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DOCÊNCIA EM

SAÚDE
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL
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Bibliotecário responsável: Rodrigo Pereira CRB 1/2167
Portal Educação

P842t Terapia cognitivo-comportamental / Portal Educação. - Campo Grande:


Portal Educação, 2013.

166p. : il.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-8241-656-3

1. Terapia comportamental. 2. Psicologia - cognição. I. Portal Educação. II.


Título.

CDD 153.4
SUMÁRIO

1 PSICOTERAPIA .........................................................................................................................4

1.1 CONCEITOS DE PSICOTERAPIA .............................................................................................4 2

1.2 FATORES COMUNS A TODA PSICOTERAPIA ........................................................................9

1.3 EQUÍVOCOS SOBRE A TERAPIA COGNITIVA E COMPORTAMENTAL ................................10

2 TERAPIA COMPORTAMENTAL ..............................................................................................12

2.1 HISTÓRICO...............................................................................................................................12

2.2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS ...................................................................................................26

2.3 INDICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES ...................................................................................33

2.4 TÉCNICAS DA TERAPIA COMPORTAMENTAL ......................................................................37

2.5 CONCEITOS BÁSICOS ............................................................................................................46

3 TERAPIA COGNITIVA ..............................................................................................................49

3.1 HISTÓRICO...............................................................................................................................49

3.2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA TERAPIA COGNITIVA.........................................................50

3.3 INDICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES ...................................................................................53

3.4 TÉCNICAS DA TERAPIA COGNITIVA......................................................................................55

3.5 CONCEITOS BÁSICOS DA TERAPIA COGNITIVA..................................................................64

3.6 TEORIA FOCADA EM ESQUEMAS DE YOUNG ......................................................................80

3.7 DIFERENÇA ENTRE COGNITIVISMO E O CONSTRUTIVISMO .............................................93

3.8 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS .................................................................................................95


3.9 DISTORÇÕES COGNITIVAS ...................................................................................................101

3.10 PERFIL COGNITIVO DOS TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS ..............................................108

3.11 ESTRUTURAÇÃO DAS SESSÕES..........................................................................................110

3.12 INSTRUMENTOS UTILIZADOS ...............................................................................................113


3
3.13 RELAÇÃO TERAPÊUTICA ......................................................................................................130

3.14 COMPONENTES RELEVANTES PARA SE CHEGAR AO PROBLEMA .................................139

3.15 A TCC E A FAMÍLIA .................................................................................................................142

3.16 MITOS EQUIVOCADOS SOBRE TERAPIA COGNITIVA ........................................................146

3.17 RECAÍDAS ...............................................................................................................................150

ANEXOS.............................................................................................................................................152

REFERÊNCIAS ..................................................................................................................................163
1 PSICOTERAPIA

1.1 CONCEITOS DE PSICOTERAPIA


4

Segundo Atkinson (2002), Psicoterapia pode ser conceituada como tratamento de


transtornos mentais por métodos psicológicos, em vez de físicos e biológicos. Esse termo
abrange uma variedade de técnicas, todas as quais destinadas a ajudar pessoas
emocionalmente perturbadas a modificarem seu comportamento, seus pensamentos e suas
emoções, para que possam desenvolver melhores maneiras de lidar com o estresse e com as
outras pessoas.

Artur Scarpato, em seu artigo “Introdução sobre a Psicoterapia”, cita vários conceitos
sobre Psicoterapia. Vejamos alguns:

 Recurso para lidar com as dificuldades da existência em todas as formas que o


sofrimento humano pode assumir, como transtornos psicopatológicos, crises pessoais, conflitos
conjugais e familiares, crises profissionais, distúrbios psicossomáticos, dificuldades nas
transições da vida, etc.;
 É um espaço especial de atenção às dificuldades da vida e aos caminhos internos
para solucioná-los, onde seus resultados demonstram uma grande potência de transformação de
vidas, oferecendo uma oportunidade de compreender e mudar os padrões de vínculo e relação
interpessoal.

