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INTRODUÇÃO

O “tempo” é um termo que tem suas peculiaridades interpretativas de acordo


com os mais variados dicionários em nossa língua. Pode ter a definição de
temporalidade ininterrupta, sendo uma medida arbitrária de duração das coisas ou
alguma época determinada de algum evento. Pode significar também prazo, demora
e fora essas definições existem muitas outras direções que o termo aponta conforme
o seu contexto e utilização1. Sabendo que o termo específico não é o que se
expressa em nossa língua portuguesa, pois, não é o alvo de nosso estudo, assim
redirecionaremos para a real fonte de informação acerca do qual queremos abordar
que é o tempo no conceito judaico, sendo mais especifico na literatura judaica
apocalíptica messiânica.
A ênfase do estudo está contida nos documentos do Mar Morto, por ser a
comunidade de Qumran potencialmente apocalíptica e messiânica. Uma abordagem
mais detalhada será feita no documento 4Q246. Por ser messiânico, aludir também
ao tempo, e apresentar interface plural com o Novo e com o Antigo Testamento.
O assunto sobre o tempo da parousia no NT é discutido por vários autores
cristãos. E vários textos bíblicos básicos que nos mostram o motivo para que se
fundamente este pensamento se encontram nos Evangelhos Sinóticos, em Atos, nas
cartas paulinas, e em outros livros do NT. Isso nos mostra como essa preocupação
sempre permeou o pensamento dos que estudam e buscam determinar a vinda/volta
do Messias. Também isso é evidenciado na literatura judaica, de livros não
canonizados, como os pseudepígrafos e apócrifos.
Ao observarmos alguns textos/livros da literatura judaica, percebemos que ela
nos traz uma gama de informações acerca da idéia que existia e pairava no meio
judaico acerca do messianismo e apocalipticismo, tendo como fio condutor o “tempo”
e a “expectação”para que o processo de salvação ocorra.

1
http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=tempo

4
LITERATURA APOCALÍPTICA

Essa literatura é um gênero de escritos proféticos que foi desenvolvido na


cultura pós-exílico judaica e foi popular entre os cristãos primitivos milenialistas.
Apocalipse é uma palavra grega que significa “revelação”, “não velado ou
coisas descobertas não previamente conhecidas e que não poderia ser conhecida
fora desta revelação.”2 Como um gênero, a literatura apocalíptica detalha as visões
do autor sobre o fim dos tempos como revelado por um mensageiro ou anjo.3 A
literatura Apocalíptica do Judaísmo e do Cristianismo envolve um período
considerável dos séculos que seguem o exílio até o fechar das idade média.
O não cumprimento das profecias serviu para popularizar os métodos
apocalípticos em comparação com o não cumprimento do advento do reino
messiânico. Assim, embora, Jeremias tinha prometido que depois de setenta anos 4
Israel seria restaurado para sua própria terra,5 e então as bênçãos do reino
messiânico sob um rei messiânico,6 este período passaria e as coisas
permaneceriam como dantes. Alguns criam que o reino messiânico não era
necessariamente predito a ocorrer no fim das setenta semanas do exílio babilônico,
mas em algum tempo não especificado no futuro. A única coisa por certo era que foi
predito o retorno dos judeus a sua terra, a qual ocorreu quando Ciro, o persa,
conquistou Babilônia em 539 a.C. Assim, o cumprimento do reino messiânico
permaneceu no futuro para os judeus.
Haggai e Zacarias explicaram a “tardança” pela falha de Judá em reconstruir o
templo e assim esperança do reino permaneceu até a primeira metade do 2 o século
e a “tardança” foi explicada no livro de Daniel e Enoque como não por causa dos
atalhos do homem, mas pelos conselhos de Deus. Enoque 85 não interpretou os
setenta anos como Jeremias e nem como Daniel, mas como sendo 70 sucessivos
reinos dos 70 patronos angelicais das nações, as quais vieram a unirem-se com sua
própria geração. O livro de Enoque, entretanto, não foi considerado como inspirada
escritura pelos judeus, assim que cada profecia que falhava nela não acarretava
conseqüência à fé judaica.
2
Goswiller, Richard, Revelation, Pacific Study Series, Melbourne, (1987), p.3.
3
Collins, John Joseph The Apocalyptic Imagination: An Introduction to Jewish Apocalyptic Literature
(The Biblical Resource Series), 2002, p.424.
4
Jeremias 25:11, 29:10
5
Jeremias 29:5,6
6
Jeremiah 28:5,6

