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Jean Pierre Vernant

As Origens do Pensamento Grego

Trad. Isis Borges B. da Fonseca

Rio de Janeiro

Difel

2002
INTRODUÇÃO

Com a decifração do linear B micênico, a data dos pri-


meiros textos gregos de que dispomos recuou meio milê-
nio. Este a p r o f u n d a m e n t o da p e r s p e c t i v a c r o n o l ó g i c a
modifica todo o quadro em que se coloca o problema das
origens do p e n s a m e n t o helénico. O mais antigo m u n d o
grego, tal c o m o n o - l o e v o c a m as p l a q u e t a s m i c ê n i c a s ,
aparenta-se em muitos de seus traços aos reinos do Oriente
Próximo que lhe são contemporâneos. Um mesmo tipo de
organização social, um gênero de vida análogo, uma huma-
n i d a d e vizinha se revelam n o s e s c r i t o s em linear B de
Cnossos, Pilos ou Micenas, e nos antigos documentos em
cuneiforme encontrados em Ugarit, em Alalakh, em Mari,
ou na Hattusa hitita. Em compensação, quando se aborda
a leitura de Homero, o quadro muda: é uma outra socieda-
de, um mundo humano já diferente que se descobrem na
Ilíada, c o m o se d e s d e a idade h o m é r i c a os gregos n ã o
pudessem compreender exatamente o aspecto da civiliza-
ção micênica à qual se ligavam e que por meio dos aedos
criam fazer ressurgir do passado. Este corte na história do
homem grego devemos tentar compreendê-lo, situá-lo exa-
tamente. A religião e a mitologia da Grécia clássica arrai-
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Introdução

g a m - s e m u i t o d i r e t a m e n t e , c o m o M. P. Nilsson em particu- c o m o Oriente, q u a n d o r e d e s c o b r e m , c o m as civilizações


lar o m o s t r o u , no p a s s a d o micênico. 1 M a s em outros domí- q u e se mantiveram no local, alguns aspectos de seu p r ó p r i o
n i o s a r u p t u r a a p a r e c e p r o f u n d a . Q u a n d o no século XII passado na Idade do bronze, n ã o t o m a m , c o m o o t i n h a m
antes de nossa era o p o d e r micênico desaba sob o í m p e t o feito os micênios. o r u m o da imitação e da assimilação. Em
das tribos dóricas q u e irrompem na Grécia continental, n ã o plena renovação orientalizante, o Helenismo afirma-se (
é u m a simples dinastia a sucumbir no incêndio q u e assola c o m o tal em face da Ásia, c o m o se, pelo c o n t a t o r e a t a d o
a l t e r n a d a m e n t e Pilos e Micenas, é um tipo de realeza q u e se com o Oriente, t o m a s s e melhor consciência de si próprio. A
e n c o n t r a para s e m p r e destruída, toda u m a f o r m a de vida Grécia se reconhece n u m a certa f o r m a de vida social, n u m
social, centralizada em t o r n o do palácio, q u e é definitiva- tipo de reflexão q u e definem a seus p r ó p r i o s olhos sua ori-
m e n t e abolida, um personagem, o Rei divino, q u e desapare- ginalidade, sua superioridade sobre o m u n d o b á r b a r o : no
ce do h o r i z o n t e grego. A d e r r o c a d a do sistema m i c ê n i c o lugar do Rei cuja onipotência se exerce sem controle, s e m
ultrapassa largamente, em suas conseqüências, o d o m í n i o limite, no recesso de seu palácio, a vida política grega pre-
da h i s t ó r i a política e social. Ela r e p e r c u t e no p r ó p r i o tende ser o objeto de um debate público, em plena luz do
h o m e m grego; modifica seu universo espiritual, t r a n s f o r m a sol, na_Ágora, da parte de cidadãos definidos c o m o iguais e
algumas de suas atitudes psicológicas. O desaparecimento de quem o Estado é a questão c o m u m ; no lugar das antigas
d o Rei p ô d e desde e n t ã o preparar, a o t e r m o d o longo, d o cosmogonias associadas a rituais reais e a mitos de sobera-
s o m b r i o p e r í o d o de i s o l a m e n t o e de r e c o n s i d e r a ç ã o d o s nia, um p e n s a m e n t o n o v o procura estabelecer a o r d e m do
fatos q u e se c h a m a a Idade Média grega, u m a dupla e soli- m u n d o em relações de simetria, de equilíbrio, de igualdade
dária inovação: a instituição da Cidade, o nascimento de um e n t r e os diversos elementos que c o m p õ e m o cosmos.
p e n s a m e n t o racional. De fato, q u a n d o , pelos fins da é p o c a Se queremos proceder ao registro de nascimento
geométrica (900-750), os gregos prosseguem, na E u r o p a e dessa Razão grega, seguir a via por o n d e ela p ô d e livrar-se
na Jônia, as relações interrompidas d u r a n t e vários séculos de u m a m e n t a l i d a d e religiosa, indicar o q u e ela d e v e ao
m i t o e c o m o o ultrapassou, d e v e m o s c o m p a r a r , c o n f r o n t a r
1
Martin P. Nilsson, The Minoan-mycenaean religion and iís survi- c o m o background micênico essa viragem do século VI1^ ,v
val in Greek religion, 2a ed., Lund. 1950; cf. também: Charles a o s é c u l o VII e m q u e a G r é c i a t o m a u m n o v o r u m o e
Picard, Les religions préhellóniques, Paris, 1948, e La formation du
polythéisme hellénique et les récents problèmes relatifs au linéaire e x p l o r a a s vias q u e lhe são p r ó p r i a s : é p o c a d e m u t a ç ã o
B, in Eléments orientaux dans la religion greccjue ancienne, Paris, decisiva que, no m o m e n t o m e s m o em q u e triunfa o estilo
1960, pp. 163-177; G. Pugliese Carratelli, "Riflessi di culti micenei orientalizante, lança os f u n d a m e n t o s do regime da Pólis e
nelle tabelle di Cnosso a Pilo", in Síudi in onore de U. E. Paoli,
assegura por essa laicização do p e n s a m e n t o político o
Florença, 1955, pp. 1-16; L. A. Stella, "La religione greca nei testi
micenei". in Numen, 5. 1958, pp. 18-57. a d v e n t o da filosofia.
CAPÍTULO I

O QUADRO HISTÓRICO

No começo do II milênio, o Mediterrâneo não marca


ainda em suas duas margens uma separação entre o
Oriente e o Ocidente. O mundo egeu e a península grega se
ligam sem descontinuidade, como povoação e c o m o cultu-
ra, de um lado com o planalto anatólio, pela série das
Cíclades e das Espórades, e do outro, por Rodes, pela Ci-
licia, por Chipre e costa norte da Síria, com a Mesopotâmia
e o Irã. Quando Creta sai do Cicládico. em cujo decurso
dominam as relações com a Anatólia, e quando constrói em
Festos, Mália e Cnossos sua primeira civilização palaciana
( 2 0 0 0 - 1 7 0 0 ) , permanece orientada para os grandes reinos
do Oriente Próximo. Entre os palácios cretenses e aqueles
que escavações recentes trouxeram a lume em Alalakh, na
grande curva do Oronte, e em Mari, na estrada de carava-
nas que liga a Mesopotâmia ao mar, as semelhanças parece-
ram tão surpreendentes que se pôde ver aí a obra de uma
mesma escola de arquitetos, de pintores, de afresquistas. 1
Pela costa síria os cretenses entravam igualmente em con-

1
Cf. Leonard Wooley, A forgotten Kingdom, Londres, 1953, e
André Parrot, Mission archéologique de Mari, II, Paris, 1958.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO O quadro histórico

tato com o Egito do Novo Império cuja influência, por não fornos fechados, que se espalha na Grécia continental, nas
ser sobre eles tão decisiva como se podia supô-lo na época ilhas lônias, na Tessália e Calcídica.
de Evans, é entretanto bem atestada. Um outro traço da civilização sublinha as afinidades
Entre 2 0 0 0 e 1900 a.C. uma população nova irrom- dos dois povos nas duas margens do Mediterrâneo. É com
pe na Grécia continental. Suas casas, suas sepulturas, seus os homens da Tróia VI que o cavalo surge na Tróade. "Rica
machados de guerra, suas armas de bronze, seus utensí- em cavalos" — tal é ainda, no estilo formular que Homero
lios, sua cerâmica — aquela cerâmica cinzenta miniana tão tira de uma tradição oral muito antiga, o epíteto que lem-
característica — são tantos traços que marcam a ruptura bra a opulência do país dardânio. A fama dos cavalos de
com os homens e a civilização da idade anterior, o Helá- Tróia, assim como a de seus tecidos, não foi sem dúvida
dico antigo. Os invasores, os mínios, formam a vanguarda estranha ao interesse que os aqueus tinham por essa região
das tribos que, por vagas sucessivas, virão fixar-se na antes mesmo da expedição guerreira que. destruindo a
Hélade, instalar-se-âo nas ilhas, colonizarão o litoral da cidade de Príamo (Tróia VII), serviu de ponto de partida
Ásia Menor, marcharão para o Mediterrâneo ocidental e para a lenda épica. Como os mínios da Tróade, os da Gré-
para o Mar Negro, para constituir o mundo grego tal como cia conheciam o cavalo: deviam ter praticado sua domesti-
o conhecemos na idade histórica. Quer tenham descido cação nas estepes em que, antes de sua vinda à Grécia,
dos Bálcãs, quer tenham vindo das planícies da Rússia do tinham permanecido. A pré-história do deus Posidão mos-
Sul, esses antepassados do homem grego pertencem a tra que. antes de reinar no mar, um Posidão eqüino,
povos indo-europeus que. já diferençados pela língua, Hippos ou Hippios, associava, no espírito dos primeiros
falam um dialeto grego arcaico. Seu aparecimento nas helenos como entre outros povos indo-europeus, o tema
margens do Mediterrâneo não constitui um fenômeno iso- do cavalo a todo um complexo mítico: cavalo — elemento
lado. Uma invasão paralela manifesta-se quase na mesma úmido; cavalo — águas subterrâneas, mundo infernal,
época, do outro lado do mar. com a chegada dos hititas fecundidade; cavalo — vento, trovoada, nuvem, tempesta-
indo-europeus na Ásia Menor e sua expansão pelo planal- de... 2 O lugar, a importância, o prestígio do cavalo numa
to anatólio. No litoral, na Tróade, a continuidade cultural sociedade dependem numa larga medida de sua utilização
e étnica que se mantivera por quase um milênio da Tróia I para fins militares. Os primeiros documentos gregos que
à Tróia V (começo da Tróia I: entre 3000 e 2600) é repen- nos esclarecem a esse respeito datam do século XVI: em
tinamente interrompida. O povo que edifica a Tróia VI esteias funerárias descobertas no círculo dos túmulos em
( 1 9 0 0 ) , cidade principesca mais rica e poderosa que
nunca, é parente próximo dos mínios da Grécia. Fabrica a 2
Cf. F. Schachermeyr. Poseidon und die Entstehung des
mesma cerâmica cinzenta, modelada no torno e cozida em
Griechischen Gütterglaubens. Berna, 1948.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO O quadro histórico

fossas de Micenas (1580-1500), em cenas de batalha ou de hititas e os que eles chamam os achaiwoi (os aqueus ou
caça figuram um guerreiro de pé em seu carro puxado por micênios), as preocupações de ordem eqüestre desempe-
cavalos a galope. Nessa época, os mínios, estreitamente nharão seu papel. Os antigos documentos reais de Hattu-
misturados à população local de origem asiática, estão há sa, entre outras menções da Ahhiyawa (a Acaia), citam a
muito tempo estabelecidos na Grécia continental, onde a permanência de príncipes aqueus, entre os quais Tawa-
vida urbana surgiu ao pé de fortalezas, residências de che- galawas (Eteokles?), vindos à corte para aí se aperfeiçoar
fes. Eles entraram em contato com a Creta minóica em na condução do carro. Deve-se aproximar do nome do rei
pleno desenvolvimento após a renovação que veio depois hitita Mursilis o do escudeiro de Enomau, Murtilo, cujo
da reconstrução dos palácios, destruídos uma primeira vez papel se conhece na lenda de Pélope, antepassado da di-
por 1700. Creta lhes revelou um modo de vida e de pensa- nastia dos Atridas, reis de Micenas?
mento inteiramente novo para eles. Já se esboçou esta cre-
tização progressiva do mundo micênico que resultará, Enomau reina em Pisa, na Élida. Tem uma filha,
após 1450, numa civilização palaciana comum na ilha e na Hipodâmia. Quem quer esposá-la deve ganhá-la de seu
Grécia continental. Mas o carro de guerra, carro leve pai, vencendo-o na corrida de carros. O fracasso significa-
puxado por dois cavalos, não poderia ser uma contribui- rá a morte. Muitos pretendentes se apresentaram. Todos
ção cretense. Na ilha, o cavalo não aparece antes do foram vencidos pelo rei, cujos cavalos são indómitos e
Minóico recente I (1580-1450). Se houve empréstimo, os suas cabeças decoram os muros do palácio. Com o auxílio
minóicos seriam de preferência os devedores neste domí- de Hipodâmia, Pélope compra a cumplicidade do escudei-
nio. Em compensação, o uso do carro revela ainda as ana- ro do rei, Murtilo: em plena corrida, o carro de Enomau
logias entre o mundo micênico ou aqueu a constituir-se e quebra, partindo o eixo por sabotagem. Pélope triunfa
o reino dos hititas. que adota pelo século XVI essa tática assim na prova do carro que lhe traz na mesma vitória a
de combate, tomando-a de seus vizinhos de este. os hurri- filha domadora de cavalos e a soberania real. Quanto a
tas de Mitanni, população não indo-européia, mas que Murtilo, escudeiro muito hábil e muito empreendedor,
reconhece a suserania de uma dinastia indo-iraniana. Aos Pélope livrar-se-á dele no devido momento. Os deuses
povos familiarizados com a criação do cavalo, o uso do irão converte-lo na constelação do Auriga do céu noturno.
carro deve ter apresentado novos problemas de seleção e Essa narrativa de habilitação à realeza coloca a prova
de adestramento. Encontra-se uma repercussão disso no do carro sob o patrocínio de Posidão, o velho deus-
tratado de hipologia redigido por um certo Kikkuli, do cavalo, que aparece, nessa época da civilização micênica,
país de Mitanni, e que foi traduzido em hitita. Nas relações não mais em seu aspecto pastoral, mas como um mestre
que se estabeleceram no começo do século XVI entre os do carro, guerreiro e aristocrático. É, com efeito, o altar

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AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO O quadro histórico

de Posidão em Corinto (um Posidão Hippios e Damaios) Tal deve ter sido com efeito a força militar do reino
que, escolhido para marcar o termo do percurso, consa- micênico que. desde 1450 — sabemo-lo desde a decifração
gra o vencedor na sua chegada. Por outro lado, Pélope é do linear B —, pôde dominar Creta, estabelecer-se sobera-
estreitamente associado, em sua lenda, a Posidão. namente no palácio de Cnossos e ocupá-lo até sua destrui-
Quando o jovem renasce, após a prova de iniciação que o ção final, no incêndio de 1400, ateado talvez por uma
faz morrer despedaçado no caldeirão do pai, é logo rap- revolta indígena. A expansão micênica, que prossegue do
tado por Posidão. O deus faz dele seu "pajem", conforme século XIV ao XII, leva os aqueus a tomarem, no Mediter-
uma prática cujo arcaísmo se manteve nas sociedades râneo oriental, o lugar dos cretenses que eles substituem
guerreiras de Creta e que Estrabão nos faz conhecer mais ou menos por toda parte e com certos desníveis no
3
segundo Éforo: o rapto obedece a um protocolo rigoro- tempo, conforme as regiões. Desde a aurora do séc. XIV,
so, com presentes oferecidos pelo raptor de cuja vida o Rodes é por eles colonizada. Talvez seja nessa ilha, ao
adolescente vai partilhar, durante um retiro de dois abrigo dos ataques do continente, que se deve situar o
meses. Na sua libertação, o rapaz recebe uma porção de reino de Ahhiyawa, cujo monarca é tratado pelo rei hitita
presentes regulamentares: sua farda de guerra, um boi, com a consideração devida a um igual. De Rodes o rei da
uma taça. A Pélope oferece Posidão também o presente Acaia podia controlar os poucos pontos da costa anatólica
que simboliza os poderes adquiridos pelo jovem na con- em que seus homens se tinham fixado e fundado colônias.
vivência com o deus: um carro. A presença dos aqueus é atestada em Mileto (a Milawunda
ou Milawata hitita), em Colofao, em Claros, mais ao norte
Exigindo uma aprendizagem difícil, a técnica do carro em Lesbos, na Tróade sobretudo com a qual as relações
deve ter reforçado a especialização da atividade guerreira, foram estreitas, enfim sobre a costa meridional, na Cilicia
traço característico da organização social e da mentalidade e Panfília. É no começo do século XIV igualmente que os
dos povos indo-europeus. Por outro lado. a necessidade de micênios se instalam à força em Chipre e constroem em
dispor de uma reserva numerosa de carros para concentrá- Enkomi uma fortaleza semelhante às da Argólida. De lá
los no campo de batalha supõe um Estado centralizado, vão dar na costa da Síria, caminho de passagem para a Me-
suficientemente extenso e poderoso, em que os homens dos sopotâmia e para o Egito. Em Ugarit. que faz comércio de
carros, quaisquer que sejam seus privilégios, são submeti- cobre com Chipre, uma colônia cretense tinha, no século
dos a uma autoridade única. XV, determinado a cultura e até a arquitetura da cidade.
Cede o lugar, no século seguinte, a uma povoação micêni-

5
ca assaz numerosa para ocupar um bairro da cidade. Na
Estrabão. X, 483c; cf. Louis Gernet, Droit et prédroit en Grècc
ancienne. L'Année Sociologique, 1951. pp. 389 e ss. mesma época, Alalakh, sobre o Oronte, porta do Eufrates
AS O R I G E N S DO PENSAMENTO GREGO O quadro histórico

e da Mesopotâmia, torna-se um centro aqueu importante. BIBLIOGRAFIA


Mais ao sul, aqueus penetram até a Fenícia, Biblos e
Palestina. Em toda essa região, elabora-se uma civilização V. Gordon Childe, The dawn ofEuropean civilization, 6a ed.,
comum cipro-micênica, em que os elementos minóicos, Londres, 1957; H. L. Lorimer, Homer and the momnnents,
micênicos e asiáticos estão intimamente fundidos, e que Londres, 1950; A. Severyns. Crèce et Proche-Orient avant Homòre,
Bruxelas, 1960; Sterling Dow. The Greeks in the bronze age. in
dispõe de uma escrita derivada, como o silabário micêni-
Rapports du XIe Congrès iftiernational des sciences historiques, 2,
co, do linear A. O Egito, que tinha mantido, especialmen-
Aníiquité, Upsala. 1960, pp. 1-34; Denys L. Page, History and
te no curso do século XV, um comércio contínuo com os homeric Iliad, Berkeley and Los Angeles, 1959; TheAegean and the
cretenses, abre-se aos micênios e os acolhe livremente Near East, Studies presented to Hetty Goldman, Nova York. 1956.
entre 1400 e 1340. Lá ainda, os keftiou, os cretenses, são
pouco a pouco eliminados em benefício de seus concor-
rentes; Creta deixa de desempenhar, c o m o o fazia no
período anterior, um papel de intermediário entre o Egito
e o continente grego. Talvez uma colônia micênica exista
em El-Amama quando Amenhotep IV, conhecido com o
nome de Akhenaton, fixa-se ali entre 1380 e 1350, aban-
donando a antiga capital de Tebas.
Assim, em todas as regiões em que os conduziu seu
espírito de aventura, os micênios aparecem estreitamente
associados às grandes civilizações do Mediterrâneo orien-
tal, integrados neste mundo do Próximo-Oriente que. ape-
sar de sua diversidade, constitui um conjunto, pela ampli-
tude de seus contatos, intercâmbios e comunicações.
CAPÍTULO II

A PvEALEZA M I C Ê N I C A

A decifração das plaquetas em linear B resolveu cer-


tas questões propostas pela arqueologia e levantou novas.
Aos problemas ordinários de interpretação acrescentam-se
dificuldades de leitura, pois o linear B, derivado de uma
escrita silábica que não foi feita para notar o grego, expri-
me muito imperfeitamente os sons do dialeto falado pelos
micênios. Por outro lado, o número de nossos documentos
é ainda reduzido: não se descobriram verdadeiros docu-
mentos antigos, mas sim alguns inventários anuais redigi-
dos em tijolos crus que teriam sem dúvida sido apagados
para servir de novo, se o incêndio dos palácios não os tives-
se conservado pelo cozimento. Um único exemplo bastará
para mostrar as lacunas de nossa informação e as precau-
ções necessárias. A palavra te-re-ta, que vem freqüente-
mente nos textos, não recebeu menos de quatro interpreta-
ções: sacerdote, homem do serviço feudal: barão, homem
do ciamos sujeito a prestações, servidor. Não se poderia,
pois, pretender estabelecer o quadro da organização social
micênica. Todavia, as interpretações, mesmo as mais opos-
tas, concordam em alguns pontos que desejaríamos desta-
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A realeza micênica

car e que podem ser considerados, no estado atual de nos- Não se compreende que haja lugar, numa economia
sas fontes, como suficientemente estabelecidos. desse gênero, para um comércio privado. Se existem ter-
mos que significam comprar, ou vender, não se encontra
A vida social aparece centralizada em torno do palá- testemunho de uma forma de pagamento em ouro ou em
cio cujo papel é ao mesmo tempo religioso, político, mili- prata, nem de uma equivalência estabelecida entre merca-
tar, administrativo e econômico. Neste sistema de econo- dorias e metais preciosos. Parece que a administração real
mia que se denominou palaciana, o rei concentra e unifica regulamentava a distribuição e o intercâmbio, assim como
em sua pessoa todos os elementos do poder, todos os a produção dos bens. Por intermédio do palácio, que
aspectos da soberania. Por intermédio de escribas, que comanda no centro da rede o duplo circuito das prestações
formam uma classe profissional fixada na tradição, graças e das gratificações, circulam e são trocados entre si os pro-
a uma hierarquia complexa de dignitários do palácio e de dutos, os trabalhos, os serviços, igualmente codificados e
inspetores reais, ele controla e regulamenta minuciosa- contabilizados, ligundo ao mesmo tempo os diversos ele-
mente todos os setores da vida econômica, todos os domí- mentos do país.
nios da atividade social. Realeza burocrática, talvez se possa dizer. O termo,
que tem ressonâncias excessivamente modernas, sublinha
Os escribas contabilizam em seus arquivos o que um dos aspectos do sistema, pois sua lógica o conduz a um
concerne ao gado e à agricultura; à tenência das terras, controle cada vez mais rigoroso, cada vez mais amplo, che-
avaliadas em medidas de cereais (ou taxas de censo, ou gando a notar pormenores que nos parecem insignificantes.
rações de sementes); aos diversos ofícios especializados Ele impõe a comparação com os grandes Estados fluviais do
com os subsídios a fornecer em matérias-primas e as Oriente Próximo cuja organização parece responder, pelo
encomendas de produtos elaborados; à mão-de-obra, dis- menos em parte, à necessidade de coordenar numa vasta
ponível ou ocupada — os escravos, homens, mulheres e escala os trabalhos de secagem, irrigação e conservação dos
crianças, quer os dos particulares, quer os do rei; às con- canais, indispensáveis à vida agrícola. Os reinos micênicos
tribuições de toda sorte impostas pelo Palácio aos indiví- tiveram que resolver problemas análogos? A secagem do
duos e às coletividades, os bens já entregues e os ainda lago Copais foi efetivamente empreendida na época micêni-
por receber; às levas de homens a serem fornecidas por ca. Mas, e as planícies da Argólida, da Messênia e da Atiça?
certas aldeias para equipar os navios reais de remadores; Não se compreende que necessidades técnicas de preparo
à composição, ao comando, ao movimento das unidades do solo segundo um plano de conjunto tenham podido sus-
militares; aos sacrifícios aos deuses, às taxas previstas citar ou favorecer na Grécia uma centralização administra-
pelas oferendas etc. tiva desenvolvida. A economia rural da Grécia antiga apare-
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A realeza micênica

ce dispersa no âmbito da aldeia: a coordenação dos traba- absolutas orientais, apoiando-se menos numa classe de
lhos não vai muito além do grupo dos vizinhos. nobres, cujos serviços militares criam as prerrogativas polí-
Não é somente no domínio da agricultura que o ticas, do que numa hierarquia de administradores que
mundo micênico se distingue das civilizações fluviais do dependem diretamente do rei.1
Oriente Próximo. Reconhecendo o papel do Palácio como O exemplo hitita foi invocado pelos eruditos que
eixo da vida social, M. E. Palmer indicou bem os traços que opunham à interpretação "burocrática" da realeza micêni-
ligam a sociedade micênica ao mundo indo-europeu. A ana- ca um esquema que dava lugar a traços "feudais". De fato,
logia é sobretudo surpreendente com os hititas que. as duas expressões parecem igualmente inadequadas e, em
orientalizando-se, conservaram certas instituições caracte- sua própria oposição, anacrônicas. Em todos os graus da
rísticas ligadas à sua organização militar. Em torno do rei. a administração palaciana é com efeito um vínculo pessoal
grande família hitita reúne os personagens mais próximos de submissão que une ao rei os diversos dignitários do
do soberano. São dignitários do Palácio cujos títulos desta- Palácio: não são funcionários a serviço do Estado, mas ser-
cam as altas funções administrativas, mas que exercem tam- vidores do rei encarregados de manifestar, em toda parte
bém comandos militares. Com os combatentes sob suas onde sua confiança os colocou, este poder absoluto de
ordens, formam o pankus, assembléia que representa a comando que se encarna no monarca. Portanto, verifica-
comunidade hitita, isto é, que agrupa o conjunto dos guer- se, no quadro da economia palaciana, ao lado de uma divi-
reiros, excluindo-se o resto da população, segundo o esque- são freqüentemente muito grande das tarefas, de uma
ma que opõe. nas sociedades indo-européias, o guerreiro ao especialização de funções com uma série de fiscais e che-
homem da aldeia, pastor e agricultor. É nessa nobreza guer- fes de fiscalização, uma flutuação nas atribuições adminis-
reira, constituída em classe separada e, pelo menos no que trativas que se superpõem umas às outras, exercendo cada
concerne aos mais importantes, alimentada nos seus feudos representante do rei. por delegação e em seu nível, uma
por aldeões ligados à terra, que se recrutam os homens dos autoridade que em princípio cobre sem restrição todo o
carros, força principal do exército hitita. A instituição do campo da vida social.
pankus pôde dispor na origem de poderes amplos: a monar- O problema não é. pois, opor o conceito de realeza
quia teria começado por ser eletiva; em seguida, para evitar burocrática ao de monarquia feudal, mas sim marcar, por
as crises de sucessão, teria tirado da assembléia dos guerrei- trás dos elementos comuns ao conjunto das sociedades de
ros a ratificação do novo rei; o pankus, de que se trata pela economia palaciana, os traços que definem mais precisa-
última vez numa proclamação do rei Telepino do fim do mente o caso micênico e que talvez expliquem por que este
século XVI, teria finalmente caído em desuso; a realeza hiti-
ta ter-se-ia aproximado assim do modelo das monarquias 1
Cf. O. R. Gurney. The Hitíites, Londres. 1952.

