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O SORO DA VIDA

autor
KURT BRAND

Tradução
RICHARD PAUL NETO

Digitalização
VITÓRIO

Revisão
ARLINDO_SAN

Tumulto no zôo galáctico:
um homem fugiu...

A pesar das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o
trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do
Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar
incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na
época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição
da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em
outros tempos, a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no
governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império
Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados.
Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são
utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias
minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências.
Dessa forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno
reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota
espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante.
Mas Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não
está disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes
cósmicos — todos eles mutantes do célebre exército — continuam a ser
instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter em sigilo
sua origem terrana.
Será que os dois agentes enviados a Tolimon obedecem a estas
instruções, no momento em que dão início à busca d’o Soro da Vida...?

======= Personagens Principais: = = = = = = =
John Marshall — Que se instalou em Tolimon sob o disfarce de um mercador de
animais.
Laury Marten — A linda filha dos mutantes Anne Sloane e Ralf Marten.
Rohun — Um mercador galáctico.
Huxul — Funcionário do Serviço de Vigilância de Estrangeiros.
Otznam — Que usa o mesmo disfarce de um mascarado.
Man Regg — Um genial médico ara.
Futgris — Que se sente muito feliz por ter o privilégio de trabalhar para Ixt.
Conde Rodrigo de Berceo — Um jovem do ano de 1.652.

Estava interessado mais do que nunca em saber o que estariam fazendo os aras. A arte médica. e contemplou o deserto que tremeluzia sob os raios amarelo-pálido do sol ZW-2536-K-957. como segundo de um grupo de seis mundos. levando a bordo. Só agora teve tempo para deixar desfilar diante de si as mensagens dos últimos meses. E Rhodan deixava desfilar diante de si justamente os comunicados que os agentes haviam enviado a intervalos irregulares para Hellgate por meio do hipercomunicador. Acontece que não dispunha de tempo para esperar muito. que era o único lugar daquele planeta supersaturado de calor em que a vida humana podia manter-se. o mundo da vida eterna. O que estava em jogo era a vida de Thora. aquilo recusava a ducha celular aos dois arcônidas. a fim de ficar o mais próximo possível do planeta Tolimon. Por enquanto. sem apresentar qualquer sinal de envelhecimento. Rhodan chegou a uma conclusão lógica: médicos galácticos mais zoológico. que até então conseguira deter o processo. há séculos alguns seres humanos estariam sendo conservados num zoológico dos aras existente em Tolimon. Apenas disse três frases. o único astro que gravitava em torno desse sol. A voz de John Marshall era inconfundível. Perry Rhodan tomou lugar diante da memória do hipercomunicador. a memória do aparelho emudeceu. começava a revelar-se ineficaz. expedidas pelos agentes que se encontravam no planeta Tolimon. Para ele. Depois disso.348 anos-luz. um mundo pertencente aos médicos galácticos. os mais geniais dentre os médicos galácticos. o longo tempo de espera começaria. Há um ano — mais precisamente. em torno da estrela Revnur.039 — Perry Rhodan tivera pela primeira vez sua atenção despertada para Tolimon. Lançou os olhos para fora da abóbada de aço. notícias de terceira categoria lhe feriam o ouvido. E a essa hora o telepata John Marshall e a mutante Laury Marten encontravam-se há oito meses nesse mundo dos aras. Rhodan mal prestava atenção. O dispositivo de memória estava reproduzindo uma mensagem transmitida três semanas atrás. um sol do tipo G. Atlan. produzido na Terra. em maio de 2. O fim natural parecia aproximar-se inexoravelmente. A oitenta e um anos-luz de Hellgate esse planeta gravitava. E Tolimon era um mundo dos aras. Rhodan escolhera Hellgate. John Marshall e Laury Marten não estavam conseguindo nada em Tolimon. dirigindo-se ao planeta Terra. como prisioneiro. empenhados na solução de um problema específico. quando seus agentes chegaram à Terra com boatos que falavam num certo planeta Tolimon. e que constituía um mundo inútil e sem vida. também não conseguiu retardar a decadência biológica. Será que a notícia não passava de boato? Ou seria algo mais que isso? . sua esposa. Um novo soro. Os dois estavam envelhecendo de repente. 1 Enquanto o cruzador leve deixava o planeta Hellgate. para servir de base secreta situada nos limites extremos do Império de Árcon. o solitário do tempo. E cada uma dessas frases continha uma informação negativa. A conclusão levou-o a empregar seus agentes em Tolimon. situado a 12. Talvez ocupasse uma posição sem par no seio da imensa Galáxia: era formado por um único zoológico. E no planeta Peregrino. e de Crest. Perry Rhodan desligou. Segundo esses boatos. igual a pesquisa.

haviam descoberto um soro prolongador da vida. aguardando que. era o mínimo que poderia fazer por Thora e Crest. Perry Rhodan tinha que apoderar-se dele. Será que os médicos galácticos. Por isso. enviando-os a Tolimon. John Marshall e Laury Marten finalmente conseguissem aproximar-se do objetivo. O amor que sentia pela esposa e por seu amigo Crest fez com que recorresse aos mutantes John Marshall e Laury Marten para encontrar a resposta a essa pergunta. depois de tanto tempo. os aras. sob a proteção da abóbada de aço. encontrava-se em Hellgate. cuja eficácia era muitíssimo superior ao dos arcônidas? Se é que esse soro existia. .

colocamos estes bichos num estado de profunda sonolência. Minha sogra faz anos amanhã. que nada! — exclamou. Não sabe que uma das características destas criaturas é a de que só não fazem barulho enquanto estão dormindo? No momento. Subitamente um largo sorriso cobriu seu rosto. — Isso não é nenhum preço. De acordo? — Cento e oitenta por peça! — disse Futgris. — Pode embrulhar um casal. batendo com o punho numa gaiola. desde que garanta que estes bichos fazem este barulho infernal toda vez que são assustados. Futgris sorriu. assustou-se e fez um barulho tremendo. são seis filhotes de cada vez. Amigos. Um ara de ombros largos regateava em voz alta com dois vendedores. Em vez de um casal de gegerutavis cantores eu lhe dou estas crias do inferno. No mesmo instante. o ara deu um enorme salto. o melhor vendedor de Ixt. — Cento e oitenta o casal — fungou este. O ara não deixava de ter seu senso de humor. por isso estão quietos. Embrulhe também um casal de gegerutavis. — Trata-se de presente. Em qualquer lugar consigo os gegerutavis pela metade. no centro recém-construído da cidade de Trulan. para qualquer emergência. — É verdade. . que dormiam nesta. Para o casal. gaguejou: — Isso é um truque para levar seus fregueses a pagar os preços extorsivos pedidos pelo senhor? Futgris respondeu com o maior sangue-frio: — Vendemos os hiobargulus muito barato: apenas vinte por peça. — Que experiência. de tal forma que só comecem a fazer barulho amanhã ao meio-dia? Será muito divertido! Futgris teve o atrevimento de perguntar: — Será que o senhor não está exagerando com a senhora sua sogra? O ara logo desanimou. — Ora — apressou-se Futgris em asseverar. situado na Rua do Grande Mo. Será que o senhor poderia pôr os animais para dormir. Acontece que de Aralon para Tolimon temos as despesas de transporte: são cerca de dez mil anos-luz. Dão cria oito vezes por ano. Permite que pergunte qual é a experiência que pretende realizar com os hiobargulus? O ara sorriu e esfregou as mãos. — É o cúmulo da sem-vergonhice — disse o ara enfurecido. Acenou gravemente com a cabeça e disse em tom deprimido: — Talvez o senhor tenha razão. fitou a pequena gaiola da qual vinha o barulho infernal e. estou disposto a pagar cento e oitenta. — Em Aralon estes bichos são vendidos a quarenta o casal. Compramos os gegerutavis em Aralon. e entrou discretamente no salão amplo e moderno destinado às vendas. 2 O saltador Ixt saiu de seu luxuoso escritório. Um dos hiobargulus. com um sorriso amável para o ara enfurecido. fazemos o preço de trinta e cinco. — Não há problema. é uma extorsão. depois que o hiobargulu se tinha acalmado.

com os olhos azuis superdimensionados e uma pelanca bamboleante no pescoço. cumprimentou os empregados que se encontravam à direita e à esquerda. apoiado sobre três barbatanas. carregando seu mini-zôo. O homem ainda estava meio surdo quando saiu da grande casa de animais de Ixt. inclusive Ixt. Depois de ter dado dez passos na rua. Nunca tivera um chefe como Ixt. ao retirar-se da casa. — Sim senhor — asseverou o vendedor com os olhos radiantes de alegria. de cerca de dez centímetros de comprimento. que se mantivera discretamente nos fundos. Um animalzinho azul e peludo. que. *** — Arga — disse Gege Moge em tom contrariado. — Ainda não percebeu que mais uma vez nos encontramos diante de um choque anafilático? Quantas vezes ainda terei de lhe dizer que. só tinha um problema: chegar ao esconderijo. apontando nervosamente para o ser estendido sobre a mesa estofada. estas reações violentas não devem surgir em nenhuma hipótese? Agora corremos o risco de perder todo o trabalho das experiências . Ixt lia todos os pensamentos do ara. só porque os dados sobre o lugar do nascimento e o clã por ele fornecidos apresentavam alguns pontos obscuros. Pensava no ara que acabara de comprar um casal de hiobargulus e um casal dos caríssimos gegerutavis com o dinheiro do governo. Não havia nenhum sinal que traísse o fato de que não era um saltador. apesar de todas as indagações. — Não venha me dizer que um bichinho como este faz um ruído tão infernal. Não havia nada em seu rosto que revelasse a enorme preocupação que o afligia. Quando atravessou a grande sala de exposições e vendas para voltar ao seu luxuoso escritório. disse de passagem a Futgris: — Só voltarei à tarde. não puderam ser esclarecidos. John Marshall já se esquecera de que era dono de uma grande casa de animais. um comandante dos saltadores. que desse a perceber que seu aspecto exterior era apenas um excelente disfarce. O barulho recomeçou. no estágio das experiências preliminares. Dali a dez minutos. Achou que seria muito arriscado usar o sistema de comunicações da cidade de Trulan para entrar em contato com Rohun. Os pensamentos de Ixt estavam longe dali. no bairro dos cortiços. Naquele momento. ouviu-se o barulho infernal. Represente-me condignamente.. Mas resolveu experimentar de novo. Bateu com o punho sobre a gaiola e. que se encontrava entre as mais sofisticadas de Trulan. Afetado visivelmente pela nova orgia de sons. que vivia maldizendo a tarefa absurda de vigiar esse saltador. e fitava-o com os olhos sonolentos. mais uma vez. Teria que tomar suas providências até a manhã do dia seguinte. Ixt resmungou: — Parece que na Terra alguém cometeu um erro. Outro animalzinho dormia sob o efeito dos narcóticos. o homem atreveu-se a olhar para dentro da gaiola. Depois de ter fechado a porta atrás de si. Sentia verdadeiro prazer em trabalhar na firma. estava agachado num canto. conforme costumava fazer todas as manhãs. — O que é isso? — gritou a voz potente do ara.. sem ser percebido. com a cabeça enfiada na pelanca. que lançou um olhar desconfiado para Futgris e voltou a bater na gaiola. Todos os vendedores seguiram-no com os olhos.

É uma pena. tal qual John Marshall. que a levou ao pavimento em que residia há vários meses.preliminares. Rohun. no fundo. fria e enrijecida. Seus lindos olhos brilhantes fitaram-no com uma expressão de expectativa. Dirigiu-se a ela. Tratava-se de um ser que nenhum homem seria capaz de classificar. providencie logo! O médico ara seguiu a estudante arcônida Arga Slim com um olhar contrariado. voltou a encontrar-se com a estudante arcônida Arga Slim. não era o tipo do traidor. Saiu da sala e. — Coitado! — disse o cientista ara com certa emoção. binn. Mande levar o binn imediatamente ao setor de dissecação. no corredor. mas um ser dotado de inteligência. que serviam tanto à locomoção quanto à apreensão de objetos e ao trabalho. “O homem não está mentindo”. A cabeça em forma de caule de flor fechara as dobras que escondiam os órgãos dos sentidos. não pode ser empregado nas categorias de inteligência situadas abaixo do grupo C. o binn não era nem planta nem animal. pensou a estudante de Árcon. — Já o conheço há mais de trezentos anos. Gege Moge contemplou com olhos de cientista o cadáver chato como uma folha. sabia ler os pensamentos dos outros. Moge — ponderou a estudante. dotado de cinco membros. mas no que dizia respeito à comida e à bebida apresentava traços animais inconfundíveis.” Laury Marten. o médico ara respondeu: — Providenciarei para que a administração lhe conceda uma permissão perpétua. extraído do binn. para verificar se está tudo em ordem. caminhou em direção ao elevador antigravitacional. De qualquer maneira. A criatura de sangue quente estava estendida sobre o leito duro. absorvia o ar à maneira das plantas. nunca poderia trair John Marshall e Laury Marten. e de repente sua vida termina de uma hora para outra. . Apesar disso. E. — Vá ao zoológico ainda hoje e escolha dois dos novos binns. Vamos. morrera do soro produzido por seu próprio corpo. fitou o binn. situando-o na categoria do quociente C. enquanto pode ser usado sem receio e com os melhores resultados nos grupos B e F? Avise o setor de dissecação de que preciso do resultado amanhã de manhã. Não se via absolutamente nada da boca. Tratava-se de um ser situado entre os reinos animal e vegetal. Enquanto se afastava. Pensativa. Sempre gostei de trabalhar com você. Finalmente estou em condições de comunicar um pequeno êxito a John Marshall. “Realmente diz apenas o que pensa. Seus pensamentos já estavam formulando o texto do comunicado que pretendia transmitir a John Marshall. Por que o soro U-1f54. Tinha-se relacionado muito profundamente com os agentes de Perry Rhodan para que lhe fosse possível recuar. dirija-se à administração antes de ir ao zoológico. Marshall controlara muitas vezes seus pensamentos e nunca encontrara motivo para desconfianças. — Não tenho permissão para entrar na parte reservada do zoológico. da abertura destinada ao sentido de orientação ou dos olhos. muito embora esta fosse bastante limitada. *** O comandante dos saltadores. O binn tinha menos de um metro de altura e pesava cerca de quarenta quilos. A pesquisa terá de revelar por que esse ser é supersensível ao próprio soro. Preciso deles para amanhã de manhã. Depois disso. disfarçada numa estudante arcônida.

com os olhos semicerrados e sem fazer o menor movimento. deixe de estabelecer contato com eles. O que me diz? Marshall controlou automaticamente os pensamentos do comandante dos saltadores. Existem vários relatórios de nossos agentes. John Marshall acabara de transformar-se num receptor telepático. Prefiro ficar no seu camarote. Em hipótese alguma. constituía novidade para ele. Quando o saltador estava insistindo para que Marshall abandonasse seu negócio de animais — em vez de procurar ocultar-se nos gigantescos cortiços de Trulan — o rosto do chefe dos mutantes. não deixar de certificar-se se ali realmente eram mantidos homens terranos atrás de grades de radiações. — Não tenho nada a dizer — resmungou. Foi por isso que resolvi procurá-lo. — Não arrisquei o pescoço juntamente com meu clã? Assim que der o alarma. Laury Marten. Concentrado ao extremo. Após isso. Rohun compreendeu que deveria ter calma e voltou a reclinar-se. Apenas preciso saber se numa emergência poderei contar com seu auxílio. o ano do nascimento e o sexo. soltou alguns sons desconexos. Por um instante seus olhos refletiram a preocupação. a senhora tem de descobri-los. inclinando-se para a frente — o senhor ainda me ouve? Marshall fez um ligeiro gesto de impaciência. Laury. Atirou a cabeça para trás. A seguir transmitiu a Laury Marten. por via telepática. Já tivera várias oportunidades de constatar que Marshall possuía um tipo de sexto sentido para o perigo. — Não. Recorra à desintegração sempre que isso se torne necessário. Laury Marten que ele captou. Daqui a pouco o senhor deverá receber uma visita. — Ixt — disse Rohun. — Não pretendo desistir do comércio de animais. homem impetuoso e calculista. Marshall mantinha-se em atitude rígida. O mesmo ara que apareceu na minha firma hoje de manhã já se encontra na nave e está a caminho de seu camarote. Rohun aborrecera-se com a pergunta de seu interlocutor. . estava transmitindo seu primeiro êxito de maior importância. Rohun. John Marshall parecia um homem despertando de um leve cochilo. Entendido? — Entendido — foi o impulso mental de. — Rohun — disse — os serviços de defesa dos aras não dormem. arriscarei até minha nave. Enquanto o serviço secreto dos aras realiza investigações. a ordem de. Mas o fato de que esse sentido lhe dava a capacidade de perceber nitidamente acontecimentos futuros. O ara não sabe que me encontro a bordo. mas logo a máscara apática dos saltadores voltou a surgir. que o mercador galáctico já observara mais de uma vez. subitamente assumiu uma expressão rígida. ainda não existe um perigo concreto. o contato entre os dois humanos foi interrompido. Agora estava sentado diante dele. filha de Ralf Marten e Anne Sloane. durante sua visita ao zoológico. abriu os olhos e descontraiu-se. Existe algum lugar em que possa esconder-me? O mercador. — Procure descobrir a nacionalidade. colocando-se junto a uma porta estreita. Se for necessário. Retomou o fio da palestra no mesmo ponto em que interrompera o mercador galáctico. Laury Marten. Mais uma vez Marshall fez um movimento brusco com a cabeça. meus agentes mais capazes serão colocados em campo para tirá-lo do aperto. segundo os quais no zoológico são mantidos homens. — Saia por aqui! — exclamou Rohun em tom exaltado.

Sou um mercador galáctico. apresentava-se como um homem cortês. Rohun? Se for. o ara que comprara um casal de gegerutavis e um de hiobargulus na firma de Ixt. Embora o mercador não se sentisse satisfeito com a visita do funcionário do serviço secreto dos aras.. Rohun prestava atenção às suas palavras. perguntou com um sorriso matreiro: — Onde está a pessoa que esteve sentada nesta poltrona há poucos instantes? Rohun não pestanejou. mas com certa relutância. Muito interessado e com a mente tensa. por si. Transformara-se de uma hora para outra: de repente. Aliás. — Não tenho outra alternativa — respondeu Rohun. Marshall aliviou a pressão sugestiva que irradiava sobre o ara. Nem desconfiava da existência do projetor mental de John Marshall. Digo-lhe mais. sugestionando-o para que considerasse sua missão como cumprida e transformasse o tempo restante de sua permanência na nave numa palestra amável. Faça o favor de sentar ali. eu o expulso da nave. — Ele não fará muitas perguntas. entrou no camarote. — Não torne o homem desconfiado — preveniu Marshall. não sou um ara. Com estas palavras. não conhecia o medo e nunca toleraria um atrevimento desse tipo. estou lembrado do tal do Ixt. Se não me engano. A modificação começou a assustar Rohun. É por isso que consigo lembrar-me de Ixt.Veja logo onde posso esconder-me. que o encobria completamente. Tal qual todos os mercadores galácticos. Marshall estirou-se de frente e enfiou-se embaixo do leito de Rohun. eu lhe digo que não acredito nessa mentira do defeito do transmissor audiovisual. Pouco depois um membro do clã entrou no camarote do mercador galáctico e perguntou-lhe se concordava em receber Huxul. que irradiava toda sua potência sobre o agente dos aras. O homem do serviço secreto não desconfiou de nada quando disse toda a verdade. não dava muito valor às percepções extra-sensoriais. Sim. O comandante é a única pessoa que faz perguntas aqui. funcionário do Serviço de Vigilância de Estrangeiros. Huxul. Ofereceu a Huxul a poltrona em que John Marshall estivera sentado há pouco. e veio a Tolimon em vôo direto. riu gostosamente e respondeu: — Vejo que sua visita não é nada amigável. mas nunca me daria na cabeça formular uma pergunta idiota e estúpida como a sua. e aquilo que Marshall lhe estava oferecendo era exatamente uma percepção desse tipo. Rápido! Rohun estava bastante desconfiado. — O senhor é o comandante dos saltadores. um perito na área da zoologia. — Huxul. É um homem inteligente. O comandante sou eu. — O senhor interpretou mal as minhas palavras — respondeu Huxul apressadamente e com uma amabilidade desconcertante. Mal Huxul acomodou-se. — Huxul. Interrompeu o visitante em tom áspero: — Acredite no que quiser! Se não estiver disposto a falar em tom civilizado. Rohun ficou surpreso. tomou a nave no terceiro planeta do sol J5457-K1. Mas acabou cedendo diante do olhar hipnotizante do outro. De repente. Huxul. a zoologia também é um hobby meu. Meu caro . Finalmente reclinou-se confortavelmente na poltrona. amável e pouco interessado no seu trabalho. diga logo por que veio até aqui! Qual é a suspeita que pesa sobre mim? No mesmo instante. Minha nave é um mundo.. não voluntariamente. John Marshall ouviu que o comandante dos saltadores se tornava enérgico.