Outros autores a definem como terapia que usa diversas técnicas empregadas em
Psicologia para o tratamento de transtornos e problemas psíquicos. Ou, processo de ajuda,
autoconhecimento e desenvolvimento pessoal.
Psicoterapia é um método de tratamento mediante o qual um
profissional treinado, valendo-se de meios psicológicos, especialmente
a comunicação verbal e a relação terapêutica, realiza,
deliberadamente, uma variedade de intervenções, com o intuito de
influenciar um cliente ou paciente, auxiliando-o a modificar problemas
de natureza emocional, cognitiva e comportamental, já que ele
procurou com essa finalidade (STRUPP, 1978 apud CORDIOLI, 2008).

5
Em termos etimológicos, terapia está relacionada com a cura, então quando nos
referimos à psicoterapia, estamos falando da cura por intermédio da psique. Na psicoterapia a
psique é trabalhada a favor do paciente buscando desenvolvimento de habilidades que o ajudem
a enfrentar as adversidades no presente, ou seja, podemos conceituá-la também como um
processo de mudança, de solução dos problemas causados pela falta de adaptação frente às
dificuldades da vida, de aprendizado, de como refletir, analisar e tentar viver melhor.
Wampold (2001) diz que a psicoterapia é um tratamento primariamente interpessoal,
baseado em princípios psicológicos, que envolve um profissional treinado e um paciente ou
cliente portador de transtorno mental, problema ou queixa, o qual solicita ajuda, sendo o
tratamento planejado pelo terapeuta com o objetivo de modificar o transtorno, problema ou
queixa, e é adaptado a cada paciente ou cliente em particular.

De acordo com a Resolução do Conselho Federal de Psicologia sobre esse tema,


temos:

Art. 1º - A Psicoterapia é prática do psicólogo por se constituir, técnica


e conceitualmente, um processo científico de compreensão, análise e
intervenção que se realiza por meio da aplicação sistematizada e
controlada de métodos e técnicas psicológicas reconhecidos pela
ciência, pela prática e pela ética profissional, promovendo a saúde
mental e propiciando condições para o enfrentamento de conflitos e/ou
transtornos psíquicos de indivíduos ou grupos (RESOLUÇÃO CFP N.º
010/00).

Veja algumas resoluções sobre prestação de serviço por meio da psicoterapia no final
deste módulo.
Veremos adiante, que a psicoterapia se distingui de outras modalidades de tratamento
por ser muita mais uma atividade colaborativa entre o paciente e o terapeuta do que uma ação
predominantemente unilateral, exercida por alguém sobre outra pessoa, como ocorre com outros
tratamentos médicos.

Quando falamos de tempo de duração da psicoterapia, isso pode variar de semanas


6
até anos, vai depender muito do tipo de psicoterapia, da abordagem usada e dos objetivos que
se buscam. Por exemplo, a psicoterapia breve trabalha com objetivos mais específicos, então é
bem mais rápida que uma psicoterapia que vai trabalhar com uma psicopatologia mais severa,
que envolverá conteúdos muito mais profundos.

A psicoterapia pode ser aplicada para tratar diversos fins como:

 Resolução de conflitos pessoais, interpessoais, conjugais, familiares e profissionais;


 Amadurecimento pessoal, para um autoconhecimento melhor, reflexão e
descoberta de novos modos de conduzir a própria vida;
 Crises existenciais;
 Transições difíceis como luto;
 Crises profissionais;
 Mudanças de fases de vida (puberdade, adolescência, vida adulta, menopausa,
envelhecimento, etc.);
 No tratamento de vários transtornos como depressão, anorexia, bulimia, pânico,
fobias, frigidez, impotência, etc.

Assim, percebemos que a psicoterapia oferece meios e recursos importantes para uma
compreensão mais ampla do processo de adoecimento assim como estratégias para lidar com
as várias contingências as quais estamos vulneráveis.
São vários os tipos de psicoterapia, podemos citar a psicoterapia individual para
crianças, adolescentes, adultos e idosos, psicoterapia de família, de casal, de grupo,
psicoterapia em situações de crise e emergência.

A psicoterapia é importante, pois vai nos ajudar a perceber questões que estão
obscuras, vai nos ajudar a rever nossa história de vida de um ângulo diferente, vai nos ensinar a
7
reconhecer nossos padrões de comportamento e aprender formas de influenciar e lidar com
esses padrões que são responsáveis por como nós agimos, nos relacionamos, pensamos e
sentimos.

