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Rendição ao Desejo

ETHAN

Diana Palmer

Arabella Craig tinha 18 anos quando Ethan Hardeman abriu o coraçaã o dela para a
paixaã o… E depois se casou com outra. Quatro anos depois, uma trageé dia o traz de volta aà vida
de Arabella. Ele continua alto e lindo, poreé m amargurado apoé s o divoé rcio. Ethan controla o
impeé rio de criaçaã o de gado da famíélia com maã o de ferro e peito aberto. Menos no que se refere
a Arabella… A conviveê ncia reacende o desejo e a dor que ela ainda sente.

Digitalização: Simone R.
Revisão: Carmita
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Tradução Gracinda Vasconcelos

HARLEQUIN
2013

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.àr.l.


Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a
transmissão, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas
ou mortas é mera coincidência.

Título original: ETHAN


Copyright © 1990 by Diana Palmer
Originalmente publicado em 1989 por Silhouette Romance

Título original: HEARTBREAKER


Copyright © 2006 by Diana Palmer
Originalmente publicado em 2006 por Silhouette Desire

Projeto gráfico de capa:


Nucleo i designers associados

Arte-final de capa:
Isabelle Paiva
Editoração eletrônica:
EDITORIARTE
Impressão:
RR DONNELLEY
www.rrdonnelley.com.br

Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:


FC Comercial Distribuidora S.A.
Editora HR Ltda.
Rua Argentina, 171,4° andar
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Contato:
virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Capítulo Um

Arabella estava à deriva. Era como se flutuasse em uma nuvem particularmente


veloz, na vasta imensidão do céu. Murmurou satisfeita e afundou no vazio suave, até que
sentiu uma dor cortante em uma das mãos. Um intenso latejar que começou a aumentar a
cada segundo que passava, até se tornar insuportável.
— Não! — gritou, e seus olhos se abriram.
Estava deitada sobre uma superfície plana e fria. O vestido, seu lindo vestido cinza,
se encontrava manchado de sangue. Parecia que tinha cortes e contusões pelo corpo
todo. Um homem com um jaleco branco lhe examinava os olhos. Ela gemeu.
— Concussão — murmurou o homem — Escoriações, contusões. Fratura exposta
no pulso, um ligamento quase rompido. Verifique o tipo sanguíneo, prepare a paciente
para a cirurgia e leve-a para o centro cirúrgico.
— Sim, doutor.
— E então? — perguntou outra voz, dura e exigente. Bastante masculina e familiar,
mas não era a do seu pai.
— Ela vai ficar bem — respondeu o médico, com resignação. — Agora, será que
poderia sair e aguardar lá fora, senhor Hardeman? Embora eu compreenda a sua
preocupação — e aquilo era um eufemismo, pensou o doutor —, o senhor a ajudaria mais
se nos deixasse fazer o nosso trabalho.
Ethan! A voz era de Ethan! Arabella conseguiu virar a cabeça e, sim, era Ethan
Hardeman. Parecia ter sido arrancado da cama: o cabelo escuro despenteado, o rosto
magro exibindo um ar tenso, os olhos cinzentos tão repletos de preocupação que
pareciam negros. O modo como a camisa branca se encontrava desabotoada até o meio
do peito e o casaco aberto dava a impressão que se vestira às pressas. Praticamente
esmagava a aba do Stetson cor de creme na mão.
— Bella — murmurou ele, ao ver o rosto pálido e ferido se virar em sua direção.
— Ethan — ela conseguiu proferir, em um sussurro rouco. — Oh, Ethan, minha
mão!
A expressão dele enrijeceu. Aproximou-se da maca, apesar dos protestos do
médico, e afagou-lhe o pobre rosto machucado.
— Querida, que susto me deu! — Sua mão parecia de fato estar tremendo, quando
lhe afastou o longo e desgrenhado cabelo castanho para trás. Os olhos verdes de
Arabella brilharam em um misto de dor e alívio.
— E o meu pai? — perguntou apreensiva, porque era ele quem dirigia o carro no
momento do acidente.
— O resgate aéreo o levou para Dallas. Tinha uma lesão ocular significativa e lá se
encontram os melhores especialistas na área. Mas, fora isso, está bem. Não podia ficar
aqui para cuidar de você, por isso pediu ao pessoal do hospital para me ligar. — Um
sorriso amargo curvou-lhe os lábios. — Deus sabe como essa decisão deve ter sido
angustiante para ele.

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Arabella estava sentindo muita dor para captar o significado oculto nas entrelinhas.
— Mas... como está a minha mão... ? — perguntou ela.
Ethan endireitou-se.
— Os médicos vão conversar com você mais tarde. Mary e o restante do pessoal
virão vê-la amanhã pela manhã. Vou permanecer aqui até que saia do centro cirúrgico.
Com a mão sã, ela o segurou pelo braço, sentindo os músculos dele enrijecerem.
— Ethan, explique a eles como minha mão é importante, por favor. — implorou.
— Eles já sabem e farão tudo que for possível. — Com o dedo indicador, afagou-
lhe os lábios ressecados. — Não vou deixá-la — disse, em um tom calmo.
— Vou ficar aqui.
Arabella segurou-lhe a mão, apertando-a, sentindo o seu vigor, confiando em sua
força pela primeira vez em um longo tempo.
— Ethan — sussurrou, enquanto a dor aumentava. — Lembra aquele dia no
riacho...?
O semblante dele se fechou. Literalmente se encolheu ao vê-la contrair as feições
devido à dor.
— Meu Deus, vocês não podem lhe dar algo? — perguntou ao médico, como se
ele mesmo estivesse sentindo a dor.
O médico, por fim, pareceu entender que não era apenas impaciência que levara
aquele homem alto e irritado a invadir a sala de emergência dez minutos antes. A
expressão em suas feições austeras enquanto segurava a mão da mulher falava por si.
— Fique tranquilo, vou ministrar algo para a dor — prometeu. — Você é um
parente? O marido dela, talvez?
Os olhos cinzentos de Ethan o fitaram com um brilho cortante.
— Não, não sou um parente. Arabella é uma famosa concertista dos tempos
modernos. Vive com o pai, que nunca permitiu que ela se casasse.
O médico não dispunha de tempo para aquele tipo de conversa. Então, pediu a
uma enfermeira que conduzisse Ethan à sala de espera e, agradecido, sumiu de vista no
setor de emergência.

Horas mais tarde, Arabella começava a despertar da anestesia em um quarto


particular. Ethan estava lá, olhando irritado, através da janela, para os tons pastel do céu
ao amanhecer, ainda com as mesmas roupas que usara na noite anterior. Ela, por sua
vez, vestia um roupão floral do hospital e se sentia como provavelmente aparentava, fraca
e dolorida.
— Ethan — chamou.
No instante seguinte, ele se virou e caminhou até a cama. Sua aparência estava
péssima; o rosto, pálido e tenso.
— Como está se sentindo? — perguntou.
— Cansada, dolorida e grogue — murmurou Arabella, tentando um sorriso. Ele
parecia tão sério, em comparação ao Ethan da sua adolescência. Estava com quase 23

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anos agora e ele, 30, mas sempre fora muito mais maduro que ela. Vê-lo ali, de pé junto à
cama, a fez recordar a angústia dos últimos quatro anos. Quantas lembranças, pensou
sonolenta, contemplando aquele rosto querido. Sempre fora apaixonada por Ethan, mas
ele se casara com Miriam quatro anos atrás. Pouco tempo após o casamento, pedira o
divórcio. A esposa não quisera aceitar a separação e lutara com unhas e dentes por
quase quatro anos para evitá-la. Naquele ano, por fim, desistira, e fazia apenas três
meses que estavam legalmente separados. Ele era um mestre em esconder seus
sentimentos, mas as linhas profundas em seu rosto falavam por si. Miriam o magoara
terrivelmente. Tentara adverti-lo, à sua tímida maneira. Os dois acabaram discutindo por
causa disso, e ele a banira de sua vida com extrema frieza e crueldade. Desde então, só
o via de passagem, porque a cunhada dele era sua melhor amiga, e as visitas eram
inevitáveis. Mas Ethan sempre se mostrara distante e inacessível. Até a noite anterior.
— Devia ter me escutado quando o alertei sobre Miriam — disse ela, ainda meio
grogue.
— Não vamos falar sobre a minha ex-mulher. — A voz soou fria. — Você irá para
casa comigo quando tiver alta. Mamãe e Mary vão cuidar de você e lhe fazer companhia.
— Como está o meu pai?
— Não tenho nenhuma novidade por enquanto. Vou verificar mais tarde. Agora,
preciso tomar o café da manhã e mudar de roupa. Voltarei após passar algumas ordens
aos meus empregados. Estamos reunindo o gado para marcar os animais.
— Que ocasião mais imprópria para ficar perdendo tempo comigo — lamentou,
com um profundo suspiro. — Sinto muito, Ethan. Papai poderia tê-lo poupado desse
incômodo.
Ele ignorou o comentário.
— Havia roupas suas no carro?
Arabella sacudiu a cabeça em negativa. O leve movimento a fez sentir dor. Então,
estacou. Com a mão livre, alisou a massa de cabelo castanho-escuro, afastando-o do
rosto machucado.
— Minhas roupas estão no apartamento em Houston.
— Onde estão as chaves?
— Na minha bolsa. Devem tê-la trazido comigo — murmurou, sonolenta.
Ethan procurou no armário do outro lado do quarto e encontrou a elegante bolsa de
couro. Trouxe-a até a cama com a expressão de um homem segurando uma cobra
venenosa.
— Onde estão?
Ela o fitou com um ar divertido, apesar dos sedativos e da dor crescente.
— No compartimento com zíper — conseguiu dizer.
Ethan pegou um molho de chaves e ela mostrou-lhe a certa. Ele deixou a bolsa de
lado com evidente alívio.
— Não entendo por que as mulheres não podem usar bolsos da mesma maneira
que os homens.
— As coisas que carregamos não caberiam em bolsos — retrucou, recostando-se
novamente sobre os travesseiros, curiosa e com os olhos bem abertos. — Você está
horrível.

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Ethan não sorriu. Quase nunca sorria, com exceção de alguns dias mágicos,
quando ela ainda era uma adolescente. Antes de Miriam pôr suas belas mãos nele.
— Não dormi direito — respondeu, a voz afiada e cortante.
Arabella sorriu, sonolenta.
— Não precisa rosnar. Recebi uma carta de Coreen quando estava em Los
Angeles o mês passado. Ela disse que você anda insuportável nos últimos tempos.
— Minha mãe sempre achou a convivência comigo insuportável — ele a lembrou.
— Ela contou que tem sido assim há três meses, desde que obteve o divórcio. Por
que Miriam finalmente cedeu? Era ela quem insistia em continuar casada, apesar do fato
de ter deixado de viver com você há tanto tempo.
— Como posso saber? — respondeu, com outra pergunta. Em seguida, deu-lhe as
costas e se afastou.
Arabella percebeu o jeito como a expressão de Ethan se fechou à mera menção do
nome da ex-mulher. Ela sentiu o peito oprimido. O casamento o havia ferido mais do que
tudo na vida. Fora tão inesperado, e a decepção ao receber a notícia quase a matara de
tristeza. De alguma forma, sempre acreditara que Ethan sentia algo por ela. Aos 18 anos
era jovem demais para ele, mas, naquele dia no riacho, tivera certeza de que havia mais
do que uma simples atração física entre os dois. Ou talvez estivesse enganada e tudo não
passasse de ilusão. A despeito dos seus sentimentos, Ethan começou a sair com Miriam
imediatamente após aquele doce interlúdio, e no espaço de dois meses se casara com a
modelo.
A dor fora difícil de superar. Ele fora o primeiro homem em sua vida em todos os
aspectos importantes, com exceção do mais íntimo. Ainda aguardava por esse primeiro
momento de intimidade, assim como aguardara durante todos aqueles anos da sua vida
adulta que Ethan a amasse. Quase riu alto. Ele jamais a amaria. Perdera-se de amores
por Miriam, que fora ao rancho filmar um comercial. E tudo isso acontecera diante dos
seus olhos. Vira o homem dos seus sonhos aos poucos cair sob os encantos dos olhos
verdes da modelo ruiva, com sua sofisticada beleza.
Arabella jamais possuíra a autoconfiança e a sedutora sofisticação de Miriam. E a
mulher se casara com Ethan só para abandoná-lo mais tarde. O povo da cidade dizia que
ele se tornara um misantropo por causa do casamento. Não duvidava. Ele nunca tivera
uma vida social intensa, em primeiro lugar. Era um rapaz sério. Não havia nada de feliz ou
despreocupado em Ethan. Assumira a responsabilidade da família após a morte do pai. E
até mesmo as primeiras lembranças que ela guardava dele eram de um homem austero
que dava ordens, como um comandante, intimidando empregados com o dobro de sua
idade, quando mal acabara de sair da adolescência.
De repente, se deu conta de que Ethan a estava observando.
— Vou enviar alguém ao seu apartamento em Houston para pegar suas coisas.
— Obrigada. — É claro que ele evitaria falar sobre Miriam. De algum modo, já
esperava por essa reação. Respirou fundo e começou a erguer a mão. Estava pesada.
Olhou desolada para baixo e viu o gesso. Por baixo havia um antisséptico vermelho que
contrastava com sua pele clara. Sentindo a ameaça da realidade, virou o rosto e fechou
os olhos.
— Eles tiveram que mexer nos ossos — explicou Ethan. — O gesso será retirado
dentro de seis semanas, e poderá usar sua mão de novo.
Usá-la, sim. Mas seria capaz de tocar piano como antes? Quanto tempo seria

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necessário e do que ela e o pai viveriam se não conseguisse? Arabella sentiu o pânico
dominá-la. O pai era cardíaco e usara a doença como pretexto para lhe impor anos de
estudo, em uma prática sem fim, que a impossibilitava de sair com Mary, Jan, a irmã de
Ethan, e Matt o irmão dele, com quem Mary se casara mais tarde.
Era estranho que o pai tivesse chamado justamente Ethan para cuidar dela. Ele
nunca gostara do rapaz, e a recíproca era verdadeira. Desde que se tornara adulta, o pai
fazia o possível para mantê-lo a distância. Jamais entendera aquele antagonismo, porque
Ethan nunca demonstrara muito interesse por ela, até o dia em que os dois foram nadar
no riacho e as coisas quase foram longe demais. Ela nunca contara a ninguém; logo, o
pai não sabia de nada. Aquilo se tornara um segredo íntimo e especial. Seu e de Ethan.
Arabella se forçou a voltar ao presente. Não podia se abandonar ao
sentimentalismo, agora. Já tinha complicações suficientes em sua vida. Não precisava de
mais. Lembrava-se vagamente de ter mencionado algo a Ethan sobre o dia em que foram
nadar juntos, quando ainda era uma menina de 18 anos. Esperava com todas as forças
que ele estivesse preocupado demais para ter prestado atenção àquela observação, que
não tivesse deixado transparecer o quanto a lembrança era preciosa para ela.
— Disse que me levaria com você. — começou hesitante, tentando fazer sua
mente funcionar. — Mas, meu pai...
— Seu tio mora em Dallas, lembra? — cortou ele, em um tom áspero. — Seu pai
provavelmente ficará por lá.
— Ele não vai gostar de ficar tão longe de mim — insistiu ela.
— Não, não vai. — Ele puxou o lençol, cobrindo-a até o queixo. — Tente dormir.
Deixe os remédios fazerem efeito.
Os grandes olhos verdes de Arabella se abriram e se fixaram nos dele.
— Você não me quer em sua casa — murmurou, com a voz rouca. — Nunca quis.
Quando discutimos sobre Miriam, você disse que eu era um incômodo e que não queria
voltar a me ver!
Ethan estremeceu ao lembrar e fez uma careta.
— Tente dormir — disse, seco.
Arabella ainda estava sob o leve torpor pós-sedação, alegremente alheia ao olhar
torturado no rosto moreno acima dela. Por fim, fechou os olhos.
— Sim. Dormir.
O mundo pareceu ficar distante, à medida que os medicamentos agiam, fazendo-a
adormecer. Os sonhos estavam repletos de lembranças de sua infância e adolescência
com Mary, Matt e Ethan, sempre próximo, querido, calado e completamente inatingível.
Naquela época, não importava o quanto ela tentasse parecer mais velha, Ethan nunca a
vira como mulher.
Arabella sempre o amara. A música fora uma espécie de válvula de escape. Podia
tocar primorosas peças clássicas e colocar todo o amor que Ethan desprezara em seus
dedos, enquanto tocava. Fora essa febre e necessidade que a lançara no mundo musical.
Aos 21 anos, ganhara um concurso internacional e uma vultosa soma em dinheiro, e o
reconhecimento lhe abrira as portas para um contrato de gravação.
A música clássica nunca fora bem remunerada para pianistas, mas o estilo de
Arabella encantara rapidamente quando interpretara ao piano algumas músicas
populares. Os primeiros álbuns venderam bem, e logo viera o convite para gravar outros.
Os royalties começaram a crescer, juntamente com sua fama.

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Fora o pai que a empurrara para aquela vida, obrigando-a a fazer aparições
públicas e turnês. Ela, no fundo, era bastante tímida e não gostara muito da ideia. Tentara
protestar, mas como sempre o pai acabara convencendo-a, e ela não tinha muita vontade
de confrontá-lo. Isso era incrível, disse a si mesma. Não tinha o menor escrúpulo em
enfrentar Ethan ou até mesmo outras pessoas. Mas com o pai era diferente. Ela o amava,
e ele fora o seu esteio quando a mãe morrera, muito tempo atrás. Não suportaria magoá-
lo, recusando-se a seguir suas orientações na carreira. Ethan odiava o modo como o pai
dela tentava controlá-la, mas nunca lhe pedira para se rebelar.
Ao longo dos anos, enquanto ela crescia em Jacobsville, Ethan fora uma espécie
de irmão mais velho protetor, até o dia em que a levara para nadar no riacho, e tudo
mudara. Na ocasião, Miriam se encontrava no rancho, filmando um comercial com um
tema rural para uma revista de moda. Até então, Ethan não havia dispensado muita
atenção à modelo, mas depois daquele dia começara a cortejá-la.
Certa vez, Arabella ouvira Miriam se vangloriar para uma amiga, dizendo que tinha
a fortuna dos Hardeman na palma da mão e que se casaria com Ethan para ter uma vida
de luxo e riqueza. Saber que o homem que ela amava seria tratado como um tíquete-
refeição e nada mais fora um verdadeiro tormento. Decidida, ela o procurara e tentara
contar-lhe o que ouviu.
Ethan não acreditara. Ele a acusara de ter ciúmes de Miriam e a ferira com
observações cruéis sobre sua pouca idade, inexperiência e ingenuidade. Por fim, acabara
por expulsá-la do rancho. Humilhada, Arabella partira e voltara para o conservatório.
Era estranho que justamente ele estivesse ali para cuidar dela. Era a primeira vez
que estava internada em um hospital, a primeira vez que tivera um problema sério de
saúde. Não esperava que Ethan se preocupasse com ela, apesar do pedido do pai.
Desde o casamento com Miriam, passara a ignorá-la, dando um jeito de sumir toda vez
que ela vinha visitar Mary e Coreen.
Mary e Matt, depois do casamento, continuaram morando na imensa casa dos
Hardeman. Coreen, a mãe de Ethar e Matt, sempre acolhia Arabella como se ela fizesse
parte da família, em suas visitas ocasionais ao rancho. Mas Ethan se mostrava frio,
inacessível e mal lhe dirigia a palavra.
Mas ela não esperava outro comportamento da parte dele. Ethan deixara sua
opinião sobre ela clara como água ao anunciar seu noivado com Miriam, pouco tempo
depois de ter começado a namorar a modelo. O noivado chocara a todos, inclusive
Coreen, e o casamento apressado gerara uma fonte inesgotável de fofocas durante
meses. Mas Miriam não estava grávida, como suspeitavam. Então, obviamente, fora um
casamento por amor. Se esse era o caso, fora um amor breve. Miriam partira, levando
todos os seus pertences, seis meses depois, deixando o marido sozinho, mas não livre.
Arabella nunca entendera por que Miriam se recusara a assinar o divórcio ou por que
fugira de um homem com quem havia acabado de se casar. Essa era uma das muitas
particularidades do seu casamento que Ethan nunca discutia com ninguém Sentiu o torpor
dominá-la. Por fim, cedeu, suspirando enquanto se entregava a um sono profundo,
deixando todas as preocupações e tristezas para trás.

Capítulo Dois

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Quando Arabella acordou outra vez era quase meio-dia. Sua mão latejava sob o
gesso branco. Rangeu os dentes, relembrando o acidente muito vividamente, o impacto, o
som de vidro se estilhaçando, seu próprio grito e em seguida a inconsciência. Não podia
culpar o pai pelo ocorrido, porque fora inevitável. A estrada estava escorregadia, um carro
surgira na frente deles, e ao tentarem desviar, acabaram se chocando contra um poste de
telefone. Estava feliz por ter sobrevivido, apesar dos danos à sua mão. Mas temia a
reação do pai quando soubesse que sua carreira de pianista talvez estivesse com os dias
contados. Recusava-se a sequer pensar nessa possibilidade. Tinha que ser otimista.
Em uma reflexão tardia, desejou saber o que havia acontecido com o carro deles.
Estavam retornando de Corpus Christi, onde ela realizara um concerto beneficente, com
destino a Jacobsville. O pai não lhe dissera por que estavam indo para lá, logo, presumira
que se tratava de umas breves férias em sua antiga cidade natal. Então, pensara na
possibilidade de ver Ethan novamente e seu coração disparara dentro do peito. Mas
nunca imaginara vê-lo naquelas circunstâncias.
Estavam muito próximos de Jacobsville quando ocorrera o acidente, logo,
naturalmente, tinham sido levados para o hospital da cidade. Seu pai fora transferido para
Dallas, mas antes pedira ao pessoal que o socorrera que ligassem para Ethan. Mas por
quê? Não podia imaginar a razão pela qual o pai pediria a um homem de quem ele
obviamente não gostava para cuidar da filha. Não estava sequer perto de resolver o
enigma quando a porta se abriu.
Ethan entrou com uma xícara de café nas mãos, parecendo tão sisudo, como se
nunca tivesse sorrido na vida. Possuía um ar arrogante que a intrigava, desde a primeira
vez que o vira. Era tão singular quanto o próprio nome. Arabella conhecia a origem
daquele nome. Sua mãe Coreen, uma fã de John Wayne, amara o filme Rastros de
ódio, que fora exibido antes de Ethan nascer. Quando ficara grávida, não conseguira
pensar em um nome melhor para o filho primogênito do que o primeiro nome que John
Wayne tinha no filme. Assim, ele se tornara Ethan Hardeman. O nome do meio era John,
mas poucas pessoas, além dos familiares, sabiam disso.
Arabella adorava observá-lo. Ethan possuía um físico de caubói de rodeio. Ombros
largos, quadris estreitos, pernas longas e musculosas. O rosto também não era nada
mau. Tinha a pele bronzeada e profundos olhos cinzentos, embora, às vezes, exibissem
tons prateados que se alternavam com suaves nuanças de azul. O cabelo era escuro,
com um corte convencional. O nariz era reto, a boca, sensual, as maçãs do rosto, altas, e
o queixo, saliente, com uma pequena covinha. Tinha as mãos esguias com dedos longos
e unhas planas, sempre limpas e bem-aparadas.
De repente, se surpreendeu observando-o de novo. Seus olhos vagavam desde a
camisa azul quadriculada, passando pelo jeans, até as botas de montaria pretas. Ethan
estava impecavelmente vestido para um caubói, mesmo sendo o patrão.
— Você está horrível — disse ele, e todos os pensamentos românticos de Arabella
desapareceram.
— Obrigada — agradeceu, com um pouco do seu velho bom humor. — Era
exatamente esse tipo de elogio de que eu precisava.
— Você vai ficar bem. — Parecia seguro como sempre. Sentou-se na poltrona ao
lado da cama, cruzou uma longa perna sobre a outra e tomou um gole de café. — Mamãe
e Mary virão vê-la mais tarde. Como está a mão?
— Dói — respondeu sucinta. Com a mão sã, afastou o cabelo do rosto. Podia ouvir

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os prelúdios de Bach e as sonatinas de Clementi no fundo da mente. Sempre a música.


Era o que lhe dava vida e a fazia respirar. Não suportava pensar que poderia perdê-la.
— Não lhe deram nenhum analgésico?
— Sim, há poucos minutos. Estou um pouco grogue, mas não sinto tanta dor
quanto antes — assegurou. Ela vira uma auxiliar de enfermagem fugir quando ele entrara
no quarto. Tudo que não precisava era Ethan reclamando com o pessoal por sua causa.
Os lábios dele exibiam um leve sorriso.
— Não se preocupe, não vou causar muitos problemas — prometeu. — Só quero
ter certeza de que está sendo bem tratada.
— Os enfermeiros também — ela murmurou secamente. — E ouvi pelo menos dois
médicos dizendo que estão pensando em pedir demissão se eu não tiver alta em breve.
Ethan parecia um pouco desconfortável.
— Só queria ter certeza de que está recebendo o melhor tratamento possível.
— Eu estou, não se preocupe. — Ela desviou o olhar. — De um inimigo para outro,
obrigada por seus cuidados.
Ele enrijeceu.
— Não sou seu inimigo.
— Não? Não nos despedimos como amigos alguns anos atrás. — Ela se recostou
no travesseiro, suspirando. — Sinto muito pelas coisas não terem dado certo entre você e
Miriam. — A voz soou calma. — Espero não ter sido por causa de alguma coisa que eu
lhe disse.
— Isso é história passada. Esqueça.
— Está bem — assentiu ela, intimidada pela aspereza do seu olhar.
Ethan tomou outro gole de café, permitindo que seus olhos examinassem a silhueta
esbelta de Arabella.
— Você perdeu peso. Vai precisar descansar por um tempo.
— Não posso me dar a esse luxo. Mal começamos a equilibrar o orçamento este
ano.
— Seu pai poderia arrumar um emprego e ajudar — retrucou, em um tom frio.
— Você não tem o direito de se meter na minha vida — disse ela, fitando-o
indignada. — Abriu mão disso anos atrás.
Os músculos do rosto de Ethan se contraíram, embora seu olhar se mantivesse
firme.
— Sei melhor do que você do que abri mão. — Ele bebeu mais um gole de café.
— Mamãe e Mary estão preparando o quarto de hóspedes para esperá-la. Matt
viajou para Montana a negócios, logo, Mary ficará feliz em tê-la como companhia.
— Sua mãe não se importará de ter trabalho comigo?
— Minha mãe a adora. Sempre a adorou, e você sempre soube disso, portanto não
há necessidade de fingir.
— Sua mãe é uma boa pessoa.
— E eu não sou? — Ethan estudou-lhe o rosto. — Nunca tentei ganhar nenhum

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concurso de popularidade, se é a isso que se refere.


Arabella se remexeu desconfortável sobre os travesseiros.
— Você está muito melindrado. Não pretendia insultá-lo. Estou muito grata pelo
que fez por mim.
Ethan terminou o café. Seu olhar encontrou o dela, sustentando-o por alguns
instantes, mesmo contra a vontade. Então, por fim, virou o rosto.
— Não quero sua gratidão.
Essa era a verdade. Nem gratidão, nem qualquer outra coisa. E muito menos amor.
Arabella olhou para baixo, para a mão engessada.
— Telefonou para o hospital em Dallas para saber notícias do meu pai?
— Liguei para o seu tio no início desta manhã. O oftalmologista deve ver seu pai
ainda hoje. Estão mais otimistas do que ontem à noite.
— Ele perguntou por mim?
— É claro que sim. E já foi informado sobre a sua mão.
Ela enrijeceu.
— E então?
— Não disse uma palavra, segundo o seu tio. — Ethan sorriu sem humor. — Bem,
o que esperava? Suas mãos eram o sustento dele. Deve estar imaginando um futuro que
lhe exigirá trabalhar novamente para viver. Talvez esteja se afogando em um mar de
autopiedade.
— Que absurdo!
Ethan a fitou com intensidade.
— Conheço o seu pai e você também, apesar do fato de ter passado a vida
protegendo-o. Está na hora de pensar em mudar de vida.
— Estou satisfeita com a que tenho.
Os olhos cinzentos procuraram os dela mais uma vez. O quarto estava tão
silencioso que podiam ouvir o som de carros do lado de fora do hospital, nas ruas
próximas de Jacobsville.
— Lembra-se do que me perguntou quando eles a trouxeram para cá?
Ela sacudiu a cabeça, negando.
— Não. Estava muito mal na ocasião — mentiu, desviando o olhar.
— Perguntou se eu me recordava daquele dia no riacho.
As bochechas de Arabella coraram Ela retorceu o tecido do roupão do hospital com
os dedos, com evidente nervosismo.
— Não posso imaginar por que fiz tal pergunta. Essa história é muito antiga.
— Quatro anos não é tanto tempo assim. E, respondendo à sua pergunta
tardiamente, sim, eu me lembro. E gostaria de poder esquecer.
Bem, isso ficara bem claro, não é?, pensou ela, magoada, sem coragem de
encará-lo. Podia imaginar a zombaria em seus olhos.
— E por que não consegue esquecer? — perguntou, tentando soar tão casual
quanto ele. — Afinal, você mesmo disse que eu o incitei e que estava pensado em Miriam,

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na ocasião.
— Maldita Miriam! — Ethan ergueu-se, entornando o restinho do café quente na
mão. Ignorou a dor e caminhou até a janela para olhar para fora. Seu corpo estava rígido.
Mesmo a simples menção do nome da ex-mulher o deixava tenso, ferido. Arabella não
fazia ideia do inferno em que Miriam transformara sua vida, ou do motivo que o levara a
casar-se com a modelo. Mas quatro anos haviam se passado, e era tarde demais para
explicações ou desculpas. As lembranças do dia em que quase fizera amor com Arabella
continuavam permanentes, inalteradas, faziam parte do seu ser, mas não podia permitir
que ela soubesse. Estava tão trancado em si mesmo que se julgava desprovido de
sentimentos, até o pai dela lhe telefonar, contando sobre o acidente que haviam sofrido e
que a filha estava ferida. Ainda podia sentir o pânico doentio que o dominara ao pensar
uma vez mais na possibilidade de que ela podia ter morrido. O mundo escurecera à sua
volta até chegar ao hospital e encontrá-la relativamente ilesa.
— Não teve mais notícias de Miriam? — ela perguntou.
Ele não se virou.
— Não tive, até a homologação do divórcio, semana passada. — Deixou escapar
um riso amargo. — Ela quer falar sobre reconciliação.
Arabella sentiu o coração afundar.
Adeus ao tênue fio de esperança.
— Você a quer de volta?
Ethan caminhou até a cama, com a raiva estampada no rosto.
— Não, não a quero de volta — afirmou, fitando-a com frieza. — Levei anos para
convencê-la a aceitar o divórcio. Pensa realmente que tenho planos para colocar meu
pescoço na forca outra vez?
— Eu não o conheço, Ethan — respondeu, com a voz calma. — Na verdade, acho
que nunca o conheci. Mas você amava Miriam — acrescentou, baixando o olhar. — Não
seria tão inconcebível que sentisse falta dela ou que a quisesse de volta.
Ele não respondeu. Virou-se, deixou-se cair na poltrona ao lado da cama e cruzou
as pernas.
Distraído, brincou com a xícara de café vazia. Amar Miriam? Sentira desejo por ela.
Mas amor? Não.
Gostaria de poder dizer isso a Arabella, mas se tornara muito hábil em manter seus
mais profundos sentimentos ocultos.
Então, colocou a xícara no chão ao lado da poltrona.
— Quando um espelho se quebra, é melhor substituí-lo do que remendá-lo —
disse, erguendo o olhar para fitá-la. — Não quero uma reconciliação. Então, nesse caso...
— ele continuou, improvisando ao começar a vislumbrar uma forma de escapar daquela
situação desagradável. — poderíamos ajudar um ao outro.
O coração de Arabella disparou.
— O quê?
Ethan continuou a encará-la, os olhos sondando, avaliando.
— Seu pai a trancafiou em uma prisão emocional. Você nunca tentou escapar.
Bem, eis a sua chance.
— Não entendo.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— É muito simples. Afinal, costumava ser melhor em ler as entrelinhas. — Ele tirou
um cigarro do maço no bolso e o balançou com os dedos. — Não se preocupe. Não vou
acendê-lo — acrescentou, quando viu o olhar que ela lhe lançou. — Preciso de algo para
manter as mãos ocupadas. O que estou sugerindo é que você e eu podemos fingir um
envolvimento.
Arabella não pôde evitar que o medo e a surpresa distorcessem suas feições.
Ethan a expulsara de sua vida uma vez e agora tinha a audácia de querer que ela fingisse
estar envolvida com ele? Isso era cruel.
— Eu já imaginava que ficaria aborrecida com a sugestão — disse ele, após um
minuto estudando-lhe a expressão. — Mas pense a respeito. Ainda levará umas duas
semanas para Miriam chegar aqui. Isso nos daria tempo para traçar alguma estratégia.
— E por que não pode dizer-lhe apenas para não vir? — perguntou ela.
Ethan olhou para baixo, para suas botas.
— Eu poderia, mas não resolveria o problema. Ela continuaria entrando e saindo
da minha vida no futuro. A melhor maneira, a única maneira — corrigiu —, é dar-lhe uma
boa razão para se manter afastada para sempre. Você é a melhor em que eu pude
pensar.
— Miriam morreria de rir se alguém lhe dissesse que você estava envolvido
comigo. Eu tinha apenas 18 anos quando vocês se casaram. Ela não me considerava
uma rival, na ocasião. E estava certa. Eu não era e continuo não sendo. — Arabella
ergueu o queixo, com o orgulho dilacerado. — Sou talentosa, mas não bonita. Ela nunca
vai acreditar que você possa ter se interessado por mim
Ethan precisou se esforçar para que sua expressão não deixasse transparecer o
sofrimento que aquelas palavras lhe causaram Doía ouvi-la falar daquele jeito. Não
gostava de lembrar o quanto a havia magoado. Na época, não encontrara outra saída.
Mas explicar o seu raciocínio para Arabella quatro anos mais tarde de nada adiantaria.
Seus olhos escureceram, enquanto a observava com o antigo desejo. Não sabia
como suportaria ter que deixá-la sair de sua vida uma segunda vez. Mas, pelo menos,
poderia ter algumas semanas com ela sob o pretexto de um pacto de ajuda mútua. Melhor
isso do que nada.
Assim, guardaria algumas doces lembranças para recordar ao longo dos anos de
solidão que teria pela frente.
— Miriam não é estúpida — disse ela, por fim.
— Você é uma mulher agora, com uma carreira de sucesso. Não mais uma garota
caipira e ingênua. Ela não está a par da vida resguardada que leva, a menos que lhe
conte. — Seus olhos percorreram-lhe o rosto suavemente. — Mesmo sem a interferência
do seu pai, não acredito que tenha tido muito tempo para sair com homens, não é?
— Os homens são traiçoeiros — respondeu ela, sem pensar. — Eu lhe ofereci meu
coração, e você o jogou na minha cara. Não o ofereci a mais ninguém e não pretendo
fazê-lo. Tenho minha música. Isso é tudo de que preciso.
Ethan não acreditava nela. As mulheres não se tornavam tão amargas por causa
de uma paixão juvenil, especialmente porque, em geral, não passava de uma simples
atração física. Por certo, as drogas que lhe ministraram haviam mexido com seu
raciocínio. Mesmo assim, daria um braço para acreditar que Arabella o amara tanto.
— E se não puder tocar mais? — perguntou ele, de repente.
— Então vou pular do telhado — afirmou convicta. — Não posso viver sem a

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

música. E não quero tentar.