Quer que entre em contato com o outro clã. tenho de ocupar-me com essas ninharias — disse Huxul. conseguiu roubar na fábrica de soro G-F 45 o processo mais recente de conservação do soro imunizador X-1076. obrigou o agente dos aras a mais uma vez dizer a verdade. Rohun levantou-se de um salto. por ordem e conta do senhor? Quanto está disposto a pagar pelo processo? — Não dou mais de quinze mil — respondeu Marshall. nós. — Estou muito mais interessado em descobrir quem. — Gostaria de comprar os dados sobre o processo de conservação — disse Marshall. apesar do controle dos robôs. Huxul nem se deu conta de que com isso estava adotando um comportamento inadmissível para um agente secreto. e disse que esse aparelho infalível. Mas essa história já é bastante antiga. — Trata-se de alguma missão perigosa? — perguntou Rohun com um triste pressentimento. Aos poucos a iniciativa de Ixt começava a amedrontá-lo. de quase dois metros de altura. Rohun sacudiu a cabeça. concluindo suas explicações. descobrira alguns erros. não é? Com o rosto mais sincero deste mundo. Aludiu ao controle rotineiro exercido pelo cérebro positrônico instalado em Tolimon. — Amanha de manhã precisarei de um sósia de primeira linha. O que é que eu tenho a ver com Ixt? John Marshall. O senhor dispõe de três fabricantes de máscaras. — Amanhã de manhã Huxul voltará a aparecer na minha casa de animais para restituir o casal de hiobargulus e. — Quando poderei saber se o outro grupo está disposto a fazer o negócio? — Amanhã — disse Rohun. Marshall e Rohun voltaram a ficar sentados frente a frente. que não permitirá que o berreiro infernal dos hiobargulus chegue ao exterior. Rohun. ao mesmo tempo. mediante uma paga adequada. que se despediu. E tive que desistir de uma tarefa dessas. a partir de ontem. Para isso arranjarei uma máscara. Nunca houve um roubo como este. aproveitamos qualquer negócio que aparece e muitas vezes transformamos nossas naves em veículos turísticos. a mesma conterá um aparelho destinado ao registro de vibrações cerebrais. sentiu medo. Mas na realidade. É claro que o senhor não me pode dar qualquer informação sobre ele. tentar gravar com sua gaiola meu modelo de vibrações cerebrais. num gesto de recusa. ao examinar os dados relativos a Ixt. Mas acho que sei quem arranjou isso. no seu esconderijo. desta vez nem eu nem meus agentes temos qualquer coisa a ver com isso. — Está bem — disse Marshall.Huxul. de tal forma que eu mesmo fique sem saber quem é o verdadeiro Ixt. Rohun respondeu: — Como poderia ter informações sobre ele? Com o maior prazer deu a mão a Huxul. Sacudiu a cabeça. Avise seus homens para que reproduzam meu aspecto exterior no objeto que lhes será apresentado. isto é. para levar os passageiros de um mundo para outro. Ixt? — Porque Huxul aparecerá com uma gaiola especial. Os olhos de Rohun iluminaram-se. . e sentiu um prazer ainda maior quando viu o homem do serviço secreto dos aras retirar-se. os mercadores galácticos. — Por que pronunciou a palavra gaiola com tamanha ênfase. De repente aquele homem encanecido. — E desde ontem. — Por estranho que possa parecer. evidentemente. para andar espionando o negociante de animais Ixt.

A situação ainda se tornará muito perigosa. melhor será para todos. — Quando estiver sentado diante de sua mesa de trabalho. Ixt? John Marshall sorriu. situado nos gigantescos cortiços de Trulan. e quando isso acontecer.. — O senhor consegue enxergar o futuro? — perguntou Rohun em tom desconfiado. Tem a estatura do senhor. para escapar a outra repreensão de seu chefe. Está na hora de dizer o que pretende descobrir em Tolimon. Será que pretende libertar alguém que se encontra no zôo galáctico? Se sua intenção for essa. E. — Quem será a pessoa que o senhor me mandará amanhã com a minha máscara. . — O que acontecerá depois. Rohun? — Otznam. esquivando-se à pergunta. quanto menos saibam. levou duas horas para chegar ao seu esconderijo. Estava satisfeito com os resultados da visita que acabara de fazer ao mercador galáctico. Por que não me coloca a par dos planos? Será que não confia em mim e nos meus agentes? — Não quero expô-los a um risco desnecessário. eu o previno para que tenha cuidado.. à medida que o tempo passa o senhor me assusta cada vez mais. Se me lembro de como Huxul se tornou amável de repente. — Ixt. John Marshall saiu da nave cilíndrica do comandante dos saltadores Rohun. Tomando todas as precauções. Ixt. Os aras equiparam o zoológico com todos os dispositivos de segurança. Dali a meia hora. Huxul ficará dando tratos à bola para descobrir o motivo por que não captou meu modelo de vibrações cerebrais. o senhor está fazendo um jogo muito arriscado. O que andou fazendo com o homem enquanto estava deitado embaixo de minha cama? — O que poderia ter feito? — disse Marshall. inventará um relatório que não passará de uma grande fraude.

Naquele setor. Não se cansava de admirar os olhos. e o rosto oval. Tolimon era o último dos mundos governados pelo cérebro positrônico de Árcon. a fim de transformar-se numa criatura inesquecível para Lo Pirr. O jovem ara apresentou-se com o nome de Lo Pirr. Depois de um ligeiro controle. 3 Tolimon. A administração já anunciara sua chegada. a capital planetária de Tolimon e o maior porto espacial desse mundo. a expressão patente de evolução precipitada. os aras haviam realizado algo que não tinha igual em toda a Galáxia. sem ultrapassar os limites da conveniência. O ara nunca vira uma arcônida que irradiasse tamanho charme. que a temperatura média ao meio-dia chegava a 45 graus na sombra. Trulan era o trampolim para o espaço desconhecido. *** Trulan. Era bem possível que ainda tivesse muitos contatos com o mesmo. o segundo planeta da estrela de Revnur. Laury percebeu tudo. filha de Ralf Marten e Anne Sloane. Quando seu carro disparou pela faixa de rolamento. As condições reinantes no ambiente nativo haviam sido reproduzidas artificialmente. fora transformado num jardim zoológico em que cada ser dispunha de boa área para mover-se livremente. Já fazia oito meses que John Marshall se mantinha oculto nessa cidade sob o disfarce de mercador galáctico. de cabelo escuro e corpo fascinante. explicando-lhe o funcionamento do indicador automático de rota. Um ara muito gentil colocou um carro à sua disposição. no qual foi confirmada sua identidade como a da arcônida Arga Slim. Porém a metrópole sempre o impressionava. Um areal do tamanho da França. recebia tamanha profusão de luz de seu astro rei. pôde atravessar a barreira de radiações. da Bélgica e dos Países Baixos. pela forma desordenada de sua construção. . Laury Marten desenvolveu todos os seus encantos. penetrou pela primeira vez nesse zoológico. capital de Tolimon. usando um caminho que não era acessível ao público. constituía. Em meio a um gigantesco deserto de pedra e areia. O poderio do Império Arcônida não chegava além do sistema de Revnur. que tendiam para o formato oblíquo. lia os pensamentos do ara como se fossem palavras escritas num livro aberto. Laury Marten. uma moça de vinte e três anos. cortado por uma cadeia de montanhas nuas e poeirentas. Isso acontecia em Trulan. e tudo fora feito para reduzir ao mínimo a pressão psicológica resultante do aprisionamento. sentiu que o olhar dele a seguia. Como telepata que era. não na área em que os aras haviam instalado um zoológico de dimensões fantásticas. Laury ficou satisfeita com o resultado de suas observações. Além de servir de ponto de encontro das raças galácticas. Um dos pontos fundamentais do treinamento dos agentes do Exército de Mutantes de Perry Rhodan consistia na aquisição da capacidade de perceber imediatamente qual era a impressão que causava nos outros.

A idade de noventa e quatro anos era apenas uma indicação numérica ligada à pessoa de Marshall. E não se sentia mais velho que isso. Uma vez lá em cima executou um giro rápido. que não resistiria a qualquer exame médico de sua constituição orgânica. John Marshall compreendia perfeitamente que os aras precisavam de um organismo mastodôntico para exercerem controle. Era nisso que estava pensando quando o elevador radial o deixou nos confins da cidade. Colocou as mãos contra uma parede estreita que ligava a porta ao armário. viu-se diante de outro poço e deixou- se cair três andares. Estes últimos faziam negócios normais ou escusos. O fedor saturava o ar. O terceiro quarto da esquerda acolheu- o. atirou-se no elevador antigravitacional e subiu oito andares. deitado num leito. embora já tivesse noventa e quatro anos de vida. levou-o ao porão. a miséria e a sujeira iam aumentando. mesmo superficial. e ele atravessou a pé o limite para a zona dos cortiços. até atingir uma escada. Fora a ducha celular do planeta Peregrino. Entrou num corredor escuro que cheirava a mofo. ainda havia um erro nos documentos galácticos falsificados que lhe haviam sido entregues. Uma vez lá. estabeleciam contatos decentes ou clandestinos. sobre todos os estrangeiros que permaneciam no planeta por alguns dias ou semanas. Ao que tudo indicava. Um sujeito velho e esfarrapado. para depois de tudo isso desaparecerem nas profundezas da Via Láctea. o mundo do imortal. Será que neste mundo de Tolimon não existiam milagres parecidos? O milagre da vida eterna. O calor da tarde sufocava os desfiladeiros formados pelas ruas e vielas. Marshall colocou uma cédula sobre a mesa e desapareceu na pequena peça contígua sem dizer uma palavra. Por enquanto acreditava que o perigo não era muito grave. A mesma recuou silenciosamente. a decadência celular fora detida por mais de seis decênios por uma forma incompreensível. que mal dava para um saltador corpulento. Passando por entre o lixo e os objetos abandonados à luz mortiça das luminárias. trocou de roupa com alguns movimentos rápidos. Certamente esse erro fora cometido por alguma pessoa negligente que se encontrava na Terra. Mesmo sob o disfarce de mercador galáctico John Marshall tinha o aspecto de um homem de trinta e cinco anos. um arcônida maltrapilho olhou ligeiramente para trás. Atravessou um restaurante e desapareceu num toalete que possuía três saídas. Um elevador antigravitacional muito estreito. Seu traje distinto foi colocado num esconderijo muito bem instalado. Estava usando alguns trapos. que realizara esse milagre biológico. Marshall usou a terceira saída. Agora pegou uma entrada. O corredor em forma de hall estava deserto. Uma coincidência traiçoeira arrastara-o para dentro das engrenagens do cérebro positrônico infalível. passou pela segunda porta e desapareceu por uma área nos fundos. Trinta e seis degraus da escada em caracol levaram-no para cima. seguiu seu caminho com segurança absoluta. virou-se à sua entrada e exibiu um sorriso familiar. Após isso. Ao pisar no . Um espelho de radiações mostrou-lhe que se parecia com um saltador em ruína. À medida que John Marshall penetrava na área dos cortiços. Diante dele. Marshall não era o único que o usava para enganar eventuais perseguidores. deixando livre um corredor no qual Marshall entrou.

John Marshall ouviu um sinal breve saído do hipercomunicador. A água continuava a jorrar. logo abaixo do telhado. O sinal acústico era necessário para ligar o hipercomunicador. abriu a torneira de água quente e deixou que o líquido jorrasse. Em Tolimon. Marshall saiu da loja aberta com uma hesitação fingida. aguardando notícias sobre os resultados de seu trabalho. Mas a porta. . a outra parte. era venerado como uma divindade. e o minúsculo alto-falante do hipercomunicador estava embutido no relógio que Marshall trazia no pulso esquerdo. embutido na caixa do relógio. o dono barbudo da loja. fora do quarto. Abriu o fecho e esperou que a porta recuasse. Ao virar-se. esgueirou-se e viu-se entre as fileiras de cabides de uma loja de confecções. situado no 15 o andar. constituíam novidade até mesmo para os aras e os arcônidas. sob cujo telhado se encontrava seu esconderijo. começou a esquentar. que provocou um formigamento de sua pele. que há mais de três mil anos morrera numa experiência que fizera no próprio corpo. Sudf. A clarabóia não devia ser fechada. Depois afastou com os braços uma pilha de roupas usadas. tão minúscula quanto a anterior. parou e aguçou o ouvido. Quando John se aproximou da porta. e nela. o dispositivo de memória ligou-se automaticamente. sentiu um impulso quase imperceptível. por cima dos telhados e junto à coluna esguia do Grande Mo. piscou às escondidas quando cruzou por ele. Atirou-se à cama. Descerrou a pequena clarabóia. tal qual nas outras bases dos aras. O alojamento de Marshall. Quatro quadras adiante. A construção não possuía juntas nem soldas. cruzou as mãos sob a nuca e assobiou a melodia de uma canção da moda dos saltadores. viu surgir no fim do beco. Dispositivos de segurança dos mais sofisticados impediam que qualquer pessoa forçasse a entrada. Se há pouco parte de seu relógio se transformara no alto-falante do hipercomunicador. a palavra Mo estava escrita em caracteres luminosos arcônidas. parecia tão sujo como todas as peças situadas naquele corredor escuro. era mais que a entrada imunda de um quarto abafado que possuía apenas uma pequena clarabóia. ficou diante da fachada arruinada do prédio. Ao mesmo tempo. Tanto ele como Laury Marten haviam sido equipados para esta missão com os instrumentos mais sofisticados que. Naquele instante. Fazendo o papel de um homem que não consegue decidir-se a respeito de uma compra. feita de chapa fina de aço arcônida. Encontrava-se num beco que ficava três andares abaixo da entrada do estranho restaurante. o hipercomunicador instalado embaixo do telhado. O chefe encontrava-se no planeta quente de Hellgate. Sentiu a necessidade de respirar profundamente. Depois entrou e fechou- a atrás de si. Marshall refletiu ligeiramente. O deformador e o condensador estavam funcionando. em muitos pontos. agora. passou a servir de microfone.último degrau. que na base só tinha um metro de diâmetro. uma peça de aço de trezentos metros de altura. Era o sinal de que ninguém tentara penetrar por ali na sua ausência. depois que Marshall comprimiu um botão quase invisível. Mo era um gênio médico. John Marshall resumiu em oito frases o primeiro êxito alcançado por Laury Marten.

Não sabia explicar por que o frogh não aparecia para perguntar o que desejava. que erguera o terço anterior de seu musculoso corpo de cobra e a fitava com os olhos rígidos. Lançou os olhos em torno. e não animais repugnantes. Porém viu-se diante da barreira de radiações. virou a cabeça e fitou-a com uma expressão de espanto. além do intercosmo. pudesse ser restituída à . se vira diante de um desses seres em forma de cobra. cujas dimensões eram planetárias. era o primeiro ara que falava um arcônida refinado. o frogh virou-se abruptamente. de rosto intelectualizado. Parou com a mão estendida em direção à porta. Muitos froghs dominavam. O pequeno quarto representava o último elo que o ligava a Perry Rhodan. Esta lhe pediu que abrisse a barreira de radiações por um instante. com uma indiferença fingida. Para comunicar-se entre si recorriam ao vocabulário riquíssimo de sua língua materna. Ficou sentado na cama em atitude pensativa. quando Laury Marten passou. lançou os olhos em torno e viu o ser em forma de cobra envolvido numa palestra com um jovem ara. do fenômeno do artus ao tema da necrose e exprimiu sua dúvida de que uma parte morta do organismo. à procura de um frogh. fez saltar o botão embutido na caixa do relógio e. O homem esbelto. Seu rosto iluminou-se e de seus lábios saiu uma exclamação: — Até que enfim! *** O indicador de rota instalado no carro fizera com que. Laury Marten caminhou lentamente junto à barreira de radiações. Em hipótese alguma deveria permitir que seu esconderijo fosse descoberto. Esta logo se interessou por ele e fez com que se estabelecesse uma palestra animada. Eram os amigos mais fiéis dos aras e os guardas mais temidos pelos habitantes do zoológico. Fechou a torneira de água quente e a clarabóia. Os froghs sempre alcançavam os fugitivos nos confins do deserto. Até então nenhuma das inteligências trancadas ali conseguira escapar. restrita a uma área limitada. o ara aproximou-se. Com uma voz que tinha um tom surpreendentemente humano perguntou o que Laury desejava. Enquanto ainda conversava com o frogh. apagou todas as pistas que poderiam conduzir ao seu hipercomunicador. dentre todos aqueles com que Laury já havia se defrontado. Também desta vez teve de esforçar-se para ver nos froghs seres inteligentes. Laury Marten logo encontrasse o areal dos binns. No mesmo instante. Marshall estava prestes a sair de seu alojamento quando foi atingido pelo impulso emitido por Laury Marten. Refletiu detidamente sobre todos os problemas. pela primeira vez. No entanto.Omitiu o fato de que o serviço secreto dos aras andava no seu encalço. para que pudesse escolher dois binns no interior do areal. avaro nos menores movimentos e reticente nas palavras. Subiu uma pequena elevação. que formava um obstáculo invencível. Este sentiu o olhar de Laury Marten. Dedicou palavras corteses à informação de que Laury estudava zoologia. O fato de encontrar-se em Tolimon para preparar-se para os exames finais obrigou-o a desejar-lhe muitas felicidades nas provas. com isso. e estremeceu ao lembrar-se do momento em que. com seis metros de comprimento. vários dialetos arcônidas. apesar da grande distância.

e quando acreditava poder formular um juízo seguro. Um segundo depois. Subitamente Laury Marten virou-se para o frogh. Sentiu-se orgulhosa ao perceber o alívio que havia no “até que enfim!” de Marshall. O ara apresentou-se como Man Regg. . Quando voou em direção a Trulan. treinada por meio dos métodos hipnóticos mais eficientes dos arcônidas. Man Regg. Pensou aflita: “Será que os froghs também são telepatas?” Com um grande susto. Um dos crânios mais inteligentes de Tolimon estava sendo manipulado pelas artes telepáticas de uma jovem do planeta Terra. o ara subitamente demonstrou o maior interesse. Laury Marten prosseguiu no seu jogo. O médico galáctico não poderia mesmo desconfiar de que essa jovem. E Laury Marten lançou sua isca. não era apenas um dos cem mil médicos que atuavam nesse mundo. Man Regg era o ara que. O olhar rígido daquele ser em forma de cobra incomodou-a. — Muito bem.vida por meio de ativadores. Com dois binns dóceis. exprimia uma dúvida ainda maior. mas sob seus próprios pontos de vista. Arga Slim — disse Man Regg. mostrava-se reticente em suas idéias. Teve de esforçar-se para não exprimir seu júbilo por meio da luminosidade dos olhos. Lia os pensamentos de seu interlocutor e não tinha a menor intenção de tomar a iniciativa. — Tomarei todas as providências e tenho certeza de poder cumprimentá-la amanhã na divisão X-p. E Man Regg caiu no blefe. com os dois binns a bordo. seu carro disparou em direção ao limite do zoológico. Nos casos em que Man Regg demonstrava dúvida. também possuía um saber médico muito extenso. Laury Marten já se imaginava de posse do processo de fabricação do soro prolongador da vida. na qualidade de chefe. dizia aquilo que seu interlocutor acabava de pensar. Quando perguntou onde e com quem trabalhava. além de ser entendida em zoologia. Laury Marten leu em seus pensamentos a intenção de ordenar que essa mulher de inteligência extraordinária fosse incluída em sua equipe de pesquisas. Qualquer idéia importante teria que vir de Man Regg. o ara. teve de constatar que não estava informada sobre este ponto. controlava a produção do soro prolongador da vida. irradiou para John Marshall a notícia do êxito que acabara de alcançar. Mas logo surgiu a indagação de Man Regg sobre se estaria interessada em concluir os preparativos para o exame sob orientação dele.

sem desconfiar de que o verdadeiro Ixt lhe seguia todos os passos. onde estava sendo descarregada uma remessa de animais vinda do planeta Oka. estou no escritório. Marshall entrou antes dele na ampla sala de exposição com a profusão . John Marshall leu os pensamentos do outro. transformado num astronauta robusto e barbudo. Enquanto dizia estas palavras. Dali a dez minutos. recebeu os cumprimentos de Futgris e fez esta observação: — Tudo bem. 4 John Marshall ficou grudado nos calcanhares de Otznam. o escritório do chefe. exercia uma influência hipnótica sobre ele. Marshall voltou a dedicar sua atenção a Otznam. Fervendo de raiva. afastou o vendedor que se aproximou solicitamente. enviando-o ao depósito e ordenando-lhe que. Aguardava a chegada de Huxul. nada percebeu. Acenou para a direita e a esquerda. agente dos saltadores. John Marshall saiu de sua loja e ficou perambulando nas proximidades. com uma observação áspera. No seu íntimo admirava o comandante Rohun e seu clã. fazendo-o dizer a Futgris: — Se houver algo de importante. Conhecia seus nomes e sabia quais as funções que cada um devia desempenhar. Nem desconfiou de que o chefe. mas Otznam. Sua paciência foi submetida a uma prova muito dura. Huxul caminhou em direção à casa de animais. avisarei. Entrou na loja pela entrada principal. disfarçado num astronauta barbudo. John Marshall teve de reprimir constantemente o desejo de fitar seu próprio rosto a fim de verificar que impressão causaria nos outros sob o disfarce de um saltador. procurasse o chefe em seu escritório. Tranqüilizado. Se resolver comprar alguma coisa. Otznam não se surpreendeu com o fato de conhecer. Quando Marshall iniciou o tratamento com o projetor mental. tal qual Ixt costumava fazer todas as manhãs. — Vou dar uma olhada no que existe por aqui. em meio ao burburinho das ruas de Trulan. Verificou que não estava identificando a voz disfarçada de seu chefe. O homem praguejava contra sua missão com a mesma violência com que Huxul o fizera no momento em que saía da casa de animais com um casal de hiobargulus e gegerutavis. Otznam estava preocupado por ainda não ter recebido instruções precisas sobre a maneira de conduzir-se na firma de Ixt. Futgris? Marshall também entrou em sua loja e. pois o que os fabricantes de máscaras haviam feito de Otznam era uma coisa inacreditável. não percebeu nada. Por mais que tateasse em busca dos impulsos mentais de Huxul. em hipótese alguma. Só pelo meio-dia captou-os repentinamente. O mercador galáctico Ixt não era ele. que sob seu disfarce caminhava pela Rua do Grande Mo. John Marshall observou discretamente seu vendedor tão ativo e controlou os seus pensamentos. o agente dos saltadores familiarizou-se com os rostos de todos os funcionários de Ixt. em linhas gerais. Depois de poucos segundos. agente dos saltadores. — Perfeitamente — confirmou Futgris e dirigiu-se ao grande depósito. nem seus movimentos. para voltar à sua repartição.