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AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A realeza micênica

tipo de soberania não sobreviveu na Grécia à queda das exprimem na riqueza um aspecto propriamente régio.
dinastias dos aqueus. Formam a matéria de um comércio abundante que ultra-
Nessa perspectiva, a aproximação com os hititas passa amplamente as fronteiras do reino. Objetos de dádi-
mostra-se frutuosa, pois dá o maior relevo às diferenças vas e de retribuições selam alianças matrimoniais e políti-
que separam o mundo micênico da civilização palaciana cas, criam obrigações de serviço, recompensam vassalos,
de Creta que lhe serviu de modelo. O contraste entre essas estabelecem até em país longínquo laços de hospitalidade;
duas realezas grava-se na arquitetura de seus palácios. 2 Os são também motivo de competição, de conflito: como as
de Creta, dédalos de compartimentos dispostos em apa- pessoas os recebem como presentes, ganham-nos de armas
rente desordem em torno de um pátio central, são cons- na mão; é para apoderar-se do tesouro que se organiza
truídos no mesmo nível que a região circunvizinha sobre a uma expedição guerreira e que se destrói uma cidade.
qual se abrem sem defesa por amplas esti adas que vão ter Prestam-se enfim, mais que outras formas de riqueza, a
ao palácio. O solar micênico, tendo no centro o mégaron e uma apropriação individual que poderá perpetuar-se além
a sala do trono, é uma fortaleza cercada de muros, um da morte: colocados ao lado do cadáver, como "pertences"
abrigo de chefes que domina e fiscaliza a região plana que do defunto, segui-lo-ão a seu túmulo. 3
se estende a seus pés. Construída para sustentar um blo- O testemunho das plaquetas permite-nos precisar
queio, essa cidadela abriga, ao lado da morada principesca esse quadro da corte e do palácio micênicos. No cume da
e de suas dependências, as casas dos familiares do rei, che- organização social.jjjei usa o título de wa-na-ka, ánax.
fes militares e dignitários do palácio. Seu papel militar Sua autoridade parece exercer-se em todos os níveis da
parece sobretudo defensivo: preserva o tesouro real em vida militar: é o palácio que dirige as encomendas de
que se acumulam, ao lado das reservas normalmente con- armas, o equipamento dos carros, os recrutamentos de
troladas, postas em estoque, repartidas pelo palácio no homens, a formação, a composição, o movimento das uni-
quadro da economia do país. bens preciosos de um tipo dades. Mas a competência do rei não fica confinada ao
diferente. Trata-se de produtos de uma indústria de luxo, domínio da guerra mais do que ao da economia. O ánax é
jóias, taças, tripés, caldeirões, peças de ourivesaria, armas responsável também pela vida religiosa; ordena com preci-
trabalhadas, barras de metal, tapetes, tecidos bordados. são o seu calendário, vela pela observância do ritual, pela
Símbolos de poder, instrumentos de prestígio pessoal. celebração das festas em honra dos diversos deuses, deter-

2
J. D. S. Pendlcbury. A handbook to the Palace of Mi nos, Knossos 5
Cf. a oposição dos Ktémuta, bens adquiridos pelo indivíduo e que
with its dependeu cies. Londres. 1954; George E. Mylonas, Ancient ficam à sua inteira disposição — especialmente sua parte de pilha-
Mycenae, Londres, 1957. gem —, e dos patroa, bens ligados ao grupo familiar, inalienáveis.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A realeza micênica

mina os sacrifícios, as oblações vegetais, as taxas das ofe- ta, kTtéxai (cf. h o m é r i c o hetairoi), os c o m p a n h e i r o s , são,
rendas exigíveis de cada u m . s e g u n d o sua classe. Pode-se c o m o a g r a n d e família hitita, dignitários do palácio, for-
p e n s a r q u e se o p o d e r real se exerce assim em t o d o s os m a n d o o séquito do rei, ao m e s m o t e m p o q u e c h e f e s colo-
d o m í n i o s é q u e o s o b e r a n o , c o m o tal, encontra-se especial- cados à testa de uma okha, de u m a u n i d a d e militar, ou ofi-
m e n t e em relação c o m o m u n d o religioso, associado a u m a ciais q u e asseguram a ligação da corte c o m os c o m a n d o s
c l a s s e s a c e r d o t a l q u e s u r g e n u m e r o s a e i n f l u e n t e . 4 Em locais. Talvez sejam igualmente da alçada do laós os te-re-
apoio dessa hipótese, notar-se-á q u e na Grécia a lembran- ta, telestai, no caso de admitir-se com Palmer q u e se trata
ça de u m a f u n ç ã o religiosa da realeza se p e r p e t u o u até no dos h o m e n s do serviço feudal; de barões d o s f e u d o s . Três
q u a d r o d a C i d a d e e q u e sobreviveu, s o b u m a f o r m a d e deles seriam, segundo u m a lâmina de Pilos, p e r s o n a g e n s
m i t o , a l e m b r a n ç a d o Rei D i v i n o , m á g i c o , s e n h o r d o assaz i m p o r t a n t e s para possuir um témenos, privilégio do
t e m p o , d i s t r i b u i d o r da f e r t i l i d a d e . À l e n d a c r e t e n s e de wa-na-ka e do la-wa-ge-tas. 6 O témenos designa na epo-
Minos, q u e se submetia de nove em nove anos, na caverna péia — em q u e foi d e n t r e t o d o s os t e r m o s do vocabulário
do Ida, à prova q u e deve renovar, por um c o n t a t o direto m i c ê n i c o relativo aos bens de raiz o único q u e se m a n t e v e
c o m Z e u s , seu p o d e r r e a l , 5 c o r r e s p o n d e e m E s p a r t a à — u m a terra, arável ou de vinhas, oferecida com os
ordália q u e de nove em n o v e a n o s os éforos i m p õ e m a seus aldeões q u e a guarnecem ao rei. aos deuses, ou a um gran-
dois reis, e s c r u t a n d o o céu nas p r o f u n d e z a s da noite, para de p e r s o n a g e m em r e c o m p e n s a de seus serviços excepcio-
aí ler se os soberanos não teriam c o m e t i d o algum e r r o q u e nais ou de suas f a ç a n h a s guerreiras.
os desqualificasse para o exercício da f u n ç ã o real. Pense-se A t e n ê n c i a d o solo a p r e s e n t a - s e c o m o u m s i s t e m a
t a m b é m no rei hitita q u e a b a n d o n a em plena c a m p a n h a a c o m p l e x o q u e a a m b i g ü i d a d e de muitas expressões t o m a
direção de seus exércitos se suas obrigações religiosas exi-
a i n d a m a i s o b s c u r o . 7 A plena posse de u m a t e r r a , c o m o
gem sua volta à capital para aí realizar, na data d e t e r m i n a -
seu u s u f r u t o , parece ter feito surgir, em c o m p e n s a ç ã o , ser-
da, os ritos de q u e tem o encargo.
Ao lado do wa-sa-ka, o segundo p e r s o n a g e m do rei-
no, o la-wa-ge-tas representa o chefe do laós, p r o p r i a m e n - 6 A interpretação dessa plaqueta é discutida. Outros documentos
parecem ao contrário associar estreitamente os te-re-ta ao damos.
te o p o v o em a r m a s , o g r u p o d o s g u e r r e i r o s . V e s t i n d o
Tratar-se-ia então de aldeões sujeitos a prestações.
c o m o u n i f o r m e u m m a n t o d e u m modelo especial, o s e-qe- 7
A complexidade do regime territorial revela-se no vocabulário,
muito diferenciado, em que muitos termos permanecem obscuros.
Discute-se o sentido de palavras como Ka-ma, ko-to-no-o-ko, wo-wo,
4
Cf. M. Lejeune, Prêtres et prêtresscs dans les documents myce- o-na-to. Este último termo designa uma locação, sem que se possa
• niens, in Hommage ò Georges Dumézil, Latomus. 45, pp. 129-139. precisar sob que formas era realizada. Pode-se pensar, por outro
^ Odisséia, XIX, 179. lado. que, no que concerne à terra comunal do damos, as plaquetas

30
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A realeza micênica

viços e prestações múltiplas. Freqüentemente, é difícil indianos que dão prova de uma estrutura análoga. Ao vai-

decidir se um termo tem uma significação puramente téc- çya, o agricultor (viç, cf. latim vicus, grego olxoç, o grupo

nica (terra inculta, terra arroteada, terra de pastagem de casas), isto é, ao homem da aldeia, opõe-se o ksatrya, o
guerreiro (de ksatram: poder, posse), o homem que tem a
transformada em terra arável, terra de maior ou menor
posse individual da terra, c o m o o barão micênico é o
dimensão) ou se ele marca um estatuto social. Entretanto,
homem da ki-ti-me-na ko-to-na, da terra adquirida por
uma oposição se delineia claramente entre dois tipos de
oposição à terra comum da aldeia. As duas formas diferen-
tenência, designando as duas formas diferentes que podem
tes de tenência do solo recobririam então, na sociedade
revestir uma Ko-to-na. um lote. uma porção de terra. Os
micênica, uma polaridade mais fundamental: em face do
ki-ti-me-na ko-to-na são terras privadas com proprietários,
palácio, da corte, de todos os que deles dependem seja
contrariamente aos ke-ke-me-na ko-to-na, ligadas ao
diretamente, seja pela tenência de seu feudo, entrevê-se
damos, terras comuns dos demos da aldeia, propriedade
um mundo rural organizado em aldeias com sua vida pró-
coletiva do grupo rural, cultivadas segundo o sistema do
pria. Estes demos da aldeia dispõem de uma parte das ter-
open-field e que talvez sejam objeto de uma redistribuição
ras nas quais eles se fixam; regularizam, de conformidade
periódica. Nesse ponto ainda, M. E. Palmer pôde fazer
com as tradições e as hierarquias locais, os problemas que
uma aproximação sugestiva com o código hitita que distin-
põem, em seu nível, os trabalhos agrícolas, a atividade
gue paralelamente duas maneiras de tenência da terra. A
pastoril, as relações de vizinhança. É nesse quadro provin-
do homem do serviço feudal, guerreiro, depende direta-
cial que aparece, contra toda expectativa, o personagem
mente do palácio e volta para este quando o serviço não é
que tem o título que teríamos normalmente traduzido por
mais certo. Em compensação, os "homens da ferramenta",
rei. o pa-si-reu, o basileus homérico. Precisamente, ele não
isto é, os artesãos, dispõem de uma terra dita "de aldeia",
é o Rei em seu palácio, mas um simples senhor, dono de
que a coletividade rural lhes concede por um tempo e que
um domínio rural e vassalo do ánax. Esse vínculo de vas-
recupera, quando partem. 8 Evoquem-se também os fatos
salidade. num sistema de economia em que tudo é conta-
bilizado, reveste em suma a forma de uma responsabilida-
não mencionam senão as alienações que dela se fizeram, a título tem- de administrativa: vemos o basileus fiscalizar a distribui-
porário ou definitivo. Havia, enfim, à exceção do damos e dos escra- ção das cotas em bronze destinadas aos ferreiros que, em
vos, uma população serva ligada a terra? Não se poderia dizê-lo.
seu território, trabalham para o palácio. E, bem entendido,
* Cf. a interpretação, proposta por Palmer, do termo grego derniur-
gós: não "o que trabalha para o público", mas "o que cultiva uma contribui ele próprio, com outros homens ricos do lugar,
• terra de aldeia"; contra, cf. Kentarõ Murakawa, Demiurgos, segundo uma quantidade devidamente estabelecida, a
Historia, 6, 1957, pp. 385-415.
32
AS O R I G E N S DO PENSAMENTO GREGO A realeza micênica

esses fornecimentos de metal. 9 Ao lado do basileus, um disso, o chamado Klumenos. ko-re-te da aldeia de I-te-re-
Conselho dos Velhos, a ke-ro-si-ja (gerousia) confirma wa, dependente do palácio de Pilos, figura numa outra
esta relativa autonomia da comunidade aldeã. Tomam plaqueta como comandante de unidade militar; uma ter-
assento nessa assembléia sem dúvida os chefes das casas ceira dá-lhe o qualificativo de mo-ro-pa (|!0ip07iaç). pos-
mais influentes. Os simples aldeões, homens do damos no suidor de uma moira, de um lote de terra.10
sentido próprio, que fornecem ao exército os peões e que,
para retomar a fórmula homérica, não são mais considera- Por mais lacunar que seja nossa informação, parece
dos no Conselho que na guerra, formam no melhor dos possível tirar daí algumas conclusões gerais referentes aos
casos os espectadores, escutam em silêncio os qualificados traços característicos das realezas micênicas.
para falar e não expressam seus sentimentos senão por um
rumor de aprovação ou descontentamento. 1 — Primeiramente, seu aspecto belicoso. O ánax
Um outro personagem, o ko-re-te. associado ao basi- apóia-se numa aristocracia guerreira, os homens dos carros,
leus, aparece como uma espécie de regedor de aldeia. É pos- sujeitos à sua autoridade, mas que formam, no corpo social
sível que se indague se esta dualidade de direção no nível e na organização militar do reino, um grupo privilegiado
local não encobre a que verificamos no quadro do Palácio: com seu estatuto particular, seu gênero de vida próprio.
como o ánax, o basileus teria prerrogativas sobretudo reli- 2 — As comunidades rurais não estão numa depen-
giosas (pense-se nos phylobasileis da Grécia clássica); o ko- dência tão absoluta em relação ao palácio que não possam
re-te, como o la-wa-ge-tas. exerceria uma função militar. subsistir independentemente dele. Abolido o controle real.
o damos continuaria a trabalhar as mesmas terras segundo
Haveria razão para aproximar-se o termo de xotpoç. as mesmas técnicas. Como no passado, mas num quadro
tropa armada; teria o sentido do homérico xoípavoç, doravante puramente aldeão, ser-lhe-ia necessário alimen-
que é quase sinônimo de f|yefia)V, mas que. associado a tar os reis e ricos homens do lugar, por meio de remessas,
(3UOIÀ.£ÚÇ, parece indicar senão uma oposição, pelo me- presentes e prestações mais ou menos obrigatórias.
nos uma polaridade, uma diferença de planos. Além

«o Martin S. Ruiperez. KO-RE-TE e PO-RO-KO-RO-TE-RE.


q
A assimilação do pa-si-re-u ao basileus foi recentemente discutida. Remarques sur 1'organisation militaire mycénienne. Études
Segundo Palmer, tratar-se-ia dc um oficial provincial que controlava Mycéniennes, Actes du Colloque international sur les textes mycé-
as equipes de metalúrgicos que trabalhavam para o palácio; cf. L. R. niens, p. 105-120: contra: J. Taillardat. Notules mycéniennes.
Palmer. Linear B texts of economic interest. Sertã Philologica Mycénien Ko-re-te et homérique x a M i o p . Revue des Etudes
Aenipontaria, 7-8, 1961. pp. 1-12. Grecques, 73, 1960. pp. 1-5.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A realeza micênica

3 — A organização do Palácio com seu pessoal admi- recursos e forças militares importantes. Possibilitava
nistrativo, suas técnicas de contabilidade e de controle, assim as grandes aventuras em países longínquos, para lá
sua regulamentação estrita da vida econômica e social, se estabelecer em terras novas ou para ir buscar, além dos
apresenta um caráter de plágio. Todo o sistema repousa no mares, o metal e os produtos que faltavam no continente
emprego da escrita e na constituição de arquivos. São os grego. Entre o sistema de economia palaciana, a expansão
escribas cretenses, postos ao serviço das dinastias micêni- micênica pelo Mediterrâneo, o desenvolvimento na pró-
cas. que, transformando o linear em uso no palácio de pria Grécia, ao lado da vida agrícola, de uma indústria
Cnossos (linear A) para adaptá-lo ao dialeto dos novos artesanal já muito especializada, organizada em guildas
senhores (linear B), levaram-lhes os meios de implantar na sob o modelo oriental, a relação aparece estreita.
Grécia continental os métodos administrativos próprios É todo esse conjunto que a invasão dórica destrói.
da economia palaciana. A extraordinária fixidez da língua Rompe, por longos séculos, os vínculos da Grécia com o
das plaquetas pelo tempo (mais de 150 anos separam as Oriente. Abatida Micenas, o mar deixa de ser um caminho
datas dos documentos de Cnossos e de Pilos 11 ) e no espa- de passagem para tornar-se uma barreira. Isolado, voltado
ço (Cnossos, Pilos, Micenas, mas também Tirinto, Tebas, para si mesmo, o continente grego retorna a uma forma de
Orcómeno) mostra que se trata de uma tradição mantida economia puramente agrícola. O mundo homérico não co-
nos grupos estritamente fechados. Aos reis micênicos nhece mais uma divisão do trabalho comparável à do
esses meios especializados de escribas cretenses fornece- mundo micênico, nem o emprego numa escala tão vasta da
ram. ao mesmo tempo que as técnicas, os esquemas para a mão-de-obra servil. Ignora as múltiplas corporações de
administração de seu palácio. "homens da ferramenta" agrupados nos arredores do palá-
Para os monarcas da Grécia, o sistema palaciano cio ou colocados nas aldeias para aí executar as ordens
representava um notável instrumento de poder. Permitia reais. Na queda do império micênico. o sistema palaciano
estabelecer um controle rigoroso do Estado sobre um ter- desaba completamente; jamais se erguerá. O termo únax
ritório extenso. Atraía para acumulá-la em suas mãos toda desaparece do vocabulário propriamente político. É subs-
a riqueza do país e concentrava, sob uma direção única, tituído, em seu emprego técnico para designar a função
real, pela palavra basileus cujo valor estritamente local
observamos e que, de preferência a uma pessoa única a
1
' Se é aceita, para os documentos de Cnossos. a indicação das datas concentrar em si todas as formas do poder, designa,
feita por A. J. Evans. Sobre a controvérsia que estabeleceram a esse
empregado no plural, uma categoria de Grandes que se
respeito L. R. Palmer e S. Hood. cf. J. Raison, Une controverse sur
la chronologie cnossienne, Buli de l'Ass. Guillaume Budó. 1961, colocam igualmente no cume da hierarquia social. Abolido
pp. 305-319. o reino do ánax, não se encontra mais traço de um contro-
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A realeza micênica

le o r g a n i z a d o pelo rei, de um aparelho administrativo, de Palmer, ibid., 11, 1958, pp. 87-96); M. S. Ruiperez, Mycenaean
u m a classe de escribas. A própria escrita desaparece, land-division and livestock grazing, Minos, 5, pp. 174-207; G.
Thomson, On Greek land tenure, in Studies Robinson, II. pp. 840-
c o m o desfeita na ruína d o s palácios. Q u a n d o os gregos a
857; E. Will. Aux origines du régime foncier grec, Revue des études
redescobrirem, pelo fim do século IX, t o m a n d o - a esta vez anciennes, 59, 1957. pp. 5-50.
d o s f e n í c i o s , n ã o será s o m e n t e u m a e s c r i t a d e u m t i p o
diferente, fonética, mas sim o p r o d u t o de u m a civilização
r a d i c a l m e n t e distinta: n ã o mais a e s p e c i a l i d a d e de u m a
classe de escribas, mas o e l e m e n t o de u m a cultura c o m u m .
Seu significado social e psicológico ter-se-á t a m b é m trans-
f o r m a d o — poder-se-ia dizer invertido: a escrita n ã o terá
m a i s p o r o b j e t o c o n s t i t u i r p a r a u s o d o rei a r q u i v o s n o
recesso de um palácio; terá correlação d o r a v a n t e c o m a
f u n ç ã o de publicidade; vai permitir divulgar, colocar igual-
m e n t e sob o olhar de todos, os diversos aspectos da vida
social e política.

BIBLIOGRAFIA

John Chadwick, The decipherment of Linear B, Cambridge,


1958; Etudes mycéniennes. Actes du Colloque international sur les
textes mycéniens, Paris, 1956; L. R. Palmer, Achaeans and Indo-
europeans, Oxford. 1955; M. Ventris e J. Chadwick. Documents in
Mycenaean Greek, Cambridge. 1956.
Sobre as estruturas sociais e o regime territorial: W. E.
Brown. Landtenure in mycenaean Pylos. Historia, 5, 1956, pp. 385-
400; E. L. Bennett. The landholders of Pylos, American Journal of
Archaeology 60, 1956, pp. 103-133; M. I. Finley. Homer and
Mycenae; Property and Tenure, Historia, 6, 1957, pp. 133-159; e
The mycenaean tablels and economic history, The economic history
review, 2° série, 10, 1957, p. 128-141 (com uma réplica de L. R.
CAPÍTULO Itl

A CRISE DA S O B E R A N I A

A queda do poder micênico, a expansão dos dórios


no Peloponeso, em Creta e até em Rodes inauguram uma
nova idade da civilização grega. A metalurgia do ferro
sucede à do bronze. A incineração dos cadáveres substitui
numa larga escala a prática da inumação. A cerâmica
transforma-se profundamente: deixa as cenas da vida ani-
mal e vegetal por uma decoração geométrica. Divisão níti-
da das partes do vaso, redução das formas a modelos cla-
ros e simples, obediência a princípios de aridez e de rigor
que excluem os elementos místicos, de tradição egéia —
tais são os traços do novo estilo geométrico. T. B. L.
Webster chega a falar a esse respeito de uma verdadeira
revolução: 1 nessa arte despojada, reduzida ao essencial,
reconhece uma atitude de espírito, que. segundo ele,
marca igualmente as outras inovações do mesmo período:
os homens já tomaram consciência de um passado separa-
do do presente, diferente dele (a idade de bronze, idade

:
T. B. L. Webster, From Mycenae to Homcr, Londres, 1958.

41
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A crise da soberania

dos heróis, contrasta com os tempos novos, votados ao sistir lado a lado as duas forças sociais com as quais seu
ferro); o mundo dos mortos distanciou-se, separado do poder devia ter-se harmonizado: de um lado as comunida-
mundo dos vivos (a cremação partiu o liame do cadáver des aldeãs, de outro uma aristocracia guerreira cujas famí-
com a terra); uma distância insuperável se estabeleceu lias mais eminentes detêm igualmente, como privilégio de
entre os homens e os deuses (o personagem do rei divino genos, certos monopólios religiosos. Entre essas forças
desapareceu). Assim em toda uma série de domínios, uma opostas, liberadas pelo desmoronamento do sistema pala-
delimitação mais rigorosa dos diferentes planos do real ciano, que se vão chocar às vezes com violência, a busca
prepara a obra de Homero, esta poesia épica que, no seio de um equilíbrio, de um acordo, fará nascer, num período
mesmo da religião, tende a afastar o mistério. de desordem, uma reflexão moral e especulações políticas
Neste capítulo, quereríamos sobretudo sublinhar o que vão definir uma primeira forma de "sabedoria" huma-
alcance das transformações sociais que mais diretamente na. Esta sophia aparece desde a aurora do século VII; está
repercutiram nos esquemas do pensamento. O primeiro ligada a uma plêiade de personagens bem estranhos aureo-
testemunho dessas transformações é a língua. De Micenas lados de uma glória quase lendária e sempre celebrados
a Homero, o vocabulário dos títulos, dos postos, das fun- pela Grécia como seus primeiros, como seus verdadeiros
ções civis e militares, da tenência do solo desaparece quase "Sábios". Ela não tem por objeto o universo da physis,
completamente. Alguns termos que subsistem, como basi- mas o mundo dos homens: que elementos o compõem, que
leus ou témenos, não conservam mais. após a destruição forças o dividem contra si mesmo, como harmonizá-las,
do antigo sistema, exatamente o mesmo valor. Quer dizer unificá-las. para que de seus conflitos surja a ordem huma-
que não há entre o mundo micênico e o mundo homérico na da cidade. Essa sabedoria é o fruto de uma longa histó-
nenhuma continuidade, nenhuma comparação possível? ria. difícil e acidentada, em que intervêm fatores múlti-
Foi o que se pretendeu. 2 Entretanto, o quadro de um plos. mas que desde o início se afastou da concepção micê-
pequeno reino como ítaca, com seu basileus, sua assem- nica do Soberano para orientar-se num outro caminho. Os
bléia, seus nobres turbulentos, seu demos silencioso em problemas do poder, de suas formas, de seus componen-
segundo plano, prolonga e esclarece manifestamente cer- tes, foram repentinamente colocados em termos novos.
tos aspectos da realidade micênica. Aspectos provincia- Com efeito, não é suficiente dizer que no curso desse
nos. certamente, e que ficam fora do palácio. Mas precisa- período a realeza se vê despojada na Grécia de seus privi-
mente o desaparecimento do ánax parece ter deixado sub- légios e que. mesmo onde subsiste, cede de fato o lugar a
um estado aristocrático; deve-se acrescentar que essa basi-
2
Cl. especialmente M. I. Finlcy, Homer and Myeenae: Property and leia não era mais, desde então, a realeza micênica. O rei
tenure. Historia. 1957, pp. 133-159. não só mudou de nome, mas de natureza. Nem na Grécia,
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A crise da soberania

nem na Jônia em que uma nova multidão de colonos que de comando — que se separa da basileia, conquista sua
fugia da invasão dórica foi estabelecer-se. encontra-se ves- independência e vai definir o domínio de uma realidade
tígio de um poderio real do tipo micênico. Mesmo supon- propriamente política. Eleitos primeiro por dez anos, os
do que a Liga jónica do século VI prolongasse sob a forma arcontes são em seguida renovados cada ano. O sistema da
de um agrupamento de cidades-estados independentes, eleição, mesmo se conservam ou se transpõem certos tra-
uma organização mais antiga em que reis locais reconhe- ços de um processo religioso, implica uma concepção nova
ciam a suserania de uma dinastia reinante em Éfeso, 3 do poder: a arché é todos os anos delegada por uma deci-
tratar-se-ia de uma supremacia análoga à que Agamenão são humana, por uma escolha que supõe confronto e dis-
exerce, na Ilíada, sobre reis que são seus pares e cuja cussão. Essa delimitação mais estrita do poder político que
dependência se limita ao domínio de uma campanha feita toma forma de magistratura tem uma contrapartida: a
em comum sob sua direção. Muito diferente é sem dúvida basileia vê-se relegada a um setor especificamente religio-
o controle imposto a todo momento, sobre toda pessoa, so. O basileus não é mais este personagem quase divino
toda atividade e toda coisa, pelo ánax micênico por inter- cujo poder se manifesta em todos os planos; seu encargo
médio do palácio. limita-se ao exercício de certas funções sacerdotais.
No que concerne a Atenas, único ponto da Grécia em À imagem do rei, senhor de todo poder, substitui-se a
que a continuidade com a época micênica não foi brutal- idéia de funções sociais especializadas, diferentes umas
mente rompida, o testemunho de Aristóteles, apoiado na das outras, e cujo ajustamento cria difíceis problemas de
tradição dos atidógrafos, apresenta-nos as etapas do que equilíbrio. As lendas reais de Atenas são a esse respeito
4
se poderia chamar o brilhantismo da soberania. A presen- significativas. Ilustram um tema muito diferente daquele
ça, ao lado do rei. do polemarca, como chefe dos exércitos, que se encontra em muitos mitos indo-europeus de sobe-
já separa do soberano a função militar. A instituição do rania. 5 Para tomar um exemplo característico, as lendas
arcontado que Aristóteles situa sob os Codridas — isto é, reais citas, narradas por Heródoto, mostram no Soberano
no momento em que embarcam para a jônia os aqueus um personagem que se situa fora e acima das diversas clas-
refugiados de Pilos e do Peloponeso na Ática — marca ses funcionais de que a sociedade é composta; porque ele
uma ruptura mais decisiva. É a própria noção de arché — as representa todas, porque todas encontram igualmente

5
Sobre os problemas da soberania no nível humano, sobre as rela-
5
Cf. Michel B. Sakellariou, La migration greeque en lonie, Atenas. ções do rei com as diversas classes e o conjunto do grupo social,
1958. leiam-se as observações de M. Georges Dumézil. Religion indo-
4
Aristóteles, Constituição de Ate/ias, III. 2-4; cf. Chester G. Starr. européene. Examen de quelques critiques recentes, Revue de
The decline of the early Greek Kings. Historia, 10.1961. pp. 129-138. 1'Histoire des Religions. 152, 1957, pp. 8-30.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A crise da soberania

nele a origem das virtudes q u e as d e f i n e m , ele n ã o perten- s o b r e o p o d e r g u e r r e i r o : E r e c t e u é um c o m b a t e n t e , o


ce m a i s a n e n h u m a . 6 Os três tipos de o b j e t o s de o u r o — a i n v e n t o r d o carro, m o r t o e m plena batalha. Essa p r i m e i r a
t a ç a de l i b a ç õ e s , a a c h a de a r m a s , a c h a r r u a ( r e l h o e divisão n ã o basta para r e g u l a m e n t a r o p r o b l e m a dinástico.
canga) — q u e simbolizam as três categorias sociais (sacer- Erecteu deixa, p o r sua vez, três filhos: C é c r o p e , M e t i ã o ,
d o t e s , g u e r r e i r o s , a g r i c u l t o r e s ) nas q u a i s o s c i t a s e s t ã o P a n d o r o . A partir dos dois m a i s velhos, f u n d a d o r e s de li-
d i v i d i d o s , o Rei e só o Rei os p o s s u i t o d o s ao m e s m o n h a g e n s rivais, o c o n f l i t o pelo t r o n o p r o p a g a - s e de gera-
t e m p o . As atividades h u m a n a s q u e se o p õ e m na s o c i e d a d e ç ã o p a r a g e r a ç ã o até Egeu, s e m i n t e r r o m p e r aliás um cir-
se e n c o n t r a m integradas e u n i d a s na pessoa do s o b e r a n o . cuito r e g u l a r d e i n t e r c â m b i o s m a t r i m o n i a i s e n t r e o s dois
As lendas de Atenas descrevem um processo inverso: u m a r a m o s f a m i l i a r e s . C o m o H. ( e a n m a i r e o m o s t r o u , a luta
crise sucessória q u e , em vez de pautar-se pela vitória de d o s c e c r ó p i d a s e dos m e t i ô n i d a s e x p r i m e a tensão, no p r ó -
um p r e t e n d e n t e s o b r e os o u t r o s e a c o n c e n t r a ç ã o de toda prio seio da basileia, de dois a s p e c t o s o p o s t o s . 7 Recolo-
a arché em suas mãos, c o n d u z a u m a divisão da soberania, c a n d o - s e esse e p i s ó d i o no c o n j u n t o da n a r r a t i v a s o b r e a
a p r o p r i a n d o - s e cada u m deles exclusivamente d e u m d o s s u c e s s ã o , verifica-se q u e a crise d i n á s t i c a revela q u a t r o
a s p e c t o s do p o d e r e a b a n d o n a n d o os o u t r o s a seus irmãos. princípios c o n c o r r e n t e s , a t u a n d o n a soberania: u m princí-
N ã o s e p õ e mais e m d e s t a q u e u m p e r s o n a g e m ú n i c o q u e pio e s p e c i f i c a m e n t e religioso, c o m Butes; um p r i n c í p i o de
d o m i n a a vida social, m a s u m a multiplicidade de f u n ç õ e s força guerreira, com Erecteu, a linhagem d o s C e c r ó p i d a s ,
q u e , o p o n d o - s e u m a s à s o u t r a s , necessitam d e u m a divi- Egeu (ele p r ó p r i o dividirá a arché em q u a t r o , g u a r d a n d o
são. u m a delimitação recíprocas. para si t o d o o Kratos)-, um princípio ligado ao solo e às
Por ocasião da morte de Pandião, seus dois filhos suas virtudes: Ctônia, P a n d o r o ( a a p r o x i m a r d e P a n d o r a ) ;
dividem e n t r e si a h e r a n ç a p a t e r n a . Erecteu r e c e b e a basi- u m p r i n c í p i o d e p o d e r m á g i c o , p e r s o n i f i c a d o pela d e u s a
leia; Butes, esposo de Ctônia, filha de seu i r m ã o , fica c o m Métis, e s p o s a de Zeus, e q u e interessa mais e s p e c i a l m e n t e
a hierosyne: o sacerdócio. A basileia de Erecteu r e p o u s a as a r t e s do f o g o c o l o c a d a s s o b a p r o t e ç ã o de H e f e s t o e
A t e n a , d e u s e s da metis, patronos dos artesãos. Tente-se
a p r o x i m a r esses q u a t r o princípios das q u a t r o t r i b o s jóni-
6
Heródoto, IV, 5-6, cf. E. Benveniste, Traditions indo-iraniennes cas q u e p u d e r a m ter — e às q u a i s os gregos d e r a m explici-
sur les classes sociales, Journal asia tique, 230, 1938, pp. 529-549; t a m e n t e — valor f u n c i o n a l . 8
G. Dumézil. L'idéologie tripartie des Indo-européens. Bruxelas,
1958, pp. 9-10; Les trois "trésors des ancêtres" dans 1'épopée Narte,
7
Revue de l'Hisíoire des Religions, 157, 1960. pp. 141-154. H. Jeanmaire, La naissance d'Athéna et Ia royauté magique de
Encoütrar-se-á na lenda real dc Orcómene um tema análogo; cf. F. Zeus, Revue Archóologique, 48, 1956, pp. 12-40.
8
Vían, La tríade des rois d'Orchomène: Eteoclès, Phlegyas, Minyas, As quatro tribos jónicas são chamadas: Hópletes, Argades,
in Hommage à G. Dumézil, pp. 215-224. Geléontes, Aigicoréis, que H. Jeanmaire interpreta como: artesãos,
A crise da soberania
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO

Poder de conflito — poder de união, Eris-Philia:


O que o mito sugere pela narrativa de um conflito
essas duas entidades divinas, opostas e complementares,
entre irmãos, a história e a teoria política o exporão por
marcam como que os dois pólos da vida social no mundo
sua vez, sob uma forma sistemática, apresentando o corpo
aristocrático que sucede as antigas realezas. A exaltação
social c o m o um composto feito de elementos heterogê-
dos valores de luta. de concorrência, de rivalidade associa-
neos, de partes — jioipai ou j.ièpr| — separadas, de classes
de funções que se excluem umas às outras, mas cuja mis- se ao sentimento de dependência para c o m uma só e

tura e fusão devem, entretanto, realizar-se. 9 mesma comunidade, para com uma exigência de unidade e