5
Tais idéias como aquelas do “o dia de YAHWEH” e os “novos céus e a nova
terra” eram reeditados pelos judeus com nuances atualizados em conformidade com
seus novos ajustes. Assim o desenvolvimento interior do apocalipticismo judaico foi
condicionado pela experiência histórica da nação. Mas as profecias encontradas nas
escrituras judaicas que não mudaram conforme o tempo aguardaram seu
cumprimento.
O objetivo desta literatura em geral era solucionar as dificuldades ligadas com
a justiça de Deus e a condição sofredora dos seus justos servos na Terra. A profecia
do AT primitivo ensinava que a necessidade da justiça pessoal e nacional e predita
na benção suprema da nação justa na presente Terra. Depois a profecia incorporou
uma idéia de futura vindicação da maldade atual, sempre incluindo a idéia de uma
pós-vida. Os profetas apocalípticos montaram um esboço da história do mundo da
raça humana, a origem do mal e seu curso e a consumação final de todas as coisas.
Os justos como uma nação deveria ainda possuir a terra e por reino messiânico
eterno na terra ou talvez em bênçãos temporárias aqui e bênçãos eternas no além.
Embora o indivíduo possa perecer entre as desordens deste mundo, a profecia
apocalíptica ensina que o justo não falharia ao alcançar através da ressurreição a
recompensa que era devida no reino messiânico ou no céu em si mesmo.

Livros Apocalípticos na Literatura Judaica

1) No Apocalipse de Abraão, que é um trabalho pseudepígrafo tendo


como base o AT, que foi composto por volta de 70-150 A.D., sendo de origem
judaica e considerado como parte da literatura apocalíptica, não tendo o devida
consideração nem pelo grupo judeu e nem pelo grupo cristão. É um texto
preservado na língua Slavonica e que faz parte do Explanatory Paleja que é um
compendio de vários textos do AT. Sua língua original possivelmente seja o hebraico
e foi traduzido para o Slavonico e posteriormente par ao grego. Ele esta preservado
em 6 manuscritos divididos em 2 famílias: a família S7 e a família A8, B9, e K10.

7
Sil'verstrovskij Sbornik, Moscow, Central'nyi Gosuderstvennyj Arxiv Drevnyx Aktov, Sin. Tip. 53, ff
164-183, 14th century.
8
Paleja of Volokolamsk, Moscow, Rossijkaja Gosudarstvennaja Biblioteka, 299, n. 704, ff 85-101,
15th century.
9
'Paleja, Moscow, Gosudarstvennui Istoriceskij Muzej, Sin. 211 (869), ff 79-90, 14th century.
10
Paleja of Soloveck, Petersburg, Rossijskaja Nacional'naja Biblioteka, Kazan. Dux. Akad. 431, ff79-
85, end 16th century.

6
Como toda literatura apocalíptica preservada em Slavonic, há um problema de
alterações textuais feita por Bogomils, que era interessado nesse tipo de literatura e
que contem alguns traços de típico princípio Dualístico de seus crentes. Também
este princípio se enquadra no Gnosticismo que era contemporâneo com os escritos
originais deste texto. Seu conteúdo é bem fantasioso e tendo como pano de fundo o
conflito entre Yahoel e Azazel. Ele retrata também a conversão de Abraão do
politeísmo para o Henoteísmo. É um trabalho notável da perspectiva judaica e não
judaica sendo de grande iconoclamos. O livro é dividido em três partes onde a parte
apocalíptica começa na segunda seção que trata do sacrifício de Abraão a Deus e
termina na última parte descrevendo a ascensão de Abraão ao céu. Deus apresenta
um julgamento que não se sabe quanto tempo duraria e a descrição dos últimos
tempos é dividida em 12 partes onde um personagem conhecido como homem
apareceria no lado pagão e seria adorado pelos pagãos, judeus e por Azazel e seria
insultado e humilhado por outros judeus. Então ocorreriam 10 pragas e finalmente
ao som da trombeta, o escolhido (Messias) é enviado para combater contra os
inimigos e o julgamento passara sobre os pagãos e os ímpios. O livro é finalizado
por uma pequena promessa de livramento da opressão.
Apesar de ter uma menção acerca da salvação tipificado na salvação de
Abraão, não é dado informações mais precisas acerca da realidade profética de um
messias-salvador, nem de um tempo em que vivia esse messias e salvaria a
humanidade e nem de uma expectação de uma aparição de uma figura messiânica.
Portanto conclui-se que nesse livro a concepção de tempo, profecia, apocalipse e
messias são quase inexistentes.