Artur Scarpato cita alguns motivos importantes que explicam porque a psicoterapia
funciona:

 Ao dividir um problema, o sujeito está compartilhando um problema, e isso ajuda a


aliviar a carga emocional e seu sofrimento.
 O vínculo estabelecido entre terapeuta e cliente tem poder curativo, pois é mais
fácil superar muitas dores mediante uma relação autêntica de respeito mútuo do
que sozinho.
 A psicoterapia faz o sujeito parar para refletir sobre a própria vida e quando
fazemos isso permitimos muitas mudanças de orientação, sentido, rumo e
aprofundamento de nossas experiências.
 O psicoterapeuta vai ajudar a perceber as coisas de um ângulo que você não
tinha visto antes e nem suspeitava ser possível.
 O psicoterapeuta recebeu formação adequada e conhece teorias psicológicas que
ajudam na compreensão do que ocorre com o sujeito, auxiliam a identificar o que
pode estar errado em sua vida, a direção que você está seguindo e as mudanças
de rumo necessárias.
 Ele também tem prática com técnicas que tornam possível descobrir aspectos da
personalidade que seriam inacessíveis a uma observação não treinada e está
preparado para compreender você a partir do vínculo que você estabelece com
ele, das respostas emocionais que você suscita nele.
 Essa presença autêntica no vínculo com o cliente permite que essa relação
funcione como catalisador de processos de mudança como superação dos efeitos
de traumas de relacionamentos anteriores.

De acordo com Cordioli (2008) a psicoterapia, originalmente chamada de cura pela


8
fala, tem suas origens na medicina antiga, na religião, na cura pela fé e no hipnotismo.
Entretanto, foi ao final do século XIX que ela passou a ser utilizada no tratamento das doenças
denominadas nervosas e mentais, tornando-se uma atividade médica inicialmente restrita aos
psiquiatras. Somente no século XX outros profissionais passaram a exercê-la, como médicos
clínicos, psicólogos, enfermeiros, assistente sociais, ultrapassando assim as fronteiras do
modelo médico.

Na atualidade existe um relativo consenso que as terapias são efetivas, além de uma
concordância que uma boa parte dos seus efeitos deve-se a um conjunto de fatores que
envolvem as técnicas efetivas utilizadas, em que cada abordagem possui as suas e também
fatores específicos a todas as psicoterapias.

Então podemos conceituar a psicoterapia como um tratamento primariamente


interpessoal sendo realizada por um profissional treinado, utilizando meios psicológicos como
forma de influenciar o paciente sendo a comunicação verbal o principal recurso, como já citamos.

São vários os tipos de psicoterapia, mas todas possuem o mesmo objetivo, que é
reduzir ou remover um problema, queixa ou transtorno, trazido pelo paciente que busca ajuda.

Cordioli (2008) cita alguns elementos comuns a toda psicoterapia:

 Ela deve ocorrer no contexto de uma relação de confiança emocionalmente


carregada em relação ao terapeuta, pois se o paciente não sente essa confiança,
ficará um pouco difícil haver uma colaboração e assim o paciente não expressará o
que o levou ao setting.
 A psicoterapia ocorre em um contexto terapêutico, no qual o paciente acredita que o
terapeuta irá ajudá-lo e confia que esse objetivo será alcançado, assim consegue-
se estabelecer uma boa relação e permanecer na terapia.
 De acordo com Frank (1973) citado por Cordioli (2008), existe uma racional, um
esquema conceitual ou um mito que provê uma explicação plausível para o
desconforto, no caso um sintoma/um problema, e um procedimento ou um ritual 9
para ajudar o paciente a resolvê-lo, ou seja, existe um problema e este pode ser
explicado por uma teoria que com suas técnicas buscará ajudar.

São várias as abordagens que dão suporte aos psicoterapeutas, aqui nos
restringiremos às terapias comportamentais e cognitivo-comportamentais, em que estas se
concentram nas alterações dos padrões habituais de pensamento e comportamento.

