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O nascer do amor!

Esther Abbott viajava pela Europa


quando recebeu a proposta de ser
barriga de aluguel. Desesperada por
dinheiro, ela aceita. Porém, quando
o acordo é quebrado, Esther é
deixada grávida e sozinha, sem
ninguém a quem recorrer… além do
pai do bebê. Ter um filho com uma
mulher que nunca conheceu é um
escândalo que o bilionário Renzo
Valenti não pode permitir. Após um
divórcio difícil e com uma reputação
a manter, a única escolha de Renzo
é reconhecer a criança como sua
herdeira legítima… e convencer
Esther a ser sua esposa!

Em troca de seu legado eles oferecem uma


aliança de diamante!
E enquanto ela lutava contra a
sensação, ele se aproximou e encostou
os lábios nos seus.
Então, tudo queimou até virar cinzas.
Todas as preocupações, pensamentos,
sumiram de sua mente num lampejo
quando os lábios se acariciaram. Isso foi
o que mais a surpreendeu. O
movimento.
Nunca imaginara tanta atividade em
ser beijada. O toque da mão em seu
rosto, a carícia em seu cabelo, os lábios
aprendendo o formato dos dela e
acomodando-se a ele.
Esther nunca imaginara que os lábios
de Renzo podiam ser macios. Nem
depois que se entreabriram, a língua
molhada dentro de sua boca. Ela ficou
desarmada. O beijo desencadeou um
terremoto que a deixou devastada, oca,
com uma sensação dolorosa de vazio.
Não sabia como agir. Então, fez a
única coisa que sempre temera fazer ao
se ver diante de um homem. Cedeu.
Permitiu que ele entreabrisse seus
lábios e a beijasse com mais
sofreguidão.
Querida leitora,

Renzo Valenti tinha acabado de


assinar seu divórcio com uma mulher
interesseira quando uma desconhecida
bate à sua porta, dizendo que está
esperando um filho seu. Ao descobrir
que tudo fazia parte de um plano de
sua egocêntrica ex, esse poderoso
bilionário sabe que não tem escolha
além de reconhecer o seu herdeiro
como legítimo… E transformar a
inocente Esther Abbott em sua esposa!

Boa leitura!
Equipe Editorial Harlequin Books
Maisey Yates

FONTE DE AMOR

Tradução
Marie Olivier

2017
CAPÍTULO 1

–O PROBLEMA, dr. Valenti, é que


estou grávida.
Renzo Valenti, herdeiro da fortuna
da família, cujos negócios se
concentravam em bens imobiliários,
conhecido mulherengo e farrista
assumido, olhou a estranha parada à
sua porta.
Nunca tinha visto aquela criatura
antes. Disso tinha absoluta certeza.
Não sentia atração por mulheres que
pareciam ter passado a noite suando,
vagando pelas ruas quentes de Roma,
enroladas em lençóis de cetim.
A mulher de rosto vermelho, sem
maquiagem, tinha o cabelo comprido,
escuro e despenteado preso num coque.
Usava o mesmo tipo de roupa das
americanas que invadiam a cidade no
verão. Regata justa e reta e saia longa,
que quase cobriam os pés empoeirados
calçados com rasteiras muito gastas.
Se, por acaso, cruzasse com ela na
rua, nem a olharia. Porém, ela estava na
casa dele. E havia dito o que nenhuma
mulher lhe dissera desde que tinha 16
anos.
Mas, nem ela nem as palavras dela
tinham qualquer importância.
– Não sei se dou os parabéns ou os
pêsames. Depende.
– O senhor não entende.
– Não – afirmou seco, em meio ao
relativo silêncio do espaçoso hall. –
Você praticamente invadiu a minha
casa e convenceu minha governanta a
deixá-la falar comigo.
– Eu não forcei nada. Luciana me
deixou entrar de bom grado.
Jamais demitiria a governanta. E o
pior é que a funcionária, uma senhora
já sabia disso. Então, quando Luciana
deixou a moça histérica entrar, ele teve
a sensação de que ela queria puni-lo
por seu notório comportamento em
relação às mulheres.
Não era justo. Essa criaturinha – que
parecia mais à vontade sentada na
calçada, nas proximidades de Haight-
Asburry, tocando guitarra em troca de
moedas – devia representar a punição
para um homem. Mas não a dele.
– Bem, de qualquer modo, não tenho
tempo nem paciência para essa
conversa.
– O filho é seu.
Ele riu. Não havia outra reação a
uma afirmação tão absurda. E também
não sabia como lidar com o estranho
peso e tensão ao ouvir a declaração.
Na verdade, conhecia o motivo de ter
sido afetado daquela maneira. Mas não
deveria.
Não imaginava nenhuma
circunstância em que pudesse ter
encostado um dedo naquela hippie
ridícula. Além do mais, passara os
últimos seis meses preso a um
casamento de aparência.
E, embora Ashley se entregasse ao
próprio prazer e ao de outros homens
durante esses meses, ele permanecera
fiel.
Uma mulher com uma barriguinha
que mal se notava na camiseta colada,
alegando estar grávida dele, não podia
ser levada a sério. A situação era
ridícula.
Durante seis meses havia enfrentado
brigas, vasos voando a torto e à direita,
atirados pela mulher ensandecida – que
parecia empenhada em destruir o
estereótipo de que o povo canadense é
bem-educado –, seguidos de dias
infindáveis em que ela falava manso,
como se ele fosse um bichinho ao qual
aplicava o método de bater e elogiar
para domesticar.
A mulher não se dava conta de que
ele não seria domesticado. Casara com
Ashley por causa dos pais, só isso. E,
desde o dia anterior, após assinar o
divórcio, voltara a ser um homem livre.
Pronto para fazer o que bem
entendesse com aquela mochileira.
Entretanto, só queria colocá-la para
fora, despachá-la de volta para a rua.
– Isso, cara mia, é impossível. – Os
olhos da moça ficaram surpresos,
magoados. O que imaginara? Que ele
seria vítima daquela armação? Que ela
encontraria a salvação graças a ele? –
Entendo que tenha fantasiado que eu
seria a melhor opção para aplicar esse
golpe – disse, tentando manter a voz
calma. – Tenho péssima reputação com
as mulheres. Entretanto, talvez não
saiba, passei os últimos seis meses
casado. Em resumo, o homem
responsável por ter seduzido você num
bar cheio de turistas, com quem você
transou, mas que depois sumiu e nunca
mais telefonou, não sou eu. Não devia
nem passar pela sua cabeça que vai
conseguir me fazer acreditar nessa
história. Estou divorciado, mas, na
época, era casado e fiel à minha esposa.
– Ashley – disse ela de imediato. –
Ashley Bettencourt.
Por um breve segundo, ele ficou
pasmo ao ouvir o nome da esposa.
Todos o conheciam, então ela devia
saber o nome de Ashley, sua ex-
mulher. Mas, se sabia que ele era
casado, por que não escolheu um alvo
mais fácil?
– Isso mesmo. Sua leitura de revistas
de celebridades e tabloides está em dia.
– Não, eu conheço Ashley. Foi com
ela que me encontrei num bar cheio de
turistas. Foi por causa dela que
engravidei.
Renzo parecia ter levado um soco no
peito.
– Espere aí. Nada disso faz sentido.
A mulherzinha sussurrou algumas
palavras incompreensíveis e levou as
mãos à cabeça, antes de descê-las e
cerrar os punhos.
– Eu... estou tentando. Achei que
soubesse quem eu era.
– Como poderia saber? – indagou
desnorteado.
– Eu nunca devia ter dado ouvidos a
ela. Meu pai tinha razão: sou mesmo
uma idiota! – Ela parecia prestes a
chorar, e ele teve de admitir que a farsa
era criativa.
– Infelizmente, até que prove o
contrário, devo dar razão ao seu pai,
cara. Como minha ex-mulher pode ter
engravidado você?
– Ashley me contratou. Eu
trabalhava num bar perto do Coliseu, e
certo dia ela puxou conversa comigo.
Ela me contou sobre os problemas no
casamento e a dificuldade de
engravidar...
Renzo sentiu um nó no estômago.
Ele e Ashley nunca tinham tentado
engravidar. Ele tinha decidido que não
valeria a pena tê-la como esposa por
dinheiro nenhum no mundo; ela não
seria a mãe do herdeiro do império de
sua família.
– Achei estranho ela contar todas
essas coisas para mim. Depois, ela
voltou na noite seguinte, e na outra. Eu
contei como tinha vindo parar na Itália
e mencionei não ter dinheiro... – Ela
piscou. – Então ela me perguntou se eu
consideraria a hipótese de ser a barriga
de aluguel dela.
A pressão no peito de Renzo cresceu
a ponto de explodir. A língua inglesa o
abandonou, e ele despejou uma série
de palavras italianas vulgares.
– Não acredito. Aquela vagabunda
armou para nós dois.
– Não estou mentindo, eu juro. Não
fazia ideia de que não sabia. Foi tudo
muito... O que ela disse... fazia sentido.
Ela me convenceu de que ia ser simples,
fácil. Bastava uma viagem rápida para
Santa Firenze, onde o procedimento é
legal, e então eu seria... Uma espécie de
forno. Eu ganharia para preparar o pão,
por assim dizer, e... Bem, depois
entregá-lo à pessoa para quem eu o
estava... assando. Alguém tão
desesperado para ter um filho que
pedia ajuda de uma estranha.
O pânico atacou Renzo como um
animal selvagem, estraçalhando-lhe o
peito, a garganta. Impedindo-o de
respirar. O que ela dizia era impossível.
Só podia ser.
Ashley era... imprevisível. E só Deus
sabe como agiria. Principalmente por
ter ficado furiosa com o divórcio, obtido
sem maiores problemas, pois o
casamento tinha sido no Canadá, e ela
acreditava que ele pensara em tudo,
planejara cada passo. Ashley tinha
razão. Mas não devia ter reagido de
modo tão impensado.
– Fez sentido para você uma mulher
procurar uma barriga de aluguel e dizer
que tem um marido que você nunca
viu? – pressionou ele.
– Ela disse que você não poderia
comparecer à clínica. Ela mesma
apareceu de chapéu e com uns óculos
escuros enormes. Comentou que você
era um homem muito conhecido e
muito alto. – Fez um gesto com a mão.
– E é. Obviamente. Não daria para
passar despercebido nem de óculos
escuros, entende?
– Não entendo nada. Para mim, nos
últimos minutos, ficou evidente que sei
menos do que imaginava. Aquela
víbora a usou. Quanto lhe pagou?
– Até agora não pagou nada.
Ele deu uma gargalhada amarga.
– Sério? Imagino que o combinado
tenha sido uma quantia alta.
– O problema é que Ashley me
avisou que mudou de ideia; não quer
mais o filho por causa dos problemas
que vocês dois estão enfrentando.
– Problemas? – indagou incrédulo. –
Por acaso, ela se referiu ao divórcio?
– Imagino que sim.
– Então você fez uma pesquisa a
nosso respeito e resolveu me procurar.
– Não tenho internet no albergue.
– Você mora em um albergue?
– Moro – disse, o rosto mais
ruborizado. – Eu estava só de passagem
por Roma, mas o dinheiro acabou.
Aceitei um trabalho em um bar, e fiquei
mais do que previa. Encontrei Ashley
faz uns três meses.
– Está grávida de quantos meses?
– De uns dois meses. O problema...
Ashley decidiu que não quer mais o
bebê. E eu não quero... Não quero
interromper a gravidez. Foi aí que
pensei que, embora ela tivesse me dito
que você não queria se envolver na
história, porque ia contra seus
princípios... Eu resolvi falar com você.
Precisava ter certeza.
– E por quê? Caso eu também não
queira, está pensando em criar o bebê
sozinha?
Foi a vez de Esther rir. Não por achar
graça, mas por pura histeria.
– Não! Não vou criar o bebê. Nem
agora nem nunca. Não quero filhos
nem marido. Mas acabei me
envolvendo nessa história. Eu
concordei... Achei... Sei lá. Como posso
não me sentir responsável? Ashley virou
quase uma amiga. Quero dizer, foi a
primeira pessoa que conversou comigo,
me contou sobre a vida dela. Fez
questão de deixar bem claro o quanto
queria o bebê... e agora mudou de
ideia. Mas eu não posso mudar meus
sentimentos.
– O que pretende fazer? – perguntou
ele. – O que vai fazer se eu disser que
não quero o bebê?
– Vou entregar a criança para a
adoção – respondeu, como se fosse o
óbvio. – Eu ia parir, de qualquer jeito.
Foi o combinado.
– Entendo.
Os pensamentos corriam acelerados,
tentando alcançar o que aquela mulher
– de quem sequer sabia o nome – lhe
dizia.
– E Ashley pretendia pagar, caso você
decidisse continuar a gravidez?
A mulher baixou o olhar.
– Não.
– Então, veio falar comigo para se
certificar de que ainda receberia o
combinado?
– Não. Vim porque me pareceu a
atitude certa. Comecei a ficar
preocupada com sua falta de
envolvimento.
A raiva cresceu, atingiu o ponto de
ebulição e começou a fervilhar.
– Permita-me explicar direito o que
aconteceu. Minha ex-mulher contratou
você sem me consultar. Ainda não
entendo o que aconteceu e nem como
conseguiu manipular você e o médico.
E como foi capaz de atingir o objetivo
sem o meu conhecimento. Não faço
ideia do que havia por trás disso tudo,
mas é evidente que desistiu. Talvez
tenha tomado consciência de que não
conseguiria tirar dinheiro de mim, e
agora não quer ter o peso de um filho
pelo resto de sua vazia existência. Ou,
talvez, seja um comportamento típico
de Ashley tomar decisões sem refletir, e
acreditar que me faria uma grande
surpresa com algo dessa magnitude,
como se fosse o mesmo que comprar
uma bolsa nova. E, assim como age em
relação às bolsas, logo se cansa de uma
e já está de olho em outra.
Independentemente da motivação dela,
o resultado é o mesmo. Eu não queria
esse bebê.
Ao ouvir a explicação e a afirmativa
final, ela pareceu murchar. Encolheu os
ombros, e parte de sua postura
desafiadora sumiu.
– Está certo. – Piscou, ergueu o
queixo e o encarou. – Se mudar de
ideia, estou no albergue Americana ou
trabalhando no bar em frente. – Deu
meia-volta e caminhou para a porta.
Então parou. – Você alega não ter
ficado a par do ocorrido. Só não queria
que pudesse usar depois essa desculpa.
E saiu. Ele estava determinado a não
ver aquela mulher e a ex-esposa nunca
mais.

POR TRÊS dias, tentou ignorar os


acontecimentos. Em vão. Não sabia o
nome da mulher. Sequer sabia se ela
contara a verdade. Ou se tudo não
passava de mais um joguinho da ex-
mulher.
Conhecendo Ashley, era a única
explicação plausível. Uma tentativa
alucinada de o prender de novo. Ela se
mostrara contente demais com o fim do
casamento. Estranho, pois a princípio
ficara aborrecida e alegara que ele
sempre tivera a intenção de se separar,
motivo pelo qual haviam se casado no
Canadá. O divórcio na Itália era
complicadíssimo. E, supôs ele, o fato de
ele ter tomado essas precauções era, de
certa forma, uma indicação de sua falta
de comprometimento. Ou, na pior das
hipóteses, de sua fé na inconstante
Ashley.
Ashley conseguira obter sua
vingança. Pelas leis italianas, a
contratação de “doação temporária de
útero” ou “barriga de aluguel” era
ilegal. Por isso, ela fizera o
procedimento na vizinha Santa Firenze.
Pior ainda, como a irmã de Renzo,
Allegra, terminara o noivado com o
príncipe de Santa Firenze e se casara
com um amigo de Renzo, o duque
espanhol Cristian Acosta, e o príncipe
não o ajudaria – pelo contrário.
Melhor esquecer. A mulher devia
estar mentindo. E mesmo que dissesse a
verdade, o que lhe importava?
Uma pontada perto do coração o
levou a pegar uma garrafa de uísque.
Então lembrou que ela trabalhava em
um bar perto do Coliseu.
Destampou a garrafa. Não pretendia
procurá-la. Não fazia sentido ir atrás de
uma mulher que, era evidente, tentava
tirar dinheiro dele.
Mas a possibilidade de procurá-la o
invadiu como um cheiro ácido,
daqueles que permanecem mesmo
depois da fonte do odor se afastar. Não
conseguia se abstrair por causa de Jillian
e do que acontecera com ela.
Trincou os dentes, afastou a garrafa.
Calçou os sapatos. Pegaria o carro e iria
ao bar confrontar a mulher. Obteria a
verdade e, então, poderia voltar para
casa e deitar, dormir tranquilo, certo de
que ela era uma mentirosa e de que não
havia bebê nenhum.
Respirou fundo. Talvez fosse excesso
de precaução, mas considerando seu
passado... Já perdera uma filha, e não
perderia outra.
CAPÍTULO 2

ESTHER ABBOTT respirou fundo


enquanto limpava a última mesa e
terminava o turno. Por sorte, ganhara
uma quantia decente em gorjetas e
poderia descansar. Grávida de apenas
dois meses, não podia culpar a gravidez
pela dor nos pés e nas pernas.
Havia trabalhado dez horas seguidas,
porém não lhe restava outra opção.
Renzo Valenti a dispensara. Ashley
Bettencourt não queria nem ouvir falar
dela ou do bebê. Se tivesse um pingo de
juízo, seguiria o conselho de Ashley e
faria um aborto. Mas não podia.
Aparentemente, não tinha juízo. Em
compensação, tinha muitos sonhos.
Viajara à Europa em busca de
independência. Queria conhecer o
mundo, longe dos punhos de aço do
pai. Comparava o pai a um muro de
tijolos com o qual era impossível
discutir e tampouco derrubar.
No mundinho do pai, não fazia
sentido as mulheres estudarem; bastava
apenas aprender a ser uma boa dona de
casa. Nem mesmo precisavam aprender
a dirigir, pois só lhes era permitido sair
de casa na companhia do marido. Não
deviam ser independentes ou terem
opinião própria. Esther sempre sonhara
em viver de modo diametralmente
oposto.
E acabara se encrencando por causa
desse sonho. O pai a expulsara da
comunidade. Ele lhe dera a opção de
abrir mão dos objetos “pecaminosos”
que colecionava: livros, discos, mas ela
se recusara.
A decisão fora difícil. No fundo, a
escolha fora dela, apesar de ter recebido
um ultimato. Afinal de contas, a
comunidade era seu lar, apesar do
ambiente opressivo.
A comunidade era constituída por
pessoas com a mesma mentalidade,
ligadas a tradições e métodos antigos.
Se optasse por continuar em casa, o pai
encontraria um marido para ela. Na
verdade, já estaria casada se não fosse
tão problemática. Mas nenhuma família
queria o filho casado com uma moça
igual a ela.
Uma moça cujo pai precisara
excomungar para que servisse de
exemplo. Essa era a visão dele de amor;
no fundo, não passava de controle.
Ela abafou uma risada. Se alguém da
comunidade a visse agora... Grávida,
sozinha, trabalhando num antro de
pecado e com uma camiseta que
expunha uma parte das costas sempre
que se abaixava. Esse comportamento
seria condenado, renegado.
Esther tampouco aprovava essa
situação, mas o que fazer?
Por que dera ouvidos a Ashley? Sabia
a resposta. Por causa do dinheiro.
Queria ir para a faculdade, ficar mais
tempo na Europa, e largar aquele
emprego detestável de garçonete.
Não havia o menor romantismo em
ser mochileira. Ou em morar em
albergues.
Além do mais, Ashley parecia
vulnerável. Falara do casamento frágil e
de que a chegada de uma criança poria
fim à dor que separava o casal.
A criança seria muito amada,
afirmara. Contara seus planos para o
bebê. Esther nunca tinha sido amada
daquele jeito.
E, de certo modo, quis fazer parte,
contribuir.
A parte mais dilacerante foi a
descoberta de que a família feliz não
existia.
Riu e balançou a cabeça. O pai diria
que estava sendo castigada pela
ambição, desobediência e teimosia.
Claro, na certa também imaginaria
que, naquela situação, a filha voltaria
correndo para casa, arrependida. Não.
Jamais voltaria.
Levantou a cabeça. Olhou o incrível
caos que era Roma. Como podia se
arrepender? Sem dúvida, seria difícil
levar a gravidez adiante sem ajuda, mas
daria um jeito. E depois se certificaria
de encontrar um lar adequado para o
bebê.
Não criaria o bebê. Ele não era seu,
mas de Renzo e de Ashley. Sua
responsabilidade dela terminava após o
parto. Quanto a isso, não tinha dúvida.
Os fios de cabelo da nuca se
arrepiaram. Um calafrio percorreu a
espinha. Endireitou-se e virou. E, no
meio da multidão, no bar lotado, cuja
penumbra garantia certo anonimato, ele
parecia sobressair como um farol.
Alto, o cabelo escuro penteado para
trás, as mãos enfiadas nos bolsos do
terno bem cortado, os olhos escuros
vagando. Renzo Valenti.
O pai do bebê. O homem que a
despachara três dias antes. Não
esperava voltar a vê-lo. Ele deixara bem
claro que não queria saber da criança.
Sequer acreditava na história dela.
Mas ali estava ele.
Foi inundada por uma onda de
esperança. Esperança em relação à
criança. E – precisava admitir, embora
culpada – em relação a si própria.
Esperança de ser recompensada, como
lhe havia sido prometido.
Enxugou as mãos e guardou a toalha
no bolso do avental. Acenou. O
movimento deve ter lhe chamado a
atenção, pois ele se virou na direção
dela.
E o mundo desacelerou.
Sentiu uma onda de calor descendo
pela barriga. A respiração ficou
ofegante. O olhar penetrante pareceu
espetá-la, como se ela fosse uma das
borboletas da coleção do irmão, e a
paralisou.
Tremia, apesar de não saber o motivo
da reação. Poucas coisas a intimidavam
desde o dia em que enfrentara o pai
diante da comunidade reunida, e se
recusara a abrir mão das coisas
“maléficas” que trouxera do mundo
exterior. Agarrada ao seu sonho,
desafiara o pai, tudo o que lhe fora
ensinado, o que levou a sua expulsão da
comunidade.
Seria o mundo tão assustador quanto
os pais diziam? Decidida a correr o
risco, se acalmou.
Mas agora tremia. Sentia-se
intimidada. Talvez até meio
amedrontada.
E então ele se aproximou. E uma
conexão pareceu estabelecer-se entre os
dois. Como se ele segurasse uma corda
amarrada na cintura dela. E, embora ele
se aproximasse, ela se sentia puxada.
Apesar da barulheira no bar, quando
ele falou, ela ouviu as palavras com
extrema clareza.
– Acho que precisamos ter uma
conversinha.
– Nós já tentamos – disse, chocada
com a própria voz ofegante. – E o
resultado não foi o planejado.
– Você foi até minha casa e soltou
uma bomba. O que esperava?
– Eu não sabia que era uma bomba.
Pensei que você soubesse.
– Infelizmente, eu não sabia. Mas, se
o que diz é verdade, precisamos chegar
a um acordo.
– Eu falei a verdade. Tenho todos os
documentos no albergue.
Ele franziu os olhos.
– E devo acreditar na documentação?
Ela deu uma risada.
– Eu não saberia falsificar
documentos médicos.
– Como posso ter certeza? Não
conheço você. Apareceu do nada em
minha casa querendo que eu
acreditasse numa história fantástica.
– Mas veio aqui – disse, olhando para
as sandálias. Ergueu o olhar e um nó na
garganta se formou ao se deparar com o
olhar furioso. – E isso significa que
talvez acredite na história. Por que eu
mentiria? Acredite em mim.
– Vamos até o albergue.
– Meu turno já terminou. Só preciso
bater o ponto.
Ele agarrou o braço dela. O toque da
mão despejou uma descarga elétrica
pelo seu corpo. Nunca tinha sido tocada
por um homem, a não ser pelo médico
da família. Estranho, mas até as solas
dos pés pareciam pegar fogo. As
sandálias pareciam a ponto de derreter.
Ela parecia derreter.
– Se precisar, falo depois com seu
chefe. Mas vamos embora agora.
– Não posso.
Um sorriso nada gentil retorceu os
lábios de Renzo. O sorriso em nada
aliviou a pressão no peito dela. Pelo
contrário.
– Podendo ou não, vai assim mesmo,
cara mia.
Depois da declaração, ela foi retirada
do bar e levada para a rua lotada e
úmida. O cabelo grudava na nuca, a
regata se colava à pele e o corpo parecia
uma fornalha. Atravessaram a rua.
– Não sabe onde moro.
– Sei. Sou capaz de achar o endereço
de um albergue e estou bastante
familiarizado com as ruas.
– Não é por aí – disse, sentindo a
necessidade de assumir um mínimo de
controle. Odiava sentir-se indefesa,
dominada.
– É sim.
Para sua decepção, o caminho
alternativo os levou mais rápidamente à
porta do albergue. Ela franziu os lábios
a testa.
– De nada – disse ele, abrindo a
porta, a postura e o tom de voz
irradiava uma arrogância até então
desconhecida para ela.
– Como assim?
– Devia me agradecer por ter
ensinado um caminho mais rápido.
Assim poupará mais tempo no futuro.
Ela ficou emburrada, abaixou a
cabeça e entrou no saguão apertado.
Seguiu na frente pelo corredor até
chegar a um quartinho nos fundos com
quatro beliches, que dividia com mais
duas moças. Tinha certa privacidade,
mas agora, grávida, começava a achar o
lugar meio sufocante.
Esther tirou as sandálias e pegou a
mochila, guardada no canto de uma das
camas de baixo.
Por não ouvir passos, voltou-se e viu
Renzo parado na porta. Sua silhueta
ocupava todo o espaço e, quando ele
avançou, preencheu não apenas o
quarto, mas o vazio no peito dela.
– De nada – disse ela em tom seco.
– Não tem de quê – respondeu ele,
com um desdém beirando o cômico. Só
que, naquele momento, era difícil achar
graça.
– Tome – disse, entregando a Renzo
os papéis dobrados. Os dedos não
tocaram nos dele, e ela ficou
preocupada ao se dar conta de que
gostaria que tivessem encostado.
– O que é isso? – perguntou ele,
desdobrando os documentos.
– Os relatórios médicos e o acordo
assinado por mim e por Ashley.
Imagino que reconheça a assinatura da
sua mulher.
Ele franziu a testa e rugas profundas
surgiram entre as sobrancelhas escuras.
– É, reconheço... Talvez seja verdade.
– Ligue para Ashley. Ela está com
raiva de mim. Aposto que vai adorar
brigar com você também.
– Ashley quer que você interrompa a
gravidez?
Esther balançou a cabeça engolindo
seco.
– Quer, mas eu não posso. Apesar de
o bebê não ser meu, ele não existiria
sem mim.
– Se for mesmo meu filho, não quero
que aborte.
– Você quer o bebê?
Inutilmente, tentou ler a expressão
do rosto dele. Não que fosse especialista
em decodificar o pensamento dos
outros. Passara muitos anos presa em
uma comunidade fechada, onde ver
rostos desconhecidos causava um
choque. Enfrentar o mundo, depois de
uma vida enclausurada era... Havia
tantas visões, sons, cheiros, vozes,
sotaques, maneiras diferentes de
expressar a alegria e a tristeza...
Em geral, se julgava em
desvantagem; em outras, ao contrário,
pois a maioria das pessoas não prestava
a menor atenção aos outros. Sempre
acreditara que caso abrisse mão da
vigilância – mesmo se por um único
segundo – ficaria perdida no mar
infinito da humanidade.
Mas o rosto de Renzo era um
mistério. Parecia entalhado em granito.
Os lábios eram uma linha firme; os
olhos pretos, impenetráveis.
– Se for meu, assumo a
responsabilidade – afirmou, o que não
significava querer o filho.
Ah, pensou Esther, pouco importava.
– Bem, suponho... – Não queria
mencionar o pagamento, por mais que
o desejasse.
– A primeira coisa a fazer é tirar você
desse – olhou ao redor do quarto –
lugar. Não pode morar aqui já que
carrega o herdeiro da fortuna Valenti.
Ela hesitou. O bebê em seu ventre
era herdeiro de uma fortuna? Sabia que
Renzo era rico. Vira o estilo de vida de
Ashley quando se hospedaram no
luxuoso hotel para o procedimento.
Mesmo assim, a revelação a
surpreendeu.
– Estamos bem.
– Pode ser, mas imagino que sua
definição de “bem” deva ser bem
diferente da minha. Deve largar o
emprego no bar e vir comigo.
Esther parecia ter levado um soco no
peito. Não conseguia respirar, sufocada
pelo olhar sombrio e inflexível.
– E se eu não concordar?
– Não tem escolha. Uma cláusula no
contrato estipula que Ashley pode optar
pelo término da gravidez. Ela fez a
escolha. Ou seja, a não ser que aceite
minhas exigências, não vai receber
nada. Não na Itália, posso garantir.
Pagarei mais do que minha mulher
prometeu, mas para isso precisa seguir
minhas instruções.
Esther ficou confusa. Precisava
sentar-se ou desabaria. As pernas
fraquejaram.
O barulho da rua entrando pelas
janelas, misturado ao de seus
pensamentos, a deixou tonta.
– Está certo – concordou, sem
encontrar uma única razão para
discordar.
Havia outras consequências a serem
levadas em conta. Talvez a própria
segurança. Só tinha uma leve ideia
quanto à reputação de Renzo como
homem de negócios.
Também sabia ter sido casado com
Ashley, que havia provado ser
desonesta. E manipuladora; e – se
Renzo fosse confiável – mentirosa.
Isso, imaginou, mostrava um pouco
do caráter de Renzo.
Contudo, não lhe restava outra
alternativa. Não era a primeira vez que
sentia um profundo sentimento de
culpa e arrependimento.
Tentou não se afundar na culpa,
basicamente por ter passado grande
parte da vida mergulhada nela até o
pescoço. E isso acontecia sempre que
pegava um livro que não deveria ler ou
um CD que não deveria ouvir.
Quando fora expulsa, depois de
terem descoberto esses objetos
proibidos, decidira levar a vida que
quisesse. Adorava música pop, cereal
açucarado e filmes. Podia ler os livros
que bem entendesse, mesmo aqueles
contendo palavrões e cenas picantes.
Sem um pingo de vergonha.
Mas a possibilidade de transformar
seus sonhos em realidade não existia
ainda na lista. Queria estudar.
Continuar a viajar. Começar uma vida
nova, afastada da comunidade de onde
vivera.
Tamanha era a determinação dela de
jamais voltar a viver com a família, de
voltar para aquela existência
claustrofóbica, que ignorou os alertas de
sua consciência.
Entretanto, era impossível não
considerar que trazia um bebê no
ventre e que parte da responsabilidade
era sua. Ou ignorar que isso a afetaria
tanto física quanto emocionalmente.
Caso não aceitasse a oferta de Renzo, a
única alternativa seria...
Na certa, sairia fragilizada. Perderia
toda a força acumulada. E apenas em
troca de um dinheiro no qual nem
tocaria.
Então, pegou a mochila, calçou as
sandálias e encarou Renzo.
CAPÍTULO 3

