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Mestrado: Engenharia Geológica

Disciplina: Geoquímica Aplicada


Prof. Dr. Eduardo Anselmo Ferreira da Silva

Ano Letivo: 2017-2018

Atividade mineira e o impacto ambiental da


exploração de sulfuretos.

Deborah Horta Arduin nº 86488


Índice
1. Resumo ................................................................................................................................ 3

2. Introdução............................................................................................................................ 3

3. Efeitos das atividades mineiras ........................................................................................... 5

4. Minerais Neoformados ...................................................................................................... 10

5. Impactos no ecossistema e na saúde humana .................................................................... 12

6. Referências Bibliográficas ................................................................................................ 16


1. Resumo

Desde a Idade do Bronze, o homem através da mineração passou a explorar metais associados
a sulfuretos na Península Ibérica. Portugal encontra parte de seu território inserido na Faixa
Piritosa Ibérica (FPI), província metalogenética de sulfuretos maciços que vem sendo explorada
a mais de 500 anos. Por se tratar de minerais cuja gênese está associada a condições redutoras,
a exploração dos sulfuretos acaba por expô-los a condições oxidantes, retirando-os de seu
equilíbrio e provocando alterações no ambiente, por vezes nocivas. O presente trabalho tem
como objetivo apresentar os principais impactos ambientais decorrentes da mineração de
sulfuretos. Pretende-se expor como os sulfuretos se comportam mediante a novas condições
físico químicas da água, sedimento e solos. Por fim, pretende-se apresentar os efeitos dos
efluentes oriundos da mineração dos sulfuretos e como estes interagem com a biota.

2. Introdução

A atividade mineira resulta em uma série de riscos para o ambiente e para a saúde humana. Pino
(2002) define que o risco para a indústria está relacionado com a característica física ou química
de um material, processo ou instalação, que apresentem o potencial de causar danos ao ambiente
e às pessoas.

A mineração desde seus primórdios implica em remover o material rochoso, retirando-o de seu
estado de equilíbrio e promovendo a instabilidade. Dentre os principais riscos inerentes a esta
atividade, podemos citar os impactos ambientais durante e após o encerramento das mesmas.
Os efeitos sobre o sedimento, solo e a água, não apenas na escala local da exploração, mas
também nos arredores.

A exploração de sulfuretos em Portugal remete a altura dos Fenícios e Cartaginenses, passando


pelos Romanos, com a exploração da Faixa Piritosa Ibérica (FPI). Esta província
metalogenética ocupa uma grande área da Península Ibérica, onde se encontram numerosos
jazigos de sulfuretos maciços polimetálicos associados às rochas vulcanossedimentares
(Martins e Carvalho, 2007).

Os impactos ambientais oriundos da mineração remetem a Idade do Bronze. A partir do


momento em que os depósitos de cobre foram explorados para fabricar o Bronze, perturbando
os depósitos de sulfuretos e iniciando a contaminação por drenagens de mina. Estes primeiros
episódios de contaminação encontram-se documentados no livro De Re Metallica de Agrícola
(1555) (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

Ao longo de muitos anos, diversas minas foram abertas e encerradas. Durante suas atividades,
o impacto decorrente da extração e do processamento do minério resulta em perturbações
sonoras e atmosféricas para além de modificações da paisagem e da morfologia. A perda de
solo, alteração da qualidade da água, perda de vegetação e as modificações na rede de
drenagem, constituição de barragens de lama e a constituição das escombreiras levam a diversos
impactos, como por exemplo o aumento do risco do desprendimento de taludes, como cita
Gonçalves (2012).

Entretanto, no passado, as minas e as escombreiras não recebiam nenhum tratamento para evitar
impactos ambientais durante e após a extração dos sulfuretos. Ao longo da FPI existem mais
de 90 jazigos de exploração de sulfuretos. Segundo Barriga et al (1997) citado em Martins e
Carvalho (2007), estima-se que esta província metalogenética apresente reservas da ordem de
1700 milhões de toneladas de sulfuretos, sendo que 20% já foi explorada desde a pré-história e
10 a 15% pode ter sido perdida por erosão.

O Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação (INETI) no âmbito do projeto.