— Que atitude covarde. — As palavras foram proferidas com frieza para disfarçar a
onda de medo que o assolou diante da expressão do rosto de Arabella ao dizer aquilo.
— Não é verdade — ela o contradisse.
— No começo foi ideia do meu pai me empurrar para essa vida. Mas eu amo o que
faço. A maioria do que faço — corrigiu. — Não gosto muito de me apresentar em público,
mas estou muito feliz com a minha carreira.
— Que tal um marido? Filhos? — sondou.
— Não quero e também não preciso — afirmou, virando o rosto. — Tenho minha
vida toda planejada.
— Foi seu maldito pai que a planejou — retrucou irritado. — Ele lhe diria quando
respirar, se você permitisse!
— O que eu faço ou deixo de fazer não é da sua conta — respondeu Arabella. Os
olhos verdes encararam os dele. — Não tem direito algum de dizer que o meu pai tenta
me dominar, quando está tentando me manipular para ajudá-lo a se livrar de Miriam.
Os olhos dele se estreitaram
— Isso me surpreende.
— O quê? — perguntou ela.
— Que me enfrente com tanta facilidade e não seja capaz de contestar seu pai.
— Não tenho medo de você. — Ela entrelaçou os dedos. — Mas sempre tive um
pouco de medo do meu pai. A única coisa que ele quer de mim é o meu talento. Pensei
que, se me tornasse famosa, ele pudesse me amar. — Um riso amargo escapou-lhe dos
lábios. — Mas estava enganada, não é? Agora que ele acha que não serei mais capaz de
tocar, não quer mais me ver. — Ela olhou para cima com os olhos inundados de lágrimas.
— Nem você estaria aqui, se não quisesse se livrar de Miriam. Nunca fui nada além de
um fantoche para os homens, e tem coragem de dizer que meu pai controla a minha vida?
Ethan enfiou a mão livre no bolso.
— Sua autoestima está muito baixa — comentou, com a voz grave.
Arabella desviou o olhar.
— Conheço os meus defeitos. — Ela fechou os olhos. — Vou ajudá-lo a se livrar de
Miriam, mas não precisa me proteger do meu pai. Duvido muito que eu volte a vê-lo
depois do que aconteceu.
— Se essa mão ficar curada, você o verá novamente. — Ethan jogou o cigarro
apagado no cinzeiro. — Vou em casa buscar mamãe e Mary para vê-la. O empregado
que enviei para pegar suas roupas já deve ter voltado. Vou trazer seus pertences ao
retornar.
— Obrigada.
Ethan parou ao lado da cama, com os olhos atentos.
— Também não gosto de depender de outras pessoas. Mas terá muito tempo para
conquistar sua independência. No momento, sou a única pessoa com quem pode contar.
Vou cuidar de você até que esteja curada. Se isso incluir manter o seu pai afastado,
posso lhe assegurar que o farei.
Arabella olhou para cima.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— O que pensa em fazer para Miriam acreditar que a nossa relação não é uma
farsa?
— Está nervosa? Acha que eu posso querer fazer amor com você na frente dela?
As bochechas dela coraram.
— Claro que não!
— Bem, pode relaxar. Não vou lhe pedir tanto sacrifício. Alguns sorrisos e mãos
entrelaçadas serão suficientes para ela captar a mensagem — Ele riu amargo enquanto a
fitava. — Se não for, vou anunciar nosso noivado. Calma, não entre em pânico —
acrescentou em um tom frio, ao ver a expressão no rosto de Arabella. — Desfazemos o
compromisso assim que ela partir, se tivermos que ir tão longe, é claro.
O coração de Arabella batia de modo descontrolado. Ethan não sabia o que o
pensamento de estar comprometida com ele a fazia sentir. Amava-o desesperadamente,
mas era óbvio que aquele sentimento não era correspondido.
Por que ele precisava de alguém para ajudá-lo a afastar Miriam de sua vida?,
perguntou-se. Talvez ainda a amasse e temia que a aproximação os envolvesse mais
uma vez. Fechou os olhos. Fosse qual fosse a razão, não podia deixar transparecer o que
sentia por ele.
— Combinado, então — disse ela. — Estou tão cansada, Ethan.
— Repouse um pouco. Vejo você mais tarde.
Ela abriu os olhos.
— Obrigada por ter vindo me ver. Sei que não é algo que faria por vontade própria,
se meu pai não lhe tivesse pedido.
— E acha que me importo o suficiente com seu pai para fazer sacrifícios por ele?
— perguntou curioso.
— Bem, também não esperava que fizesse por mim — O tom de voz soou frio. —
Deus sabe que não gostava muito de mim nos velhos tempos. E continua não gostando,
imagino. Eu não devia ter lhe dito nada sobre Miriam.
De repente, Arabella se deu conta de que estava falando com as paredes. Ele não
estava mais lá. Partira antes que as palavras saíssem de sua boca.

Mais tarde, naquele dia, Ethan retornou com Coreen e Mary, mas não entrou no
quarto.
Coreen, pequena e delicada, era tudo que Arabella teria idealizado de uma figura
materna. A mulher era espirituosa e amável, e suas brigas com Ethan eram lendárias.
Mas ela amava Arabella e Mary e as considerava tão suas filhas quanto Jan, sua filha
legítima, que vivia fora do estado.
— Foi uma sorte Ethan estar em casa — disse-lhe Coreen, enquanto Mary, a
melhor amiga de Arabella na escola, se sentava perto e ouvia a conversa com os olhos
castanhos cintilando. — Ele tem ficado fora a maior parte do tempo, desde que obteve o
divórcio, principalmente em viagens de negócios. Anda mal-humorado, taciturno e
agitado. Achei estranho ele ter enviado Matt dessa última vez.
— Talvez esteja tentando recuperar o tempo perdido, agora que está livre — disse
Arabella, sem alterar a voz. — Afinal, era muito honrado para fazer algo indecente,

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

enquanto estava tecnicamente casado.


— Ao contrário de Miriam, que dormia com qualquer coisa que vestisse calças,
poucas semanas após o casamento — disse Coreen, sem rodeios. — Só Deus sabe por
que não queria desgrudar dele, quando todo mundo sabia que nunca o amou.
— Porque no Texas os homens não são obrigados a pagar uma pensão alimentícia
às ex-esposas. — Mary sorriu. — Talvez tenha sido por isso.
— Eu lhe ofereci uma soma em dinheiro — disse Coreen, surpreendendo as outras
duas mulheres. — Ela recusou. Mas ouvi dizer que ela conheceu alguém no Caribe, e há
rumores de que pode se casar com o novo namorado. É mais do que provável que tenha
sido esse o motivo que a fez concordar com o divórcio.
— Então, por que ela quer voltar? — perguntou Arabella.
— Talvez para causar mais problemas a Ethan, enquanto puder — disse Coreen,
com a voz sombria. — Ela costumava dizer coisas ao meu filho que me cortavam o
coração. Ele resistiu, Deus sabe. Mas mesmo um homem forte pode acabar ferido, ao ser
submetido ao ridículo e humilhações incessantes. Minha querida, Miriam seduziu um
homem em um jantar de negócios que Ethan ofereceu em nossa casa. Ele a flagrou na
própria biblioteca.
Arabella fechou os olhos e gemeu.
— Deve ter sido terrível para ele.
— Mais terrível do que pode imaginar — respondeu Coreen. — Ele nunca a amou
de verdade, e Miriam sabia disso. Ela o queria aos seus pés, mas não conseguiu. Suas
aventuras extraconjugais só serviram para aumentar a repugnância que Ethan sentia por
ela. Certa vez, ele me disse que a achava repulsiva e, com certeza, não escondeu isso
dela, também. Foi quando Miriam começou a tentar criar o maior número de escândalos
possíveis, com o objetivo de constrangê-lo. E, por fim, obteve êxito. Ethan é um homem
muito convencional. Não suportou o fato de a esposa não pensar duas vezes antes de
seduzir seu parceiro comercial. Coreen realmente estremeceu. — O ego de um homem é
o seu ponto mais sensível. Ela sabia disso e usou-o com um efeito mortal. Ethan sempre
foi um homem calmo e introvertido, mas me irrita ver como esse casamento o modificou.
— Nunca foi muito fácil se aproximar dele — disse Arabella, em voz baixa. —
Agora, então, deve estar muito pior, imagino.
— Talvez você possa mudar isso — disse Coreen, sorrindo. — Sempre foi capaz
de fazê-lo sorrir quando ninguém mais conseguia. Ele estava feliz naquele verão quatro
anos atrás, como jamais esteve antes ou depois.
— Verdade? — Arabella sorriu dolorosamente. — Nós tivemos uma terrível
discussão sobre Miriam. Não acredito que ele tenha me perdoado pelas coisas que disse.
— A raiva pode camuflar muitas emoções, Bella — disse Coreen, com a voz
serena. — As coisas nem sempre são o que parecem.
— Não, não são — concordou Mary. — Quando éramos crianças, Matt e eu nos
odiávamos e acabamos nos casando.
— Duvido que Ethan volte a se casar com alguém — comentou Arabella, olhando
para Coreen. — Uma queimadura grave deixa cicatrizes.
— Sim — disse Coreen pesarosa. — A propósito, querida — continuou, mudando
de assunto —, estamos felizes porque você ficará conosco, enquanto se recupera. Mary e
eu vamos adorar a sua companhia.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Depois que as duas mulheres se foram, Arabella pensou durante vários minutos no
que Coreen dissera. Não conseguia imaginar um homem tão másculo quanto Ethan
sendo ferido por uma mulher, mas talvez Miriam tivesse algum tipo de poder sobre ele
que ninguém sabia. Provavelmente, sua sensualidade, pensou infeliz, porque todos que
os viam juntos percebiam a enorme atração física que ele sentia pela mulher. Miriam era
cosmopolita e sofisticada. Era compreensível que Ethan tivesse caído vítima de seus
encantos. Fora muito inocente pensando que poderia disputá-lo com ela.
Nesse momento, a enfermeira entrou, com um enorme buquê de flores. Os olhos
de Arabella brilharam com lágrimas diante de tanta beleza. Não havia nenhum cartão,
mas ela sabia que, pelo tamanho e extravagância, só podiam ser de Coreen. Teria que se
lembrar de agradecer-lhe no dia seguinte.
A noite foi longa, e ela não dormiu bem. Seus sonhos foram conturbados, repletos
de Ethan e sofrimento. Estava olhando para o teto depois de um dos mais potentes
pesadelos, e sua mente voltou àquele dia de verão, com o som de abelhas zumbindo em
torno das flores silvestres que circundavam o local, onde o riacho se alargava, formando
uma laguna de águas calmas e profundas. Certa tarde do mês de julho, ela e Ethan foram
até lá para nadar.
Ainda podia ver as borboletas e ouvir os grilos que povoavam aquela região
afastada. Tinham ido até lá na picape, porque a distância era longa e cansativa para uma
caminhada sob o calor do verão devastador do sul do Texas. Ethan usava um calção
branco que deixava boa parte do seu corpo sensual e vigoroso à mostra. Os ombros eram
largos, o tórax afilava em direção aos quadris estreitos, e as pernas eram longas e
musculosas. Estava profundamente bronzeado, e seu peito exibia uma trilha de pelos
ondulados e escuros. Vê-lo só de short nunca a afetara muito, até aquele dia. E então o
simples fato de olhar para ele a fez corar e pular na água.
Estava usando um simples e recatado maiô amarelo. Não dispunha de algo mais
sofisticado. O trabalho do pai não era bem remunerado, e era obrigada a trabalhar meio
expediente para ajudar a pagar as mensalidades no conservatório de música em Nova
York. Sentia-se nas nuvens com a promessa de se tornar uma grande pianista, e as
coisas pareciam ir bem para ela. Fora ao rancho passar a tarde com Jan, mas a amiga e
o namorado tinham ido a um churrasco, por isso Ethan se ofereceu para levá-la ao riacho
nadar.
O convite a deixou chocada e lisonjeada ao mesmo tempo, porque Ethan tinha
mais de 25 anos, e Arabella sabia que ele não se interessava por adolescentes. Mostrava-
se distante e inacessível a maior parte do tempo, mas, nas semanas que antecederam o
dia em que foram nadar juntos, sempre dava um jeito de estar por perto quando ela ia
visitar a irmã dele. Seus olhos a seguiam com uma intensidade que a perturbava e a
excitava. Era apaixonada por ele havia tanto tempo! E então, naquele dia, todos os seus
sonhos se tornaram realidade, quando ele emitiu o convite informal para irem nadar no
riacho.
Certa vez, ele a salvara de um pretendente demasiado impetuoso e outra vez a
acompanhara a uma festa na escola, juntamente com Jan, Matt e Mary. Para a surpresa
de todos, ficara lá tempo suficiente para dançarem uma música romântica juntos. Jan e
Mary caçoaram dela sobre o episódio, sem dó nem piedade. Aquela dança dera início às
fantasias. Depois disso, ela o via a distância e o venerava.
Uma vez na água, como num passe de mágica a atmosfera mudou. Arabella não
compreendia aquele brilho sedutor nos olhos dele e corava, delicadamente, a cada vez
que ele olhava em sua direção.
— Você gosta do conservatório de música? — perguntara Ethan ao se sentarem

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

sobre a grama, às margens do riacho, enquanto fumava um cigarro.


Ela se esforçou para desviar os olhos daquele peito largo.
— Gosto. Mas sinto muita falta de casa. — Seus dedos brincavam com uma folha
de grama. — E como estão as coisas por aqui? Acho que você e Matt andam muito
ocupados.
— Nem tanto — retrucou enigmático. Naquele momento, virou a cabeça e seus
olhos cinzentos encontraram os dela. — Você não tem escrito. Jan fica preocupada.
— Não tive tempo. Tinha tanta coisa em que pensar.
— Rapazes? — perguntou ele, com os olhos cintilando ao erguer o cigarro dos
lábios.
— Não! — Ela virou o rosto, evitando seu olhar malicioso. — Quero dizer, não tive
tempo para isso.
— Já é alguma coisa. — Ele apagou o cigarro na grama. — Estamos com
visitantes. Uma equipe de filmagem veio fazer um comercial, usando o rancho como pano
de fundo. As modelos ficaram fascinadas pelo gado. Sabe que uma delas me perguntou
se eu realmente bombeava a cauda da vaca para obter leite?
Arabella riu alegremente.
— E o que você respondeu?
— Que ela era bem-vinda para tentar, se quisesse.
— Ethan, você é incorrigível! — Seu rosto se iluminou ao fitá-lo. Então, de repente,
o sorriso desvaneceu e era como se ela conseguisse enxergar o fundo da alma dele.
Estremeceu com a reação febril de seu corpo, ante aquele olhar tão íntimo. Ethan se
ergueu de súbito e caminhou em sua direção com um passo lento, gracioso, quase
sorrateiro.
— Tentando me seduzir, Bella? — zombou baixinho, consciente do modo como os
olhos dela lhe percorriam o corpo.
Arabella corou.
— Claro que não! — deixou escapar. — Eu estava, apenas olhando.
— Você me olha o tempo todo. — Sem mais palavras, ele se agachou e puxou-a
pelos quadris de modo a envolvê-la entre suas coxas fortes. Fitou-a por alguns instantes,
então baixou o olhar até os seios dela, permanecendo lá por tanto tempo que ela
começou a senti-los intumescidos. Abaixou a cabeça e reparou que seus mamilos
despontavam sob o tecido molhado. Com a respiração presa na garganta, ergueu as
mãos para cobri-los, mas os dedos férreos de Ethan seguraram-lhe os pulsos,
empurrando-a suavemente, até deitá-la sobre a grama. Agora os quadris estreitos se
encontravam diretamente sobre os seus, fazendo-a sentir os contornos do corpo dele
começarem a mudar.
Encarou-o, chocada.
— Ethan, o que você... — começou, com a voz rouca.
— Não mova os quadris — murmurou ele, a voz soando profunda e suave,
enquanto abaixava o peito e o esfregava devagar contra os mamilos túrgidos de Arabella.
— Entrelace seus dedos aos meus — sussurrou, e prosseguiu com aquela ardente
fricção. Ele se inclinou para a frente, e poucos centímetros separavam seus rostos. No
instante seguinte, prendeu-lhe o lábio inferior com os dentes, puxando-o, provocando-o,

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

enquanto a língua penetrava a suavidade úmida da sua boca.


Arabella deixou escapar um longo gemido, chocada pela intimidade daquele
contato.
— Sim. — disse ele, erguendo o rosto o suficiente para fitá-la nos olhos e capturá-
los no brilho dos seus. — Você e eu. Nunca considerou essa possibilidade, enquanto era
jogada de um pretendente para outro pelas incessantes tentativas casamenteiras de Jan,
alguns meses atrás?
— Não — confessou hesitante. — Pensei que você não se interessasse por
garotas da minha idade.
— As virgens têm um atrativo todo especial — respondeu ele. — Você ainda é
virgem, não é?
— Sim — ela conseguiu responder, pensando na sua incapacidade de proferir
qualquer coisa além de monossílabos, enquanto o corpo de Ethan a deixava alucinada.
— Fique tranquila, vou parar antes que as coisas saiam de controle — disse ele,
em um tom calmo. — Mas vamos desfrutar um do outro por um longo, longo tempo, até
chegarmos a esse ponto. Abra a sua boca quando eu a beijar, garotinha. Deixe-me sentir
sua língua tocando a minha.
Arabella gemeu mais uma vez, permitindo que a língua dele penetrasse e
explorasse as profundezas da sua boca macia. A intimidade do beijo a fez arquear o
corpo. Instigado pelo movimento, Ethan deixou escapar um gemido rouco e afundou os
quadris completamente sobre os dela.
Ao senti-la estremecer, subjugou-a com doces palavras e leves carícias de suas
mãos fortes. Por baixo, a grama macia parecia uma excitante almofada, enquanto
Arabella fitava os olhos serenos de Ethan.
— Está com medo? — perguntou ele gentilmente. — Sei que pode sentir o quanto
estou excitado, mas não vou machucá-la. Apenas relaxe. Podemos continuar deitados
como estamos. Não vou perder o controle, mesmo que você permita o que vou fazer
agora.
— O que... você vai fazer? — indagou Arabella, sentindo a sensibilidade de seus
lábios enquanto falava.
— Isto. — Apoiando-se sobre um dos cotovelos, Ethan correu os dedos,
acariciando-lhe o rosto, o pescoço, os ombros, seguindo uma linha imaginária até chegar
à curva dos seios. Com um movimento lento e provocante, traçou círculos em torno dos
seus mamilos, porém sem nunca tocá-los diretamente. Arabella não podia impedir sua
reação à sensação de intimidade que aqueles dedos esguios provocavam em seu corpo,
até então intocado. Estremeceu de puro prazer, e os olhos cinzentos sobre ela fitavam-na,
extasiados.
— Eu sei o que você quer. — sussurrou ele. E, sem deixar de fitá-la, começou a
provocar-lhe o mamilo com um leve e repetitivo roçar, que a fez arquear o torso mais uma
vez. — Já fez isso com um homem?
— Nunca — confessou ela, apertando-lhe os braços musculosos com os dedos
trêmulos.
A expressão de Ethan enrijeceu diante daquela admissão. Afastou-se alguns
centímetros, com os olhos faiscando de desejo.
— Abaixe o maiô até os quadris — disse, com a voz excitada.

20
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Não posso. — Suspirou, ruborizada.


— Quero olhar para você enquanto a toco. Quero que sinta a sensação de se
deitar de encontro ao corpo de um homem, sem nenhum tecido para embotar sua
sensibilidade.
— Mas eu nunca... — protestou ela, em um fio de voz.
— Bella, existe outro homem que você queira que seja o primeiro a fazer isto? — A
pergunta soou suave e solene.
Isso colocou tudo em perspectiva.
— Não — afirmou ela, por fim — Eu não deixaria que ninguém me olhasse. Só
você.
O peito de Ethan arfava pesadamente.
— Só eu — murmurou. — Então faça o que eu pedi.
Arabella obedeceu, surpresa com o próprio abandono. A seguir, colocou os dedos
sob as alças do maiô e deslizou-as pelos braços, até afrouxar o tecido na altura dos seios.
Os olhos dele acompanhavam o progresso do traje de banho e, quando a viu nua da
cintura para cima, permaneceu imóvel, apenas observando, maravilhado, o
intumescimento delicado daqueles mamilos, sorvendo sua beleza.
Ela soltou um gemido abafado e os olhos de Ethan procuraram os dela, enquanto
ambos compartilhavam o impacto do primeiro momento de intimidade entre eles.
— Nunca imaginei que minha primeira vez seria com você — sussurrou Arabella,
com a voz trêmula.
— Nem eu tampouco — retrucou ele, acariciando-lhe os contornos dos seios. Lenta
e deliberadamente, moveu os quadris, fazendo-a sentir seu desejo pulsante. Com as
palmas das mãos, afagou-lhe os seios e cobriu-lhe a boca com um beijo.
Arabella gemeu. Seu corpo parecia estar vivo. Ela o queria, precisava dele e não
conseguiu evitar que seus quadris se erguessem, buscando um contato mais íntimo.
Ethan também gemeu e encaixou uma perna longa e musculosa entre as dela,
proporcionando-lhe o contato que ela desejava. Mas não era o suficiente. O fogo da
paixão queimava-a por inteiro. De repente, ela percebeu que o havia enlaçado e o estava
puxando para si. As mãos de Ethan acariciavam-lhe as costas. Os pelos ásperos do seu
peito roçavam-lhe os seios sensíveis, enquanto os quadris poderosos pressionavam-na
ritmicamente para baixo em um contato enlouquecedor que a fez gritar.
Foi o grito que o deteve. Ethan pôs fim ao beijo e se inclinou para trás, devagar.
Arabella se deu conta do esforço que aquilo lhe custou e ele a fitou com olhos
assustados, ofegante, mal conseguindo respirar. Com um ruidoso gemido, se afastou e se
ergueu, para mergulhar de cabeça nas águas frias do riacho, deixando-a na grama,
chocada e com o traje de banho abaixado ao redor dos quadris.
Quando, por fim, conseguiu puxar o maiô para se cobrir, Ethan estava saindo da
água para se avultar sobre ela. Apesar de estar em total desvantagem, permitiu que ele a
erguesse.
Segurando-lhe as mãos, ele as levou à boca e beijou-lhe as palmas com ternura.
— Invejo o homem que a possuirá, Bella — disse, com a voz solene. — Você é
muito especial.
— Por que fez isso? — perguntou hesitante.

21
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Ele desviou o olhar.


— Talvez só para sentir o seu gosto — disse ele com um sorriso cínico, antes de se
afastar para pegar uma toalha. — Eu nunca tive uma virgem.
— Oh!
Ethan a fitou de soslaio enquanto ela recolhia os pertences, calçava os sapatos e
se dirigia à picape.
— Não levou a sério o que aconteceu, espero? — perguntou ele, ao abrir a porta
do carro.
Sim, ela havia levado a sério, mas o olhar no rosto dele a advertia para não
confessar. Arabella clareou a garganta.
— Não, não levei a sério.
— Fico feliz. Não me importaria de ensinar-lhe mais algumas coisinhas, mas amo
muito a minha liberdade.
Aquilo a magoou profundamente. E talvez fosse essa a intenção de Ethan. Estivera
muito perto de perder o controle, e isso não lhe agradou. Sua raiva estava estampada na
face.
— Não lhe pedi para me ensinar nada.
Um riso irônico brotou nos lábios dele.
— Não? Tive a impressão de que só faltava colocar um cartaz. Ou talvez eu saiba
interpretá-la muito bem. Você me deseja, querida, e fiquei feliz em satisfazê-la. Mas só até
certo ponto. Virgens são emocionantes para beijar, mas prefiro uma mulher experiente
comigo na cama.
Arabella ergueu a mão e desferiu-lhe um tapa na cara. Não era algo que pretendia
fazer, mas a observação fora demasiado cruel. Ele não tentou revidar. Ficou calado e
continuou a fitá-la com aquele sorriso frio, arrogante e zombeteiro, de quem sabia que
conseguira o que queria e nada mais importava. Então, conduziu-a para o interior do
veículo e a levou para casa.
Na semana seguinte, começou a ser visto em toda parte em companhia de Miriam,
e Arabella ouviu a modelo contar a uma colega sobre os planos que tinha para Ethan.
Apesar do clima tenso entre os dois, procurou-o de imediato para lhe contar o que ouvira
a mulher dizer, antes que fosse tarde demais.
Mas ele riu e acusou-a de estar com ciúmes. Depois a expulsou da sua vida com
palavras ásperas.
Quatro anos se passaram, e ela ainda podia ouvi-las em sua mente.
Fechou os olhos e desejou saber se as lembranças de Ethan eram tão amargas e
dolorosas quanto as suas. Duvidava. Por certo, Miriam o deixara com recordações de
alguns momentos felizes.
Por fim, exaurida e com as feridas reabertas, adormeceu.

Capítulo Três

22
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

A casa que Ethan e a família chamavam de lar era uma enorme construção de dois
andares, estilo vitoriano. Construída em meio às colinas do sul do Texas, cercada por
belas pastagens verdejantes, que se estendiam até onde a vista alcançava, era o próprio
cenário de um filme de faroeste. Exceto que o gado cercado em seus pastos era muito
real e as cercas rústicas e resistentes não exibiam propositalmente uma imagem perfeita.
Jacobsville se encontrava a poucos quilômetros de Houston, e Victoria ficava ainda mais
perto. Possuía a atmosfera de uma cidade pequena que Arabella sempre amara. Nascera
e vivera ali a maior parte da sua vida e conhecia quase todos os seus habitantes. Como,
por exemplo, os irmãos Ballenger, que dirigiam o maior comércio de gado de corte do
território, e os Jacob, Tyler e Shelby Jacob Ballenger, cujos antepassados deram nome à
cidade.
A elegante mansão, com suas sólidas paredes brancas, sua torre e seus
ornamentos de treliça, era bonita o suficiente para ser destaque em revistas de estilo de
vida, de vez em quando. Em seu interior havia algumas antiguidades inglesas de valor
inestimável, porque o primeiro Hardeman viera de Londres. Os Hardeman eram colonos
ricos. Sua fortuna era oriunda de um barão do gado que enriquecera no final do século
XIX, durante uma tempestade de neve que dizimara metade das fazendas de gado no
oeste. Na verdade, no início, o nome de família era Hartmond, mas, devido à falta de
cultura de seus antepassados, o nome fora escrito errado em vários documentos até se
tornar Hardeman.
Ethan se parecia demais com o barão, cujo retrato enfeitava a sala, sobre a cornija
da lareira. Provavelmente, também tinha a mesma personalidade, pensou Arabella,
estudando-o, após terminar o café da manhã que ele lhe servira no quarto de hóspedes.
O homem na tela exibia uma aparência ameaçadora, com um ar frio e formal, que
mantinha a maioria das pessoas a distância.
— Obrigada por me deixar vir para cá.
Ethan deu de ombros.
— Temos acomodações de sobra. — Ele olhou ao redor do cômodo com teto alto
para o qual ela fora trazida. — Este quarto foi de minha avó. Lembra-se de minha mãe
falando sobre isso? Ela viveu até os 80 anos e era uma espécie de furacão. Pelo que sei,
era uma mulher muito bela e sedutora nos anos 1920, e sua mãe, minha bisavó, era uma
sufragista. Uma das moças que usavam calça comprida e faziam campanha pelo direito
de voto feminino.
— Que interessante. — Arabella sorriu.
— Ela teria gostado de você — disse Ethan, fitando-a. — Era uma mulher de
coragem Igual a você.
Ela tomou um gole de café.
— Eu tenho coragem? Permiti que meu pai me dominasse durante a vida toda e
acho que continuaria permitindo se não fosse o acidente. — Olhou para o gesso em seu
pulso e suspirou, enquanto segurava a xícara de café com a outra mão. — Ethan, o que
vou fazer? Não tenho um emprego, e papai sempre administrou as finanças.
— Não é hora de começar a se preocupar com o futuro — respondeu, com firmeza.
— Concentre-se em ficar boa.

23
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Mas...
— Cuidarei de tudo. Inclusive do seu pai.
Arabella pousou a caneca de café e recostou-se aos travesseiros. O pulso ainda
doía, e precisava ingerir vários analgésicos com regularidade. Sentia-se um pouco fora de
foco, e era tão bom simplesmente estar ali e permitir que Ethan tomasse todas as
decisões.
— Obrigada. — Um sorriso iluminou-lhe o rosto.
Ethan não retribuiu o sorriso. Percorreu-lhe o rosto, em uma exploração que a
deixou com os nervos formigando.
— Há quanto tempo não desfruta de um verdadeiro descanso? — perguntou ele,
após um minuto.
Arabella se remexeu incomodamente sobre os travesseiros.
— Não sei. Parece uma eternidade — respondeu, com um suspiro. Nunca tinha
tempo para nada. — Os músculos do seu estômago se contraíram ao recordar a pressão
constante, a prática que nunca parava, os aviões, os quartos de hotel, as salas de
concerto, os estúdios de gravação e os auditórios repletos de gente. Sentiu o corpo
enrijecer com o estresse, ao lembrar como precisava se esforçar mais e mais para subir
no palco e não ficar nervosa diante da visão de todas aquelas pessoas.
— Acho que sentirá falta do glamour — murmurou ele.
— Talvez — respondeu distraída e fechou os olhos, o que a impediu de ver a
expressão estranha que cruzou o rosto moreno de Ethan.
— É melhor dormir um pouco. Venho vê-la mais tarde.
O colchão se elevou quando ele se ergueu e saiu do quarto. Arabella sequer abriu
os olhos. Estava segura ali. A salvo do espectro de um fracasso, longe do pai, das suas
caras de desaprovação e olhares exigentes. Desejou saber se algum dia ele a perdoaria
por ter fracassado e decidiu que não. Lágrimas deslizaram por suas bochechas. Se ao
menos o pai a amasse, apenas um pouco, pelo que ela era e não por seu talento. Mas
tinha a impressão de que ele nunca amara.

Coreen ficou ao seu lado a maior parte do dia. A mãe de Ethan era um terror
quando estava chateada, mas todos a amavam. Era a primeira pessoa a aparecer à porta
quando alguém se encontrava doente ou precisando de ajuda e a última a sair. Doava
generosamente seu tempo e dinheiro, e nenhum dos filhos tinha uma palavra de
desaprovação para dizer sobre ela, mesmo depois de adultos. Bem, exceto Ethan, e, por
vezes, Arabella pensava que ele fazia aquilo só por diversão, porque adorava ver a mãe
atirar coisas quando se irritava.
Certa vez, durante a adolescência, testemunhara o resultado de uma luta
memorável entre mãe e filho, quando fora, junto com Mary, visitar Jan e Matt. Os quatro
jogavam Banco Imobiliário no chão da sala quando Ethan e a mãe entraram na cozinha
com as vozes alteradas. Infelizmente para Ethan, sua mãe estava preparando um bolo
quando ele a provocou. Coreen atirou um saco de farinha de 5kg inteiro sobre o filho mais
velho, seguido de um frasco de cobertura de chocolate aberto. Arabella, Mary, Jan e Matt
viram Ethan passar recoberto de farinha branca e cobertura de chocolate, desde o chapéu
Stetson às botas de trabalho, deixando um rastro de sujeira no piso de madeira, enquanto
caminhava em direção à escada.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Arabella e os outros jovens o fitaram boquiabertos, mas um olhar frio lançado em


sua direção os impediu de abrir a boca para fazer qualquer comentário. Escondida atrás
do sofá, ela deu uma gargalhada silenciosa, enquanto os outros lutavam bravamente para
manter os rostos sérios. Ethan não dissera uma palavra, mas Coreen continuou a lançar
insultos irritados junto à porta da cozinha. Bastante tempo após esse episódio, Arabella
ainda o chamava de fantasma de chocolate. Mas não na frente dele.
Coreen media pouco mais de 1,60m, e seu cabelo escuro, agora grisalho, fora
herdado por todos os filhos. Mas apenas Ethan possuía o mesmo tom cinza dos seus
olhos. Jan e Matt tinham olhos azul-escuros, como os do pai.
— Lembra aquele dia em que você jogou um saco de farinha em Ethan? —
perguntou Arabella, pensando em voz alta, enquanto observava os dedos ágeis de
Coreen trabalhando com uma agulha de tricô em um xale vermelho e preto.
Coreen ergueu o olhar, o rosto rechonchudo brilhando.
— Oh, sim, lembro — respondeu, com um suspiro. — Ele se recusou a vender o
baio castrado que você sempre gostou de montar. Um dos meus melhores amigos queria
comprá-lo, e eu sabia que você estaria fora, na escola de música em Nova York. Além do
mais, o animal não era um cavalo de trabalho. — Ela riu.
— Ethan não concordou e, em seguida, me deu aquele sorriso. Você conhece,
aquele sorriso prepotente, quando ele sabe que venceu e a desafia a fazer algo a
respeito. Lembro-me de ter olhado para o saco de farinha aberto. — Ela clareou a
garganta e voltou a trabalhar no xale. — A próxima coisa que me recordo é de Ethan
caminhando pelo salão, deixando um rastro de farinha e cobertura de chocolate em sua
esteira. E eu tive que limpar tudo. — Ela sacudiu a cabeça. — Atualmente, não jogo mais
essas coisas. Apenas papéis ou cestas, nada que dê muito trabalho para limpar.
Arabella sorriu para o rosto gentil, desejando no fundo do seu coração ter tido uma
mãe como Coreen. Sua própria mãe fora uma mulher tranquila e gentil de quem ela mal
se lembrava. Morrera em um acidente, deixando-a com 6 anos. Não se lembrava de ouvir
o pai falar sobre isso, mas sabia que ele se tornara um homem diferente depois do
funeral.
As lembranças fizeram-na contorcer os dedos no acolchoado azul da coberta. O
pai descobrira por acaso que ela possuía um talento inato para tocar piano e não queria
que o desperdiçasse. Isso se tornou uma obsessão. Pedira demissão do cargo de
atendente em um escritório de advocacia e se transformou no empresário da filha.
— Não se torture, querida — aconselhou Coreen suavemente, quando viu a
angústia crescente no lindo rosto de Arabella. — A vida é mais fácil quando você esquece
o que passou e segue em frente sem medo de enfrentar o que está por vir. Não procure
os problemas.
Arabella estremeceu ao mover o pulso engessado, porque a fratura ainda era muito
recente. Haviam removido os pontos que uniam o corte cirúrgico antes de colocarem o
gesso, mas ainda se sentia como se seu braço tivesse passado em um moedor de carne.
— Estou tentando — disse à mãe de Ethan. — Pensei que meu pai fosse me ligar.
Pelo menos no dia em que recebi alta. Mesmo que fosse só para saber se eu teria uma
chance de retomar minha carreira.
— Cinismo é uma característica do meu filho Ethan. Mas não combina com você.
— Coreen a fitou por sobre as lentes dos pequenos óculos de leitura que usava para o
trabalho de perto. — Betty Ann está fazendo uma torta de cereja para a sobremesa.
— Hummm... é a minha favorita — gemeu Arabella.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Sim, eu sei, Ethan nos disse. Ele está tentando engordá-la.


Arabella franziu o cenho para a mulher mais velha.
— Miriam está mesmo querendo voltar para ele?
Com um suspiro resignado, Coreen colocou o xale e a agulha sobre os joelhos.
— Receio que sim. É a última coisa no mundo de que ele precisaria, depois de todo
o mal que ela lhe causou.
— Talvez ela ainda o ame — sugeriu Arabella.
Coreen inclinou a cabeça.
— Sabe o que eu acho? Que ela ficou grávida do último amante e ele a
abandonou. Agora vai tentar seduzir Ethan na cama e convencê-lo de que o filho é dele,
para que ele a aceite de volta.
— Você tem uma veia artística para escrever romances — disse Arabella. — Isso
daria uma ótima trama.
Coreen torceu o nariz em uma careta.
— Não ria. Tenho certeza de que ela seria capaz de tal coisa. Miriam não é mais
tão bonita quanto antes. Toda aquela vida desregrada que levava lhe deixou marcas no
rosto e no corpo. Uma das minhas amigas a encontrou em um cruzeiro recentemente, e
ela a bombardeou com perguntas sobre Ethan, querendo saber se ele casou de novo ou
se estava namorando alguém
— Ele quer que eu finja que temos um romance para manter Miriam afastada.
— É isso que ele lhe disse? — Coreen sorriu. — Creio que é uma boa desculpa.
— O que quer dizer? — perguntou curiosa.
A mulher sacudiu a cabeça.
— Peça a Ethan para lhe explicar. Você concordou com a ideia dele?
— É o mínimo que posso fazer para ajudá-lo, afinal ele foi tão gentil em me trazer
para cá, mexendo com a vida da família toda por minha causa. Sinto-me uma intrusa.
— Que bobagem! — disse Coreen. — Todos nós gostamos de tê-la aqui e nenhum
de nós quer que Miriam volte. Finja um envolvimento com Ethan. Isso vai deixá-la verde
de inveja e afastá-la de vez.
— Será que ela vai ficar aqui? — perguntou Arabella preocupada.
— Só por cima do meu cadáver — disse Ethan junto à porta, olhando para
Arabella.
— Olá, querido. Andou rolando na lama com os cavalos de novo? — perguntou
Coreen, em um tom agradável.
De fato, Ethan estava imundo, Arabella teve que admitir. Usava roupas de trabalho,
camisa de cambraia, jeans com uma proteção de couro por cima, um par de botas velhas
que nenhum caubói que se prezasse teria tocado com uma vara e um chapéu que parecia
ter sido pisoteado várias vezes por um cavalo. A pele morena exibia uma fina camada de
poeira, e uma das mãos, que não parecia muito mais limpa, segurava as luvas de
trabalho.
— Estava ajudando a vacinar os bezerros — respondeu. — Estamos em março,
lembra? A marcação do gado está em pleno andamento, e temos algumas reses prenhes.
Pode adivinhar quem vai ficar vigiando as futuras mamães esta semana?