ADRENALINA E raiva pulsavam no


sangue de Renzo em iguais proporções
enquanto dirigia. A mulher – cujo
nome tinha lido nos documentos, mas a
quem não tinha sido formalmente
apresentado – olhava o carro italiano
com espanto.
A situação era complicada. A veia do
pescoço saltava, o sangue fervia. Um
bebê. Esther Abbott, a mochileira
americana, esperava um filho seu. Teria
de verificar a história com Ashley, mas
era forçado a acreditar em Esther,
mesmo sem um motivo real.
Apenas por pressentimento. A ideia
de acreditar na sua intuição o fez rir.
Isso raramente ocorria. Em geral,
confiava nos instintos sexuais. Ou nos
intelectuais, acima de qualquer
suspeita.
Em termos profissionais, seus
instintos, herdados do pai, nunca
falhavam.
Ao que tudo indicava, em outras
áreas, não tinha tal discernimento. Não
era infalível. Caso contrário, não teria se
casado com Ashley.
Jillian era outro exemplo.
Mulheres. Parecia ter a tendência de
escolher mal as mulheres. Apesar de
não se envolver emocionalmente,
parecia ter faro para encontrar
mulheres que mexiam com outra parte
do seu corpo.
Olhou de esguelha para Esther, mas
logo voltou a se concentrar no trânsito.
Não corria esse risco com ela. Estava
acostumado com mulheres produzidas.
Aquela era comum: olhos grandes
castanhos, sobrancelhas escuras e
grossas, além de olheiras.
Os lábios eram carnudos; talvez fosse
seu traço mais atraente. Embora o corpo
também fosse bonito. Os seios eram
pequenos, mas firmes. Evidentemente
não usava sutiã.
Mas os seios pouco importavam. Só o
ventre importava. E dentro dele estava
seu filho.
Virou o volante abruptamente,
deixou o portão escancarado, saiu do
carro e, abriu a porta do carona.
– Bem-vinda à sua nova casa – disse,
ciente do tom não ser nada acolhedor.
Ela mordeu o lábio, pegou a mochila
e a apertou contra o peito. Olhou ao
redor, os olhos arregalados, pálida,
apesar de bronzeada.
– Você veio aqui faz uns dois dias.
Não precisa fazer essa cara de
intimidada.
– Mas você intimida. E uma casa
dessas, praticamente um castelo,
oprime. – Respirou fundo. – Sei que já
vim aqui, mas é diferente. Não achei
que ficaria aqui.
– Vai fingir que prefere o albergue?
Não precisa mentir. Se ficou grávida, foi
por dinheiro. Ou seja, tem interesse em
bens materiais.
Ela balançou a cabeça.
– Não; não é bem isso. Eu pretendo
ir para a faculdade.
Ele franziu a testa.
– Quantos anos tem?
– Tenho 23.
Ele reprimiu um palavrão. Esther era
da idade de Allegra, sua irmã. Talvez,
até mais jovem. Se fosse o tipo de
homem capaz de ter compaixão por
estranhos, talvez sentisse pena dela.
Mas esses sentimentos haviam sido
arrancados fazia muito tempo, e a
momentânea empatia foi substituída
por uma vaga preocupação.
– Nunca teve acesso a bolsas de
estudo?
– Não. Eu tive que pagar para fazer o
exame. Não frequentei escola, mas
minhas notas foram boas, eu acho. Só
preciso da grana.
– Não terminou o ensino
fundamental?
Esther apertou os lábios.
– Estudei em casa. Ah, deixa para lá.
Voltando ao que interessa, minha
intenção não era comprar um iate. E
mesmo que fosse, ninguém toma a
decisão de procurar uma estranha para
oferecer a barriga para gerar um filho.
Ele ergueu o ombro.
– Suponho que não. Por aqui.
Entrou em casa, totalmente perdido.
A governanta já se recolhera e ele teria
de lidar com aquela pobre coitada.
– Deve estar cansada.
– Estou com fome.
Ele trincou os dentes.
– Vamos até a cozinha.
Ele foi na frente, percorrendo a casa
elegante, ouvindo o barulho das
sandálias arrastando no chão. A casa de
pedra, antiga, datava de séculos. Mas
seu interior era moderníssimo. Abriu as
portas da geladeira de aço inox.
– Pode pegar o que quiser.
Tão logo disse isso, percebeu que só
havia ingredientes, e não uma refeição.
Então se lembrou de que a governanta
deixava porções no freezer, caso ele
decidisse comer.
Não costumava comer em casa, e, se
chegasse e não tivesse empregada para
preparar alguma coisa, ele saía. Mas não
sairia de novo hoje.
Procurou até encontrar um pote com
macarrão.
– Pronto – disse colocando a vasilha
diante de Esther, que o fitava com olhos
esbugalhados.
Deu-lhe as costas, e subiu às pressas
para o escritório. Andou de um lado
para o outro, inquieto, até pegar o
telefone e ligar para a ex-mulher.
Ashley atendeu depois do segundo
toque. Isso não o surpreendeu. Se
atendesse, atenderia rápido. Se
pretendesse ignorá-lo, deixaria o
telefone tocar sem parar. Ela era dada a
extremos.
– Renzo – disse em tom entediado –,
a que devo o prazer?
– Talvez não ache um prazer depois
de ouvir o que tenho a dizer.
– Para ser sincera, não encontro
prazer nenhum em falar com você já faz
uns meses.
– Só ficamos casados seis meses,
então espero que esteja exagerando.
– Não estou. Por que acha que
procurei outros homens para me
satisfazer?
– Caso se refira à satisfação
emocional, tenho várias repostas. Mas
se estiver insinuando que eu não a
satisfazia fisicamente, vou ter que
chamá-la de mentirosa.
Ashley bufou.
– A vida não é só sexo.
– Tem razão. Tem, por exemplo, uma
mulher na minha cozinha.
– Estamos divorciados – disse Ashley,
em tom tão áspero que poderia cortar
um vidro. – Quem você leva para a
cozinha ou para a cama não me diz
respeito.
– Diz sim, quando se trata de Esther
Abbott. Ela alega que vocês duas
fizeram um acordo para ela servir de
barriga de aluguel de nosso filho.
Pausa. Chegou a ficar satisfeito por
ter obtido sucesso em calar Ashley.
Mesmo quando a pegara na cama com
outro, ela havia falado, gritado,
chorado, armado um escândalo. Não
deixava por menos. A última palavra
era sempre dela.
O silêncio era significativo. Se por
surpresa ou aborrecimento, ele não
saberia dizer.
– Achei que isso salvaria o nosso
casamento. Mas foi antes... Antes do
divórcio. Antes de você descobrir
minhas traições.
– Antes de eu descobrir a respeito
dos cinco homens com quem saiu
enquanto éramos casados.
Ashley deu uma gargalhada.
– Sete, se não me falha a memória.
Pouco lhe importava se tinham sido
cinco, sete ou apenas o cara com quem
a pegara em flagrante. Tinha a sensação
de que para ela tampouco se importava.
– Então é verdade.
– É.
– Como?
Impaciente, ela deu uma risada.
– Bem, meu querido, da última vez
que transou comigo, usou preservativo.
Eu só o guardei, depois que você o
jogou fora. Foi o suficiente para o
médico.
Ele soltou um palavrão. Com raiva
dela. Dele. Do próprio corpo.
– Como pode ser tão baixa?
– Ainda não viu nada... Mas não se
preocupe, Renzo, o que penso e faço
não lhe diz respeito.
– A mulher está esperando um filho
nosso – esbravejou, tentando retomar o
assunto. Afinal, este era o motivo de ter
uma criatura, uma mochileira, na casa
dele.
– Porque ela é teimosa. Eu avisei para
interromper a gravidez, avisei que me
recusava a pagar pelo sustento dela.
– Sei – interrompeu. – Já conversei
com ela. Só liguei para confirmar.
– O que vai fazer?
Boa pergunta. Boa não, excelente! Ia
criar o filho, é óbvio. Mas como explicar
aos pais? À mídia? Um dia, o filho leria
as manchetes. Teria de ser honesto e
falar sobre a armação de Ashley ou
inventar que resolvera adotar uma
criança abandonada pela mãe.
Contudo, a doação temporária de
útero era ilegal na Itália. Esther poderia
tirar proveito disso.
– Não há nada a ser feito – disse em
tom decidido. – Esther Abbott está
esperando um filho meu e assumirei a
responsabilidade.
– Renzo – exclamou furiosa –, o que
pretende fazer?
Sabia como agir. Já passara por
situação parecida. Só que, na ocasião,
não tivera escolha. A mulher em
questão, o marido, os pais dele haviam
tomado a decisão por ele. Não tinha
perdido só a virgindade com Jillian.
Aos 16 anos, fora pai pela primeira
vez e obrigado a manter distância da
criança. Forjaram uma história para
proteger o casamento, as famílias, a
criança e a reputação do marido.
Protegeram todo mundo, menos
Renzo.
Não permitiria que isso se repetisse.
Não permitiria que ele ou o filho
fossem colocados em situação tão
precária. Só havia uma solução.
– Farei o que qualquer homem
responsável faria. Pretendo casar com
Esther Abbott.

ESTHER NUNCA tinha visto nada parecido


com a cozinha de Renzo. Levara mais
de dez minutos para descobrir como
usar o micro-ondas. Mesmo assim, o
macarrão ficara gelado em algumas
partes e, em outras, queimara a língua
dela. Apesar disso, era uma das
melhores macarronadas que já tinha
comido. Talvez isso tivesse a ver com a
exaustão e com as várias horas sem
comer nada. Macarronada era um de
seus pratos – recém-descobertos –
preferidos. Não que nunca tivesse
comido macarrão antes, mas só em
sopas.
Por enquanto, descobrir novos pratos
era a melhor parte das viagens.
Bolinhos de avelã com creme azedo na
Inglaterra, macarons na França.
Adorava a aventura culinária, quase
tanto quanto o resto.
Embora, de vez em quando, sentisse
falta do pão integral e do cozido. Das
comidas simples preparadas pela mãe.
Uma pontada de solidão, de
saudades de casa a atingiu. Embora
raro, acontecia vez por outra. A vida em
família tinha sido complicada. Bem
diferente da vida que pretendia levar.
Contudo, era segura. E, durante grande
parte da vida, a única coisa conhecida.
Piscou, deu outra garfada,
permitindo que o momento atual
apagasse a nostalgia.
Ouviu passos. Ergueu o rosto. Renzo
entrou na cozinha e o olhar escuro e
sombrio afastou de vez a saudade de
casa. Não havia espaço para mais nada
além daquela intensidade profunda.
– Acabei de falar com Ashley.
De repente, o macarrão ficou com
gosto de serragem.
– Imagino que ela tenha dito o que
não queria ouvir.
– Você tem razão.
– Sinto muito. Não vim para tirar
vantagens nem para mentir. Não podia
ter falsificado os documentos médicos.
Nunca tinha ido ao médico até Ashley
me levar.
Ele franziu a testa. Ela percebeu ter
feito uma confissão que revelava que
era diferente. Ela vira e mexe fazia isso.
Afinal, as culturas divergiam, e às vezes
achava que os outros podiam considerá-
la diferente pelo simples fato de ser
americana.
Mas ela era diferente dos americanos
típicos também.
– Eu morava numa cidadezinha
pequena – mentiu sem pudor. Sempre
fora mentirosa. Sempre que os pais
perguntavam se estava contente e a mãe
lhe perguntava seus planos para o
futuro, era obrigada a mentir.
Então, assumir ser estranha passou a
ser mais fácil quando ela conversava
com os outros e percebia com cada vez
mais facilidade o que esperavam dela.
– Uma cidade tão pequena que não
tinha médicos?
– Ele ia em casa. – Em parte, era
verdade. Havia um médico na
comunidade.
– Independentemente de sua
história, você parece ter dito a verdade.
– Eu avisei.
– Sua posição não é nada invejável,
segundo sua perspectiva. Quais seus
objetivos na vida?
Que pergunta estranha! Nunca
tinham lhe perguntado isso. Os pais
falavam sobre o que ela deveria fazer,
sobre suas responsabilidades, sobre os
deveres das mulheres. Mas nunca
ninguém lhe perguntara se ela estava
disposta a seguir as regras. Nem lhe
perguntado coisíssima nenhuma.
Mas ele perguntou. E isso a
emocionou.
Sentiu-se incentivada a falar de seus
planos.
– Quero viajar. E estudar.
– Com qual objetivo?
– Como assim?
– O que pretende estudar?
Administração? História?
– Tudo. – Deu de ombros. – Quero
aprender coisas.
– Por exemplo...
– Tudo o que nunca aprendi.
– Uma ambição e tanto, embora
possível. Existe melhor cidade no
mundo para aprender história além de
Roma?
– Paris e Londres têm visões
diferentes. Mas concordo que posso
aprender pelo simples fato de estar
morando aqui. No entanto, quero mais.
Ele se movimentou com tamanha
determinação que ela se sentiu um
ratinho perto de um gato.
– E por que não deveria ter mais,
tudo? Olhe ao seu redor – disse,
agitando a mão num gesto largo. –
Tenho quase tudo. Por quê? Porque
nasci numa família rica. E lutei para
provar que mereço o que conquistei.
Assumi o leme dos negócios da família
e continuei a navegar com eficiência.
– Muito bem – disse, sem fazer ideia
do que deveria dizer.
– Pode ser bom para você – disse ao
fitá-la. Ela se arrepiou, e não conseguiu
esconder os mamilos em pé, apesar de
cruzar os braços.
– Pode?
– Sem falsa modéstia, sou bilionário,
srta. Abbott. Ashley não foi generosa,
mas eu pretendo lhe oferecer o mundo.
Ela ficou ruborizada. Pigarreou e
prendeu uma mecha do cabelo atrás da
orelha, pois precisava botar para fora a
energia.
– É muita gentileza sua, mas só tenho
uma mochila. Acho que o mundo não
cabe dentro dela.
– Esta é a questão.
– Qual?
– Vai ter de abrir mão da mochila.
– Não entendi.
– Sou muito poderoso. Entretanto,
preciso corresponder à imagem pública,
aos ideais conservadores dos meus pais.
Eles se esforçaram para eu me tornar
quem eu sou. – Apertou o maxilar com
tanta força que um músculo saltou. – E
embora eu tenha me casado com
Ashley, esperam que eu me case de
novo, tenha filhos. Uma barriga de
aluguel seria um escândalo. Se a
informação vazasse, eu ficaria numa
posição terrível, Esther – disse, usando
pela primeira vez o nome dela. – Não
quero manchar o nome Valenti por um
erro meu.
– Não entendo o que isso tem a ver
comigo. Precisa ser mais claro; às vezes
sou meio lerda.
Ele franziu a testa.
– Sua cidade é muito pequena?
– Minúscula.
– Talvez o tamanho da cidade não
faça diferença. Para ser sincero, a
situação é meio inédita. Porém, a
medida a ser tomada é evidente.
– Por favor, me esclareça.
Ele se calou e a fitou, o que não devia
ser estranho. Afinal de contas, já a
olhara. Muitas vezes. As pessoas se
olham enquanto conversam. Só que,
dessa vez, ao fitá-la, foi tomado por
uma sensação diferente.
Tudo era diferente. Se fazia ou não
sentido, pouco importava, mas era
diferente. O olhar a avaliava de um
modo diferente. Como se a analisasse
profundamente. Com um olhar de raio
X. Ela estremeceu. Ele parecia tentar
enxergar sua essência.
Renzo examinou o corpo inteiro, e
ela começou a sentir calor. A sensação
estranha e perturbadora voltou entre as
coxas, os seios pesaram.
Ela respirou fundo, tentando conter
as lágrimas. Desconhecia o motivo da
emoção, mas queria chorar. Aquela
sensação era nova, desconhecida.
– Esther Abbott. – Seu nome parecia
envolto em seda. – Você vai ser minha
esposa.
CAPÍTULO 4

ESTHER PENSOU que estava sonhando.


Teve a sensação de se desprender do
corpo e olhar de longe a cena, como se
acontecesse com outra pessoa. Não fazia
sentido estar naquela mansão, olhando
o homem mais lindo que já tinha visto,
enquanto a proposta de casamento
ainda ressoava em seus ouvidos.
Lindo não era a palavra adequada
para Renzo, decidiu. Seus traços eram
angulosos, os olhos escuros, duros.
Como todo o resto, eram atraentes, mas
mortais. Como pedaços de obsidiana.
Apesar da tentação de passar os dedos
na pele aparentemente macia, corria o
risco de se cortar numa ponta.
Que ridículo se fixar no uso da
palavra lindo. Ou em sua aparência. Ele
acabara de afirmar sua intenção de
transformá-la em sua esposa. Sua
esposa.
Aquele era seu pior pesadelo. Ser
propriedade de um homem. Nunca
toleraria isso. Renzo era diferente do
pai. A situação era diferente. Mas a
sensação foi a mesma. A garganta
fechou como as paredes ao seu redor.
– Não! – exclamou, invadida pelo
pânico. – Impossível. Não posso. Tenho
objetivos que não incluem ser sua...
Não.
– Não há um único objetivo que eu
não possa satisfazer em grande estilo.
Ela balançou a cabeça.
– Não entende? Não quero ficar aqui
em Roma. Quero conhecer o mundo.
– Você tem conhecido o mundo, não
tem? Albergues e bares imundos. Que
romântico! Imagino ser difícil fazer
turismo quando precisa ficar atenta ao
movimento das mesas durante horas a
fio.
– Mas eu tenho folga. Estou
morando na cidade. Tenho o que
quero. Talvez não entenda, mas, como
você mesmo disse, tudo o que tem
recebeu de herança. Eu não herdei
nada. Nem a casinha modesta no meio
de uma cadeia de montanhas é minha,
mas do meu pai. E será herdada por um
dos meus seis irmãos. Isso mesmo, seis.
Nada será deixado para mim ou para as
minhas três irmãs. Ouviu bem o
número, não se enganou. Porque as
mulheres não recebem nada. Embora,
para ser sincera, naquele ambiente, os
meninos também não têm grandes
chances. – Respirou fundo. – Eu me
orgulho do que tenho. Não vou
permitir que se comporte como se me
faltasse alguma coisa.
– Mas falta, cara. – As palavras a
cortaram como uma faca. – Se não
faltasse, não teria objetivos quase
inalcançáveis. Pretende estudar.
Aprender. Conhecer o mundo... Venha
para o meu mundo. Garanto que é bem
mais extenso do que qualquer um no
qual sonhe entrar sozinha.
As palavras reverberbaram no corpo
dela, ecoaram. Uma promessa na qual
quase todas as fibras do seu ser queriam
acreditar. Quase todas. Contudo, uma
desconfiava. Uma que desejava
permanecer a mesma. Porque ali estava
ela, paralisada, como quando ele
entrara no bar. Algo nele a paralisava. E
parecia mais forte do que qualquer
aterrorizado e escandaloso neurônio
que lhe ordenava sair correndo.
– Isso é maluquice. Não preciso de
você, só do pagamento combinado. Sou
capaz de cuidar da minha própria vida.
– Mas por que ter apenas parte da
minha fortuna quando pode ter acesso
a tudo?
– Porque eu não saberia o que fazer
com ela. Sinceramente, ter algo que
posso chamar de meu já é uma
experiência nova. O que você fala
parece meio fora do meu alcance.
– Mas não precisa ser assim. – As
palavras eram aveludadas, a voz a
envolvia. A mãe tinha razão. O diabo
não era feio. Se fosse não atrairia
ninguém. O diabo era lindo. O diabo,
tinha cada vez mais certeza, era Renzo
Valenti.
– Acho que você deve ser doido.
Agora entendo porque sua esposa o
largou.
Ele deu uma gargalhada.
– Foi o que ela disse? Mais uma das
mentiras dela. Fui eu que atirei aquela
ambiciosa, aquela insaciável na rua,
depois que a peguei na cama com outro
homem.
Esther tentou não demonstrar o
choque. Tentou não aparentar ser a
jovem inocente que, na verdade, era. A
simples ideia de alguém violar os laços
sagrados do casamento era apavorante.
O matrimônio era sagrado. Outro
motivo para não aceitar a proposta de
Renzo.
– Ela traiu você?
– Traiu. Como já disse, eu fui fiel à
minha esposa. Não vou mentir e dizer
que escolhi Ashley por amor, mas, no
início, nossa relação era divertida.
Esther remoeu o pensamento por um
tempo.
– Divertida?
– Em alguns setores.
Não entendeu por completo o
significado, mas sabia que dizia respeito
a algo lascivo, e ficou ruborizada.
– Bem, eu não... Eu não sou a esposa
certa para você – concluiu. Não tinha
experiência na área. Nem tampouco
desejo. Na certa, um dia, desejaria ter
alguém. Estava anotado na sua lista.
Bem lá embaixo.
Sexo era uma curiosidade. Conhecia
cenas de amor dos livros e filmes. Mas
não estava preparada, mais em termos
emocionais do que físicos.
E, por enquanto, estava muito
ocupada explorando seu próprio ser. O
que pretendia da vida. Nunca tinha
visto um casamento em que o homem
não assumisse o comando. Não tinha
experiência de relacionamentos em que
o marido não mandasse na mulher com
punhos de aço.
Nunca se submeteria a isso. Nunca.
– O que foi? Alimenta alguma
fantasia infantil de um casamento por
amor?
– De jeito nenhum. Alimento
fantasias de nunca me casar. Quanto ao
amor, não conheço esse sentimento.
Não do jeito como você fala. Até hoje,
só experimentei posse e controle.
Obrigada, não estou interessada.
– Entendo. Então, você é exatamente
o que aparenta ser. Alguém que segue
levada pelo vento, sem direção.
As palavras soaram desdenhosas.
– Isso. E não pretendo ser diferente.
Por que deveria? Não tenho qualquer
obrigação em relação a você nem a
ninguém, e é assim que gosto. Mas me
meti nessa situação, e pretendo agir
com integridade. Da minha maneira.
Queria me certificar de que você sabia a
respeito do bebê e de que seus desejos
seriam satisfeitos.
– Mesmo assim, não viu motivos para
checar comigo primeiro?
Ela deixou escapar um suspiro.
– Eu deveria ter investigado antes.
Mas por isso vim procurá-lo depois que
Ashley me avisou que não queria mais
o bebê. Ela havia deixado bem claro
que você queria desesperadamente um
filho, e eu não acreditei que mudaria de
repente de ideia. Levando em conta
tudo o que ela tinha dito.
– Minha ex-mulher é uma mentirosa
muito convincente.
– Se é... Mas quero pôr um ponto
final nessa confusão. Quero ter o bebê e
depois seguir meu caminho.
– Isso pode ser discutido. Mas, para
todos os efeitos, você será apresentada
como minha namorada. O que vai
acontecer depois do nascimento da
criança pode ser negociado, mas, até lá,
vamos nos comportar como um casal.
– Não entendo... Eu não quero...
– Sou um homem poderoso. O fato
de não pendurar você no meu ombro e
a levar à força até a igreja mais próxima,
onde poderia convencer o padre a
concordar comigo, é uma demonstração
de que estou sendo generoso com você.
Também não tenho interesse em voltar
a casar depois da minha experiência.
Então, está decidido. Você vai fingir ser
minha noiva, ao menos até o
nascimento da criança, e então
negociaremos sua liberdade... e o preço.
– Vamos aparecer nos jornais? –
Ficou aterrorizada diante da ideia de os
pais abrirem um jornal e se depararem
com os dois.
– Na certa, em tabloides. Ou em
colunas sociais de jornais respeitáveis.
Basicamente na Europa.
Ela soltou um suspiro, relaxando a
tensão no peito.
– Talvez não seja tão ruim.
Ele franziu o cenho.
– Está se escondendo de alguém?
Preciso saber o que pode colocar meu
filho em perigo, cara mia.
– Não estou me escondendo.
Acredite, não corro perigo. Quer dizer,
estou meio escondida. Mas não por
medo de alguém vir atrás de mim.
Meus pais são... rígidos. Não aprovam
minha atitude. Não quero que leiam a
meu respeito no jornal, saibam que
estou com um homem, grávida e
solteira. – Apesar do fato de ter
desistido há tempos de agradar os pais,
tinha consciência de que sair de casa
significara cortar os laços com eles para
sempre, sentia vergonha.
– Então eles são tradicionais.
– Não faz nem ideia. – A vergonha
não ia embora. – Nunca me deixaram
usar maquiagem.
– Bem, receio que vá desobedecer a
essa regra também.
– Por quê? – Tinha o direito de usar
o que bem entendesse, mas não tinha
comprado maquiagem. Não tivera a
chance.
– Porque as minhas mulheres
obedecem a um determinado padrão.
Isso a fez construir uma imagem
muito específica na mente. Certo tipo
de mulher. O tipo de mulher do qual a
mãe costumava falar. Decadente.
Marcada.
Foi difícil imaginar que seria
apresentada assim ao mundo. Não por
vergonha, mas porque nunca lhe
ocorrera sair maquiada e produzida
com um homem como Renzo Valenti.
– Você vai... a muitos eventos, não
vai?
– Demais. Como disse, você jamais
teria acesso ao mundo que vou lhe
mostrar. Se quer experiências, posso lhe
dar muitas com as quais nunca sonhou.
Essas palavras provocaram uma
sensação de calor na base de sua
espinha, a envolveram e a deixaram ao
mesmo tempo quente e vazia.
– Certo – disse apressada. Se
refletisse, sairia correndo.
– Certo o quê?
– Vou fingir ser sua noiva pelo tempo
que decidir. E, depois que o bebê
nascer, vou embora.
Ele deu um passo à frente e segurou
seu queixo. Ela sentiu o fogo penetrar
em seu corpo.
– Excelente! Esther – disse, o nome
soando como uma carícia em seus
lábios –, a partir de agora você tem um
noivo.

RENZO TERIA de agir com extrema


cautela nas próximas semanas. Essa era
uma das poucas coisas de que tinha
consciência. Sua vida virara de pernas
para o ar. Tinha uma mochileira
maltrapilha hospedada em casa, e
precisava apresentá-la ao mundo como
sua noiva. Em breve. Quanto antes,
melhor. Antes que Ashley despejasse
algum veneno para a mídia.
Já montara um plano para evitar a
possível atitude da ex-mulher. Seu
advogado lhe ofereceria um pagamento
generosíssimo quando o sol nascesse no
Canadá. Ela não ia querer desafiá-lo.
Caso contrário, não receberia nada pelo
contrato pré-nupcial.
Ashley gostava de atenção, é
verdade. Mas preferia dinheiro. O
pagamento resolveria a questão.
Depois precisava pensar em como
contar a novidade aos pais.
Independentemente das
circunstâncias, eles ficariam
animadíssimos com a notícia de que
teriam um neto. E felizes ao saberem
que Ashley sumira do mapa.
Esther, contudo, era o maior
problema.
Com grande relutância, pegou o
telefone e ligou para a mãe. Ela atendeu
ao primeiro toque.
– Renzo, meu filho, que surpresa!
Você nunca me telefona.
– É o que sempre diz quando
telefono.
– E é verdade. Mas me conte, quais
seus planos? Você nunca liga só para
conversar.
Ele não conteve o riso. A mãe o
conhecia muito bem.
– Na verdade, queria saber se tem
planos hoje para o jantar.
– Claro, Renzo. Planejo o jantar
todos os dias. Hoje vamos ter carneiro,
vegetais e risoto.
– Excelente, mamãe. Tem lugar à
mesa?
– Para quem?
– Para mim – respondeu, achando
graça na obstinação da mãe. – E uma
namorada.
– Já está namorando? Mal acabou de
se divorciar... – Disse a palavra como se
fosse uma maldição. Para ela, de fato,
era.
– Na verdade, mais que isso. Quero
apresentar minha noiva, Esther Abbott.
Nenhum ruído. Isso o preocupou
bem mais do que uma explosão de
raiva. Então, a mãe falou.
– Abbot? Que família é essa?
Ele lembrou de um comentário de
Esther sobre um casebre nas montanhas
dividido pela família numerosa, e
conteve o riso.
– A senhora não conhece.
– Por favor, não me diga que
escolheu outra canadense.
– Não, relaxe. Ela é americana.
O engasgar da mãe não o
surpreendeu.
– Pior ainda.
– De qualquer maneira, a decisão
está tomada. – Considerou contar sobre
a gravidez, mas decidiu que seria
melhor para a mãe ouvir a notícia
pessoalmente. Gostava de organizar as
novidades de acordo com as
prioridades. Nunca superara os boatos e
fofocas sobre a gravidez de Allegra.
– Atitude bastante típica da sua
parte. – Não havia condenação ou
veneno no tom. Contudo, a simples
constatação o forçou a pensar num
tempo em que isso não era verdade.
Quando permitira aos outros decidirem
por ele. Esforçou-se para não pensar em
Jillian. Ou na filha criada por outro
homem. A filha que, vez por outra, via
em festas.
Uma das muitas razões pelas quais
bebia nessas ocasiões. Para lembrar-se
pouco no dia seguinte.
Tinha 16 anos quando os pais o
encorajaram a tomar a decisão. Desde
então, mudara o seu modus operandi.
Por completo. Não guardava raiva dos
pais. Eles queriam o seu bem.
Droga, tinha sido a decisão mais
ajuizada. Como ficara provado mais de
cinquenta vezes ao longo dos anos. Não
estava preparado para ser pai. Mas
agora estava.
– Sou o mesmo de sempre. Mas,
responda, vai nos receber hoje ou não?
– Vamos ter de comprar mais
ingredientes.
– Quando diz “vamos”, quer dizer
seus empregados, muito bem pagos, por
sinal.
– Estejam aqui às 20h em ponto. Não
se atrasem. Não vou esperar, e posso
garantir que não vai querer que eu já
tenha tomado uma taça de vinho antes
de você chegar.
Ele sorriu.
– Isso é a pura verdade, mamãe.
Tão logo desligou, telefonou para a
mulher que tinha sido personal stylist
da mãe, pedindo que viesse com sua
equipe de cabeleireiro e maquiador.
Não sabia se Esther tinha salvação.
Difícil dizer. Ele costumava sair com
mulheres clássicas. Não tinha
experiência com repaginação total.
Ela não era feia; talvez dessem um
jeito. Quase caiu na gargalhada. Estava
grávida. De um filho seu. E, apesar de
ser necessário teste de DNA para provar
ao mundo a paternidade, nunca
solicitavam teste para provar a
maternidade.
Segundo essa lógica, acreditariam na
ligação dos dois, mas ele preferia
facilitar as coisas.
Ao descer e encontrar Esther sentada
no chão da sala de jantar, com uma
tigela de cereais na mão, o rosto voltado
para o sol, sabia ter tomado a decisão
certa ao convocar a equipe completa.
– O que está fazendo?
Sobressaltada, derrubou um pouco
de leite no piso frio.
– Aproveitando a manhã.
– Tem mesa – disse apontando para a
enorme mesa de madeira sólida para
banquetes, mais velha que eles, e com
certeza ótima para aquela hippie tomar
o café da manhã.
– Eu sei, mas queria sentar perto da
janela. Podia ter trazido uma cadeira,
mas são muito pesadas e não queria
arranhar o piso. De qualquer modo,
estou muito confortável sentada no
chão quentinho por causa do sol.
– Vamos jantar na casa dos meus pais
hoje. Espero que não sente no chão.
A imagem dela agachada num canto
com uma costela de carneiro na mão
chegava a ser cômica. Uma vez que
avisou que Esther era americana, talvez
a mãe não estranhasse tal
comportamento.
Observou-a por um instante. O
mesmo cabelo desalinhado preso num
coque. Entretanto, trocara a regata
preta por uma marrom e a saia
comprida rodada por uma de cor mais
vibrante.
Ela franziu a testa e as sobrancelhas
se uniram.
– Claro que não.
No dia anterior, achara seu rosto
comum, mas agora havia algo na
criatura exótica que parecia natural.
Orgânico. Como se ela tivesse se
materializado em um jardim, em vez de
nascer.
Estranho, pois, em geral, ao olhar
para uma mulher, seu pensamento se
resumia a avaliar se ela seria ou não
bonita nua, se gostaria de ir para a cama
com ele e depois em como se livrar
dela.
– Ainda bem. Meus pais não são
flexíveis ou simpáticos. Vêm de famílias
tradicionais. Têm orgulho da linhagem
e do nome. Avisei que vamos nos casar
e que você é americana. Não deram
pulos de alegria. Ou melhor, falei com
minha mãe, mas meu pai vai
compartilhar da mesma opinião.
Ela arregalou os olhos, a expressão
preocupada. Era cômico se importar
com o que os pais dele pensavam.
Alguém como ela não parecia dar a
mínima para a opinião dos outros.
– Parece que a noite não vai ser das
mais agradáveis – comentou ela, após
uma longa pausa.
– Eu não diria que as reuniões na
casa dos meus pais são agradáveis. Mas
também não são insuportáveis.
– Detesto ser julgada – disse ela, em
tom tenso.
– Eu até gosto. Acho libertador não
atender às expectativas dos outros.
– Não acredito. Todo mundo quer
agradar os pais. – Franziu a testa. – Se
não os pais, alguém.
– Você mesma disse ter deixado seus
pais. E que eles não estavam satisfeitos
com você. Então, é óbvio, não se
preocupa muito em agradar seus pais.
– Eu me preocupei. Por um tempão.
E, agora, se não tento agradá-los, é por
necessidade. Jamais teria liberdade se
não fosse embora.
Renzo sentiu uma estranha sensação
no peito.
Sensação que remetia à liberdade. A
ir embora.
– Bem, vamos precisar dar um jeito
para apresentar você hoje à noite aos
meus pais.
– Que tipo de jeito?
Parecia sinceramente surpresa, como
se não soubesse a que ele se referia.
Parado no terno bem cortado, diante
da jovem sentada de pernas cruzadas
no chão, parecendo mais adequada a
uma lenda da Renascença do que à casa
dele, ocorreu-lhe que ela era
definitivamente uma criatura estranha.
As diferenças entre os dois eram óbvias;
mesmo assim, ela parecia não notar. Ou
melhor, não se importar.
– Dar um jeito em você, Esther.
– O que tem de errado em mim?
– O que planeja vestir para o jantar?
Ela olhou para a roupa.
– Vou assim.
– Não vê nenhuma diferença no
modo como se veste em comparação
com o meu?
– Quer que eu use um smoking?
– Isso é um terno, não um smoking.
É bem diferente.
– Interessante. Bom saber.
Ele teve a impressão de que ela não
achava nada interessante.
– Tomei a liberdade de pedir que
trouxessem roupas para você. – Ergueu
a mão e olhou o relógio. – Devem estar
chegando.
Neste exato momento, a governanta
entrou com expressão inquieta.
– Dr. Valenti, Tierra chegou.
– Excelente.
– Posso pedir que suba com todo o
material?
– Para o quarto de Esther, por favor.
Esther arregalou os olhos.
– Que material é esse?
– Roupas para que você não pareça
ter saído de um brechó barato.
Ela fechou a cara.
– Por acaso, está insinuando que me
visto mal?
– Não. Só não se veste da maneira
adequada. Na verdade, sua roupa
estaria perfeita se pretendesse continuar
trabalhando como garçonete num bar
cheio de turistas. Mas não é aceitável se
pretende ser apresentada ao mundo
como minha noiva, nem na noite em
que vai conhecer meus pais.
Ao ouvir a última frase, a governanta
contorceu o rosto. Começou a falar com
ele em tom irritado, em italiano. Renzo
sentiu certo alívio; ainda bem que
Esther não conseguiria entender a
conversa.
– Ela está esperando um filho meu.
Não há nada a fazer.
A governanta balançou a cabeça.
– Você virou um homem mau –
bufou, saindo da cozinha. A última
frase foi dita em inglês.
– Por que ela está zangada com você?
– Porque acha que engravidei uma
pobre turista americana quando ainda
era casado. Deu para notar como ficou
aborrecida.
– Imagino. – Hesitou. – Mas ela não
trabalha para você?
– Luciana praticamente veio junto
com a casa que comprei faz mais de
uma década. Às vezes fica difícil saber
quem trabalha para quem.
Ela franziu a testa.
– Vai comprar roupas para mim?
– Exato. E vou pegar as suas e
queimar.
– Isso não é nada gentil.
Ele ergueu as sobrancelhas,
simulando surpresa.
– Não? Sinto muito. Eu me esforço
para ser gentil.
– Duvido.
– Pare de reclamar e não se esqueça
de se comportar como minha noiva na
frente de Luciana e de Tierra.
Apesar de emburrada, ela largou a
tigela de cereais na mesa de jantar e
subiu para o quarto. Ele observou o leve
rebolado quando ela subiu as escadas.
Em movimento, as roupas pareciam
menos ridículas. Na verdade, o efeito
era gracioso.
Ela possuía algo de sobrenatural, por
mais que ele não soubesse definir o que
era. Apesar de muito jovem, às vezes
parecia muito velha. Como um ser
caído na Terra que, embora
desconhecesse os hábitos dos
habitantes, acumulava mais
conhecimento do que qualquer ser
humano acumularia ao longo da vida.
Estranho. Esse era o tipo de
pensamento que nunca lhe vinha à
mente.
Então focou na curva do traseiro,
pois disso entendia.
Quando chegaram ao quarto, a
personal stylist já tinha pendurado
alguns modelos e esticava pregas e
ajeitava saias complicadas e compridas.
– Minha nossa! – exclamou ao ver
Esther. – Vamos ter material para
demonstrar nossa eficiência.
CAPÍTULO 5