2) Outra interessante literatura judaica é o Apocalipse de Adão


descoberto em 1945 como parte da biblioteca de NAg Hammadi (Codex V 5.). É um
trabalho gnóstico escrito em copta. Foi-se discutido se ele é um trabalho Gnostico
cristão ou um Gnosticismo judaico. Ele proclama uma forma de Gnosticismo Setiano.
Adão em seus 700 anos conta a Sete como ele aprendeu a palavra do
conhecimento do eterno Deus de Eva e que ele e Eva eram de fato mais poderosos
do que seu suposto criador. Mas o conhecimento foi perdido na queda quando o
subcriador – o demiurgo – separou Adão de Eva. Adão relata como três misteriosos
estrangeiros trouxeram sobre a concepção de Sete e assim uma preservação deste
conhecimento. Adão então profetiza uma series de tentativas do deus-subcriador

7
destruir a raça humana, incluído a profecia do grande Dilúvio e de uma tentativa de
destruir por fogo mas um Iluminador viria no final. Quando o Iluminador viesse, 13
reinos proclamariam os 13 diferentes padrões, mas ao conflitar o nascimento da
lenda sobre o Iluminador, somente a “geração sem um rei” proclamaria a verdade.
As ultimas palavras não Gnosticas de Adão para Sete estão encontradas no Conflito
de Adão e Eva com Satanás, A vida de Adão e Eva e o Testamento de Adão.

3) O Apocalipse de Elias é um trabalho apócrifo anônimo apresentado


como uma revelação dada por um anjo. Duas versões são conhecidas hoje, um
fragmento cristão copta e uma versão judaica. Seu título deriva de menções de Elias
no texto, mas não há razão para assumir que ele seja autor do texto. Este livro esta
na Constituição Apostólica, a Lista dos Sessenta Livros, A Sinopse do Pseudo-
Atanásio, o Esticometro de Nipoceno e a lista Armeniana de Mequitar. Orígenes,
Ambrosio e Eutálio o citam. Pode ser pré-Paulino o livro, sendo citado também por
Epifaneo.11
A versão judaica do Apocalipse de Elias foi publicada por Adolg Jellinek 12 e
Moses Buttenwieser em 1897.13 Theodor Zahn14 assevera que esta apocalipse é do
segundo século A.D.15 mas outros eruditos rejeitam tal data antiga. As duas versoes
extensas são pensadas para ser derivadas do mesmo original, a qual seria uma
citação de Paulo. A versão copta tem sido cristianizada e a versão hebraica
condensada.
Do conteúdo do livro cabe salientar o aspecto acerca da orientação da noção
messiânica e sua temporalidade que traz informação acerca da destruição do filho
do iníquo sem lei depois do julgamento, e posteriormente, reeditada por um cristao
que se refere ao anticristo. Não ocorre menção clara acerca dessa temporalidade
messiânica do fim dos tempos.