encostou-a ao peito e colocou-a numa posição em que uma das faces apontava ligeiramente para cima. . Huxul recebeu de volta o preço da compra. mas Huxul ainda precisaria de tratamento intensivo. ao regressar da nave cilíndrica de Rohun. Mostrou-se interessado na gaiola acústica. desapareceu no depósito e. Ixt recusou-se a aceitar os animais de volta. Através de Huxul. Seguiu-o lentamente. Subitamente seu rosto assumiu uma feição séria. animais em forma de macaco. Naquele instante. Huxul descansou a gaiola entre as paredes acústicas onde estavam guardados os hiobargulus com sua voz potente. Também foi recriminado por ter adquirido os animais tão caros. John Marshall ativou o contato do projetor mental escondido em seu bolso. sob o disfarce de Ixt. Segurou a gaiola especial com ambas as mãos. No momento em que colocou a gaiola no chão por ordem de Marshall. Escondeu-se atrás de uma grande jaula. reforçada por meios hipnomecânicos. Acusaram-no de negligência no desempenho de suas funções e de uma conduta injustificável. mas do chefe. juntamente com o falso Ixt. teve tempo para registrar o modelo de vibrações cerebrais de Huxul. este lhe deu ordem de aceitar os bichinhos de volta. queria pregar uma peça à sogra. O agente dos aras implorou para que Ixt aceitasse os animais de volta e devolvesse o dinheiro. Seguiu-o com um olhar pensativo quando este entrou no gigantesco edifício do serviço secreto dos aras. Marshall perscrutou os pensamentos de Huxul. John Marshall considerou concluída sua intervenção. O falso Ixt voltou ao escritório. executou um giro de cento e oitenta graus. Disse que desde a manhã daquele dia a sogra não o deixava em paz. O agente dos aras ainda fervia de raiva. Teve de ser chamado no depósito. agradeceu com a maior amabilidade.desconcertante de animais. que funcionava somente porque John Marshall reforçava sua ação por meio do dom telepático de que era dotado. Por isso mesmo não havia o menor perigo de que o mini-projetor mental fosse descoberto. Estava arrependido da brincadeira de mau gosto e não sabia como acalmar a velha. logo a seguir. Otznam. estava Futgris saindo do escritório. O agente dos aras foi a amabilidade em pessoa e concordou plenamente quando Otznam. de determinar que o chefe decidisse sobre a troca. a trouxe vazia. com uma gaiola especial na mão. Huxul exibiu um largo sorriso enquanto resmungava seu “de acordo”. Futgris saiu apressadamente com a gaiola. John Marshall ficara sabendo em que ponto se localizava o contato destinado à captação do modelo de vibrações cerebrais. disfarçado como Ixt. Futgris era o homem competente para resolver sobre a troca de animais. segurando a gaiola como se fosse um objeto extremamente frágil. Aos poucos. Acabara de afastar um vendedor insistente quando o agente dos aras entrou no recinto. Tratava- se de versão miniaturizada do conhecido aparelho dos arcônidas. Futgris riu ao reconhecer o homem que. muito embora a idéia não tivesse partido dele. junto aos encantadores kikkis. pegou a gaiola para examiná-la mais detidamente. foi alcançando o agente dos aras. pegou a gaiola vazia e saiu da loja com uma pressa surpreendente. Marshall acabara de transmitir-lhe a ordem. e Futgris ao depósito. Ao fazê-lo. com os hiobargulus. esgueirando-se por entre o tráfego da trepidante Rua do Grande Mo. Assim. Lembrava-se da bronca que tivera de agüentar no dia anterior. arrasando com ele em questão de capacidade.

a mentira fatalmente seria descoberta. Subitamente passou a desenvolver uma atividade intensa. que inevitavelmente haveria de chegar o momento em que o grande cérebro positrônico examinaria o relatório sob o aspecto da coerência lógica. mas havia alguma coisa em sua cabeça que o impedia de conceber qualquer idéia clara. Porém cada dia que conseguisse ganhar dava a ele e a Laury Marten novas chances de atingir o objetivo a que se tinham proposto. Enquanto isso pretendia redigir o relatório. o médico dos aras. Aí então. Logo lembrou-se das ameaças que os dois chefes a que estava subordinado haviam formulado no dia anterior. Entrou em contato com a divisão positrônica H. que explorava o comércio de animais numa loja da Rua do Grande Mo. controlando os pensamentos de Huxul. aguardava o resultado de seus esforços. por enquanto. correspondia à verdade dos fatos. Perry Rhodan. Quase no mesmo instante. sobre sua pessoa. Mas nem por isso ficou preocupado. que se encontrava em curso. aquecido dia após dia . O círculo estrelado que se via no canto inferior esquerdo representava o sinal de que o modelo passara pelo cérebro positrônico. Entusiasmado. Huxul se esquecia. John Marshall. E levou mais cinco segundos para compreender que já não compreendia mais nada. bem longe das áreas acessíveis aos curiosos. ao redigir seu relatório fictício. em nenhum dos seus detalhes. Finalmente a fita rolante trouxe o modelo de vibrações cerebrais acompanhado da respectiva interpretação. X-p ficava praticamente no centro do zoológico continental. que continuava parado diante do edifício. Porém. Em Hellgate. *** Aquilo que Man Regg. — O que é isso? Ixt já está registrado aqui e tem um número de identificação dos aras — disse Huxul em tom de espanto e passou a mão pela testa. surgiu diante dos olhos de Laury Marten como uma construção gigantesca. lembrou-se desse fato. acenou com a cabeça. Não estava em condições de impedir a investigação. Era ali que estavam armazenados todos os algarismos de identificação dos aras. a cerca de oitenta e um anos-luz de Tolimon. Transmitiu o número de código. quando descobriu o número de código. *** Huxul esperou que o laboratório lhe fornecesse o modelo de vibrações cerebrais com uma interpretação completa. em meio a um desolado deserto de pedras. E. isto o livraria de uma repreensão ainda mais intensa dos chefes. Isso bastou para uma ação precipitada. As divergências insignificantes em seus dados pessoais foram atribuídas a um lapso. designara diante da barreira energética como X-p. Tornou-se cada vez mais difícil lembrar o que havia acontecido há uma hora na casa de animais de Ixt. pelo que sabia da arquitetura dos médicos galácticos. protegido pela abóbada de aço. Por cima da entrada principal. a tela que se encontrava sobre sua escrivaninha iluminou-se. Apenas. supôs que o complexo penetraria na terra numa profundidade equivalente a três vezes sua altura. Evidentemente esse relatório era extremamente favorável ao mercador galáctico Ixt. Huxul redigiu um relatório que. Levou alguns segundos para compreender que aquilo que estava lendo eram seus próprios dados pessoais. via-se esta inscrição singela: X-p.

No mesmo instante. Sentiu o coração palpitar ligeiramente quando penetrou no setor de controle. À primeira vista. Os tapetes abafavam os sons. que se encontrava bem diante do mesmo. pela última vez. Foi só graças ao cérebro gigante positronizado instalado em Árcon. processara-se por trilhas próprias. mas agora. não teve tanta certeza.pelos raios causticantes do sol. de cores sóbrias e com uma atmosfera agradavelmente refrigerada. se transformara numa idéia consagrada e bastava para deixar claro o caminho extraordinário tomado pela evolução autônoma dos médicos galácticos. Não sentiu nada enquanto caminhava de um feixe luminoso a outro. Tratava-se de ampla sala decorada com um luxo discreto. que parecia fundido numa única peça. O saber hipnótico que lhe fora ministrado não conseguia explicar esses reflexos luminosos. Já fazia cinco minutos que se encontrava no interior do edifício. Laury obedeceu. Laury teve dificuldade em determinar o formato da construção. Só mais tarde ficou sabendo que dessa forma a parte exterior de seu corpo seria libertada de germes. Uma voz sonora mandou que se aproximasse do círculo luminoso desenhado no centro do soalho e caminhasse uma vez por sua periferia. A luz fosforescente que saía das aberturas do teto e se refletia palidamente em torno do centro do soalho compacto deixou-a confusa. Uma abóbada no interior da construção em forma de tubo? Avançou a passos hesitantes. Em voz baixa. ouviu a voz sonora. que lhe ordenou que atravessasse . estendia-se a uma distância de vários quilômetros. O simples fato de que o abastecimento de medicamentos aos mundos dominados por Árcon fosse feito pelos aras. A seguir. Laury declarou ter sido transferida para X-p por ordem de Man Regg. e aguardou novas ordens. tal qual a dos mercadores galácticos. ambos descendentes da raça dos arcônidas. a mesma voz indagou sobre seus desejos. a parede da abóbada abriu-se em forma de diafragma. que surgiu repentinamente diante dela. Mas mal havia concluído o giro. deixando livre o interior de X- p. que a tentativa de apoderar-se do Império de Árcon. onde foi testada pelas lentes de cristal. graças à sua constituição orgânica. pronunciou seu nome arcônida. Surgiu uma abertura circular e. Formavam uma população de bilhões de habitantes que corporificava um saber ao qual os arcônidas nada poderiam contrapor na área da medicina. Laury fosse desmascarada como não-arcônida. À sua direita. pôs-se em movimento e não se espantou quando a grande porta transparente P II recuou silenciosamente diante dela. contemplando a fachada tingida num azul-pálido. Surpresa. que numa função autárquica decidia sobre a existência de todos e em todos os sentidos. O sinal azul-claro de liberação. Muito embora na Terra houvessem sido tomadas todas as providências possíveis para que o fato não pudesse ser revelado por meio de simples radioscopia. Arga Slim. não se deveria esquecer que havia uma diferença enorme entre a tecnologia de Árcon e a dos aras. Foram essas as idéias que passaram pela cabeça de Laury Marten enquanto a mesma se encontrava no setor de controle. e até então não havia visto um único ara ou robô. O edifício de oito pavimentos. Qualquer controle envolvia o perigo de que. Uma abóbada radiante estendia-se acima de sua cabeça. aliviou-a da tensão. A evolução milenar dos médicos galácticos. terminara num fracasso. realizada há muito tempo pelos aras. pensou num cano superdimensionado de extremidades arredondadas.

— O problema resume-se numa seqüência de conclusões lógicas. A senhora gostaria de trabalhar na minha equipe pessoal? Ao concordar. atrás dela. Especializara-se principalmente nas áreas da zoologia galáctica e da soroterapia. o chão começou a trepidar ligeiramente assim que. Laury Marten fez o jogo do gato e do rato com Man Regg. o homem que conhecera no dia anterior. Laury Marten acreditava encontrar-se próxima ao objetivo. — principiou. geralmente tão prosaico. transformou-se no protótipo do homem lógico. O cientista. uma expressão de desconfiança surgiu nos olhos de Man Regg. Laury Marten se tornou fria. A tecnologia. Apenas. mas Laury Marten já preparara a resposta. acabou por entusiasmar-se com a lógica tão bem elaborada de Laury Marten. Man Regg formulou em pensamento as linhas gerais do processo que. Não viu nenhuma fita. Mais uma vez. o diafragma se fechou silenciosamente. Lia seus pensamentos e formulava as respostas de acordo com os mesmos. Inclinou-se para a frente. Man. para seu espanto. os aras. Laury Marten espantou-se com o próprio nervosismo quando a parede que se encontrava diante dela subitamente se abriu para os lados e ela se viu diante de Man Regg.. De repente. Arga. Sentaram-se frente a frente. não progredimos apenas no terreno da medicina. Ao lado da desconfiança. isenta de qualquer influência emocional. e passou a expor sua opinião.a abertura e deixasse o resto por conta da fita transportadora. . Exprimira seus pensamentos de forma quase inalterada. Jogou com todo charme que possuía. a arcônida mencionara como que por acaso. viu o espanto e a admiração. Sua pergunta terminante e inequívoca ainda pendia no ar. Mas o pior não era isso.. e brilhou com seu saber. Tomado por um princípio de desconfiança. por se tratar de um dos numerosos segredos cuidadosamente guardados de X-p. Arga. disse: — Nós. Sorriu. Seus olhos exprimiram certo orgulho quando notou a perturbação da moça. antes de lhe ser confiada a missão. Depois de cumprimentá-la. que tem sido negligenciada por muito tempo. O erro que acabara de cometer não a deixou perturbada. observou o efeito que suas palavras produziam no rosto de Regg. experimentou novo impulso entre nós. Laury Marten sentiu a tensão formiguenta que já se apossara dela quando atravessou a entrada do edifício. A lição que Perry Rhodan vivia inoculando nos seus homens transformou-se em sua salvação. Espantou-se ao perceber que entrara numa sala fechada. Afinal. De repente. a ponto de exclamar impulsivamente: — Estou pensando em outra coisa. Laury Marten se descuidara. que acabaram por prevalecer. Pensou na possibilidade de outro controle. X-p era o lugar em que era produzido o maior segredo dos médicos galácticos: o soro prolongador da vida. boa parte do saber médico dos arcônidas lhe fora transmitido por meio de um processo de aprendizagem hipnótica. Apesar da falha a mutante teve sorte. Com um sorriso nos lábios. Mais uma vez. Isso só lhe foi possível porque. Recorria ao genial saber do cientista para fazer seus blefes contra o mesmo. O fato era que nenhum arcônida poderia dispor desse conhecimento.

Apenas perscrutou-se. o último retoque da personalidade. um dos agentes de Rohun estacionados em Tolimon. O argumento de maior peso. um sistema de elevadores antigravitacionais. O rosto de John Marshall assumiu uma expressão rígida. culminou nestas palavras: — Como estudante de zoologia. Soube inclusive de sua resposta leviana e sua tentativa de livrar-se da situação embaraçosa em que se encontrava através de novas peripécias com o saber de Man Regg. Arrancou-se violentamente em meio às suas preocupações. Mas havia em Egmon outro detalhe ainda mais . que levava ao setor G-8 do espaçoporto. pedindo-lhe que realizasse um exame acurado da estudante de zoologia Arga Slim. Ainda lhe faltava a prática. que faria com que não superestimasse suas próprias habilidades e. Ainda era capaz de embriagar-se com um êxito momentâneo. que desde o início giravam em torno de Laury Marten. A disposição eufórica perdurou até que atingisse o gigantesco espaçoporto de Trulan e procurasse em vão localizar a nave cilíndrica de Rohun. todo o mundo de Tolimon se colocará em nosso encalço”. Naquele instante. Sua exposição otimista forneceu-lhe certo estímulo moral. John Marshall — ainda sob a máscara de um barbudo — colocou seu espírito num estado de alarma rigorosíssimo. “Se nos dados de Laury também houver alguma divergência. principalmente. mas também com o serviço secreto sediado em Trulan. precisava descobrir por que Rohun decolara com a nave. onde tomaria uma condução que o levasse de volta ao centro da cidade. Rohun decolara sem avisá-lo! No mesmo instante. John Marshall enfureceu-se! Acabara de conhecer os menores detalhes do que se passara entre Laury Marten e Man Regg. Ainda pertencia ao círculo de colaboradores pessoais do cientista. Man Regg entrara em contato não só com a Divisão de Segurança. pensou e teve uma sensação de desconforto. Virou-se em direção ao distribuidor. Seus cabelos louro-claros chamavam a atenção de qualquer um. *** John Marshall captou a mensagem telepática de Laury Marten quando se encontrava a caminho da nave de Rohun. a fim de ouvir o relato da mutante. o comandante dos saltadores. Marshall encontrava-se sobre a fita-guia. Mais uma vez passou os olhos pelo enorme campo de pouso. e essa embriaguez a levava a cometer erros. Não via decolar e pousar as naves e não deu a menor atenção ao que se passava em torno dele. Era o lugar em que ainda ontem estivera estacionada a nave de Rohun. Egmon. O movimento intenso do espaçoporto desapareceu diante dos olhos de Marshall. a necessária visão global das coisas. Aquele saltador mais se parecia com um arcônida. Antes de mais nada. a arcônida Arga Slim dispõe de um saber que infelizmente tenho procurado em vão entre os meus médicos. Lembrou-se de suas preocupações. que Man Regg formulou em apoio a suas suspeitas. mas no espírito de Man Regg haviam surgido dúvidas sobre a pessoa de Laury Marten. Viu que uma nave arcônida com sua típica forma esférica rompeu silenciosamente a delgada camada de nuvens e pousou suave. a fim de que este o conduzisse à via elevada. Em X-p. recebeu o impulso de Laury Marten. Finalmente descobriu. em meio à confusão.

Sentiu que alguém se encontrava bem atrás dele. Ixt. Caso Estgal se tivesse mantido no mesmo ramo. mas nunca conseguiram pegar Estgal em flagrante ou desmontar sua organização que age na superfície. — O clã de Estgal vive contrabandeando medicamentos dos aras. É por isso que este lugar está cheio de espiões dos aras. O agente dos saltadores ouvira seu nome. foi preso e submetido à . mas os ombros largos — disse Egmon em tom perplexo. — O que o torna irreconhecível não é a barba. Foi só graças ao treinamento a que eram submetidos os colaboradores de Rhodan que Marshall conseguiu dominar-se: — Faça o favor de limitar-se ao essencial. porém havia na voz de Marshall alguma coisa que lhe parecia conhecida. Marshall cochichou: — Se eu fosse você. Egmon. Egmon. usou seu dom telepático para alcançar os pensamentos desse alguém. mas não conhecia o barbudo que lhe dirigira a palavra. menos pacíficos. John dirigiu-se a um dos numerosos robôs de informações. da mesma forma que um camaleão muda a cor da pele. De repente. estou esperando pelo senhor há várias horas. Estas palavras pareciam familiares a Marshall. um tanto mecanizada. Ao virar-se. Por isso decolou e encontra-se a meio caminho entre Tolimon e Hellgate. O saltador ainda estava desconfiado. Os pensamentos de Egmon podiam ser tudo. que também se haviam ocupado com esse processo e seu desaparecimento. O agente de Rohun via naquele sujeito um espião dos aras e. poderia ter ficado muito velho. membro do clã de Estgal. — Que acontecimentos? — Um homem do clã de Estgal foi apanhado e submetido à lavagem cerebral. Marshall não esperara outra coisa. que Marshall tinha na lembrança como um agente de Rohun. — Por todas as estrelas. a voz do robô. Indicou o número da nave de Rohun e procurou saber para onde se dirigira o mercador galáctico. No mesmo instante. Nosso chefe recebeu más notícias. — Por meio de um ara subornado. — Estgal está morto?! — indagou admirado. patriarca dos saltadores.estranho. O que foi que Estgal quis arranjar? — Já havia arranjado — cochichou o agente louro-claro. — E depois? — Na última noite Hduzz. onde aguarda o desenrolar dos acontecimentos.. — Há três ou quatro horas foi destruído em pleno espaço com dezoito naves. por uma formação bélica dos aras. não apertaria o gatilho. que sempre voltava a fascinar Marshall: o aspecto dos olhos do agente mudava constantemente. ao passar por ele. — Não posso dar nenhuma informação — rangeu. Marshall. passou a interessar-se por esse desconhecido patriarca. — Egmon — disse Marshall. Lembrou-se de ter lido os pensamentos de Kuxul. Marshall não sabia quem era Estgal. mantinha engatilhado o radiador de impulsos que trazia no bolso. Egmon.. Os aras sabem disso. para estar preparado para qualquer iniciativa. fechado e de poucas palavras. conseguiu arranjar na fábrica de soro G-F 45 o processo de conservação do soro imunizador X-1076. estava desenvolvendo uma verbosidade irritante enquanto apresentava seu relatório. Mas Egmon só se tranqüilizou quando o mutante citou seu nome.

mas ambas chegaram ao mesmo resultado.. . também o ara corrupto foi preso e submetido ao mesmo tratamento. Era estudante de zoologia e. Respirava pesadamente.. — Será amanhã! — disse Marshall em tom decidido. Arga Slim era uma arcônida de vinte e três anos. enquanto seus olhos emitiram um brilho esverdeado. — Vocês mantiveram contatos muito estreitos com os agentes de Estgal? — Essa informação só pode ser dada por Tulin ou Otznam — respondeu o saltador. três vezes repetido. tomou o expresso radial que corria velozmente em direção ao centro da cidade. enquanto a cor de seus olhos mudou de novo. Quando se viu sozinho com os colegas. Fez um gesto quase imperceptível para Egmon e desapareceu em meio à confusão dos transeuntes. O mas. Depois disso. teria de prestar os exames finais. Seus pensamentos estavam absortos na missão que Perry Rhodan havia confiado a ele e a Laury Marten. o lugar através do qual se atingiam as diversas ruas por meio dos elevadores antigravitacionais. A diferença devia provir da falta de nitidez da transmissão. Limitou-se a pedir: — Amanhã a esta hora quero encontrar-me com Tulin neste lugar. Segundo a opinião dos professores. Mas as naves de guerra dos aras já o esperavam e destruíram seus veículos cilíndricos. mas. Não descobriu nenhuma mentira em seus pensamentos. não era o único ouvinte.lavagem cerebral. mas não interrompeu o relatório do ara de sua Divisão de Segurança. O serviço secreto dos aras penetrara até o centro do império estelar dos arcônidas. dizia respeito a Laury Marten. Não havia o que objetar nos dados. Três colegas encontravam-se em sua companhia. *** Man Regg sacudiu a cabeça pela terceira vez. era dotada de um talento médico extraordinário. o dia já estava amanhecendo. A missão parecia-lhe quase insolúvel. o médico genial dos aras. — Pode retirar-se! — com estas palavras. Subiu e. Entrou no distribuidor. Estgal recebeu um aviso e fugiu para o espaço com suas naves. dentro em breve. Já compreende por que meu chefe resolveu deslocar-se para um ponto situado a quarenta anos-luz deste planeta? Marshall deixou a pergunta sem resposta. Man Regg. A central de Trulan seguira outros caminhos que os da Divisão de Segurança do conjunto X-p. ouvia- o atentamente. Man Regg dispensou o chefe da Divisão de Segurança de X-p. perguntou: — Então? Três vezes ouviu esta opinião: — Tudo perfeito. vinda do planeta Dewen. por meio do hipercomunicador. Com a paciência de um homem bem equilibrado. Quando tudo isso terminou. Marshall realizou um exame rápido para verificar se Egmon estava dizendo a verdade. Será que você poderia avisá-lo? — Ele poderá estar aqui dentro de uma hora — disse Egmon. ou seja. O retrato recebido de Dewen pelo hipercomunicador correspondia aproximadamente ao aspecto de Laury Marten. em busca do passado de Laury Marten. e estes também não interrompiam o relatório. uma vez na via elevada número quatro.

