ridículo de me declarar e ser rejeitado, nunca fui além da imaginação. Até o dia em
que com um pretexto perfeito bati em sua porta com a força acumulada pelo longo tempo
de solidão e vi Esperança Desvanecida a imagem de Sarah desde aquela noite. E aqui está
ela. Extrovertida. Elegante. Um olhar inequívoco.— Sempre cantando e tirando fotos,
seu grande vadio— disse, olhando as paredes.

—- Vivo por coisas que perdurem.

—- O Ricamar tem Woody Allen. Um grande filme deixa sempre uma recordação
que não se apaga. Vamos?

— Muito cultuado para minha atual simplicidade.

— No Art está passando Amadeus.

— Trágico demais. Estou vivendo um momento feliz.

Sempre que desejo entender o que se passou comigo naqueles dias e como
mudariam minha vida, ouço de novo o comentário incrédulo de Sarah àquela minha
declaração.

— Agora você é simples e feliz. O cara mais complicado e angustiado do bairro?

Não posso deixar de lhe dar razão e me torno um pouco menos arrogante com
relação a essas mudanças, revendo os lábios de Sarah pronunciarem essas palavras
enquanto o vento continuava a soprar pela janela. Mas na hora não me dei por vencido e
repliquei.

—- Você me conhece tanto assim?

-— É que às vezes sua mãe fala de você.

—- Minha mãe às vezes fala demais.


Bem, se eu não queria ir ao cinema, podíamos fazer umas fotos. Perguntei se ela
também gostava de fotografar. Gosto de posar, disse ela. —Não sabia que trabalho como
modelo?

—- Não falo tanto assim com sua mãe.

-— Eu sim. Ela diz que faríamos um belo par.

Justo agora que não fazemos mais, ela vem me dizer isso? Então, prosseguiu
Sarah, ao cinema ou às fotos? Podemos fazer uns belos nus.

— Ao cinema.

Sarah apanha a máquina na cômoda e coloca-a em minhas mãos. Segura a barra


do vestido vermelho, os polegares por dentro; cruzando os braços por cima da cabeça,
tira-o e o coloca no espaldar da cadeira. As mãos descem pelo caminho das costas
desligando o sutiã criteriosamente colocado junto ao vestido. Equilíbrio elogiável nos
sapatos altos. Deita-se em minha cama e coloca a mão direita na cintura, numa pose
provocante.

Clic.

Pergunto se minha mãe não está em casa. Sarah responde que não e se vira um
pouco mais de lado.— E Anatólia também não Estava saindo quando eu entrei.

Clic.

Algum dia esse tipo de coisa acaba. E não mais a lei da carne trará o homem
sujeito. Algum dia a criatividade e a arte não mais operarão em favor da vaidade e do
mero prazer, clic, e não se invocará mais a culpa como consolo. Ela agora está de bruços,
sorri insinuante e dá uma piscadinha. Clic. Coloco a máquina de volta na cômoda. O fogo
é o único elemento que não existe, que só existe sob certas circunstâncias e não há,
exceto o inferno, um lugar constantemente em chamas.

Sara abrira as cartas e recolocava as roupas. Eu não estava prevenido. Fui testado
e falhei. Mas um dia tudo isso acaba. Não sei quando. Um dia.

Sara ligou para casa e avisou à mãe onde está e irá jantar. Esperança atendeu.
Sabê-la em contato com a sala de minha casa perturbou-me e aproveitei a campainha
para abrir a porta, o mais naturalmente, como se o telefonema em nada me afetasse.
Minha mãe entrou e Sarah desligou e abraçaram-se — Como vai, querida? — três
beijinhos, essas coisas. Sentam-se e minha mãe começa a falar sobre a visita que fizera
— Minha filha, como estão bem de vida! — e sua ida ao shopping — Meu Deus, como
as roupas estão caras! — etc. Anatólia também voltara e colocava a mesa do jantar.
Atendendo a um pedido, Sarah ligou a TV. A cada cena gargalham. Amaldiçoam as
personagens malvadas. Comentam maliciosamente a beleza do galã.

—Prefiro seu filho.

Minha mãe me olha com olhos brilhantes e com deslumbrado sorriso diz que sim,
faríamos um belo par.

— Eu já falei isso hoje com ele

Depois do jantar minha mãe perguntou se íamos sair. Pretextando interiormente a


nobre intenção de contar a Sarah sobre Esperança (a razão por que não poderíamos
formar o belo par sonhado por nossas famílias), tomei eu mesmo a iniciativa de dizer que
sim. Vai que ainda desse para nos despedirmos num dos motéis da Glória.

Era cerca de onze horas e estávamos prontos para sair. - Divirtam-se, disse minha
mãe.

Sarah quis entrar em seu carro mas eu disse não, vamos de ônibus e a gente pode
voltar a pé. Sarah naturalmente não era mulher de estrelas ou grandes caminhadas mas
aceitou, acredito eu por puro estímulo da novidade. Pegamos o ônibus e, não fosse pelo
motivo que deveria quebrar nossa noitada, seria por outra coisa qualquer. Não daria certo.

No vídeo-bar não havia clima para conversas sérias. Vimos o filme, bebendo
vinho branco que, para minha surpresa, não trouxe imediatas nem posteriores náuseas.
Dali fomos para um lugarzinho aconchegante também nos quarteirões noturnos de
Botafogo. A baía não tão distante e imagináveis barcos ancorados e cheiro de sábado nas
esquinas. Aqui, a casa onde morei na infância. O que exatamente estou querendo? Sarah
empresta ao vestido de minha mãe sua própria exuberância. A cada clique da bolsinha
prateada os dedos carnudos trazem com os cigarros a atmosfera sensual da sessão de
fotos.

