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Revista VEJA | Edição 2048 | 20 de fevereiro de 2008 Page 1 of 3

Crime

Uma dor sem tamanho


A nadadora Joanna Maranhão afirma que sofreu abuso
sexual de seu técnico quando tinha apenas 9 anos

Silvia Rogar

Jaqueline Maia/DP

"Senti raiva pela traição de confiança dele e culpa por


não ter ouvido o que a Joanna tentou me contar naquela
época."
Teresinha Maranhão, mãe de Joanna

Joanna Maranhão tinha 9 anos em 1996 e já era uma promessa na


natação. De uma hora para outra, começou a não querer treinar. Bateu
pé, chorou e acabou convencendo a mãe, a médica Teresinha de
Albuquerque Maranhão, a mudá-la de clube. Também não quis mais
freqüentar a casa de seu treinador, Eugênio Miranda. A reação
surpreendeu Teresinha. Ela e o marido haviam se tornado amigos de
Eugênio, então com 37 anos, casado e pai de um menino e uma menina
com idade próxima à de Joanna. Nas férias, as duas famílias passavam
fins de semana juntas na Ilha de Itamaracá, perto do Recife. E volta e
meia a aluna dormia na casa do professor. Depois da mudança, perderam
completamente o contato. Na semana passada, aos 20 anos, Joanna veio
a público acusar Eugênio de ter abusado sexualmente dela. Devido ao
tempo decorrido, é impossível ter provas do que realmente aconteceu.
Mas o relato de seu sofrimento é impressionante (veja a entrevista
abaixo). Naquela ocasião, Joanna tentou conversar com a mãe. Não foi
ouvida. "Ela veio falar de um carinho mais íntimo, mas achei aquilo
absurdo, parte de uma fantasia. Além de bom técnico, o Eugênio era uma
pessoa bacana", disse Teresinha a VEJA.

Os anos de adolescência foram difíceis para Joanna. Ela se tornou


agressiva, deprimida e passou a sofrer de insônia. Quando viajava para
competições de natação, preferia dividir o quarto com meninas de
equipes rivais a dormir desacompanhada. Não suportava ficar sozinha.
Há dois anos, numa noite de profunda angústia, decidiu se abrir
novamente com a mãe. "Foi muito doloroso. Senti raiva pela traição de
confiança dele e culpa por não ter ouvido o que a Joanna tentou me
contar naquela época. Eu trabalhava até doze horas por dia, não tinha
horário fixo. Parei para rever esses valores desde então", diz Teresinha,
48 anos. Atualmente, Joanna namora um estudante de direito, faz
terapia e tratamento com antidepressivos. No esporte, não passa por
uma boa fase. Na Olimpíada de Atenas, ela chegou à final da prova de
400 metros medley, um feito inédito entre nadadoras brasileiras nos 56
anos anteriores. Hoje, ainda não alcançou índice que lhe permita
participar da Olimpíada de Pequim. Desde que Joanna decidiu expor sua
história, Eugênio foi afastado pela direção do colégio onde é treinador de
natação. A VEJA, ele negou as acusações e informou que, nesta semana,
entrará na Justiça com ações criminal e cível contra a mãe de Joanna,
que revelou seu nome à imprensa. O técnico alega que o rompimento das
duas famílias se deu por causa de uma rixa de clubes. Joanna treinava
com ele no Náutico e teria sofrido pressões para voltar ao Português,
onde começou a nadar e era vista como prata da casa. "Ela se ausentou
e não nos falamos mais. Não procurei saber o que tinha acontecido",
disse.

A história contada por Joanna expõe uma das relações mais cruéis que se
podem estabelecer entre dois seres humanos. A pedofilia é um crime no
qual a criança é vítima de uma pessoa maior, mais forte e, pior, de
alguém em quem confia e a quem admira. Atualmente, a Secretaria
Especial dos Direitos Humanos recebe 32 registros diários de crianças e
adolescentes que sofreram violência sexual – quase sempre, dentro de
casa. No caso de profissionais como treinadores esportivos, a confiança
parte dos pais, que os apresentam aos filhos como bons exemplos. Por
isso é tão difícil para a criança acreditar que está sendo vítima de
tamanha barbaridade. "O abusador se aproveita desse vínculo para
garantir o segredo. A criança tem medo e vergonha de contar a outros
adultos o acontecido", diz Renata de Assis, titular da Delegacia da
Criança e do Adolescente Vítima, no Rio de Janeiro.

Por isso as histórias vêm a público com tanto atraso. A bielo-russa Olga
Korbut, uma das maiores ginastas de todos os tempos, cuja marca
registrada era o par de maria-chiquinha no cabelo, chocou o mundo em
1999 ao revelar, mais de duas décadas depois de seu auge, que ela e

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suas companheiras de esporte sofriam abusos freqüentes dos treinadores


soviéticos nos anos 1970. Renald Knysh, seu técnico desde os 8 anos,
seria o mais atroz deles. "Muitas ginastas não eram apenas ‘máquinas
esportivas’, mas também escravas sexuais dos treinadores", disse. Outro
caso de repercussão ocorreu em 2004, quando o australiano Gavin
Hopper, que foi técnico da tenista Monica Seles, foi preso sob acusação
de ter abusado de uma aluna nos anos 1980. Em 1995, Paul Hickson,
técnico da equipe de natação britânica na Olimpíada de Seul, foi
condenado a dezessete anos de prisão por ter abusado sexualmente de
meninas que freqüentaram suas aulas, em diferentes escolas. De lá para
cá, praticamente todas as federações esportivas do Reino Unido criaram
guias de conduta para professores que lidam com crianças.