Entrou com um sorriso amável nos lábios e fingiu-se espantada quando em vez de Man Regg notou três aras desconhecidos à sua frente. um zoólogo ara. Laury Marten — recebeu ordem para apresentar-se ao chefe. só ouviria aplausos à mesma. Laury Marten respondeu com a maior amabilidade: — Dos dados a respeito de minha pessoa consta a prova de que durante um ano fui assistente de Moguld. Man Regg dirigiu-se à sala contígua. Arga Slim — ou melhor. Subitamente sentiu-se perturbada por um impulso mais intenso. — Será que Árcon já avançou tanto no campo da pesquisa genética que os estímulos genéticos. — Será que no Império de Árcon se conhecem todas as pesquisas que já foram realizadas nos mundos dos aras? . Os examinadores começaram a ver nela um verdadeiro fenômeno médico. Sabia do que se tratava. valeu-se dos conhecimentos dos três examinadores para escapar sã e salva de todos os obstáculos e armadilhas do caminho. Man Regg permaneceria na sala contígua. Assa exclamou de modo interrogativo. — Acontece que não nos consta que Moguld se ocupe com a biologia da hereditariedade. já passaram à categoria de informações que são do domínio público!? — surpreso. Era claro que. O saber médico arcônida que lhe fora transmitido durante o processo de aprendizagem hipnótica não lhe teria adiantado muito. Passou a responder às perguntas por meio dos pensamentos de Man Regg. Gelte. Os três cientistas aras acreditaram que tivessem diante de si uma arcônida desprevenida. De repente. mas ela o fez de tal forma que apontou como observações menos corretas tudo aquilo que Regg considerava certo. Estava formulando uma sugestão. via-se obrigada a realizar um trabalho de mestre para controlar três cérebros. Arga continuou amável como antes. dizendo que não havia entendido a pergunta. vindo da sala contígua. que também em Tolimon goza de certa fama. Apesar disso. da mesma forma que aproveitara o saber de Man Regg para brilhar. Laury deixou que permanecessem nessa convicção. Isso aconteceu no momento exato em que seus examinadores formularam uma pergunta importante. aproveitou o novo lapso de tempo para formular a resposta. Ao mesmo tempo. sendo o chefe. Embora fosse telepata e pudesse ler pensamentos. pois isto seria uma tolice fora do comum. Man Regg não estava satisfeito com o resultado obtido por dois caminhos diferentes. Dessa forma. concentrar-se nas respostas e continuar a oferecer a imagem de uma arcônida segura e confiante. Sentou e logo se viu envolvida num exame bastante duro. tornou-se confiante demais. os quais até agora não se tornaram conhecidos dos médicos. Laury Marten recorreu ao meio empregado em todas as estrelas. onde acompanharia tudo pelo sistema de comunicação audiovisual. Precisou lançar mão de toda energia e concentração de que era capaz para não cair do extremo da estudante superdotada para o extremo oposto. apresentando três argumentos que representavam os pontos mais fracos da série de pesquisas de Man Regg. examinaria Arga Slim em presença dos seus colegas Kelisse e Assa. Arga Slim. ganhou tempo para descobrir quem se encontrava na sala contígua e concentrava seus pensamentos sobre ela. Mas.

Eram apenas fragmentos. Apesar de tudo. Enquanto Laury Marten elogiava os homens de Terrânia. Ambos não sabiam que o Serviço de Defesa do Sistema Solar nunca teria sido capaz de fornecer dados tão precisos. — Sugiro — disse Man Regg. — Será que a teoria de Moguld representa um forte argumento. mesmo sob a desconfiança de Assa. não se encontravam muito longe do objetivo. se não contasse com a cooperação de certos mercadores galácticos. Tentou influenciar os aras hipnoticamente para esse fim. Se John Marshall participasse da palestra. Perry Rhodan ficaria livre da tensão psicológica insuportável causada pelo fato de que Thora. Mas só Rhodan e um comandante dos saltadores sabiam que a verdadeira Arga Slim se encontrava há mais de oito meses numa nave cilíndrica. As reflexões dos três médicos aras haviam revelado parte do segredo sobre a maneira pela qual pretendiam alcançar a imortalidade. Kelisse. encerrando a reunião — que Arga Slim passe a trabalhar na Divisão de Geomorfismo. Os dados sobre Moguld eram corretos. enquanto Crest. Conseguiu enrubescer com o elogio de Man Regg e. mas por dentro fervilhava. Ou será que pensam de forma diferente? A Divisão de Geomorfismo estudava as alterações trópicas da pele do rosto de inteligências jovens. para que Laury Marten com seu espírito um tanto infantil não se deslocasse para o terreno das areias movediças. realizando em mundos distantes estudos zoológicos in loco. — Isso não é argumento — falou Assa em tom furioso. que deixavam os aras perplexos. a mulher amada que se encontrava a seu lado. Laury teve que realizar uma obra-prima da telepatia. John Marshall os repreendia por suas negligências. teria colocado uma poderosa barreira mental. apesar do uso do soro prolongador da vida. E. Quando isso acontecesse. E também era verdade que existia uma estudante de zoologia arcônida chamada Arga Slim. e Laury Marten rogava aos deuses para que um deles refletisse sobre o problema em seu aspecto global. haviam refletido sobre o problema. Viram que o mais importante dos seus segredos havia sido descoberto. ao mesmo tempo. Nem mesmo Assa. felicitou no seu íntimo o Serviço de Defesa do Sistema Solar por ter forjado seus dados pessoais com tanto cuidado. Leu novos pensamentos. o amigo arcônida. envelhecia a cada dia. mas bastaram para que reconhecesse que os três aras que tinha diante de si pretendiam alcançar um prolongamento infinito da vida sem recorrer a qualquer soro. quando este afirma que o segredo da vida eterna se encontra nos cromossomos? — Tolice! — resmungou Assa. ao que parecia. Até esse ponto. . para revelar o processo sofisticado de produção do soro prolongador da vida. conduziu uma conversação especializada fluente. Assa e Gelte não passavam de um feixe de receios. que muitas vezes adquiria o aspecto envelhecido. se transformava num ancião. Mais uma vez. intercalando vez por outra algumas observações científicas de alto gabarito. mas nesse instante Man Regg veio da sala contígua e felicitou-a. Nenhum dos três médicos teve qualquer objeção contra a sugestão do chefe. Lamentou a interrupção. Naquele instante. — Será que ainda se pode falar em tolice se aumentarmos artificialmente o número dos cromossomos ligados à espécie e obrigarmos os cromossomos adicionais a suspenderem a divisão indireta das células? Laury Marten sorriu. o problema estaria resolvido.

Nos últimos meses fizera várias compras de animais esquisitos pelo rádio. Quando o último dos animais acabara de ser fixado fotograficamente. Tulin. Aposto que nem um único destes animais é conhecido no Império de Árcon. Depois. morcegos gigantes. Logo a seguir. O encontro — que no dia anterior tivera no espaçoporto com Tulin. enquanto a nave dos saltadores que os trazia a bordo ainda se encontrava no espaço. Na tela. Futgris ficou perplexo quando o chefe voltou a confirmar o preço da compra. mas em seus olhos brilhava a chama do entusiasmo. mas se o senhor me pagar um preço aceitável. estava entrando em contato com ele. John Marshall pretendia entrar no negócio a todo vapor. Um instante! Vou mostrar-lhe meu zoológico de bordo. John Marshall catalogou. um saltador jovem e robusto. Ixt. O contato pelo hipercomunicador não foi interrompido. um saltador. Bet tinha uma coleção de monstros terríveis a bordo. os animais que se encontravam a bordo da nave cilíndrica de Bet.299 anos-luz do planeta Tolimon. — Tudo que tive de fazer foi carregar os animais de um planeta que em cada canto exala um cheiro diferente. Naquela manhã. os animais começaram a surgir na tela. eu os vendo ao senhor. Era uma das ferramentas de um negociante em grande escala de animais raros. estabelecido em Trulan.” E a experiência de oito meses ensinara a Marshall que a melhor isca para os médicos galácticos eram os animais que ainda não fossem conhecidos em Tolimon.3 milhões. com o auxílio de Futgris. reteve a respiração. e muitas vezes levava semanas para chegar a Tolimon. Eram 1. Pretendia fornecer toda a carga aos aras. a milhares de anos-luz. surgiu o rosto de Bet. . Marshall pediu que até o meio-dia o vendedor lhe entregasse trinta exemplares do catálogo. 5 O hipercomunicador instalado no luxuoso escritório de Ixt não representava nada de extraordinário. anfíbios e outros seres que não poderiam ser enquadrados em qualquer categoria. Este também não sabia o que fazer. Eram lagartos. mais confiantes eles se tornam. um dos agentes de Rohun. A Bet-765 respondeu. “Quanto mais estreitamente a gente colabora com os aras. o negócio tomou um fim. Chamou a Bet-765 pelo hipercomunicador. lhe contara no dia anterior que Bet. Bet sorriu ligeiramente ao ouvir o motivo pelo qual Ixt. um negociante de animais. se aproximava de Tolimon. Futgris estava sentado à sua frente e deveria socorrê-lo com seus conhecimentos especializados se isso se tornasse necessário. A imagem de Bet desapareceu. Ixt lançou um olhar indagador para Futgris. John Marshall esquentou seu hipercomunicador. que durante as ações desempenhadas em muitos planetas já se acostumara às coisas mais estranhas e monstruosas. John Marshall. Uma frase dita ao acaso transformara-se subitamente num impulso muito intenso. um ruivo impetuoso — fornecera-lhe estímulo para isso. com metade da nave cheia de animais dos tipos mais estranhos. Enquanto a Bet-765 ainda se encontrava a 5. As negociações consumiram meia hora.

que terá dificuldade se não fizer o negócio conosco. Ixt. Conhecia os pensamentos de Kolex. dirigindo-se ao robô. que poderiam estar interessados na aquisição de animais desconhecidos. acabava sendo revelado através dos seus pensamentos. mas em todos esses séculos nunca vira tamanha profusão de coisas terrificantes. mas que nem por isso deixava de ser uma raposa esperta. Kolex comprimiu mais uma tecla para estabelecer outra comunicação. Aquilo que o chefe da Divisão de Compras dos aras ocultava.. o ara formulou uma ameaça velada: — Esses seres ainda não chegaram às suas mãos. apontando para seu robô de trabalho. seus olhos fitavam John Marshall. Colocou-o exatamente diante da lente de cristal do projetor de campo. Era exatamente o que Kolex estava pensando. mantendo-se imóvel atrás do chefe. mas seus dedos não ficaram quietos nem por um segundo. Apenas o catálogo ainda não havia sido apresentado. Era lá que se encontrava John Marshall. A palestra estava sendo vista e ouvida em mais de vinte lugares. sob o disfarce da extraordinária máscara de saltador.1 milhões. os trinta exemplares estavam sobre a mesa de John Marshall. a luz ofuscante do sol voltou a encher a sala. O biomédico Man Regg acabara de ser colocado na linha. Deixou que falasse. um velho ara. Sua boca permaneceu fechada. Estava reprimindo o desejo de levantar-se de um salto para exprimir seu espanto. A projeção durou nada menos que uma hora. Passara por cima de dezoito instâncias competentes. — Um catálogo! — pediu Marshall. encontrava-se sentado diante de Kolex. de forma diplomática. John sabia o que a velha raposa estava fazendo com os dedos. John Marshall conteve-se para não deixar perceber o triunfo. John Marshall armou-se de paciência. Pediu 2. Estava pondo em polvorosa todos os setores do gigantesco aparelho. Naquele momento. Vivia lutando contra a tendência de irromper em demonstrações de entusiasmo. respondeu com . o ara estaria disposto a fazer pelo chefe tudo que estivesse ao seu alcance. No mesmo instante a sala foi escurecida automaticamente. novas e extraordinárias. pois lia os pensamentos de Kolex. A única coisa em que estava interessado eram os pensamentos de Kolex. O robô de trabalho de Ixt ainda mantinha os exemplares seguros nas mãos de aço. Mas em vez de aceitar a pretensão de Marshall. lia-os. Fazia mais de oitocentos anos de Tolimon que exercia as funções de chefe da Divisão de Compras. Numa atitude de espreita. Não se sentiu embaraçado ao indicar a soma. John Marshall. E este estava disposto a chegar até lá. que carregava trinta catálogos. Pelo que diz. Felicitava-se constantemente por ter resolvido há oito meses entrar para o serviço da firma recém-fundada. Quando terminou. Futgris foi brindado com um elogio todo especial. Enquanto se mantinha de olhos semicerrados. Depois disso. A imagem do primeiro animal foi projetada sobre a tela de radiações com uma dimensão de quatro metros por cinco. Dali a duas horas. Acredita que eu teria algum problema em descobrir qual é o saltador que tem essa carga a bordo e negociar diretamente com ele? Posso perfeitamente dar a entender. O mutante de Perry Rhodan disse o preço. *** Divisão de Compras.. curvado pelos anos. o negócio foi fechado pelo hipercomunicador.

deu a entender que o serviço de vigilância de hipercomunicações de Tolimon não estava em condições de verificar com quem havia falado. e quem possuísse um sentido de olfato humano tapava o nariz e lutava desesperadamente para reprimir as náuseas causadas pelo terrível fedor. — Kolex — disse em tom enfático. os dois se haviam tornado bons amigos. deixando à mostra o depósito F. a multidão fugiu em disparada. — Ora. Com estas palavras. haviam desmaiado. que já estavam acostumados a muita coisa em matéria de mau cheiro. Kolex ainda teve o atrevimento de formular uma pergunta: — O senhor acha que em Tolimon é permitido o uso de hipercomunicadores desse tipo? John Marshall resolveu falar grosso: — Será que estou aqui para ser interrogado ou para tratar de negócios? O senhor sabe perfeitamente que os mercadores galácticos negociam com todos os povos do Império. veio a resposta da Divisão de Vigilância de Hipercomunicações. — Eu sou um saltador. pois nunca se vira tamanha quantidade de jaulas transportáveis. O sorriso condescendente de John Marshall tornou-se mais intenso. A atitude de espreita nos olhos de seu interlocutor tornou-se mais intensa. fecharam o contrato para o fornecimento de animais. Mas. Quando John Marshall se despediu de Kolex. o mercador galáctico. Mas esse instante não chegou. *** Dois dias depois. faça-me o favor! Não disse mais nada. Outros fugiam junto com o grupo de curiosos. tenho outros interessados além do senhor. Kolex. Só depois de uma hora. Quase no mesmo instante. quando a Divisão de Compras dos aras e Ixt. que estava parado ao lado de Marshall junto à grande rampa. que chegava a quarenta e cinco graus à sombra. A onda olfativa — espalhada como uma densa neblina e reforçada incessantemente pelo cheiro que saía do interior do depósito da Bet-765 — era de intensidade inigualável. A ligação foi completada.um sorriso condescendente. Também em Trulan não faltavam os curiosos. Um ara prometeu fornecer num instante os dados solicitados. Pediu apressadamente uma ligação com o serviço de vigilância de hipercomunicação. pendia sobre Trulan. Vamos dar a palestra por encerrada. Alguns zoólogos dos aras. dada em tom modesto. Kolex. de que não era possível fornecer a informação solicitada. A chegada da nave provocara sensação. no valor de dois milhões. quando a onda olfativa penetrante se aproximava inexoravelmente do gigantesco edifício da recepção do espaçoporto. a descarga dos animais pôde ser iniciada. Meu hipercomunicador foi construído pelos saltadores. respirou profundamente algumas vezes e enxugou o suor que lhe cobria a testa. quando a grande comporta da Bet-765 se abriu. a Bet-765 pousou no espaçoporto de Trulan. Marshall logo colocou seu aparelho de respiração. viu um . De acordo? O calor do meio do dia.

Marshall. Mesmo que fosse um agente. o senhor nos vendeu o lote de animais mais sensacional do milênio. Ixt — respondeu Kolex num tom que. O senhor já fez alguma coisa contrária às nossas leis no mundo dos aras? O funcionário quis saber com todas as minúcias como foi que fechamos o negócio. quando olho para a beleza que o senhor nos vendeu. — Não me esquecerei do que o senhor se dispôs a fazer por mim. mas não agora. Exerceu um controle instantâneo dos pensamentos de Kolex.. bancando o mercador galáctico em toda extensão — não teríamos feito o negócio por dois milhões. É bem verdade que existe um mercador galáctico de animais. Ixt. Qual seria então o motivo da advertência inequívoca de Kolex? Estaria agindo por intuição? . logo conclui-se que o tal do Ixt. Mas nesse exato momento foi atingido pela mensagem telepática de Laury Marten. — Eu? — disse Marshall em tom de espanto. sobre os quais correm boatos entre os saltadores. tenho um pedido. Kolex? — riu. se for necessário. Respirou profundamente. Diga-me uma coisa: Por que todos esses seres exalam um cheiro tão insuportável? — Se eu soubesse disso — disse John Marshall. com o formato de pólipo. Gostaria de saber por que o serviço secreto está interessado na minha pessoa. — Não me lembro de ter violado qualquer lei. Todavia.. mas pelo que dizem este reside em Xylon. John Marshall sentiu um calafrio. ser agarrado pelos raios de tração que o colocaram atrás da grade energética da jaula destinada ao transporte. Ontem recebi a visita do pessoal do serviço secreto. Tenho necessidade absoluta. Diz que os dados relativos à sua pessoa não são corretos. Não encontrou nada de importante além daquilo que o mesmo lhe dissera. O chefe da Divisão de Compras dos aras estava dizendo o que pensava. Esta observação fez Kolex lembrar-se de que procurara exercer pressão sobre o mercador de animais. O funcionário não explicou o motivo de sua visita? — Explicou. saltador! John Marshall surpreendeu-se porque o chão não se abriu sob seus pés para engoli- lo. é um trapaceiro. mas nunca haverá necessidade disso.monstro de dez metros. e proibia a perturbação telepática de Laury. meu coração se abre. além de ser ambíguo e reticente. — De qualquer maneira. Marshall examinou os pensamentos do ara. Até mesmo um palavrão pode ser transmitido por via telepática. Confie em mim. Minha influência junto ao serviço secreto é bem considerada. Era o chefe do comando. encerrava uma advertência. disse: — Nosso negócio se tornou conhecido em toda cidade. Na intenção de reparar alguma coisa. — Obrigado — prosseguiu. Eu sou Ixt. — Tal fato já constitui uma novidade. — Daqui a pouco! — telepatou de volta. e procurarei ajudar. — Qual foi a expressão que o senhor usou. Ixt. no sistema de Hogur. John Marshall não se importou com o fato de que Laury Marten era mulher. faria tudo para ajudá-lo. Laury! — Acontece que encontrei humanos trancados no zoológico. em tom exaltado. — Agora não! Daqui a dez minutos. Ixt. — Estes animais respiram oxigênio e espalham um fedor destes! — suspirou Kolex. Não poderia deixar de responder a uma observação como esta. Fitou Kolex. Confie em mim. Ixt. que se encontra em Xylon.

e as dobradiças. Aguardava outra surpresa. Por onde quer que passasse. Laury Marten viu subitamente uma construção parecida com uma casa de camponeses suecos. com o telhado de palha que quase tocava o chão. sempre desconfiados. A parte do zoológico em que se encontrava ficava a mais de duzentos quilômetros da área acessível ao público. A barreira energética encontrava-se atrás dela. ler e escrever. Freou subitamente e imobilizou o veículo. Estendeu a mão em direção à barreira energética invisível. A trilha estreita. Virou-se apressadamente e voltou a examinar o terreno. sua decisão havia sido tomada. que tinham quase um centímetro de grossura. A quinhentos metros do lugar em que se encontrava. pendurado num tripé. Até onde alcançava a vista. O controle de rota de seu veículo fora regulado para essa grade e foi por simples coincidência que conseguiu ver a casa camponesa sueca. que lhe permitia dissolver aglomerações moleculares pela simples força de sua vontade. Não era apenas telepata. Sacudiu a cabeça ao ver a maçaneta desajeitada. Nenhuma das criaturas em formato de cobra estava à vista. fez sua vontade atuar sobre uma área reduzida da barreira. além de possuírem braços curtos em formato humano. Todos os detalhes haviam sido incluídos naquela construção. Também possuía o dom da desintegração. que tinham cabeça dupla e. A casa de campo sueca da qual Laury se aproximava poderia perfeitamente estar na Suécia. Desceu e aproximou-se da grade energética. Estacou diante dela. Como se o desejo tivesse atravessado uma lente. subia por um barranco. um tacho de cobre enegrecido pela fuligem. *** Ao passar por uma ondulação do terreno em que ficava o zoológico continental. enquanto olhava em torno para ver se havia algum frogh por perto. “Qual será a idade desta casa?”. perfeitamente visível. cercada de alamos prateados. Dirigia-se à grade. sem que sua vida corresse o menor perigo. Tratava-se de seres semelhantes a macacos. concentrou-se. espantada. feita de ferro forjado. Sorriu aliviada. notava que os aras se esforçavam em manter seus prisioneiros num ambiente que correspondia ao mundo do qual haviam vindo. reforçou a concentração da mente. não via nenhum frogh. Já agora a construção e os alamos prateados a encobriam. sentiu a resistência da barreira. não deixaria passar mais ninguém. Estava intacta. Deu um passo amplo e sorriu aliviada. pensou. pensou perplexa e procurou descobrir os habitantes da casa. Mas nem mesmo com suas energias telepáticas conseguiu encontrar qualquer pessoa. para ver se descobria algum dos ligeiros froghs. Não havia nada de diferente. Passou a andar mais devagar. parecia uma lembrança do planeta Terra. Correu em torno da casa. Quando resolveu lançar um olhar para o interior da casa viu um fogo aberto e. mas o quadro que se ofereceu diante de seus olhos . atrás da qual eram mantidos os bombos. “Estamos em plena Idade Média”. Essa faculdade incrível lhe permitia transpor paredes compactas e barreiras energéticas. sabiam falar. Quando Laury esbarrou contra a parede energética e foi atirada para trás uns trinta centímetros.

