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DE MAGISTRO

Comitê Científico da Série Filosofia e Interdisciplinaridade:


 Agnaldo Cuoco Portugal, UNB, Brasil
 Alexandre Franco Sá, Universidade de Coimbra, Portugal
 Christian Iber, Alemanha
 Claudio Goncalves de Almeida, PUCRS, Brasil
 Cleide Calgaro, UCS, Brasil
 Danilo Marcondes Souza Filho, PUCRJ, Brasil
 Danilo Vaz C. R. M. Costa, UNICAP/PE, Brasil
 Delamar José Volpato Dutra, UFSC, Brasil
 Draiton Gonzaga de Souza, PUCRS, Brasil
 Eduardo Luft, PUCRS, Brasil
 Ernildo Jacob Stein, PUCRS, Brasil
 Felipe de Matos Muller, PUCRS, Brasil
 Jean-Fraçois Kervégan, Université Paris I, França
 João F. Hobuss, UFPEL, Brasil
 José Pinheiro Pertille, UFRGS, Brasil
 Karl Heinz Efken, UNICAP/PE, Brasil
 Konrad Utz, UFC, Brasil
 Lauro Valentim Stoll Nardi, UFRGS, Brasil
 Marcia Andrea Bühring, PUCRS, Brasil
 Michael Quante, Westfälische Wilhelms-Universität, Alemanha
 Migule Giusti, PUC Lima, Peru
 Norman Roland Madarasz, PUCRS, Brasil
 Nythamar H. F. de Oliveira Jr., PUCRS, Brasil
 Reynner Franco, Universidade de Salamanca, Espanha
 Ricardo Timm De Souza, PUCRS, Brasil
 Robert Brandom, University of Pittsburgh, EUA
 Roberto Hofmeister Pich, PUCRS, Brasil
 Tarcílio Ciotta, UNIOESTE, Brasil
 Thadeu Weber, PUCRS, Brasil
25

SANCTI AVRELII AVGVSTINI


EPISCOPI HIPPONENSIS

DE MAGISTRO
TEXTVS ANNVS 3 8 9
LIBER VNVS

Tradução anotada e comentada de


Antonio A. Minghetti

Porto Alegre
2015
Direção editorial: Agemir Bavaresco
Diagramação: Lucas Fontella Margoni
Tradução: Antonio A. Minghetti
Imagem de capa: Escultura de Aures Nedi

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Editora Fi estão sob os direitos da
Creative Commons 3.0
http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/

Série Filosofia e Interdisciplinaridade - 25

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Agostinho, Santo, Bispo de Hipona, 354-430.

De Magistro [recurso eletrônico] / Santo Agostinho; [tradução,


organização, introdução e notas Antonio A. Minghetti]-- Porto Alegre,
RS: Editora Fi, 2015.
150 p.

ISBN - 978-85-66923-61-2

Disponível em: http://www.editorafi.org

1. Filosofia medieval. 2. Linguagem. 3. Signos 4. Verdade. 5. Razão .


I. Título. II. Série.

CDD-180

Índices para catálogo sistemático:


1. Filosofia antiga, medieval e oriental 180
Sumário
Apresentação...................................................................... 7
Prof. Dr. Urbano Zilles
Comentos do tradutor ........................................................ 9
De Magistro ..................................................................... 27
I - Concepção agostiniana de linguagem .................................... 27
II – Teoria agostiniana dos Signos .............................................. 37
III – Primeira proposição - O procedimento de comunicação............ 43
IV – Natureza e Reciprocidade dos Signos ............................... 50
V – Relações entre o signo e as palavras .................................... 63
VI - Partes da oração - nomes e vocábulos ............................... 80
VII – Reflexão de Adeodato ........................................................ 84
VIII – Análise dos significados e a função da linguagem ........ 91
IX - Valores das coisas significadas pelos signos .................... 104
X - Segunda proposição - O conhecimento e a linguagem ... 113
XI - Função pedagógica da linguagem ..................................... 125
XII - Razão e Verdade interior .................................................. 130
XIII – Os signos que na mente possuímos ............................. 135
XIV – Crítica aos professores .................................................... 140
Epílogo ........................................................................... 145
Referências bibliográficas .............................................. 148
Santo Agostinho 7

Apresentação

Sinto-me honrado pelo convite de apresentar ao leitor


brasileiro a tradução do De Magistro de Santo Agostinho feita
pelo Prof. Antonio A. Minghetti. Traduzir um texto é passar de
uma língua para outra o poder expressivo desse texto. Esta é,
sem dúvida, uma tarefa difícil, pois exige ciência e arte. Por isso,
compreende-se que a tradução perfeita é, muitas vezes,
impossível pelas dificuldades que surgem ao nível morfológico,
sintático e rítmico.
Diz o ditado que toda tradução é também traição.
Quem já leu outras traduções do diálogo de Santo Agostinho
com seu filho Adeodato sobre a linguagem, ao ler esta será
surpreendido por novas nuances no pensamento que ela exibe.
O tradutor dispõe de qualidades literárias,
profundidade de concepção, conhecimento linguístico e
recursos técnicos, sem impor ao texto que traduz sua própria
maneira de ser. Vale a pena uma leitura atenta desse texto
clássico por parte dos estudiosos, pois esta tradução “apresenta
uma proposta distintiva a partir de uma análise crítica, filológica
e hermenêutica, ao considerar especificidades culturais,
históricas e ideológicas”.

Prof. Dr. Urbano Zilles


Santo Agostinho 9

Comentos do tradutor
A tradução anotada e comentada de Aurélio
Agostinho - De Magistro do ano de 389, que aqui exibo é, na
verdade, uma releitura barroquiana, da tradução que levei a
cabo na dissertação que apresentei em 2009, ao curso de Pós-
Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal
de Santa Catarina, como parte dos requisitos para obtenção do
título de Mestre em Estudos da Tradução
O corpus de análise pertence a B I B L I O T H E C A
A V G V S T A N A - Biblioteca virtual da Fachhochschule
Augsburg – University of Applied Sciences, conhecida por The
Residence of the Gods, um acervo de alta credibilidade, que contém
obras em latim, grego, alemão, inglês, francês, italiano,
espanhol, polonês, russo e iídiche; mantida pelo Prof. Ulrich
Harsch, trabalho pelo qual recebe respeitáveis referências no
meio acadêmico internacional (HARSCH, 2007).
Os fundamentos de teoria do conhecimento de
Agostinho aparecem em De Magistro como um tratado
pedagógico, na forma de colóquio pelo qual o pai Aurélio
Agostinho, aclara a seu filho Adeodato que, somente no mundo
divino poderia existir a perfeição do ser e a luz do verdadeiro
conhecimento.
Último diálogo filosófico de Agostinho, redigido após
a morte prematura do filho, que então contava com dezesseis
anos, mostra a dependência recíproca da palavra e do
pensamento, ao tratar da questão da linguagem na comunicação
entre os homens, contudo, conceitua principalmente aspectos
pedagógicos ligados a linguagem do pensamento interior. Sobre
a obra, em uma conversa com o amigo Alípio, expressou:
10 De Magistro
Juntamos a nós o menino Adeodato, filho carnal de
meu pecado. Aquele que muito bem me transformou.
Com quase quinze anos e grande talento estava adiante
de muitos homens idosos e doutos(...) Existe um livro
nosso que se intitula De Magistro, onde ele dialoga
comigo. Sabeis que todas as apreciações que ali se
inserem, são atribuídas ao meu interlocutor, quando
contava com dezesseis anos. Nele observei coisas ainda
mais prodigiosas...1 (m.t.) (in CONFESSIONVM
Liber XIII – IX 6.14).
No diálogo, o pai, professor de retórica durante a
juventude, enceta uma análise ampla que envolve a linguagem
e o signo, o significado dos signos, as palavras como signos e,
os objetivos da linguagem, todos evidenciados na gramática e
na semântica. Para tanto, o retor parte do inferior para o
superior, do exterior para o interior e, nesta interioridade antevê
o encontro com o verdadeiro Mestre, o único a ensinar a
verdade das coisas; foco este determinante na definição do
nome da obra, retirado da Sagrada Escritura: [...] vós não vos façais
chamar mestre, porque um só é vosso Mestre, e vós sois todos irmãos2 (Mt
23.10).
Agostinho, no diálogo, partiu de um argumento
retirado do Mito de Er, o qual serve a Platão para explanar sua
Teoria da Reminiscência, que pressupõe um saber inato, do qual o
conhecer se dá no rememorar; a conhecida anamnese platônica
(PLATÃO in Diálogos LIVRO X, 1971).
Agostinho concorda parcialmente com a
reminiscência platônica ao admitir que as verdades não sejam
transmitidas, mas rememorizadas.

1 Adiunximus etiam nobis puerum Adeodatum ex me natum carnaliter de


peccato meo. Tu bene feceras eum. Annorum erat ferme quindecim et
ingenio praeveniebat multos graves et doctos viros. Est liber noster, qui
inscribitur de Magistro: ipse ibi mecum loquitur. Tu scis illius esse sensa
omnia, quae inseruntur ibi ex persona conlocutoris mei, cum esset in
annis sedecim. Multa eius alia mirabiliora expertus sum.
2 [...] nec vocemini magistri quia magister vester unus est Christus.
Santo Agostinho 11
Quando a própria memória perde alguma coisa, como
acontece quando esquecemos e procuramos lembrar,
onde é que a procuramos, a não ser na própria
memória? Se esta apresenta uma coisa por outra a
rejeitamos até que nos ocorra o que buscávamos. E
quando isto ocorre, dizemos: É isto! Que não diríamos
se não a conhecêssemos, e nem a reconheceríamos se
dela não nos lembrasse3 (in CONFESSIONVM Liber
XIII – X.19.28).
A ideia de recordar do verbo latino recordari está ligada
a anamnese, lembrar de algo que já se sabia, o que leva a
considerar o rememorar como evocar algo desconhecido à
consciência e que estava armazenado no recôndito da alma;
portanto, ensinar é fazer aprender, e aprender não seria mais do
que rememorar.
Agostinho, porém, só admite a reminiscência
associada à ideia de iluminação, por isso eterna e universal.
Assim, afirma que os sentidos só possam comunicar verdades
absolutas. Errados seriam os juízos interpretados pela razão a
partir de meras percepções.
Agostinho via o sentido interior, como um juiz:
Assim dizemos que todo aquele dotado de sensação é
melhor do que aquilo que o faz sentir, o que talvez nos
levasse a conceder também que todo ser dotado de
inteligência seria melhor do que o objeto de sua
intelecção, o que seria falso. Com efeito, o homem
compreende o que é sapiência e, contudo, não é

3 Quid? Cum ipsa memoria perdit aliquid, sicut fit, cum obliviscimur et
quaerimus, ut recordemur, ubi tandem quaerimus nisi in ipsa memoria?
Et ibi si aliud pro alio forte offeratur, respuimus, donec illud occurrat
quod quaerimus. Et cum occurrit, dicimus: "Hoc est"; quod non
diceremus, nisi agnosceremus, nec agnosceremus, nisi meminissemus.
12 De Magistro
superior a ela4 (in DE LIBERO ARBITRIO Liber
V.12).
Agostinho tinha como iluminação as revelações de
verdades inteligíveis, eternas e universais. Agostinho acrescenta
que o aprender se dá no descobrir em si próprio as verdades
eternas e imutáveis, num influxo imanente de Deus sobre a
inteligência, desta forma, reifica a teoria platônica e deriva sua
natureza para uma episteme-teológica-filosófica, que serviu de
base para sua Teoria da Iluminação Divina. Sobre seus objetivos
com a obra, relatou:
No mesmo período escrevi um livro intitulado De
Magistro. Nele se discute e se indaga a si mesmo, e se
descobre que o Mestre que ensina todo o conhecimento
ao homem não é outro a não ser Deus, segundo o que
está escrito no Evangelho: Seu único Mestre é Cristo.5 (in
RETRACTATIONVM Liber I.12).
De Magistro, obra do latim tardio (200 a 500), pós
época clássica, reflete o período em que a língua passou por
miscigenações das mais diversas, em face da expansão do
domínio romano, com o escambo cultural entre povos
vencidos e vencedores. Há ainda, que considerar em sua
tradução, uma acrescência cultural determinante: a vida de
Agostinho e do filho deu-se em um mundo repleto de signos e
significados, no qual as palavras não se encontravam apenas na
conjuntura de um dicionário, mas circunscritas a um contexto

4 [...] Si enim dixeris, quia ille istum sentit, non te credo inventurum
regulam qua fidere possimus, omne sentiens melius esse quam id quod ab
eo sentitur, ne fortassis ex hoc etiam cogamur dicere, omne intellegens
melius esse quam id quod ab eo intellegitur. Hoc enim falsum est; quia
homo intellegit sapientiam, et non est melior quam ipsa sapientia.
5 Per idem tempus scripsi librum cuius est titulus: De magistro, in quo
disputatur et quaeritur et invenitur, magistrum non esse qui docet
hominem scientiam nisi Deum, secundum illud etiam quod in Evangelio
scriptum est: Unus est Magister vester Christus.
Santo Agostinho 13

sócio-político em permanente estado de convulsão, dado


vivenciarem exatamente a era derradeira do império romano.
Influências das mais diversas guiaram Agostinho a um
movimento pendular, conforme descreve Peterson: passou de
uma vida mundana para a monástica, do maniqueísmo ao ceticismo
acadêmico, de antigo e notável professor de retórica a escritor e Pai da Igreja
cristã latina no ano de 386 (1981, pp. 59-64).
A eloquência do retor Agostinho, como admitiu, há
de ser creditada à grande influência nele exercida por Cícero
(106 - 43 a.C.):
Entre estes eu, ainda fraco de espírito me instruía em
livros de eloqüência, nos quais desejava sobressair-me,
com a intenção condenável e vã de saborear a vaidade
humana, segundo o uso disposto cheguei de algum
modo ao livro de Cícero, cuja linguagem digna de
admiração transporta à sede do coração e da alma.
Todavia, aquele livro chamado Hortênsio continha em
si uma exortação ao estudo da filosofia. Ele na verdade
mudou minhas afeições e encaminhou-me para Vós,
Senhor, e transformou minhas preces em promessas e
por outro lado fez meus desejos serem outros6 (in
CONFESSIONVM Liber III - 4.7).
Cícero, na verdade, representou um primeiro
momento da nova vida de Agostinho, mas outros o seguiram,
como Ambrósio de Milão (340-397), ministrante de seu
batismo, neoplatônico, estudioso da gramática, da retórica, da
literatura greco-romana e do direito; considerado um dos
quatro máximos doutores da Igreja cristã:

6 Inter hos ego imbecilla tunc aetate discebam libros eloquentiae, in qua
eminere cupiebam fine damnabili et ventoso per gaudia vanitatis
humanae, et usitato iam discendi ordine perveneram in librum cuiusdam
Ciceronis, cuius linguam fere omnes mirantur, pectus non ita. Sed liber
ille ipsius exhortationem continet ad philosophiam et vocatur Hortensius.
Ille vero liber mutavit affectum meum et ad te ipsum, Domine, mutavit
preces meas et vota ac desideria mea fecit alia.
14 De Magistro
E, ao vir a Milão para ver o Bispo Ambrósio, notório
em todos os cantos da terra por seus excepcionais
predicados e vosso mui respeitoso servidor, cujo vigor
de sua eloqüência diligentemente alimentava a ti [...]
zelosamente o ouvia quando pregava ao povo, não com
a intenção de obrigação, mas para explorar a sua
facilidade em falar e ver se correspondia a notoriedade;
conforme assentava a sua fama; se realmente era uma
sumidade ou se seria indigno da reputação em oratória
que lhe predicavam [...] deleitava-me com a suavidade
do sermão, tanto quanto com a sua erudição, muito
maior que a de Fausto7 (in CONFESSIONVM Liber V
- XIII.23).
Agostinho, a partir dos ensinamentos da Sagrada
Escritura recebidos de Ambrósio, pôde vivenciar o sentido da
transcendência cristã:
[...] frequentemente ouvia Ambrosio dirigir-se ao povo
em copiosos sermões; [...] A letra mata, por outro lado
o espírito vivifica [...] removido o véu místico do que
foi dito e me agravou, a espiritualidade se desvela, dado
que se porventura não se falasse, a verdade até agora
fosse ignorada8 (in CONFESSIONVM Liber VI –
IV.6).
A influência neoplatônica, segundo Costa (2002), deu-
se pelas traduções latinas de Victorino (285–362); entres outras,
a Ysagoge de Porfírio, as Categorias de Aristóteles e as Enéadas de

7 [...] et ueni Mediolanium ad Ambrosium episcopum, in optimis notum


orbi terrae, pium cultorem tuum, cuius tunc eloquia strenue ministrabant
adipem frumenti tui [...] studiose audebam disputantem in populo, non
intentione, qua debui, sed quasi explorans eius facundiam, utrum
conueniret famae suae, an maior minorue proflueret, quam praedicabatur
[...] et delectabar sermonis suauitate, quamquam eruditioris, minus tamen
hilarescentis atque mulcentis, quam Fausti erat.
8[...] saepe in popularibus sermonibus suis dicentem Ambrosium laetus
audiebam: Littera occidit, spiritus autem uiuificat, cum ea [...] remoto
mystico uelamento spiritaliter aperiret, non dicens quod me offenderet,
quamuis ea diceret, quae utrum uera essent adhuc ignorarem.
Santo Agostinho 15

Plotino. Desta última, Agostinho inferiu a relação entre Deus e


o Verbum:
[...] nelas li não com estas mesmas palavras, mas
provado com muitos e numerosos argumentos, que no
princípio era o Verbum e o Verbum estava em Deus e
Deus era o Verbum: no princípio este existia em Deus;
todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada
seria criado; o que foi feito, nele é a vida, e a vida era a
luz dos homens; a luz brilha nas trevas, e as trevas não
a compreenderam; a alma do homem, ainda que
testemunhe a Luz, não é, porém, a própria Luz, mas o
Verbum próprio de Deus, que é a luz verdadeira que
ilumina todo homem que vem a este mundo9 (in
CONFESSIONVM Liber XII – IX.13).
A Victorino10, Agostinho nutria profunda admiração
e a ele se referiu:
[...] aquele em alto grau e doutíssimo ancião, exímio em
todas as ciências liberais, leitor que tantas obras
filosóficas que ajuizou e ensinou tantos senadores
egrégios e que pelo seu insigne e notável magistério,
merecera ter acolhida sua escultura no foro romano, a

9 [...] et ibi legi non quidem his uerbis, sed hoc idem omnino multis et
multiplicibus suaderi rationibus, quod in principio erat uerbum et uerbum
erat apud deum et deus erat uerbum: hoc erat in principio apud deum;
omnia per ipsum facta sunt, et sine ipso factum est nihil; quod factum est,
in eo uita est, et uita erat lux hominum; et lux in tenebris lucet, et tenebrae
eam non conprehenderunt; et quia hominis anima, quamuis testimonium
perhibeat de lumine, non est tamen ipsa lumen, sed uerbum, deus ipse,
est lumen uerum, quod inluminat omnem hominem uenientem in hunc
mundum.
10 O filósofo Caius Marius Victorino foi responsável pela tradução para o
latim de diversas obras gregas. Converteu-se ao cristianismo, tornando-se
um exemplo de pensador e cristão.
16 De Magistro
honraria que os cidadãos deste mundo têm por mais
excelsa11 (in CONFESSIONVM Liber VIII – II.3).
Agostinho registra a influência neoplatônica a que se
submeteu quando a retrata de um diálogo que manteve com
Simpliciano:
Ao consultar a Simpliciano, instituidor do Bispo Ambrósio
na concessão da graça, que em verdade o amava como a um
pai, narrei-lhe o período do meu erro. E quando, lhe disse
que lera os livros platônicos vertidos para o latim por
Victorino – outrora retor em Roma, e de quem eu ouvira
dizer ter morrido cristão – ele deu-me os parabéns por não
pender aos escritos de outros filósofos, cheios de falácias e
enganos [...] nestes, de todos os modos encontramos Deus e
sua palavra12 (in CONFESSIONVM Liber VIII – II.3).
Entrementes à leitura da Sagrada Escritura sob a tutela
de Ambrósio, acrescida de livros platônicos e, o contato com a
filosofia de Plotino, superou o ceticismo; posição filosófica que
afirmava a impossibilidade do conhecimento e do juízo de valor
como conclusão, conforme testemunhou: Por outro lado li alguns
livros de Plotino, a quem estimo com justiça por ser muito diligente, e
confrontava quando podia, o valor de tais considerações, com aquelas

11 [...] quemadmodum ille doctissimus senex, et omnium liberalium


doctrinarum peritissimus, quique philosophorum tam multa legerat et
diiudicauerat, doctor tot nobilium senatorum, qui etiam ob insigne
praeclari magisterii, quod ciues huius mundi eximium putant, statuam
Romano foro meruerat et acceperat [...]
12Perrexi ergo ad Simplicianum, patrem in accipienda gratia tunc episcopi
Ambrosii, et quem uere ut patrem diligebat. Narraui ei circuitus erroris
mei. Ubi autem commemoraui legisse me quosdam libros Platonicorum,
quos Victorinus, quondam rhetor urbis Romae, quem Christianum
defunctum esse audieram, in Latinam linguam transtulisset, gratulatus est
mihi, quod non in aliorum philosophorum scripta incidissem, plena
fallaciarum et deceptionum [...] in istis autem omnibus modis insinuari
deum et eius uerbum [...]
Santo Agostinho 17

autoridades que nos transmitem os divinos mistérios13 (in DE BEATA


VITA Liber I - 1. 4).
Agostinho, no entanto, tinha reservas à teoria de
Plotino, principalmente a respeito do dogma da encarnação e
ressurreição de Cristo, que para ele era, ao mesmo tempo,
homem e Deus, o Verbo seria criador de si e seu filho Cristo,
nada mais seria que o verbo encarnado, a fala de Deus feita
homem:
Da mesma forma li nesse lugar que o Verbum de Deus
não nasceu da carne, nem de sangue, nem da vontade
do homem, mas de Deus. Porém, que o Verbum tenha
se feito homem e habitado entre nós, lá isso não li14 (in
CONFESSIONVM Liber XII – IX.14).
As Enéadas, principalmente, levaram Agostinho a
entender o princípio da substância una e imaterial, contraditória
à concepção material e dual presente no emanatismo
maniqueísta. Por elas, teve noção da precariedade de seu
racionalismo e pôde perceber o erro em que incidia o
maniqueísmo ao impor materialidade à existência de Deus. A
idéia de substância espiritual presente no homem, até então
desconhecida de Agostinho, apresentava um novo juízo à
afirmação: O homem foi criado por Vós a vossa imagem15 (in
CONFESSIONVM Liber VI – III.4).
Tal constatação levou-o a combater o maniqueísmo
em inúmeras obras posteriores: De Utilitate credendi ad Honoratum
liber unus; Contra Epistolam Manichaei quam vocant Fundamenti liber
unus; Contra Adimantum Manichaei discipulum liber unus; Contra
Faustum Manichaeum libri triginta tres; Contra Felicem Manichaeum

13 Lectis autem Plotini paucissimis libris, cuius te esse studiosissimum


accepi, collataque cum eis, quantum potui, etiam illorum auctoritate qui
divina mysteria tradiderunt [...]
14Item legi ibi, quia uerbum, deus, non ex carne, non ex sanguine, neque
ex uoluntate uiri, neque ex uoluntate carnis, sed ex deo natus est; sed quia
uerbum caro factus est et habitauit in nobis, non ibi legi.
15 [...] tamen fecisti hominem ad imaginem tuam...
18 De Magistro
libri duo; Contra Secundinum Manichaeum liber unus; De Natura Boni
contra Manichaeos liber unus; De Duabus Animabus contra Manichaeos
liber unus; Acta seu disputatio contra Fortunatum Manichaeum, liber
unus.
Esta distenção ficou patente no incidente que teve
com o Bispo maniqueu:
[...] Hipona era uma cidade de 40.000 habitantes,
constituída por uma maioria pagã e maniqueus. Existia
apenas uma igreja católica e pequeno número de fiéis.
O bispo maniqueu, era um tal de Fortunato, pregador
eficaz e cheio de ardor. Agostinho desafiou-o para um
debate público, que se realizou em frente de numerosa
multidão, durou dois dias. Fortunato foi literalmente
esmagado pelo ímpeto oratório do rival. Descendo do
púlpito debaixo das vaias e chufas dos espectadores; o
infeliz foi obrigado a fugir de Hipona.
(MONTANELLI e GERVASO, 1967, p. 167)
Tão quão se deu a influência do pensamento
aristotélico, com a leitura das Categorias traduzidas por
Victorino, porém de forma débil, por Agostinho não acessar a
totalidade das obras de Aristóteles e pela impossibilidade de ler
a obra no original, pois não dominava o grego, o que lhe
proporcionou um estudo muito mais pragmático, em que a
formalidade lógica foi restringida à aplicação do raciocínio a
coisas quantificáveis, conforme assumiu:
E o que a mim se adiantava, quando contava
aproximadamente com vinte anos, quando em minhas
mãos vieram certa Aristotelica, aquelas que chamavam de
dez categorias – [...] pareciam-me falar claramente da
substância: como o homem; do que nele existia
enquanto um esboço de homem, tais como; a estatura,
quantos pés mede; ou seu parentesco, de quem é irmão;
onde se encontra; se está calçado ou então armado; ou
se faz alguma coisa ou padece de algo; e tudo o mais
que se encontra nesses nove gêneros que aqui
exemplifiquei, graças àquilo que possuem, como
Santo Agostinho 19
reconhecidos e enumerados na própria substância do
gênero16 (in CONFESSIONVM Liber IV – XVI.28).
A tradução desta obra, à época, apresentou um caráter
insólito, posto seguisse uma lógica particular. As Categorias
foram aplicadas ao raciocínio e levaram Agostinho a pensar em
formas organizadas de raciocinar: substância, qualidade,
relação, quantidade, lugar, tempo. Elas se prestaram à
organização do raciocínio agostiniano a refletir as percepções
proporcionadas pela matéria.
A influência da academia, em Agostinho, derivou do
período pós-socrático, séc. IV a.C. e, se tornou conhecida pela
visão platônica e cética que admitia a impossibilidade do
conhecimento a obter das coisas naturais, pois que este estava
envolto em erros da percepção.
A academia platônica, depois de Platão, perdeu seu
caráter metafísico, mas continou existindo como uma escola de
céticos, então os acadêmicos. Conhecida inicialmente como
academia antiga, teve em Arcesilao de Pitane no séc. III a.C., seu
digno representante do ceticismo contra o dogmatismo dos
estóicos. Arcesilao, ante o impasse em alcançar a certeza dado
a falta de evidências, admitiu a razoabilidade como
possibilidade de verdade e estabeleceu uma nova visão ao
ceticismo probabilista, originando a academia nova, ou dos neo-
acadêmicos.
Agostinho mostrou que o probabilismo dos
acadêmicos evocara feroz crítica àquilo que defendiam,
sobretudo do estoicismo; levado a escrever um tratado contra

16 Et quid mihi proderat, quod annos natus ferme uiginti, cum in manus
meas uenissent Aristotelica quaedam, quas appellant decem categorias [...]
et satis aperte mihi uidebantur loquentes de substantiis, sicuti est homo,
et quae in illis essent, sicuti est figura hominis, qualis sit, et statura, quot
pedum sit, aut cognatio, cuius frater sit, aut ubi sit constitutus aut quando
natus, aut stet an sedeat, aut calciatus uel armatus sit, aut aliquid faciat aut
patiatur aliquid, et quaecumque in his nouem generibus, quorum exempli
gratia quaedam possui, uel in ipso substantiae genere innumerabilia
reperiuntur.
20 De Magistro
os acadêmicos, mais precisamente contra os platonizantes,
posto considerasse não serem platonistas, assim, declarou que
a academia nova ao se afastar do platonismo, tornara-se
limitada pelo ceticismo ortodoxo:
[...] àqueles puros e lúcidos em filosofia platônica,
apartados e elevados às nuvens do erro, avançados em
Plotino, filósofo platônico julgado tão semelhante a
Platão, que se diria terem vividos em um mesmo tempo,
tal a crer-se nele ter revivido17 (in CONTRA
ACADEMICOS Liber XVIII - 41).
A influência dos estóicos em Agostinho foi fundante
ao possibilitar-lhe inferir os postulados semióticos assentidos
em De Magistro, como escopo de sua teoria da linguagem.
Quando o Império Romano anexou a Grécia ao seu território,
pôde contatar, estudos gramaticais do Estoicismo18, escola
fundada por Zenão de Cítia, no Século IV a.C., que cultivava
uma teoria que estudava a natureza da linguagem e de seus
signos, mais tarde revivida pelos gramáticos romanos.
Todas as influências aqui esclarecidas levaram
Peterson a concluir que Agostinho, ao propor uma Verdade
inteligível e eterna, tenha atingido o cerne da consciência
humana em seus mistérios, ao enveredar pelo neoplatonismo
cristão, que influenciou e, ainda hoje, influencia todo o
pensamento teológico e filosófico ocidental:
Foi este homem que, mais do que qualquer outro,
influenciou o pensamento da Igreja do período,
ajudando a formular sua filosofia e teologia para o
presente e o futuro. Na Cristandade latina, o nome de
Agostinho sobressai como o maior, tanto do ponto de

17 [...] os illud Platonis quod in philosophia purgatissimum est et


lucidissimum, dimotis nubibus erroris emicuit, maxime in Plotino, qui
platonicus philosophus ita eius similis iudicatus est, ut simul eos vixisse,
tantum autem interest temporis ut in hoc ille revixisse putandus sit.
18Escola filosófica que pregava um ideal de austera virtude definido pela
atarexia e resumido na máxima: Abstém-se e suporta. (JOLIVET, 1975, p.85)
Santo Agostinho 21
vista teológico, quanto no sentido literário, nome que
dominou o pensamento ocidental até o Século XIII e
que jamais perderá seu brilho. Era figura riquíssima no
sentido intelectual e prolífica em produção de livros, a
maior parte deles em estilo latino, inspirados em
problemas específicos que preocupavam a Igreja da
época (1981, p. 62).
Agostinho foi muito mais um cristão a utilizar idéias
neoplatônicas, quando convinham ao teocentrismo cristão que
propriamente um defensor do neoplatonismo. Isto ficou
patente quando, ao tratar da interioridade exposta em
Soliloquiorum, seu alter-ego o questiona: Mas deixe de lado e responde
a isto: Supondo que seja verdade o que de Deus disseram Platão e Plotino,
a ti seria suficiente aquela ciência divina?19 (in SOLILOQUIORVM
Liber I – 4.9).
A pedagogia de Agostinho permuta a percepção física e
pragmática, pela apreensão senciente. A primeira imperfeita e
mutável que advém das percepções ordenadas por necessidades
imediatistas; a segunda, perfeita, derivada do conhecimento das
essências imutáveis, que não se apresenta diretamente, mas, que
pela inteligibilidade, pode ser encontrada pelos sentidos, na
transcendência ao invisível que se sobrepõe ao visível. Expõe
seus argumentos em forma metafórica, como procedeu no
entendimento de senciência a partir da metáfora da navegação,
explorada principalmente em De Beata Vita, comparando os
sentidos a um barco que levasse os homens ao encontro da
sapiência:
Até este ponto os sentidos têm me servido como
barcos. Pois quando me transportaram até o ponto que
almejava, ali os deixei. Assim assentado em terra firme,
comecei a analisá-los com o pensamento, o que abalou

19Sed quid ad nos? Nunc illud responde: si ea quae de Deo dixerunt Plato
et Plotinus vera sunt, satisne tibi est ita Deum scire, ut illi sciebant?
22 De Magistro
meus fundamentos por muito tempo20 (in
SOLILOQUIORVM Liber I.4.9).
A metáfora da navegação pressupõe não somente a
busca do lugar a que se quer chegar, mas também o caminho,
que, por sua vez, se constitui de etapas planejadas, ou seja, o
caminho é o próprio método.21 Agostinho entende que não
deveríamos dizer isto é branco, mas sim compreendo que isto é branco:
Ainda que me engane se afirmar algo pelos sentidos, os
sentidos enquanto em si não se mostram de pequeno
valor a persuassão, não se constituem em engano.
Certamente compreendo que de nenhum modo o
Acadêmico refutará aquele que diz: Por isso,
compreendo que a mim parece branco; por isso
entendo que minha compreensão foi seduzida; por isso
compreendo que me agrada aquilo que é evidente e não
pode ser negado; por isso compreendo que me agrada
conhecer [...]22 (in CONTRA ACADEMICOS Liber
III.11.26).
A realidade intrincada da vida vivida por Agostinho
levou Hannah Arendt (2000), em sua tese de doutoramento,
que versou sobre a experiência do amor na obra de Agostinho, a
escrever que não considerar as transformações que aqui
menciono na análise de sua obra, seria uma irresponsabilidade.
Assumir a tradução de De Magistro significou pesquisar
um fenômeno de comunicação humana, considerado um
marco na filosofia da linguagem. A obra problematiza a questão
20Imo sensus in hoc negotio quasi navim sum expertus. Nam cum ipsi
me ad locum quo tendebam pervexerint, ubi eos dimisi, et iam velut in
solo positus coepi cogitatione ista volvere, diu mihi vestigia titubarunt.
21Método tem sua origem etimológica pela junção dos elementos gregos
metá, que siginifica através de, por meio de, e hodós que significa caminho.
22 Ego tamen fallor, si assentiar, ait quispiam. Noli plus assentiri, quam ut
ita tibi apparere persuadeas; et nulla deceptio est. Non enim video,
quomodo refellat Academicus eum qui dicit: Hoc mihi candidum videri
scio; hoc auditum meum delectari scio; hoc mihi iucunde olere scio; hoc
mihi sapere dulciter scio.
Santo Agostinho 23

da linguagem ao refletir sobre os objetivos e a utilidade da fala.