Avaliação de Riscos Ambientais para Reabilitação de Minas Abandonadas que teve inicio em
1998 pelo então Instituto Geológico Mineiro, executou em sua primeira etapa a identificação e
caracterização do passivo mineiro nacional. O trabalho de Oliveira et al (2002), indica a
ocorrência de DAM ao longo das minas da FPI com uma abordagem de classificação de graus
de risco e diagnóstico preliminar.

Atualmente, considerando que a atividade mineira é essencial para o nosso modo de vida,
considera-se que a exploração deve ser feita de forma sustentável, minimizando os impactos.
Desta forma, de acordo com a EUROLAT – Resolução de 5 de junho de 2015 – Bruxelas
(Bélgica)1, a exploração mineira deve ser executada juntamente com medidas de precaução, de
mitigação e descontaminação. A legislação de cada país deve ser responsável e transparente,
com o intuito de evitar que a concentração de elementos poluentes exceda os níveis máximos
estabelecidos.

1
http://www.europarl.europa.eu/intcoop/eurolat/assembly/plenary_sessions/brussels_2015/mining_pt.pdf
3. Efeitos das atividades mineiras

Younger e Wolkersdorfer, (2004) assinalam que a atividade mineira produz impacto durante a
extração, processamento e disposição nas barragens e escombreiras, alterações no freático por
remoção da água em minas subterrâneas e no alagamento de áreas mineradas e descontrole de
efluentes.

O ato da mineração altera o regime hidrológico em escala local, tanto em minas subterrâneas
como em minas a céu aberto. A própria abertura da frente de lavra acaba por recondicionar o
fluxo de água, seja este em superfície como subterrâneo (Younger et al., 2004).

O impacto da mineração nas águas e no meio é significativo ao longo do processo de tratamento


e disposição do minério. As barragens de rejeito têm a sua construção concomitante ao processo
de mineração, conforme faz-se necessário aumentar a sua capacidade. Esta barragem é
dimensionada para receber a mistura de rocha cominuída com os fluidos do processo de
beneficiamento do minério. Desta forma, seus constituintes variam tanto em forma e
granulometria como em composição química, uma vez que esta varia consoante a composição
da rocha de origem e dos reagentes utilizados no tratamento do minério (Cardozo, Pimenta e
Zingano, 2016). Estas barragens podem apresentar infiltrações, contaminando o freático e em
casos mais graves, podem se romper, contaminando cursos d´água e afetando o ecossistema de
forma mais agressiva, como o caso da rotura da barragem de rejeitos da mineradora Samarco,
pertencente à Vale, no distrito de Itabirito, em Minas Gerais, Brasil.

Outra forma de disposição de resíduos mineiros são as escombreiras. As escombreiras são


produto de atividade mineira passada e que podem ter contribuído ou ainda contribuem
ativamente para a contaminação do sistema em que se encontra inserida. No caso da exploração
de sulfuretos, estes resíduos são compostos pelos estéreis e sulfuretos que não foram explorados
na altura de sua remoção. Assim os estéreis e os sulfuretos ficam expostos às ações da
meteorização, além deste serem fontes de acúmulo de metais pesados e de substâncias que
foram utilizadas no tratamento do minério (Gonçalves, 2012).

Ao se explorar um minério, a atividade de retirada do minério juntamente com a sua rocha


encaixante faz com que as rochas, dantes sob suas condições de equilíbrio, sejam expostas a
novas condições de temperatura, pressão e meteorização. Desta forma, os minerais constituintes
das rochas passam a ser instáveis, podendo ser mobilizados para outras fases.
No caso dos sulfuretos, como estes são formados em condições redutoras, a interação com o
oxigênio do ar e a água leva a sua hidrólise e oxidação. Observa-se também a ocorrência de
drenagem ácida resultantes da interação da água da chuva com a rocha, de forma natural,
denominada Drenagem Ácida de Rocha (DAR). Porém, nas paredes das minas subterrâneas ou
de superfície, o escoamento e percolação da água da chuva podem resultar na oxidação dos
sulfuretos com resíduos ácidos (De Mello, Duarte e Ladeira, 2014).

Além da DAM e DAR, os sulfuretos podem dar origem à Drenagem Neutra de Mina (DMN),
quando a alcalinidade total iguala o excede a acidez total, a depender de fatores que serão
apresentados a posteriori.