Quando enfim caminhávamos de volta, ao lado do cemitério, em direção ao túnel


por onde sairíamos em Copacabana, satisfeito o fascínio de uma noitada com semelhante
mulher, lembrei-me da razão de ter decidido sair com ela. Sarah, eu disse. E contei-lhe
sobre Esperança.

— Agora vem dizer isso? Depois de termos dormido juntos e namorado a noite
toda?

Carros estrondeando interrompem de quando em quando a voz estridente e


colérica dentro do túnel. Quem eu pensava que ela era para usá-la assim?

Usá-la? — Você tirou a roupa na minha frente e não era exatamente para posar...

— Porque você deixou que eu acreditasse que queria consolidar nossa relação,
não por uns minutos de prazer que aliás nem tive!

Desse jeito. Quer dizer: se eu nada fizesse além das fotos, ela iria dizer que eu era
bicha, espalharia isso em nossas famílias. Como não fiz, era um...

— Calhorda!

Rua Siqueira Campos, saída do túnel, clarões. Um sinal escandaloso para um táxi,
uma bolsinha luzindo. O veludo estremece o corpo de Sara, seus cabelos parecem a
chama de uma vela soprada. O carro diminuiu a marcha. Perguntei se ela me amava. O
táxi parou, ela se virou para mim e gritou. - Pode ter certeza que jamais amaria um idiota
como você.

— Por que entao está tão furiosa?

— Não estou furiosa com você! Quem é você para que eu estivesse? Mas por não
ter conseguido fazer você deixar de ser um otário, por desperdiçar meu tempo com você,
babaca!
O chofer nos olha paciente. Desliga o motor. Está sorrindo. Eu mantinha uma
certa serenidade porque Sara era uma mulher educada, de muito espírito, decerto sua
notável finura não demoraria a fazê-la ver que não era para tanto. Tudo bem, digo então,
a gente não se ama mas passamos bons momentos.

— Você passou bons momentos! Eu não gozei, não gostei do filme, odiei seu
papo!

Ela entra no táxi e bate a porta. Pingos começam a tamborilar no metal. Abre a
janela e grita novamente, com a cabeça para fora. "Você e aquela putinha se merecem!"
O motorista engata rapidamente a marcha. Ela continua gritando mas a distância e o ruído
do motor arrefecem suas imprecações. O táxi dobra a Avenida Atlântica. A deusa da
tempestade cobre a noite com seu véu.

Grossos pingos chegam a doer . A chuva cai reta e o vento não sopra mais.
Caminho na direção de casa. Grandes ondas cuspidas pelos automóveis da madrugada de
domingo, da grande poça que se tornara a margem do asfalto, respingam em minha calça.

Escuto. A respiração de Esperança dormindo no quarto contíguo ao do Dr. Carlos.


Pernas compridas dobradas numa cama estreita. Sonhos em quem sabe eu esteja. Dedos
de pés graciosos e fortes. Uma brisa pela janela e passos no corredor e a única lâmpada
acesa na sala que dá para a ladeira Saint Roman Abraça o travesseiro. Um dia tive aulas
particulares de matemática ali. Dr. Carlos me salvou da repetição de ano. Um homem
bom e simples. Onde na filha aquela generosidade? Sara chega ferida e furiosa passando
pela porta de Esperança. Mas todos dormem. Logo estará ela dormindo também e de
manhã acordará curada. É solteira e experiente. Fui apenas um pequeno incidente. No dia
seguinte, estará tudo bem. Não havia por que me inquietar.
O ônibus circular. Saída do túnel na Raul Pompéia. Quase uma hora para que ela
saia. Passos lentos até o final da Francisco Otaviano. Lindas e elegantes mães. É
impressão minha ou aquela está me olhando? Um refrigerante no bar em frente ao
parquinho. O dinheiro no balcão. Obrigado. Na tarde expectativas pairam defronte do
cine Studio. Uns segundos. Vozes e luzes e cheiros de bar. Barulhos de mercado e o peso
do vento contrário. Rua antiga coberta de recordações, névoa e poluição. Arvores
entristecidas com a aproximação do crepúsculo.

Dobrei na Francisco Sá. Uma das mulheres me olhou maternalmente. Circundo o


quarteirão, passo a Souza Lima e chego na Sá Ferreira pelo outro lado. Já estou aqui te
esperando, amor.

O vestido de alças, uma nuvem de crepe. Esperança. Abraçamo-nos longamente.


Refugiados um no outro, arrebatados da rua.

—Fui despedida.

Pergunto-lhe o motivo.

—É que Dona Tereza não pode mais pagar três enfermeiras; ela gosta de mim mas
sou a mais nova etc. Hei! Não fique com essa cara! Eu estava mesmo pensando em deixar
o emprego.

Aliás, pensara também sobre nós.

—Mas agora vamos para Santa Tereza e não se fala mais nisso até o fim da festa.

Na ladeira sinuosa a casa iluminada. Gélida lua. O calor de sua mão. Entramos na
sala sacudida e incensada. É a casa de Sandra, amiga de Esperança que a trouxera para o
Rio havia um ano para trabalhar em seu restaurante vegetariano. Um drinque. Móveis
afastados. O cento da sala vazio. Uma dança. Uma jovem a chama e se afastam
abraçadas. No lugar onde ela estava, no balanço da música, surge uma loura de blusa
escura. Sacode os quadris e joga os braços para o alto. Quando os abre, seus olhos
encontram os meus. Esperança me chama e me aproximo da janela. Passando. O cheiro
forte e almiscarado foge para as constelações.

