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07/01/2018 O lado obscuro do ‘milagre econômico’ da ditadura: o boom da desigualdade | Economia | EL PAÍS

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Una gran caída económica acecha
a Argentina y al mundo

ECONOMIA

DITADURA MILITAR BRASILEIRA »

O lado obscuro do ‘milagre econômico’ da


ditadura: o boom da desigualdade
Mesmo com o forte crescimento e criação de empregos no período
militar, os salários foram achatados e a distância entre ricos e
pobres cresceu

Inauguração da Ponte Rio-Niterói.


Reprodução

BEATRIZ SANZ | HELOÍSA MENDONÇA


São Paulo - 28 NOV 2017 - 19:05 BRST

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O Brasil polarizado tem


reproduzido uma frase que
estava na boca de alguns
saudosistas de tempos em que
notícias sobre violência e
economia em marcha lenta
pareciam raras. “Na época dos
Rubens Valente: “Parecer do Governo
militares era melhor”, tornou-
sobre demarcação indígena é um
se bordão de quem viveu retrocesso de 50 anos”
aqueles anos, e ignora a
repressão e a presença de
censores nos jornais da época
para filtrar notícias negativas à
ditadura.  A ideia ressurgiu
inclusive entre jovens que se
anunciam eleitores do pré-
candidato à presidência Jair
Os 100 anos de João Saldanha, o
Bolsonaro, por acreditar que técnico que atormentou a ditadura
no tempo do regime militar o militar
Brasil era mais alentador do
que os dias atuais. Bolsonaro
alimenta essa ideia tecendo
elogios ao período. Entre os
argumentos mais utilizados
pelo candidato e pelos
defensores da intervenção
para mostrar a eficácia do
Brilhante Ustra, ícone da repressão da
regime está a conquista do ditadura brasileira
"milagre econômico", que
ocorreu no Brasil entre 1968 e
1973. De fato, nesta época, o país conseguiu crescer
exponencialmente, cerca de 10% ao ano, e atingiu, em 1973, uma
marca recorde do Produto Interno Bruto (PIB), que aumentou
14%. O avanço veio acompanhado também de uma forte queda de
inflação. A taxa, medida na época pelo Índice Geral de Preço (IGP),
caiu de 25,5% para 15,6% no período.

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Este es el libro en el que "se basó" el


presidente para redactar la nueva ley.
Adelantate a la Reforma Impositiva.

O que não se explica diante desse número, entretanto, é o fato de


o crescimento ter sido muito bom para empresários, e ruim para
os trabalhadores. Para que o plano de crescimento funcionasse,
os militares resolveram conter os salários, mudando a fórmula que
previa o reajuste da remuneração pela inflação, o que levou a
perdas reais para os trabalhadores. A adoção de uma medida tão
impopular só foi possível através do aparato repressivo do regime
sobre os sindicatos, que diminui o poder dos movimentos e de
negociação dos operários. Os militares também interferiram em
diversos sindicatos, muitas vezes substituindo seus dirigentes.
“Foi um crescimento às custas dos trabalhadores”, explica
Vinicius Müller, professor de história econômica do Insper. O
arrocho salarial acabou aliviando os custos dos empresários e
permitiu reduzir a inflação.

A melhora na atividade econômica se explicava, à época, por uma


combinação de fatores. Uma conjuntura mundial mais favorável
naqueles anos permitiu crédito externo farto e barato, por
exemplo. O Brasil, por sua vez, criou regras que facilitaram a
entrada de capital estrangeiro e investiu num programa de
desenvolvimento do parque industrial além de reformas
estruturais. O crescimento foi acompanhado pela abertura de
novos postos de emprego no mercado formal e da expansão do
consumo interno. Economistas ouvidos pelo EL PAÍS explicam que
o milagre aconteceu principalmente regado a dinheiro
internacional que aterrissou através da entrada de multinacionais
que encontraram no Brasil um terreno propício para a expansão
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sob a tutela dos militares, e também por empréstimos advindos de


fundos internacionais. Era um ambiente oposto ao do período
anterior ao golpe de 1964, quando a grande convulsão política, em
plena guerra fria, no país tornava o ambiente econômico incerto e
afugentava o investidor.

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Problemas sociais
Como a distribuição dos resultados do crescimento econômico foi
bastante desigual, a concentração de renda também aumentou
muito no período, especialmente entre a população que possuía
um grau maior de instrução. Isso fez com que a desigualdade
social conhecesse níveis nunca vistos antes. Em 1960, antes da
ditadura, o índice de Gini, utilizado para medir a concentração de
renda estava em 0,54 (o coeficiente de Gini vai de 0 a 1, quanto
mais perto de 1, mais desigual) e pulou para 0,63 em 1977. Os
economistas foram unânimes em dizer que os empresários e a
classe média que possuía maior nível de instrução foram
beneficiados em detrimento da parte mais pobre da população.

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Os altos índices de crescimento do PIB vividos enquanto a


ditadura esteve instalada no país também não foram
acompanhados de uma melhora nos indicadores sociais. Foi
exatamente o oposto do que aconteceu.
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Além disso, como o governo militar fez uma escolha de investir


maciçamente na industrialização, inclusive do campo, muitas
pessoas decidiram abandonar o sertão com o sonho de tentar
uma vida melhor na cidade, incentivando um êxodo rural sem
planejamento e nunca revertido. Segundo o IBGE apenas 16% da
população morava no interior do país em 2010.