O abandono de minas subterrâneas de sulfuretos também pode conduzir a contaminação da


água subterrânea a partir da formação de drenagens ácidas. As galerias abandonadas se alagam
e o nível freático pode se reestabelecer, contaminando a água pela meteorização dos sulfuretos
por oscilação do freático (Gonçalves, 2012).

Outro impacto decorrente da mineração ocorre no freático devido ao bombeamento da água


subterrânea para que haja segurança na exploração da mina. O bombeamento causa mudanças
no fluxo de água da região, conduzindo ao rebaixamento do freático. A depender da área
bombeada o impacto oriundo deste rebaixamento pode chegar a 2500 Km2 ao redor da zona
que foi bombeada, para além do impacto no local em que esta água removida for colocada
(principalmente se esta for salina) (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

Segundo Younger e Wolkersdorfer, (2004), o rebaixamento do freático leva a uma alteração no


fluxo de água subterrâneo, podendo conduzir a mudanças nas zonas de recargas e afetar o fluxo
em superfície. A remoção da água pode afetar atividades económicas, como a agricultura e
também o abastecimento de água se este for feito por poços artesianos, por exemplo.

Os impactos também se estendem após o fim das atividades mineiras. Quando se encerra uma
mina e não se executa mais o bombeamento, ocorre uma retomada do nível freático para o nível
de base atual (denominado rebound). Tanto em minas subterrâneas como em explorações a céu
aberto, esta água acaba por alagar as regiões, podendo afetar a qualidade das águas
principalmente por remobilizar sedimentos que foram soltos ao longo dos processos de
escavação, promovendo a ocorrência de fluxos de água subterrâneos salinos. Estes fluxos
salinos podem entrar em contato com a água fresca, conduzindo a uma alteração nas condições
físico-químicas do meio. Esta nova água após a mistura pode proporcionar condições para que
haja a meteorização de minerais antes estáveis, disponibilizando elementos químicos como
metais ecotóxicos para o meio (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

No caso específico dos sulfuretos, a ação do ar e da água que promovem a sua hidrólise e
oxidação. Estas reações resultam na liberação dos catiões dos sulfuretos para o meio aquoso,
normalmente os metais Fe2+, Pb2+ , Zn2+, Cu2+, Ni2+ e As como metaloide, além dos iões sulfato
(SO42-) e de H+ (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

Nos tópicos a seguir serão abordados os dois tipos de efluentes mais comuns resultantes da
mineração de sulfuretos, a saber a Drenagem Ácida de Mina e a Drenagem Neutra de Mina.

3.1. Drenagem Ácida de Mina (DAM)

A DAM é usualmente caracterizada por apresentar baixos valores de pH (< 3,5), altas
concentrações de sulfato (até 2000 mg L-1) e na liberação dos catiões metálicos em
concentrações superiores àquelas normalmente encontradas em ambientes naturais. Entretanto
as características químicas da DAM variam consoante as características geoquímicas do
depósito que a originou (De Mello, Duarte e Ladeira, 2014).

Ao entrar em contacto com a água superficial e subterrânea do local, a DAM interage com a
composição desta água, alterando o meio. Os catiões metálicos liberados normalmente
precipitam como hidróxidos, sulfetos, sulfatos ou carbonatos, a depender das características do
novo ambiente geoquímico, tornando-se relativamente imóveis sob condições normais (De
Mello, Duarte e Ladeira, 2014).

A acidez da drenagem resultante da alteração do sulfureto depende da natureza do minério e da


sua resistência a hidrólise. Os sulfuretos de ferro 2+ são os principais contribuintes da hidrólise
ácida, segundo as equações extraídas de De Mello, Duarte e Ladeira, (2014):

FeS2 (s) + 7/2 O2(g) + H2O(aq)→ Fe2+ (aq) + 2SO4 2− (aq) + 2H+ (aq) (1)

Fe2+ (aq) + 1/4O2 (g) + H+ (aq)→ Fe3+ (aq) + 1/2H2O(aq) (2)

Fe3+ (aq) + 3H2O(aq) → Fe(OH) 3(s) + 3H+ (aq) (3)


A equação (1) representa a hidrólise do ferro, a equação (2) a oxidação do ferro 2+ para ferro
3+, e por fim, a hidrólise do ferro 3+ é descrita na equação (3). A reação representada pela
equação 2 é limitante no processo da formação da drenagem ácida, pois a meia vida do Fe2+ em
meio abiótico é de 1100 dias (De Mello, Duarte e Ladeira, 2014).