NAS DUAS horas seguintes, Esther foi


virada, remexida, espetada com
alfinetes e repreendida. A estilista
cacarejava feito uma galinha. E tratava
Esther como se fosse um pintinho.
Esther se sentiu grata por Renzo as
ter deixado a sós. Tão logo ele saiu, a
mulher começou a tirar as roupas de
Esther e a obrigou a provar vestidos,
sapatos e lingerie.
Esther nunca tinha experimentado
tecidos como aqueles. Nem visto
modelos daqueles em seu corpo de
poucas curvas. Só experimentara coisas
novas depois de ter saído de casa, mas
ainda não chegara ao vestuário e à
maquiagem. Nem ao penteado. Tudo
isso exigia dinheiro. Sua grande
preocupação era ter o que comer. E usar
roupas básicas, não timha conseguido
explorar o mundo da moda.
Mas agora parecia conhecer quais
cores e modelos lhe caíam melhor.
Claro, tudo fora explicado em italiano e
Esther não compreendia tudo, mas
podia atestar com os próprios olhos.
No momento, não desgrudava os
olhos do espelho. Usava um vestido
verde-escuro longo de mangas cavadas
e um decote em V revelando uma
extensão enorme de pele ao redor do
pescoço e abaixo. O tipo de ousadia
jamais permitido na casa da sua família.
A saia comprida descia até o mais
lindo par de sapatos que Esther já vira.
Também os mais altos que já
experimentara, e tinha sérias dúvidas
quanto à sua habilidade de andar com
eles.
Mais tarde, chegaram dois homens
para cuidar do seu cabelo e da
maquiagem. Tiveram um bocado de
trabalho. O cabelo foi domado, cortado
uns trinta centímetros e transformado
numa cortina negra e sedosa.
Os olhos, que sempre considerara
ridiculamente grandes, não pareciam
nada ridículos, embora grandes. O
maquiador usou rímel preto e realçou
os cantos de dourado. Também passou
um produto em suas bochechas,
deixando-as brilhantes. E nos lábios...
Um gloss laranja-claro os realçava.
Parecia uma estranha. Não
reconhecia muitos dos traços do seu
rosto. As permanentes olheiras tinham
diminuído, o nariz parecia mais fino, as
bochechas menos redondas, graças à
técnica que eles chamavam de
contorno.
E o corpo? Nunca prestara muita
atenção ao corpo. Não tinha seios
grandes, e, por conveniência,
costumava não usar sutiã, mas
camisetas fechadas em cores escuras,
que os escondiam.
Embora fosse impossível usar sutiã
com o vestido, ele criava um efeito bem
diferente das regatas de algodão. Os
seios pareciam mais redondos, maiores,
a cintura mais fina e as curvas dos
quadris mais volumosas. O modelo da
saia realçava os quadris. Ela parecia
uma ampulheta.
Era estranho se ver desse jeito. Com
todos os seus atributos realçados em vez
de disfarçados.
A porta se abriu, e ela congelou
quando Renzo entrou. Sentiu-se
exposta como nunca antes. Pela
primeira vez na vida, tinha consciência
de que podia estar bonita, e um homem
lindo a avaliava como quem avalia uma
obra de arte.
– Bem – disse ele, dirigindo a
atenção à equipe que conseguira tal
efeito, e desviando de novo o olhar para
ela –, que agradável surpresa!
– É um sonho vesti-la – disse Tierra.
– Tudo lhe cai bem. E essa pele
dourada permite usar cores difíceis.
– Não entendo esses detalhes, mas
sei que ela está linda.
Ela foi tomada pelo calor. Quanta
tolice ser afetada por essa farsa! Mas
não tinha certeza absoluta se ligava para
o fato de ser ou não uma farsa. Que
diferença fazia? Mesmo uma
brincadeira daquelas era novidade.
Sentir-se o foco, o centro da atenção
masculina era algo com que jamais
sonhara.
Acostumava-se com o ônus e o bônus
da liberdade. Com quem queria ser,
longe de tudo que aprendera. Longe
das pequenas rebeliões armadas às
escondidas nas montanhas atrás de
casa, ouvindo música contrabandeada
enquanto lia livros proibidos.
Descobriu estar ligada a um homem,
mesmo a curto prazo. Mas agora, sob o
olhar sombrio de Renzo, adorou a ideia.
Ser assaltada pela tentação a deixou
sem ar. Não entendia direito qual
tentação. Lembrou-se de passar por
uma confeitaria na cidade vizinha à que
nascera e de ver uma fileira de doces
com aparência deliciosa. Gostosuras que
nunca teria permissão para comer.
Experimentou a mesma sensação de
desejo, de vazio. Da intensa e injusta
sensação de privação.
Só que ninguém mais controlava a
sua vida. Se quisesse um bolo, podia
comprar e comer.
O que a tornou consciente de que, se
quisesse Renzo, supostamente o poderia
ter também.
Só não saberia o que fazer com ele.
Ou o que ele faria com ela, caso ela
tentasse prová-lo.
Respirou fundo, esticou o pescoço,
endireitou os ombros e fez o possível
para parecer uma estátua. Não sabia o
porquê. Talvez para injetar uma dose
de orgulho, para não ficar ali plantada,
indefesa, sujeita à opinião de todos no
quarto.
Era estranho ser o centro das
atenções. Mas não a desgostava de
todo.
– Esse vestido é espetacular, mas
muito formal para o jantar – afirmou
Renzo, sentando-se em uma das
poltronas. – O que mais trouxe?
– Ah! – exclamou Tierra,
examinando a arara e apanhando um
vestido curto coral que Esther tinha
experimentando antes. – Que tal esse?
Renzo afundou na poltrona, na
postura de um monarca exausto.
– Vejamos.
– Claro.
Esther foi virada de costas para
Renzo e sentiu o zíper descer. Suspirou,
depois congelou, sem saber como agir.
Não sabia se deveria protestar por ser
despida diante de um estranho, ou se
isso arruinaria a farsa.
De que adiantava se o vestido verde
já estava aos seus pés e suas costas nuas
e o traseiro semicoberto expostos?
– Muito bom – disse ele com voz
rouca. – Faz parte do novo guarda-
roupa?
Esther sabia que ele se referia à
calcinha de renda preta e teve vontade
de se virar e dizer que ele só tornava a
situação mais constrangedora. Mas,
caso se virasse, exporia ainda mais o
corpo. Decidiu tentar ao máximo
demonstrar que não seria fácil
manipulá-la.
– É – respondeu sem rodeios.
Pouco depois, já com o novo vestido,
se voltou para encarar Renzo, e o
coração quase saiu pela garganta.
Porque o impacto causado pelos olhos
escuros e intensos tinha aumentado.
– Chegue mais perto – disse ele, em
tom áspero. A ordem não era
negociável.
Ela engoliu em seco e deu um passo à
frente. O olhar sombrio desviou de
Esther e pousou na equipe.
– Por favor, saiam, quero ficar a sós
com Esther.
Obedeceram sem discussão. Quando
saíram, pareciam ter levado todo o ar
do quarto.
– As pessoas sempre te obedecem?
– Sempre. Chegue mais perto.
Ela deu outro passo à frente,
tentando disfarçar o tremor das pernas
e o fato de não saber como andar com
saltos tão altos que equivaliam a pernas
de pau.
Ele apoiou o cotovelo na poltrona e o
queixo nos nós dos dedos.
– Claro, sendo que algumas
obedecem mais rapidamente do que
outras.
– Quer que eu quebre o tornozelo?
Posso garantir que torço o pé se andar
mais rápido.
Renzo se moveu, os movimentos
graciosos contrastando com o andar
desajeitado dela. Levantou-se,
percorreu o espaço que os separava e a
pegou no colo. Instalou-a na poltrona.
Esther pressionou a mão no coração,
sentindo as palpitações. Estava tonta, a
garganta seca, o corpo quente. Como se
queimasse. Os braços tinham segurado
seu corpo, seus ombros encostaram no
peito largo, duro.
Isso foi o que mais a surpreendeu.
Como ele era duro. O corpo era sólido
como ele.
Ele se afastou e examinou a arara de
roupas e a pilha de sapatos.
– Se não consegue andar de salto
alto, não vai parecer convincente. Não
queremos que pareça ter tomado um
banho de loja hoje.
– Por quê? Que diferença faz?
– Porque costumo sair com certo tipo
de mulher. Não quero que meus pais
achem que sequestrei e corrompi uma
mochileira inocente.
Esther levou um tempo para
processar a informação. Será que ele
realmente a achava ingênua e inocente?
Ela era, mas Renzo nunca parecera
acreditar na versão dela.
– Eles achariam isso?
Ele se manteve de costas e soltou
uma gargalhada.
– Claro, sem titubear. – Então pegou
um par de sapatos rasteiros com
bordados. Aproximou-se e ajoelhou,
numa tentativa debochada de mostrar
que ele não era inflexível.
– O que vai...
Ele nada disse. Segurou seu
calcanhar. O calor da mão a perturbou.
Algo naquele movimento metódico
pareceu se espalhar do ponto de
contato para o resto do corpo.
Lutou contra a urgência de se
remexer na poltrona. De fazer qualquer
coisa para se desvencilhar da estranha
energia que penetrava em seu corpo.
Não queria se trair. Não queria
demonstrar que aquele toque a
desnorteava.
Renzo tirou o sapato devagar.
Ela estremeceu. Impossível se
controlar.
Ele ergueu o olhar, e um sorriso
estranho e esperto surgiu no canto dos
lábios. O fato de ele reconhecer o que
ela sentiu a incomodou ainda mais.
Estava confusa, perdida num mar de
dúvidas e incertezas. E o pior é que ele
parecia ter plena consciência dos
sentimentos despertados. Você também
sabe, não é nenhuma idiota. Esther
trincou os dentes. Talvez. Gostaria de
ser só um pouquinho mais idiota.
Tentou. Desde a primeira vez que
pusera os olhos nele e ele a fitara, fizera
o possível para espantar o significado
daqueles sentimentos. Não os nomearia
agora. Não quando ele ainda a tocava.
Enquanto ainda lhe calçava as
sapatilhas. As pontas dos dedos da mão
roçaram a pele dela ao removerem os
sapatos de salto agulha.
– Pareço até a Cinderela – disse, as
palavras saindo com dificuldade.
Embora não tivesse autorização para ler
esse tipo de literatura, uma coleção de
conto de fadas tinha sido o primeiro
livro que apanhara escondido.
– Só que – disse ele, calçando o
sapato nela e se esticando –, não sou o
príncipe encantado.
– Não achei que fosse.
– Ainda bem! Espero que não
comece a fantasiar que sou diferente de
quem sou.
– E por que eu faria isso? Não sou
uma mochileira idiota. Já lhe contei que
a minha vida familiar era difícil. –
Respirou fundo, tentando expandir os
pulmões, aliviar a tensão no peito. Não
falava da família para ele, mas para si
mesma. Para reafirmar que não queria
laços com ninguém. Ansiava pela
liberdade. A atual situação não passava
de um desvio. Não se permitiria
imaginar ser algo além.
Aproveitaria as roupas bonitas, o
cabelo bem-arrumado. A casa dele. E
talvez até o estranho frio no estômago
sempre que ele entrava num ambiente.
Por ser novidade. Por ser tudo tão
diferente de onde viera. E ponto final.
– Agora – disse ele, olhando para os
seus pés –, vai poder entrar na casa dos
meus pais sem cair de cara no chão. Vai
causar melhor impressão.
Levantou-se e lhe estendeu a mão.
Ela hesitou, por saber que voltar a tocá-
lo reacenderia a sensação de ardência
na boca do estômago. Resistir, contudo,
revelaria seus sentimentos. E isso não
permitiria.
E – tinha de admitir – bem que
gostara. Embora soubesse que não daria
em nada. Embora soubesse que não
passaria de diversão, como o início de
uma chama e nada mais, ela queria
viver essa nova experiência.
Então, estendeu a mão, os dedos
roçando na palma da mão de Renzo.
Ele segurou a mão dela e a levantou
com tamanha facilidade que ela se
desequilibrou e acabou plantando as
palmas da mão no peito duro feito
pedra.
Ele era tão... Tão quente... E ela
sentiu o coração dele batendo forte
debaixo das mãos. Não contava com
isso. Ficou se perguntando se isso era
normal. Se era normal o coração dele
bater tão acelerado.
E se perguntou se isso tinha relação
com ela. Porque seu coração também
batia descontrolado como uma pedra
rolando pela encosta. Para ela, essa
reação não era normal. O coração batia
assim por causa dele. E ela não
conseguia mentir nem para si mesma.
Seria esse também o motivo de o
coração dele bater tão rápido? Porque
ela o tocara? Neste caso, qual a
explicação para isso?
Esta última pergunta a levou a se
afastar dele o mais rápido possível.
Ajeitou a frente do vestido e se
concentrou em eliminar os amassados
imaginários, pois a alternativa seria
olhar para ele.
– É – disse ele com voz áspera, rouca,
menos segura do que de hábito –, acho
que a noite vai ser ótima. – E então
segurou seu queixo com o polegar e o
indicador. Obrigou-a a fitá-lo e lhe
roubou aquela pequena pausa de que
ela tanto precisava. Os olhos faiscavam,
e ela não tinha certeza se ainda sentia
as batidas do coração dele, ou se apenas
as do dela retumbavam em seus
ouvidos. – Mas vai ter de dar um jeito
de parar de ficar assustada toda vez que
toco em você.
Tirou as mãos do queixo dela, deu-
lhe as costas e a deixou sozinha. Teria
imaginado aquela reação dele por conta
da força de sua própria reação? Ou, de
alguma forma, havia feito a montanha
se mover?
CAPÍTULO 6

O JANTAR na casa dos pais de Renzo


sempre era regido por uma elegância
dramática. Aquela noite não foi
exceção. Foram recebidos pela
governanta, os casacos pegos por outro
serviçal, e conduzidos à sala de estar
por um terceiro.
Claro, sua mãe não faria uma
aparição até a hora de se instalar à
mesa. Ele tinha a impressão de que,
desta vez, ela calculara o tempo exato,
mais do que de costume. Devia estar se
preparando para o primeiro contato
com a noiva do filho, sua futura nora.
O pai seguiria os planos da mulher.
Com medo de que ela lhe atirasse
algum objeto na cabeça. Não que nos
últimos anos a mãe ainda mantivesse
comportamento tão histérico. Porém,
todos sabiam do que ela era capaz, e,
portanto, tinham a tendência a se
comportar de modo a evitar tal atitude.
Ele se voltou para olhar Esther, que
observava o ambiente imenso e barroco
com evidente deslumbramento.
– Você precisa fingir estar habituada
a esse tipo de ambiente. Para todos os
efeitos, estamos juntos há pelo menos
dois meses, ou seja, você já compareceu
a eventos e lugares semelhantes.
– Essa casa parece um museu – disse
num sussurro, os olhos escuros
brilhando de encantamento. Isso
causou um efeito estranho no peito de
Renzo. Diferente do efeito causado
antes em partes do corpo localizadas
mais abaixo.
– É o museu das realizações da
minha família; de tudo que
conseguiram colecionar ao longo dos
séculos. Como já disse, meus pais têm
muito orgulho do nosso sobrenome e
da nossa tradição. Do que significa ser
um Valenti. – Ele trincou os dentes. –
Para eles, não há nada mais importante
do que os laços de sangue.
Por isso aceitariam Esther e a
situação. Porque, exceto em
circunstâncias extremas, valorizavam a
tradição do sangue.
Deliberadamente, Renzo evitou
pensar na única vez em que eles
deixaram a tradição de lado.
– Renzo. – Ele se voltou ao ouvir a
voz da irmã, surpreso ao vê-la ali,
acompanhada do marido, Cristian, e da
filhinha, no colo do pai.
– Allegra – exclamou, levantando-se
e atravessando o aposento para dar um
beijinho no rosto da irmã caçula.
Apertou a mão do cunhado com
firmeza e acariciou o rosto da sobrinha.
– Que surpresa! Não sabia que viriam.
– Nem nós.
– Vieram da Espanha para o jantar?
Cristian ergueu o ombro.
– Quando sua mãe exige, é melhor
não discutir, como deve saber.
– Com certeza.
Ele se voltou e olhou para Esther,
ainda sentada no sofá, as mãos cruzadas
no colo, os ombros curvados, como se
tentasse desaparecer.
– Allegra, Cristian, esta é minha
noiva, Esther Abbott.
As palavras pareceram arrancar
Esther da reclusão interna.
– Olá – cumprimentou, e vacilou ao
se levantar. – Você deve ser... Não
tenho certeza.
Allegra lançou um olhar curioso ao
irmão.
– Allegra Acosta. Meu nome de
solteira era Valenti. Sou a irmã caçula
de Renzo. E este é meu marido,
Cristian.
– Muito prazer – disse ela, mantendo
as mãos cruzadas e balançando a
cabeça. Ele não ia corrigi-la, ou ensinar
que deveria agir de outro jeito, mas
registrou que ela precisaria ser treinada.
– Parece que a família toda
comparecerá – disse ele. – Uma
surpresa e tanto!
– Noivo? Você está noivo? Por isso
mamãe telefonou e disse para
tomarmos o jatinho de Cristian,
suponho.
– Com certeza – confirmou Renzo.
– Você não me contou – comentou
Allegra.
– Você também só me contou que
esperava um filho do meu melhor
amigo quando foi inevitável. Não pode
me passar um sermão por não ter
contado a novidade de imediato.
O rosto da irmã ficou escarlate, e ele
olhou para Esther, que observava a
conversa com atenção.
– Não ligue para o que ele diz – disse
Allegra a Esther. – Ele adora chocar. E
gosta de me irritar também.
– Isso parece corresponder ao pouco
que conheço dele – disse Esther.
Cristian riu com a resposta.
– Vocês dois não devem estar juntos
há muito tempo – disse ele –, mas deu
para perceber que sabe lidar com ele.
Esther baixou o rosto.
– Não diria isso.
Renzo se serviu de uma bebida e
sentiu pena de Esther, por não poder
lhe servir o mesmo. Sobretudo,
considerando o que estava prestes a
fazer.
– Já que mamãe não lhes falou do
meu noivado, também não contou que
tenho mais novidades.
– Não – disseram Allegra e Cristian
em uníssono.
– Esther e eu estamos esperando um
bebê. – Ele colocou o braço nos ombros
de Esther e acariciou-lhe o braço.
Sentiu a jovem se retesar. Isso não
ajudaria, mas sabia que, de alguma
forma, seria uma alfinetada. Então,
teria de considerar isso um consolo.
Allegra emudeceu. A expressão do
cunhado ficou paralisada. Cristian foi o
primeiro a tomar a palavra.
– Meus parabéns. Comece a dormir
bastante agora, porque depois não vai
conseguir.
Allegra permaneceu muda.
– Pelo que vejo, está absolutamente
abismada com a boa notícia – provocou
Renzo.
– É, estou. Levando em conta as
inúmeras vezes em que me declarou
sua intenção de sempre chocar, não sei
o motivo de estar surpresa. Na verdade,
eu devia estar imune a qualquer espécie
de escândalo no que lhe diz respeito.
Claro que não estava imune. A irmã
caçula parecia sempre disposta a
acreditar nas características positivas de
Renzo. O que, de certa maneira, era
ótimo. Contudo, ele era um constante
desapontamento para Allegra. Sabia
que seu casamento com Ashley
representara mais do que um
escândalo, embora não soubesse direito
o motivo. Ele tinha lhe confessado, sem
rodeios, sua disposição para se casar
com a mulher mais inapropriada e
escandalosa que encontrasse no
caminho.
O feitiço acabou virando contra o
feiticeiro.
– Sério, irmãzinha, devia me
conhecer melhor. De qualquer modo,
vamos evitar falar das outras vezes em
que a choquei na frente de Esther. Ela
ainda acalenta a ilusão de que sou um
cavalheiro.
Esther o fitou com expressão
imperturbável.
– Posso garantir que não.
Cristian e Allegra pareceram achar a
tirada engraçada. Basicamente,
imaginou Renzo, por acreditarem que
ela estava sendo irônica. Na verdade,
ele tinha a impressão de que Esther
estava sendo sincera. Ela era sincera.
Isso o cativava, pois não conhecia muita
gente sincera.
Estava acostumado com gente cínica,
oportunista. Pessoas sinceras o
aturdiam. Basicamente por não saber
lidar com elas.
Ao observá-la experimentando as
roupas, o modo como ela o fitara
quando ele roçara em sua perna ao
trocar seus sapatos, tinha sido uma
espécie de revelação. Até então ele
estava desconfiado. A respeito da sua
história, de quem alegava ser.
Mas ela parecia agir sem segundas
intenções. Era uma criatura ingênua,
pertencia a um mundo totalmente
estranho. Sua reação diante da casa dos
pais dele apenas reforçou essa hipótese.
Ele a observara com atenção. Se fosse
interesseira, ele perceberia – mesmo
que por um segundo – um olhar
triunfante ao entender o prêmio que
herdaria.
Ele a colocara numa posição em que
ela poderia tirar vantagens. Ora, um
teste de DNA provaria que ela não era
a mãe, mas sabe-se lá o que aconteceria,
considerando que, na Itália, não havia
leis referentes à doação temporária de
útero. Ela estava grávida, e teria o filho.
Renzo supunha que, pelas leis, ela não
sairia com as mãos abanando.
E ele tinha lhe feito um pedido de
casamento. Outra maneira de ela tirar
vantagem da sua fortuna. Entretanto,
ela não parecera animada com a
proposta.
Isso não significava uma futura
mudança de opinião. Porém, por
enquanto, ele era forçado a acreditar
que ela era uma criatura das mais raras.
Alguém que era quem dizia ser.
– Excelente! – disse Allegra a Esther.
– Odiaria que se casasse com meu
irmão achando que ele é bem-
comportado.
Estimulado pelos pensamentos
anteriores, ele virou a cabeça e esfregou
o nariz no pescoço de Esther.
– Claro – disse ele, roçando os lábios
no pescoço dela –, Esther tem plena
consciência de como sou depravado.
Ele ergueu o rosto, tentando avaliar
qual seria a resposta da pretensa noiva.
A pele bronzeada de Esther ficou
vermelha, o olhar desorientado.
– É – disse ela, num tom mais alto do
que o normal –, nós nos conhecemos.
Muito bem. Vamos... Vamos ter um
filho. Então...
– Certo – disse Allegra.
Neste instante, um criado entrou e
interrompeu a estranha conversa.
– Desculpem. Sua mãe pediu para
“buscá-los para o jantar”.
As palavras exatas da mãe, como
Renzo bem sabia.
Mantendo a mão na cintura de
Esther, ele a conduziu para a sala de
jantar. Sentia sua tensão quanto mais se
aproximavam, como se ela pudesse
pressentir o que a esperava. Ele não se
surpreenderia. A mãe irradiava frieza, e
demonstrava abertamente como era
difícil ser agradada.
– Respire fundo – sussurrou ele ao
seu ouvido, antes de entrarem. Ela
obedeceu. Ergueu os ombros e soltou
um suspiro profundo. – Cuidado para
não morrer antes da sobremesa.
Então a conduziu para a sala.
A mãe, num vestido de lantejoulas,
parecia muito jovem para ter dois filhos
adultos, uma neta e outro a caminho. O
pai, de rosto austero e distinto,
aparentava sua idade; era o retrato de
Renzo em trinta anos.
– Olá! – cumprimentou a mãe sem se
levantar, o que Renzo sabia ser
proposital. – É um prazer conhecê-la,
Esther – disse, usando o nome da
jovem, o que sem dúvida era tão
calculado quanto o resto. – Allegra,
Cristian, que bom que puderam vir e
trouxeram a minha neta preferida.
– Sua única neta – corrigiu Allegra
sentando-se, enquanto Cristian
acomodava a filha numa cadeira para
bebê.
O comentário surtiu o mesmo efeito
de colocar sal numa ferida. Renzo
adorava a sobrinha, mas sempre
experimentava uma espécie de dor
quando convivia com crianças
pequenas. E quando os pais faziam
aquele tipo de comentário, sobre a
única neta, a dor parecia intolerável.
– Mas não por muito tempo –
prosseguiu Allegra. – A não ser que
Renzo ainda não tenha lhe contado a
novidade.
– Não contou. Ótimo. Bem, pelo
menos agora ficaremos todos
atualizados. – A mãe lançou um olhar
penetrante para o filho. – Mais alguma
surpresa?
– Por enquanto não.
O jantar transcorreu na mais perfeita
paz. Os pais conduziam a conversa, e o
cunhado preenchia os eventuais
silêncios. Cristian era duque, e seu
título o tornava muito interessante para
os pais da esposa.
De repente, o pai desviou o foco da
conversa para Renzo.
– Suponho que verei você e Esther na
exposição de arte beneficente em Nova
York daqui a duas semanas.
Droga. Renzo tinha esquecido. O pai
era um grande filantropo e fazia
questão da presença do filho nos
eventos. Não que o pai acreditasse em
caridade no sentido filosófico, mas
porque acreditava ser importante para
os negócios. Não era uma pessoa
totalmente sem compaixão, mas isso
não exercia papel relevante. O essencial
é que boa quantia de dinheiro era
transferida para a população carente.
Mas levar Esther a Nova York,
prepará-la para comparecer a um
evento de tal dimensão em tão pouco
tempo era... Era difícil até de imaginar.
Além disso, havia Jillian. Ou pior,
Samantha. Elas dividiam o tempo entre
a Itália e os Estados Unidos, portanto a
probabilidade de encontrá-las era...
alta.
Bem, já enfrentara essa preocupação
inúmeras vezes. No momento, Esther
era sua preocupação principal. Na certa,
acabaria escondida debaixo de uma das
mesas do bufê, ou comendo musse de
chocolate sentada no chão. Ainda bem
que a festa seria à noite. Assim ela não
ficaria tentada a buscar raios de sol para
se aquecer.
– Claro – respondeu de imediato,
antes que Esther abrisse a boca. Devia
fingir que já tinham discutido o
assunto. Embora comparecesse todos os
anos, a notícia de uma estranha estar
grávida de um filho seu o deixara
desnorteado.
– Excelente. Acho ótimo que um
homem como você compareça
acompanhado.
– Por quê?
– Para não ficar de olho nas
mulheres quando deve focar em
contatos profissionais.
Essa observação surpreendeu Renzo.
Sobretudo por estar com Esther. O pai
costumava ser mais discreto que a mãe.
Mas não lhe daria o gosto de
demonstrar seu espanto.
– Você vive na Idade Média, papai.
Hoje em dia, muitas mulheres ocupam
cargos importantes e o fato de eu ser
solteiro até ajuda. Contudo, Esther não
será um obstáculo, nisso tem razão.
– Com certeza. Na pior das hipóteses,
ela servirá como isca para os peixões
que pretende pescar.
– O senhor vai?
– Não. Quando disse que pretendia
vê-los, me referia à sua foto no jornal.
Renzo não conseguiu reprimir o riso.
A conversa transcorreu de modo
civilizado até a sobremesa. Na hora de
ir embora, um criado interceptou Esther
para ajudá-la com o casaco. Renzo só
percebeu a manobra quando o pai o
encurralou perto da porta.
– Espero que essa não seja mais uma
de suas gracinhas, como foi o seu
último relacionamento.
– E por que seria?
– Ela é uma moça adorável, bem
diferente das modelos com quem
costuma se envolver. Eu já tive de me
afastar de uma das minhas netas, a não
ser que tenha se esquecido, e espero
que não me obrigue a isso de novo.
– O senhor não teve de se afastar. A
opção foi sua e acabou me
convencendo. Não venha fingir que se
arrepende, quando se mostrou tão
enfático na ocasião – disse em tom
duro.
– Só estou recomendando casar com
essa moça. E dar um jeito de o
casamento durar. Já se divorciou uma
vez e teve um filho fora do matrimônio.
– O que fará, caso eu o decepcione
de novo? Vai me deserdar?
– Seu cunhado é mais do que apto
para cuidar dos negócios que já não
estão sob seu controle. Se não quiser
perder o domínio sobre o Império
Valenti após minha morte, sugiro não
me decepcionar.
O pai se afastou, e Esther se
aproximou da porta. Parecia uma corça
sobressaltada pelos faróis, pega de
surpresa pelos acontecimentos da noite.
Ele sabia não ter mais escolha. Não
bastaria a farsa. O pai ameaçava não
apenas o seu futuro, mas o de seu filho.
Esther Abbott também não tinha
escolha: teria de ser sua esposa.
E ele sabia como convencê-la.
Percebera a reação ao seu toque. Sabia
que ela não era imune ao seu charme. E
uma mulher ingênua e vulnerável como
ela não ficaria imune às emoções
oriundas da sedução física.
A atitude parecia cruel até pelos
padrões de Renzo. Ele preferia a
sinceridade. Preferia deixar claro para
as mulheres com quem se envolvia o
que esperar dele. Preferia avisar que o
amor não fazia parte das regras do jogo.
Mas ele lhe propusera casamento, e
isso devia satisfazê-la. Nesse caso, que
mal lhe faria?
Não havia outra opção. Teria de
despertar o amor de Esther Abbott. E
teria de ser através da sedução.
– Vamos, Esther – disse, estendendo
o braço –, hora de irmos para casa.
CAPÍTULO 7