Apesar das diferenças nas técnicas, a maioria dos métodos de psicoterapia possui
características básicas em comum, algumas que envolvem uma relação de auxílio entre duas
pessoas, o cliente e o terapeuta. O cliente é estimulado a discutir preocupações íntimas e
emoções e experiência livremente sem medo de ser julgado pelo terapeuta ou ter suas
confidências traídas; e o terapeuta deve oferecer empatia e compreensão, engendrando
confiança e tentando ajudar o cliente a desenvolver modos mais eficazes de lidar com seus
problemas.

1.2 FATORES COMUNS A TODA PSICOTERAPIA

De acordo com Cordioli (2008) existem muitos fatores comuns a todas as


psicoterapias, citaremos alguns:
 A psicoterapia ocorre no contexto de uma relação de confiança emocionalmente
carregada em relação ao terapeuta;
 A psicoterapia ocorre em um contexto terapêutico, no qual o paciente acredita que o
terapeuta irá ajudá-lo e confia que esse objetivo será alcançado;
 Existe um racional, um esquema conceitual ou um mito que prevê uma explicação
plausível para o desconforto/sintoma/problema e um procedimento ou um ritual para 10
ajudar o paciente a resolvê-lo;
 A psicoterapia é uma relação profissional que ocorre no contexto de uma relação
interpessoal, envolvendo outra pessoa ou um grupo de pessoas;
 Para a terapia ter sucesso é indispensável um contexto terapêutico favorável,
caracterizado por um ambiente de confiança e apoio, no qual o paciente acredita
que o terapeuta irá ajudá-lo e que esse objetivo será atingido;
 A psicoterapia deve proporcionar uma oportunidade para o paciente expressar
emoções, reviver e revisar experiências passadas, particularmente as que
envolvem relacionamentos com figuras importantes do passado, percebendo as
repetições no presente e encontrando novas formas de agir;
 Intervenções específicas são usadas pelo terapeuta, tais são coerentes com o
modelo explicativo sobre a origem e a manutenção dos sintomas, com o propósito
de eliminá-los;
 A terapia deve criar um ambiente que proporcione o entendimento e a busca de
alternativas para modos problemáticos de pensar, sentir e comportar-se;
 A terapia deve proporcionar a oportunidade para novas aprendizagens por meio da
exposição da situação, ideias, sentimentos e comportamentos que provocam
ansiedade, fazendo com que o paciente supere seus medos e hesitações;
 É indispensável o reconhecimento, por parte do paciente, da necessidade de
mudança e de um esforço pessoal para conseguir os resultados desejados.

1.3 EQUÍVOCOS SOBRE A TERAPIA COGNITIVA E COMPORTAMENTAL


Nota-se que a Terapia Cognitiva tem sido frequente e equivocadamente identificada
como Terapia Comportamental, originando a ideia, comum entre terapeutas treinados na
abordagem comportamental, de que estariam naturalmente habilitados a praticá-la. A abordagem
cognitiva e comportamental tem concepções de ser humano e modelos de personalidade e de
psicopatologia diferentes. Entretanto, isso não quer dizer que elas não possam ser trabalhadas
juntas, ao contrário, muitas pesquisas demonstram que há eficácia quando trabalhadas em 11
conjunto.
A mudança da terapia cognitiva e de suas técnicas para as características
comportamentais requer uma adaptação da visão de ser humano e a adoção dos modelos
cognitivos de personalidade e psicopatologia.
Essa integração de elementos da Terapia Comportamental à Terapia Cognitiva pode
ser feita sim, resultando na assim chamada Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Essa
fusão é viável desde que as técnicas comportamentais sejam empregadas com a finalidade de
mudar cognições, e não comportamentos, ou seja, são usadas técnicas comportamentais
destinadas a mudar cognições e não comportamentos. Porém, a mudança de cognições
consequentemente modifica comportamentos. É importante que fique claro que o objetivo
primeiro e principal é a mudança da cognição, mas que resulta na mudança dos
comportamentos. Desse modo, a Terapia Cognitiva, a TCC, adota a hipótese de primazia das
cognições sobre emoções e comportamentos e conceitua as cognições como eventos mentais.
2 TERAPIA COMPORTAMENTAL