Num primeiro momento toma a linguagem a partir da
dimensão humana; para num segundo, referir a linguagem
interior, que ligada ao pensamento precede à verbalização, e
investe numa concepção semiótica, que explora os signos
linguísticos que servem à fé e se instituem pela razão iluminada.
Tal especificidade articula esta pesquisa, principalmente, a
pressupostos hermenêuticos estudados pelos teóricos da
tradução, Steiner e Schleiermacher e com os filósofos que
discutem a tradução, Ricoeur, Ladrière e Ortega y Gasset.
Certamente, não se pode mensurar a magnitude do
conhecimento do professor Agostinho apenas por esta obra,
que versa com o filho sobre postulados de base. A
interpenetração conceitual em De Magistro está intimamente
ligada à vida integral de Agostinho, que na tradução, para evitar
a incompletude do sentido, requisitou a análise intertextual com
obras correlatas deste autor; as que a precederam e as que lhe
sucederam, disponibilizadas entre um vasto acervo com mais
de 400 sermões, 270 tratados teológicos, 9 diálogos filosóficos
e 150 livros.
O fenômeno da intertextualidade exigiu um
acentuado, mas necessário incremento de citações,
interrelacionados com textos do corpus de tradução, às quais
considerei corpus oriundos da fonte de De Magistro, que traduzi
no corpo da dissertação, enquanto os textos originais foram
alocados em notas de rodapé. Os intertextos derivam das obras:
Soliloquiorum LIBRI II (386); Contra Academicos LIBRI III (386);
De Beata Vita Liber I (386); De Dialectica Liber I (387); De
Quantitate Animae Liber I (388); De Vera Religione Liber I (389 –
391); De Libero Arbitrio LIBRI III (388 – 395); Doctrina
Christiana LIBRI IV (396 – 397); Confessionum LIBRI XIII (397
– 401); De Trinitate LIBRI XV (399 – 419); De Civitate Dei LIBRI
XXII (413 – 426); Retractationum LIBRI II (428) e, De Ordine
LIBRI II (386).
Conexões intertextuais com a Sagrada Escritura,
igualmente se fizeram necessárias, a que ponderei o mesmo
24 De Magistro
critério. Não obstante a fraterna querela entre Augustini e
Hieronimus, como indica Francisco Moreno (1992), no que
envolvia as traduções do texto hebraico e grego, dado Augustini
dominar predominantemente a língua latina, considerei que
seus estudos bíblicos fundamentaram-se na Vulgata, conforme
admitiu: “Por isso, que a nossa fraqueza não nos permitia
encontrar a Verdade com a ajuda da razão pura e, deste modo,
nós tínhamos a necessidade da autoridade da Sagrada
Escritura”23 (m.t.) (in CONFESSIONVM Liber VI.8).
Hieronymus, preocupado com a excessiva liberdade
de interpretação existente à epoca, afirmou:
[...] é tarefa árdua traduzir de maneira tal que se
reproduza plenamente o pensamento e se salve,
simultaneamente, a nobreza da expressão, porque cada
língua apresenta peculiaridades lexicais e estruturais
próprias: a tradução demasiadamente literal dá a
impressão de mesquinhez, a interpretativa peca por
excessiva liberdade relativamente ao texto original. (in
FURLAN, 1984, p. 164)
O texto da Vulgata, quando necessário, ocupa as notas
de rodapé, enquanto o corpo da dissertação recebe o texto em
português com tradução dos originais, mediante a versão dos
Monges Beneditinos de Maredsous – Bélgica, efetuada pelo
Centro Bíblico Católico de São Paulo. No prólogo desta edição
encontramos:
A autoridade da Vulgata em matéria de doutrina não
impede, antes, nos nossos dias quase exige que a mesma
doutrina se prove e confirme também com os textos
originais, e que se recorra aos mesmos textos para
encontrar e explicar cada vez melhor o verdadeiro
sentido da Sagrada Escritura (PAPA PIO XII in
Encíclica Divino Afflante Spiritu, 1943).

23 [...] ideoque cum essemus infirmi ad inveniendam liquida ratione


veritatem et ob hoc novis opus esset auctoritate sanctarum Litterarum.
Santo Agostinho 25

Há de se considerar que linguagem e pensamento em


Agostinho estão tão íntima e reciprocamente ligados, que ao se
referir a uma, estamos, necessariamente nos referindo ao outro.
Isto posto, igualmente, a busca hermenêutica do sentido de
minha tradução de De Magistro considerou as recomendações
de Arendt, entendendo o implícito no indizível de
Agostinho.Assim, a tradução que empreendi, destarte,
apresenta uma proposta distintiva a partir de uma análise crítica,
filológica e hermenêutica, ao considerar especificidades
culturais, históricas e ideológicas.
De Magistro Princeps Editio foi redigida em forma
cursiva e não tem originariamente capítulos e subcapítulos,
conquanto, mantive na tradução a numeração dos textos do
corpus; os titulei a fim de lhes situar comentários que julquei
pertinentes. Constam desta obra quatorze capítulos, divididos
em três partes.
A primeira parte com os capítulos I-VII, contém um
estudo da linguagem e dos signos que a compõe. No capítulo I,
Agostinho trata do propósito da fala com o objetivo de ensinar
ou aprender; no capítulo II, relaciona as palavras a signos; no
capítulo III, apresenta sua primeira proposição, e afirma que nada
pode ser mostrado sem um signo, mas que podemos mostrá-lo
se estamos executando o ato sobre o qual nos interpelam; e, nos
capítulos IV a VII, estabelece a reciprocidade dos signos.
Na segunda parte, capítulos VIII-X, Agostinho
procede a análise dos significados: Em VIII, analisa a
necessidade de refletir sobre a coisa significada; em XIX, afirma
que o conhecimento das coisas é mais importante que seus
signos; e, no X, apresenta sua segunda proposição, e afirma não
existe nenhuma comunicação verbalizada de ideéias e juízos
sem signos, exceto certos fenômenos naturais e ações em
espetáculos teatrais, que se dão sem o uso das palavras.
Na terceira e última parte, nos capítulos XI-XIV,
Agostinho expõe suas reflexões pedagógicas. Em XII, afirma
que as palavras não introduzem verdades novas em nossas
mentes e que, mesmo com palavras, não ensinamos; em XIII,
26 De Magistro
adverte-nos a buscar a Verdade em nosso interior e, em XIV,
conclui que aos homens não se deve nominar professores
porque Cristo é o único Mestre.
Santo Agostinho 27

De Magistro
TEXTVS ANNVS 3 8 9 - LIBER VNVS
SANCTI AVRELII AVGVSTINI
EPISCOPI HIPPONENSIS
Lateinisch/Deutsch
Herausgegeben von
Burkhard Mojsisch
Stuttgart-1998

I I - Concepção agostiniana
de linguagem

1.Augustini - Quid tibi 1.Agostinho - O que


videmur efficere velle, cum compreendes desejarmos
loquimur? fazer ao falarmos24?

24 Agostinho desde o início do Capítulo I apresenta sua concepção de


linguagem, admitindo que esta tenha sido instituída com a finalidade senão
de ensinar e para aprender, através dos sentidos e do pensamento. O verbo
loquor aparece na Vulgata 139 vezes como uma fala comprobatória
divina, Locutio dei attestans. Está intimamente ligado à loquens, que
significa falar de forma expressiva. Todos são derivados de Locutio, o deus da
fala, eloquentia (eloquência) dom da palavra; eloquium (discurso); eloquor
(exposição, revelação, explicação); este último de muita afinidade com a
intenção de Agostinho na conversa com Adeodato. Veikko Väänänen para a
tradução de loquor afirma: “El latín del que son continuación las lenguas
romances se encuentra en franco desacuerdo con la forma literaria y sobre
todo clásica. Quien quiera explicar expresiones romances como foie, tête o
parler, no debe acudir a iecur, caput y loqui, transmitidos por la literatura
romana” (1968, p. 27). A citação de Väänänen se justifica para explicar uma
dificuldade que encontrei na tradução de De Magistro, porque Agostinho
utiliza ao longo de todo o seu discurso o verbo latino loquere, pertencente à
forma depoente, uma característica do latim que se configura pelo uso da
28 De Magistro
2.Adeodatus - Quantum 2.Adeodato – Pelo quanto
quidem mihi nunc occurrit, agora me ocorre, ensinar ou
aut docere aut discere. aprender.

3.Augustini - Unum horum 3.Agostinho - Compreendo e


video et assentior: nam assinto com um destes, pois
loquendo nos docere velle falando estaria manifesto
manifestum est; discere autem desejarmos ensinar, por outro
quomodo? lado, como aprender?

4.Adeodatus - Quo tandem 4.Adeodato – Como opinas


censes, nisi cum então, senão ao
interrogamus? interpelarmos25?

forma verbal na voz passiva, no entanto, com o significado de voz ativa. Esta
construção verbal pressupõe uma performance linguística em que a fala se
constitui numa ação mediada, consistindo em sublinhar a existência de um
circuito locutório, no qual os papéis de sujeito falante e de ouvinte são
permutáveis. O simplesmente falar estaria mais bem representado em latim
por aio, ligado ao latim vulgo ou até mesmo por dico; porém, estes dois verbos
não pressupõem um sujeito agente, enquanto loquor (eu falo) solicita tanto um
sujeito agente mediador quanto uma ação mediada. Considerando que em
português não temos uma palavra específica para a tradução deste sentido de
loquere, traduzi-o por falar, muito embora dentro do contexto, na tradução,
sempre tenha sido considerado uma fala mediatizada.
25 O próprio Agostinho esclarece a interpretação de interrogamus: “No que
precede e se segue a uma proposição é de se crer no afastamento entre a
pergunta (percontatio) e a interrogação (interrogatio). Entre perguntar e
interrogar, disseram os antigos que existe uma diferença: à pergunta
permitem-se muitas respostas, porém à interrogação apenas se responde sim
ou não” (in DE DOCTRINA CHRISTIANA LIBRI IV – III.3.6). É de
deixar claro que em De Magistro não ocorre o interrogatio nos moldes que
Agostinho acima esclarece. Em De Ratione Dicendi ad C. Herennium,
encontramos: “Nem todos estão de acordo que interrogatio seja uma acusação...” (in
RHETORICA AD HERENNIUM Liber IV.22). Segundo esta obra,
Interrogatio, no sentido grego da anacoenosis, era um recurso utilizado em
retórica, quando colocado sob a forma de questionamento que se fazia
introdutoriamente no início de um discurso, em que, normalmente, não
pretendia obter qualquer resposta, tinha somente um efeito de interpelação,
Santo Agostinho 29

5.Augustini - Etiam tunc 5.Agostinho – Ainda, nesse


nihil aliud quam docere nos caso compreendo nada
velle intellego; nam quaero diverso desejar que não
abs te, utrum ob aliam ensinar. Te arguo se
causam interroges, nisi ut porventura terias outra causa
eum, quem interrogas, doceas, para interpelar a alguém, que
quid velis? não ser ensinado sobre o que
desejas?

6.Adeodatus - Verum dicis. 6.Adeodato - Dizes a


verdade!

7.Augustini - Vides ergo iam 7.Agostinho - Vêdes agora


nihil nos locutione nisi, ut certamente, que com a
doceamus, appetere. locução nada mais desejar que
não ensinar.

8.Adeodatus - Non plane 8.Adeodato - Não tão claro


video; nam si nihil est aliud assim compreendo; se falar
loqui quam verba promere, nada mais fosse que palavras
video nos id facere, cum proferir, ao cantarmos isto se
cantamus. Quod cum saepe faz. Dado que
soli facimus nullo praesente, frequentemente a sós o
qui discat, non puto nos fazemos e sem audiência,
docere aliquid velle. considero com isso não
desejar ensinar.

obrigando o interpelado a pensar numa resposta apropriada. Em latim nem


sempre designa um interrogatório, e, no contexto de De Magistro apresenta-se
como uma interpelação.
30 De Magistro
9.Augustini - At ego puto 9.Agostinho – Contudo26 de
esse quoddam genus docendi grande valor julgo ser essa
per commemorationem, condição de ensino por
magnum sane, quod in hac rememoração27, que aqui por
nostra sermocinatione res ipsa si a nossa conversa per si
indicabit. Sed si tu non indicará28. Mas, se tu não
arbitraris nos discere, cum julgas aprender ao rememorar
recordamur, nec docere illum, e tampouco rememora aquele
qui commemorat, non resisto que ensina, não te contesto.
tibi, et duas iam loquendi Agora, instituo duas causas
causas constituo, aut ut para a locução, ou ensinar ou
doceamus aut ut rememorar quer em outros

26 Em minha tradução, para a conjunção sed, entendida adversativa por


excelência, considerei sempre a literalidade, traduzindo-a por mas; entretanto,
para a conjução at, dado sua função coesiva em gerar expressividade ao texto,
quando muitas vezes tem uma função adverbial ao contribuir com o sentido
do contexto, entre minhas opções, busquei sempre na tradução a coerência
com a raíz latina da conjunção. Por exemplo: contudo (cum + totus); entretanto
(inter + tantum); entrementes (inter + medium); porém (por + em - forma apocopada
do advérbio latino endo); todavia (totus + via).
27 Agostinho ao escrever sobre a memória e os sentidos afirma: “Sim, é
verdade! A não ser porque já existiriam em minha memória? Porém, elas
estavam tão abrigadas e ocultas em cavernas secretíssimas que talvez não
pudesse pensar nelas, se de lá não fossem arrancadas por quem me
alertasse” (in CONFESSIONUM LIBRI XIII - X.10.17). À tradução de
commemorare considerei o contexto onde estava inserida. Em alguns casos,
segui a literalidade como em I-9, enquanto em outros, como I-19, considerei
a citação acima e, traduzi por evocar, chamar de algum lugar.
28 É de notar que não surge ao longo do texto latino de De Magistro a palavra
repraesento ou qualquer uma de suas derivações latinas, enquanto por inúmeras
vezes, ao tratar dos signos, Agostinho faz uso do verbo indicare. A opção por
indicar é uma peculiaridade pertinente à semiótica agostiniana, em que o signo
atua como indicativo no sentido de potencializar uma possibilidade de ser e
não uma mera representação manifesta. Por isso escreveu: Uma palavra é
apenas um signo do que quer que seja uma coisa, a fim de que o ouvinte possa entender
aquilo que narra um locutor [...] um signo é aquilo que indica algo além de si mesmo à
mente (in DE DIALECTICA Liber I - V).
Santo Agostinho 31

commemoremus vel alios vel quer em nós mesmos, como o


nos ipsos, quod etiam, dum fazemos ao cantarmos. A ti
cantamus, efficimus; an tibi assim não seria
non videtur? compreendido?

10.Adeodatus - Non prorsus; 10.Adeodato - Não


nam rarum admodum est, ut especificamente, raro seria
ego cantem commemorandi que se desse à rememorar;
me gratia, sed tantummodo mas sim advém do encanto no
delectandi. canto.

11.Augustini - Video, quid 11.Agostinho - o que


sentias. Sed nonne adtendis ajuízas29 compreendo, mas
id, quod te delectat in cantu, não atentarias que aquilo que
modulationem quandam esse no canto deleita, seria certa
soni? Quae quoniam verbis et modulação do som? Desde
addi et detrahi potest, aliud que se possa adicionar ou
est loqui, aliud cantare; nam subtrair palavras, uma coisa
et tibiis et cithara cantatur, et seria falar, outra cantar.
aves cantant, et nos interdum Efetivamente ao som de
sine verbis musicum aliquid flautas e cítara se canta; os
sonamus, qui sonus cantus pássaros cantam e mesmo nós
dici potest, locutio non alguma música sem palavras
potest; an quicquam est, quod entoamos, que sons de canto
contradicas? se poderia chamar, contudo
locução não. Objetarias algo?

12.Adeodatus - Nihil sane. 12.Adeodato - Seguramente


nada.

29 Optei por traduzir: sentias por ajuízas, porque no texto anterior Agostinho
solicita de Adeodato “o que julgas a respeito de...”, e video por compreender,
embora fosse possível também traduzir por perceber. Tanto em português
como em latim estas duas palavras podem ser sinônimas, no entanto
vertendo-se as duas para o latim, apenas compreender poderá ser traduzida por
interpretari, que é a visão hermeneuta de minha tradução.
32 De Magistro
13.Augustini - Videtur ergo 13.Agostinho - Por
tibi nisi aut docendi aut conseguinte compreenderias
commemorandi causa non dessa forma, que a locução se
esse institutam locutionem? instituíria senão para ensinar
ou rememorar?

14.Adeodatus - Videretur, 14.Adeodato -


nisi me moveret, quod, dum Compreenderia a não ser pelo
oramus, utique loquimur, nec que me preocupa, que ao
tamen deum aut doceri orarmos sobretudo falamos,
aliquid a nobis aut porém justo não creria a Deus
commemorari fas est credere. poder ensinar ou rememorar.

15.Augustini - Nescire te 15.Agostinho - Ignoras a lei


arbitror non ob aliud nobis que nos prescreve não
praeceptum esse, ut in clausis proceder de forma outra que
cubiculis oremus, quo nomine não a nos compungir na
significantur mentis clausura de nosso coração30,
penetralia, nisi quod deus, ut para que a oração em nossa
nobis, quod cupimus, mente penetre31. Não

30Agostinho não impugnou a mística pagã, ao contrário utilizou o vezo para


redirecionar-lhe o foco, limitando-o a fé em um único e inefável Deus. De tal
modo, transforma as emoções intensas da intimidade profana do cubiculum ao
indicar e simbolizar que este local encontrar-se-ia no íntimo do homem, no
qual sua alma estaria com o próprio Deus: Assim, no meio desse grande combate
que se travava no interior de minha residência interior, no qual violentamente encetara
minha alma em nosso quarto íntimo, em meu coração [...] (in CONFESSIONUM
LIBRI XIII – XIII.8.19). A tradução literal implicaria traduzir cubiculis por
cela religiosa e, oremus por orar, no entanto neste caso Agostinho esta a referir
o arrependimento e o local aonde ele se dá, o coração.
31 Considerei a tradução de significantur mentis por em nossa mente penetre, porque
esta expressão latina é correlata ao dualismo entre as faculdades de sentir e
inteligir, existentes na filosofia grega e medieval, que os via como atos de
faculdades essencialmente distintas e determinadas pela atuação das coisas
sobre elas. Os sentidos receberiam os influxos do mundo exterior ao homem,
fornecendo à inteligência os dados sensíveis, enquanto a inteligência receberia
Santo Agostinho 33

praestet, commemorari aut observastes a recomendação


doceri nostra locutione non do profeta: Falai dentro de vossos
quaerit. Qui enim loquitur, corações e compungi-vos em vossos
suae voluntatis signum foras aposentos; oferecei sacrifícios de
dat per articulatum sonum, justiça e esperai no Senhor? 32
deus autem in ipsis rationalis Senão, como poderia Deus
animae secretis, qui homo nos ensinar ou rememorar
interior vocatur, et para alcançar aquilo que pelo
quaerendus et deprecandus elóquio almejamos. Sem
est; haec enim sua templa esse dúvidas, quem fala expõe
voluit. An apud apostolum signos33 volitivos por sons
non legisti: «Nescitis quia articulados. A Deus se deve
templum dei estis et spiritus racionalmente no íntimo da
dei habitat in vobis» et «in alma procurar e suplicar, ao
interiore homine habitare invocar aquele homem
Christum»? Nec in propheta interior34, considerado como o

dos sentidos os dados sensíveis, submetendo-os às diversas operações


intelectivas como conceituar, julgar, raciocinar, interpretar, etc.
32[...] tu autem cum orabis intra in cubiculum tuum et cluso ostio tuo ora
Patrem tuum in abscondito et Pater tuus qui videt in abscondito reddet tibi
(MATTHAEUS 6.6).
33 A palavra signum, no prae-medioevo, tinha vasta gama de significados: marca,
sinal, efígie, imagem, insígnia, vestígio, pegada, selo, sinete, senha, e etc.,
abrangendo as inúmeras classes e subclasses, postuladas pelos
contemporâneos da semiótica. Entre os derivados de sua raiz estão os verbos
latinos signo, signare (marcar, selar, assinalar); assigno, assignare (assinar); consigno,
consignare (consignar); designo, designare (designar); persigno, persignare (tomar nota
de, registrar); sigillo, sigillare (selar), significo, significare (dar a entender por sinais,
significar) e ainda os substantivos, adjetivos e advérbios correspondentes.
34 Definido o uno a refletir o univérsico, haveria a necessidade de atestar esta
presença. Assim foi que, em Agostinho, surge a luz divina a alocar o homem
interior, questão fundante da magna obra agostiniana, que se apresenta em De
Magistro como uma teoria da linguagem, mas que, também podemos
encontrar sua origem em uma passagem da Sagrada Escritura: “[...] para que
vos conceda, segundo seu glorioso tesouro, que sejais poderosamente
34 De Magistro
animadvertisti: «Dicite in seu templo. Não lestes no
cordibus vestris et in Apóstolo?: Não sabeis que sois
cubilibus vestris templo de Deus e que o Espírito de
conpungimini. Sacrificate Deus habita em vós - Christus
sacrificium iustitiae et sperate habita o homem interior?35 Onde
in domino»? Ubi putas supões ofertado seja o justo
sacrificium iustitiae sacrificari sacrifício que não no templo
nisi in templo mentis et in da mente e no íntimo do
cubilibus cordis? Ubi autem coração? A quem se ora
sacrificandum est, ibi et também o sacrifício se faz,
orandum. Quare non opus est pelo que, ao orarmos não
locutione, cum oramus, id est fazemos soar as palavras, a
sonantibus verbis, nisi forte, não ser por acaso, como
sicut sacerdotes faciunt, fazem os sacerdotes que
significandae mentis suae expressam seu pensamento
causa, non ut deus, sed ut não para Deus, mas para os
homines audiant et ouvintes a fim de que através
consensione quadam per da rememoração se elevem a
commemorationem Deus. Ou tu de forma diversa
suspendantur in deum; an tu julgarias?
aliud existimas?

16.Adeodatus - Omnino 16.Adeodato – Inteiramente


assentior. aprovo.

robustecidos pelo seu Espírito em vista do crescimento do vosso homem


interior” (EPHESIOS, 3. 16).
[…] nescitis quia templum Dei estis et Spiritus Dei habitat in vobis (I
35

CORINTHIOS 3.16).
Santo Agostinho 35

17.Augustini - Non te ergo 17.Agostinho - Não te


movet, quod summus impressionas que o supremo
magister, cum orare doceret Mestre tenha ensinado seus
discipulos, verba quaedam discípulos a orar, ensinando
docuit, in quo nihil aliud por palavras, nada mais a
videtur fecisse quam docuisse, desejar que ensinar o como
quomodo in orando loqui deveriam se expressar ao
oporteret? rezar?

18.Adeodatus - Nihil me 18.Adeodato - Nada


omnino istuc movet; non inteiramente me demove,
enim verba, sed res ipsas eos posto Ele não ensinasse
verbis docuit, quibus etiam se palavras, mas as próprias
ipsi commonefacerent, a quo coisas por palavras, para que
et quid esset orandum, cum in soubessemos a quem, a que
penetralibus ut dictum est seria a oração e, o como
mentis orarent. penetrar na mente aquilo
que ao orarem era dito.

19.Augustini - Recte 19.Agostinho –


intellegis; simul enim te credo Corretamente captastes.
animadvertere, etiamsi Ademais, ao mesmo tempo
quisquam contendat, quamvis creio teres pressuposto que
nullum edamus sonum, mesmo sem emitir sons, nós
tamen, quia ipsa verba refletimos sobre as palavras
cogitamus, nos intus apud e falamos no íntimo de
animum loqui, sic quoque nossa alma. Assim, com a
locutione nihil aliud agere locução nada fazemos a não
quam commemorare, cum ser evocar à memória36,
memoria, cui verba inhaerent, fazendo-a agir e
ea revolvendo facit venire in rememorando37 a mente as
mentem res ipsas, quarum próprias coisas das quais são
signa sunt verba. signos as palavras.

20.Adeodatus - Intellego ac 20.Adeodato - Entendo e


sequor. aceito.
36 De Magistro

36 A filosofia platônica admite a existência de dois mundos. O primeiro


constituído por ideias eternas, dotadas de uma existência independente;
enquanto o segundo é constituído por coisas sensíveis, partindo da ideia de
que a percepção não seria digna de confiança, porque o corpo
permanentemente nos engana. No Fedon (1981), encontramos que a
verdadeira realidade não advém da percepção e só pode ser intuída pelo uso
da razão, que recorre à memória na busca por respostas de caráter geral.
Socrates, ao ser questionado por Simias e Cebes, afirma: “Porque, conviemos
em que é muito possível que quem sentiu uma coisa, isto é, quem viu, ouviu
ou, enfim, percebeu por qualquer dos seus sentidos, pensa a respeito dela, ou
em outra que esqueceu e que tem com a percebida qualquer relação, seja
semelhante aquela ou não. De modo que é preciso, ou que nasçamos com
esses conhecimentos e que os conservemos durante toda nossa vida, ou que
os que aprendem, conforme acontece conosco, apenas recordem e assim a
instrução é apenas uma reminiscência” (PLATÃO, 1981, p. 125). A teoria
platônica da anamnese envolvia a alma, sábia e imortal ao nascer, através da
qual poderíamos conhecer o mundo supra-sensível através da lembrança, ou
seja da memória. Mas para Agostinho esta sabedoria era obscurecida pelo
afastamento em relação a Deus e seus ensinamentos, assim o conhecimento
só poderia ser reintegrado aos homens pela razão e pela fé (in CONTRA
ACADEMICOS LIBRI III – XIII.29).
37 Agostinho escreve sobre a memória e os sentidos: “Sim, é verdade! A não
ser porque já existiriam em minha memória? Porém, elas estavam tão
abrigadas e ocultas em cavernas secretíssimas que talvez não pudesse pensar
nelas, se de lá não fossem arrancadas por quem me alertasse (in
CONFESSIONUM LIBRI XIII - X.10.17). À tradução de commemorare
considerei sempre o contexto onde estava inserida. Em alguns casos, segui a
literalidade como em I-9, enquanto em outros, como I-19, considerei a
citação acima, traduzindo-a por evocar, chamar de algum lugar.
Agostinho escreve sobre a memória e os sentidos: “Sim, é verdade! A não ser
porque já existiriam em minha memória? Porém, elas estavam tão abrigadas
e ocultas em cavernas secretíssimas que talvez não pudesse pensar nelas, se
de lá não fossem arrancadas por quem me alertasse (in CONFESSIONUM
LIBRI XIII - X.10.17). À tradução de commemorare considerei sempre o
contexto onde estava inserida. Em alguns casos, segui a literalidade como em
I-9, enquanto em outros, como I-19, considerei a citação acima, traduzindo-
a por evocar, chamar de algum lugar.
Santo Agostinho 37

II II – Teoria agostiniana
dos Signos38

1.Augustini - Constat ergo 1.Agostinho – Logo


inter nos verba signa esse. acordamos, serem signos as
palavras.

2.Adeodatus - Constat. 2.Adeodato – Acordamos.

3.Augustini - Quid? Signum 3.Agostinho – Em que?


nisi aliquid significet, potest Signo que não signifique algo
esse signum? poderia ser signo?

4.Adeodatus - Non potest. 4.Adeodato - Não poderia.

38Agostinho, no capítulo II, prepara a introdução de sua teoria dos signos,


a partir de uma leitura dos diferentes signos e não apenas dos verbais.
38 De Magistro
5.Augustini - Quot verba 5.Agostinho - Quantas
sunt in hoc versu: «Si nihil ex palavras existem neste verso:
tanta superis placet urbe Si nihil ex tanta superis placet
relinqui»? urbe relinqui?39

6.Adeodatus - Octo. 6.Adeodato - Oito.

7.Augustini - Octo ergo 7.Agostinho - Existem,


signa sunt. pois, oito signos.

8.Adeodatus - Ita est. 8.Adeodato - Assim seria.

9.Augustini - Credo te hunc 9.Agostinho - Creio que


versum intellegere este verso compreendas?

10.Adeodatus - Satis arbitror. 10.Adeodato - Julgo o


suficiente.

11.Augustini - Dic mihi, quid 11.Agostinho - Dize-me,


singula verba significent. pois de cada palavra o
significado.

12.Adeodatus - Video 12.Adeodato -


quidem, quid significet «si», Compreendo o significado
sed nullum aliud verbum, quo de si, mas não encontro
id exponi possit, invenio. palavra outra que expressá-
la possa.

13.Augustini - Saltem illud 13.Agostinho: Encontrarias


invenis, quicquid significatur ao menos, aonde se situa
hoc verbo, ubinam sit? aquilo que por esta palavra
seria significado?

39 Palavras de Virgílio na Eneida-II, 659:...se nada agrada tanto aos deuses desta
cidade?
Santo Agostinho 39

14.Adeodatus - Videtur mihi, 14.Adeodato – No meu


quod dubitationem significet; entendimento o si significa
iam dubitatio ubi nisi in dúvida e, esta senão na alma
animo est? estaria?

15.Augustini - Accipio 15.Agostinho - Por ora


interim; persequere cetera! aceito, quanto ao mais
continuemos!

16.Adeodatus - «Nihil» quid 16.Adeodato - Nihil, qual


aliud significat nisi id, quod outro significado senão o que
non est? não existe?

17.Augustini - Verum 17.Agostinho – O que


fortasse dicis, sed revocat me concedes uma possibilidade
ab assentiendo, quod superius seria, mas dela me impede
concessisti non esse signum, concordar, que o não
nisi aliquid significet; quod existente não possa de
autem non est, nullo modo nenhum modo ser algo, e
esse aliquid potest. Quare não seria signo aquilo que
secundum verbum in hoc algo não significasse, no que
versu non est signum, quia resulta a segunda palavra do
non significat aliquid, et falso verso não ser signo, posto
inter nos constitit, quod nada signifique. Assim,
omnia verba signa sint aut erramos ao concordar que
omne signum aliquid todas as palavras seriam
significet. signos ou que todo signo
algo significasse.