4) O Apocalipse de Sedraque é um texto apócrifo antigo. O nome da


figura titular, Sedraque, pode ser a forma grega de Sadraque, um dos três indivíduos
posto na fornalha ardente no livro de Daniel. Pode, também, ser uma corrupção de

11
Haer. xlii., ed. Oehler, vol. ii. 678.
12
Bet ha-Midrasch, 1855, iii. 65-68.
13
Gesch. des N. T. Kanons, ii. 801-810
14
See Emil Schürer, iii. 267-271
15
http:/ / www. earlyjewishwritings. com/ apocelijah. html

8
Esdras, da forma grega Ezra, particularmente desde que o texto tem muita
similaridade com outros textos apócrifos atribuídos a Ezra, tal como o Apocalipse de
Ezra. Como muitas outras literaturas apocalípticas, o texto narra como Sedraque
recebeu a visão do céu, primeiro descrevendo alguém sendo enviado por Deus e
tomando-o daqui.
No livro é Jesus mesmo que vem e leva Sedraque, mas enquanto o texto
parece superficialmente cristão ele parece ser uma corrupção de um texto judaico
primitivo, com Jesus simplesmente tendo sido substituído no lugar do nome de um
arcanjo. Diferente de outros textos apocalípticos, entretanto, esta apocalipse discute
questões éticas, particularmente arrependimento, e Deus sendo misericordioso. Em
um marcante contraste a uma atitude amarga geralmente expressada no gênero
onde Deus é descrito como paciente disposto a ajudar o povo a fazer as escolhas
certas e levá-los ao arrependimento em cada oportunidade e o livre-arbítrio é visto
como algo docilmente dado, não uma armadilha viciosa.

5) O Apocalipse de Zefanias (ou Sofonias) é um texto pseudepígrado


(cuja autoria é desconhecida) mas atribuída ao Zefanias bíblico e associado ao AT,
mas não considerado como uma escritura feita nem pelo grupo dos Judeus e nem
dos Cristãos. Foi descoberto e publicado no século XIX. O canônico livro de
Zefanias tem muitas metáforas místicas e apocalípticas e este texto de estilo
apocalíptico lida com um assunto similar.
Este livro refere-se a história de Suzana, parece ser datado depois do ano 100
a.C. Também era provavelmente conhecido de Clemente de Alexandria e assim foi
escrito antes do ultimo quarto do segundo século A.D. Alguns sugerem uma data
antes do ano 70 A.D. devido a uma referência a uma tradição pro-Edomita. O texto
não contém passagens cristãs inequívocas e poucas que relembram o NT podem
ser explicadas como um florescer num contexto judaico. Pode ser de origem judaica,
mas talvez ter sido retrabalhado por um cristão. O Egito é provavelmente o lugar de
origem.
Este livro apresenta a vida após a morte. Ele claramente distingue entre o
julgamento pessoal ocorrendo logo após a morte e o final julgamento pelo Senhor.
Depois da morte a alma é vista pelos anjos caídos de Satanás e pelos anjos do
Senhor. O julgamento é baseado somente no equilíbrio entre as ações boas e os
pecados durante toda a vida, indicando que o livro foi influenciado pelos fariseus. As

9
almas entram em alegria ou em punição imediatamente depois do primeiro
julgamento, enquanto esperam pela vinda do Senhor, mas a intercessão dos santos
se faz possível para aquele, alguns, a punição não seja definitiva. Esta visão difere
daqueles outros textos contemporâneos tal como 2 Enoque.16

6) O Apocalipse Grego de Daniel é um texto pseudepígrafo cristão com


atribuição ao Daniel bíblico e associado ao AT, mas não considerado como escritura
nem pelos judeus e nem pelos cristãos. Esse texto apresenta muitas metáforas
apocalípticas e este estilo de texto apresenta similaridade com o canônico. Foi
descoberto no final do século XIX. Não deve ser confundido com os outros
numerosos trabalhos medievais atribuído a Daniel ou a Methodius, como o
Apocalipse Siríaco de Daniel do século VII, o Apocalipse Hebreu de Daniel do século
XII ou o Apocalipse do Pseudo-Methodius.
O Apocalipse Grego de Daniel foi escrito em grego no império Bizantino por
volta dos primeiros anos do século IX A.D. A data original de algumas partes pode
ser de séculos mais cedo do que o documento como um todo.17
Este texto pode ser dividido em duas seções. Na primeira (capítulos 1-7) a
guerra Bizantina-Árabe do século VIII e o entronizamento de Carlos Magno estão
preditos como eventos do futuro. Os restantes capítulos (8-14) são sobre os últimos
anos e o advento do Anti-Cristo, o qual é descrito em detalhes a origem e as
características pessoais.