. Como caminhava! Seu passo era majestático. como uma mocinha inexperiente. que nem desconfiava de sua presença. O silêncio propagou o som. saíra do palácio e caminhava para o lado esquerdo. Um homem saiu da grande porta lateral do palácio asteca. habitantes indígenas da América Central. Nasci no ano da graça de mil seiscentos e cinqüenta e dois e com a idade de vinte e dois anos fui raptado e levado para Tolimon. vários minutos haviam sido consumidos em perguntas formuladas e respondidas às pressas. Um homem. A mutante foi caminhando devagar. levantou. filho da princesa asteca Uxatelxin e do conde espanhol Juan de Berceo.521. colocou a mão direita sobre a espada e com a esquerda tirou o chapéu de aba larga. Era um mestiço. Perplexa.obrigou-a a ficar parada. Laury viu o tremor das narinas e notou o olhar. Esses dados resumiam tudo que sabia a respeito dos astecas. Os cabelos sedosos e brilhantes desciam em cachos escuros. falando como uma mocinha tímida. Os astecas. fitou um edifício construído em estilo asteca. Sentou no muro baixo.. Como chamejavam seus olhos! E como era altiva a expressão da boca! O tamanho do nariz era um tanto exagerado. Deseja mais alguma informação? Nascido em mil seiscentos e cinqüenta e dois! A Terra já estava no mês de maio do ano de dois mil e quarenta e dois! Aquele homem. O jovem homem sorriu para ela. De repente. do homem altivo. E majestática também eram sua figura e sua postura. — Quem é o senhor? — Laury Marten formulou a pergunta na língua dos aras.519 a 1. O homem ainda não a havia notado. que provocavam um espanto cada vez maior na moça. Voltou a endireitar o corpo. que tinha o aspecto de pessoa de trinta anos. viu-a. — Sou o conde Rodrigo de Berceo. Ao mesmo tempo.. Era alto e de ombros largos. mas era justamente o ligeiro excesso desse órgão que conferia ao rosto másculo o feitio do combatente fogoso. Uma pedra bateu na outra. vivera quatrocentos anos? Quando Laury Marten teve a idéia de usar suas faculdades telepáticas em relação ao conde Rodrigo. O homem levantou a cabeça. a construção que via diante de si — um palácio — lembrava os espetáculos relativos à cultura asteca que conhecia. Deu um pequeno passo para trás e executou uma mesura profunda e elegante. Seria o século dezessete? Será que a casa de campo sueca era do século dezessete? Subitamente estremeceu. foram subjugados por Cortez. E Laury Marten viu-se frente a frente com o conde Rodrigo de Berceo! Fitou-o boquiaberta. verificou-se a destruição de sua cultura e o extermínio da religião cruel e sanguinária que praticavam. Laury Marten sentiu o coração palpitar. E agora. em que se lia uma veneração extraordinária. de 1. A união do sangue asteca com o sangue espanhol haviam feito do conde Rodrigo um exemplar de beleza masculina. em direção à casa achatada que se parecia com a cobertura de um poço. Laury tropeçou. Seriam astecas? As idéias de Laury Marten desfilaram pelas fases da história.

que era proibido para todo e qualquer ara. Mas agora só via nela a homenagem de um homem que receava ter ido longe demais nas manifestações de entusiasmo por uma bela jovem. o visitante apenas veria o vazio da gigantesca abóbada. O cinturão brilhava e a espada presa a uma corrente de prata balançava de um lado para outro. e à medida que o contemplava familiarizava-se com suas vestes medievais: botas de cano estreito e revirado que chegavam até os quadris. agentes de Rohun.. *** John Marshall encontrou-se no pavilhão dos sonhos com Egmon e Tulin. O colete curto e sem mangas estava cingido por um cinto largo. Mas lembrou-se de sua missão. Laury Marten não retirou a mão. procurou convencê-lo da importância do fato.. que se encontrava em Trulan. Agora. Este homem de trinta anos realmente nascera no México. no mesmo instante. e o penacho preso ao mesmo era agitado pelo vento. Há pouco ainda se encontrara num gigantesco salão. essa fala talvez teria provocado um sorriso de compaixão em Laury Marten. Não tinha a menor intenção de esfregá-la entre as mãos para entregar-se aos efeitos da toxina. ela o fez com grande relutância. As mangas largas da camisa branca também terminavam em preciosas rendas. O colarinho de renda caía elegantemente por cima do colete. Laury Marten teve a impressão de que seria um crime investigar os pensamentos do conde Rodrigo. Parecia mudada. que o faria enxergar uma . Mas o contato durou poucos segundos. num beijo gentil. Numa fração de segundo enxergou tudo com a maior clareza. conseguiu estabelecer contato com John Marshall. A droga herfnis estava a seu lado. segurou sua mão. conforme combinara com este último. Subitamente aquele homem do século XVII ajoelhou-se diante dela. O chapéu era de aba larga. Mas. comprimiu os lábios contra a mesma. filha do século XXI. e pediu perdão pelo fogo que sentia no coração. E logo depois John Marshall “desligou”. Tudo aquilo que o inferno tivesse descoberto para intoxicar o homem. Ali se encontrava tudo quanto era entorpecente. A pesada corrente de ouro que trazia ao pescoço não parecia uma peça de ostentação. Não se cansava de olhá-lo. Deitou no chão. porém. Não poderia haver um ponto de encontro mais discreto que esse local mal-afamado. no pavilhão dos sonhos não haveria o menor problema para ser encontrado. Acontecia que precisava informá-lo sobre a descoberta que acabara de fazer.652! “Devo avisar Marshall”. captou sua resposta: uma repreensão áspera. em 1. estava invisível para qualquer pessoa que ali penetrasse. Enquanto o conde Rodrigo a admirava à distância. Rodrigo pensou que o susto de Laury Marten tivesse sido causado por sua pessoa e pela admiração que estava demonstrando. foi este seu único pensamento. tal qual o amuleto que representava o Deus Sol dos astecas. não sabia o que estava acontecendo com ela. John Marshall fechou a grade de radiações. Em qualquer outra oportunidade. a calça bem justa feita por um material que se parecia com o veludo. tal qual acontecera com ele há pouco. apesar disso. Marshall só estava disposto a ouvir sua mensagem mais tarde. Formava parte integrante da vestimenta do século XVII.

. quando procurou roubar o processo de conservação. Um alarma vivo. por mais insignificante que seja. O ara que conseguimos subornar fracassou por culpa de um robô de controle.. Tulin cocou a cabeça ruiva. os espias positrônicos estão em toda parte.verdadeira orgia de cores. era só o que me faltava para acrescentar aos meus pesadelos. que acorriam ao lugar à procura de distrações e davam o primeiro passo que os conduziria ao abismo. na entrada principal do edifício. Amaldiçoou a idéia de encontrar-se no Palácio dos Sonhos. sorriram ao vê-lo deitado no chão e sentaram a seu lado. que já haviam passado por tudo quanto era experiência. Pelo amor dos deuses.. Os saltadores atiraram alguns grãos no canto. A repugnância deixou-o arrepiado. Acontece que a utilização dos robôs de controle também representava o fracasso definitivo de sua missão. cochichou para Egmon: — Como poderemos encontrá-lo num lugar como este? John Marshall recorreu ao projetor mental e obrigou-os a atravessar o labirinto de cabines de radiações. Marshall não sabia o que eram pérolas de sonho. E. Os aras sempre inventam novas infâmias para dificultar nosso trabalho. e com isso nosso negócio. Egmon e Tulin olharam-no perplexos. — Mas este processo não é parte do processo de produção! — interveio John Marshall em tom enérgico. o planeta Terra deixara de existir para o Império Arcônida. que não eram viciados nem sentiam o desejo de brincar com o entorpecente. e voltou a mergulhar em suas meditações. Pérolas de sonho. — Já sabemos por que o clã de Estgal deixou de existir. — Tomara que realmente não haja ninguém — disse Egmon. mas estava interessado nos pesadelos de Tulin. parando diante da barreira que o protegia. Ixt. por fora uns não se distinguem dos outros. o máximo que os dois mutantes poderiam conseguir era que os aras os desmascarassem como seres terranos. — Meu pesadelo são os novos robôs dos aras que foram colocados nas fábricas de soro. foi paralisado. Ixt — explicou em tom contrariado. captou os pensamentos dos seres viciados. que até agora tem sido tão próspero. Colocaram robôs de controle entre os robôs de trabalho. Não estava interessado em saber se os agentes dos saltadores enganavam os aras ou não. Se os agentes dos saltadores. — Pois bem. mas o que há dentro dos controladores é de pasmar. Sua energia telepática atravessou a grade de radiações e. — Tenho pena do dinheiro que gastei. mas sua tarefa consiste em avisar qualquer incidente ocorrido durante o processo de produção. Tulin. Ixt. o impetuoso. será que aqui ninguém pode ouvir-nos? — Ninguém — garantiu Marshall. Abriu a grade de radiações por alguns segundos. — Pois nesse caso. tendo sido transformado num sol. quando captou os pensamentos de Tulin e Egmon. um homem louro introvertido. Trabalham tal qual os outros. É verdade! Não podem deixar de estar em toda parte. há mais de cinco decênios. confessavam abertamente que no momento estavam com as mãos atadas. já que não havia outro lugar em que pudessem acomodar-se. São vigias positrônicos. É uma vergonha! John Marshall não conseguiu achar graça nessas palavras. Tulin mandou uma praga junto com eles. Laury Marten poderia interromper os estudos que estava realizando no zoológico continental.

Egmon piscou os olhos. que continuava absorto em suas reflexões. e. É por isso que hoje de noite receberei os cinco mil shaks. — Ainda tenho outro motivo que me traz pesadelos — disse Tulin. dessa forma. Os agentes de Rohun haviam procedido como crianças. o serviço secreto dos aras não poderia deixar de perceber que alguma coisa não estava em ordem com eles. o perigo tornara-se ainda maior. Ixt. Quando esse narcótico entra no sangue de alguém. Está internado no hospital. Os aras ainda não descobriram. A essa hora. pois conhecia Tulin. — Foi atacado? — perguntou Marshall em tom áspero. lançando o olhar para além de John Marshall. uma alergia traiçoeira provocada pela transição das naves espaciais. — Os controladores têm uma alergia toda especial para o tom da nota si... Não sei o que acontece com seu aparelho positrônico quando ouvem esse tom. Fiquei agüentando a mulher de Huxul durante duas horas. se você.. Os aras já devem ter descoberto nosso truque. Marshall temia pelo pior. assim que a nota atinge seu ouvido. — Será que hoje em dia ainda se consegue adquirir em Trulan um único diapasão do tipo antiquado? John Marshall confessou que não estava compreendendo mais nada.. Seu sorriso tornou-se mais acentuado. — É bom que os aras tratem de fazer suas diabruras médicas — prosseguiu — e deixem de aventurar-se no terreno da construção de robôs. — Estamos trabalhando com dezoito agentes. o mesmo odiava todos os aras e. Antes que a troca de palavras pudesse degenerar em discussão. — O que vem a ser gerf? — indagou Marshall. mas o fato é que. tirando do bolso um diapasão. As palavras que o saltador louro acabara de proferir desmentiam as informações de Tulin. senão. Egmon insistia em sua afirmativa. Enquanto isso. . — Apenas recebeu um jato de gerf. — É com isto! — disse Egmon. que matava dentro de poucos meses. De repente Egmon. o instrumento que na Terra é designado por este nome. caem por terra sem avisar sequer a central sobre o defeito surgido em seu mecanismo. Este proferiu uma ameaça indisfarçada contra seu irmão de clã: — Egmon. levantou a cabeça: — Hoje de noite receberei cinco mil shaks! John Marshall também levantou a cabeça e fitou Egmon. sempre que usasse os meios mais radicais na luta contra eles. Por algum motivo. mas só daqui a dez dias conseguirão despertar Huxul. Por pouco Egmon não foi preso. ou melhor. — Não foi atacado — resmungou Tulin. As pastilhas shaks eram o único remédio contra a doença de ferm. — Você quer dizer que com isso se consegue neutralizar um robô? — Tulin ainda não estava acreditando no que Egmon acabara de dizer. regozijou com o espanto de seus interlocutores. que aquele homem de trinta anos nunca chegara a explicar. — Para que serve um recurso tão primário? — Marshall sentiu-se tomado de um tremendo nervosismo. Huxul sofreu um acidente. Os controladores têm um ponto fraco. Marshall lembrou-os da finalidade do encontro. a pessoa dorme durante dez dias e tem de ser alimentada artificialmente. — É uma substância que o serviço secreto dos aras também usa nos seus serviços. Teve uma sensação desconfortável.

— Se não soubesse que Rhodan e a Terra não existem mais. diria que o senhor é um ser vindo daquele planeta e. — Se Rohun não nos tivesse pedido que fizéssemos tudo para atender aos seus desejos. Marshall pegou a ficha que este lhe ofereceu. Numa atitude indiferente. Em toda parte. que estavam prestes a entregar-se ao vício. Apressou-se em controlar os pensamentos dos agentes dos saltadores. Em Tolimon. concentrou-se ao máximo para lembrar quantas saídas possuía o Palácio dos Sonhos. embora no seu íntimo se sentisse angustiado. humanóides vindos de mundos distantes. deixara de existir. que deu uma risada gostosa. — O que é isto? — perguntou sem desconfiar de nada. — Felizmente esse sujeito não existe mais e a Terra foi transformada num sol escaldante — retrucou Marshall com o maior cinismo. Tulin e Egmon fitaram John Marshall. falando devagar e em tom cativante. Será que isso não basta? Subitamente todas as grades de radiações entraram em colapso no interior do pavilhão dos sonhos. Não estavam acreditando em suas próprias insinuações. O procedimento não era menos complicado e preciso que o seguido na Terra.. — Ixt — disse Egmon. A ficha que o senhor tem na mão representa a interpretação positrônica do resultado das investigações sobre sua pessoa. Tulin e Egmon seguiram-no. Fazia mais de cinco decênios que Perry Rhodan desaparecera com a Titan em qualquer lugar do espaço e a Terra se transformara numa fornalha nuclear sob a ação das bombas arcônidas. irromperam em ruidosos protestos. — Trabalhamos com dezoito agentes. Afinal. John Marshall juntou-se ao grupo. segundo a qual o senhor não é o mesmo Ixt que reside em Xylon. O resultado do exame deixou-o um pouco mais tranqüilo. eu não teria arriscado uma coisa dessas. realizadas pelo serviço secreto dos aras.. — Devem notar a falta desta ficha! — Marshall sabia de que maneira os aras faziam sua guerra de papéis. um grupo de mercadores galácticos gesticulava exaltadamente. Marshall ainda não compreendia por que a ficha que segurava na mão seria tão importante como Egmon queria fazer crer. no sistema de Hogur. — Três deles trabalham no Serviço de Vigilância de Estrangeiros. Ninguém poderá abandonar o Palácio dos Sonhos. quem é mesmo o senhor? — Também estou curioso para descobrir isso — interveio Tulin.. saltadores. Espantado. Bem perto deles. — Pois é. John Marshall enfiou a ficha no bolso e levantou-se. Eram oito! . pois pouco lhes importava em que lugar estivessem no momento em que fossem revistados. — É a prova chegada às mãos dos aras. — desta vez foi Egmon. A segurança do Palácio dos Sonhos. Arcônidas. Fez um sinal para os dois agentes dos saltadores. lia-se uma idéia: desta vez nos agarraram! Com a maior tranqüilidade. Enquanto Marshall oferecia o aspecto de saltador que escutava atentamente a conversa que se desenvolvia em torno dele. Em seus rostos. tão afamada. viam-se pessoas embriagadas jogadas no chão.. não existe qualquer outro registro sobre sua pessoa. As barreiras energéticas que as tornavam invisíveis haviam desaparecido. Uma voz retumbante saiu do gigantesco alto-falante: — O Serviço de Vigilância de Estrangeiros dos aras ocupou todas as saídas. Ixt — ponderou Tulin.

Transmitiu-lhes a ordem de deixá-los passar depois de fingir um controle rigoroso. Naquele instante. Cada um dos mercadores galácticos tornou-se alvo das atenções de dois aras. sorriu. do lado de fora. Egmon mudou a cor dos olhos e ficou um passo atrás dos outros. era de um feitio muito diferente. . mas sua ação não passou da tentativa. Com uma expressão de curiosidade. Imaginava as conseqüências de seu ato. contudo. Encontrava-se logo atrás de Marshall e viu a ficha do cérebro positrônico na mão de um dos aras. o barulho e os protestos se tornavam cada vez mais intensos. Chegaram à saída número cinco. Marshall passou a agir sobre os três aras bem dispostos para o serviço. Lembrou-se dos três radiadores que trazia no bolso. os seis aras que se encontravam na saída número cinco praticamente não tinham nada a fazer. Tulin calou-se sob a força do olhar de Marshall. como crianças. Fez um sinal discreto para que Tulin e Egmon o seguissem. que ainda os brindou com uma maldição. especialmente na principal. Um deles viu quando Egmon pegou a ficha do cérebro positrônico e deu o alarma. o ruivo impetuoso. O saltador alto e louro empalideceu. John Marshall foi revistado por dois funcionários furiosos. pensou Tulin. Egmon tentou perturbá-lo.. lembrando-se dos três radiadores que os aras haviam descoberto ao revistá-lo. de tão assustado. Eram aras armados. Não se atrevia a respirar. — Podem passar — rangeu a voz de um dos aras. por terem conservado a liberdade. — Não deve ter sido por nossa causa — disse Tulin em tom não muito confiante. — Os aras devem ter colocado seus robôs de controle em todos os lugares ao mesmo tempo. O projetor mental irradiava ininterruptamente a vontade de Marshall sobre os aras. Marshall havia captado sua raiva. embora não compreendessem por que haviam escapado dessa forma. Quando chegou à quinta. Vou jogá-los fora e. Controlou rapidamente uma saída após a outra. Pois esta lhes estragara o programa daquele dia. Caminharam em direção à saída número cinco como pessoas que estivessem entorpecidas. Marshall brindou-o com um olhar tão furioso que. E esses aras já se transformaram em vítimas do projetor mental quando o grupo ainda se encontrava no meio do Palácio dos Sonhos. — Foi por causa de Egmon — disse John Marshall. “Está tudo no fim”. Ao projetar o controle. Tulin transpirou por todo o corpo. Os aras voltaram a enfiar os radiadores em seu bolso. fitaram o grupo que se aproximava. fitando-os um por um. Mas Tulin. — Vocês querem saber por que o serviço secreto encenou a batida no Palácio dos Sonhos? — perguntou Marshall depois que. sem que.. Egmon e Tulin alegraram-se. — O senhor não vai jogar fora coisa alguma! — disse Marshall e conseguiu introduzir um intervalo ligeiríssimo no tratamento hipnótico que estava dispensando aos aras. reagissem ao achado e o prendessem. se haviam misturado à multidão. Também esta estava ocupada por seis elementos do serviço secreto. Enquanto em três das saídas. as armas passaram às mãos dos aras. Tulin disse com um suspiro: — Tenho comigo três projetores diferentes. Três deles estavam muito contrariados com a missão que tinham que desempenhar. Lançou um olhar desconfiado para Marshall.

à medida que o tempo passa o senhor me deixa cada vez mais apavorado. O gesto violento da mão terminou numa batidinha no ombro de Egmon. O que fez com o ara para que ele mudasse de atitude tão depressa? — Da próxima vez provavelmente não teremos tanta sorte — disse John Marshall. O volume do bolso no qual enfiara a mão mostrava que tinha a arma de radiações engatilhada e apontada para Egmon. Num gesto quase automático. em direção ao distribuidor que os levou a uma das ruas situadas mais abaixo. Por isso mesmo. — Egmon. vindo de um lado onde a multidão era mais rala. Por que recorre a uma mentira infame como essa para exercer pressão contra nós? Merecemos um tratamento como este? Tulin tinha motivo de sobra para formular a pergunta.. Num instante. . — Cuidado! — cochichou Marshall no último instante. John Marshall ficou devendo a resposta. — chiou o ara. o ara viu-se diante do saltador louro. o senhor é um sujeito medonho. seguida destas palavras: — Tive um prazer imenso em revê-lo. Mal teve tempo para dedicar sua atenção a um ara do serviço secreto. Mas logo se sentiu esbaforido. perguntaram: — Ixt. o senhor já acredita que um robô de controle o viu quando se encontrava diante do cérebro positrônico? Correram por entre a massa de gente. Ixt. Despedindo-se com um aceno de cabeça. a afirmativa de que Egmon havia sido observado por um robô de controle quando se encontrava nas proximidades do cérebro positrônico só poderia ser uma mentira rematada. O mutante de Perry Rhodan não pôde deixar de admirar o sangue-frio do agente dos saltadores.. — Ixt. Egmon teve oportunidade para formular sua pergunta: — Por todas as estrelas. onde tomariam qualquer condução que os levasse o mais depressa possível para fora do centro de Trulan. esquivando-se da pergunta. — Egmon do clã de Rohun. Um homem caçado pelos aras sempre acaba capturado. Partia do pressuposto que o negociante dos animais nada sabia da ação em grande escala que haviam lançado contra o serviço secreto dos aras. pois a frieza do rosto do ara cedera lugar a uma expressão de amabilidade. que podia ser identificado por seu rosto frio de burocrata. Até a próxima e muitas felicidades. Os dois saltadores. Egmon? Egmon resmungou: — Rohun terá de chegar até aqui para me recolher a bordo. como foi que o senhor soube disso? Mais uma vez. perplexos. O negócio dos cinco mil shaks caiu na água. aproximava-se rapidamente. Só depois de alguns minutos. Este soltou uma praga típica dos saltadores. estendendo a mão em sua direção. John Marshall conseguiu dar uma pancada no braço levantado do ruivo Tulin. tirou a mão do bolso em que estava guardada a arma. — O que pretende fazer. Naquele instante.

— Será que esses estranhos não são uns coitados? — perguntou John. O cérebro robotizado de Árcon não conhecia emoções. nos diversos fabricantes de soro. — Por enquanto sim. A maior sensação foi esta. controlados pelo mutante. 6 Durante dois dias o mutante viveu numa tensão ininterrupta. Não posso falar demais a este respeito. os aras. O senhor deve conhecer a lei do regente positrônico de Árcon tão bem quanto eu. até parece que quer recriminar-me e desafiar-me.. Segundo seus pensamentos. até mesmo a violação da lei encontra justificativa. não foi uma simples visita de cortesia. e seus pensamentos. Esperava que aquele homem influente o ajudasse a entrar em contato com o círculo dos médicos galácticos que lidavam com a produção do soro prolongador da vida. Sua conversa naturalmente girou em torno desses animais. para oferecer-lhe o lote de animais desconhecidos vindos do planeta do fedor.a designação não é correta — retificou Kolex.. Garanto-lhe uma coisa. Kolex estava radiante. utilizando-os como portadores de soro. Ixt. que pensava incessantemente no soro prolongador da vida. A revelação do crime que estavam cometendo ao abusarem de seres dotados de inteligência elevada.. Nós. — . eram um hino de louvor a Marshall. voltou a acalmar-se. Pouco lhe interessava o fato de com isso ter feito um bom negócio. — . quando se trata de algo extremamente importante. O senhor nem imagina quantos elogios tenho recebido por ter arriscado esta compra de dois milhões. chefe da Divisão de Compras dos aras.. mas não podemos fazer milagres. — Só oito exemplares pertencem à classe dos animais. Com estas palavras tocara num ponto sensível.. Ixt! E o portador de soro tem de ser uma criatura sadia. A segunda visita que fez a Kolex. Seu gênio descontrolou-se. Kolex revelou-se de uma amabilidade cativante. Não existe nenhum lugar no Universo em que as inteligências prisioneiras passem tão bem como em nosso zoológico. Tal procedimento dos aras transgredia uma das leis mais rigorosas de Árcon. Kolex protestou. a produção do mesmo dependia de inteligências cujos quocientes intelectuais os incluíssem nas classes C. Alguns deles chegam a ser mais inteligentes que nossos froghs. Os demais são inteligências. nossas mãos estarão atadas. . e. Fora justamente por esse motivo que se dirigira em primeiro lugar a Kolex. pois do contrário a doença conduz a um resultado falho. Como nada acontecesse.. poderia significar a destruição total dos mundos dos aras. aguardava uma ação fulminante do serviço secreto dos aras. — Hum — respondeu o mutante e leu os pensamentos de Kolex.. — Será que as inteligências vindas do planeta do fedor também foram trancadas atrás de grades energéticas? Kolex manteve-se fiel à verdade. mas há uma ordem de âmbito galáctico que nos obriga a agir dessa forma. Ixt. não me olhe desse jeito.se não dispusermos de portadores de soro. Começou a falar em pesquisas. somos verdadeiros artistas na área da medicina.. Sua atuação resumia-se na lógica mais pura. Ixt. Sei perfeitamente o que está pensando. Ixt. traçada pela programação. B e mesmo A. De um instante para outro.