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Matt? — Coreen gemeu. — Não faça isso ou ele irá embora de casa!
— É o que ele já devia ter feito — disse Ethan, imperturbável. — Ele e Mary não
podem xingar um ao outro sem uma plateia os assistindo. Isso vai acabar afetando o
casamento deles mais cedo ou mais tarde.
— Eu sei — concordou Coreen infeliz.
— Fiz o possível para convencê-lo de que é capaz de viver por conta própria. O
dinheiro que Bob lhe deixou dá para ele construir uma casa e mobiliá-la.
— Somos tolerantes demais com Matl — observou Ethan. — Precisamos começar
a ignorá-lo e colocar sal em seu café.
— Experimente colocar sal no meu café que encho a caneca e atiro.
— Vá em frente — disse Ethan quando a mãe hesitou, os olhos cinzentos
cintilando. — Diga. Não vai me deixar envergonhado.
— Oh, eu acredito — murmurou Coreen. — Você é muito meu filho para ficar
envergonhado.
Arabella olhou de um para o outro.
— Vocês dois são muito parecidos. Seus olhos são quase exatamente do mesmo
tom
— Ele é mais alto — Coreen comentou.
— Muito mais alto — concordou Ethan, com um sorriso maroto nos lábios.
A mãe o encarou.
— Veio até aqui por alguma razão particular ou simplesmente para me provocar?
— Vim perguntar a essa mocinha se ela quer um gato.
Arabella o fitou boquiaberta.
— Um o quê?
— Um gato — repetiu ele. — Bill Daniels está aí fora com uma gata e quatro
gatinhos. Vai levá-los ao veterinário para que sejam sacrificados.
— Sim, claro — disse Arabella, sem pensar. — Quero os cinco. — Ela mordeu o
lábio inferior. — Deus sabe o que o meu pai dirá quando descobrir. Ele odeia gatos.
— E por que não pensar no que você quer, em vez de se preocupar sempre com a
vontade do seu pai? — Ethan perguntou, em um tom seco. — Algum dia conseguiu agir
por conta própria?
— Uma vez, ele me deixou tomar sorvete de chocolate, quando havia me dito para
tomar de baunilha.
— Não tem graça — disse Ethan sombrio.
— Sinto muito. — Ela se inclinou para trás contra os travesseiros. — Acho que
nunca tentei enfrentá-lo para valer. — E era verdade. Mesmo que tentasse se rebelar vez
ou outra, o antigo domínio do pai a impedia de impor sua vontade. Incrível, quando não
pensava duas vezes antes de enfrentar Ethan.
— Pois está na hora de começar a fazê-lo. Vou dizer a Bill que ficaremos com os
gatos. — Ele se afastou do batente da porta. — Tenho que voltar ao trabalho.
— Sujo dessa maneira? — perguntou Coreen. — Vai assustar os empregados. Não
vão querer admitir que trabalham para alguém tão imundo quanto você.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Meus homens estão ainda mais sujos que eu — respondeu ele, com certo
orgulho. — Está com inveja porque você está limpa?
Coreen moveu a mão em direção à cesta de lixo, mas Ethan limitou-se a sorrir e
saiu do quarto.
— Você não teria jogado em cima dele, teria? — perguntou Arabella.
— Por que não? Não se deve deixar os homens obterem vantagem, Bella.
Especialmente Ethan — acrescentou, fitando-a, pensativa. — Você já aprendeu isso,
suponho. Ele é um homem bom, um homem forte. Mas essa é mais uma razão para
enfrentá-lo. Esse cabeça-dura acha que é o dono da verdade e quer tudo do jeito dele,
não cede uma polegada.
— Talvez tenha sido um dos motivos que fizeram seu casamento com Miriam não
dar certo.
— Isso e a sem-vergonhice dela. Não se satisfazia com um homem só —
respondeu Coreen.
— Não posso imaginar uma mulher traindo Ethan com outro homem — disse
Arabella. — Ele é tão maravilhoso.
— Também acho, mas sou suspeita para falar. — Coreen pegou o xale e a agulha
de tricô outra vez. — Você sente alguma coisa por ele, Bella?
— Sou muito grata por tudo que ele fez por mim — disse evasiva. — Ethan sempre
foi como um irmão mais velho.
— Não precisa fingir. — A voz da mulher soou suave. — Sou uma pessoa
perceptiva, mesmo sem querer. — A mulher baixou os olhos para o tricô. — Ele cometeu
o maior erro da vida dele deixando você escapar. Sinto muito que não tenha dado certo
entre vocês dois.
Arabella estudou a colcha sob suas mãos nervosas.
— Acho que foi melhor assim — respondeu. — Tenho uma carreira para a qual
espero voltar. Ethan... bem, talvez ele e Miriam consigam se acertar.
— Deus me livre! — murmurou Coreen. — A vida continua. Mas estou contente
pelo meu filho tê-la trazido para cá, Bella. Ele é um homem muito sério, às vezes assume
responsabilidade demais. Mas muda completamente quando está com você. Fico feliz ao
ver o quanto ele pode ser diferente quando está ao seu lado. Você sempre consegue
fazê-lo sorrir.
Arabella continuou pensando naquelas palavras muito tempo depois de Coreen ter
descido para ajudar Betty Ann na cozinha. Era verdade. Ethan sorria mais com ela do que
com outras pessoas. Sempre fora assim. Já havia reparado nisso, mas ficou surpresa ao
saber que a mãe dele também reparara.

Durante dois dias, Arabella permaneceu confinada à cama contra a vontade. Eram
“ordens médicas”, lhe diziam. Afinal, ela sofrera uma concussão e um grave ferimento na
mão. Porém, no terceiro dia, o sol apareceu e a temperatura estava anormalmente
elevada naquela tarde de início de março. Ainda um pouco vacilante, desceu a escada
sozinha e sentou-se no balanço da varanda.
Coreen havia saído para uma reunião com o grupo de senhoras da cidade e Mary
fora fazer compras, por isso não havia ninguém para lhe dizer que não podia ir até lá fora.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Naquela manhã, Mary a ajudara a se vestir. Ela optara por uma saia jeans abotoada na
frente e uma blusa de moletom azul de mangas compridas. O cabelo foi penteado para
trás e preso com uma fita de veludo azul. Parecia elegante mesmo com aquele traje
casual, e o toque de maquiagem que aplicara a fazia parecer mais viva. Não que tivesse
alguém por perto para admirá-la.
E foi aí que ela se enganou. A picape de Ethan estacionou no pátio e ele saltou,
estacando nos degraus ao vê-la sentada no balanço.
— Quem lhe deu ordem para sair da cama? — exigiu.
— Estou cansada de ficar deitada — respondeu. As batidas do seu coração
aceleraram no momento em que viu a figura máscula, usando um jeans desbotado, uma
camisa de cambraia e botas enlameadas, caminhando em sua direção. — O dia está lindo
— acrescentou, esperançosa.
— É. — Ele acendeu um cigarro e se encostou a uma das colunas, fintando-a com
um olhar penetrante. — Falei com seu tio esta manhã.
— Verdade? — Ela o olhou de modo curioso.
— Seu pai deixou Dallas e foi para Nova York esta manhã. — Os olhos cinzentos
se estreitaram — Você sabe por quê?
Arabella fez uma careta.
— Talvez retirar dinheiro no banco, eu acho. Se é que há algum na conta.
— Há — afirmou ele, com certo prazer.
— Mas ele não poderá sacar nada. Falei com meu advogado e ele conseguiu uma
liminar. O banco tem ordens para não liberar um centavo ao seu pai.
— Ethan!
— Era isso ou ele continuaria a manipulá-la como um fantoche — retrucou
calmamente. — Quando estiver recuperada, pode fazer o que achar melhor. Agora, está
aqui para se restabelecer e não vai ser lesada por esse mercenário.
— Quanto eu tenho? — perguntou, temendo a resposta, porque seu pai desfrutava
de um estilo de vida luxuoso.
— Uns 25 mil dólares. Não é uma fortuna, mas dará para mantê-la se o investir
corretamente.
Arabella olhou para aqueles braços musculosos, lembrando-se da força deles.
— Não pensei no futuro. Permiti que meu pai colocasse o dinheiro em uma conta
conjunta, porque ele disse que era melhor assim. Acho que devo minha vida a você, não
é? — acrescentou, com um sorriso.
— Você está fazendo por onde.
— É... ajudando-o a se livrar de Miriam
— Teremos que dar um jeito em você, primeiro. — Ele estudou-a por um longo
minuto. — Lavou o cabelo.
— Na verdade, foi Mary. Pedi para ela me ajudar esta manhã — ela murmurou,
segurando o braço com o gesso e, em seguida, fazendo uma careta devido à pontada de
dor que o movimento lhe causou. — Não consigo nem fechar o suti... — O restante da
palavra morreu em sua garganta.
Os olhos de Ethan se estreitaram.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Vergonha de falar sobre roupas íntimas comigo? — perguntou. — Sei o que as


mulheres usam sob a roupa. — De repente, ele pareceu distante e frio. — Sei muito bem.
— Miriam o feriu muito, não é, Ethan? — perguntou Arabella, evitando encará-lo. —
Suponho que a vinda dela aqui reabra todas as velhas feridas. — Em seguida, olhou para
cima, captando a amargura em sua fisionomia antes que ele pudesse disfarçá-la.
Ethan suspirou e levou o cigarro aos lábios com um movimento rude dos dedos.
Olhou para fora, para o horizonte, com expressão vazia.
— Sim, ela me feriu. Mas foi meu orgulho, não o meu coração, que levou uma
surra. Quando a expulsei, jurei que jamais me deixaria iludir por outra mulher. Desde
então, tem sido assim.
Aquilo era uma advertência? Ethan devia saber que ela não teria coragem de tentar
se envolver com ele novamente. Não depois do modo como a tratara anos atrás para ficar
com Miriam.
— Bem, não olhe para mim — disse ela, com um sorriso forçado. —
Definitivamente, não sou uma Mata Hari.
A tensão diminuiu. Ethan apagou o cigarro em um cinzeiro próximo.
— Mesmo assim, garotinha, não consigo vê-la se deitando com alguém por aí.
Nem antes, nem depois do casamento.
— Costumo frequentar a igreja — disse sucinta.
— Eu também vou à igreja.
Ela apertou as mãos no colo.
— Li sobre a pesquisa que realizaram. Dizia que apenas 4 por cento das pessoas
no país não acreditam em Deus.
— Os 4 por cento que produzem filmes e programas de televisão, sem dúvida —
murmurou ele, seco.
Arabella soltou uma gargalhada.
— Isso foi cruel — disse ela. — Eles não são ateus, apenas têm medo de ofender
alguém. Religião e política são assuntos perigosos.
— Nunca me preocupei se ofendo as pessoas — Ethan respondeu. — Na verdade,
acho que tenho um talento especial para isso.
Arabella sorriu. Ele a fazia se sentir viva e livre, como se pudesse fazer qualquer
coisa. Seus olhos verdes brilharam ao encontrar os dele, e a mesma energia daquele dia
de verão, quatro anos atrás, se irradiou entre eles. O olhar fora traduzido em realidade
física, na ocasião, mas agora só a deixava triste por algo que ela nunca mais voltaria a
ter. Mesmo assim, Ethan não desviou o olhar. Talvez não fosse capaz, pensou aturdida,
sentindo o coração estremecê-la com suas batidas aceleradas e o corpo inteiro formigar
com a doce lembrança do prazer.
Ethan murmurou algo rude e se virou de repente.
— Tenho que ir até o curral. Se precisar de alguma coisa, grite. Betty Ann está na
cozinha.
Ele partiu sem olhar para trás.
Arabella o observou se afastar com o desejo estampado no rosto. Parecia que não
conseguia respirar sem irritá-lo. E, mesmo que ele sentisse algo por ela, não baixaria a
guarda novamente. Deixara aquilo bem claro. Miriam realmente havia despedaçado o seu

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

orgulho.
Recostou-se e começou a balançar.
Estranho que ele não tivesse encontrado alguém para substituir Miriam assim que
o casamento acabou. Podia ter optado por ficar sozinho, não importava a fortuna por trás
do seu nome. Mas sempre fora um solitário, pelo que Mary lhe dissera. Com certeza,
Miriam não podia tê-lo machucado tanto assim, a menos que ainda estivesse apaixonado
por ela.
Arabella suspirou. Estava assustada. Sentia-se vulnerável com Ethan por perto e
sozinho. Ironicamente, a chegada de Miriam poderia ser sua única esperança de evitar
que ele partisse seu coração outra vez.

Capítulo Quatro

Arabella jantou com a família pela primeira vez naquela noite e Matt anunciou que
ele e Mary estavam de viagem marcada para as Bahamas, a fim de desfrutar umas
merecidas férias.
— Férias? — perguntou Ethan incrédulo. — O que é isso?
Matt sorriu. Parecia-se muito com o irmão, só que seus olhos eram profundamente
azuis e os de Ethan, cinzentos. Também era um pouco mais baixo, menos vigoroso, mas
um grande trabalhador, apesar de sua natureza tranquila.
— Um período de férias é uma coisa que não tive desde que me casei. Vou viajar e
Mary vai comigo.
— Estamos em março — observou Ethan. — Temos reses que não demorarão
muito a parir e marcação do gado se aproximando.
— Nós sequer tivemos uma lua de mel — argumentou Matt, com um olhar
eloquente.
Ethan e Coreen trocaram olhares.
— Está bem Vá em frente — disse-lhe Ethan, em um tom seco. — Vou contratar
mão de obra extra e tocar o rancho sem você.
— Obrigada — agradeceu Mary, dirigindo o olhar ao marido com um sorriso de
puro prazer nos lábios.
— Em que lugar das Bahamas pretendem ficar? — perguntou Ethan.
Matt sorriu.
— Isso é segredo. Se você não souber onde estou, não pode me contatar.
Ethan o encarou.
— Tentei fazer a mesma coisa quatro anos atrás, mas você conseguiu me
encontrar.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Isso foi diferente — disse Matt. — Uma nota promissória venceu no banco, e
eles não me permitiram renová-la.
— Desculpas, desculpas. — Ethan respondeu.
— Você bem que podia procurar uma casa para morar depois que voltar da viagem
— murmurou Coreen.
Matt sacudiu o dedo em uma negativa.
— Nada disso.
— Foi apenas um pensamento — retrucou a mulher.
— Se eu sair daqui, quem vai protegê-la do seu filho mais velho? — Matt
perguntou, com uma nota de presunção na voz.
Arabella olhou para Ethan, que parecia mais acessível naquela noite do que
quando ela chegara em casa do hospital. Sentindo-se um pouco mais à vontade, ergueu a
mão e disse:
— Eu me candidato.
Os olhos cinzentos fitaram-na com um misto de prazer e surpresa, enquanto lhe
estudavam o rosto.
— Sou mais forte que você, docinho — retrucou Ethan, com um sorriso nos lábios.
Aquele sorriso a fez recordar as palavras de Coreen, sobre a facilidade de Ethan
em sorrir quando ela estava por perto. A constatação atingiu-a em cheio, e ela torceu o
nariz para ele.
— Vou recrutar ajuda. Pelo menos um dos caubóis estava se oferecendo para
pulverizar você com malation no final desta tarde. Eu ouvi.
— Um dos meus empregados estava se oferecendo para me pulverizar com
inseticida? Qual deles? — perguntou, com um olhar que significava problemas para o
homem.
— Não vou dizer. Ele pode ser útil mais tarde — Arabella respondeu.
— Estamos nos sentindo melhor, não é? — murmurou Ethan, erguendo uma
sobrancelha. — Cuidado. Vamos ter problemas.
— Engraçado, pensei que eu fosse apenas uma pessoa.
Ethan se sentiu alegre, e isso o perturbou. Preocupado, desviou o olhar do rosto
suave de Arabella e fitou o irmão.
— Por que não quer ter sua própria casa?
— Porque não tenho recursos para isso.
— Deixe de conversa fiada. Você tem uma excelente reputação e poderia obter
crédito.
— Não gosto da ideia de contrair uma dívida muito alta.
Ethan se recostou à cadeira e riu.
— Você não sabe o que é dívida, até pegar 90 mil dólares no banco para comprar
uma ceifadeira.
— E, se acha que é um valor alto para uma máquina de colheita, basta considerar
o custo total dos tratores, enfardadeiras de feno e reboque de gado — Coreen
acrescentou.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Eu sei, eu sei. — Matt admitiu. — Mas vocês estão acostumados a isso. Eu não.
Mary se candidatou a uma vaga na nova fábrica têxtil que acabou de abrir. Estão
precisando de uma secretária. Se ela for chamada, poderemos dar esse passo. Mas
primeiro queremos tirar umas férias. Certo, querida?
— Certo — concordou Mary ansiosa.
— Façam o que acharem melhor — disse Ethan. Após terminar o café, afastou a
cadeira e se ergueu. — Tenho que dar alguns telefonemas. — De modo involuntário, seus
olhos foram atraídos para Arabella. Ela olhou para cima a tempo de se deparar com
aquele olhar penetrante e um longo e estático momento se passou, durante o qual a
mandíbula de Ethan se retesou e o rosto dela corou.
Arabella conseguiu desviar o olhar primeiro, envergonhada apesar de Coreen e os
outros estarem envolvidos em uma conversa e não terem notado.
Ethan parou ao lado da cadeira dela e passou a mão pelo cabelo escuro. Então
deixou a sala, antes que ela pudesse concluir se aquele olhar fora acidental ou
deliberado. De qualquer maneira, seu coração foi à loucura.
Passou boa parte da noite ouvindo Matt e Mary falarem sobre os planos da viagem,
e, quando ficou tarde, foi a primeira a subir. Estava colocando o pé no primeiro degrau da
escada, quando Ethan saiu da biblioteca e uniu-se a eles.
— Espere, vou levá-la para cima. — Curvando-se, ergueu-a do chão gentilmente,
tomando cuidado com a mão engessada de Arabella.
— Não são as minhas pernas que estão com problemas — ela gaguejou.
Ignorando o protesto, Ethan prosseguiu, carregando-a sem o menor esforço
enquanto subiam.
— Não quero que você abuse.
Arabella permaneceu em silêncio, e ele desfrutou a deliciosa sensação de tê-la nos
braços. Embora tivesse tentado arduamente durante todos aqueles anos, jamais
conseguira esquecer o momento em que a tivera de encontro ao peito, às margens do
riacho. Sabia que ela podia subir a escada sozinha. Mas precisava carregá-la, para sentir
aquele corpo feminino, trazer de volta as lembranças agridoces de um tempo em que
quase fizeram amor. O episódio o assombrava desde então, em especial agora que ela
estava ali, em sua casa. Nos últimos dias, mal conseguia dormir e, quando pegava no
sono, ela povoava todos os seus sonhos. Mas ela não sabia disso, e ele não lhe contaria.
Era cedo demais.
Arabella ouviu o ruído da própria respiração sendo expelida ante o tom preocupado
daquela voz profunda. Não conseguia pensar em nada para dizer. Hesitante, rodeou-lhe o
pescoço com os braços e encostou o rosto em seu ombro. Ethan prendeu o ar nos
pulmões e seus passos hesitaram por um instante, como se o movimento suave o tivesse
assustado e perturbado.
— Desculpe — sussurrou ela.
Ele não respondeu. Sentiu algo quando ela se moveu daquela forma. Algo que não
sentia havia muito tempo. Apertou-a com os braços, enquanto saboreava o peso quente
do seu corpo e o leve aroma floral que o longo cabelo castanho exalava.
— Você perdeu peso — disse, quando alcançou o último degrau.
— Eu sei. — Seus seios subiam e desciam, proporcionando um contato excitante
com o peito dele. — Não está feliz? Quero dizer, se eu pesasse o dobro do que estou
pesando, você podia cair da escada, e nós dois acabaríamos com os pescoços

33
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

quebrados.
Um leve sorriso brotou nos lábios dele.
— É uma maneira de encarar as coisas. — Mudou-a de posição ao chegarem ao
quarto e entrarem — Segure firme, enquanto fecho a porta.
Arabella obedeceu, um pouco trêmula ante tamanha proximidade. Ethan sentiu
aquele tremor traidor e estacou, erguendo a cabeça para fitar seus olhos verdes, grandes
e brilhantes, com uma intensidade de parar o coração.
— Você gosta de ficar perto de mim, não é? — perguntou, seus sentidos agitados
com uma sensualidade que não sentia havia anos.
Arabella corou. Abaixou o olhar e enrijeceu em seus braços, procurando algo para
dizer.
Era surpreendente, mas seu embaraço intensificou o excitamento que ele estava
sentindo. Era como voltar à vida depois de estar morto. Seu corpo ondulava de desejo, e
se sentiu homem pela primeira vez em quatro anos. Chutou a porta para fechá-la e levou-
a para a cama. Deitou-a sobre o colchão com extremo cuidado e permaneceu curvado
sobre ela, os olhos fixos no movimento suave dos seus seios. Então, mais uma vez,
procurou-lhe o olhar, alimentando o coração com o desejo que encontrou no rosto de
Arabella.
Assim como ele, ela também não havia esquecido, pensou. Por um minuto de
insanidade, sentiu-se tentado a cobri-la com o corpo e beijá-la até fazê-la ofegar. Mas se
afastou da cama, antes de sucumbir à tentação. Arabella podia desejá-lo, mas era virgem,
e isso era motivo suficiente para pôr um freio entre ambos. Ainda estava ressentida com o
que acontecera no passado, e o que ele estava sentindo podia ser passageiro. Precisava
estar convicto de seus sentimentos. Tirando um cigarro do bolso, acendeu-o com o
isqueiro.
— Pensei que tivesse parado de fumar — comentou Arabella, sentando-se. Sentia-
se desconfortável com o silêncio e o súbito distanciamento de Ethan. Por que ele
zombara dela com aquela observação íntima e, em seguida, a fitava como se ela o
tivesse incitado a fazê-lo? Sombras do passado, pensou.
— Eu havia parado. Voltei a fumar quando soube que você se arrebentou toda
nesse acidente — respondeu, com um olhar frio.
— Sei. E também por causa de um pneu da caminhonete que furou. — Ela
começou a contar os motivos nos dedos da mão. — Da bebedeira dos homens na noite
anterior ao ajuntamento do gado. Depois, houve o dia em que seu cavalo ficou coxo. e
outra vez, quando o cavalo o mordeu.
— Não preciso de desculpas para fumar — lembrou ele. — Sempre fumei e sabe
disso. — Os olhos dele se estreitaram enquanto lhe estudavam o rosto. — Estava
fumando naquele dia junto ao riacho, e você não reclamou do gosto quando a beijei.
Arabella sentiu uma tristeza que por certo se refletiu em seus olhos.
— Eu tinha apenas 18 anos. Só havia beijado alguns meninos, mas você era mais
velho e mais experiente. — Ela baixou o olhar. — Estava tentando tão desesperadamente
me comportar como uma mulher sofisticada, mas, no momento em que você me tocou,
desmoronei. — Exalou um profundo suspiro. — Parece que isso foi há cem anos. Acho
que você estava certo, eu me atirei em seus braços. Estava obcecada por você.
Ethan se esforçou para não se aproximar, tomá-la nos braços e beijá-la com
sofreguidão. Como ela podia se sentir culpada, quando ele fora o único errado naquela

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

história? Ele a magoara. Ferira o seu orgulho, assim como Miriam havia ferido o dele, e
acabara expulsando-a da sua vida. Talvez o pai não a tivesse manipulado daquela forma
se ele tivesse mandado Miriam ir para o inferno e pedido Arabella em casamento.
— Que teias emaranhadas tecemos de vez em quando — disse ele, com a voz
calma. — Mesmo quando não estamos tentando enganar as pessoas.
— Você não pôde evitar se apaixonar por Miriam — ela respondeu.
O rosto de Ethan congelou. Incrível como a simples menção do nome da ex-mulher
o atingia tão completamente. Ele levou o cigarro à boca, e sua expressão estava rígida ao
olhar para Arabella.
— Percebe como fica irritado quando alguém menciona o nome dela, Ethan?
— Eu sei. — A voz era seca.
— Se não quer falar sobre isso, tudo bem, não vou insistir. Posso imaginar que ela
deu um golpe terrível no seu orgulho. Mas, às vezes, tudo que precisa fazer é reparar o
dano e recuperar sua autoestima.
Os olhos cinzentos perfuravam os dela, e o olhar que trocaram era ainda mais
elétrico e íntimo do que quando subiram a escada.
— Está se oferecendo para devolver minha autoestima?
Anos pareceram se passar enquanto Arabella tentava decidir se ele estava falando
sério. Não podia ser, decidiu por fim. Ethan deixara bem claro, quatro anos atrás, como se
sentia.
Ela estremeceu.
— Não, não estou oferecendo nada, exceto me esforçar para fazer uma boa
interpretação quando Miriam chegar aqui. Devo-lhe muito por se oferecer para cuidar de
mim enquanto me recupero.
Os olhos dele faiscaram.
— Não me deve nada.
— Então, farei isso em nome dos velhos tempos — retrucou, com orgulho gelado.
— Você foi como um irmão mais velho que eu nunca tive. Quero retribuir o que fez por
mim no passado.
Ethan sentiu como se ela o tivesse esbofeteado. A única coisa que lhe devolvera a
autoconfiança fora o jeito como ela reagira em seus braços. Soltou uma baforada de
fumaça, encarando-a com total absorção.
— Seja qual for o motivo, você o fará. Vejo-a amanhã pela manhã. — Dando meia-
volta, começou a caminhar em direção à porta.
— Bem, o que queria que eu dissesse? — explodiu ela. — Que faria qualquer coisa
que me pedisse? Está procurando milagres?
Ethan parou com a mão na maçaneta da porta e olhou para trás.
— Não, não estou à procura de milagres. — Ele a encarou. Em algum lugar em seu
interior, se sentia morto. — Coloquei a gata e os gatinhos no celeiro — disse, após um
minuto. — Se quiser vê-los, eu a levarei lá amanhã.
Arabella hesitou. Uma bandeira da paz. E, se queriam convencer Miriam, não
poderiam fazê-lo em um estado de guerra. Remexeu-se inquieta na cama.
— Sim, eu gostaria muito. Obrigada.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— De nada — retrucou ele em espanhol, um hábito que adquirira por causa dos
vaqueiros mexicanos que trabalhavam no rancho, que não dominavam muito bem o
idioma estrangeiro. Ethan falava três ou quatro línguas fluentemente, o que muitas vezes
surpreendia os visitantes, que achavam que seu sotaque texano indicava falta de cultura.
Arabella o observou sair com pura exasperação. Ele conseguia deixá-la tão
confusa e chateada que ela não sabia se estava indo ou vindo.

Matt e Mary partiram na manhã seguinte. Arabella despediu-se da melhor amiga


com um abraço, pensando que se sentiria um pouco perdida sem ela na casa. O novo
comportamento de Ethan e o espectro da chegada de Miriam pareciam difíceis, para dizer
o mínimo.
— Não fique tão preocupada — disse Mary, com seu jeito gentil. — Ethan e Coreen
vão cuidar bem de você. E Miriam não se hospedará aqui. Ethan não permitiria.
— Espero que esteja certa. Tenho a sensação de que Miriam é capaz de me
esfolar viva só com palavras.
— Não duvido — respondeu Mary, fazendo uma careta. — Certo, ela pode ser
desagradável. Mas acho que você é capaz de enfrentá-la. Costumava ser eloquente
quando perdia a paciência. Até Ethan a escutava. — Ela riu.
— Eu não costumava perder a paciência por qualquer coisa, exceto com Ethan —
Arabella respondeu. — Deseje-me sorte.
— Claro, mas não vai precisar dela, tenho certeza — disse Mary.
Ethan levou o irmão e a cunhada ao aeroporto de Houston para que os dois não
precisassem fazer escala até lá. Mas voltou antes do que ela imaginava e não esquecera
a ida até o celeiro para lhe mostrar os gatinhos.
— Vamos lá, se ainda estiver interessada. — Ele a puxou pela mão sã, sem exibir
um traço de emoção em seu rosto.
— Não deveríamos dizer à sua mãe para onde estamos indo? — protestou ela.
— Não digo à minha mãe para onde estou indo desde os 18 anos. Não preciso da
permissão dela para circular pela propriedade.
— Não falei nesse sentido.
De nada adiantou. Ele a ignorou. Ainda estava usando o que chamava de roupas
da cidade, calça preta, uma camisa azul-clara e um casaco esportivo.
— Você vai se sujar — observou Arabella, quando entraram no enorme celeiro.
Ele a encarou.
— Como?
Arabella poderia ter feito uma piada sobre aquilo com alguém menos intimidante,
mas não com Ethan. Era um homem inacessível e a teria feito em pedaços.
— Não importa. — Ela caminhou na frente dele, usando um jeans e um pulôver
amarelo-claro que também não exibiam o menor sinal de sujeira.
Andou pelo corredor na direção que ele gesticulou, sentindo sua presença com
medo e prazer. Era decepcionante pensar daquela maneira, mas, se sua mão não tivesse
se ferido no acidente, jamais poderia ter visto Ethan novamente.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Sua mão. Ela olhou para baixo, vendo a incapacidade realçada pelo gesso. Notas
musicais encheram sua mente. Podia ouvir chaves, sentir a melodia, os acordes menores,
as subdominantes...
Fechou os olhos e ouviu a Sonatina de Clementi, os três movimentos de uma das
primeiras peças que ela dominou quando começara como aluna intermediária. Sorriu
quando a melodia foi substituída em seus pensamentos pela requintada Suíte Inglesa de
Bach e depois Finlândia de Grieg.
— Eu disse, aqui estão os gatinhos. Onde está com a cabeça? — Ethan perguntou,
em voz baixa.
Arabella abriu os olhos e percebeu que seus dedos jamais poderiam sentir aquelas
notas novamente, tocar uma melodia como antes. Mesmo as músicas populares estariam
além da sua capacidade. Não teria como se sustentar. E por certo não podia esperar que
seu pai o fizesse, não quando sequer lhe dera um telefonema ou fora até ali para vê-la.
Pelo menos Ethan conseguira salvar o que lhe restara na conta. Mas o dinheiro não
duraria muito tempo, se seu pai não tivesse pagado as dívidas.
Havia pânico em seus olhos, em seu rosto pálido.
Ethan notou. Cutucou-lhe o nariz com suavidade, o antagonismo desaparecendo
totalmente ao ver sua expressão aflita. Precisava parar de atormentá-la. Arabella não
tinha culpa se Miriam ferira o seu ego.
— Pare de tentar viver a sua vida de uma só vez. Não há motivo para ter medo.
Seus olhares se encontraram
— Isso é o que você pensa.
— Não se preocupe com o futuro. — Ele se ajoelhou. — O presente é o que
interessa. — Fez um gesto para que ela se ajoelhasse ao seu lado e todas as
preocupações de Arabella desapareceram na magia dos quatro gatinhos brancos recém-
nascidos. A mãe também era branca, com pelo curto e profundos olhos azuis.
— Nossa, nunca vi um gato assim! — exclamou ela. — Um gato branco com olhos
azuis!
— São muito raros, eu disse. Bill os encontrou no celeiro e não é muito amante de
gatos.
— E eles seriam todos sacrificados. — Ela gemeu. — Vou alugar um apartamento
só para mim, se meu pai me causar problemas — disse ela com firmeza, e sorriu para a
mamãe gata. Em seguida, olhou demoradamente para os gatinhos.
— Será que ela me deixa segurar um?
— Claro. Pegue. — Ele ergueu um pequeno gatinho branco e colocou-o
delicadamente na mão de Arabella, que o aninhou de encontro ao corpo para ter certeza
de que não o deixaria cair. Com o rosto, ela afagou a minúscula cabeça, perdendo-se no
milagre da nova vida.
Ethan a fitou, seus olhos indulgentes e sem zombaria.
— Adora essas coisas pequeninas, não é?
— Sempre adorei. — Ela devolveu o gatinho com óbvia relutância, aproveitando a
oportunidade para acariciá-lo mais uma vez. — Sempre pensei que um dia me casaria e
teria filhos, mas sempre aparecia mais um concerto, mais uma gravação. — Sorriu,
melancólica. — Meu pai parecia determinado a não me deixar ter um relacionamento
sério.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Ele não podia arriscar perdê-la. — Ethan colocou o gatinho de volta junto à mãe,
acariciando a cabeça da gata com cuidado, antes de se levantar e puxar Arabella com ele.
Sem dizer nada, afagou-lhe o longo cabelo castanho. Em seguida, no silêncio do celeiro,
que só era quebrado por um movimento ocasional ou o som dos cavalos nas
proximidades, envolveu-lhe o rosto entre as mãos. — Eu costumava levá-la para cavalgar.
Lembra?
— Sim. Nunca mais montei um cavalo. Ethan, você não deixou sua mãe vender o
cavalo porque eu costumava montá-lo? — perguntou, as palavras de Coreen vindo-lhe de
imediato à mente.
Ele se remexeu inquieto.
— Tive meus motivos.
— E não vai me dizer quais foram, não é?
— Não. — Ethan fitou-a nos olhos com avidez. De repente, sentiu as batidas do
coração acelerarem e a proximidade começou a afetá-lo, tal como acontecera na noite
anterior. — Faz muito tempo que eu e você não ficamos sozinhos. — A voz soou calma.
Arabella olhou para o peito largo, observando como subia e descia pesadamente.
— Anos — concordou nervosa.
Ethan tocou-lhe o cabelo com delicadeza, segurando uma mecha entre os dedos,
sentindo sua maciez.
— Seu cabelo era mais comprido também — lembrou, fitando-a nos olhos. —
Recordo o modo como se espalharam sobre a grama, quando fizemos amor no velho
riacho.
O coração de Arabella disparou. Era tudo o que podia fazer para manter seu
autocontrole.
— Nós não fizemos amor — sibilou, entre os dentes. — Você me beijou e me
acariciou algumas vezes e depois tratou de me convencer a não levá-lo a sério. Disse que
só queria me ensinar algumas coisas, não foi?
— Você era muito inexperiente no que dizia respeito a homens. Mas sentiu meu
corpo contra o seu. Podia ser muito jovem na ocasião, mas com certeza deve saber agora
o quão perigosa a situação estava ficando quando resolvi me afastar.
— Não faz qualquer diferença agora — retrucou infeliz. — Como eu disse, tratou de
me convencer a não levá-lo a sério. Eu estava apenas exercitando minha estupidez, como
de costume. Agora podemos voltar para casa, por favor?
Ethan deslizou as mãos pelo cabelo dela, obrigando-a a encarar o brilho prateado
do seu olhar.
— Você era uma menina de 18 anos. Dezoito anos, virgem, com um pai que me
odiava e exercia total controle sobre sua vida. Só um idiota insensível a teria seduzido sob
tais circunstâncias!
Arabella o encarou, chocada com a raiva em seus olhos e em sua voz.
— E você não era nenhum idiota — concordou, quase tremendo de medo e mágoa.
— Mas não precisa fingir que se importava com os meus sentimentos, não depois das
coisas que me disse...!
Ethan respirou fundo e segurou-a com mais força.
— Deus do céu, como pode ser tão cega? — Seu olhar recaiu sobre os lábios dela.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Eu a desejava!
Inclinando a cabeça, cobriu-lhe a boca com um beijo suave, em meio a um silêncio
espesso e emoções intensas. Mas, no momento em que seus lábios se tocaram e
Arabella sentiu o calor do seu hálito morno e a pressão das mãos fortes em seu rosto, um
som quebrou o feitiço e o congelou no lugar.
Foi o rugido alto do motor de um carro do lado de fora.
Ethan ergueu a cabeça sobressaltado e a expressão em seus olhos era quase
febril. As mãos trêmulas se afastaram do rosto de Arabella. Ele respirava com dificuldade.
E ela, também Sentia como se suas pernas não pudessem suportá-la.
Os olhos dela o fitaram e ele percebeu neles a pergunta que ela não ousara fazer.
— Estou sozinho há muito tempo — disse Ethan em um tom seco, e deu um sorriso
zombeteiro. — Não é nisso que gostaria de acreditar? — Antes que ela pudesse
responder, virou-lhe as costas e voltou em direção à frente do celeiro. — Estou esperando
um comprador esta manhã. Deve ser ele.
Ethan caminhou pelo longo corredor à sua frente, quase grato pela distração. Havia
perdido a cabeça, inebriado pela promessa luxuriante da boca de Arabella sob a sua. Não
se dera conta do quão vulnerável se tornara desde que ela viera para o rancho. Teria que
ser mais cuidadoso. Não conseguiria nada apressando-a. Deveria estar feliz pelo
comprador os ter interrompido. Mas, quando chegou ao pátio, o visitante não era o
comprador. Era um táxi e, saindo do assento de trás, com batom vermelho nos lábios e
exalando glamour dos pés à cabeça, estava Miriam Hardeman. Se não ia se hospedar ali,
era óbvio que ninguém lhe passara a informação, porque o taxista estava tirando seis
malas do porta-malas do carro.
Ethan começou a suar frio, e seu rosto enrijeceu enquanto Arabella se unia a ele.
Miriam.
A simples visão da ex-mulher foi suficiente para abalar os alicerces de sua
autoconfiança. Esforçou-se para descontrair as feições e não demonstrar emoção alguma
quando se virou em direção a Arabella e lhe estendeu a mão, pedindo em silêncio sua
cooperação, como ela havia prometido.
Ao seu lado, Arabella olhou para a recém-chegada, como se ela fosse uma doença
particularmente cruel. O que, de fato, era uma analogia justa. Permitiu que a mão de
Ethan envolvesse a sua e a apertou com desespero. Estavam juntos nisso, agora, para o
bem ou para o mal.

Capítulo Cinco

Miriam ergueu uma sobrancelha quando Ethan e Arabella se aproximaram.