7) O Apocalipse Grego de Ezra, também conhecido como A palavra e


Revelação de Edras, é um trabalho pseudepígrafo escrito em nome do escriba

16
G. Steindorff Die Apokalypse des Elias, eine unbekannte Apokalypse und Bruchstucke der
Sophonias-Apokalypse Leipzig 1899
[2] E. Shurer Dei Apokalypse des Elias in Theol. Literaturzeitung, 1899, No. I. 4-8
[3] Hedley Frederick Davis Sparks The Apocryphal Old Testament: edited by H.F.D. Sparks ISBN
0198261772 (1984)
[4] Paris, Bibliotheque Nationale Copte 135, Berlin, Staatliche Museum P. 1862
[5] Paris, Bibliotheque Nationale Copte 135
[6] Ian K. Smith Heavenly Perspective ISBN 0567031071 (2006), pag. 61
[7] O. S. Wintermute in ed. James Charlesworth The Old Testament Pseudepigrapha 1 pp. 500-501
ISBN 0385096305 (1983)
[8] Encyclopaedia Britannica: Devil (http:/ / www. britannica. com/ EBchecked/ topic/ 160173/
devil#tab=active~checked,items~checked&
title=devil -- Britannica Online Encyclopedia)
17
G.T. Zervos Apocalypse of Daniel, a new Translation and Introduction in ed. James Charlesworth
The Old Testament Pseudepigrapha, Vol 1 ISBN 0385096305 (1983)

10
bíblico Ezra. Esse documento sobreviveu somente em duas copias e é datado entre
o século II e o IX século A.D.
De acordo com R. H. Charles, o texto grego foi influenciado pelo livro de 2
Esdras. A versão existente do Apocalipse Grego é imaginado ter submetido a um
retrabalho extensivo, se não totalmente reescrito pelos editores cristãos,
mencionando o apostolo Paulo, João e o Rei Herodes, etc.
Como muitas literaturas apocalípticas, o Apocalipse de Ezra retrata sua autoria
como sendo outorgada por visões do céu e do inferno, onde a punição era imposta
aos pecadores que são testemunhados em detalhes. Ezra é o primeiro a descrever
como visitando o céu, onde ele levanta a questão da teodicéia – pergunta a Deus
porque aos humanos foi dada a capacidade de pecar.
Não comum, embora Deus ágüe que os humanos estão para serem culpados
se eles cometerem pecado, devido a eles terem a livre vontade, o texto de Ezra
responde que definitivamente a queda do homem deve ser atribuída a Deus,
particularmente desde que Deus criou a todos, a Eva, a serpente e a árvore proibida.
Ezra se dirige em acusar a Deus de ter uma terrificante idéia de justiça, a qual Deus
não responde, mesmo quando a petição de Ezra foi em favor dos pecadores. Depois
de suas petições e discussões com Deus, Ezra tem uma visão das torturas no
inferno e também o Anti-Cristo. Finalmente, Ezra protesta que ninguém esta sem
pecado e assim ninguém escapará de tal tortura e Deus revela que ele suportou a
cruz para salvar a humanidade e perdoou aqueles que creram e derrotou a morte.

11
O TEMPO MESSIÂNICO EM QUMRAN

Tanto os qumranitas como os primeiros cristãos podem ser chamados


comunidades escatológicas, no sentido de que ambos estiveram convencidos da
proximidade do fim e organizaram suas crenças e práticas comuns de acordo com
esse fator. Entretanto, uma série de textos qumrânicos releva que eles esperavam
por dois messias. Um exemplo nesse sentido é o 1QS col. IX 1118:
‫עד בוא נביא ומשיחי אהרון וישראל‬
“Até o profeta vir, e os Messias de Arão e Israel”.

