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O PEDIDO DE ÉTICA

Mestrado Ciências Forenses 2009/2010


ISCS-N

Paula Cristina Cabral


O PEDIDO DE ÉTICA

 Qual é o sentido do “pedido de ética”?


 Quem é que lança à ética uma interpelação e a quem se dirige a
«resposta da ética»?

 Entre as duas questões intromete-se uma outra:

 Qual é o título do “especialista” encarregado de fornecer a resposta?

Trata-se de colocar a ética no contexto dialogal, em função da qual se correspondem


um pólo emissor, um destinatário e uma assunto no qual incide o entrecruzamento
da palavra.
 Para Platão a ética implica uma reflexão sobre o agir livre, sobre uma orientação
global, sobre a sua livre execução, sobre a relação que mantém com as leis ou
normas consideradas como devendo ser formuladas e respeitadas.
 A Ética é portanto um trabalho de reflexão sobre o agir; mas enquanto tal, não se
considera como homogénea ao agir sobre o qual ela reflecte.
O PEDIDO DE ÉTICA

 A pertinência da questão surge quando se pergunta pela “competência” específica


do filósofo para resolver os problemas da ética.

 O que importa é decompor e avaliar os factores múltiplos que devem ser tidos em
conta para propor uma solução adequada

 A ética distingue os valores em causa em cada uma das suas alternativas e opera,
pelo menos a título de proposta teórica, uma hierarquização fundamentada dos
valores.

 O que a ética teórica não pode contudo realizar é a passagem para o acto de
decisão; este compete ao ser confrontado com o agir concreto, quer seja este o
próprio filosófico, quer outra pessoa, i.e., o filosófico da ética não pode substiruir-se
ao sujeito humano agente e responsável.
O PEDIDO DE ÉTICA

 A dificuldade está à nossa espera,

 Se a teoria não tem somente um poder de análise, mas de avaliação, ou seja, se a


análise incorpora uma tomada de posição que compromete os valores, e se os
valores dependem também da nossa livre escolha, não será que ao filósofo impõe
subtil e indirectamente uma proposta de valores que ultrapassa a sua competencia?

 O pedido de Ética, ilustra-se em três campos principais,

 O da vida individual . Quando a decisão ética depende da liberdade do próprio


sujeito humano;
 No campo plural, quando a decisão ética deve ser tomada por um número de
indivíduos (p.ex. equipa hospitalar, conselho reunião de professores,…) e
 A nível de uma colectividade global cujos membros são tão numerosos que
não podem dialogar entre eles senão pela mediação de representantes.

 O pedido dirige-se então quer a uma individualidade precisa, quer a uma


Comissão estabelecida para este efeito.
O PEDIDO DE ÉTICA

 Um exemplo do primeiro caso encontra-se em função de arbitragem dos conflitos,


com um “provedor de justiça” interno da instituição, cuja função é
predominantemente ética e não tanto jurídica.

 Do segundo caso intervêm as Comissões ou Conselhos de Ética, a nível local (p.ex


Hospitalar)

 No que diz respeito ao pedido de parecer ético provido de uma colectividade global
ou dos seus representantes (por ex. em casos complexos como o abortamento, as
experiências científicas sobre seres humanos vivos ou a manipulação da vida
humana) são em geral os relativamente recém criados Conselhos Nacionais de Ética
que são os chamados a pronunciarem-se.

 De onde provém a competência ética das entidades – indivíduos ou Comissões


às quais se dirige o pedido de parecer?
O PEDIDO DE ÉTICA

 De onde provém a competência ética das entidades – indivíduos ou Comissões


às quais se dirige o pedido de parecer?

 No contexto plural ou global, tal como na situação individual, quem elabora ou


fornece um parecer ético nunca se pode substituir à responsabilidade concreta da
pessoa ou do grupo chamado a agir.

 Dar um parecer e aconselhar eticamente constitui um elemento importante de apoio,


que pode mesmo proteger a decisão contra uma excessiva dose de parcialidade pou
de interesses puramente egoístas.

 O que está em causa é a sabedoria prática, i.e., uma capacidade que contém duas
vertentes:

 Colocar cada caso concreto sob a luz do princípios gerais e das regras
fundamentais da ética;
 Compreender que, em virtude da sua generalidade ou da sua
universalidade, regras e princípios não podem, por definição, tornar-se
exactamente coextensivos à particularidade e à unicidade dos actos.
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 Noutros termos,

 A decisão ética não é o fruto de uma aplicação puramente racional de princípios e


regras; em sentido contrário, porém seria uma ilusão julgar que o «bom senso» ou o
«senso comum» é espontaneamente dotado de «sabedoria prática» no sentido
específico desta expressão.
 A sabedoria prática supõe com efeito uma análise apoiada na compreensão da
finalidade do agir e do sentido dos princípios éticos.

 Qualidades imprescindíveis para poder fornecer um parecer ético adequado


são duplas:
 A capacidade de projectar nas situações concretas a luz dos princípios, o que
supõe um certo conhecimento destes princípios;
 Por outro lado, a sabedoria prática, que em geral se forma com a experiência. A
montante desta primeira qualidade encontra-se o saber que a filosofia fornece;
a jusante da segunda qualidade está não só a experiência ética de ter sido
confrontado com situações semelhantes, mas a competência específicamente
científica ou técnica que, por exemplo, nos casos da saúde humana, permite
analisar e compreender os factores e componentes em jogo em cada situação
concreta.
O PEDIDO DE ÉTICA

 Duas conclusões,

 A Ética Teórica – ou filosofia ética – tem um papel fundamental a desempenhar na


tomada de decisão ética, assim como na elaboração de pareceres éticos.

 A Ética filosófica – deve entrar em diálogo com as ciências, artes e técnicas


necessárias para a compreensão dos actos a propósito dos quais se levanta uma
dúvida ou uma questão do foro ético.

 Neste sentido a ética filosófica não pode possuir o monopólio da resolução


ética dos problemas, mas deve passar pela mediação dos saberes especiais
implicados – cada vez mais – pelo questionamento ético concreto.
Reciprocamente a competência científica e técnica não fornece por si mesma a
«sabedoria prática» graças à qual se conseguirá formar o melhor juízo ético.
Entre experiência científica ou profissional e a decisão ética a mediação opera-
se tanto pela sabedoria ética quanto pelo saber da ética filosófica.
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 O pedido de ética devia portanto,

 Dirigir-se a pessoas capazes de aliar o saber ético, sabedoria ética prática, assim
como o saber científico e experiência profissional.

 É preciso reconhecer que os tratados clássicos de ética não sublinhavam


suficientemente o impacto das descobertas científicas sobre a evolução das
questões éticas,

 Por isso mesmo,


 Os “pedidos” de aconselhamento ético só precisavam de encontrar pessoas
dotadas de sabedoria e, para os casos mais complexos, de especialistas em ética
filosófica ou, se fosse caso disso, de ética teleológica.

 Não há duvida que a necessidade de fazer intervir vários especialistas na tomada de


decisão ou no aconselhamento ético complica a situação: como organizar a
institucionalização do encontro dos especialistas e como medir a sua competência?
Na verdade, a «a autoridade» dos pareceres emitidos vai depender da «autoridade»
moral deste encontro – institucionalizado ou não -, dos membros deste «encontr»,
desta «comissão» ou deste «Conselho».