ESTHER ESTAVA acostumada a dar duro


no bar. A sair toda noite e trabalhar até
a hora do bar fechar. Mas a rotina de se
arrumar dos pés à cabeça e sair para
jantar fora com Renzo em Roma era
totalmente diferente. Apesar de ser tão
exaustiva quanto.
Ficar em evidência era muito
estranho. Estava acostumada a ser
ignorada. A ser invisível.
Mas duas noites atrás foram à casa
dos pais de Renzo, e nunca tinha sido
submetida a exame tão minucioso, a
não ser em casa, quando o olhar de raio
X do pai tentava encontrar qualquer
evidência de rebeldia, pecado ou vício.
Na noite anterior, haviam jantado
em um restaurante maravilhoso, e
Renzo explicara detalhes do evento
beneficente em Nova York e avisara
que ela devia acompanhá-lo.
Hoje à noite iriam jantar fora de
novo, embora Renzo não tivesse
explicado o seu propósito. E isso a
deixou nervosa. Ele também marcara
consulta com uma médica particular,
renomada por sua discrição, escolhida
por ele e não o médico que ela fora com
Ashley.
Parecia ridículo se produzir toda para
uma consulta médica, mas Renzo
explicou que da consulta iriam direto
jantar.
Então, ali estava ela, no banco
traseiro da limusine, rumo ao
consultório onde Renzo a encontraria. E
usava batom.
A limusine parou diante de um
prédio que parecia sofisticado demais
para uma simples clínica médica. Bem,
Ashley buscava outro tipo de discrição
quando tinham ido à clínica de
fertilização.
O motorista abriu a porta, e ela se
deu conta de que precisava saltar,
embora preferisse continuar ali sentada.
Por um segundo aterrorizante, pensou
se, ao entrar na clínica e deitar para ser
examinada, avisariam que o bebê tinha
sumido.
Por algum motivo desconhecido,
naquele instante, o pensamento a
deixou desolada. Por causa de Renzo?
Por ele estar reorganizando a vida para
a chegada daquela criança?
Ou por ela não estar preparada para
abrir mão do bebê?
Não, absurdo! Não tinha qualquer
envolvimento, a não ser a natural
proteção. Era uma questão hormonal.
Disso não tinha dúvidas. Entretanto,
nos últimos dias, não passara mal, não
sentira enjoo. Seria isso um mau sinal?
Pensou, enquanto falava com a
recepcionista e era levada a uma sala de
espera privada.
Contorceu as mãos, balançou a
perna, mal se detendo no luxo do
ambiente. Tentou. De verdade. Porque
tinha planejado aproveitar a experiência
que jamais faria parte de seu dia a dia.
Não sabia quando começara a se
preocupar com o bebê. Pelo menos não
de modo filosófico. A partir de quando
começara a querer preservar a vida
dentro de si sem ser por obrigação?
Por sorte, não teve muito tempo para
ruminar esse pensamento, pois Renzo
logo chegou. Havia algo de selvagem,
atormentado e indecifrável em seu
olhar. Bem, isso não era novidade. Ela
jamais seria capaz de adivinhar o que
lhe passava pela cabeça.
– Cadê a médica? – perguntou sem
perder tempo.
– Não sei. Imagino que não vá
demorar.
– É um crime terem deixado você
esperando.
Nervosa, Esther cruzou os braços.
– Você ainda não tinha chegado.
Esperava que, ao entrar, a médica se
materializasse na sua frente?
– Você devia estar se preparando
para o exame.
Esther não disse nada. Apenas se
perguntou se Renzo experimentava
sentimentos semelhantes aos dela.
Parecia estranho, mas afinal o filho era
dele. Fazia mais sentido do que ela
estar tão nervosa.
– Srta. Abbott – chamou uma
mulher, enfiando a cabeça pela fresta
da porta. – A doutora está à sua espera.
Esther respirou fundo e se levantou.
Tinha consciência do andar vacilante na
direção da porta e mais consciente
ainda ficou ao sentir Renzo segurar seu
cotovelo para apoiá-la.
– Estou bem – avisou.
– Parece que qualquer ventinho é
capaz de derrubar você.
– Estou bem – repetiu, apesar de não
ter certeza absoluta.
Renzo aceitou a resposta, mas não
soltou seu braço até chegarem à sala de
exames.
– Tire, por favor, a roupa e coloque
essa camisola – pediu a enfermeira. – A
médica chegará daqui a pouco.
Esther lançou um olhar decidido
para Renzo.
– Pode sair?
Ele não pareceu entender a
mensagem.
– Pode sair? – repetiu, tão logo a
enfermeira se afastou.
– Por que eu deveria sair? Você é
minha noiva.
– Sou sua noiva só para constar. Nós
dois sabemos que essa criança não foi
concebida por... Quer dizer, como
costumam ser. Não tem o direito de me
olhar enquanto tiro a roupa. Não pude
dizer isso na frente da estilista naquele
dia, mas agora posso.
– Eu fico de costas – disse em tom
seco.
Ela respirou fundo e começou a se
despir. De nada adiantava saber que,
por estar de costas, ele não podia vê-la.
A sensação de tirar a roupa onde se
encontrava um homem era muito
assustadora.
Tudo acontecera rápido demais no
dia em que experimentava as roupas. E,
embora constrangida por ele ter visto
seu corpo, a ficha ainda não tinha
caído. Mas agora sim.
Das pancadas do coração ao pulsar
acelerado na base da garganta, dos
dedos meio desajeitados ao corpo
hipersensível e quente, latejante.
Ela o sentia, embora não o visse.
Como se ele ocupasse cada cantinho da
sala.
Afinal, tirou toda a roupa e ficou
imóvel por um breve instante. Tempo o
suficiente para aceitar o fato de estar
nua num aposento com aquele homem
poderoso usando um terno elegante.
Que contraste! Nunca se sentiu tão
vulnerável, exposta ou... forte do que
naquele instante. E não compreendia as
sensações contrastantes unidas para
criar uma sensação.
Vestiu o avental do hospital e subiu
na mesa de exames, muito diferente
daquela para a qual tinha sido levada
poucos meses antes.
– Esse lugar é diferente da clínica em
Santa Firenze.
Ele se voltou, sem pedir
consentimento. Mas Esther tinha a
impressão de que Renzo não estava
acostumado a pedir permissão para
nada.
– Como assim?
– Tive a impressão de que Ashley
fazia de tudo para não repercutir em
você. Por isso tinha optado pela
discrição. Mas era um lugar... digamos
rústico.
Ele mordeu os lábios.
– Excelente! Ela levou você a uma
clínica de fertilização barata. – Cerrou
os punhos. – Se eu colocar as mãos
nela...
– Não faça isso. O fato de ela ser
quem é já é uma punição, não acha?
Ele riu.
– Imagino que sim.
Bateram à porta antes de entrar.
Então, a médica, uma mulher baixinha
com o cabelo preso num coque, entrou.
– Srta. Abbott, sr. Valenti, é um
prazer. Terei grande prazer em ajudar
durante a gravidez.
Depois das apresentações, a médica
tirou a pressão, verificou os batimentos
cardíacos de Esther e pediu que ela se
deitasse. Então, colocou uma toalha no
colo da paciente e levantou o avental
até abaixo do busto.
– Vamos fazer um ultrassom. Para
ouvir os batimentos cardíacos e dar
uma olhada no bebê.
Esther ficou tensa. Este era o
momento da verdade, em que
descobriria se o medo experimentado
na sala de espera fazia sentido. Ou se
tudo não passava de uma ansiedade
ligada à estranheza da situação.
Torcia pela segunda opção.
A médica passou um gel quente em
sua barriga e moveu a ponta do
aparelho. Esther entreouviu um leve
palpitar no monitor ao seu lado. Soltou
um suspiro de alívio.
– É o coração dele, não é?
– Isso mesmo – disse a médica,
girando um botão. Um som firme e
ritmado encheu a sala.
Era estranho o apito rítmico
combinado a um som de água ao
fundo. A médica afastou o aparelho e o
som diminuiu pouco a pouco.
– Estou tentando ver. – Continuou
movendo o aparelho. Novas imagens
surgiram na tela, novos ângulos do bebê
que carregava, embora Esther não
conseguisse discernir nada.
– Algum de vocês tem gêmeos na
família?
A questão atingiu Esther em cheio, e
ela tentou não responder com a
pergunta por quê.
Não tinha gêmeos na família, mas a
pergunta não lhe dizia respeito. O filho
não era seu.
– Eu...
– Não – respondeu Renzo em tom
definitivo. – Entretanto... O bebê foi
concebido por inseminação artificial e
talvez isso tenha alguma relação com o
que a senhora está prestes a dizer.
– Bem, a fertilização aumenta as
chances e, ao que tudo indica, são
gêmeos.
Todo o alívio experimentado há
pouco desapareceu, substituído por
uma onda de terror. Gêmeos? Não
podia estar grávida de gêmeos.
Absurdo!
Havia pouco se preocupava em ter
perdido o bebê, achava que
examinariam seu ventre sem encontrar
nada, e agora era informada de terem
encontrado um bebê extra.
– Não entendo como podem ser
gêmeos – disse Esther. – Tive uma
consulta com um médico...
– No início é fácil se confundir.
Sobretudo, se apenas tentamos ouvir os
batimentos cardíacos.
Ela ficou ruborizada.
– Foi isso.
– Entendo que seja um choque.
– Tudo bem – disse Renzo em tom
sereno. – Tenho recursos suficientes
para lidar com a situação. A notícia não
me preocupa em nada. É claro que
podemos cuidar de gêmeos.
– Está tudo bem – avisou a médica,
limpando o gel da barriga de Esther. –
Vamos precisar monitorar atentamente,
pois a gravidez de gêmeos é
considerada de maior risco. Mas você é
jovem e todos os seus sinais vitais estão
em ordem. Não vejo motivos para
surgir qualquer problema.
Esther balançava a cabeça, enquanto
Renzo permanecia imóvel como uma
estátua em um templo romano.
Como nenhum dos dois fez qualquer
comentário, a médica balançou a
cabeça.
– Vou deixá-los a sós. Boa noite.
Tão logo a médica saiu, Esther se
encolheu na mesa, apática.
– Não acredito.
– Não acredita? Se já decidiu ir
embora depois do parto, que diferença
faz?
– Mas sou eu que vou carregar a
ninhada – retrucou.
– Gêmeos não são uma ninhada.
– Para você é fácil, não está gestando
os dois.
Ele pareceu atônito. A palidez surgiu
no rosto bronzeado.
– Não mesmo. – Ele se afastou. –
Vista-se. Temos reservas.
– Eu sei que tenho. Tenho várias
reservas!
– Reservas para jantar.
– Não pode estar falando sério. Quer
sair para jantar como se nada tivesse
acontecido?
– Exatamente – retrucou
entredentes. – Vista-se. Vamos jantar
fora.
Ela resmungou e saiu da mesa de
exames para pegar as roupas com as
pernas bambas. Pegou a lingerie de
renda escolhida pela estilista e a vestiu,
sem sequer apreciar o toque do tecido,
como fizera das outras vezes.
Não havia espaço para curtir o luxo
quando se acaba de descobrir que está
grávida não de um, mas de dois bebês.
Vestiu-se às pressas, na medida do
possível, pois as mãos tremiam.
– Estou pronta – comunicou.
– Ótimo. Agora vamos parar de
drama e jantar em paz.
Ele praticamente a arrastou para fora
do consultório, e abriu a porta do carro
esporte para ela entrar.
Esther observou o rosto inescrutável,
semelhante a um céu enevoado.
Percebia uma tempestade em formação,
sem entender direito o motivo. Então
desviou o olhar e entrou no carro,
apertando as mãos no colo e olhando à
frente.
Ele fechou a porta dela, entrou, ligou
o motor e disparou a toda velocidade
do estacionamento, como se hordas
infernais estivessem no seu encalço.
– Como ousa me chamar de
dramática? Se isso não for dramático,
não sei o que pode ser.
– Eu apenas descobri que vou ter
dois filhos e não um. Se um de nós dois
tem direito a um pouco de drama...
– Você parece desconsiderar meu
papel nessa história – retorquiu. –
Sempre me trata como se eu não
passasse de um recipiente. Não entende
que vou ter trabalho. De parto, por
exemplo.
– A medicina moderna simplifica
tudo.
– Só um homem é capaz de dizer
isso. E o que se passa com o meu corpo?
Vou ficar com estrias e outras marcas
mais. – Na verdade, não dava a mínima
para esse tipo de coisa, mas queria
provocá-lo. Queria que ele sentisse
alguma coisa. Por algum motivo, a
revelação tinha virado seu mundo pelo
avesso. Ele não tinha o direito de estar
mais chateado do que ela. Talvez não
fosse justo. Talvez fossem os
hormônios. Ah, pouco se importava.
– Pode deixar, eu providenciarei a
cirurgia que quiser para voltar a trazer a
antiga glória ao seu corpo. Se está
preocupada com o que seus amantes
vão achar, não se preocupe.
A declaração chegava a ser ridícula.
– Não estou preocupada com
amantes. Minha vida não depende do
que os outros pensam. Você vive dando
ordens. Fique ali, faça aquilo, livre-se
dos vestidos compridos e largos. Já
parou para pensar no que eu acho?
– Você é insuportável. Uma
contradição ambulante.
Ele dirigia em alta velocidade pelas
ruas estreitas, praticamente derrapando
nas curvas, obrigando-a a agarrar-se à
alça enquanto percorriam a cidade.
Pararam diante de um bistrô. Renzo
saltou e entregou as chaves ao
manobrista. Ela levou um tempo para se
dar conta de que ele não abriria a porta
para ela. Bufou e saiu, segurando a saia
e se ajeitando.
– Não foi nada cavalheiro – disse,
passando pela frente do carro e dando o
maior passo que a saia permitia.
– Sinto muito. Dizem que não sou
muito cavalheiro. Na verdade, acho que
alguém disse isso recentemente para
você.
– Talvez devesse prestar atenção à
reação dos outros.
Ele a segurou pela cintura, os dedos
abaixo da curva do seu seio. Ela ficou
afogueada, o coração disparou.
– Sinto muito – disse, a voz rouca. –
Por favor, diga que me perdoa. Pelo
menos para que os paparazzi não
publiquem fotos do nosso jantar nas
quais você está de cara emburrada.
– Ah, desculpe, esqueci. Nada pode
prejudicar sua preciosa reputação.
– Nossa união tem como único
objetivo manter minha reputação. Você
não vai arruinar isso. Caso contrário,
juro que pagará caro. Acabo num piscar
de olhos com nosso acordo financeiro.
Melhor não brincar comigo, Esther.
Ele sussurrou essas palavras ao seu
ouvido, e, para quem olhasse de longe,
ele parecia estar sussurrando palavras
de amor. Jamais imaginariam serem
ameaças.
E o pior é que seu método
funcionou.
Entraram e sentaram à uma mesa na
qual, sem dúvida, ele já se sentara
várias vezes. Puxou a cadeira para ela,
demonstrando a gentileza não
verificada no carro.
– Água com gás, por favor – disse ao
garçom.
– E se eu quiser outra coisa? –
indagou ela, prosseguindo com a
provocação.
– Suas opções são limitadas, pois não
pode tomar bebida alcóolica.
– Mesmo assim posso querer um
suco.
– Por acaso queria suco? – perguntou
em tom inflexível.
– Não – respondeu, sentindo-se
vencida.
– Então trate de se comportar.
Ele assumiu o controle durante o
resto do jantar, escolhendo a comida,
por saber os melhores pratos do
restaurante, sem dar ouvidos aos
protestos dela.
No fundo, não sabia o motivo da
surpresa. Ele agira assim desde o início.
Ela tentara conversar, resolver os
assuntos nos próprios termos, mas
Renzo sempre assumia as rédeas da
situação.
De repente, naquele restaurante que
fugia tanto à experiência de vida dela –
e sequer correspondia à sua imaginação
algumas semanas antes – teve a
sensação de estar no meio do oceano,
incapaz de agarrar algo para se ancorar.
Temia se afogar.
Respirou fundo. Tentou disfarçar o
medo.
Afinal levaram os pratos da
sobremesa, e Esther achou que talvez
conseguisse voltar a respirar
normalmente. Em breve voltariam para
casa. E, embora ela ainda achasse
aquele palácio deslumbrante, pelo
menos era um deslumbramento
familiar. Ao menos nos últimos dias.
Então, ela o fitou, e aquele breve
instante de sanidade foi por água
abaixo. O olhar determinado tinha um
quê de estranheza. E, se o conhecia um
pouquinho, saberia que ele sempre
mantinha a expressão impassível.
Adicione-se a isso uma dose extra de
determinação, e ele seria envolvente.
Ela não queria ser envolvida por ele.
Em nenhum aspecto. Fitando os olhos
escuros, sentiu um nó no estômago,
sem saber se atingiria seu objetivo.
Ele enfiou a mão no bolso do paletó
e, sem desviar os olhos, levantou-se e se
ajoelhou diante dela. Ela ficou sem ar.
Se antes experimentara a sensação de
afogamento, agora ela apenas se
agravava. Parecia nadar contra a
correnteza. Aqueles olhos tinham
grande efeito sobre ela.
Na verdade, ele causava grande
impacto.
Devia ser mais forte. Mais esperta.
Ficar imune ao charme dos homens.
Sobretudo de homens como ele.
Homens que buscavam controlar o
mundo, desde as pessoas ao redor até
as casas em que moravam. Imaginou
que, se a previsão de tempo
desagradasse Renzo, ele contestaria.
Conhecia bem aquele tipo de homem
e a importância de se manter a distância
deles.
No passado, a mãe era uma mulher
normal. A princípio, Esther não deveria
ter conhecimento disso, mas encontrara
fotos da mãe quando ainda era uma
criança alegre e usava roupas comuns.
Nunca conseguira ligar aquelas fotos
do passado à mulher por quem fora
criada. Uma criatura quieta. De
aparência desleixada. E sob o comando
do marido, a quem nunca se opunha.
Para os pais, era um mistério Esther
trazer como característica qualquer
sombra de rebeldia. Mas trazia. E, se
Esther tinha medo de algo, era de
perder sua natureza. De se transformar
na mulher apagada e indecisa por quem
fora educada.
O amor destruíra a sua mãe. Ou
melhor, o controle disfarçado de amor.
Era fácil confundir um com o outro.
Tinha plena consciência disso, por
experiência própria. Muitas vezes,
imaginava que o autoritarismo do pai
tinha como objetivo protegê-la.
Os pensamentos pipocaram na mente
dela como uma luz estroboscópica.
Rápida, confusa, a deixou cega e
obscureceu o que se passava diante
dela.
Piscou, tentando recuperar o
controle. De nada adiantaria perdê-lo.
– Esther – disse Renzo, a voz
aveludada disfarçando o tom de
comando de poucos minutos atrás.
Acariciava sua pele, fazendo uso da
sedução em vez da tirania.
Renzo era perigoso, repetia inúmeras
vezes para si mesma, enquanto o
observava abrir a caixa tirada do bolso
do paletó e estendê-la exibindo a
aliança de brilhante.
Renzo era perigoso. Nada disso era
real. Eram aspas na vida dela. Uma
experiência sem consequências. Estava
grávida. Teria gêmeos. E bancava ser
rica e sofisticada com o pai dos gêmeos.
Mas as crianças não eram dela. Nem
tampouco ele era seu noivo.
Ainda bem. Ainda bem mesmo. Ela
não queria mais nada. Não dele. Nem
de ninguém. Não conseguiria levar a
farsa adiante.
Mas era preciso. Bastava lembrar-se
de representar, enquanto sorria e se
comportava de modo a não atrapalhar a
farsa. Como ele a lembrara, isso era o
mais importante. Ela compreendia,
superficialmente. Mas, no momento,
ficou confusa. E odiou a sensação.
Contudo, quando ele tirou a joia da
caixa e a colocou no dedo dele, ficou
sem fôlego. Teve a sensação de não ser
apenas um espetáculo, daí a constatação
da própria fragilidade. Da fragilidade
tão temida.
– Casa comigo? – concluiu em tom
afetuoso.
Nunca havia fantasiado esse
momento. Nunca aspirara ao
casamento ou a relacionamentos. Mas
sentia-se... Bem, nunca tinha sentido
nada disso antes. E a pergunta feita por
Renzo parecia totalmente diferente da
que o pai na certa fizera à mãe e lá se
iam mais de vinte anos.
Claro que era diferente. Era uma
estratégia.
Mas isso não o torna menos perigoso.
Não o torna uma criatura diferente.
Continua controlador. Inflexível.
E não a ama.
O coração bateu forte.
– Caso – disse para ele e para a voz
dentro do seu peito.
Sabia que Renzo não a amava. Nem
queria que a amasse. Não assim. Um
amor desse tipo não representava a
liberdade, mas a opressão.
Sentia-se confusa e atordoada depois
da consulta médica. Por causa das
revelações. Por causa dos hormônios e
porque acabara se envolvendo.
Essa era a verdade. Ela, Esther
Abbott, a criatura esquisita, durante
tanto tempo enclausurada, inocente e
virgem, não devia estar com um
homem como Renzo. Não devia estar
grávida nem receber uma proposta de
casamento.
Não era de estranhar a confusão das
emoções, apesar de, em termos
racionais, entender o que acontecia. Seu
cérebro não estava nada confuso.
Mas aquela aliança no dedo a
oprimia. Havia algo fundamental na sua
resposta que ela não conseguia
identificar – e nem queria.
E a confusão, que revirava seus
sentimentos como as roupas na velha
secadora do albergue, não a preparou
para o que aconteceu a seguir. Ao
menos, foi o que ela pensou para se
convencer.
Antes que pudesse reagir, respirar, se
mover ou se preparar, Renzo ergueu a
mão, e segurou seu rosto, acariciando-a
com o polegar. Foi como acender um
fósforo num barril de pólvora. O fogo se
espalhou do ponto de contato até o
centro do seu corpo.
E enquanto ela lutava contra a
sensação, ele se aproximou e encostou
os lábios nos seus.
Então, tudo queimou até virar cinzas.
Todas as preocupações, pensamentos,
tudo sumiu de sua mente num lampejo
quando os lábios se acariciaram. Isso foi
o que mais a surpreendeu. O
movimento.
Nunca imaginara tanta atividade em
ser beijada. O toque da mão em seu
rosto, a carícia em seu cabelo, os lábios
aprendendo o formato dos dela e
acomodando-se a eles.
Ela nunca imaginara que os lábios de
Renzo podiam ser macios. Nem
tampouco, depois que se entreabriram,
a língua molhada dentro de sua boca.
Ela ficou desarmada. O beijo
desencadeou um terremoto que a
deixou devastada, oca, com uma
sensação dolorosa de vazio.
Não sabia como agir. Então, fez a
única coisa que sempre temera fazer ao
se ver diante de um homem. Cedeu.
Permitiu que ele entreabrisse seus
lábios e a beijasse com mais
sofreguidão.
Foi abalada por outro tremor que
percorreu sua espinha e chocalhou sua
estrutura. Ela nem tentou reagir. Nem
detestou a sensação.
Quando saiu de casa e decidiu rodar
o mundo; quando afinal resolvera
questionar os ensinamentos dos pais,
determinada a descobrir quem era e
não quem tinha sido forçada a ser até
então, nada disso lhe parecera racional.
Nunca se imaginara em semelhante
situação. Um dia, no futuro, ia querer
explorar o desejo, mas logo afastara tal
pensamento. Não era sua prioridade.
Grande parte de sua vida convivera em
grupo. Sob a autoridade de alguém.
Então, queria a solidão. Um dia,
talvez formasse um grupo de amigos.
Quando tomasse a decisão de se
instalar em algum lugar. E, quem sabe,
talvez encontraria um homem com
quem teria um romance. Mas todas
essas experiências pertenciam ao futuro
longínquo, bem diferente das
experiências buscadas a curto prazo.
Ansiava pela liberdade. Desejava
saborear o mundo que lhe fora
escondido; experimentar comidas
estranhas, ares estranhos, o sol estranho
na pele sempre coberta.
De repente, tudo se turvou. De
repente, tudo empalideceu em
comparação com o que sentia. Algo
mais quente do que o sol, mais
poderoso do que o ar – desde o ar
salgado do Mediterrâneo ao ar úmido e
frio de Londres – e mais delicioso do
que qualquer sabor.
Aquele era Renzo. Em estado puro,
ao natural. Tudo o que o olhar lhe
prometera, desde o primeiro momento
em que seus olhos pousaram nele.
Lembrou-se de como ele a imobilizara
apenas com o olhar. Só podia ser um
indicativo, como um raio de sol visível
através de uma fresta na nuvem escura
e pesada.
A nuvem se movera. Revelara todo o
brilho escondido. O brilho que seria
prejudicial para sempre, caso ela se
permitisse banhar-se nele por muito
tempo.
Mas queria aproveitar mais um
pouquinho. Podia até parar de respirar
por um tempo, só para poder sentir o
gosto da boca de Renzo.
Ele se afastou e lhe deu mais um
beijinho nos lábios antes de se
distanciar. E então entrelaçou os dedos
nos dela, a levantou da cadeira e a
puxou contra o peito.
– Acho – disse com a aspereza
habitual –, que está na hora de irmos
para casa, não acha?
– Acho – concordou, pois não havia
outra solução. Porque qualquer resposta
mais inteligente ia requerer três vezes
mais neurônios do que possuía no
momento.
Então ele lhe deu a mão e saíram do
restaurante. O carro estava estacionado
no meio fio e ela nem perguntou como
ele avisara que estavam de saída, para
evitar terem de esperar.
Ele não tinha telefonado. Ela não
tinha percebido nenhum sinal entre ele
e um funcionário do restaurante.
Parecia mágica. Mais um pouco da
magia que Renzo aparentava exalar e
que tinha o poder de obscurecer o resto
das coisas. Pelo menos, o modo como
como Esther as enxergava.
Precisava se controlar, repetia até
chegar em casa. E então repetiu de
novo ao se dar conta de que se referia à
casa de Renzo como sua.
Queria olhar a aliança no dedo.
Queria examinar como o seu corpo
mudara desde que usava a aliança.
Nunca tivera uma joia daquelas.
Comprara umas bijuterias depois que
tinha saído de casa por gostar do som e
do brilho. Algo que a remetia à
liberdade.
Mas diamantes não cabiam em seu
orçamento.
Deu uma olhadela, a pedra cintilava
sob a luz.
Então, foi como se derrubassem um
balde d’água em cima dela. De repente,
o nevoeiro diminuiu. E ela ficou
zangada.
– O que passou pela sua cabeça? Por
que não me avisou? – indagou ela.
CAPÍTULO 8

RENZO NÃO estava com paciência para


discutir com Esther. Seu mundo parecia
de pernas para o ar. Ia ter não um, mas
dois filhos.
Decidiu dar prosseguimento ao seu
plano, como se a notícia da médica não
o houvesse surpreendido. Iria pedi-la
em casamento em um dos muitos
restaurantes chiques de Roma, onde
com certeza tirariam fotos deles para
serem publicadas nos tabloides. Os
mesmos que haviam noticiado seu
incrível divórcio com Ashley
recentemente.
Tudo fora calculado. Nos mínimos
detalhes. Armara o palco para que
acreditassem no relacionamento. E
aceitariam a gravidez como resultado de
métodos naturais.
Só não contara com o beijo. Ou
melhor, com o modo como o beijo o
afetara. Achava Esther linda e sabia não
ser imune à beleza dela. Quando
observara Tierra vesti-la, fora cativado
pela cintura fina, pelas curvas dos
quadris, pelo bumbum bem torneado
cuja renda preta mal o cobria.
Mas aquela atração não o havia
preparado para o que acontecera no
restaurante. A julgar pelo beijo, ela era
bem mais inexperiente do que ele
imaginara. Ela praticamente não se
movera. Entretanto, isso o excitara. Ele
já provara todas as delicadezas
femininas que o mundo tinha a
oferecer. Desfrutara de companhias
femininas desde sua primeira decepção
amorosa. Não via motivos para não
satisfazer o corpo, apesar de
determinado a nunca mais envolver o
coração.
Mas ela rompera aquele muro de
pedra ao redor dela. Ela o afetara. E
agora berrava com ele.
– Eu não podia avisar, cara mia. Isso
estragaria a surpresa.
– Não gostei da surpresa.
– Mas eu precisava que você
parecesse surpresa. Não sabe que a
maioria das mulheres é pega
desprevenida quando é pedida em
casamento?
Ela fungou.
– Talvez eu não saiba.
– Acho que sabe. Eu precisava que
parecesse verdadeiro.
– Por isso me... acariciou depois?
– Essa é uma maneira muito elegante
de descrever o que aconteceu entre nós.
Embora acredite que você também me
acariciou.
Ela bufou.
– Não acariciei nada. Como eu disse,
você me pegou de surpresa. Acho que
devia ter me avisado. Não perderia o
elemento surpresa da sua farsa. Eu
podia ter fingido.
– Infelizmente, você é uma péssima
atriz. Odeio insultá-la, mas é verdade.
Você não tem astúcia. – E ao dizer isso,
deu-se conta do quanto era verdade.
– Você estava tentando me controlar
– disse ela em tom duro, a raiva
indicando uma ferida profunda. Uma
ferida existente muito antes de ele ter
entrado em sua vida.
– Não foi isso – afirmou, embora
achasse que a essa altura tudo não
passava de discurso. – Você não tem...
Você é muito frágil. Parece não ter
como se proteger. Você senta no chão
sob os raios de sol com tigelas de cereal.
E não sei como agir com você. Não sei
qual vai ser a sua reação. Não gosto
disso.
Ela respirou fundo, e se um respiro
podia ser chamado de triunfante, este
com certeza podia.
– Ótimo. Levo a vida como bem
entendo; não pretendo agradar mais
ninguém. Sou dona de mim mesma.
– Você já disse isso.
– É verdade. Sei que eu disse que
meus pais eram pessoas rígidas, mas
você não faz nem ideia.
– Você conheceu meus pais. Tem de
concordar que eu faço ideia do que são
pais rígidos.
Ela bufou.
– Acredite, seus pais me pareceram
encantadores.
– Seu referencial é um bocado
estranho.
– Pode ter certeza.
Ele começou a andar de um lado
para o outro, o fogo e a energia
armazenados prestes a explodirem.
– Não se esqueça: quem manda aqui
sou eu. Tudo isso diz respeito apenas a
mim. Portanto, se eu decido confirmar
nosso noivado em público, deve aceitar
minha palavra como lei.
– Que mania de dizer que é
importante só para você. Não é. Pode
até não entender. Nem eu entendo.
Mas eu me importo, também me diz
respeito. Estou ligada aos bebês
fisicamente, mesmo sabendo que não
são meus. Está tudo embaralhado:
biologia e posse, o que significa... Sei lá.
Só sei que não me sinto uma barriga de
aluguel. Eu me sinto uma pessoa
passando por uma fase importante e
assustadora. Uma pessoa esperando um
bebê, ou melhor, dois bebês. Não há
como me distanciar, não por completo.
Ele a observou atentamente.
– Mudou de ideia quanto a ir
embora depois do parto? – Ela mudaria.
Isso podia garantir. Mas, se ela
pretendia mudar de ideia, isso apenas
facilitaria sua tarefa.
Sua reação ao beijo resolveria de vez
o assunto.
– Não – respondeu em tom sereno.
Esther desviou o olhar e mordeu o lábio
inferior delicioso, que ele provara
menos de uma hora atrás. – Não posso.
Tenho muitos planos. Sei disso. Mas
pode parar de me dizer que o que eu
quero não importa. Que o que eu sinto
é diferente do que você sente.
– Mas – disse ele, incapaz de
desconsiderar o comentário, mesmo em
nome da desejada harmonia, em nome
da manipulação –, é verdade. Vou ser
pai dessas crianças. Vou criá-las. Sei o
que isso representa: sacrifícios,
mudanças. – Até pronunciar essas
palavras não tinha se dado conta de que
pretendia mudar de vida. Imaginara, a
princípio, deixar a educação das
crianças a cargo das babás. Mas agora se
dava conta de que não agiria assim.
Pensou na filha. Na filha cujo nome
mal conseguia pronunciar, mesmo
depois de tantos anos. Na filha com
quem às vezes cruzava, em meio a
muita gente, que de criança se
transformara em uma jovem mulher.
Sem ele. Sem sequer saber da sua
existência.
A ideia de ser mais uma vez um pai
ausente, mesmo estando os filhos no
quarto e ele no andar de baixo ocupado
com os seus afazeres, enquanto eles
eram cuidados por outras pessoas, era
insuportável.
– Minha vida vai mudar – reiterou,
mais para si mesmo do que para ela.
– Tenho o pressentimento de que a
minha também.
– Claro, por causa do dinheiro que
vou lhe pagar.
– Nada disso – pronunciou, agora em
tom impetuoso. – Porque fui ingênua.
Fui tola em pensar que podia fazer isso
sem sentir nada. Por achar que podia
fazer isso e depois dar as costas com um
cheque na bolsa. Essa experiência vai
me marcar para sempre. Eu vou mudar
– disse, parecendo triste, abalada. –
Achei que ficaria tudo bem, porque eu
me comprometera a levar a vida sem
laços ou amarras, livre de tudo o que
evitava. Mas não é verdade. Tudo traz
consequências. – Ela riu. – Acho que
tentei afastar isso da minha mente.
Porque meu pai costumava repetir essa
frase. Toda ação implica em
consequência. Tudo o que você faz
volta para você. Que agonia descobrir
que nem tudo o que meus pais me
ensinaram estava errado.
– Isso costuma acontecer –
concordou, as palavras de Esther
mexeram com ele. – Por mais trágico
que pareça, por mais difícil a situação,
por mais exagerados que os pais sejam
de vez em quando, em geral não
costumam estar totalmente errados.
Ela balançou a cabeça.
– Vou deitar.
Ao dar-lhe as costas, ele segurou seu
braço numa tentativa de impedi-la de ir
embora.
– Não esqueça. – Não sabia direito o
que diria. Por um instante, ficou
plantado, sem saber o que o impedia de
deixá-la partir. – Não esqueça da
viagem a Nova York daqui a duas
semanas. Se ficou surpresa com a
exibição pública hoje, espere para ver.
Se precisar de algum tipo de
preparação, sugiro conversar comigo.
Caso contrário, vou assumir que sabe
no que está se metendo e esperar que se
comporte de acordo.
Ele soltou seu braço. Sabia que se
comportava feito um idiota, mas não
conseguia mudar. E por que deveria?
Para seduzir, talvez?
Trincou os dentes. Sim, seduzir seria
o caminho mais fácil. Voltar a beijar
aqueles lábios macios e aplacar medos
dela. Mas sabia que precisava se
distanciar daquele beijo inicial. Mais do
que gostaria de admitir.
– Acho que posso imaginar – disse
em tom suave.
– Faça isso.
Faltavam umas duas semanas para
apresentar sua noiva à sociedade. E
dessa vez – o pai tinha razão – precisava
ser definitivo. Esther, contudo, ansiava
por experiências. Por ver o mundo e
tudo o que a vida tinha a oferecer. E se
ele possuía algo, era acesso ao que ela
queria.
Podia lhe oferecer glamour.
Excitação. Podia literalmente lhe
mostrar o mundo.
E mais uma coisa. Outra que ela não
obteria de outro homem, não como ele.
Paixão. Os dois eram combustível em
estado puro, como o beijo comprovara.
Não havia uma química banal. Ele era
especialista no assunto.
Sim, Nova York seria o lugar perfeito
para armar a emboscada.
Ficariam hospedados no melhor
hotel da cidade, ele iria levá-la às
melhores exposições, a restaurantes
insuperáveis. E, então, quando
voltassem ao hotel e a deitasse na cama
larga... Ele a possuiria.