Por aqui, o crime costuma ter pena branda: a condenação vai de quatro a
dez anos. Mesmo nos casos em que o algoz é punido, no entanto, é a
família da vítima que sofre as piores conseqüências. "A criança é
violentada por um código que não conhece e por alguém que admira. E
os pais têm dificuldade de escutar os filhos e carregam uma enorme
culpa quando descobrem o que se passou", diz a psicanalista
especializada em infância Luli Milman, da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro.

"NINGUÉM SUPERA ISSO"

Satiro Sodrê/CBDA
Você lembra o que passou pela sua
cabeça quando começou a ser
molestada?
Na primeira vez que aconteceu, eu não
tinha a menor noção de sexualidade.
Muitas coisas passaram pela minha
cabeça. Será que isso é normal? Será
que ele tem o direito de fazer isso? Eu
só sabia que era uma coisa que doía,
me machucava e não me fazia bem. Eu
estava sozinha com ele na piscina. Foi
um susto. E doía.

O que ele falava?


Ele me mandava ficar calada e às
vezes me mandava rir. Pedia para eu
guardar segredo. Eu dizia: "Pelo amor
de Deus, pára".

A nadadora Joanna Maranhão:


Você já tinha começado a
silêncio de onze anos rompido agora
desenvolver corpo de adulta?
Só menstruei com quase 16 anos. Eu era uma criança, com corpo de
criança.

Você achava que ele fazia o mesmo com outras meninas?


Não. O relacionamento que a gente tinha era muito próximo. Não
conseguia imaginá-lo fazendo isso com outra criança.

Você sabia que ele estava fazendo uma coisa errada?


Não sabia se era certo ou errado. Comecei a querer distância quando
aconteceu um episódio na casa dele. Foi o pior de todos, prefiro não
entrar em detalhes. Ali eu me acabei de chorar e falei: "Me leve para
casa agora".

Na casa dele?
Foi quando as coisas realmente aconteceram, entendeu? Depois do
treino, ele estava me levando para casa e parou antes na casa dele. A
mulher estava trabalhando e as crianças estavam na escola.

A sua família e a dele eram amigas?


Sim. Éramos muito amigos. Ele, a mulher e os filhos ficavam sempre
com a gente nos fins de semana. Eu ia muito à casa deles. Uma noite,
eu estava dormindo com a filha dele, uns três anos mais nova, e vi
que ele se aproximava. A imagem que me vem é a da sombra dele
parado, me olhando. Nessa noite, eu comecei a chorar, chamei a
mulher dele e disse: "Quero ir para casa". E foi a última vez que fui à
casa dele.

Por quanto tempo você foi molestada?


Uns dois meses. Eu treinava de manhã e estudava à tarde. A equipe
era pequena, por isso ele tinha mais oportunidade. Mudei para a tarde,
mesmo perdendo aulas. Como havia mais gente, ele parou. No fim do
ano, falei para a minha mãe que não estava nadando bem e queria
sair. Para ele, nem falei nada. Depois das férias, troquei de colégio e
de clube. Foi uma tentativa de mudar tudo e começar do zero.

Quando você disse para sua mãe que queria mudar, tentou
explicar o motivo?
Foi a única vez que tentei tocar no assunto. Disse algo assim: "Acho
que ele fez alguma coisa, mas não tenho certeza". Esperava que ela

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entendesse, mas ela falou: "Não, minha filha, você interpretou errado,
é coisa da sua cabeça. Nunca mais pense nisso e vamos tocar a vida
para a frente".

Em 2005, seu rendimento na piscina baixou. Você diz que nesse


mesmo ano o abuso que tinha sofrido voltou à lembrança. As
duas coisas estão relacionadas?
Mais ou menos. As lembranças não voltaram da noite para o dia. Eu
sempre soube o que tinha acontecido comigo, mas não recordava
todos os fatos nem a gravidade deles. Quando lembrava, pensava em
outra coisa. Aí decidi fazer terapia, por vários motivos, mas
principalmente porque não estava conseguindo retomar minha vida.
Comecei a reviver tudo. Aos 9 anos, quando já tinha mudado de clube,
tive pânico de dormir sozinha e passei três anos me tratando com uma
psicóloga, mas nunca falei sobre os abusos. Quando ela me
perguntava por que só queria dormir com meus pais, eu falava que
era medo de filme e de escuro.

O que a levou a revelar tudo para sua mãe em 2006?


Eu estava muito debilitada, com depressão, dormia mais de catorze
horas por dia. Como me senti melhor depois de falar com meu
terapeuta, resolvi contar para minha mãe e para o meu namorado,
com quem estou há três anos. Parece que eu vomitei tudo e me senti
300 quilos mais leve. Você não tem noção da felicidade que sinto
sabendo que minha família e meus amigos compreendem o que
aconteceu.

Sua mãe deve se arrepender muito de não ter tentado entendê-


la desde o começo.
É verdade. Mas ela não tem culpa de nada. Quando eu finalmente
contei tudo, ela me pediu desculpas, como faz até hoje, e chorou
muito. Era como se quisesse me colocar no colo. Meu pai sabe por
alto. Quando falei com minha mãe, ela e meu pai já estavam
separados. Ele deve estar sofrendo calado.

Fazendo terapia e tendo revelado seu drama, você acha que


superou o trauma ou só aprendeu a conviver com ele?
Aprendi a conviver, e essa foi minha maior vitória até agora. É o tipo
de coisa que ninguém supera. Até hoje, não consigo falar tudo. Sinto
alguma coisa muito ruim quando começo a verbalizar. Não sei nem se
é dor. É um aperto que dá.

Sandra Brasil

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