18.Adeodatus - Nimis 18.Adeodato – Acuas-me


quidem urges, sed quando demasiadamente40. Mas

40Cabe notar a tônica da dialética socrática levada a cabo entre pai e filho, a
qual aparece sobrenadante ao longo de todo o discurso, e, pela qual,
Agostinho frequentemente faz provocações ao filho, muitas vezes concluindo pelo reverso
do desejado, com o propósito único de confundir o filho e provocá-lo a uma
40 De Magistro
non habemus quid entenderás o que eu quero
significemus, omnino stulte dizer e não consigo explicar
verbum aliquod promimus; tu porque ao não encontrar o
autem nunc mecum loquendo significado, proferir qualquer
credo quod nullum sonum interpretação insensato seria.
frustra emittis, sed omnibus, Tu agora, comigo falando,
quae ore tuo erumpunt, creio, não emitir nenhum
signum mihi das, ut aliquid som em vão, todavia, como
intellegam. Quapropter non te todos os que expressa
oportet istas duas syllabas oferece-me como signo para
enuntiare dum loqueris, si per que algo eu entenda. Não
eas non significas quicquam. mencionaria essas duas
Si autem vides necessaram per síbalas se não quisesses algo
eas enuntiationem fieri significar; compreendes,
nosque doceri vel portanto que com elas
commoneri, cum auribus existiria uma informação e
insonant, vides etiam que ao soar em meu ouvido
profecto, quid velim dicere, produziria um ensino ou algo
sed explicare non possim. me faria rememorar.

19.Augustini - Quid igitur 19.Agostinho - Então, o que


facimus? An affectionem faremos? Se da palavra (nihil),
animi quandam, cum rem non se descobre ou se supõem
videt et tamen non esse que nada permaneça, mas
invenit aut invenisse se putat, que poderíamos afirmar ser
hoc verbo significari dicimus significada em face de certa
potius quam rem ipsam, quae disposição da alma41, mesmo
nulla est? quando a coisa não exista?

reação. No texto anterior, Agostinho admite não concordar com o filho e assume
estar impedido de fazê-lo, e que ambos erraram ao acordarem que todas as
palavras fossem signos. Este contexto me levou a traduzir Nimis quidem urges
por Acuas-me demasiadamente, porque denota a clara intenção do pai, de que
Adeodato não encontrasse uma alternativa fácil.
41Traduzi affectionem animi por certa disposição da alma, porque Agostinho está
apresentando a Deodato a diferença entre os significados visíveis (extra-
Santo Agostinho 41

20.Adeodatus - Istuc ipsum 20.Adeodato - Acaso era


est fortasse, quod expedire isso que me esforçava42 para
moliebar. explicar.

21.Augustini - Transeamus 21.Agostinho –


ergo hinc, quoquo modo se Retornemos, pois, donde
habet, ne res absurdissima estávamos para que algo
nobis accidat. incongruente43 não nos
suceda.

22.Adeodatus - Quae 22.Adeodato – O que por


tandem? fim?

23.Augustini - Si «nihil» nos 23.Agostinho – Que


teneat et moras patiamur. aceitemos o aprazo em o
nada, nele nos retendo.

24.Adeodatus - Ridiculum 24.Adeodato - Burlesco44


hoc quidem est, et nescio, certamente isto seria;
quo tamen modo video posse desconheço de que modo
contingere, immo plane video ocorrer pudesse, muito
contigisse. embora claramente prefigure
já tenha ocorrido.
25.Augustini - Suo loco 25.Agostinho – Se Deus
genus hoc repugnantiae, si consentir, no momento certo

mentais) e os internos disponibilizados na mente (espirituais), e, em face do que


descrevi no capítulo 2.9, na qual a alma se apresenta como a conexão entre o
mundo visível e invisível.
Traduzi moliebar por esforço, porque em latim, moliebar subtende um forte
42

movimento de deslocamento de algo.


43 Optei por evitar a literalidade e traduzir absurdíssima por incongruente, por
julgar a literalidade (absurda) inadequada ao contexto do diálogo.
44 A palavra latina ridiculum significa coisa jocosa, assim não optei por traduzi-la
por burlesco, que tem a conotação de rir de forma espirituosa. A tradução
literal para o português implicaria um riso grotesco ou de escárnio, o que não seria
o caso neste diálogo entre pai e filho.
42 De Magistro
deus siverit, planius claramente essas
intellegemus; nunc ad illum contradições
versum te refer et conare, ut compreenderemos; agora,
potes, cetera eius verba, quid retorna a aquele verso e te
significent, pandere! empenha o possível em
descobrir das demais palavras
o significado!

26.Adeodatus - Tertia 26.Adeodato - A terceira ex


praepositio est «ex» pro qua seria uma preposição, em
«de» possumus, ut arbitror, lugar da qual julgo possamos
dicere. dizer de.

27.Augustini: Non id quaero, 27.Agostinho - Não


ut pro una voce notissima pretendo que aludas a uma
aliam vocem aeque palavra conhecida por outra
notissimam, quae idem igualmente versadíssima, de
significet, dicas, si tamen idem igual significado. Mas
significat; sed interim concedamos, por ora, que
concedamus ita esse. Certe si assim seja e, certamente, se
poeta iste non «ex tanta urbe», este poeta, em vez de dizer:
sed «de tanta» dixisset, ex tanta urbe, tivesse dito: de
quaereremque abs te, quid tanta e, eu te indagasse o que
«de» significaret, diceres «ex», significa de, dirias ex, como se
cum haec duo verba essent, id destas duas palavras por
est signa unum aliquid, ut tu significância um único signo
putas, significantia. Ego tivessem. Eu busco a mesma
autem id ipsum nescio quid coisa comum, por estes dois
unum, quod his duobus signis signos significada.
significatur, inquiro.

28.Adeodatus - Mihi videtur 28.Adeodato – A mim


secretionem quandam representa um apartamento
significare ab ea re, in qua daquilo que significa ou da
fuerat aliquid, quod ex illa qual proceda, como neste
esse dicitur, sive illa non verso ocorre, em que não
Santo Agostinho 43

maneat, ut in hoc versu non existindo mais a cidade,


manente urbe poterant aliqui troianos dela poderiam
ex illa esse Troiani, sive proceder, ou como dizemos
maneat, sicut ex urbe Roma existir na África negociantes
dicimus esse negotiatores in que lá residem, mas da cidade
Africa. de Roma procedentes.

29.Augustini - Ut concedam 29.Agostinho – Assentindo


tibi haec ita esse nec que assim fosse, objeções
enumerem, quam multa outras não enumerarei, que
fortasse praeter hanc tuam esta tua regra possa se
regulam reperiantur, illud acrescentar. Por certo
certe tibi adtendere facile est reconheces que expôs
exposuisse te verbis verba, id palavras com palavras, signos
est signis signa eisdemque por signos, coisas conhecidas
notissimis notissima. Ego por outras igualmente
autem illa ipsa, quorum haec conhecidíssimas. Quereria se
signa sunt, mihi, si posses, possível que mostrasses quais
vellem ut ostenderes. signos representam.

III III – Primeira proposição45 -


O procedimento de
comunicação

1.Adeodatus - Miror te 1.Adeodato - Espanta-me


nescire vel potius simulare ignorares, ou que possas
nescientem responsione mea simular desconhecer que de
fieri, quod vis omnino non mim respostas não obterás, já
posse, siquidem que estamos a discorrer, do
sermocinamur, ubi non que resulta senão por
possumus respondere nisi palavras responder. Tu, por
45 O capítulo III apresenta a primeira proposição, na qual estende à
concepção de linguagem todo o, incluindo aqueles que se dão através dos
signos, os quais são responsáveis pelos procedimentos de comunicação das
ideias e juízos que fazemos em nosso mundo, exceto aos que se referem a
fenômenos naturais.
44 De Magistro
verbis. Tu autem res quaeris outro lado, desejas seja o que
eas, quae, quodlibet sint, for e não seriam palavras
verba certe non sunt, quas certamente, todavia com
tamen ex me tu quoque verbis estas solicitas. Primeiro sem
quaeris. Prior itaque tu sine palavras interpeles, e ante
verbis quaere, ut ego deinde esta condição responderei.
ista condicione respondeam!

2.Augustini - Iure agis fateor, 2.Agostinho - Confesso


sed si quaererem, tres istae teres razão, mas se sobre o
syllabae quid significent, cum que constituímos interpelasse
dicitur «paries», nonne posses sobre uma pa-re-de46, não
digito ostendere, ut ego poderias com o dedo
prorsus rem ipsam viderem, mostrar-me, indigitando-a tal
cuius signum est hoc que eu a visse pela coisa
trisyllabum verbum mesma, cujos signos são
demonstrante te nulla tamen estas três sílabas, sem que
verba referente? nenhuma palavra
pronunciasses?

3.Adeodatus - Hoc in solis 3.Adeodato - Admito que


nominibus, quibus corpora fazê-lo possa, mas apenas no
significantur, si eadem caso de palavras que
corpora praesentia sint, fieri signifiquem materiais e,
posse concedo. quando estes estiverem
presentes.

46 Agostinho, ao atribuir à linguagem as funções de ensinar e advertir; indica


o como se aprende e o como se ensina, a partir de quatro elementos constituintes
da comunicação: a palavra (verbum), o discurso (eloquium), o dizível ou aquilo
que se pode dizer (dicibilis) e a coisa em si (res). No entanto, vai além ao
creditar que não apenas os signos da linguagem ensinam, já que podemos
aprender sem a linguagem, através da coisa mesma.
Santo Agostinho 45

4.Augustini - Num colorem 4.Agostinho – Acaso


corpus dicimus an non potius dizemos que a cor seria
quandam corporis qualitatem? algum material47, ou que
poderia ser certa qualidade
deste?

5.Adeodatus - Ita est. 5.Adeodato – Sim, podería.

6.Augustini - Cur ergo et hic 6.Agostinho - Por quais


digito demonstrari potest? An razões a cor com o dedo
addis corporibus etiam poder-se-ia mostrar? Ao
corporum qualitates, ut nihilo adicionar os predicados aos
minus etiam istae, cum materiais e, estando eles
praesentes sunt, doceri sine presentes sem alterar suas
verbis possint? características, sem palavras
ainda poder-se-ia ensinar?

7.Adeodatus - Ego cum 7.Adeodato – A mim, ao


corpora dicerem, omnia ouvir materiais, entendo tudo
corporalia intellegi volebam, o que seria consentido
id est omnia, quae in materialmente, ou seja tudo
corporibus sentiuntur aquilo pelo corpo sensoriado.

8.Augustini - Considera 8.Agostinho - Todavia,


tamen, utrum etiam hinc consideres se aqui não existe
aliqua tibi excipienda sint! alguma exceção48!

47 A palavra latina corpus surge em oposição à alma, mas, neste caso, carrega
a ideia de ser algo ligado apenas aos cinco sentidos naturais e orgânicos, isto
é, se refere a corpos físicos, o que me levou a traduzi-la por materiais.
48Agostinho está a referir uma passagem bíblica: “Assim se cumpre para eles
o que foi dito pelo profeta Isaías: Ouvireis com vossos ouvidos e não
entendereis, olhareis com vossos olhos e não vereis (MATEUS 13:14).
46 De Magistro
9.Adeodatus - Bene 9.Adeodato - Bem notado!
admones; non enim omnia Não deveria dizer tudo que
corporalia, sed omnia visibilia seria material, mas aquilo que
dicere debui. Fateor enim seria visível. Efeitos como
sonum, odorem, saporem, som, odor, sabor, peso, calor
gravitatem, calorem et alia, e outros predicados conexos
quae ad ceteros sensus a outros sentidos, mesmo
pertinent, quamquam sentiri que matéria não constitua,
sine corporibus nequeant et absolutamente poderiamos
propterea sint corporalia, non sensoriar, tanto quanto com
tamen digito posse monstrari. o dedo mostrar não fosse
possível.

10.Augustini - Numquamne 10.Agostinho - Nunca


vidisti, ut homines cum surdis observastes como os homens
gestu quasi sermocinentur se comunicam com os
ipsique surdi non minus gestu surdos? Do mesmo modo
vel quaerant vel respondeant que os próprios surdos,
vel doceant vel indicent aut também respondem, ensinam
omnia, quae volunt, aut certe ou indicam muito do que
plurima? Quod cum fit, non desejam por meio de gestos.
utique sola visibilia sine verbis Assim, não se mostram sem
ostenduntur, sed et soni et palavras só as coisas visíveis,
sapores et cetera huiusmodi; mas também sons, sabores, e
nam et histriones totas in outros análogos. De fato,
theatris fabulas sine verbis todos os histriões nos teatros
saltando plerumque aperiunt contam histórias geralmente
et exponunt. dançando sem palavras49.

49A esta linguagem silenciosa, Agostinho definiu: “Através do movimento


das mãos, alguns exprimem a maior parte das coisas. Os cômicos com o
movimento de todos os seus membros mostram certos signos aos
expectadores, como que falando aos seus olhos. Os estandartes e insígnias
militares manifestam aos olhos a decisão dos chefes. De modo que todos
esses signos funcionam como palavras visíveis” (in De Doctrina Christiana
LIBRI IV - III.4). Agostinho utiliza uma paráfrase, indicando que os signos
Santo Agostinho 47

11.Adeodatus - Nihil habeo, 11.Adeodato - Nada a


quod contradicam, nisi quod objetar contenho, a não ser
illud «ex» non modo ego, sed aquele ex que não somente
ne ipse quidem saltator histrio eu, mas sem palavras mesmo
tibi sine verbis, quid significet, um histrião coreógrafo, o que
posset ostendere. significa não demonstraria.

12.Augustini - Verum 12.Agostinho - Poderia ser


fortasse dicis; sed fingamus verdade o que dizes; mas
eum posse, non ut arbitror suponhas que ele possa,
dubitas, quisquis ille motus dúvidas não terias que no
corporis fuerit, quo mihi rem, esforço em demonstrar o
quae hoc verbo significatur, significado do que tenta
demonstrare conabitur, non comunicar, qualquer fosse o
ipsam rem futuram esse, sed movimento que o corpo
signum. Quare hic quoque execute, este não seria a
non quidem verbo verbum, coisa em si, mas um sinal.
sed tamen signo signum Assim, também ele não
nihilo minus indicabit, ut et indicaria uma palavra com
hoc monosyllabum «ex» et ille palavra, mas um signo com
gestus unam rem quandam outro signo, tal como o
significent, quam mihi ego monossílabo ex e o gesto
vellem non significando significariam a coisa mesma
monstrari. desejada.

13.Adeodatus - Qui potest, 13.Adeodato - Ao que


quod quaeris, oro te? asseveras rogo-te, como seria
possível?

14.Augustini - Quomodo 14.Agostinho - Do mesmo


paries potuit. modo como foi possível à
parede.

também possuem um sistema de linguagem não audível, mas que funciona


como palavras visíveis. O signo impressiona o sentido visual com uma
imagem, mostrando que a linguagem excede as palavras oralizadas ou escritas.
48 De Magistro
15.Adeodatus - Ne ipse 15.Adeodato - Nem mesmo
quidem, quantum ratio isto, conforme propusemos
progrediens docuit, ostendi em nosso raciocínio seria
sine signo potest. Nam et possível sem signo mostrar.
intentio digiti non est utique O ato intencionado do dedo
paries, sed signum datur, per não seria a parede, mas um
quod paries possit videri. signo dado pelo qual a parede
Nihil itaque video, quod sine se veria. Nada aqui vejo que
signis ostendi queat. possa sem signo mostrar-se.

16.Augustini - Quid? si ex te 16.Agostinho – Se eu te


quaererem, quid sit ambulare, perguntasse o que seria andar
surgeresque et id ageres, e, tu levantasses e a ação
nonne re ipsa potius quam improvisasses, da coisa
verbis ad me docendum aut mesma não estarias a servir
ullis aliis signis utereris? para me ensinar,mas o faria
sem palavras através de um
sinal?

17.Adeodatus - Fateor ita 17.Adeodato - Confesso


esse et pudet me rem tam in assim ser e me envergonho
promptu positam non vidisse; não ter algo tão evidente
ex qua etiam mihi milia rerum compreendido; me ocorre
iam occurrunt, quae ipsae per milhares de coisas que seus
se valeant non per signa signos mostram por si, como:
monstrari, ut edere, bibere, comer, beber, sentar, erguer-
sedere, stare, clamare et se, gritar e inúmeras outras.
innumerabilia cetera.

18.Augustini - Age nunc dic 18.Agostinho – Agora dize-


mihi, si omnino nesciens me: se eu não conhecesse
huius verbi vim abs te nada dessa palavra e te
ambulante quaererem, quid sit perguntasse, o que seria
ambulare, quomodo me andar enquanto caminhas, de
doceres? que modo me ensinarias?
Santo Agostinho 49

19.Adeodatus - Id ipsum 19.Adeodato - Mais


agerem adluanto celerius, ut acelerado caminharia, tal que
post interrogationem tuam notasses algo novo após o
aliqua novitate admonereris et questionamento e, não teria
tamen nihil aliud fieret quam coisa outra feito que não
id, quod deberet ostendi. mostrar aquilo que deveria.

20.Augustini - Scisne aliud 20.Agostinho - Sabes que


esse ambulare, aliud festinare? uma coisa seria caminhar,
Nam et qui ambulat, non outra acelerar? Assim seria
continuo festinat, et qui que aquele que caminha,
festinat, non continuo apressado não estaria, e
ambulat; dicimus enim et in aqueloutro que acelera não
scribendo et in legendo significaria estar a caminhar;
aliisque innumerabilibus rebus dizemos de fato isso, para
festinationem. Quare cum escrever, ler e coisas outras
illud, quod agebas, celerius muitas. Destarte, se o que
ageres post interrogationem fazias acelerastes, após meu
meam, putarem ambulare questionamento, poderia eu
nihil esse aliud quam festinare julgar, após a inovação
- id etiam novi addideras -, et acrescida, que andar seria
ob hoc fallerer. caminhar apressadamente, no
que enganado eu estaria.

21.Adeodatus - Fateor non 21.Adeodato - Reconheço


nos posse rem monstrare sine não ser possível sem signo
signo, si, cum id agimus, algo mostrar; de fato se nada
interrogemur; si enim nihil acrescentarmos, aquele que
addamus, putabit, qui rogat, interpela, pensará que ao
nolle nos ostendere continuarmos em nossa ação,
contemptoque se in eo, quod responder não quereríamos.
agebamus perseverare. Sed si Mas, caso interpele sobre o
de his roget, quae agere que podemos fazer e na hora
possumus, nec eo tamen não a estivermos fazendo,
tempore, quo agimus roget, após o quesrtionamento, pela
possumus post eius coisa mesma poderemos
50 De Magistro
interrogationem id agendo re mostrar sem signo que o
ipsa potius quam signo denote, exeto fosse eu
demonstrare, quod rogat, nisi interrogado enquanto
forte loquentem me discorro sobre o que seria
interroget, quid sit loqui; falar. Do que quer que fale,
quicquid enim dixero ut eum necessitaria da locução para
doceam, loquar necesse est. ensinar, após o que com
Ex quo securus docebo, segurança ensinarei,
donec ei planum faciam, quod conquanto claro lhe fique,
vult, non recedens a re ipsa, sem me afastar da própria
quam sibi voluit demonstrari, coisa a demonstrar,
nec signa quaerens, quibus tampouco buscar signos com
eam ostendam praeter ipsam. os quais lhe mostrar.

IV IV – Natureza e
Reciprocidade dos Signos50

1.Augustini - Acutissime 1.Agostinho - Inteiramente


omnino. Quare vide, utrum justo! Com a locução signos
conveniat iam inter nos ea que a fala significa emitimos,
posse demonstrari sine signis, contudo, por quais razões
quae aut non agimus, cum vides agora acordamos, que
interrogamur, et tamen statim mesmo não estando a fazer a
agere possumus aut ipsa forte ação quando mediatamente
signa agimus; cum enim interpelados, poderemos sem
loquimur, signa facimus, de signos demonstrar ou
quo dictum est significare. casualmente sugerir com o
próprio signo.

2.Adeodatus - Convenit. 2.Adeodato - Concernido.

3.Augustini - Cum ergo de

50 Os capítulos IV a VII estabelecem uma profunda reflexão sobre a


natureza e reciprocidade dos signos, questionando possibilidades de se
comunicar sem signos e as relações entre o signo e a palavra.
Santo Agostinho 51

quibusdam signis quaeritur, 3.Agostinho – Logo, sobre


possunt signis signa signos inquerido, podemos
monstrari; cum autem de mostrar signos por signos; e
rebus, quae signa non sunt, quando se tratar de coisas
aut eas agendo post que não são signos,
inquisitionem, si agi possunt, imediatamente após a
aut signa dando, per quae interpelação51 poderemos
animadverti queant. para atinarem signos mostrar.

4.Adeodatus - Ita est. 4.Adeodato - Assim


consiste.

5. Augustini - In hac igitur 5.Agostinho - Das três


tripertita distributione prius disposições, se te convires,
illud consideremus, si placet, primeiro avaliaremos que
quod signis signa certos signos por signos se
monstrantur; num enim sola mostram. Dessa forma,
verba sunt signa? palavras em si signos seriam?

6.Adeodatus - Non. 6.Adeodato – Não.

7.Augustini - Videtur ergo 7.Agostinho - Compreendo


mihi loquendo nos aut verba que ao falar, pelas próprias
ipsa signare verbis aut alia palavras significamos, ou por
signa, velut cum gestum outros signos, como ao
dicimus aut litteram - nam his expressarmos gestos ou
duobus verbis quae letras; as coisas significadas
significantur, nihilo minus nestes dois casos não deixam
signa sunt - aut aliquid aliud, de ser signos ou coisas outras
quod signum non sit, velut que signos não sejam, como
cum dicimus «lapis». Hoc ao proferirmos pedra. Por
enim verbum signum est - esse motivo essa palavra seria
nam significat aliquid -, sed id, signo enquanto significa algo,

As palavras latinas inquisitionem e interrogatio são sinônimas, assim utilizei o


51

mesmo critério que em I-4, traduzindo por interpelação.


52 De Magistro
quod eo significatur, non mas o que por ela (pedra)
continuo signum est; quod seria significado não seria
tamen genus, id est cum signo. Este gênero de
verbis ea, quae signa non palavras que significam coisas
sunt, significantur, non que não são signos, ao que
pertinet ad hanc partem, aqui nos propusemos discutir
quam discutere proposuimus. não competem. Sustemos
Suscepimus enim considerare considerar que signos se
illud, quod signis signa mostram por signos e, destes
monstrantur, et partes in eo descobrimos que com seus
dua comperimus, cum aut significados ensinamos ou
eadem aut alia signa signis rememoramos. assim tu não
docemus vel compreenderias?
commemoramus; an tibi non
videtur?

8.Adeodatus - Manifestum 8.Adeodato – De fato.


est.

9.Augustini - Dic ergo signa 9.Agostinho - Logo, dirias


quae verba sunt, ad quem que as palavras são signos
sensum pertineant? pertencentes a qual sentido?

10.Adeodatus - Ad auditum. 10.Adeodato - A audição.

11.Augustini - Quid gestus? 11.Agostinho - E os gestos?

12.Adeodatus - Ad visum. 12.Adeodato - A visão.

13.Augustini - Quid? cum 13.Agostinho - Ao


verba scripta invenimus, num encontrarmos palavras
verba non sunt? An signa escritas, palavras não seriam?
verborum verius Compreendidas mais como
intelleguntur, ut verbum sit, signos de palavras, do que
quod cum aliquo significatu palavras articuladas pela voz,
articulata voce profertur - vox quais significados conferem?
Santo Agostinho 53

autem nullo alio sensu quam Sucede que a palavra escrita


auditu percipi potest. Ita fit, ilustra um signo aos olhos,
ut, cum scribitur verbum, conquanto a voz seria
signum fiat oculis, quo illud, percebida por outro sentido,
quod ad aures pertinet, veniat procede se não da audição
in mentem. para à mente chegar.

14.Adeodatus - Omnino 14.Adeodato - inteiramente


assentior. assiro.

15.Augustini - Id quoque te 15.Agostinho - Do mesmo


arbitror assentiri, cum modo, julgo aprovarias que
dicimus «nomen», significare ao proferirmos nome, algo
nos aliquid. significaríamos.

16.Adeodatus - Verum est. 16.Adeodato – Por certo que


sim.

17.Augustini - Quid tandem? 17.Agostinho - Mas, o quê?

18. Adeodatus - Id scilicet, 18.Adeodato -


quod quidque appellatur, Evidentemente aquilo a que
velut Romulus, Roma, virtus, nominamos tais como:
fluvius et innumerabilia Romulus, Roma, virtude, rio e
cetera. inúmeras outras.

19.Augustini - Num ista 19.Agostinho - Porventura


quattuor nomina nullas res estes quatro nomes algo não
significant? significariam?

20.Adeodatus - Immo 20.Adeodato - Ao contrário,


aliquas. muito.

21.Augustini - Num nihil 21.Agostinho - Nenhuma


distat inter haec nomina et eas diferença existiria entre esses
res, quae his significantur?
54 De Magistro
nomes e as coisas que
significam?

22.Adeodatus - Immo 22.Adeodato – Até há


plurimum. muitíssima.

23.Augustini - Vellem abs te 23.Agostinho - Gostaria de


audire, quidnam id sit. ouvir quais seriam.

24.Adeodatus - Hoc vel in 24.Adeodato - Antes, por


primis, quod haec signa sunt, isso, uns (nomes) seriam
illa non sunt. signos, outros (significados)
não.

25.Augustini - Placetne 25.Agostinho – Não te


appellemus significabilia ea, agradarias chamar
quae signis significari possunt significáveis a aqueles que em
et signa non sunt, sicut ea, não sendo signos, signos
quae videri possunt, visibilia signifiquem, assim como
nominamus, ut de his nominarmos visíveis ao que
deinceps commodius se pode ver e depois
disseramus? comodamente discutirmos?

26.Adeodatus - Placet vero. 26.Adeodato – Por certo


agrada.

27.Augustini - Quid? illa 27.Agostinho – Em que


quattuor signa, quae paulo aqueles quatro signos que há
ante pronuntiasti, nullone alio pouco mencionaste por
signo significantur? signos outros, não poderiam
ser significados?

28.Adeodatus - Miror quod 28.Adeodato - Admira-me


iam mihi excidisse arbitraris, julgares tenha eu esquecido
quod ea, quae scribuntur, do que dantes juntos
eorum, quae voce estabelecemos, que a fala
Santo Agostinho 55

proferuntur, signorum signa proferida seja signo que


esse comperimus. outro signo refere.

29.Augustini - Dic inter ista 29.Agostinho - Dize-me


quid distet. sobre a diferença destes.

30.Adeodatus - Quod illa 30.Adeodato - Quanto a


visibilia sunt, haec audibilia; aqueles são visíveis e estes
cur enim non et hoc nomen audíveis. Por que não os
admittas, si admisimus aceitaria como nome, se os
significabilia? admitimos serem
significáveis?

31.Augustini - Prorsus 31.Agostinho - Inteiramente


admitto, et gratum habeo. Sed consinto e grato lhe sou.
rursus quaero, quattuor haec Mas, de novo, outro signo
signa nullone alio signo audível não significaria esses
audibili significari queant, ut quatro signos, como
visibilia recordatus es? lembraste com os visíveis
ocorrer?

32.Adeodatus - Hoc quoque 32.Adeodato - Recordo o


recentius dictum recordor; que há pouco dissestes, ao
nam nomen responderam responder que algo o nome
significare aliquid, et huic significaria e, me ocorreu
significationi quattuor ista aqueles quatros (Romulus,
subieceram, et illud autem et Roma, virtude, rio), que dado a
haec, siquidem voce voz que os pronunciam pela
proferuntur, audibilia esse audição o significado
cognosco. reconheço.

33.Augustini - Quid ergo 33.Agostinho – Que


inter audibile signum et diferenças existem entre eles;
audibilia significata, quae entre o signo (visível) e o
rursus signa sunt, interest? significado da audição?
56 De Magistro
34.Adeodatus - Inter illud 34.Adeodato - Entendo
quidem, quod dicimus estarem distantes daquilo que
nomen, et haec quattuor, quae nome denominamos.
significationi eius subiecimus, Deduzimos que aquilo que
hoc distare video, quod illud seria audível signo consitiria
audibile signum est signorum de outros signos. Pela
audibilium, haec vero audição entenderiamos que
audibilia quidem signa sunt, certamente os audíveis teriam
non tamen signorum, sed significados reais, em parte
rerum partim visibilium sicut inteligíveis como virtude,
est Romulus, Roma, fluvius, mas não da mesma forma
partim intellegibilium, sicut que os signos referentes ao
est virtus. visível como Romulus, Roma
e rio.

35.Augustini - Accipio et 35.Agostinho - Concordo e


probo. Sed scisne omnia, reconheço. Mas, saberias que
quae voce articulata cum aquilo proferido com voz
aliquo significatu proferuntur, articulada e que tem
verba appellari? significado, se denomina
palavra?

36.Adeodatus - Scio. 36.Adeodato – Sei

37.Augustini - Ergo et 37.Agostinho - Logo, o


nomen verbum est, quando significado de nome provém
quidem id videmus cum da voz articulada; ao
aliquo significatu articulata dizermos que um homem
voce proferri, et cum dicimus eloquente faz uso de palavras
disertum hominem bonis virtuosas, de alguma forma
verbis uti, etiam nominibus nomes ele utiliza. Quando
utique utitur, et cum seni em Terentius52, o escravo se
domino apud Terentium dirigiu a seu velho senhor,

52St. Agostinho está se referindo a uma passagem da comédia Andria de


Publius Terentius Afer (185? – 159 a.C.).
Santo Agostinho 57

servus rettulit «bona verba suplicou com palavras de


quaeso», multa ille etiam bondade pronunciando
nomina dixerat. nomes.

38.Adeodatus - Assentior. 38.Adeodato - Concordo.

39.Augustini - Concedis 39.Agostinho - Assentis


igitur his duabus syllabis, quas pois, que ao exprimirmos
edimus, cum dicimus verbum, estas duas sílabas ver-bum
nomen quoque significari et (palavra), o nome também
ob hoc illud huius signum seria significado e por isso
esse. aquela constituiria signo
deste.

40.Adeodatus - Concedo. 40.Adeodato - Assinto.

41.Augustini - Hoc quoque 41.Agostinho – Gostaria,


respondeas velim: cum então, que respondesses:
verbum signum sit nominis et dado que a palavra seja signo
nomen signum sit fluminis et do nome, a denominação rio
flumen signum sit rei, quae seria signo de rio e signo de
iam videri potest, ut inter uma realidade visível.
hanc rem et flumen, id est Reconheces a diferença entre
signum eius, et inter hoc esta realidade e seu signo, e
signum et nomen, quod huius entre este signo e o nome
signi signum est, dixisti, quid que o significa; o que julgas
intersit, quid interesse ser a diferença entre o nome
arbitraris inter signum do signo, que já vimos ser a
nominis, quod verbum esse palavra e o mesmo nome
comperimus, et ipsum cujo signo é a palavra?
nomen, cuius signum est?

42.Adeodatus - Hoc distare 42.Adeodato –


intellego, quod ea, quae Compreendo, por isto, a
significantur nomine, etiam distinção entre o que seria
verbo significantur - ut enim significado por um nome e o
58 De Magistro
nomen verbum est, ita et significado pela palavra;
flumen verbum est -, quae assim rio seria uma palavra,
autem verbo significantur, mas nem tudo aquilo
non omnia significantur et significado com a palavra,
nomine. Nam et illud «si» pelo nome seria significado.
quod in capite habet abs te De fato aquele si que inicia o
propositus versus, et hoc verso proposto por ti e
«ex», de quo iam diu agentes aquele ex do qual guiado pela
in haec duce ratione razão, exaustivamente
pervenimus, verba sunt nec tratamos como palavra, mas
tamen nomina, et talia multa não nome, seria semelhante a
inveniuntur. Quamobrem vários outros que
cum omnia nomina verba encontramos. Pelo que,
sint, non autem omnia verba todos os nomes seriam
nomina sint, planum esse palavras, porém nem todas
arbitror, quid inter verbum nomes seriam. Julgo a
distet et nomen, id est inter diferença ser clara entre
signum signi eius, quod nulla palavra e nome, ou seja, entre
alia signa significat, et signum o signo do signo que não
signi eius, quod rursus alia significaria outro signo, e o
signa significat. signo daquele signo que
poderia significar outros.