Ao atravessarmos a sala as mãos dadas tem também um efeito em meu coração.


Só não diga mais que me ama, sussurra, fico sensível demais nessas horas. Não direi.
Mas naturalmente ela escuta isso em meus olhos. A rua lá fora era estreita e a hera subia
pelos muros.

Sandra e Esperança arrumaram o quarto das crianças para nós. O casal tinha duas
filhas que dormiam no quarto dos pais durante a festa. Keko e eu conversávamos na
varanda. Pergunto se eles tinham o costume de dar festas como aquela. Respondeu que na
verdade nem gosta de festas mas sempre lhes cabe alguma despedida. Há algum tempo
tinha sido para uma amiga que trabalhava no curso de idiomas onde ele era professor. Ela
foi para a Itália. A última foi para o antigo namorado dela. Ele foi para Angola. A última
vez que escreveu ele estava em Portugal. No começo, estava entusiasmado mas depois
desanimou. Ficou em situação de rua.

Eu e Esperança a sós no quarto abraçamo-nos forte quase dormindo. Que gostoso,


disse ela. E depois de um tempo: "Você gozou? " —Gozei com teu gozo, respondi.

—Ah, querido — disse e perguntou onde eu andava e onde estava na festa de seus
quinze anos. Virada de costas, dois bichinhos. Acordo sem o efeito do vinho exceto por
uma leve dor de cabeça.

O relógio. Uma hora. A cortina filtra a tarde. Vozes de crianças na sala. – Amor,
vamos tomar café. Depois vamos a algum um lugar onde a gente possa conversar. – Ah,
mas eu não quero sair de casa. – Então expulsamos o Keiko e a Sandra. – Será possível?
– Provavelmente nem será preciso. Costumam sair nos feriados com as crianças. – Você
nem sabe: são separados; Keiko não mora aqui.

Saímos do banheiro e as meninas caíram em cima de Esperança. – Esperança,


olha... – Esperança, eu aprendi a... – Brinca com a gente de... Sandra a teria livrado, se
Esperança quisesse. Saiu do quarto e disse “Queridas, deixem a Esperança em paz”. Mas
Esperança disse “Tudo bem”. Olha o desenho de Tanja e escuta o que Chezy aprendeu e
ensina-lhe mais a respeito e brinca com elas de...

Sandra se horrorizou com o caos em que sua cozinha se tornara sob a luz
implacável do dia para onde convergem todas as festas. – Meus Deus, acabaram com
tudo, não temos nem para o almoço – disse. – Keiko acorda o Paolo e pede a chave do
carro.

O ex de pijama informa que Paolo e Rosalice não haviam dormido ali. – Não? Ah,
Meu Deus...

– Eu vou – eu disse. – Quero comprar o jornal que traz um suplemento de


fotografia com o regulamento de um concurso. Sandra olha para Esperança como a pedir
permissão. Esperança sorri. Tudo bem, disse, ele gosta de fazer compras sozinho, a pé.
Como ela sabe, se sabe, não sei. Sandra pede que eu espere pelo menos ela fazer o café.
Não se preocupe, tomo num bar.

Fui como estava, com uma bermuda vermelha de Esperança e uma camiseta
branca de Keiko. Ela tinha quadris e ele não tinha ombros. As coisas que Sandra queria,
eu podia encontrar num mercadinho próximo; meu jornal apenas no centro da cidade.
Comprarei tudo lá. Tomei o bondinho pelo estribo. Na volta, nos arcos da Lapa,
praticamente suspenso no ar, o jornal debaixo do braço e as sacolas nas mãos, protegido
por meus sonhos, passei a viver por alguns dias como uma folha que será deixada na
janela perfeita antes de seguir seu curso no vento até a relva.

Depois do almoço, Keiko e Sandra saíram com as crianças. Esperança solta os


cabelos e senta no sofá. Vai me contar sobre nós. Pois é, disse, pensei muito sobre nós.
Conforme fala, vou calando. Foi difícil abrir mão da infância e da adolescência, da
menina em mim. Do lar. Do desejo de filhos. Essas coisas de mulher que ainda não
sofreu. Passaram os quinze anos e você não apareceu com essa carinha de menino carente
e a fragilidade que tanto te expõe e a delicadeza de me amar mesmo sem me conhecer,
sem saber quem sou na verdade. Quanto prazer pode dar a uma mulher! E quanta
insegurança! Esperança fizera seus planos e a segurança vinha em primeiro lugar. De
repente, eu chego, inseguro, dependente de minha mãe e dependente de você.

– Amanhã começo num bom emprego. Em breve, vou me mudar. Tenho até um
apartamento em vista.
— E a música?

— É só um hobby.

Quero que você venha a Friburgo comigo, diz ela. Vou passar a semana santa.
Preciso refletir sobre muitas coisas. Pergunto quanto a meu emprego. Ela diz que Magda
conhece metade dos médicos do Rio. Arranja um atestado para você. Se puderam ficar a
vida toda sem você, poderão ficar mais uns dias. Dá uma risadinha. Na Páscoa teremos a
decisão acertada.

Não entendi. Decidir o quê? Mas me dei conta de que instantes antes eu esperava
de seus lábios uma palavra de separação. Meu silêncio passou então da dor ao alívio. A
perspectiva de uns dias longe do Rio, num lugar idílico como Esperança dissera ser o
sitio onde passou a infância, com Esperança — por que não? Antes do anoitecer, num
crepúsculo abissal, descemos de bondinho. Quando atravessávamos os arcos, Esperança
recostou a cabeça em meu ombro.