2.1 HISTÓRICO
12

Sabemos que antes do Behaviorismo existir, muitas outras escolas de Psicologia o


antecederam, e outras surgiram a partir dele, como a Psicologia Experimental, a Psicologia de
Wilhelm Wundt, o Estruturalismo (sistema da Psicologia de E. B Titchener, que considerava a
experiência consciente como dependente das pessoas que a vivenciava), o Funcionalismo
(sistema de Psicologia que se dedicou ao funcionamento da mente na adaptação do organismo
ao ambiente tendo como precursor William James), posteriormente o Behaviorismo (ciência do
comportamento concebida por Watson tratando somente do comportamento passível de
observação e descrição em termos objetivos), a Psicologia da Gestalt (sistema de Psicologia que
se dedica amplamente à aprendizagem e à percepção, sugerindo que a combinação dos
elementos sensoriais produz novos padrões com propriedades que eram inexistentes nos
elementos individuais), a Psicanálise (teoria de Sigmund Freud sobre a personalidade e o
sistema de psicoterapia) que juntamente com o Behaviorismo, incentivaram o surgimento de
diversas subdivisões dentro de cada escola.

Na década de 50, a Psicologia Humanista (sistema de Psicologia que enfatiza o estudo


da experiência consciente e a integridade da natureza humana) incorporando os princípios da
Psicologia da Gestalt desenvolveu uma reação contra o Behaviorismo e a Psicanálise.

Em 1960, a Psicologia Cognitiva (sistema de Psicologia que se concentra nos


processos de aquisição do conhecimento, mais especificamente, na forma de organização das
experiências da mente) desafiou o Behaviorismo a rever o conceito de Psicologia, porque seu
foco principal seria o retorno aos estudos dos processos conscientes. E posteriormente surgiram
a Psicologia Evolucionista, a Neurociência Cognitiva e a Psicologia Positiva. Nesse tópico nos
restringiremos ao Behaviorismo, chamada atualmente de Psicologia Comportamental.
De acordo com Schultz & Schultz (2005) muitos nomes marcaram a história da
Psicologia e suas escolas:

 No Estruturalismo temos nomes como Wundt, Stumpf, Kulpe, Titchener, Brentano,


Ebbinghaus. 13
 No Funcionalismo temos James, Dewey, Munsterberg, Angell, Carr, Hall, Cattell,
Witmer, Scott, Woodworth.
 Na Psicanálise figuras como Freud, Jung, Adler, Horney se destacaram.
 No Behaviorismo temos Thorndike, Pavlov, Watson, Hull, Bekhterev, Lashley,
Tolman, Skinner, Rotter, Bandura.
 Na Psicologia da Gestalt se destacaram Wertheimer, Koffka, Kohler e Lewin.
 Na Psicologia Humanista temos Maslow e Rogers.
 Na Psicologia Cognitiva, Miller e Neisser.
 Na Psicologia Positiva, Seligman.

Tudo começou quando, no ano de 1913, foi marcada uma espécie de declaração de
guerra, com o surgimento de um movimento de protesto cuja intenção era dilacerar as visões
antigas, buscando uma ruptura com ambas as posições, seus líderes não desejavam modificar o
passado, muito menos manter alguma relação com ele, esse movimento revolucionário foi
chamado de Behaviorismo e foi promovido pelo psicólogo B. Watson, com 35 anos de idade
(Figura 1):

FIGURA 1 - B. WATSON
14

Disponível
em:<http://www.klickeducacao.com.br/Klick_Portal/Enciclopedia/images/Ps/11532/4072.jpg>.

Acesso em: 24/09/2010.

Como já citamos, o Estruturalismo e o Funcionalismo desempenharam papéis


importantes, só que foram suplantadas por três escolas, o Behaviorismo, a Psicologia da Gestalt
e a Psicanálise. Segundo Atkinson (2002), das três, a que teve maior influência na América do
Norte foi o Behaviorismo, que acreditava que para a Psicologia ser uma ciência, os dados
psicológicos deveriam estar abertos ao exame público como os dados de qualquer outra ciência.
Além disso, essa teoria defendia o comportamento como público e a consciência como privada,
assim a ciência deveria tratar apenas dos fatos públicos. Uma vez que os psicólogos estavam
ficando impacientes com a introspecção, um novo Behaviorismo foi rapidamente aceito.