Encarou Arabella quase incrédula, com os olhos demonstrando uma clara hostilidade ao
ver que os dois estavam de mãos dadas. Por um minuto, pareceu perder um pouco da
autoconfiança. Então forçou um sorriso, porque não havia nenhuma alegria em seus olhos

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

verde-escuros.
— Olá, Ethan — cumprimentou-o, afastando o longo cabelo ruivo para trás com um
gesto nervoso. — Espero que tenha lido o meu telegrama?
Ele a fitou, recusando-se a ser ridicularizado.
— Recebi.
— Pode pagar o táxi? Estou quase falida. Espero que não se importe de me
hospedar aqui, porque gastei até o último centavo nesta roupa e não posso pagar um
hotel.
Ethan não disse uma palavra, mas sua expressão tornou-se ainda mais distante.
Arabella o observou pegar a carteira e pagar ao motorista, depois seus olhos
dispararam para Miriam. A mulher era a imagem da perfeição. Longo cabelo castanho
com reflexos avermelhados, um par de olhos verdes encantadores e um rosto de traços
perfeitos. Mas já começava a exibir os primeiros sinais da idade e parecia ter ganhado
alguns quilos. O que Coreen dissera sobre a gravidez podia fazer sentido. Sim, havia a
possibilidade de Miriam estar grávida. Isso explicava o leve ganho de peso,
principalmente na cintura.
— Olá, Arabella — disse Miriam, enquanto a estudava com um olhar frio. — Já ouvi
o suficiente sobre você ao longo desses anos. Lembro-me de você, é claro. Não passava
de uma criança quando eu e Ethan nos casamos.
— Pois é, eu cresci — respondeu Arabella, em um tom de voz calmo. Então olhou
para Ethan com ternura. — Pelo menos, ele pensa assim.
Miriam riu com altivez.
— É mesmo? — perguntou. — Suponho que uma mulher jovem seria interessante
para ele, já que sua falta de experiência não a deixaria saber o que está perdendo.
Aquilo foi uma provocação inesperada. Arabella não compreendeu nem tampouco
o olhar de Ethan, quando ele voltou e gesticulou para um de seus vaqueiros para levar a
bagagem de Miriam para dentro.
— Diga a ela por que não quer se envolver com mulheres experientes, querido —
murmurou Miriam sarcástica.
Ethan a fitou com aquele ar intimidador que Arabella odiava. Mas ainda parecia
funcionar com Miriam.
— Eu e Arabella temos uma história antiga. Nós nos envolvemos muito antes de
você aparecer por aqui — acrescentou, lançando um olhar firme à ex-mulher.
Os olhos de Miriam flamejaram.
— Sim, lembro-me de sua mãe mencionar alguma coisa sobre isso.
A expressão no rosto da mulher fez Ethan se sentir bem como não acontecia havia
anos. Puxou Arabella para si, fitando-a com um olhar satisfeito, quando ela se recostou
nele e relaxou o corpo.
— Nós não a esperávamos esta semana.
— Pois é, mas acabei de terminar uma temporada de desfiles no Caribe e pensei
em passar por aqui no caminho de volta a Nova York — respondeu Miriam, mexendo com
a bolsa de modo nervoso.
Arabella a observava protegida pelo braço forte de Ethan, que estava quase rígido
ao ser redor. Era evidente que a presença da ex-mulher lhe causava aquele tipo de

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

reação. Não dava para entender. Se ainda a amava, por que não lhe confessava,
simplesmente? Para que fingir, quando era óbvio que Miriam sentira ciúmes ao vê-los
juntos?
— Quanto tempo pretende ficar? — perguntou ele. — Estamos muito ocupados
agora e espero que entenda que Arabella e eu consideramos nosso tempo a sós muito
precioso.
Miriam ergueu uma sobrancelha.
— Que oportuno você aparecer justo agora, Arabella. Pelo que ouvi dizer, dedica-
se à sua carreira há vários anos.
— Bella sofreu um acidente. É natural que eu queira cuidar dela — Ethan
respondeu, com um sorriso frio. — Espero que não se importe de passar as noites
conversando com a minha mãe.
— Eu dou um jeito — disse Miriam, irritada. — Bem, vamos entrar. Estou cansada
e quero uma bebida.
— Não vai beber aqui — afirmou categórico. — Não temos bebida alcoólica em
casa.
— Como não? — Miriam ofegou. — Sempre tivemos nosso bar repleto de bebidas!
— Nós, não. Você — corrigiu ele. — Quando foi embora, joguei todas as garrafas
fora. Eu não bebo.
— Você não faz nada — retrucou Miriam, com uma desagradável inflexão. —
Especialmente na cama — atacou.
O braço de Ethan se fechou com mais força ao redor de Arabella. Agora, ela estava
começando a compreender, ou pelo menos pensava que estava. Olhou para a outra
mulher irritada sentindo o cabelo da nuca eriçado. Ethan não precisava de ninguém para
defendê-lo e provavelmente ficaria furioso se ela ousasse dizer alguma coisa, mas aquilo
já era demais! Miriam o traíra. O que mais ela podia esperar a não ser repulsa da parte
dele? Até mesmo um homem apaixonado teria dificuldade em perdoar tal comportamento.
O próprio Ethan estava mordendo a língua. Sabia como Miriam gostaria de
provocá-lo, de fazê-lo perder a paciência, o que lhe daria a oportunidade de revelar a
Arabella todos os segredos obscuros que havia entre os dois. E ele não queria, não até
ter uma chance de poder lhe contar. Seu orgulho lhe exigia isso.
Mas Arabella não suportou ficar de boca calada. Erguendo o rosto com altivez,
enfrentou a mulher mais velha, sem pestanejar.
— Talvez você tivesse problemas com Ethan na cama — disse, agarrando-se à
mão dele. — Mas nós não temos. — O que era a pura verdade, mas não do jeito que
Miriam imaginava. Ethan sufocou um suspiro chocado. Não esperava que ela sacrificasse
a sua reputação por ele, certamente não com aquela coragem surpreendente.
Miriam tremeu furiosa.
— Como ousa, sua pequena...
A palavra que ela pretendia usar morreu no ar, no momento em que Ethan
interrompeu, com o rosto ferozmente zangado ao perceber que Arabella estava tremendo,
apesar de sua valente reação.
— A estrada fica naquela direção! — indicou. — Vou chamar o táxi para levá-la de
volta. De modo algum permitirei que use seu linguajar baixo com a minha futura esposa!

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Miriam recuou de imediato. Arabella permaneceu estática; estava chocada demais


por ter sido mencionada como futura esposa de Ethan.
— Sinto muito — desculpou-se Miriam.
— Creio que me excedi. — Ela olhou para Ethan nervosa, o que era incomum —
Eu. acho que fiquei chocada ao ver que não sente mais nada por mim
— Estava falando sério — disse ele, com um tom de voz cortante. — Se ficar aqui,
será sob os meus termos. Se a ouvir dirigindo uma única palavra grosseira a Bella, vai
embora. Está claro?
— É melhor que esteja, não é isso que você quer dizer, Ethan? — Miriam forçou
um sorriso. — Tudo bem, serei uma hóspede perfeita. Pensei que íamos conversar sobre
uma possível reconciliação.
— Bella e eu vamos nos casar. Não há espaço na minha vida para você, nem
agora, nem nunca.
Miriam parecia pálida. Endireitou o elegante casaco cinza-claro, e sorriu
novamente.
— Isso é cruel.
— É o único modo de conviver com você — disse Ethan, afastando-se para deixá-
la seguir em direção à casa.
Arabella ainda estava atordoada, embora tivesse a presença de espírito para
desejar saber se a explosão de Miriam não fora motivada pelo medo, em vez de raiva.
Isso suscitou outra pergunta: por que Miriam estava com tanto medo de Ethan se envolver
com outra mulher? Ele voltou a segurar-lhe a mão, sentindo sua frieza macia.
— Está se saindo muito bem — disse-lhe em voz baixa, para que Miriam não o
pudesse ouvir. — Não se preocupe, não vou deixar que ela volte a atacá-la.
— Eu não queria dizer aquilo.
Ele sorriu gentilmente, apesar de suas feições tensas.
— Vou lhe explicar tudo mais tarde.
— Não tem que me explicar nada — disse ela, encarando-o sem pestanejar. —
Não me importo com o que Miriam diz.
Ethan respirou fundo.
— Você é uma caixinha de surpresas.
— Você também. Pensei que fosse usar a ameaça de noivado como último recurso
— ela murmurou.
— Sinto muito. Aquele me pareceu ser o melhor momento. Vamos. Erga seu
queixo.
Arabella conseguiu esboçar um sorriso e, segurando firme na mão dele, seguiu em
direção à casa.
Coreen não deu boas-vindas à recém-chegada, mas era educada demais para
demonstrar seu antagonismo por Miriam abertamente. Camuflou-o por trás de suas
maneiras impecáveis e uma fria cortesia. A única vez que um sorriso lhe tocou os lábios
foi quando Ethan se sentou bem perto de Arabella no sofá e a puxou para si com um
braço possessivo.
Arabella estava emocionada pelo modo como ele a defendera tão ferozmente

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

minutos atrás. Talvez só tivesse agido daquela maneira por não concordar com o linguajar
rude de Miriam, mas era bom pensar que ele se importara o suficiente para saltar em sua
defesa. Aninhandose ao seu peito, no sofá, desfrutou daquela intimidade, adorando seu
cheiro e a sensação de tê-lo tão perto. Esse era um fator positivo na visita de Miriam
Podia saciar seu desejo por Ethan, sem ser descoberta. Que pena que estava apenas
fingindo, para impedir que Miriam percebesse o quão vulnerável ele estava!
Erguendo o olhar, estudou seu rosto magro enquanto ele ouvia com um interesse
friamente educado o monólogo de Miriam sobre suas viagens. Parecia tão tenso, e
Arabella percebeu que o comentário da ex-mulher sobre seu desempenho na cama o
havia ferido. Lembrou o comentário de Coreen de que Ethan achava a esposa repulsiva e
desejou saber se era a isso que Miriam estava se referindo. Era estranho como ele ficara
pálido com a observação. Bem, uma mulher assim podia causar muitos danos até mesmo
a um homem com personalidade forte. Miriam tinha uma língua afiada e nenhuma
tolerância para outras pessoas. Não era o tipo de atitude mais acertada para tentar reatar
um casamento, especialmente quando ela nunca fora fiel ao marido. Amando-a como ele
a amava, isso devia ter lhe partido o coração.
— O que está fazendo aqui, Arabella? — perguntou Miriam, em um tom casual. —
Pensei que vivesse em Nova York.
— Estava fazendo uma turnê. Voltava de um show beneficente, quando sofri um
acidente de carro.
— Ela estava voltando para cá — inseriu Ethan em um tom suave, e lançou um
olhar de advertência a Arabella. — Veio acompanhada do pai. Eu deveria ter ido buscá-la.
Arabella soltou um suspiro silencioso, assustada com a maneira como quase
cometera um deslize.
Miriam dificilmente acreditaria que ela e Ethan estavam envolvidos se soubesse
que ela vivia em Nova York e que eles nunca viam um ao outro.
— Vai ser capaz de voltar a tocar ou sua carreira foi para o brejo? — perguntou,
com uma pontada de divertimento. — Bem, de qualquer maneira, acho que Ethan não ia
querer que você fizesse nada, além de procriar.
— Pelo que me lembro, você foi muito enfática sobre não querer ter filhos. Isso
depois que eu casei com você, é claro — acrescentou conciso.
Miriam se remexeu inquieta.
— É verdade. Existe alguma coisa para se fazer por aqui? Odeio ver televisão —
disse depressa, mudando de assunto.
— Ethan, Arabella e eu gostamos de ver documentários sobre o mundo animal —
informou Coreen. — Na verdade, vai passar um programa fascinante sobre os ursos
polares, esta noite, não é, querido? — perguntou, se dirigindo ao filho.
Ethan trocou um olhar com a mãe.
— Sim. É verdade.
Miriam gemeu.
Aquele foi o dia mais longo que Arabella podia recordar. Conseguiu se esquivar de
Miriam não saindo do lado de Ethan, mesmo quando ele foi conferir a marcação do gado.
Normalmente, fazia o percurso montado no lombo de um cavalo, mas, em deferência ao
seu pulso ferido, optou pela picape do rancho.
— Você está bem? — perguntou ele.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Arabella sorriu.
— Estou bem, obrigada. — Ele havia trocado de roupa. Agora vestia o velho jeans
desbotado, botas e uma camisa xadrez azul. O chapéu de abas largas estava inclinado
em um ângulo garboso sobre a testa. Era a própria imagem do caubói, e Arabella sorriu
com o pensamento.
— Qual é graça? — ele inquiriu, estreitando o olhar.
— Estava pensando no quanto você parece um caubói. Nada mal, para o patrão.
— Não preciso usar ternos na frente dos empregados para obter a atenção deles.
— Eu me lembro. — Ela estremeceu.
— Pare com isso. — Ele tragou o cigarro que trazia entre os dedos. — Você foi
uma surpresa esta manhã — disse, de modo inesperado. — Lidou com Miriam muito bem.
— Esperava que eu rompesse em lágrimas e saísse correndo. Tenho muita prática
com pessoas de temperamento difícil. Eu morava com meu pai, lembra?
— Lembro. Miriam foi quem quase saiu correndo desta vez.
— Você também não ficou atrás. Meu Deus, que mulher venenosa! — disse ela,
com a voz rouca. — Não me lembro de ela ter um gênio tão difícil assim.
— É porque não a conhecia direito. Ou talvez, a conhecesse melhor do que eu —
acrescentou, em voz baixa. — Percebeu quem ela era desde o começo.
Arabella estudou-lhe o perfil por um longo momento, querendo perguntar-lhe algo
mais, mas sem saber como abordá-lo.
Ethan notou sua curiosidade e olhou em sua direção.
— Vá em frente. Pergunte.
— Perguntar o quê?
Um sorriso amargo surgiu em seus lábios, enquanto dirigia ao longo da trilha de
terra cheia de sulcos, que faziam os assentos sacolejarem, a despeito dos excelentes
amortecedores da picape.
— Não quer saber por que ela ficou tão surpresa quando você deu a entender que
éramos amantes?
— Pensei que ela estava apenas sendo sarcástica.
Ethan fez uma curva e seguiu em direção a outra trilha esburacada. De repente,
parou e desligou o motor. As janelas estavam abertas, o que lhes permitia ouvir os sons
dos pássaros e do gado ao longe.
Recostando-se ao banco, ele colocou uma das mãos sobre o volante e segurou o
cigarro com a outra. Então, virou-se para olhar Arabella de frente, seus olhos cinzentos
tocavam-lhe o rosto, enquanto tentava arrumar um modo de lhe contar algo que, na
verdade, não desejava lhe contar. Mas Miriam faria isso na primeira oportunidade e queria
que Arabella soubesse por ele, não por sua hóspede venenosa.
— Miriam arrumou um amante duas semanas após o nosso casamento —
começou, em um tom calmo. — E depois teve inúmeros casos, até eu pedir o divórcio.
Alegava que eu não a satisfazia na cama.
Ethan proferiu as palavras com aspereza e o olhar angustiado, como se fosse uma
reflexão sobre sua masculinidade. Talvez fosse. Arabella lera, certa vez, que o ego de um
homem era a parte mais vulnerável de seu ser.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Ela o fitou calmamente.


— Creio que ninguém conseguia satisfazê-la. Por isso tinha tantos amantes.
Ethan não se dera conta de que estava prendendo o ar, até então. A atitude de
Arabella o fez relaxar um pouco.
— Dizem que tudo é permitido se ambos os parceiros quiserem, mas eu era muito
antiquado, de acordo com Miriam. — Ele tragou o cigarro bem devagar.
— Coreen acha que Miriam está grávida e por isso voltou, para tentar uma
reconciliação. Ela quer levá-lo para a cama e fingir que o filho é seu.
— Já lhe disse desde o início que não tenho intenções de aceitar minha ex-mulher
de volta. Na cama ou fora dela. Ela teria que fingir muito bem para conseguir me enganar
outra vez.
— Ela poderia espalhar por aí que o filho é seu.
Ethan exalou um suspiro.
— Sim, é bem possível. Pode ser o que ela tem em mente.
— O que vamos fazer?
— Vou pensar em algo — disse ele, sem fitá-la. Trancar a porta do quarto poderia
ser a melhor solução, mas Miriam zombaria da sua atitude, pensou amargo.
— Eu poderia ajudá-lo se me disser o que fazer. Tudo o que sei sobre sexo é o que
você me ensinou naquele dia — acrescentou, sem ousar encará-lo.
Ethan a fitou atônito e exalou o ar ruidosamente.
— Meu Deus. Você está brincando!
— Receio que não.
— Com certeza houve outros homens?
— Não da maneira que imagina.
— Você deve ter saído com homens nos últimos quatro anos — insistiu ele. —
Ainda pode ser virgem, mas com certeza adquiriu alguma experiência.
Estava em um beco sem saída agora, pensou Arabella, preocupada. Como lhe
explicar que o simples pensamento de ter as mãos e os olhos de outro homem em seu
corpo lhe causava repulsa? Desesperada, procurou uma maneira de mudar de assunto.
— Responda-me.
Ela o encarou.
— Não.
Ethan começou a rir.
— Foi tão bom comigo que não quis mais ninguém? — perguntou, indolente.
Arabella corou e desviou o olhar. Ele se sentiu nas nuvens.
Estendendo a mão, pegou uma mecha do cabelo dela, saboreando sua textura
sedosa.
— Não sei como consegui me controlar. Você correspondia com tanto ardor.
— Estava apaixonada por você. Queria tão desesperadamente lhe mostrar que
havia amadurecido! — Ela olhou para o peito largo. — E suponho que consegui, mas isso
não ajudou muito. Pelo menos tínhamos uma relação de amizade, antes disso.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Ethan fechou o cinzeiro e endireitou-se novamente para estudá-la com os olhos


semicerrados.
— Acho que tem razão. Se quisermos convencer Miriam, teremos que mostrar
intimidade quando estivermos perto dela — disse ele, de repente mudando de assunto.
Arabella ficou feliz por voltar ao presente. Falar sobre o passado ainda era
desagradável.
— Está querendo dizer que preciso usar vestidos com decotes profundos, rebolar
quando andar, sentar no seu colo e enrolar o cabelo em torno dos meus dedos?
Especialmente, na frente de Miriam?
— Você pegou o espírito da coisa, garotinha.
— Não ficará envergonhado? — perguntou ela, com um leve sorriso nos lábios.
— Bem, contanto que você não tente tirar minhas roupas em público. — Aquele foi
o primeiro traço de humor que ela notou no rosto de Ethan desde a chegada de Miriam —
Não queremos embaraçar minha mãe, não é?
— Terá que se contentar com uma sedução parcial, receio. — Ela suspirou,
indicando-lhe o pulso engessado. — Não consigo nem tirar minha roupa sozinha, quanto
mais a sua.
— Agora fiquei curioso — disse ele, lançando um olhar às alças do sutiã por baixo
da blusa dela. — Como está se virando para se despir?
Arabella ergueu os ombros.
— Consigo tirar quase tudo. Exceto as roupas íntimas.
— Poderia não usá-las durante a estadia de Miriam no rancho — sugeriu Ethan. —
Juro que vou tentar não olhar. Mas isso pode instigar o pensamento dela, se você andar
na minha frente desse jeito.
— Sua mãe vai ter um ataque cardíaco.
— Duvido muito. Ela sempre torceu por você. — Seus olhos escureceram enquanto
procuravam os dela. — Nunca conseguiu entender por que preferi Miriam a você.
— Mas eu entendi — disse ela, com uma risada áspera. — Miriam era tudo que eu
não era. Sofisticada, experiente. — Ela olhou para o colo com amargura. — A única
qualidade que eu possuía era um pouco de talento. E agora nem isso me resta.
— Não diga bobagens — murmurou seco, apertando-lhe a mão. — Não vamos
pensar no futuro. Não vamos pensar em quando lhe retirarem o gesso ou na reação de
seu pai. Vamos nos focar em Miriam e pensar em uma maneira de tirá-la daqui. Essa é a
nossa prioridade. Você está me ajudando e farei o mesmo por você, quando seu pai
aparecer.
— Será que ele vai aparecer, Ethan? — perguntou infeliz.
Os olhos verdes suaves o fitaram com tanta esperança que fizeram uma veia
latejar na base da garganta dele. Ela continuava tão bela e tão timidamente inocente
quanto era quatro anos atrás. Não teria trocado sua ternura pela resplandecente
sofisticação de Miriam, mas na época não lhe restava essa escolha. Arabella estava
apenas desempenhando um papel naquele pacto de mútua ajuda. Não podia esquecer
esse fato. Ela não lhe pertencia. E, com a amargura do passado entre os dois,
provavelmente jamais lhe pertenceria.
— Não importa se ele vai aparecer ou não — respondeu, estudando-lhe os dedos

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

longos e elegantes. — Vou cuidar de você.


Arabella sentiu pequenos arrepios na espinha. Se ao menos ele estivesse falando
sério. Fechou os olhos, inspirando o cheiro de seu perfume, absorvendo o calor daquele
corpo esguio e vigoroso próximo ao seu.
Recebera tão pouco afeto durante toda a sua vida. Sempre se sentira sozinha e
sem amor. Para o pai, só o que importava era o seu talento, não ligava a mínima para a
sua companhia. Nunca fora amada, mas desejava desesperadamente que Ethan a
amasse. Queria que ele lhe dedicasse a mesma afeição que nutria por ele. Mas isso
jamais seria possível. Miriam destruíra todo o amor que havia nele.
— Está tão calada, garotinha. — Com a ponta dos dedos, inclinou-lhe o queixo
para cima e procurou seus olhos tristes.
— Qual é o problema?
A suavidade de sua voz levou lágrimas aos olhos de Arabella. Ela piscou, tentando
retê-las, mas Ethan envolveu-lhe o rosto com ambas as mãos, forçando-a a encará-lo.
— Por quê? — perguntou, em um tom firme.
O lábio inferior de Arabella tremeu e ela o prendeu entre os dentes.
— Não é nada — conseguiu dizer, e fechou os olhos. Era uma irremediável
covarde, pensou. Queria responder-lhe que a causa do seu pranto era porque ele não a
amava, mas não tinha coragem
— Pare de tentar viver toda a sua vida em um dia — disse Ethan bruscamente. —
Isso não vai dar certo.
— Acho que me preocupo demais — confessou ela, limpando uma lágrima que
rolava pelo rosto. — Mas tudo parece ter virado de cabeça para baixo. Eu tinha uma
carreira promissora e um bom apartamento em Nova York. Viajava. Agora parece que
tudo isso faz parte do passado. Meu pai sequer quer falar comigo.
— Ele entrará em contato. Sua mão vai sarar. E no momento você não precisa de
um emprego, já tem um.
— Sim — disse ela, com um frágil sorriso. — Ajudá-lo a permanecer solteiro.
Ethan lançou-lhe um olhar estranho.
— Eu não colocaria as coisas dessa forma — corrigiu-a. — A ideia é fazer com que
Miriam vá embora sem derramamento de sangue.
Ela ergueu a cabeça.
— Ela é muito bonita — comentou, procurando os olhos cinzentos de Ethan. —
Tem certeza de que não a quer de volta? Você a amou no passado.
— Amei uma ilusão — confessou, afastando uma longa mecha do cabelo de
Arabella para trás da orelha. — A beleza exterior não é um indício do que está dentro.
Miriam achava que beleza era suficiente, mas um espírito compreensivo e um coração
caloroso são mais importantes do que um rosto bonito para a maioria das pessoas.
— Mas ela não parece mais tão fria quanto antes.
Ele sorriu e a encarou.
— Está tentando me empurrar para os braços dela?
— Não é isso. — Arabella fitou-lhe os lábios firmes. — Só perguntei se tem certeza
de que quer realmente se livrar dela.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Ethan aninhou-a de encontro ao peito, afagando-lhe o cabelo, enquanto apreciava


a paisagem através da janela.
— Tenho certeza — respondeu. — Para começar, nem posso chamar aquilo de
casamento. — Virando-se, contemplou o rosto suave de Arabella, deleitando-se com sua
beleza delicada e sua força de caráter. — Eu sentia desejo por ela — disse, distraído. —
Mas desejo não é suficiente.
Mas talvez desejo físico fosse tudo que Ethan era capaz de sentir, pensou Arabella,
pesarosa. Também sentira desejo por ela anos atrás, mas não a amava. Disse que não
amava Miriam, mas a pedira em casamento, logo devia ter sentido algo mais por ela.
— Em que está pensando? — perguntou ele, com os lábios pressionados de
encontro à sua testa.
— Nada em particular — confessou. Respirou fundo e sorriu. — Estava apenas.
A boca de Ethan desceu sobre a sua de forma inesperada, impedindo-a de proferir
o restante da frase.
Arabella enrijeceu ao sentir os lábios firmes se apossando dos seus. Todos aqueles
anos sem tocá-la, e era como se nunca tivessem se separado. Ainda trazia viva a
lembrança do cheiro da pele masculina, o modo como ele lhe apartara os lábios a
primeira vez em que a beijara. Lembrava-se do gemido de prazer que ele emitira, quando
lhe emoldurara o rosto com as mãos quentes e da intensidade febril de sua boca que, de
imediato, se tornara mais exigente.
— Beije-me — murmurou ele, o hálito morno provocando-lhe pequenos arrepios
nos lábios úmidos. — Não se reprima.
— Não quero — protestou ela, sem muita convicção.
— Você me quer. Sempre quis, e eu sempre soube disso — disse com a voz rouca.
Seus dedos mergulharam no longo cabelo castanho de Arabella, enredando-se em
sua suavidade, enquanto voltava a lhe pressionar os lábios com um beijo, que passou de
uma posse serena a uma intimidade devastadora.
Arabella ficou tensa e ele hesitou, afastando a boca alguns centímetros.
— Não lute contra isso. — Suas mãos, levemente trêmulas, acariciaram-lhe o
rosto. Estava ardendo, consumido pelo fogo da paixão. O antigo desejo estava de volta,
mais intenso do que nunca. Arabella era sua, mesmo que fosse apenas por alguns
segundos. Desejava-a com desespero. Ela era o amor da sua vida. Miriam e toda a dor
que lhe causara foram esquecidas na louca necessidade de manter aquele corpo macio
em seus braços, voltar a sentir a doçura daqueles lábios nos dele.
— Oh, Deus, deixe-me amá-la. — murmurou.
— Você não me ama. Nunca me amou.
Sem dizer nada, Ethan abafou-lhe as palavras com um beijo, mais uma vez.
Gemendo ruidosamente, acariciou-lhe as costas, puxando-a de forma a estreitar o contato
entre seus corpos. Os seios de Arabella formigavam pressionados de encontro ao seu
peito largo. Ela espalmou as mãos na frente da camisa dele, mas não correspondeu ao
beijo e tampouco o enlaçou pelo pescoço.
Temia que ele estivesse excitado pelo regresso da exmulher e precisasse de uma
válvula de escape. Era... humilhante.
Ethan notou sua falta de reação e ergueu a cabeça. Mal conseguia respirar. O peito
arfava com as batidas aceleradas de seu coração, e a visão do lindo rosto corado de

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Arabella o deixou ainda mais excitado. Ela parecia assustada, embora houvesse algo sob
o medo, um desejo reprimido que se recusava a satisfazer.
E aquela não foi a única coisa que notou. A despeito do estrago que Miriam lhe
causara no ego, descobriu, de repente, que sua masculinidade não fora afetada. Sentira
desejo ao tomar Arabella nos braços, um desejo avassalador, que havia quatro anos não
se julgava capaz de sentir por uma mulher. O impacto da constatação o fez praguejar
baixinho. Tantas oportunidades para aquilo acontecer e, dentre todas as pessoas, tinha
que ser justo com Arabella!

Capítulo Seis

Arabella não conseguia encarar o olhar especulativo de Ethan, e o leve tremor em


seus braços a assustava. Parecia fora de controle e ela conhecia a força daquele corpo.
Tentou relutar, mas ele a abraçou, puxando-a ainda mais para junto de si, o rosto rígido e
moreno se encontrava logo acima do seu.
— Qual é o problema? — perguntou ele, em um tom áspero.
— É a Miriam que você deseja, não a mim — respondeu ela, com os lábios
dormentes. — Está apenas me fazendo de substituta, mais uma vez.
Aquela afirmação deixou Ethan completamente chocado. Seus braços relaxaram.
Arabella aproveitou a chance para se afastar, decidindo que não podia suportar ficar
naquela cabine confinada com ele nem mais um minuto. Abriu a porta e desceu do
veículo. Abraçando o próprio peito, olhou para a linha do horizonte que se descortinava ao
longe, ouvindo o zumbido de insetos no calor do dia.
Ethan também saiu e acendeu um cigarro. Caminhou até ela com uma aparente
casualidade. Tomando-a pela mão, conduziu-a por um extenso arvoredo, que margeava a
trilha que levava ao riacho. De repente, ele estacou e se recostou contra o tronco rugoso
de uma frondosa árvore de algaroba. Arabella se recostou em outra árvore próxima,
contemplando, em silêncio, as borboletas que voavam em torno de um pequeno
aglomerado de flores silvestres.
O silêncio tornou-se irritante. Ethan estreitou o olhar, enquanto lhe estudava o
corpo esbelto.
— Você não estava substituindo Miriam lá no carro.
Com as faces tingidas por um leve rubor, ela evitou encará-lo.
— Não?
Ethan tragou o cigarro e olhou para as águas ondulantes.
— Meu casamento acabou.
— Talvez ela tenha mudado — disse Arabella, esfregando sal nas próprias feridas.
— Pode ser uma segunda chance para você.

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— Miriam é quem está querendo uma segunda chance para me humilhar. — Ele se
virou, os olhos frios fixando-se no rosto dela. — A única coisa que sempre importou para
ela era o tamanho da minha conta bancária.
E essa devia ter sido a parte mais dolorosa, imaginou Arabella. Ethan amara
Miriam e tudo o que ela queria era o dinheiro dele. Esfregou o gesso levemente com o
dedo, traçando padrões nele.
— Sinto muito. Acho que fui rude.
— Ninguém gosta de ser um vale-refeição ambulante — disse sucinto. Terminando
de fumar o cigarro, atirou a guimba no chão. Em seguida, pisou-a com um movimento
vigoroso para apagá-la.
— Então, talvez, ela desista e vá embora.
— Não, se você não me ajudar a passar a impressão de que nosso relacionamento
é verdadeiro — retrucou seco. No instante seguinte, afastou-se da árvore e caminhou em
sua direção com uma intenção sombria nos olhos cinzentos. — Você disse que precisa de
um pouco de cooperação. Tudo bem. Você a terá.
— Não, Ethan. — Ela ofegou. Mesmo sendo inexperiente, não havia dúvida quanto
ao significado oculto naquelas palavras e o brilho perigoso que envolvia o olhar dele. O
mesmo brilho perigoso que vira em seus olhos naquele dia junto ao riacho. — Oh, Ethan,
não! Isso não passa de uma brincadeira para você. É Miriam que você quer. Sempre foi
Miriam, não eu!
No minuto seguinte, ele estava diante dela. Sem dizer nada, espalmou ambas as
mãos no tronco largo da árvore, aprisionando-a entre os braços. Havia determinação em
seu olhar e em sua expressão.
— Não — murmurou, com a voz rouca. Então, procurou-lhe o rosto. O coração
batia descompassado e até mesmo seu corpo, que parecia congelado há quatro longos
anos, pulsava mais vivo que nunca.
— Não — implorou ela, com a respiração presa na garganta. O cheiro e a
proximidade de Ethan deixavam-na trêmula, a um passo de perder o controle. Não queria
ficar vulnerável de novo, não queria ser ferida outra vez. — Por favor, não.
— Olhe para mim.
Ela negou com a cabeça.
— Eu disse, olhe para mim!
O tom autoritário a fez erguer o olhar e encará-lo.
Fitando-a com um olhar firme, Ethan enlaçou-a e puxou-a de encontro ao corpo,
fazendo-a sentir a evidência rígida do desejo que ela havia despertado.
As pupilas de Arabella se dilataram. O ar não lhe chegava aos pulmões. Após
alguns segundos em choque, tentou lutar, mas ele deixou escapar um gemido e fechou os
olhos. Estava trêmulo como se dominado por uma necessidade incontrolável.
Incapaz de reagir, ela permaneceu imóvel, com os lábios entreabertos.
Ethan a contemplou por um longo momento.
— Meu Deus. — sussurrou, quase com reverência. — Faz tanto tempo. — Então
lhe tomou os lábios com um beijo voraz. Era um homem novo, totalmente novo. Mal podia
acreditar no que estava sentindo.
Arabella se deixou levar por aquele mar de sensações. O calor do corpo de Ethan

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

lhe despertava uma ânsia que chegava a doer, mas não podia se dar ao luxo de ceder à
tentação.
— Não vou fazer amor com você — murmurou, sua expressão atormentada pela
lembrança das feridas do passado. — Não vou, não vou!
O coração de Ethan inflou dentro do peito. Então era isso. O medo secreto. Sorriu,
permitindo que seu olhar descesse até os lábios suaves de Arabella, ao perceber o quão
vulnerável ela estava e por quê.
— Vamos deixar as coisas acontecerem devagar. — Ele respirou fundo e inclinou a
cabeça. — Lembra como eu a ensinei a beijar, com dentes, língua e lábios?
Sim, ela lembrava, mas isso não tinha muita importância, porque Ethan já estava
lhe ensinando tudo outra vez. Atordoada, sentiu o toque dos lábios ardentes e
possessivos sobre os seus, o traçado suave da língua dele, como se persuadindo-a a
abrir a boca e admitir a lenta e deliberada exploração.
Um gemido emergiu de sua garganta apertada. Seu corpo enrijeceu sob o dele. Os
dedos da mão machucada começaram a se abrir e fechar, provocando leves arranhões
com as unhas no peito latejante.
— Abra a minha camisa — ordenou ele, de encontro à sua boca.
Arabella hesitou e Ethan a beijou com mais ímpeto.
— Abra — insistiu ele. — Você nunca me tocou dessa forma e quero que o faça
agora.
Mesmo ciente de que era suicídio emocional obedecê-lo, ela sentia os dedos
formigando de vontade de tocar aquela pele morena. Começou a desabotoar-lhe a
camisa, enquanto ele continuava a beijar-lhe os lábios.
Quando, por fim, abriu o último botão, pôde explorar o emaranhado de pelos
escuros sobre o peito dele e encontrar a pele quente e firme por baixo.
Sem pensar, afastou-se para ver onde o estava tocando. Seus olhos verdes
registraram fascinados o contraste entre a cor clara dos seus dedos longos e o tom
bronzeado do tórax de Ethan.
— Beije-me aqui — disse ele, envolvendo-lhe a nuca com uma das mãos e
persuadindo-a a encostar o rosto contra o seu peito.
Arabella inspirou o excitante perfume da colônia masculina enquanto pressionava
os lábios de leve no local indicado.
— Ethan — murmurou, insegura. Aquele era um território estranho e podia sentir
que o corpo dele estava rijo com um desejo tão forte que o fazia tremer.
— Não há nada a temer. Deixe-me erguê-la. Deus, amorzinho! — ele gemeu,
voltando a estremecer. Segurando-a pela cintura, levantou-a e a encostou na árvore, com
cuidado, de modo que a aspereza do tronco não a machucasse. Ela o cingiu pelo
pescoço, ambos tremiam, enquanto a intimidade do contato os mantinha unidos com a
potência de uma corrente elétrica em curto-circuito.
Arabella gemeu com a força do impacto, sentindo as investidas dos quadris dele
contra os seus.
— Quer um contato mais íntimo, não é? Eu sei. Também sinto o mesmo! Afaste as
pernas, meu amor... assim!
Automaticamente, ele insinuou a coxa poderosa entre as de Arabella, intensificando

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a intimidade do abraço.
— Eu a desejo. — Suas mãos seguravam-lhe o quadril, movendo-o devagar de
encontro ao seu, ao mesmo tempo em que lhe sondava a boca com a língua. — Deus,
como a desejo!
Arabella não conseguia proferir uma palavra. Embora estivesse com os olhos
fechados, podia senti-lo. Queria que ele a possuísse... que desse vazão aos seus
instintos. Não tinha forças, nem fazia a menor questão de detê-lo.
No instante seguinte, sentiu a brisa acariciando-lhe o cabelo e a boca de Ethan
sobre a sua. Os músculos dos braços fortes absorviam o impacto de seus passos largos,
enquanto a carregava de volta à picape.
Depois de parar para abrir a porta da picape, ele a acomodou no banco do
passageiro, deslizando-a para o meio da cabine, para que pudesse fitá-la, com os olhos
fixos em seu rosto ruborizado.
Arabella mal podia respirar pela enormidade do que acabara de acontecer. Jamais
imaginara que Ethan agisse daquela maneira com a ex-mulher na propriedade. Mas era
tudo por causa de Miriam, tinha certeza disso. Ethan apenas não queria admitir que o seu
coração ainda era cativo da mulher que ele não era capaz de satisfazer. Seus olhos
recaíram na extensão de peito musculoso, revelada pela camisa aberta, e permaneceram
lá.
— Não vai dizer nada? — perguntou ele, em voz baixa.
Ela sacudiu a cabeça em uma lenta negativa.
— Não vou permitir que finja que isso não aconteceu. — Ergueu-lhe o rosto,
obrigando-a a encará-lo. — Nós fizemos amor.
Um intenso rubor tingiu as bochechas de Arabella.
— Não... não é bem assim.
— Mas você não teria me impedido. — Ele traçou-lhe o contorno do lábio inferior
com a ponta do dedo. — Quatro anos e a intensidade do desejo não diminuiu. Basta nos
tocarmos para pegarmos fogo.
— É apenas atração física, Ethan — protestou ela, mas faltava convicção em sua
voz.
— Não é verdade — afirmou ele, brincando com uma longa mecha do cabelo dela.
— Miriam está aqui e você está frustrado porque ela não o quer.
Ethan ergueu uma sobrancelha.
— Sério?
— Não deveríamos voltar? — perguntou ela, dobrando o braço engessado.
— Foi você quem pediu um pouco de cooperação, lembra?
— Foi por isso que me beijou?
— Claro que não. — Ele roçou os lábios nos seus olhos, fechando-lhe as pálpebras
suavemente. — Você me faz sentir homem — sussurrou, com a voz rouca. — Com você
me sinto inteiro de novo.
Arabella não compreendia. Ethan dissera que não conseguia satisfazer Miriam,
mas com certeza não era um homem inexperiente. Seu corpo ainda vibrava com a
intensidade de suas carícias.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— O que vai fazer hoje à noite? — Ela tentou mudar de assunto. — Miriam, na
certa, traçará uma linha reta até o seu quarto.
— Fique tranquila, porque eu sei me defender — disse ele. — Tem certeza de que
quer ir para casa?
Para ser sincera, Arabella não tinha, mas meneou a cabeça em uma afirmativa
enfática.
Ethan emoldurou-lhe o rosto entre as mãos e forçou-a a encará-lo.
— Se o seu corpo fosse tudo que eu queria, poderia tê-la possuído quatro anos
atrás — lembrou-a, em um tom suave. — Você teria se entregado a mim, naquele dia no
riacho.
Arabella abriu os lábios e exalou um suspiro.
— Eu não entendo.
— Isso é óbvio. — Beijou-a com sofreguidão mais uma vez e saiu, fechando a
porta, em seguida. Após contornar a frente do veículo, se acomodou atrás do volante e
ligou o motor com um movimento brusco dos dedos.
— Você disse que era apenas para se livrar de Miriam, que teríamos que fingir um
romance — começou atordoada.
Ethan observou satisfeito o intumescimento dos lábios dela e o leve rubor que lhe
tingia as bochechas.
— Mas não estávamos fingindo agora, estávamos? — perguntou, em voz baixa. —
Eu disse que deixaríamos as coisas acontecerem devagar e é assim que vai ser. Basta
deixá-las acontecer.
— Eu não quero ter um caso.
— Nem eu. — Ele engrenou o carro e voltou à estrada de terra que os levaria de
volta. — Acenda isto para mim, querida.
Ethan entregou-lhe um cigarro e o isqueiro, mas ela precisou tentar três vezes,
antes de seus dedos trêmulos realizarem a simples operação. Então, devolveu-lhe o
cigarro aceso e, em seguida, o isqueiro, os olhos demorando em seus lábios firmes.
— Você já pensou em dormir comigo? — perguntou ele, de repente.
Para que mentir?, perguntou-se Arabella.
— Sim
— Não há nenhuma razão para se envergonhar. É perfeitamente natural
curiosidade entre duas pessoas que se conhecem há tanto tempo como nós dois. — Ele
tragou o cigarro. — Mas não quer fazer sexo fora do casamento, não é?
Ela olhou além do para-brisa.
— Não — respondeu, sincera.
Ethan a fitou de soslaio e sacudiu a cabeça, distraído.
— Certo.
Arabella sentia como se estivesse lutando para se livrar de uma teia de imprecisão.
Nada mais fazia sentido, muito menos aquela mudança repentina de atitude de Ethan em
relação a ela. Era óbvio que a desejava. Mas não era só porque não podia ter Miriam? Ou
havia outra razão que ela desconhecia?