Ao chegar em casa para fazer as malas encontrei um clima estranho. Minha mãe e
minha tia caminhavam de um lado para o outro inquietas cochichando. Evidentemente o
assunto era eu. Fecharam-se num quarto e entrei no meu. Não consigo me concentrar na
escolha das roupas. A meteorologia previu frio na serra. Enfiava as roupas de qualquer
jeito na bolsa e as duas irmãs entram.

– Já sabemos, meu filho.

Já sabiam?

Sim, e até entendiam. Mas por que não me disse?

Ergo olhos para minha mãe e ela continua falando. Sei que nunca conversamos
muito, disse, e nesses casos não há muito que possa ser feito, mas...

Eu podia imaginar. Assim como fizera Tereza demitir Esperança, Sara não se
calaria com minha mãe. O que pretendia? Que vantagem? que vingança? que volúpia?
Fazer-se de vítima? Jogar minha mãe contra mim? Fazê-la me deserdar? Obrigar- me a
romper com Esperança e ficar com ela, com Sarah?

– E sei, meu filho – disse minha tia – que você entende que não pode mais ficar na
casa de sua mãe e — Já estou mesmo saindo. Ela retrucou: Está zangado conosco?

– Ora essa! eu é que devia estar zangada com você! Sei que falhei muito como
mãe mas sempre te amei e fiz tudo pelo seu bem.

Eu também amava minha mãe mas não parecia mais possível erguer uma ponte
sobre nosso abismo aprofundado agora pelo mal-entendido que ricocheteava nas
palavras. Meu Deus! O que estou fazendo neste teatro grotesco? Fecho a bolsa.

– Mãe, não vamos discutir. A vida é minha. Tenho direito de vivê-la como quiser.

Ela franziu as sobrancelhas e passou a mão nos cabelos e disse sim, a vida é sua e
minha tia completou: – E a morte também será.

Morte?

– Mas você não tinha, meu filho, o direito de mentir.

Mentir?

Barulhos fora do prédio. Uma mulher lavando roupas. Sim. Mentir sobre o
emprego. Ah. Quisera correr para os braços de minha mãe e abraçá-la. Não é natural esse
rancor de parte a parte. – Não menti, mãe. Só adiei o início para resolver um imprevisto.
Bem, estou indo.

Mal escuto a voz de minha mãe. Diz – Você bem sabe que não começará nem
nesse emprego nem em qualquer outro. O gato se enrosca em minha perna. Talvez, digo.
Talvez eu viva da música. Estão vendo? Estou levando o violão.

— Meu filho...

— Mãe, vou passar uns dias em Nova Friburgo. Na volta, vou ficar na casa do
Sérgio.

— Aquele rapaz que vinha jogar xadrez com você?

— Ele mesmo. Agora tenho de ir.

Fiz menção de beijá-la e ela afastou o rosto tão instintivamente que me assustou.
Saí.

A meteorologia não se enganara quanto ao frio em Friburgo. Descemos antes da


rodoviária, na casa da mãe de Esperança. Belas pessoas. Abraçam e beijam a filha e irmã
com efusiva ternura. O abraço que a senhora me dá é quente e sincero. À tarde fomos
para o sítio. A tia de Esperança era a caseira do lugar e vivia com a mãe. Os donos
raramente apareciam e não daquela vez. Esperança cuidava da avó, dava-lhe banho e
injeção, comida, levava ao banheiro e trocava suas roupas e conversava com seus
delírios.

Dona Letícia, a tia, disse para darmos uma volta. Não tinha cabimento as visitas
trabalhando. Deixa, menino, eu lavo a louça. A cachoeira está bem bonita. Na trilha, as
folhas secas rangiam e aves cantavam e a brisa gemia entre as árvores. Sentamos na
pedra. As águas murmuravam uma canção de paz no hiato das águas, um pequenino lago,
antes de despencarem no bosque lá embaixo e seguirem seu sinuoso caminho. Cedo ou
tarde desembocariam no mar distante. Nosso recanto de amor naquela tarde e nas demais.
Na verdade não me lembro de ter ficado em minha vida inteira tão continuamente
excitado. Jamais será aplacada a paixão?

Os anões do jardim nos observavam quando entramos. Dona Letícia preparou o


quarto, o único além do seu. Duas camas, uma de casal, mas ela arrumou a de solteiro
para Esperança, por recato ou gozação. Tudo bem. Deitávamos separados e a porta aberta
e, quando acordávamos juntos, ela nunca estava perto. Quando chegava para almoço ou
estávamos na varanda descascando legumes ou escolhendo na horta escolhendo verduras.
À mesa quatro cadeiras. Dona Letícia acha graça até de sua mãe entre a catatonia e o
delírio. A princípio eu me choco mas a senhora não parece sofrer.

Assim por muitos dias, deixa eu ver, umas duas semanas. Um pouco mais à tarde
íamos à cascata. À noite, protegidos com mantas de nossas ardências na friagem,
ouvíamos música. Esperança me mostrou sua coleção de óperas e o fascínio sobre mim
foi instantâneo; mas prefiro, disse um dia, que você cante suas próprias canções. E cantei.

Além das galinhas e dos patos e do feroz Papa, filho do velho pastor da
adolescência de Esperança, havia na casa a gata Mitsy. Dona Letícia a encontrara
abandonada havia um ano. Nas refeições sentada ao pé da mesa Mitsy lançava um olhar
fixo de súplica. “Vem, Mitsy, vem cá”. Ela brunnnn pula e continua ronronando. Quando
eu dava sua comida, iaunnnnnn, agradecia antes de comer. À noite o motorzinho entrava
sob os cobertores e permanecia conosco até de manhã.