De Mello, Duarte e Ladeira (2014) indica que a presença de bactérias que ocorrem naturalmente
em corpos d´água denominadas Acidithiobacilus thiooxidans, capaz de oxidar o enxofre, e
Acidithiobacilus ferroxidans, capaz de oxidar o ferro aceleram as reações de oxidação,
reduzindo o tempo de meia vida acelerando a acidificação do meio.

Em locais onde o pH é inferior a 2,3, a hidrólise do Fe3+ acaba por não ocorrer, e a sua presença
em meio aquoso resulta na oxidação da pirite, descrita na equação (4), ou ainda de outros
sulfuretos que antes não resultavam em uma drenagem ácida:

FeS2(s) + 14Fe3+ (aq) + 8H2O(aq) →15Fe2+ (aq) + 2SO4 2- (aq) + 16H+ (aq) (4)

Em condições anóxicas, também pode ocorrer a acidificação do meio a partir das reações de
semioxidação da pirite na presença de água,

através do processo eletroquímico explicitado na equação (5), que pode ocorrer juntamente com
a redução da pirite (6):

FeS2(s) + 8 H2O(aq)→ Fe2+ (aq) + 2 SO42- (aq) + 16 H+ (aq) + 14 e- (5)

FeS2(s)→ Fe2+ (aq) + 2 S0 (s) + 2 e- (6)

Para além dos efeitos da DAM, Gonçalves (2012) destaca que as escombreiras podem ser fonte
de contaminantes disseminados por outros agentes, como os ventos e a gravidade. A ocorrência
de erosões e deslizamentos de massa podem vir a conduzir o material potencialmente
contaminante das escombreiras tanto para as linhas d´água adjacente como para os terrenos
situados ao redor.

Assim como a ação das bactérias supracitadas, Santos (2008) aponta outros fatores que
controlam a ocorrência da DAM:
• Forma da Pirite: a forma do mineral, sua superfície específica e dimensão da fração
(granulometria) influenciam na cinética das reações de oxidação. Estudos de McKibben
e Barnes (1986) citado em Santos (2008) indicam que a velocidade de reação é maior
quando a granulometria é menor, uma vez que se expõe uma maior superfície específica
da pirite. Desta forma, a ocorrência da DAM está associada a frações inferiores a
0.25mm, o que justifica a sua concentração nas linhas d´água adjacentes e não junto das
frações grosseiras nas escombreiras.

• pH: o pH do meio influencia na solubilidade das fases minerais em água e


consequentemente na mobilidade dos iões metálicos. O pH entre 4 e 7 leva a menores
velocidades de reação de oxidação.

• Oxigênio: apesar da oxidação da pirite ser mais rápida com a presença do Fe3+, a
presença de oxigênio (meio oxidante) é imprescindível para que haja a formação da
drenagem ácida, mesmo porque é necessária a oxidação do ferro 2+ para formar o ferro
3+. A fonte de oxigênio necessária está na da água presente no solo e nos aquíferos.
Desta forma, a pirite é oxidada também nas zonas não saturadas.

• Temperatura: com exceção da oxidação em meio biótico, a velocidade da reação de


oxidação depende da temperatura, como define a equação de Arrhenius.

• Presença de outros sulfuretos: a presença de outros sulfuretos afetam o processo de


meteorização, pois nem sempre produzem iões H+ livres. Entretanto pode haver a
formação de sulfatos e libertação de iões metálicos para a solução, conforme a equação
7:

Metal + O2 -> M2+ + SO42- (7)

Portanto nem toda hidrólise de um sulfureto é ácida. Sulfuretos como a galena (PbS), a esfalerite
(ZnS) e a calcocite (CuS) não sofrem oxidação ácida. Em contrapartida, a hidrólise da pirite e
a marcassite (FeS2) principalmente, e em menor escala a pirrotite (FeS), a arsenopirite (AsFeS)
e calcopirite (CuFeS2) resultam na acidificação do meio (De Mello, Duarte e Ladeira, 2014).