NAS SEMANAS após o noivado, os dois


estabeleceram uma estranha rotina.
Jantavam juntos – e ela não fez
nenhuma refeição sentada no chão – e
conversavam educadamente. Ele nunca
tentou beijá-la.
Ele era interessante e, o que era
desconcertante, ela se pegou à espera
dele para poderem conversar.
E havia os livros. Todo dia, ao voltar
do trabalho, Renzo lhe trazia um. Guias
de viagem. Romances. Livros de história
sobre assuntos esquisitos, como os
uniformes dos diferentes exércitos e as
roupas das mulheres nas diferentes
épocas.
Esther lhe perguntara o motivo de
sempre trazer um livro, e ele
respondera que assim ela podia
aprender coisas novas. Como tinha dito
que gostaria.
Isso a... emocionou. Não tinha
certeza se queria isso. Ao mesmo
tempo, queria que tudo permanecesse
igual. Vivendo nessa estranha calmaria
onde acreditava estarem à beira de algo.
Gostava da sensação. Sentia-se
segura. Nada excepcional ou muito
diferente da sua experiência de vida.
Claro que um dia essa calmaria
chegaria ao fim. E, certo dia, ela foi
empurrada da beira do precipício,
quando, ao chegar do trabalho, ele
começou a ditar ordens e enfiou Esther
e todas suas roupas no carro e depois
no jatinho particular.
Um avião particular. A viagem sobre
o Atlântico na classe econômica tinha
sido um horror, mas nunca imaginara
cruzar o oceano de volta num jatinho.
Acomodada numa poltrona
reclinável na sala de estar do avião de
Renzo, o longo voo até Nova York
pareceu transcorrer num piscar de
olhos. A comida não lembrava em nada
o que lhe serviram na vinda para a
Europa.
Serviram todos os tipos de sucos de
frutas e água mineral e um bolo leve
com creme, que poderia comer
inteirinho, caso não fossem avisados de
que se preparavam para o pouso.
Renzo havia passado o voo inteiro
mergulhado no trabalho, o que não era
surpreendente nem desagradável.
Embora ela ansiasse por conversar,
levou um livro que ele lhe dera para ler
no voo e que dava a estranha impressão
de que, de algum modo, ele falava com
ela.
Não sabia o motivo daquele
estranhamento. Ela e Renzo estavam
ligados pelos bebês que ela carregava, e
ponto final. Não precisavam criar uma
ligação mais pessoal além da que já
existia. Melhor até que isso não
ocorresse.
Fez o possível para não pensar
naquele beijo nem no avião nem ao
saltarem e entrarem em outra limusine.
Fez o possível para não pensar no beijo
durante o trajeto pela autoestrada até
começarem a surgir as silhuetas dos
edifícios contra o céu de Manhattan.
A visão conseguiu desviar sua
atenção de Renzo, do beijo e da
estranha dor no peito.
Nova York. Nunca tinha ido àquela
cidade. Sonhava em visitá-la um dia,
mas sua primeira inclinação tinha sido
se afastar o máximo possível dos pais,
ou seja, partir para a Europa.
Mas a cidade era incrível. Nunca
imaginara experimentar tamanho
deslumbramento na vida. Pelo menos
não conjugado a um voo em avião
particular. De certo modo, foi um alívio
constatar que Renzo cumpria sua
promessa de mostrar um mundo que
jamais conheceria sem ele. O mundo
em que as pessoas ricas viviam. Como
viajavam, o tipo de paisagens e comidas
que admiravam e saboreavam.
Por outro lado, era inquietante.
Pois era outro modo de Renzo mudar
sua maneira de ser. E se ela se
acostumasse com isso? Se depois
sentisse falta do luxo? Não, não queria
mudar.
Afastou de imediato o pensamento
quando se aproximaram da cidade.
O importante era a experiência. Não
o luxo do carro, mas onde estava. Não
mudaria. Não tanto. Aborrecera-se ao
se dar conta de que os pais não se
enganavam ao ensinar que todo ato
resulta em consequências.
E já entendia que o modo como eles
haviam impregnado nela a falta de
interesses materiais fora benéfica. E
facilitara sua decisão de pegar suas
coisas e sair mundo afora. Enquanto
muitas das moças que conhecera, nos
diferentes albergues em que se
hospedara, ficavam arrasadas, ela se
sentia grata por ter um cantinho seu.
Luxo era ter independência. Nunca
se esqueceria disso.
Ela e Renzo fizeram o trajeto em
silêncio. Ela permaneceu quieta até
chegarem ao hotel. As escadas de pedra
largas conduzindo à entrada eram
impressionantes. As pedras cor-de-
caramelo do piso do hall pareciam
entrecortadas veios de ouro. O hotel
não era grande. Na verdade, era
pequeno, e por isso mais especial.
Como se poucas pessoas tivessem
recursos para se hospedar ali.
Em contrapartida, o quarto reservado
para ela e Renzo era grande. Ocupava a
cobertura inteira. Nas extremidades
ficavam os quartos, e, no centro, uma
extensa área de convivência. As janelas
se abriam para o Central Park.
Deslumbrada, admirou a praça verde
cercada por cascalhos.
– Que maravilha! – exclamou,
voltando-se para ele. Sentiu um nó na
garganta.
De pé, Renzo afrouxava o nó da
gravata preta. Depois de tirá-la,
desabotoou o colarinho. E ela se
descobriu mais deslumbrada com ele do
que com a paisagem.
Devia estar admirando a vista. O
hotel. Deveria usufruir da nova
experiência em vez de ficar obcecada
pelo homem à sua frente. Pelo pescoço
forte e bronzeado. Pela pele dourada
revelada graças à abertura do botão. E
não apenas a pele, mas o pelo escuro
capturou sua imaginação de modo
surpreendente.
Ele era muito másculo. Sabia por
experiência própria. O beijo tinha sido
dominador, possessivo. Enquanto ela se
rendera, subjugada.
Não. Não pensaria nisso. Não se
renderia.
– Qual sua primeira impressão de
Nova York?
– Incrível – respondeu, satisfeita por
ele perguntar sua impressão quanto à
cidade e não quanto ao seu peito. – É
grande e agitada como Londres, mas a
energia é diferente.
Ele franziu a testa e inclinou a cabeça
de lado.
– A energia é diferente. – Balançou a
cabeça devagar. – É verdade, embora eu
nunca tenha pensado nisso.
– Você também nunca sentou no
chão para comer cereal banhado pelos
raios do sol.
– Tem razão.
– Perceber a energia tem mais a ver
com quem come cereal no chão
banhada pelo sol.
– Imagino que sim.
– Você é muito ocupado para
perceber essas coisas. Cuidar de
propriedades deve exigir... energia,
suponho.
– É, cuidar de um império é agitado,
mesmo quando a economia anda a
passos lentos.
– E você tem um império.
– Achei que a essa altura isso fosse
óbvio.
– Claro. Óbvio. – Obrigou-se a dar as
costas a ele e contemplar a paisagem. –
Acho as cidades grandes muito
interessantes. Por causa do anonimato.
É possível estar cercada de gente e, ao
mesmo tempo, absolutamente sozinha.
Onde eu cresci, havia menos gente.
Muito menos. Mas a gente parecia
nunca estar sozinha. E não só porque
eu morava numa casa pequena e minha
família era grande. Mas toda vez que eu
saía, encontrava um conhecido. Não
dava para ter privacidade, para
demonstrar mau humor.
Ele ergueu o ombro.
– Quando saio, raras vezes sou um
anônimo.
Ela franziu a testa.
– Imagino. Quero dizer, mas eu
nunca saberia quem você é. Não sou
cosmopolita.
– Mas está aprendendo.
Ela olhou sua roupa de viagem,
escolhida por ele. Jeans escuro e
camiseta branca. Devia parecer bem
mais cosmopolita do que há poucas
semanas. Mas aquela não era ela. E
nada daquilo lhe pertencia.
– Pelo menos na aparência. – Ela o
fitou. – Imagino que você também não
possa demonstrar irritação em público.
A gargalhada de Renzo a envolveu
como uma noite de verão.
– Claro que posso. Posso fazer o que
bem entender. Sou Renzo Valenti, e
ninguém vai me dar lições de decoro ou
me passar sermões.
– A não ser, talvez, sua mãe.
Ele voltou a rir.
– Ah, com certeza. Mas eles não
podem me afetar. – Admirou a cidade
pelas janelas amplas. – Eles me deram
liberdade por tempo demais, e agora eu
tenho muito poder. Só lhes resta
demonstrar desaprovação. Uma pena
para eles, mas uma vitória para mim,
não acha?
– De certa forma, aprovação e
desaprovação são formas de poder, não
é? – Pensou na família. No fato de que
o motivo de ter ficado enraizada na casa
da infância por tanto tempo era saber
que jamais voltaria, caso partisse um
dia. Sabia que, se saísse da linha, o pai a
deserdaria; voltaria os irmãos contra
ela, proibiria a mãe de ter qualquer
contato com a filha. Essa desaprovação
pesaria tanto que ela seria afastada em
definitivo. Para tomar a decisão
sozinha, teria de arcar com as
consequências.
– Suponho que sim.
– Você não acredita em mim. Mas
isso significa que a aprovação dos seus
pais não vem com cordas.
Ele riu de novo, foi até o bar, pegou
uma garrafa de uísque e serviu-se de
uma dose. Ela não sabia o que era
aquela bebida âmbar meses antes, mas
aprendera ao trabalhar como garçonete.
– Isso não é verdade. Eu possuo certo
poder de mexer os pauzinhos. Então o
resultado é mais uma luta pelo poder
do que um fato consumado.
– Era do que eu precisava – disse ela
–, de cordas.
Claro, e era isso o que a magoava,
concluiu, levantando-se e remoendo o
que ele dissera. O fato de ela não ter o
poder de mexer os pauzinhos. Na vida
familiar, ela não exercia qualquer
poder. Para seu pai, o controle era
importante, não o amor. E ele não
aceitava que ninguém desafiasse seu
controle, pois isso podia estimular os
outros na casa a fazerem o mesmo.
O amor paternal não era forte o
suficiente para combater isso. Se é que
havia qualquer amor paternal nele.
– Por que não descansa um pouco
antes de começar a se arrumar para o
baile de gala? Tire um cochilo.
Ele não sabia ao certo o que inspirara
o comentário abrupto, mas ficaria grata
por manter certa distância. Grata por
ter um tempo sozinha, longe de Renzo,
de sua presença magnética e de todas as
emoções e sentimentos que ele lhe
despertava.
– Boa ideia. Vou tirar um cochilo.
Alguém vem me ajudar com a
maquiagem e o cabelo?
– Claro. Não posso correr riscos no
mais importante evento profissional do
ano.
– Ótimo. Estou aliviada demais para
me sentir ofendida. – Então se afastou e
entrou no primeiro quarto. Sem pensar
duas vezes, atirou-se no colchão macio
e fechou os olhos.
E se era Renzo que via por trás das
pálpebras fechadas e não a brilhante
linha do horizonte, preferiu ignorar.
RENZO BOLARA um plano. E tinha a
impressão de que seria fácil obter êxito.
Decidira seduzir Esther naquela noite.
A julgar pelo modo como ela o olhara à
tarde, a sedução já estava quase
concluída. Não era um homem vaidoso,
mas tampouco era dado à falsa
modéstia.
Esther sentia atração por ele. Fora
afetada pelo beijo, e ele seria capaz de
alcançar seu objetivo quando a
acariciasse à noite. Mais ainda, ela se
sentia afetada por todo o luxo da
viagem, pelos lugares do mundo que ele
lhe proporcionaria graças ao seu
dinheiro e ligações.
O fato de ela se interessar por isso
não o aborrecia; pelo contrário,
contribuía para o êxito de seu objetivo.
Se ela não se interesse por todas essas
coisas materiais, como alegara a
princípio, ele perderia influência sobre
ela. Mas Esther queria estudar, ver o
mundo e, sabendo ou não, também
ansiava por suas carícias. Ele poderia
lhe dar tudo isso. Poderia satisfazê-la
como nenhum outro homem poderia
ou teria satisfeito.
Bastaria concordar em se casar com
ele. Teria de se apresentar
respeitavelmente em público. E só. Ele
não via motivos para ela fazer objeções.
Ele mentira, é claro, ao dizer que os
pais não tinham influência sobre ele. O
pai dera uma clara demonstração de
sua influência duas semanas antes.
Droga, Renzo não passara imune pela
ameaça. Não aceitaria que os negócios
da família fossem deixados nas mãos do
cunhado. Nem de ninguém. Ele lutara
muito por isso.
Para manter o status quo, já abrira
mão de uma filha. Não estava disposto
a perder mais nada.
A raiva queimou seu peito; uma raiva
que não experimentava havia anos. Não
se dera conta da ainda intensa força do
sentimento. Achava ter aceitado a
decisão dos pais que, supostamente,
agiram para o seu bem. Mas doía. De
fato, quanto mais os anos passavam,
mais doía.
Quanto mais velho ficava, mais
controle assumia sobre sua vida e mais
raiva sentia pela falta de controle aos 16
anos.
Sua linha de pensamento foi
interrompida quando a porta do quarto
de Esther se abriu e ele vislumbrou as
pernas bem torneadas. Voltou a
atenção para ela, um calor subindo e
invadindo seu corpo.
O cabelo escuro estava solto em
ondas caídas sobre os ombros. O
vestido azul forte realçava as curvas e o
busto pequeno graças ao decote em
formato de coração.
O tecido vaporoso cobria a barriga
que mostrava sutis alterações da
gravidez.
Usava sombra dourada e as maças do
rosto e os lábios carnudos exibiam uma
cor de papoula.
Era uma explosão de cor, de brilho, e
ele não conseguia desgrudar os olhos.
Não era a primeira vez que se
perguntava quem seduzia quem. Talvez
a ideia de ficar com ele fizesse parte dos
planos de Esther. Talvez tudo não
passasse de uma artimanha elaborada
para obter acesso à sua fortuna e ao seu
poder.
Ao fitá-la, linda e ainda por cima
grávida, conforme atestara a
ultrassonografia, ele pouco se
importava. Se ela era tão inocente
quanto alegava, e parecia ser, ou se não
passava de uma interesseira.
Devia se importar. Contudo, não se
importava.
– Você está deslumbrante – elogiou,
aproximando-se e a segurando pela
cintura. A estilista contratada estava no
quarto. Seria uma boa desculpa para o
que pretendia fazer.
Inclinou-se e roçou os lábios nos
seus. Um gostinho, uma prova para os
dois.
Logo ficou evidente que ele não
imaginara o calor e as faíscas entre eles.
De fato, apenas o leve toque inflamou
algo dentro dele, mais quente do que
qualquer coisa arquivada em sua
memória.
Que bobagem. Eram só lábios.
Apenas sua mão na cintura.
Entretanto, ele ficou abalado.
– Cara, vamos para o baile –
convidou com voz rouca.
CAPÍTULO 9

O SALÃO de festas estava cheio de


gente elegante e rica; o dinheiro parecia
escorrer pelas paredes do local. Desde
os diamantes nas orelhas das mulheres
ao candelabro no teto. O perfeito
exemplo do estilo de vida opulento que
Renzo poderia lhe oferecer, caso ela
decidisse aceitar sua proposta. O
perfeito instrumento de manipulação,
que ele sequer planejara.
Mas funcionaria perfeitamente.
Esther não desgrudou dele, os dedos
delicados curvados em torno de seu
bíceps. E, apesar das camadas de roupa
– o paletó e a camisa –, ele sentia o
calor de sua pele.
Isso funcionava a seu favor, porém
ele mal podia esperar até a hora de
despi-la e tomá-la nos braços. Isso se
tornara uma obsessão ao longo das
últimas semanas. Resistir, aguardar.
Conversar com ela durante o jantar
quando o que desejava era deitá-la
sobre a mesa e possuí-la ali mesmo.
Levar livros para que ela lesse na cama,
quando pretendia mantê-la ocupada
com outras coisas na cama.
Tantas vezes pensara em ir até o seu
quarto e derrubar a porta... Deitar sobre
ela e beijá-la até os dois ficarem sem
fôlego.
Apossar-se dela sem todo aquele
fingimento. Ou delicadeza. Tinha a
sensação de que nada daquilo era
necessário e que o fogo ardia tão forte
nela quanto nele. E, desesperado, ele
queria descobrir se isso era verdade.
Entretanto, não podia permitir que a
impetuosidade prevalecesse. Não podia
dar um passo em falso porque sua
libido aumentara de modo irreversível.
Ele se moveu e o quadril dela roçou
nele. A reação foi imediata. Primitiva.
Renzo teve vontade de segurar
aqueles quadris e aprisioná-la enquanto
a penetrava. Enquanto a fazia gemer de
prazer. Por sorte, decidira ligar para a
médica antes de deixarem Roma. Com
a desculpa de discutir eventuais
cuidados referentes à viagem,
aproveitara para perguntar se podiam
ter alguma intimidade física, já que a
gravidez era considerada de relativo
alto risco.
A médica respondeu que nada os
impedia de manterem relacionamento
sexual normal.
Um sorriso curvou seus lábios. À
noite, ela seria sua.
– Tem muita gente – disse Esther –, e
todos parecem conhecer você.
– Mas eu não os conheço.
– Fico imaginando a sensação de ser
famoso – comentou, como se ele não
tivesse dito nada.
– Estou mais para infame. Não vou
mentir, os homens têm medo de deixar
as mulheres se aproximarem de mim. –
Ela ficou tensa, e ele satisfeito consigo
mesmo. Era um risco, mas não
esconderia sua reputação. E despertar
um pouco de ciúmes talvez funcionasse.
– É mesmo?
– Fiquei solteiro muito tempo. Como
já disse, não via motivos para me
reprimir e me comportar bem. Tenho
certa imunidade por ser homem e
muito rico.
– Deve ser bom.
– Sempre foi assim.
– Meu pai era favorável a que os
homens tivessem o que queriam – disse
em tom de voz desinteressado, mas ele
sentiu algo por trás da aparente
indiferença.
– Ele era tradicional?
Ela balançou a cabeça.
– Não sei. Talvez seja essa a palavra.
Uma das coisas nas quais venho
pensando é que as opiniões do meu pai
e de outros homens iguais a ele não são
necessariamente resultado de algo
verdadeiro, mas de uma deturpação
para alcançar os próprios interesses.
– Você foi criada numa família
religiosa?
Ela levantou o ombro.
– Talvez seja isso. Mas a culpa não é
da religião, mas das pessoas.
– Muito progressista.
Dessa vez, levantou os dois ombros.
– Não é esse o sentido da vida?
Progredir? Por isso venho tentando
seguir em frente, não viver sob a nuvem
de tudo isso. – Ela o fitou, e a luz do
candelabro refletiu em seu rosto. –
Agora não me sinto sob uma nuvem. –
Sorriu, e todos os pensamentos que ele
alimentara sobre ela estar agindo de
modo calculado desapareceram. Difícil
imaginar alguém sincero. Mas Esther
parecia ser, e ele se sentia culpado.
Porque não se tratava de uma simples
sedução, mas de manipulação.
Não devia se importar; ela
conseguiria tudo o que desejava no
final, mas de um jeito diferente. Não
devia sentir culpa.
Ao se voltar, teve a sensação de que o
candelabro desprendera do teto e caíra
sobre sua cabeça. Seus medos se
concretizaram, e, por mais que se
prevenisse, nunca estava preparado.
Ali estava ela.
Samantha.
Sua filha.
Ver a transformação da menina em
mulher sempre o chocava. Mas tudo
que se relacionava a ela era chocante,
terrível. Sentiu um nó no estômago. O
coração quase saiu pela boca.
Era uma ferida sem cura, sobretudo
para um homem decidido a evitar
emoções fortes a todo custo. Ele
controlava o mundo. Possuía mais
dinheiro que a maior parte das pessoas
podia sonhar. Mais do que muitos
países pequenos jamais teriam. Mas não
podia ter a filha, e nada podia fazer a
respeito sem destruir a ilusão da
menina, de quem era.
Sentia-se de mãos atadas, e odiava a
sensação.
Para agir como um homem de
escrúpulos nessa situação, era obrigado
a agir de encontro aos seus instintos.
Precisava honrar a vida que escolhera
dar à filha. Apesar de ter sido coagido,
não podia contar a verdade.
A raiva tomou conta de Renzo.
Como não podia se aproximar da filha,
resolveu aproximar-se mais de Esther.
Agarrou-se à sua convicção. Precisava
torná-la sua. A qualquer preço.
Definitivamente, não correria o risco de
perder de novo um filho.
Já perdera uma. A dor nunca cessara.
E nada havia a fazer. A ferida jamais
cicatrizaria. Não podia desfazer o erro.
Não, a existência de Samantha não
era um erro. Jamais seria. O misto de
sofrimento e orgulho experimentado
sempre que a encontrava era
indescritível. Ela estava destinada a
uma vida melhor do que a que ele
podia lhe oferecer no passado. Da vida
que levaria, caso fosse criada por uma
mulher raivosa e amarga cujo
casamento tivesse sido destruído por
causa do nascimento dela e por um
menino de 16 anos que mal dava conta
de cuidar de si, quanto mais de uma
criança.
Com certeza, Samantha levava uma
vida melhor do que ele poderia ter lhe
proporcionado.
Mas, agora, não havia justificativas.
Tinha recursos, experiência,
maturidade. Passara a vida tentando
provar que não seria capaz de criar a
filha que tivera quando ainda era um
garoto.
Agora moldaria uma nova existência
na qual ele proveria tudo o que os filhos
precisassem.
Ele lhes daria tudo. Para começar,
uma família. Uma família sem espaço
para Ashley, que engendrara a gestação
com o único propósito de manipulá-lo.
Uma família com pai e mãe. Esther. Ela
daria à luz duas crianças. As pessoas
acreditavam que ela era a mãe.
Ele renovara essa decisão ao ver a
linda jovem com quem jamais
conviveria, que permaneceria uma
estranha apesar de ter seu DNA.
Desviou o olhar de Samantha e pediu
a Esther:
– Dance comigo.
Ela vacilou.
– Não sei dançar.
– Não me diga. A dança também era
proibida?
Ela riu constrangida, e ele se sentiu
culpado.
– Era, mas já fiz tantas coisas
proibidas...
Ao ouvir a confirmação, sentiu o
estômago revirar, o sangue ferver.
– É mesmo?
– É – disse, ruborizada. – Mas nunca
dancei. Posso deixá-lo constrangido.
– Você é a mulher mais bonita do
baile. Mesmo que pise no meu pé, não
vou ficar constrangido.
O rubor se espalhou por seu rosto, os
olhos escuros cintilaram. Ela gostou da
atenção, do elogio. Ele pousou o
polegar na sua maçã do rosto.
– Sabia que é linda?
– Nunca pensei muito nisso. Quero
dizer, passei a pensar depois que
conheci você.
Renzo a abraçou e a levou para a
pista. Passou o braço por sua cintura e
segurou sua mão.
– De forma positiva, espero.
Ela baixou os olhos.
– Encontrar você me fez pensar um
bocado sobre as pessoas.
– Não sei se entendi.
Esther o acompanhou, enquanto ele
guiava os passos ao ritmo da música,
mas manteve os olhos baixos.
– Pessoas em geral, homens,
mulheres. – Ao erguer os olhos
sinceros, inocentes, ele sentiu um baque
no coração. – Em como somos
diferentes. Minha beleza nunca teve
importância até que eu desejasse que
você notasse. E, desde então, passei a
me perguntar se sou bonita e se tenho o
tipo de beleza que o atrai. É meio
esquisito. Nunca perdi tempo pensando
na minha aparência. Fui ensinada a
considerar a vaidade um defeito. – Ela
balançou a cabeça, o cabelo escuro
roçando nos ombros dele. – De certa
maneira, é muito libertador. Se a
vaidade é um defeito, então basta
afastar qualquer pensamento sobre a
aparência. Nem você nem ninguém ao
seu redor dá importância a isso. Mas o
resto do mundo não pensa assim.
– Infelizmente não.
– Acho que essa é outra característica
do modo como fui criada que não é tão
ruim. Porque agora eu me preocupo
com o caimento do vestido, com o que
você acha... Mas se achar bonita não é
tão ruim. E quando você me elogia...
– Você gosta.
– Gosto.
Ele sentiu uma contração no
estômago e abriu um sorriso. Estava a
um passo de tê-la na palma da mão. De
acariciar aquela pele deslumbrante.
– Criatura vaidosa – disse, com um
tom de frivolidade na voz.
– Isso é ruim? – perguntou hesitante.
– Acho encantador. Mas preciso
perguntar: o que pensa de mim?
Comentou que tem pensado em nossas
diferenças.
O leve tom rosado do rosto virou
escarlate.
– Que bobagem. Não quer saber.
– Posso garantir que sim.
Ele examinou os lábios carnudos, as
maçãs proeminentes do rosto e os cílios
escuros. Ela era o típico exemplo da
beleza feminina, apesar da inocência.
Até que ponto?
– Você é muito grande... – Piscou. –
Eu sou pequena. Tenho a sensação de
que poderia me dominar se quisesse,
mas, apesar disso, nunca se comportou
assim. E isso demonstra uma força
incrível. Às vezes, me sinto em perigo
ao seu lado, embora saiba que não vai
me machucar. Não sei como descrever,
mas, às vezes, penso nisso e estremeço.
Ele tomou uma atitude inesperada.
Soltou sua mão, passou as pontas dos
dedos no braço dela e apoiou o polegar
na sua garganta, enquanto curvava os
outros dedos no seu pescoço. Talvez
para demonstrar poder.
Ele sentiu a pulsação acelerar e
reverberar no seu próprio corpo.
– E o que mais? – perguntou,
mantendo a voz suave e o toque firme.
– Você é muito... duro.
– Sou? – perguntou, baixando a voz.
Ela não fazia ideia. Ficava mais duro
a cada segundo. Estranho; o flerte
infantil que nunca supusera ser do seu
agrado, acrescentava lenha na fogueira
da sua determinação.
– É – disse, tomando uma atitude
absolutamente inesperada. Com a mão
livre, pressionou seu peito e desceu a
palma da mão até sua barriga. – Muito
mais que eu.
– Parece que você pode se beneficiar
da chance de explorar isso.
Ela perdeu o ar.
– Não.
Ele segurou o pulso dela e pressionou
a mão contra seu peito.
– Eu quero você.
Renzo a queria. Precisava dela. E não
apenas porque precisava casar com ela e
mantê-la ao seu lado. Mas porque
precisava que algo pusesse fim à dor
infinita que carregava havia 16 anos.
Ela arregalou os olhos inocentes.
– Me quer... para quê?
Ele a apertou contra o peito e
pressionou os lábios no ouvido dela.
– Quero você nua – disse, sentindo-a
ficar arrepiada. – Quero tirar sua roupa
e deitar você na minha cama. E depois
quero acariciar cada milímetro do seu
corpo. E saborear você.
Ele mal reconheceu a voz rouca,
áspera. Havia perdido o controle.
Esther tremeu dos pés à cabeça.
– Não, não quer.
– Claro que quero. Já disse que você
é linda. Falo sério.
– Mas isso não significa... – As maçãs
do rosto pareciam pegar fogo. – Você
pode ter outras mulheres. Não tem
nenhuma obrigação comigo. Podemos
estar noivos publicamente, mas
sabemos que na intimidade...
– Claro que não posso ser visto com
outra mulher a não ser com você, mas
não é essa a questão. É você que quero.
Você, Esther Abbott, e mais ninguém.
– Mas não sou... Não sei... Você não
pode. Não comigo.
O sangue fervilhou ainda mais, e ele
se surpreendeu com a força de sua
convicção. Misturado ao desejo de ter
os filhos, à vontade de lhes
proporcionar a melhor vida possível e à
crença de que precisava de Esther para
isso, havia mais. Não seria um sacrifício
convencê-la de que a desejava. Era a
pura verdade.
– Com você, sim. Adoro sua pele.
Quero saber se ela é lisa e macia em
todo o seu corpo. – Passou o dedo em
seu braço desencadeando novo tremor.
– Adoro sua boca. – Contornou-lhe a
boca com o dedo e a maciez o excitou.
A sedução exercia um efeito maior do
que o pretendido. Tratava-se de atingir
seu objetivo: enfiar-se entre as lindas
coxas à noite. Mas era difícil se
concentrar quando a luxúria pulsava
como um tambor.
– Adoro suas mãos – disse, curvando
os dedos em seu pulso e acariciando-lhe
a palma da mão devagar. – Quero sentir
suas mãos no meu corpo inteirinho.
Tem razão, eu poderia ter outra
mulher. Já tive. Não dá nem para
contar, não vou mentir. Mas não as
quero agora. Não poderia. – A
sinceridade de suas palavras o
surpreendeu. Não era apenas uma
declaração premeditada. A estranha
criatura diante dele o enfeitiçara.
Ridículo! Todos os dias, ao sair do
escritório, a caminho de casa, passava
por uma livraria e comprava um livro
porque se lembrava dela. Ela tinha sede
de conhecimento e ele a incentivava.
Dio, hoje à noite, lhe ensinaria um
bocado.
– Sua imagem me persegue –
murmurou, esquecendo os elogios
decorados e mergulhando no seu lado
mais sombrio, onde mal conseguia
enxergar um palmo diante do nariz,
muito menos adivinhar o que sairia da
sua boca. – Invade meus sonhos, e toda
vez que me deito perco o sono
pensando em você.
O corpo de Esther tremia feito uma
folha ao vento, e ele se sentia
triunfante. A mente oca só pensava nos
próximos momentos.
Ela aceitaria. Não havia outra
alternativa.
Ela se afastou ligeiramente, e ele
achou ter ido longe demais. Talvez
tivesse demonstrado muita intensidade,
ou sido muito sincero.
Então tomou uma decisão.
Agarrou-lhe o braço, a puxou e a
beijou. Manteve-a presa em seus
braços.
Já a beijara. Mas não assim. Esse
beijo não era apenas para exibir a
intimidade aos outros ou às câmeras. E
não terminaria ali.
Era um começo. Uma promessa. Um
beijo precursor do que estava por vir.
Enquanto mexia a língua dentro da
boca macia e quente, sentiu Esther
estremecer e ouviu o gemido. Vencera a
batalha. Se podia fazer com que ela se
comportasse assim na frente de tanta
gente, não resistiria quando estivessem
a sós.
O pai de Renzo ficaria furioso, pois
ele não aproveitara a oportunidade para
obter novos negócios, como prometera.
Mas seu pai não fazia ideia da outra
guerra que enfrentava. A guerra para
manter Esther perto, a guerra para
defender a família que já crescia dentro
dela.
Foi necessária toda a força de
vontade para se afastar. Para não a
arrastar para o quarto mas próximo,
levantar seu vestido e possuí-la ali
mesmo. Mas isso só serviria à causa do
seu desejo. Não serviria à causa da
sedução.
Duvidou que Esther já tivesse sido
possuída encostada na parede de um
lugar público. E duvidou também que
ela considerasse isso romântico.
Por mais que seu corpo não se
importasse, o cérebro funcionava.
Virou-se e viu a filha conversando com
as amigas, sem notar o que acontecia
com ele. E por que notaria? Ignorava a
sua existência. A realidade o atingiu
com violência.
– Vamos – disse.
Esther hesitou.
– Ficamos muito pouco tempo.
Viemos de Roma por causa desse baile.
Renzo deu uma gargalhada.
– Não, cara. Vim até Nova York por
sua causa. Para a seduzir. Para a
possuir.
Ela pareceu chocada com a
declaração. Os olhos escuros
demonstraram espanto.
– Podia ter me possuído em Roma –
conseguiu pronunciar num sussurro.
– Vou possuir você aqui – disse,
passando o polegar no lábio inferior
inchado. – Com essa cidade como pano
de fundo, naquela cama enorme do
hotel maravilhoso. Nesse lugar em que
você nunca esteve, onde nenhum
homem a possuiu. Juro que nunca se
esquecerá.
Hesitante, Esther desviou o olhar
como se estivesse prestes a dizer algo.
Porém, apenas balançou a cabeça e
segurou sua mão.
CAPÍTULO 10