43.Augustini - Concedisne 43.Agostinho – Não


omnem equum animal esse assentirias que todos os
nec tamen omne animal cavalos animais seriam, mas,
equum esse? nem todo animal, equino53
significaria?

53 No latim vulgar, enquanto caballus era o animal de carga, usado sempre no


trabalho pesado, geralmente castrado, tinha a ver com o cavalo utilizado na
agricultura; no latim clássico, equus (masculino) era o animal bem tratado,
usado em Roma em pistas de corrida ou em passeios a serviço dos patrícios,
e mais afeto ao cavalo para a batalha, ou a determinadas máquinas de guerra
como o aríete; agregado, principalmente, à cavalaria romana. Em Pro Murena
78 de Cícero, encontramos: Intus, intus, inquam, est equus Troianus (“Está dentro,
Santo Agostinho 59

44.Adeodatus - Quis 44.Adeodato - Quem


dubitaverit? duvidaria?

45.Augustini - Hoc ergo 45.Agostinho - Logo, entre


inter nomen et verbum, quod nome e palavra existiriam
inter equum et animal, diferenças, como entre cavalo
interest. Nisi forte ab e animal. A não ser que
assentiendo id te revocat, impedido fosses de assentir e
quod dicimus et alio modo retrocedesse, pelo fato de
verbum, quo significantur ea, que poderíamos usar a
quae per tempora declinantur, palavra verbum em outra
ut scribo scripsi, lego legi, acepção; a de declinação por
quae manifestum est non esse tempos, como: escrevo, escrevi,
nomina. leio, li, que claramente não
são nomes.

46.Adeodatus - Dixisti 46.Adeodato – Disseste tudo


omnino, quod me dubitare aquilo que em mim dúvidas
faciebat. suscitava.

47.Augustini - Ne te istuc 47.Agostinho - Que isto não


moveat; dicimus enim et signa te preocupes, por certo
universaliter omnia, quae dizemos signos em geral a
significant aliquid, ubi etiam tudo que significa algo, e
verba esse invenimus. também às palavras que aí
Dicimus item signa militaria, estão. Dizemos o mesmo dos
quae iam proprie signa

aqui dentro, estou dizendo, é um equino de Tróia” (m.t.). Para o feminino


equa conservou-se integralmente em português pela derivação latina.
Wäänänen explica esta diferença: “Caballus - En su origen caballo de trabajo o
caballo castrado, caballus sustituyó a equus, al principio com un matiz peyorativo
de rocín, a partir de Varrón y sobre todo en la época imperial; después
cualquier caballo (1968, p. 131). Optei por traduzir equus por cavalo quando
se tratou de um substantivo e por equino quando se tratou de um adjetivo ou
de um substantivo adjetivado.
60 De Magistro
nominantur, quo verba non símbolos militares54, mais
pertinent. Et tamen si tibi próximos dos signos55 e não
dicerem: ut omnis equus pertencente às palavras.
animal, non autem omne Assim, se te dissessem: todo
animal equus, ita omne cavalo seria animal, e nem todo
verbum signum, non autem animal seria equino, da mesma
omne signum verbum est, forma que toda palavra seria
nihil, ut opinor, dubitares. signo, e nem todo signo seria
palavra; acredito dúvidas não
apresentarias.

48.Adeodatus - Iam intellego 48.Adeodato – Agora


et prorsus assentior hoc compreendo e aprovo
interesse inter universale illud plenamente que exista entre
verbum et nomen, quod inter palavra em geral e nome, a
animal et equum. mesma diferença entre
animal e equino.

49.Augustini - Scisne etiam, 49.Agostinho - Não sabes


cum dicimus animal, aliud que quando dizemos animal,
esse hoc trisyllabum nomen, uma coisa seria o nome

54Traduzi signa militaria por símbolos militares, face o que já havia ressaltado no
capítulo 2.6, que trata da interpretação do signo em De Magistro, no qual o
historiador Le Goff e o linguista Todorov afirmam que, na semiótica do
período medieval, as insígnias faziam parte dos símbolos.
55 Eco cita que Agostinho saberia que a Sagrada Escritura não falava só in
verbis, mas também in factis, como escreveu em De doctrina Christiana III - 5.9,
uma allegoria historiae; e em De vera Religione 50.99, uma allegoria sermoni. Segundo
Eco, em Agostinho o alegorismo escritural é uma alegoria interpretativa, que não
concernente ao modo pelo qual a linguagem representa os fatos, mas os
próprios fatos explicam a alegoria, estabelecendo uma diferença entre allegoria
in verbis e allegoria in factis: Estamos acostumados a diferenciar alegorismo de simbolismo,
porém esta distinção é recente; na Idade Média esses dois termos eram sinônimos (1989,
p. 52). Agostinho apresenta sua definição de signo, mostrando que este indica
o que não mostra: O signo é toda coisa que, além da impressão que produz em nossos
sentidos, faz com que nos venha ao pensamento outra ideia distinta [...] (in DE
DOCTRINA CHRISTIANA LIBRI IV - II.2.3).
Santo Agostinho 61

quod voce prolatum est, aliud trissilábico proferido com a


id, quod significat? voz, outra seria aquilo que se
quer significar?

50.Adeodatus - Iam hoc 50.Adeodato - Há pouco


supra concessi de omnibus isso assenti acerca das
signis et significabilibus. significações de todos os
signos.

51.Augustini - Num omnia 51.Agostinho - Não


signa tibi videntur aliud compreenderias que todos os
significare, quam sunt, sicut signos diferem do que são,
hoc trisyllabum, cum dicimus daquilo que significam, assim
animal, nullo modo idem ao pronunciarmos o
significat quod est ipsum. trissílabo animal, não
estaríamos significando o que
ele mesmo seria?

52.Adeodatus - Non sane; 52.Adeodato – De certa


nam cum dicimus signum, forma não; na verdade
non solum signa cetera, dizemos signo não só a
quaecumque sunt, sed etiam signos outros, quaisquer que
se ipsum significat; est enim sejam, mas aos que a si
verbum, et utique omnia próprio significa, pois
verba signa sunt. constituíria uma palavra, e
todas as palavras seriam
signos56.

53.Augustini - Quid? in hoc 53.Agostinho – Quando


disyllabo, cum dicimus pronunciamos o dissílabo ver-

56 Agostinho ao atribuir à linguagem as funções de ensinar e advertir, indica


o como se aprende e o como se ensina, a partir de quatro elementos constituintes
da comunicação: a palavra (verbum), o discurso (eloquium), o dizível ou aquilo
que se pode dizer (dicibilis) e a coisa em si (res). No entanto, vai além ao
creditar que não apenas os signos da linguagem ensinam, já que podemos
aprender sem a linguagem, através da coisa mesma.
62 De Magistro
verbum, nonne tale aliquid bum (palavra), algo parecido
contingit? Nam si omne, não encontrariamos? Na
quod cum aliquo significatu verdade, se tudo com algum
articulata voce profertur, hoc significado fosse proferido
disyllabo significatur, etiam com voz articulada, o
ipsum hoc genere includitur. significado desse dissílabo
incluiria o próprio gênero.

54.Adeodatus - Ita est. 54.Adeodato - Assim


constato.

55.Augustini - Quid? nomen 55.Agostinho – Com o


nonne similiter habet? Nam et nome não há similaridade?
omnium generum nomina Certo que nomeia o próprio
significat, et ipsum nomen nome e significa todos os
generis neutri nomen est. An gêneros de nomes neutros.
si ex te quaererem, quae pars Se inquirido a que parte da
orationis nomen, posses mihi oração corresponderia o
recte respondere nisi nomen? nome, poderias responder a
não ser ao nome?

56.Adeodatus - Verum dicis. 56.Adeodato - Dizes a


verdade.

57.Augustini - Sunt ergo 57.Agostinho – Logo, são os


signa, quae inter alia, quae signos que entre outras coisas
significant, et se ipsa que significam, isto fazem a
significent. si próprios.

58.Adeodatus - Sunt. 58.Adeodato - Concordo.

59.Augustini - Num tale tibi 59.Agostinho – Acaso ao


videtur hoc quadrisyllabum dizermos coniunctio
signum, cum dicimus (conjunção), este signo
coniunctio? quadrissílabo
compreenderias?
Santo Agostinho 63

60.Adeodatus - Nullo modo; 60.Adeodato - De forma


nam ea, quae significat, non alguma, porquanto seja um
sunt nomina, hoc autem nome, e o que ele significa
nomen est. não são nomes.

V V – Relações entre o signo


e as palavras

1.Augustini - Bene 1.Agostinho - Bem atentado.


adtendisti. Nunc illud vide, Percebas agora, existirem
utrum inveniamus signa, quae signos que reciprocamente se
se invicem significent, ut, significam, como este
quemadmodum hoc ab illo, significa aquele, aquele a este;
sic illud ab hoc significetur; não me ocorrendo isto entre
non enim ita sunt inter se hoc aquele quadrissílabo coniunctio
quadrisyllabum, cum dicimus e as coisas que ele significa: si
coniunctio, et illa, quae ab (se), vel (ou), nam (pois),
hoc significantur, cum namque (e, pois), nisi (se não),
dicimus si, vel, nam, namque, ergo (logo), quoniam (porque) e
nisi, ergo, quoniam et similia; outras semelhantes; estes
nam haec illo uno vocábulos são significados só
significantur, nullo autem por aquele, mas nenhum
horum unum illud destes significaria aquele
quadrisyllabum significatur. quadrissílabo.

2.Adeodatus - Video et, 2.Adeodato - Compreendo e


quaenam signa sint invicem de fato desejo conhecer quais
significantia, cupio os signos que reciprocamente
cognoscere. se significam.

3.Augustini - Tu ergo nescis, 3.Agostinho - Logo não


cum dicimus nomen et saberias que ao dizermos
verbum, duo verba nos nome e palavra, duas palavras
dicere? proferimos?

4.Adeodatus - Scio. 4.Adeodato - Sei.


64 De Magistro
5.Augustini - Quid? illud 5.Agostinho - O quê sabes?
nescis, cum dicimus nomen et Ignoras que ao dizermos nome
verbum, duo nomina nos e palavra, nominamos os dois
dicere? nomes?

6.Adeodatus - Id quoque 6.Adeodato - Igualmente sei.


scio.

7.Augustini - Scis igitur tam 7.Agostinho - O


nomen verbo quam etiam conhecimento do nome tanto
verbum nomine significari. pode significar palavra,
quanto o da palavra o nome.

8.Adeodatus - Assentior. 8.Adeodato - Concordo.

9.Augustini - Potesne dicere, 9.Agostinho - Poderias dizer


excepto eo, quod diverse em que diferem, exceto que
scribuntur et sonant, quid diferentemente se escrevem e
inter se differant? se pronunciam?

10.Adeodatus - Possum 10.Adeodato – Talvez possa.


fortasse; nam id esse video, Na forma como compreendi
quod paulo ante dixi. Verba o que há pouco dissestes, ao
enim cum dicimus, omne, fazermos soar as palavras,
quod articulata voce cum significamos tudo o que com
aliquo significatu profertur, voz articulada é proferido.
significamus. Unde omne Donde, a todo nome e a ele
nomen et ipsum, cum dicimus próprio chamarmos palavra,
nomen, verbum est; at non porém nem toda palavra é
omne verbum nomen est, nome, no que nominar uma
quamvis nomen sit, cum palavra entendamos.
dicimus verbum.

11.Augustini - Quid? si 11.Adeodato – Por qual


quisquam tibi affirmet et razão? Se alguém te afirmar e
probet, ut omne nomen provar que como todo nome
Santo Agostinho 65

verbum est, ita omne verbum é palavra, também toda


nomen esse, poterisne palavra é nome, poderias
invenire, quid distent praeter determinar em que se
diversum in litteris sonum? diferenciam, além do som
diverso das letras?

12.Adeodatus - Non potero, 12.Adeodato - Não poderia,


nec omnino distare aliquid e tampouco alguma diferença
puto. apuro.

13.Augustini - Quid? si 13.Agostinho – Em que?


omnia quidem, quae voce Todas as palavras e nomes
articulata cum aliquo são significados pela voz com
significatu proferuntur, et palavras articuladas; por
verba sunt et nomina, sed certas razões umas
tamen alia de causa verba et denominamos palavras e
alia de causa nomina sunt, outros nomes; não existiria
nihilne distabit inter nomen et entre nome e palavra alguma
verbum? diferença?

14.Adeodatus - Quomodo 14.Adeodato - Não


istuc sit non intellego. compreendo como isto seja.

15.Augustini - Hoc saltem 15.Agostinho -


intellegis omne coloratum Compreenderias que todo
visibile esse et omne visibile colorido seja visível, e que
coloratum, quamvis haec duo todo visível seja colorido,
verba distincte differenterque embora as duas palavras por
significent. significados diferentes se
distinga?

16.Adeodatus - Intellego. 16.Adeodato - Compreendo.

17.Augustini - Quid? si ergo 17.Agostinho - Como? Se,


ita et omne verbum nomen et deste modo, toda palavra
omne nomen verbum est, nome fosse e todo nome
66 De Magistro
quamvis haec ipsa duo palavra seria, embora estes
nomina vel duo verba, id est dois nomes ou duas palavras
nomen et verbum, sejam nome e palavra em si
differentem habeant mesmos, em que suas
significationem? significações difeririam?

18.Adeodatus - Iam video 18.Adeodato - Agora


posse id accidere, sed compreendo que possa
quomodo id accidat, expecto, ocorrer, mas espero que
ut ostendas. mostres o modo como isso
possa se dar.

19.Augustini - Omne, quod 19.Agostinho - Tudo que


cum aliquo significatu seria significado por voz
articulata voce prorumpit, articulada seria observado,
animadvertis, ut opinor, et notado e, refletido na audição
aurem verberare, ut sentiri, et pela sensação, para poder a
memoriae mandari, ut nosci memória ir e reconhecido
possit. existir.

20.Adeodatus - 20. Adeodato – Percebo.


Animadverto.

21.Augustini - Duo ergo 21.Agostinho – Ao


quaedam contingunt, cum proferirmos algo com a voz,
aliquid tali voce proferimus. ocorrem estas duas coisas.

22.Adeodatus - Ita est. 22.Adeodato - Assim seria.

23.Augustini - Quid? si 23. Agostinho – Por que?


horum duorum ex uno Aclare: se em ambas (verba e
appellata sunt verba, ex altero nomina) uma seria
nomina, verba scilicet a denominada palavra e o
verberando, nomina vero a outro nome; na primeira, a
noscendo, ut illud primum ab palavra distinguida ao refletir
na audição e, na segunda, o
Santo Agostinho 67

auribus, hoc autem secundum nome, reconhecido apenas ao


ab animo vocari meruerit? invocar à alma?

24.Adeodatus - Concedam, 24.Adeodato – Responderei


cum ostenderis, quomodo se, de modo justo,
recte possimus omnia verba demonstrares como a toda
nomina dicere. palavra possamos proferir
nome.

25.Augustini - Facile est; 25. Agostinho - É fácil, pois


nam credo te accepisse ac creio que aceitastes a
tenere pronomen dictum, denominação de pronome, a
quod pro ipso nomine valeat, aquilo que substitui o nome e
rem tamen notet minus plena designa a coisa por uma
significatione quam nomen. significação menos completa
Nam, ut opinor, ita definivit que o nome. Pois creio,
ille, quem grammatico assim definiu o gramático57
reddidisti: Pronomen est pars que o referiu: Pronome seria
orationis, quae pro ipso posita uma parte da oração que usada no
nomine minus quidem plene lugar do nome, significaria o
idem tamen significat. mesmo objeto, embora não tão
perfeitamente.

26.Adeodatus - Recordor et 26.Adeodato - Recordo e


probo. consinto.

27.Augustini - Vides igitur 27.Agostinho -


secundum hanc definitionem Compreendes segundo esta
nullis nisi nominibus servire definição, os momes não
et pro his solis poni posse serem senão para nomear;
pronomina, velut cum por isso só os usamos após
57 St. Agostinho está se referindo ao gramático Dionysio Tracia que utilizava o
termo grego αντωνυμ α (antwnumía), que no latim passou para pronome, tendo
a função de designar uma determinada categoria de palavras que substituiam
o nome (substantivo) ou que serviam para dar lhe ênfase ou para esclarecer
seu significado.
68 De Magistro
dicimus «hic vir, ipse rex, os pronomes, como ao
eadem mulier, hoc aurum, dizermos: este homem, o mesmo
illud argentum», «hic, ipse, rei, esta mulher, este ouro, aquela
eadem, hoc, illud» pronomina prata. Este, mesmo, esta, esse e
esse, «vir, rex, mulier, aurum, aquela são pronomes; homem,
argentum» nomina, quibus rei, mulher, ouro e prata, são
plenius quam illis significados por nomes mais
pronominibus res significatae plenamente do que pelos
sunt. pronomes.

28.Adeodatus - Video et 28.Adeodato – Percebo e


assentior. concordo.

29.Augustini - Tu ergo nunc 29.Agostinho – Agora tu


mihi paucas coniunctiones enuncies algumas conjunções
quaslibet enuntia. que queiras.

30.Adeodatus - Et, que, at, 30. Adeodato - E, ou, por,


atque. porém.

31.Augustini - Haec omnia, 31.Agostinho - Não te


quae dixisti, non tibi videntur pareces que sejam nomes
esse nomina? tudo o que citastes?

32.Adeodatus - Non 32.Adeodato - Não


omnino. inteiramente.

33.Augustini - Ego saltem 33.Agostinho -


tibi recte locutus videor, cum Compreenderias ao menos
dicerem: haec omnia, quae que falei corretamente: tudo o
dixisti? que dissestes?

34.Adeodatus - Recte 34.Adeodato - Compreendo


prorsus et iam intellego, quam corretamente quão
mirabiliter ostenderis me admiravelmente mostrastes
nomina enuntiasse; non enim que enunciei nomes; de outra
Santo Agostinho 69

aliter de his recte dici forma não poderias dizer


potuisset «haec omnia». Sed todos estes. Mas, agora uma
enim vereor adhuc, ne dúvida me sucede sobre a
propterea mihi recte locutus equidade de tua afirmação,
videaris, quod has quattuor porque negar não poderei
coniunctiones etiam verba que as quatro conjunções
esse non nego, ut ideo de his também palavras sejam e, por
recte dici potuerit «haec certo posso dizer
omnia», quoniam recte dicitur corretamente todas estas
«haec verba omnia». Si autem palavras. Se me perguntares a
a me quaeras, quae sit pars que parte da oração
orationis verba, nihil aliud corresponde a palavra,
respondebo quam nomen. nenhuma outra te
Quare huic nomini fortasse responderei a não ser ao
pronomen adiunctum est, ut nome. Por isso se adiciona o
illa recta esset locutio tua. pronome, para que a locução
correta esteja.

35.Augustini - Acute quidem 35.Agostinho - Engana-te


falleris; sed ut falli desinas, agudamente e, para findar tua
acutius adtende, quod dicam, dúvida, atente ao que te direi
si tamen dicere id, ut volo, com a firmeza que desejo.
valuero. Nam verbis de verbis De fato, mover-se entre
agere tam implicatum est, palavras com palavras se faz
quam digitos digitis inserere tão complicado quanto
et confricare, ubi vix entrelaçar os dedos e
dinoscitur nisi ab eo ipso, qui friccioná-los; somente quem
id agit, qui digiti pruriant et o faz, sabe o que lhe inquieta
qui auxilientur prurientibus. e o quanto isso a
inquietação58 alivia.

58 Tomei o cuidado de traduzir prurientibus, do verbo prurio, por inquietação. A


tradução por prurido seguido de comichão seria cabível; no entanto, a palavra latina
prurido no período medieval estava íntima e profundamente ligada aos casos
de lepra, o que não se insere no contexto deste diálogo entre Agostinho e o
filho. Na Sagrada Escritura, encontramos este sentido, em duas passagens
70 De Magistro
36.Adeodatus - En toto 36.Adeodato – Nisto estou
animo adsum; nam ista haec com toda a alma; a
similitudo me intentissimum comparação que fez,
fecit. efetivamente, muito
interessa.

37.Augustini - Verba certe 37.Agostinho - As palavras


sono et litteris constant. se constituem de sons e
letras.

38.Adeodatus - Ita est. 38.Adeodato - Assim


constitui.

39.Augustini - Ergo, ut ea 39.Agostinho - Logo, servi-


potissimum auctoritate nos-emos de uma autoridade
utamur, quae nobis carissima ilibada, para nós muito cara,
est, cum ait Paulus apostolus: o apóstolo Paulus, que disse:
«Non erat in Christo est et Não existia em Christus o ser e o
non, sed est in illo erat», non não ser, mas nele só existiria o
opinor putandum est tres istas ser59. Não concordarias, por
litteras, quas enuntiamus, cum certo, que estas três letras
dicimus «est», fuisse in que pronunciamos (est60)

por ocasião de uma súplica em confissão de Davi, quando acometido dessa


doença. “Amigos e companheiros fogem de minha lepra, e meus parentes
permanecem longe (PSALMI 37.12). [...] são fétidas e purulentas as chagas
que a minha loucura me causou (PSALMI 37.6).
59 enim Filius Iesus Christus qui in vobis per nos praedicatus est per me et
Silvanum et Timotheum non fuit est et non sed est in illo fuit […] (Dei
PAULUS in II Corinthios 1.19)
60 A tradução literal de est seria é, no entanto julguei mais adequado traduzir
por ser, porque está se referindo à existência de Christus. Cumpre resaltar
que, ao longo desta tradução, evitei utilizar o verbo ser na terceira pessoa do
singular ( é ) com o sentido afirmativo. Sempre o substitui por seria, no sentido
do condicional, dado que os ensinamentos provenham do Agostinho pai, o
qual em um dos trechos afirma sua dúvida em poder ensinar, tanto quanto
afirma que o único Mestre seria o Creador que habita o homem interior.
Santo Agostinho 71

Christo, sed illud potius, quod existissem em Christus, mas


istis tribus litteris significatur. sim aquilo que estas três
letras significariam.

40.Adeodatus - Verum dicis. 40.Adeodato - Dizes a


verdade.

41.Augustini - Intellegis 41.Agostinho - Dessa forma,


igitur eum qui ait: «Est in illo compreendes que ao dizer o
erat», nihil aliud dixisse quam: ser estava nele, nada mais
«Est appellatur, quod in illo afirmou que aquilo que
erat», tamquam si dixisset estava nele se denominava
«virtus in illo erat», non utique existia, e se dissesse a virtude
dixisse acciperetur nisi «virtus estava nele, não quereria mais
appellatur, quod in illo erat», do que dizer chama-se virtude
ne duas istas syllabas, quas algo que nele estava. Assim
enuntiamus, cum dicimus como ao pronunciarmos
virtus, et non illud, quod his virtus, nele não estariam as
duabus syllabis significatur, in duas sílabas, mas sim o
illo fuisse arbitraremur. significado daquilo que nele
estaria contido (virtus).

42.Adeodatus - Intellego ac 42.Adeodato - Entendo e


sequor. acompanho.

43.Augustini - Quid illud 43. Agostinho - Acaso


nonne intellegis etiam nihil entenderias não existir
interesse, utrum quisque dicat nenhuma diferença entre
«virtus appellatur» an «virtus dizer: se chama virtude ou se
nominatur»? nomeia virtude?

44.Adeodatus - Manifestum 44.Adeodato - É evidente.


est.

45.Augustini - Ergo ita 45.Agostinho - Logo, desta


manifestum est nihil interesse, maneira evidente seria nada
72 De Magistro
utrum quis dicat «est importar, que alguém refira o
appellatur» an «est nominatur, que nele havia se nomina por
quod in illo erat». era..., ou aquilo era...

46.Adeodatus - Video et hic 46.Adeodato - Neste


nihil distare. momento, compreendo não
existiria diferenças.

47.Augustini - Iamne etiam 47.Agostinho - Vides agora


vides, quid velim ostendere? o que significa isto que expor
anseava?

48.Adeodatus - Nondum 48.Adeodato - Não


sane. inteiramente.

49.Augustini - Itane tu non 49. Agostinho – Por certo


vides nomen esse id, quo res não compreenderias que
aliqua nominatur? nome seria aquilo que às
coisas nomeia?

50.Adeodatus - Hoc plane 50.Adeodato – Por esse


nihil certius video. motivo nada claramente
observo.

51.Augustini - Vides ergo 51.Agostinho - Logo


«est» nomen esse, siquidem compreenderias que era
illud, quod erat in Christo, refere o nome ser, conquanto
«est» nominatur. o que em Christus estava se
nominou seria.

52.Adeodatus - Negare non 52.Adeodato - Não posso


possum. negar.

53.Augustini - At si ex te 53.Agostinho - Portanto, se


quaererem, quae sit pars eu perguntasse a que parte da
orationis «est», non opinor oração corresponde o ser, não
Santo Agostinho 73

nomen, sed verbum esse responderias nome, mas


diceres, cum id ratio etiam verbo, posto que a razão nos
nomen esse docuerit. informe também ser um
nome.

54.Adeodatus - Ita est 54.Adeodato - É


prorsus, ut dicis. precisamente como dizes.

55.Augustini - Num adhuc 55. Agostinho - Acaso


dubitas alias quoque partes duvidarias que outras partes
orationis eodem modo, quo da oração fossem nomes,
demonstravimus, nomina segundo o mesmo modo
esse? como a ser nomeamos?

56.Adeodatus - Non dubito, 56.Adeodato - Não duvido


quando quidem fateor ea que algo signifiquem. Se
significare aliquid. Si autem perguntares como se chama
res ipsae, quas significant, cada uma das coisas que
quid singulae appellentur, id isoladamente significam, ou
est nominentur, interroges, seja, como se denominam,
respondere non possum, nisi não poderei responder senão
eas ipsas partes orationis, com aquelas mesmas partes
quas nomina non vocamus, da oração a que não nomes
sed, ut cerno convincimur. denominamos, mas que
comprovamos discernir.

57.Augustini - Nihilne te 57.Agostinho - Nem te


movet, ne quis existat, qui abalas existir quem nossa
nostram istam rationem razão fragilize, afirmando que
labefactet dicendo apostolis ao Apóstolo, a autoridade se
non verborum, sed rerum atribuia não às palavras, mas
auctoritatem esse tribuendam; às doutrinas; assim a
quam ob rem fundamentum persuasão deste fundamento
persuasionis huius non tam não seria tão sólida como
esse firmum, quam putamus; pensávamos; poderia ocorrer
fieri enim posse, ut Paulus, conquanto a prescrição de
74 De Magistro
quamquam vixerit sua retidão, que Paulus tivesse
praeceperitque rectissime, falado com menos
minus tamen recte locutus sit, legitimidade, ao pronunciar o
cum ait «est in illo erat», ser estava nele, sobretudo
praesertim cum se ipse tendo confessado que era
imperitum in sermone inábil em se exprimir? Como
fateatur? Quo tandem modo podes este julgamento
istum refellendum arbitraris? refutar?

58.Adeodatus - Nihil habeo, 58.Adeodato - Nada tenho


quod contradicam, et te oro, que isto contradiga e, rogo
ut aliquem de illis reperias, procures a aqueles com
quibus verborum notitia notoriedade ampla em
summa conceditur, cuius palavras, cuja autoridade
auctoritate potius id, quod possa eficazmente avalizar o
cupis, efficias. que concedes.

59.Augustini - Minus enim 59.Agostinho -


tibi videtur idonea remotis Compreenderias ao menos
auctoritatibus ipsa ratio, qua que das autoridades
demonstratur omnibus distanciados, pela mesma
partibus orationis significari razão que demonstramos a
aliquid et ex eo appellari; si toda parte da oração algo
autem appellari, et nominari, significar e assim seriam
si nominari, nomine utique denominadas; se assim
nominari, quod in diversis forem, o serão, sobretudo
linguis facillime iudicatur. por um nome, o que
Quis enim non videat, si facilmente observado seria
quaeram, quid Graeci em várias línguas. Quem, de
nominent, quod nos fato investigar, compreenderá
nominamus «quis», responderi como os gregos nomeiam
mihi τίς, quid Graeci aquilo que nomeamos quis
nominent, quod nos (quem), responder-me-iam
nominamus «volo», τίς (tis); e como nomeiam volo
responderi mihi θέλω, quid (quero), responder-me-iam
Graeci nominent, quod nos θέλω; o que nominamos bene,
Santo Agostinho 75

nominamus «bene», responderiam καλῶς (kalõos);


responderi καλῶς, quid o que nominam quando
Graeci nominent, quod nos scriptum (escrito), responder-
nominamus «scriptum», me-iam τὸ γεγραμμένον (tó
responderi mihi τὸ gegramménon). Em resumo
γεγραμμένον, quid Graeci os gregos nominam o que
nominent, quod nos nos nominamus et como καί
nominamus «et», responderi (kai); ab (por, de, donde)
καί, quid Graeci nominent, como ἀπό (apo); heu (ah!,
quod nos nominamus «ab», oh!) como οἴ (oi). Não só,
responderi ἀπό, quid Graeci mas em todas as partes das
nominent, quod nos orações que agora enumerei,
nominamus «heu», responderi quem interpela fala com
οἴ. Atque in his omnibus retidão e, assim não sucederia
partibus orationis, quas nunc se nomes não fossem. Por
enumeravi, recte loqui eum, conseguinte o apóstolo
qui sic interroget, quod, nisi Paulus ausente de toda a
nomina essent, fieri non eloquência que pudesse obter
posset. Hac ergo ratione das autoridades, falou com
Paulum apostolum recte razão. Então, qual
locutum esse, cum remotis necessidade há de procurar
omnium eloquentium amparo para nossa opinião
auctoritatibus obtinere em autoridades? Mas, a
possimus, quid opus est alguém inepto61 ou lúbrico
quaerere, cuius persona que não queira ver62,

61 A palavra tardior refere-se ao adjetivo tardus, e, dentre possíveis traduções


para o português, optei por inepto que significa aquele que se mostra obscuro
em um determinado assunto. O mesmo ocorre com a palavra latina
impudentior que se refere ao adjetivo lascivo, que traduzi por lúbrico significando
escorregadio.
62 A palavra nondum é derivada da partícula dum+non, porém está
acompanhada da palavra cedat. Neste caso, não se refere a ceder do verbo cedo,
mas sim a uma forma de seu imperativo que em geral aparece na língua falada
e acompanhada da partícula dum. Nondum cedat significa não deixar ver, não
mostrar; assim a traduzi por não queira ver.
76 De Magistro
sententia nostra fulciatur? Sed defenderá não poderem
ne quis tardior aut todos aqueles eglégios, em
impudentior nondum cedat, língua latina, jamais se
asseratque nisi illis auctoribus, aproximar da excelência de
quibus verborum leges um Tullius Cicero, e contribuir
consensu omnium tribuuntur, com regras às palavras63, não
nullo modo esse cessurum, obstante este em seus
quid in Latina lingua celebérrimos discursos que
excellentius Cicerone inveniri chamamos as Verrinas64,
potest? At hic in suis chamar de nome à
nobilissimis orationibus, quas preposição coram (diante de),
Verrinas vocant, coram ainda que ela pudesse ser
praepositionem, sive illo loco nominada de advérbio.
adverbium sit, nomen Talvez eu não compreenda
appellavit. Verumtamen quia muito bem este ponto. Tanto
fieri potest, ut ego illum em mim quanto em qualquer
locum minus bene intellegam outro, há algo que penso
exponaturque alias aliter vel a nada se poder apurar,
me vel ab alio, est, ad quod destarte de outra forma
responderi posse nihil puto. exponho. Certamente,
Tradunt enim nobilissimi interpretando notáveis
disputationum magistri discussões de preceptores,
nomine et verbo plenam em uma sentença constaria
constare sententiam, quae nome e verbo que se
affirmari negarique possit, complementariam, quer
quod genus idem Tullius pudesse estar afirmando ou
quodam loco pronuntiatum negando. O mesmo Cicero
vocat. Et cum verbi tertia algures chamou a esse gênero
persona est, nominativum proposição. Estando o verbo

63 Traduzi apalavra latina asseratque por defender e leges por regras, mais adequado
quando estamos tratando de linguística; tribuuntur por contribuição por não ser
derivado do verbo tribuo, mas sim do substantivo tributum; nullo é um advérbio,
portanto traduzi por de modo nenhum e cessurum, de cessio, traduzi por aproximar.
64Cícero (2005) produziu uma série de respeitáveis discursos, sob o nome de
Verrinas, contra os desmandos de Verres, um corrupto governador da Sicília,
que, em face destes, acabou por demitido.
Santo Agostinho 77

cum ea casum nominis aiunt na terceira pessoa, dizem


esse oportere, et recte aiunt. com razão que o caso do
Quod mecum si consideres, nome deva ser o nominativo.
velut cum dicimus «homo Vide comigo; se
sedet», «equus currit», considerarmos, por exemplo,
agnoscis, ut opinor, duo que ao dizermos homo sedet (o
pronuntiata esse. homem senta), equus currit (o
cavalo corre), reconhecerias,
segundo penso, existirem
duas proposições?