Desaparecido o ánax que, pela virtude de um poder de unificação sociais. O espírito de agón que anima os
mais que humano, unificava e ordenava os diversos elemen- gene nobiliários se manifesta em todos os domínios. Na
tos do reino, novos problemas surgem: como a ordem pode guerra primeiramente: a técnica do carro desapareceu com
nascer do conflito entre grupos rivais, do choque das prer- tudo o que implicava centralização política e administrati-
rogativas e das funções opostas? Como uma vida comum va; mas por isso o cavalo não assegurara menos a seu pos-
pode apoiar-se em elementos discordantes? Ou — para suidor uma qualificação guerreira excepcional; os Hippeis,
retomar a própria fórmula dos Órficos — como, no plano os Hippobotes definem uma elite militar ao mesmo tempo
10
social, o uno pode sair do múltiplo e o múltiplo do uno? que uma aristocracia da terra; a imagem do cavaleiro asso-
cia o valor ao combate, o brilho do nascimento, a riqueza
agricultores, nobres (de função religiosa), guerreiros (Couroi et de bens de raiz e a participação de direito na vida pública.
Couròtes, Lille, 1939). Contra: cf. M. P. Nilsson. Cults, myths, orn- No plano religioso em seguida: cada genos se afirma como
eies and politic in ancient Greece, Lund, 1951. App. 1: The Ionian
senhor de certos ritos, possuidor de fórmulas, de narrati-
Phylae; cf. também G. Dumézil, Métiers et classes fonctionnelles
chez divers pcuples indo-européens, Annales. Economies, Sociétés, vas secretas, de símbolos divinos especialmente eficazes,
Civilisations, 1958. pp. 716-724. que lhe conferem poderes e títulos de comando. Todo o
9
Particularmente, Aristóteles, Política. II, 1261 a.
10
V. Ehrenberg verifica que há, no centro da concepção grega da
domínio do "pré-jurídico" enfim, que governa as relações
sociedade, uma contradição fundamental: o Estado é uno e homogê- entre famílias, constitui em si uma espécie de agón, um
neo; o grupo humano é feito de partes múltiplas e heterogêneas. combate codificado e sujeito a regras, em que se defron-
Essa contradição fica implícita, não formulada, porque os gregos
jamais distinguiram claramente Estado e sociedade, plano político e tam grupos, uma prova de força entre gene comparável à
plano social. Daí o embaraço, para não dizer a confusão, de um que põe em combate os atletas no curso dos fogos. E a
Aristóteles quando trata da unidade e da pluralidade da polis. (V.
política toma. por sua vez, forma de agón: uma disputa
Ehrenberg, The Greek state, Oxford. 1960. p. 89). Vivida implicita-
mente na prática social, essa problemática do uno e do múltiplo, que oratória, um combate de argumentos cujo teatro é a ágora,
j se exprime também em certas correntes religiosas, será formulada praça pública, lugar de reunião antes de ser um merca-
com todo rigor ao nível do pensamento filosófico.
48
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A crise da soberania

d o . " O s q u e s e m e d e m pela palavra, q u e o p õ e m d i s c u r s o do de f o r t i f i c a ç õ e s . A c i d a d e e s t á a g o r a c e n t r a l i z a d a na


a discurso, f o r m a m nessa sociedade hierarquizada um Á g o r a , e s p a ç o c o m u m , s e d e d a Hestia Koiné, espaço
g r u p o de iguais. C o m o H e s í o d o o observará, t o d a rivalida- p ú b l i c o e m q u e são d e b a t i d o s o s p r o b l e m a s d e interesse
de, toda eris s u p õ e relações de igualdade: a c o n c o r r ê n c i a geral. É a própria cidade q u e se cerca de m u r a l h a s , prote-
jamais p o d e existir senão e n t r e iguais. 12
Esse e s p í r i t o igua- g e n d o e d e l i m i t a n d o em sua t o t a l i d a d e o g r u p o h u m a n o

litário, n o p r ó p r i o seio d e u m a c o n c e p ç ã o a g o n í s t i c a d a q u e a constitui. No local em q u e se elevava a c i d a d e real —

vida social, é um dos traços q u e m a r c a a m e n t a l i d a d e da residência privada, privilegiada —, ela edifica t e m p l o s q u e


abre a um culto público. Nas ruínas do palácio, nessa
aristocracia guerreira da Grécia e q u e contribui p a r a d a r à
A c r ó p o l e q u e ela c o n s a g r a d o r a v a n t e a s e u s d e u s e s , é
n o ç ã o do p o d e r um c o n t e ú d o novo. A archó n ã o poderia
ainda a si m e s m a q u e a c o m u n i d a d e projeta s o b r e o p l a n o
m a i s ser a p r o p r i e d a d e exclusiva de q u e m q u e r q u e seja; o
d o s a g r a d o , assim c o m o s e realiza, n o plano p r o f a n o , n o
E s t a d o é p r e c i s a m e n t e o q u e se d e s p o j o u de t o d o c a r á t e r
e s p a ç o d a Ágora. Esse q u a d r o u r b a n o define e f e t i v a m e n t e
privado, particular, o que, e s c a p a n d o da alçada d o s gene,
u m e s p a ç o m e n t a l ; d e s c o b r e u m n o v o horizonte espiritual.
já a p a r e c e c o m o a q u e s t ã o de todos.
D e s d e q u e se centraliza na p r a ç a pública, a c i d a d e já é, no
As expressões de q u e se serve o grego são a esse res-
sentido p l e n o do termo, u m a polis.
peito s u r p r e e n d e n t e s : dirá q u e certas deliberações, certas
decisões d e v e m ser levadas ÈÇ TÒ x o ^ ó v , q u e os antigos
privilégios do Rei. q u e a p r ó p r i a arché são d e p o s i t a d a s
èç tò jiéoov, no meio, no centro. O recurso a u m a imagem
especial para exprimir a consciência q u e um g r u p o h u m a -
no t o m a de si m e s m o e o s e n t i m e n t o de sua e x i s t ê n c i a
c o m o u n i d a d e política n ã o têm simples valor d e c o m p a r a -
ção. Refletem o a d v e n t o de um e s p a ç o social i n t e i r a m e n t e
novo. A s c o n s t r u ç õ e s u r b a n a s n ã o são mais, c o m efeito,
a g r u p a d a s c o m o antes em t o r n o de um palácio real, cerca-

11
O termo guarda a lembrança da assembléia dos guerreiros, do
laos reunido em formação militar. Entre a antiga assembléia guerrei-
ra. a assembléia dos cidadãos nos Estados oligárquicos, e a Ecclesia
democrática, percebe-se uma espécie de linha contínua.
12
Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, 25-6.
CAPÍTULO IV

O U N I V E R S O ESPIRITUAL
DA P O L I S

O aparecimento da polis constitui, na história do


pensamento grego, um acontecimento decisivo. Certamen-
te, no plano intelectual como no domínio das instituições,
só no fim alcançará todas as suas conseqüências; a polis
conhecerá etapas múltiplas e formas variadas. Entretanto,
desde seu advento, que se pode situar entre os séculos VIII
e VII, marca um começo, uma verdadeira invenção; por
ela, a vida social e as relações entre os homens tomam uma
forma nova, cuja originalidade será plenamente sentida
pelos gregos. 1
O que implica o sistema da polis é primeiramente
uma extraordinária preeminência da palavra sobre todos
os outros instrumentos do poder. Torna-se o instrumento
político por excelência, a chave de toda autoridade no

i Cf. V. Ehrenberg, When did the Polis rise?, Journal of Hellenic


Síudies, 57, 1937. pp. 147-159; Origins of democracy. Historia, 1.
1950. pp. 519-548.
AS O R I G E N S DO PENSAMENTO GREGO O universo espiritual da polis

Estado, o meio de comando e de domínio sobre outrem. do saber teórico, em face da lógica do verossímil ou do
Esse p o d e r da palavra — de q u e os gregos f a r ã o uma provável, que preside aos debates arriscados na prática.
divindade: Peithó, a força de persuasão — lembra a eficá- Uma segunda característica da polis é o c u n h o de
cia das palavras e das fórmulas em certos rituais religiosos, plena publicidade dada às manifestações mais importantes
ou o valor atribuído aos "ditos" do rei quando pronuncia da vida social. Pode-se mesmo dizer que a polis existe ape-
soberanamente a themis; entretanto, trata-se na realidade nas na medida em que se distinguiu um domínio público,
de coisa bem diferente. A palavra não é mais o termo nos dois sentidos diferentes, mas solidários do termo: um
ritual, a fórmula justa, mas o debate contraditório, a dis- setor de interesse comum, opondo-se aos assuntos priva-
cussão, a argumentação. Supõe um público ao qual ela se dos; práticas abertas, estabelecidas em pleno dia, opondo-se
dirige como a um juiz que decide em última instância, de a processos secretos. Essa exigência de publicidade leva a
mãos erguidas, entre os dois partidos que lhe são apresen- apreender progressivamente em proveito do grupo e a colo-
tados; é essa escolha puramente humana que mede a força car sob o olhar de todos o conjunto das condutas, dos pro-
de persuasão respectiva dos dois discursos, assegurando a cessos, dos conhecimentos que constituíam na origem o pri-
vitória de um dos oradores sobre seu adversário. vilégio exclusivo do basileus, ou dos gene detentores da
Todas as questões de interesse geral que o Soberano arché. Esse duplo movimento de democratização e de divul-
tinha por função regularizar e que definem o campo da gação terá, no plano intelectual, conseqüências decisivas. A
arché são agora s u b m e t i d a s à arte oratória e d e v e r ã o cultura grega constitui-se, dando a um círculo sempre mais
resolver-se na conclusão de um debate; é preciso, pois, que amplo — finalmente ao demos todo — o acesso ao mundo
possam ser formuladas em discursos, amoldadas às de- espiritual, reservado no início a uma aristocracia de caráter
monstrações antitéticas e às argumentações opostas. Entre guerreiro e sacerdotal (a epopéia homérica é um primeiro
a política e o logos, há assim relação estreita, vínculo recí- exemplo desse processo: uma poesia de corte, cantada pri-
proco, A arte política é essencialmente exercício da lingua- m e i r a m e n t e nas salas dos palácios; depois sai deles,
gem; e o logos, na origem, toma consciência de si mesmo, desenvolve-se e transpõe-se em poesia de festa). Mas esse
de suas regras, de sua eficácia, por intermédio de sua fun- desenvolvimento comporta uma profunda transformação.
ção política. Historicamente, são a retórica e a sofística Tornando-se elementos de uma cultura comum, os conheci-
que, pela análise que empreendem das formas do discurso mentos, os valores, as técnicas mentais são levados à praça
como instrumento de vitória nas lutas da assembléia e do pública, sujeitos à crítica e à controvérsia. Não são mais
tribunal, abrem caminho às pesquisas de Aristóteles ao conservados, como garantia de poder, no recesso de tradi-
definir, ao lado de uma técnica da persuasão, regras da ções familiares; sua publicação motivará exegeses, interpre-
demonstração e ao pôr uma lógica do verdadeiro, própria tações diversas, oposições, debates apaixonados. Doravan-
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO O universo espiritual da polis

te, a discussão, a a r g u m e n t a ç ã o , a polêmica t o r n a m - s e as C o m p r e e n d e - s e assim o alcance de u m a reivindica-


regras do jogo intelectual, assim c o m o do jogo político. O ç ã o q u e s u r g e d e s d e o n a s c i m e n t o da cidade: a r e d a ç ã o d a s
controle c o n s t a n t e da c o m u n i d a d e se exerce sobre as cria- leis. A o escrevê-las, n ã o s e f a z m a i s q u e a s s e g u r a r - l h e s
ç õ e s d o espírito, assim c o m o s o b r e a s m a g i s t r a t u r a s d o p e r m a n ê n c i a e fixidez. S u b t r a e m - s e à a u t o r i d a d e p r i v a d a
Estado. A lei da polis, por oposição ao poder absoluto do d o s basileis, cuja f u n ç ã o e r a " d i z e r " o direito; t o r n a m - s e
monarca, exige q u e u m a s e o u t r a s sejam igualmente subme- bem c o m u m , regra geral, suscetível de ser aplicada a t o d o s
tidas à " p r e s t a ç ã o de contas", eftduvai. Já se n ã o i m p õ e m da mesma maneira. No m u n d o de Hesíodo, anterior ao
pela força de um prestígio pessoal ou religioso; devem mos- r e g i m e da C i d a d e , a dike a t u a v a a i n d a em d o i s p l a n o s ,
trar sua retidão por processos de o r d e m dialética. c o m o dividida e n t r e o céu e a terra: para o p e q u e n o culti-
Era a palavra q u e f o r m a v a , no q u a d r o da cidade, o v a d o r beócio, a dike é, neste m u n d o , uma decisão de f a t o
i n s t r u m e n t o da vida política; é a escrita q u e vai fornecer, no d e p e n d e n t e da arbitrariedade d o s reis " c o m e d o r e s de pre-
plano p r o p r i a m e n t e intelectual, o meio de uma cultura sentes"; no céu, é u m a divindade soberana, m a s l o n g í n q u a
c o m u m e p e r m i t i r u m a c o m p l e t a divulgação de conheci- e inacessível. Ao contrário, pela publicidade q u e lhe con-
m e n t o s previamente reservados ou interditos. T o m a d a dos f e r e a e s c r i t a , a dike, sem d e i x a r de a p a r e c e r c o m o um
fenícios e modificada por u m a transcrição mais precisa d o s valor ideal, vai poder encarnar-se n u m plano p r o p r i a m e n -
s o n s g r e g o s , a escrita p o d e r á s a t i s f a z e r e s s a f u n ç ã o d e te h u m a n o , realizar-se na lei, regra c o m u m a t o d o s , m a s
p u b l i c i d a d e p o r q u e ela p r ó p r i a se t o r n o u , q u a s e c o m o superior a todos, norma racional, sujeita à discussão e
m e s m o direito da língua falada, o bem c o m u m de todos os modificável p o r decreto, m a s q u e nem por isso deixa d e
cidadãos. As mais antigas inscrições em alfabeto grego q u e exprimir u m a o r d e m concebida c o m o sagrada.
conhecíamos m o s t r a m que, desde o século VIII, n ã o se trata Q u a n d o , por sua vez, os indivíduos decidirem t o r n a r
mais de um saber especializado, reservado a escribas, m a s público o seu saber por meio da escrita, seja s o b f o r m a de
de uma técnica de amplo uso, livremente difundida no livro c o m o os q u e A n a x i m a n d r o e Ferecides t e r i a m sido os
público. 2 Ao lado da recitação decorada de textos de Ho- primeiros a escrever ou c o m o o q u e Heráclito depositaria
m e r o ou de Hesíodo — q u e continua sendo tradicional —, a no t e m p l o de Ártemis em Éfeso, seja sob f o r m a de pará-
escrita constituirá o elemento de base da paideia grega. pegma, inscrição m o n u m e n t a l em pedra, análoga às q u e a
cidade faz gravar em n o m e de seus magistrados ou de seus
sacerdotes (cidadãos particulares nelas inscreverão obser-
2
John Forsdyke, Greece before Homer. Ancient chronology and vações a s t r o n ô m i c a s ou t á b u a s de cronologia), sua a m b i -
mythology. Londres, 1956, pp. 18 e ss.; cf. também as notas de Cl.
ção n ã o será fazer c o n h e c e r a o u t r o s u m a d e s c o b e r t a ou
. Préaux, Du linéaire B créto-mycénien aux ostraca grecs d'Egypte,
Chronique d'Egypte, 34, 1959, pp. 79-85. u m a o p i n i ã o pessoais; o q u e v ã o querer, d e p o s i t a n d o sua

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AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO O universo espiritual da polis

m e n s a g e m èç TO r|Éxov é fazer dela o bem c o m u m da cida- servados c o m o talismãs d e p o d e r i o n o recesso d o s palácios


d e , u m a n o r m a s u s c e t í v e l , c o m o a lei, de i m p o r - s e a ou no f u n d o das casas de s a c e r d o t e , vão e m i g r a r para o
todos. 3 U m a vez divulgada, sua sabedoria t o m a u m a con- templo, morada aberta, m o r a d a pública. Nesse espaço
sistência e u m a objetividade novas: ela constitui-se em si impessoal q u e se volta p a r a fora e d o r a v a n t e p r o j e t a no
m e s m a c o m o v e r d a d e . N ã o s e trata mais d e u m s e g r e d o exterior a d e c o r a ç ã o de seus frisos esculpidos, os velhos
religioso, reservado a alguns eleitos, favorecidos por u m a ídolos t r a n s f o r m a m - s e por sua vez: p e r d e m , c o m seu cará-
g r a ç a d i v i n a . C e r t a m e n t e , a v e r d a d e do s á b i o , c o m o o ter secreto, sua virtude de símbolo eficaz; eis q u e se tor-
segredo religioso, é revelação do essencial, d e s c o b e r t a de nam "imagens", sem outra f u n ç ã o ritual senão a de serem
u m a realidade superior q u e ultrapassa m u i t o o c o m u m d o s vistos, sem o u t r a realidade religiosa senão sua aparência.
homens; m a s . entregue à escrita, ela é destacada do círcu- Da g r a n d e estátua cultual alojada no templo para nele
lo f e c h a d o d a s seitas p a r a ser e x p o s t a em plena luz aos manifestar o deus, poder-se-ia dizer q u e t o d o seu esse con-
olhares da c i d a d e inteira; isto significa r e c o n h e c e r q u e ela siste d o r a v a n t e em um percipi. Os sacra, o u t r o r a carrega-
é por direito acessível a todos, aceitar submetê-la, c o m o o dos de u m a força perigosa e n ã o expostos à vista do públi-
d e b a t e político, ao j u l g a m e n t o de todos, com a e s p e r a n ç a co, t o r n a m - s e sob o o l h a r da c i d a d e um e s p e t á c u l o , um
de q u e em definitivo será por todos aceita e reconhecida. " e n s i n a m e n t o sobre os deuses", c o m o sob o olhar da cida-
Essa t r a n s f o r m a ç ã o de um saber secreto de tipo eso- de, as narrativas secretas, as f ó r m u l a s ocultas se d e s p o j a m
térico, n u m c o r p o de verdades divulgadas no público, tem de seu mistério e seu poder religioso para se t o r n a r e m as
seu paralelo n u m o u t r o s e t o r da vida social. Os antigos "verdades" q u e os Sábios vão debater.
sacerdócios pertenciam como propriedade particular a E n t r e t a n t o , não é sem dificuldade n e m s e m resistên-
certos gene e m a r c a v a m seu parentesco especial c o m um cia q u e a vida social é assim entregue a u m a p u b l i c i d a d e
p o d e r divino; — a polis, q u a n d o é constituída, confisca-os c o m p l e t a . O p r o c e s s o d e d i v u l g a ç ã o faz-se p o r e t a p a s ;
em seu proveito e os t r a n s f o r m a em cultos oficiais da cida- e n c o n t r a , em todos os domínios, obstáculos q u e limitam
de. A p r o t e ç ã o q u e a d i v i n d a d e reservava o u t r o r a a seus seus p r o g r e s s o s . M e s m o n o p l a n o político, p r á t i c a s d e
favoritos vai d o r a v a n t e exercer-se em benefício da c o m u - g o v e r n o secreto m a n t ê m , em pleno período clássico, u m a
nidade toda. Mas q u e m diz culto de cidade diz culto públi- f o r m a d e p o d e r q u e o p e r a p o r vias m i s t e r i o s a s e m e i o s
co. Todos os antigos sacra, sinais de investidura, símbolos s o b r e n a t u r a i s . O regime de E s p a r t a oferece os m e l h o r e s
religiosos, brasões, xóana de m a d e i r a , z e l o s a m e n t e con- exemplos desses processos secretos. Mas a utilização,
c o m o técnicas d e governo, d e santuários secretos, d e orá-
culos privados, reservados exclusivamente a certos magis-
3
Cf. Diógenes Laércio, I, 43, carta de Tales a Ferecides. trados, ou coleções divinatórias n ã o divulgadas, de q u e se
Ab ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO O universo espiritual da polis

apropriam certos dirigentes, também está atestada em se o seu controle, na medida do possível, por outras dili-
outros lugares. Além disso, muitas cidades colocam sua gências, que empregam não mais meios humanos, mas a
salvação na posse de relíquias secretas: ossadas de heróis, eficácia do rito. O "racionalismo" político que preside às
cujo túmulo, ignorado do público, não deve ser conhecido, instituições da cidade se opõe certamente aos antigos pro-
sob pena de arruinar o Estado, senão apenas pelos magis- cessos religiosos do governo, mas sem por isso excluí-los
trados qualificados para receber, por ocasião de seu aces- de maneira radical. 4
so ao cargo, essa perigosa revelação. O valor político atri- Além disso, no domínio da religião, desenvolvem-se,
buído a esses talismãs secretos não é simples sobrevivên- à margem da cidade e ao lado do culto público, associa-
cia do passado. Corresponde a necessidades sociais defini- ções fundadas secretamente. Seitas, confrarias e mistérios
das. A salvação da cidade não põe necessariamente em são grupos fechados, hierarquizados, comportando esca-
jogo forças que escapam ao cálculo da razão humana, ele- las e graus. Organizados sob o modelo das sociedades de
mentos que não são possíveis apreciar num debate, nem iniciação, sua função é selecionar, por meio de uma série
prever ao termo de uma deliberação? Essa intervenção de de provas, uma minoria de eleitos que se beneficiarão com
um poder sobrenatural cujo papel é finalmente decisivo — privilégios inacessíveis ao comum. Mas. contrariamente às
a providência de Heródoto, a tyche de Tucídides —, deve iniciações antigas às quais os jovens guerreiros, os couroi,
ser bem considerada e ter seu lugar na economia dos fato- eram submetidos e que lhes conferiam uma habilitação ao
res políticos. Ora, o culto público das divindades olímpi- poder, os novos agrupamentos secretos são doravante con-
cas só pode responder em parte a essa função. Refere-se a finados a um terreno puramente religioso. No quadro da
um mundo divino geral demais e também distante demais; cidade, a iniciação não pode mais trazer senão uma trans-
define uma ordem do sagrado que precisamente se opõe, formação "espiritual", sem repercussão política. Os elei-
como o hierós ao hósios, ao domínio profano no qual se tos, os epoptas, são puros, santos. Aparentados com o
situa a administração da cidade. A dessacralização de todo
um plano da vida política tem c o m o contrapartida uma
religião oficial que se distanciou das questões humanas e 4
Pense-se no papel da adivinhação na vida política dos gregos. De
que não está mais tão diretamente ligada às vicissitudes da maneira mais geral, observar-se-á que toda magistratura conserva
arché. Entretanto, quaisquer que sejam a lucidez dos che- um caráter sagrado. Mas. a esse respeito, dá-se no plano político o
mesmo que no jurídico. Os processos religiosos, que tinham na ori-
fes políticos e a sabedoria dos cidadãos, as decisões da gem valor em si mesmos, tornam-se, no quadro do direito, introdu-
assembléia têm por objeto um futuro que permanece fun- tores de instância. Do mesmo modo. os ritos, como o sacrifício ou o
damentalmente opaco e que não pode ser alcançado com- juramento, aos quais os magistrados ficam sujeitos ao assumir o
cargo, constituem o esquema formal e não mais a força interna da
pletamente pela inteligência. É então essencial assegurar-
vida política. Neste sentido, há certamente secularizaçào.
60
AS O R I G E N S DO P E N S A M E N T O G R E G O O universo espiritual da polis

divino, estão certamente votados a um destino excepcio- dele um ser único, quase um deus, um theios anér. Se a
nal, mas conhecê-lo-ão no além. A promoção com que eles cidade se dirige ao Sábio, quando se sente entregue à desor-
se beneficiam pertence a um outro mundo. dem e à impureza, se lhe pede a solução de seus males, é
A todos que desejam conhecer a iniciação o mistério precisamente porque ele lhe aparece como um ser à parte,
oferece, sem restrição de nascimento nem de classe, a pro- excepcional, um homem divino que todo seu gênero de vida
messa de uma imortalidade bem-aventurada, que era na isola e coloca à margem da comunidade. Reciprocamente,
origem privilégio exclusivamente real; divulga, no círculo quando o Sábio se dirige à cidade, pela palavra ou por escri-
mais amplo dos iniciados, os segredos religiosos que per- to, é sempre para transmitir-lhe uma verdade que vem do
tencem como propriedade particular a famílias sacerdotais, alto e que, mesmo divulgada, não deixa de pertencer a um
como os Kérykes ou os Eumólpides. Mas, apesar dessa outro mundo, estranho à vida ordinária. A primeira sabedo-
democratização de um privilégio religioso, o mistério em ria constitui-se assim numa espécie de contradição em que
nenhum momento se coloca numa perspectiva de publici- se exprime sua natureza paradoxal: entrega ao público um
dade. Ao contrário, o que o define como mistério é a pre- saber que proclama ao mesmo tempo inacessível à maior
tensão de atingir uma verdade inacessível por vias normais parte. Não tem ele por objeto revelar o invisível, fazer ver
e que não poderia de maneira alguma ser "exposta"; é a esse mundo dos ádela que se dissimula atrás das aparên-
pretensão de obter uma revelação tão excepcional que dá cias? A sabedoria revela uma verdade tão prestigiosa que
acesso a uma vida religiosa desconhecida do culto de Esta- deve ser paga ao preço de duros esforços e que fica, como a
do e que reserva aos iniciados uma sorte sem comparação visão dos epoptas, oculta aos olhos do vulgo; exprime certa-
com a condição ordinária do cidadão. O segredo toma mente o segredo, formula-o em palavras, mas o povo não
assim, em contraste com a publicidade do culto oficial, pode apreender seu sentido. Leva o mistério para a praça
uma significação religiosa particular: define uma religião pública; faz dele o objeto de um exame, de um estudo, sem
de salvação pessoal visando transformar o indivíduo inde- deixar entretanto completamente de ser um mistério. Aos
pendentemente da ordem social, a realizar nele uma espé- ritos de iniciação tradicionais que proibiam o acesso às
cie de novo nascimento que o destaque do estatuto comum revelações interditas, a sophia e a philosophia substituem
e o faça penetrar num plano de vida diferente. outras provas: uma regra de vida, um caminho de ascese,
Mas, nesse terreno, as pesquisas dos primeiros Sábios uma via de pesquisa que, ao lado das técnicas de discussão,
iam retomar as preocupações das seitas a ponto de se con- de argumentação, ou dos novos instrumentos mentais como
fundirem às vezes com elas. Os ensinamentos da Sabedoria, as matemáticas, conservam em seu lugar antigas práticas
como as revelações dos mistérios, pretendem transformar o divinatórias, exercícios espirituais de concentração, de êxta-
| homem no íntimo, elevá-lo a uma condição superior, fazer se, de separação da alma e do corpo.

62 63
O universo espiritual da polis
AS O R I G E N S DO PENSAMENTO GREGO

outro traço se acrescenta para caracterizar o universo espi-


A filosofia vai encontrar-se, pois, ao nascer, numa
ritual da polis. Os que compõem a cidade, por mais dife-
posição ambígua: em seus métodos, em sua inspiração,
rentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função,
aparentar-se-á ao mesmo tempo às iniciações dos misté-
aparecem de uma certa maneira "semelhantes" uns aos
rios e às controvérsias da ágora; flutuará entre o espírito
outros. Esta semelhança cria a unidade da polis, porque,
de segredo próprio das seitas e a publicidade do debate
para os gregos, só os semelhantes podem encontrar-se
contraditório que caracteriza a atividade política. Segun-
mutuamente unidos pela Philia, associados numa mesma
do os meios, os momentos, as tendências, ver-se-á que,
c o m u n i d a d e . O vínculo do h o m e m com o h o m e m vai
como a seita pitagórica na Grande Grécia, no século VI,
tomar assim, no esquema da cidade, a forma de uma rela-
ela organiza-se em confraria fechada e recusa entregar à
ção recíproca, reversível, substituindo as relações hierár-
escrita uma doutrina puramente esotérica. Poderá tam-
quicas de submissão e de domínio. Todos os que partici-
bém, como o fará o movimento dos Sofistas, integrar-se
pam do Estado vão definir-se como Hómoioi, semelhan-
inteiramente na vida pública, apresentar-se c o m o uma
tes, depois, de maneira mais abstrata, como os Isoi, iguais.
preparação ao exercício do poder na cidade e oferecer-se
Apesar de tudo o que os opõe no concreto da vida social,
livremente a cada cidadão, mediante lições pagas a dinhei-
os cidadãos se concebem, no plano político, como unida-
ro. Dessa ambigüidade que marca sua origem, a filosofia
des permutáveis no interior de um sistema cuja lei é o
grega talvez jamais se tenha libertado inteiramente. O filó-
equilíbrio, cuja norma é a igualdade. Essa imagem do
sofo não deixará de oscilar entre duas atitudes, de hesitar
m u n d o h u m a n o encontrará no século VI sua expressão
entre duas tentações contrárias. Ora afirmará ser o único
rigorosa num conceito, o de isonomia: igual participação
qualificado para dirigir o Estado, e, tomando orgulhosa-
de todos os cidadãos no exercício do poder. Mas antes de
mente a posição do rei-divino, pretenderá, em nome desse
adquirir esse valor plenamente democrático e de inspirar,
"saber" que o eleva acima dos homens, reformar toda a
no plano institucional, reformas como as de Clístenes, o
vida social e ordenar soberanamente a cidade. Ora ele se
ideal de isonomia pôde traduzir ou prolongar aspirações
retirará do mundo para recolher-se numa sabedoria pura-
comunitárias que remontam muito mais alto, até as ori-
mente privada; agrupando em torno de si alguns discípu-
gens da polis. Vários testemunhos mostram que os termos
los, desejará com eles instaurar, na cidade, uma cidade
isonomia, isocratia serviram, em círculos aristocráticos,
diferente, à margem da primeira e, renunciando à vida
para definir, por oposição ao poder absoluto de um só (a
pública, buscará sua salvação no conhecimento e na con-
monarchia ou a tyrannís), um regime oligárquico em que
templação.
a archó é reservada a um pequeno número, excetuando-se
Aos dois aspectos que assinalamos — prestígio da
a massa, mas é partilhada de maneira igual entre todos os
palavra, desenvolvimento das práticas públicas —, um
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO O universo espiritual da polis

m e m b r o s d e s s a elite. 5 Se a exigência de isonomia pôde demos, c o m o são em A t e n a s os zeugitas —, a c h a m - s e colo-