HAVIA ALGO selvagem dentro de


Esther. E isso sempre a assustara. Desde
a primeira vez que suspeitara disso.
Claro, essa coisa selvagem a inspirara a
se rebelar contra a família. A romper as
regras severas de sua criação para partir
em busca do novo.
A levara a ser expulsa de casa.
Mas, mesmo ao partir, torcia para
conseguir assumir o controle dessa coisa
selvagem. Nunca imaginara que soltaria
as rédeas.
Dissera a si mesma que não ficaria
com ninguém, pois buscava a liberdade.
Dissera a si mesma que não precisava se
enfeitar, pois tinha um mundo a
descobrir, e pouco se importava com o
que achassem da sua aparência.
Mas havia mais. Esse mais sempre
temido. De que tão logo conhecesse um
homem bonito e ele a tocasse, ela
estaria perdida. Porque aquela coisa
selvagem dentro dela não queria apenas
se saciar com a beleza do mundo, com
sabores diferentes.
Queria ser saciada pela satisfação
carnal, pela sensualidade. Ansiava pela
carícia das mãos de um homem em sua
pele nua. Ansiava pelos lábios quentes
colados aos seus, no seu pescoço, e mais
embaixo.
Renzo arrancara sua máscara. Ele a
expusera. Não para ele; tinha a
sensação de que ficara exposta desde
que o vira. O fato de a ter exposto para
si mesma era o mais assustador.
Mas não recuaria. Não havia como.
Não agora quando tinha consciência de
que ela também o desejava com um
entusiasmo incapaz de ser negado.
Tampouco queria negar seu
entusiasmo.
Mas depois teriam de conversar.
Outro dia. Não queria dizer nada que o
fizesse mudar de ideia. Tinha a
sensação de que ele suspeitava de sua
falta de experiência, mas, quando disse
que queria possuí-la numa cidade onde
nenhum homem a tivesse possuído, ela
imaginou que talvez ele não tivesse
noção do quanto ela era inexperiente.
Talvez não imaginasse ter sido o
primeiro a beijá-la. Nem, com certeza, o
primeiro a...
Esther sentiu um arrepio quando a
limusine parou na porta do hotel. Podia
rejeitá-lo. E ele não forçaria a barra.
Lembrou-se do beijo avassalador no
salão cheio. Tinha sido mais do que um
beijo. Ela assistira o controle ser
consumido pelo fogo da atração entre
eles.
Engoliu em seco, fitando as linhas
marcadas do rosto ainda mais
intimidante. Tinha certeza de que, caso
pedisse, ele pararia.
Claro que sim. Era um homem, não
um monstro. Apesar de não o
reconhecer. Vislumbrava uma
intensidade nunca antes testemunhada.
Um misto de desespero, de fome. As
sensações, refletidas nas dele, ardiam
com mais paixão.
Ele não a tocou enquanto subiam até
o apartamento. Por um segundo, ela
receou que, dispondo de tempo para
pensar, a paixão abrasadora dentro dela
começasse a esfriar.
O efeito foi contrário. Ela mal
conseguia respirar de tanto desejo.
Os segundos no elevador se
estenderam, apertaram seu pescoço,
contraíram sua garganta. Uma vez
aberta a porta, ela deixou escapar um
suspiro de alívio.
Ele não a tocou até abrir a porta do
apartamento. Quando a segurou pela
cintura para que ela entrasse, o toque
da mão através do fino tecido do
vestido chegou a arder.
E, quando ele fechou a porta, ela se
aproximou e o beijou. Não queria que
ele mudasse de ideia. Não o queria
curado da loucura. Beijou-o com a fúria
de um desesperado em busca de
satisfação.
Começou a desfazer o nó da gravata,
os dedos desajeitados desabotoando a
camisa.
– Calma! – advertiu ele em voz baixa.
– Não – disse ela entre os beijos,
agarrando aflita a camisa. – Não –
repetiu –, não posso.
Ele a segurou pelos pulsos com força.
– Não temos pressa – avisou, roçando
de leve o rosto no seu. Apesar de ser
um contato bem mais inócuo do que o
beijo, a afetou da mesma maneira. –
Certas coisas são mais gostosas devagar.
Devagar? Ela sentia existir dentro
dela uma criatura selvagem em busca
de libertação e ele falava em ir com
calma? Esperara 23 anos por esse
instante. Com um homem como
aquele. E agora, com a satisfação tão
perto, ele queria ir com calma?
Esther não pretendia esperar.
A constatação a surpreendeu,
sobretudo depois do leve ataque de
nervos antes de ir para o hotel.
O que ela dissera na pista de dança
era verdade. Sua força de vontade, seu
controle, quando ela tinha consciência
de que ele poderia dominá-la, eram
poderosos afrodisíacos.
– Não quero devagar – declarou
encostando-se nele.
Ele a segurou com força e a impediu
de beijá-lo.
– Espere – ordenou em tom firme.
Ele segurou seus dois pulsos com
uma das mãos e com a mão livre desceu
devagar o zíper. O vestido deslizou e a
deixou só de calcinha de renda.
Como no dia em que ela
experimentava as roupas novas. E, ao
mesmo tempo, totalmente diferente. Da
primeira vez, estava de costas para ele,
e, embora sentisse o olhar, não tinha
visto a expressão de seu rosto. Mas
agora via.
Via o desejo, a intensidade de
predador faiscando nos olhos escuros.
Ele a observou com calma, cravando os
olhos nos seios.
Os mamilos intumesceram. Os seios
incharam. Ela sentiu uma ardência
entre as coxas, ficou molhada, a
excitação aumentando a níveis
estratosféricos.
– Está vendo? – perguntou ele com
olhar experiente. – Devagar vai ser
melhor para você. Não sei que tipo de
experiências teve, mas imagino o tipo
de homem que se aproxima de
mulheres viajando sozinhas e
hospedadas em albergues. Imagino
como deva ser fazer sexo às pressas em
lugares sem privacidade. Mas temos a
noite inteira, este quarto, uma cama
enorme. E tem a mim. Não sou homem
de me precipitar para satisfazer meus
vícios, cara mia. Pelo contrário, me
entrego a eles sem pressa.
– Eu sou um vício? – perguntou, a
voz trêmula.
– Da melhor espécie.
Ele se inclinou, arranhou seu queixo
com os dentes e deu-lhe um beijinho
suave antes de morder com força seu
lábio. A sensação a desnorteou, de
modo nada desagradável.
Renzo apertou os pulsos com mais
força, reafirmando o controle enquanto
lambia o pescoço com a ponta da
língua. Os mamilos ficaram mais
enrijecidos, implorando por atenção.
Ela sabia o que desejava, mas ficou com
vergonha de pedir. Nem sabia ao certo
se seria razoável querer tal coisa.
Por sorte, ele parecia capaz de ler
seus pensamentos.
Contornou o mamilo com a língua
antes de sugá-lo. De pronto uma
intensa excitação se espalhou pelo
corpo. Ela tentou se desvencilhar,
ansiosa por agarrar alguma coisa em vez
de ficar ali parada, indefesa, os pulsos
presos.
Se ele notou, não reagiu. Caso tenha
se irritado, não demonstrou. Continuou
a explorar seu corpo. Voltou a atenção
para o outro seio e repetiu os gestos.
Cada milímetro de sua pele ficou
sensível, real e irreal ao mesmo tempo.
Por um lado, teve a sensação que
saiu do corpo e de que assistia à cena,
como se o que acontecesse fosse com
outra pessoa, pois não podia admitir ser
com ela. Era mais seguro assim. A
alternativa era estar na própria pele,
dominada pelo desejo.
Então ele a soltou e puxou seus
quadris contra si antes de lhe agarrar o
traseiro e enfiar os dedos por baixo da
renda e segurar a carne nua.
Ela deixou de se sentir dividida, de
apenas observar a cena. Fazia parte
dela, e todas as sensações eram
avassaladoras. O vazio dentro dela
intenso como um corte a faca,
rasgando-lhe a pele e liberando uma
torrente de desejo.
Ele a apertou e a puxou para lhe
permitir sentir a evidência do seu
desejo por ela. Ele era tão grande, tão
duro, tudo com que nunca fora sequer
capaz de fantasiar. Era aterrorizante,
apesar de ser a concretização do desejo
dela.
Porque ela não sabia como agir. Mas
tinha a sensação de estar prestes a
descobrir.
Muito, muito devagar, ele desceu a
calcinha até seus pés. Então, ajoelhou e
tirou suas sandálias como já fizera
antes.
Só que, dessa vez, quando terminou
e ergueu o rosto, ela tinha consciência
de que não havia barreiras entre seu
corpo e o olhar dele. Ficou toda
arrepiada, a um só tempo deslumbrada
e envergonhada por ser o centro de sua
atenção.
Ele agarrou suas pernas e subiu as
mãos com firmeza até suas coxas
admirando o corpo exposto. Ela juntou
os joelhos, como se isso a possibilitasse
esconder-se dele. Como se isso ajudasse
a interromper o desejo latejante.
Ele a olhou com um sorriso nos
lábios. Por instinto, ela tentou se
afastar, mas sem êxito. Então ele se
inclinou e pressionou os lábios quentes
no osso do seu quadril. Surpresa, Esther
se sobressaltou.
– Não se preocupe, cara – disse,
traçando uma suave linha em diagonal
com a ponta da língua. – Vou cuidar de
você.
Com certeza isso era pecaminoso, foi
o pensamento predominante quando
ele moveu a língua quente e molhada
até chegar ao seu sexo. Isso era o ápice
de sua rebeldia.
Ele a segurou com firmeza, as pontas
dos dedos apertando a pele macia do
traseiro enquanto deslizava a língua em
suas dobras uma, duas vezes, emitindo
um ruído surdo de aprovação.
Ela parou de se preocupar se isso era
errado, se agiam mal. Nada lhe
importava, exceto as sensações
deliciosas que ele lhe proporcionava.
Arrepiou-se quando a língua voltou a
passar sobre o feixe de nervos,
estabelecendo um ritmo que ela julgou
que a deixaria em pedaços.
Segurou seus ombros e não o
empurrou. Ao contrário, o puxou
enquanto ele a fazia perder o controle a
cada lambida. Enquanto a reduzia a
puro choque e desejo. O desejo venceu.
E, se era chocante, se era algo
escandaloso, só contribuiu para tornar
tudo ainda mais delicioso.
Porque seu sombrio segredo viera à
tona. Aquela parte recôndita mais
temida. Sempre receara não conseguir
ser quem os pais gostariam que fosse,
por mais que o pai gritasse e a
repreendesse. Por mais que tentassem
controlá-la. E agora provava estar certa.
Iniciara essa jornada havia mais de um
ano, e esse era o fim previsível.
Mas não lhe parecia um desastre, e
sim um triunfo.
De repente, ele mudou de posição.
Entrelaçando as coxas em volta de seus
quadris, a segurou pela cintura,
mantendo a outra mão plantada no
traseiro enquanto se levantava,
mantendo os corpos colados.
Atravessou a sala principal na direção
de um dos quartos.
Ela se agarrou aos ombros dele,
tremendo ao sentir a respiração quente
na pele. A expectativa e a comoção a
invadiam com uma força sobrenatural.
Quando chegaram ao quarto, ele a
sentou na beirada da cama e se
ajoelhou de novo, agarrando-lhe os
quadris e a puxando ao encontro de sua
boca. Colocou as pernas nos seus
ombros. Os calcanhares de Esther
comprimiam as omoplatas de Renzo
enquanto ele a saboreava, desta vez
usando também os dedos. Enfiou um
deles. A invasão a deixou ofegante.
Mas qualquer desconforto foi
apagado quando ele a lambeu, língua e
dedo no mesmo ritmo, até adicionar
outro dedo, levando-a a um êxtase
jamais imaginado. Aproximava-se de
um destino desconhecido. Só conhecia
a necessidade, mas tampouco sabia do
que necessitava.
Ele acelerou o ritmo, a pressão, e ela
esqueceu de respirar, de pensar. Tapou
os olhos com um dos braços e
acompanhou o ritmo com os quadris,
pouco se importando se agia mal. Pouco
se importando se deveria ficar
envergonhada. Não se importava com
nada, a não ser em satisfazer a incrível
necessidade. Ela lhe daria tudo, a
liberdade, o que ele bem entendesse,
desde que ele – o detentor do poder – a
satisfizesse.
De repente, a tensão pulsante
explodiu, estilhaçou como vidro, mais
aguda do que tudo que ela conhecia.
Enquanto ela estremecia, ele
continuou a lambê-la com calma,
satisfazendo-se quando ela foi assaltada
pela comoção da própria satisfação.
– Renzo – disse, insegura, trêmula. –
Preciso...
– Vou dar o que precisa. Paciência.
Ela nem fazia ideia do que precisava.
Achava não precisar de nada além do
que ele já lhe proporcionara.
Entretanto, sentia falta de algo cuja
satisfação completa só ocorreria quando
o tivesse – inteiro – dentro dela.
Mas ele se levantou, começou a
desabotoar devagar a camisa, revelando
pouco a pouco mais um pedacinho da
pele dourada, dos músculos trincados e
do pelo escuro.
Ela queria tocá-lo. Prová-lo. Não
conseguia se mover. A garganta
ressecou ao observá-lo tirar devagar a
roupa, desnudando o corpo com
enlouquecedora e metódica lentidão.
Quando ele segurou a fivela do cinto,
ela congelou.
Nunca tinha visto um homem nu.
Não sabia se devia se alegrar ou se
lamentar pela falta de experiência.
Umedeceu os lábios, sem desviar a
atenção, enquanto ele abria devagar o
zíper. Ele desceu a calça pelos quadris
estreitos – e as cuecas junto – revelando
ao olhar famigerado cada milímetro de
sua masculinidade.
Esther sentiu um frio no estômago,
misto de desejo e de medo virginal.
Tentou se acalmar, pensar na ânsia
por novas experiências. Nada
funcionou. Ele não era apenas uma
experiência nova. Ela não fazia sexo
apenas por fazer. Ela o desejava. Apesar
do nervosismo, o desejava mais do que
já desejara o que quer que fosse na
vida.
Era aterrorizante desejar tanto
alguém apesar do medo e da dúvida.
Saber que a história podia acabar mal e
não dar a mínima. Tudo isso era
também fascinante: a melhor razão para
fazer o que nunca sequer imaginara.
Afinal, não exercia o controle. Não lhe
restava opção.
– Não precisa ter medo. Fiz vários
testes pós-Ashley. E desde então não saí
com ninguém.
– Está bem – disse, sem entender
direito o que ele dizia.
– Ótimo.
Renzo foi para a cama e colocou a
mão na cabeça dela e a desceu aberta
até a coxa, depois subindo até a cintura,
seu seio. Ele o segurou e acariciou o
mamilo com o polegar. Ela soluçou,
arqueou o corpo, chocada com a
violência do próprio desejo mesmo
depois de acabar de ter um orgasmo.
Enquanto a beijava, ele se acomodou
entre as suas coxas, a ponta da ereção
pressionando a entrada entrevista. Num
convite, ela inclinou a cabeça para trás.
Esther o desejava. Não havia qualquer
dúvida.
Mas se tivesse medo? Fazia parte.
Sacrificava tudo no altar. Ela lhe dava
seu medo, seu corpo, sua virgindade.
Por isso, fazer amor com ele era
importante. Imenso. E essa imensidão a
fazia entregar-se por inteiro.
Jamais seria a mesma. Encontrou os
olhos dele ao tomar plena consciência
do fato, enquanto Renzo começava a
penetrá-la. A gravidade da situação a
invadiu quando ele a penetrou,
acompanhada de uma dor breve e
aguda.
Ela acariciou o rosto dele, incapaz de
afastar os olhos. Ele estava... dentro
dela. Fazia parte dela. Estavam unidos.
E sabia que isso mudava tudo. Sabia
que aquela não era uma experiência
banal. Para ela, sexo sempre seria
profundo assim, algo que ecoava dentro
dela e ressoava em sua alma.
Ele moveu os quadris e ela viu
estrelas quando a penetrou mais fundo,
encostando no sensível feixe de nervos.
Esther agarrou-lhe os ombros quando
ele estabeleceu um ritmo constante,
levando-os às alturas. A respiração dele,
ofegante e irregular, compunha a trilha
sonora do desejo de Esther.
Saber que ele estava perto do ápice e
tão excitado quanto ela, a estimulou
ainda mais. Como se fosse possível.
Impossível pensar que era capaz de
conter em si tanto desejo, e uma parte
tão grande dele. Ela se decomporia se
não atingisse logo o orgasmo; ao mesmo
tempo, não queria alcançá-lo. Queria
ficar assim, pousada à beira da dor e
perto de alguém como nunca antes.
Desceu as mãos, as pontas dos dedos
escorregando sobre os músculos,
sentindo sua força enquanto ele investia
cada vez com mais força. Ela adorou a
sensação que a consumia por inteiro, e
mesmo assim não bastava.
Isso era a vida. Desprotegida. Nua e
crua, intensa, e tão perigosa como
haviam lhe prevenido.
Mas era real como nunca antes.
Ele rugiu, e esse som, essa
demonstração de intensidade, a levou a
um orgasmo mais intenso que o
anterior.
Continuou agarrada quando ele se
retesou e relaxou, os músculos trêmulos
enquanto gozava. Embora tivesse sido
incrível chegar ao clímax com ele, o
orgasmo dele a emocionou. Ver aquele
homem gigantesco, muito mais
experiente, que parecia feito de pedra,
arrepiar-se e desabar sobre seu corpo,
dentro do seu corpo... Fazê-lo perder o
controle era uma experiência
modificadora.
Não teria sido assim, caso ele fosse
diferente. Se fosse um homem fácil,
adaptado.
Então ela seria apenas mais um
elemento. Contudo, sendo ele quem
era, Esther se sentiu diferente,
importante. Movera uma montanha
que até poucas horas antes parecia uma
tarefa impossível.
Ele era diferente do seu pai, que a
controlava por medo do que ela podia
se transformar. Será que Renzo
controlava a todos por medo de si
próprio?
Essa, supostamente, era a diferença
entre quem agia por fraqueza e alguém
como Renzo, que agia por ter sido
obrigado a ser forte.
Esse pensamento lhe viera à mente
sem explicação. Sempre o achara tão
perfeito e lindo quanto ele aparentava.
Talvez por tê-lo visto desabar. Assim
como ela.
Renzo sentou-se e passou a mão no
cabelo escuro.
– Você devia ter me contado que era
virgem.
CAPÍTULO 11

– ACHEI QUE fosse evidente – disse,


sem saber onde ele queria chegar. –
Também achei que, levando em conta
os procedimentos na clínica de
fertilidade, não fosse evidente. Achei
que seria óbvio já que eu não sei beijar.
Ele balançou a cabeça.
– Muita gente transa sem saber o que
faz, Esther. A falta de experiência pode
demonstrar que a pessoa fez sexo com
homens que não sabiam ensinar direito.
– Bem, não tive nenhum. Dei várias
dicas sobre a maneira como fui criada...
De qualquer jeito, agora não faz mais
diferença. Está insinuando que não
teria feito amor comigo se soubesse?
– Não – retrucou com voz rouca.
– Então estamos discutindo à toa.
– Eu talvez fosse mais cuidadoso.
– Mais um motivo para não contar.
Porque... eu gostei.
Ele lhe lançou um olhar duro.
– Não sabe o que está dizendo.
Ela deu de ombros, sentindo-se de
repente miúda e nua.
– Talvez não.
– Explique melhor.
Ela sentou-se, puxou os lençóis e se
cobriu.
– Não me sinto inspirada para
compartilhar meus sentimentos.
– Quero entender você – disse,
decidindo ser a maneira correta de
discutir o assunto. – Fale tudo de você.
– Se prestasse mais atenção, teria
deduzido que nunca tive ninguém.
– Imaginei que fizesse parte de seus
planos conhecer alguém. Viajar como
mochileira e se hospedar em albergues
em geral leva a transas casuais.
Ela aproximou os joelhos do peito.
– Sabe disso por experiência própria?
– Todo mundo sabe, não é segredo
para ninguém.
– Está bem. Acho que é nessa hora
que conto que não sou como as outras.
– Riu. – Quero dizer, é evidente. O que
não é mentira, mas também não é
verdade. Fui criada numa comunidade.
Fez-se o silêncio.
– Fui criada para não fazer essas
coisas.
– Quer dizer que foi educada num
culto?
– Mais ou menos. Não tínhamos
permissão para assistir TV e ouvir rádio.
Nada de cultura ou música popular.
Não aprendia nada que a minha família
e os líderes da comunidade não
autorizassem.
– Agora você começa a fazer mais
sentido. – O modo lento como falou,
como quem junta as peças de um
quebra-cabeças, podia ser engraçado,
caso ela não se sentisse uma esquisitice
em figura de gente.
– Imagino. – Respirou fundo. – Mas
eu nunca me encaixei. Comecei a me
rebelar. Em segredo, quando era
criança.
Ele a encarou.
– Quando alguém cresce dessa
maneira, sem contato com o mundo
exterior, o que a leva a se questionar
sobre o ambiente em que vive?
Ninguém jamais lhe perguntara isso.
Em geral, a grande maioria não queria
falar a respeito do seu passado por puro
constrangimento. Outros perguntavam
se ela tinha sido prometida em
casamento desde criança ou se raspava
a cabeça.
– Não sei. Só sei que não me parecia
certo. Então comecei a colecionar
objetos. Perto da cidadezinha onde a
gente morava, tinha uma espécie de
caixa de correios para a troca de livros.
Eu costumava enfiá-los na bolsa
quando minha mãe estava distraída
fazendo compras. Aí eu os escondia no
bosque. Depois comecei a fazer a
mesma coisa com música. Era mais
difícil, porque quase não tinha
dinheiro. Mas juntei e comprei um
tocador de CD e alguns CDs.
– Não me parece uma rebeldia e
tanto.
– Para o resto das pessoas pode não
ser, mas foi para mim. E para o meu
pai. Meu irmão caçula me dedurou. Sei
que não foi por mal. Ele era uma peste.
– Balançou a cabeça tentando não cair
na gargalhada. – Ele encontrou meus
livros e meus CDS e mostrou à minha
mãe que, por sua vez, mostrou para o
meu pai. Ele disse que me daria uma
nova oportunidade se eu prometesse
nunca mais ler ou ouvir nada que ele
desaprovasse, ou... eu teria que ir
embora.
– E você não prometeu?
– Não. Então marcaram uma reunião
com todo mundo. Eu achava que... meu
pai me amava. Eu perguntei na frente
de todo mundo. Se ele me amava, como
podia me expulsar só porque eu gostava
de livros e de música diferentes? Só
porque eu era diferente? – Ela contraiu
a mão sobre o peito, tentando aplacar a
dor. – Mas ele disse que, se eu não
mudasse, não seria mais filha dele.
Disse isso na frente de todo mundo. E
ainda disse que isso era para o bem dos
outros. Que o amor verdadeiro exigia
que eu mudasse... Mas eu não
concordava. Achava que isso era
controle. E se ele não podia me
controlar, não me queria mais.
Apesar de ter consciência de que
nunca voltaria, apesar de nunca ter se
arrependido, doía do mesmo jeito. A
vida mudara para melhor porque fora
embora, mas não podia agradecer ao
pai por isso.
Porque a rejeição doía demais.
– Deve ter sofrido muito – disse, a
voz rouca.
– Sofri. Fiquei com pena de mim um
tempo, depois arrumei um trabalho
num restaurante, na cidade.
Economizei um ano. Fiz a prova
equivalente ao Enem, tirei o passaporte.
Fui para a Europa, comecei a trabalhar
e...
– E conheceu Ashley.
– E você. – As palavras saíram
deixando um gosto estranho na boca;
soaram estranhas. Encontrá-lo tivera
um significado muito importante. Ficar
com ele. Apesar de ter decidido fazer
sexo com ele, sabendo que não era
apenas uma experiência, ainda
processava as implicações disso.
– É – concordou ele num tom alegre.
– Você ganhou mais do que imaginou,
não é? – Havia um tom de meiguice, do
qual ela suspeitou. Basicamente porque
de meigo ele não tinha nada.
– Você é uma figura.
– Nós nos damos bem, não é?
– Em qual contexto? Quando, por
exemplo, você me chama de esquisita e
critica meu hábito de comer cereal
sentada no chão?
– Eu me referia à cama, mas esse é o
lugar em que mais tento me relacionar
com as mulheres.
Ela amarrou a cara.
– Não considero isso um elogio.
– Sou divorciado. Deve considerar
haver um motivo para isso.
– Bem, eu conheci a sua ex-mulher.
Então, para mim, não é surpresa não ter
dado certo. Devo confessar que me
perguntei algumas vezes o motivo de ter
se casado com ela.
– Porque ela era incompatível com os
padrões, um pesadelo.
– Não entendo.
– Imagine crescer numa casa de
moral rígida, e ser castigado toda vez
que se comportava mal ou desobedecia
aos seus pais.
– Sim, isso é fácil.
– Ashley foi meu castigo. – Ele deu
um riso amargo.
– Para quê?
Ele balançou a cabeça.
– Não importa. – Ela, contudo, tinha
a sensação de que isso era a coisa mais
importante. – Eu sabia que estava
condenado. No fundo, sempre soube.
Mas com você... sinto que talvez haja
alguma esperança.
De repente, ela sentiu um buraco no
estômago.
– O quê?
– Que tal tentarmos, Esther?
– Tentarmos o quê? – Não
raciocinava direito. Impossível refletir
ainda abalada pelo momento, o coração
batendo tão forte que ela mal ouvia o
próprio pensamento.
– Por que nos separarmos no final? –
Aproximou-se, e a carícia em seu rosto
a deixou entusiasmada, pois mostrava
uma conexão da qual sentia falta depois
de ter usufruído de tanta intimidade
com ele.
– Porque – disse, sem a menor
convicção –, essa não foi sua escolha.
Nem a minha. Estamos apenas
tentando resolver a situação da melhor
maneira possível. Claro que sentimos
atração um pelo outro, mas não faz
sentido começar se não podemos dar
continuidade.
– Isso é que não faz sentido para
mim. Por que não?
– Você sabe. Eu acabo de escapar de
uma existência cheia de restrições, na
qual eu não podia decidir quem era ou
o que desejava. Não posso fazer isso
comigo – disse, embora nem ela
acreditasse no que dizia. Em termos
racionais, era a decisão acertada.
Apreciava viver no mundo real, depois
de tanto tempo isolada.
E sabia o quanto era perigosa a
sensação de que tudo o que importava
se reduzia a este quarto de hotel. Ao
espaço entre os corpos nus e à vontade
de querer mais do que isso.
Era perigoso que sua expectativa em
relação ao futuro se tornasse
insignificante: onde a sua mão pousaria
a seguir, em que ponto do corpo seus
dedos a acariciariam.
Não; perigoso demais.
– Alguma coisa na sua vida comigo
foi restritiva? Eu a levei a mais lugares
do que poderia ir sozinha. Não precisa
servir mesas para sobreviver. Pode
dedicar seus dias ao estudo, e não há
motivo para não frequentar a
faculdade.
O que ele dizia era tão tentador. Tão
aparentemente claro e fácil naquele
momento. Uma vida na qual pudessem
viajar quando bem entendessem, na
qual poderia estudar. A única diferença
é que estaria com ele, e não via nisso
nada de negativo. Não agora, quando
seu corpo inteiro ansiava por uma
carícia.
– Mas não podemos começar algo
que não podemos... manter. Sei que
esses bebês não são meus. Aceitei o
acordo sabendo que teria que os
entregar depois do parto. Está tudo
bagunçado na minha cabeça. Não sei se
são os hormônios; só sei que, quanto
mais penso, mais difícil fica. E repito
que não vou conseguir. Mas sabe o que
realmente não posso? Não posso ser
mãe deles por um tempo e depois ir
embora. Ou fico firme na minha
intenção de não os criar, ou terei de
ficar com eles para sempre. – A simples
ideia de perdê-los doeu.
Era como se uma barragem houvesse
se rompido e as emoções a inundassem.
Pensamentos que jamais se permitira
invadiam sua mente. Como seria ver os
bebês quando nascessem? Será que os
pegaria no colo? Como se sentiria
quando estivessem em seus braços e
não em seu ventre?
Como seria entregá-los a Renzo e ir
embora para sempre?
Ou, ainda mais assustador, como
seria mantê-los para sempre? Tornar-se
mãe?
Tal pensamento a dilacerou. Parte
temia desesperadamente ter outra vida
humana sob seus cuidados. O que
sabia? Ela própria era praticamente uma
criança, ainda aprendendo sobre o
mundo, descobrindo tudo o que lhe
fora escondido por tanto tempo.
Mas havia outra parte... que ansiava
por uma ligação verdadeira. Por um
amor como jamais recebera. Seria a
chance de amar alguém
incondicionalmente. Uma chance de
ser correspondida.
Ergueu o rosto para Renzo. E pareceu
ter levado um tiro no coração. Porque
havia outra pessoa envolvida naquela
situação, e não apenas as crianças.
Então se deu conta de não ter certeza
do que ele propunha.
– Por acaso está sugerindo que eu
fique como... babá? Ou amante? Ou...
– Claro que como esposa, Esther.
Sentiu um frio no estômago.
– Quer casar comigo?
– Podemos dar uma família para
nossos filhos. Podemos ser uma família.
Cometi um erro terrível ao me casar
com Ashley. Eu estava com raiva do
mundo, não posso negar. Estava
tentando provar minha falta de valor.
Mas saber que vou ter dois filhos me faz
desejar provar o contrário. Quero
assumir a situação e torná-la
maravilhosa para todos.
Pela primeira vez, ela ouvia Renzo
expressar um sentimento daqueles. Mas
também era a primeira vez que haviam
feito sexo. Talvez isso também tivesse
mexido com ele. Quanto a ela, sabia
que mudara. Por completo. Por que o
mesmo não ocorreria com ele?
Mas não podia negligenciar um
ponto. Vivera em um lar sem amor, e
não tinha qualquer dúvida de que
jamais conseguiria viver assim de novo.
Ele lhe fazia promessas. Prometia a
liberdade, prometia a concretização de
seus sonhos.
Mas ela precisava saber se havia algo
por trás daquelas promessas. Se havia
alguma garantia. Algo que garantisse
que tudo não acabaria, como
acontecera entre ele e Ashley. Claro, ela
não era Ashley, mas ele era o mesmo
Renzo. E, apesar de gostar dele, e
muito, não o conhecia direito.
Seus impulsos obedeciam mais ao
instinto do que à lógica. Experimentara
uma vibração desde o momento em que
pusera os olhos nele pela primeira vez.
Talvez fosse algo biológico. Talvez algo
ligado ao fato de estar grávida dos filhos
dele.
Porém, teve a sensação de ser algo
mais profundo.
Gostaria que não fosse tão profundo.
Tudo seria mais simples. Podia avaliar a
situação com mais sangue-frio. Com o
tipo de distância necessária.
Ela não conseguia examinar a
situação de fora.
E precisava saber uma coisa. Porque
já aprendera algo importante. O
controle era destrutivo. Destruíra sua
mãe. Aniquilara a mulher vibrante e
cheia de vida e deixara em seu lugar
uma criatura deprimida e
desinteressante. Por pouco, a destruíra
também. Esther, contudo, encontrara
forças para lutar.
Caso voltasse a se encontrar de novo
na mesma situação, teria condições de
reagir, de se manter forte? Ou dessa vez
sairia alquebrada, desanimada?
Não. Não permitiria que isso
acontecesse. Portanto, precisava saber.
– Renzo – As palavras saíram tão logo
foram formuladas em sua mente –,
preciso saber uma coisa. Quero dizer,
eu preciso contar uma coisa. Tenho sido
muito feliz nessas últimas semanas. Eu
não esperava. Nem queria. Não queria
sentir nada por você nem pelas crianças.
Queria ser capaz de dar as costas e ir
embora. Agora acho que não
conseguiria. Só com muito esforço, e
não como eu pretendia. Não importam
minhas intenções, só sei que brotou
alguma coisa entre nós. Agora temos
uma ligação. Acho... que posso amar
você. E por isso hesito em aceitar o seu
pedido. Vivi num lar onde não era
amada, e não suportaria mais isso.
Então, preciso saber: você me ama? Ou
acha que pode me amar um dia?
Não houve hesitação. Ele se inclinou,
a beijou com toda a paixão ainda
existente entre eles, mesmo depois de
terem chegado ao orgasmo.
– Claro que amo – respondeu ele,
quando o beijo cessou, com olhar
intenso, tão impressionante quanto da
primeira vez em que se encontraram. –
Quero passar minha vida com você.
Aceite, Esther, por favor.
Ela o olhou e se deu conta de que
sempre daria a mesma resposta a
Renzo.
– Sim, aceito, Renzo. Quero me casar
com você.
CAPÍTULO 12