Segundo Younger e Wolkersdorfer, (2004) a DAM e o consequente acidificação do meio, para


além de promover a formação de minerais secundários, leva a dissolução de outros minerais,
uma vez que modifica a mobilidade dos metais no meio. Os baixos pHs podem levar a
destruição de argilominerais, disponibilizando Al3+ para o meio.

3.2. Drenagem Neutra de Mina (DNM)

Segundo Santos (2008), existem diversos estudos de drenagens alcalinas e neutras associadas a
mineração de sulfuretos e ou minérios associados a sulfuretos, como é o caso do carvão.

Esta condição físico-química de caráter neutro a alcalino podem se dar devido a uma série de
fatores, a saber: baixa concentração dos sulfuretos, presença de monossulfuretos, baixa taxa de
oxidação devido ao tamanho maior da pirite (que acaba por reduzir sua superfície específica),
neutralização natural da drenagem devido a presença de carbonatos e silicatos, fatores de
engenharia (como por exemplo a existência de construções nos arredores que possam introduzir
cal no sistema), neutralização por água naturais alcalinas (o que depende do tempo de
residência), presença de barreiras impermeáveis que impedem o contato das águas com os
sulfuretos, bem como condições redutoras do meio (Santos, 2008).

O que ocorre é uma reação de neutralização da acidez livre, ou seja, os iões H+ presentes na
água são neutralizados. Desta forma, a água ácida produzida pela meteorização dos sulfuretos
sofre uma elevação no pH quanto entra em contato com os carbonatos. A reação da dissolução
da calcite consome iões H+ e liberta cálcio e hidrogênio para o meio:

CaCO3(s) + H+ > Ca2+(aq) +H2CO3(aq)

A reação de neutralização dos H+ através do carbonato de cálcio depende do pH do meio, pois


em condições mais alcalinas não se forma o gás carbónico, mas sim ácido carbônico. Se o pH
do meio for igual ou superior a 6,3, forma-se HCO3- e são necessários 4 moles de calcite para
neutralizar um mole de pirite. Se o pH for próximo de 5, a reação é capaz de produzir CO2(g)
e são necessários 2 moles de calcite para neutralizar um mole de pirite.

4. Minerais Neoformados

A drenagem ácida de mina leva a uma mudança físico química do meio que por sua vez pode
levar a ocorrência de novas reações, sejam estas de hidrólise, oxidação, dissolução, precipitação
e recristalizações. Assim, a DAM permite a formação de novos minerais a partir dos elementos
disponíveis no meio que antes encontravam-se diluídos e agora encontram novas condições de
equilíbrio no meio para se precipitar. Dentre os minerais secundários mais comuns associados
às DAM são os óxidos e hidróxidos, dentre os quais pode-se citar a jarosite, a rasnbekite,
melanterite e schwertmannite, copiapite, coquimbite, goethite e alunite (Santos, 2008).

Desta forma, os sulfatos permanecem na água e a maios parte dos metais é capturada dando
origem aos minerais neoformados. Os sulfatos podem estar presentes nas águas em altas
concentrações molares, sendo esta até dez vezes superiores à concentração dos metais sem gerar
maiores danos. Entretanto, apesar dos neoformados chegarem a capturar cerca de 90% dos
metais, parte permanece disponível no meio aquoso, sendo suficiente para gerar danos a peixes
e invertebrados que venham a receber esta drenagem ácida (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

Deve-se considerar também a ocorrência destes metais como colóides e como óxidos
metaestáveis (Antelo et al., 2013). Da mesma forma que estes novos minerais se formaram, se
as condições físico-químicas do meio se modificarem, podem diluir e libertar os metais
aprisionados. Alterações do freático, bem como o comum alagamento de antigas áreas de
mineração levam a uma libertação maciça de metais para o meio, sendo uma fonte
contaminação da água (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