Segunda-feira após o domingo de Páscoa às 17h30 no trânsito do fim de feriados


voltamos. Amanhã, estabelecido na casa de Sérgio, buscarei com Magda o atestado. Dará
tudo certo.

P4B; C3BR; P4BD; P3R. Sérgio esperou muito tempo pela minha jogada
seguinte, uma óbvia saída de bispo. A contemplação do tabuleiro não controla o meio e
ganha o jogo mas eu perdera a concentração. B2C também para as brancas. A Tijuca é
um bairro alegre. Fogos e sons de alegria do Borel. A janela dá para lá. Demorei a
perceber a jogada e a responder ainda mais. Sérgio acende um cigarro e liga baixinho a
TV. Roquei e retornei ao amanhã. Eu estava pensando em vida em comum. Estava
pensando em Esperança. Na dificuldade de encontrar um apartamento barato para alugar
no Rio de Janeiro. Não parei de pensar nisso desde a chegada de Friburgo. A mulher de
Sérgio me olha com um quê de reprovação, não me sinto à vontade com ela por perto.
Agora vai dormir. Meu parceiro, mesmo um minuto antes distraído pelo noticiário,
C3BD, retruca rápido. Incomoda-me também que pensem que eu seja bissexual e viciado
em drogas injetáveis, segundo a confissão que eu não fiz a Sara. P3D. Chove. Não creio
que Sérgio pudesse compreender a história. AIDS! Sarah foi longe demais. Tirarei
satisfações? P5D. Pensando bem, a demissão de Esperança provocou nossa viagem e
assim, mentindo para minha mãe, Sarah precipitou o que eu já devia ter feito há muito
tempo, sair de casa. P4R. Viver minha vida.

Conheci Sérgio na praia, na quarta-feira antes de Esperança. Aproximei-me por


causa do pequeno tabuleiro em que estudava partidas do recente campeonato mundial
num hotel ali perto. Levamos um inglês que se afogou ao hospital, ele não resistiu. Olhar
fixo, absorto. Deus dos movimentos reluzindo ao sol. Lá longe um cruzeiro. Sentei e
perguntei se estava a fim de uma partida. Quando o sol se punha e ele entrava no carro,
ele me convidou para um fim de semana com ele e a esposa. Temos, disse-me, uma
amiga com quem penso você se dará bem. Caso fosse preciso quem sabe eu até pudesse
passar uns dias a mais. Tinham um quarto nos fundos.

Minha jogada: C(5C)4R. Levanto para esticar as pernas. Dedos entre os discos na
estante. A dedicatória de Cristina pelo último aniversário do marido. Olhos de novo para
Sérgio. Está de olhos fechados. O casal mal se fala. Está sozinha com o bebê no quarto.
Choro de criança. Vizinhos. Um jornal na estante. — Xeque — declarou na minha
distração. A torre branca se interpõe entre a dama e meu rei. Em negrito o anúncio no pé
da página. Um anúncio pessoal. Essa súbita falta de ar. Essa raiva — ou será tristeza?
Voltei e sentei e a desamparada mão se moveu pelo tabuleiro. D8T+; R3C; D8R; R3T.
Antes de um novo cheque, abandono a partida com a mão estendida de perdedor.

Um momento por que não esperava passar. Sete horas no relógio da Central. A
casa que não será o cenário que desejei. O percurso da casa de Sérgio à de Magda, do
Andaraí ao centro do Rio, num misto de amor e ódio, desespero e auto-estima ferida. O
mesmo corredor do primeiro dia mas não parece o mesmo lugar. A mesma sala do
primeiro dia — a mesma Esperança?

Por que você não me disse? Uma lágrima.

Esperança tem esse jeito de falar olhando nos olhos. – Por que não disse?
Conversaríamos hoje, lembra? Sim, a Virgem morena. 1m78. Sexy. Discreta. Senhores
educados. Talvez nem se chame de fato Esperança. Não falo mais. Era a mágoa contra o
pai e o irmão, o rancor contra os homens? Não. O dinheiro. A independência. Casa,
viagens, segurança financeira. Não sei se entendo o porquê de tanta franqueza.

Quando nos encontramos, ela havia decidido a vida. Quando decidiu, não se
julgava capaz de amar. Ela tem um passado e bem recente. A noite é linda, calma. Eu a
conheci como enfermeira, não por um anúncio. Eis a origens de todos aqueles
telefonemas... Ela não dava o número de Magda. Usava uma caixa postal de voz, preferia
assim. Então perdi contato com sua voz ao levar em conta que ela não tinha atendido as
ligações. Subentendendo da reação de Magda à minha aparição que apenas eu tivera o
privilégio do endereço. Eu havia sido o único.

Lágrimas umedecem as palavras. Sempre me lembrarei de você. Estou chocado


pela crueza de sua determinação. Em meus braços. Eu amo você, de verdade... Seus
lábios em meu peito. Esperança não podia entrar assim em minha vida e vira-la do avesso
e depois partir. Não posso voltar às minhas trevas. Eu a impedirei. Eu a ensinarei a me
amar.

– Não fale mais por favor, se realmente me ama.

As fachadas decrépitas de prédios-fantasmas. Esperança não é uma mulher


comum. Talvez eu não seja um homem comum. É naturalmente um impasse.

Em uma cidade do Nordeste, uma mulher encontrou um garoto na rua, na miséria.


