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Francisco e o irmão mar

Teatro: Para ser lido ou representado.


Personagens: Francisco de Assis, Mar, João e Maria

FRANCISCO: Paz e bem, irmãos. Já viajei pelo Norte e Sul do mundo. Já conheci vários
países. Estou a cumprir a missão que me foi confiada pelo Papa Francisco: ver de perto
como os seres humanos estão a construir ou a destruir o futuro do mundo. É um desafio
que já me trouxe rugas e cabelos brancos. Ai, quantos problemas!
MAR: Posso falar contigo?
FRANCISCO: Sim, claro.
MAR: É muito urgente!
FRANCISCO: Compreendo. Já ouvi criaturas que te habitam, como as pescadas e o
congro. Todas me contaram as suas aflições.
MAR: O que te quero dizer é ainda mais grave. Eu concordo que chamem Casa Comum
à Mãe Terra, mas preocupa-me que se esqueçam que essa mãe está rodeada pelo Pai Mar.
Isto é, por mim, um mar colossal, imenso…
FRANCISCO: É verdade que o meu olhar perde-se no horizonte sem fim das tuas águas.
És realmente imenso.
MAR: É aí que está o perigo. Sou grande e poderoso. E não quero crescer mais.
FRANCISCO: E quem te obriga a crescer?
MAR: A doença de que padeço: tenho febre, azia, estou a inchar.
JOÃO: Se a temperatura da Terra continuar a aumentar, a catástrofe será irremediável.
MARIA: A doença da Mãe Terra é também a do Pai Mar, e a de todos os seres vivos.
Chama-se poluição, efeito de estufa e alterações climáticas.
MAR: Esta é uma peste recente, que não foram ratos nem insectos que a causaram. Foram
os humanos quando encheram o mundo de gases muito quentes.
FRANCISCO: A irmã Chuva já me explicou que esses gases saem das chaminés, dos
escapes dos carros...
MAR: Ai. Esses gases sufocam-me, não me deixam respirar. O mar também respira,
sabiam? Ora, os gases dão-me febre. E, quando a minha água aquece, expande-se, e eu
ocupo mais espaço. E para piorar...
FRANCISCO: Piorar? Mais ainda?
MAR: Os gelos glaciares dos polos e das cordilheiras estão a derreter e toda essa água
doce desagua em mim. Assim, eu cresço ainda mais. Subo, subo como uma maré sem
controlo. Ai, ai! Vão transformar-me num assassino em série. Alagarei os litorais, farei
desaparecer cidades costeiras, acabarei com países, sobretudo os insulares.
JOÃO: Um de cada quatro habitantes da Terra vive junto do mar.
MARIA: A maioria das cidades está situada no litoral.
JOÃO: Se a temperatura do planeta sobe mais de dois graus…
MARIA: Haverá ondas de calor asfixiantes.
JOÃO: Desencadear-se-ão furacões de extrema violência.
MARIA: Inundar-se-ão cidades litorais de todo o mundo.
JOÃO: Se sobe três graus...
MARIA: A Amazónia converte-se num deserto.
JOÃO: Cidades inteiras ficarão sem uma gota de água para beber.
MARIA: E se sobe quatro graus…
JOÃO: Desaparecem os polos, transbordam os oceanos.
MARIA: Morre a metade das espécies do mundo.
JOÃO: E se sobe cinco graus…
MARIA: Desaparece a espécie humana e quase não sobrará vida na Terra.
FRANCISCO: Não quero ouvir mais, irmãos. Temos de fazer algo e rápido. Temos de
mudar!