60.Adeodatus - Agnosco. 60.Adeodato - Reconheço

61.Augustini - Cernis in 61.Agostinho - Aceitas que


singulis singula esse nomina, em cada uma há o nome: na
in uno «homo», in altero primeira homem, na outra
«equus», et verba singula, in cavalo; e seus respectivos
uno «sedet», in altero «currit». verbos, na primeira sentar e
na outra correr.

62.Adeodatus - Cerno. 62.Adeodato - Aceito.

63.Augustini - Ergo si 63.Agostinho - Logo, se eu


dicerem sedet tantum aut dissesse somente senta ou
currit tantum, recte a me corre, certamente me
quaereres, quis vel quid, ut perguntarias: o que queres com
responderem «homo» vel isto; para que eu respondesse
«equus» vel «animal» vel homem ou cavalo, ou animal ou
quodlibet aliud, quo posset coisa outra qualquer, tal que
nomen redditum verbo ao enunciado pudesse
implere pronuntiatum, id est restituir o verbo para
illam sententiam, quae concluir a proposição, ou seja
affirmari et negari potest. a sentença da qual se poderia
afirmar ou negar.
78 De Magistro
64.Adeodatus - Intellego. 64.Adeodato –
Compreendo.

65.Augustini - Adtende 65.Agostinho - Ao restante


cetera et finge nos videre atente e, imagine estarmos a
aliquid longius et incertum ver algo longínquo e
habere, utrum animal sit an contingente, acaso um animal
saxum vel quid aliud, meque em um rochedo65 ou se
tibi dicere: «Quia homo est, quizeres outra coisa, que a ti
animal est», nonne temere me fizesse dizer: Aquilo seria
dicerem? homem, logo animal; teria eu
dito irrefletidamente?

66.Adeodatus - Temere 66.Adeodato -


omnino, sed non temere Completamente impensada,
plane diceres: «Si homo est, mas não se dissesses: Se for
animal est». um homem, logo será animal.

67.Augustini - Recte dicis. 67.Agostinho -


Itaque in tua locutione placet Corretamente falaste. Assim
mihi «Si», placet et tibi; se faz que em tua fala a mim
utrique autem nostrum in mea apraz o Si (Se) e apraz a ti,
displicet «quia». por outro lado nos desagrada
o meu quia (aquilo seria).

68.Adeodatus - Assentior. 68.Adeodato – Concordo.


65 A palavra saxum permite várias traduções envolvendo a ideia de pedra, rocha,
optei por rochedo; a palavra quia é o antigo plural de quid, cuja tradução “é”
significa aquilo, porém optei por traduzi-la por Aquilo seria; nonne, em latim um
advérbio de dupla negação quando numa mesma oração, tem a negação
anulada transformando-se numa afirmação. Ainda, a partícula non modifica o
sentido se estiver na frente ou atrás da outra negação, o que me levou a
considerar esta frase como uma afirmativa. A palavra latina correspondente
ao verbo temer (ter medo) em português é o verbo timeo, mas, neste caso,
estamos falando de temere, um ablativo em desuso de temus+eris, que significa
em português sem ponderação, assim optei por irrefletido. O advérbio latino plane
na resposta de Adeodato, significa total e assim foi traduzido por inteiramente.
Santo Agostinho 79

69.Augustini - Vide iam, 69.Agostinho -


utrum istae duae sententiae Compreendes agora, quão
plena pronuntiata sint: «Placet amplas são proposições às
si», «displicet quia». duas sentenças: agrada o Se;
desagrada aquilo será.

70.Adeodatus - Plena 70.Adeodato - Tudo


omnino. plenamente.

71.Augustini - Age nunc dic 71.Agostinho – Prossiga e


mihi, quae ibi sint verba, quae dize-me quais nelas são
nomina. verbos e quais nomes.

72.Adeodatus - Verba ibi 72.Adeodato - Compreendo


video esse «placet» et que as palavras são placet
«displicet», nomina vero quid (agrada) e displicet (desagrada),
aliud quam «si» et «quia». e os nomes quais outros a
não ser si e quia.

73.Augustini - Has ergo duas 73.Agostinho - Logo, bem


coniunctiones etiam nomina provado está que essas duas
esse satis probatum est. conjunções nomes também
seriam.

74.Adeodatus - Prorsus satis. 74.Adeodato – Sim,


inteiramente.

75.Augustini - Potesne ipse 75.Agostinho - Ensinado


per te in aliis partibus pela mesma regra, não
orationis hoc idem ad eandem poderias das outras partes da
regulam docere? oração, por ti próprio
provar?

76.Adeodatus - Possum. 76.Adeodato - Poderia.


80 De Magistro
VI VI - Partes da oração -
nomes e vocábulos

1.Augustini - Transeamus 1.Agostinho – Avancemos


ergo hinc et iam dic mihi, deste ponto e dize-me: se
utrum, sicut omnia verba porventura todas as palavras
nomina et omnia nomina seriam nomes, e todos os
verba esse comperimus, ita nomes palavras,
tibi et omnia nomina compreenderemos que todos
vocabula et omnia vocabula os nomes sejam vocábulos, e
nomina esse videantur. todos os vocábulos nomes.

2.Adeodatus - Plane inter 2.Adeodato – Claramente,


haec quid distet praeter além do som diverso, entre
diversum syllabarum sonum, eles diferenças outras não
non video. constato.

3.Augustini - Nec ego 3.Agostinho - Por ora


interim resisto, quamquam tampouco me oponho,
non desint, qui etiam todavia não falte quem
significatione ista discernunt, quanto à significação os
quorum sententiam modo distinga, o que neste ponto
considerare non opus est. Sed desnecessário se faz
certe animadvertis ad ea iam considerar. Certamente
signa nos pervenisse, quae se compreendes chegarmos aos
invicem significent nulla signos que mutuamente se
praeter sonum distantia et significam, sem distinta
quae se ipsa significent cum diferença que a do som e,
ceteris omnibus partibus aqueles com as demais partes
orationis. da oração que a si mesmos
significam.

4.Adeodatus - Non intellego. 4.Adeodato - Não


compreendo.
Santo Agostinho 81

5.Augustini - Non ergo 5.Agostinho - Logo, não


intellegis et nomen vocabulo compreenderias que nome
et vocabulum nomine significa vocábulo, e
significari et ita, ut praeter vocábulo nome; assim, além
sonum litterarum nihil do som das letras, em geral,
intersit, quantum ad generale nada diferem no que diz
nomen attinet; nam et respeito ao nome contido;
speciale dicimus nomen, quod posto dizermos nome em
inter octo partes orationis ita geral e, este seria o que está
est, ut alias septem non nas oito partes da oração66,
contineat. sem conter as outras sete.

6.Adeodatus - Intellego. 6.Adeodato - Compreendo.

7.Augustini - At hoc est, 7.Agostinho – Era isto,


quod dixi sese invicem entretanto, que eu tentava
significare vocabulum et dizer, que vocábulo e nome
nomen. reciprocamente se significam.

8.Adeodatus - Teneo, sed 8.Adeodato - Percebo, mas


quaero, quid dixeris, cum pergunto o que quererias
etiam se ipsa significant cum dizer com: as outras partes da
aliis partibus orationis. oração ainda significarem a si
mesmas.

9.Augustini - Nonne 9.Agostinho - Nâo ensinou


superior ratio docuit nos o raciocínio acima que às
omnes partes orationis et partes da oração poder-se-ia
nomina posse dici et dizer nomes e vocábulos, ou
vocabula, id est et nomine et seja, seriam significadas tanto
vocabulo posse significari?

66Élio Donato (350 d.C.), autor de Ars Grammatica,no livro II, dividiu as
partes dos discursos na língua latina em oito categorias: o nome, o verbo, o
pronome, a preposição, a conjunção, o advérbio, a interjeição e o particípio.
(WEEDWOOD, 2002, p.35)
82 De Magistro
por nome como por
vocábulo?

10.Adeodatus - Ita est. 10.Adeodato - Assim é.

11.Augustini - Quid? ipsum 11.Agostinho - Então?


nomen, id est sonum istum Mesmo o no-me, ou seja, o
duabus syllabis expressum, si som expresso por estas duas
ex te quaeram, quid appelles, sílabas, se acaso eu te
nonne recte mihi respondebis perguntasse como os
«nomen»? indicaria, por certo nome não
me responderias?

12.Adeodatus - Recte. 12.Adeodato - Certamente.

13.Augustini - Num ita se 13.Agostinho - Coniunctio


significat hoc signum, quod (conjunção) por acaso este
quattuor syllabis enuntiamus, signo significaria o que
cum dicimus «coniunctio»? pronunciamos ao
Hoc enim nomen inter illa, proferirmos estas quatro
quae significat, numerari non sílabas,? Dado que entre
potest. outros que ele significa, o
nome em si não poderia ser
incluído.

14.Adeodatus - Accipio. 14.Adeodato - Concordo.

15.Augustini - Id est, quod 15.Agostinho - Era isto que


dictum est nomen se ipsum eu queria expressar, que
significare cum aliis, quae nome67 significa a si próprio
significat; quod etiam de e nomeia a outros
67 Agostinho estaria considerando os escritos de Élio Donato, comentarista
de várias peças de teatro, entre estas as do próprio Terênsius, citado em De
Magistro 4.37: Nome quid est? Pars orationis cum casu corpus aut rem proprie
communiterve significans. Nomini quot accidunt? Sex. Quae? Qualitas, comparatio,
genus, numerus, figura, casus (in FURLAN, 1984, p. 43).
Santo Agostinho 83

vocabulo per te ipsum licet significados, se entenderes


intellegas. que ele por si mesmo um
vocábulo seja.

16.Adeodatus - Iam facile 16.Adeodato - Agora está


est. Sed illud mihi nunc venit fácil. Mas, me ocorre que o
in mentem nomen et termo nome poderia
generaliter et specialiter dici, abranger sentido geral e
vocabulum autem inter octo especial, porém o vocábulo
partes orationis non accipi. não se inclui entre as oito
Quare hoc quoque inter se partes da oração. Acredito
praeter diversum sonum que diferenças entre eles
differre arbitror. existam, além do som
diferente.

17.Augustini - Quid? nomen 17.Agostinho - Qual? Nomen


et ὄνομα distare inter se (nome em latim) e ὄνομα
aliquid putas praeter sonum, (nome em grego) se
quo etiam linguae diferenciam além do som, o
discernuntur Latina et quanto na língua latina e
Graeca? grega se distinguem?

18.Adeodatus - Hic vero 18.Adeodato - Aqui,


nihil aliud intellego. realmente nada mais
compreendo.

19.Augustini - Perventum est 19.Agostinho - Desta forma


ergo ad ea signa, quae se ipsa chegamos a aqueles signos
significent et aliud ab alio que significam a si mesmos e,
invicem significetur et mutuamente outros
quicquid ab uno hoc et ab alio significam; o que por um
et nihil praeter sonum inter se seria significado será também
differant; nam hoc quartum pelo outro. Além do som em
modo invenimus; tria enim nada mais se diferenciam.
superiora et de nomine ac Este é o quarto caso, posto
verbo intelleguntur.
84 De Magistro
que os três anteriores
referiam-se a nome e palavra.

20.Adeodatus - Omnino 20.Adeodato - Atingimos


perventum. realmente.

VII VII – Reflexão de Adeodato

1.Augustini - Iam quae 1.Agostinho - Agora gostaria


sermocinando invenerimus, que reportasses sobre o que
velim recenseas. dialogamos.

2.Adeodatus - Faciam 2.Adeodato - Farei o quanto


quantum possum. Nam primo puder. De certo,
omnium recordor aliquamdiu primeiramente me recordo
nos quaesisse, quam ob que perquirimos por algum
causam loquamur, tempo o motivo pelo qual
inventumque esse docendi falamos; descobrindo ser
commemorandive gratia nos para ensinar graças à
loqui, quando quidem nec, rememoração; certamente,
cum interrogamus, aliud não apenas quando com
agimus quam ut ille, qui nossa fala interpelamos, visto
rogatur, discat, quid velimus que ao interpelar, não
audire; et in cantando, quod pretendemos coisa outra que
delectationis causa facere não seja saber daquele que é
videmur (non sit proprium interpelado, o que dele
locutionis), et in orando deo, queremos ouvir; vimos logo
quem doceri aut após que ao cantarmos,
commemorari existimare non aquilo que fazemos por
possumus, id verba valeant, ut prazer da locução não seja
vel nos ipsos próprio e, finalmente que ao
commonefaciamus vel alii orarmos a Deus, a quem não
commemorentur doceanturve podemos ponderar ensinar
per nos. Deinde cum satis
constitisset verba nihil aliud
esse quam signa, ea vero, quae
Santo Agostinho 85

non aliquid significent, signa ou rememorar68, as palavras


esse non posse, proposuisti servem para advertir a nós
versum, cuius verba singula, mesmos, ou para que outros
quid significarent, conarer por nós sejam advertidos ou
ostendere; is autem erat: «Si ensinados. A seguir, bem
nihil ex tanta superis placet estabelecido que palavras
urbe relinqui». Cuius sejam signos e, que não
secundum verbum, quamvis poderiam ser signos coisas
notissimum et que nada significassem,
manifestissimum, quid propusestes um verso, cujas
tandem significaret, non palavras me esforcei por
reperiebamus. Cumque mihi mostrar os significados de
videretur non frustra nos id in cada palavra. O verso era: Si
loquendo interponere, sed nihil ex tanta superis placet urbe
quod eo aliquid doceamus relinqui. Quanto a segunda
audientem, ipsam mentis palavra69 (nihil), embora

68 Para Agostinho, a linguagem falada (dicibilis) se baseia em determinados


sons (sona) e se apresenta como um sistema de signos à palavra (verbum); o
significante (sonus) é o que percute em nossa audição e ao significado
(significatio), só poderemos acessar se dele tivermos um conhecimento
anterior, ou seja, a palavra se constitui numa rememoração e não propiamente
em ensino. Isto levou Eco (1991) a citar que Agostinho, na esteira dos
estóicos, chamou de dictio aquele verbum vocis que não só foris sonat, mas que é
reconhecido enquanto um correlato a um verbum mentis.
69 Em De Magistro leva Adeodato a concluir pela existência de Deus, em que
trata da existência do inexistente, para que conclua pelo reverso, a partir da
teoria do pré-socrático Demócrito de Abdera (460 – 370 a.C.), a partir de sua
célebre afirmação: nada nasce do nada, nada retorna ao nada, portanto o nada existe
tanto quanto alguma coisa (in PRÉ-SOCRÁTICOS, 2000, p.260). Questiona-o
como poderia a palavra nada ser uma referência real, se não cita qualquer
coisa; já que se referenciasse, tornar-se-ia algo e aí entraria em contradição
com a sua designação. Na verdade, Agostinho preparava Adeodato para uma
reflexão sobre a criação do mundo a partir do nada: “[...] Deus, Trindade Una
e Unidade Trina, fora de vós nada havia com que pudesses criar: por isso
fizestes o céu e a terra, aquele grande e esta pequena, porque sois onipotente
e bom para fazer tudo bom, um grande céu e uma pequena terra. Só vós
existíeis e nada mais, e fizestes o céu e a terra, dois acontecimentos, um
86 De Magistro
affectionem, cum rem, quam conhecidíssima e muito clara,
quaerit, non esse invenit vel não conseguíamos encontrar
invenisse se putat, hoc verbo seu significado e, a mim
fortasse indicari respondisti tu parecia que quando a
quidem, sed tamen nescio, empregávamos, não
quam profunditatem inutilmente o fazíamos, mas
quaestionis ioco evitans in para ensinar a quem nos
aliud tempus inlustrandam ouve algo conhecer, e
distulisti - ne me debiti respondestes que talvez esta
quoque tui oblitum putes. palavra indicasse o próprio
Inde tertium in versu verbum estado da mente em seu
cum satagerem exponere, descobrir e, assim gracejando
urgebar abs te, ut non verbum evitou se aprofundar na
aliud, quod idem valeret, sed questão, adiando pra outro
rem ipsam potius, quae verbo momento o esclarecimento,
significaretur, ostenderem, que não julgues tenha eu
cumque id sermocinantibus esquecido a dívida. A seguir,
nobis fieri non posse estimulou meu esforço com a
dixissem, ventum est ad ea, terceira palavra do verso, tal
quae interrogantibus digito a não expô-la por outra que
monstrantur. Haec ego tivesse o mesmo significado,
corporalia esse omnia mas mostrando a própria
arbitrabar, sed invenimus sola coisa significada pelas
visibilia. Hinc nescio palavras, e tendo eu dito que
quomodo ad surdos et isso não se poderia fazer
histriones devenimus, qui non falando, passamos para

próximo de vós, a outra próxima do nada, esta do qual vós é o superior, e o


outro que em nada seria inferior a ela.69 [...] foram feitas por Vós do nada,
não, porém, da vossa substância ou de certa matéria pertencente a outrem ou
anterior a Vós, mas de matéria concriada, isto é, criada por Vós ao mesmo
tempo em que ela, e sem nenhum intervalo de tempo, fez passar da
informidade à forma” (in CONFESSIONUM LIBRI XIII – XII. 07 e
VIII.33). Agostinho retomou o tema do nada quando estudou o tempo e a
criação do mundo: “[...] atrevo-me a dizer sem receio de contestação que, se
nada sobreviesse, não existiria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não
teria o tempo presente” (in CONFESSIONUM LIBRI XIII – XI.15).
Santo Agostinho 87

sola, quae videri possunt, sed aqueles objetos que se


multa praeterea ac prope mostram com os dedos a
omnia, quae loquimur, gestu quem interpela. Julgava eu
sine voce significant; eosdem fossem todos os objetos
tamen gestus signa esse corpóreos, mas concluímos
comperimus. Tum rursus serem os visíveis. Daí,
quaerere coepimus, quomodo passamos não sei de que
res ipsas, quae signis forma, aos surdos e estriões,
significantur, sine ullis signis que por meio de gestos e sem
valeremus ostendere, cum et palavras significam não só as
ille paries et color et omne coisas visíveis, mas muitas
visibile, quod intentione digiti outras e quase tudo aquilo
ostenditur, signo quodam que se poderia falar.
convinceretur ostendi. Hic Verificamos, todavia que
ego errans cum inveniri tale estes gestos se constituem
nihil posse dixissem, tandem em signos, então
inter nos constitit ea posse recomeçamos a examinar
demonstrari sine signo, quae, como mostrar sem signos as
cum a nobis quaeruntur, non realidades mesmas, as quais
agimus et post inquisitionem se significariam por signos
agere possumus; locutionem como àquela parede, a cor, e
tamen ex eo non esse genere, todo o visível que se intenta
siquidem et loquentes cum com o dedo, a distinguir um
interrogamur, quid sit locutio, determinado signo. Tendo eu
ipsam per se ipsam aqui errado ao dizer que nada
demonstrare facile esse satis poderíamos encontrar dessa
apparuit. Ex quo admoniti classe, concordamos que se
sumus aut signis signa poderia mostrar sem signos
monstrari aut signis alia, quae aquelas coisas que quando
signa non sunt, aut etiam sine nos são indagadas e, ao não
signo res, quas agere post estar no momento a fazê-las,
interrogationem possumus, poderiamos mostrá-las após a
horumque trium primum pergunta. A locução, todavia,
diligentius considerandum não seria desta natureza,
discutiendumque suscepimus. vimos com clareza ser fácil
Qua disputatione declaratum mostrá-la por meio de si
88 De Magistro
est partim esse signa, quae ab mesma ao falar. Isto nos
his signis, quae significarent, advertiu que, ou se mostram
significari vicissim non signos por meio de outros
possent, ut est hoc signos, ou com signos se
quadrisyllabum, cum mostram outras coisas que
«coniunctio» dicimus, partim signos não sejam, ou, quando
quae possent, ut, cum dicimus não são signos visíveis, após
«signum», etiam verbum sermos questionados
significamus, et cum dicimus poderemos mostrá-los após a
«verbum», etiam signum interpelação, e destes três
significamus; nam signum et casos, tomamos o primeiro
verbum et duo signa et duo para considerar e discutir
verba sunt. In hoc autem cuidadosamente. Mediante
genere, quo invicem se esta discussão ficou tratado
significant, quaedam non que em parte existem signos
tantum, quaedam tantum, que não podem ser
quaedam vero etiam idem reciprocamente significados
valere monstratum est. pelos signos que eles
Etenim hoc disyllabum, quod próprios significam, como no
sonat, cum dicimus «signum», caso do quadrissílabo
prorsus omnia, quibus coniunctio; e há os que podem,
quidque significatur, como ao dizermos signo em
significat; non autem omnium que significamos a palavra e,
signorum signum est, cum ao dizemos palavra,
dicimus «verbum», sed tantum significamos um signo. Sem
eorum, quae articulata voce dúvida, signo e palavra não são
proferuntur. Unde apenas dois signos, mas
manifestum est, quamvis et também duas palavras. No
verbum signo et signum caso em que os signos se
verbo, id est et istae duae significam reciprocamente,
syllabae illis et illae istis mostrou que uns não têm a
significentur, plus tamen mesma extensão dos
signum valere quam verbum significados, enquanto outros
plura scilicet illis duabus se identificam. Desta forma
syllabis quam istis ao dizermos o dissílabo signo,
significantibus. Tantundem sem exceção significariamos
Santo Agostinho 89

autem valet generale verbum todos os signos, pelos quais


et generale nomen. Docuit algo possa ser significado,
enim ratio omnes partes mas se dissermos palavra, não
orationis etiam nomina esse, se trataria de um signo de
quod et pronomina his addi todos os signos, mas apenas
possunt et de omnibus dici daqueles articulados pela voz.
potest, quod aliquid nominent Donde com clareza vemos
et nulla earum sit, quae non que embora se signifiquem
verbo adiuncto pronuntiatum mutuamente; a palavra por
possit implere. Sed cum um signo, e um signo por
tantundem valeant nomen et uma palavra, o signo tem
verbum, eo quod omnia, quae uma expansão maior que a
verba sunt, sint etiam nomina, palavra, não obstante signum e
non tamen idem valent. Alia verbum em sentido escrito
quippe de causa verba et alia terem a mesma extensão.
nomina nuncupari satis Instruíu-nos o intelecto, que
probabiliter disputatum est; todas as partes da oração,
siquidem alterum horum ad nomes também seriam, posto
auris verberationem, alterum que a elas se possam juntar
ad animi commemorationem pronomes, e de todas se
notandam esse compertum poderia afirmar que nomeiam
vel ex hoc intellegi potest, algo, não havendo nenhuma
quod in loquendo rectissime que se lhe juntarmos o verbo
dicimus: «quod est huic rei não pudesse formar uma
nomen»? rem memoriae proposição ou um enunciado
mandare cupientes, «quod est perfeito. Muito embora
autem huic rei verbum»? nome e palavra (signum e
dicere non solemus. Quae verbum) tenham a mesma
vero non solum tantundem, extensão, já que toda palavra
sed etiam idem omnino também é nome, não se
significent et inter quae nihil identificam. Efetivamente,
praeter litterarum distet por uma razão são
sonum, nomen et ὄνομα designadas as palavras e por
invenimus. Illud sane mihi outra os nomes. O primeiro
elapsum erat in hoc genere, in desses vocábulos assinala a
quo invicem se significant, percussão nos ouvidos e o
90 De Magistro
nullum nos signum segundo evoca a alma; por
comperisse, quod non inter conta disso corretamente, e
cetera, quae significat, se desejando fixar algo na
quoque significet. Haec, memória dizemos: Que nome
quantum potui, recordatus tem esta coisa? E, não o
sum. Tu iam videris, quem contrário: Que palavra tem esta
nihil puto in hoc sermone nisi coisa? Quanto aos signos que
scientem certumque dixisse, não só tem apenas a mesma
utrum ista bene ordinateque extensão, mas significam
digesserim. exatamente o mesmo, não
existindo entre eles nenhuma
diferença a não ser o som das
letras; encontramos nomen e
ὄνομα. A respeito dessa
espécie de signos que
mutuamente se significam, de
mim fugira não termos
encontrado nenhum signo
que entre outras coisas, não
significasse a si próprio. Eis o
que melhor pude lembrar.
Tu, de quem julgo nada ter
dito nesta conversa que não
tivesses ciência e certidão,
verás agora se bem e
ordenadamente discorri.
Santo Agostinho 91

VIII VIII – Análise dos


significados70 e a função da
linguagem

1.Augustini - Satis tu quidem 1.Agostinho -


memoriter omnia, quae Suficientemente bem de
vellem, recoluisti, et, ut tibi memória tudo reproduzistes,
fatear, multo evidentius mihi que se me apresenta
nunc videntur ista distincta, restaurado e agora melhor
quam cum ea inquirendo ac que quando nos inquiríamos
disserendo de nescio quibus desvendar sua obscuridade.
latebris ambo erueremus. Sed Mas, ao longo de tantos
quonam tantis ambagibus circunlóquios, difícil seria
tecum pervenire moliar, afirmar aonde contigo
difficile dictu est hoc loco. Tu pretendo chegar. Tu
enim fortasse aut ludere nos certamente talvez penses que
et a seriis rebus avocare estejamos a brincar para, das
animum quasi quibusdam coisas sérias, a alma desviar,
puerilibus quaestiunculis com certas questões de
arbitraris aut parvam vel pouca importância, ou que
mediocrem aliquam utilitatem fiquemos a procurar uma
requirere aut, si magnum utilidade qualquer, pequena e
quiddam parturire istam medíocre; se, porém pensas
disputationem suspicaris, que desta discussão devamos
iamiamque id scire sive saltem produzir algo de importância,
audire desideras. Ego autem gostaria de sabê-lo agora,
credas velim neque me vilia ouvir no mínino um ensejo.
ludicra hoc instituisse Muito embora tivéssemos
sermone, quamvis fortasse brincado, de minha parte
ludamus, idque ipsum tamen desejaria que esta conversa
non puerili sensu não tivesse sido empreendida

70Nos capítulos VIII-X, Agostinho inicia a análise dos significados e a


necessidade de refletir sobre a coisa significada e a função da linguagem para
chegar-se à questão do conhecimento das coisas, afirmando que este é mais
importante que seus signos:
92 De Magistro
aestimandum sit, neque parva como um divertimento
bona vel mediocria cogitare. trivial; não devemos
Et tamen, si dicam vitam esse interpretá-la em sentido
quandam beatam eandemque pueril, já que em vida
sempiternam, quo nos deo pequenos e medíocres bens
duce, id est ipsa veritate, nunca ajuizei. Contudo, se
gradibus quibusdam infirmo disser que há uma vida
gressui nostro accomodatis venturosa e sempiterna pela
perduci cupiam, vereor, ne qual pretendo cheguemos a
ridiculus videar, qui non Deus, ou seja, a própria
rerum ipsarum, quae Verdade, ao nos conduzir a
significantur, sed signorum passos inseguros por
consideratione tantam viam degraus71; temo parecer
ingredi coeperim. Dabis igitur rizível ao iniciar e
veniam, si praeludo tecum empreender tão grande
non ludendi gratia, sed caminhada considerando
exercendi vires et mentis apenas os signos e não as
aciem, quibus regionis illius, coisas mesmas por eles
ubi beata vita est, calorem ac significadas. Darias, portanto,
lucem non modo sustinere, permissão de a ti vir, não em
verum et amare possimus. distração, mas a fim de com
vigor exercitar a lucidez da
mente, para amarmos o calor
e a luz dessa direção, onde se
encontra a vida venturosa.

71 A tradução de gradibus por degraus levou em consideração a passagem da


Vulgata na qual Iacob viu Deus aqui da terra em um sonho, e chamou este
lugar de a casa de Deus e a porta dos céus: [...] e teve um sonho: via uma escada,
que, apoiando-se na terra, tocava o cimo do céu; e anjos de Deus subiam e desciam pela
escada. No alto estava o Senhor71 (GENESIS 28.12). À tradução de infirmo,
considerei inseguros; na tradução de ridiculus, a tradução literal levaria à ideia de
escárnio, assim optei por rizível.
Santo Agostinho 93

2.Adeodatus - Perge potius, 2.Adeodato - Continua


ut coepisti; nam numquam como começastes, pois o que
ego contemnenda putem, julgas se deva dizer ou fazer,
quae tu dicenda vel agenda eu não poderia julgar
putaveris. desprezível.

3.Augustini - Age iam ergo 3.Agostinho - Então adiante


illam partem consideremus, e considere aquela parte em
cum signis non alia signa que os signos não significam
significantur, sed ea, quae outros signos, mas as coisas
significabilia nominamus. Et que avocamos significáveis.
primum dic mihi, utrum Primeiro, dize-me: acaso
homo homo sit. homem seria homem?

4.Adeodatus - Nunc vero an 4.Adeodato - Agora, na


ludas, nescio. verdade não sei se brincas.

5.Augustini - Quid ita? 5.Agostinho - Por que?

6.Adeodatus - Quia 6.Adeodato - Porque me


quaerendum ex me censes, interpelas se o homem seria
utrum homo aliud sit quam alguma coisa diferente de
homo. homem.

7.Augustini - Ita credo te 7.Agostinho - Creio do


illudi arbitrareris, si etiam mesmo modo julgarias
quaererem, utrum prima estivesse eu a brincar se
huius nominis syllaba aliud sit perguntasse se a primeira
quam «ho» et aliud secunda sílaba deste nome seria
quam «mo». diferente de ho, e a segunda
diferente de mem.

8.Adeodatus - Ita omnino. 8.Adeodato – Sim,


realmente.
94 De Magistro
9.Augustini - At istae duae 9.Agostinho – Entrementes,
syllabae coniunctae «homo» negarias que as duas sílabas
est; an negabis? juntas significam homem?

10.Adeodatus - Quis neget? 10.Adeodato - Quem


negaria?

11.Augustini - Quaero ergo, 11.Agostinho - Pergunto,


num tu duae istae syllabae então, se tu serias estas duas
coniunctae sis. sílabas juntas?

12.Adeodatus - Nullo modo, 12.Adeodato - De nenhum


sed video, quo tendas. modo, mas compreendo o
que intentas.

13.Augustini - Dicito ergo, 13.Agostinho - Diga pois,


ne me contumeliosum putes. então, que eu de ti zombando
não esteja.

14.Adeodatus - Concludi 14.Adeodato - Consideras


existimas, quod homo non concluir que eu homem não
sim. seja não seja?

15.Augustini - Quid? tu non 15.Agostinho – Por quais


idem existimas, qui omnia razões não pensarias o
superiora, ex quibus hoc mesmo tu que admites serem
confectum est, vera esse verdadeiros tudo que
concedis? resumimos e, por onde isso
se conclui?

16.Adeodatus - Non tibi ego 16.Adeodato - Não direi o


dicam, quid existimem, nisi que penso antes de te ouvir.
prius abs te audiero, cum Ao me interpelar se homem é
quaereres, utrum homo homo homem, refererias a essas
sit, de duabus istis syllabis an duas sílabas ou sobre aquilo
que significam?
Santo Agostinho 95

de re ipsa, quam significant,


me interrogaveris.

17.Augustini - Tu potius 17.Agostinho - Podes


responde, ex qua parte responder com qual sentido
acceperis interrogationem tomou minha pergunta, de
meam; nam si est ambigua, fato ambígua; deverias ser
prius hoc cavere debuisti precavido em não responder
neque mihi respondere, antes de por certo creditares
antequam certus fieres, à forma pela qual eu
quonam modo rogaverim. perguntava.