O crescimento econômico durante a ditadura começou a ser


alavancado durante o Governo de Castelo Branco, que adotou um
ambicioso programa de reformas para equilibrar as contas
públicas, controlar a inflação e desenvolver o mercado de créditos.
Batizado de Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), ele foi
responsável por reformas fiscais, tributárias e financeiras.
Castello Branco implementou diversas medidas no sentido de
incentivar um maior grau de abertura da economia brasileira ao
comércio e ao movimento de capitais com o exterior. A partir de
1964, também foram introduzidos na legislação brasileira diversos
mecanismos de incentivos às exportações.

Mas foi no Governo do general Emílio Garrastazu de Médici, sob o


comando do então ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, que
o projeto econômico teve como princípio o crescimento rápido,
com expressivo aumento da produção – com destaque para
indústria automobilística- e grandes obras de infraestrutura. “O
Governo apostou em grandes obras e investimento estimulando o
setor privado e usando o crescimento como propaganda para
legitimar o regime durante a época mais repressiva da ditadura.
Era muito importante que ele tivesse apoio de uma parte da
sociedade”, explica Muller.

Foi nessa época que nasceu o primeiro Plano Nacional de


Desenvolvimento (IPND). O plano investiu principalmente na
construção de estradas e obras de infraestrutura, como por
exemplo, a Ponte Rio-Niterói (começou em 1969 e foi inaugurada
em 1974) e a nunca terminada rodovia Transamazônica.

Crise do petróleo
Na crista do ciclo do crescimento, a economia brasileira tão
dependente de empréstimos estrangeiros, passou a enfrentar
certa dificuldade quando uma forte crise econômica abalou o
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cenário internacional: o choque do petróleo. Conflitos entre países


membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(Opep) derrubaram a oferta do insumo entre 1973 e 1974, fazendo
os preços quase quadruplicarem no período (o barril subiu de três
dólares para11,60), afetando países importadores como o Brasil.

“Com a crise internacional de 1973, temos uma quebra deste


modelo econômico baseado no alto endividamento externo e, com
isso, a economia vai perdendo força”, afirma o historiador Pedro
Henrique Pedreira Campos, professor da Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Como a estabilidade econômica
era um argumento essencial para a manutenção do governo
militar, os economistas que faziam parte do regime optaram por
não abrir mão do modelo e decidiram que o país deveria continuar
crescendo a qualquer custo, mesmo que continuasse se
endividando cada vez mais.

Foi nesse contexto que surgiu o segundo Plano Nacional de


Desenvolvimento (IIPND), este ainda mais ousado que o primeiro,
que investiu especialmente na criação e expansão de empresas
estatais. A Petrobras ganhou subsidiárias, a usina hidrelétrica de
Itaipu foi construída, mostrando o quanto a geração de energia era
uma bandeira importante naquele momento em que o Brasil ainda
não tinha uma matriz energética estabelecida e necessitava da
importação desse bem.

Muller destaca que “os militares tinham planejamento a longo


prazo” e que a ideia inicial era de que o país ficasse independente
da importação de energia e começasse a gerar renda com a sua
produção própria, essa renda seria utilizada para saldar a dívida
externa. O plano deles, entretanto, não contava com a retração
das maiores economias que, em determinado momento,
chegaram para cobrar a fatura. A crise se prolongou mais do que o
Governo imaginava.

Mas a conta do crescimento desenfreado baseado em um alto


grau de endividamento ficou para a redemocratização. Ao
deixarem o poder em 1984, a dívida representava 54% do PIB
segundo o Banco Central, quase quatro vezes maior do que na
época que eles tomaram o poder em 1964, quando o valor da

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dívida era de 15,7% do PIB. A inflação, por sua vez, chegou a


223%, em 1985. Quatro anos depois, o país ainda não tinha
conseguido se recuperar e ostentava um índice de inflação de
1782%. No jargão econômico, costuma-se dizer que os militares
deixaram uma “herança maldita”.

“Embora o regime tenha aparelhado muito bem grande parte do


nosso parque industrial, melhorado em aspectos técnicos e
tecnológicos a infraestrutura, quando veio a conta, a conta veio
muito alta”, explica Guilherme Grandi, professor da Faculdade de
Economia e Administração da USP (FEA/USP)”

Os militares e a corrupção
Outra percepção recorrente é a de que no período da ditadura não
havia corrupção. “Vários estudos já comprovaram que existia
corrupção e era mais fácil que esses malfeitos ocorressem porque
não havia investigação”, ressalta Grandi. Segundo ele, a relação
promíscua entre interesses privados e órgãos públicos foi
aprimorada nesse período.

Pedreira Campos é autor do livro Estranhas Catedrais: as


empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988 que
analisa mais profundamente essa relação. “Houve vários casos de
corrupção na ditadura, principalmente no período da abertura
envolvendo agentes do estado que foram acusados de se
apropriar de recursos públicos”.

A ausência de notícias sobre corrupção no período tem também


outra explicação. O Brasil viveu sob um regime de censura que foi
estabelecida nos meios de comunicação que estavam orientados
a publicar notícias que fossem favoráveis ao governo. E é por
conta dessa propensão a maquiar a realidade que notícias
denunciando escândalos de corrupção não estampavam a
manchete dos jornais. “Um cenário como esse é ideal para a
prática da corrupção, os indícios indicam que havia mais
corrupção naquele período”, completa Pedreira Campos.

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