a d q u i r i r no fim do século VI u m a tal força, pôde-se justifi- cados no m e s m o plano que os possuidores de cavalos.
c a r a reivindicação p o p u l a r de um livre acesso do demos a Mas. m e s m o neste caso, a d e m o c r a t i z a ç ã o da f u n ç ã o mili-
t o d a s as m a g i s t r a t u r a s , foi s e m d ú v i d a p o r q u e se enraiza- tar — a n t i g o privilégio aristocrático — causa u m a t r a n s -
va n u m a t r a d i ç ã o igualitária m u i t o antiga, foi p o r q u e cor- f o r m a ç ã o c o m p l e t a da ética do guerreiro. O herói h o m é r i -
r e s p o n d i a m e s m o a certas a t i t u d e s psicológicas da aristo- co, o b o m c o n d u t o r de c a r r o s , podia ainda s o b r e v i v e r na
cracia d o s hippeis. É, com efeito, essa n o b r e z a militar q u e pessoa do hippeus\ já n ã o tem muita coisa em c o m u m c o m
estabelece pela primeira vez, e n t r e a q u a l i f i c a ç ã o guerrei- o hoplita, esse soldado-cidadão. O q u e c o n t a v a p a r a o pri-
ra e o d i r e i t o de p a r t i c i p a r n o s n e g ó c i o s p ú b l i c o s , u m a m e i r o era a façanha individual, a proeza feita em c o m b a t e
equivalência q u e n ã o será mais discutida. Na polis, o esta- singular. Na batalha, m o s a i c o de duelos em q u e se e n f r e n -
do de s o l d a d o coincide c o m o de cidadão: q u e m tem seu tam os prómachoi, o valor militar afirmava-se s o b f o r m a
lugar na f o r m a ç ã o militar da c i d a d e igualmente o t e m na de u m a aristeia, de u m a s u p e r i o r i d a d e t o d a p e s s o a l . A
sua o r g a n i z a ç ã o política. O r a , d e s d e o meio do século VII, a u d á c i a q u e permitia a o g u e r r e i r o e x e c u t a r a q u e l a s a ç õ e s
as m o d i f i c a ç õ e s do a r m a m e n t o e u m a r e v o l u ç ã o na técni- b r i l h a n t e s , e n c o n t r a v a - a n u m a espécie d e e x a l t a ç ã o , d e
ca do c o m b a t e t r a n s f o r m a m o p e r s o n a g e m do g u e r r e i r o , f u r o r belicoso, a lyssa, o n d e o lançava, c o m o f o r a de si
r e n o v a m seu e s t a t u t o social e seu retrato psicológico. 6 m e s m o , o menos, o a r d o r i n s p i r a d o por um d e u s . M a s o
O aparecimento do hoplita, pesadamente armado, hoplita já n ã o c o n h e c e o c o m b a t e singular; deve recusar,
c o m b a t e n d o em linha, e seu e m p r e g o em f o r m a ç ã o cerra- s e s e lhe o f e r e c e , a t e n t a ç ã o d e u m a p r o e z a p u r a m e n t e
da s e g u n d o o princípio da falange d ã o um g o l p e decisivo individual. É o h o m e m da batalha de b r a ç o a braço, da luta
n a s p r e r r o g a t i v a s m i l i t a r e s d o s hippeis. Todos os que o m b r o a o m b r o . Foi t r e i n a d o em m a n t e r a posição, m a r -
p o d e m fazer as despesas de seu e q u i p a m e n t o de hoplitas c h a r em o r d e m , lançar-se c o m passos iguais c o n t r a o ini-
— isto é, os p e q u e n o s p r o p r i e t á r i o s livres q u e f o r m a m o migo. cuidar, no meio da peleja, de n ã o deixar seu posto. A
virtude g u e r r e i r a n ã o é m a i s da o r d e m do thymós; é feita
de sophrosyne: um d o m í n i o c o m p l e t o de si, um c o n s t a n t e
5
Cf. V. Ehrenberg (Origins of democracy, 1. c.), que lembra que o c o n t r o l e p a r a submeter-se a u m a disciplina c o m u m , o san-
canto de Harmódios e Aristogiton glorifica esses eupátridas por
gue f r i o necessário para r e f r e a r os impulsos instintivos q u e
terem feito os atenienses isonomous; cf. também Tucídides. III, 62.
6
Cf. A. Andrews. The Greek tyrants, Londres. 1956, cap. 3: The c o r r e r i a m o risco de p e r t u r b a r a o r d e m geral da f o r m a ç ã o .
military factor; F. E Adcock. The Greek and Macedoniun art of \var, A f a l a n g e faz do hoplita, c o m o a cidade faz do c i d a d ã o ,
Berkeley and Los Angeles, 1957; sobre a data do aparecimento do
uma unidade permutável, um elemento semelhante a
hoplita. cf. P. Courbin. Une tombe géométrique d'Argos, Bulletin de
correapomiance hellénique. 81. 1957, pp. 322-384. t o d o s os o u t r o s , e c u j a aristeia, o valor i n d i v i d u a l , n ã o
AS ORIGENS DO PENSAMENTO G R E G O
O universo espiritual da polis

deve jamais se manifestar senão no quadro imposto pela


busca no combate de uma glória puramente particular —,
manobra de conjunto, pela coesão de grupo, pelo efeito de
a ostentação da riqueza, o luxo das vestimentas, a suntuo-
massa, novos instrumentos da vitória. Até na g u e r r a , a
sidade dos funerais, as manifestações excessivas da dor em
Eris, o desejo de triunfar do adversário, de a f i r m a r sua
c a s o d e luto, u m c o m p o r t a m e n t o m u i t o o s t e n s i v o d a s
superioridade sobre outrem, deve submeter-se à Philia, ao
mulheres, ou o comportamento demasiado seguro, dema-
espírito de comunidade; o poder dos indivíduos deve in-
siado audacioso da juventude nobre.
clinar-se diante da lei do grupo. Heródoto, ao mencionar,
Todas essas práticas são d o r a v a n t e rejeitadas por-
após cada narrativa de batalha, os nomes das cidades e dos
que, acusando as desigualdades sociais e o sentimento de
indivíduos que se mostraram os mais valentes em Platéia,
distância entre os indivíduos, suscitam a inveja, criam dis-
dá a palma, entre os espartanos, a Aristodamo: o h o m e m
sonâncias no grupo, põem em perigo seu equilíbrio, sua
fazia parte dos trezentos lacedemônios que tinham defen-
unidade, dividem a cidade contra si mesma. O q u e agora
dido as Termópilas; só ele tinha voltado são e salvo; preo-
é preconizado é um ideal austero de reserva e de modera-
cupado em lavar o opróbrio q u e os espartanos ligavam a
ção, um estilo de vida severo, quase ascético, que faz desa-
essa sobrevivência, procurou e encontrou a morte em Pla-
parecer entre os cidadãos as diferenças de costumes e de
téia ao realizar façanhas admiráveis. Mas não foi a ele q u e
condição para melhor aproximá-los uns dos outros, uni-
os espartanos concederam, com o prêmio da bravura, as
los como os membros de uma só família.
h o n r a s f ú n e b r e s devidas a o s melhores; recusaram-lhe a
Em Esparta, é o fator militar que parece efetivamen-
aristeia porque, combatendo furiosamente, como um ho-
te ter desempenhado no advento da mentalidade nova o
m e m alucinado pela lyssa, tinha abandonado seu posto. 7
papel decisivo. A Esparta do século VII não é ainda aque-
A narrativa ilustra de maneira s u r p r e e n d e n t e uma
le estado cuja originalidade provocará entre os outros gre-
atitude psicológica que não se manifesta somente no domí-
gos u m e s p a n t o m i s t u r a d o d e a d m i r a ç ã o . E s t á e n t ã o
nio da guerra, mas que, em todos os planos da vida social,
empenhada no movimento geral da civilização que leva as
marca uma viragem decisiva na história da Polis. Chega a r i s t o c r a c i a s d a s diversas c i d a d e s a o luxo, f a z e n d o - a s
um m o m e n t o em que a cidade rejeita as atitudes tradicio- desejar uma vida mais refinada e buscar as empresas lucra-
nais da aristocracia tendentes a exaltar o prestígio, a refor- tivas. A r u p t u r a se p r o d u z e n t r e os séculos VII e VI.
çar o poder dos indivíduos e dos gene, a elevá-los acima do Esparta concentra-se em si mesma, fixa-se em instituições
c o m u m . São assim condenados c o m o d e s c o m e d i m e n t o , que a consagram completamente à guerra. N ã o somente
como hybris — do mesmo m o d o que o furor guerreiro e a repudia a ostentação da riqueza, mas fecha-se a tudo o que
é intercâmbio com o estrangeiro, comércio, atividade arte-
7
| Heródoto, IX, 71. sanal; proíbe o uso dos metais preciosos, depois a moeda
68
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO O universo espiritual da polis

de ouro e de prata; permanece fora das grandes correntes os elementos sociais que representam funções, virtudes ou
intelectuais, negligencia as letras e as artes em que se tinha valores opostos. Nesse equilíbrio recíproco assenta-se a uni-
celebrizado antes. A filosofia e o pensamento gregos pare- dade do Estado, ficando cada elemento contido pelos
cem assim não lhe dever nada. outros nos limites que não deve ultrapassar. Plutarco atribui
Deve-se dizer somente "parecem". As transformações assim à gerousia um papel de contrapeso que mantém entre
sociais e políticas que as novas técnicas de guerra produzem a apella popular e a autoridade real, um constante equilí-
em Esparta e que resultam numa cidade de hoplitas tradu- brio que se coloca, segundo o caso. do lado dos reis para
zem, no plano das instituições, aquela mesma exigência de opor-se à democracia, ou do lado do povo para impedir o
um mundo humano equilibrado, ordenado pela lei, que os poder de um só. 8 Da mesma maneira, a instituição dos
Sábios pela mesma época formularão no plano propriamen- éphoroi representa no corpo social um elemento guerreiro,
te conceptual nas cidades que. por falta de uma solução do "júnior" e popular, por oposição à gerousia aristocrática,
tipo espartano, conhecerão sedições e conflitos interiores. qualificada, como convém a "seniores", por uma pondera-
Insistiu-se com razão no arcaísmo de instituições às quais ção e uma sabedoria que devem contrabalançar a audácia e
Esparta ficará obstinadamente presa: classes de idades, ini- o vigor guerreiros dos couroi.
ciações guerreiras, criptia. Mas deve-se também sublinhar No Estado espartano, a sociedade já não forma,
outras características que a tornam adiantada para o seu como nos reinos micênicos, uma pirâmide cujo cimo o rei
tempo: o espírito igualitário de uma reforma que suprime a ocupa. Todos os que, tendo recebido o treino militar com
oposição antiga do laós e do demos para constituir um a série das provas e iniciações que comporta, possuem um
corpo de soldados-cidadãos. definidos como hómoioi e dis- kleros e participam das sissitias encontram-se elevados ao
pondo todos eles em princípio de um lote de terra, de um mesmo plano. É esse plano que define a cidade. 9 A ordem
kleros, exatamente igual ao dos outros. A essa primeira social já não aparece então sob a dependência do sobera-
forma de isomoira (talvez houvesse então uma nova parti- no; já não está ligada ao poder criador de um personagem
lha das terras) deve-se acrescentar o aspecto comunitário de excepcional, à sua atividade de ordenador. É a ordem, ao
uma vida social que impõe a todos um mesmo regime de contrário, que regula o poder de todos os indivíduos, que
austeridade, que codifica, por aversão ao luxo, até a manei-
ra pela qual as casas particulares devem ser construídas, e
8
que institui a prática das sissitias, das refeições comuns a Plutarco, Vida de Lucurgo, V, 11. c Aristóteles. Politica, 1265 b 35.
9
que cada um leva, todos os meses, seu escote regulamentar Bem entendido, a cidade implica, ao lado dos cidadãos e em con-
traste com eles, todos aqueles que. cm graus diversos, são privados
de cevada, de vinho, de queijo e de figos. Deve-se notar
dos valores ligados à plena cidadania: em Esparta, os hipoméionas,
enfim que o regime de Esparta, com sua dupla realeza, a os periecos. os hilotas. os escravos. A igualdade se esboça num
apella, os éphoroi e a gerousia, realiza um "equilíbrio" entre fundo de desigualdade.

70
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO

impõe um limite à sua vontade de expansão. A ordem é


primeira em relação ao poder. A arché pertence na realida-
de exclusivamente à lei. Todo indivíduo ou toda facção
que pretende assegurar-se o monopólio da arché ameaça,
p o r esse golpe contra o equilíbrio das o u t r a s forças, a
CAPÍTULO V
homónoia do corpo social e põe em risco, com isso, a pró-
pria existência da cidade.
A CRISE DA C I D A D E .
Mas se a nova Esparta reconhece assim a supremacia
da lei e da ordem, é por ter-se orientado para a guerra; a
O S P R I M E I R O S SÁBIOS
t r a n s f o r m a ç ã o do Estado ali obedece p r i m e i r a m e n t e a
preocupações militares. É na prática dos combates mais
que nas controvérsias da ágora que os hómoioi se exerci- N u m diálogo hoje perdido, Sobre a filosofia, Aristó-
tam. I g u a l m e n t e , a palavra n ã o poderá tornar-se, em teles evocava os grandes cataclismas que periodicamente
Esparta, o instrumento político que será em outros luga- destroem a humanidade; retraçava as etapas q u e devem
res, nem adotará forma de discussão, de argumentação, de percorrer cada vez os raros sobreviventes e sua descendên-
refutação. No lugar de Peithó força de persuasão, os lace- cia para refazer a civilização: os que escaparam assim ao
demônios celebrarão, como instrumento da lei, o poder de dilúvio de Deucalião tiveram primeiramente que redesco-
Phobos, esse temor q u e curva todos os cidadãos à obe- brir os meios elementares de subsistência e, depois, reen-
diência. Gabar-se-ão de apreciar nos discursos somente a contrar as artes que embelezam a vida; num terceiro está-
concisão e de preferir às sutilezas dos debates contraditó- dio, prosseguia Aristóteles, "dirigiram seus olhares para a
rios as fórmulas sentenciosas e definitivas. A palavra con- organização da Polis, inventaram as leis e todos os víncu-
tinua a ser para eles aquelas rhetrai, aquelas leis quase ora- los que reúnem as partes de uma cidade; e essa invenção,
culares a que eles se submetem sem discussão e que recu- n o m e a r a m - n a Sabedoria; é desta sabedoria (anterior à
sam entregar pela escrita a uma plena publicidade. Por ciência física, a physiké theoria, e à Sabedoria suprema
mais avançada que possa ter sido, Esparta deixará a outros que tem por objeto as realidades divinas) q u e foram provi-
a h o n r a de exprimir p l e n a m e n t e a nova c o n c e p ç ã o da dos os Sete Sábios, que precisamente inventaram as virtu-
ordem quando, sob o reino da lei, a Cidade se tornar um des próprias do cidadão". 1
cosmos equilibrado e harmonioso. Não serão os lacedemô-
nios que vão saber destacar e explicitar em todas as suas
1
Sobre o Peri philosophias de Aristóteles, cf. A. J. Festugière, La
conseqüências as noções morais e políticas q u e eles, entre
révélation d'Hermes Trismégiste, II, Le dieu cosmique. Paris, 1949,
os primeiros, terão encarnado em suas instituições. pp. 219 e ss. e App. 1.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A crise da Cidade. Os primeiros sábios

S o b r e e s s e d a d o t r a d i c i o n a l d o s S e t e S á b i o s , seria q u a d r o e para elaborar as noções f u n d a m e n t a i s da nova


v ã o a p o i a r u m a c o n c l u s ã o histórica: a lista d o s S e t e é flu- ética grega. Poder-se-ia dizer, e s q u e m a t i z a n d o m u i t o , q u e
t u a n t e e variável; n ã o o b s e r v a n e m cronologia, n e m veros- o p o n t o de partida da crise é de o r d e m e c o n ô m i c a , q u e ela
s i m i l h a n ç a . E n t r e t a n t o , o p a p e l político e social a t r i b u í d o reveste na origem a f o r m a de u m a e f e r v e s c ê n c i a religiosa
aos S á b i o s , a s m á x i m a s q u e são c o n s i d e r a d a s d e sua a u t o - a o m e s m o t e m p o q u e social, m a s q u e , n a s c o n d i ç õ e s p r ó -
ria, p e r m i t e m a p r o x i m a r , u n s d o s o u t r o s , p e r s o n a g e n s p r i a s à cidade, leva d e f i n i t i v a m e n t e ao n a s c i m e n t o de u m a
q u e , q u a n t o a o resto, e m t u d o s e o p õ e m : u m Tales, u n i n d o r e f l e x ã o m o r a l e política, de c a r á t e r laico, q u e e n c a r a de
a t a n t a s o u t r a s c o m p e t ê n c i a s a do h o m e m de E s t a d o —, m a n e i r a p u r a m e n t e positiva o s p r o b l e m a s d a o r d e m e d a
u m S ó l o n , p o e t a elegíaco, á r b i t r o d a s lutas políticas ate- desordem no mundo humano.
n i e n s e s , r e c u s a n d o a tirania —, um P e r i a n d r o , t i r a n o de As transformações econômicas — que devemos
C o r i n t o — , u m E p i m ê n i d e s , o p r ó p r i o t i p o d o m a g o inspi- limitar-nos a m e n c i o n a r — e s t ã o ligadas a um f e n ô m e n o
rado, do theios aner, q u e se a l i m e n t a v a de m a l v a e de asfó- cuja importância aparece igualmente decisiva no plano
delo, e c u j a alma se liberta do c o r p o , à v o n t a d e . P o r m e i o espiritual: a retomada e o desenvolvimento dos contatos
d e u m a m i s t u r a d e d a d o s p u r a m e n t e lendários, d e alusões com o Oriente, que com a q u e d a do império micênico
históricas, de s e n t e n ç a s políticas e de c h a v õ e s m o r a i s , a t i n h a m s i d o r o m p i d o s . N a G r é c i a c o n t i n e n t a l , a s relações
tradição mais ou m e n o s mítica dos Sete Sábios faz-nos e n c o n t r a m - s e restabelecidas n o século VIII p o r i n t e r m é d i o
atingir e c o m p r e e n d e r um m o m e n t o de história social. d o s n a v e g a d o r e s fenícios. N a s costas da Jônia, os g r e g o s
M o m e n t o de crise, q u e c o m e ç a no fim do século VII e se e n t r a m em c o n t a t o c o m o i n t e r i o r da A n a t ó l i a , especial-

desenvolve no VI, p e r í o d o de c o n f u s õ e s e de conflitos m e n t e c o m a Lídia. M a s é no ú l t i m o q u a r t e l do século VII

i n t e r n o s d e q u e d i s t i n g u i m o s a l g u m a s d a s c o n d i ç õ e s eco- q u e a e c o n o m i a das c i d a d e s , na E u r o p a e na Ásia, volta-se

n ô m i c a s ; p e r í o d o q u e o s g r e g o s viveram, n u m p l a n o reli- d e c i d i d a m e n t e para o exterior; o tráfico p o r m a r vai e n t ã o

gioso e m o r a l , c o m o u m a d i s c u s s ã o d e t o d o seu s i s t e m a d e a m p l a m e n t e u l t r a p a s s a r a bacia oriental do M e d i t e r r â n e o ,

valores, u m golpe c o n t r a a p r ó p r i a o r d e m d o m u n d o , u m e n t r e g u e a seu papel de via de c o m u n i c a ç ã o . A z o n a d o s

e s t a d o de e r r o e de i m p u r e z a . i n t e r c â m b i o s estende-se a o e s t e até a África e à E s p a n h a , a


leste a t é a o M a r N e g r o . 2 E s s e a l a r g a m e n t o d o h o r i z o n t e
A s c o n s e q ü ê n c i a s d e s s a crise s e r ã o , n o d o m í n i o d o
direito e da vida social, as r e f o r m a s às q u a i s se a c h a m pre- 2
Sobre a expansão dos gregos no Mediterrâneo e a retomada dos
c i s a m e n t e a s s o c i a d o s n ã o s ó adivinhos p u r i f i c a d o r e s c o m o contatos com o Oriente, cf. Jean Bérard. La colonisation grecque de
E p i m ê n i d e s , m a s t a m b é m n o m ó t e t a s c o m o S ó l o n , aisim- 1'Italie Méridionale et de la Sicile datis VAntiquité, Paris. 1957; La
migration éolienne, Re\>ue Archéologique, 1959. pp. 1-28; Thomas
n e t a s c o m o Pítaco, o u t i r a n o s c o m o P e r i a n d r o . S e r á tam-
J. Dunbabin, The Greeks and their eastern neighbours. Studies in
bém, no domínio intelectual, um esforço para traçar o

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AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A crise da Cidade. Os primeiros sábios

m a r í t i m o r e s p o n d e aliás a u m a exigência m u i t o i m p e r i o s a : sa. M o s t r a q u e a influência d o O r i e n t e n ã o s e fixa s o m e n -


o desenvolvimento demográfico dispõe o problema dos te na cerâmica, nos temas figurados, na o r n a m e n t a ç ã o da
cereais de m a n e i r a t ã o m a i s a m p l a q u e a a g r i c u l t u r a helé-
vida. S e d u z i d a pelo luxo, p e l o r e q u i n t e , pela o p u l ê n c i a , a
nica t e n d e d o r a v a n t e a f a v o r e c e r as c u l t u r a s m a i s lucrati-
a r i s t o c r a c i a grega d o s é c u l o VII inspira-se, e m s e u s g o s t o s ,
vas, c o m o a v i n h a e a oliveira, c u j o s p r o d u t o s p o d e m ser,
em seus c o s t u m e s , n e s s e ideal f a u s t o s o e d e l i c a d o de úppo-
p o r sua vez, e x p o r t a d o s e t r o c a d o s . P r o c u r a de t e r r a , p r o -
o ò v r j q u e caracteriza o m u n d o o r i e n t a l . 5 A o s t e n t a ç ã o da
c u r a de a l i m e n t o , p r o c u r a t a m b é m do m e t a l , tal é o trípli-
r i q u e z a t o r n a - s e , d e s d e e n t ã o , u m d o s e l e m e n t o s d o pres-
ce objetivo q u e se pôde atribuir à expansão grega pelo Me-
tígio d o s gene, um m e i o , q u e se u n e ao valor g u e r r e i r o e às
diterrâneo. No decurso da época sombria, n u m a Grécia
q u a l i f i c a ç õ e s religiosas, p a r a m a r c a r a s u p r e m a c i a , assegu-
isolada e d e s p r o v i d a de r i q u e z a s de m i n a s , o o u r o e a p r a t a
r a r o d o m í n i o s o b r e o s rivais. E x e r c e n d o - s e n o t e r r e n o d a
t i n h a m - s e t o r n a d o raros, q u a n d o n ã o t i n h a m d e s a p a r e c i d o
r i q u e z a , c o m o em o u t r o s , a Eris a r i s t o c r á t i c a p ô d e agir. na
d e t o d o . A p a r t i r d o s é c u l o VIII a b r e m - s e f o n t e s n o v a s d e
sociedade grega, c o m o um f e r m e n t o de dissociação, de
a b a s t e c i m e n t o e m m e t a i s preciosos; d u r a n t e t o d o o s é c u l o
divisão. P e r s o n a g e n s n o v o s a p a r e c e m n o p r ó p r i o seio d a
VII, a q u a n t i d a d e de o u r o , de p r a t a e de e l e c t r o p o s t a em
n o b r e z a : o h o m e m b e m - n a s c i d o , o kalôs kagathós, que,
c i r c u l a ç ã o n o m u n d o g r e g o a u m e n t a ; seu u s o d e s e n v o l v e -
p o r e s p í r i t o d e lucro o u p o r n e c e s s i d a d e , e n t r e g a - s e a o trá-
se, s o b f o r m a s d i v e r s a s : j ó i a s , t r a b a l h o d e o u r i v e s a r i a ,
fico marítimo; uma parte da aristocracia transforma-se:
o b j e t o s pessoais, ex-votos, r i q u e z a a c u m u l a d a a título pri-
c o m o o e s c r e v e Louis G e r n e t , p a s s a d o e s t á d i o d o " f e u d a l "
vado ou entesourada nos templos, enfim moedagem, após
ao de gentleman farmer.4 V ê - s e surgir um t i p o de p r o p r i e -
sua i n v e n ç ã o n o fim d o s é c u l o VII pelos reis d a Lídia.
t á r i o d e b e n s d e raiz q u e vela p e l o r e n d i m e n t o d e s u a s ter-
N ã o é fácil a p r e c i a r e x a t a m e n t e as m u d a n ç a s de
ras, q u e t o r n a sua c u l t u r a especializada, p r o c u r a a u m e n t á -
e s t r u t u r a social c a u s a d a p o r essa o r i e n t a ç ã o d e t o d o u m
las i n t e r e s s a n d o - s e p o r e s s a " r e s e r v a " q u e fica. a o l a d o d a s
s e t o r d a e c o n o m i a grega p a r a o c o m é r c i o m a r í t i m o . P o r
" t e n ê n c i a s de s e r v o s " e d o s kleroi d o s p e q u e n o s c u l t i v a d o -
falta d e evidência d i r e t a , n ã o s e p o d e inferir s u a n a t u r e z a
res livres, a b e r t a às o b r a s de a r r o t e a m e n t o ; o n o b r e — q u e
e a m p l i d ã o senão a partir de t e s t e m u n h o s literários q u e
é t a m b é m a g o r a um rico — e s t e n d e sua e m p r e s a s o b r e a
c o n c e r n e m às formas novas de sensibilidade e de pensa-
eschatié a e x p e n s a s d a s c o l e t i v i d a d e s aldeãs; p o d e m e s m o
m e n t o . A p o e s i a lírica é a e s s e r e s p e i t o u m a f o n t e precio-
a p r o p r i a r - s e d o s bens d e s e u s o b r i g a d o s : clientes o u d e v e -

íhe relation between Greece and the countries of the Near East in
the eight and seventh centuries, Londres, 1957: Carl Roebuck. 3
Cf. Santo Mazzarino. Fra oriente e occidente. Ricerche di storia
lonan Irade and colonization, Nova York, 1959; Michel B. greda arcaica, Florença. 1947.
Sakellariou, La migration grecque en lonie, Atenas, 1958. 4
L. Gernet. "Horoi", Studi in onore de U. E. Paoli. p. 348.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A crise da Cidade. Os primeiros sábios

d o r e s eventuais. A c o n c e n t r a ç ã o da p r o p r i e d a d e territorial organizá-la e m c o n f o r m i d a d e c o m aspirações c o m u n i t á -


em p o u q u í s s i m a s mãos, o a v a s s a l a m e n t o da m a i o r parte rias e igualitárias t ã o fortes q u e nessa idade do F e r r o —
d o demos, reduzido ao estado de "sesmeiro", fazem da em q u e os poderosos p e r d e r a m toda vergonha, em q u e a
q u e s t ã o agrária o problema capital desse período arcaico. Aidós teve de deixar a terra pelo céu, d e i x a n d o o c a m p o
Sem dúvida, desenvolveu-se uma população de artesãos livre ao d e s e n c a d e a m e n t o d a s p a i x õ e s i n d i v i d u a i s e à
q u e p ô d e ser r e l a t i v a m e n t e n u m e r o s a e m c e r t o s s e t o r e s Hybris, as relações sociais a p a r e c e m m a r c a d a s pela violên-
c o m o a cerâmica e a metalurgia (deve-se assinalar a esse cia, pela a s t ú c i a , pela a r b i t r a r i e d a d e e pela i n j u s t i ç a . O
respeito um f a t o técnico de g r a n d e alcance: a metalurgia do esforço da renovação atua em m u i t o s planos: é ao m e s m o
ferro, no fim do século VIII, substitui a do b r o n z e n o s obje- t e m p o religioso, jurídico, político, econômico; s e m p r e visa
tos de p r o d u ç ã o corrente); c o m os lojistas e t o d o o popula- restringir a dynamis dos gene, q u e r fixar um limite à sua
c h o que, na costa e no porto, vive do mar, os artesãos for- a m b i ç ã o , à s u a iniciativa, a o seu d e s e j o d e p o d e r , s u b -
m a m até na cidade, residência aristocrática, u m a categoria m e t e n d o - o s a u m a regra geral c u j a coação se aplique igual-
social nova cuja importância irá crescendo. Mas, no século mente a todos. Essa n o r m a s u p e r i o r é a Dike q u e o M a g o
VII, a o p o s i ç ã o q u e se aviva e n t r e " u r b a n o s " e " r u r a i s " invoca c o m o um p o d e r divino, q u e o n o m ó t e t a p r o m u l g a
ergue ainda contra os nobres, q u e vivem en asty, na cidade, em suas leis, e de que p o d e às vezes inspirar-se o tirano,
o n d e se e n c o n t r a m a g r u p a d o s os edifícios públicos associa- m e s m o se a d e t u r p a , i m p o n d o - a pela violência; é ela q u e
d o s à arché, u m a classe aldeã, encarregada de alimentá-los deve e s t a b e l e c e r e n t r e os c i d a d ã o s um j u s t o equilíbrio a
e q u e povoa as aldeias periféricas, os demoi. g a r a n t i r a eunomia: a divisão eqüitativa d o s c a r g o s , d a s
As m u d a n ç a s técnicas e e c o n ô m i c a s q u e e v o c a m o s h o n r a s , do p o d e r entre os indivíduos e as facções q u e c o m -
n ã o se limitam ao m u n d o grego; as cidades fenícias, em p õ e m o c o r p o social. A Dike assim concilia, h a r m o n i z a
p l e n o d e s e n v o l v i m e n t o c o m e r c i a l d e s d e o s é c u l o IX, esses e l e m e n t o s para deles fazer u m a só e m e s m a c o m u n i -
c o n h e c e r a m análogas t r a n s f o r m a ç õ e s . 5 O q u e é p r ó p r i o da d a d e , u m a c i d a d e unida.
Grécia é a r e a ç ã o q u e elas suscitam no g r u p o h u m a n o : sua O s p r i m e i r o s t e s t e m u n h o s d o espírito novo t ê m rela-
recusa a uma situação sentida e d e n u n c i a d a c o m o um esta- ç ã o c o m certas matérias de Direito. A legislação s o b r e o
do de anomia, a r e f u n d i ç ã o de t o d a a vida social p a r a h o m i c í d i o m a r c a o m o m e n t o em q u e o assassínio deixa de
ser u m a q u e s t ã o privada, um a j u s t e de contas e n t r e gene;
à vingança do sangue, limitada a um círculo estreito, m a s
5 Sobre as analogias e as diferenças, no plano socioeconómico entre obrigatório p a r a os parentes do m o r t o e q u e p o d e engen-
o mundo fenício e o mundo grego, cf. as notas dc G. Thomson,
d r a r um ciclo fatal de assassínios e de vinganças, substitui-
iStudies in ancient Greek society, II. The firsí philòsophers, Londres.
1955. s e u m a r e p r e s s ã o organizada n o q u a d r o d a cidade, c o n t r o -
A crise da Cidade. Os primeiros sábios
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO

i n s p i r a d o c u j o saber, diz-nos Aristóteles, d e s c o b r e o passa-


lada pelo g r u p o e o n d e a coletividade se e n c o n t r a c o m p r o -
do, n ã o o f u t u r o : seu d o m de d u p l a visão faz c o n h e c e r c o m
m e t i d a c o m o tal. N ã o é m a i s s o m e n t e para os p a r e n t e s da
e f e i t o as faltas antigas: desvela os crimes i g n o r a d o s c u j a
vítima, m a s para a c o m u n i d a d e inteira q u e o a s s a s s i n o se
i m p u r e z a engendra, n o s indivíduos e nas cidades, um esta-
t o r n a um o b j e t o de i m p u r e z a . Essa universalização da con-
do de p e r t u r b a ç ã o e de e n f e r m i d a d e , o delírio frenético da
d e n a ç ã o do c r i m e , o h o r r o r i n s p i r a d o d o r a v a n t e p o r toda
mania, c o m seu cortejo de d e s o r d e n s , de violências e assas-
e s p é c i e d e a s s a s s í n i o , a o b s e s s ã o d o miasma que pode
sínios. M a s esse r e f o r m a d o r religioso, f u n d a d o r de santuá-
r e p r e s e n t a r p a r a u m a cidade, p a r a um território, o s a n g u e
rios e de ritos, aparece aliás c o m o um conselheiro político
d e r r a m a d o , a exigência de u m a expiação q u e é ao m e s m o
q u e S ó l o n associa à sua o b r a legislativa. É q u e se trata no
t e m p o uma purificação do mal — todas essas atitudes
f u n d o , n o s dois casos, de u m a atividade o r i e n t a d a no
estão ligadas ao d e s p e r t a r religioso q u e se m a n i f e s t a n o s
m e s m o s e n t i d o e q u e visa, t a n t o n u m plano c o m o no outro,
c a m p o s p e l o p r o g r e s s o d o d i o n i s i s m o e q u e reveste, e m
o r d e n a r a vida social, reconciliar e unificar a c i d a d e . Na
meios m a i s especializados, a f o r m a de um m o v i m e n t o de
Vida de Sólon, Plutarco, s u b l i n h a n d o o papel de Epimê-
seitas c o m o a d o s "Órficos". Ao lado de um " e n s i n o " s o b r e
nides n a r e g u l a m e n t a ç ã o d o luto q u e ele t o m a m a i s equili-
o d e s t i n o das almas, seu castigo no Hades, a h e r e d i t a r i e d a -
b r a d o e m a i s pacífico, e n a s m e d i d a s r e f e r e n t e s ao b o m
de da falta, o ciclo d a s r e e n c a r n a ç õ e s e a c o m u n i d a d e de
c o m p o r t a m e n t o das m u l h e r e s , conclui: " T e n d o , c o m o a o
t o d o s os seres a n i m a d o s , essa r e n o v a ç ã o religiosa ca-
t e r m o de u m a iniciação, santificado e c o n s a g r a d o a cidade
racteriza-se pela instituição de processos p u r i f i c a i ó r i o s em
por ritos expiatórios, purificações, fundações, tornou-a
relação c o m as crenças novas. No livro IX d a s Leis, Platão,
o b e d i e n t e ao direito e m a i s dócil (deixando-se mais facil-
tratando do homicídio, sentirá ainda a necessidade de
m e n t e persuadir: eímevOi]) no sentido da homónoia."
referir-se explicitamente à d o u t r i n a , ao logos, d o s "sacer-
U m a observação d e Aristóteles, breve m a s sugestiva,
d o t e s q u e se o c u p a m das teletai". Na classe d e s s e s m a g o s
permite-nos melhor a p r e e n d e r c o m o , nessa viragem da his-
purificadores, a figura de E p i m ê n i d e s destaca-se c o m um
tória da c i d a d e , o religioso, o j u r í d i c o e o social p o d e m
relevo particular. Plutarco define-o como um Sábio em
achar-se associados num m e s m o esforço de renovação.7
m a t é r i a divina, d o t a d o de u m a sophia "entusiasta e iniciá-
Aristóteles q u e r d e m o n s t r a r o caráter natural da Polis: ela
tica"; 6 é ele q u e é c h a m a d o a A t e n a s para e x p u l s a r o mias-
é c o m o u m a família ampliada, pois q u e se f o r m a a g r u p a n -
ma q u e p e s a s o b r e a c i d a d e a p ó s o a s s a s s í n i o d o s Cilo-
d o a l d e i a s q u e , p o r sua vez, r e ú n e m n ú c l e o s familiares.
nides. P r o m o t o r de ritos catárticos, é t a m b é m um a d i v i n h o
Nota q u e o oikos, a família doméstica, é u m a c o m u n i d a d e

