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Francisco e a Irmã Soja

Teatro: Para ser lido ou representado.


Personagens: Francisco de Assis, Soja, Filipe, João e Maria.

FRANCISCO: Paz e bem, irmãos. Hoje estou na Argentina. A minha vista perde-se na
imensidão destas planícies. Tudo verde e muito bem plantado... Magnífico!
SOJA: Não é tão bonito assim, Francisco. Não te iludas.
FRANCISCO: Quem és tu, que nunca te vi?
SOJA: Sou a soja. Nasci e vivia tranquila na China e no Japão. Trouxeram-me para
aqui. Semeiam-me por toda a América.
FRANCISCO: Porque dizes que estas culturas não são magníficas?
SOJA: Porque me aborreço, Francisco. Há uns anos, eu crescia na fazenda do Sr. Felipe,
um agricultor que teve de ir-se daqui. Ele semeava cevada, cenouras... Havia, até, erva-
mate para alegrar o coração, e comida abundante. As vacas pastavam. Vinham famílias
e preparavam churrascos. Era muito divertido.
FRANCISCO: E agora?
SOJA: Estamos sozinhas e cansadas. Milhões de plantas de soja. Todas iguais, todas
repetidas... Uma monotonia! Um problema!
FRANCISCO: Como se chegou a esta situação?
SOJA: Foi a ambição. Os novos fazendeiros põem o dinheiro acima das pessoas, acima
da Natureza. Escuta o meu patrão.
FELIPE: Vieram umas pessoas… Eram de uma empresa. Disseram-nos que, se
queríamos ganhar muito dinheiro, que semeássemos soja. Asseguraram que comprariam
a colheita. Convenceram-me. Depois, concederam-me um crédito para a soja. Com
juros, claro. A seguir, tudo correu mal... Tinha de comprar os fertilizantes deles, os
inseticidas... E nunca consegui pagar-lhes... Por fim, tive de lhes vender as minhas
terras...
SOJA: É isso que fazem, Francisco. Para ganhar mais e mais, plantam só uma coisa.
Chamam a isso monocultura. Um campo imenso com soja, só soja.
FRANCISCO: A criação de Deus não trabalha assim. Deus sabe de sobra que é na
variedade que está a beleza e a utilidade.
SOJA: Com a monocultura, adoecemos, porque não há outros cultivos que afastem as
pragas; necessitamos de adubos químicos, porque não há vacas; e de pesticidas, porque
não há insetos. Encharcam-nos de venenos. A terra fica exausta, seca, e nós também.
FRANCISCO: Que barulho é este?
SOJA: Tapa o nariz... É um avião que está a pulverizar com um veneno terrível... Foge!
FRANCISCO: Uff! Já se foi embora. Ao menos, sobra-te o consolo de alimentares
muitos filhos de Deus.
JOÃO: Não, Francisco. A maior parte da soja destina-se aos animais e, recentemente,
com o seu óleo, fazem-se combustíveis: o biodiesel e o etanol...
MARIA: Como o petróleo está caro, decidiram recorrer aos biocombustíveis à base de
soja, palma africana, milho, cana-de-açúcar…
FILIPE: E o problema é que há tantos automóveis no mundo que para alimentá-los
precisam de terras e mais terras...
MARIA: Mais terras para alimentar motores significa menos terras para alimentar
pessoas.
JOÃO: E os alimentos sobem de preço, causando fome e convulsões sociais.
FILIPE: Entretanto, planícies e florestas transformam-se em desertos verdes e, depois,
dourados, de monoculturas de soja. E os agricultores, como eu, tornamo-nos ninguém
nas cidades para onde temos de migrar…
FRANCISCO: «Quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de
Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para
a mudança climática, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as
suas zonas húmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar... tudo
isso é pecado. Porque um crime contra a Natureza é um crime contra nós mesmos e um
pecado contra Deus» (Laudato Si’, 20).