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Bem, haveria muito tempo para tentar descobrir, supôs. Ethan fumava o cigarro
calmamente sentado ao seu lado, enquanto ela lançava olhares discretos em sua direção
e tentava entender o que ele queria dela. A vida de repente se tornara muito complicada.
O jantar daquela noite foi bastante tenso, com Miriam reclamando da comida o
tempo todo e não comendo quase nada. Lançava-lhe olhares com ódio estampado no
rosto, como se a quisesse bem longe dali. Provavelmente, por vê-la chegar na picape
com Ethan, pensou Arabella. Ambos chegaram despenteados, com as roupas amassadas
e os lábios intumescidos. E não era necessário recorrer à imaginação para imaginar o que
haviam feito.
E sua desconfiança estava certa. Miriam havia reconhecido os sinais e ficara
furiosa. A maneira como Ethan olhava para a atual namorada, sob os cílios grossos e
escuros, era dolorosa para ela, que ainda se lembrava do modo como ele a olhava, no
início do namoro. Mas agora parecia que só tinha olhos para aquela garota, e a
esperança de uma reconciliação entre os dois estava se esvaindo como fumaça. Não que
o amasse, mas lhe feria o ego saber que ele podia amar alguém, especialmente quando
esse alguém era Arabella. Fora por causa dela que Ethan jamais cedera completamente
aos seus encantos. Ele a desejava, mas seu coração sempre pertencera àquela jovem
sentada ao seu lado. E, com certeza, Arabella tinha ciência disso, mesmo nos velhos
tempos. Fora por isso que Miriam relutara para assinar o divórcio. Sabia que ele voltaria
para os braços do seu antigo amor e não queria permitir que isso acontecesse.
Mas todos os seus esforços pareciam ter sido em vão.
Ethan se encontrava totalmente alheio ao olhar mortífero de Miriam. Estava
ocupado demais observando a expressão no rosto de Arabella. Os lábios delicados ainda
exibiam um leve intumescimento provocado pelos beijos dele, enchendo-o de orgulho, ao
lembrar o modo como ela se entregara sem reservas. Era um homem novo, completo,
capaz de amar e, pela primeira vez, a presença da ex-mulher não o perturbou. Miriam lhe
ferira o ego com insultos, ridicularizando suas proezas na cama. Mas agora ele estava
começando a entender que aquilo não era estritamente um problema físico. Não do jeito
que seu corpo reagira a Arabella.
Miriam percebeu sua expressão satisfeita e se remexeu desconfortável.
— Pensando em algo importante, querido? — zombou, com um sorriso frio. — Ou
apenas relembrando a vida que levávamos juntos?
Ethan comprimiu os lábios e a estudou. A angústia que sentia com suas
provocações desaparecera de repente. Agora, sabia que a única falha era dela. Era uma
mulher convencida, fria, cruel e assexuada que, no fundo, odiava os homens e usava sua
beleza para feri-los.
— Estava pensando que você deve ter tido uma infância horrível — respondeu.
Miriam ficou pálida. Deixou cair o garfo e se atrapalhou para pegá-lo novamente.
— Por que diabos está dizendo uma coisa dessas?
Ethan passou do desprezo à compaixão. Em uma fração de segundos, tudo se
tornou claro. Agora a entendia melhor do que antes. Não que isso mudasse seus
sentimentos. Não a desejava, nem a amava. Mas também não a odiava mais.
— Por nada — respondeu, mas sem maldade. — Coma sua carne. Esqueça essa
tolice sobre a carne vermelha. É o que tem sustentado os seres humanos há centenas de
anos neste país.
— Não estou com muito apetite nos últimos tempos — respondeu Miriam. Então,
fitou-o com um olhar suspeito e, em seguida, baixou os olhos.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Arabella ouviu a conversa dos dois com um ar infeliz. Ethan parecia compadecido
da ex-mulher, ela podia sentir isso. Então, o que fazer agora? Devia continuar com a
encenação ou parar? Só queria que ele fosse feliz. E, se isso significasse ajudá-lo a voltar
para ex-mulher, poderia ser forte o suficiente para fazê-lo.
Como se sentisse sua preocupação, ele virou a cabeça, fitou-a com um sorriso e
estendeu a mão em sua direção. Depois de um segundo de hesitação, Arabella
entrelaçou os dedos aos dele, que os envolveram calorosamente. Levando-os à boca, ele
os beijou com avidez, alheio ao semblante de satisfação no rosto da mãe e à raiva que
dominava as feições de Miriam.
Arabella corou e prendeu a respiração. Havia tanta ternura naquela carícia! E o
modo como ele a olhava fazia seu corpo vibrar com as lembranças daquela tarde.
— Vamos ver aquele documentário especial sobre o mundo animal? — Miriam
perguntou, quebrando o silêncio tenso.
Ethan ergueu uma sobrancelha.
— Por que não? Adoro ursos polares.
— Bem, eu não — murmurou a modelo. — Para ser franca, eu os odeio. Aliás,
odeio a vida no campo, odeio o som do gado, odeio esta casa e odeio você!
— Pensei que quisesse conversar sobre reconciliação — observou Ethan.
— Como poderíamos conversar sobre reconciliação, quando foi para o mato,
obviamente, fazer amor com a senhorita pianista!
Arabella corou, mas Ethan apenas riu. O som era desconhecido, especialmente
para Miriam.
— Quando isso aconteceu, estávamos na picape, e não no mato — disse Ethan,
com uma honestidade ultrajante. — E noivos costumam fazer amor.
— Sim, eu me lembro — Miriam disse em um tom frio, jogando o guardanapo sobre
a mesa e se erguendo. — Acho que vou me deitar. Vejo vocês amanhã de manhã. Boa
noite.
Ela saiu e Coreen se sentou com um ruidoso suspiro.
— Graças a Deus! Agora posso desfrutar o que sobrou da minha refeição,
sossegada. — Pegando um pãozinho caseiro, passou manteiga. — Que história é essa
sobre fazer amor na picape? — perguntou ao filho, com um sorriso.
— Precisávamos confirmar as suspeitas de Miriam — respondeu ele. Recostando-
se à cadeira, observou a mãe. — Diga-me você o que estávamos fazendo.
— Arabella é virgem — afirmou Coreen, observando o desconforto que causou à
jovem
— Eu sei — retrucou Ethan, sorrindo. — E isso não vai mudar. Nem mesmo para
forçar Miriam a ir embora daqui.
— É o que imaginei que faria. — Coreen deu uma palmadinha na mão de Arabella.
— Não fique envergonhada, querida. O sexo faz parte da vida. Mas você não é uma
mulher do tipo da Miriam. Se fizesse alguma bobagem, sua consciência a atormentaria
pelo resto da vida. E, para ser justa, aconteceria o mesmo com Ethan. Ele é um puritano.
— Não sou só eu — disse ele, imperturbável. — O que você diria de uma virgem
de 22 anos?
— Eu diria que é uma mulher sensata — respondeu Coreen. — É perigoso ficar

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

fazendo sexo com qualquer um hoje em dia e estupidez proporcionar a um homem os


benefícios do casamento, sem antes fazê-lo assumir as responsabilidades pelo prazer.
Isso não é apenas moralidade antiquada, é bom senso. Sou uma defensora dos direitos
das mulheres, mas jamais me entregaria a qualquer homem sem amor e compromisso.
Ethan se ergueu devagar e empurrou a cadeira para perto da mãe.
— Suba aqui. Se pretende fazer um sermão, precisa ser vista e ouvida.
Coreen afastou a mão que segurava o pão e Ethan riu. Inclinou-se, tomou sua
pequena mãe nos braços e lhe estalou um beijo na bochecha.
— Eu a amo, sabia? — disse, enquanto a colocava no chão novamente, afobado e
sem fôlego. — Não mude nunca.
— Você acabou de me irritar.
Ethan beijou-a na testa.
— O sentimento é mútuo. — Ele olhou para Arabella, cujos olhos o fitavam com
adoração. — Tenho que dar alguns telefonemas. Se Miriam descer, entre na biblioteca e
lhe daremos outro motivo para ficar irritada.
Arabella corou mais uma vez, mas sorriu para ele.
— Está bem
Ele piscou e deixou as duas mulheres à mesa.
— Você ainda o ama, não é? — perguntou Coreen, enquanto tomava um gole de
café.
Arabella deu de ombros.
— Parece ser uma doença que não tem cura. Apesar de Miriam, os argumentos e
todos os anos que passaram, nunca desejei mais ninguém
— Parece ser recíproco.
— Parece, mas isso não passa de uma encenação para evitar que Miriam vá
embora de vez e não volte a procurá-lo.
— Não é estranho como ele mudou em um dia? — disse Coreen de repente,
estudando Arabella com os olhos semicerrados. — Esta manhã ficou uma fera, quando
Miriam chegou, e agora parecia tão descontraído e indiferente às observações cáusticas
da ex-mulher que nem parecia o mesmo homem. O que vocês dois fizeram exatamente,
enquanto estavam sozinhos?
— Para ser sincera, só nos beijamos — respondeu Arabella. — Mas ele está
diferente, não é? Ethan disse algo estranho, sobre se sentir renovado, e que Miriam o
acusava de não conseguir satisfazê-la. Talvez ele só precisasse de um pouco de
encorajamento.
Coreen sorriu em silêncio e olhou para baixo, para o café.
— Talvez — disse, recostando-se ao assento. — Ela vai tentar algo, você sabe.
Provavelmente esta noite.
— Também penso o mesmo e cheguei a comentar com Ethan. Mas não podia ter o
descaramento de me oferecer para dormir com ele. — Arabella clareou a garganta. — Ele
realmente é um puritano. Acho que ficaria indignado se eu mencionasse tal coisa. Eu
podia dormir em uma cadeira ou algo assim Não pretendia... — se apressou em
acrescentar, preocupada com o que a mãe dele pudesse pensar.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Eu sei, querida. Não precisa se preocupar com isso. Mas acho que não seria
uma má ideia se você passasse algum tempo com ele no quarto esta noite. Miriam
pensaria duas vezes antes de invadir o aposento se soubesse que você estava com ele.
— Um sorriso maroto surgiu em seus lábios. — Seria péssimo para o ego dela.
— Ethan vai me dar uma bronca — disse Arabella, com tristeza. — Não vai gostar.
E se Miriam resolver colocá-la a par disso? Você também concorda que pessoas solteiras
não devem dormir juntas antes do casamento.
— Fingirei estar surpresa e horrorizada, e depois obrigo Ethan a marcar a data do
casamento — prometeu Coreen.
— Oh, não, não pode fazer isso! — Arabella ofegou.
Coreen se ergueu da cadeira e começou a remover a louça da mesa, lançando um
olhar divertido à sua hóspede.
— Não se preocupe com uma coisa dessas. Sei de algo que você não sabe. Pode
me ajudar a levar isto para a cozinha, querida? Betty Ann voltou para casa uma hora
atrás. Ajude-me com estes pratos e depois pode começar a fazer planos para mais tarde.
Por acaso tem uma lingerie provocante?
A coisa toda estava assumindo dimensões de um sonho, pensou Arabella,
enquanto esperava no quarto de Ethan, usando uma ousada lingerie branca que Coreen
lhe dera. Como diria a Ethan que aquilo fora ideia de sua mãe?
Escovara o longo cabelo até deixá-lo brilhando. Ainda estava usando sutiã sob a
camisola decotada, porque não conseguira desatar o fecho. Mas a peça fazia seus seios
parecerem mais sexy, e a forma como o cetim se aderia às curvas do seu corpo a fazia
aparentar uma femme fatale.
Ela se estirou no fundo da antiga cama de dossel de Ethan, o tecido branco
contrastando com o xadrez marrom, preto e branco da colcha.
O aposento era tão nitidamente masculino que se sentia um pouco deslocada.
Próximo à lareira, havia um par de pesadas poltronas de couro e alguns tapetes
indianos no chão. As antigas cortinas bege das janelas bloqueavam a luz da lua crescente
e a visão da extensão de terra lá fora. Um detalhe original era conferido por um ousado
lustre, no formato de roda de carroça, que pendia do teto. E, para completar a mobília,
havia um armário com gavetas em uma das paredes e uma cômoda com espelho em
outra. Era um quarto espaçoso que combinava com um homem como Ethan, que adorava
espaço.
Ao perceber a porta se abrindo, Arabella fez uma pose. Talvez fosse Miriam
tentando dar uma espiada. Com um movimento de ombros, deixou o tecido da camisola
escorregar, odiando o gesso feio que arruinava todo o efeito. Então, colocou a mão para
trás, empinou os seios para frente e olhou para a porta, com o que esperava parecer um
sorriso sedutor.
Mas não era Miriam. Era Ethan, que parou petrificado à porta.

Capítulo Sete

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— Oh! — Arabella ofegou. Endireitou-se de imediato, dolorosamente consciente do


quanto o decote deixava à mostra, para não mencionar a forma como o cetim vaporoso se
aderia às suas curvas esbeltas.
Ethan entrou e fechou a porta, com uma expressão indecifrável no rosto. Não
estava usando chapéu e parecia bastante desgastado, mas o brilho em seus olhos era
fascinante.
Fitava-a como se nunca tivesse visto o corpo de uma mulher antes, e seus olhos se
demoraram na curva dos seios sob o tecido com sofisticado rendado.
— Meu Deus! — exclamou, conseguindo, por fim, respirar. — Você é capaz de
fazer um homem ficar de joelhos aos seus pés.
Não era exatamente o que ela esperava ouvi-lo dizer, mas pelo menos seus
esforços para melhorar a aparência valeram a pena.
— Verdade? — perguntou confusa, enquanto o prazer lhe conferia um brilho de
felicidade à face.
Ethan caminhou em sua direção. Com a camisa desabotoada até o meio, parecia
perigoso e muito sexy com aquele cabelo despenteado e a barba recém-crescida no rosto
bronzeado.
— Será que o sutiã era realmente necessário ou você não pôde tirá-lo? —
perguntou, enquanto se sentava ao lado dela na colcha.
Um tímido sorriso surgiu nos lábios de Arabella.
— Na verdade, não pude tirá-lo — admitiu, erguendo o braço com o gesso. —
Ainda não posso usar esta mão.
— Venha cá. — Ethan a puxou para si, com um sorriso, e deslizou as alças da
camisola para baixo, em busca do fecho do sutiã. Mas o corpete se soltou, caindo em
torno da cintura de Arabella, o que lhe proporcionou uma visão total dos seios alvos,
finalmente libertos do tecido rendado.
Ele prendeu a respiração. Seu corpo fez uma rápida e enfática declaração sobre o
que aquelas curvas lhe causaram e ele riu apesar do desconforto.
— Meu Deus!
— O que foi? — perguntou ela, ofegante.
— Não me pergunte — respondeu, abrindo-lhe o fecho do sutiã, divertindo-se com
os esforços de Arabella para ocultar sua nudez.
Envergonhada, ela segurou a peça sobre os seios, mas uma das mãos dele
deslizou pelas suas costas nuas e começou a acariciá-la com suavidade.
— Deixe-o cair — implorou de encontro aos seus lábios, enquanto os beijava.
Foi a experiência mais erótica da vida de Arabella, bem mais do que o episódio às
margens do riacho, porque era uma mulher agora e seu amor por Ethan era bem maior.
Obediente, soltou o tecido e o enlaçou pelo pescoço. O movimento fez com que
seus seios se erguessem.
Ethan afastou-se para admirá-los. Tocou-os devagar e fitou-a nos olhos,
observando suas pupilas se dilatarem, enquanto ele brincava com o contorno suave de

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

um dos seios, passando o dedo indicador ternamente sobre o mamilo excitado. Arabella
emitiu um gemido e, com a mão livre, ele a envolveu pela nuca. Mantinha-a prisioneira
com uma deliciosa sensualidade, enquanto fechava a outra mão em torno da sua cintura,
puxando-a de encontro ao corpo com delicadeza.
— Sonhei tanto com este momento. — murmurou, inclinando a cabeça para frente.
De repente, não eram mais suas mãos que lhe afagavam os seios, e sim a boca firme e
ardente que lhe explorava a elevação aveludada.
Arabella observou os lábios de Ethan se fecharem em torno de um dos mamilos,
sentiu a suave e quente sucção, a trilha áspera de sua língua, a leve ameaça de seus
dentes, e um som abafado, que ela nunca emitira antes, emergiu de sua garganta.
Ethan ouviu. A cada segundo, ficava mais excitado. Seu corpo todo tremia. Ela era
tudo que ele sempre quisera em uma mulher. Jovem, virgem e dolorosamente receptiva
aos seus avanços. Mal podia acreditar no que estava acontecendo.
Suas sobrancelhas escuras se uniram de prazer, enquanto ele aumentava a
pressão dos lábios, sentindo-a estremecer com a intensidade das carícias que se
tornavam mais ousadas. As unhas de Arabella se cravaram em sua pele, fazendo-o
gemer. A ansiedade o fez descer as mãos pelas costas macias e erguer o tecido da
camisola, para tocar-lhe as coxas.
— Ethan, não. — sussurrou frenética, mas ele afastou a boca de seu mamilo e
deitou-a sobre a colcha. Arabella percebeu que se encontrava frágil e indefesa, entregue
por inteiro, naquele limbo sensual.
— Não vou machucá-la — murmurou ele, inclinando-se sobre ela. — Desabotoe a
minha camisa. — Deslizando os dedos por entre as coxas dela, apartou-as com ternura,
notando sua expressão oscilar entre o medo e a aceitação do desconhecido.
— Quero fazer amor com você. Não precisamos ir até o fim.
— Eu não entendo.
Ethan fechou-lhe as pálpebras com beijos.
— Vou lhe ensinar. De um modo ou de outro, serei seu amante. E poderíamos
muito bem começar agora. Tire a minha camisa, docinho — disse-lhe, de encontro aos
lábios. — E, em seguida, erga o peito e deixe-me sentir o roçar dos seus seios contra a
minha pele.
Arabella nunca sonhou que os homens dissessem coisas como aquela às
mulheres, mas surtiu um efeito incrível em suas emoções. Tateando com as mãos
trêmulas, encontrou os botões da camisa e abriu-os um a um. Em seguida, arqueou o
torso, puxando-o para si com o braço são. A experiência foi impressionante. Ao sentir os
pelos ásperos do peito dele lhe roçarem a pele sensível dos seios, em uma carícia
terrivelmente excitante, gemeu impotente em seus braços.
Ethan também gemeu. Eram sonhos se tornando realidade. Aquela era Arabella e
ela o desejava. Ela o desejava!
Insinuando uma coxa musculosa entre as dela, segurou-lhe a mão, sem deixar de
beijá-la, e a levou até seu tórax.
— Eu não posso. — Arabella protestou violentamente.
— Você pode, meu amor.
— Toque-me — sussurrou ele, abrindo-lhe os dedos cerrados e espalmando-os
contra o corpo. — Arabella, Arabella. preciso tanto de você. — Sua mão tremia enquanto

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

a guiava. — Não pare. — gemeu, inspirando o ar com força.


Arabella o fitou admirada. Ele a deixou olhar, extasiado com o prazer proibido do
seu toque, louco para lhe dizer o quão incrível era aquela sensação, mas não conseguia
falar.
Foi um choque cruel quando a porta se abriu de repente.
— Oh, pelo amor de Deus — exclamou Miriam, horrorizada.
A mulher saiu furiosa, batendo a porta com força. A voz ecoava no corredor,
juntamente com seus passos apressados.
Ethan estremeceu desamparadamente, rolou de costas e gemeu.
Arabella se sentou com os seios desnudos e os olhos apreensivos.
— Está tudo bem? — perguntou hesitante.
— Para ser sincero, não — conseguiu dizer, com um sorriso triste. Ele riu, apesar
da dor latejante em seu corpo. — Mas, oh Deus, é um sofrimento maravilhoso, garotinha.
Arabella puxou a camisola para cobrir os seios, franzindo a testa ligeiramente.
— Eu não entendo.
Com um sorriso nos lábios, Ethan guardou o segredo para si.
— É melhor não entender. Ainda não, de qualquer maneira. — Inspirando fundo,
ele tentou normalizar a respiração, até que a dor começou a diminuir, o tempo todo
fitando-a com intenso prazer.
— Miriam nos viu — disse ela, desconfortável.
— Não era esse o objetivo?
— Bem, sim. Mas... — Ela corou e desviou o olhar.
Ethan se sentou, espreguiçando-se demoradamente, antes de virá-la de frente para
ele e começar a beijá-la com suavidade.
— As mulheres trocam carícias íntimas com os homens desde o começo dos
tempos — sussurrou-lhe, sobre as pálpebras fechadas. — Aposto que a maioria de suas
amigas na escola fazia isso, incluindo Mary.
— Mas ela não...!
— Se ela estava apaixonada, por que não? — Erguendo a cabeça, procurou-lhe o
rosto preocupado. — Arabella, não é pecado desejar alguém. Em especial, quando se
trata de uma pessoa que você ama. É a expressão física de algo intangível.
— Tenho muitos problemas emocionais.
Ethan afastou-lhe o cabelo do rosto.
— Você tem princípios. Eu compreendo. Não vou seduzi-la na minha própria cama,
no caso de estar imaginando essa possibilidade.
Seus olhos cinzentos brilharam divertidos. Sentia-se mais vivo que nunca, viril,
capaz de qualquer coisa. Roçou a boca devagar sobre o nariz dela.
— Vamos guardar o sexo para a nossa noite de núpcias.
Arabella o encarou.
— O que disse?
— O casamento é inevitável. Miriam não vai desistir, se você não passar todas as

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

noites aqui para mantê-la afastada. Ela é o tipo de mulher que não conhece rejeição.
Meteu na cabeça que quer voltar para cá e acha que pode me coagir a aceitá-la.
— Ela deveria saber que isso não tem mais chance de acontecer.
— Ah, mas ela acha que tem uma vantagem — murmurou ele, olhando para a mão
dela que segurava a camisola de encontro ao corpo. — Solte-a. Adoro olhar para você.
— Ethan!
Ele riu.
— E você gosta que eu olhe, então pare de fingimento. Passei anos sendo
convencido de que não era mais homem, então terá que me perdoar por soar um pouco
arrogante agora. Acabei de descobrir algo chocante sobre mim mesmo.
— O quê? — perguntou ela, sem fôlego.
— Que não sou impotente — respondeu, sem rodeios.
Arabella franziu a testa.
— Impotência significa que um homem não pode... — Seus olhos se arregalaram.
— Era a isso que Miriam se referia quando zombou de você!
— Exato. Por mais que ela tentasse, não conseguia me excitar. Foi por isso que a
mandei embora. Mas ela não quis me dar o divórcio. Estava certa de que poderia me
enfeitiçar outra vez. O que ela não percebeu é que nunca fui realmente apaixonado por
ela. O que eu sentia era pura atração física. Mas o desejo, uma vez saciado, perde a
graça. E foi assim comigo.
— Suponho que ela deva ser bastante experiente na cama — disse Arabella. — Eu
sou tão tímida.
Ethan encostou-lhe o rosto na curva quente e úmida do pescoço e afagou-lhe o
cabelo com ternura.
— Intimidade, pela primeira vez, é difícil até mesmo para os homens, querida —
sussurrou-lhe ao ouvido. — Você vai se acostumar. Jamais vou machucá-la.
— Eu sei. — E era verdade. Mas será que seria capaz de amá-la? Era o que ela
mais queria no mundo. Abraçou-o e exalou um longo suspiro. — Estava falando sério
quando disse que não se sentia assim com Miriam? Ela é tão bela e experiente.
Ethan acariciou-lhe as costas nuas.
— Ela não chega aos seus pés — respondeu, com a voz rouca. — Nunca chegou.
Mas você se casou com ela e hoje à noite no jantar tratou-a com tanta gentileza,
Arabella pensou em dizer, mas não teve chance de proferir as palavras. Enquanto estava
perdida em pensamentos, ele lhe afastara a camisola dos seios e a estreitara de encontro
ao peito nu. As mãos experientes e ousadas acariciavam-lhe as costas, traçando padrões
na pele acetinada.
Ela gemeu e Ethan sorriu roçando-lhe a testa com os lábios.
— Eu já saía com várias mulheres, quando você ainda era uma garota de 18 anos.
Mas nunca havia sentido nada parecido com o que experimentamos naquele dia no
riacho. E nem chegamos a consumar o ato. Tenho sonhado com esse dia desde então.
— Mas se casou com Miriam — Ela fechou os olhos, alheia à sua expressão. — E
isso diz tudo, não é mesmo? Você nunca me amou. Apenas me desejava. É só o que
existe entre nós. Oh, solte-me, Ethan! — gemeu, empurrando-o.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Num gesto impulsivo, ele a segurou pelos braços e deitou-a sobre a colcha macia.
— Não é apenas desejo. Não me rejeite — sussurrou, de encontro aos lábios dela.
— Não me rejeite, querida.
Lágrimas escorreram pelo rosto de Arabella, mas ele não parou até senti-la flexível
e gemendo sob o peso do seu corpo vigoroso. Só então ergueu a cabeça e fitou-a
extasiado.
Seus olhares se encontraram.
— Se fosse apenas desejo, acha que eu pouparia a sua castidade?
Arabella engoliu em seco.
— Acho que não.
— Um homem no auge da paixão não costuma dar a mínima para o que diz ou faz.
Tudo que quer é que a mulher coopere. Eu poderia tê-la possuído esta tarde. Poderia tê-
la possuído agora. Mas me controlei.
O que também podia significar que ele não a desejava o suficiente para perder o
controle, pensou Arabella, mas não externou o pensamento.
Ethan se sentou e admirou-lhe os seios com um olhar de apreciação, antes de
puxar as alças da camisola para cima outra vez.
— Você não tem muita autoconfiança, não é? — perguntou, quando ambos
estavam de pé. Sua figura, deliciosamente sensual, com o peito nu e os lábios
intumescidos pelos beijos que haviam trocado, se avultou sobre ela. — Terei que trabalhar
isso.
— Apenas para manter Miriam à distância, você disse — lembrou ela, com voz
trêmula.
— Sim, eu disse — concordou, trançando-lhe o contorno do nariz com o dedo
indicador. — Mas, para fazer as coisas corretamente, você terá que se casar comigo. —
Ele sorriu. — Não vai ser tão ruim assim. Podemos dormir juntos e fazer bebês. Vamos
levar uma vida agradável juntos, mesmo que essa mão não a deixe fazer mais nada além
de dar aulas de piano.
— E você acha que seria o suficiente para me satisfazer? — perguntou ela, com
tristeza.
O sorriso no rosto de Ethan desapareceu. Pensara que ela o amava. Arabella lhe
passara essa impressão. E agora estava dizendo que o casamento não seria suficiente,
que preferia a sua carreira em vez disso?
— Não acha que poderia ser feliz aqui? — perguntou ele.
Ela se remexeu inquieta.
— Estou cansada. Não quero falar sobre casamento esta noite. Está bem?
Ethan retirou um cigarro do bolso e o acendeu, ainda com o cenho franzido.
— Certo. Mas mais cedo ou mais tarde teremos que conversar sobre o assunto.
— Enquanto isso, vou fazer tudo o que puder para ajudá-lo a se livrar de Miriam.
Se tem certeza de que é isso que quer — acrescentou hesitante.
— Não pode acreditar que eu a quero de volta.
— Não a quer? — perguntou ela, com uma expressão pesarosa nos suaves olhos
verdes.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Não ouviu o que eu lhe disse antes?


Sabe o que significa a palavra “impotente”? — indagou irritado, e proferiu a gíria
empregada para o termo, observando-a enrubescer.
— Eu... eu... sei o que isso significa — gaguejou, afastando-se dele. — Não sei é
se gosto de ser um catalisador dessa forma. Talvez você no fundo queira a Miriam, mas
tem medo de perdê-la novamente... de não conseguir satisfazê-la. Ela o traiu uma vez.
— Santo Deus! — Ethan tragou o cigarro e suspirou com raiva. Não podia lhe
mostrar o que sentia, estava muito cansado para tentar naquela noite. Teriam muito tempo
pela frente. Pelo menos esperava que houvesse tempo suficiente. — É melhor voltar para
o seu quarto antes que Miriam arraste minha mãe até aqui e lhe dê o maior choque da
sua vida.
— Ela não ficaria chocada — disse distraída.
— O que a faz pensar assim?
Arabella ergueu os olhos.
— Porque isso foi ideia dela. Inclusive a lingerie.
— Meu Deus! Mulheres! — explodiu.
— Só estávamos tentando protegê-lo de Miriam.
— Ótimo. E quem vai proteger você de mim? — perguntou, enlaçando-a pela
cintura e se inclinando em direção à sua boca. — Eu a quero. Tire a camisola e vá para a
cama. Farei amor com você até o dia amanhecer.
Arabella se arrepiou toda.
— Não é a mim que você deseja, é a Miriam — gaguejou, afastando-se dele mais
uma vez.
— Como pode ser tão cega? — disse, sacudindo a cabeça. — Está bem, fuja. Mas
ficarei no seu encalço de agora em diante. Eu a deixei escapar uma vez. Mas não
incorrerei no mesmo erro.
Arabella não compreendia. Ethan estava dizendo muitas coisas estranhas. Corou,
relembrando a reação dele a ela, quando lhe dissera que não se sentia da mesma forma
com Miriam. Mas ainda estava certa de que havia um fundo psicológico naquela
impotência, provavelmente desencadeada pelo medo de que Miriam levasse seu coração
e o traísse mais uma vez. Não queria pensar nisso. Era muito dolorido. O ardor de Ethan
a enaltecera e a perturbara, ao mesmo tempo. Teria algumas lembranças dele, mas
seriam lembranças agridoces. Sempre soubera que não passava de uma substituta física
para a mulher que ele amava.
— Vou tocar minha própria vida, obrigada — disse, caminhando em direção à
porta. — Não esqueci o que me disse quando me pediu para não voltar para ao rancho,
quatro anos atrás.
— Pode ir — respondeu ele, abrindo-lhe a porta. — Você não sabe por que eu
disse aquilo.
Arabella o encarou.
— Sei, sim. Você me queria fora do caminho.
— Para que pudesse me casar com Miriam — sugeriu ele.
— Sim.

63
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Ethan suspirou e sacudiu a cabeça, o cigarro na mão, enquanto procurava os olhos


suaves de Arabella.
— Não há pior cego do que aquele que não quer enxergar — murmurou. — Você
era uma garota de 18 anos — disse calmamente. — Uma escrava emocional do seu pai,
com um incrível talento para tocar piano e apaixonada pela primeira vez na sua vida
inocente. Você está com quase a idade que eu tinha na ocasião. Pense como você
reagiria, se nossas posições fossem invertidas. Pense no que sentiria, no que pensaria e
no que faria.
Arabella o fitou, impotente.
— O que a minha idade tinha a ver com isso?
— Tudo. — Seu rosto enrijeceu. — Meu Deus, você não entende? E se eu a
tivesse engravidado naquele dia no riacho?
O rosto dela empalideceu. Podia imaginar o horror que o pai sentiria. E o que ele
faria, também. Jamais permitiria que ela tivesse um filho fora do casamento. Ethan
poderia tentar reparar o erro pedindo-a em casamento, mas teria sido forçado a isso.
— Eu poderia não ter engravidado — disse, hesitante. — Algumas mulheres nunca
engravidam.
— Algumas não, mas a maioria das mulheres, sim. Eu não estava preparado
naquele dia e não posso imaginar, nem por um minuto, que teria forças para me controlar
o suficiente para protegê-la. Havia toda a chance do mundo de acabarmos criando um
filho juntos. — Seu olhar se tornou mais escuro, mais ardente. — Eu teria gostado —
disse, com a voz rouca. — Oh, Deus, eu adoraria tê-la engravidado, Arabella.
Sentindo-se aquecida pelo calor daquele olhar, ela conseguiu colocar os dedos na
maçaneta.
— É melhor eu... ir para a cama.
— Você teria gostado, também, não é? — perguntou ele com conhecimento de
causa, sorrindo de uma maneira que fez os dedos dela se encolherem.
— Não somos casados — respondeu, tentando manter a sanidade.
— Mas vamos ser. — Ethan se inclinou contra a porta e a fitou, os olhos
possessivos vagando sobre as rendas e o cetim da camisola que ela usava. — Não me
importo de trocar fraldas e dar mamadeiras, só para constar. Não sou um desses homens
de Neanderthal que acha que não pode fazer nada, além de assistir ao futebol e beber
cerveja, enquanto a mulher trabalha.
Arabella o encarou com um brilho suave no rosto e cedeu, apesar de seus receios.
— E se eu não puder lhe dar um bebê? — sussurrou baixinho.
Ethan sorriu ternamente e tocou-lhe os lábios com as pontas dos dedos.
— Então, você e eu ficaríamos mais unidos do que a maioria dos casais, suponho.
— A voz soou profunda e gentil.
— Seríamos inseparáveis. Poderíamos adotar uma criança, ou talvez várias, ou
nos dedicar a um trabalho voluntário que envolvesse crianças. — Ele se inclinou e beijou-
lhe as pálpebras. — Jamais pense que só tem valor para mim por causa de seu potencial
como mãe. Os filhos são um benefício adicional precioso ao casamento. Mas não devem
ser a única razão para isso.
Arabella jamais sonhara em ouvir Ethan dizer tal coisa. As lágrimas escorreram

64
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

pelo seu rosto e ela começou a soluçar.


— Oh, pelo amor de Deus!. — Ele se curvou e a tomou nos braços, abalado com
aquela reação. — Não chore, querida — sussurrou. Então a beijou, levemente trêmulo,
saboreando-lhe a suavidade úmida dos lábios molhados pelas lágrimas. Sentiu algo novo
naquele beijo, nunca antes experimentado, enquanto a abraçava e a embalava. Sua
cabeça começou a rodopiar. Os braços delicados de Arabella envolviam-lhe o pescoço e
ela estava correspondendo ao beijo, gemendo baixinho sob a pressão da sua boca.
— Ora, ora, eu fui a favor do espírito da coisa, mas não vamos chegar aos
extremos — murmurou Coreen Hardeman, em um tom seco.
Ethan ergueu a cabeça e fitou a mãe de modo inexpressivo. A mulher estava
encostada à parede com um brilho tão presunçoso no olhar que o fez enrubescer.