7
Aristóteles, Política, 1252 b 15.
6
I Plutarco, Vida de Sólon, XII, 7-12.

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AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A crise da Cidade. Os primeiros sábios

natural, u m a koinonia; e lembra nessa o c a s i ã o os n o m e s a o s c i d a d ã o s o s e n t i m e n t o d e q u e eles s ã o d e a l g u m a


p e l o s q u a i s o s m e m b r o s d o oikos eram designados por m a n e i r a irmãos. Nada é m a i s suscetível de f o r t a l e c e r essa
C a r o n d a s e p o r Epimênides. A a p r o x i m a ç ã o é em si m e s m a c o n v i c ç ã o do q u e a c o n s u m i ç ã o de um a l i m e n t o c o z i d o na
i n t e r e s s a n t e . C a r o n d a s é o legislador de C a t a n i a ; c o m o m e s m a lareira e dividido na m e s m a mesa: a refeição é u m a
Z a l e u c o de Locres, q u e é c o n s i d e r a d o seu m e s t r e e ao qual c o m u n h ã o q u e realiza e n t r e convivas u m a i d e n t i d a d e d e
seu n o m e é n o r m a l m e n t e a s s o c i a d o , teria f e i t o p r e c e d e r ser, u m a e s p é c i e d e c o n s a n g ü i n i d a d e . C o m p r e e n d e - s e ,
suas Leis de um prelúdio, análogo ao q u e Platão i n t r o d u z d e s d e e n t ã o , q u e o assassínio de um c o n c i d a d ã o possa pro-
c o m o Prólogo no capítulo IX c o n s a g r a d o ao direito crimi- vocar no c o r p o social o m e s m o h o r r o r religioso, o m e s m o
nal: trata-se de u m a verdadeira encantação, de u m a s e n t i m e n t o d e u m a i m p u r e z a sacrílega q u e s e s e tivesse
"éTccoôíi". q u e deve ser c a n t a d a e q u e se dirige àqueles c u j o t r a t a d o d e u m crime c o n t r a u m p a r e n t e d e m e s m o sangue.
espírito é o b s e d a d o pelo p e n s a m e n t o de atos í m p i o s e cri- P r o v a d e q u e a c o n s c i ê n c i a social t e n h a e f e t i v a m e n t e
minosos. Antes de p r o m u l g a r as penas repressivas, os legis- influído nesse sentido tem-se na evolução semântica do
ladores q u e r e m agir p r e v e n t i v a m e n t e sobre o s m a u s p o r t e r m o q u e designa o assassino: aúdèvxTiç, p r i m e i r a m e n t e ,
u m a magia purificante, u m a espécie de yorixeta, q u e utiliza é o assassino de um parente; depois, o assassino e s t r a n h o
a v i r t u d e c a l m a n t e da música e da palavra c a n t a d a ; o crimi- à família da vítima, m a s e n c a r a d o em sua relação c o m essa
n o s o é a p r e s e n t a d o c o m o um "possesso", um f u r i o s o en- família, m a r c a d o , pelos p a r e n t e s da vítima q u e s e n t e m a
louquecido p o r um mau daimon, e n c a r n a ç ã o de u m a impu- seu respeito ódio e repulsa religiosa, com a m e s m a palavra
reza ancestral. Nessa alma p e r t u r b a d a , enferma, a cátharsis f o r t e q u e designa o assassino de um h o m e m de seu p r ó p r i o
m á g i c a do l e g i s l a d o r f a z v o l t a r a o r d e m e a s a ú d e , do sangue; e n f i m , o assassino de um indivíduo qualquer, sem
m e s m o m o d o q u e os ritos purificatórios de E p i m ê n i d e s res- idéia de u m a r e l a ç ã o e s p e c i a l c o m a f a m í l i a da v í t i m a .
tabelecem, na cidade c o n t u r b a d a pelas dissensões e pelas Q u a n d o se passou da vingança privada à r e p r e s s ã o judi-
violências, causadas p o r crimes antigos, a calma, a m o d e r a - ciária do crime, a palavra q u e definia o assassino de um
ção, a homónoia. p a r e n t e , d e p o i s o a s s a s s i n o em relação aos p a r e n t e s da
M a s a o b s e r v a ç ã o de A r i s t ó t e l e s vai m a i s l o n g e . vítima, p ô d e manter-se para designar o c r i m i n o s o à vista
C a r o n d a s e E p i m ê n i d e s d e s i g n a m os m e m b r o s do oikos de t o d o s s e u s c o n c i d a d ã o s . 8 A l é m disso, o q u e é v á l i d o
pelos t e r m o s ÓJÍOOITIÚOI, ó^OXÚTTOI, q u e s u b l i n h a m e n t r e
eles u m a "similaridade", ilustrada pelo f a t o de q u e parti-
lham o m e s m o pão, c o m e m à m e s m a mesa. É p r e c i s a m e n - 8 Cf. L. Gernet. Droit et société dana la Grèce ancienne. Paris. 1955,
pp. 29-50. Ver entretanto, contra: P. Chantraine. Encore
te o e s t a d o de espírito q u e preside, c o m o vimos, à institui-
"Aòúévxnç". Hommage à MavóXri TpiavTCítpi)XVt8r|, Atenas.
j ç ã o e s p a r t a n a das sissitias e n t r e hómoioi. Trata-se de d a r 1960. pp. 89-93.

82
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A crise da Cidade. Os primeiros sábios

p a r a os crimes de sangue o é t a m b é m para os o u t r o s deli- N ã o se poderia, pois, conceber o c o m e ç o do direito


tos. Aristóteles e Plutarco c o n t a m , entre as inovações mais fora de um certo clima religioso: o m o v i m e n t o místico cor-
felizes da c o n s t i t u i ç ã o de Sólon, o p r i n c í p i o s e g u n d o o r e s p o n d e a u m a c o n s c i ê n c i a c o m u n i t á r i a m a i s exigente;
qual o d a n o causado a um indivíduo particular é na reali- traduz u m a sensibilidade nova do grupo a respeito do
d a d e um a t e n t a d o contra todos; portanto, Sólon dá a cada assassínio, sua angústia d i a n t e das violências e os ó d i o s
um o direito de intervir em justiça em f a v o r de q u e m q u e r q u e a v i n g a n ç a privada e n g e n d r a , o s e n t i m e n t o de estar
q u e seja lesado e de fazer p u n i r a adilcia, sem ser pessoal- coletivamente comprometido, coletivamente ameaçado
m e n t e sua vítima. c a d a vez q u e corre o sangue, a v o n t a d e de r e g u l a m e n t a r as
Os diversos traços q u e os gregos a g r u p a r a m para relações d o s gene e de q u e b r a r seu particularismo. Entre-
c o m p o r a figura de um Epimênides n ã o f o r m a m um teste- t a n t o , essa efervescência mística n ã o se p r o l o n g a r á senão
m u n h o isolado. Um p e r s o n a g e m c o m o Abaris — q u e se em meios sectários m u i t o estreitamente circunscritos. N ã o
inscreve com outros magos: Aristeas, H e r m ó t i m o , na tra- dá o r i g e m a um vasto m o v i m e n t o de r e n o v a ç ã o religiosa
dição lendária do Pitagorismo — n ã o é s o m e n t e um x a m ã q u e a b s o r v e r i a f i n a l m e n t e a política. É o inverso q u e se
q u e voa pelos ares com sua flecha de ouro, vive sem ali- p r o d u z . As aspirações c o m u n i t á r i a s e unitárias v ã o inserir-
m e n t o e m a n d a sua a l m a v a g u e a r l o n g e d e seu c o r p o ; se m a i s d i r e t a m e n t e na realidade social, o r i e n t a r um esfor-
é , a o m e s m o t e m p o q u e u m cresmólogo, u m r e f o r m a d o r ço de legislação e de r e f o r m a ; mas, r e m o d e l a n d o assim a
religioso e um purificador; f u n d a , no q u a d r o da religião vida pública, elas próprias v ã o transformar-se, laicizar-se;
pública, ritos novos: em Atenas, os n p o r j p ó o i a ; a b r e san- e n c a r n a n d o - s e na instituição judiciária e na o r g a n i z a ç ã o
tuários protetores da c o m u n i d a d e : em Esparta, o de Core política, vão prestar-se a um trabalho de e l a b o r a ç ã o con-
salvadora; institui p r o c e s s o s catárticos q u e p e r m i t e m às ceptual. transpor-se a o p l a n o d e u m p e n s a m e n t o positivo.
c i d a d e s i m p e d i r o d e s e n c a d e a m e n t o de um loimós. Um Louis G e r n e t bem m o s t r o u em particular a m u t a ç ã o
p e r s o n a g e m h i s t ó r i c o c o m o O n o m á c r i t o , q u e s e liga a i n t e l e c t u a l q u e o a d v e n t o d o direito p r o p r i a m e n t e d i t o
Museu cujos oráculos compila e, se for preciso, falsifica, realiza. 9
d e s e m p e n h a j u n t o aos Psistrátidas um papel de a d i v i n h o No processo arcaico os gene e n f r e n t a v a m - s e , t e n d o
q u e coleciona, para uso de seus amos, compilações de orá- p o r a r m a s as f ó r m u l a s rituais e as provas previstas pelo
culos secretos a d a p t a d o s às circunstâncias; m a s é t a m b é m c o s t u m e : o j u r a m e n t o , o j u r a m e n t o solidário, o testemu-
um conselheiro político e até um embaixador; Aristóteles n h o . Essas p r o v a s t i n h a m valor decisório; p o s s u í a m u m
indica-nos q u e alguns o associavam a Licurgo, a C a r o n d a s p o d e r religioso; asseguravam a u t o m a t i c a m e n t e o êxito no
e a Z a l e u c o para dele fazer um dos primeiros peritos em
matéria de legislação.
9/6., pp. 61-81.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO

c u r s o d o p r o c e s s o , s e e r a m c o r r e t a m e n t e utilizadas, sem
q u e o juiz, em seu papel de p u r o á r b i t r o q u e se limitava a
verificar e a declarar a vitória ao t e r m o da prova de força,
tivesse q u e se indagar s o b r e o f u n d o , reconstituir o o b j e t o
do litígio, c o n h e c e r fatos em si mesmos. M a s q u a n d o , com CAPÍTULO VI
a cidade, o juiz representa o c o r p o cívico, a c o m u n i d a d e em
seu c o n j u n t o , e q u e , e n c a r n a n d o este ser impessoal supe- A O R G A N I Z A Ç Ã O DO
rior às p a r t e s , ele p r ó p r i o p o d e decidir, resolver s e g u n d o
COSMOS HUMANO'
sua c o n s c i ê n c i a e de a c o r d o c o m a lei, s ã o as p r ó p r i a s
n o ç õ e s de p r o v a , de t e s t e m u n h o e de j u l g a m e n t o q u e se
e n c o n t r a m r a d i c a l m e n t e t r a n s f o r m a d a s . O juiz deve c o m
e f e i t o t r a z e r à luz u m a v e r d a d e e m f u n ç ã o d a q u a l terá
A efervescência religiosa não contribuiu s o m e n t e
d o r a v a n t e de pronunciar-se. Pede às t e s t e m u n h a s q u e n ã o
para o n a s c i m e n t o do Direito. P r e p a r o u t a m b é m um esfor-
mais j u r e m , a f i r m a n d o - s e solidários d e u m a d a s d u a s par-
ç o d e r e f l e x ã o moral, o r i e n t a d o por especulações políticas.
tes, m a s q u e façam um relato d o s fatos. Por essa c o n c e p ç ã o
O t e m o r da impureza, a c u j o papel na o r i g e m da legislação
i n t e i r a m e n t e nova da prova e do t e s t e m u n h o , o processo
s o b r e o h o m i c í d i o n o s r e f e r i m o s , e n c o n t r a v a sua m a i s
e m p r e g a r á toda u m a técnica d e d e m o n s t r a ç ã o , d e recons-
intensa expressão na a s p i r a ç ã o mística a u m a vida p u r a de
t r u ç ã o do plausível e do provável, de d e d u ç ã o a partir de
t o d o c o n t a t o s a n g r e n t o . D a m e s m a m a n e i r a , a o ideal d e
indícios ou de sinais — e a atividade judiciária contribuirá
austeridade que se afirma no grupo em reação contra o
para e l a b o r a r a n o ç ã o de u m a verdade objetiva, q u e o pro-
d e s e n v o l v i m e n t o do c o m é r c i o , a o s t e n t a ç ã o do luxo, a
cesso antigo ignorava, n o q u a d r o d o "pré-jurídico".
b r u t a l insolência d o s ricos, c o r r e s p o n d e , s o b u m a f o r m a
e x t r e m a , o ascetismo p r e c o n i z a d o em c e r t o s a g r u p a m e n -
tos religiosos. O s m e i o s sectários p u d e r a m assim contri-
buir p a r a fazer u m a imagem nova da aretó. A virtude aris-
t o c r á t i c a e r a u m a q u a l i d a d e n a t u r a l ligada a o brilho d o

1
Utilizamos amplamente, neste capítulo, as indicações dadas por L.
Gernet num curso não publicado, dado na Ecole Pratique des
Hautes Etudes, em 1951, sobre as origens do pensamento político
entre os gregos.
AS O R I G E N S DO PENSAMENTO GREGO A organização do cosmos humano

nascimento, manifestando-se pelo valor no combate e pela te: nada há nela que possa marcar seu termo, limitá-la,
opulência do gênero de vida. Nos agrupamentos religio- realizá-la totalmente. A essência da riqueza é o descomedi-
sos, nâo somente a areté se despojou de seu aspecto guer- mento; ela é a própria figura que a hybris toma no mundo.
reiro tradicional, mas definiu-se por sua oposição a tudo Tal é o tema que volta, de maneira obsedante, no pensa-
que representasse como comportamento e forma de sensi- mento moral do século VI. As fórmulas de Sólon passadas
bilidade o ideal de habrosyne: a virtude é o fruto de uma a provérbios: "Não há termo para a riqueza. Koros, a sacie-
longa e penosa úskesis, de uma disciplina dura e severa, a dade, engendra hybris", fazem eco as palavras de Teógnis:
meleté\ emprega uma epiméléia, um controle vigilante "Os que hoje têm mais ambicionam o dobro. A riqueza, ta
sobre si, uma atenção sem descanso para escapar às tenta- chrémata, torna-se no homem loucura, aphrosyne. "Quem
ções do prazer, à hedoné, ao atrativo da moleza e da sen- possui quer mais ainda. A riqueza acaba por já não ter
sualidade, a malachia e a tryphé, para preferir uma vida outro objeto senão a si própria; feita para satisfazer as
inteira votada ao ponos, ao esforço penoso. necessidades da vida. simples meio de subsistência, torna-
As mesmas tendências rigoristas que percebemos de se seu próprio fim, coloca-se como necessidade universal,
certa maneira avultadas nos meios sectários, onde definem insaciável, ilimitada, que nada poderá jamais saciar. Na
uma disciplina de ascese que permite aos iniciados escapar raiz da riqueza descobre-se, pois, uma natureza viciada,
às injustiças deste mundo, sair do ciclo das reencarnações uma vontade pervertida e má, uma pleonexia: desejo de ter
e voltar ao divino, voltamos a encontrá-las em ação em mais q u e os outros, mais que sua parte, toda a parte.
plena vida social, modificando as condutas, os valores, as Ploutos comporta efetivamente aos olhos do grego uma
instituições, fora essa vez de toda preocupação de ordem fatalidade, mas não de ordem econômica; é a necessidade
escatológica. O fausto, a moleza, o prazer são rejeitados; o imanente a um caráter, a um ethos, a lógica de um tipo de
luxo proscrito do costume, da habitação, das refeições; a comportamento. Koros, hybris, pleonexia são as formas de
riqueza é denunciada e com que violência! Mas a condena- contra-senso de que se reveste, na Idade do Ferro, a arro-
ção visa a suas conseqüências sociais, aos males que ela gância aristocrática, este espírito de Eris que, em lugar de
engendra no grupo, às divisões e aos ódios que suscita na uma nobre emulação, não pode mais gerar senão injustiça,
cidade, ao estado de stasis que provoca como por uma opressão, dysnomia.
espécie de lei natural. A riqueza substitui todos os valores Em contraste com a hybris do rico, delineia-se o ideal
aristocráticos: casamento, honras, privilégios, reputação, da sophrosyne. É feito de temperança, de proporção, de
poder, tudo pode obter. Doravante, é o dinheiro que conta, justa medida, de justo meio. "Nada em excesso", tal é a
o dinheiro que faz o homem. Ora, contrariamente a todos fórmula da nova sabedoria. Essa valorização do pondera-
os outros "poderes", a riqueza não comporta nenhum limi- do, do que é mediador, dá à areté grega um aspecto mais |
88 89
AS O R I G E N S DO P E N S A M E N T O G R E G O A organização do cosmos humano

ou menos "burguês": é a classe média que poderá desem- dike que deve ser para todos igual e a mesma. "Redigi, dirá
penhar na cidade o papel moderador, estabelecendo um Sólon, leis iguais para o kakós e para o agathós, fixando
equilíbrio entre os extremos dos dois bordos: a minoria para cada um uma justiça direita." É para preservar o
dos ricos que querem tudo conservar, a multidão das pes- reino dessa lei comum a todos que Sólon recusa a tirania,
soas pobres que querem tudo obter. Aqueles que são cha- já a seu alcance. Como tomar em suas mãos, as mãos de
mados oi viéooi não são apenas os membros de uma cate- um só homem, essa arché que deve permanecer en meso?
goria social particular, a igual distância da indigência e da O que Sólon realizou, fê-lo em nome da comunidade, pela
opulência: representam um tipo de homem, encarnam os força da lei, xpútei vójaou, unindo ao mesmo tempo a vio-
valores cívicos novos, como os ricos, a loucura da hybris. lência e a justiça píuv x<*i Ôi%r|v, Kraíos e Bia, os dois
Em posição mediana no grupo, os mesoi têm por papel velhos acólitos de Zeus, que não deviam afastar-se um ins-
estabelecer uma proporção, um traço de união entre os tante de seu trono porque personificavam o que o poder
dois partidos que dilaceram a cidade, porque cada um rei- do Soberano comporta ao mesmo tempo de absoluto, de
vindica para si a totalidade da arché. Sendo ele próprio irresistível e de irracional, passaram ao serviço da Lei; ei-
homem do "centro", Sólon põe-se como árbitro, como los servidores de Nomos que domina doravante, no lugar
mediador, como reconciliador. Fará da Polis, presa da do rei, no centro da cidade. Esse Nomos guarda, por sua
dysnomia, um cosmos harmonioso, se conseguir propor- relação com a Dike, uma espécie de ressonância religiosa;
cionar a seus méritos respectivos a parte que cabe na arché mas exprime-se também e sobretudo num esforço positivo
aos diversos elementos que compõem a cidade. Mas essa de legislação, numa tentativa racional para pôr fim a um
distribuição equilibrada; essa eunomia, impõe um limite à conflito, equilibrar forças sociais antagônicas, ajustar ati-
ambição daqueles que o espírito de descomedimento tudes humanas opostas. O testemunho desse "racionalis-
anima; traça diante deles uma fronteira que não têm o mo" político será encontrado no fragmento 4 de Sólon. 2
direito de transpor. Sólon ergue-se, no centro do Estado, Como estamos longe da imagem hesiódica do Bom Rei
como um marco inabalável, um horos a fixar entre duas cuja virtude religiosa é a única que pode aplacar as quere-
facções adversas o limite a não ser franqueado. À sophro- las, fazer florir com a paz todas as bênçãos da terra! A jus-
syne, virtude do justo meio, corresponde a imagem de uma tiça aparece como uma ordem inteiramente natural que
ordem política que impõe um equilíbrio a forças contrá- por si mesma se regulamenta. É a maldade dos homens,
rias, que estabelece um acordo entre elementos rivais. seu espírito de hybris, sua sede insaciável de riqueza que
Mas, como no processo, sob sua forma nova, a arbitragem
supõe um juiz que, para aplicar sua decisão, ou para impô- 2
Cf. G. Vlastos, Solonian Justice, Classical Philobgy, 41, 1946, i
| la se necessário, refere-se a uma lei superior às partes, uma pp. 65-83.
90 91
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A organização do cosmos humano

produzem naturalmente a desordem, segundo um proces- trole. Os meios empregados são do tipo dos que já assina-

so de que se pode marcar de antemão cada fase: a injusti- lamos: música, cantos, danças, ritos purificatórios. Pude-

ça engendra a escravidão do povo e esta provoca em troca ram ser às vezes mais diretos e utilizados como um efeito

a sedição. A justa medida, para restabelecer a ordem e a de choque. Pausânias viu no santuário de Hércules, em

besychie, deve, pois, ao mesmo tempo quebrar a arrogân- Tebas, uma pedra que, pensava-se, Atena tinha lançado na

cia dos ricos, fazer cessar a escravidão do demos, sem cabeça do herói furioso quando, alucinado pela mania e
tendo massacrado seus filhos, preparava-se para matar
ceder por isso à subversão. Tal é o ensinamento que Sólon
Anfitrião. 4 Essa pedra, que o tinha adormecido e acalma-
expõe aos olhos de todos os cidadãos. A lição poderá ser
do, chamava-se sophronister. A cura de Orestes tinha-se
m o m e n t a n e a m e n t e desconhecida ou rejeitada; o Sábio
operado em condições um pouco diferentes. Em pleno
confia no tempo: lendo-se tornado pública a verdade, ou,
delírio, após o assassínio de sua mãe, o infeliz chega a um
como ele próprio o diz, sendo colocada es to meson, dia
lugar chamado as Fúrias, Maníai. Detém-se ali. mutila um
virá em que os atenienses a reconhecerão.
dedo seu (na época de Pausânias o dedo era ainda repre-
Com Sólon, Dike e Sophrosyne, tendo descido do
sentado por uma pedra depositada sobre uma elevação de
céu à Terra, instalam-se na ágora. Quer dizer que elas
terra q u e se chamava mnema Dactylou, o t ú m u l o do
doravante vão ter que "prestar contas." Os gregos conti-
Dedo). É nesse lugar, batizado Remédio, Aké, que ele
nuarão certamente a invocá-las; mas não deixarão também
reencontra a sophrosyne. Pausânias acrescenta o seguinte
de submetê-las à discussão.
detalhe: as Fúrias que possuíam Orestes, por todo o tempo
Por meio dessa laicização tão acentuada do pensa-
em q u e o tornavam ekphron, demente, apareciam-lhe
mento moral, a imagem de uma virtude como a sophro-
negras; mostraram-se brancas logo que, tendo cortado o
syne pôde renovar-se, precisar-se. Em H o m e r o , a so-
dedo, ele se tornou sophron, são de espírito. 5 Esse mesmo
phrosyne tem um valor muito geral; é o bom senso: os deu-
jogo de contrastes entre impureza-purificação, possessão-
ses restituem-no a quem o perdeu, como podem fazer que
cura, loucura-saúde, nota-se até no cenário em que opera
o percam os espíritos mais prudentes. 3 Mas antes de ser
o adivinho Melampous quando acalma, por ritos secretos
r e i n t e r p r e t a d a pelos Sábios num contexto político, a
e por katharmói, o delírio das filhas de Proito enterradas
noção parece ter sido já elaborada em certos meios religio-
numa caverna: de um lado, correm as águas do Styx, rio de
sos. Designa neles a volta, após um período de confusão e
impureza, levando a toda criatura viva a doença e a morte;
de possessão, a um estado de calma, de equilíbrio, de con-

4
Pausânias, IX, 11. 2.
3 Md.. VIII. 34. 1 ess.
Odiss., XXIII, 13.
92
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A organização do cosmos humano

do o u t r o , a fonte Alyssos cujas águas benfazejas c u r a m os a l m a s "continentes", m a n t e n d o em sujeição a p a r t e q u e é


raivosos e t o d o s os q u e o delírio da Lyssa p o s s u i . 6 Mas, feita p a r a obedecer, m a s a o m e s m o t e m p o a d q u i r e u m a
d e f i n i n d o - s e assim por o p o s i ç ã o a uma loucura q u e é ao virtude social, u m a f u n ç ã o política: o s males d e q u e s o f r e
m e s m o t e m p o u m a impureza, a p o n d e r a ç ã o da sophrosyne a coletividade são p r e c i s a m e n t e a incontinência d o s ricos,
ia tomar, no clima religioso das seitas, uma c o l o r a ç ã o ascé- o espírito de subversão d o s " m a u s " . F a z e n d o d e s a p a r e c e r
tica. V i r t u d e d e i n i b i ç ã o , d e a b s t i n ê n c i a , c o n s i s t e e m um e o u t r o , a sophrosyne realiza u m a c i d a d e h a r m o n i o s a
afastar-se d o mal, e m evitar toda impureza: n ã o s o m e n t e e c o n c o r d e , o n d e os ricos, longe de desejar s e m p r e mais,
r e c u s a r a s solicitações c r i m i n o s a s q u e u m m a u d e m ô n i o d ã o aos p o b r e s o q u e lhes s o b r a e o n d e a m a s s a , longe de
p o d e s u s c i t a r e m nós, m a s m a n t e r - s e p u r o d o c o m é r c i o e n t r a r e m revolta, aceita s u b m e t e r - s e àqueles q u e , s e n d o
sexual, r e f r e a r os impulsos do eros e de t o d o s os apetites melhores, t ê m direito a p o s s u i r mais. Essas p r e o c u p a ç õ e s
ligados à carne, fazer a a p r e n d i z a g e m , por meio d a s pro- d e o r d e m política n ã o f o r a m talvez e s t r a n h a s a o espírito
vas previstas pelo " c a m i n h o de vida" de iniciação, de sua d e c e r t a s seitas: n o s a n t u á r i o d e D e m e t e r e m P é r g a m o ,
c a p a c i d a d e de d o m i n a r - s e , de vencer-se a si D'-ónrio. O o n d e o culto, celebrado p o r u m a confraria religiosa, com-
d o m í n i o de si de q u e é feita a sophrosyne p a r e c e implicar, p o r t a v a o c a n t o de hinos órficos ( c o m o d e v i a m fazê-lo em
senão um dualismo, pelo m e n o s uma certa tensão no Atenas os Licômides), encontra-se, ao lado d o s O l í m p i c o s
h o m e m entre dois elementos opostos: o q u e é da o r d e m do e das d i v i n d a d e s de Elêusis, u m a série de d e u s e s órficos
thymós, a afetividade, as e m o ç õ e s , as paixões ( t e m a s favo- q u e personificavam idéias abstratas; entre eles, dois pares:
ritos da poesia lírica), e o q u e é da o r d e m de u m a p r u d ê n - Areté e Sophrosyne, Pistis e Homónoia.1
cia refletida, de um cálculo raciocinado ( c e l e b r a d o s pelos Esse a g r u p a m e n t o m e r e c e ser d e s t a c a d o . Em Teóg-
G n ô m i c o s ) . Essas f o r ç a s d a a l m a n ã o e s t ã o n o m e s m o nis, Pistis é igualmente associada à Sophrosyne* Trata-se
plano. O thymós é feito para obedecer, para submeter-se. de u m a n o ç ã o social e política, tal c o m o a homónoia, de
A cura da loucura, c o m o t a m b é m sua prevenção, e m p r e g a q u e constitui o aspecto subjetivo: a c o n f i a n ç a q u e os cida-
os meios q u e p e r m i t e m " p e r s u a d i r " o thymós, torná-lo dis- d ã o s s e n t e m entre si é a e x p r e s s ã o interna, a c o n t r a p a r t i d a
c i p l i n a d o , dócil a o c o m a n d o , para q u e n ã o seja t e n t a d o psicológica da concórdia social. Na alma c o m o na cidade,
jamais a e n t r a r em rebelião, a reivindicar u m a s u p r e m a c i a é pela f o r ç a dessa Pistis q u e os elementos inferiores se dei-
q u e entregaria a alma à d e s o r d e m . Essas técnicas f o r m a m
7
u m a paideia q u e n ã o tem valor s o m e n t e no nível d o s indi- Cf. W. K. C. Guthrie, Orphée et la religion grecque. Êtude sur la
v í d u o s . Realiza neles a s a ú d e , o e q u i l í b r i o ; t o r n a s u a s pensée orphique, Paris, 1956, pp. 228 e ss; H. Usener, Gôtterna-
men. Versuch einer Lehre vou der Keligiõsen Begriffsbildung, Bonn,
1896, p. 368. I
6 8
Id., VIII. 17, 6 e 55., e 19, 2-3. Teógnis, 1137-38. |
95
A organização cio cosmos humano
AS O R I G E N S DO PENSAMENTO G R E G O