Um exemplo é a formação da schwertmannite como mineral secundário em DAM, que na


presença de matéria orgânica dissolvida, de Fe 2+, e pH ácido, ou ainda concentração de ácido
silícico é instável. Ou seja, sob estas condições, a schwertmannite caba por libertar Fe e Cr para
o meio (Antelo et al., 2013). O Crómio é um elemento traço encontrado em solos e sedimentos
que, em sua forma oxidada, pode ser mutagénico e carcinogénico (Xie, 2017)

Na schwertmannite, o crómio encontra-se na estrutura cristalina e em complexos. Após sua


remobilização, parte do Cr é reaprisionado na goethite por adsorção e complexação, caso as
condições do meio sejam óxidas e permitam a sua neoformação. Esta reação ocorre em
ambientes contaminados em cerca de 100 dias. Entretanto, parte do Crómio permanece
disponível no meio (Antelo et al., 2013, Yingying Xie, 2017).

A capacidade de complexação e ativação da schwertmannite vem sendo estudada, com o intuito


de aplicar e melhorar a sua capacidade de reter temporariamente metais. Isto porque apresenta
afinidade para catiões de metais pesados, por arsenato, molibidato e outros oxi-aniões. Desta
forma, pretende-se aplica-lo na remediação de áreas contaminadas por DAM (Antelo et al.,
2013).

5. Impactos no ecossistema e na saúde humana

O pH ácido por si acaba por não prejudicar diretamente a fauna existente nas drenagens, mas a
persistência e a biodisponibilidade dos metais contribuem para a sua toxicicidade. Define-se
toxicicidade como a capacidade inerente do agente tóxico de provocar efeitos nocivos em
organismos vivos.

De acordo com Younger e Wolkersdorfer (2004), o pH ácido pode vir a tornar tóxicos metais
que não o são em pHs neutros e alcalinos. Para além da presença do metal na água, este só pode
ser considerado tóxico quando se encontra biodisponível. Define-se como biodisponibilidade a
fração da concentração total de um metal no meio (seja este a água, solo ou sedimento) que se
encontra disponível ou acessível para qualquer organismo receptor (Reichman, 2002. De acordo
com as condições físico-químicas do meio, o metal irá se concentrar na água, no solo ou no
sedimento, afetando a biota de forma distinta.

A persistência de um poluente no meio é a capacidade que este apresenta de se concentrar com


o tempo e de aumentar a sua concentração conforme recebe novos inputs. Desta forma, a
persistência do metal depende de sua capacidade de fazer complexações, mineralizações e
precipitações (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

Normalmente, iões metálicos não se encontram na coluna d´água, mas sim nos sedimentos e no
material particulado. Sob condições anóxicas os metais são imobilizados sob a forma de
sulfuretos, podendo se depositar juntamente com os sedimentos, minimizando a sua
biodisponibilidade. Desta forma, as condições físico químicas da água como pH, oxigênio
dissolvido, temperatura controlam tanto a solubilidade dos metais quanto a sua toxicidade para
o meio (Younger e Wolkersdorfer, 2004). Outros fatores como a matéria-orgânica dissolvida
MOD influencia na estabilidade de minerais, e também pode vir a afetar a mobilidade e a
toxicidade de metais pesados, através de reações de redução e complexação (Yingying Xie,
2017).

No caso dos sulfuretos, provenientes muitas vezes da exploração de depósitos polimetálicos, a


contaminação contém diversos metais em solução e a toxicidade dos mesmos é mensurada de
forma a considerar o peso do efeito de cada metal. Normalmente, a toxicidade é expressa em
TU (toxic unit) que é a medida da concentração do elemento a dividir pela LC 50 (50% da sua
concentração letal) (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

De acordo com Souza (2012), os efluentes mineiros contêm uma mistura de silicatos, óxidos e
carbonatos em suspensão, que podem afetar a biota e a qualidade da água. A própria presença
dos minerais em suspensão acaba por inibir a entrada e de luz e prejudicam a oxigenação do
meio. O pH do meio é comumente alterado, o que influencia o sistema enzimáticos dos vegetais
e restringindo a sobrevivência da biota aquática, a qual por maioria têm como condição ideal
de desenvolvimento pHs próximos ao neutro.

Para além das alterações nas condições físico-química das águas, os efluentes mineiros
apresentam contaminantes. Entende-se por contaminante as substâncias introduzidas no meio
em concentrações que causem danos a flora, fauna e ao homem. Souza (2012) afirma que os
contaminantes mais comuns neste tipo de efluente são o sulfato, o manganês, o ferro e o
alumínio.