Enquanto os qumranitas esperavam uma vinda simultânea dos dois messias em


um tempo próximo, o Novo Testamento apresenta duas vindas de Jesus, uma descrita
nos evangelhos e outra no tempo do fim. Também é importante acrescentar que a
exegese em qumran aponta para o tempo de sua própria comunidade como o referido
para o cumprimento das profecias messiânicas, como é registrado no 1QS Col. viii.1319:

13“...em conformidade com estas disposições/ eles devem ser separados


das habitações dos homens do pecado para caminhar para o deserto a fim
de abrir lá o caminho dele.
14 Como está escrito (Isaías 40:3): „No deserto, preparai o caminho do ****,
endireitai na estepe uma estrada para o nosso Deus‟”.

Para os qumranitas, Deus “criou o homem ( ) para governar o


mundo, e nomeou para eles dois espíritos para que andem nesses até o tempo de
sua visitação ( ): os espíritos da verdade e da falsidade”.20
Em suma, a categoria de textos de Qumran que mencionam ou têm seções
sobre os últimos dias é muito extensa. Alguns foram escritos fora da comunidade,
mas faziam parte da sua biblioteca como o Apocalipse das Semanas (caps. 93 e 91)
ou o Apocalipse Animal (caps. 83-90), que fazem partes de 1 Enoque. Ambos fazem

18
nez, Florentino; Tigchelaar, Eibert J. C.: The Dead Sea Scrolls Study Edition
(Transcriptions). Leiden; New York: Brill, 1997-1998, livro 1, p. 92.
19
Ibidem, livro 1, p. 88.
20
1QS Col. iii.16. Ibidem, livro 1, p. 74.

12
predições sobre o Juízo Final. Outros exemplos são: o livro de Jubileus, que contém
passagens a respeito do futuro (cap. 23), e o livro de Daniel.
Como literatura intraqumaranica destacam-se o Manual da Disciplina (cols. 3–
4), que descrevem a vitória final de Deus sobre o mal, e a Lei da Congregação, às
vezes considerado um apêndice do Manual da Disciplina .

13
ANÁLISE COMPARATIVA DO FRAGMENTO 4Q246

21
Foto do documento 4Q246

O 4Q246 é um fragmento de apenas nove linhas adquirido em 1958, sendo


que a caverna numero 4, de onde veio este documento, foi descoberta em 1952.
Este é um documento importante para o estudo por reunir através de menção
direta ou alusão quatro elementos fundamentais: tempo, messianismo, Antigo
Testamento e Novo Testamento.

A segunda coluna do fragmento 4Q246 traz os seguintes versos:

1. Ele será chamado o Filho de Deus, e eles o chamarão de Filho do


Altíssimo como uma estrela cadente...
3... a terra e destruirá a tudo, um povo destruirá a outro povo e nação
[destruirá] nação
5. O reino deles será um reino eterno, e seus caminhos serão justos.

A análise destes versos no texto original revela uma cadeia interlinear em que
os trechos-chave de justaposição morfológica na Bíblia são:
Mt 24:7: ligado à terceira linha da segunda coluna do fragmento em voga e
que tem como ponte léxica no Antigo Testamento Is 19:2.
Dn 7:27: ligado à quinta linha da segunda coluna do fragmento de 4Q246.

21
Old Testament Story. 4Q246: 4QAramaic Apocalypse. Disponível em
<http://otstory.files.wordpress.com/2008/02/4q246-manuscript.jpg>. Acesso em 04 de dezembro de
2011.

14
Tabela comparativa do documento 4Q246 com Mt 24:7, Is 19:2 e Dn 7:27.

Na tabela supracitada, as palavras que servem como conectivos semânticos


para os textos analisados são: reino e eterno .

4Q246, com destaque nas linhas 3 e 5 da segunda coluna.

15
CONCLUSÃO

Devido às características de intersecção que o messianismo atrelado ao


tempo promove para as culturas cristãs e judaicas, conclui-se que estudos mais
apurados na área do messianismo apocalípitco podem ser ferramentas importantes
para a aproximação dessas duas comunidades.

16
BIBLIOGRAFIA BÁSICA

Encyclopaedia Judaica. Detroit: Macmillan Reference USA in association with the


Keter Pub. House, 2007.

MARTINEZ, Florentino, Ebrary Academic Complete Subscription Collection. The


Dead Sea Scrolls. Leiden ; Boston: Brill Academic Publishers, 2000.

17