Capítulo Oito

Arabella não sabia onde se meter de tanta vergonha. Sentiu as faces pegando fogo
e enrijeceu os braços ao redor do pescoço de Ethan.
— Hã... você pode me colocar no chão?
— Por quê? Agora é que ia começar a ficar bom.
— Eu imaginei que isso já tivesse acontecido, pelo que Miriam me contou — disse
Coreen, acabando com a postura de mãe desaprovativa e caindo na gargalhada. —
Vocês dois estavam indo direto para um final ardente. Ou era impressão minha? Que
comportamento vergonhoso! E Arabella, tão inocente. — Ela ergueu uma sobrancelha
para Ethan. — Como teve coragem?
Ethan sorriu.
— Tive bastante colaboração — redarguiu, com um olhar maroto a Arabella.
— Miriam disse isso também — assentiu Coreen.
— Quer me colocar no chão, seu depravado! — murmurou ela, lutando para se
soltar. — Eu sabia que você ia tentar me corromper, se eu não tomasse cuidado.
Ele a colocou suavemente no chão.
— Gostaria de tentar de novo? Lembro-me de tê-la encontrado deitada na minha
cama em um pose bastante ousada. — Ele olhou para Coreen. — Ela disse que foi ideia
sua, também.
— Na verdade, foi — confessou Coreen. — Eu não sabia mais o que fazer. Estava
absolutamente certa de que Miriam tentaria algo com você esta noite e tenho um
pressentimento de que sei o motivo. Acho que ela está grávida.
— Arabella me disse. — Ele esfregou a mão sobre o peito largo, lançando um olhar
de apreciação à mais jovem das duas mulheres.
— Vamos nos casar. Arabella ainda não sabe, mas você pode ir em frente e

65
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

começar os preparativos. E vamos levá-la para o altar antes que ela tenha tempo para
reagir.
— Boa ideia. — Coreen riu satisfeita. — Oh, Arabella, eu não poderia ficar mais
satisfeita. Você vai ser a mais maravilhosa das noras.
— Mas... — gaguejou Arabella, olhando de mãe para filho com os olhos aturdidos.
— Ela será, com certeza — concordou Ethan. — Vou levá-la à cidade amanhã para
comprar uma aliança de noivado. O que acha de o casamento ser celebrado na igreja
metodista? O reverendo Boland poderia realizar a cerimônia.
— Sim, ele é ótimo. E podemos fazer a recepção em Jacobsville Inn. É grande o
suficiente. Vou perguntar a Shelby Ballenger se ela pode ajudar com os preparativos. Ela
fez um belo trabalho com nosso desfile beneficente no último mês. Incrível como
consegue conciliar o trabalho de voluntariado com a educação dos dois filhos.
— Faça isso — respondeu Ethan. — Agora, e quanto aos convites?
— Eu não acho que... — Arabella tentou intervir mais uma vez.
— Parece uma ótima ideia — disse Ethan, aprovando. Ele cruzou os braços sobre
o peito e se voltou para a mãe. — Acha que pode providenciar os convites, também?
— Ei! O casamento é meu! — explodiu Arabella. — Por certo, posso fazer algo
para ajudar!
— Claro — concordou Ethan. — Pode experimentar o vestido de noiva. Leve-a
para a loja mais cara em Houston — disse ele a mãe. — E compre o vestido mais
sofisticado que existir. Não a deixe sair da loja com algo comum.
— Pode deixar comigo — Coreen prometeu. — Uma noiva de branco. — suspirou.
— Nunca pensei que viveria para vê-lo casado e feliz, meu filho.
Ethan estava admirando Arabella com um tipo estranho de ternura.
— Nem eu. Não assim — disse, com a voz rouca e os olhos cintilando.
Mas era só para ajudá-lo a se livrar de Miriam, Arabella sentiu vontade de
gritar. Ele não me ama, apenas me deseja. Eu o fiz se sentir homem outra vez. Mas isso
não é razão para nos casarmos!
Ia começar a dizer o que pensava, mas ele já estava abrindo a porta do quarto.
— Acho que vou trancar a porta, apenas por precaução. — Ele riu.
— Boa noite, mãe. — Olhou para Arabella. — Boa noite, garotinha.
— Boa noite, Ethan — disse Arabella suavemente. — Mas há mais uma coisa... —
Ele fechou a porta antes que ela pudesse concluir o que estava dizendo.
— Odeio esse sentimento de vingança, mas não posso evitar — disse Coreen com
um sorriso, enquanto as duas caminhavam pelo corredor. — Miriam estava tão certa de
que poderia voltar para Ethan. Eu não suportaria vê-la feri-lo mais uma vez.
— Ele estava diferente com ela durante o jantar — disse Arabella, expressando o
seu maior medo, que Ethan mais uma vez caísse sob os encantos da ex-mulher.
Coreen a encarou.
— Ethan é um homem sensível. Não se preocupe. Ele não se casaria com você
para depois perseguir Miriam à distância. Posso lhe garantir — acrescentou, parecendo
querer dizer algo mais. Mas deu de ombros e esboçou um leve sorriso. — É melhor eu ir
para a cama. Durma bem, querida, e parabéns.

66
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Nada aconteceu — Arabella deixou escapar. — Não sei o que Miriam lhe disse.
Coreen acariciou-lhe a bochecha suavemente.
— Eu conheço você e conheço meu filho. Não precisa me explicar nada. Além do
mais — acrescentou com um sorriso —, Ethan não parecia um homem frustrado, quando
entrei no quarto. Sou velha, mas não sou cega. Boa noite!
Nervosa e insegura, Arabella observou a mulher se virar e entrar em seus
aposentos. Então, seguiu pelo corredor, com a esperança de não encontrar Miriam no
caminho até seu quarto.
Mas deveria ter imaginado que ela a estaria esperando. Miriam abriu a porta do seu
dormitório no momento em que Arabella passava e a chamou. Seu rosto estava corado e
os olhos, vermelhos. Era óbvio que estivera chorando.
— Você, sua cobra — acusou furiosa, jogando o cabelo castanho-avermelhado
para trás, com desprezo. — Ele é meu! E não vou entregá-lo sem uma boa briga!
— Então terá uma — respondeu Arabella, sem alterar o tom de voz. — Vamos nos
casar. Ethan já lhe disse isso.
— Ele não vai se casar com você — afirmou a mulher. — Ele me ama! Sempre me
amou! Só quer você para se divertir na cama. — Seus olhos pontuaram aquela
observação friamente sarcástica. — Você é uma novidade, mas logo ele se cansará. Não
vai conseguir levá-lo ao altar.
— Para o seu conhecimento, Ethan já mandou providenciar os preparativos do
casamento.
— Ele não vai se casar com você, estou lhe dizendo! — Os olhos de Miriam
chamejavam. — Ele só se divorciou de mim porque eu o traí.
— O que me parece motivo suficiente — retrucou Arabella. Estava tremendo por
dentro, mas não se deixaria intimidar. — Você feriu o orgulho dele.
— E o que acha que ele fez com o meu, hein? Sendo obrigada a ouvi-lo falar de
você desde que nos casamos — explodiu ela. — Arabella isso, Arabella aquilo. Seu nome
estava sempre na boca dessa família maldita! Parecia que não existia mais ninguém além
de você, ninguém! Eu a odiei desde o início, porque Ethan queria você! — Seus olhos
estavam úmidos de lágrimas e ela chorava enquanto tentava falar. — Imagine isso! — Ela
riu entre soluços. — Eu tinha duas vezes a sua experiência e sofisticação, era muito mais
bonita e mais famosa do que você poderia esperar ser. Mas era você que ele queria.
Sussurrava seu nome quando fazia amor comigo. — Miriam se encostou à parede,
chorando, impotente, enquanto Arabella a fitava boquiaberta.
— O quê? — perguntou incrédula.
— E, quando o acusei de me usar como substituta para você, ele parou de fazer
amor comigo. Era obcecado pelo seu corpo. E ainda é. Provavelmente... — acrescentou,
se recompondo um pouco. — ... porque nunca o teve. Mas, quando tiver saciado o
desejo, vou voltar a tê-lo aos meus pés. Talvez eu possa fazer com que ele me deseje.
Ele me amava. — sussurrou dolorosamente. — Ethan me amava, mas eu não conseguia
fazê-lo me desejar também. Maldita! Se não fosse por você, ele só teria olhos para mim!
A mulher voltou para o quarto e bateu a porta, deixando-a estarrecida no corredor.
Arabella conseguiu entrar em seus aposentos, sem realmente ver por onde caminhava.
Após se atrapalhar para ligar o interruptor de luz, fechou a porta e desabou sobre a cama.
Miriam estaria dizendo a verdade? Ethan seria tão obcecado pelo corpo dela a
ponto de ter arruinado o próprio casamento? Seria possível um homem amar uma mulher,

67
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

mas sentir desejo por outra? Sabia tão pouco sobre o amor e tinha tão pouca experiência
com os homens que não sabia o que pensar.
A única coisa sobre a qual tinha certeza era que Ethan ainda a desejava. Podia não
ser base suficiente para um casamento, mas ela o amava mais que a própria vida. Se
desejo era tudo que ele tinha para lhe oferecer, talvez pudesse ensiná-lo a amá-la, algum
dia. Não era tão bonita quanto Miriam, mas ele lhe dissera certa vez que a beleza interior
era mais importante.
O ardor que ele demonstrara naquela tarde e naquela noite era a prova de que a
sua suposta impotência com Miriam era apenas uma casualidade. Se podia desejar uma
mulher, poderia desejar qualquer outra? Miriam lhe ferira o orgulho e o corpo dele se
rebelara. Mas, durante o jantar, Ethan fora tão amável com a ex-mulher. Então aquilo
poderia não ter afetado a sua capacidade de desejá-la?
Miriam lhe declarara guerra no corredor e Arabella estava com medo de não ser
capaz de competir. Especialmente, quando se comparava à bela modelo.
Sua mente não lhe deu paz. Só bastante tempo depois, fechou os olhos e
conseguiu dormir, deixando todas as preocupações para trás.

As coisas pareciam um pouco mais claras, quando acordou na manhã seguinte.


Precisava ser mais segura. Poderia trabalhar a aparência e a personalidade. Quem sabe
se tornar parecida Miriam. Então, Ethan seria capaz de amá-la. Estava decidido. Ia vencê-
la, usando as próprias táticas da mulher contra ela.
Colocou o vestido mais bonito que havia no armário, um modelo de algodão verde-
claro, com decote quadrado, cintura justa e saia rodada. Era um modo sedutor e elegante
de se vestir e combinava com a cor dos seus olhos. Em seguida, prendeu o cabelo em um
coque no alto da cabeça e, deliberadamente, aplicou mais maquiagem do que o habitual.
Um par de brincos extravagantes, que ela nunca gostara, completou o traje. O resultado
era uma versão mais sofisticada de si mesma. Sorriu, dando uma última olhada no
espelho, e assentiu. Sim. Se era uma mulher sofisticada que Ethan queria, ela podia ser
essa mulher. Claro que podia!
Saindo do quarto, se dirigiu à escada e desceu entusiasmada. Se não fosse por
aquele gesso estúpido, estaria de fato parecendo sexy, pensou, olhando para a coisa
volumosa em seu braço. Bem, só faltavam mais alguns dias para ser retirado. Então,
poderia ir ao shopping e comprar algumas peças novas para o seu guarda-roupa.
Quando chegou à mesa do café, Ethan e Miriam já se encontravam lá, com Coreen
e a criada, Betty Ann, que se alternava entre a cozinha e a sala de jantar com os pratos
de comida.
Miriam e Ethan estavam distraídos conversando e não parecia ser uma conversa
hostil, porque ele falava sorridente e Miriam o escutava com atenção.
A mulher parecia diferente naquela manhã. Usava o longo cabelo preso em uma
trança, que lhe caía pelas costas, uma camiseta, um jeans e, no rosto, pouquíssima
maquiagem. Que mudança, pensou Arabella, quase histérica. Ela e Miriam pareciam os
opostos de si mesmas.
Ethan se virou e contraiu a mandíbula ao vê-la. Seus olhos se estreitaram com algo
que ela não conseguia definir.
— Bom dia — disse Arabella, com uma alegria que estava longe de sentir.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Debruçando-se sobre a figura alta de Ethan, roçou-lhe o nariz com os lábios. — Dormiu
bem? E você, Miriam? A manhã não está linda?
Miriam murmurou algo apropriado e concentrou-se em seu café, lançando-lhe um
olhar ferino, antes de levar a xícara aos lábios.
Arabella sentou-se, ainda cheia de entusiasmo, e serviu-se de uma xícara de café.
— Acho que Coreen e eu vamos a Houston hoje para comprar o meu vestido de
noiva, se você não se importar, Ethan — disse, em um tom casual. — Quero algo
requintado.
Ethan olhou para a xícara de café. Imagens do passado desfilaram diante de seus
olhos. Miriam havia dito algo semelhante, quando ficaram noivos. Inclusive Arabella
lembrava Miriam, naquele momento, tão sofisticada e espirituosa que parecia. Será que
teria se equivocado tão completamente com respeito a Arabella? Será que o que
importava para ela agora era o dinheiro, já que, pelo visto, não poderia retomar sua
carreira e ganhá-lo por conta própria? Ou estaria tentando competir com Miriam,
tornando-se o mesmo tipo de mulher? Mentalmente, descartou a última possibilidade.
Arabella sabia que ele não queria outra Miriam. Não cometeria o erro de tentar imitar uma
mulher que ele desprezava. Ele não podia sequer suportar o pensamento de outro
casamento parecido com o primeiro. Por que fora se comprometer? Queria se livrar de
Miriam, mas agora tinha a impressão de que cairia vítima da mesma armadilha.
Coreen entrou com um prato de biscoitos, deu uma olhada em Arabella e ficou
espantada.
— Arabella? Como... você está diferente, querida.
— Gostou? — perguntou ela, com um sorriso. — Resolvi vestir algo novo. Importa-
se de ir comigo a Houston, hoje?
Coreen pousou o prato de biscoitos na mesa.
— Claro. Se você quiser.
— Ora, não pense duas vezes. Pode ir — disse Miriam, com a voz rouca. — Eu
cuido do Ethan — acrescentou, dando um sorriso meio tímido ao ex-marido.
Ethan ficou calado. Ainda estava tentando absorver a mudança radical de Arabella.
Não lhe dirigiu a palavra durante todo o café da manhã e o comportamento dele começou
a deixá-la nervosa. Ao chegar, ela o encontrara conversando com Miriam amigavelmente,
e depois ele pareceu um pouco desconfortável quando ela mencionou o vestido de noiva.
Estaria arrependido? Será que não queria mais se casar com ela, depois de tudo?
De repente, Ethan se ergueu da mesa e se preparou para deixar a sala.
— Só um minuto, Ethan — Miriam o chamou depressa, aproveitando a
oportunidade. — Preciso lhe perguntar uma coisa. — A mulher correu para se unir a ele,
deu-lhe o braço sedutoramente e os dois saíram juntos.

— Que bela maneira de começar o dia! — disse Arabella, tomando sua segunda
xícara de café cerca de meia hora mais tarde.
Coreen afagou-lhe a mão.
— Não se preocupe com isso. É melhor nos apressarmos. Vou até a cozinha dizer
a Betty Ann que vamos sair.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Enquanto Arabella continuava pensando sobre a cena no café da manhã, o


telefone tocou e ela se ergueu para atendê-lo, já que Coreen e Betty Ann estavam
ocupadas.
Considerando o modo amargo como o dia começara, devia ser o pai dela, pensou,
no exato momento em que a voz cortante do homem soou do outro lado da linha.
— Como você está? — perguntou seco.
Arabella enrolou o fio do telefone ao redor dos dedos.
— Bem melhor, obrigada — respondeu, com a voz áspera.
— E a sua mão?
— Só saberei quando me retirarem o gesso.
— Espero que tenha tido o bom senso de pedir a opinião de um cirurgião
ortopédico — disse ele, após um minuto.
— Sim, vou me submeter a um exame com um especialista — respondeu. O pai a
fazia se sentir com 10 anos novamente. — Há uma boa chance de eu poder voltar a tocar.
— Seu anfitrião impetrou um interdito proibitório contra mim. Não posso sacar um
centavo do dinheiro que está em nossa conta conjunta. — Isso não foi justo da sua parte,
Arabella. Tenho que viver, também
Ela mordeu o lábio.
— Eu... eu sei, mas...
— Você vai ter que me enviar um cheque. Não posso abusar da hospitalidade do
meu irmão. Vou precisar de pelo menos uns 500 dólares para ir me virando. Graças a
Deus tínhamos um bom seguro. Quero que me ligue, dando notícias, assim que retirar o
gesso e se consultar com o especialista.
Arabella hesitou. Queria lhe dizer que ia se casar com Ethan, mas não conseguia
pronunciar as palavras. Era incrível como ele a intimidava, mesmo sendo uma mulher
adulta, agora. Era força do hábito, supôs. O pai sempre a dominara e continuava
dominando. Não passava de uma covarde, pensou irritada.
— Eu vou ligar — prometeu.
— Não se esqueça do cheque. Você sabe o endereço do Frank.
Isso foi tudo. Nenhuma palavra de afeto e conforto. Ele desligou o telefone.
Arabella ficou olhando fixamente para o receptor. Mas, antes que tivesse tempo para
demonstrar sua preocupação, Coreen estava de volta, e as duas partiram para Houston
no Mercedes-Benz preto de Coreen.

Percorreram o departamento de vestidos de noiva em uma exclusiva loja em


Houston durante uma hora, antes de
Arabella se decidir entre três sofisticados vestidos de grife. O escolhido era um
modelo tradicional, com rendado Alençon sobre um tecido de pele de pêssego branco e
um delicado decote em “V” que chegava à cintura, sem perder sua característica discreta.
Era singular e incrivelmente sensual, ao mesmo tempo. Ela optou por um véu tradicional,
com metros e metros de tecido que Ethan seria obrigado a levantar durante a cerimônia.
Sentia o senso de tradição até os dedos dos pés, porque se deitaria no leito nupcial
virgem.

70
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

O dia poderia ter sido perfeito se não fosse levemente arruinado pela atitude de
Ethan e a mudança de imagem de Miriam. Ainda não compreendia o que acontecera de
errado, assim tão repente, e mesmo enquanto experimentava o vestido se perguntava se
realmente teria a chance de usá-lo. Ethan podia mudar de ideia. E sequer poderia culpá-lo
por isso. Talvez achasse difícil desistir de Miriam, e o divórcio só se concretizara há três
meses. Coreen também havia dito que ele se mostrara mal-humorado durante esse
tempo. Arabella franziu o cenho olhando o vestido, enquanto a vendedora o dobrava com
cuidado em uma delicada caixa.
— Que bênção você ter um manequim perfeito. — Coreen sorriu. — Assim não há
necessidade de ajustes. É um bom presságio.
Arabella conseguiu esboçar um débil sorriso.
— Estou precisando de bons presságios.
A mulher mais velha lançou-lhe um olhar curioso, ao mesmo tempo em que
entregava o cartão de crédito à vendedora. Mas foi só mais tarde, após terminarem de
comprar tudo, até roupas íntimas de seda e renda e meias de nylon, no trajeto de volta a
Jacobsville, que ela finalmente resolveu lhe perguntar o que havia de errado.
— Eu gostaria de saber por que Ethan estava tão distante esta manhã —
respondeu Arabella.
— Coisa da Miriam, sem dúvida — disse Coreen, de modo brusco. — Não a
subestime. Ethan tem sido muito amável com ela e isso a agrada.
— Não vou subestimá-la. — Ela hesitou. — E também recebi um telefonema do
meu pai esta manhã. Pediu-me para enviar-lhe um cheque. — Arabella clareou a
garganta. — Bem, ele ainda é o meu pai — disse, na defensiva.
— Claro que é.
— Eu deveria ter pagado pelo vestido — disse, de repente. — Assim, se o
casamento não se realizar, não causaria um problema no orçamento de vocês.
— Olhe, querida, esse gasto não causaria um problema em nosso orçamento e
você sabe disso. — Coreen franziu o cenho. — A ideia de lhe comprar um vestido
assinado por um estilista famoso foi ideia do meu filho.
— Mas acho que Ethan mudou de ideia. Ele e Miriam pareciam estar se
entendendo muito bem no café da manhã — argumentou, infeliz.
A mulher exalou um suave suspiro.
— Oh, querida, eu gostaria de saber o que se passa na cabeça do meu filho mais
velho. Certamente, ele não deixará que aquela mulher o envolva outra vez!
— Miriam disse que ele sentia desejo por mim, quando se casou com ela —
Arabella deixou escapar. Seu lábio inferior tremeu. — E me acusou de arruinar o
casamento dela.
— Ethan sempre se sentiu atraído por você — confirmou Coreen, surpreendendo-
a. — Devia ter se casado com você, em vez de permitir que seu pai a levasse embora.
Ele nunca foi feliz com Miriam. Eu sempre senti que ela era apenas um paliativo para ele,
uma pobre substituta. Talvez Miriam tenha percebido, e foi o que fez com que as coisas
dessem errado.
— Atração não é amor. — Arabella virou a bolsa sobre o colo. — Posso não ser
muito sofisticada, mas sei disso.
— Você me parece bastante sofisticada, neste momento — Coreen reconfortou-a

71
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

com um sorriso. — Esse vestido é muito atraente e eu gosto do jeito como penteou o
cabelo. Ethan com certeza notou — acrescentou, maliciosa.
— Achei que Miriam estava recebendo toda a atenção dele esta manhã, e ele
parecia muito amável com ela.
— Os homens se comportam de modo estranho quando começam a pensar em
casamento — Coreen a assegurou. — Agora, pare de se preocupar. Ethan sabe o que
está fazendo.
Será?, perguntou-se Arabella. Talvez o estivesse ajudando a cometer um erro
ainda maior do que o primeiro.
E, quando chegaram ao rancho, ela encontrou mais motivos do que nunca para se
preocupar. Betty Ann descia a escada com uma bandeja quando Coreen e Arabella
entraram com a enorme caixa do vestido.
— Por que está descendo com essa bandeja a uma hora dessas? — Coreen
perguntou à governanta e franziu a testa.
Arabella tinha um leve pressentimento, mesmo quando Betty Ann falou.
— Ethan caiu — a empregada respondeu, lacônica. — Precisou ser levado ao
hospital para fazer um raio-X. — A mulher indicou a cabeça em direção à escada. — Ela o
levou.
— Ele está bem? — Coreen perguntou por ambas.
— Sofreu uma leve concussão, nada muito sério. Queriam mantê-lo internado, pelo
menos durante esta noite, mas ele insistiu em vir para casa. — A governanta suspirou. —
Desde então, está lá no quarto com ela e, quando não está exigindo coisas, está
xingando. — Ela olhou cautelosamente para Arabella. — Não sei o que Miriam disse ao
patrão, mas ele está ansioso para vê-la, Arabella. Muito ansioso e muito zangado.
Arabella sentiu os joelhos bambos. Seu pai teria ligado outra vez e falado sobre o
cheque que havia exigido? Ela sabia que Ethan ficaria furioso. Só não contava que ele
ficasse sabendo assim tão depressa. Como teria descoberto?
— Acho que é melhor eu ir até lá em cima vê-lo — murmurou.
— Nós vamos — disse Coreen sucinta.
As duas subiram a escada.
Encontraram Ethan deitado na cama, com um ferimento suturado na testa,
formando um padrão vermelho e preto em sua pele morena. Estava completamente
vestido e Miriam estava sentada à sua cabeceira, com um olhar angelical. Um verdadeiro
anjo servindo a Deus.
— Então, você finalmente voltou — Ethan começou, encarando Arabella. — Espero
que tenha gostado da viagem de compras.
— Você sabia que eu e sua mãe íamos comprar meu vestido de noiva —
respondeu, levemente na defensiva.
— É lindo e também um dos mais caros — destacou Coreen. — Um vestido de
grife.
— Sim, eu me casei com um desses — disse Miriam, com um olhar lânguido a
Ethan. — Eu não disse, querido?
— O que aconteceu com você? — perguntou Coreen.
— Fui derrubado — respondeu Ethan. — Isso acontece uma vez ou outra com

72
Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

qualquer cavaleiro. Estava ajudando Randy a domar o novo mustang que compramos de
Lucas Harper. Ao cair, bati com a cabeça na cerca. Não foi nada.
— Exceto uma concussão — murmurou a mãe.
— Obviamente ninguém se preocupou, exceto Miriam — disse enigmático, olhando
para a mãe e para Arabella.
Coreen o encarou.
— Pelo visto, está com um ótimo humor. Bem, vou ajudar Betty Ann. Você vem,
Miriam? — acrescentou, em um tom incisivo.
— Oh, não. Vou ficar aqui fazendo companhia a Ethan. Ele não deve ficar sozinho,
pois sofreu uma concussão — justificou Miriam, sorrindo, enquanto colocava a mão
protetora sobre ele.
Coreen saiu. Arabella não sabia o que fazer. Ethan não parecia precisar de
proteção contra a ex-mulher, e o modo como a olhava lhe dava ímpetos de sair correndo
dali.
— Você falou com o meu pai? — perguntou-lhe, hesitante.
— Não, não falei com seu pai — respondeu frio.
— Vá buscar uma cerveja para mim — ele pediu à ex-mulher.
Miriam parecia não querer sair, mas ele lançou-se um olhar cortante que a fez
deixar o quarto, relutante, os olhos correndo nervosamente de Ethan para Arabella.
Esse olhar nervoso fez mais sentido quando a mulher saiu e fechou a porta.
Ethan a fitou irritado.
— Obrigado pela preocupação. É muito bom saber que você não ligou a mínima ao
saber que caí de um cavalo!
Ela sentiu os joelhos fracos.
— O que disse?
— Você poderia ter dito à minha mãe, pelo menos — insistiu ele. Ao tentar se
sentar, fez uma careta de dor e levou a mão à cabeça, mas ao vê-la fazer um movimento
em sua direção repeliu-a com o olhar. — Mantenha distância, querida. Não quero a sua
atenção tardia. Miriam estava aqui, graças a Deus. Ela cuidou de mim
— Não entendo o que está dizendo — disse, exasperada.
— Você recebeu um telefonema, antes de sair do rancho, não é? — exigiu.
— Sim, é verdade, mas...
— Miriam lhe disse que eu me feri em uma queda e precisava que minha mãe me
levasse ao hospital, mas você não lhe disse nada — acusou. — Nem uma palavra. Estava
se vingando, porque não lhe dei atenção suficiente no café da manhã? Ou seria uma
forma de se vingar de mim por aquilo que aconteceu ontem à noite? Fui longe demais e
assustei a pobre donzela?
Arabella se sentiu zonza. Com certeza ele não estava racionando direito após a
pancada na cabeça, para fazer todas aquelas declarações grosseiras.
— Ethan, Miriam não me ligou — protestou. — Eu não sabia que você se feriu!
— Você acabou de admitir que recebeu um telefonema, logo não perca seu tempo
negando — e acrescentou furioso, quando ela ia começar a fazer exatamente isso, para

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

lhe explicar que fora o pai dela quem ligara, não Miriam:
— Nunca deveria ter me divorciado de Miriam. Pelo menos nos momentos de crise
ela se preocupa, e você não. Espero que a loja aceite a devolução do vestido, porque não
vou me casar com você! Agora saia do meu quarto!
— Ethan — explodiu Arabella, horrorizada, por ele realmente acreditar que ela
fosse capaz de um comportamento tão insensível.
— Só a trouxe para cá porque senti pena de você — prosseguiu ele, lançando-lhe
um olhar gelado. — Eu a desejo, é verdade, mas casamento é um preço demasiado alto
para se pagar por uma virgem mercenária com um par de caixas registradoras nos olhos.
Agora me dei conta de que eu estava certo, que tudo que lhe interessava era segurança
financeira, para você e, provavelmente, para o seu maldito pai! — Antes que ela pudesse
responder a essa acusação infundada, ele se sentou na cama. — Eu disse para sair!
Fora! Não quero vê-la de novo!
— Se acredita que sou uma mercenária, então vou embora — respondeu ela,
tremendo em um misto de dor e furia. — Pelo menos agora sei o que você, de fato, sente
por mim. Pena e desejo, o tempo todo.
Os olhos dele adquiriram um brilho prateado.
— O mesmo vale para mim. Você não é diferente do que Miriam era, disposta a
agarrar o que puder. Até sua aparência lembra a dela, agora!
Então era isso. Tarde demais, ela percebeu o que sua súbita mudança de
aparência e o seu interesse em um vestido de noiva caro deviam ter causado à mente de
um homem que fora usado por sua riqueza, no passado.
— Ethan, você não entende. — começou.
— Oh, sim, entendo — ele retrucou com veemência. Sua cabeça estava latejando.
Em algum lugar lá dentro, sabia que não estava sendo razoável, mas a dor e a indignação
não o deixavam raciocinar direito. — Suma daqui!
Arabella saiu. Mal podia enxergar através das lágrimas e quase esbarrou em
Miriam, que retornava com um sorriso de satisfação nos lábios. Seu temperamento
deflagrou ao observar a expressão presunçosa no rosto da outra mulher.
— Parabéns! Você conseguiu o que queria. Espero que sua consciência lhe
permita desfrutar essa vitória, se é que você tem uma.
Miriam se mexeu desconfortável.
— Eu disse que ele era meu.
— Ele nunca foi seu — retrucou Arabella, limpando as lágrimas com raiva. — E
também nunca foi meu, mas pelo menos eu o amava! Você só queria o dinheiro dele, eu a
ouvi dizendo isso antes do casamento. Não foi o seu coração que ele partiu, foi o seu ego.
Ele a desprezava e você não podia suportar isso! Agora, vai consegui-lo de volta, mas o
estará enganando mais uma vez. Você não o ama. E posso apostar todas as minhas
fichas que está grávida de outro!
Miriam ficou lívida.
— O que disse?
— Você ouviu muito bem. O que vai fazer? Levar Ethan para o altar e fingir que o
filho é dele? É exatamente o que ele precisa no momento, que você volte e termine o que
começou. Quase o destruiu uma vez. Quer concluir o trabalho?

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Eu preciso de alguém! — Miriam protestou.


— Experimente o pai da criança que você está esperando — retrucou Arabella.
Miriam colocou os braços ao redor do peito.
— Meu filho não é assunto seu. E nem de Ethan. Se ele de fato a amasse, jamais
teria acreditado que você fosse capaz de ignorá-lo quando ele se feriu.
Arabella assentiu em silêncio.
— Sim, eu sei disso — concordou, com um tom pesaroso. — E essa é a única
razão pela qual estou partindo. Se achasse que ele se importava comigo, mesmo que
fosse um pouquinho, eu ficaria e o disputaria com você até a morte. Mas, se é você que
ele quer, então eu me retiro. — Um riso amargo brotou em seus lábios. — Eu já devia
estar acostumada. Agi do mesmo modo quatro anos atrás e veja o quão feliz você o fez.
Miriam fez uma careta
— Pode ser diferente desta vez.
— É possível. Mas não será. Você não o ama — disse Arabella. — Esse detalhe é
o que torna tudo tão terrível, mesmo que ele a ame. — Terminando de falar, se virou e foi
para o quarto abalada pelo pensamento. Era como se a história estivesse se repetindo.
O vestido de noiva, na caixa, encontrava-se sobre a cama. Ela o colocou sobre
uma cadeira, se deixou cair sobre o colchão e desabou em prantos. Não importava que
Miriam fosse uma cobra que a atraiçoara pelas costas; o que mais a magoava era o fato
de Ethan não acreditar em sua inocência. Se não confiava nela, certamente não a amava.
Estava vivendo uma ilusão, pensando que o desejo dele por ela poderia se transformar
em amor. Agora sabia que isso jamais aconteceria. Desejo nunca fora suficiente para
compensar a falta de sentimento verdadeiro.
Amargando uma dor de cabeça, passou o resto da noite em seu quarto, recusando-
se até mesmo a jantar. Não suportaria ver o ar triunfante de Miriam e não tinha estômago
para outra discussão com Ethan. Sabia, através de uma dolorosa experiência, que, uma
vez tomada uma decisão, ele não voltava atrás. Precisava partir na manhã seguinte. Pelo
menos ainda dispunha de um pouco de dinheiro e seus cartões de crédito. Podia se virar
com isso e se hospedar em um hotel.
Seus olhos estavam vermelhos de lágrimas. Maldita Miriam! A outra mulher
encontrara a maneira perfeita de estragar tudo. Agora teria Ethan novamente, assim como
havia planejado. Bem, eles se mereciam, pensou. Não passavam de dois fingidos. Ethan
lhe dissera que tudo que sentia por ela era desejo, que tinha pena dela, e por isso a
trouxera para o rancho. Provavelmente, o pretexto de manter Miriam à distância fora
fictício, assim como a sua suposta impotência. Jamais acreditaria em outra palavra que
ele lhe dissesse, murmurou para si mesma com firmeza.
Se estava tudo terminado, o melhor a fazer era esquecê-lo. Se era Miriam que
Ethan queria, que ficasse com ela. Vestiu uma camisola, apagou a luz e se deitou. De
forma surpreendente, em segundos havia adormecido.

Coreen por fim conseguiu cinco minutos a sós com o filho mais velho. Miriam havia
cedido à sonolência e se retirado para os seus aposentos.
— Posso lhe trazer alguma coisa para comer? — perguntou a mulher. — Não
tivemos um jantar decente. Arabella foi para a cama horas atrás, com uma terrível dor de

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

cabeça.
— Que pena — Ethan respondeu frio.
Coreen fez uma careta para o filho.
— Que bicho o mordeu? Vamos, coloque para fora!
— Miriam ligou para a casa, antes de vocês partirem para Houston, dizendo que eu
precisava de uma carona para o hospital — explicou, em um tom seco. — Arabella sequer
se preocupou em lhe dizer. Pelo visto, a viagem de compras significava mais do que
qualquer pequena lesão na minha cabeça.
Coreen o fitou boquiaberta.
— O que está dizendo? Arabella recebeu apenas um telefonema, e foi do pai!
— É isso o que ela disse? — perguntou, dando uma risada amarga. — Como você
sabe? Por acaso falou com ele ou o ouviu?
Coreen aproximou-se da cama, com os olhos repletos de desaprovação e
preocupação.
— Pensei que gostasse de Arabella. Esperava que desta vez fosse capaz de
enxergar através do brilho exterior de Miriam a pessoa fria e egoísta que ela é. Talvez
esse tipo de mulher realmente o agrade porque você é tão incapaz de amar
verdadeiramente quanto ela.
As sobrancelhas de Ethan se ergueram.
— O quê?
— Você me ouviu. Não preciso de uma prova para acreditar que Arabella não
mentiu. Ela não partiria deixando um animal ferido, quanto mais uma pessoa. Acredito
porque a conheço, porque gosto dela. O amor e a confiança são dois lados da mesma
moeda, Ethan. Se você acredita que Arabella é capaz de um ato tão cruel, então sugiro
que esqueça essa história de casamento e coloque a aliança de volta no dedo de Miriam.
Santo Deus, agora eu sei que vocês dois se merecem.
Coreen se virou e deixou o quarto. Ethan pegou uma xícara na mesa de cabeceira
e a atirou com força de encontro à porta fechada. Sabia que estava aturdido, mas sua
mãe não tinha o direito de lhe dizer aquelas coisas. Por que Miriam mentiria sobre um
telefonema que ele certamente poderia verificar? Tudo o que precisaria fazer era obter o
registro de onde se originara a chamada, junto à companhia telefônica, para provar uma
mentira. Além do mais, Miriam vinha se mostrando diferente nos últimos dias. Parecia
mais carinhosa e atenciosa e, de fato, sua companhia o agradava. Os dois haviam
conversado e ela lhe contara sobre o homem por quem estava apaixonada. Ele fizera
tudo para incentivá-la a voltar ao Caribe e dar uma segunda chance ao romance. Logo,
isso significava que Miriam não estava mais interessada nele como homem e não tinha
razão alguma para tentar destruir o seu aparente romance com Arabella.
Ou seria tudo um ardil da parte dela para tê-lo de volta? Teria acusado Arabella
injustamente? Não queria nem imaginar uma coisa dessas, porque, se ela fosse inocente,
ele havia acabado de arruinar tudo. Mais uma vez. Ethan gemeu frustrado. Fora a
maneira de se vestir de Arabella que o levara a ser rude, as coisas que ela dissera sobre
comprar o vestido de noiva mais sofisticado que existisse nas lojas e depois o modo como
o magoara, dizendo que iria para Houston de qualquer maneira, apesar da sua condição,
segundo as palavras de Miriam.
Havia sofrido uma concussão e sua mente não estava funcionando direito. Tinha
certeza de que Arabella o amava, mas, quando Miriam lhe contou que ela havia partido

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

para Houston e não viria cuidar dele, chegou à conclusão de que fora enganado. Ela só
queria usá-lo, como Miriam fizera uma vez. Miriam vinha se comportando de forma tão
diferente ultimamente que ele estava certo de que havia mudado, que não era mais a
mesma mulher egoísta que fora um dia. Mas ela teria mudado mesmo?
Ou ele estava apenas suscetível porque sua cabeça latejava e Arabella o ferira
com sua atitude?
Deitou-se e fechou os olhos. Seu estado emocional estava abalado. Não podia,
nem queria, pensar sobre aquilo agora. Pensaria na manhã seguinte, quando sua cabeça
latejante tivesse melhorado. Então, enfrentaria o futuro, se é que ainda tinha um com
Arabella.

Capítulo Nove

Na manhã seguinte, Arabella acordou com o som de vozes no corredor. Sentou-se


na cama, com a camisola azul-clara amarrotada em torno do corpo esbelto. O longo
cabelo castanho formava um emaranhado que lhe caía pelos ombros. Então Mary bateu
de leve na porta, abriu-a e entrou apressada no quarto.
— Olá! — disse, sorrindo, enquanto a abraçava e colocava uma sacola cheia de
suvenires sobre a cama. Estava bronzeada, bem-disposta e linda. — É tudo para você. —
Camisetas, enfeites com conchinhas, colares, saias e até mesmo alguns cartões-postais.
Sentiu minha falta?
— Oh, Mary, sim, senti bastante — murmurou Arabella, com um longo suspiro,
abraçando-a de volta. Mary era a sua melhor amiga, uma amiga de verdade. — As coisas
estão ficando tão complicadas.
— Ouvi dizer que você e Ethan vão se casar. — Mary fitou-a entusiasmada.
O rosto de Arabella entristeceu.
— Sim. Bem, isso foi o que dissemos a Miriam O casamento foi cancelado.
— Mas e o vestido de noiva? — protestou a amiga, apontando para a caixa na
poltrona. — Coreen nos contou tudo.
— Será devolvido à loja ainda hoje — disse Arabella, em um tom de voz decidido.
— Ethan pôs um ponto final no casamento na noite passada. Ele quer voltar para Miriam.
Mary sentou-se muito quieta.
— Ele quer o quê?
— Voltar para Miriam — repetiu calmamente. — Ela está mudada. Pelo menos foi o
que ele disse. Os dois começaram a se entender muito bem nos últimos dois dias. — O
que era estranho, pensou, porque o mesmo ocorrera entre ela e Ethan nos últimos dois
dias. — Vou embora e ponto final — acrescentou, anunciando uma decisão que tomara
na noite anterior. — Odeio lhe pedir tal coisa justo quando você acabou de colocar os pés
fora do avião, mas se importaria de me levar a Jacobsville mais tarde?