suas paixões, suas emoções e seus instintos (a agogé lace-


xam persuadir a obedecer àqueles que têm o encargo de
demônia é precisamente destinada a experimentar esse
c o m a n d a r e aceitam submeter-se a uma ordem q u e os
poder de domínio de si). A sophrosyne s u b m e t e assim
mantém em sua função subalterna.
cada indivíduo, em suas relações com outrem, a um mode-
No conjunto, entretanto, é fora das seitas que a so-
lo c o m u m c o n f o r m e a imagem q u e a cidade se faz do
phrosyne adquire uma significação moral e política preci-
"homem político". Por seu comedimento, o comportamen-
sa. Uma separação opera-se muito cedo entre duas corren-
to do cidadão afasta-se tanto da negligência, das trivialida-
tes de p e n s a m e n t o , de o r i e n t a ç ã o bem diferente; uma
des grotescas próprias do vulgo quanto da condescendên-
preocupa-se com a salvação individual; a outra interessa-
cia, da arrogância altiva dos aristocratas. O novo estilo das
se pela salvação da cidade; de um lado, agrupamentos reli-
relações humanas obedece às mesmas normas de controle,
giosos, à margem da comunidade, voltados para si mes-
de equilíbrio, de moderação que traduzem as sentenças
mos em sua procura da pureza; do outro, meios direta-
como "conhece-te a ti mesmo", "nada em excesso", "a justa
mente comprometidos na vida pública, expostos aos pro-
medida é o melhor". O papel dos Sábios é ter, em suas
blemas causados pela divisão do Estado e q u e utilizam
máximas ou em seus poemas, destacado e expressado ver-
noções tradicionais como a de sophrosyne para conferir-
balmente os valores que ficavam mais ou menos implícitos
lhes, com um conteúdo político novo, uma forma não mais
nas condutas e na vida social do cidadão. Mas seu esforço
religiosa, mas positiva.
de reflexão não resultou somente numa formulação con-
Já numa instituição como a agogé espartana, a so-
ceptual; situou o problema moral em seu contexto político,
phrosyne aparece com um caráter essencialmente social. É
uniu-o ao desenvolvimento da vida pública. Envolvidos nas
um c o m p o r t a m e n t o imposto, regulamentado, m a r c a d o
lutas civis, preocupados em pôr-lhes um termo por sua
pelo "comedimento" que o jovem deve observar em todas
obra de legisladores, é em função de uma situação social de
circunstâncias: comedimento em seu andar, em seu olhar,
fato, no quadro de uma história marcada por um conflito
em suas expressões, comedimento diante das mulheres,
de forças, um choque de grupos, que os Sábios elaboraram
em face dos mais velhos, na ágora, comedimento com res-
sua ética e definiram de maneira positiva as condições que
peito aos prazeres, à bebida. Xenofonte evoca essa reserva
permitem instaurar a ordem no mundo da cidade.
impregnada de gravidade quando compara o jovem couros
Para compreender que realidades sociais recobrem o
lacedemônio, que anda em silêncio e de olhos baixos, a
ideal da sophrosyne, c o m o se inserem no c o n c r e t o as
uma estátua de virgem. A dignidade do comportamento
noções de métrion, de pistís, de homónoia, de eunomia, é
tem uma significação institucional; exterioriza uma atitude
necessário referir-se a reformas constitucionais como as de
moral, uma forma psicológica, que se impõem como obri-
Sólon. Estas criam um espaço para a igualdade, a isotes, |
gações: o futuro cidadão deve ser exercitado em dominar
97
96
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A organização do cosmos humano

que já aparece como um dos fundamentos da nova con- gradação honorífica são baseadas em medidas de produtos
cepção da ordem. Sem isotes, não há cidade porque não há agrícolas: quinhentas medidas para a mais alta classe, tre-
philia. "O igual", escreve Sólon, "não pode e n g e n d r a r zentas para os hippeis, duzentas para os zeugitas. O acor-
guerra." Mas trata-se de u m a igualdade hierárquica ou, do das diversas partes da cidade tornou-se possível graças
c o m o o dirão os gregos, geométrica e não aritmética; a à ação dos mediadores — as classes intermediárias —. que
n o ç ã o essencial é de f a t o a de " p r o p o r ç ã o " . A c i d a d e n ã o q u e r i a m ver n e n h u m dos extremos a p o d e r a r - s e da
forma um conjunto organizado, um cosmos, que se t o m a arché. O nomóteta e a lei q u e ele promulga são em si a
harmonioso se cada um de seus componentes está em seu expressão dessa vontade mediana, dessa "média propor-
lugar e possui a porção de poder que lhe cabe em função cional" q u e dará à cidade seu ponto de equilíbrio.
de sua própria virtude. "Ao demos, dirá Sólon, dei tanto O desenvolvimento do pensamento moral e da refle-
kratos (ou geras) quanto era suficiente, sem nada suprimir xão política prosseguirá nessa linha: às relações de força
nem acrescentar à sua timé." Não há, pois, nem direito tentar-se-á substituir relações de tipo "racional", estabele-
igual a todas as magistraturas, pois que as mais altas estão cendo em todos os domínios uma regulamentaçao baseada
reservadas aos melhores, nem direito igual à propriedade na medida e visando proporcionar, "igualar" os diversos
territorial; Sólon recusou-se a uma partilha das terras que tipos de intercâmbio que formam o tecido da vida social.
teria "dado aos kakói e aos esthlói uma parte igual da fér- Uma observação atribuída a Sólon esclarece a signi-
til terra da pátria". Onde se encontra então a igualdade? ficação dessa mudança, operada, como o nota Plutarco,
Ela reside no fato de que a lei, que agora foi fixada, é a pela razão e pela regra: útcò Xóyou x a l vó^iou neTüpoXrç.9
mesma para todos os cidadãos e que todos podem fazer Anárcasis zombava do sábio ateniense que imaginava, por
parte dos tribunais c o m o da assembléia. Antes eram o leis escritas, reprimir a adikia e a pleonexia de seus conci-
"orgulho", a "violência de ânimo" dos ricos que regulavam dadãos: semelhantes a teias de aranha, as leis deteriam os
as relações sociais. Portanto, Sólon era o primeiro que se fracos e os pequenos; os ricos e os poderosos as despeda-
recusava a obedecer, a deixar-se "persuadir". Agora é a çariam. A isso Sólon opunha o exemplo das convenções
dike que fixa a ordem de divisão das timaí, são leis escri- que os homens observam, porque nenhuma das duas par-
tas que substituem a prova de força em que sempre os for- tes c o n t r a t a n t e s tem interesse em violá-las. 1 0 Trata-se.
tes triunfavam e que impõem sua norma de eqüidade, sua pois, de promulgar para a cidade regras que codificam as
exigência de equilíbrio. A homónoia, a concórdia, é uma relações entre indivíduos, segundo os mesmos princípios
"harmonia" obtida por proporções tão exatas q u e Sólon
lhes dá uma forma quase numérica: as quatro classes nas 9
Plutarco. Vida de Sólon, 14. 5.
quais são divididos os cidadãos e que correspondem a uma 10 Ibid. 5.4-5.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO
A organização do cosmos humano

positivos de vantagem recíproca q u e presidem ao estabele-


afetiva e de implicações religiosas, de u m a riqueza feita de
cimento de um contrato.
hybris, pela n o ç ã o abstrata do nómisma, p a d r ã o social de
C o m o E. Will o indicou, 1 1 é no q u a d r o desse esforço
valor, artifício racional que permite estabelecer e n t r e reali-
geral de codificação e de medida q u e se deve situar a insti-
d a d e s d i f e r e n t e s u m a m e d i d a c o m u m e igualar a s s i m o
tuição da m o e d a em seu sentido próprio, isto é, da m o e d a
intercâmbio c o m o relação social.
de Estado, emitida e garantida pela Cidade. O f e n ô m e n o
É e f e t i v a m e n t e notável q u e as duas grandes c o r r e n t e s
terá as conseqüências econômicas q u e se c o n h e c e m : nesse
q u e se o p õ e m no m u n d o grego, u m a de inspiração aristo-
p l a n o r e p r e s e n t a r á n a s o c i e d a d e grega u m a e s p é c i e d e
crática e o u t r a de espírito democrático, c o l o q u e m - s e em
fator d e p r o f u n d a t r a n s f o r m a ç ã o , orientando-a n o sentido
sua polêmica no m e s m o t e r r e n o e reclamem igualmente a
d o m e r c a n t i l i s m o . M a s n o início, p o r sua s i g n i f i c a ç ã o
e q ü i d a d e , a isotes. A c o r r e n t e a r i s t o c r á t i c a e n c a r a , na
social, moral e intelectual, a instituição da m o e d a integra-
perspectiva da eunomia de Sólon, a cidade c o m o um cos-
se no e m p r e e n d i m e n t o de c o n j u n t o dos "legisladores".
mos f e i t o d e p a r t e s d i v e r s a s , m a n t i d a s pela lei n u m a
Marca a confiscação em proveito da c o m u n i d a d e do privi-
o r d e m h i e r á r q u i c a . A homónoia, a n á l o g a a um a c o r d e
légio aristocrático da emissão de lingotes p u n c i o n a d o s , a
h a r m ô n i c o , r e p o u s a sobre u m a relação d o tipo musical:
retenção pelo E s t a d o das f o n t e s de metal precioso, a subs-
2/1, 3 / 2 , 4 / 3 . A medida justa deve conciliar forças natu-
tituição dos brasões nobiliários pela c u n h a g e m da Cidade;
ralmente desiguais, assegurando uma p r e p o n d e r â n c i a sem
é ao m e s m o t e m p o o meio de codificar, regrar, o r d e n a r os
excesso de u m a s o b r e a o u t r a . A h a r m o n i a da eunomia
i n t e r c â m b i o s de bens e de serviços e n t r e c i d a d ã o s , p o r
implica, pois, o reconhecimento, no c o r p o social c o m o no
intermédio de u m a avaliação n u m é r i c a precisa; talvez seja
indivíduo, de um certo dualismo, de uma polaridade entre
t a m b é m , c o m o E. Will o sugere, u m a tentativa de igualar
o bem e o mal, a necessidade de assegurar a p r e p o n d e r â n -
de uma certa maneira as fortunas por distribuição de
cia do m e l h o r sobre o pior. É essa orientação q u e triunfa
n u m e r á r i o ou modificação da taxa do valor, sem recorrer a
no pitagorismo; 1 2 é ela ainda q u e preside à teoria da so-
u m a confiscação ilegítima. No plano intelectual, a m o e d a
phrosyne tal c o m o Platão a exporá na República.13 Não é
titulada substitui a imagem antiga, toda carregada de força
u m a virtude especial de u m a das partes do Estado, mas a
h a r m o n i a do c o n j u n t o , q u e faz da cidade um cosmos que
a torna " s e n h o r a de si", no sentido em que se diz q u e um
11
E. Will, Koriníhiaka. Recherches sur 1'histoire et la civilisation de
Coririthe des origines aux guerres mediques, Paris, 1955, pp. 495-
502; De 1'aspect éthique de 1'origine grecque de Ia monnaie, Revue
• 2 Cf. A. Delatte, Essui sur la politique pythagoricienne, Liège et
historique, 212,1954, pp. 209 e ss.; Reflexions et hypothèses sur les
origines du monnayage, Revue numismatique, 17, 1955, pp. 5-23. Paris. 1922.
15
Platão. República, IV. 430 d e ss.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A organização do cosmos humano

indivíduo é s e n h o r de seus prazeres e de seus desejos. niência, na situação assim regulamentada. Para os partidá-
Comparando-a a um canto em uníssono, Platão a define: rios da eunomia, a eqüidade é introduzida nas relações
"um acorde segundo a natureza entre as vozes do menos sociais graças a uma conversão moral, a uma transforma-
bom e do melhor, sobre a questão de saber a quem deve ção psicológica da elite: em vez de procurarem poder e
caber o comando, no Estado e no indivíduo." Um texto de riquezas, os "melhores" são formados por uma paideia
Arquitas, o homem de Estado pitagórico, faz-nos deixar as filosófica para não desejar ter mais (pleonectein), mas ao
alturas filosóficas da República para estreitar de mais contrário, por espírito de generosa liberalidade, para dar
perto o concreto social. Mostra-nos o que a prática dos aos pobres que, de seu lado, se encontram na impossibili-
intercâmbios comerciais e sua necessária regulamentação dade material de pleonectein.14 Assim as classes baixas
por via de contrato puderam trazer à noção de uma medi- são mantidas na posição inferior que lhes convém, sem
da das relações sociais, avaliando exatamente, em confor- sofrer entretanto nenhuma injustiça. A igualdade realizada
midade com os princípios da igualdade proporcional, as permanece proporcional ao mérito.
relações entre atividades, funções, serviços, vantagens e A corrente democrática vai mais longe; define todos
honras das diversas categorias sociais. "Uma vez descober- os cidadãos, como tais, sem consideração de fortuna nem
to o cálculo raciocinado (logismós). escreve Arquitas, põe de virtude, como "iguais" que têm os mesmos direitos de
fim ao estado de stasis e traz a homónoia; pois, em conse- participar de todos os aspectos da vida pública. Tal é o
qüência disso, não há mais pleonexia e a isotes se realiza; e ideal de isonomia. que encara a igualdade sob a forma da
é por ela que se efetua o comércio em matéria de intercâm- relação mais simples: 1/1. A única "justa medida" suscetí-
bio contratual; graças a isso, os pobres recebem dos pode- vel de harmonizar as relações entre os cidadãos é a igual-
rosos, e os ricos dão aos necessitados, pois têm uns e outros dade plena e total. Não se trata mais então, como prece-
a pistis de que terão por esse meio a isotes, a igualdade." d e n t e m e n t e , de encontrar a escala que faça os poderes
Percebe-se bem aqui como a relação social assimila- proporcionais ao mérito e que realize entre elementos dife-
da a um vínculo contratual e não mais a um estatuto de rentes, dissonantes mesmo, um acorde harmônico, mas de
d o m í n i o e de submissão, vai exprimir-se em termos de igualar estritamente entre todos a participação na arché, o
reciprocidade, de reversibilidade. Segundo o testemunho acesso às magistraturas, fazer desaparecer todas as dife-
de Aristóteles sobre a situação em Tarento, a intenção de renças q u e opõem entre si as diversas partes da cidade,
Arquitas teria sido, na prática, manter a apropriação indi- unificá-las por mistura e fusão, para que nada as distinga
vidual dos bens nas mãos dos "melhores", na condição de
q u e c o n c e d e s s e m q u e deles d e s f r u t a s s e a m a s s a dos
| pobres, de maneira que encontrasse cada um sua conve- 14
Aristóteles, Politica, II. 12676.
102
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A organização do cosmos humano

mais, no p l a n o político, u m a s das outras. É esse o b j e t i v o u m a p o p u l a ç ã o de pequenos aldeões, de tetas, de lenhado-


q u e r e a l i z a m a s r e f o r m a s d e Clístenes; c o n s t i t u e m u m a res, de carvoeiros, muitos dos quais não têm lugar na orga-
o r g a n i z a ç ã o política d e c o n j u n t o q u e p o r sua c o e r ê n c i a , nização tribal e q u e não estão ainda integrados no q u a d r o da

pela clareza d e seus t r a ç o s , p o r seu espírito p l e n a m e n t e cidade aristocrática. Enfim, essas três facções a p a r e c e m co-

positivo, a p r e s e n t a - s e c o m o a s o l u ç ã o d e u m p r o b l e m a : mo g r u p o s de clientela ao serviço de grandes famílias aristo-

q u e lei d e v e o r d e n a r a C i d a d e para q u e ela seja u m a na cráticas c u j a rivalidade d o m i n a o jogo político.

m u l t i p l i c i d a d e d e seus c o n c i d a d ã o s , para q u e eles s e j a m E n t r e essas facções q u e f o r m a m n o E s t a d o p o r assim

iguais em sua necessária d i v e r s i d a d e ? dizer tantas "partes" separadas e opostas, luta a b e r t a e

No d e c u r s o do p e r í o d o anterior a Clístenes, q u e vai c o m p r o m i s s o s s u c e d e m - s e a t é o m o m e n t o e m q u e Clís-

do a r c o n t a d o de Sólon à tirania, depois à q u e d a dos tenes f u n d a a Polis sobre u m a base nova. 1 5 A antiga orga-

Pisistrátidas, a história ateniense tinha sido d o m i n a d a pelo n i z a ç ã o tribal é abolida. Em lugar das q u a t r o t r i b o s j ó n i c a s

conflito de três "facções", revoltadas umas contra as o u t r a s da Á f r i c a q u e d e l i m i t a v a m o c o r p o social, C l í s t e n e s cria

e m sua luta p e l o poder. Q u e r e p r e s e n t a m essas f a c ç õ e s ? um sistema de dez tribos, das quais cada u m a agrupa,

T r a d u z e m u m c o n j u n t o c o m p l e x o d e realidades sociais q u e c o m o a n t e s , três trítias, m a s e n t r e a s quais s e a c h a m divi-

n o s s a s c a t e g o r i a s políticas e e c o n ô m i c a s n ã o e n c o b r e m didos todos os demos da Ática. A cidade situa-se assim

e x a t a m e n t e . Assinalam p r i m e i r a m e n t e s o l i d a r i e d a d e s tri- n u m o u t r o p l a n o distinto do das relações de gene e d o s vín-

bais e territoriais. Cada p a r t i d o tira seu n o m e de u m a das culos de c o n s a n g ü i n i d a d e : tribos e d e m o s são estabelecidos
três regiões em q u e a terra da Ática a p a r e c e dividida: os numa base puramente geográfica; reúnem habitantes de

pediakoí são os h o m e n s da planície, do pedíon, isto é, na u m m e s m o território, não p a r e n t e s d e m e s m o s a n g u e c o m o

realidade os habitantes da cidade, com as ricas t e r r a s q u e os gene e as frátrias, q u e subsistem sob sua f o r m a antiga,

cercam a a g l o m e r a ç ã o u r b a n a ; os parálios p o v o a m o litoral mas q u e agora ficam fora da organização p r o p r i a m e n t e

m a r í t i m o ; os diácrios são os h o m e n s da m o n t a n h a , os do
interior do país, isto é, dos d e m o s periféricos mais afastados
do c e n t r o u r b a n o . A essas divisões territoriais c o r r e s p o n - 15 Uma das soluções de compromisso parece ter consistido na atri-
buição sucessiva do arcontado a cada um dos chefes dos três clãs
d e m d i f e r e n ç a s d e g ê n e r o d e vida, d e e s t a t u t o social, d e
rivais; cf. sobre essa questão Benjamin D. Meritt, Greek inscription
orientação política: os pediakoí são aristocratas q u e defen- — An early archon list, Hesperia, S. 1959, pp. 59-65; H. T. Wade
d e m seus privilégios de eupátridas e seus interesses de pro- Gery. Miltiades, Journal of hellenic Studies, 71, 1951. pp. 212-221.
Compare-se essa tentativa de divisão equilibrada do poder entre "fac-
prietários de bens de raiz; os parálios f o r m a m a n o v a cama-
ções" opostas com a que nos é relatada por Aristóteles para um perío-
da social dos mesoi, que p r o c u r a m evitar o triunfo d o s extre- do anterior: nomeação de dez arcontes, compreendendo cinco eupá-
m o s ; os diácrios constituem o partido popular; a g r u p a m tridas, três agroikói, dois demiurgói. (Constituição de Atenas, 13,2).

104
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A organização do cosmos humano

política. Além disso, c a d a u m a d a s d e z t r i b o s n o v a m e n t e u m a t r a n s f o r m a ç ã o c o m p l e t a d a s instituições. O m u n d o


f o r m a d a s realiza o a m á l g a m a d a s três p a r t e s " d i f e r e n t e s das relações sociais f o r m a e n t ã o um sistema coerente,
e n t r e as q u a i s a c i d a d e estava a n t e s dividida. C o m efeito, r e g u l a d o p o r relações e c o r r e s p o n d ê n c i a s n u m é r i c a s q u e
d a s três trítias q u e u m a t r i b o c o m p r e e n d e , a p r i m e i r a deve p e r m i t e m aos c i d a d ã o s m a n t e r - s e "idênticos", e n t r a r u n s
n e c e s s a r i a m e n t e p e r t e n c e r à região costeira, a s e g u n d a ao c o m o s o u t r o s nas relações d e igualdade, d e simetria, d e
interior do país. a terceira à região u r b a n a e a seu território r e c i p r o c i d a d e , c o m p o r t o d o s e m c o n j u n t o u m cosmos
circundante. Cada tribo realiza assim a " m i s t u r a " das u n i d o . A Polis a p r e s e n t a - s e c o m o um u n i v e r s o h o m o g ê -
p o p u l a ç õ e s , d o s territórios, d o s tipos de a t i v i d a d e de q u e é n e o . s e m hierarquia, s e m p l a n o s diversos, s e m d i f e r e n c i a -
c o n s t i t u í d a a cidade. C o m o o assinala Aristóteles, se Clís- ção. A arché já se n ã o c o n c e n t r a n u m p e r s o n a g e m ú n i c o
tenes tivesse instituído d o z e tribos e m lugar d a s d e z q u e n o c u m e d a o r g a n i z a ç ã o social. Está dividida i g u a l m e n t e
criou, teria e n t ã o classificado os cidadãos nas trítias q u e já p o r m e i o d e t o d o o d o m í n i o d a vida pública, nesse e s p a ç o
existiam (havia c o m efeito, para as q u a t r o t r i b o s antigas, c o m u m em q u e a c i d a d e e n c o n t r a seu c e n t r o , seu meson.
d o z e trítias). E assim n ã o teria conseguido u n i f i c a r p o r mis- S e g u n d o u m ciclo r e g u l a m e n t a d o , a s o b e r a n i a p a s s a d e
16 um g r u p o a outro, de um i n d i v í d u o a o u t r o , de tal m a n e i -
t u r a a m a s s a d o s cidadãos: àvajiloyEO^ai rò nXrjúoç .
A o r g a n i z a ç ã o a d m i n i s t r a t i v a r e s p o n d e , pois, a u m a ra q u e c o m a n d a r e o b e d e c e r , em vez de se o p o r e m c o m o
vontade deliberada de fusão, de unificação do corpo dois a b s o l u t o s , t o r n a m - s e o s d o i s t e r m o s inseparáveis d e
social. A l é m disso, u m a d i v i s ã o artificial d o t e m p o civil u m a m e s m a r e l a ç ã o reversível. S o b a lei de isonomia, o
p e r m i t e a igualação c o m p l e t a da arché. e n t r e t o d o s os gru- m u n d o social t o m a a f o r m a de um cosmos c i r c u l a r e cen-
p o s s e m e l h a n t e s assim c r i a d o s . O c a l e n d á r i o l u n a r conti- t r a d o e m q u e cada c i d a d ã o , p o r ser s e m e l h a n t e a t o d o s o s
n u a a r e g u l a m e n t a r a vida religiosa. Mas o a n o a d m i n i s t r a - outros, terá que percorrer a totalidade do circuito, ocu-
tivo é d i v i d i d o em d e z p e r í o d o s de 36 ou 37 dias, corres- p a n d o e c e d e n d o sucessivamente, segundo a o r d e m do
p o n d e n d o a cada u m a das d e z tribos. O C o n s e l h o dos t e m p o , t o d a s as posições s i m é t r i c a s q u e c o m p õ e m o espa-
Q u a t r o c e n t o s é elevado a q u i n h e n t o s m e m b r o s , c i n q ü e n t a ç o cívico.
p o r tribo, d e m a n e i r a q u e n o d e c u r s o desses d e z p e r í o d o s
do a n o , a l t e r n a d a m e n t e , c a d a tribo f o r m a a c o m i s s ã o per-
m a n e n t e d o C o n s e l h o . C o m Clístenes o ideal igualitário,
ao m e s m o tempo que se exprime no conceito abstrato de
isonomia, liga-se d i r e t a m e n t e à realidade política; inspira

16
Aristóteles, Constituição de Atenas, 21,4.

106
CAPÍTULO Vil

COSMOGONIAS
t M I T O S DE S O B E R A N I A

Na história do homem, as origens geralmente nos


escapam. Entretanto, se o advento da filosofia, na Grécia,
marca o declínio do pensamento mítico e o começo de um
saber de tipo racional, podem ser fixados a data e o lugar
de nascimento da razão grega e estabelecido seu estado
civil. É no princípio do século VI, na Mileto jónica, que
homens como Tales, Anaximandro, Anaxímenes inaugu-
ram um novo modo de reflexão concernente à natureza
que tomam por objeto de uma investigação sistemática e
desinteressada, de uma história, da qual apresentam um
quadro de conjunto, uma theoria. Da origem do mundo,
de sua composição, de sua ordem, dos fenômenos meteo-
rológicos, propõem explicações livres de toda a imaginária
dramática das teogonias e cosmogonias antigas: as grandes
figuras das Potências primordiais já se extinguiram; nada
de agentes sobrenaturais cujas aventuras, lutas, façanhas
formavam a trama dos mitos de gênese que narravam o
aparecimento do mundo e a instituição da ordem; nem
mesmo alusão aos deuses que a religião oficial associava,
10-3
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Cosmogonias e mitos de soberania

nas c r e n ç a s e no c u l t o , às f o r ç a s da n a t u r e z a . E n t r e os c a u s a l i d a d e histórica: f a l o u - s e d e u m m i l a g r e g r e g o . N a
"físicos" da fônia, o c a r á t e r positivo invadiu de c h o f r e a terra jónica, o logos ter-se-ia d e s p r e n d i d o b r u s c a m e n t e do
t o t a l i d a d e d o ser. N a d a e x i s t e q u e n ã o s e j a n a t u r e z a , mito, c o m o as escamas c a e m d o s olhos do cego. E a luz
physis. Os h o m e n s , a divindade, o m u n d o f o r m a m um uni- d e s t a r a z ã o , u m a vez p o r t o d a s revelada, n ã o teria m a i s
v e r s o u n i f i c a d o , h o m o g ê n e o , t o d o ele n o m e s m o plano: deixado de iluminar os progressos do espírito h u m a n o .
são as p a r t e s ou os aspectos de u m a só e m e s m a physis q u e " O s filósofos jônios. e s c r e v e B u r n e t , a b r i r a m o c a m i n h o
p õ e m em jogo, por toda p a r t e , as m e s m a s forças, manifes- q u e a c i ê n c i a d e p o i s só teve q u e seguir." 1 E p r e c i s a , em
t a m a m e s m a p o t ê n c i a de vida. As vias pelas q u a i s essa o u t r a p a s s a g e m : "Seria i n t e i r a m e n t e falso p r o c u r a r as ori-
physis n a s c e u , diversificou-se e organizou-se são perfeita- gens d a ciência jónica n u m a c o n c e p ç ã o mítica q u a l q u e r . "
m e n t e acessíveis à inteligência h u m a n a : a n a t u r e z a n ã o A essa i n t e r p r e t a ç ã o opõe-se p o n t o por p o n t o a de E
o p e r o u " n o c o m e ç o " de m a n e i r a diferente de c o m o o faz M. C o m f o r d . S e g u n d o ele, a primeira filosofia a p r o x i m a -
a i n d a , c a d a d i a . q u a n d o o f o g o seca u m a v e s t i m e n t a s e m a i s d e u m a c o n s t r u ç ã o mítica d o q u e d e u m a teoria
m o l h a d a ou q u a n d o , n u m crivo agitado pela m ã o . as par- científica. A física jónica n a d a t e m em c o m u m , n e m em
tes mais grossas se isolam e se r e ú n e m . C o m o n ã o há sua inspiração nem em seus m é t o d o s , c o m o q u e c h a m a -
s e n ã o u m a s ó n a t u r e z a , q u e exclui a p r ó p r i a n o ç ã o d e m o s ciência; em particular, ignora t u d o s o b r e a e x p e r i m e n -
s o b r e n a t u r a l , n ã o há s e n ã o u m a só t e m p o r a l i d a d e . O ori- tação. N ã o é t a m b é m o p r o d u t o de u m a reflexão ingênua e
ginal e o primordial d e s p o j a m - s e de sua m a j e s t a d e e de seu e s p o n t â n e a da razão sobre a n a t u r e z a . T r a n s p õ e , s o b u m a
mistério; têm a banalidade tranqiiilizadora d o s f e n ô m e n o s f o r m a laica e n u m v o c a b u l á r i o m a i s a b s t r a t o , a c o n c e p ç ã o
familiares. Para o p e n s a m e n t o mítico, a experiência coti- d o m u n d o e l a b o r a d a pela religião. A s c o s m o l o g i a s reto-
d i a n a se esclarecia e a d q u i r i a sentido em relação aos atos m a m e p r o l o n g a m os t e m a s essenciais dos m i t o s c o s m o g ô -
e x e m p l a r e s p r a t i c a d o s p e l o s d e u s e s " n a o r i g e m " . Inver- nicos. T r a z e m u m a r e s p o s t a a o m e s m o t i p o d e q u e s t ã o ;
tem-se os t e r m o s da c o m p a r a ç ã o e n t r e os jônios. Os acon- n ã o p r o c u r a m , c o m o a ciência, leis da n a t u r e z a ; interro-
t e c i m e n t o s primitivos, as f o r ç a s q u e p r o d u z i r a m o c o s m o s gam-se, c o m o mito, c o m o a o r d e m foi estabelecida, c o m o
se c o n c e b e m à imagem dos fatos q u e se o b s e r v a m h o j e e o c o s m o s p ô d e surgir do caos. Dos mitos de gênese os
d e p e n d e m de u m a explicação análoga. Já n ã o é o original milésios t o m a m não só u m a imagem do universo, mas
q u e ilumina e transfigura o c o t i d i a n o : é o c o t i d i a n o q u e a i n d a t o d o um material c o n c e p t u a l e e s q u e m a s explicati-
torna o original inteligível, f o r n e c e n d o m o d e l o s p a r a com- vos: a t r á s d o s " e l e m e n t o s " da physis perfilam-se antigas
p r e e n d e r c o m o o m u n d o se f o r m o u e o r d e n o u . d i v i n d a d e s d a m i t o l o g i a . T o r n a n d o - s e n a t u r e z a , o s ele-
Essa r e v o l u ç ã o intelectual a p a r e c e t ã o s ú b i t a e t ã o
p r o f u n d a q u e foi c o n s i d e r a d a inexplicável e m t e r m o s d e 1
J. Burnet. Early Greek philosophy, 3° ed.. Londres, 1920 p. v.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Cosmogonias e mitos de soberania

m e n t o s d e s p o j a r a m - s e d o a s p e c t o d e deuses individualiza- nides; Á p e i r o n , o ilimitado, em A n a x i m a n d r o ) . D e s t a uni-

d o s ; m a s p e r m a n e c e m f o r ç a s ativas e a n i m a d a s , a i n d a sen- d a d e primordial e m e r g e m , p o r segregação e d i f e r e n c i a ç ã o

t i d a s c o m o d i v i n a s ; a physis, q u a n d o opera, está toda progressivas, pares de o p o s t o s — o s o m b r i o e o l u m i n o s o ,

impregnada desta sabedoria e desta justiça q u e eram o o q u e n t e e o frio, o seco e o ú m i d o , o d e n s o e o r a r o , o a l t o

apanágio de Zeus. O m u n d o de Homero ordenava-se por e o baixo... —, q u e v ã o delimitar no m u n d o realidades e

u m a d i s t r i b u i ç ã o dos d o m í n i o s e f u n ç õ e s e n t r e g r a n d e s regiões diversas: o céu, b r i l h a n t e e q u e n t e , o ar s o m b r i o e

d e u s e s : a Z e u s c a b e a luz b r i l h a n t e do céu ( a i t h e r ) ; e a frio, a terra seca, o m a r ú m i d o . Esses opostos, q u e chega-