Kolex revelara tantos dados que não poderia deixar de ser considerado um irresponsável. Mutumbo e Alf Tornsten arranhavam o intercosmo e a língua arcônida. Aquilo desabara sobre ela com a força de um dilúvio: foi impetuoso. À medida que se demorava na descrição do mesmo. Seu bem-amado contou-lhe que. Rodrigo lhe falara num imenso palácio. Olhe. A terceira pessoa era Nara. uma mongol velha e gasta. não se esquecera de perguntar a Rodrigo de Berceo por que nesses quatro séculos só envelhecera alguns anos. cuja tenda fora erguida atrás da grade. Mas. contemple esta lâmina fulgurante. A mutante bela e apaixonada esquecia constantemente que Perry Rhodan a enviara a Tolimon para cumprir uma missão de cujo êxito dependia a vida de Thora e de Crest. O palácio asteca encerrava um segredo que representava a felicidade de dois seres humanos: Laury Marten e o conde Rodrigo amavam-se. o camponês sueco que vivia apaticamente seu dia-a-dia. minha flor. uma moça prosaica do século XXI. Laury preferiu não explicar-lhe o significado da palavra zoológico. um africano supersticioso e Alf Tornsten. conversaram no arcônida dos “primeiros dez mil”. Laury Marten conhecera todos eles: Mutumbo. que não sou nenhum asteca arruinado. Quando Laury Marten o visitou pela terceira vez às escondidas. deprimido pelo fato de que não envelhecia. Laury Marten. *** Quatro homens do século XVII do planeta Terra viviam no gigantesco zoológico de Tolimon. mas um pequeno objeto voador alcançou-o e levou-o a bordo. O soro prolongador da vida estava sendo fabricado em grandes quantidades. arrancou a espada curta da bainha. Ao responder. amava. Ser chamada de minha flor. mas o conde Rodrigo. com a minha espada. Laury reconheceu nele o setor X-p. Era uma doente mental incapaz de articular uma palavra sensata. Os saltadores trancaram-no num camarote no qual já se encontravam três humanos: Mutumbo. Alf Tornsten e Nara. “Tomara que não surja nenhum incidente com o serviço secreto dos aras”. violento e belo. E seus pensamentos revelavam muito mais. fitar os olhos . A reunião das duas séries de dados permitiu que Marshall concluísse que o projeto dos aras já passara da fase experimental. que no século XVII talvez representasse um costume da corte. Quase não se ocuparam com eles até o momento em que foram descarregados em Trulan. A compaixão transformara-se em amor. Com suas insinuações. Teve medo e fugiu. Já o conde Rodrigo de Berceo brilhava nessas línguas. passando pela Rua do Grande Mo. foi tudo que John Marshall desejou depois que se tinha despedido de Kolex e. Lá dentro fora apresentado inúmeras vezes a médicos aras. por ocasião de sua segunda visita. Os quatro séculos que os separavam eram transpostos pela força do amor. quando tinha vinte e dois anos. E o amor transformava todas as coisas como que por encanto. — Há de chegar o dia em que provarei aos aras. Consumiram alguns dias no exame de seu organismo e finalmente deram-lhe uma injeção de soro prolongador da vida. que se tingirá de vermelho com o sangue dos homens que me maltrataram. Num gesto teatral. presos atrás de uma grade energética intransponível. caminhava em direção à firma. certo dia estava passeando a cavalo quando viu alguma coisa cilíndrica baixar das nuvens. onde passaram a viver no zoológico como se fossem animais.

*** Laury desprendeu-se violentamente dos braços de Rodrigo. Até então. O brilho dos olhos dele foi ainda mais frio. Tentou em vão captar os pensamentos do frogh. Usando o dom desintegratório de que era dotada.chamejantes do bem-amado. Laury Marten percebia constantemente no íntimo a advertência que lhe fazia lembrar o motivo de sua vinda a Tolimon. John Marshall ainda não sabia. por ocasião do primeiro contato telepático que mantivesse com John Marshall. mas a mesma fora provocada por sua própria negligência. As informações. Não acreditava que fosse adiantar alguma coisa. segundo a qual só se devia matar em legítima defesa. Mas sentiu-se exausta. Engoliu-o. enfiou a mão no bolso e tirou o concentrado energético. Passara mais de duas horas de Tolimon em sua companhia. De tão nervosa que estava. colocou-se diante de Laury Marten e estendeu um dos braços dotados de mãos preênseis. mas a lei de Perry Rhodan. O efeito foi imediato e tão patente. a cabeça de um frogh saiu da fenda comprida e profunda que se encontrava à sua esquerda e fitou-a com olhos viperinos. Rodrigo não pôde dar uma indicação precisa sobre o dia em que recebera pela última vez a injeção do soro revitalizador. Seu primeiro impulso foi o de destruir o frogh com seu radiador. estava por demais enraizada em sua mente. devia fazer cerca de noventa anos. A gargalhada do frogh tornou-se . Para ganhar tempo. tornavam-se importantes porque confirmavam o fato de que em X-p estava sendo fabricado o soro. aproximou-se rapidamente. Pelo calendário terrano. Seus pensamentos moviam-se exclusivamente em torno do desejo de libertar Rodrigo das garras dos aras. Cada vez que isso acontecia tomava a decisão de. O desespero tomou conta de sua mente. E noventa anos não significavam nada para os aras. O frogh engoliu o concentrado e enrijeceu. os aras estarão muito interessados em saber que a senhora consegue atravessar uma barreira energética sem que a mesma tenha sido desativada — disse o frogh com a voz fria. sentir o braço forte que a enlaçava. A risada penetrante dele a fez recuar alguns passos. confessar o amor que sentia por Rodrigo de Berceo. Estava decidida a matar o frogh. Encontrava-se numa situação de legítima defesa. atravessou a barreira energética e dirigiu-se ao veículo. Arga Slim? Arga disse o que era. — Permite que eu experimente o concentrado? A víbora centopéica saiu da fenda no solo. enquanto procurava desesperadamente descobrir uma saída. que o frogh lançou uma pergunta: — O que é isso que a senhora acaba de tomar. Laury entregou um tablete ao frogh. Enfiou discretamente a mão no bolso em que se encontrava o radiador. A mutante teve medo da cobra-gigante. não conseguiu descobrir a freqüência em que funcionava o cérebro dessa criatura. tudo isso fez com que se sentisse muito feliz. que graças aos recursos de sua medicina muitas vezes viviam mais de oito séculos. Eram horas de auto-recriminação e censura. Laury Marten sentiu-se grudada ao solo. que Laury obteve através de Rodrigo. — Arga Slim. Naquele instante. Ainda teve energia para não mentir a si mesma.

Arga Slim. O concentrado provocara-lhe um estado de euforia. Aos poucos. Sentia que o frogh estava escarnecendo de sua perplexidade. A expressão viperina desapareceu de seus olhos. Arga Slim? Queira desculpar. A criatura levantou o terço anterior do corpo e passou a contemplar a agente de Perry Rhodan a uma altura de dois metros. — Nunca falarei sobre isso se amanhã a senhora me trouxer mil tabletes destes. Agzt — disse Laury. . Acho que isso já poderia servir de base a um estado de confiança recíproca. começou a acreditar que as intenções de Agzt eram sinceras. O estado do frogh tornava-se cada vez mais perturbador. O frogh respondeu: — Posso até desligar qualquer barreira energética para a senhora. que provocava uma alegria exagerada. transformara-se num estimulante. — Quer agradecer pela oportunidade de me entregar aos aras? — disse Laury em tom furioso. — Ora. Arga Slim! — disse o frogh e sua voz transformou-se num cochicho. Se fizer isso por mim. Voltou a implorar que amanhã ou depois Laury lhe trouxesse uma quantidade maior do concentrado. — Posso pensar nisso.mais sonora. — Eu lhe meti medo. Laury descobriu a disposição de ânimo do frogh. Apenas pretendia agradecer-lhe. que pareciam irradiar uma bondade quase humana. nenhuma informação do frogh Agzt sobre a travessia da barreira energética havia sido recebida naquele setor. quando Laury Marten terminou sua jornada diária no setor X-p. Ao anoitecer. De repente. serei o servo mais fiel que a senhora já teve — a estranha proposta terminou num riso borbulhante. desde que possa confiar em sua discrição.

— Está com medo? — perguntou John Marshall em tom lacônico. um ara do Serviço de Vigilância de Estrangeiros. — Ixt. Rohun. pois tenho uma tarefa para ele. O transmissor especial de que se servia. acabarei figurando na lista dos aras. Apesar de tudo. Mais uma vez. a destruição. mesmo que a estação receptora só dispusesse de um hiper- comunicador comum. — Onde está Tulin. mas um mercador galáctico — berrou Rohun para dentro do microfone que se encontrava a quarenta anos-luz. — Cobaia dos aras! Apesar das leis de Árcon! Fim. prevenindo Marshall — já está na hora de desistir do jogo perigoso que está realizando com os aras. Marshall preferiu não responder. — Quando é que o senhor se dignará a explicar as coisas esquisitas que aconteceram em sua loja quando o tal do Huxul. — Otznam partirá imediatamente em sua nave. tivera de ouvir uma alusão desse tipo. Tranqüilizou o comandante dos saltadores. da mesma forma que aquele instalado em seu quartel-general na área dos cortiços. apareceu com a jaula com os dois hiobargulus e procurou devolver os animais? Se não tivesse passado por coisa semelhante com o tal do Huxul. Há alguns dias dei uma olhada naquilo: é um verdadeiro couraçado! Onde é que essas naves são construídas. — Rohun. Marshall não se impressionou com o aviso que Rohun acabara de lhe dar. o mutante fez como se não tivesse entendido. comandante dos saltadores. Rohun. 7 John Marshall acabava de expedir de seu escritório a quinta mensagem de telecomunicação destinada a Hellgate. fique sabendo que não sou nenhum ara. Mas não quero que Otznam participe da ação — exigiu Rohun. — Antes ter medo que transformar-se em cobaia dos aras. Ixt? Mais uma vez. A mensagem telepática de Laury Marten estava interferindo na palestra pelo . — Está aqui! — exclamou Rohun. Mas acho que poderei contar com aquilo que o senhor me prometeu. As notícias que acabo de receber de Egmon me fizeram envelhecer cem anos. Isso significaria o desaparecimento total. Marshall e Rohun acoplaram um condensador e um deformador de mensagens. com sua ajuda irrestrita quando eu o chamar. Agora partira de Rohun. a morte. O senhor não poderá utilizá-lo na execução de seu plano. Agora estava mudando para a faixa de Rohun. uma vez completada a ligação. Rohun! — disse Marshall ao mercador galáctico e desligou. Se as coisas continuarem nesse ritmo. Quem poderia trazê-la até aqui? Otznam? O rosto do comandante dos saltadores transformou-se numa careta. — Mas voltará com Otznam. estou precisando de minha nave. Não tinha o menor receio de que o serviço secreto dos aras pudesse interceptar sua mensagem. O senhor sabe perfeitamente o que significaria isso. Quando poderei contar com a chegada? É Otznam que vai trazê-la. não é? — Está certo. dispunha de dispositivo especial que evitava a escuta. Rohun? Não consigo encontrá-lo aqui em Trulan. isto é. eu me sentirei muito melhor. — Ixt — disse. já teria entregado Otznam a um hospital dos aras para submetê-lo a um exame de sanidade mental. — Quando souber que a nave chegou. — Prometo-lhe que Otznam não participará da ação.

atravessou a barreira energética como se esta não existisse e saiu correndo. pertenciam à escala intelectual A-l. A pele do frogh parecia couro. Futgris. freou e desceu. que a mão preênsil segurou avidamente. Depois. é? — respondeu John Marshall sem trair o nervosismo. que admirava e venerava o chefe. Era o grupo ao qual pertenciam os arcônidas. que perdera todo medo do corrupto monstro viperino. Marshall perscrutou seu interior. Este relatório continha informações sobre a escala intelectual em que deviam ser incluídas as criaturas por ele vendidas ao zoológico. haviam sido considerados animais. Laury Marten descobrira uma sala do setor X-p onde estava guardada uma ampola do soro revitalizador. O frogh saltitava sobre seus inúmeros pés e voltava a asseverar ininterruptamente que não era nenhum ingrato. A exclamação de Rohun ressoava no ouvido de Marshall: “Antes ter medo que transformar-se em cobaia dos aras. Laury notou seu estado eufórico e advertiu-o: — Em cada visita eu lhe trarei cinqüenta cápsulas. colocou a mão no pescoço do mesmo. Laury. Uma hora depois. Quando levantou os olhos e reconheceu Futgris. Agzt.” Lançou um olhar indagador para Futgris. possuíam o grau mais elevado de inteligência. Foi empurrando para o lado o relatório que acabara de receber de Kolex. — Mais uma vez. Examinou o conteúdo. que dentro em breve seria utilizada numa experiência. Não quero que este preparado. nada mais. O ara. e ele os transformara em peças de exibição do zoológico. que é totalmente inofensivo para os aras e os arcônidas. Vinte e uma espécies. procurou ocultar o tremor da voz: — Chefe — disse com os olhos errantes — três funcionários do serviço secreto querem falar com o senhor. Sentia-se como um homem que acabara de cometer um crime. John Marshall teve de recuperar-se do abalo que sofrera.telecomunicador. Gaste suas reservas com muita parcimônia. o frogh. — Convide-os a entrarem. protegido por uma abóbada de aço. onde Rhodan esperava. A sacola com os tabletes estava no interior da enorme mão preênsil. — Ah. parou na beira da estrada quando Laury Marten se aproximou velozmente com seu veículo. Nunca se deve fazer esperar um funcionário do serviço secreto. Quando Futgris entrou no escritório do chefe. Tal qual fizera por ocasião de suas visitas anteriores. os aras e os mercadores galácticos. foi transmitida a sexta mensagem condensada de hipercomunicação destinada a Hellgate. Colocara-os nas mãos dos aras. Os seres que. *** Agzt. em virtude de seu aspecto terrificante. Entregou-lhe uma sacola. transforme você num doente ou num viciado. pois poderá acontecer que vários dias se passem entre uma visita e outra. apenas cinqüenta cápsulas de concentrado? — perguntou em tom decepcionado. recorreu ao dom da desintegração. Laury pediu-lhe que prestasse atenção e a avisasse imediatamente assim que qualquer outro veículo se aproximasse desse setor do zoológico. Ixt estava debruçado sobre o primeiro relatório enviado por Kolex. . totalmente diferentes no aspecto exterior.

você não estará mais aqui amanhã. Alf Tornsten. Só depois de muitas perguntas. Rodrigo não esperara outra coisa. mas uma temeridade. Seu plano não era apenas uma obra de diletantismo. E com a calma recuperou a capacidade de raciocinar. Rodrigo! Não é possível! Oh. o conde. Mutumbo. o africano. Laury conseguiu descobrir a hora aproximada em que Berceo seria levado para submeter-se à experiência.. E comentou de modo altivo: — Nem me sentiria bem na presença desses idiotas. apenas a brindou com um palavrão e deixou-a falando só. — Amanhã os aras encontrarão esta grade vazia. quando chegarem os aras! — com essa jura solene despediu-se e. a velha mongol. quando? De manhã? A que hora? O conde Rodrigo de Berceo falava o arcônida e o intercosmo.. — Ouça — disse e o triunfo estava escrito em seus olhos. permita que eu o ajude! Esqueça-se de que é o conde de Berceo... na Terra. — Aconteceu alguma coisa. nem compreendeu o que a moça desejava e limitou-se a fazer soar sua risada de louca. — Não. Olhou-a sem dizer uma palavra e seu rosto permaneceu imóvel quando Laury se encontrava diante dele. Foi sacudida por um soluço sem lágrimas. a moça sucumbiu ao charme do conde. mas hoje não abanou o chapéu de penacho em sua direção. até que a realidade cruel evocasse o amanhã em seu espírito. Por favor. Rodrigo estava parado junto à enorme entrada principal.. — o desespero apertou-lhe a garganta. foi o primeiro que recusou. Nara. isso equivaleria ao fim do mundo de Tolimon. o camponês sueco. Fugirei com os quatro humanos que estão aqui.. Seu plano estava formado. Comece com isso e. Laury Marten não se deu conta de que naquele instante estava renunciando aos ensinamentos que recebera como agente do Exército dos Mutantes. — Rodrigo. seu veículo corria vertiginosamente em direção ao setor X-p. um conde não vale mais que o mais miserável dos homens. e você terá que dar um salto por cima desse tempo. quando os aras virão buscá-lo? — perguntou apressadamente. Vamos pedir aos outros que se preparem. Do alto da elevação pôde ver o palácio asteca. — Não perturbe! — foi a resposta que captou. Mas logo se controlou. — Amanhã. hoje em dia. — Rodrigo. Mas não receie por minha vida. querido? Rodrigo de Berceo se mantinha rígido. quatrocentos anos se passaram. — Amanhã. Seu olhar vagou ao longe. Como sempre. Sentiu-se segura nos seus braços. pois obrigaria John Marshall a praticar atos que nunca teriam entrado nas cogitações desse mutante extremamente ponderado. A moça respondeu com uma frieza na voz: — Peço-lhe que procure compreender que. Mais uma vez. A boca estava reduzida a um traço e os olhos chispavam de indignação. Laury enlaçou-o e implorou que falasse. não. — Amanhã terei de ir ao lugar em que estão os aras! Para Laury. após poucos minutos. Eu. Rodrigo. Durante a viagem estabeleceu contato telepático com John Marshall. Seu beijo a fez calar-se. ao seu sorriso e ao seu amor. mas não tinha conhecimento do que seria “hora”. .

Assa recuperara totalmente o controle de si mesmo. mas possuo bons amigos. Mas leu pensamentos dele. pronunciara sua sentença de morte. Mas as dores de cabeça? Quem seria essa mulher? Laury Marten leu tudo isso num espaço de poucos segundos e controlou seu procedimento de acordo com esses pensamentos. — O que está sentindo. O trunfo com que estava jogando era muito perigoso. quer fossem eles habitados pelos arcônidas. Aí encontrou Perry Rhodan. De repente. Só viu o médico ara Assa quando já estava sentada atrás de sua escrivaninha. Com um gesto discreto. nesse mesmo instante Laury Marten voltara a transformar-se na agente de Rhodan. Assa. Assa achou que a suspeita de que essa jovem pudesse manter contato com Perry Rhodan era ridícula. depois disso houve a destruição da Terra. ligou o aparelho de comunicação audiovisual e disse: — Informarei Man Regg de que o senhor andou revistando este gabinete na minha ausência. Quer que eu lhe diga onde estive hoje no zoológico? Dessa forma eu lhe pouparia o trabalho de mandar espiões atrás de mim pela terceira vez. olhando desesperadamente para a frente. Soltou uma risada cristalina quando Assa se retirou com o rosto pálido. os aras. a dor de cabeça era desconhecida..? — a última sílaba não chegou a ser formada. Aralon. apontando para o audiovisual ligado. Laury Marten estava tão preocupada com o destino de Rodrigo que nem chegara a sentir a agitação furiosa da mente de Marshall. atravessou os feixes de luz que a desinfetaram e entrou em seu gabinete. Partiu para o ataque. Fez reviver suas lembranças. porém. chiando alguma coisa que não conseguiu ouvir direito. mas produziu efeito.. Não perdeu o autocontrole.. — Sei perfeitamente que não consegui grangear sua simpatia. O ara gritou sem refletir: — Como soube disso? Quem con. e estes se resumiam num feixe de receios de que Laury pudesse realizar sua ameaça de informar Man Regg sobre os incidentes. Não havia a menor dúvida de que ao menos cem aras haviam ouvido o diálogo. ao proferir estas palavras.. Não confiava nela. Este revistara o gabinete durante sua ausência. a lua Laros. Por outro lado. Arga? A pergunta a fez estremecer. Laury Marten não precisaria de outras testemunhas. deu jogo à sua capacidade telepática para revolver a mente de Assa. e o desaparecimento deste juntamente com a gigantesca Titan. o planeta de Perry Rhodan. O cérebro dessas raças tão semelhantes nunca experimentara esse mal. mandara espiões atrás dela para descobrir por que ia tantas vezes ao zoológico. Foi-se levantando. Com o maior sangue-frio. pelos aras e pelos saltadores. No mesmo instante compreendeu que. Nos mundos pertencentes ao Império de Árcon. o planeta da medicina. . E pela segunda vez. E a esta hora nem acreditava que fosse uma arcônida. Sim. — Obrigada — disse Laury Marten com um sorriso. Como que num estado de transe penetrou no setor X-p. — Dor de cabeça — respondeu.

Mas este já soubera de tudo através da comunicação audiovisual.
Meia hora depois um robô procurou Assa por ordem de Man Regg e lhe deu ordem
para que deixasse o setor X-p num prazo extremamente curto e se apresentasse
imediatamente para trabalhar em Durrha.
Durrha figurava no catálogo estelar de Árcon como o planeta que trazia maior
número de sinais de advertência. Era ali que os aras estudavam as epidemias para as quais
ainda não conheciam antídoto. Quem pusesse os pés naquele mundo, nunca mais sairia
dali.
Assa dirigiu-se ao espaçoporto, acompanhado por dois robôs. Estes robôs
permaneceram a seu lado até o momento em que entrou na nave. Depois disso, ficaram
parados junto à entrada da mesma até o momento da decolagem. Após o pouso em
Durrha, essa nave seria transformada em sucata.
***
John Marshall viu os três homens do serviço secreto dos aras chegarem e saírem.
Tal qual Huxul e muitos outros, acabaram por ser atingidos pela combinação entre a
telepatia e a ação do projetor mental, feita pelo chefe dos mutantes. Apesar disso
Marshall não se entregou à ilusão de que o perigo tivesse sido eliminado.
Era exatamente o contrário. O perigo teria que desabar sobre ele com a força de
uma avalanche assim que ficassem livres da influência hipnótica. De qualquer maneira, a
visita não deixara de trazer sua vantagem. Marshall ficou sabendo por que o serviço
secreto dos aras o assediava tanto. A destruição dos dados não poderia eliminar a
memória dos dois funcionários, que eram os chefes de Huxul.
Os três aras tinham vindo unicamente para realizar mais um exame minucioso de
todos os dados ligados à sua pessoa. Pediram os documentos e pretendiam gravar o
modelo das vibrações cerebrais dele. Porém acabaram retirando-se depois de três horas
sem que tivessem feito o registro. Mas no dia seguinte, pelo meio-dia, a influência
hipnótica devia cessar, e então se dariam conta de que algo de inexplicável havia
acontecido por ocasião da visita ao estabelecimento de Ixt.
Marshall sabia perfeitamente que essa conjunção de fatos inexplicáveis provocaria o
grau mais elevado de alarma no serviço secreto dos aras. E quem ponderasse todos os
aspectos dessa situação, chegaria à conclusão de que a única alternativa que restava ao
serviço secreto era a ação brutal.
Essas reflexões foram interrompidas por um chamado do sistema de comunicações
locais. Era Otznam, que se encontrava no espaçoporto. Há poucos minutos havia pousado
com a pequena nave de John Marshall. O mutante esteve a ponto de formular outra
pergunta quando Otznam desligou.
“Pode deixar”, pensou e concentrou a mente. Chamou Laury Marten. Esta pretendia
entrar em contato com ele no momento em que exercia sua influência hipnótica sobre os
três aras que se encontravam em seu escritório.
Laury Marten não respondeu!
Voltou a tentar, intensificou a concentração de sua mente, e finalmente a encontrou.
Mas desta vez a mutante pediu que não a perturbasse.
Marshall logo reduziu a intensidade de sua transmissão telepática. Procurou
identificar o que conseguira entender em seu breve contato telepático com Laury Marten.
O que estaria ela procurando no setor X-p? A energia telepática da moça atingira-o
com a força de um curto-circuito, não com a intenção de absorver seus pensamentos, mas
de os repelir.