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Mary quase se recusou, mas a expressão nos olhos da amiga acabou com todas
as suas palavras de esperança. O que quer que tivesse acontecido, Arabella estava
terrivelmente ferida.
— Tudo bem — concordou, com um sorriso forçado. — Eu a levarei. Ethan sabe
que você vai partir?
— Ainda não. Nem precisa saber. Ele caiu de um cavalo ontem e sofreu uma
concussão. — Arabella teve que engolir toda a sua preocupação. Não podia se dar ao
luxo de demonstrá-la. — Mas está passando bem. Miriam se encarregou de cuidar dele,
do jeito que ele quer. Ele mesmo me disse.
Mary sabia que a história estava incompleta, mas permaneceu calada.
— Vou deixá-la se vestir e fazer as malas. Deduzo que eu não deva dizer a
ninguém para onde você está indo, certo?
— Não, por favor.
— Certo. Desça quando estiver pronta.
— Está bem. Poderia levar, isso com você? — perguntou, apontando para a caixa
com o vestido de noiva.
Mary concordou, pensando que era uma pena Ethan ter esperado até o vestido ter
sido comprado para cancelar o casamento. Também não parecia se importar muito com
os sentimentos da noiva, porque ela estava obviamente arrasada.
— Eu a vejo daqui a pouco — disse Arabella, quando Mary caminhou para a porta
e saiu.
Vestiu um terninho sem muita dificuldade, deixando de lado o sutiã, que ainda não
conseguia fechar. Em seguida, arrumou seus poucos pertences com a mão sã e amarrou
um lenço ao redor do pescoço para servir de tipoia ao braço engessado, que pesava
quando ela se locomovia. Pegou a mala e, após uma última olhada ao seu rosto pálido,
sem maquiagem, deixou o quarto onde vivera momentos tão felizes e tão tristes.
Havia uma última coisa que queria fazer. Dizer adeus a Ethan. Tinha que admitir,
até para si mesma, o quanto esperava que ele mudasse de ideia.
Na verdade, naquele momento, Ethan estava tendo uma longa conversa com uma
Miriam calma e abatida. Ele lhe pedira para que dissesse a verdade, e ela, embora
relutante, confessara tudo. A mulher parecia estar com a consciência pesada pela
conversa que ele não sabia que ela tivera com Arabella, na noite anterior.
— Eu não deveria ter agido desse modo — disse ela, com um vago sorriso. —
Você tem se mostrado tão amável comigo, e percebi como tudo podia ter sido diferente se
tivesse me amado quando nos casamos. Eu sabia que não tinha chance contra Arabella,
então comecei a me envolver com outros homens para me vingar — confessou, pela
primeira vez, fitando-o nos olhos envergonhada. — Você deve se casar com ela. Lamento
muito pelas coisas que o fiz passar. E estou arrependida pela mentira que lhe contei
ontem.
Ethan sentiu dificuldade para respirar. Tudo em que conseguia pensar era no que
tinha dito a Arabella, na noite anterior. Estava fora de si, confuso e tomado pela ira.
— Eu cancelei o casamento — disse distraído e estremeceu.
— Ela o perdoará — afirmou Miriam, infeliz. — Tenho certeza de que Arabella o
ama. — Estendendo o braço, tocou-lhe o rosto com ternura. — E eu amo o meu Jared,
você sabe. — Ela suspirou. — Fugi por causa do bebê. Pensei que ele não fosse aceitar,

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

mas agora não tenho mais tanta certeza. Poderia pelo menos ter lhe dado o benefício da
dúvida, suponho. Não dormi ontem à noite pensando nisso. Vou telefonar-lhe esta manhã
e ver o que acontece.
— De repente, ele pode desejar o bebê tanto quanto você — retrucou, com um
sorriso à ex-mulher. — Fico feliz por nos despedirmos como amigos.
— Eu também. Não que eu mereça. Tenho sido um verdadeiro espinho no seu pé.
— Mas agora não é mais — assegurou ele.
— Vou dar o telefonema de que lhe falei. Obrigada por tudo. Sinto muito pelo que o
fiz passar. Você merece mais do que eu tinha para lhe oferecer. — Ela se inclinou e
beijou-lhe a boca com ternura.
Ethan retribuiu o beijo, pelos velhos tempos. Um beijo de despedida, entre amigos,
sem conotação sexual.
E foi isso que Arabella viu ao se aproximar da porta entreaberta. Um beijo repleto
de carinho que a fez se sentir uma voyeur. Então era verdade.
Eles haviam se reconciliado. Miriam o amava e agora voltariam a viver juntos,
felizes para sempre. Miriam vencera.
Curvou os lábios em um sorriso amargo e refez seus passos para que eles não
notassem a sua presença.
Ao descer a escada correndo, colidiu com Coreen.
— Estava subindo para ver Ethan. — disse a mulher, petrificada, olhando para a
mala de Arabella.
— Mary vai me levar à cidade — explicou ela, sua voz soando um pouco hesitante.
— E não iria incomodar Ethan agora, se fosse você. Ele está muito envolvido com a ex-
mulher.
— Oh, isso está ficando completamente fora de controle! — Coreen retrucou, em
um tom áspero. — Por que ele não me ouviu?
— Ele é apaixonado por ela, e isso é algo que não consegue evitar, você sabe.
Disse-me ontem à noite que foi apenas por pena que me trouxe para cá, depois do
acidente. Sente desejo por mim, mas ama Miriam. Nosso casamento seria um grande
erro. Agora é melhor eu ir, para não criar mais embaraços.
— Oh, minha querida — murmurou Coreen pesarosa, e abraçou-a calorosamente.
— Você sabe que as portas desta casa sempre estarão abertas para você. Vou sentir sua
falta.
— Sentirei sua falta também. Mary vai devolver o vestido de noiva à loja por mim,
mas... mas Miriam pode se interessar por ele — acrescentou, com altivez. — Só precisará
fazer alguns ajustes.
— Eu cuido do vestido — disse Coreen.
— Você vai ficar bem? Para onde está pensando em ir?
— Vou para um hotel. Depois telefonarei para o meu pai quando estiver
hospedada. Não se preocupe, tenho dinheiro, graças à intervenção de Ethan. Não vou
passar fome e posso cuidar de mim mesma. Mas obrigada por tudo que fez por mim.
Jamais vou esquecê-la.
— Jamais a esquecerei também, querida — disse Coreen, em voz baixa. —
Mantenha contato, está bem?

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— É claro. — Arabella mentiu com um sorriso nos lábios. Isso era a última coisa
que pretendia fazer, pelo bem de Ethan.
Após se despedir de Betty Ann e o intrigado Matt, seguiu Mary até o carro. Sequer
olhou para trás, enquanto deixavam a propriedade em direção à estrada.
Ao mesmo tempo em que Arabella entrara no carro, Miriam erguera a cabeça,
sorrindo para Ethan.
— Nada mau. Sinto muito que não tenha dado certo entre nós. Devo descer e
explicar tudo a Arabella e a sua mãe? — perguntou, com uma careta. — Acho que elas
vão me escorraçar pela porta dos fundos, quando eu contar a verdade.
— Receio que seja a minha cabeça que correrá perigo — disse ele, com tristeza.
— Não, eu resolvo esse assunto. É melhor você ir dar seu telefonema para o Caribe.
— Vou fazer isso agora mesmo. Obrigada.
Ethan observou-a sair do quarto e recostou-se aos travesseiros. Ouvira as vozes
de Matt e Mary e estava esperando que eles viessem até ali lhe dizer “olá”. Talvez
pudesse mandar chamar Arabella e tentar resolver as coisas, antes que fosse tarde.
Nesse instante, escutou a porta de um carro bater duas vezes e o ruído de um motor em
movimento. Mary e Matt não podiam estar saindo, pois mal haviam acabado de chegar,
pensou, franzindo o cenho.
Minutos depois, Coreen entrou furiosa em seu quarto e o fulminou com um olhar
gélido.
— Bem, espero que esteja satisfeito. Conseguiu o que queria. Ela acabou de partir.
Ethan sentou-se, com a expressão fechada.
— Quem acabou de partir? — perguntou, com uma sensação arrepiante de perda.
— Arabella — informou Coreen. — Ela disse que você cancelou o casamento.
Deixou o vestido para Miriam e pediu para parabenizá-lo pelo futuro novo casamento.
— Oh, pelo amor de Deus! — Irritado, Ethan jogou as pernas para fora da cama e
tentou se erguer, mas sua cabeça ainda girava com os efeitos colaterais do dia anterior.
Recostou-se novamente nos travesseiros e esfregou a testa. — Não vou me casar outra
vez com Miriam! De onde diabos ela tirou essa ideia?
— De você, suponho, depois do modo grosseiro como a tratou ontem à noite. E
algo deve ter acontecido aqui, porque Arabella disse que você e Miriam estavam muito
ocupados quando ela veio se despedir.
Ela o vira beijando Miriam. Lembrou-se do inofensivo beijo e percebeu que, aos
olhos dos outros, podia ser mal-interpretado. Gemeu em voz alta.
— Meu Deus, tenho um talento especial para arruinar minha vida — disse, com um
ruidoso suspiro. — Devo ter algum tipo de desejo suicida arraigado. Para onde ela foi?
— Para um hotel. Mary vai saber qual é.
Ethan ergueu a cabeça, e seus olhos pareciam angustiados.
— Ela vai ligar para o pai, e o maldito virá correndo para levá-la de volta.
— Você se esqueceu de quem foi que a empurrou porta afora, meu caro? —
perguntou a mãe, com um sorriso venenoso.
— Pensei que ela havia me abandonado — explodiu.
— Como se Arabella fosse capaz de uma coisa dessas! Como pode acreditar

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

nisso?
— Porque sofri uma concussão e estava meio fora de mim — respondeu irritado.
— E o que ela viu ao sair para ficar convencida de que Miriam precisaria do vestido
de noiva?
— Eu beijei Miriam. Isto é, ela me beijou — corrigiu. Ele ergueu as mãos. — Miriam
vai voltar para o Caribe e se casar com o pai do filho que está esperando, se tudo correr
bem. Foi um beijo de despedida.
— Tolo — disse Coreen, sem se alterar. — Quatro anos atrás, colocou o bem-estar
de Arabella acima do seu próprio. Casou-se com a mulher errada e enganou-a, bem como
a si mesmo. Agora jogou fora a segunda chance que a vida lhe deu. Por que não disse a
Arabella o que sentia por ela?
Ethan baixou o olhar. Algumas coisas ele não podia compartilhar, nem mesmo com
a mãe.
— Ela só pensa na carreira. Sempre foi assim. Aceitou vir para cá porque estava
convalescente e precisava de um pouco de segurança. No início se mostrou relutante à
ideia de se casar comigo. Acho que temia ser capaz de voltar a tocar e ficar presa a um
marido.
— É mais provável que ela receasse que você a estivesse usando para encobrir os
sentimentos que ainda nutria por Miriam — rebateu Coreen. — Ela disse que você só a
desejava, mas que amava Miriam. Arabella acredita nisso.
Ethan suspirou e deitou-se.
— Vou atrás dela, assim que minha cabeça melhorar.
— Não importa. Ela não vai voltar. Permitiu que você lhe destroçasse o coração
duas vezes. Não se arriscará novamente.
Ele abriu os olhos.
— O que quer dizer com lhe destroçar o coração?
— Ethan — disse Coreen, paciente. — Arabella era apaixonada por você há quatro
anos. Perdidamente apaixonada. Pensou que Miriam só estava interessada no seu
dinheiro, não em você. Tentou alertá-lo, mas você a acusou de interferir em sua vida e
Deus sabe mais do quê. Ela fugiu naquela ocasião e continuará fugindo. Nunca se
perguntou por que ela vinha visitar Jan e Mary somente depois de se certificar que você
não estaria aqui?
— Não, porque eu estava ocupado demais tentando evitar que nos víssemos —
respondeu, desviando o olhar. — Era muito doloroso. Eu estava casado, Miriam não
queria o divórcio. — Seus ombros subiram e desceram. — Não podia suportar o tormento
de vê-la e não poder tocá-la. — Ele olhou para mãe. — Como sabe dos sentimentos de
Arabella por mim? — perguntou.
— É simples. Ela escolheu a música como um modo de substituir o amor que
sentia por você, assim como você escolheu Miriam. Vocês dois são loucos. Que horrível
desperdício de tempo.
Ethan estava inclinado a concordar. Então, Arabella o amava. Deitouse e fechou os
olhos, tentando imaginar como teria sido sua vida se tivesse desistido de seus planos
para salvá-la, do que julgava ser um erro, e se casado com ela, naquela ocasião. Teriam
filhos agora, seriam uma família. Arabella dormiria em seus braços e fariam amor todas as
noites. Não podia suportar as imagens que o assombravam Acabara de afastá-la da sua

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vida pela segunda vez, com acusações idiotas, e talvez jamais conseguisse recuperá-la.
Ele ouviu a mãe deixar o quarto, mas não se incomodou em abrir os olhos.

Arabella se hospedou em um hotel no centro da cidade de Jacobsville. Havia vários


para escolher, mas o seu favorito era um em estilo adobe com culinária espanhola.
Acomodou-se em seu quarto, tentando não pensar no quanto era vazio, austero e
impessoal, comparado ao que ocupara no rancho dos Hardeman.
Mary não queria deixá-la ali, mas ela insistiu. Não podia continuar no rancho, agora
que sabia o que havia entre Ethan e Miriam. Era muito sofrimento. Partir fora a melhor
opção. Após desfazer as malas, pegou o telefone e ligou para o pai em Dallas. Tiraria o
gesso dentro de nove dias. Pedira-lhe que viesse encontrá-la ali e então os dois
regressariam a Houston. Ele havia sublocado o apartamento deles enquanto estava na
casa do irmão em Dallas, mas podiam alugar um por temporada. Era estranho, mas a
ideia de voltar a viver com o pai não a aborreceu. Não se sentia mais intimidada.
O tempo se passou e Mary veio visitá-la, mas Arabella estava relutante em ouvir
qualquer notícia proveniente do rancho, em especial sobre Ethan. Não queria saber o que
estava acontecendo na casa; seria muito doloroso. A única realidade era que ele não se
preocupara em lhe ligar, ou ir vê-la ou lhe mandar um cartão-postal, mesmo sabendo,
pelo que Mary havia lhe contado, a despeito de seus protestos sobre não ouvir notícias
referentes a Ethan, que Miriam mentira sobre o telefonema. Ele sabia, mas não quis pedir
desculpas pelas coisas horríveis que lhe dissera. Ele nunca pedia desculpas, refletiu. E, já
que Miriam ainda continuava vivendo com ele, por que se preocuparia?
A história deles pertencia ao passado agora.
Enquanto isso, Ethan tentava enfrentar a própria estupidez. Sabia que Arabella não
lhe daria ouvidos. E não podia culpá-la. Com certeza fora bastante eloquente em suas
acusações. Seu lado racional o aconselhou a deixar as coisas esfriarem por alguns dias,
antes de voltar a encontrá-la. Nesse meio-tempo, o noivo de Miriam decidiu que viria ao
Texas buscá-la. O casal se reconciliara pelo telefone, e Miriam estava nas nuvens desde
então, falando sem muita coerência, exceto quando se referia ao fazendeiro com quem ia
se casar. Ethan gostava da sua companhia, especialmente agora que estava bem e os
problemas haviam acabado. Era capaz de compreender o passado e o porquê de as
coisas terem dado errado. Miriam sofrera uma infeliz experiência com um amigo da
família quando criança. Como consequência, tinha dificuldades de se relacionar com os
homens, tratando-os com hostilidade. Só agora, segura pela gravidez e o amor do seu
fazendeiro, era capaz de lidar com o passado que a fizera ser o que era quando se casara
com Ethan.
Lamentou o fato de ter se decidido por Miriam, quatro anos atrás. Fora injusto com
ela, com Arabella e até consigo mesmo. Deveria ter seguido seus instintos, se casado
com Arabella e deixado a vida seguir seu curso, sem pensar nas consequências. Nunca
fora capaz de dar a Miriam nada além dos restos do seu desejo por outra mulher e,
eventualmente, nem isso. Na ocasião, não sabia que a infância da esposa tornara
impossível para ela entregar-se sem reservas a um homem. Miriam procurava o amor em
uma série de ligações físicas impossíveis que eram apenas brevemente satisfatórias.
Queria o amor dele, mas ele não podia lhe dar, e ela tentara puni-lo. Arabella, por sua vez,
também havia sofrido, presa a uma carreira que o pai controlava, sem nenhuma
esperança de escapar.
Ficara emocionado quando Coreen lhe dissera que Arabella o amara com loucura

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

no passado. Mas não sabia o que ela sentia agora. Talvez o odiasse. Pensara em ir à
cidade três vezes nos últimos dias, mas não tivera coragem. Ambos precisavam de
tempo.
Ao descer a escada, encontrou-se com Mary, que vinha subindo. Parou-a no meio
dos degraus, tentando não parecer tão infeliz quanto se sentia.
— Como ela está? — perguntou sem rodeios, porque sabia que a cunhada tinha
ido ver a amiga.
— Solitária. — A resposta soou suave. — Vai tirar o gesso na terça-feira.
— Sim — Ele olhou para fora, além da linha arborizada do horizonte. — E o pai
dela já chegou?
— Chega na terça-feira. — Mary hesitou. — Arabella não quer ouvir falar de você.
Ela não me parece bem.
Ethan olhou para a cunhada com os olhos cinzentos flamejando.
— Ninguém a mandou partir — disse em um tom cortante, irritado com o
comentário.
— E como ela poderia continuar aqui, sabendo que você ia se casar com Miriam
outra vez? Quer saber de uma coisa? Acho que vocês dois se merecem — acrescentou
Mary, manifestando sua desaprovação pela primeira vez, dando-lhe as costas e se
afastando, antes que ele pudesse corrigir a impressão errada que tinha da situação.
O que estava fazendo todos pensarem que ele ia se casar com Miriam outra vez?
Desceu os últimos degraus, exalando um suspiro exasperado. Talvez porque nem ele
nem Miriam haviam contado ao restante da família o que estava acontecendo. Bem,
quando o fazendeiro chegasse esse quadro mudaria. Por enquanto, não se admoestaria
com os problemas de Arabella. Se continuasse pensando nisso por mais tempo, com
certeza acabaria louco.
Mary e Matt ignoravam Miriam desde a partida de Arabella, e Coreen a tratava com
tanta frieza que corria perigo de o ar congelar entre as duas. Ethan tentava compensar a
atitude da família, o que só reforçava as especulações sobre seu novo envolvimento com
a ex-mulher.
O namorado de Miriam e o pai de Arabella chegaram à cidade ao mesmo tempo.
Enquanto Jared era apresentado aos Hardeman, Arabella estava retirando o gesso e
recebendo a notícia de que sua mão se curara quase com perfeição. O pai sorrira para o
especialista, mas apenas por alguns segundos.
— Quase com perfeição — repetiu o doutor Wagner, franzindo a testa ao fitar o pai
de Arabella. — Traduzindo, isso significa que a senhorita Craig vai voltar a tocar piano.
Infelizmente, também significa que ela jamais recuperará a antiga maestria. Tendões
rompidos nunca mais são os mesmos, pela simples razão de que ao serem unidos
acabam sofrendo um encurtamento. Sinto muito.
Arabella não percebeu o quanto estava contando com um prognóstico favorável e
caiu em prantos.
O pai esqueceu-se da própria decepção ao vê-la chorando. Desajeitado, tomou-a
nos braços e a abraçou, afagando-lhe inutilmente as costas, enquanto murmurava
palavras de conforto.
Os dois saíram para jantar naquela noite. Arabella vestiu um sofisticado vestido
preto com miçangas e prendeu o longo cabelo na altura da nuca. Estava elegante, mas,
mesmo sem o pesado gesso, sentia-se desalinhada. A pele que ficara por baixo do gesso

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estava anormalmente pálida e exibia cicatrizes. Mas ela manteve a mão sobre o colo e,
sob a atmosfera tênue do restaurante, estava certa de que ninguém havia notado.
— O que vamos fazer? — perguntou, em voz baixa.
O pai suspirou.
— Bem, agora, vou negociar o lançamento de um disco com algumas músicas
inéditas e relançar as mais antigas. — Ele a fitou, do outro lado da mesa. — Não tenho
sido um bom pai, não é? Praticamente a abandonei depois do acidente. Com certeza
deve ter pensado que eu não queria mais saber de você, se não pudesse voltar a tocar
para nos manter.
— Sim, é verdade — confessou.
— O acidente me fez recordar aquele que vitimou sua mãe — disse o homem. Era
um assunto no qual nunca havia tocado antes, mas ela sentiu que o pai queria tirar um
enorme peso do peito. — Arabella, ela morreu porque eu bebi demais em uma festa.
Estava ao volante e o álcool havia comprometido os meus reflexos. Não houve acusações
— acrescentou, com uma risada fria ao olhar a expressão da filha. — Na verdade, meus
níveis no bafômetro não eram altos o suficiente para me declarar legalmente bêbado. Mas
a polícia sabia, e eu também, que eu poderia ter reagido rapidamente e evitado o outro
carro. Ela morreu na hora, e desde então convivo com essa culpa. — Ele se recostou na
cadeira, traçando desenhos na condensação do seu copo de água. — Não podia admitir
meu erro. Enterrei o passado em minha mente e me concentrei em você. Daí em diante,
seria um homem nobre, dedicaria a minha vida ao seu talento, à sua gloriosa carreira. —
O pai estudou-lhe o rosto. — Mas você não queria uma carreira de sucesso, não é?
Queria Ethan Hardeman.
— E ele queria Miriam, então que diferença faz agora? Na verdade... — prosseguiu
ela, sem encará-lo — Miriam voltou, e os dois estão se reconciliando.
— Sinto muito, minha filha. — Ele a estudou. — Sabe, o acidente me fez refletir
bastante sobre a morte da sua mãe, a vida sem ela e a tristeza de ter que conviver com a
minha culpa. — Ele estudou-lhe os dedos unidos sobre a mesa. — Você precisava de
mim, e eu não podia suportar enfrentá-la. Cheguei tão perto de perdê-la do mesmo jeito
que perdi sua mãe...
Sua voz embargou e Arabella, de repente, viu o pai como um homem. Apenas um
homem, com todos os medos e falhas de qualquer outro ser humano. Ficou chocada ao
perceber que ele não era onipotente. Os pais sempre pareciam ser, de alguma forma.
— Não me lembro de como a mamãe morreu — disse ela, procurando as palavras.
— E certamente não o culpo pelo nosso acidente. Não havia nada que pudesse ter feito.
Verdade — enfatizou, quando ele ergueu os olhos atormentados. — Pai, eu não o culpo.
O homem mordeu o lábio inferior com força e desviou o olhar.
— Bem, eu me sinto culpado. Liguei para Ethan, porque não havia ninguém, mas
também pensei que podia ser uma maneira de compensá-la por tê-la afastado dele anos
atrás. Percebi que, com a sua mão daquele jeito, Ethan podia decidir deixar de ser nobre
e dar-lhe uma chance.
— Obrigada — murmurou ela. — Mas tudo que Ethan quer é a ex-mulher de volta.
Talvez seja melhor assim. Há quatro anos, eu venerava o chão que ele pisava, mas agora
estou mais velha.
— E continua apaixonada por ele — o pai concluiu, sacudindo a cabeça. — Todos
os meus esforços foram em vão, não é? Tudo bem, filha. O que você quer fazer agora?

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Arabella ficou espantada pelo pai estar pedindo a sua opinião. Era a primeira vez
que o fazia, assim como era a primeira vez que ela se dava conta de que ele era humano
e falível. Gostava mais dele assim Era um relacionamento totalmente novo, porque ele a
estava tratando como uma adulta pela primeira vez.
— Bem, eu não quero ficar em Jacobsville — disse convicta. — Quanto mais cedo
partirmos daqui, melhor.
— Acho que terei de ir a Houston primeiro para alugar um apartamento. Depois
tratarei de arrumar um emprego. Já passei tempo demais dependendo de você. Agora
está na hora de ter a sua própria vida. É um direito seu. Só lamento ter sido necessário
outro acidente, quase fatal, para me fazer recuperar o bom senso.
Arabella segurou-lhe a mão e a apertou calorosamente.
— Você tem sido muito bom para mim, meu pai — disse com a voz suave. — Não
tenho do que me queixar.
— Você tem certeza sobre Miriam? — ele perguntou, com uma careta. — Porque
não acredito que Ethan realmente queira se casar com ela outra vez. Ficou louco quando
lhe telefonei, dizendo que você havia se ferido em um acidente de carro.
— Sim, tenho certeza — disse ela, fechando o livro sobre aquele assunto para
sempre.
Craig cedeu.
— Está bem. Vamos começar de novo. E não se preocupe com a mão —
acrescentou. — Se não puder voltar a tocar, sempre poderá dar aulas — disse, com um
sorriso gentil. — Dá uma enorme satisfação ver alguém que você preparou se tornar
famoso. Acredite no que estou dizendo.
Arabella sorriu.
— Posso viver com isso. — No fundo, estava quase aliviada. Adorava tocar piano,
mas não gostava das turnês, das intermináveis viagens rodoviárias, dos concertos. Agora
haviam acabado para sempre, e não sentiria falta alguma.
O pai partiu na manhã seguinte para Houston, no carro que alugara para a viagem
até Jacobsville. Arabella acordou tarde e decidiu almoçar no restaurante do hotel.
Os pratos com frutos do mar eram deliciosos. Ela fez o pedido e se recostou para
aguardar.
Incrível como sua vida mudara, pensou, quando por fim resolveu enfrentar o que o
cirurgião dissera sobre a sua mão. O que poderia ter sido traumático não foi de todo.
Aceitara com relativa facilidade. E, é claro, a nova atitude de seu pai também ajudara.
Naquele instante, sentiu uma sombra sobre ela e virou-se com um sorriso
automático para o garçom. Mas não era o garçom Era Ethan Hardeman.

Capítulo Dez

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Arabella havia treinado as feições para não refletirem os seus sentimentos. Fitou
Ethan com uma expressão vazia, enquanto seu pobre coração acelerava e se alimentava
daquela visão.
— Olá — disse ela. — Que bom ver você. E a Miriam, não veio? — acrescentou,
olhando além dele.
Após colocar o chapéu sobre uma cadeira vazia, Ethan se acomodou na cadeira ao
lado dela.
— Miriam vai se casar.
— Sim, eu sei.
Então Mary já havia lhe dito, pensou ele. Não era nenhuma surpresa. Afinal, a
amiga vinha vê-la quase todos os dias. Seus olhares se cruzaram por um momento, mas
Arabella rapidamente baixou a cabeça, focando-se no casaco esporte bege que ele usava
sobre uma camisa de seda branca e uma gravata listrada.
Ethan brincou com os utensílios sobre a mesa.
— Eu queria ter vindo antes, mas pensei que você precisava de um pouco de
tempo para si mesma. O que o médico disse sobre a sua mão? — acrescentou.
Arabella conseguiu disfarçar as emoções muito bem. Para salvar seu orgulho, tinha
que demonstrar frieza. Não o deixaria ficar a par da sua situação. Além do mais, Ethan ia
se casar, e ela lhe desejava toda a felicidade do mundo. Não precisava perturbá-lo com
seus problemas.
— Está tudo bem. Terei que fazer um pouco de fisioterapia, então estou de partida
para Nova York, recomeçar de onde parei.
Os músculos do rosto dele enrijeceram de modo involuntário. Estava certo de que
ela jamais voltaria a tocar, sabendo como a sua mão fora afetada pelo acidente. É claro
que já havia técnicas modernas de reparação de danos a tendões, mas isso não o fez se
sentir melhor. Esperara tempo demais para vir se redimir com ela. Se tivesse lhe dito
como se sentia no início, se tivesse revelado seus sentimentos, as coisas poderiam ter
sido diferentes. Toda a sua vida parecia estar ruindo, e por causa do seu maldito
anacronismo.
— Então conseguiu o que queria? — perguntou, fitando-a através da mesa.
— Sim. E você também — lembrou-o, com um forçado sorriso. — Do fundo do meu
coração, espero que você e Miriam sejam muito felizes.
Ethan ficou boquiaberto. Nesse meio-tempo, o garçom se aproximou com a salada
e parou para perguntar a Ethan se ele decidira fazer o pedido. Distraído, ele acabou
pedindo um bife, salada e café.
— Arabella, não vou me casar.
Ela piscou.
— Você acabou de dizer que ia.
— Eu disse que Miriam ia se casar.
— Qual é a diferença?
Ethan exalou um profundo suspiro.
— Ela vai se casar com um homem que conheceu no Caribe. Ele é o pai do filho

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dela.
— Oh! — Arabella viu o jeito como ele girou o copo de água, com os olhos baixos,
o rosto tenso. — Sinto muito — murmurou. — Hesitante, estendeu o braço e tocou-lhe
uma das mãos.
Ethan sentiu como se uma corrente elétrica se irradiasse pelo seu corpo. Ergueu o
olhar para encará-la, enquanto seus dedos se entrelaçavam aos dela. Sentira mais falta
de Arabella do que gostaria de admitir. Sua casa e sua vida ficavam vazias sem ela.
— Importa-se de me confortar? -perguntou ele, meio sério. — Ela e o noivo ficarão
no rancho por mais alguns dias. — Baixou os olhos para suas mãos unidas de modo que
ela não percebesse o desejo que os escurecia. — Você poderia voltar comigo e ajudar-me
a desenredar essa situação até eles partirem.
Arabella fechou os olhos por alguns instantes.
— Não posso.
— Por que não? É só por alguns dias. Você poderia ficar no seu antigo quarto.
Coreen e Mary adorariam desfrutar da sua companhia.
Era muita tentação e ela quase fraquejou, mas seu orgulho ainda estava sofrendo
com a surra que havia tomado.
— Não, Ethan.
Os dedos dele se contraíram.
— Ajudaria se eu lhe pedisse desculpas? — perguntou. — Não queria tratá-la
daquela maneira rude. Deveria ter confiado em você, mas estava meio fora de mim e
acreditei em tudo que Miriam disse.
— Pensei que você me conhecesse melhor — respondeu ela infeliz. — Acho que
amor e confiança são sentimentos que precisam caminhar juntos.
Ethan se encolheu. Sentia como se tivesse uma estaca atravessada no coração.
Sim, deveria ter confiado nela.
Mas não confiou e agora ela estava fugindo, porque ele a havia ferido mais uma
vez. Não podia deixá-la partir. Não importava o que fosse preciso fazer.
— Olhe, querida — disse com a voz sedosa, persuadindo-a a fitá-lo nos olhos. —
Sei que foi difícil para todos nós ter Miriam por perto. Mas ela irá embora logo.
Levando o coração de Ethan com ela, pensou Arabella. Deus, como desejava que
ele pudesse amá-la!
— Meu pai e eu partiremos para Houston tão logo ele consiga encontrar um
apartamento por lá.
A mandíbula dele se contraiu. Não contava com aquela complicação, embora
devesse ter esperado por isso. Arabella queria dar sequência à carreira, que era o
sustento dela e do pai.
— Você pode ficar lá em casa até que ele encontre um — sugeriu, seco.
— Estou bem aqui no hotel — protestou.
— Bem, mas eu não estou feliz com você aqui — retrucou. Seus olhos cintilaram
com sentimento. — Admito que fui o culpado de tudo. Estávamos bem, até eu começar a
tirar conclusões precipitadas.
— É melhor assim — Ela procurou-lhe o rosto. — Imagino que deve ter sido muito

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

doloroso para você saber que a perderia novamente.


— Se você soubesse. — ele respondeu, com a voz profunda e lenta, mas não
estava pensando em Miriam. Levando-lhe os dedos aos lábios, mordiscou-os,
observando-a enrubescer e fitá-lo com um brilho suave em seus olhos verdes. — Venha
para casa comigo — pediu. — Pode deitar na minha cama com aquela camisola de cetim
e vamos fazer amor de novo.
— Cale-se! — exclamou ela, olhando em volta para se certificar de que não foram
ouvidos.
— Você está corada.
— Claro que estou. Quero esquecer que isso aconteceu — murmurou. Nervosa,
tentou afastar os dedos, mas ele a segurou com firmeza.
— Poderíamos proporcionar a Miriam e ao noivo uma grande despedida — ele a
persuadiu. — No momento em que ela fosse embora, estaria convencida de que não
fiquei com o coração partido.
— E por que eu deveria lhe fazer outro favor? — exigiu.
Ethan a encarou.
— Não posso pensar em uma única razão — confessou, com um sorriso tranquilo e
caloroso. — Mas espero que venha comigo, assim mesmo. Talvez eu possa me redimir da
maneira como a tratei.
Irritada e com o rosto pegando fogo, Arabella afastou os dedos.
— Fazendo amor comigo, não é? Acha que estou tão desesperada que ficarei grata
com as migalhas que sobraram do seu relacionamento com Miriam? — perguntou, sem
rodeios.
— Não. Não acho nada disso. — Ethan sustentou-lhe o olhar, tentando encontrar
algum sinal de que ela ainda sentia algo por ele, de que não havia arruinado tudo. Que
poderia ter uma última chance antes que ela retomasse a carreira, de fazê-la entender o
quanto a amava e se importava com ela. — Eu a ouvi tocar algumas vezes. — Baixando o
olhar, acariciou-lhe as mãos com ternura. — Você tem muita habilidade nestas mãos. Fico
feliz que não tenha perdido o talento, mesmo que isso signifique que terei que deixá-la
partir mais uma vez. — E deixaria, mas agora lhe restava a esperança de que não seria
uma perda permanente. Se conseguisse convencê-la de que a amava, ela poderia voltar
para ele algum dia.
Arabela queria falar. Queria fazê-lo confessar, dizer que o que sentia por ela era
apenas desejo, mas o garçom chegou com o pedido e o momento se perdeu.
Depois, não conseguiu encontrar coragem para voltar ao assunto, especialmente
quando Ethan começou a falar sobre Miriam e o namorado que cruzara o oceano para vir
buscá-la.
Após o almoço, ele a esperou fazer as malas e deixar uma mensagem na
secretária eletrônica para o pai, dizendo para procurá-la no rancho dos Hardeman.
Arabella estava voltando ao rancho contra a vontade, mas não pôde resistir à tentação.
Nos longos anos que teria pela frente, pelo menos lhe restariam algumas lembranças de
momentos felizes.
Durante o trajeto, Ethan dirigia com uma expressão distante e um olhar pensativo.
— A marcação do gado terminou - anunciou, enquanto acelerava pela estrada de
Jacobsville. — É bom ter um pouco de tempo livre.

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— Imagino que sim. — Ela olhou através da janela, para o enorme curral de
engorda que parecia estender-se infinitamente na direção do horizonte. - Os irmãos
Ballenger ainda são os proprietários deste curral?
— Sim — respondeu ele, seguindo o olhar dela. — Calhoun e Justin estão
faturando bastante com o gado. Isso é bom, já que não param de aumentar a família.
Calhoun e Abby têm um filho e uma filha, e Justin e Shelby têm dois filhos.
— O que aconteceu com o irmão de Shelby, Tyler? — perguntou distraída.
— Tyler se casou com uma moça do Arizona. Não têm filhos ainda, mas o hotel
fazenda deles ganhou fama. Ele e a esposa o expandiram para incluir uma autêntica vila
do Velho Oeste como atração turística e ampliaram as instalações. Parece que estão
fazendo fortuna, também.
— Que bom — disse Arabella, e olhou para o chão do veículo. — É bom saber que
os habitantes locais estão progredindo.
— Pensamos o mesmo sobre você, quando começou a fazer sucesso e a aparecer
nas manchetes dos jornais. Todos nós sabíamos que tinha talento.
— Mas não ambição — ela confessou. - Meu pai tinha por nós dois. Eu só gostava
da música. E continuo gostando.
— Bem, vai voltar a tocar novamente quando terminar a fisioterapia, suponho —
disse ele, a voz soando seca.
— Claro — murmurou Arabella, olhando para a pele branca da mão. Então,
flexionou os músculos, sabendo que jamais voltaria a ser a mesma.
Ethan captou algo em sua expressão que o deixou intrigado e muito quieto durante
todo o caminho até o rancho.
Miriam e o noivo estavam radiantes como recém-casados. Até mesmo Coreen
parecia ter mudado de comportamento em relação à ex-nora.
— Eu realmente sinto muito por ter criado tantos problemas para você e Ethan —
disse a mulher quando as duas ficaram a sós, durante alguns breves minutos, no meio da
tarde. Em sua recém-descoberta felicidade, Miriam podia se dar ao luxo de ser generosa
e perceber o mal que causara a Ethan. - Eu queria vingança. Mas a culpa não foi sua ou
de Ethan, por ele não me amar. - Olhou para o noivo, um homem alto, elegante e
agradável, e seu rosto suavizou com emoção. — Jared é o homem dos meus sonhos.
Fugi porque achava que ele não ia assumir o nosso filho. Estava com a cabeça confusa.
Acho que pensei em voltar para Ethan apenas para me vingar de Jared. — Ela olhou para
Arabella com um pedido de desculpas silencioso. — Sinto muito. Espero que desta vez
vocês dois se acertem.
Isso não seria mais possível, mas era bom saber que Miriam se preocupava com a
felicidade de Ethan, mesmo que tardiamente. Arabella conseguiu esboçar um sorriso.
— Obrigada. Espero que você seja feliz também
— Eu não mereço, mas também espero — murmurou a outra mulher. Com um
sorriso tímido nos lábios, se virou e voltou para perto do noivo.
Mary observava Arabella com um olhar curioso. Mais tarde, puxou-a para um lado.
— O que está acontecendo? Quase caí para trás quando a vi entrar com Ethan.
Vocês fizeram as pazes?
— Na verdade, não. Ele quer que eu o ajude a fingir que não está com o coração
partido por causa da partida de Miriam — disse Arabella, seus olhos rumando em direção

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a Ethan como pombos-correios voltando para casa.