RENZO TOMOU um gole e, pela porta do


escritório aberta, olhou o corredor
escuro. Estava noivo de Esther. De
verdade.
E mentira para ela.
Em muitas e repetidas ocasiões,
empregara mentiras com o objetivo de
obter o que pretendia. Era uma
necessidade nos negócios, e, como todo
mundo agia assim, parecia
absolutamente aceitável. Ele tinha feito
o mesmo com Ashley. Desde casar-se
com ela no Canadá ao modo como
providenciara o acordo pré-nupcial.
Nunca essas mentiras lhe causaram
um pingo de culpa. Talvez porque a
sinceridade não o tivesse levado a lugar
nenhum. Independentemente do
raciocínio, agora se sentia culpado.
Culpado por mentir para Esther.
Mas ela não precisava saber. Não lhe
custara nada declarar seu amor. Não
teria a menor importância não amá-la.
Ela precisava ouvir isso, e era isso o que
importava.
Só que ela havia lhe contado sobre o
pai. Sobre o modo como a controlara.
Impossível não pensar em que diferia
do pai dela.
Lembrou-se do brilho de esperança
nos olhos escuros, e eliminou a onda de
emoção com outro gole de bebida.
Haviam regressado de Nova York
naquela manhã, e ele fizera o possível
para manter as mãos longe dela em
respeito à sua inexperiência. E, também,
porque até ele tinha limites. Acreditara
que deveria mantê-la despreocupada e
amada de modo a manter sua
aquiescência, mas sexo parecera...
desprezível mesmo para ele.
Entretanto, ela parecia feliz. Disposta
a manter a palavra.
E toda vez que ela o olhava com
evidente expressão de carinho, ele se
obrigava a manter o olhar. Evitava
desviá-lo.
Assim, a culpa criara raízes ainda
mais profundas.
Ao longo da vida, havia mentido a
respeito de inúmeras coisas. Mas nunca
sobre o amor. Nunca dissera a Ashley
nutrir sentimentos inexistentes. Jamais.
Que importância tinha isso? O amor
não significava nada. Arrancara as
raízes do amor em seu coração 16 anos
atrás ao abrir mão do direito à sua filha.
Desde então, perdera tudo. O direito
ao amor. O direito à felicidade. Até
mesmo o direito à raiva. Tomou outra
dose.
Bateu com o copo no bar e saiu do
escritório, as pernas o levando pelo
corredor na direção de Esther. Devia
manter a distância. Não tinha o direito
de tocá-la de novo. Entretanto, o faria.
De todas as coisas das quais não se
arrependia e que não faziam parte dessa
decepção, a principal era o fato de que a
possuiria. Ele a desejava. Queria mantê-
la por perto. Queria que ela vivesse sob
sua proteção, sob seu cuidado.
E em que você é diferente da família
da qual ela fugiu?
Ele era diferente. Iria lhe
proporcionar tudo de que ela precisava.
Tudo o que ela queria. Em
contrapartida, apresentariam ao mundo
um comovente retrato da família unida,
e os filhos teriam segurança. Ele
herdaria a empresa da família, e, em
consequência, seus filhos também. Se
agisse diferente, lhes roubaria tudo isso.
Nada errado com sua atitude. Ela
seria feliz com ele.
Todos seriam mais felizes graças à
sua decisão.
Ele cerrou o punho enquanto
atravessava o corredor, tentando
ignorar a intensa pressão no peito.
Lembrou-se de Esther ter comentado
alguma coisa sobre abrir mão. De como
tivera de abrir mão do passado para
poder avançar. Não sabia o motivo das
palavras ecoarem em sua mente
enquanto se dirigia ao quarto. Talvez
por ansiar por ela de novo. Talvez
porque naquele exato momento sentia
o peso daquilo. De tudo aquilo de que
não conseguia abrir mão.
Porque se abrisse, o que seria da sua
vida? Se esquecesse o que o constituía,
o que o abasteceria?
Afastou os pensamentos e enfrentou
a escuridão. A escuridão ao redor; a
escuridão dentro dele. E se perguntou,
não pela primeira vez, quais os
benefícios dos filhos crescerem num
lugar como aquele, com um homem
como ele.
Levou a mão à testa, lutando contra a
tensão que o dominava. Talvez tivesse
bebido demais. Era a única explicação
plausível. Tanto para a crise de
consciência quanto para o peso
opressivo que parecia assaltá-lo de
novo.
– Renzo?
A voz de Esther rompeu a escuridão.
Ele devia parecer o vilão, parado na
soleira da porta do quarto, iluminado
por trás pelo corredor na penumbra.
– O que foi? – perguntou ele.
– Venha para a cama comigo.
Esse simples convite, tão doce e
isento de qualquer exigência ou
motivação dissimulada, o atingiu com
ainda mais violência do que deveria,
considerando o quão profundamente
ele refletia sobre suas segundas
intenções. Mas ele os afastou. Assim
que começou a tirar a roupa. Tentara ao
máximo. Mantivera as mãos longe dela
acreditando assim agir como um
homem honrado, embora a
manipulasse com as palavras.
Ele não acalentava ilusões de honra.
Podia entregar-se a isso também. Tinha
se esquecido dos motivos de seu
comportamento.
Engoliu seco, tirou a camisa pela
cabeça e levou as mãos ao cinto.
– Eu amo você – disse ela, saindo de
debaixo das cobertas e sentando-se. Ele
trincou os dentes, tirou a calça e a cueca
e as largou no chão. Sentiu... frio. O
peito parecia envolto em gelo, o coração
mal batia.
Foi devagar para a cama, e apoiou o
joelho no colchão. Então se inclinou
sobre ela e espalmou as mãos uma de
cada lado, aprisionando-a.
– Eu também amo você – disse, o
coração frio ao pronunciar as palavras.
Ele a beijou e tudo ganhou vida.
Todo o gelo se derreteu sob o calor do
fogo existente entre eles.
De poucas coisas tinha certeza
naquele momento. De que ela era
inocente. De que ela merecia alguém
melhor que ele. De que ele mentia. E
de que, apesar disso tudo, ele a
possuiria de novo.
Esther passou as mãos em sua pele, e
o prazer que ela parecia encontrar em
explorar seu corpo alimentava ao
mesmo tempo sua libido e sua culpa.
Tudo aquilo era novo para ela. Nunca
tivera um amante antes. Nunca tinha
beijado um homem além dele, e ele
seria seu único amante. Sua sexualidade
seria propriedade única e exclusiva
dele, totalmente formada por ele.
Quando se tratava de técnica e
habilidade, supôs que ela podia ter
desempenho pior. Quanto a ele, sabia
que a satisfazia. Sabia que poderia lhe
dar o que desejava. Fisicamente. Em
termos emocionais, a troca sempre seria
desvantajosa para Esther.
Renzo afastou o pensamento. Nada
disso importava. Ela jamais saberia.
Enfiou os dedos no cabelo dele,
agarrando-lhe com força a cabeça
quando ele a beijava com mais
sofreguidão e deitava em cima ela. Ela
arqueou o corpo, um som agudo de
furor percorrendo seu corpo.
Então ele foi tomado pelo
autodesprezo. Estava dentro dela.
Premeditando, calculando cada
movimento. E ela era sincera. Generosa
com o corpo, com as carícias. Ela se
entregava. Esther conseguiu mudar de
posição e deitá-lo de costas.
– Esther.
Ela colocou a mão no centro de seu
peito, pedindo silêncio enquanto se
inclinava e beijava com suavidade seu
coração frio.
– Ah, deixe.
Ela moveu devagar, traçando uma
linha até o meio da sua barriga e
descendo até os lábios suaves roçarem a
ponta da sua ereção.
– Esther – disse ele, a voz mais dura
do que pretendia. Ele não merecia isso.
Não podia aceitar. Ela lhe dava seu
corpo dessa maneira por acreditar no
sentimento entre eles, mas isso era
falso. Ele era um maldito de sangue
relativamente frio, mas até Renzo tinha
seus limites.
Talvez não.
Porque quando ela entreabriu os
lábios e o envolveu no veludo quente
da boca, ele se descobriu incapaz de
protestar.
Ela o saboreou como se ele fosse uma
nova iguaria, degustando-o. Demorou-
se como nunca outra mulher demorara.
Parecia extrair prazer da nova
experiência. Era estranho sentir essa
intensa e profunda tentativa de conexão
vinda de alguém, quando estava tão
acostumado a manter todo o tempo
muitas barreiras.
E ainda estavam erguidas. Com
firmeza. Mas ela as testava.
Ele quis se afastar, mas não
conseguiu. Não por querer continuar a
manter a farsa, mas por incapacidade.
Esther o mantinha em transe, e ele
nada podia fazer a não ser entregar-se à
suave e maravilhosa tortura à qual era
submetido.
O fogo acendeu na região do baixo
ventre; estava a um passo de atingir o
clímax.
– Não – murmurou com respiração
ofegante. – Assim não.
Respirava com dificuldade; exercia
pouco controle sobre suas ações, sobre o
que quer que fosse. Envolvera-se num
jogo perigoso com ela. E a pior hipótese
possível seria encontrar-se em uma
posição em que começasse a esquecer
seus planos. Esquecer seu objetivo. O
relacionamento entre os dois não tinha
nada a ver com esses planos. Nunca
tivera.
Sem dúvida, desejava que ela ficasse
feliz. Mas isso era secundário. Assim
como ela. O ponto realmente essencial
era manter os filhos ao seu lado.
Manter a família unida, e Ashley
afastada. O único objetivo de fato
essencial era construir uma base sólida
pelo resto da vida.
Podia ser com Esther ou com
qualquer outra. Agiria da mesma
maneira com qualquer mulher
escolhida por Ashley para servir de
barriga de aluguel. Não podia esquecer
isso. Era imprescindível manter o foco.
Com um grunhido, ele a deitou de
costas, buscando com sofreguidão sua
boca enquanto testava com o sexo ereto
a entrada em seu corpo. Ela se
remexeu, arqueando o corpo,
preparando-se para a invasão. E então
ele a penetrou de uma só vez, como
quem chega em casa.
A mente se desligou de tudo. À
exceção da necessidade de atingir o
orgasmo. Da necessidade de ficar o
mais próximo possível dela. Tudo o que
acabara de repetir para si mesmo
evaporou-se numa nuvem de desejo.
Ele a agarrou pelos quadris enquanto se
movia e a penetrava, enquanto mudava
de ângulo e os dois gemiam de prazer.
Então ele perdeu o controle por
completo, e ficou grato quando ela
gemeu indicando ter chegado ao
orgasmo, os músculos internos
pulsando em torno do seu sexo, pois ele
havia perdido toda e qualquer
capacidade de segurar o próprio
orgasmo. E quando ele chegou, parecia
um furacão derrubando tudo, e o
deixou totalmente exausto e revirado.
Deitado, a desordem e os efeitos
colaterais causados pelo prazer
disputando espaço em suas veias, ele
teve a certeza de estar no olho do
furacão.
Afastou-se, tomado pela vergonha.
Fazia pouco mais de 16 anos que não
sentia tanto arrependimento. As
recordações se confundiam. O passado,
o presente, o futuro. E as justificativas
para o seu comportamento.
– Estou tão feliz – disse Esther. A
plena satisfação audível na voz o
abalou. Então agora ela estava em paz,
satisfeita, e ele... Ora, suas sensações
eram bem diferentes. Ele se sentia
totalmente destruído. E não entendia
direito o motivo. Atingira seu objetivo.
Garantira o futuro como pretendia.
Certificara-se de ter a custódia dos
filhos e uma vida familiar tranquila
como mereciam. Com a herança a que
tinham direito, pois, graças ao
casamento estável, o pai não dividiria as
empresas do grupo Valenti.
Quanto a isso, mostrava-se confiante.
Agira como devia. E ela estava feliz.
Portanto, não havia motivos para
inquietação.
– Que bom!
– Mas tem uma coisa me
incomodando.
– Algo ainda a incomoda? Se, mesmo
depois do orgasmo, algo ainda a
incomoda, vou precisar rever minha
opinião a seu respeito. Você é uma
mulher insaciável, Esther Abbott.
– Sou mesmo – disse, balançando
devagar a cabeça. O movimento mal era
percebido na penumbra. – Quero
experimentar o mundo inteiro. E quero
você ao meu lado todo o tempo. Isso é
ser um bocado insaciável, tem de
admitir.
– Eu já prometi isso, então não vejo
motivo para temer não ter tanto uma
coisa quanto outra.
– Agora eu quero mais.
Uma onda de raiva o desestabilizou.
– O que exatamente você quer, cara?
Quem sabe as joias da coroa? O que
acha que deveria ter e que eu neguei?
– Você – disse sem rodeios.
– Mas acabou de me ter. Na verdade,
acho que estou inutilizado por ter me
tido tão completamente.
– Não é a isso que me refiro. Tenho a
sensação de que você sempre estaria
disposto a me oferecer seu corpo. O
resto é que me parece difícil.
O peito, antes gelado, agora
fervilhou.
– Eu disse que a amo – repetiu,
seguro de que suas palavras poriam um
ponto final na discussão. – O que mais
pode querer?
– É maravilhoso ouvir essas palavras.
E gostaria que bastassem. Gostaria que
isso fosse tudo de que preciso. Mas, a
não ser que eu saiba o que se esconde
por trás dessas palavras, a não ser que
eu tenha certeza de que o amor tem o
mesmo significado para mim e para
você, como devo me sentir? Como
posso me sentir segura? O que existe
entre nós? Faz poucas semanas que nos
conhecemos. E eu sinto... Eu gosto
tanto de você. É verdade. Mas você
sabe de onde venho. E eu não sei nem a
metade do que você sabe a meu
respeito.
– Você jantou com a minha família.
Conheceu minha sobrinha. Conheceu
minha irmã. O que mais precisa saber?
– Alguma coisa a seu respeito. Você
disse que se casou com Ashley para se
punir. Para provar alguma coisa...
Provar que você era... de alguma
maneira mau. Quero compreender isso.
Você vive consumido pela raiva, Renzo.
E eu fiz o possível para ignorar, porque
nunca demonstrou raiva comigo. Mas
eu quero saber. Quero saber do que
tem raiva. Quero saber por que se casou
com ela. Por que se casar comigo vai ser
diferente. Por que seus sentimentos em
relação a mim são diferentes. Eu tenho
que saber ou então...
– Quer saber de quem tenho raiva? –
Ele saiu da cama e passou a mão no
cabelo. – Bem, cara, a resposta à sua
pergunta é muito simples.
– Então me diga. Me diga algo.
– De mim. Tenho raiva de mim.
CAPÍTULO 13

O RITMO do coração de Esther ainda se


normalizava depois do sexo, e ouvir
aquelas palavras da boca de Renzo o
colocou em marcha acelerada de novo.
Não sabia ao certo o que esperava, ao
pedir que ele falasse alguma coisa de si.
Alguma recusa, supôs. Porque Renzo
era uma porta trancada a sete chaves, e
ela imaginou que teria de chutá-la mais
de uma vez para arrombá-la.
E também por desconfiança. Ela
começara a ficar cada vez mais
desconfiada, desde que tinham ficado
juntos em Nova York. Desconfiava
haver algo por trás das palavras de
Renzo. Desconfiava de sua sinceridade.
Talvez não fosse tão sincero ou aberto
quanto aparentava na ocasião.
Ela era ingênua. Quanto a isso, não
tinha dúvidas. Sua experiência com
homens e relacionamentos amorosos
era nula, e sabia ser perfeitamente
possível que seus sentimentos tivessem
vindo à tona pelo fato de terem feito
amor.
Mas a verdade é que ele não
encostara nela entre aquela primeira
noite e hoje. Se mostrara muito mais
cuidadoso do que ela gostaria. Ele lhe
dera mais espaço do que ela jamais
solicitaria.
E, durante todo esse período, os
sentimentos afetuosos em seu coração
não diminuíram. De fato, apenas se
tornaram mais intensos. Sabia que havia
mil motivos para acreditar que seu
amor por ele não era verdadeiro.
Contudo, apesar dos mil motivos, ela
tinha certeza absoluta de que seu amor
era verdadeiro.
Ela apenas desejava que o dele
também o fosse. Precisava ter certeza.
Precisava saber. E, para tanto, precisava
conhecê-lo.
– Por quê? Por que está com raiva de
você mesmo?
– Sempre fui um playboy. Acho que
esse é um ótimo começo. Houve uma
época em que eu fui muito sincero e
acreditei estar perdidamente
apaixonado. Embora, talvez, eu não
demonstrasse meu amor da maneira
adequada. Mas quero que saiba que
nunca saí com a mulher de outro
homem por pura diversão.
O coração de Esther apertou tanto
que chegou a doer. A esposa de outro
homem? Dos ensinamentos recebidos
durante sua formação, não se lembrava
de outro pecado mais grave. O
casamento era sagrado. E a esposa
pertencia ao marido. Quer dizer, as
mulheres não eram propriedade de
ninguém, nem mesmo do marido.
Apesar disso, os votos do matrimônio
eram sagrados.
– Ah, Renzo... Você...
– Não tenho motivos para me
orgulhar. Mas, afinal, a maioria das
histórias originais causa vergonha. Os
homens não são criaturas honradas, e
você precisa saber que o início da
minha vida também não primava pela
honradez.
– Não diga isso. Você é um homem
honrado. Claro que é. Basta ver seu
empenho em dar uma vida digna a seus
filhos.
– De fato – comentou em tom
impassível. – Mas tem de entender que
essa necessidade não surgiu do nada.
Ela tem sua origem. Tudo é criado. A
partir de um acontecimento definidor.
Alguma coisa que acaba por alterar o
comportamento muda o ser humano de
um modo específico. Você entende ao
que me refiro.
– Entendo – confirmou, pensando na
família.
– Meus pais se preocupavam comigo.
Cresci cercado de privilégios. Mas
cometi um erro. Acabei me
apaixonando pela mulher errada. Ela
era casada. Foi o meu primeiro amor. –
Ele se calou, engoliu seco, um músculo
da garganta saltando. – A mãe da
minha filha.
Esther teve a sensação de que o
fundo da cama desabara. O mundo
parecia ter desabado. Não compreendia
o que ele dizia. O que as palavras
significavam.
– Sua filha? Mas você não tem...
– Legalmente, não. Assinei um
documento abrindo mão dos direitos
paternos. Não tenho filhos de acordo
com os tribunais e as certidões.
Geneticamente, contudo, é uma outra
história.
Esther repousou a mão sobre o peito,
como se pudesse conter as batidas
aceleradas do coração.
– Por favor, me conte tudo. Quantos
anos você tinha?
– Eu tinha 16 anos. E foi definido
que não fazia o menor sentido um
homem como eu – ou melhor, um
menino como eu – destruir uma família
para poder... criar uma criança. Como
eu poderia assumir a responsabilidade?
Eu mesmo não passava de uma criança.
Seria ridículo sequer imaginar algo
semelhante.
Lentamente, ela foi se dando conta
da situação.
– Então era a isso que se referia
quando falou em provar que era ruim.
Então é isso.
– Talvez tenha sido um pouco
melodramático, concordo. Mas, se a
autodestruição é tão divertida, como
posso deixar de lado a chance de provar
que não me restava outra opção?
Falando sério, se você observar todas as
minhas proezas, como é possível
acreditar que eu seria um bom pai?
– Mas você vai ser – disse em tom
decidido. – Basta ver tudo o que tem
feito por essas crianças.
Ele deu um riso amargo.
– É verdade. Estou disposto a fazer
qualquer coisa por essas crianças.
Porque é uma ferida... – Perdeu a voz.
– Fiz o que precisava ser feito. Fiz o que
precisava ser feito – repetiu, como se
reforçasse a afirmação também para si
mesmo. – A ferida nunca fecha. É
impossível. Principalmente quando... eu
a vejo.
– Quem? Sua ex?
– Não. Não guardo nenhuma afeição
por ela. Não temos qualquer ligação.
Por mim, podia vê-la todo dia e ficaria
indiferente. Mas ver Samantha... Minha
filha, nas festas, e saber que jamais
poderei me aproximar... É como ser
apunhalado repetidas vezes no mesmo
lugar. Não tem fim. A dor nunca se
extingue, a ferida nunca fecha. Não há
a menor chance.
A dor a dilacerou. Sofria por ele, por
tudo o que havia passado. Pelo que
ainda continuava a passar. Esse homem
obviamente seria capaz dos maiores
sacrifícios em nome do amor pelas
crianças que ela carregava no ventre.
Esse pai a quem era negado o direito de
conviver com a filha.
– Quantos anos ela tem?
– Tem 16. A mesma idade que eu
tinha quando ela nasceu.
– Então, ela é quase adulta. Se você
quisesse...
– Eu não posso destruir a vida da
minha filha. A ideia que tem de si
mesma. Não posso denegrir a imagem
do seu pai, da sua mãe, de tudo.
Revelar que ela é minha filha dizimaria
sua existência. Ela tem irmãos.
– Por acaso seu... Por acaso o pai que
a criou sabe que ela não é filha dele?
– Eu me surpreenderia caso ele não
soubesse. Duvido muito que ele e a
mulher tenham sido ou sejam fiéis.
– Como ela sabia que era seu?
– Jillian providenciou um teste de
paternidade. Basicamente porque
pretendia se certificar de que era algo
que eu não contestaria mais tarde. Ela
queria cuidar de tudo. Queria se
assegurar de que poderia proteger o
casamento. Proteger os filhos.
Apesar de terrível, tudo fazia sentido.
Essa era uma situação fadada ao
fracasso. E a solução escolhida levava
em conta deixar o menor número de
destruições em seu rastro. Exceto no
que dizia respeito a Renzo. Quando ele
mencionou o assunto, ficou evidente
que ficara arrasado. E continuava a
sofrer essa devastação no seu dia a dia.
– Mas você é o pai dela.
Ele começou a andar de um lado
para o outro do aposento, mergulhado
na penumbra, evidenciando a profunda
agitação atrelada à força. E ela se deu
conta de que isso o dominava por
inteiro. O poder que não podia exercer
em seu grau máximo. Sua impotência
diante da situação criada por ele.
Renzo era um homem poderoso. Um
homem abastado. Mas, acordos à parte,
ele não podia invadir a vida da filha
sem destruir o equilíbrio dela. E sua
forma de demonstrar amor e proteção
era simplesmente manter-se a distância
e sofrer para evitar que Samantha
sofresse.
Se antes não estava cem por cento
segura de seu amor, a atitude dele
confirmou seu sentimento. De certa
forma, todos seus prematuros
sentimentos de repulsa, por ele ter
saído com uma mulher casada, se
evaporaram. Ele cometera um erro, é
verdade, mas não agira por mal.
Entretanto, seu erro o definira.
Porque as consequências eram
definitivas.
Esther não poderia continuar a puni-
lo e recriminá-lo. Não podia acusá-lo.
Ela o fitou e viu o homem com quem
estava determinada a construir uma
vida. Um homem zangado, ferido,
arrasado. E, por falta de compreensão,
ela não sabia como lidar com alguém
assim.
O que poderia lhe oferecer?
– Não sou o pai dela, a não ser
biologicamente, e isso não conta –
respondeu.
– Mas é claro que sim. Você a ama.
Talvez mais do que qualquer outra
pessoa envolvida em toda essa história,
porque o único motivo para não ter
atravessado aquele salão de festas e
contado a verdade é por sentir tanto
amor por ela, que não deseja tumultuar
a vida dela.
– Não – afirmou em tom firme. –
Não é amor. Não sou mais capaz de
abrigar esse sentimento.
As palavras a atingiram como um
martelo.
– Mas você disse que me amava.
– Se isso a deixa feliz, posso repetir
mais de mil vezes.
– Se me deixa feliz? Mas... E se não
for verdade?
– Esse sou eu. O que fizeram de
mim. Está feito. Não há retorno. Não
posso voltar no tempo e tomar uma
decisão diferente. Não posso mudar o
ocorrido. Nem eu nem ela. Não posso
refazer a decisão. Você não entende? E
assim como não posso alterar a decisão,
não sou capaz de experimentar
sentimentos que sufoquei. Não
funciona desse jeito. Simplesmente não
posso.
– Então por que falou que me
amava?
– Você está prestando atenção? –
indagou, agora exaltado, quando até
então ela apenas o ouvira falar com
calma. No momento, não havia a
menor demonstração de serenidade.
Esther tinha a sensação de o observar
desmanchar-se diante dela, fio por fio.
– Farei tudo o que estiver ao meu
alcance para manter meus filhos ao
meu lado. Qualquer coisa.
– Nunca ameacei tirar as crianças de
você. Nunca. Jamais faria isso.
– Não se trata só disso. Samantha...
tem uma família. Ela tem pai e mãe.
Como eu posso oferecer menos do que
isso aos meus filhos? Qual a minha
desculpa? Veja o que fiz. Eu arruinei
minha vida ao me casar com Ashley.
Não vou arruinar a vida dos meus
filhos. Eu vinha apresentando uma
declaração da minha inadequação, e,
por pouco, envolvi duas crianças
inocentes. Meus próprios filhos. Mais
uma vez eu arruinaria a vida deles por
causa dos adultos à sua volta.
Ela entendeu tudo perfeitamente. O
modo como agira. Seu desejo de
construir a família sonhada para os
filhos, de modo a lhes proporcionar
mais do que a primeira filha recebera.
Renzo tentara desesperadamente
provar que não era capaz. Provar que
tomara a decisão certa, e depois fora
envolvido em uma situação na qual
precisava provar a si mesmo ser uma
pessoa respeitável.
E ela fora pega no meio do tiroteio. E
compreender a situação não a impedia
de sentir-se menos confusa, quando se
tratava dos próprios sentimentos. Não a
impedia de sofrer menos.
– Não precisava mentir para mim.
– Precisava, sim. Você deixou isso
bem claro.
– Renzo, eu me entreguei a você. De
uma maneira que não sei se poderia,
caso... – Calou-se, porque sabia estar
mentindo. Não tinha nada a ver com o
sentimento que nutria por ele, não
dependia de reciprocidade. Tratava-se
apenas do seu amor por ele. Isso não a
impedia de estar magoada, confusa, e
queria que ele sentisse pelo menos um
milésimo do seu amor. Porque ela o
amava muito. Compreendia não ser
justo cobrar o mesmo, esperar que ele
fosse inundado pelo amor tão logo
descobrisse que carregava seus filhos.
Lia o medo em seus olhos. Um medo
absoluto, nu e cru. O medo de que
outra mulher planejasse tirar o que ele
mais desejava no mundo. Embora ele
dissesse não ter a capacidade de amar,
suas ações contrariavam sua afirmação.
Esther sabia que ele sentia amor. Um
amor profundo e infinito que o
magoava a cada batida do seu coração.
Se ele acreditava agir assim por falta
de amor, era pela simples razão de não
conseguir lidar com seus sentimentos
de outra maneira. E, por estranho que
pareça, ela compreendia. Era fácil dizer
a si mesma que só estava com ele
porque ele declarara o seu amor.
Porque ela ia ter seus filhos.
Bem mais assustador era admitir para
si mesma que desejava ficar com ele.
Queria estar ao seu lado porque gostava
dele. Por opção.
Uma coisa era fazer a distinção entre
o pai e Renzo na teoria. E defender a
tese de que se comprometia com uma
vida completamente diferente da
imaginada ao sair de casa. Concordar
em unir-se a um homem que tinha, na
certa, seus próprios planos e conceitos.
Porque ele mentira para ela. E se
Esther estivesse enveredando pelo
mesmo tipo de vida de antes? Uma vida
cujas regras eram ditadas por outra
pessoa. Isso a assustou. Mas talvez...
Talvez o amor fosse sempre assustador.
Talvez fosse um risco que envolvesse
sacrifícios, perdas. Ela já se sacrificara
tanto. Permanecer com a família tanto
tempo, reprimir tantas possibilidades
que gostaria de explorar. Tentara ser
quem o pai e a mãe desejavam que
fosse.
E partira... Se partir e deixar os
irmãos tinha sido uma decisão sofrida,
imagine o quanto sofreria, caso fosse
obrigada a deixar as crianças que trazia
dentro dela. O mero pensamento lhe
causava dor física.
Renzo era um muro de pedra. E ela
era frágil, delicada, por maior o ímpeto
de se arremessar contra ele e tentar
abrir uma fresta. Forçar uma mudança.
Verificar se podia alcançar o que
suspeitava haver por trás daquela
muralha.
Mas como, se ele não admitia
nenhum sentimento de amor? Se nem
ele parecia saber?
– Não tive a intenção de magoar
você, mas nunca vou ser capaz de amá-
la do modo como parece querer ser
amada. Entretanto, isso não significa
que eu não seja um marido fiel. Fui fiel
a Ashley, apesar de ela ser infiel. Se
precisa de uma demonstração, eu me
caso com você aqui, na Itália, onde é
muito difícil obter o divórcio.
Todas essas promessas, tudo isso ela
reconheceu como benefícios maiores
para ele do que a ela. Se um dia
fizessem um teste de DNA, o juiz
descobriria que os filhos não eram seus.
E aí, o que aconteceria?
A relação entre eles mudara demais
nas últimas semanas. Sua vida mudara
da água para o vinho, era totalmente
diferente da imaginada.
Tinham se passado apenas quatro
meses desde que estava convencida de
que faria a fertilização e depois de parir
iria embora? Então iria para a
faculdade, visitaria locais exóticos e
faria tudo com o que sonhara sem
pensar uma única vez nas crianças que
trouxera ao mundo? Sem sequer pensar
em Renzo de novo? Agora sabia que
nada disso era possível.
Ela acabara presa numa armadilha
construída por ela. Sem escapatória.
Fugira de uma situação ruim e
acabara numa pior ainda. O pior é que
não podia decidir se queria sair dela.
– Você me magoou – confessou,
ignorando o que ele dissera sobre
casamento e divórcio. Queria obrigá-lo
a discutir a mentira. A mentira que, a
cada segundo, atingia proporções cada
vez maiores dentro de si.
Porque essa tinha sido a diferença. A
diferença entre o cativeiro e um
relacionamento. A diferença entre um
homem controlador, autoritário e um
homem carinhoso, dedicado.
Sim, sob todos os aspectos, ele agira
da mesma forma, mas agir assim por
amor, por gostar dela, por gostar dos
bebês, era diferente de simplesmente
pretender facilitar a própria vida.
– Essa não foi a minha intenção.
Nossa vida não precisa mudar por causa
disso. Você me deseja. – Ele se
aproximou; as pontas dos dedos
acariciaram seu rosto, e, para sua eterna
humilhação, um arrepio de desejo a
percorreu.
– Isso não basta. – Ela se afastou,
encolhendo-se contra a cabeceira da
cama.
– Por que não? – perguntou ele,
desgastado.
– Quero você comigo – disse, falando
devagar, tentando definir um jeito de
articular o que sentia, não apenas para
ele, mas para si mesma. – Quero você
comigo, porque isso me fortalece. E
também me sinto fraca. Porque você
despertou em mim desejos com os quais
jamais sonhei. Porque você fez meu
corpo vibrar e meu coração bater mais
rápido. – Ela fechou os olhos. – Eu
acreditava saber o que queria.
Acreditava saber do que precisava.
Então, conheci você e passei a
questionar todas as coisas nas quais
acreditava. Encontrei você, olhei seus
olhos e descobri que não podia me
mover. Descobri que nem queria. Não é
conveniente para mim, Renzo. Nada
disso. Não quero você, porque graças a
isso minha vida é mais fácil. Não quero
você por causa de tudo o que me
proporciona, mas por causa das
pequeninas coisas que mudou em mim.
Porque você me deixou vazia e criou
uma necessidade que eu nem sabia
existir. E nada disso é conveniente.
Nem um pouco. Mas é a falta de
conveniência que me deixa tão
convencida de que é real.
– Mas por que isso importa? –
perguntou ele de novo. – Podemos ser
felizes. Nada a impede de sentir todas
essas coisas. Ficaremos juntos, nossa
família ficará junta.
– O que você sente quando me toca?
– Quero possuir você.
A garganta de Esther contraiu.
– E quando pensa que posso deixar
você?
Ele cruzou o espaço que os separava,
a tomou nos braços e a apertou com
força.
– Você não vai embora. Eu quero
você comigo.
Ela estendeu a mão e acariciou seu
rosto suavemente com a ponta dos
dedos.
– Essa é a diferença. Você quer me
manter aqui porque assim sua vida se
parece mais com o quadro que
construiu em sua mente. Porque é bom
para um homem ter uma esposa e para
os filhos ter a mãe. Mas será que não
entende que esse é exatamente o
motivo do meu pai querer que eu
ficasse? A razão de tratar os filhos
daquela maneira? Porque ele precisava
dessa concepção de mundo. Dessa
concepção perfeita. Porque era assim
que todos olhavam para ele. Ele queria
passar a imagem perfeita. – Engoliu em
seco. – Não posso ser o troféu de
ninguém. Não posso ser a evidência da
vida perfeita que levam. De novo, não.
Não quando precisei reunir tanta força
para ir embora pela primeira vez.
Porque se só diz que me ama para me
deixar feliz, está apenas exercendo
controle.
– Isso não é justo – resmungou ele. –
Não estou falando em negar nada a
você. Não estou escondendo o mundo
de você. Prometi que vai poder cuidar
da sua educação. Prometi mostrar tudo
o que mundo tem a oferecer.
– Eu sei. Eu quero...
– Sou um amante egoísta?
As maçãs do rosto coraram.
– Não, claro que não.
– Como ousa me comparar com o
homem que passou a vida dando
ordens? É muito diferente. É diferente
chegar a um entendimento baseado na
conveniência mútua, na atração mútua.
Esther se deitou, deixando a
infelicidade tomar conta do seu ser,
levando os joelhos ao peito e virando de
costas para Renzo.
– Preciso de tempo – disse, a cabeça
martelando. Não sabia ao certo se
conseguiria se recompor.
– Vejo você no café da manhã – disse
ele em tom duro.
Esther ouviu Renzo sair do quarto.
Não voltou a se mover até ouvir a porta
do quarto se fechar no final do
corredor. Só então permitiu que o
primeiro soluço sacudisse seu corpo.
Sentia-se desesperada.
Decepcionada. Tola, pois agira
exatamente como qualquer mulher
inexperiente. Acreditara quando ele
havia declarado o seu amor, e usara isso
como um abrigo. A mentira a tornara
impenetrável. Sentira-se poderosa,
capaz de fazer tudo, de ser tudo.
E agora se sentia simplesmente uma
tola.
Remoía outra coisa em seus
pensamentos. A comparação entre
Renzo e o pai. Sua vida na comunidade,
e o mês que havia passado ali.
Sempre soubera que queria escapar
daquela vida. Para ela, a casa era uma
prisão. Não sentia isso agora, e não
sabia o que isso significava. Tampouco
sabia se isso lhe importava.
Soltou um gemido baixo, infeliz, e
enfiou o rosto no travesseiro. Não
queria deixar Renzo. Não importava se
ele não a amava. Ela queria ficar ali.
Queria ficar com ele.
Não tinha nada a ver com o que ele
sentia, mas tudo a ver com o que ela
sentia. Seu amor não era uma mentira.
Nem mesmo a admissão de Renzo, ao
confessar que mentira, abalara o seu
amor.
Mas isso ainda a confundia. Ainda a
fazia sentir que devia tomar alguma
atitude. Devia evitar transformar-se na
criatura triste e reprimida do passado.
– Eu não quero – disse em meio ao
silêncio do quarto, uma lágrima
escorrendo pelo rosto. Ela queria ficar
ali com ele. Queria construir uma vida a
dois, junto com as crianças. Queria lhe
proporcionar tudo o quanto ansiava.
Mas por quanto tempo? Até quando
ela começaria a se sentir sufocada de
novo?
O que parecera a liberdade absoluta
antes, agora parecia uma prisão. E,
independentemente de seus
sentimentos confusos, se queria ou não
partir, a sensação era de
encurralamento, quando deveria ser de
libertação.
Era tão fácil ver a diferença. O amor.
O amor era a diferença.
Saber que Renzo não a amava, saber
que nunca a amaria, fazia toda a
diferença para ela.
CAPÍTULO 14

RENZO DORMIU mal. Reconhecia ter


agido feito um perfeito idiota, dito
coisas desnecessárias a Esther. Sim, a
magoara. É verdade que havia mentido
para ela. A perda de Samantha o
abalara irremediavelmente. Se
começara a agir de modo cruel e
insensível, ninguém poderia culpá-lo.
Afinal, se envolvera numa situação
na qual permitira que outros tomassem
a decisão por ele. Mas passara a reagir,
com todas as forças. Resistia e não
permitiria que nada nem ninguém
ditasse as regras. Quem decidia agora
era ele.
Entretanto, Esther não merecia que
mentisse para ela. Se havia alguém de
fato meiga e boa neste mundo, esta
pessoa era ela. Alguém que tinha sido
usada de modo brutal por homens
controladores.
Bateu com a xícara de café na mesa e
ao se virar, viu Esther no último degrau
das escadas.
– Bom dia.
– Bom dia – respondeu ela. E, neste
instante, ele viu a mochila.
Também usava as roupas antigas.
Uma camiseta regata preta apertada e a
saia larga e comprida, a barriga bem
mais arredondada do que quando ele a
encontrara pela primeira vez. Ele
entendeu o significado de sua atitude; a
decisão tomada.
– Você não pode ir embora – disse, e
a voz cortante ecoou no ambiente
silencioso.
– Eu preciso. Não vou sair da cidade,
prometo. Mas não posso continuar
morando na sua casa, com você. Ainda
estou muito confusa. Não sei o que vai
acontecer entre nós dois, e não sei...
Não sei direito como me sinto. Não
posso me acomodar, apenas porque me
sinto confortável ao seu lado. Desse
jeito, não consigo pensar com clareza. E
devo a mim mesma a chance de refletir
e decidir o que quero.
Ele nem percebeu que se aproximou
de Esther e tomou-a nos braços de um
jeito muito mais bruto do que faria,
caso pensasse com clareza.
– Você não pode me deixar.
– Posso. E preciso. Por favor, precisa
compreender.
Ele agarrou os pulsos, a obrigou a
recuar e a prendeu contra a parede.
Fitou-a dentro dos olhos,
profundamente, pois uma vez ela havia
dito que seu olhar mexia com ela. Ele
precisava mexer com ela agora.
Precisava imobilizá-la. Precisava
impedi-la de ir embora, de abandoná-
lo.
– Não pode ir embora – repetiu,
desta vez com mais veemência.
– Renzo, não pode me obrigar a ficar
aqui. Não acredito que queira me
prender aqui. Não pode ter esquecido
que já fui prisioneira. Você não faria
isso comigo.
Foi tomado pelo desespero, parecia
que um animal lhe cravava as garras.
Naquele instante, hesitou, sem saber se
havia um limite para suas ações. Afinal,
estava prestes a observar sua vida, seu
futuro sair porta afora e se afastar dele.
– Como pode fazer isso comigo?
Conhece meu passado. Sabe o que eu
perdi. Eu confiei meu segredo a você.
Mais ninguém sabe sobre a minha filha.
Nem mesmo a minha irmã. E eu contei
a você.
– Nunca vou tirar seus filhos de você.
Já disse e repito. Não vou privar você da
alegria de ser pai. Mas... não acredito
que, se morarmos juntos, sem amor,
eles terão uma infância mais feliz. Não
adianta; não acredito. Cresci num lar
sem amor. Num lar no qual todos os
relacionamentos eram... doentios. E no
qual imperava o controle. Não vamos
ajudar em nada nossos filhos se
vivermos desse jeito.
– Esse é o verdadeiro motivo de
querer ir embora? De querer fugir? O
fato de não querer lidar com o que
existe entre nós?
– Não.
– Você acha que vai arruinar sua vida
cuidando de crianças. Na verdade, não
quer os bebês. – Isso tornaria de certa
forma mais aceitável sua decisão. Ele
não pretendia expor os filhos à
indiferença de Esther. Entretanto, não
podia imaginá-la demonstrando
indiferença em relação a um
animalzinho, quanto mais a um bebê.
– Estou indo embora por nossa causa
– disse, apoiando a mão em seu rosto.
Ela não tentou se desvencilhar. Apenas
o acariciou com delicadeza, revelando
profunda emoção. Renzo não se
lembrava de sua pele já ter sido
acariciada com tanta meiguice. – Trata-
se de como devíamos ser. Só isso. Não
posso aceitar sua proposta de
casamento. Não dessa maneira. Não
posso concordar em levar uma vida sem
ser amada.
Esther começou a se afastar, e ele a
segurou com mais força. O desespero
dentro dele parecia uma criatura feroz,
indomável.
– Eu amo você – grunhiu, as palavras
saindo do fundo de sua alma.
De repente, ele foi assaltado pela
sensação de que todo o sangue tinha
sido drenado da sua cabeça. Pela
terrível sensação de não conseguir
respirar. Achou que perderia a
consciência e desabaria desmaiado no
chão. Chegou à dura conclusão de que
tudo o que experimentava naquele
instante só podia ser resultado do fato
de estar falando a verdade.
– Eu amo você – repetiu, o desespero
tornando sua voz aguda.
– Renzo – pediu, recuando um passo.
E ele não tentou usar de novo a força. –
Não faça isso comigo. Não minta para
mim. Não use meus sentimentos para
me manipular.
– Não é nada disso. Estou falando a
verdade.
– Você já disse que repetiria mil
vezes que me ama, se isso me deixasse
feliz. Imagino que repetiria mais mil
vezes, caso achasse que assim
conseguiria atingir seu objetivo. Sinto
muito, não posso e não vou viver assim.
– Eu não vou conseguir viver sem
você – confessou, e as palavras a
emudeceram.
Ela se voltou para encará-lo.
– Quando puder me explicar o que
mudou; quando puder me provar que
isso não é apenas outra mentira;
quando puder me provar que não está
apenas tentando assegurar seu direito
de posse... Então me procure. Vou
voltar a morar no albergue e a trabalhar
no bar.
Ele foi tomado pelo impulso de lhe
causar mal. Ferir tão fundo quanto fora
ferido. Fazê-la sangrar, porque ele, sem
qualquer sombra de dúvida, sangrava.
– Pode fugir. E pode inventar para si
mesma a história que bem entender.
Isso, repita sem cessar que precisa de
liberdade. Está apenas provando o
mesmo egoísmo demonstrado quando
largou sua família – esbravejou. – Se
alguém ama você de um jeito diferente
do amor que deseja, você não
reconhece o sentimento como amor.
Inventa que não é sincero. Não fez o
mesmo com o seu pai? Você me acusa
de egocentrismo, Esther, mas eu pelo
menos aceitei você do jeito que era, sem
críticas, ao contrário de você, que não
me aceita como sou.
Ela vacilou, e ele constatou que suas
palavras tinham atingido seu objetivo.
Ele pôs o dedo na ferida de Esther. No
medo. No medo de que ele talvez
dissesse a verdade.
– Talvez tenha razão. Mas existe uma
grande diferença entre nós: nunca
menti. Então talvez esta seja a única
coisa que jamais consiga superar, talvez
veja minha atitude como traição e não
seja capaz de aceitar. Mas você foi o
primeiro a mentir. Como vou saber se
suas palavras são sinceras? Como? Não
hesitou em declarar seu amor da
primeira vez. Depois, confessou ser
mentira. Agora me pede para acreditar
que seja verdade. O que me pede é
impossível, Renzo. Quanto a mim, só
queria ver o mundo. – Enxugou uma
lágrima que escorria pelo rosto. – Eu só
queria ir para a faculdade, me
encontrar. Não queria mais ser
submissa a ninguém. Já chega. E foi isso
o que fiz. Agora vou precisar me
recuperar de novo, e, se puder aparecer
e provar que é sincero, por favor, faça
isso. Caso contrário... Me deixe em paz.
Manterei você informado depois das
consultas médicas.
Caminhou na direção na porta,
apertando com força a mochila.
– Adeus, Renzo.
E se foi. E, pela segunda vez na vida,
Renzo parecia ver o futuro escorrer
pelas mãos. Pela segunda vez, sentiu-se
impotente para tentar reverter a
situação.