H a d e s , a s o m b r a b r u m o s a (aer)\ a Posidão, o elemento ram a o ser s e p a r a n d o - s e u n s d o s o u t r o s , t a m b é m p o d e m

líquido; a t o d o s os três em c o m u m , G a i a , a t e r r a , o n d e unir-se e misturar-se para produzir certos fenômenos,

vivem c o m os h o m e n s todas as criaturas m o r t a i s q u e resul- c o m o o n a s c i m e n t o e a m o r t e de t u d o q u e vive — plantas,

t a m da m i s t u r a . O c o s m o s d o s jônios organiza-se p o r u m a animais e homens.


divisão d a s províncias, das estações, entre f o r ç a s elemen- M a s n ã o é s o m e n t e o e s q u e m a de c o n j u n t o q u e é
tares q u e se o p õ e m , equilibram-se ou se c o m b i n a m . N ã o c o n s e r v a d o no essencial. Até nas minúcias, a simetria d o s

se trata de u m a vaga analogia. E n t r e a T e o g o n i a de He- d e s e n v o l v i m e n t o s , a c o n c o r d â n c i a de certos t e m a s assina-

s í o d o e a filosofia de um A n a x i m a n d r o , a análise de Corn- lam a persistência, no p e n s a m e n t o do físico, de represen-

f o r d faz a p a r e c e r estreitas c o r r e s p o n d ê n c i a s . C e r t a m e n t e , tações míticas q u e n a d a p e r d e r a m d e sua f o r ç a d e suges-

e n q u a n t o u m a fala a i n d a de g e r a ç õ e s divinas, o o u t r o já tão. 2 A g e r a ç ã o sexual, o o v o cósmico, a á r v o r e cósmica, a

descreve processos naturais; é q u e o s e g u n d o se r e c u s a a s e p a r a ç ã o da terra e do céu a n t e r i o r m e n t e c o n f u n d i d o s —

j o g a r c o m a a m b i g ü i d a d e de t e r m o s c o m o phyein e géne- t a n t a s i m a g e n s q u e a p a r e c e m c o m o e m filigrana p o r m e i o

sis, q u e significam igualmente e n g e n d r a r e produzir, nasci- das explicações "físicas" de um A n a x i m a n d r o s o b r e a f o r -

m e n t o e origem. D u r a n t e t o d o o t e m p o em q u e esses m a ç ã o d o m u n d o : d o Ápeiron foi s e g r e g a d a ( a p o k r í n e s -

diversos s e n t i d o s p e r m a n e c i a m c o n f u s o s , podia-se expri- thai) uma semente ou um germe (gónimon), capaz de

m i r o devir em t e r m o s de u n i ã o sexual, d a r a r a z ã o de um e n g e n d a r o q u e n t e e o frio; no c e n t r o desse g e r m e reside o

f e n ô m e n o n o m e a n d o seu pai e sua mãe, e s t a b e l e c e n d o sua frio, s o b f o r m a de aer\ em s u a periferia, e n v o l v e n d o o frio,

á r v o r e genealógica. E n t r e t a n t o , por mais i m p o r t a n t e q u e o q u e n t e desenvolve-se ( p e r i p h y e n a i ) n u m i n v ó l u c r o d e

seja esta diferença e n t r e o físico e o teólogo, a o r g a n i z a ç ã o f o g o s e m e l h a n t e à casca ( p h l o i ó s ) em t o r n o de u m a árvo-

geral de seu p e n s a m e n t o p e r m a n e c e a m e s m a . P õ e m igual- re. C h e g a u m m o m e n t o e m q u e esse e n v o l t ó r i o e s f é r i c o

m e n t e , n a origem, u m e s t a d o d e indistinção e m q u e n a d a
ainda a p a r e c e (Chãos, em Hesíodo; Nyx, Érebos, Tártaros, 2 Cf. Mareei De Corte, Mythe et philosophie chez Anaximandre, i
em certas Teogonias a t r i b u í d a s a O r f e u , M u s e u e a Epimê- Lavai théologique et philosophiejue, 14, 1958 (1960), pp. 9-29. |

112 113
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Cosmogonias e mitos de soberania

inflamado se separa (aporrégnysthai) do núcleo ao qual s o s do culto aos quais o mito, a p e s a r de sua relativa a u t o -
estava u n i d o e, c o m o u m a casca de o v o se q u e b r a , estala n o m i a , p e r m a n e c i a s e m p r e mais o u m e n o s ligado.
em círculos de fogo, q u e são os astros. N o t o u - s e o e m p r e - D e s s a c r a l i z a ç ã o d o saber, a d v e n t o d e u m tipo d e pen-
go de termos embriológicos que evocam, racionalizando- s a m e n t o exterior à religião — n ã o são f e n ô m e n o s isolados
os, t e m a s de g e r a ç ã o s e x u a l e de h i e r o g a m i a : gónimon, e i n c o m p r e e n s í v e i s . Em sua f o r m a , a filosofia relaciona-se
apokrínesthai, aporrégnysthai, phloiós, e s t e ú l t i m o deri- d e m a n e i r a direta c o m o u n i v e r s o espiritual q u e n o s pare-
v a d o de phleo, v e r b o ligado à idéia de g e r a ç ã o e q u e p o d e ceu d e f i n i r a o r d e m da c i d a d e e se c a r a c t e r i z a p r e c i s a m e n -
d e s i g n a r a placenta do e m b r i ã o , a casca do ovo, a casca da te p o r u m a laicização, u m a racionalização da vida social.
á r v o r e e, m a i s g e r a l m e n t e , toda m e m b r a n a q u e envolve, à M a s a d e p e n d ê n c i a da filosofia c o m relação às instituições
m a n e i r a d e u m véu, o o r g a n i s m o vegetal o u a n i m a l , n o da Polis marca-se i g u a l m e n t e em seu c o n t e ú d o . Se é verda-
d e c u r s o d e seu c r e s c i m e n t o . 3 de q u e os milésios se s e r v i r a m do mito, t a m b é m é v e r d a d e
E n t r e t a n t o , a p e s a r dessas analogias e dessas reminis- q u e t r a n s f o r m a r a m p r o f u n d a m e n t e a i m a g e m d o universo,
cências, n ã o há r e a l m e n t e c o n t i n u i d a d e e n t r e o m i t o e a integraram-na n u m q u a d r o espacial, o r d e n a d o s e g u n d o
filosofia. O filósofo n ã o se c o n t e n t a em r e p e t i r em t e r m o s u m m o d e l o mais g e o m é t r i c o . Para c o n s t r u i r a s c o s m o l o -
de physis o q u e o teólogo tinha e x p r e s s a d o em t e r m o s de gias n o v a s , utilizaram as n o ç õ e s q u e o p e n s a m e n t o m o r a l
P o d e r divino. À m u d a n ç a de registro, à utilização de um e político t i n h a m e l a b o r a d o , p r o j e t a r a m s o b r e o m u n d o da
vocabulário profano, correspondem uma nova atitude de n a t u r e z a esta c o n c e p ç ã o da o r d e m e da lei q u e , t r i u n f a n d o
e s p í r i t o e um clima intelectual diferente. C o m os milésios, n a c i d a d e , tinha feito d o m u n d o h u m a n o u m c o s m o .
pela p r i m e i r a vez, a o r i g e m e a o r d e m do m u n d o t o m a m a As t e o g o n i a s e as c o s m o g o n i a s g r e g a s c o m p o r t a m ,
f o r m a de um p r o b l e m a explicitamente c o l o c a d o a q u e se c o m o as cosmologias q u e lhes s u c e d e r a m , relatos de gêne-
d e v e d a r u m a resposta s e m mistério, a o nível d a inteligên- se q u e expõem a emergência progressiva de um m u n d o
cia h u m a n a , suscetível de ser exposta e d e b a t i d a publica- o r d e n a d o . M a s são t a m b é m , a n t e s d e t u d o , o u t r a coisa:
mente, diante do conjunto dos cidadãos, c o m o as outras m i t o s de soberania. E x a l t a m o p o d e r de um d e u s q u e reina
q u e s t õ e s d a vida c o r r e n t e . A s s i m s e a f i r m a u m a f u n ç ã o d e s o b r e t o d o o u n i v e r s o ; f a l a m d e seu n a s c i m e n t o , s u a s
c o n h e c i m e n t o livre d e t o d a p r e o c u p a ç ã o d e o r d e m ritual. lutas, seu t r i u n f o . Em t o d o s os d o m í n i o s — n a t u r a l , social,
Os "físicos", d e l i b e r a d a m e n t e , ignoram o m u n d o da reli- ritual —, a o r d e m é o p r o d u t o dessa vitória do deus sobe-
gião. S u a p e s q u i s a n a d a m a i s t e m a ver c o m esses p r o c e s - r a n o . Se o m u n d o n ã o está m a i s e n t r e g u e à instabilidade e
à c o n f u s ã o , é que, ao t e r m i n a r e m os c o m b a t e s q u e o d e u s

3
t e v e q u e s u s t e n t a r c o n t r a rivais e c o n t r a m o n s t r o s , s u a
I H. G. Baldry, Embryological analogies in presoeratic cosmogony,
Classical Quarterly, 26, 1932, pp. 27-34. s u p r e m a c i a a p a r e c e d e f i n i t i v a m e n t e a s s e g u r a d a , sem q u e

114
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Cosmogonias e mitos de soberania

n a d a possa d o r a v a n t e pô-la em discussão. A Teogonia de c o m u n s , a s borrascas p o d e r ã o agitar-se s e m f i m , e m d e s o r -


Hesíodo apresenta-se assim c o m o um hino à glória de d e m . P o s i d ã o cerrou aos Titãs a s p o r t a s q u e f e c h a m p a r a
Z e u s rei. A d e r r o t a d o s Titãs e a de Tifeu, i g u a l m e n t e ven- s e m p r e as m o r a d a s da Noite. Chãos n ã o c o r r e m a i s o risco
cidos pelo filho de Crono, n ã o vêm s o m e n t e coroar, c o m o de ressurgir à luz para s u b m e r g i r o m u n d o visível.
sua conclusão, o edifício do p o e m a . Cada e p i s ó d i o retoma A batalha contra Tifeu (trata-se de u m a i n t e r p o l a ç ã o
e r e s u m e t o d a a a r q u i t e t u r a do m i t o c o s m o g ô n i c o . A vitó- q u e d a t a s e m dúvida d o f i m d o século VII) r e t o m a t e m a s
ria de Z e u s . em cada vez, é u m a criação do m u n d o . A nar- a n á l o g o s . Em páginas sugestivas, C o r n f o r d p ô d e relacio-
rativa da b a t a l h a q u e lança u m a c o n t r a a o u t r a as d u a s n a r este episódio d o c o m b a t e d e M a r d u k c o n t r a T i a m a t .
gerações rivais dos Titãs e d o s Olímpicos evoca explicita- C o m o T i a m a t , Tifeu r e p r e s e n t a as f o r ç a s de c o n f u s ã o e de
m e n t e o r e t o r n o do universo a um estado original de indis- d e s o r d e m , o r e t o r n o ao i n f o r m e , o caos. O q u e teria acon-
tinção e de d e s o r d e m . A b a l a d a s pelo c o m b a t e , as potên- tecido ao m u n d o se o m o n s t r o de mil vozes, filho de Ge e
cias primordiais, Gaia, Ouranós, Pontos, Okéanos, Tárta- de Tártaros, tivesse c o n s e g u i d o r e i n a r no l u g a r de Z e u s
ros, q u e a n t e s se t i n h a m s e p a r a d o e o c u p a v a m seu lugar, s o b r e os d e u s e s e os h o m e n s , i m a g i n a - s e f a c i l m e n t e : de
e n c o n t r a m - s e de novo m i s t u r a d a s . Gaia e Ouranós, cuja seus d e s p o j o s m o r t a i s n a s c e m o s v e n t o s q u e , e m vez d e
s e p a r a ç ã o H e s í o d o tinha n a r r a d o , parecem e n c o n t r a r - s e e s o p r a r s e m p r e no m e s m o sentido, de m a n e i r a fixa e regu-
unir-se de novo, c o m o se d e s a b a s s e m um s o b r e o o u t r o . lar ( c o m o f a z e m o N o t o , o Bóreas e o Z é f i r o ) , a b a t e m - s e
Crer-se-ia q u e o m u n d o s u b t e r r â n e o i r r o m p e u à luz: o uni- em b o r r a s c a s prodigiosas, ao acaso, em direções imprevi-
v e r s o visível, em vez de a s s e n t a r seu c e n á r i o e s t á v e l e síveis, o r a a q u i e ora lá. D e r r o t a d o s os Titãs, f u l m i n a d o
o r d e n a d o n a s d u a s fronteiras fixas que o limitam, e m b a i x o Tifeu, Z e u s , coagido pelos deuses, toma para si a sobera-
a t e r r a , r e s i d ê n c i a d o s h o m e n s , em c i m a o c é u , o n d e nia e senta-se no t r o n o d o s Imortais; depois, r e p a r t e e n t r e
4 os O l í m p i c o s os e n c a r g o s e as h o n r a s ( t i m a i ) . Da m e s m a
m o r a m os deuses, r e t o m o u seu aspecto primitivo de caos:
um abismo obscuro e vertiginoso, uma abertura sem m a n e i r a , p r o c l a m a d o rei d o s d e u s e s , M a r d u k m a t a v a
f u n d o , o s o r v e d o u r o de um e s p a ç o sem direções, percorri- T i a m a t , cortava em d u a s p a r t e s seu cadáver, lançava ao ar
d o a o acaso p o r turbilhões d e vento q u e s o p r a m e m t o d o s uma de suas metades q u e formava o céu; determinava
os sentidos. A vitória de Z e u s recoloca t u d o no lugar. Os e n t ã o o lugar e o m o v i m e n t o dos astros, fixava o a n o e o
Titãs, seres ctônicos, são enviados, carregados de cadeias, m ê s , o r d e n a v a o t e m p o e o espaço, criava a raça h u m a n a ,
a o f u n d o d o T á r t a r o ventoso. Doravante, n o a b i s m o sub- repartia os privilégios e os destinos.
t e r r â n e o em q u e a Terra, o Céu e o M a r cravam s u a s raízes E s s a s s e m e l h a n ç a s e n t r e a teogonia grega e o m i t o
b a b i l ó n i c o da Criação n ã o são fortuitas. A hipótese, f o r -

| 4
Hesíodo. Teogonia, 700-740. m u l a d a p o r C o r n f o r d , d e u m e m p r é s t i m o foi c o n f i r m a d a ,

116
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Cosmogonias e mitos de soberania

m a s t a m b é m matizada e c o m p l e t a d a , pela d e s c o b e r t a a ser posta em discussão. No d e c u r s o da festa, o rei repre-


recente d e u m a d u p l a série d e d o c u m e n t o s : d e u m lado. a s sentava por gestos um c o m b a t e ritual c o n t r a um dragão.
p l a q u e t a s fenícias d e R a s S h a m r a (início d o século XIV Com isso, repetia cada a n o a façanha realizada por Mar-
a n t e s d e Cristo), d e o u t r o , textos hititas e m c u n e i f o r m e duk c o n t r a Tiamat na origem do m u n d o . A prova e a vitó-
q u e r e t o m a m u m a antiga saga hurrita do século XV. A res- ria reais tinham uma d u p l a significação: ao m e s m o t e m p o
s u r r e i ç ã o q u a s e simultânea desses dois c o n j u n t o s teogôni- que confirmavam o poder da soberania do monarca,
cos revelou t o d a u m a série d e c o n v e r g ê n c i a s n o v a s q u e a d q u i r i a m o valor de u m a nova criação da o r d e m cósmica,
explicam a presença, na t r a m a da narrativa hesiódica, de social e d a s estações. Pela virtude religiosa do rei, a orga-
detalhes q u e parecem deslocados ou incompreensíveis. O n i z a ç ã o d o u n i v e r s o , a p ó s u m p e r í o d o d e crise, v i a - s e
p r o b l e m a das influências orientais sobre os m i t o s gregos r e n o v a d a e mantida p o r um novo ciclo t e m p o r a l .
de gênese, o de sua extensão e seus limites, o d a s vias e da Por meio de rito e m i t o babilónicos, exprime-se u m a
d a t a de sua p e n e t r a ç ã o e n c o n t r a m - s e assim colocados de c o n c e p ç ã o particular das relações da soberania e da
m a n e i r a precisa e sólida. o r d e m . O rei n ã o d o m i n a s o m e n t e a h i e r a r q u i a social;
Nessas t e o g o n i a s orientais, c o m o nas d a G r é c i a à s intervém t a m b é m na m a r c h a dos f e n ô m e n o s n a t u r a i s . A
quais elas p u d e r a m f o r n e c e r modelos, o s t e m a s d e gênese o r d e n a ç ã o do espaço, a criação do t e m p o , a regulação do
ficam integrados n u m a vasta epopéia real q u e faz se ciclo d a s estações a p a r e c e m integrados na atividade real:
enfrentarem, para a dominação do mundo, as gerações são aspectos da função de soberania. C o m o natureza e
sucessivas dos deuses e diversas potências sagradas. O sociedade permanecem confundidas, a ordem, sob todas
estabelecimento do p o d e r s o b e r a n o e a f u n d a ç ã o da o r d e m suas f o r m a s e em todos os domínios, é p o s t a s o b a d e p e n -
a p a r e c e m c o m o o s dois a s p e c t o s inseparáveis d o m e s m o dência d o Soberano. Nem n o g r u p o h u m a n o , nem n o uni-
d r a m a divino, o troféu de u m a m e s m a luta, o f r u t o de u m a verso, é concebida ainda de m a n e i r a a b s t r a t a em si m e s m a
m e s m a vitória. Esse c a r á t e r geral m a r c a a d e p e n d ê n c i a da e p o r si m e s m a . Para existir tem necessidade de ser estabe-
narrativa mítica com relação a rituais reais de q u e consti- lecida, e p a r a d u r a r , d e ser m a n t i d a ; s e m p r e s u p õ e u m
tui a p r i n c í p i o um e l e m e n t o , f o r m a n d o seu a c o m p a n h a - agente ordenador, uma força criadora suscetível de
m e n t o oral. O p o e m a babilónico da Criação, o Enuma elis, promovê-la. No q u a d r o desse p e n s a m e n t o mítico, n ã o se
era assim c a n t a d o t o d o s os anos, no q u a r t o dia da festa p o d e r i a imaginar u m d o m í n i o a u t ô n o m o d a n a t u r e z a n e m
real d e C r i a ç ã o d o A n o N o v o , n o m ê s d e N i s a n , n a Ba- u m a lei de organização i m a n e n t e ao universo.
bilônia. Nessa data, julgava-se q u e o t e m p o t i n h a a c a b a d o Na Grécia, n ã o s o m e n t e a Teogonia de Hesíodo, em
seu ciclo: o m u n d o voltava a seu p o n t o de p a r t i d a . Mo- seu p l a n o geral, ordena-se s e g u n d o a m e s m a perspectiva,
m e n t o crítico em q u e a o r d e m , em sua totalidade, voltava m a s t a m b é m cosmogonias mais tardias e mais elaboradas.

118
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Cosmogonias e mitos de soberania

como a de Ferecides de Siros, que Aristóteles classifica, guarda dos ventos e das tempestades, as forças de desor-
entre os teólogos, no número daqueles que souberam mis- dem e de hybris.
turar a filosofia ao mito. Contemporâneo de Anaximan- O problema da gênese, no sentido estrito, fica, pois,
dro, Ferecides, se conserva as figuras das grandes divinda- nas teogonias, se não inteiramente implícito, pelo menos
des tradicionais, transforma, entretanto, seus nomes por em segundo plano. O mito não se interroga sobre como
jogos de palavras etimológicas para sugerir ou sublinhar um m u n d o ordenado surgiu do caos; responde à questão:
seu aspecto de forças naturais. Cronos transforma-se em Q u e m é o deus soberano? Quem conseguiu reinar (anas-
Chronos, o Tempo; Rhea em Re, que evoca um fluxo, uma sein, basileuein) sobre o universo? Neste sentido, a função
c o r r e n t e ; Zeus é c h a m a d o Zas, para exprimir talvez a do mito é estabelecer uma distinção e como uma distância
intensidade da Força. Mas o mito fica centrado no tema de entre o que é primeiro do ponto de vista temporal e o que
uma luta pelo reinado universal. Pelo que se pode julgar é primeiro do ponto de vista do poder; entre o princípio
pelos fragmentos que chegaram até nós, Ferecides narrava que está cronologicamente na origem do m u n d o e o prin-
a batalha de Cronos contra Ophion, o choque de seus dois cípio q u e preside à sua ordenação atual. O mito constitui-
exércitos, a queda dos vencidos no Oceano, o reino de se nessa distância; toma-o o próprio objeto de sua narra-
Cronos em pleno céu; depois, deviam sobrevir o assalto de ção, descrevendo, por meio da série das gerações divinas,
Z e u s , sua conquista do poder, sua u n i ã o solene com os a v a t a r e s da soberania até o m o m e n t o em q u e uma
Chtonia, p o r intermédio ou com a assistência de Eros. supremacia, esta definitiva, põe um termo à elaboração
Durante o hierós gamos de Zeus rei com a deusa subterrâ- dramática da dynasteia. Deve-se sublinhar que o termo
nea, a emergência do mundo visível produzia-se, enquan- arché, q u e fará carreira no pensamento filosófico, não per-
to se fixava pela primeira vez o modelo do rito matrimo- tence ao vocabulário político do mito. 5 Não é só que o mito
nial das Anacalyptéria, do "desvelamento". Pela força fique ligado a expressões mais especificamente "de reale-
desse casamento, a sombria Chtonia tinha-se transforma- za"; é q u e também a palavra arché, designando indistinta-
do. Tinha-se envolvido no véu que Zeus havia tecido e bor- mente a origem numa série temporal e a primazia na hie-
dado para ela, fazendo aparecer nele o contorno dos mares rarquia social, suprime essa distância sobre a qual o mito
e a forma dos continentes. Aceitando o presente que Zeus s e f u n d a v a . Q u a n d o A n a x i m a n d r o a d o t a r esse t e r m o ,
lhe oferecia em t e s t e m u n h o de sua nova p r e r r o g a t i v a conferindo-lhe pela primeira vez seu sentido filosófico de
(geras), a obscura deusa subterrânea tinha-se tornado Gé, princípio elementar, essa inovação não marcará somente a
a terra visível. Zeus atribuía então às diversas divindades
seu quinhão, sua moira, fixando para cada uma a porção 5 Em Hesíodo, arché é empregada com um valor exclusivamente
de cosmos que devia caber-lhe. Enviava ao Tártaro, sob a temporal.
AS ORIGENS DO PENSAMENTO G R E G O Cosmogonias e mitos de soberania

rejeição pela filosofia do vocabulário "monárquico" pró- exprime relações entre agentes; é constituída por relações
prio do mito; traduzirá também sua vontade de aproximar de força, de escalas de precedência, de autoridade, de dig-
o que os teólogos necessariamente separavam, de unificar n i d a d e , de vínculos de d o m í n i o e de s u b m i s s ã o . Seus
na medida do possível o que é primeiro cronologicamente, aspectos espaciais — níveis cósmicos e direções do espaço
aquilo a partir de que as coisas se formaram, e o que domi- — expressam menos propriedades geométricas que dife-
na, o que governa o universo. Com efeito, para o físico a renças de função, de valor e de classe.
ordem do mundo não pode mais ter sido instituída, num
momento dado, pela virtude de um agente singular: ima- 2 — Essa ordem não surgiu necessariamente em con-
nente à physis, a grande lei que rege o universo devia estar seqüência do jogo dinâmico dos elementos que constituem
já presente de alguma maneira no elemento original de que o universo; foi instituída dramaticamente pela iniciativa de
o mundo surgiu pouco a pouco. Falando dos antigos poetas um agente.
e dos "teólogos", Aristóteles fará observar, na Metafísica,
que para eles não são hoi prótoi, as forças originárias — 3 — O mundo é dominado pelo poder excepcional
Nyx, Okéanos, Chãos, Ouranós —, mas um retardatário. desse agente que aparece único e privilegiado, num plano
Zeus, que exerce sobre o m u n d o a arché e a basileia.*> Ao superior aos outros deuses: o mito projeta-o como soberano
contrário, Anaximandro assegura que não há nada que seja sobre o cume do edifício cósmico; é sua monarchia que
arché em relação com o ápeiron (pois que este sempre exis- mantém o equilíbrio entre as Potências que constituem o
tiu). mas que o ápeiron é arché para tudo mais, q u e ele universo, fixando a cada uma seu lugar na hierarquia, deli-
envolve (periechein) e governa (kybeman) tudo. 7 mitando suas atribuições, suas prerrogativas, sua parte de
Tentemos, pois, definir em grandes linhas o quadro honra.
no qual as teogonias gregas esboçam a imagem do mundo. Esses três traços são solidários; dão à narração míti-
ca sua coerência, sua lógica própria. Marcam também sua
1 — O universo é uma hierarquia de poderes. Aná- ligação, na Grécia como no Oriente, com essa concepção
logo em sua estrutura a uma sociedade humana, não pode- da soberania que coloca sob a dependência do rei a ordem
ria ser corretamente representado por um esquema pura- das estações, os fenômenos atmosféricos, a fecundidade
mente espacial, nem descrito em termos de posição, de da terra, dos rebanhos e das mulheres. A imagem do rei
distância, de movimento. Sua ordem, complexa e rigorosa, s e n h o r d o Tempo, f a z e d o r d e chuva, d i s t r i b u i d o r das
riquezas naturais — imagem que pôde, na época micênica,
6
traduzir realidades sociais e responder a práticas rituais —,
Aristóteles, Metafísica, 1091 a. 33-b7.
7 Física, 203 b7. transparecia ainda em certas passagens de Homero e de

123
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO
Cosmogonias e mitos de soberania

H e s í o d o , 8 e m lendas c o m o a s d e S a l m o n e u o u d e Êaco.
s ã m e n t e seu f r a c a s s o . A p e s a r d o e s f o r ç o d e d e l i m i t a ç ã o
Mas n ã o p o d e tratar-se, n o m u n d o grego, s e n ã o d e sobre-
c o n c e p t u a l q u e se m a n i f e s t a nele, o p e n s a m e n t o de H e -
vivências. A p ó s o d e s m o r o n a m e n t o da realeza micênica,
s í o d o p e r m a n e c e prisioneiro de seu q u a d r o mítico. Oura-
q u a n d o o sistema palaciano e o p e r s o n a g e m do ánax desa-
nós, Gaia, Pontos são realidades p e r f e i t a m e n t e físicas, em
p a r e c e r a m , n ã o s u b s i s t e m d o s a n t i g o s r i t o s reais s e n ã o
seu a s p e c t o c o n c r e t o d e céu, d e terra, d e m a r ; m a s s ã o a o
vestígios c u j o s e n t i d o se perdeu. Apagou-se a l e m b r a n ç a
m e s m o t e m p o d i v i n d a d e s q u e a g e m , u n e m - s e e re-
do rei q u e p e r i o d i c a m e n t e v o l t a v a a c r i a r a o r d e m do
p r o d u z e m - s e à s e m e l h a n ç a dos h o m e n s . A t u a n d o em d o i s
m u n d o ; já n ã o a p a r e c e t a m b é m c l a r a m e n t e o vínculo e n t r e
planos, o pensamento apreende o mesmo fenômeno,
as f a ç a n h a s míticas, a t r i b u í d a s a um s o b e r a n o , e a organi-
c o m o , por exemplo, a s e p a r a ç ã o da terra e das águas,
zação d o s f e n ô m e n o s naturais. O fracasso da soberania e a
s i m u l t a n e a m e n t e c o m o f a t o n a t u r a l n o m u n d o visível e
limitação do poder real c o n t r i b u í r a m assim para d e s t a c a r
c o m o p r o d u ç ã o divina n u m t e m p o p r i m o r d i a l . Para r o m -
o m i t o do ritual em q u e se enraizava na origem. Liberada
p e r c o m o vocabulário e c o m a lógica do mito, teria s i d o
da prática do culto de q u e constituía a princípio o c o m e n -
necessária a H e s í o d o u m a c o n c e p ç ã o de c o n j u n t o c a p a z de
tário oral, a narrativa p ô d e adquirir um c a r á t e r mais desin-
s u b s t i t u i r o e s q u e m a mítico de u m a h i e r a r q u i a de P o d e r e s
teressado, mais a u t ô n o m o . Pôde, em certos aspectos, pre-
d o m i n a d a p o r um S o b e r a n o . O q u e lhe f a l t o u foi p o d e r
p a r a r e prefigurar a o b r a do filósofo. Já em Hesíodo. em
r e p r e s e n t a r - s e u m u n i v e r s o s u b m e t i d o a o reino d a lei, u m
a l g u m a s passagens, a o r d e m cósmica aparecia dissociada
cosmos q u e se organizaria i m p o n d o a t o d a s as suas p a r t e s
da f u n ç ã o real, livre de t o d o vínculo com o rito. O proble-
u m a m e s m a o r d e m d e isonomia feita d e e q u i l í b r i o , d e
ma de sua gênese coloca-se e n t ã o de m a n e i r a mais inde-
reciprocidade, d e simetria.
p e n d e n t e . A emergência do m u n d o é descrita, n ã o mais em
t e r m o s d e façanha, m a s c o m o u m processo d e g e r a ç ã o p o r
P o t ê n c i a s c u j o n o m e evoca d e m a n e i r a d i r e t a realidades BIBLIOGRAFIA
físicas: céu, terra, mar, luz, noite etc. Notou-se a este res-
Sobre as origens do pensamento grego e os inícios da reflexão
peito o a c e n t o "naturalista" do começo da Teogonia (ver-
filosófica, cf. John Burnet, Early greek philosophy, 3° ed., Londres,
sos 116 a 133), q u e c o n t r a s t a com a c o n t i n u a ç ã o do
1920, trad. francesa: L'aurore de la philosophie grecque. Paris.
p o e m a . Mas o q u e c o m p o r t a talvez de m a i s significativo 1919; F. M. Cornford. From religion lo philosophy. A Study in the
essa primeira tentativa para descrever a g ê n e s e do c o s m o s , origins of western speculation, Londres, 1912; e Principium sapien-
s e g u n d o u m a lei de desenvolvimento e s p o n t â n e o , é preci- tiae. The origins of Greek philosophical thought, 1952; H. Frankel,
Dichtung und Philosophie des frühens Griechentums, 1951; e Wege
und Formen frühgriechischen Denkens, Munique, 1955; L. Gernet,
8
Homero, Odisséia, XIX, 109; Hesíodo, Trabalhos, 225 e ss. Les origines de la philosophie, Bulletin de VEnseignement public du
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Cosmogonias e mitos de soberania