Levou-o para casa e se afeiçoou. Adotou-o. O marido resmungava. Num lugar como
aqui, já pensou se você for trazer para casa todo menino-de-rua que achar por aí? A
mulher respondeu. E se a gente, em vez de trazer para cá, construísse uma casa para eles?
O marido disse Você está louca! e no dia seguinte tomou as providências. Começou
assim. Hoje a casa não é tão pequena. Tem ala de meninas. Professoras, médicas, todo
tipo de serviço voluntário. É albergue, creche, escola, posto de saúde. Tudo mantido por
aquele marido, tio de Magda. Estão precisando de uma enfermeira. Magda não quer ir.
Diz que não tem vocação. Está querendo casar.

E quanto a Esperança? Tinha vocação?

Não sabe.

Talvez um dia nos reencontrássemos.

Um demorado abraço na rodoviária.


No ponto de táxi, Magda disse que já estava se esquecendo e me deu o papel.
Meneei a cabeça sorrindo e peguei e junto veio a foto. Rasguei o atestado. Desculpe o
incômodo, eu disse. Não era mais preciso. Não vou mais pegar esse emprego.

— Não? E o que vai fazer?

— Seguir a minha vocação.

***

Agradeço a garoa de aplausos e deixo o palco. Guardo o violão. Saio do clube e


entro em Paris. Faubourg Saint-Denis. Acompanho as pessoas sob os toldos. Essa jovem
indo para seu lugar com muito porte. Reta e orgulhosa. Esse silêncio é o silêncio que
precede o sino. Todas as coisas em suspenso. Rostos sem nome. O arco. Os pequenos
prédios. A cidade caminha comigo. Dormi e acordei e continuo sonhando. A passagem
do metrô. Meu rosto no vidro do trem. Existo, minha existência é necessária. Minha
estação.

Em 1983 quando cheguei havia muitos brasileiros, não muitos com bolsas de
estudo e menos do que eu imaginava com ajuda da família. A maioria como eu mesmo,
sem dinheiro. Procurando casa e emprego. Dei sorte. Conheci uma francesa e comecei
logo cuidando de crianças. Depois fui vendedor numa loja e só aí arrisquei tocar na rua.
Mudei muito, portanto. A necessidade que faz o sapo pular lançou longe minha timidez.
O metrô depois - coisa chique com autorização da empresa de trens e tudo. Minha amiga
falou com o pároco e deixei um anuncio no mural na igreja. Deu certo. Um projeto
chamado “Nuits de Rio”. Licence em Estrasburgo, Master Professionnel em Paris. Uma
turnê numa orquestra de 90 músicos. Em Montreux conheci minha mulher, uma
colombiana, mas já nos separamos. E aqui estou agora.

Não imagino mais sexo sem Esperança. Há eunucos que assim nasceram e há os
que se fizeram assim por Deus e outros a quem os homem e há eu sem Esperança. Sim,
doce querida amiga, eu me lembrarei sempre de você.

Ontem na carta disse a ela do meu contrato e das apresentações nesses


lugarzinhos. Acredito ter sido a melhor opção. Dá para viver razoavelmente bem. Falei de
Julia Vorontsova. Estarei tentando fazer ciúmes? Quanto à ópera, está bem avançada,
amiga.

Gosto de Marais, das pessoas misturadas sobre a grama, mas o que realmente
adoro é tomar um café e voltar para casa, deixando lá fora os passos da marcha e meu
destino circunstancial. É quando dedilho meu poema de posteridade e encho páginas com
um cântico imortal.

Não via a hora de acabar o show para abrir a carta de Esperança. Ela também se
sente bem, realizada. Acredito que a distância seja o lugar onde está mais perto de mim.
Na sua ausência sua presença é mais completa, não há sentimento de posse ou a
inquietação de um desejo constante. Uma voz interior me desmente, é claro; diz estou
totalmente errado e louco e me enganando. Que nosso relacionamento era perfeito e
poderia continuar a ser. Enfim. Não somos pessoas comuns, como as invejo! A elas é
dado amar e deixar de amar. Juntarem-se e separarem-se. A nós restou amar e nos separar
e amarmo-nos ainda mais. O desenvolvimento natural das coisas substituído por um
equivalente transcendental.

De resto, ao lado de Esperança talvez eu não tivesse condições de criar minha


obra como tenho feito. Porque o gozo é efêmero e a alegria alienada. Ao lado de
Esperança, eu criança, não poderia fugir da felicidade. E como se pode ser plenamente
realizado e feliz quando apenas isso se busca ser? Como se pode buscar a felicidade
pessoal num mundo de tanto sofrimento? Num mundo que é meio e não fim, exista ou
não um outro além. Felicidade: as pessoas comuns não crescem — não, não as invejo.

Em meu quarto, olho a janela. Lá fora uma estrela. O vento sopra, passam as
nuvens. Eu não voltarei mais mas estou aqui agora. Luz. Além, muito além dos sons de
meu violão, que como uma oração o gravador repete. Além do libreto em minha mesa,
dos poemas, minha história. A vida apenas vivida passa; os sentimentos registrados
permanecem.

Lá fora uma estrela. Esperança plena, inatingível, mesmo para os anos-luz do


melhor de mim. De qualquer modo, nosso primeiro beijo na praia foi mesmo um marco
de eterno amor.
É noite, agora também no Brasil, e posso vê-la em algum lugar desse pequeno
mundo errante na vastidão infinita, ouvindo um blues apaziguador baixinho sob seu
travesseiro, o brilho de seus olhos aceso na noite por uma saudade serena. Insone a luz do
abajur de meu quarto, não choro nem me sinto miserável.