Os metais disponíveis em ambientes aquáticos afetam diversas funções dentro dos


ecossistemas, dentre as quais pode-se citar a produtividade primária, a ciclagem de nutrientes,
o fluxo de energia bem como a decomposição (Kiffney e Clements, 2003 citado em Younger e
Wolkersdorfer, 2004).

O sulfato torna-se prejudicial à saúde humana em concentrações superiores a 250 mg/L,


podendo ocasionar problemas gastrointestinais. O manganês precipita apenas em pH superior
a 10, sendo assim um elemento persistente que pode vir a ser transportado para grandes
distâncias. Concentrações superiores a 400 mg/L são indesejáveis (Souza, 2012).

O ferro é encontrado nos efluentes mineiros em concentrações entre 3 a 200 mg/L, sendo
encontrado tanto no seu estado oxidado como reduzido. O ferro pode vir a se concentrar nas
membranas das guelras dos peixes, levando-os a morte por asfixia (Hedin, 2006 citado em
Souza 2012).

Já o alumínio sob condições ácidas, o alumínio pode se depositar como óxido ou hidróxido de
alumínio que, da mesma forma que os óxidos e hidróxidos de ferro, podem comprometer o
desenvolvimento da vida junto ao substrato, por se depositarem como uma película (Souza,
2012).

Ocre é o nome que se dá a película de óxido e hidróxido de ferro que se deposita junto ao
substrato, sendo nociva às algas e aos invertebrados bentónicos e, mesmo quando o ocre
permanece em suspensão, os sólidos em suspensão afetam a biota, uma vez que conferem
turbidez à água e prejudicam a entrada de luz e consequentemente a produtividade primária,
inibindo a fotossíntese (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

Além de aumentar a turbidez, os sedimentos em suspensão nestes efluentes agem diretamente


sobre a biota, ao se depositarem sobre as guelras e danificarem os tecidos, reduzido a sua
expectativa de vida e os deixando mais suscetíveis a outras doenças (Younger e Wolkersdorfer,
2004).

Apesar do alumínio ser um elemento pouco tóxico para o homem, visto que a sua absorção pelo
corpo humano é restringida por ação dos nossos intestinos, o alumínio é extremamente tóxico
para os peixes, invertebrados e plantas. Em pHs alcalinos, o alumínio normalmente encontra-
se sob a forma de hidróxido de alumínio, e pode ser considerado relativamente imóvel.
Entretanto estes óxidos e hidróxidos podem atuar como adsorventes naturais de metais
ecotóxicos principalmente em pHs entre 4,5 e 8 (Younger e Wolkersdorfer, 2004).

Dentre os metais pesados comumente associados às águas de mina são o zinco, o cádmio, o
níquel e o cobre. Os metais pesados são extremamente tóxicos, se concentrando principalmente
nos sedimentos e nas algas e macrófitas. As algas ao serem ingeridas pelos peixes e
invertebrados bentónicos, fazem com que os metais pesados se acumulem nos tecidos
musculares e hepáticos dos animais, levando-os a morte (Souza, 2012).

Os metais pesados são normalmente associados aos sedimentos. Desta forma, os metais pesados
tendem a se concentrar no fundo de lagoas de mina ou em corpos d´água com a alta taxa de
sedimentação. O fato dos metais pesados se acumularem junto aos sedimentos pode ser visto
inicialmente como um armazenador destes componentes. Entretanto, caso o sedimento de fundo
seja remobilizado, pode contribuir ativamente para tornar disponível novamente os metais
pesados para o ambiente, mesmo que estes tenham disso depositados muitos anos antes (Miles
e Harris, 1971 citado em Younger e Wolkersdorfer, 2004).

A remobilização de metais pesados dos sedimentos pode ocorrer por ação do homem, através
de dragagens por exemplo, ou ainda naturalmente. No caso de ambientes de planícies de
inundação, por exemplo, episódios de tempestade poder vir a remobilizar estes sedimentos
(Younger e Wolkersdorfer, 2004).