8

O Setor X-p nunca funcionava em ponto morto.
Isso resultava do próprio conteúdo de suas atribuições, e os aras aceitavam a
situação com a maior boa vontade. Neste ponto todos eles pareciam loucos. Em todos
eles ardia a chama do desejo de desvendar os últimos segredos da vida. Mas, embora
tantas vezes acreditassem encontrar-se no limiar do objetivo, sempre se viam diante de
terras novas, ainda desconhecidas, banhadas pela luz do mistério.
O trabalho de Laury Marten estava concluído. O episódio com Assa, que ocorrera
há três horas, mergulhou no esquecimento. Rodrigo de Berceo, o mexicano jovem e
altivo, ocupava todos os pensamentos da moça. Mas naquele instante, devia esquecê-lo
para concentrar-se em seu plano.
Estendida no leito, com os olhos fechados e as mãos entrelaçadas sob a cabeça, fez
sua energia telepática perambular por todos os recintos do setor X-p que em sua opinião
se destinavam à produção do soro revitalizador.
“Vamos à sala seguinte. Três aras. Seus pensamentos? Nada. Outra sala. Vazia?
Não; só havia robôs.”
Apesar da concentração de sua mente lembrou-se da advertência de Marshall
relativa aos robôs de controle recentemente colocados em serviço.
“Outra sala...”
As horas passaram. O sol desceu sob a linha do horizonte. A noite cobriu o setor X-
p e o zoológico continental.
Laury Marten não desistiu. Procedeu assim para salvar Rodrigo, e poder aparecer
diante de Perry Rhodan. Não queria ser a primeira mulher do Exército de Mutantes que,
por uma questão de amor, falhasse no desempenho de sua missão.
Nada, nada... Em todos os lugares, nada.
Não encontrou a menor indicação sobre o lugar em que poderia encontrar as
informações sobre o processo de fabricação do soro.
Já era meia-noite. Laury Marten continuava estendida sobre o leito, concentrada ao
máximo. Não se cansava de procurar. Mas foi em vão.
Estava banhada em suor. Levantou. Devia entrar em contato com Marshall?
Decidiu outra coisa. Tomou banho, mudou de roupa e saiu do apartamento.
O elevador antigravitacional levou-a ao quinto pavimento do subsolo. Quando
procurou abrir a porta que dava para essa área, a mesma não se movia.
Para Laury Marten, isso não representava qualquer problema. Possuía o dom da
desintegração. Sabia neutralizar as ligações moleculares, transformando qualquer parede,
fosse qual fosse o material de que era feita, numa simples nebulosa que atravessava sem a
menor dificuldade.
Mantendo-se no mesmo lugar no interior do elevador, eliminou a barreira
representada pela porta. Depois que a atravessou, esta voltou a adquirir sua configuração
estável.
À sua frente estendeu-se o corredor monótono, que tinha o mesmo aspecto em todos
os pavimentes e áreas do setor X-p.
Neutralizou duas barreiras de radiações. O alarma que deveria ter desencadeado não
surgiu. O corredor estendia-se à sua frente, vazio e ameaçador. Não se perturbou com a

solidão, nem com a extensão do caminho que teve de percorrer. Intensificou seu tato
telepático, à procura de aras. Estes permaneciam atrás das portas pelas quais passava,
debruçados sobre o trabalho. Ninguém deu a menor atenção ao ruído de seus passos.
Adiante! Nunca desempenhara uma tarefa com tamanha tranqüilidade.
Subitamente lembrou-se de Thora, esposa de Perry Rhodan. Antes que ela e John
Marshall partissem para a missão, Perry Rhodan explicara-lhes objetivamente o que
estava em jogo.
De repente Thora e Crest, os arcônidas, começaram a apresentar sinais de
envelhecimento que não podiam ser detidos por nenhum dos meios empregados. O
preparado produzido na Terra teve um efeito que pouco durou. Os soros dos arcônidas
também não detinham o processo de envelhecimento. Ele ou Aquilo, o Ser de Peregrino,
o planeta da vida eterna, recusara a ducha celular aos arcônidas. Ao que tudo indicava, o
destino de Thora e Crest estava selado. Mas logo certos boatos sobre um soro
revitalizador, capaz de prolongar a vida, começaram a circular entre os mercadores
galácticos. Este soro era produzido pelos aras. Com isso Perry Rhodan recuperou a
esperança. Naquele instante, Laury Marten se encontrava a caminho da sala de paredes
grossas onde uma porção desse soro estava sendo guardada num frasco. E os dois
arcônidas tanto precisavam desse revitalizador.
Bem longe, uma porta abriu-se. Um ara saiu para o corredor, lançou um olhar
indiferente para a moça e uns dez metros à sua frente entrou num laboratório.
O passo da mutante não se tornara mais lento, nem revelava qualquer insegurança.
Ro-dri-go, soavam seus passos. Esse nome dava-lhe uma força imensa. E ela bem
que precisava dessa força.
Aquela área do setor X-p, situada cinco pavimentos abaixo do solo, abrigava os
centros de pesquisa mais secretos dos aras. Todo o resto era coisa de segunda ou terceira
categoria. Aqui a vida estava guardada em ampolas. Quem recebesse uma injeção desse
soro poderia continuar a viver; os outros teriam de morrer.
Laury Marten pôs a mão no bolso. Estava vazio. Acabara de tomar banho, mudara
de roupa e se esquecera de tirar o diapasão do bolso do jaleco. Por que pensara tanto em
Rodrigo? Devia voltar?
Ro-dri-go, diziam seus passos. Não voltou. Sentiu que só esta hora lhe poderia
trazer a felicidade.
Teria de percorrer mais trinta passos.
Mais dez passos...
Mais dois! Viu-se diante da porta.
Tateou com sua energia telepática. O laboratório devia estar vazio, pois não
encontrou impulsos de pensamentos.
A porta perdeu a coesão molecular. Sob o efeito desintegratório das energias da
mutante transformou-se em um nada. Laury atravessou-a. Sabia onde estava guardada a
ampola. O ara que hoje a guardara ali era um sujeito pedante. Ao largá-la, ficou refletindo
sobre se realmente esse seria o lugar mais seguro. E Laury absorvera-lhe os pensamentos
como uma esponja.
O laboratório brilhava na profusão das luzes. Num tom suave, os relês batiam, as
espulas zumbiam, os líquidos pulsavam através de condutos transparentes, alguma coisa
fervia e borbulhava.
A mutante parou de costas para a porta, que logo recuperou sua coesão molecular.
Três robôs estavam observando o curso da experiência.
O alarma soou na mente de Laury Marten. Qual dos três robôs seria o controlador?

Laury Marten não hesitou mais. a mutante estendeu a mão em direção à ampola. situava-se acima dos homens. mas até seu retrato estava sendo apresentado. . Com exceção da cabeça. O alarma não estava soando? O próximo disparo de Laury Marten desfez o aparelho de comunicação audiovisual. Seus dedos fecharam-se em torno da ampola quando leu a anotação junto ao suporte. Pôs a mão no bolso. De repente. Eram apenas umas poucas palavras: Hutwasd — C-3 — 0.. Ouviu as juntas metálicas rangerem levemente. a mongol.75 cudd correspondiam a três centímetros cúbicos. O ara. pensou. Laury saltou para o lado. segurou-se nas bordas estáveis e puxou o corpo para cima. produzindo um ruído enorme. Teria de passar por todos os três. todos os aras que se encontravam no gigantesco centro de pesquisas saberiam que a arcônida Arga Slim fora observada quando estava furtando uma porção do soro secreto. Era o controlador! Em sua testa metálica achatada.. Virada de lado. Em vez disso terei de respirar um gás que precipita o processo de envelhecimento. deixando a descoberto uma lente fluorescente dirigida exatamente sobre Laury.mas amanhã não me darão nenhuma injeção de soro revitalizador. Sabia como haviam sido programados os robôs do setor X-p. teve a impressão de que estava vendo o rosto de Rodrigo e ouvia sua voz. Viu-se diante de um velho ara que tremia que nem vara verde. autorecriminando-se.. e o corpo metálico caiu ao chão. 0. Esperara encontrar um recipiente pequeno. A ampola com o soro estava do outro lado. O homem não conseguia compreender como a moça conseguiu atravessar o soalho do laboratório. enfiou a ampola num bolso interno.75 cudd. não só o alarma estava soando no setor de Defesa de X-p. e fazia votos de que nessa área não houvesse nenhuma exceção. Quando vieram buscá-la. subiu ao armário que se encontrava junto desta e fez com que o teto perdesse a coesão molecular. No que dizia respeito à inteligência. Laury examinou o teto. que repetia estas palavras: — . Sabia perfeitamente quanto trabalho custara fabricar nas oficinas do setor X-p um diapasão que soasse exatamente a nota si. que me disse isso com uma risada. A mutante passou as mãos por este. quando voltou. que era aquela na qual também Rodrigo estava catalogado. transformara-se numa velha idiota. Estes nem sequer levantaram a cabeça. Laury colocou-se de joelhos e apontou a arma de radiações para o ara. “Como é que fui esquecer o diapasão?”. O disparo da arma de radiações contra o robô foi um movimento de puro reflexo. Dentro de alguns minutos. Naquele instante. monstruosa. Os dedos cingiram a coronha do radiador. Apesar disso. O raio derreteu seu cérebro positrônico. era uma moça alegre.. Laury Marten não conseguiu prosseguir na leitura. Um dos robôs virara-se em sua direção. Hutwasd era um dos ocupantes do zoológico dos aras. segurando a ampola de soro na mão. viu os movimentos quase humanos e continuou parada junto à porta. os aras o haviam enquadrado na categoria C- 3. tinha um aspecto bastante humano. há vários anos fez a mesma experiência com Nara. Passou pelos três homens mecânicos. Os olhos procuraram em vão localizar qualquer sinal que distinguisse as máquinas. um diafragma abriu-se por uma fração de segundo. correu em direção à porta.

A mensagem telepática expedida por Laury Marten atingiu-o com uma intensidade tremenda. Sagala respirava com dificuldade. fervia por dentro. mas a advertência reforçada pela ameaça roubou-lhe o resto de disposição máscula. não perdeu a visão de conjunto da situação. dirigindo- se à porta. *** John Marshall sobressaltou-se em meio ao sono profundo. Não confiava na resistência daquela área. as sereias de alarma continuavam a uivar. Os alto-falantes transmitiram a advertência do Centro de Defesa: — Todas as saídas estão bloqueadas por robôs de combate. Num tom que quase chegava a ser gentil Laury perguntou a Sagala: — Não quer ter a bondade de acompanhar-me a uma das saídas? É justamente na sua presença que me sinto mais segura. apertarei o gatilho. No setor X-p. chiou: — A senhora não irá longe. Subiu a uma mesa e. fria e bem treinada. empalideceu. Tremendo de covardia saiu para o corredor. John Marshall. escalou outro armário. não fez o menor movimento. Por favor. Quais seriam as notícias que pretendia dar-lhe? Uma fuga através do zoológico? Quem estava com ela? O conde Rodrigo de Berceo? O que acontecera? Naquele instante. com que o teto se tornasse “transparente” e viu-se diante de Sagala. John Marshall soltou uma praga e vestiu-se apressadamente. dali. que viera da sala contígua por ter sua atenção despertada por um ruído. Enquanto Laury Marten apontava-lhe o radiador. pois Laury Marten lhe gritara uma advertência: — Sagala. Sua partida parecia agora uma fuga precipitada. Apesar de tudo. — Sagala — ordenou ao chefe do zoológico. O que haveria com essa moça? Estaria apaixonada por Rodrigo de Berceo? Só agora estava sabendo disso! — Está ficando maluca! — desabafou John Marshall. — Acho que o senhor me ajudará a sair deste edifício. Sempre que se lembrava de Laury Marten. Sagala! O chefe do zoológico cedeu à ameaça da arma. Quem se atrever a sair do setor X-p será destruído. Quando se virou e viu que a mulher passava tranqüilamente por ali. Mais uma vez fez. mas esse desabafo em nada . antes que o senhor possa dar o alarma. seguido de perto por Laury. — Não poderia deixá-lo na mão. Laury Marten só havia visto o chefe do zoológico galáctico uma única vez e só trocara poucas palavras com ele. Neste momento estamos fugindo na direção sul-sudoeste e procuramos mergulhar no deserto com o carro. que na escala hierárquica ficava ainda acima de Man Regg. o setor X-p estava alarmando todo o planeta e mobilizava os guardas do zoológico. Sagala nem desconfiava de que a moça lia seus pensamentos. apenas fitou a moça que estava com a arma na mão. sua espiã arcônida! Descreveu uma curva enorme em torno do lugar em que Laury penetrara pelo soalho. Ou será que prefere morrer neste instante? Sagala não respondeu. Naquele instante era apenas a agente de Rhodan. Enquanto passou por ela. — Vire-se! — gritou. seu rosto adquiriu a cor da cera. os terríveis froghs. Quando chegou à porta.

o mais antigo dos mutantes de Rhodan. a fim de que os tripulantes e passageiros das naves pudessem atingir os veículos espaciais pelo caminho mais rápido. o frogh que levitava num estado eufórico. Mal atingira o pavimento térreo. Saiu em disparada. Tratava-se de um sistema de elevadores que penetrava no subsolo. quando subitamente não havia mais ninguém atrás dele. nem percebeu que com isso pronunciara sua sentença de morte. esperando ser morto pela arcônida.alterava o fato de que o alarma estava soando em todo o planeta dos aras e todo um mundo estava saindo à caça da mutante Laury Marten e de Rodrigo. Logo encontrou um veículo à luz das estrelas. — Está aqui! — gritou Sagala num gesto de desespero. desligou a barreira energética quando viu Laury aproximar-se com o carro. sempre acompanhada de Sagala. acorreram de todos os lados e viram com seus penetrantes olhos de notívagos que um dos ocupantes do zoológico estava entrando num carro. Finalmente chegou ao distribuidor. bem longe das saídas vigiadas. John Marshall. O simples fato de que ela se apaixonara por Rodrigo não o abalou. penetrando no zoológico galáctico. despertados pelo alarma. John Marshall teria esbravejado ainda mais se soubesse que caminho Laury Marten havia tomado para sair do setor X-p. e era isso que Marshall não compreendia. para não chamar a atenção em virtude da pressa. dirigindo-se para sul-sudoeste a fim de sair do zoológico e mergulhar no deserto juntamente com Rodrigo. atravessou laboratórios e outras instalações. Seu pequeno veículo espacial. atravessar a sala e desaparecer na parede oposta. e a vida de Agzt cessou. não podia haver nada que fosse mais humano. Os froghs. que Otznam acabara de trazer da nave cilíndrica de Rohun. Perceberam como a fuga se tornara possível. transformando-se num fantasma para muitos aras. No entanto. onde as faixas rolantes se cruzavam em vários níveis. Laury Marten acelerou o carro ao máximo. Finalmente atingiu o ar livre. abriu caminho entre a confusão de gente e de inteligências humanóides e por fim se conteve. Era um abuso de confiança. Isso mesmo! E quem sabe se a moça ainda lhe ocultava outras coisas? Quando chegou ao fim da estrada deslizante e foi levado para cima por um elevador . como se fossem animais. Acontece que Laury só o informara sobre isso num pedido de socorro telepático. que se agitava numa alegria tumultuosa. O monstro viperino. Entrou no apertado distribuidor. que a viam sair da parede. seguidos por mais de uma dezena de aras muito exaltados. atirou-se no antígravo. Marshall saiu ligeiro do trem expresso. quando três robôs de combate surgiram diante da saída do elevador antigravitacional. não deveria pensar no comportamento incompreensível de Laury Marten. sentiu-se um pouco mais tranqüilo. Agzt. passando por baixo do campo de pouso nas direções mais diversas. encontrava-se na extremidade oposta do espaçoporto de Trulan. em direção ao lugar em que há quatro séculos seres humanos estavam sendo mantidos presos atrás de grades de radiações. Graças à sua força desintegradora Laury Marten atravessou as paredes do setor X-p. *** John Marshall nunca achara o caminho até o espaçoporto de Trulan tão longo como nessa noite.

pela terceira vez. Descreveu uma curva. subindo uma imensa encosta. o aparelho de radiocomunicação. Estava empenhado numa missão na qual as chances dele e de Laury Marten eram inferiores a um por cento. John Marshall olhou para o relógio. a não ser que John Marshall viesse em seu auxílio. O dia estava raiando em Tolimon. Os últimos cinco minutos do tempo de aquecimento haviam passado. Era uma nave super-rápida e bem armada. Estavam chegando mais perto. Rodrigo! O filho de um nobre espanhol e de uma princesa asteca. o veículo em que se encontrava devia ser uma obra do diabo. Sua reação veio tarde. E John Marshall teria que penetrar nesse montão de naves empenhadas na busca. por maior que fosse. que fora mantido por quatrocentos anos numa jaula energética. A noite passou. O aparelho de localização confirmou o fato. com certo exagero. A localização. John Marshall enxugou o suor da testa. Tudo quanto era nave policial estacionada nesse mundo dos aras encontrava-se no ar e disparou na direção sul-sudoeste. era aquilo que Rohun. além das três áreas onde se situavam os gigantescos estaleiros nos quais podia ser reparada qualquer nave. a cabeça balançava de um lado para outro. quando foi raptado na Terra. penetrando cada vez mais profundamente naquele triste deserto de pedra. aproximava-se dos froghs que encetavam a perseguição pelo sul. Na verdade. Mesmo à meia-noite. Sem deter-se e sem ser observado atingiu a pequena nave. Marshall soltou uma praga e decolou. Três dos alto-falantes de microfone captaram mensagens. Não se segurou. Já compreendera que. cairia nas garras desses guardas zoológicos. para encontrar Laury Marten e Rodrigo. recolhê-los a bordo e fugir. Tolimon era uma mundo tão quente que qualquer esforço se transformava num martírio. guarde a espada! Esse brinquedo me deixa nervosa — pediu Laury Marten.antigravitacional. tudo estava entrando em funcionamento. só uma única vez. Mais cinco minutos. Mesmo ao olhar de uma pessoa desconfiada. Olhou para todos os lados e saiu do elevador. *** — Rodrigo. Os froghs ganhavam terreno ininterruptamente. em tom enérgico. a nave pareceria um simples veículo de passeio. . enquanto seu veículo desenvolvia a velocidade máxima. Rodrigo de Berceo não chegou a ouvir o grito angustiado de Laury Marten: — Rodrigo! O corpo inconsciente estava pendurado no cinto. designara como um couraçado. viu-se sozinho. descrevendo uma curva arriscada. mais tempo ou menos tempo. A cabeça tombou para a frente no momento em que Laury freou para desviar-se de uma pedra. Depois poderia decolar. A resistência desses monstros viperinos dotados de muita inteligência a fez suar de medo. — Segure-se. que possuía a qualidade de poder ser manobrada nas camadas mais densas da atmosfera com a mesma facilidade com que o era no espaço vazio. O alvorecer cinzento surgiu e. Com isso. e dobrou repentinamente à esquerda. O inferno estava às soltas em Tolimon. tivera oportunidade de entrar em contato direto com a tecnologia dos mundos de Árcon. Apenas o centro do porto espacial estava inundado pelas luzes. porém. O propulsor estava esquentando. Para ele. para desviar-se de um desfiladeiro.

Não havia mais nenhum veículo. O fogo deste consumiu a nave dos aras cujo raio azul-pálido só errara a nave de Laury por algumas centenas de metros. um minúsculo sol surgiu sobre o deserto do planeta Tolimon. Um raio energético vindo do céu cinzento atingiu a nave. O conde inconsciente representava uma carga excessiva para Laury Marten. gesticulando para que a moça se apressasse. sobrevoou a rocha que continuava a fervilhar. Laury Marten não sabia em que ponto do deserto se encontrava. Tirou o homem inconsciente dos braços da moça e berrou: — Vamos embora! A vinte metros do lugar em que se encontravam. John Marshall saltou e correu. Eram as naves policiais dos aras! A caçada estava sendo feita também pelo ar. surgiu a nave de John Marshall. na mesma direção da qual vinham os froghs! . Marshall já estava de pé na pequena comporta. Naquele instante um raio azul- pálido penetrou naquela estreita passagem. Queria que ela lhe desse sua posição. enfiou-se no vale estreito. John Marshall devia ser capaz de localizar o desprendimento de energia. chegou a alcançar o carro. Corriam de volta. Enquanto o veículo freado começou a derrapar. transformando o vale num desfiladeiro. pousou a menos de vinte metros de Laury Marten. Em meio a essa orgia de luzes. — Já consegui — foi a resposta. a mensagem telepática de Marshall. a pequena nave transformou-se numa nuvem gasosa. Poucos segundos depois.também. passando rente ao paredão. O carro estava penetrando num vale estreito. A energia mortífera gaseificou a rocha. Laury ainda teve sangue-frio para informar Marshall sobre o ataque da nave dos aras. apenas três seres humanos. As montanhas gastas pelo tempo aproximaram-se. algumas centenas de metros à sua frente. dois dos quais corriam para salvar a vida. onde provocou um chiado e um borbulhar.