Maroc, 183, 1945, pp. 9 e ss; O. Gigon, Der Ursprung der griechis- nes orientales, ibid., pp. 17-37; e Influences orientales et survivan-
chen Philosophie vori Hesiod bis Parmenides, Basiléia, 1945; W. R. ces indoeuropéenties dans la Théogonie d'Hésiode, Revue de la
C. Guthrie, In the beginning. Some Greek views on the origins of life Franco-ancienne, 126, 1958. pp. 329-36; S. Wikander, Histoire des
and the early state ofman, Londres, 1957; W. Jaeger, The theology Ouranides, Cahiers du Sud, 1952,314. pp. 9-17. Encontrar-se-ão os
of the early Greek philosophers, Oxford, 1947; G. S. Kirk e J. E. textos orientais editados por [. B. Pritchard, Ancient Near Eastern
Raven, The presocratic philosophers. A criticai history with a selec- texts relating to the Old Testament, 2a ed., Princeton, 1955.
tion of texts, Cambridge, 1957; W. Nestle, Vom mythos zum logos.
Die Selbstentfaltung des griechischen Denkens vou Homer bis auf
die Sophistik und Sokrates, Stuttgart, 1940; R. B. Onians. The ori-
gins of European thought about the body, the mind, the soul, the
world, time and fate, Cambridge, 1951; P. M. Schuhl, Essai sur la
formation de la pensée grecque. Introduction historique à une étude
de la philosophie platonicienne, Paris, 1934, 2a ed., 1948; B. Snell.
Die Entdeckung des Geistes. Studien zur Entstehung des europaís-
chen Denkens bei den Griechen, 2a ed., Hamburgo, 1948; G.
Thomson, Studies in ancient Greek society, II, The first Philo-
sophers, Londres, 1955; e From religion to philosophy, Journal of
Hellenic Studies, 73, 1953, pp. 77-84; J. P. Vernant, Du mythe à la
raison. La formation de la pensée positive dans la Grèce archaíque.
Annales. Economies, Sociétés, Civilisations, 1957, pp. 183-206.
Sobre as relações entre teogonias gregas e orientais, cf. R. D.
Barnett, The Epic ofKumarbi and the Theogony of Hesiod, Journal
of hellenic studies, 65, 1945, pp. 100-1; J. Duchemin, Sources grec-
ques et orientales de la Théogonie d'Hésiode, L'information littérai-
re, 1952, pp. 146-151; R. Dussaud, Antécédents Orientaux à la
Théogonie d'Hésiode, Mélanges Grégoire, I, 1949, pp. 226-231; O.
Eissfeldt, Phõnikische und Griechische Kosmogonie, in Eléments
orientaux dans la religion grecque ancienne, Paris, 1960, pp. 1-55;
E. O. Forrer, Eine Geschichte des Gòtterkònigtums aus dem Ilatti-
Reiche. Mélanges Fr. Cumont, 1936, pp. 687-713; H. C. Güterbock,
The hittite version of the burrian Kumarpi myths: Oriental Fo-
rerunners of Hesiod, American Journal of archaeology, 52, 1948,
pp. 123-34; H. Schwabe, Die griechischen Theogonien und der
Orient, Eléments orientaux dans la religion grecque ancienne,
| pp. 39-56; F. Vian, Le mythe de Typhée et le problème de ses origi-

126
CAPÍTULO VIII

A NOVA IMAGEM
DO MUNDO

Para medir a amplitude da revolução intelectual rea-


lizada pelos milésios, a análise deve apoiar-se essencial-
mente na obra de Anaximandro. A doxografia dá-nos dela
uma visão mais completa, ou menos sumária, que das teo-
rias de Tales e de Anaxímenes. Além disso, e sobretudo,
Anaximandro não introduziu apenas em seu vocabulário
um termo da importância de arché; preferindo escrever em
prosa, completa a ruptura com o estilo poético das teogo-
nias e inaugura o novo gênero literário próprio da historia
perí physeos. É nele, finalmente, que se encontra expresso^
com o maior rigor, o novo esquema cosmológico que mar-
cará de maneira profunda e durável a concepção grega do
universo.
Esse esquema permanece genético. Como physis,
como génesis, arché conserva seu valor temporal: a ori-
gem; a fonte. Os físicos pesquisam de onde e por que
caminho o mundo veio a ser. Mas essa reconstrução gené-
tica explica a formação de uma ordem que se encontra
agora projetada num quadro espacial. Um ponto deve ser
129
AS ORIGENS DO PENSAMENTO G R E G O A nova imagem do mundo

aqui fortemente sublinhado. A dívida dos milésios para so. Acrescenta que se ela permanece em repouso nesse
com a astronomia babilónica é incontestável. Dela toma- lugar, sem ter necessidade de nenhum suporte, é porque
ram as observações e os métodos que, segundo a lenda, está a igual distância de todos os pontos da circunferência
teriam permitido a Tales predizer um eclipse; devem-lhe celeste e não tem nenhuma razão para ir para baixo mais
também instrumentos como o gnomon, que Anaximandro que para cima, nem para um lado mais q u e para outro.
teria levado a Esparta. O restabelecimento dos contatos Anaximandro situa, pois, o cosmos num espaço matemati-
com o Oriente revela-se, esta vez ainda, de uma importân- zado constituído por relações p u r a m e n t e geométricas.
cia decisiva para o desenvolvimento de uma ciência grega Assim se encontra apagada a imagem mítica de um mundo
em que as preocupações de ordem astronômica desempe- em planos em que o alto e o baixo, em sua posição absolu-
nharam no início um papel considerável. E no entanto, por ta, marcam níveis cósmicos que diferenciam Potências
seu aspecto geométrico, não mais aritmético, por seu cará- divinas e em que as direções do espaço têm significações
ter p r o f a n o , livre de toda religião astral, a astronomia religiosas opostas. Além disso, todas as explicações pelas
grega coloca-se, desde o primeiro momento, num plano quais o mito pretendia justificar a estabilidade da terra,
diferente do da ciência babilónica de que se inspira. Os "base segura para todos os vivos" (Hesíodo), revelam-se
jônios situam no espaço a ordem do cosmos; representam inúteis e irrisórias: a terra não tem mais necessidade de
a organização do universo, as posições, as distâncias, as "suporte", de "raízes"; não tem de flutuar, como em Tales,
dimensões e os movimentos dos astros, segundo esquemas sobre um elemento líquido de onde teria surgido, nem de
geométricos. Assim c o m o d e s e n h a m n u m m a p a , num repousar sobre um turbilhão ou, como em Anaxímenes,
pínax, o plano da terra inteira, colocando sob os olhos de sobre uma almofada de ar. Tudo está dito, tudo está claro
todos a imagem do mundo habitado, com seus países, seus logo que se esboça o esquema espacial. Para compreender
m a r e s e seus rios, assim t a m b é m c o n s t r o e m modelos por q u e os homens podem com toda segurança andar
mecânicos do universo, como aquela esfera q u e Anaxi- sobre o solo, por que a Terra não cai c o m o o fazem os
mandro, segundo alguns, teria fabricado. Fazendo "ver" objetos em sua superfície, basta saber que todos os raios
assim o mundo, fazem dele, no sentido pleno do termo, de um círculo são iguais.
uma theoria, um espetáculo. Sua estrutura geométrica confere ao cosmos uma
Essa geometrização do universo físico acarreta uma organização de tipo oposto àquele que o mito lhe atribuía.
transformação geral das perspectivas cosmológicas; consa- Já não se encontra nenhum elemento ou porção do mundo
gra o advento de uma forma de pensamento e de um siste- privilegiado em detrimento dos outros, já nenhum poder
ma de explicação sem analogia no mito. Para exemplificar, físico está situado na posição dominante de um basileus
Anaximandro localiza a terra, imóvel, no centro do univer- que exerça sua dynasteia sobre todas as coisas. Se a terra
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A nova imagem do mundo

está situada no centro de um universo, perfeitamente circu- Aristóteles dá-nos as razões desta escolha: se um dos ele-
lar, pode permanecer imóvel em razão de sua igualdade de mentos possuísse essa infinidade que pertence ao ápeiron,
distância, sem estar submetida à dominação de qualquer os outros seriam destruídos por ele; os elementos definem-
coisa que seja: ôtcò nyÔevòç xpaxoujiévri. Essa fórmula de se, com efeito, por sua oposição recíproca; é preciso, pois,
Anaximandro, que faz intervir a noção do Kratos, do poder que se encontrem sempre numa relação de igualdade uns
de domínio sobre outrem, mostra a persistência de um com os outros (isázei aei tanantia), ou como Aristóteles o
vocabulário e de conceitos políticos no pensamento cosmo- dirá em outra parte, em igualdade de poder (isotes tes
lógico dos jônios. Mas como o sublinha muito justamente dynámeos).2 Não há razão para pôr em dúvida e pertinên-
Charles H. Kahn, num estudo recente, Anaximandro sus- cia do raciocínio de Aristóteles e rejeitar a interpretação
tenta neste domínio uma tese que vai bem além da que q u e propõe do pensamento de Anaximandro. Notar-se-á
expõe depois dele seu discípulo Anaxímenes. 1 Para este que a argumentação aristotélica implica uma mudança radi-
último, a Terra tem necessidade de repousar no ar que a cal nas relações do poder e da ordem. A basileia, a monar-
domina (synkratei) c o m o a alma domina o corpo. Para chia, que no mito estabeleciam a ordem e a sustentavam,
Anaximandro, ao contrário, nenhum elemento singular, ne- aparecem, na perspectiva nova de Anaximandro, como des-
nhuma porção do mundo poderia dominar as demais. São truidoras da ordem. A ordem não é mais hierárquica; con-
a igualdade e a simetria dos diversos poderes constituintes siste na manutenção de um equilíbrio entre potências dora-
vante iguais, sem que nenhuma delas deva obter sobre as
do cosmos que caracterizam a nova ordem da natureza. A
outras um domínio definitivo que ocasionaria a ruína do
supremacia pertence exclusivamente a uma lei de equilí-
cosmos. Se o ápeiron possui a arché e governa todas as coi-
brio e de constante reciprocidade. À monarchia um regime
sas, é precisamente porque seu reino exclui a possibilidade
de isonomia se substituiu, na natureza como na cidade.
para um elemento de apoderar-se da dynasteia. A primazia
Daí a recusa de atribuir à água. como Tales, ao ar,
do ápeiron garante a permanência de uma ordem igualitária
como Anaxímenes ou a qualquer outro elemento particu-
f u n d a d a na reciprocidade das relações e que, superior a
lar a dignidade de arché. A substância primeira, "infinita,
todos os elementos, impõe-lhes uma lei comum.
imortal e divina, que envolve e governa todas as coisas,
De resto, esse equilíbrio das potências não é de manei-
Anaximandro a concebe como uma realidade à parte, dis-
ra nenhuma estático; encobre oposições e é feito de confli-
tinta de todos os elementos, formando sua origem comum,
tos. Cada potência por sua vez domina sucessivamente,
a fonte inesgotável em que todos igualmente se alimentam.
ipoderando-se do poder, recuando depois para cedê-lo, na
proporção de seu primeiro avanço. No universo, na suces-
1
I Charles H. Kahn. Anaximander and the origins of Greek cosmo-
logy, Nova York, 1960. 2 Aristóteles. Física, 204 b 22 e 13-19; Meteorológica. 340 a 16.
132
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A nova imagem do mundo

são das estações, no c o r p o do h o m e m , um ciclo regular faz ton dynámeon, o equilíbrio d o s poderes, o ú m i d o e o seco,
p a s s a r assim a supremacia de um a outro, ligando, c o m o o f r i o e o q u e n t e , o a m a r g o e o d o c e etc.; a d o e n ç a resulta
dois t e r m o s simétricos e reversíveis, o d o m í n i o e a submis- a o c o n t r á r i o d a monarchia de um elemento sobre os
são, a extensão e a retração, a força e a fraqueza, o nasci- o u t r o s , pois a d o m i n a ç ã o exclusiva de um e l e m e n t o parti-
m e n t o e a m o r t e de todos os elementos — esses elementos c u l a r é destrutiva.
que para Anaximandro "segundo a ordem do tempo se M a s a e x p e r i ê n c i a social n ã o f o r n e c e u s o m e n t e a o
f a z e m m u t u a m e n t e r e p a r a ç ã o (tisis) e justiça (dike), pela p e n s a m e n t o c o s m o l ó g i c o o m o d e l o de u m a lei e de u m a
adikia q u e c o m e t e r a m " . o r d e m igualitárias q u e se s u b s t i t u e m à d o m i n a ç ã o o n i p o -
C o n s t i t u í d o p o r dynámeis opostas e i n c e s s a n t e m e n t e tente do m o n a r c a . O regime da c i d a d e p a r e c e u - n o s solidá-
em conflito, o m u n d o as s u b m e t e a u m a regra de justiça rio de u m a c o n c e p ç ã o n o v a do espaço, ao se p r o j e t a r e m e
c o m p e n s a t ó r i a , a u m a o r d e m q u e m a n t é m nelas u m a exata se e n c a r n a r e m as instituições da Polis no q u e se p o d e cha-
isotes. S o b o j u g o dessa dike igual para todos, as p o t ê n c i a s m a r um e s p a ç o político. Note-se a este respeito q u e os pri-
elementares associam-se, coordenam-se segundo uma m e i r o s u r b a n i s t a s , c o m o H i p o d a m o de Mileto, s ã o na rea-
oscilação regular, para c o m p o r , apesar de sua multiplicida- lidade teóricos políticos: a organização do e s p a ç o u r b a n o
de e de sua diversidade, um c o s m o s único. n ã o é m a i s q u e um a s p e c t o de um e s f o r ç o m a i s geral para
Essa n o v a imagem d o m u n d o , A n a x i m a n d r o desta- o r d e n a r e racionalizar o m u n d o h u m a n o . O v í n c u l o e n t r e
cou-a com suficiente rigor para que se impusesse c o m o o e s p a ç o da cidade e suas instituições a p a r e c e ainda m u i t o
u m a e s p é c i e d e lugar c o m u m a o c o n j u n t o d o s f i l ó s o f o s c l a r a m e n t e em Platão e em Aristóteles.
pré-socráticos assim c o m o ao p e n s a m e n t o médico. No O n o v o e s p a ç o s o c i a l e s t á c e n t r a d o . O kratos, a
c o m e ç o do século V, A l c m e ã o a f o r m u l a r á em t e r m o s q u e arché, a dynasteia já n ã o e s t ã o s i t u a d o s no á p i c e da escala
d i z e m t ã o c l a r a m e n t e sua o r i g e m política q u e n ã o p a r e c e s o c i a l , f i c a m e s meson, no centro, no meio do g r u p o
necessário, s o b r e t u d o a p ó s o s artigos q u e A . G . V l a s t o s h u m a n o . É este c e n t r o q u e é agora valorizado; a salvação
c o n s a g r o u a esse p r o b l e m a , q u e se insista nisso m a i s tem- da polis r e p o u s a sobre os q u e se c h a m a m hoi mesoi, p o r -
po. 3 A l c m e ã o define, c o m efeito, a saúde c o m o a isonomia q u e , e s t a n d o a igual d i s t â n c i a d o s e x t r e m o s , c o n s t i t u e m
um p o n t o fixo para equilibrar a cidade. C o m relação a este
c e n t r o , os indivíduos e os g r u p o s o c u p a m t o d o s posições
* A. G. Vlastos, Equality and justice in early greek cosmologies,
Classical Philology, 42, 1947, p. 156-178; Theology and philosophy simétricas. A agora, q u e realiza sobre o t e r r e n o essa o r d e -
in early Greek thought, The philosophical Quarlerly, 1952, p. 97- n a ç ã o e s p a c i a l , f o r m a o c e n t r o de um e s p a ç o p ú b l i c o e
123; Isonomia, American Journal of Philology, 74, 1953, p. 337- c o m u m . T o d o s o s q u e n e l e p e n e t r a m s e d e f i n e m , por isso
I 366; e a análise da obra de P. M. Cornford, Principium Sapientiae,
m e s m o , c o m o iguais, c o m o isoi. Por sua p r e s e n ç a nesse
| em Gnomon, 27. 1955, p. 65-76.
134 135
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO
A nova imanem do mundo

espaço político entram, u n s com os outros, em relações de


q u e Anaximandro estabelece entre a ausência de "domina-
perfeita reciprocidade. A instituição da Hestia koiné, do
ção", a centralidade, a similaridade, autoriza a c o m p a r a -
Lar público, é símbolo dessa comunidade política: 4 insta-
ção com um texto político de H e r ó d o t o em q u e voltamos a
lado no Pritaneu, em geral na ágora, o Lar público acha-se
e n c o n t r a r o mesmo vocabulário e a m e s m a solidariedade
em suas relações com os múltiplos lares domésticos, mais
conceptual. Heródoto conta que. ao morrer o tirano
ou menos a igual distância das diversas famílias q u e consti-
Polícrates, Meandro, designado pelo finado para t o m a r o
tuem a cidade; deve representá-las todas sem se identificar
skeptron depois dele. convoca todos os c i d a d ã o s para a
mais c o m u m a q u e c o m o u t r a . Espaço c e n t r a d o , espaço
assembléia e anuncia-lhes sua decisão de abolir a tirania:
c o m u m e público, igualitário e simétrico, m a s t a m b é m
"Polícrates, diz-lhes em resumo, não tinha minha aprova-
e s p a ç o laicizado, feito para a c o n f r o n t a ç ã o , o d e b a t e , a
ç ã o q u a n d o reinava c o m o déspota sobre o s h o m e n s q u e
argumentação, e q u e se opõe ao espaço religiosamente qua- e r a m seus semelhantes ( d e s p o z o n andrôn homoion eautó)
lificado da Acrópole, assim c o m o o domínio d o s hósia, dos ... De minha parte, d e p o n h o a arché es meson, no centro,
assuntos profanos da cidade humana, opõe-se ao dos hierâ,
e proclamo para vós a isonomia."5
o dos interesses sagrados q u e concernem aos deuses. A comparação parecerá ainda mais significativa por-
Q u e este novo q u a d r o espacial tenha f a v o r e c i d o a que, e n t r e os milésios mesmos, a concepção de um espaço
orientação geométrica q u e caracteriza a astronomia grega; físico, simetricamente organizado em torno de um centro,
que haja uma p r o f u n d a analogia de estrutura, entre o r e p r o d u z certas representações de ordem social. Segundo
espaço institucional no qual se exprime o cosmos h u m a n o A g a t ê m e r o , A n a x i m a n d r o de Mileto, discípulo de Tales,
e o espaço físico no qual os milésios projetam o cosmos foi o p r i m e i r o a d e s e n h a r a terra h a b i t a d a n u m pínax,
natural, é o q u e sugere a c o m p a r a ç ã o de certos textos. c o m o devia fazê-lo depois dele, de maneira mais precisa,
Segundo a doxografia, se para A n a x i m a n d r o a terra Hecateu de Mileto. 6 O autor acrescenta: Os antigos imagi-
p o d e permanecer imóvel e fixa, é em razão de sua situação n a v a m a Terra h a b i t a d a mais ou m e n o s r e d o n d a , c o m a
central {perí meson, mese), da homoiotes, a similitude, e Grécia no centro e Delfos no centro da Grécia. Sabe-se
do equilíbrio, a isorropia. Encontrando-se assim no cen- q u e essa concepção devia provocar a ironia de Heródoto:
tro, não está, acrescentava Anaximandro, d o m i n a d a (kra- "Rio, escreve ele, q u a n d o vejo os mapas da terra que mui-
toumene) por nada. O vínculo, tão paradoxal p a r a nós. tos d e s e n h a r a m no p a s s a d o e q u e n i n g u é m explicou de
maneira sensata. D e s e n h a m o O c e a n o fluindo em torno da
4
Cf. L. Gcrnct, Sur 1c symbolisme politique en Grèce ancienne: le
I Foyer commun. Cahiers internationaux de Sociologie, 11, 1951, 5 Heródoto, 3, 142.
| p. 21-43. 6
Agatêmero, 1,1.
136
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO A nova imagem do mundo

Terra, q u e é r e d o n d a c o m o se tivesse sido feita a c o m p a s - p o d e r á d e s i g n a r e m Filolao o f o g o c ó s m i c o c e n t r a l , e m


so, e f a z e m a Ásia igual à E u r o p a . " 7 Em o u t r a p a s s a g e m , o u t r o s filósofos, a Terra q u e p e r m a n e c e imóvel no m e i o do
H e r ó d o t o revela-nos o f u n d a m e n t o institucional e político u n i v e r s o físico. 1 0
d e s s a g e o m e t r i z a ç ã o , a seus olhos d e m a s i a d o a v a n ç a d a , Destas c o r r e s p o n d ê n c i a s e n t r e a e s t r u t u r a do c o s m o s
do e s p a ç o físico: Após o d e s a s t r e q u e s o f r e r a m , todos os n a t u r a l e a organização do c o s m o s social, Platão m o s t r a - s e
j ô n i o s se e n c o n t r a m r e u n i d o s no Paniônio. Bias de Priene, a i n d a p l e n a m e n t e c o n s c i e n t e no século IV. O filósofo q u e
um dos Sábios, aconselha formar primeiro uma frota f a z inscrever n o limiar d a A c a d e m i a : q u e n i n g u é m e n t r e
c o m u m p a r a g a n h a r a S a r d e n h a e ali f u n d a r u m a c i d a d e aqui se não é geômetra —, dá testemunho dos vínculos
única p a n j ô n i c a . Tales de Mileto fala em seguida. P r o p õ e q u e u m a m e s m a origem, u m a orientação c o m u m estabele-
q u e se t e n h a um c o n s e l h o ú n i c o (en Bouleutérion) e q u e se ceram e mantiveram por muito tempo, entre os gregos,
fixe sua s e d e em Teos, p o r q u e esta ilha se a c h a no c e n t r o entre p e n s a m e n t o geométrico e p e n s a m e n t o político.
da Jônia ( m e s o n Ioníes)-, as o u t r a s cidades c o n t i n u a r i a m a F u s t i g a n d o , no Górgias, na pessoa de Cálicles e pela boca
ser h a b i t a d a s , mas e s t a r i a m d o r a v a n t e na situação de de Sócrates, todos os q u e se recusam a e s t u d a r a g e o m e -
ciemos periféricos integrados n u m a polis ú n i c a . 8 tria, Platão associa e s t r e i t a m e n t e o c o n h e c i m e n t o da iso-
Temos de resto uma prova das interferências que tes, da igualdade g e o m é t r i c a , f u n d a m e n t o do c o s m o s físi-
p u d e r a m produzir-se e n t r e o s valores políticos, geométri- co, às virtudes políticas sobre as quais repousa a nova
cos e físicos do centro, c o n c e b i d o c o m o o p o n t o fixo em o r d e m da cidade: a dikaiosyne e a sophrosyne: "Pelo q u e
t o r n o do qual se o r d e n a , na sociedade e na n a t u r e z a , um a s s e g u r a m os d o u t o s , Cálicles, o céu e a terra, os deuses e
e s p a ç o igualitário f e i t o de r e l a ç õ e s s i m é t r i c a s e reversí- os h o m e n s estão ligados e n t r e si n u m a c o m u n i d a d e (koi~
veis. 9 Hestia, símbolo na úgora da nova o r d e m h u m a n a . nonia) feita de a m i z a d e ( p h i l i a ) , de o r d e n a ç ã o (cosmio-
tes), de m o d e r a ç ã o ( s o p h r o s y n e ) , de justiça ( d i k a i o t e s ) ...
7 m a s tu n ã o lhes dás a t e n ç ã o , p o r mais sábio q u e sejas, e
Heródoto, 4, 36.
8
Heródoto, 1, 170. e s q u e c e s q u e a igualdade geométrica (geometriké isotes) é
9
Certamente, o pensamento mítico conhecia a circularidade e o cen- o n i p o t e n t e entre os d e u s e s e entre os h o m e n s : é p o r isso
tro; também ele valoriza a uma e ao outro. Mas a imagem religiosa q u e negligencias a geometria." 1 1
do centro não ordena um espaço simétrico; implica, ao contrário,
um espaço hierarquizado que comporta níveis cósmicos entre os
quais o centro permite estabelecer uma comunicação. O simbolismo
político do Centro (o Lar comum) aparece como uma mediação Cf. R. E. Siegel. On the relation between early scientific thoughi
entre a expressão religiosa do centro (ómphalos, Hestia) e o concei- and mysticism: is Hestia. the central fire, an abstract astronomical
I to geométrico do centro num espaço homogêneo; cf. sobre este concept?", Janus, 49. 1960. p. 1-20.
I ponto L. Gernet, 1. c., p. 42 e ss. 11 Platão. Górgias, 508 a.
138
CONCLUSÃO

Advento da Polis, nascimento da filosofia: entre as


duas ordens de fenômenos os vínculos são demasiado
estreitos para que o pensamento racional não apareça, em
suas origens, solidário das estruturas sociais e mentais
próprias da cidade grega. Assim recolocada na história, a
filosofia despoja-se desse caráter de revelação absoluta
que às vezes lhe foi atribuído, saudando, na jovem ciência
dos jônios, a razão intemporal que veio encarnar-se no
Tempo. A escola de Mileto não viu nascer a Razão; ela
construiu uma Razão, uma primeira forma de racionalida-
de. Essa razão grega não é a razão experimental da ciência
contemporânea, orientada para a exploração do meio físi-
co e cujos métodos, instrumentos intelectuais e quadros
mentais foram elaborados no curso dos últimos séculos,
no esforço laboriosamente continuado para conhecer e
dominar a Natureza. Quando Aristóteles define o homem
como "animal político", sublinha o que separa a Razão
grega da de hoje. Se o homo sapiens é a seus olhos um
homo politicas, é que a própria Razão, em sua essência, é
política.
Hl
AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO Conclusão

De fato, é no p l a n o político q u e a Razão, na Grécia, m o u , c o m o se m a n t é m , m a s sim qual é a n a t u r e z a do Ser e


p r i m e i r a m e n t e se e x p r i m i u , constituiu-se e f o r m o u - s e . A do S a b e r e quais s ã o suas relações. Os gregos a c r e s c e n t a m
experiência social p ô d e tornar-se entre os gregos o o b j e t o assim u m a nova d i m e n s ã o à história do p e n s a m e n t o
de u m a reflexão positiva, p o r q u e se prestava, na cidade, a h u m a n o . Para resolver as d i f i c u l d a d e s t e ó r i c a s , as " a p o -
um debate público de argumentos. O declínio do mito rias", q u e o p r ó p r i o p r o g r e s s o de seus p r o c e s s o s fazia sur-
d a t a d o dia e m q u e o s p r i m e i r o s Sábios p u s e r a m e m dis- gir, a filosofia teve de f o r j a r para si u m a linguagem, elabo-
cussão a o r d e m h u m a n a , p r o c u r a r a m defini-la em si rar seus conceitos, edificar u m a lógica, c o n s t r u i r sua p r ó -
m e s m a , traduzi-la em f ó r m u l a s acessíveis à sua inteligên- pria racionalidade. Mas nessa tarefa n ã o se aproximou
cia, aplicar-lhe a n o r m a do n ú m e r o e da m e d i d a . Assim se m u i t o d a realidade física; p o u c o t o m o u d a o b s e r v a ç ã o d o s
d e s t a c o u e se definiu um p e n s a m e n t o p r o p r i a m e n t e políti- f e n ô m e n o s naturais; n ã o fez experiência. A p r ó p r i a n o ç ã o
co, exterior à religão. c o m seu vocabulário, seus conceitos, d e e x p e r i m e n t a ç ã o foi-lhe s e m p r e e s t r a n h a . Edificou u m a
seus princípios, suas vistas teóricas. Este p e n s a m e n t o m a r - m a t e m á t i c a sem q u e p r o c u r a s s e utilizá-la n a e x p l o r a ç ã o
cou p r o f u n d a m e n t e a mentalidade do h o m e m antigo; da n a t u r e z a . Entre o m a t e m á t i c o e o físico, o cálculo e a
c a r a c t e r i z a u m a civilização q u e n ã o deixou, e n q u a n t o per- experiência, faltou essa c o n e x ã o q u e nos p a r e c e u unir n o
m a n e c e u viva, de c o n s i d e r a r a vida pública c o m o o coroa- c o m e ç o o geométrico e o político. Para o p e n s a m e n t o
m e n t o da atividade h u m a n a . Para o grego, o h o m e m n ã o grego, se o m u n d o social deve estar s u j e i t o ao n ú m e r o e à
se s e p a r a do cidadão; a phrónesis, a reflexão, é o privilégio m e d i d a , a n a t u r e z a r e p r e s e n t a de p r e f e r ê n c i a o d o m í n i o
d o s h o m e n s livres q u e e x e r c e m c o r r e l a t i v a m e n t e s u a r a z ã o d o " a p r o x i m a d a m e n t e " a o q u a l n ã o s e aplicam n e m cálcu-
e seus direitos cívicos. Assim, ao f o r n e c e r a o s cidadãos o lo e x a t o n e m raciocínio rigoroso. A r a z ã o grega n ã o se for-
q u a d r o no qual c o n c e b i a m suas relações recíprocas, o pen- m o u t a n t o n o c o m é r c i o h u m a n o com a s coisas q u a n t o n a s
s a m e n t o político orientou e estabeleceu s i m u l t a n e a m e n t e relações d o s h o m e n s e n t r e si. Desenvolveu-se m e n o s c o m
os processos de seu espírito n o s o u t r o s d o m í n i o s . a s técnicas q u e o p e r a m n o m u n d o q u e p o r a q u e l a s q u e d ã o
Q u a n d o nasce em Mileto, a filosofia está e n r a i z a d a m e i o s para d o m í n i o d e o u t r e m e c u j o i n s t r u m e n t o c o m u m
nesse p e n s a m e n t o político c u j a s p r e o c u p a ç õ e s f u n d a m e n - é a linguagem: a a r t e do político, do reitor, do professor. A
tais t r a d u z e do qual tira u m a parte de seu v o c a b u l á r i o . É r a z ã o grega é a q u e de m a n e i r a positiva, refletida, m e t ó d i -
verdade que bem depressa se afirma com maior indepen- ca, p e r m i t e agir s o b r e os h o m e n s , n ã o t r a n s f o r m a r a n a t u -
d ê n c i a . D e s d e P a r m ê n i d e s , e n c o n t r o u seu c a m i n h o p r ó - r e z a . D e n t r o de s e u s limites c o m o em s u a s inovações, é
prio; explora u m d o m í n i o novo, coloca p r o b l e m a s q u e s ó filha d a cidade.
a ela p e r t e n c e m . Os filósofos já se n ã o i n t e r r o g a m , c o m o o
f a z i a m os milésios, s o b r e o q u e é a o r d e m , c o m o se for-