QUANDO RENZO foi visitar o pai naquele


mesmo dia, estava possuído por um
ódio violento. Desde que Esther tinha
saído de sua casa, a raiva só aumentara,
sem trégua. Desde que ela o deixara, o
ódio ardia com força cada vez maior na
boca de seu estômago.
A raiva o abastecia, o consumia com
uma espécie de energia implacável,
incontrolável. E a raiva o levara até ali.
À casa dos pais.
Entrou no escritório do pai sem
bater.
– Renzo – disse o pai, sem erguer a
cabeça. – O que o traz aqui?
– Tenho uma coisa para contar –
respondeu.
– Espero que já tenha se casado com
aquela moça. Sabe, eu odiaria ouvir que
a relação já terminou.
– Pois terminou mesmo. A situação
fugiu ao meu controle.
– Precisa de minha intervenção? É
isso? Deus está de prova que fui
obrigado a intervir em sua última
leviandade juvenil...
– Minha leviandade juvenil? Por
acaso está se referindo à minha filha? À
filha que eu não tenho permissão para
ver porque o senhor, mamãe e Jillian
decidiriam que seria melhor assim?
– Como se você não compartilhasse
da mesma opinião... Aos 16 anos, não
tinha condições de criar um filho. Até
hoje, demonstra comportamento
irresponsável.
O pai fez o comentário como se fosse
algo acidental. Como se nunca tivesse
lhe passado pela cabeça que o
comportamento de Renzo visava
exatamente provar ser irresponsável,
que era proposital. Pensando melhor,
não podia culpar o pai. Nem mesmo
Renzo tinha tomado plena consciência
disso até recentemente. Até ser forçado
a mudar sua maneira de pensar, seus
objetivos, a fim de aproveitar a chance
de assumir a paternidade desta segunda
vez.
– Não há nada de leviandade juvenil
desta vez – disse Renzo. – Não sou mais
criança. Estou na faixa dos 30. Além
disso, a situação não é o que parece.
– O que está acontecendo?
– O problema é Ashley. Minha ex-
mulher pagou Esther para servir de
barriga de aluguel. Não preciso dizer
que não fui consultado. Quando Ashley
se convenceu de que a gravidez não
preservaria o nosso casamento, entrou
em contato com Esther e pediu que ela
interrompesse a gravidez. Só que Esther
não concordou e decidiu me procurar.
– Ele esfregou a mão no rosto. – Eu já
perdi uma filha, e tomei a decisão de
ter esse. Quer dizer, esses dois –
corrigiu, sentindo-se atravessado por
uma flecha ao pensar nos gêmeos. – Eu
também estava determinado a seguir
seu conselho, ou seja, evitar a qualquer
custo algum escândalo. Qualquer coisa
que pudesse respingar nas crianças e
afetar a vida delas. Além do mais, não
permitiria que meu cunhado assumisse
o controle da empresa, quando meus
filhos são os legítimos herdeiros. Por
mais que o senhor imaginasse estar
apelando para meu egoísmo, acredite
em mim quando afirmo que estava
apenas apelando ao meu desejo de,
desta vez, dar aos meus filhos tudo o
que merecem.
– Não acredito. Não pode ser
verdade. Esse negócio de barriga de
aluguel é ilegal no nosso país.
– Existem meios de burlar a lei, como
bem sabe. O fato é que arruinei tudo.
Em parte, porque permiti que o senhor
voltasse a assumir o controle.
– Você diz isso tudo como se
estivesse zangado com a atitude que
tomei no passado.
– E estou. E como! Eu tinha 16 anos,
não podia prever meus sentimentos no
futuro. Toda vez que olho para o outro
lado da sala, é minha filha que vejo.
Toda vez. A sensação é de levar uma
punhalada no coração. Não posso me
perdoar pela decisão tomada, apesar de
ser um adolescente na época. E não
posso perdoar o senhor pelo papel que
representou.
O pai deu um soco na mesa.
– Pois estamos quites: eu tenho o
mesmo sentimento em relação a você.
Só que ampliado, com uma intensidade
que não pode sequer imaginar. Porque
eu criei você. Porque você é o herdeiro
de tudo que construí com tanto
sacrifício. Deposito em você, Renzo,
todas as minhas esperanças. Para mim,
você representa mais do que é capaz de
conceber. Agi daquela maneira para
protegê-lo, e se em troca disso recebo
sua raiva, eu assumo as consequências.
Não mudaria em nada o meu
comportamento.
As palavras do pai o atingiram com
uma força violenta. E, embora
compreendesse o motivo que levara o
pai a tomar aquela decisão, ainda assim
gostaria de poder mudar o curso da
história.
– Acha que isso não me afeta? –
perguntou o pai com voz rouca. – Eu
também a vejo. Ela é minha neta. E
desde que sua irmã teve Sophia, a dor
da perda aumentou. A perda da minha
primeira neta, que não posso
reconhecer como tal.
– Mas perder a neta não pesava tanto
quanto proteger a reputação da nossa
família.
– Eu pensei no bem-estar de todos.
Como bem sabe, também protegi o
casamento da mãe da menina. A
família inteira. Não pode me acusar de
egoísmo, Renzo.
– No entanto, queria que eu me
casasse com Esther para preservar sua
reputação. Imagino que também queira
manter em segredo as circunstâncias a
respeito da concepção dos bebês.
– Por acaso, acredita que expor o que
aconteceu é a melhor solução? Não
pensa na reputação da família Valenti?
– Não sei – respondeu, tamborilando
nas costas da cadeira em frente à
escrivaninha do pai. – Não sei mesmo.
Mas não posso proteger a reputação dos
Valenti em detrimento da minha
própria vida. Nem das pessoas que amo.
– E o amor pelos seus pais, não vale
nada?
– O senhor é capaz de se proteger,
meu pai. Na verdade, não tenho a
menor dúvida. Mas meus filhos não.
Eles são indefesos. Dependem que eu
tome a decisão certa.
– E acredita que trazê-los ao mundo
sob uma nuvem de escândalo é a
atitude acertada?
– Estou cansado de mentiras.
Cansado de viver uma vida construída
tendo como base um monumento à
única coisa que nunca posso
reconhecer. A única pessoa que sempre
vou amar e nunca poderei dizer. Estou
cansado de levar uma existência que é
um altar profano em homenagem aos
meus fracassos. A confirmação de que
eu não tive escolha. Nenhuma escolha,
exceto abrir mão de Samantha. Talvez,
naquela ocasião, não houvesse mesmo
alternativa. Mas agora eu tenho opções.
Talvez eu me humilhe aos olhos dos
demais. Talvez humilhe nossa família.
Mas, se for preciso agir assim para ter
de volta a mulher amada, se for preciso
parar de me proteger a fim de provar a
minha vulnerabilidade, agirei assim. Se
a boa reputação da nossa família sair
manchada, então aceito o risco. Mas
não serei escravo do bom nome da
nossa família. – Deixou escapar um
suspiro ao pensar em Esther, em sua
mentira, em sua história. – Não posso
controlar tudo. Vou acabar destruindo
as pessoas que realmente amo.
– Agi como deveria – disse o pai. –
Eu o aconselhei, como era o meu papel.
Sou o patriarca da família, Renzo. Cabe
a mim proteger a família.
– Talvez este seja o problema. E isso
nos leva a um impasse. Porque eu sou o
patriarca da minha família. E a minha
família é composta por Esther e pelas
crianças que ela está esperando. Eu a
perdi. Menti para ela; disse que nunca
poderia amá-la. Eu morria de medo,
medo por não querer me sujeitar à dor
sofrida quando abri mão da minha
filha, à dor que continua a me
maltratar. Meu comportamento só
piorou a situação. Mas vou resolver essa
situação, de um jeito ou de outro.
Deu as costas e fez menção de sair do
escritório. Deteve-se ao ouvir a voz do
pai.
– Renzo, posso não concordar com a
sua decisão, mas quero que saiba que
não cabe mais a mim proteger você. Na
verdade, não precisa mais da minha
proteção. Já é um homem; um homem
que compreensivelmente direcionou a
raiva para mim. Só espero que um dia
possa me perdoar.
Renzo respirou fundo e pensou em
Esther. Lembrou-se de quando ela disse
que precisou deixar o passado para
seguir adiante.
Ele havia mantido um dos pés
plantados com firmeza no passado, e
isso quase arruinara sua vida. Era
preciso aprender a seguir em frente.
Seguir na direção de Esther.
– Imagino que tudo vai depender do
que venha a acontecer.
CAPÍTULO 15

ESTHER ESTAVA exausta. Emocional e


fisicamente. Encontrava dificuldades
em trabalhar no bar. A barriga tinha
crescido, os tornozelos incharam, a
fadiga aumentara. Além do mais, tudo
o que desejava era enroscar-se debaixo
da bancada do bar e chorar durante seu
turno de trabalho inteiro, porque
alguma coisa dentro dela se partira
desde o afastamento de Renzo.
Fazia muito calor naquela noite. O ar
estava impregnado de umidade, o céu
nublado. Ela tinha a impressão de que
desabaria um temporal, e a ameaça de
chuva só aumentava o peso da
atmosfera. Acrescido do peso em seu
coração.
Olhou pela janela e viu as gotas de
chuvas pingando na calçada de
paralelepípedos. Fantástico. Ia ser um
bocado divertido voltar a pé para casa.
Todas suas roupas ficariam grudadas na
pele. Então, passaria o resto da noite
tiritando de frio, porque os chuveiros
no albergue nunca tinham água quente
suficiente.
Um relâmpago cortou o céu, e ela se
sobressaltou.
– Esther?
Ela se voltou e viu o chefe, exaltado,
apontando as mesas lá fora. Sabia que
era uma ordem para ela pegar as
almofadas dos assentos.
– Já estou indo.
Saiu apressada, sem se dar ao
trabalho de vestir um blusão. Ainda
fazia calor, mas a chuva aumentara e os
pingos estavam gelados. Ela pegou as
almofadas e as pôs debaixo do braço.
De repente, os fios da nuca
arrepiaram e ela se esticou. Outro
relâmpago cortou o céu, e então viu
Renzo, de terno, exatamente como na
primeira noite em que fora ao bar.
De pé, usando terno, debaixo da
chuva, as mãos nos bolsos, os olhos
escuros fixos nela.
– O que veio fazer aqui? –
perguntou, e as almofadas de repente
caíram. Ela nem se dera conta de que as
havia soltado.
A sensação foi exatamente igual à de
sempre. Desde o início. Os olhos
escuros a deixaram paralisada feito uma
estátua, o mundo inteiro girava ao seu
redor, ao redor dele.
Tudo mudou, até mesmo a
atmosfera. Ela não ficaria nada
surpresa, caso ele tivesse trazido o
temporal, os relâmpagos e os trovões.
– Vim ver você. Não me disse para
vir à sua procura quando estivesse
preparado? Preparado para provar o
meu amor? Pois estou. Confie em mim.
Fiquei tentando marcar uma entrevista
coletiva antes de vir ao seu encontro,
mas achei que devíamos conversar
primeiro. Não por mim, mas por você.
– Uma entrevista coletiva? Com qual
objetivo?
– Explicar tudo. A implantação do
óvulo, a barriga de aluguel, tudo. Achei
que, se eu não tivesse mais reputação a
zelar, você não poderia me acusar de
ser esse o meu objetivo.
– Eu acho que é fácil para mim
julgar, porque ninguém está interessado
em mim ou na minha vida. Quer dizer,
desde que a minha vida não esteja
ligada à sua.
– Não se justifique, por favor. Você
tinha toda razão a meu respeito. Minha
única intenção era agir conforme me
convinha, e quero deixar bem claro que
tudo mudou. Quero deixar bem claro
que não tenho mais o menor interesse
em criar uma bonita fachada para os
olhares da sociedade. Tudo isso...
contribuiu para eu me tornar quem sou
agora. E eu me dediquei sempre a
justificar meu comportamento anterior.
Mas agora tudo isso acabou. Estou
preparado para tornar pública nossa
história. Preparado para confessar que
fui traído pela minha ex-mulher e você
foi contratada para gerar meus filhos.
– Mas e quanto aos problemas legais?
Ele respirou fundo.
– Por isso não convoquei a imprensa
para a entrevista coletiva. Tive medo de
que você acreditasse que eu agi assim
para diminuir suas chances de pedir a
guarda das crianças. Que eu usasse essa
história para tentar provar que não tem
direito a conviver com elas. Mesmo
desejando representar um grande ato
de bravura, estou de algum modo
impedido pelo fato de que eu exerço
mais poder que você, entende? – Ele
balançou a cabeça. – Mas só por fora.
Por dentro, estou tremendo. Porque
não sei o que fazer para que acredite
em mim. Porque não mereci sua
confiança.
Ela o observou aproximar-se. A
chuva ensopava a pele dela, as roupas,
completamente grudadas no corpo.
Nada disso lhe importava.
– Na noite do jantar, meu pai avisou
que, desta vez, eu tinha de me certificar
de que tudo daria certo. Avisou que eu
precisava manter a família unida ou ele
me deserdaria. Compreendo que isso
apenas contribui para eu colocar mais
um prego no caixão da minha
sinceridade, mas, por favor, entenda
que, em parte, eu estava motivado pelo
desejo de manter toda a herança para
os meus filhos.
– Então seu pai mandou você se casar
comigo.
Ele balançou a cabeça em sinal
afirmativo.
– Graças a isso a história teve chances
de ser verdadeira. Então, naquela
primeira noite que ficamos juntos, eu vi
Samantha. E soube... que estava
disposto a qualquer coisa para não
perder os meus filhos. Inclusive mentir
para você. E essa, Esther, é a parte mais
difícil. É o assunto mais difícil para
discutir, porque você me conhece. Sabe
que eu faria qualquer coisa pelos meus
filhos. E provei estar disposto a mentir.
Tinha quase absoluta certeza de já ter
experimentado os momentos mais
sórdidos que a vida tinha a me oferecer.
Como poderia pensar diferente? Afinal,
vi minha filha crescer como uma
estranha. Mas eu estava enganado.
Cheguei ainda mais baixo.
Ela sofria por ele. Um sofrimento
físico, literalmente. Entretanto, achou
que precisava ouvir tudo até o fim.
Precisava ouvir a respeito da dor que
ele enfrentou, porque Renzo a fizera
sofrer profundamente.
– O que fez?
– Disse que a amava, sabendo que
era verdade, e sabendo que não havia
nada ao meu alcance para convencê-la.
Sabendo que eu tinha destruído a
minha chance de ser feliz, quando
menti para você. Sabendo que eu tinha
nas mãos algo lindo, maravilhoso, o
amor e a capacidade de senti-lo, e o
transformara em uma farsa. Sabendo
que eu tinha afinal descoberto esse
sentimento e me reencontrado, e que
eu o desejava. No entanto, tinha
destruído qualquer chance de tê-lo de
volta.
Ela não aguentava mais. Não podia
se conter. Aproximou-se, o abraçou e
deixou a chuva desabar sobre eles,
lavando toda a mágoa existente entre os
dois.
– Eu acredito em você. Do fundo do
meu coração. Você não destruiu nada.
Eu amo você. E sabia que um dia
poderia ser correspondida. Juro. Porque
o modo como reorganizou sua vida para
receber essas crianças, o modo como
falou da sua dor em relação a
Samantha, o modo como continua a
sofrer, porque jamais vai fazer nada que
atrapalhe a vida dela é amor, Renzo.
Amor de verdade. Amor disposto ao
sacrifício, e não controlador, autoritário.
– Eu queria fingir que não sentia
amor, pois era mais fácil viver assim.
Admitir que se ama alguém quando é
impossível viver com essa pessoa como a
gente gostaria, é um destino terrível. Eu
vivi isso com Samantha. E depois com
você.
– Eu amo você. Estou aqui. Não
precisa me provar nada. Estou muito
emocionada por você estar disposto a
contar toda a verdade, mas acho
melhor não transformarmos nossos
filhos em manchetes de jornais.
– Tem razão – confirmou,
acariciando suas costas. – Eu amo você,
Esther. O amor para mim sempre
significou algo distante. O amor do meu
pai era controle. E, com a minha filha, o
amor exigiu a separação. Você me
perguntou o que era o amor.
Sinceramente, não sei se sou capaz de
amar e conviver com a pessoa amada,
mas estou interessado em aprender.
Isso é o que posso lhe oferecer. Minha
disposição para mudar. Quero mudar
pelo que existe entre nós, esse
sentimento que nos une e que nunca
experimentei.
– Suponho que seja justo – disse ela,
fungando. – Eu também não sei direito
o que é. Durante toda a minha vida, o
amor representava controle, também. E
eu saí de casa em busca de alguma
coisa. De liberdade. Achei que essa
coisa chegaria com a viagem, com a
educação, sem ter ninguém para me
deter ou me prender. E isso é uma
espécie de liberdade. Mas não é total.
Eu conheci você, comecei a gostar de
você e isso fez com que eu desejasse.
Não foi fácil decidir ser mãe de gêmeos,
quando eu havia planejado uma coisa
totalmente diferente. Nada fácil. Mas o
que aprendi nesses dois anos vivendo
sozinha é que as coisas ficam mais fáceis
quando a gente não se preocupa muito
com elas. Quanto mais a gente gosta de
alguém, mais alto é o preço a pagar.
Nós dois sabemos. Eu prefiro gostar de
alguém. Prefiro ter de enfrentar todas
as tristezas e usufruir as coisas alegres
que fazem parte de um relacionamento
de verdade. Prefiro isso a viver à deriva,
sem preocupações. E quero viver isso
tudo com você.
Renzo a segurou pelo queixo,
inclinou seu rosto e a beijou. Os pingos
da chuva continuavam a escorrer pela
pele dos dois enquanto ele a saboreava,
enquanto sorvia as gotas em seus lábios.
– Vou ser demitida – disse ela.
– Ainda bem que vai se casar com
um bilionário.
– Arrogante! Eu não disse que ia me
casar com você, só disse que o amo.
– Sou arrogante mesmo. Vai
descobrir que esse é um dos motivos
para me amar.
– Bem, na certa vou continuar
comendo cereais sentada no chão. Vai
descobrir que esse é um dos motivos
para me amar.
Um sorriso brotou dos lábios de
Renzo.
– Quero amar e aceitar você como é.
Desde os sapatos sem salto até o cereal.
Não imagina a dor no meu peito
quando me passou pela cabeça a
possibilidade de perder você. Quero lhe
dar aulas a respeito do mundo e quero
que me ensine a ser um homem
melhor. A ser o homem de que precisa.
O barulho do trovão ressoou no ar e
no coração de Esther. O estrondo
parecia combinar com a intensidade do
amor dentro do peito.
– Renzo, não seja tolo. Você já é o
homem de que preciso. Sempre foi,
desde o primeiro momento em que vi
você. Não é o homem que eu
escolheria, mas é o homem que amo. O
homem de que preciso. Eu queria
liberdade, queria conhecer o mundo
inteiro, mas acredite em mim quando
digo que nunca me senti tão livre
quanto nos seus braços. O mundo
criado por nós dois é o mundo mais
lindo que já passou pelos meus sonhos.
– Mesmo quando sou autoritário? E
insuportável?
Ela balançou a cabeça, incapaz de
reprimir o sorriso que brotava em seus
lábios.
– Mesmo assim. Porque, sabe, dr.
Valenti, o fato é que amo o senhor. E se
meu amor é correspondido, tudo mais
não passa de fachada.
– Eu amo você, Esther. O início do
nosso relacionamento pode ter sido
estranho, mas acredito que terminará
com um final muito feliz.
– Eu também, Renzo. Eu também.
EPÍLOGO

ERA INTERESSANTE sair de uma família


em que o amor sempre fora opressivo
para outra na qual o amor representava
o ar que Esther respirava.
Entretanto, depois de cinco anos ao
lado de Renzo, dos gêmeos e de dois
outros filhos, mais os sobrinhos, as
sobrinhas e os sogros, Esther nunca se
sentira mais livre. Cercada, mas livre.
Os pais de Renzo não eram as
pessoas mais fáceis de se lidar, mas
amavam o filho e os netos com uma
intensidade irresistível aos olhos de
Esther.
Ela ficara muita amiga da cunhada,
Allegra, e de Cristian, seu marido.
Haviam passado muitos jantares rindo,
satisfeitos, enquanto as crianças
brincavam.
A única preocupação de Esther era o
fato de não ser capaz de curar todas as
feridas de Renzo. Ele a amava e aos
filhos sem reservas. Entretanto, Esther
sabia que ele pensava na filha mais
velha, a filha com quem nunca pudera
conviver.
Até que um dia chegou uma carta
pelos correios. Uma carta de Samantha.
Por algum meio, ela havia descoberto
suas origens e decidido entrar em
contato com Renzo. Queria conhecer o
pai, o homem que abrira mão dela para
evitar causar problemas para a sua
família.
Para Esther, não foi difícil aceitar
Samantha na família. Nunca lhe
ocorrera fechar a porta para a filha que
significava tanto para o marido.
Entretanto, certa noite, após uma visita
de Samantha, Renzo a tomou nos
braços e a beijou.
– Obrigado. Muito obrigado por
aceitar minha filha de maneira tão
generosa. Construímos uma família
plena e sei que acrescentar mais uma
pessoa pode ser difícil.
– Não – disse, pressionando os dedos
em seus lábios. – Não é nada difícil.
Não há nada em amar você que tenha
representado uma dificuldade, e ver
você com todos os pedaços do seu
coração colados no lugar certo é o
presente mais lindo que eu poderia
receber.
Os olhos do marido cintilaram
quando se curvou para beijá-la de novo.
E, então, ele disse com voz rouca:
– O presente mais lindo que recebi
foi você. Sem você, nada disso seria
possível. Sem você, eu ainda seria um
playboy libertino que tinha tudo, menos
a única coisa de que precisava.
– Que é...
– O amor, Esther. Sem você, eu não
teria amor. E, com você, minha vida é
plena de amor.
Então ele subiu as escadas com ela no
colo e se encarregou de mostrar quão
pouco controle tinha quando estava
com ela, e o quanto a amava. E Esther
nunca duvidou – nem uma única vez –
que o amor de Renzo era
absolutamente verdadeiro e sincero.
JURA DE VINGANÇA
Cathy Williams
Ela estava subindo.
Javier nunca ficava nervoso, mas
agora tinha de confessar certo aperto no
peito diante da perspectiva de vê-la em
alguns minutos.
É claro que ele soubera, desde o
segundo que o irmão entrara em seu
escritório, que veria Sophie de novo.
No que dizia respeito a dinheiro,
orgulho era sempre o primeiro a ser
sacrificado.
E eles precisavam de dinheiro.
Muito. Na verdade, muito mais do que
Oliver falara. Assim que Oliver partira,
Javier levantara os registros da empresa
da família e descobrira que esta estava
no processo de queda livre. Mais seis
meses e, sem dúvida, iria à falência.
Ele sorriu e empurrou a cadeira para
trás, pensando em como aquele
encontro seria.
Sabia o que queria, é claro.
Isso o surpreendera, porque Javier
pensara que tinha deixado o passado
para trás, mas, aparentemente, não
tinha.
Porque, no segundo que Oliver
abrira a boca para suplicar, Javier
descobrira o que queria e como
conseguiria aquilo.
Ele a queria.
Soph era o único assunto mal
resolvido na vida dele e ele não
percebera o quanto isso o perturbara.
Até agora. Até que a oportunidade de
encerrar aquele assunto fora dada a ele
de bandeja.
Ele nunca dormira com ela.
Sophie o quisera para um breve
divertimento, talvez porque gostasse de
ver as amigas ricas com inveja porque
ela atraíra o bad boy bonitão.
Não diziam que garotas ricas e
mimadas sempre eram atraídas por
tipos mais rústicos pela excitação ilícita
que isso lhes dava?
Era evidente que elas nunca se
casariam com o tipo mais rústico. Isso
seria impensável!
Javier lembrou-se de como ela
costumava provocá-lo, com uma
mistura de inocência e sensualidade.
Ela o deixara tocá-la, mas ele não
pudera saborear a refeição completa.
Ele chegara a ponto de querer pedi-la
em casamento. Recebera a oferta de um
emprego em Nova York e a quisera ao
lado dele. Javier insinuara sua intenção,
mas havia sido muito desajeitado para
pôr todas as cartas na mesa. Todavia,
ela devia ter suspeitado que um pedido
de casamento estava implícito.
Só de pensar no quão idiota fora o
fez cerrar os dentes com raiva agora.
Ela era a única mulher que o tocara
de verdade e a única que escapara dele.
Javier forçou-se a relaxar, a respirar
devagar. Em poucos minutos, veria a
mulher que... o magoara.
A mulher que o usara para se
divertir, assegurando-se de não se
envolver, guardando-se para idiotas
riquinhos que formavam parte de seu
círculo social.
Ele estava inume a ser ferido, porque
estava mais velho e mais experiente.
Sua vida era rigidamente controlada.
Ele sabia o que queria e conseguia o
que queria, e o que queria era o tipo de
segurança financeira que seria imune a
ventos de mudança. Isso era a única
coisa que importava.
Mulheres eram um escape necessário
e Javier as apreciava, mas elas não
atrapalhavam o foco da ambição dele.
Se ele tivesse tido esse nível de
controle quando conhecera Sophie,
talvez não tivesse se apaixonado por ela.
Mas não adiantava lamentar o passado.
O passado não podia ser mudado.
O que não significava que não
poderia haver troco... Ele a sentiu
mesmo antes de ouvir a batida
hesitante à porta.
Ele dera a tarde de folga para sua
secretária. Estivera em reuniões durante
a tarde inteira, retornando ao escritório
uma hora atrás, tendo preferido ver
Sophie sem a presença da secretária por
perto.
Lançamentos do mês:

PAIXÃO 483 – DOCE TRAIÇÃO –


MAYA BLAKE
A tímida Carla Nardozzi entregou sua
inocência para Javier Santino em uma
noite de total rendição. Na manhã
seguinte, ela fugiu, sem saber que essa
rejeição marcou Javier
profundamente…

PAIXÃO ARDENTE 15 – SEGREDO


PRECIOSO – KATE HEWITT
Minissérie – Herdeiros Secretos 3/5
Alekos Demetriou proporcionou a
Iolanthe sua primeira e única noite de
prazer. Porém, ao descobrir que ela era
filha de seu inimigo, Alekos a
rejeitou… antes que Iolanthe pudesse
contar que estava grávida!

PAIXÃO GLAMOUR 15 –
DESCOBRINDO A PAIXÃO –
MICHELLE CELMER
Nick ficou hipnotizado por sua
apaixonante assistente. E o que ele mais
deseja é possuí-la outra vez. Porém,
teme estragar o único relacionamento
que significa algo em sua vida… Até
Zöe revelar um surpreendente segredo!
Próximos lançamentos:

PAIXÃO 484 – JURA DE VINGANÇA


– CATHY WILLIAMS
Quando Sophie saiu da vida do
magnata Javier Vasquez para se casar
com outro, esse poderoso milionário
jurou se vingar! E ao descobrir que ela
está desesperada para salvar sua família,
Javier oferece ajuda. Mas tudo tem um
preço.

PAIXÃO ARDENTE 16 – AMOR


ÚNICO – ANNIE WEST
Minissérie – Herdeiros Secretos 4/5
Um beijo do sheik Idris Baddour com
sua ex-amante foi divulgado por todo o
mundo. E, com ele, o precioso segredo
que a doce Arden Willis guardou por
anos foi revelado: ela tivera um filho de
Idris.

PAIXÃO GLAMOUR 16 – DOCE


AMOR – CAROLE MORTIMER
Após passar uma noite inesquecível
com sua assistente, Nick Cavendish
tentou se afastar. Contudo, livrar-se de
Hebe não seria tão fácil. Afinal, ela está
sentindo enjoos matinais…

PAIXÃO AUDÁCIA 16 – COMO


DOMAR UM SHEIK – OLIVIA
GATES
Minissérie – O orgulho de Zohayd 1/3
Ele a notou em um salão lotado. E,
naquele momento, o sheik Shaheen Aal
Shalaan a desejou. Com poucas
palavras, conseguiu levar a bela
misteriosa para a cama, onde ela
despertou paixões que haviam sido
renegadas por tempo demais.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE
LIVROS, RJ

Y36f
Maisey, Yates
Fonte de amor [recurso eletrônico] /
Maisey Yates; tradução Marie Olivier. – 1. ed. –
Rio de Janeiro: Harlequin, 2017.
recurso digital hb
Tradução de: The italian’s pregnant virgin
Formato: epub
Requisitos do sistema: adobe digital
editions
Modo de acesso: world wide web
ISBN: 978-85-398-2403-8 (recurso
eletrônico)
1. Romance americano. 2. Livros
eletrônicos. I. Olivier, Marie. II. Título.
17-39289 CDD: 813
CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM


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Todos os direitos reservados. Proibidos a
reprodução, o armazenamento ou a
transmissão, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou
mortas é mera coincidência.
Título original: THE ITALIAN’S PREGNANT
VIRGIN
Copyright © 2016 by Maisey Yates
Originalmente publicado em 2017 por Mills &
Boon Modern Romance
Publisher: Omar de Souza
Editora: Juliana Nóvoa
Assistente editorial: Tábata Mendes
Arte-final de capa:
Isabelle Paiva
Produção do arquivo eBook: Ranna Studio
Editora HR Ltda.
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