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Os passos lembram batidas numa porta. As fotos na mesa diante da mulher


aureolada pela janela. – Essa é você, acredite – Volta a caminhar pela sala e fala sozinha
como uma atriz decora um texto. – Podíamos estar envelhecendo juntos... – Quando se
olhava no espelho segurava o ombro direito num tique de tão velho quase amigo. Um
corpo cada dia mais sensível. A vida é assim, não há o que possa ser feito. Como se
concentrar ao lado de pessoas puxando conversa o tempo todo. Aperta a carne segundo as
lembranças. Tirou a blusa e saiu do espelho e se afastou da mesa e das fotos como se
pudesse calar o passado. No fundo não havia nada a ser lembrado como um sonho que
cumpriu sua função de regularizar a atividade cerebral durante o sono.

Ele se aproxima do piano e o toque na guarnição lateral é uma carícia. Ao se virar


para a janela, um sino toca em algum lugar. – Professor? O senhor podia pegar outra
toalha para mim? – Para chegar a esse momento subira dramática as escadas da pensão, o
próprio finale da sétima de Dvorák no último volume. – Por favor, abaixe isso, vou dar
queixa!

Chegara da faculdade e nem foi se trocar. O vestido vermelho caiu bem,


confortável, parece sob medida. Está de sandálias. Não agüentava mais o salto mas esse
barulho. – Por favor, vou dar queixa, estou falando sério! – Está frio. O dia mais quente
do inverno mas agora esfriou. O segundo andar é todo assim, escuro e frio, acolhedor. Ela
força a maçaneta redonda e marrom como seus olhos.
Nunca foi muito de cozinhar, mas tem melhorado. O cheiro que lento se dissipa é
de liberdade. Tilintar dos utensílios. A porta para a área sempre aberta. Precisa de todo ar
que puder respirar. Desligou o fogo e veio um resquício de fritura com o gás
interrompido. Sua saúde uma incógnita. Quem acreditaria se dissesse que há mais de
cinco anos não faz um exame de sangue? Voltou à sala de passagem para o quarto e se
deitou silenciosa como se cuidasse para não despertar os fantasmas. De barriga para cima
e mãos na nuca seus braços ganham contorno de bronze.

Uma vez quando a viu seminua exposta como apenas ele deveria estar ao lado do
violoncelo (a luz refletiu na costilha, nascia ali) – Você é minha salvação —disse,
deslumbrado. – Não me ame assim – respondeu ela; não preciso desse tipo de amor.

Deitada de costas na cama ri sozinha. Pela ponta dos dedos suas mãos de dão
sobre a cabeça. Se estivesse em pé seria uma prisioneira; vestida assim, uma escrava
sexual. Os cotovelos se apóiam no colchão. A bermuda no cabide do lado de fora do
armário pendurada na chave se desfia como se derretesse. Pingos amarelados de brim
caindo no assoalho. A luz em sua garganta e entre o início dos seios provém dos mesmos
raios na cortina que ondula. Os mesmos dedos que se davam junto aos cabelos apalpam
agora o quadro na parede. Veja essa linha azul, esse azul mais desbotado, esse céu. O
abajur encostado ao tecido da tela aquecida pelo crepúsculo.

– Não olhe para a blusa – retrucou ele quando ela desabotoava o seguinte. – Olhe
para mim – Nao raro ela confundia essas fantasias com sonhos e sonhos com lembranças
e um dia decidiu que no fim das contas a diferença era nenhuma.

A aluna entra e caminha até ele e toca seu ombro e pergunta se é divorciado e se
queria se casar de novo mas ele não chegara a responder a primeira. Ela nem ouve mais a
música alta. Está parada e ele sentado, a boca à altura dos seios. Sempre se sentiu assim
em relação aas moças da pensão. Nessas horas perdia a noção de tempo mas nao de
espaço e achava melhor ou tudo ou nada mas sem Esperança tinha de conviver com essas
experiências incompletas. Os orgasmos agora tinham um depois enlouquecedor.

Pensando assim teve forcas para mesmo tão perto de outro corpo feminino tocar
sim mas para afastá-lo como um cachorro grande focinha um pequeninos para tirá-lo do
caminho. Tenho de dar um telefonema, disse. Era uma desculpa e era verdade.

Adele saira do banho e se enxugava. Porte e estatura. Magreza fortalecida pela


academia, as ancas largas. O espelho confirmava seus pensamentos e a lágrima os
comentava quando o telefone tocou.

Caminha na direção do som, mastigando. – Não tem ninguém aqui com esse nome
– Tinha quase se escandalizado. O aparelho era decoração e a hora é completamente
imprópria.

De novo.

— Senhor, já disse que não há ninguém aqui com esse nome.

— Tudo bem.

O diálogo se repetirá em segundos. Irritação e um prazer estranho em sua voz.

— Tudo bem — ela respondeu. — Tente outra vez; vou desligar e deixar fora do
gancho. — Não faça isso. — Deixar o telefone fora do gancho?

— Desligar.

Ele revela que é um músico consagrado. Não que isso importe mas respeitado em
todo o mundo. Ela não ficou minimamente impressionada mas logo sim, quando ele fez
confissões verdadeiras exceto pelo próprio nome.

Está encantada, na verdade. Um homem tão famoso e apesar de tão simples dono
de tanta erudição.

Algum dia, não havendo impedimento, será hora de se conhecerem.

Um mês depois ela trabalha em casa como quando era menina. Dispensou a
diarista e assumiu suas dificuldades e agora o piso espelha o dia. Varre e passa a cera e o
pano e limpa o banheiro com três produtos. Perdeu a prática e as luvas atrapalham os
movimentos. Deu uma parada e abriu a geladeira, pegou uma coca. Nesse tempo tinha
começado a questionar sua evolução profissional e se perguntava se um dia usufruiria de
novo a alegria indizível de tomar refrigerante no colo de um homem ou um banho de
imersão junto nas águas escuras de uma lagoa entre cascatas.

