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GILLES DELEUZE (França, 1925 – França, 1995)

[De onde surge o pensamento?]


“(...) É verdade que, no caminho que leva ao que se há de pensar, tudo parte
da sensibilidade. (...)”* “(...) Todo conceito remete a um problema, a problemas
sem os quais não teria sentido, e que só podem ser isolados ou compreendidos
na medida de sua solução (...)”** “(...) As questões são fabricadas, como outra
coisa qualquer. Se não deixam que você fabrique suas questões, com
elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não
tem muito o que dizer. A arte de construir um problema é muito importante:
inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a
solução. (...)”***
O essencial são os intercessores. A criação são os intercessores. Sem eles
não há obra. Podem ser pessoas – para um filósofo, artistas ou cientistas; para
um cientista, filósofos ou artistas – mas também coisas, plantas, até animais
(...). Fictício ou reais, animados ou inanimados, é preciso fabricar seus próprios
intercessores. É uma série. Se não formamos uma série, mesmo que
completamente imaginária, estamos perdidos. Eu preciso de meus
intercessores para me exprimir, e eles jamais se exprimiriam sem mim: sempre
se trabalha em vários, mesmo quando não se vê. (...)****
* Diferença e repetição (1968) / **O que é a filosofia? (1991) / *** Diálogos
(1977) /**** Conversações: 1972-1990 (1990)

Conversações: 1972-1990 (1990) - Carta a um crítico severo (1973)


[Extensidade (quantidade) e intensidade (qualidade)]
(...) É que há duas maneiras de ler um livro. Podemos considerá-lo como uma
caixa que remete a um dentro, e então vamos buscar seu significado, e aí, se
formos ainda mais perversos ou corrompidos, partimos em busca do
significante. E trataremos o livro seguinte como uma caixa contida na
precedente, ou contendo-a por sua vez. E comentaremos, interpretaremos,
pediremos explicações, escreveremos o livro do livro, ao infinito. Ou a outra
maneira: consideramos um livro como uma pequena máquina a-significante; o
único problema é: “isso funciona, e como é que funciona?” Como isso funciona
para você? Se não funciona, se nada se passa, pegue outro livro. Essa outra
leitura é uma leitura em intensidade: algo passa ou não passa. Não há nada a
explicar, nada a compreender, nada a interpretar. É do tipo ligação elétrica.
Corpo sem órgãos, conheço gente sem cultura que compreendeu
imediatamente, graças a seus próprios “hábitos”, graças à sua maneira de se
fazer um. Essa outra maneira de ler se opõe à anterior porque relaciona
imediatamente um livro com o Fora. Um livro é uma pequena engrenagem
numa maquinaria exterior muito mais complexa. Escrever é um fluxo entre
outros, sem nenhum privilégio em relação aos demais, e que entra em relações
de corrente, contra-corrente, de redemoinho com outros fluxos, fluxos de
merda, de esperma, de fala, de ação, de erotismo, de dinheiro, de política, etc.
(...) Essa maneira de ler em intensidade, em relação com o fora, fluxo contra
fluxo, máquina com máquinas, experimentações, acontecimentos em cada um
nada têm a ver com um livro, fragmentação do livro, maquinação dele com
outras coisas, qualquer coisa…, etc., é uma maneira amorosa. (...)
QUESTÕES

1. Deleuze diz que tudo parte da sensibilidade. Qual o caminho que


percorre o pensamento? Argumente.
2. O que significa dizer que os problemas e soluções são criados com a
ajuda de intercessores? O que isso quer dizer? Explique.
3. Deleuze diz que nossa sensibilidade possui duas dimensões, e que tudo
parte da sensibilidade intensiva. Qual a diferença entre intensidade e
extensidade? Explique com argumentos do cotidiano.