John Marshall sentiu a expressão de felicidade no olhar da mutante. John Marshall fitou o cilindro de vidro. — Por que fica mexendo nesse bolso? — perguntou em tom contrariado. passou rapidamente por cima do barranco e. o monstro soltou um berro. — Quer saber o que tenho no bolso? É isto. Olhou para Laury. Os froghs vinham de três lados. — Mas só agora me comunicou que a senhora já o conseguiu. John e Laury não poderiam atirar sem colocar a vida de Rodrigo em perigo. Rodrigo já voltara a juntar-se a eles. O conde Rodrigo de Berceo. Marshall fechou os olhos. talvez teríamos uma chance de sair vivos disto aqui. correu ao encontro de um dos froghs. — Se este conde soubesse adaptar-se à nossa técnica com a mesma habilidade com que maneja a espada e emprega sua coragem.. Laury Marten. O corpo gigantesco do frogh girou. — Será que este sujeito ficou maluco? — gemeu Marshall quando viu o conde Rodrigo de Berceo aproximar-se daquela criatura. A duração da fuga. tudo isso contribuiu para criar uma tensão extrema.. Só então o telepata conseguiu gaguejar: — É só agora que a senhora me conta isso? Santo Deus. Aproximavam-se das vítimas numa velocidade tresloucada. Laury soltou um grito estridente: — Está dando outro golpe de espada. Este foi o terceiro e. Olhou Laury Marten. as oito ou dez “pernas” dobraram-se e o animal rolou de lado para não se mexer nunca mais. Virou-se instantaneamente. isso só representa metade do caminho andado? Como pôde esquecer de me avisar? Laury guardou cuidadosamente a ampola e disse: — Pois eu lhe transmiti a informação de que conhecia o lugar em que estava guardado o soro. Viu a expressão de pavor nos olhos de Laury. Naquele momento. — Para trás! — berrou Marshall num tremendo desespero.. nascido em 1. ergueu o terço anterior do corpo. 9 — Vamos! — gritou John Marshall para Laury Marten e Rodrigo. Tirou a grande ampola com o soro revitalizador. para logo em seguida dar um enorme salto para trás a fim de escapar à boca do frogh que procurou agarrá-lo. É uma . com a espada desembainhada. estava provando que era o melhor espadachim de seu século. e suas armas de impulsos chiaram. E Rodrigo corria em sua direção. — Que idiota! — esbravejou Marshall.. as lutas diurnas e noturnas com os froghs. Laury. depois passou a olhar a mutante. O quadro com que se deparou apertou-lhe a garganta.652. O conde Rodrigo de Berceo. Foi o último movimento do inimigo subjugado. no México. — Os froghs ainda estão atrás de nós. já refeito. a sede que torturava todos eles. Mas o quinto frogh ainda estava vivo. Era tarde. Não queria assistir à morte do conde.

caíram.. Três seres humanos cambaleavam através do vale. subiram pesadamente a primeira montanha.. Foi só graças à sua precaução que estavam equipados ao menos com um bom sortimento de armas de radiações.” Acontece que por ocasião da destruição de sua nave também o hipercomunicador fora gaseificado. sacudindo a cabeça. desceram aos tropeções. Realmente encontraram água. De todos os lados. Rodrigo caiu sem dizer uma palavra. o vento tangia nuvens de pó.diferença considerável. Era uma poça de cerca de cinco centímetros de profundidade e três metros de diâmetro. John Marshall sentira o mau cheiro e agira sem perda de tempo. e nada de água. Enquanto cambaleava para trás. — Descobri! — gritou John Marshall. — Água! — balbuciou Rodrigo e deixou-se cair de joelhos para sorver o líquido... E. Associou a palavra caverna à idéia de água. Também Rodrigo caiu de joelhos. depois de longa espera. As montanhas desérticas irradiavam um calor igual ao do meio-dia. John sentiu o olhar desesperado de Laury e logo ouviu seus soluços secos e desinibidos. voltaram a pôr-se de pé. sem que eles o percebessem. Para remate da confusão. Naquele instante um radiador de impulsos chiou a seu lado e numa fração de segundo evaporou o líquido da poça. Quando Marshall se virou para ver por que ninguém o seguia.. disse: — Quando tivermos voltado ao México. — Coitado. cochichou alguma coisa num incerto local do cérebro de Marshall. Será que o fim seria ali. Se não encontrarmos água até hoje de noite.. Com um grito tresloucado. o resultado da caçada dos froghs teria sido bem diferente. antes que pudessem investir .. Se não as tivesse levado quando pretendia recolher Laury e Rodrigo. *** Já era noite. Laury Marten foi a primeira que ficou parada e caiu. começaram a enxergar alucinações. soltavam gritos nervosos. As paredes da caverna devolveram o eco. Rodrigo achou que devia assumir o papel de protetor. Laury levará uma vida digna de sua condição no castelo dos meus antepassados. Os lábios rachados e os olhos inflamados deixavam-nos desesperados. O ar era seco e escaldante. — Não perguntem nada. — interrompeu-o John Marshall. estaremos perdidos. O punho de John Marshall teve mais força que o do nobre. o conde atirou-se sobre o telepata. Uma esperança nascida do desespero surgiu em sua mente. novamente: “Hipercomunicador. Estavam sendo golpeados pelo deserto selvagem e desolado de Tolimon. Falando em tom enfático. apenas a força suficiente para que pudessem raciocinar? “Hipercomunicador”. Será venerada pelas damas da corte e pelos pajens.. pois este ainda continuava debilitado. será admirada. — Temos que prosseguir no nosso caminho. A sede os enlouquecia. Marshall descobriu a caverna. suas forças também haviam chegado ao fim. A poça refletiu a luz da lanterna. numa caverna cuja temperatura era suficientemente baixa para restituir a três homens. não perguntem nada — cochichou. E os golpes eram mais cruéis que os dos aras e dos froghs.

Laury Marten e Rodrigo assistiram à demonstração de fúria sem dizer uma palavra. apalpar em direção a Trulan. — Será que vocês estão sendo cavalgados por todos os demônios das galáxias? Como puderam trazer essa gente a bordo? Coloquem-nos na nave auxiliar. para certificar-se de que não se entregava a qualquer ilusão. — Beber. Fora! Marshall já se encontrava junto à escotilha quando o saltador o chamou de volta. Concentração. comandante dos saltadores. Procurou espantar o martírio da sede. devia realizar alguma coisa que mesmo em condições normais representaria um máximo de desempenho.. Este nunca abandonara seus colaboradores quando se encontravam em situação difícil. o impulso telepático representa um múltiplo dessa energia.. O hipercomunicador. John Marshall. Não desistiu.. transformando-os em palavras. nada. Ouviu a voz do comandante dos saltadores. agora o aparelho estava processando os impulsos telepáticos. Quem terá sido o idiota que concebeu uma idéia como esta? Mas para que tantas palavras? Levem-nos de volta para Tolimon. John Marshall. Superara a loucura da sede.. *** Rohun estava furioso. Outra tentativa.. Ixt! — foram estas as últimas palavras de Rohun.. Novo impulso energético dirigido ao aparelho suplementar. beber apenas um gole de líquido fresco! Bateu com as mãos na cabeça. John Marshall sentiu-se forte. Se qualquer processo de mentalização exige certo dispêndio de energia.. De repente. Isso! O impulso telepático chegara ao destino. — O martírio da sede retornara à sua mente. O hipercomunicador estava funcionando. Sim. Nenhum ara seria capaz de acompanhar a troca de mensagens. . Não conseguiu realizá-la. Esperaram. Mais outra. Certeza absoluta. Concentrar-se... Dispunha de um meio de entrar em contato com Rohun. Apesar disso. Teria sido bastante forte para ligar o fantástico aparelho suplementar instalado sob o telhado de seu alojamento situado num cortiço? Apalpar. Perry Rhodan nunca desistira. e agora. Estava quase louco de sede. Mas nada. Levem-nos ao lugar que escolherem. O condensador e o deformador foram intercalados. Não estou com vontade de ser transformado numa nuvem de gases juntamente com todas as naves de meu clã. Agora.. Rohun teria que ajudá-los. concentrar-me ao máximo. devia transmitir seus impulsos telepáticos com a potência máxima. Neste instante. Rohun devia cumprir sua promessa. e desçam com eles para Tolimon. Concentrar-se ao máximo. — Irei até aí.. Contemplou Otznam e Tulin com os palavrões mais fortes de seu repertório. Não poderia abandonar Perry Rhodan. Otznam e Tulin nem conseguiram falar.. O mercador galáctico lutava com o patife que havia dentro dele. — Preciso concentrar-me. mas não assumam qualquer risco.contra ele com perguntas. — Só falta um copo de água. A regulagem telepática para a faixa de Rohun. roubando-lhe as últimas reservas de energia. Rohun devia aparecer. Tinha certeza.

. Este leu o que pretendia dizer quando surgiu uma nave dos aras e tomou a direção do ponto em que se encontravam. — Ixt — disse em tom deprimido. até parecia que as palavras estivessem sendo pronunciadas por um cérebro positrônico. Otznam dirigia-se ao espaçoporto policial dos aras. Devia haver outra circunstância que desencadeara novo alarma no mundo dos aras. quando recebemos o chamado. estava do lado diurno. estavam os cinco na pequena nave auxiliar. Marshall compreendeu as intenções do agente. Tulin se encontrava ao lado do comandante Rohun quando o mercador recebeu o pedido de socorro de Marshall. Ixt. Não via nenhuma possibilidade de pousar sem ser notado. — Aqui está meu hipercomunicador — mentiu Marshall com o maior sangue-frio. nem desconfiara de que ele mesmo era o motivo desse alarma. Dali a pouco. Nem o comandante nem ele mesmo haviam reconhecido a voz de Marshall. O olhar despertou a atenção do telepata e fez com que este lesse os pensamentos do agente dos saltadores. Por coincidência. Nem sempre um hipercomunicador tem que ser um aparelho gigantesco. Apenas a senha lhes deu certeza de que a mensagem não era uma armadilha. exibindo seu cronômetro. — O que houve com o senhor? — indagou o telepata ao agente ruivo. *** Trulan. o senhor não tinha nenhum hipercomunicador. Estava sendo sincero. — Se os agentes do senhor nos levarem sãos e salvos até Tolimon. que os levaria de volta para Tolimon. — Agora é para valer! Antes que Marshall pudesse esboçar qualquer reação. Otznam colocou a minúscula nave de cabeça para baixo e disparou numa velocidade infernal em direção ao planeta Tolimon. pois traria o perigo de ele e seu clã serem destruídos por um golpe implacável dos aras. Quando pousamos junto à caverna. Além disso. — Isto é o alto-falante. Marshall estava acomodado no assento do co-piloto. Os dois saltadores arregalaram os olhos. — O hipercomunicador está dentro daquilo? Otznam não acreditava numa palavra do que Marshall acabara de contar. — Está bem — interrompeu John Marshall. Otznam preferiu não arriscar a aproximação por esse lado. e esta saliência pequenina contém o microfone. — Oba! — gritou o saltador. Mais uma vez. — O ar está fervilhando de impulsos de localização — disse em tom desanimado e apontou para os instrumentos que reagiam constantemente. pois era quem melhor podia avaliar o que o mercador galáctico arriscara para salvá-los. capital de Tolimon. Naquela altura. continuaremos amigos. O que Rohun e eu ouvimos não foi uma voz humana. O tráfego por ali era . Marshall sabia perfeitamente que estava usando um blefe infame. Otznam e Tulin.. Tulin olhou-o de lado. — Mantenho minha palavra. mas não tinha outra alternativa. um mundo dos aras. Seria uma desfaçatez pedir que Rohun fizesse mais do que isso. — Fico me perguntando todo o tempo onde está o hipercomunicador com que nos chamou.

Tal qual os outros. entusiasmou-se com o plano. todo mundo desconfiará de nós. Rodrigo se debatia. que já se tornara mais densa. não descobriram nenhuma nave que pudesse servir aos seus propósitos. por mais que lançassem os olhos em torno. Perdera a noção do tempo. Otznam desceu numa velocidade medonha. Soltou um grito de pavor quando uma pressão invisível ameaçou esmagá-lo. Quando disse: — Dentro de três horas será dia. como se voava num traje espacial. já estaremos em Trulan! Dali a uma hora. A cinqüenta quilômetros de altura os três abandonaram a nave. o que vinha a ser a gravidade e como a mesma podia ser neutralizada. maiores seriam suas chances. Quanto mais depressa chegassem até ela. — Muito obrigado. mergulhando em meio à confusão de naves que decolavam e pousavam. Finalmente uma pequena nave-correio surgiu da escuridão e pousou no campo espacial. O piloto cochilava no seu assento. haviam chegado ao espaçoporto policial dos aras mas. O agente dos saltadores ganhou alguns segundos muito preciosos. Mais uma vez acreditava que se tratasse de uma arte do demônio quando viu que pouco acima deles Otznam. Nesse instante. Era ele que estava sendo procurado febrilmente pelos aras. Esconderam os preciosos trajes arcônidas na moita mais próxima. Marshall soltou um “graças a Deus”. Acreditava ter chegado ao fim da vida e pensava que estava descendo às profundezas do inferno. O conde não compreendia nada. o mercador galáctico. Um dos aras saiu da nave. Levava dois homens. Laury encarregou-se do ara. A atmosfera. Laury. Brincava cada vez mais intensamente com a idéia de arriscar. girou a nave e disparou para o espaço. Laury Marten vivia tentando explicar a Rodrigo o que era um campo de deflexão. — Saiam dos trajes espaciais! — ordenou Marshall. o homem não poderia ficar admirado ao ver três pessoas entrarem no aparelho e pedirem que as levasse a Trulan. também o homem do século XVII estava enfiado num traje espacial arcônida de boa qualidade. pendurado num cabo de plástico. a partir dali. Marshall e Laury Marten sabiam que suas presenças podiam ser constatadas pelas estações de superfície. para examinar o espaçoporto policial profusamente iluminado. E esse tráfego era sua única chance de escaparem aos aparelhos de localização. começou a uivar em torno da nave. Marshall lançou os olhos pela noite. o salto para Trulan. O tumulto reinante em Tolimon fora provocado por John Marshall. Estes dispunham de provas cabais de que o mutante de forma alguma poderia ser Ixt. O conde Rodrigo de Berceo flutuava entre os outros. Laury Marten ficou perplexa com os pensamentos que extraiu do cérebro do oficial ara. dirigindo-se a Laury Marten e Rodrigo. . John Marshall e Laury Marten dividiram a presa. Depois disso. saltadores! — gritou Marshall para Tulin e Otznam quando. seguindo os companheiros. Marshall já estava trabalhando o piloto com seu projetor mental. — Enquanto usarmos estes trajes. que entrou num carro e foi levado ao edifício da administração. Desceram na vertical. se enfiou na pequena comporta e fechou-a atrás de si. A nave dos aras que os perseguia não esperara a manobra e demorara demais para modificar a rota. — Preparem-se para saltar! — gritou John Marshall. Pousaram a menos de um quilômetro do espaçoporto policial e junto a uma estrada. Marshall respondeu num tom que quase chegava a ser ameaçador: — Nessa hora.intensíssimo. o agente dos saltadores. que conhecia seus pensamentos.

o crepúsculo começava a descer sobre a capital planetária. Por que andar se insistiam em levá-los de carro? E onde poderiam estar mais seguros que num veículo da policia ou do serviço secreto dos aras? O piloto — que fora influenciado apenas no setor da inteligência. Submeteram o motorista e o oficial do serviço secreto à força sugestiva. O piloto identificou o aparelho. — Aonde vamos? — perguntou o motorista. Jogariam seu jogo atrevido até o fim. Laury Marten! — disse Marshall e levantou-se. Quando Trulan surgiu à sua frente. Marshall foi o último a entrar. E mais uma vez. Foi quando surgiu o incidente com o qual não contavam. As escotilhas da comporta fecharam-se com um chiado. com o radiador de impulsos engatilhado no bolso. Passaram a menos de três metros. A nave-correio surgiu diante deles. Laury cochichava ininterruptamente para ele. Obedecendo à ordem de Marshall. No mesmo instante o ara que se encontrava no setor de controle do espaçoporto de Trulan demonstrou uma gentileza extraordinária. — Para a Rua do Grande Mo — respondeu Marshall. Os mutantes não perderam nem um segundo. — Encareça ao conde a necessidade de não dizer uma única palavra. Marshall decidiu levar o atrevimento ao grau de uma insolência inacreditável. Mais uma vez. reforçada pelo projetor mental. embora tremesse por dentro. A central do serviço secreto dos aras chamou justamente o carro em que iam. — Tudo pronto? — perguntou o ara que se encontrava no assento do piloto. Marshall e Laury Marten trocaram um olhar ligeiro. — Tudo pronto. Encontraram-se com três aras. A comporta estava aberta e a rampa havia sido descida. Mais uma vez. Dois tratamentos hipnóticos de curta duração influenciaram os médicos galácticos pela forma desejada. para não se preocupar com o destino do vôo e a identidade dos passageiros e retornar imediatamente ao espaçoporto policial — pousou levemente na posição número 11. aconteça o que acontecer. Foi quando o serviço de controle constatou sua presença. O chamado foi repetido. Laury. — Tudo pronto! — respondeu John Marshall com a maior tranqüilidade. não aconteceu coisa alguma. O piloto nem sequer se virou quando John Marshall parou junto à comporta interna para deixar que Rodrigo e Laury Marten passassem à sua frente. O motorista e o oficial não reagiram ao chamado. a senhora responde por ele. — Reservamos a posição de estacionamento número onze para o senhor e mandaremos um carro. virando-se para os passageiros. caminharam com o conde entre eles. O carro já os esperava. sem tomar conhecimento da presença deles. o motorista gritou para dentro do microfone: . Será que o serviço de controle do espaçoporto não ficaria desconfiado ao notar que uma nave decolava sem aviso? Corriam atrás da noite que deslizava pelo planeta de Tolimon. Exigiu informações sobre as características da nave. enquanto o ara do serviço secreto olhava fixamente para a frente.

Marshall respirava pesadamente. Objetivo tem de ser mantido em segredo. Aquela impressão voltou a surgir atrás de sua testa. quando a porta de aço arcônida se fechou atrás deles. O projetor mental de Laury Marten mantinha-os em estado hipnótico. parecia que um contato se fechava. O fato de que. Futgris não estava mais na loja dos animais. “Acabarão encontrando o novo aparelho de telecomunicação!”. A pista que tinham deixado era muito nítida. John Marshall teve um sexto sentido para o perigo. as sereias de alarma soariam na Rua do Grande Mo e a casa de animais de Ixt ficaria queimada até os alicerces. Pensava em seu escritório. Naquele instante. . Rodrigo de Berceo contemplou o alojamento de Marshall com um olhar de desprezo e Laury Marten sorriu pela primeira vez. Naquele instante.. não era maior que uma noz. Rodrigo de Berceo levaria os aras ao esconderijo na área dos cortiços. O motorista desligou. Tinha certeza de ter conseguido.. Esta pista se chamava Rodrigo de Berceo. Eram nove elementos do serviço secreto. puxou Laury Marten e arrastou Rodrigo. — Onde devo parar? — perguntou o motorista hipnotizado em meio às suas reflexões. O motorista não se espantou. dali a alguns dias. Dali a quatro horas. — Novo destino da viagem: a coluna do Grande Mo. viu duas viaturas do serviço policial pararem do outro lado. John Marshall não se interessava nem pela confusão do tráfego. porque existe perigo de escuta. Não havia nenhum vendedor por lá! Em compensação. — Deflagrar! — ordenaram seus pensamentos. não pôde ser apagado de forma alguma. De repente. Procurou captar os pensamentos de Futgris. reclinou-se no assento. colete sem mangas com rendas no decote e chapéu de aba larga encimado por um penacho balouçante. Com a segurança de um sonâmbulo. os aras ainda se esforçariam para descobrir por que aquele fogo. Dali a pouco. John Marshall não via nem ouvia mais nada. a central do serviço secreto dos aras chamou: — Viatura KK-107. o piloto fazia a viatura policial correr em direção à Rua do Grande Mo. — Viatura KK-107 em missão especial. Era algo de indefinível. não o preocupava nem um pouco. calça apertada no corpo. Pensou na pequena bomba incendiaria que havia no interior do mesmo. — Desligue o transmissor — ordenou Marshall. para descobrir as novidades ocorridas durante sua ausência. que naquele instante revistavam cuidadosamente o escritório. parecendo tão inofensivo. foi esta a primeira idéia que acudiu a Marshall. Voltarei a chamar dentro de meia hora. Fim. Concentrou-se. — Pare! — disse ao motorista. o homem que usava botas cujos canos iam até os quadris. responda imediatamente e. sem o envoltório que a camuflava. John Marshall sabia perfeitamente que a caçada dos aras ainda não havia chegado ao fim. nem pelos movimentos da multidão. — Aqui não — respondeu Marshall laconicamente. O oficial sentado a seu lado olhava fixamente para a frente. Mais uma vez. O carro ainda estava andando quando Marshall saltou. havia aras. Encontrava-se sobre a escrivaninha e.

John Marshall não conseguia estabelecer contato com eles. À medida que Perry Rhodan ouvia. foi quando Marshall o informou sobre a ampola de soro. como O Pseudo. Mais uma vez Perry Rhodan se vê obrigado a intervir pessoalmente. é este o titulo do próximo volume da série Perry Rhodan. — E os saltadores? — perguntou em tom áspero. . dois agentes cósmicos enviados a Tolimon — um dos mundos dos aras — conseguiram um êxito parcial quando se apoderaram do soro revitalizador. O hipercomunicador da abóbada de aço de Hellgate chamou. Haviam-se retirado. baixou a cabeça. Sentada sobre a cama. Chegará acompanhado de Gucky. Fim. e sacudiu a cabeça ao olhar para Laury Marten. O Pseudo. Mas não conseguiram sair de Tolimon. Desta vez foi uma mensagem mais longa. Marshall. Não faça mais nada. absorto em seus pensamentos. Demorarei alguns dias. O assunto era muito arriscado. seu rosto tornava-se mais sério. — Nesse caso irei pessoalmente. Cuide bem do soro. Só uma vez exprimiu uma alegria imensa. Esta não resistiu ao olhar. Era outra mensagem de John Marshall. *** ** * John Marshall e Laury Marten. Agüente até minha chegada. *** Perry Rhodan aguçou os ouvidos. — Temos uma bela perspectiva diante de nós — disse Marshall.

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