Mary percebeu aquele olhar e sorriu em silêncio.
— Não creio que ele seja capaz de passar essa impressão. Não, considerando a
maneira como não tira os olhos de você, desde que a trouxe para cá.
Arabella riu sem entusiasmo.
— Está apenas fingindo.
— É esse o nome que se dá a isso? - murmurou Mary, com ironia. — Bem, ignore
os fatos enquanto pode.
— Pensei que eu estava. — Sua voz sumiu quando encontrou o brilho dos olhos
cinzentos de Ethan, e se perdeu no desejo feroz que os dominava. O restante do mundo
pareceu desaparecer. Não desviou o olhar, nem ele, e a eletricidade crepitou entre os dois
por um doce, longo e doloroso minuto. Então, Coreen o chamou, e Arabella pôde respirar
novamente.
Pelo resto do dia, Ethan permaneceu em casa. Depois do jantar, enquanto os
demais assistiam a um filme na sala de estar, Arabella pediu licença e subiu. No quarto,
vestiu uma calça jeans confortável, uma blusa branca e desceu, furtivamente, pela escada
dos fundos em direção à biblioteca, para tentar tocar piano pela primeira vez, desde o
acidente.
Fechou a porta de modo silencioso, para que ninguém a ouvisse. Posicionou a
banqueta do piano com cuidado e sentou-se, abrindo a tampa sobre o teclado. Era um
piano de cauda. Coreen também tocava e o instrumento se encontrava afinado. Ela
dedilhou uma escala em dó maior com a mão esquerda.
Muito bom, pensou, sorrindo. Em seguida, colocou a mão direita no teclado.
Tremeu e o polegar protestou quando tentou tocar a nota fá. Arabella fez uma careta.
Tudo bem, pensou, depois de um minuto. Talvez ainda não estivesse preparada para as
escalas. Quem sabe, se tentasse uma melodia mais simples, fosse mais fácil.
Escolheu um noturno de Chopin, uma peça para iniciantes que costumava tocar em
suas primeiras lições. Começou bem devagar, mas isso não fez diferença. Sua mão
estava trêmula e se recusava a cooperar. Gemeu e desabou as duas mãos com
desespero sobre o teclado, prevendo meses de fisioterapia pela frente, antes de poder
executar uma escala, e talvez anos antes de poder voltar a tocar normalmente.
Estava tão distraída que não ouviu Ethan entrar, tampouco fechar a porta. E nem
se deu conta que ele se encontrava no recinto, observando-a. O barulho de suas mãos no
teclado do piano despertou-lhe a curiosidade, atraindo-o até lá. Imaginou que ela
provavelmente estaria se sentindo frustrada e que levaria um longo tempo até que sua
mão recobrasse a habilidade para suportar o tormento da prática prolongada.
Só quando caminhou até ela e se sentou ao seu lado na estreita banqueta foi que
Arabella olhou para cima e o viu.
— Não consegue tocar, não é? — Ele ouvira tudo do lado de fora da porta. Sabia a
verdade agora. — Ainda levará algum tempo. Tenha um pouco de paciência.
Arabella soltou o ar lentamente. Então, ele não sabia. Bem, pelo menos seu
orgulho estava a salvo.
— Claro, com certeza. — Fitou-o nos olhos e sentiu o coração apertado. - Então,
não precisa sentir pena de mim. Ainda sou capaz de tocar. Apenas preciso de um pouco
mais de tempo para me curar e depois praticar bastante.

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— É claro. — Ele olhou para o teclado. — Dói, não é? Por isso disse que senti
pena de você.
— A verdade é sempre o melhor caminho — disse confusa.
Ethan se moveu, os olhos fixos nos dela.
— O que você e seu pai pretendem fazer até que possa voltar a tocar?
— Ele vai lançar no mercado um disco com as últimas canções que gravei e
reeditar algumas faixas antigas - respondeu. Sua mão esquerda tocou no teclado com
reverência, e ela lamentou imensamente a perda de suas habilidades. E sequer podia
externar esse sentimento. Então, se focou no peito largo de Ethan, porque não ousaria
encará-lo e admitir tal fato. — Então, como pode ver, não preciso me preocupar com
problemas financeiros. Papai e eu vamos cuidar um do outro.
Ethan inalou o ar, irritado.
— Será que ele vai sair vitorioso outra vez? — A pergunta foi feita em um tom frio.
Arabella afastou-se, intrigada com a fúria no tom dele.
— Outra vez?
— Permiti que ele a tirasse daqui antes — respondeu, o queixo tenso, os olhos
cinzentos faiscando. — Eu a deixei ir embora, porque ele me convenceu de que você
precisava mais da música do que de mim. Mas não farei o mesmo agora, Arabella.
Ela hesitou.
— Você... você amava Miriam.
O rosto dele enrijeceu.
— Não.
— Você só sente desejo por mim — ela recomeçou, buscando os olhos de Ethan,
enquanto seu coração ameaçava fugir com ela. — E não o suficiente para se casar
comigo.
— Não.
Nervosa, Arabella afastou o longo cabelo para trás. Ele a estava confundindo.
— Não pode dizer algo além de “não”? — perguntou.
— Coloque suas pernas aqui. — Ethan a reposicionou na longa e estreita banqueta
do piano, de modo a deixá-la de frente para ele. Em seguida, acomodou-lhe as pernas
suavemente sobre as suas, ficando na posição mais íntima que já haviam compartilhado.
As mãos magras e fortes a enlaçaram pela cintura, atraindo-a com força para si. Sem
deixar de fitá-la, se moveu, deliberadamente, fazendo-a sentir, com uma ênfase chocante,
a crescente excitação de seu corpo.
As unhas de Arabella se cravaram em seus ombros.
— Ethan, pelo amor de Deus! - protestou horrorizada.
Mas, apesar de seus esforços para se libertar, ele a manteve cativa naquela doce
prisão. Tinha a mandíbula tensa e a respiração instável.
— Não a deixarei partir — murmurou, com a voz rouca. — Você vai se casar
comigo.
Arabella não podia acreditar no que estava ouvindo. A sensação daquele corpo
contra o seu estava quase acabando com a sua capacidade de raciocinar.

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— Diga que sim — implorou ele, inclinando-se em direção à sua boca. - Diga
agora, ou, que Deus me ajude, mas vou fazer amor com você aqui mesmo! - Suas mãos a
puxaram mais para perto. O movimento a fez sentir a realidade física da ameaça.
— Sim — concordou em um fio de voz. Não porque o temesse, mas porque o
amava demais para recusá-lo pela segunda vez. Então, suas bocas se uniram
novamente. Desesperada, agarrou-se a ele como uma hera, vivendo através de sua boca,
de suas mãos e de seu corpo.
De alguma forma, Ethan conseguira livrá-los das respectivas blusas, e logo
estavam nus da cintura para cima. Os músculos e os pelos ásperos do seu peito roçavam
os seios sensíveis de Arabella, enquanto o beijo se aprofundava. Com as mãos, ele lhe
pressionava as nádegas macias, movendo-a em um ritmo ousado, para a frente e para
trás, fazendo-a gemer com a intimidade do contato.
— Será como na cama — murmurou ele, a voz profunda vibrando, provocando
pequenos calafrios contra os lábios úmidos e intumescidos de Arabella. - Só que nos
uniremos de modo mais íntimo pela primeira vez. Então vou esfregá-la contra mim...
desse jeito... e nos entregaremos um ao outro sobre os lençóis brancos na minha cama.
Ethan tomou-lhe a boca com um beijo intenso. Ela arqueou o torso e gemeu. Com
as mãos trêmulas, envolveu-lhe a nuca e segurou-o de encontro aos lábios. De repente,
sua mente foi assaltada por imagens daquele corpo moreno sobre o seu, a luz refletindo
na pele úmida que se movia contra sua carne branca, em um ritmo tão profundo e lento
quanto as ondas do mar. Podia imaginar o rosto tenso acima do seu, as respirações
ofegantes, a boca dele se movendo em direção aos seus seios.
Arabella prendeu a respiração. Sensações de prazer a faziam estremecer,
enquanto aquelas mãos poderosas lhe apertavam os quadris, moldando-a aos contornos
viris do corpo másculo.
— Eu a quero. — gemeu ele, com os lábios pressionados sobre os dela. Seus
dedos tremiam enquanto deslizavam sob o cós da calça jeans que ela usava.
— Eu sei. — sussurrou excitada, correndo as mãos pelas coxas dele. - Eu...
também o quero...
Ethan estremeceu com a necessidade feroz de ceder ao que estava sentindo, ao
que ela estava sentindo. Mas não podia acontecer daquela maneira. Não, disse a si
mesmo. Afastou-se um pouco e fitou-lhe os olhos suaves e enevoados.
— Mas não assim — murmurou. - Nossa primeira vez não deve acontecer em uma
banqueta de piano, em uma sala destrancada, não é?
Arabella o encarou, tremendo de paixão. Só então se deu conta de onde estavam.
— Eu nos vi... na cama — conseguiu balbuciar.
O rosto dele enrijeceu.
— Meu Deus, eu também Estávamos nos contorcendo um contra o outro em uma
febre tão ardente que chegava a queimar. — Ele mergulhou o rosto na pele quente do
pescoço de Arabella e envolveu-a com os braços. Suas mãos firmes e ágeis percorriam-
lhe as costas nuas e, no instante seguinte, começou a explorar-lhe os seios macios.
Erguendo um pouco a cabeça, olhou para baixo, para a suavidade dos mamilos rosados
em suas mãos.
— Algum dia sonhou que seria assim, nós dois juntos? — perguntou, quase com
reverência, buscando o seu olhar. - Sentados sozinhos em uma sala silenciosa, seu corpo
exposto aos meus olhos e às minhas mãos, tão absolutamente natural que nós dois nos

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

aceitamos sem nenhum pudor?


— Sonhei — confessou Arabella em um suave sussurro, e olhou para as mãos
morenas em contraste com a cor branca dos seus seios. Estremeceu sob o efeito daquela
visão, e não importava que Ethan percebesse. Pertencia àquele homem, agora. Se desejo
era tudo o que ele sentia, ela poderia viver com isso. Tinha que viver.
— Eu também. — A voz soou rouca. - Durante todas as longas e solitárias noites.
— Baixando a cabeça devagar, tomou-lhe um dos mamilos na boca.
Arabella arqueou o peito, agarrando-se ao cabelo escuro de Ethan, ofegando com
as deliciosas sensações que a assaltavam, adorando a sucção quente e úmida daquela
boca em seu seio.
— Vai ser assim na cama também - sussurrou ele contra a pele corada. — Só que
vou beijá-la desta maneira em outros lugares além dos seios, e só vou parar quando nós
dois estivermos satisfeitos.
Arabella beijou-o nos olhos, nas maçãs do rosto, no nariz e na boca.
— Espero que não se arrependa - disse, em um tom calmo.
Ethan ergueu a cabeça e a fitou. Se um dia ela o amara, ele havia destruído esse
sentimento. Estava praticamente intimando-a a se casar com ele, mas parecia ser a única
saída. Talvez o amor viesse com o tempo.
— Vamos ter um casamento tradicional, seguido de uma noite de núpcias. Não
vamos antecipá-la. E para o inferno com os modernismos! - Curvando-se, beijou-a com
suavidade. - É assim que deve ser. Um bom casamento, com respeito de ambos os lados
e dignidade para fazer tudo ser perfeito.
Respeito. Dignidade. Mas não mencionara amor, pensou Arabella. Mas talvez ela
estivesse querendo demais.
— Sua mãe estava certa. Você é um antiquado — brincou.
— E você também — Tirou-a de cima dele com profunda relutância, ajudou-a a
vestir a blusa e, em seguida, colocou a própria camisa. — Gosto da ideia de ter uma noiva
tímida que cora por qualquer coisa — murmurou, observando-a enrubescer. — Você se
importa?
— Não. Nem um pouco. Esperei muito tempo para ser uma.
— E eu esperei por você — respondeu ele, com as feições de um estranho,
tamanha força que fazia para se conter. - Apesar de seu pai, de Miriam e de todos os
outros obstáculos que surgiram. Vai dar tudo certo desta vez.
Ela o fitou com esperança e adoração.
— Sim. Desta vez, vai dar certo - sussurrou.
Tinha que dar. Arabella sabia que não suportaria ter que deixá-lo de novo. Mais
tarde, lhe explicaria tudo que se passara entre ela e o pai. Por ora, era o suficiente
sonharem com um futuro juntos. O amor talvez viesse com o tempo, se ela pudesse ser o
tipo de mulher que ele desejava. Nesse meio-tempo, viveria um dia após o outro.
Sua única preocupação era a reação de Ethan, caso ele descobrisse que a carreira
dela havia acabado. Poderia pensar mais uma vez que ela estava se casando com ele por
dinheiro e segurança.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Naquela MESMAnoite, ligou para o pai e explicou-lhe a situação. Curiosamente, ele


não pareceu desapontado e até mesmo a felicitou pelo casamento. Prometeu se virar
sozinho e lhe dar a maior parte dos lucros recebidos pelos trabalhos que estava lançando
em seu nome.
Isso a tranquilizou. Teria seu pequeno pecúlio. Então, algum dia, quando Ethan, por
fim, se cansasse de seu corpo, ela teria algo com que contar para se manter. Poderia ter
uma vida, mesmo que não o incluísse.
Não dormira a noite toda, sem saber se havia tomado a decisão mais acertada.
Seria certo para Ethan, que acabara de perder a mulher que ele realmente amava? Ou
ela deveria tê-lo deixado para o bem de ambos? Pela manhã, ao acordar, não estava
mais próxima de chegar a uma decisão.

Capítulo Onze

— Então, estão juntos novamente - disse Coreen, com um aceno de cabeça,


olhando para o filho com cautela, quando ele e uma solene Arabella lhe deram a notícia.
— Aham... Por quanto tempo desta vez?
— Agora é para sempre. — Ethan ergueu o queixo. — Suponho que tenha
devolvido o vestido.
— Não, não o devolvi. Guardei-o no armário, porque tinha certeza de que você
herdou o suficiente do meu bom senso para não repetir o maior erro da sua vida.
Ele a encarou.
— Você o guardou?
— Sim. — Coreen sorriu para Arabella.
— Tinha esperanças de que ele recuperasse o bom senso. Só não estava certa de
que ele pudesse superar as velhas dúvidas. Especialmente... - acrescentou, com um olhar
sombrio na direção de Miriam — ... quando o passado começou a interferir com o
presente.
— Algum dia lhe contarei tudo sobre isso — Ethan prometeu à mãe. — Nesse
meio-tempo, que tal retomarmos aqueles planos para o casamento?
— Vou ligar para Shelby esta noite. Está bem assim para você, Arabella?
— Por mim está ótimo — respondeu, com um olhar abatido. — Tem certeza de que
Shelby terá tempo para nos ajudar?
— Ela dará um jeito. A mãe dela foi minha melhor amiga, muitos anos atrás. —
Coreen olhou para o filho. — Desta vez, não a deixe escapar — advertiu.
Ethan se voltou para a futura esposa com desejo estampado no rosto.
— Jamais. Não desta vez.
Arabella estava tentando não parecer tão nervosa quanto se sentia.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

O desejo nos olhos de Ethan era muito real, mesmo não a amando e, de repente,
ela se sentiu insegura sobre ser capaz de satisfazê-lo. Se aquela chama não diminuíra
naqueles quatro anos, como ela, uma virgem, seria mulher suficiente para saciá-lo?
Ethan percebeu o medo em seus olhos e o interpretou mal. Puxou-a para um lado
e franziu a testa.
— Não está arrependida, está?
— Não. É que o casamento é um passo muito importante — disse evasiva. -
Tentarei controlar meu nervosismo.
— Vou satisfazer todos os seus desejos, meu amor. Poderá ter a lua, se quiser.
Arabella desviou o olhar para Miriam e o noivo. Eram a própria imagem da
felicidade. Não como ela e Ethan, tensos e nervosos um diante do outro, pisando com
cautela em torno das grandes questões que ainda teriam que enfrentar.
— Não quero a lua — afirmou. - Ficaria feliz se o nosso casamento desse certo.
— Temos origens semelhantes e muita coisa em comum. Vai dar certo - afirmou
convicto.

Shelby Jacobs Ballenger chegou cedo na manhã seguinte para conversar com
Arabella na presença de Coreen e Mary. Era uma mulher bonita, muito mais bonita do que
Miriam, e havia muitas fofocas sobre o turbulento romance que ela e o marido Justin
viveram. Se fossem verdadeiras, seu rosto, extremamente feliz, não demonstrava, e até
mesmo o nascimento de dois filhos não arruinara sua esbelta figura.
— Não sei como lhe dizer o quanto apreciamos sua ajuda — disse Arabella, com
um sorriso nos lábios. — Nunca tive que me preocupar com arranjos desse tipo antes.
— É um prazer — Shelby respondeu. - Tenho um lugar especial no meu coração
para casamentos. O meu foi inesquecível. Mas, infelizmente, por razões erradas. Mas,
mesmo com um mau começo, nossa união tem sido feliz. Justin é tudo que eu sempre
quis, ele e os meus filhos.
— Como consegue ter algum tempo livre? — perguntou Arabella.
— Não é fácil, com crianças na escola. — Shelby riu. — Mas minha cunhada é uma
preciosidade. Abby cuida delas para mim, já que não trabalha fora. Está esperando o
terceiro filho, você sabe. Justin disse que ia ter uma longa conversa com Calhoun e ver se
ele tinha alguma ideia do que está causando essa prole tão grande.
As quatro mulheres riram. Era do conhecimento do povo de Jacobsville que
Calhoun e Abby adorariam ter uma dúzia de filhos.
Shelby pegou um bloco de anotações.
— Agora, deixe-me lhe apresentar as possibilidades e depois nos ateremos aos
detalhes.
A conversa tomou boa parte da manhã. Shelby partiu pouco antes da hora do
almoço, e a cabeça de Arabella estava quase dando um nó.
— Não quero uma cerimônia de casamento — queixou-se a Coreen. — É muito
complicado.
— Poderíamos fugir — sugeriu Ethan.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Coreen lançou-lhe um olhar recriminador.


— Mary e Matt já fizeram isso. Não permitirei que vocês dois façam o mesmo. Ou
se casam na igreja ou viverão em pecado!
— Mãe! — Ethan fez uma expressão teatral, como se estivesse chocado.
— Não será tão difícil assim - argumentou Coreen. — Já temos a noiva e o vestido,
só precisamos nos preocupar com os convites e o banquete.
— Bem, em vez disso, poderíamos ligar para os convidados e fazer um churrasco
— respondeu ele.
— Suma daqui, Ethan.
— Só se Bella vier comigo. Pensei que talvez quisesse ir ver os gatinhos. Eles
cresceram desde que ela foi embora - acrescentou bruscamente.
O convite era uma tentação, mas Arabella não tinha certeza se queria ficar a sós
com ele. Já o havia evitado na noite anterior, por causa daquele seu olhar insinuante que
lhe fazia a pele formigar.
— Vamos lá, gatinha — brincou ele, extremamente belo com jeans e camisa de
cambraia, que lhe conferiam a aparência de um verdadeiro caubói de cinema.
— Está bem — ela concordou, seguindo-o em direção à porta, sob o olhar divertido
de Coreen e Mary.
Ethan segurou-lhe a mão enquanto caminhavam, entrelaçando os dedos com
ternura aos dela. Então olhou para baixo, fitando a calça e o suéter cinza e amarelo que
ela usava com um olhar de aprovação.
— Você fica linda com o cabelo solto — comentou.
Arabella sorriu.
— O problema é que as mechas caem em meus olhos o tempo todo.
Ethan inclinou a aba do chapéu para baixo, quando saíram para a luz do sol.
— Hoje vai fazer bastante calor. Poderíamos nadar.
— Não, obrigada — disse ela depressa demais, e sentiu o olhar dele sondando-a.
— Teme que a história possa se repetir? — perguntou Ethan, em voz baixa. Ao
alcançar a porta do estábulo, parou e a virou de frente para si, com as mãos gentis, os
olhos interrogativos.
— Estamos noivos. Eu poderia não me conter desta vez e fazer amor com você.
Embaraçada, Arabella baixou o olhar.
— Quero um casamento tradicional.
Os olhos de Ethan procuraram por sinais reveladores, por algo que lhe desse uma
indicação do que ela realmente estava sentindo.
— Eu também. Mas será menos tradicional se expressarmos o que sentimos um
pelo outro com os nossos corpos?
Arabella ergueu o rosto, vermelha e irritada.
— Isso é tudo o que sente por mim. Desejo. Já disse que me quer. Não passo de
algo que você gostaria de usar... !
Ethan a soltou, literalmente a empurrando para longe dele.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Meu Deus, não consigo fazê-la entender, não é? — perguntou amargurado.


Ela cruzou os braços sobre os seios.
— Eu não colocaria as coisas dessa forma — respondeu. — Você me queria quatro
anos atrás, mas se casou com Miriam. Você a amava, não a mim
— Naquela ocasião, Miriam me disse que estava grávida — revelou ele, com a
fisionomia tensa pela lembrança. — Só descobri que não era verdade quando já
estávamos casados.
Arabella enrijeceu, compreendendo, de repente, o que Ethan acabara de dizer. Ele
e Miriam dormiram juntos antes do casamento. Provavelmente, na ocasião em que a
beijara e a acariciara às margens do riacho já estivesse envolvido com Miriam. O
pensamento causou-lhe náuseas.
Deu-lhe as costas e tentou se afastar, mas Ethan a segurou pelos braços e a
abraçou.
— Não. Não é o que está pensando! Sempre foi você desde o início. Miriam era
apenas uma substituta, não você. - Angustiado, puxou-a de encontro ao peito, cerrando
os dentes. — Naquela tarde junto ao riacho, eu sabia que, se não fizesse algo, ia possuí-
la, apesar de todas as minhas nobres intenções. Miriam estava disposta, e não pensei
duas vezes. — Ele abaixou a cabeça sobre a dela. — Eu a usei. Ela sabia e me odiou por
isso. Agi como um verdadeiro canalha. Miriam me procurou e disse que achava que
estava grávida, então me casei com ela. Você, por sua vez, tinha uma promissora carreira
pela frente e era jovem demais para se casar, então a deixei partir. Meu Deus, não acha
que já paguei caro por essa decisão? Paguei por quatro longos anos. E ainda estou
pagando!
O tempo desacelerou, quase parando, à medida que Arabella assimilava o que ele
acabara de dizer.
— Você fez amor com ela porque me desejava? — perguntou, em um tom
lânguido. As palavras de Miriam, sobre a obsessão de Ethan pelo seu corpo, lhe vieram à
mente.
— Sim — respondeu ele com um pesado suspiro, seus dedos acariciando-lhe os
ombros sob o tecido da blusa. — E não podia ter você. — Afastando-lhe o cabelo do
pescoço, pressionou os lábios em sua pele quente. — Não teria sido capaz de parar,
Arabella — sussurrou-lhe ao ouvido. — Uma vez possuindo-a, não conseguiria mais me
controlar. — Sua boca se abriu, ávida e úmida percorrendo a carne macia de um modo
lento e provocante. — Você não teria partido. Não compreende, amor? Teria sido minha.
Toda minha.
Arabella fechou os olhos sob o efeito excitante dos lábios dele, que faziam seus
joelhos ficarem fracos. Estava sendo seduzida com palavras e não podia se deixar levar
por aquele jogo erótico. Mas se sentia totalmente vulnerável.
Ethan a conduziu para o interior do estábulo deserto, encostou-a à parede e colou
o corpo ao dela, amoldando-a às suas formas rijas e viris.
— Farei com que se case comigo - disse-lhe de encontro aos lábios. — Se for
necessário seduzi-la antes disso, eu o farei. Vou levá-la para o altar de qualquer maneira.
— Chantagista — protestou trêmula.
— Beije-me. — Louco de desejo, começou a se mover contra os quadris dela,
sentindo-a estremecer. Arabella ergueu o rosto. Estimulado, Ethan procurou-lhe a boca
com uma fome incontrolável, que a fez gemer e corresponder com paixão.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

Passados alguns instantes, ele afastou os braços que lhe enlaçavam o pescoço e
deu um passo atrás, com as faces queimando e as mãos, que a seguravam pelos pulsos,
tremendo.
— Você tem um mês — disse, mal conseguindo se controlar. — Se, até lá, a
aliança de casamento não estiver no seu dedo, não esperarei nem mais uma noite.
Virando-se, deixou-a lá, ainda trêmula, com as costas de encontro à parede.

Exatamente um mês depois, Arabella estava pronunciando os votos na pequena


igreja metodista de Jacobsville, na presença do pai e de metade da população da cidade.
Ethan não a tocara desde aquele dia no estábulo, mas seus olhos brilhavam
perigosamente a cada vez que a fitava. Talvez não fosse capaz de amá-la, mas o desejo
que sentia por ela era tão vívido e quente quanto o clima.
Miriam havia muito voltara para o Caribe com Jared e lhes mandara um convite de
casamento. Subira ao altar duas semanas antes deles, mas Ethan não pareceu se
importar com isso. Estivera bastante ocupado e ausente por conta dos recentes negócios
do rancho. Coreen chegara a comentar que era melhor assim, porque nas últimas
semanas seu humor estava insuportável, deixando todos nervosos.
Apenas Arabella sabia exatamente a razão para aquele humor, e naquele dia teria
que enfrentá-lo. Ethan reservara um quarto de hotel em um resort no Golfo do México, e
ela nunca se sentira mais nervosa em toda a sua vida. Todas as barreiras ruiriam, e ficaria
sozinha com Ethan e o forte desejo que ele reprimira durante todo aquele tempo. Não
sabia como sobreviveria a uma posse que era puramente física.
— Foi a noiva mais linda que eu já vi! — exclamou Coreen, beijando-a, pouco
antes de ela subir para se trocar. - Tenho certeza de que vocês serão felizes desta vez —
acrescentou, enxugando as lágrimas.
— Espero que sim — confessou Arabella, radiante apesar de seus temores,
enquanto parava para se despedir de Mary e Matt e agradecer a Shelby.
— Foi um prazer — Shelby assegurou-a, e segurou a mão do marido. Justin
Ballenger era homem alto e vigoroso, mas Shelby dominou-o pelo coração, e ele parecia
feliz com isso. Fitou-a com um sorriso, o rosto cheio de alegria e os olhos escuros
repletos de posse e orgulho.
— Não esquecerei tudo que fez por mim — murmurou Arabella, um pouco tímida
diante de Justin. Então, inclinou-se para frente e beijou a bochecha de Shelby. —
Obrigada.
— Espero que vocês sejam muito felizes — disse a mulher, com a voz suave.
— Você ganha do casamento o que coloca nele — acrescentou Justin, com um
sorriso nos lábios. — Dê um pouco e tire um pouco. Vai se sair bem.
— Obrigada — respondeu Arabella.
Shelby e o marido se afastaram de mãos dadas, e ela os observou com uma
pontada de inveja.
Ethan surgiu de repente, segurou-a pela mão e puxou-a para si. Procurando-lhe os
olhos, fitou-a com um brilho de desejo que a deixou atônita. Era a primeira vez, desde que
dissera “sim”, que a tinha assim tão próxima. Não a beijara no altar, para surpresa e
perplexidade de todos.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— A bagagem já está no carro. Vamos embora — disse com a voz baixa, os olhos
se estreitando à medida que lhe percorria as curvas do corpo. — Quero-a só para mim.
— Mas... não vamos subir para nos trocar?
— Não. — Suas mãos emolduraram o rosto frágil, trazendo-o de encontro ao dele.
— Quero ter o prazer de tirar esse vestido — sussurrou, e tocou-lhe os lábios com a
promessa de um beijo que a deixou com os joelhos bambos. - Venha, senhora Hardeman.
Ethan pronunciou seu nome de um modo novo e doce. Arabella lhe deu a mão e se
deixou conduzir, conseguindo lidar, de alguma forma, com o choque e a diversão de todas
as pessoas que se reuniam em torno dos dois. A recepção seria realizada no salão da
igreja, mas Ethan, aparentemente, decidira que iriam abandonar a tradicional celebração.
Sorriu, sussurrou algo à sua extasiada mãe e partiram sob uma chuva de arroz, confetes
e desejos de boa sorte.
Rumaram para Galveston no Mercedes-Benz de Coreen, já que seu próprio carro
fora deixado como chamariz para os convidados amarrarem as latas. O carro estava
intocado, e ele sorriu ao ver a expressão de Arabella ao pôr os olhos no veículo.
— Estamos muito crescidinhos para esse tipo de brincadeira — comentou,
enquanto a acomodava no banco do passageiro. — Latas, letras pintadas com dizeres de
“recém-casados” e barulheira para chamar atenção. Meu Deus!
Arabella fez uma careta.
— Nós amadurecemos muito rápido, com certeza — murmurou.
— Não rápido o suficiente, no seu caso. — Ele ligou o motor e deu a volta pelos
fundos da igreja, olhando com diversão através do espelho retrovisor, de onde podia ver
alguns amigos observá-los partir com uma expressão de surpresa no rosto. — Eu teria me
sentido feliz se tivéssemos casado quando você ainda era uma menina de 16 anos, mas
ficaria com a consciência pesada por lhe tirar a virgindade.
Arabella parecia levemente chocada com a admissão, sem ter certeza se devia
levar o comentário a sério. Mas Ethan não estava sorrindo.
— Não acredita? — indagou ele, dando uma rápida olhada em sua direção. -
Espere até chegarmos a Galveston. Tem muitas surpresas lhe aguardando.
— Verdade? — perguntou curiosa. Tinha um pressentimento de que a noite de
núpcias seria a maior das surpresas e a que ela, secretamente, mais temia. Nem mesmo
todo o amor que sentia por Ethan seria suficiente para ajudá-la a passar pela experiência.
Ouviram música no rádio do carro, até chegarem ao hotel. Após fazer o check-in,
subiram para o quarto. A suíte possuía uma vista maravilhosa para a praia e para
Galveston Bay. O resort situava-se em um local remoto, apesar de não distar muito da
cidade. Lá fora, gaivotas mergulhavam no mar, e ela as observou, melancólica.
— Coloque um jeans e uma camiseta e vamos dar uma caminhada na praia -
sugeriu ele, percebendo o seu desconforto. — Hoje está um pouco frio para nadar.
— Está bem — Arabella hesitou, sem saber se ele estava esperando que ela se
despisse na frente dele.
— Pode usar o banheiro. Vou me trocar aqui mesmo — disse Ethan, conferindo um
tom casual à voz.
Fitando-o com um sorriso agradecido, ela pegou as roupas na mala. Quando
terminou de vestir a calça jeans e um pulôver cinza, ele já havia colocado um jeans e uma
camisa com listras azuis e brancas.

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

— Vamos. — Tomou-a pela mão, não lhe dando tempo para se conscientizar do
fato de que partilhariam o grande quarto, com suas duas imensas camas de casal. Na
praia, caminharam lado a lado o restante da tarde, catando conchas e conversando. Mais
tarde, jantaram frutos do mar em um restaurante localizado em um antigo farol e se
sentaram no grande ancoradouro depois de escurecer, assistindo aos navios passarem.
No momento em que voltaram para o quarto, Arabella estava relaxada e tão
apaixonada que sequer protestou quando Ethan a tomou nos braços na entrada da porta
e começou a beijá-la com fervor.
Não se preocupou em acender a luz. Fechou a porta no escuro e a levou para a
primeira das duas camas.
Arabella estava perdida em seus beijos profundos, estremecia sob as carícias
inebriantes, enquanto ele a despia devagar, descobrindo-lhe o corpo, primeiro com os
lábios e em seguida com as mãos. Ela se esticou como um gato ao sentir o primeiro toque
da pele dele nua contra a sua e ofegou com choque e prazer.
Envolvido pela sensualidade daquele momento, Ethan cobriu-lhe a boca com um
beijo suave. À medida que os minutos passavam, o calor se intensificava dentro dela, os
beijos se tornavam infinitamente mais ardentes, e as carícias a faziam tremer e gritar.
Arabella esqueceu o temor e entregou-se, dando-lhe o que ele queria. Quando o corpo
pesado se moveu sobre o dela, ela o acolheu com confiança e abandono.
Quando Ethan a penetrou, ela o puxou para si, soltando um murmúrio de prazer.
Depois tudo se transformou em movimentos febris e fora de controle, que finalmente
culminaram em um êxtase que beirava a dor em sua plenitude arrebatadora.
— Não. — Ethan gemeu quando ela se moveu hesitante, mas era tarde demais.
Seus dedos longos apertaram-lhe as nádegas com força para mantê-la unida ao seu
corpo banhado de suor. — Fique.
— Você está bem? — ela murmurou.
— Agora, estou — respondeu ele, os lábios roçando-lhe o rosto com afeto. - Você
me ama. Não poderíamos fazer amor dessa maneira se fosse apenas desejo —
murmurou. — Não com esse tipo de ternura.
Arabella fechou os olhos. Seu segredo fora descoberto. Não era de admirar. Seu
maior temor era não conseguir disfarçar seus sentimentos quando fizessem amor. Ainda
ofegante, enterrou os dedos suavemente no cabelo vasto de Ethan.
— Sim — confessou. — Eu o amo. Sempre o amei. E acho que ainda não
inventaram cura para isso.
— Deus permita que nunca inventem. - Ele a aninhou intimamente na curva das
pernas, com um longo suspiro. Suas mãos escorregaram, acariciando-lhe a cintura e os
seios, com uma posse lenta.
— Você é minha. Nunca mais a deixarei partir. Viverá ao meu lado, vai gerar meus
filhos, e seremos tudo um para o outro, até o final de nossas vidas.
— Mesmo que você só sinta desejo por mim? — perguntou ela, com tristeza.
— Sim, eu a desejo — respondeu Ethan, estreitando-a nos braços para que o
corpo dela sentisse a urgência do seu. - Desejo-a com loucura. Mas, se fosse apenas
desejo, qualquer mulher serviria. E não é esse o caso — acrescentou. - Não tive vontade
de fazer amor com Miriam durante esses quatro anos, nem com nenhuma outra mulher.
Isso é prova de amor suficiente?
Arabella prendeu a respiração. Libertou-se do abraço dele, tentando fitar aqueles

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Diana Palmer — Rendição Ao Desejo (Primeiros Sucessos 40)

olhos cinzentos, iluminados apenas pela luz do luar.


— Você me ama?
— Meu Deus, com todo o meu coração — confessou. — Você não sabia, sua
tolinha cega? Minha mãe sabia. Mary e Matt sabiam. Todos sabiam o que eu sentia,
incluindo Miriam, então por que você não?
Ela riu, extasiada com aquela declaração de amor.
— Porque era uma tolinha cega! Oh, Ethan, eu amo você, amo, amo.
Mas foi tudo que Arabella conseguiu dizer, porque ele a puxou para si para amoldá-
la sobre o corpo. As mãos ávidas acariciavam-lhe a pele sedosa, trabalhando em conjunto
com a boca exigente, que acabara de proferir aquela impetuosa declaração. Com
movimentos contidos, começou a roçar o quadril devagar contra o dela, que se moveu
para acomodá-lo melhor. Por um longo tempo, nada disseram, enquanto seus corpos
falavam com a linguagem nova e íntima do amor.
— Deus sabe que terei que dividi-la com o palco — murmurou Ethan bem mais
tarde quando se sentaram na cama, compartilhando um refrigerante que ele pegara no
frigobar do quarto. — Mas vou conseguir.
— Oh, isso. — Arabella fez uma careta e apoiou o rosto contra o ombro nu e
quente do marido. — Bem, acho que não lhe contei toda a verdade.
— O quê?
— Não lhe contei toda a verdade - repetiu. — Serei capaz de usar minha mão
novamente e até poder tocar, mas não como antes. — Ela suspirou, esfregando a face
contra a pele dele, com um suspiro. — Posso dar aulas de piano, mas minha carreira de
concertista está encerrada. E, antes que diga alguma coisa, gostaria que soubesse que
não fiquei triste com isso. Prefiro ter você a ser tão famosa quanto Van Cliburn.
Ethan não encontrou palavras para expressar o que estava sentindo. Se precisava
de uma prova de amor, ela acabara de lhe dar uma. Curvouse e beijou-lhe os olhos com
ternura.
— Tem certeza disso, Arabella? - perguntou, com suavidade.
— Certeza absoluta — respondeu, mordiscando-lhe os lábios e, ao mesmo tempo,
derramando um pouco de refrigerante gelado no abdômen liso e morno de Ethan.
A voz dele explodiu na escuridão.
Arabella riu com um infinito prazer, antecipando uma deliciosa represália.
— Ora, sua. — murmurou ele, e ela pôde ver o sorriso, ouvir a ameaça de amor, os
movimentos rápidos em sua direção.
Arabella colocou a bebida sobre a mesa de cabeceira e o puxou para si, aceitando
seu destino e tudo que a vida teria para lhe oferecer, até o fim dos seus dias. Ethan em
seus braços. Era o paraíso.

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