Mas tentará não pensar em Paris. Ele encontrou a paz e não será ela a estorvá-lo.
Então o aspirador ruge como um bicho.

Modelada pelas duas lâmpadas sobre a arca de mogno caminha ereta pela sala A
camisa se depreende quando ela se abaixa ao tirar a mesa se revela o contorno escuro das
pernas que a amiga não deixa de notar ao comentar com a administradora do hospital que
tampouco ela consegue dormir uma noite inteira.

Tomam um gole dos copos do jantar ao mesmo tempo. Os músculos de sua face
estão tesos. Faz um contato visual inequívoco mas se lembra que é sua chefe.

– Pode ser que ele seja um canalha, quem garante que não? Um assassino.
Acontece.

A portinhola do armário da cozinha está aberta sobre a cabeça de Adele e a pilha


de pratos não faz muito sentido na casa de uma mulher que mora sozinha.

– Tenha cautela – recomenda a amiga. – Tenha cautela.

Uma diante da outra na bancada; as mãos espalmadas quase se tocando. Sem


denotar emoção, a médica responde que sim, claro. – Terei cautela.

A cada volta do conservatório uma palavra ou uma frase é acrescentada ou


retirada segundo o murmúrio desse parque de passantes ao acaso ou dos comentários das
mães levando os bebês em seus carrinhos. Ou as palavras em meio ao riso cúmplice de
um casal de mãos dadas. A luz oblíqua no prédio em frente.

Será hoje, ele pensa ao entrar sob a luz que doura a fachada. Hoje ou nunca.

A doutora Adele Mistral ouviu e se tornou uma menina.

– Para você está bem amanhã às cinco no parque? – deve ter levado meia hora
para pronunciar a pergunta.

Estava muito ansiosa. Todos notam no trabalho e uma ou duas amigas torciam
para que desse certo; era uma boa chefe, merecia.

Pela manhã no espelho pensava na serenidade que deveria ter. Para o maestro
vulgaridade deve ser imperdoável como falha de caráter.

Se fizera bonita com a ajuda de uma sobrinha. Vestia com garbo um vestido de
gabardine xadrez cujas alças que se cruzavam nas costas.

Lá estava debaixo de um céu rosado sentada no banco com recosto colorido. Ele a
viu e se manteve à distância enquanto outras pessoas sentavam próximas, nos bancos em
torno do playground médio envernizado. Um homem jovem e bonito de jeans e camisa
branca e sapato preto de camurça, como o combinado. Olhou-a de alto a baixo.

Embora ela não fosse tão jovem, não era de se jogar fora. A principio se divertiu
com o engano. Um pretexto decerto para se aproximar. Não parecia uma prostituta.
Talvez uma esposa frustrada. Não importa. Terá o que está pedindo. – Então vamos sair
daqui?

Cheia de dor ela vê diante de si um homem de mais de quarenta anos que aparenta
menos de 30. E não mencionara beleza física, pelo contrário, dissera ser de aparência
comum.

Quando ela deixasse seu apartamento e chegasse o amigo com quem combinara
ver o filme, ele contaria os detalhes da noitada.

Adele quis chorar, mas desistiu. O homem encontrava a cada instante novos
encantos na louca que o abordara.

No restaurante fizeram um brinde. Ela pediu que ele a deixasse em casa.

– Acho melhor não — disse ela. — Preciso acordar cedo amanhã.

Mas depois cedeu. Não faria diferença quando ela estivesse morta.

Banhado em suor, o professor de música entrou no prédio logo depois. Você ainda
vai se dar mal, a mãe dele costumava dizer. —Será um irmão irado ou um ex-namorado
ou a própria polícia.

O interfone toca — Senhora, posso mandar subir o senhor... Como é mesmo o


seu nome?

Ouviram o grito de socorro e subiram enquanto o rapaz e Adele se amaldiçoam.

– Você é louca! Vagabunda! E eu perdi uma grande noite com um amigo a quem
amo para estar com você.

– Você não é ele!

– É claro que não ele, sua idiota — disse, fechando o zíper da calça. – Agora
posso até ser preso por estupro...

— Você ia me estuprar mesmo!

O elevador parou e a porta abriu. O rapaz virou-se para Adele, praguejando.


Tornou a fechar e trancar a porta que abrira para sair.

Ela correu entre os moveis e parou atrás do sofá e pulou na poltrona. Ouviu as
batidas na porta. Duas vozes de homem. Ela gritou e gritou novamente e de novo.
A penitenciária apesar das atuantes. Adele visitava aos domingos o velho amigo
que a viu de longe após tantos e tantos anos. O velho amigo. O antigo amor. Que estava
e nao estava ali. Que a salvara e nao salvara. Sequer a si mesmo. Ou sim. Nao tem certeza
de nada. Para que serve um amigo. Um antigo amor. O amor, aliás. Essa luz encarcerada
e a velha vista da feira onde estaria bem logo batendo fotos. Va saber. No fim das contas
o valor das coisas estah tao pulverizado nos seres humabos, em cada um deles, que saber
ou nao qualquer coisa faz nenhuma diferenca. Fazer sim. Alguma. Nao tao definitiva.
Mas alguma. Cinco anos, talvez menos, na cela úmida.

Adele o considerava seu salvador, um grande amigo, namorado de sua juventude;


mas mantinha em seu coração o grande amor pelo maestro, homem feito, maduro,
independe e realizado, embora ele não mais tivesse ligado e ainda que jamais voltasse a
ligar.
Fim