18.Adeodatus - Quid enim 18.Adeodato - Como


me impediret haec impedirias esta ambiguidade
ambiguitas, cum ego ad se respondi a uma coisa e a
utrumque responderim? outra? Homem certamente
Homo enim prorsus homo refere o ser homem, e essas
est; nam et istae duae syllabae não são senão duas sílabas e
nihil aliud sunt quam istae por isso o que significam
duae syllabae, et id, quod nada mais seria que aquilo
significant, nihil aliud est que são.
quam id, quod est.

19.Augustini - Scite hoc 19.Agostinho - Esclarecedor


quidem, sed cur hoc solum, o que dizes, mas por que
quod dictum est homo, non tomaste homem apenas
etiam cetera, quae locuti segundo dois aspectos, e não
sumus, ad utrumque também sob outros que
accepisti? dissertamos?

20.Adeodatus - Unde enim 20.Adeodato – Como


convincor, quod et cetera non convencer-me-ia de que não
sic acceperim? tomei sob outros?

21. Augustini - Ut alia 21.Agostinho - Omitindo os


omittam, eam ipsam primam outros, se tivesses tomado
96 De Magistro
rogationem meam, si totam minha primeira pergunta por
ex ea parte accepisses, qua todo o sentido dos sons das
syllabae sonant, nihil mihi sílabas, nada terias
respondisses; possem tibi respondido; e até poderia
enim videri etiam nihil parecer que nada eu tivesse
interrogasse. Nunc vero cum perguntado. Na verdade
tria verba sonuerim, quorum quando fiz ressoar três
unum in medio repetivi palavras, uma delas eu
dicens, «utrum homo homo reproduzi no centro dizendo:
sit» primum et ultimum utrum homo homo sit (acaso
verbum non secundum ipsa homem, homem seria?). Entre
signa, sed secundum ea, quae a primeira e a última palavra,
his significantur, te accepisse tem a segunda que não seria
vel hoc solo manifestum est, o próprio signo, mas sim a
quod statim certus ac fidens realidade significada por ela.
rogationi respondendum Aceitaste apenas o que foi
putasti. manifesto. Certo e confiante
julgou ter respondido a
questão.

22.Adeodatus - Verum dicis. 22.Adeodato - Dizes a


verdade.

23.Augustini - Cur ergo id 23.Agostinho - Por que


tantum, quod in medio tomaste por tão pouco as
positum est, et secundum id, posicionadas ao centro,
quod sonat, et secundum id, conforme o que
quod significat, te accipere sonorizavam, para priorizar a
libuit? seguinte (seria)?
Interpretastes como te
agradava?72

72Neste caso, é necessário ler o texto VIII.21: [...] utrum homo homo sit [...].
Adeodato escolheu privilegiar a primeira e a quarta, e as duas do meio não
escolheu. Secundum é um advérbio de lugar, significa, neste caso, o que
pospõem, assim a traduzi por a seguinte. Libuit é o perfeito de libet que significa
Santo Agostinho 97

24.Adeodatus - Ecce iam 24.Adeodato - Agora ocorre


totum ex ea tantum parte, qua que tomei o significado do
significatur, accipio; assentior todo por uma parte.
enim tibi sermocinari nos Concordo contigo em não
omnino non posse, nisi poder do todo discorrer, a
auditis verbis ad ea feratur não ser ao ouvir as palavras e
animus, quorum ista sunt à alma levá-las, para
signa. Quare ostende nunc, enumerar quais seriam
quomodo ista ratiocinatione signos. Perquira e mostre
deceptus sim, qua me como o raciocínio me
hominem non esse enganou ao concluir que
concluditur. homem, homem não fosse.

25.Augustini - Immo eadem 25.Agostinho - Ao


rursus interrogabo, ut ipse contrário, interpelarei as
invenias, ubi lapsus sis. mesmas questões, para que tu
encontres tuas falhas73.

26.Adeodatus - Bene facis. 26.Adeodato - Fazes bem.

27.Augustini - Illud ergo, 27.Agostinho - Não


quod primo quaesieram, quia procurarei questionar sobre
iam dedisti, non quaeram. aquilo já inquirido e

agradar, dar prazer, ao que traduzi por agradava. Accipere significa compreender,
interpretar.
73 Para os historiadores Philippe Ariès e Georges Duby, a relação entre o
ensino e a formação do caráter em Roma, tinha por características:
“Teoricamente a educação (em Roma), tinha por objetivo temperar o caráter
a tempo para que os indivíduos pudessem resistir, depois de adultos, ao
micróbio do luxo e da decadência, que, devido ao vício daqueles tempos,
estava em toda a parte [...] somente a severidade, que aterroriza os apetites
tentadores, desenvolve o caráter” (ARIÈS, 2004, p. 29). Agostinho tem esse
objetivo, entretanto, na metodologia pedagógica empregada com Adeodato,
pois faz uso do estilo socrático de diálogos que propõe questões, sem
fornecer a solução, servindo tão somente para que os discípulos encontrem
caminhos que levem a ela. Ao conduzir seus interlocutores a descobrirem a
si mesmos, fazê-los nascer para si ao rememorar verdades percebidas outrora.
98 De Magistro
Vide igitur diligentius, utrum submetido. Vide com
syllaba «ho» nihil aliud sit atenção se a sílaba ho nada
quam «ho» et utrum «mo» mais seria que ho, e se a sílaba
nihil aliud sit quam «mo». mem nada mais que mem.

28.Adeodatus - Hic prorsus 28.Adeodato - Aqui


nihil aliud video. diretamente nada mais vejo.

29.Augustini - Vide etiam, 29.Agostinho - Vide


num istis duabus iunctis também, se estas duas juntas
homo fiat. fazem um homem.

30.Adeodatus - Nequaquam 30.Adeodato - De modo


hoc concesserim; placuit enim nenhum assentiria;
et recte placuit signo dato id, certamente concordamos que
quod significatur, adtendere et a todo signo dado
ex eius consideratione vel corresponderia um
dare vel negare quod dicitur. significado e, que após sua
Illae autem separatim análise o que se apregoa se
enuntiatae syllabae, quia sine concede ou se nega. Ora,
ulla significatione sonuerunt, essas sílabas em separado
hoc eas esse, quod sonuerunt, pronunciadas não teriam
concessum est. significação alguma, assim
estabelecido fica serem
apenas aquilo que ressoam.

31.Augustini - Placet igitur 31.Agostinho -


firmumque animo tenes non Concordamos, pois, e tu tens
respondendum esse na alma a convicção de não
interrogationibus, nisi ex his responder quando
rebus, quae verbis interpelado, senão segundo
significantur. às coisas pelas palavras
significadas.
Santo Agostinho 99

32.Adeodatus - Non 32.Adeodato - Não


intellego, cur displiceat, si compreendo por que não
modo verba sint. fazê-lo, desde que de palavras
se trate.

33.Augustini - Vellem scire, 33.Agostinho - Queria saber


quomodo illi resisteres, de como te oporias àquele do
quo iocantes solemus audire, qual ouvimos zombarias,
quod ex eius ore, cum quo quando assumiu ter saído o
disputabat, leonem anticristo74 da boca da pessoa
processisse concluserit. Cum com quem debatia. De fato,
enim quaesisset, utrum ea, acaso questionado se o que
quae loqueremur, nostro ore falamos de nossa boca
procederent, atque ille non procede, ao não poder algo
potuisset negare, quod facile fácil de obter negar, impeliu
fuit, egit cum homine, ut in o oponente a exclamar o

74 Segundo Heinz-mohr (1994), o leão é representado em numerosos pórticos


de igrejas com um homem indefeso em suas fauces. Sua goela aberta é
comparada à abertura do inferno, como há nos capitéis do claustro de Pipoll
– Espanha. Segundo Eco, o alegorismo no cristianismo atingiu o cerne do
Signo: “Em um universo simbólico tudo está no próprio lugar, porque tudo
se corresponde, as contas são exatas, uma relação de harmonia faz a serpente
semelhante a virtude da prudência e a correspondência polifônica das
referências e dos signos é tão complexa que a mesma serpente poderá
equivaler, sob outro ponto de vista, a figura de Satanás... O homem medieval
vivia efetivamente em um mundo povoado de significados, referências,
supra-sentidos, manifestações de Deus nas coisas em uma natureza que falava
continuamente uma linguagem heráldica. Lá, um leão não era só um leão,
uma noz não era só uma noz, um hipogrifo era real como um leão, porque
como este era signo irrelevante, existencialmente, de uma verdade superior”
(1989, pp. 72-75). Eco realça que a terrível boca da fera no prae-medioevo
simbolizava a entrada do inferno: […] per leonem antichristum intelligitur (por
leão compreendemos o Anti-cristo) e, recomenda que para discernir se a
palavra leão deva ser vista como figura do Cristo ou do Anti-cristo, há que se
preceder a análise do contexto e encontrar a melhor interpretação, que se dá
ao recorrer a uma auctoritas em análise intertextual (1989, p. 87). A partir das
considerações efetuadas não haveria como traduzir leonis a não ser por
anticristo.
100 De Magistro
loquendo leonem nominaret. nome do anticristo. Quando
Hoc ubi factum est, ridicule isto ocorreu, jocosamente
insultare coepit et premere, começou a insultá-lo,
ut, quoniam, quicquid incitando que tudo o que
loquimur, ore nostro exire falamos seria lançado de
confessus erat et leonem se nossa boca e não tendo
locutum esse nequibat aquele homem sem maldade
abnuere, homo non malus como negar o que
tam inmanem bestiam pronunciou, dava mostras de
vomuisse videretur. uma besta feroz ter
vomitado.

34.Adeodatus - Minime vero 34.Adeodato –


erat arduum scurrae huic Absolutamente, nada difícil
resistere; non enim seria a esse libertino se opor;
concederem ore nostro exire eu não assentiria que tudo o
quaecumque loquimur. Nam que pronunciamos, de nossa
quae loquimur, ea boca saia. Ao falarmos
significamus, non autem res, significamos não a coisa
quae significatur, sed signum, própria significada, mas o
quo significatur, loquentis ore signo que a fala emite; a não
procedit, nisi cum ipsa signa ser como há pouco tratamos,
significantur, quod genus que ao falar possamos
paulo ante tractavimus. significar a palavra como
próprio signo.

35.Augustini - Bene tu 35.Agostinho - Deste modo


quidem hoc modo adversus bem preparado estarias
illum esses paratus. contra aquele. Todavia o que
Verumtamen mihi quid responderias se te
respondebis, utrum homo perguntasse se homem seria
nomen sit, requirenti? um nome?

36.Adeodatus - Quid nisi 36.Adeodato - Que mais, a


esse nomen? não ser um nome?
Santo Agostinho 101

37.Augustini - Quid? cum te 37.Agostinho - Então?


video, num nomen video? Quando te vejo, por ventura
vejo um nome?

38.Adeodatus - Non. 38.Adeodato - Não.

39.Augustini - Visne igitur 39.Agostinho - Quererás,


dicam, quod sequitur? portanto que te diga o que
daí prossegue?

40.Adeodatus - Ne quaeso; 40.Adeodato - Não se faz


nam mihi ipse renuntio me necessário; quando
hominem non esse, qui perguntaste se homem acaso
nomen esse responderim, seria um nome, a mim
cum homo utrum nomen mesmo antes proclamastes
esset inquireres. Iam enim não ser homem, ser um
placuerat ex ea re, quae nome. Concordamos que
significaretur, aut assentiri aut deveriamos aprovar ou negar
negare quod dicitur. o que se diz a partir dos
significados daquilo que
dizemos.

41.Augustini - At mihi 41.Agostinho – Contudo, a


videtur non te frustra in hanc mim parece que não em vão
responsionem decidisse; nam decidiu por essa réplica; de
vigilantiam tuam mentibus fato tua vigilância triunfou
nostris indita ipsa lex rationis sobre a própria lei da razão
evicit. Nam si quaererem, incutida em nossas mentes.
quid esset homo, responderes Se te questionasses o que
fortasse animal; si autem seria homem, responderias
quaererem, quae pars talvez um animal, mas se
orationis esset homo, nullo perguntasse a que parte da
modo posses recte oração corresponderia homem,
respondere nisi nomen. de nenhum modo poderias
Quam ob rem, cum homo et corretamente responder a
nomen et animal esse não ser ao nome. Voltando há
102 De Magistro
inveniatur, illud dicitur ex ea pouco, quando descobrimos
parte, qua signum est, hoc ex ser homem um nome e também
parte rei significatur. Qui ergo animal; o dito primeiro é
quaerit, utrum homo nomen signo, e o posterior seu
sit, nihil ei aliud quam esse significado. A quem,
respondeam; satis enim portanto, me perguntar se
significat ex ea parte se velle homem seria nome, nada
audire, qua signum est. Si mais responderia senão que
autem quaerit, utrum animal seria, porque com esta
sit, multo proclivius adnuam; pergunta ele deixou claro
quoniam si tacens et nomen querer saber a respeito de
et animal tantum quid esset homem apenas como um
homo requireret, placita illa signo. Se perguntasse se seria
loquendi regula ad id, quod animal, prontamente
his duabus syllabis confirmaria, porém se
significatur, animus curreret silenciasse quanto a nome ou
neque quicquam animal ao que estivesse
responderetur nisi animal, vel procurando, agradar-me-ia
etiam tota definitio diceretur, falar daquela regra sobre o
id est animal rationale significado das duas sílabas,
mortale; an tibi non videtur? (ho + mo), ao que a alma
corretamente responderia
senão animal, ou até diria
toda a definição, animal
racional mortal; a ti não
parece?

42.Adeodatus - Prorsus 42.Adeodato - Parece-me


videtur. Sed cum esse nomen correto. Mas, se assentirmos
concesserimus, quomodo ser nome, como evitar que
illam conclusionem nimis nós homens não sejamos
contumeliosam evitabimus, submetidos àquela conclusão
qua nos homines non esse demasiadamente ultrajante?
conficitur?
Santo Agostinho 103

43.Augustini - Quomodo 43.Agostinho – Como


putas nisi docendo non ex ea supões a não ser ensinando a
parte illatam, qua interroganti quem interpela que não
assentiebamur? Aut si ex ea aprovamos aquela conclusão?
parte illam se fatetur inferre Ou se ele declara que a infere
nullo modo est formidanda. desse inciso, não há o que
Quid enim metuam recear. Por que temeria eu
hominem, id est tres istas confessar não ser homem, ou
syllabas non esse me seja, não ser estas três sílabas
confiteri? (ho-mi-ne)?

44.Adeodatus - Nihil est 44.Adeodato - Nada seria


verius. Cur ergo animum tão apropriado. Porque nos
offendit, cum dicitur: «Non es fere a alma a afirmação: Que
igitur homo», cum secundum homem não seja; quando
illa concessa nihil verius dici assentimos nada existir de
potuerit? maior verdade?

45.Augustini - Quia non 45.Agostinho - Não posso


possum non putare ad id deixar de refletir naquela
conclusionem referri, quod conclusão, quanto aos
his duabus syllabis significados daquelas duas
significatur, simulatque ista sílabas não se relacionar com
verba sonuerint, ea scilicet o que significam, face
regula, quae naturaliter evidentemente aquela regra
plurimum valet, ut auditis de altíssimo valor, que ao se
signis ad res significatas ouvir signos, se busca coisas
feratur intentio. por ele significadas.

46.Adeodatus - Accipio quod 46.Adeodato - Aceito o que


dicis. dizes.
104 De Magistro
IX IX - Valores das coisas
significadas pelos signos

1.Augustini - Proinde 1.Agostinho - Por isso


intellegas volo res, quae queria que compreendesses
significantur, pluris quam os multiplos valores às coisas
signa esse pendendas. significadas pelos signos. A
Quicquid enim propter aliud não ser que o contrário
est, vilius sit necesse est quam julgues. O que quer que seja
id, propter quod est, nisi tu face outro, tem valia inferior
aliud existimas. a aquilo pelo qual existe.

2.Adeodatus - Videtur mihi 2.Adeodato - Meu


non temere hic esse entendimento seria que não
assentiendum; nam cum se possa irrefletidamente
dicimus caenum, longe hoc concordar com isso, porque
nomen arbitror rei, quam ao dizemos caenum
significat, antecellere. Quod (imundície), julgo que o
enim nos offendit audientes, nome esteja muito além
non ad ipsius verbi pertinet daquilo que significa. O que
sonum; caenum enim nomen choca ouví-la não seria o som
mutata una littera caelum est. pertinente a palavra; se
Inter illa vero, quae his mudarmos apenas uma letra,
nominibus significantur, caenum passará a caelum (céu).
quantum distet, videmus. Com razão situo este à
Quamobrem nequaquam huic frente, conquanto exista
signo tribuerim, quod in re, prazer em ouvi-la. Entre
quam significat, odimus, et ambas, as realidades
propterea hoc illi iure significadas distantes se
antepono; libentius enim hoc fazem. Se no sentido da
audimus, quam ullo sensu própria pálavra não me
illud attingimus. detiver, terei razões além,
para não atribuir ao signo
(caenum) aquilo que repulsa
em seu significado.
Santo Agostinho 105

3.Augustini - Vigilantissime 3.Agostinho - Tudo muito


omnino. Itaque falsum est lúcido. Por consequência
omnes res pluris quam earum falso seria que às coisas se
signa esse pendendas. devesse ter em conta como
de maior valia que seus
signos.

4.Adeodatus - Ita videtur. 4.Adeodato - Assim


entendo.

5.Augustini - Dic ergo mihi, 5.Agostinho - Logo, diga-me


quid arbitraris eos secutos quais intenções teriam
esse, qui huic rei tam foedae aqueles que deram este nome
atque aspernabili nomen a algo tão asqueroso e abjeto;
indiderunt, vel utrum eos tu aprovas ou desaprovas?
probes an improbes?

6.Adeodatus - Ego vero illos 6.Adeodato – Eu, em


nec probare nec improbare verdade não posso aprovar
audeo nec, quid fuerint secuti, nem desaprovar, não sei
scio. como se tenha assim
decernido.

7.Augustini - Potesne saltem 7.Agostinho - Poderias ao


scire, quid tu sequaris, cum menos saber que intenções
hoc nomen enuntias? terias ao pronunciar este
nome?

8.Adeodatus - Hoc plane 8.Adeodato - Posso


possum; nam significare volo, claramente. Com esse signo
ut eum, cum quo loquor, quero ensinar ou advertir a
doceam vel admoneam de re pessoa com quem falo, por
illa, quod eum doceri vel julgar necessário ensiná-la ou
admoneri oportere arbitror. rememorá-la.
106 De Magistro
9.Augustini - Quid? ipsum 9.Agostinho - Mas o quê?
docere aut admonere sive Mesmo ensinando ou
doceri aut admoneri, quod vel rememorando, ou se for
tu exhibes commode per hoc ensinado ou rememorado, o
nomen vel exhibetur tibi, que fizeres facilmente com
nonne carius quam ipsum este nome ou a ti façam, não
nomen habendum est? será mais digno de estima
que o próprio nome?

10.Adeodatus - Concedo 10.Adeodato - Assinto que à


ipsam scientiam, quae per hoc própria ciência, da qual
signum evenit eidem signo advém este signo, deveria
esse anteponendam, sed non antepor aquilo do qual signo
ideo etiam rem ipsam puto. se faz, embora creio nem isto
purificar a realidade da coisa
mesma pudesse.

11.Augustini - In illa igitur 11.Agostinho - De nossa


sententia nostra, quamquam afirmação por consequência,
sit falsum res omnes signis ainda que falso seja que a
suis praeponi oportere, non todas as coisas antepor a seus
tamen falsum est omne, quod signos devam, no entanto
propter aliud est, vilius esse falso não seria que por isso
quam id, propter quod est. de menor valia fossem quão
Cognitio quippe caeni, as que ao seu lado estão. O
propter quam hoc nomen est conhecimento da imundície
institutum, pluris habenda est pelo qual este nome se
ipso nomine, quod eidem formou, contém muito mais
caeno praeponendum esse que o próprio nome;
comperimus. Non enim ob conforme descobrimos
aliud ista cognitio signo, de anteposto ser em relação a
quo agimus, antelata est, nisi aquilo que pela imundície
quia illud propter hanc, non notamos. Não por outra
haec propter illud esse razão, certamente, o
convincitur. Nam ita cum conhecimento devesse
quidam vorator ventrisque, ut antepor ao signo do qual
Santo Agostinho 107

ab apostolo dicitur, cultor tratamos face a preferência,


diceret ideo se vivere, ut senão por aquilo a ser
vesceretur, non tulit, qui demonstrado. Como disse o
audiebat, frugi homo et Apóstolo, tendo asseverado
«quanto» inquit «melius ideo certo comilão pançudo75, que
vescereris, ut viveres». vivia para comer, quando
Uterque tamen ex eadem ista contradito por um sensato
regula locutus est; nam neque homem que o ouvia, lhe
alia de causa ille displicuit, nisi respondeu: digo quanto melhor
quod vitam suam tam parvi seria se comesses para viver.
penderet, ut eam duceret Assim falou seguramente por
gutturis voluptate viliorem essa mesma regra; o primeiro
dicendo se propter epulas não desagradou senão por ter
vivere, neque hic ob aliud iure avaliado sua vida em tão
laudatur, nisi quod in his pouco, tomando-a em menor
duobus, quid propter quid conta que os prazeres da
fieret, hoc est, quid cui gula, ao afirmar só de
subiectum esset intellegens, banquete viver; o outro
cibandum potius, ut vivamus, louvor recebe a não ser
quam vivendum, ut cibemur, porque ao compreender o
admonuit. Similiter et tu que entre viver e comer está
fortasse et quilibet hominum submisso um ao outro,
non imperite res rememorou que se deve
aestimantium dicenti cuipiam comer para viver, e não viver
loquaci amatorique verborum para comer. De forma
«ideo doceo, ut loquar» semelhante, tu, e todo
responderetis «homo, cur non homem que as coisas
potius ideo loqueris, ut adequadamente não ajuízasse
doceas?» Quod si haec vera a algum ignorante que
sunt, sicuti esse cognoscis, dissesse: ensino a falar;
vides profecto, quanto verba responderias: Homem! Por que
75 Agostinho está se referindo a uma passagem da Sagrada Escritura: Esses tais
não servem a Christus nosso Senhor, mas ao próprio ventre. E com palavras adocicadas e
linguagem lisonjeira enganam os corações simples 75 (ROMANOS 16.18). A tradução
literal de ventrisque estaria ligada ao ventre, no entanto, para dar o sentido de
um grande ventre, traduzi-a por pançudo.
108 De Magistro
minoris habenda sint, quam não falas para ensinar? Se
id, propter quod utimur verdade como reconhecemos
verbis, cum ipse usus ser, com certeza vides quanto
verborum iam sit verbis em menor conta se deve ter
anteponendus; verba enim as palavras em razão daquilo
sunt, ut his utamur; utimur por qual as usamos; o
autem his ad docendum. próprio uso das palavras
Quanto est igitur melius deve antepor a elas, posto
docere quam loqui, tanto que sejam para ser usadas, e
melior quam verba locutio. as usamos para ensinar.
Multo ergo melior doctrina Logo, melhor seria ensinar,
quam verba. Sed cupio audire, que falar, quanto melhor a
quid forte contradicendum locução que as palavras,
putes. tanto seja a doutrina que as
palavras. Mas, desejo ouvir o
que porventura a opor
tenhas.

12.Adeodatus - Assentior 12.Adeodato - Concordo ser


quidem meliorem quam verba a doutrina melhor que as
esse doctrinam, sed utrum palavras; mas acaso sou
adversus istam regulam, qua contra esta regra que diz: tudo
dicitur omne, quod propter o que existe por causa de outra
aliud est, inferius esse quam coisa, seria inferior a aquilo pelo
id, propter quod est, nihil sit, qual ela própia exista; nada
quod obici possit, ignoro. mais posso colocar além de
que a ignoro.

13.Augustini - Alias hoc 13.Agostinho –


oportunius diligentiusque Cuidadosamente, em outro
tractabimus. Nunc illud, quod momento trataremos disso.
concedis, satis est ad id, quod Porquanto aquilo que
conficere studeo. Das enim assentis seria suficiente ao
cognitionem rerum quam que eu gostaria de completar.
signa rerum esse cariorem. Vides que de fato pensas ser
Quamobrem cognitio rerum, o conhecimento tão maior a
Santo Agostinho 109

quae significantur, cognitioni ponto do signo carecer. Por


signorum anteferenda est; an quais razões o conhecimento
tibi non videtur? dos significados das coisas,
deveria antepor o
conhecimento dos signos; ou
assim não concordas?

14.Adeodatus - Num ego 14.Adeodato - Acaso assenti


cognitionem rerum ser o conhecimento das
cognitione signorum ac non coisas superior ao dos
signis ipsis praestantiorem próprios signos? Por quais
esse concessi? Quare vereor, razões hesitaria este
ut hic tibi assentiar. Quid? si propósito aprovar. Por quê?
enim, ut caenum nomen E se o nome imundície, que
melius est ea re, quam dissestes ser melhor que a
significat, ita et huius nominis coisa que significa, ao
cognitio cognitioni quoque conhecimento se antepuser
illius rei est anteponenda, tanto quanto se queira que o
quamvis ea cognitione sit próprio nome seja ao da
ipsum nomen inferius? coisa inferior? São quatro
Quattuor quippe sunt: nomen termos: nome, coisas,
et res, cognitio nominis et conhecimento dos nomes e das
cognitio rei. Sicut ergo coisas. Logo se o primeiro
primum secundo, cur non et superior se faz ao segundo,
tertium quarto antecellat? Sed porque também não seria o
non antecellat, num etiam terceiro em relação ao
subiciendum est? quarto? Mas se superior não
for, não há de subordinado
lhe ser?

15.Augustini - Mire omnino 15.Agostinho - Vides que


te video et tenuisse, quid tudo o que compreendestes
concesseris, et explicasse, tênue se constitui e, o que
quid senseris. Sed, ut opinor, assentistes a aquilo que sentiu
intellegis hoc trisyllabum explica. Mas penso
nomen, quod sonat, cum entenderes que este nome
110 De Magistro
dicimus «vitium», melius esse trissílabo; vitium (vicio)
quam id, quod significat, cum melhor seja que aquilo que
ipsius cognitio nominis multo significa e, no entanto o
sit inferior cognitione conhecimento desse nome se
vitiorum. Licet itaque faz muito inferior ao
constituas etiam ista quattuor conhecimento dos vícios,
atque consideres nomen et conquanto proponhas e
rem, cognitionem nominis et estabeleças esses quatro
cognitionem rei, primum elementos, nome e coisa,
secundo iure praeponimus. conhecimento do nome e
Hoc enim nomen positum in conhecimento da coisa,
carmine, cum ait Persius «sed antepondo o primeiro ao
stupet hic vitio», non modo segundo. Por isso Persius ao
nihil vitii fecit in versu, sed colocar este nome em um
non nihil etiam ornati dedit, verso76: sed stupet hic vitio, (mas
cum tamen res ipsa, quae se entorpeceu pelo vício),
significatur hoc nomine, in não tornou o verso viciado,
quocumque inest, cogit esse pelo contrário, uma
vitiosum. At non ita et ornamentação lhe deu,
tertium quarto, sed quartum conquanto a coisa mesma
tertio videmus excellere. significada por este nome no
Huius enim cognitio nominis que quer que esteja,
vilis est prae cognitione compreenderia o estado de
vitiorum. viciado. Entretanto, não
vemos que o terceiro seja
superior ao quarto, mas sim
o quarto ao terceiro. O
conhecimento do nome, pelo
contrário, efetivamente
pouco vale diante do
conhecimento dos vícios.

76 Agostinho está se referinto a Aulo Persius Flacus (34 - 62), poeta estóico
romano, conhecido por empregar em suas sátiras um tom moralista de alto
grau. Criticou ferozmente a decadência em que se encontrava ao seu tempo
a ética romana (Sátira III.32).
Santo Agostinho 111

16.Adeodatus - Etiamne cum 16.Adeodato - Já que este


ista cognitio miseriores facit, conhecimento infelizes nos
censes esse praeferendam? faz, preferi-lo não estimarias?
Nam idem Persius omnibus De fato, mesmo a Persius que
poenis, quas tyrannorum vel a crueldade de todas as penas
crudelitas excogitavit vel aos tiranos desejasse ou
cupiditas pendit, hanc unam imaginasse, o anteporia a
anteponit, qua cruciantur perplexidade única desta
homines, qui vitia, quae vitare punição que atormenta os
non possunt, coguntur homens forçados a
agnoscere. reconhecer nos vícios o que
não podem evitar.

17.Augustini - Potes hoc 17.Agostinho - Deste modo,


modo cognitioni huius poderias negar que preferir se
nominis ipsam quoque deva o próprio
virtutum cognitionem negare conhecimento das virtudes
praeferendam, quia virtutem ao conhecimento do nome,
videre nec tenere supplicium posto conhecer uma virtude
est, quo idem ille satiricus sem tê-la seria um suplício, o
tyranni ut puniantur optavit. qual o próprio poeta satírico
desejou aos tiranos como
punição.

18.Adeodatus - Deus hanc 18.Adeodato - Deus afaste


avertat amentiam. Iam enim esta loucura! Compreendo
intellego non ipsas agora que nem os próprios
cognitiones, quibus animum conhecimentos ensinar
imbuit optima omnium possam com a perfeita
disciplina, esse culpandas, sed disciplina a esses negligentes,
eos omnium miserrimos mas precisamos em todo
iudicandos, sicut et Persium julgamento nos apiedar,
iudicasse arbitror, qui tali como Persius também julgou
morbo affecti sunt, cui nec a aqueles que desta doença
tanta medicina subveniat.
112 De Magistro
da alma afetados, nenhuma
ciência médica os curararia77.

19.Augustini - Bene 19.Agostinho -


intellegis; sed quoquo modo Compreendestes bem, mas o
se habeat Persiana sententia, parecer de Persius, no que
quid ad nos? Non enim importa? Não nos
horum auctoritati subiecti submeteremos à autoridade
sumus in talibus rebus. destas pessoas em tais coisas.
Deinde si qua cognitio cui Além do que se algum
cognitioni praeferenda sit, conhecimento se deva
non hic facile est explicare. preferir a outro, explicar não
Satis habeo, quod effectum seria fácil, basta o que temos;
est cognitionem rerum, quae efetivamente o conhecimento
significantur, etsi non das coisas que são
cognitione signorum ipsis, significadas tem valor
tamen signis esse potiorem. superior ao conhecimento
Quare iam illud magis dos próprios signos e, a estes
magisque discutiamus, quale são preferíveis. Portanto,
sit genus rerum, quas sine separemos ainda mais as
signis monstrari posse categorias de realidades, que
dicebamus per se ipsas, ut dizíamos poderem mostrar-

77 É necessário analisar as referências no capítulo 2.9, em que a alma é a


mediadora do encontro do homem com Deus e ainda considerar o que
Agostinho escreveu dirigindo-se a Christus como médico divino: “Ai de mim!
Ó meu Senhor tenha compaixão de mim! Ai de mim, eu não escondo minhas
feridas: Tu és o médico, eu sou o doente; tu és a misericórdia eu sou a miséria”
( in CONFESSIONUM LIBRI XIII - X.28.39). Estas observações me
levaram a traduzir a palavra latina culpandas por negligentes, disponibilizada em
dicionários de latim-português jurídico. Morbo significa doença, mas, neste
caso, está ligada a vício; certamente Agostinho não está se referindo a doença do
corpo. Agostinho arrogava a Satanás como o pai da matéria infeccionada. A
impossibilidade de uma cura para este mal pela ciência me levou a traduzir
morbo por doença da alma e a palavra latina medicina não teria, neste caso, sua
tradução por remédio; portanto fiz a opção por ciência médica, à ciência dos
humanos.
Santo Agostinho 113

loqui, ambulare, sedere, iacere se por si mesmas sem signos:


atque huius modi cetera. falar, caminhar, sentar, deitar
e outras semelhantes.

20.Adeodatus - Iam recolo, 20.Adeodato - Agora


quid dicas. retomo o que dizias.