No solo, os problemas ambientais resultantes das escombreiras refletem-se na contaminação e


perda de solo arável. O efluente ácido acaba por acidificar o solo, podendo haver também a
contaminação do mesmo por metais pesados oriundos dos efluentes ácidos ou ainda das poeiras
contendo sulfuretos (Simões, 2012).

Os efluentes mineiros influenciam o pH do solo, o que reflete por sua vez na disponibilidade
de nutrientes para as plantas e a atividade microbiana. Para além deste efeito físico-químico, a
presença de metais, metaloides e elementos traços no efluente mineiro podem vir a ser
contaminantes desde que estejam biodisponíveis (Simões, 2012).

Os metais podem estar no solo como óxidos, hidróxidos, colóides, adsorvidos em minerais
argilosos e na matéria orgânica, apara além de metais solúveis disponíveis para as plantas. O
pH exerce um grande efeito na biodisponibilidade dos metais, uma vez que é o fator que
condiciona a solubilidade, adsorção e trocas em fases sólidas no solo, principalmente na
capacidade de troca catónica dos minerais argilosos. Entretanto, outros fatores como os teores
de matéria orgânica e o potencial de oxidação e redução também exercem controle sobre as
fases minerais que os metais particionam no solo (Reichman, 2002).

O Cobre, Ferro, Manganês, Molibdénio, Zinco, e Níquel são elementos traços encontrados nos
solos que são importantes para o desenvolvimento vegetal denominados de micronutrientes
essenciais. No solo, estes elementos encontram-se como iões livres ou disponíveis, ou ainda
sob a forma de óxidos, carbonatos e hidróxidos (Simões, 2012).

A mobilidade e disponibilidade dos elementos traço no solo, a exemplo dos metais, é


condicionada pelos fatores físico químicos como pH, potencial redox, capacidade de troca
catiónica e outros fatores como teor de matéria orgânica, tipos de minerais de argila presentes
no solo, textura, flora microbiana, natureza dos óxidos e hidróxidos de Fe, Mn e Al, a
concentração de sais e de agentes complexantes e o teor em catiões e aniões da solução do solo,
entre outros fatores (Simões, 2012).

A atividade mineira é uma das fontes antropogênicas de input de metais pesados no solo, para
além das atividades industriais e dos pesticidas na agricultura. Desta forma, estes metais
pesados podem ser encontrados no solo e podem gerar problemas no desenvolvimento vegetal
ou ainda serem transferidos para a cadeia alimentar caso o elemento estiver biodisponível e for
bioacumulado no vegetal (Simões, 2012).

Os metais pesados podem ser transportados a grandes distâncias pelo intermédio dos efluentes
de lixiviação, pela água de escorrimento superficial, bem como associados às partículas do solo.
Podem ainda ser transportados por via aérea sob a forma de gases ou adsorvidos no material
particulado (Simões, 2012).

Os elementos traço considerados importantes poluentes ambientais para o solo são o arsénio
(As),berílio (Be), cádmio (Cd), crómio (Cr), cobre (Cu), mercúrio (Hg), níquel (Ni), chumbo
(Pb), antimónio (Sb) e zinco (Zn) (Tiller, 1989), sendo os metais Cd, Cu, Zn e Pb os mais
perigosos, devido à sua toxicidade e maior potencial de bioacumulação (Chang et al., 1984
citado em Simões, 2012).

A mobilidade dos elementos traço nos solos está relacionada com diferentes mecanismos
químicos, físicos e biológicos. Para o elemento traço estar biodisponível, é necessário que esteja
como ião livre ou como complexos destes iões com a matéria orgânica dissolvida na chamada
solução do solo, que é aquela que pode ser absorvida pelas plantas. Na interface da matriz
rochosa com a solução (efluente) encontra-se a fração reativa. A fração reativa encontra-se
diretamente em equilíbrio com a fração disponível do contaminante no solo, através de
fenómenos como a adsorção/desorção e precipitação/dissolução (Moura et al. 2006 citado em
Simões, 2012). Uma vez disponível na solução de solo, os metais pesados podem ser absorvidos
pelas plantas, sendo este o primeiro passo para a entrada destes na cadeia alimentar ou ainda
serem transportados ou lixiviados (Simões, 2012).

6. Referências Bibliográficas
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