X X - Segunda proposição78 -
O conhecimento e a
linguagem

1.Augustini - Omniane tibi 1.Agostinho –


videntur, quae interrogati Compreenderias que logo em
mox agere possumus, sine seguida a sermos
signo posse monstrari, an interpelados, podemos tudo
aliquid excipis? mostrar sem signos; ou
excetuaria algo?

2.Adeodatus - Ego vero 2.Adeodato - Realmente eu


etiam atque etiam genus hoc tenho considerado todos os
totum considerans nihil adhuc gêneros e nada encontrei
invenio, quod sine signo possível de ensinar sem
valeat doceri, nisi forte signo, a não ser, se acaso
locutionem, et si forte id alguém perguntasse o que
ipsum quispiam quaerat, quid seria ensinar com a locução.
sit docere. Video enim me, Compreendo sem dúvidas,
quicquid post eius que algo feito após a
interrogationem fecero, ut interpelação, exceto pela
discat, ab ea ipsa re non própria coisa, tanto quanto se
discere, quam sibi deseja não ensinaria; com
demonstrari cupit; nam si me efeito, se me pedem o que é
cessantem, ut dictum est, vel caminhar estando eu parado,

78O capítulo X apresenta sua segunda proposição: o conhecimento em relação


com a linguagem, da qual as palavras não introduzem novas verdades em
nossa consciência, apenas nos advertem a buscar a Verdade dentro de nós.
114 De Magistro
aliud agentem roget quispiam, ou fazendo outra coisa, e
quid sit ambulare, et ego começando a caminhar, me
statim ambulando eum, quod esforçarei por lhe demonstrar
rogavit, sine signo coner sem signo, cautelosamente
docere, unde cavebo, ne id ensinando-o, para evitar que
tantum putet esse ambulare, ele julgue que caminhar seria
quantum ego ambulavero? apenas percorrer o que andei.
Quod si putaverit, decipietur; Se assim julgar enganar-se-ia,
quisquis enim plus minusve posto que julgue não
quam ego ambulaverit, hunc caminhar aquele que ande
ille ambulasse non mais ou menos o quanto eu
arbitrabitur. Et quod de hoc tivera feito. O que desta
uno verbo dixi, transit in única palavra eu disse, aplica-
omnia, quae sine signo se a todas que assenti
monstrari posse consenseram, poderem sem signo ser
praeter duo illa, quae mostradas, exceto as duas
excepimus. que excluímos.

3.Augustini - Accipio 3.Agostinho - Admito


quidem istuc; sed nonne tibi também isto, mas não
videtur aliud esse loqui, aliud compreendes que uma coisa
docere? seria falar e outra ensinar?

4.Adeodatus - Videtur sane; 4.Adeodato - Compreendo


nam si esset idem, non que dum certo modo sejam;
doceret quisquam nisi não ensinaríamos alguém a
loquens. Cum vero et aliis não ser falando. Na verdade,
signis praeter verba multa além das palavras, com os
doceamus, quis de ista signos ensinamos, e quem
differentia dubitaverit? duvidaria desta diferença?

5.Augustini - Quid? docere 5.Agostinho – Mas o quê?


et significare nihilne inter se Acaso entre ensinar e
an aliquid differunt? significar, não teria alguma
diferença?
Santo Agostinho 115

6.Adeodatus - Idem puto 6.Adeodato - Creio ser o


esse. mesmo.

7.Augustini - Nonne recte 7.Agostinho - Não seria


dicit, qui dicit ideo nos correto quando por tal razão
significare, ut doceamus? dizemos que significamos
para ensinar?

8.Adeodatus - Recte prorsus. 8.Adeodato - Bem correto.

9.Augustini - Quid? si dicat 9.Agostinho - Se alguém


alius ideo nos docere, ut dissesse que ensinamos ao
significemus, nonne facile significarmos; não o refutaria
superiore sententia refelletur? facilmente face ao que
enunciamos acima?

10.Adeodatus - Ita est. 10.Adeodato - Assim seria.

11.Augustini - Si ergo 11.Agostinho - Logo, se


significamus, ut doceamus, significamos quando
non docemus, ut ensinamos e não ensinamos
significemus, aliud est docere ao significarmos, ensinar
aliud significare. seria diverso de significar.

12.Adeodatus - Verum dicis, 12.Adeodato - Dizes a


nec recte idem esse utrumque verdade, acaso não foi
respondi. correto o que respondi.

13.Augustini - Nunc illud 13.Agostinho - Respondas


responde, utrum qui docet, agora, aquele que ensina o
quid sit docere, significando que seria ensinar, o faz
id agat an aliter. significando ou de forma
diversa.
116 De Magistro
14.Adeodatus - Non video, 14.Adeodato - Não
quomodo aliter possit compreendo que de forma
outra pudesse.

15.Augustini - Falsum igitur 15.Agostinho - Por


paulo ante dixisti doceri rem consequência seria falso o
posse sine signis, cum que antes disse, poder
quaeritur, quid sit ipsum ensinar sem signos quando
docere, quando ne hoc inquirido sobre o que
quidem videmus sine constiui o ensinar, pois
significatione agi posse, cum compreendemos que sem
aliud esse significare, aliud significação nem isso se
docere concesseris. Si enim possa; como assentiste, uma
diversa sunt, sicut apparet, coisa seria significar, outra
neque hoc nisi per illud ensinar. Se de fato divergem
ostenditur, non per se utique como aparentam, tal que
ostenditur, sicut tibi visum nenhuma se mostre senão
erat. Quam ob rem nihil pela outra e não por qualquer
adhuc inventum est, quod coisa que se mostre como a ti
monstrari per se ipsum queat parece. Assim, nada
praeter locutionem, quae inter encontramos que possa se
alia se quoque significat; quae mostrar por si, exceto a
tamen cum etiam ipsa signum locução, que entre outras,
sit, nondum prorsus extat, significa a si prória; porém
quod sine signis doceri posse dado que também signo ela
videatur. seja, nada temos que pareça
poder sem signos ensinar.

16.Adeodatus - Nihil habeo, 16.Adeodato - Nada tenho


cur non assentiar. que possa não aprovar.

17.Augustini - Confectum 17.Agostinho – Concluso


est igitur et nihil sine signis seria que nada se pode
doceri et cognitionem ipsam ensinar sem signos, sendo
signis, quibus cognoscimus, necessário o conhecimento
cariorem nobis esse oportere, dos próprios signos e, o
Santo Agostinho 117

quamvis non omnia, quae conhecimento de seu efeito


significantur, possint suis em que carentes somos,
signis esse potiora. embora nem todas as coisas
significadas aos próprios
signos possam ser preferíveis.

18.Adeodatus - Ita videtur 18.Adeodato - Assim


compreendo.

19.Augustini - Quanto 19.Agostinho - Recordas


tandem circuitu res tantilla quantas voltas demos para
peracta sit, meministine chegar a uma coisa tão
quaeso? Nam ex quo inter acanhada? Desde que nos
nos verba iaculamur, quod propusemos a exalar
tam diu fecimus, haec tria ut palavras, fazendo-o por
invenirentur, laboratum est: longo período, nos
utrum nihil sine signis possit esforçamos por investigar
doceri et utrum sint quaedam três questões: que nada se possa
signa rebus, quas significant, ensinar sem signos; que existe
praeferenda et utrum melior signo que se deva preferir àquilo
quam signa sit rerum ipsa que significam; e que o próprio
cognitio. Sed quartum est, conhecimento seria melhor que os
quod breviter abs te vellem signos. Mas há uma quarta que
cognoscere, utrumnam ista gostaria de ouvir, se julgas as
inventa sic putes, ut iam de questões abordadas não
his dubitare non possis. deixarem em ti possibilidades
de dúvida.

20.Adeodatus - Vellem 20.Adeodato - Bem quereria


quidem tantis ambagibus que depois de tanto
atque anfractibus esset ad circunlóquio tivéssemos
certa perventum. Sed et ista chegado às certezas. Mas,
rogatio tua nescio quomodo esta tua pergunta não só me
me sollicitat et ab assensione inquieta como também me
deterret - videris enim mihi impede de assentí-la; não a
non hoc de me fuisse perguntarias se dela não
118 De Magistro
quaesiturus, nisi haberes, tivesses uma refutação; a
quod contradiceres - et ipsa própria complexidade do
rerum implicatio totum me assunto seguramente não me
inspicere ac securum permite responder, e temo
respondere non sinit que em tanto sobrescrito,
verentem, ne quid in tantis algo tenha se ocultado não
involucris lateat, quod acies permitindo luz a minha
mentis meae lustrare non mente.
possit.

21.Augustini - 21.Agostinho - Aceito tua


Dubitationem tuam non dúvida e não de mau grado,
invitus accipio; significat enim porque uma alma destemida
animum minime temerarium, revela; e essa seria uma
quae custodia tranquillitatis segurança de grande
est maxima. Nam tranquilidade. De fato seria
difficillimum omnino est non extremamente difícil não
perturbari, cum ea, quae ficar perturbado quando
prona et procliva aquilo que guardamos em
adprobatione tenebamus, consenso se vê arruinado por
contrariis disputationibus discussões adversas, como se
labefactantur et quasi retirado de nossas mãos
extorquentur e manibus. fosse. Diante de, justo seri
Quare, ut aequum est bene ceder as razões examinadas,
consideratis perspectisque bem fundamentadas, e
rationibus cedere, ita perigoso seria ter por
incognita pro cognitis habere aceitadas as que nos são
periculosum; metus est enim, desconhecidas; seria de temer
ne, cum saepe subruuntur, que ruindo aquilo que
quae firmissime statura et imaginávamos ser duradouro,
mansura praesumimus, in se permaneça a defendê-lo, e
tantum odium vel timorem assim nos precipitemos em
rationis incidamus, ut ne ipsi ódio ou temor a razão, nos
quidem perspicuae veritati pareçendo não dever dar
fides habenda videatur. Sed crédito nem à verdade
age nunc expeditius evidente. Mas continuemos
Santo Agostinho 119

retractemus, utrum recte ista agora e examinemos de


dubitanda putaveris; nam novo, mais rapidamente, se
quaero abs te, si quisquam terias razões em duvidar;
ignarus deceptionis avium, imagines alguém que
quae calamis et visco efficitur, ignorante de armadilhas de
obviam fieret aucupi armis varas e visco para pássaros,
quidem suis instructo, non se deparasse com um caçador
tamen aucupanti, sed iter armado destes instrumentos,
agenti, quo viso premeret não a caçar, mas
gradum secumque, ut fit, caminhando, e tendo-o visto
admirans cogitaret et acelerasse seu passo,
quaereret, quidnam sibi admirado, pensando consigo
hominis ille vellet ornatus, mesmo o que poderiam
auceps autem, cum in se significar aqueles
videret adtentum, ostentandi instrumentos. O caçador
se studio cannas expediret et vendo essa pessoa a
prope animadversam aliquam contemplá-lo, no desejo de se
aviculam fistula et accipitre mostrar, prepara e suspende
figeret, subigeret et caperet, as varas, e com elas um
nonne illum spectatorem gavião, agarrando algum
suum doceret nullo pássaro próximo. Não teria
significatu, sed re ipsa, quod ele ensinado ao seu
ille scire cupiebat? expectador o que desejava
saber sem nenhum
significado, mas com a
própria realidade?

22.Adeodatus - Metuo, ne 22.Adeodato - Receio seja


quid hic tale sit, quale de illo um caso semelhante a aquele
dixi, qui quaerit, quid sit que citei, quando alguém
ambulare; neque enim video pergunta o que seria
et hic totum illud aucupium caminhar; e da mesma forma
esse monstratum. não vejo se mostrar da caça
todo o seu procedimento.
120 De Magistro
23.Augustini - Facile est hac 23.Agostinho - Acrescento
cura te exuere; addo enim, si ser fácil se liberar desta
ille intellegens esset, ut ex dúvida, pois suponha que
hoc, quod vidit, totum illud essa pessoa seja tão
genus artis agnosceret; satis inteligente que compreenda
est namque ad rem et de todo o procedimento de caça
quibusdam rebus, tametsi non só pelo que viu, isto seria o
omnibus, et quosdam suficiente para demonstrar
homines doceri posse sine que alguns homens sem
signo. signos ensinar possam.

24.Adeodatus - Hoc etiam 24.Adeodato - A isso


ego possum illi addere: Si também posso acrescentar:
enim sit bene intellegens, quem pergunta o que seria
paucis passibus ambulatione caminhar, se for inteligente
monstrata totum, quid sit compreenderá totalmente,
ambulare, cognoscet. após com poucos passos lhe
mostrar.

25.Augustini - Facias per me 25.Agostinho - Autorizo a


licet nec tantum nihil resisto, fazê-lo e em nada me
verum etiam faveo; vides oponho, na verdade ainda
enim ab utroque nostrum id sou favorável; compreendes
effici, ut quaedam quidam assim, que cada um de nós
doceri sine signis queant tendo isto concluído, que
falsumque illud sit, quod sem signos se possa ensinar,
nobis paulo ante videbatur seja falso o que há pouco
nihil esse omnino, quod sine parecia verdade, que nada
signis possit ostendi. Iam existiria que pudéssemos
enim ex his non unum aliquid mostrar sem signos.
aut alterum, sed milia rerum Ademais, não seria somente
animo occurrunt, quae nullo uma ou outra coisa, mas
signo dato per se ipsa milhares que ocorrem a alma,
monstrentur. Quid enim que sem necessitarem de
dubitemus, oro te? Nam ut nenhum signo se mostram
hominum omittam por si próprias. Por que
Santo Agostinho 121

innumerabilia spectacula in então duvidarmos, te


omnibus theatris sine signo pergunto? Colocando de lado
ipsis rebus exhibentium, os inumeráveis espetáculos
solem certe istum lucemque em todos os teatros, em que
haec omnia perfundentem os atores representam as
atque vestientem, lunam et coisas mesmas, sem signos;
cetera sidera, terras et maria este sol e mesmo esta luz que
quaeque in his innumerabiliter inunda tudo, a lua, os astros
gignuntur, nonne per se ipsa restantes, a terra e os mares,
exhibet atque ostendit deus et tudo o que de infinito exista;
natura cernentibus? Quid? não seriam por si mesmos
quod si diligentius que Deus e a natureza os
consideremus, fortasse nihil expõem, mostrando a quem
invenies, quod per sua signa os contempla? Se
discatur. Cum enim mihi considerarmos
signum datur, si nescientem cuidadosamente, talvez nada
me invenit, cuius rei signum se encontre que por seus
sit, docere me nihil potest, si signos possa ser apreendido.
vero scientem, quid disco per Se me dado um signo, do
signum? Non enim mihi rem, qual nada soubesse sobre o
quam significat, ostendit que seria a coisa, coisa
verbum, cum lego «et nenhuma poderia me ensinar;
sarabalae eorum non sunt mas se tenho seu
commutatae». Nam si conhecimento de verdade; o
quaedam capitum tegmina que aprendo pelo signo?
nuncupantur hoc nomine, Quando leio as palavras: as
num ego hoc audito, aut quid suas sarabalas não foram
sit caput aut quid sint alteradas79, estas não mostram
tegmina, didici? Ante ista seus significados. Certos
noveram, neque, cum objetos com este nome

79 Agostinho condiciona o significado à visão da coisa. Aqui há uma


referência à passagem da Sagrada Escritura: [...] os sátrapas, os prefeitos, os
governadores e os conselheiros do rei, em grupos à volta, verificaram que o fogo não tinha
tocado nos corpos desses homens, que nenhum cabelo de suas cabeças tinha sido queimado,
que suas vestes não tinham sido estragadas e que eles não traziam nem indício do odor de
fogo! (DANIEL 3.94).
122 De Magistro
appellarentur ab aliis, sed cum servem para cobrir a cabeça,
a me viderentur, eorum est e por ventura ao ouvi-las,
mihi facta notitia. Etenim deverei deduzir o que seria
cum primum istae duae cabeça ou o que são
syllabae, cum dicimus «caput», coberturas? Já as conhecia,
aures meas impulerunt, tam não quando mencionada por
nescivi, quid significarent, outros, assim a noção delas
quam cum primo audirem adveio-me, mas ao serem
legeremue sarabalas. Sed cum vistas por mim.
saepe diceretur «caput», Efetivamente, quando estas
notans atque animadvertens, duas sílabas ca-put (cabeça)
quando diceretur, repperi percutiram em meus ouvidos,
vocabulum esse rei, quae mihi desconhecia seu significado,
iam erat videndo notissima. como quando ouvi e li pela
Quod priusquam primeira vez sarabalas. Mas,
repperissem, tantum mihi ouvindo muitas vezes cabeça,
sonus erat hoc verbum; notando e observando
signum vero esse didici, quando pronunciada,
quando, cuius rei signum descobri que coisa era por já
esset, inveni, quam quidem, ut tê-la vista, assim me era
dixi, non significatu, sed conhecidíssima. Antes de isso
aspectu didiceram. Ita magis descobrir, esta palavra era
signum re cognita quam signo apenas um som; só aprendi
dato ipsa res discitur. Quod ut que era um signo após
apertius intellegas, finge nos descobrir que coisa
nunc primum audire, quod significava. Deduzi não pelo
dicitur «caput», et nescientes, signo, mas pela ação do
utrum vox ista sit olhar. Conhecemos mais
tantummodo sonans an sobre o signo através da
aliquid etiam significans, coisa, do que da própria coisa
quaerere, quid sit caput - quando estudada pelo signo.
memento nos non rei, quae Para que compreendas
significatur, sed ipsius signi melhor imagine estarmos
velle habere notitiam, qua pela primeira vez ouvindo o
caremus profecto, quamdiu, vocábulo caput, e ignorando
cuius signum est, ignoramus; ser apenas um som ou se
Santo Agostinho 123

si ergo ita quaerentibus res significaria algo, e


ipsa digito demonstratur, hac perguntássemos o que seria;
conspecta discimus signum, recordas não ser da coisa que
quod audieramus tantum, é significada que queremos o
nondum noveramus. In quo conhecimento, mas sim do
tamen signo cum duo sint, signo, e não o possuiremos
sonus et significatio, sonum enquanto ignorarmos de que
certe non per signum coisa seria signo. Se quando
percipimus, sed eo ipso aure feita a pergunta, a coisa
pulsata, significationem autem mesma fosse mostrada com
re, quae significatur, aspecta. o dedo, ao vê-la
Nam illa intentio digiti aprenderíamos o signo que
significare nihil aliud potest só o conhecemos pela
quam illud, in quod intenditur audição. Assim, havendo dois
digitus; intentus est autem elementos neste signo, o som
non in signum, sed in e o significado; o som
membrum, quod caput evidentemente não foi
vocatur. Itaque per illam percebido pelo signo, mas
neque rem possum nosse, pela audição reverberada,
quam noveram, neque enquanto o significado tenha
signum, in quod intentus sido apreendido pela visão da
digitus non est. Sed de coisa significada. De fato, o
intentione digiti non nimis apontar do dedo nada mais
curo, quia ipsius pode significar, senão àquilo
demonstrationis signum mihi que o dedo visou. Mas ele
videtur potius quam rerum não tendeu para o signo e
aliquarum, quae sim para aquela parte do
demonstrantur, sicut corpo chamada cabeça, esse
adverbium, quod «ecce» gesto não me permite
dicimus; nam et cum hoc conhecer algo que já era
adverbio digitum solemus conhecido, tampouco seu
intendere, ne unum signo para o qual o dedo não
demonstrandi signum non sit aponta. A isto não muito me
satis. Et id maxime tibi nitor importo, seria apenas um ato
persuadere, si potero, per ea de demonstrar como
signa, quae verba appellantur, quaisquer outros que se
124 De Magistro
nos nihil discere; potius enim, indiquem como o advérbio
ut dixi, vim verbi, id est ecce (eis) que sempre vem
significationem, quae latet in acompanhado de uma
sono, re ipsa, quae demonstração gestual, não se
significatur, cognita discimus, bastando apenas esses dois
quam illam tali significatione signos para elucidar. Seria
percipimus. Et quod dixi de isto que me esforço para te
capite, hoc etiam de persuadir, que nada
tegminibus deque aliis rebus apreendemos com os signos
innumerabilibus dixerim; quas chamados palavras. Como
tamen cum iam noverim, afirmei a pouco, conhecida a
sarabaras illas adhuc usque própria coisa significada,
non novi; quas mihi si gestu aprendemos a força da
quispiam significaverit aut palavra, ou seja, o significado
pinxerit aut aliquid, cui similes refletido no som; bem
sunt, ostenderit, ne dicam diverso de quando
non me docuerit, quod facile percebemos essa realidade
obtinerem, si paulo amplius por meio de sua significação.
loqui vellem, sed dico id, O que eu disse de cabeça,
quod proximum est, non diria também das coberturas
verbis docuerit. Quod si eis e de inúmeras coisas outras.
forte conspectis, cum simul Embora eu conheça
adero, me admonuerit dicens: coberturas, até agora
«Ecce sarabarae», discam rem, desconheço as sarabalas,
quam nesciebam, non per estas, mesmo que alguém as
verba, quae dicta sunt, sed per significasse por gestos ou as
eius aspectum, per quem desenhasse, ou mostrasse
factum est, ut etiam nomen algo semelhante, não diria
illud, quid valeret, nossem ac apenas que me ensinou, mas
tenerem. Non enim, cum rem que o fez não com palavras.
ipsam didici, verbis alienis Se por acaso estivesse a
credidi, sed oculis meis; illis contemplá-las e alguém junto
tamen fortasse, ut a mim advertisse dizendo:
adtenderem, credidi, id est ut aqui estão as sarabalas, estaria
aspectu quaererem, quid apreendendo não por
viderem. palavras, mas por meio da
Santo Agostinho 125

visão; e por desta segue que


fixei também seu significado
pelo próprio nome.
Certamente, ao apreender a
coisa mesma, não acreditei
nas palavras alheias, mas sim
nos meus olhos. Talvez nela
tenha acreditado para
atender-me, ou seja, buscar
com a visão aquilo que queria
ver.

XI XI - Função pedagógica
da linguagem80

Hactenus verba valuerunt, Até aqui chegamos ao valor


quibus ut plurimum tribuam, das palavras e quero sugerir
admonent tantum, ut mais; o que desejamos destas
quaeramus res, non exhibent, coisas não apresenta
ut novimus. Is me autem novidades. Elas me ensinam
aliquid docet, qui vel oculis porque apresentam algo que
vel ulli corporis sensui vel ipsi desejo conhecer quer aos
etiam menti praebet ea, quae olhos, quer aos outros
cognoscere volo. Verbis igitur sentidos do corpo, ou ainda a
nisi verba non discimus, própria mente. Portanto,
immo sonitum strepitumque com palavras não dizemos
verborum; nam si ea, quae apenas palavras; antes, o som

80 Na última parte capítulos XI-XIV, Agostinho faz uma ponderação


pedagógica, refletindo sobre a função da linguagem e seu estatuto enquanto
humana e mediadora da relação simbólica do mundo real com o mundo
espiritual. Embora possa ser acusado de mostrar a incapacidade da linguagem
em por si só ensinar, na verdade Agostinho nunca disse isto claramente; o
que fez foi não eliminar a possibilidade de, mas sim de complementá-la,
adicionando sua íntima ligação com o divino, o que resultou em sua tese da
interioridade.
126 De Magistro
signa non sunt, verba esse e o ruído das palavras, que de
non possunt, quamvis iam fato não sendo signos,
auditum verbum, nescio palavras não poderiam ser; e
tamen verbum esse, donec, não saberia também como
quid significet, sciam. Rebus possa ser palavra aquilo que
ergo cognitis verborum ouvi mesmo pronunciado
quoque cognitio perficitur; com palavras enquanto não
verbis vero auditis nec verba lhe conferir um significado.
discuntur; non enim ea verba, Logo, concluo que realmente
quae novimus, discimus aut, ao ressoar uma palavra
quae non novimus, didicisse conhecida, não separo o que
nos possumus confiteri, nisi ouço do completo
eorum significatione percepta, conhecimento verdadeiro;
quae non auditione vocum com efeito, não podemos
emissarum, sed rerum declarar que aprendemos
significatarum cognitione com palavras novas, senão
contingit. Verissima quippe após compreender seu
ratio est et verissime dicitur, significado; estes não vêm da
cum verba proferuntur, aut audição dos sons emitidos,
scire nos, quid significent, aut mas das coisas significadas.
nescire; si scimus, Certamente seria verdadeiro
commemorari potius quam o raciocínio e o dito que, ao
discere; si autem nescimus, proferir palavras,
nec commemorari quidem, conhecemos ou não o que
sed fortasse ad quaerendum significam; se as
admoneri. Quod si dixeris conhecemos, podemos
tegmina quidem illa capitum, rememorá-las quando
quorum nomen sono tantum ensinados; se não as
tenemus, non nos posse nisi conhecemos, certamente
visa cognoscere neque nomen nem rememorar possamos,
ipsum plenius nisi ipsis mas somos incitados a querer
cognitis nosse, quod tamen de conhecê-las. Quando se diz:
ipsis pueris accepimus, ut dessas coberturas das
regem ac flammas fide ac cabeças, sequer sabemos seu
religione superaverint, quas nome completo, e não
laudes deo cecinerint, quos podemos plenamente
Santo Agostinho 127

honores ab ipso etiam inimico conhecer senão ao vê-las; ou


meruerint, num aliter haec depois de conhecermos as
nisi per verba didicimus? próprias coisas.
Respondebo cuncta, quae illis Conseguiríamos acolher o
verbis significata sunt, in que se narra sobre os jovens
nostra notitia iam fuisse. Nam que com a fé e a religião
quid sint tres pueri, quid venceram o rei e as chamas;
fornax, quid ignis, quid rex, o mesmo se diria dos hinos
quid denique illaesi ab igne de louvor que cantaram a
ceteraque omnia, iam Deus e as honras que
tenebam, quae verba illa mereceram do próprio
significant. Ananias vero et inimigo? Respondo que sem
Azarias et Misahel tam mihi exceção todas aquelas
ignoti sunt quam illae palavras significadas já nos
sarabarae, nec ad eos eram conhecidas. Pois que,
cognoscendos haec me seria uma fornalha, o fogo, um
nomina quicquam adiuverunt rei, três rapazes ilesos ao fogo,
aut adiuvare iam potuerunt. enfim, tudo o mais atingido
Haec autem omnia, quae in pelos significados dessas
illa leguntur historia, ita illo palavras. Na verdade,
tempore facta esse, ut Ananias, Azarias e Misahel81
conscripta sunt, credere me eram de mim desconhecidos
potius quam scire confiteor. tanto quanto as sarabalas;
Neque istam differentiam mas, conhecer esses nomes
idem ipsi, quibus credimus, em nada pode me ajudar.
nescierunt; ait enim propheta: Todos esses fatos colhidos
«Nisi credideritis, non da história descrevem um
intellegetis», quod non fato daquele tempo, no qual
dixisset profecto, si nihil mais acredito do que
distare iudicasset. Quod ergo propriamente conheça.
intellego, id etiam credo; at Tampouco aqueles em que
non omne, quod credo, etiam confiamos o sabem, posto

81Ananias Azarias Misahel credentes liberati sunt de flamma (I


MACHABAEORUM 2. 59).
128 De Magistro
intellego. Omne autem, quod que assim se refira o profeta:
intellego, scio; non omne, se não acreditares, não
quod credo, scio. Nec ideo entendereis82. Ele não diria se
nescio, quam sit utile credere julgasse nestas palavras não
etiam multa, quae nescio; cui existir alguma diferença. Por
utilitati hanc quoque adiungo isso compreendo, e também creio
de tribus pueris historiam. em tudo o que entendo, todavia
Quare pleraque rerum, cum nem tudo em que creio, entendo.
scire non possim, quanta Assim, ignoraria quão útil
tamen utilitate credantur, scio. seria acreditar em muitas
De universis autem, quae coisas que delas não se tenha
intellegimus, non loquentem, o entendimento. Aqui coloco
qui personat foris, sed intus esta narrativa dos três jovens,
ipsi menti praesidentem não podendo saber
consulimus veritatem verbis intelectualmente todos os
fortasse, ut consulamus, fatos, todavia sei de quanta
admoniti. Ille autem, qui utilidade será ao
consulitur, docet, qui in acreditarmos. Da origem de
interiore homine habitare tudo que compreendemos,
dictus est Christus, id est não falamos da verdade
incommutabilis dei virtus externa, mas daquela

82 [...] et caput Ephraim Samaria et caput Samariae filius Romeliae si non


credideritis non permanebitis (ISAIAS 7:9). Agostinho com a máxima credo ut
intelligam, não obstante sinalizar a Adeodato com uma dúvida, estabelece uma
dialética entre a fé e o intelecto, como condição primeira para chegar à
Verdade, apontando para uma simbiose entre a razão e a fé, tal que estas se
permutem no sentido de por uma chegar-se à outra, donde é preciso crer para
compreender e compreender para crer, ou seja, crer para que a fé auxilie o
intelecto a entender, e entender para que o intelecto encontre a fé. Esta
característica autoimplicada, em que claramente crer tem prioridade, foi
determinante na tradução de De Magistro, posto que requisitou interpretações
que transitavam entre o real e o possível, o dizível e o indizível, o visível e o
invisível. Umberto Eco ao tratar deste trânsito utiliza uma citação de John
Scottus Eriugena, para mostrar a interconexão entre o espiritual e o
intelectual: Não há nenhuma coisa visível e corpórea que não signifique algo de incorpóreo
e de inteligível82 (ERIUGENA in Eco, 1989, p. 80).
Santo Agostinho 129

atque sempiterna sapientia, Verdade que consultamos


quam quidem omnis rationalis dentro da própria mente
anima consulit, sed tantum onde a evocamos83. Por
cuique panditur, quantum outro lado, aquele que
capere propter propriam sive consulta, ensina que quem
malam sive bonam habita o homem interior e se
voluntatem potest. Et si mostra pela palavra é Christus,
quando fallitur, non fit vitio esta virtude imutável de
consultae veritatis, ut neque Deus, sobretudo uma eterna
huius, quae foris est, lucis sapiência, que seguramente
vitium est, quod corporei seria toda a razão que a alma
oculi saepe falluntur, quam consulta; mas que se
lucem de rebus visibilibus manifesta na medida em que
consuli fatemur, ut eas nobis, cada um capaz se faz de
quantum cernere valemus, recebê-la em face de sua
ostendat. própria vontade, boa ou má.
E, se, às vezes, se engana não
seria pela Verdade
consultada, da mesma forma
que não pela luz exterior que
por vezes o corpo pelos
olhos se engana; esta seria a
luz a que recorremos para
nos mostrar acerca das coisas

83 Agostinho explica a Adeodato que a Deus se chega e se conhece através da


experiência introspectiva. Desta relação inferida, acena com a questão
gnosiológica da busca da Verdade pelo homem, que lhe seria intrínseca pela
derivação da parte de seu todo e que, por conceito, ali também residiriam o
princípio formal da existência. Alguns meses após ter finalizado De Magistro,
escreveu: “Não procures fora, retorne a você mesmo; a Verdade habita o
homem interior; e se você encontrar que sua natureza é inconstante,
transcenda a si próprio. Mas, eu mesmo quando me elevo, penso transcender-
me a alma. Conduzo-me a aquilo donde a luz mesma da razão ilumina” (in
DE VERA RELIGIONE Liber I - 39.72). É pela dialética agostiniana que
se dá a condução à Verdade, na locução do Verbum com o homem, este um
eu ocluso em sua mónada e encerrado em um cotejo com sua razão; ambos
conduzidos pelos sentidos ao Uno.
130 De Magistro
visíveis, na medida em que
somos capazes de distinguir
as coisas sensíveis.

XII XII - Razão e Verdade


interior

Quod si et de coloribus lucem Se percebermos as cores pela


et de ceteris, quae per corpus luz, da mesma forma ocorre
sentimus, elementa huius por intermédio dos
mundi eademque corpora, elementos do mundo para as
quae sentimus sensusque outras coisas das quais
ipsos, quibus tamquam sentimos a ação no corpo,
interpretibus ad talia tanto pelos próprios
noscenda mens utitur, de his sentidos, quando interpretam
autem, quae intelleguntur, pela mente tal conhecimento
interiorem veritatem ratione que entendemos ao consultar
consulimus, quid dici potest, a razão pela Verdade interior;
unde clareat verbis nos aliquid donde o que se poderia dizer,
discere praeter ipsum, qui a não ser aquilo que nos
aures percutit sonum? ensina e se manifesta em nós
Namque omnia, quae como palavra, exceto por ela
percipimus, aut sensu própria, um som que reflete
corporis aut mente nos ouvidos? Aquilo que
percipimus. Illa sensibilia, percebemos com os sentidos
haec intellegibilia sive, ut do corpo, com a mente o
more nostrorum auctorum apreendemos. Destes, quer
loquar, illa carnalia, haec pela sensibilidade, quer pela
spiritalia nominamus. De illis inteligibilidade, ou ao modo
cum interrogamur, de nossos mestres,
respondemus, si praesto sunt nominamos carnais e
ea, quae sentimus, velut cum a espirituais. Aos primeiros, em
nobis quaeritur intuentibus sendo interpelados, se
lunam novam, qualis aut ubi estiverem diante de nós,
sit. Hic ille, qui interrogat, si responderemos o que
non videt, credit verbis et sentimos; como se
Santo Agostinho 131

saepe non credit, discit autem perguntassem estando nós a


nullo modo, nisi et ipse, quod observar a lua nova84, qual
dicitur, videat, ubi iam non seria ela ou onde se
verbis, sed rebus ipsis et encontraria. Caso aquele que
sensibus discit. Nam verba perguntasse não a visse,
eadem sonant videnti, quae acreditaria na palavra ou não,
non videnti etiam sonuerunt. mas como se ensinaria pelos
Cum vero non de his, quae sentidos a não ser que
coram sentimus, sed de his, também a visse conforme lhe
quae aliquando sensimus, fora dito. Na verdade, ele
quaeritur, non iam res ipsas, não veria pelos sons das
sed imagines ab eis impressas palavras, mas sentindo a
memoriaeque mandatas coisa em si. Quando somos
loquimur, quae omnino, interpelados não sobre as
quomodo vera dicamus, cum coisas presentes e sim sobre
falsa intueamur, ignoro, nisi percepções de outrora, não
quia non nos ea videre ac falamos das próprias coisas,
sentire, sed vidisse ac sensisse mas das imagens impressas
narramus. Ita illas imagines in em nós e confiadas a nossa
memoriae penetralibus rerum memória; das quais tenho
ante sensarum quaedam dúvidas poder lhes chamar
documenta gestamus, quae verdadeiras, posto não serem
animo contemplantes bona reais; e as ignoraria se delas
conscientia non mentimur, não tivesse uma prévia visão.
cum loquimur. Sed nobis sunt Evocando desta forma essas
ista documenta; is enim, qui imagens da memória, como
audit, si ea sensit atque adfuit, ensinamentos outrora
non discit meis verbis, sed sensoriados, não estamos a
recognoscit ablatis secum et mentir quando delas falamos.

84 Aqui encontramos um bom exemplo daquilo evidenciado por Arendt, e,


que está oculto nas palavras de Agostinho. Sabe-se que a Lua Nova não é
visível em nenhum lugar da terra; então, por que falando da luz de Christus, o
rector não mencionaria visível que pudesse ser sensoriado, como o Sol? Na
verdade, utiliza de linguagem subliminar para dizer que o ser humano vive
em estado de escuridão, como durante a Lua Nova, mas que pelo intelecto
poderá encontrar a Luz.
132 De Magistro
ipse imaginibus; si autem illa Mas, aquele que nos ouve,
non sensit, quis non eum não sensoriando o
credere potius verbis quam acontecido não aprende por
discere intellecut? Cum vero palavras, mas reconhece
de his agitur, quae mente mediante as imagens em si; se
conspicimus, id est intellectu ele nunca sensoriou, não
atque ratione, ea quidem posso crer que das palavras
loquimur, quae praesentia pelo intelecto aprenda?
contuemur in illa interiore Quando, pois, se trata das
luce veritatis, qua ipse, qui coisas que pela mente
dicitur homo interior, compreendemos, ou seja,
illustratur et fruitur; sed tum através do intelecto e da
quoque noster auditor, si et razão, estamos falando em
ipse illa secreto ac simplici coisas que contemplamos e
oculo videt, novit, quod dico, presentes naquela luz interior
sua contemplatione, non da Verdade, que frui do
verbis meis. Ergo ne hunc homem interior iluminado;
quidem doceo vera dicens mas, se nosso ouvinte sentí-
vera intuentem; docetur enim las por meio dessa visão
non verbis meis, sed ipsis íntima e pura, saberá do que
rebus deo intus pandente falo não apenas por minhas
manifestis; itaque de his etiam palavras. Logo, a verdade
interrogatus respondere dita, a Verdade interior,
posset. Quid autem absurdius ensina não com minhas
quam eum putare locutione palavras, mas pelo eco da
mea doceri, qui posset, manifestação interior do
antequam loquerer, ea ipse próprio Deus que pode
interrogatus exponere? Nam responder se for interpelado.
quod saepe contingit, ut Nada mais absurdo julgar ser
interrogatus aliquid neget ele ensinado pelas minhas
atque ad id fatendum aliis palavras se quando
interrogationibus urgeatur, fit questionado poderia por si
hoc imbecillitate cernentis, próprio responder? Com
qui de re tota illam lucem efeito, quando não se tem a
consulere non potest; quod ut energia para discernir
partibus faciat, admonetur, totalmente, ocorre de o
Santo Agostinho 133

cum de istis partibus interpelado negar algo para


interrogatur, quibus illa depois, estimulado por etapas
summa constat, quam totam por novas questões, acabará
cernere non valebat. Quo si por concordar; isto se deve a
verbis perducitur eius, qui debilidade de quem
interrogat, non tamen contempla as coisas, mas não
docentibus verbis, sed eo pode consultar a luz, sem
modo inquirentibus, quo interpelações que constatem
modo est ille, a quo quaeritur, a Verdade. Se a esta só
intus discere idoneus. Velut si chegar pelas palavras de
abs te quaererem hoc ipsum, quem o interpela, não foram
quod agitur, utrumnam verbis as palavras a lhe ensinar; mas
doceri nihil possit, et apenas o tornaram lúcido
absurdum tibi primo videretur para aprender de seu interior.
non valenti totum conspicere, Por exemplo, se te
sic ergo quaerere oportuit, ut interpelando sobre este
tuae sese vires habent ad assunto que estamos
audiendum illum intus tratando, que nada possa se
magistrum, ut dicerem: ea, ensinar com palavras, e a ti
quae me loquente vera esse inicialmente parecesse
confiteris, et certus es, et te absurdo, dado não poder ver
illa nosse confirmas, unde com firmeza o todo,
didicisti? quererias consultar aquele
Responderes fortasse, quod Mestre interior; e se eu
ego docuissem. Tum ego dissesse: onde aprendeste ser
subnecterem: quid? si me verdadeiro o que afirmei - se
hominem volantem vidisse estarias correto ao garantir
dicerem, itane te certum verba conhecer o que afirmo? Poderias
mea redderent, responder que eu as ensinei.
quemadmodum si audires Então eu acrescentaria: que
sapientes homines stultis esse tinha visto um homem a voar; e
meliores? Negares profecto et minhas palavras também o
responderes illud te non deixariam certo tanto quanto
credere aut, etiamsi crederes, eu dissesse que os homens
ignorare, hoc autem sapientes são melhores que
certissime scire. Ex hoc iam os nescientes? Negarias com
134 De Magistro
nimirum intellegeres neque in certeza, respondendo não
illo, quod me affirmante crer na primeira destas
ignorares, neque in hoc, quod afirmações; mesmo que
optime scires, aliquid te acreditasses, ela seria para ti
didicisse verbis meis, desconhecida, porém da
quandoquidem etiam segunda estarias certo de
interrogatus de singulis et saber. Entenderias que nada
illud ignotum et hoc tibi aprendeste com elas, e
notum esse iurares. Tum vero mesmo tendo eu afirmado, as
totum illud, quod negaveras, ignoraria, até aquilo que lhe
fatereris, cum haec, ex quibus seria conhecido, visto que ao
constat, clara et certa esse ser interpelado sobre as
cognosceres, omnia scilicet, partes, juraria aquela
quae loquimur, aut ignorare desconher e da outra ter
auditorem, utrum vera sint, conhecimento. Assim,
aut falsa esse non ignorare aut admitirias o que antes negou
scire vera esse. quando reconheceste como
Horum trium in primo aut claras e certas as partes em
credere aut opinari aut que constam: o ouvinte ignora
dubitare, in secundo adversari que sejam verdadeiras, ou não
atque renuere, in tertio ignora que sejam falsas, ou sabe
attestari, nusquam igitur serem verdadeiras. Destas à
discere, quia et ille, qui post primeira, se cre ou se opina
verba nostra rem nescit, et qui ou se duvida; da segunda, se
se falsa novit audisse, et qui nega; da terceira, se confirma;
posset interrogatus eadem mas em nenhuma se aprende.
respondere, quae dicta sunt, Assim está demonstrado que
nihil verbis didicisse nem aquele que depois das
convincitur. palavras ignora o assunto,
tampouco aquele que as
reconhece como falsas,
depois de ter ouvido, após
interpelado poderia
responder coisas
semelhantes, demonstrando
Santo Agostinho 135

que por minhas palavras nada


aprendera.

XIII XIII – Os signos que na


mente possuímos

Quam ob rem in his etiam, Assim as coisas que são


quae mente cernuntur, frustra intuídas pela mente iludem o
cernentis loquelas audit, reconhecimento da
quisquis ea cernere non linguagem audita, e tal se
potest, nisi quia talia, quamdiu ignore por tanto tempo, a
ignorantur, utile est credere. não ser porque útil seria crer.
Quisquis autem cernere Aquele que pode intuí-la
potest, intus est discipulus interiormente da Verdade
veritatis, foris iudex loquentis discípulo se faz, e
vel potius ipsius locutionis; exteriormente de quem fala
nam plerumque scit illa, quae juiz se torna, ou de suas
dicta sunt, eo ipso nesciente, próprias palavras, conquanto
qui dixit; velut si quisquam ele próprio aquilo que falou
Epicureis credens et desconheça, como no caso
mortalem animam putans eas que alguém que julgasse ter
rationes, quae de sido ensinado pela verdade e
immortalitate eius a acreditando na mortabilidade
prudentioribus tractatae sunt, da alma da doutrina de
eloquaturillo audiente, qui Epicuro85, expusesse suas
spiritalia contueri potest, razões na presença de quem
iudicat iste vera eum docere. intui coisas espirituais, em
At ille, qui dicit, utrum vera uma discussão elaborada por
dicat, ignorat, immo etiam sábios sobre a imortabilidade.
falsissima existimat; num Porém, aquele que falou, ao
igitur putandus est ea docere, contrário, se disse a verdade
85 Segundo Russ (1994), a filosofia epicurista defendia o prazer como o
princípio para se alcançar a felicidade e a filosofia como um instrumento de
libertação para o homem. Gerou, a sua época, inúmeras polêmicas, entrando
em choque direto com a filosofia fundada no cristianismo, e, principalmente,
com os conceitos morais de Agostinho.
136 De Magistro
quae nescit? Atqui isdem ou não, até a falsidade do
verbis utitur, quibus uti etiam pensamento ignorou, crendo
sciens posset. ensinar o que desconhece?
Quare iam ne hoc quidem Contudo capaz seria de das
relinquitur verbis, ut his mesmas palavras uso fazer,
saltem loquentis animus como faria se possuidor de
indicetur, si quidem incertum conhecimento fosse. Por
est, utrum ea, quae loquitur, isso, sequer pela verdade das
sciat. Adde mentientes atque palavras não sucumbir, se
fallentes, per quos facile porventura é incerto que
intellegas non modo non conhece aquilo que fala no
aperiri, verum etiam occultari mínimo a alma do falante
animum verbis. Nam nullo desvenda. Acrescente aqueles
modo ambigo id conari verba que mentem e enganam e
veracium et id quodam modo facilmente entenderás que os
profiteri, ut animus loquentis homens não só não se
appareat, quod obtinerent revelam, quanto, em verdad
omnibus concedentibus, si com as palavras até sua alma
loqui mentientibus non ocultam. De forma alguma
liceret. Quamquam saepe contesto que existam
experti fuerimus et in nobis et homens corretos que pela
in aliis non earum rerum, palavra seu íntimo manifeste,
quae cogitantur, verba e assim todos seriam se
proferri, quod duobus modis permitido aos mentirosos
posse accidere video, cum aut falarem não fosse.
sermo memoriae mandatus et Entretanto, por vezes, vemos
saepe decursus alia cogitantis tanto em nós quanto em
ore funditur, quod nobis cum outros, palavras proferidas
hymnum canimus, saepe que chegam de duas formas:
contingit, aut cum alia pro conversas decoradas que da
aliis verba praeter voluntatem boca jorram e, aqueles que
nostram linguae ipsius errore falam, mas noutra coisa
prosiliunt; nam hic quoque pensam, o que acontece
non earum rerum signa, quas frequentemente quando
in animo habemus, audiuntur. cantamos um hino, ou
Nam mentientes quidem quando contra a vontade
Santo Agostinho 137

cogitant etiam de his rebus, lançamos palavras em lugar


quas loquuntur, ut, tametsi de outras por um lapso da
nesciamus, an verum dicant, própria linguagem, não sendo
sciamus tamen eos in animo ouvidos os signos das coisas
habere, quod dicunt, si non que na mente possuímos. Os
eis aliquid duorum, quae dixi, mentirosos, sem dúvida,
accidat; quae si quis et pensam realmente no que
interdum accidere contendit dizem, muito embora não
et, cum accidit, apparere, saibamos se falam a verdade,
quamquam saepe occultum sabemos, todavia que eles
est et saepe me fefellit têm em mente o que dizem, a
audientem, non resisto tamen. não ser que se dê com eles
Sed his accedit aliud genus um dos dois casos acima e,
sane late patens et semen quando se impede que ocorra
innumerabilium dissensionum são contidos, mas evidente
atque certaminum, cum ille, ainda que no mais das vezes
qui loquitur, eadem quidem oculto permaneça; quando
significat, quae cogitat, sed ocorre não contradigo
plerumque tantum sibi et aliis porque também enganado
quibusdam, ei vero, cui poderei estar. Acrescento a
loquitur, et item aliis isto outra circunstância
nonnullis non idem significat. frequente, que inúmeras
Dixerit enim aliquis distensões e disputas origina:
audientibus nobis ab aliquibus quando quem fala significa
beluis hominem virtute exatamente o que pensa
superari; nos ilico ferre non apenas para si e alguns, mas
possumus, et hanc tam falsam não a aquele com quem está
pestiferamque sententiam a falar. Se alguém dissesse, e
magna intentione refellimus, nós estando a ouvir, que o
cum ille fortasse virtutem homem é superado em valor
vires corporis vocet et hoc por alguns animais, não
nomine id, quod cogitavit, concordaríamos
enuntiet; nec mentiatur nec imediatamente e
errat in rebus nec aliud aliquid energicamente o refutaríamos
volens animo mandata tão falsa e desastrosa fosse
memoriae verba contexit nec essa afirmação; mas talvez
138 De Magistro
linguae lapsu aliud, quam este interlocutor assim
volebat, sonat, sed procedesse para falar da
tantummodo rem, quam força do corpo, assim
cogitat, alio quam nos nomine enunciou o que pensava; não
appellat, de qua illi statim mentiu, tampouco enganou;
assentiremur, si eius não ocultou o que estava na
cogitationem possemus memória; precipitado
inspicere, quam verbis iam cometeu um lapso linguistíco
prolatis explicataque sententia emitindo um outro som a
sua nondum nobis pandere aquilo que desejava, apenas
valuit. Huic errori definitiones denominou de forma diversa,
mederi posse dicuntur, ut in porquanto não explicou com
hac quaestione, si definiret, palavras verbalizadas o que
quid sit virtus, eluceret, aiunt, afirmava, com o que teríamos
non de re, sed de verbo esse de imediato concordado se
controversiam; quod ut pudéssemos seu pensamento
concedam, quotusquisque assentir. Dizem que tal erro
bonus definitor inveniri poderia remediado ser, se
potest! Et tamen adversus numa questão destas definido
disciplinam definiendi multa ficasse o que seria valor e não
disputata sunt, quae neque a realidade, clarificando que a
hoc loco tractare oportunum questão não entorna a coisa
est nec usquequaque a me senão a palavra, mas mesmo
probantur. isto assentindo, quão poucos
Omitto, quod multa non bene bons definidores poder-se-á
audimus et quasi de auditis encontrar? No entanto muito
diu multumque contendimus, se tem discutido sobre a arte
velut tu nuper verbo quodam da definição, o que não seria
Punico, cum ego oportuno aqui estar tratando
misericordiam dixissem, e nem eu aprovaria. Deixo ao
pietatem significari te audisse lado que muitas palavras
dicebas ab eis, quibus haec possam não ser
lingua magis nota esset. Ego adequadamente ouvidas,
autem resistens, quid sobre elas muito discutimos
acceperis, tibi omnino como há pouco, quando
excidisse asserebam; visus disse misericórdia usando
Santo Agostinho 139

enim mihi eras non pietatem uma palavra púnica86; afirmou


dixisse, sed fidem, cum et tê-la ouvido daqueles que
coniunctissimus mihi bem conhece a língua,
assideres et nullo modo haec significando piedade. Eu, por
duo nomina similitudine soni outro lado me opunha
aurem decipiant. Diu te afirmando teres esquecido
tamen arbitratus sum nescire, totalmente o que aprenderas,
quid tibi dictum sit, cum ego parecia-me teres dito não
nescirem, quid dixeris; nam si piedade, mas fé; estávamos
te bene audissem, nequaquam bem próximos, assim estas
mihi videretur absurdum duas palavras jamais iludiriam
pietatem et misericordiam nossos ouvidos pela
uno vocabulo Punice semelhança de sons. Por
nominari. Haec plerumque pouco tempo pensei que
accidunt. Sed ea, ut dixi, ignorasses aquilo que te
omittamus, ne calumniam haviam dito, enquanto eu
verbis et audiendi neglegentia ignorava o que dizias; se
vel etiam de surditate tivesse ouvido bem, de modo
hominum videar commovere. nenhum julgaria absurdo que
Illa magis angunt, quae piedade e misericórdia
superius enumeravi, ubi fossem nominadas na lígua
verbis liquidissime aure púnica por um único
perceptis et Latinis non vocábulo. Às vezes isto
valemus, cum eiusdem linguae acontece. Mas, como disse,
simus, loquentium cogitata deixemos isto e não
cognoscere. Sed ecce iam caluniemos as palavras pela
remitto atque concedo, cum negligência do ouvinte ou se
verba eius auditu, cui nota queres ainda, não nos
sunt, accepta fuerint, posse illi lamentemos pela surdez dos
esse notum de his rebus, quas homens. Seria mais grave

86 Tanto se considere que Agostinho, preocupado com a divulgação da


mensagem cristã, escreveu De Catechizandis Rubidus (399/400), dedicado à
instrução de cristãos analfabetos. Agostinho fazia uma exceção ao sermo
eruditus quando por necessidade de comunicação, utilizava outra modalidade
de oratória, a língua púnica ou cartaginês do baixo-latim e de Tagaste, sua cidade
natal.
140 De Magistro
significant, loquentem aquilo que enumerei acima,
cogitavisse; num ideo etiam, em língua latina, claramente
quod nunc quaeritur, utrum audível de que não
vera dixerit, discit? conseguimos conhecer nem
sequer o pensamento de
quem fala, sendo nós da
mesma língua. Mas deixo isto
ao lado, por assentir que ao
ouvir palavras de quem as
conheça, evidente fica se
quem as proferiu pensou no
significado ao conceber sua
locução. Porventura agora
tratamos do que ensinado
seria quando o outro a
verdade profere?

XIV XIV – Crítica aos


professores
Num hoc magistri
profitentur, ut cogitata eorum Acaso os professores
ac non ipsae disciplinae, quas confessam publicamente que
loquendo se tradere putant, se compreenda o
percipiantur atque teneantur? conhecimento que concebem
Nam quis tam stulte curiosus e não a própria ciência que
est, qui filium suum mittat in ao falar transmitem? Na
scholam, ut, quid magister verdade quem diligente
cogitet, discat? At istas omnes insensato seria, a ponto de
disciplinas, quas se docere enviar seu filho à escola para
profitentur, ipsiusque virtutis que aprenda o que pensa o
atque sapientiae cum verbis professor?87 Portanto, após

87Ao justificar que os alunos não vão à escola para saber o pensamento do
professor, porque estes não são transmissores da verdade, mais uma vez
aproximou-se da maiêutica de Socrates, que afirmava só saber que nada sabia;
questionando seus interlocutores para por si descobrirem as verdades. Isto o
Santo Agostinho 141

explicaverint, tum illi, qui terem ensinado com palavras


discipuli vocantur, utrum vera todas as ciências que
dicta sint, apud semet ipsos professam, incluindo as
considerant interiorem scilicet concernentes a virtude e a
illam veritatem pro viribus sapiência88, os que são
intuentes. Tunc ergo discunt, discípulos julgarão por si se o
et cum vera dicta esse intus dito consiste verdadeiro, na
invenerunt, laudant nescientes medida de suas capacidades
non se doctores potius em contemplar aquela
laudare quam doctos, si Verdade interior que falamos.
tamen et illi, quod loquuntur, Então, logo que ensinados,
sciunt. Falluntur autem sendo encontrada
homines, ut eos, qui non sunt, internamente a Verdade dita,
magistros vocent, quia louvar os sábios como
plerumque inter tempus conhecedores não podem,
locutionis et tempus ainda que quando falaram, o
cognitionis nulla mora sabiam. Os homens se
interponitur, et quoniam post equivocam ao chamarem
admonitionem sermocinantis mestres a aqueles que não o
cito intus discunt, foris se ab são, geralmente porque

levou a uma crítica direta à ideia de aprender com o professor, a qual mais
tarde, explicou que retratava a própria experiência: “[...] tanto um retórico
cartaginense, meu professor, quantos outros arrogantes que se tinham por
doutos, narraram obscuramente e se exaltaram de soberba, e a ineptidão me
deixava aéreo à espera de algo divino. Quando com outros prestava atenção,
estes se diziam com dificuldades; os eruditíssimos mestres não explicavam
muito, e mesmo que ao descrever indicassem com inumeráveis desenhos na
areia, todavia não mais ensinaram o que já eu não tivesse aprendido ao ler
sozinho” (in CONFESSIONUM LIBRI IV – XVI.28). Agostinho ao tratar
da relação entre professor e aluno reconhece a defasagem entre a linguagem
e o pensamento; assim definiu que nada aprendemos pelas palavras,
tampouco com os professores, e, que o verdadeiro conhecimento só é
encontrado no Mestre que habita o homem interior.
88Em toda a tradução e ao longo desta dissertação considerei a palavra latina
sapientiae, como sapiência e não como sabedoria que seria literalmente
adequada, mas que, no caso de Agostinho, não refletiria aquela pregnância a
qual ele se refere ao retratar a Sapiência de Deus.
142 De Magistro
eo, qui admonuit, didicisse nenhum intervalo se interpõe
arbitrantur. Sed de tota entre o tempo da locução e
utilitate verborum, quae, si do conhecimento; tais
bene consideretur, non parva discípulos se autoensinam de
est, alias, si deus siverit, seu interior e após a menção
requiremus. Nunc enim ne daquele que fala, julgam tê-lo
plus eis, quam oportet, do exterior aprendido. Mas, a
tribueremus, admonui te, ut toda utilidade das palavras,
iam non crederemus tantum, que consideramos parca não
sed etiam intellegere ser, oportunamente
inciperemus, quam vere buscaremos, se Deus
scriptum sit auctoritate divina, permitir. Porquanto,
ne nobis quemquam recomendo não atribuas
magistrum dicamus in terris, maior importância que a
quod unus omnium magister justa, e em tal não apenas se
in caelis sit. Quid sit autem in creia, mas se comece também
caelis, docebit ipse, a quo a compreender o quão de
etiam per homines signis verdade descreve, posto
admonemur foris, ut ad eum esteja escrito que não
intro conversi erudiamur, chamemos a mais ninguém
quem diligere ac nosse beata de Mestre na terra, porque o
vita est, quam se omnes único encontra-se nos céus.
clamant quaerere, pauci autem O significado de nos céus89,
sunt, qui eam vere se Ele mesmo ensinará, como
invenisse laetentur. Sed iam também por meio de signos
mihi dicas velim, quid de hoc advertirá exteriormente90 os
toto meo sermone sentias. Si homens para que a ele
enim vera esse, quae dicta retorne a partir de sua vida

89Agostinho está se referindo a um pensamento estóico, que afirmava ser o


universo a Cidade de Deus e, que mais tarde originou uma de suas maiores
obras a que denominou De Civitate Dei LIBRI XXII (413 – 426)
90A expressão: foris admonet, intus docet (DE LIBERO ARBITRIO II,14:38),
indica que o exterior apresenta algo à consciência, mas o apreender só se dá
a partir do conhecer o que habita esse interior.
Santo Agostinho 143

sunt, nosti, etiam de singulis interior91, e nos ensinará a


sententiis interrogatus ea te vida venturosa, aquela que
scire dixisses. Vides ergo, a todos proclamam desejar e
quo ista didiceris; neque enim que poucos podem
a me, cui roganti omnia verdadeiramente alegrar-se
responderes. Si autem vera de tê-la encontrado.
esse non nosti, nec ego nec Compreendes agora o que
ille te docuit; sed ego, quia falei; não poder responder a
numquam possum docere, tudo aquilo que interpelas;
ille, quia tu adhuc non potes ainda que, por outro lado em
discere. não sabendo a verdade, por
ora, nem eu nem Ele te
ensinaremos, mas eu porque
jamais poderei ensinar, e Ele
porque tu ainda não
conseguirias aprender.

1.Adeodatus - Ego vero 1.Adeodato - A mim,


didici admonitione verborum alertado por tuas palavras,
tuorum nihil aliud verbis aprendi que estas não servem
quam admoneri hominem, ut a não ser para advertir o
discat, et perparum esse, quod homem a aprender e, que a
per locutionem aliquanta palavra refletida no
cogitatio loquentis apparet; pensamento do outro que
utrum autem vera dicantur, fala seria de pouquíssimo
eum docere solum, qui se conhecimento; só sou
intus habitare, cum foris instruído por Aquele que me
loqueretur, admonuit, quem habita internamente, e que
iam favente ipso tanto muito me favorecendo já me

91Ele habita todos e por todos é estimado, está completamente próximo e é


completamente eterno; não está em nenhum local, no entanto nunca está
ausente; adverte-nos do exterior e ensina-nos interiormente; na alteração distingue
inteiramente tudo de melhor. Por isso em nós, originados como simples
conhecedores, ele manifesta o melhor; não a partir de si mesmo, mas pelo
mesmo a partir de outros julgamentos, dos quais não é possível duvidar91 (in
DE LIBERO ARBITRIO LIBRI III – II.14.38).
144 De Magistro
ardentius diligam, quanto ero adverte; o qual ardentemente
in discendo provectior. estimo e de quem quero
Verumtamen huic orationi aproveitar para aprender.
tuae, qua perpetua usus es, ob Contudo, por tua exposição,
hoc habeo maxime gratiam, de eterna utilidade, tenho a
quod omnia, quae máxima gratidão, por a mim
contradicere paratus eram, proporcionar tudo isso, ao se
praeoccupavit atque dissolvit, preocupar com disposição
nihilque omnino abs te em todas as minhas dúvidas
derelictum est, quod me dissolver, e com a segurança
dubium faciebat, de quo non de tuas palavras nada ficado
ita mihi responderet secretum em abandono restou, como
illud oraculum, ut tuis verbis um oráculo secreto teria
asserebatur. feito, tudo respondestes com
exata prontidão.
Santo Agostinho 145

Epílogo
Nesta pesquisa, na apreciação do fenômeno
agostiniano me vi em permanente confronto entre a
racionalidade cartesiana e a experiência fenomenológica da vida
intensamente vivida por Santo Agostinho. Não me eximi de
deixar claro o pensamento que norteava minha tradução, bem
como não deixei de expor as contribuições de teóricos que
serviram de lastro para minhas opiniões a respeito da obra de
Agostinho e, especificamente para o De Magistro. Igualmente
procurei não perder de vista a referência existente na
contracapa do livro de Hannah Arendt, que afirmou ser seu
principal objetivo: tornar explícito aquilo que Santo Agostinho apenas
diz implicitamente.
De Magistro retrata um diálogo entre pai e filho, mas
não é a conversa mesma, posto que se a refletisse apresentaria
a espontaneidade típica desta ação. Muito mais, em De Magistro
o que se apresenta é o enarratio e o explanatio, fundado numa
retórica de sentido em constante estado dialético e subliminar,
entre forças antagônicas: o bem e o mal, a verdade e o falso, os
cristãos e os hereges, tudo expresso dentro de um quadro
alegórico, que requisitou uma tradução acautelada para que dela
dúvidas não suscitassem. Ao longo da tradução identifiquei que
a obra em si não responderia a todas as imprecisões surgidas,
destarte, procurei respostas intertextuais em outras obras de
Agostinho, na Vulgata e no Fedon, as quais serviram de
elementos de recorrência e deram sustentação a esta pesquisa.
A visão hermenêutica incidente nesta dissertação
assumiu uma abordagem linguística singular ante a perspectiva
de traduzir em De Magistro, não só as palavras dos interlocutores
em sua estrutura fônica e semântica, mas principalmente, o
pensamento de Agostinho, refletido em vocábulos com a
146 De Magistro
peculiar eloquência latina, que ajuíza as influências do signo e
seus significados na linguagem semiótico-agostiniana de seu
tempo e espaço.
Em De Magistro a autoimplicação da fé na palavra Deus
designando a Verdade, enquanto absoluta, foi condicionante e
não permitiu a busca por sentidos outros que não o implicado
na Sagrada Escritura. Contudo, clarificar se faz necessário, que
em nenhum momento da obra, Agostinho coloca a Verdade
como uma representação que manifeste uma relação direta do
signo com o significado. Tratando especialmente desta,
podemos dizer que no texto ela é suprasemiótica e, como tal,
seu sentido sempre foi considerado autoimplicado. Igualmente
foi que, em face do afastamento temporal da textura social do
prae-medioevo, a tradução teve como uma primeira intenção
aproximar o leitor do autor, para que aquele pudesse, através de
De Magistro, vivenciar a experiência agostiniana que prima pelo
sensoriar Deus no íntimo.
De Magistro se apresentou à tradução em um desafio
de extrema elegância, proporcionando-me o prazer de estar
sincronizado com a obra, com o autor e seu contexto social,
traduzindo ao mesmo tempo em que apreendia e refletia sobre
a concepção pedagógica agostiniana.
Me permiti nesta tradução e assim poderão julgar, um
desvairo sonhado de uma paixão de infância, que surgiu com a
leitura dos Sermões do padre Antonio Vieira, apontado por
Fernando Pessoa como o "Imperador da Língua Portuguesa".
Que invídia tinha eu de sua barroca retórica! Cultivada até hoje,
me levou nesta tradução à insolência de em seu horizonte
abeirar , com uma indigente redação barroca. Mas, que prazer
senti ao nela me aventurar!
Afianço distante me passou além à ideia, não ser mais
que um artificioso tradutor incapaz de exaurir todo universo
agostiniano, alertado estava por Leszek Kolakowski, notável
filósofo que ousa delinear os contornos do Absoluto e, que, ao
deparar o teólogo holandês Cornélio Jansen (1585-1638), dele
predicou: “[...] antes de escrever sua grande obra O Augustini, se
Santo Agostinho 147

viu obrigado a ler sua obra completa dez vezes e aquelas em


que o santo versa sobre a graça, trinta vezes” (in
KOLAKOWSKI, 1988, p.107).

Antonio A. Minghetti
148 De Magistro

Referências
bibliográficas
AGOSTINHO, Santo. Solilóquios. Trad. de Antonio A.
Minghetti. São Paulo: Ed. Scala, 2006.

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