Schultz & Schultz (2005) afirmam que as premissas básicas de Watson eram simples,
diretas e ousadas, buscando uma Psicologia científica que lidasse exclusivamente com os atos
comportamentais observáveis e passíveis de descrição objetiva, por exemplo, em termos de
estímulos e respostas. Watson rejeitava qualquer termo ou conceito mentalista, na sua visão
palavras como imagem, sensação, mente e consciência, que eram adotadas desde antes da
filosofia mentalista, não significavam absolutamente nada para a ciência do comportamento. Ele
afirmava ainda que ninguém jamais tinha tocado, visto, cheirado, experimentado ou transferido
de um lugar a outro a consciência, sendo sua definição tão improvável como o conceito de alma.

Deve-se ficar claro que não foi Watson que deu origem às ideias básicas do
movimento Behaviorista, elas já vinham sendo desenvolvidas há algum tempo tanto na
15
Psicologia como na biologia. Como qualquer outro fundador, o que Watson fez foi organizar e
promover as ideias e as questões já aceitáveis para o Zeitgeist intelectual da época, assim ele
destacou questões como:

 A tradição filosófica objetivista e mecanicista;


 A Psicologia animal;
 A Psicologia funcional.

Dessa forma, Watson começou a trabalhar com questões que focassem apenas algo
que fosse visível, audível ou palpável. Para entendermos melhor as ideias de Watson faremos
um breve balanço de como surgiram algumas ciências.

Encontramos em Baum (1999) a definição de Behaviorismo como um conjunto de


ideias sobre o comportamento, não como uma ciência, mas como uma filosofia da ciência. Esse
conceito fica mais bem entendido quando percebemos que houve um rompimento de várias
ciências com a filosofia, todas começaram seus estudos com a filosofia e posteriormente se
separaram. Uma ruptura de ciências como a astronomia, física, química, biologia com a filosofia,
ciência da qual se originaram, sendo que com a Psicologia não foi diferente.

O raciocínio da filosofia parte de suposições para conclusões e sua verdade é


absoluta, já a ciência segue direção oposta, pois observa e tenta explicar que verdade poderia
levar essa observação e tem a verdade científica como relativa e provisória.

Como dissemos, a Psicologia rompeu com a filosofia, apesar de até na última metade
do século XIX ter usado métodos filosóficos como a introspecção, método este considerado
vulnerável e pouco confiável.
Os psicólogos da época acreditavam que seguindo os métodos objetivos que eram
verificáveis e replicáveis em laboratórios, a Psicologia poderia transformar-se numa verdadeira
ciência.

Em 1913, Watson articulou a crescente insatisfação dos psicólogos com a introspecção


e a analogia como métodos. Ele defendia que a Psicologia deveria ser definida como ciência do
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comportamento e não como ciência da consciência. Dessa forma, evitar os termos relacionados
com consciência e mente deixaria a Psicologia livre para estudar o comportamento humano e
social. Ele contestou bastante o antropocentrismo.

Para Watson, o caminho era fazer da Psicologia uma ciência geral do comportamento,
que compreendesse todas as espécies, e que estudaria apenas o comportamento objetivamente
observável e deixaria de lado a subjetividade da introspecção e as analogias entre homem e
animal.

Com a ciência do comportamento veio a noção de que o comportamento é


determinado unicamente pela hereditariedade e pelo ambiente. Em contrapartida a essa tese
temos o livre-arbítrio, que é a capacidade de escolha, e supõe um terceiro elemento além da
hereditariedade e do ambiente, que ele diz ser algo que vem de dentro do indivíduo. O livre-
arbítrio afirma que a escolha não é uma ilusão, pois são as próprias pessoas que causam o
comportamento.

De acordo com Baum (1999), alguns filósofos tentaram conciliar determinismo com
livre-arbítrio e propuseram para o livre-arbítrio teorias chamadas de “determinismo brando” e
“teorias compatibilizadoras”. A primeira deixa implícita que o livre-arbítrio é apenas uma
experiência, uma ilusão, e não uma relação causal entre pessoa e ação; já a segunda define
livre-arbítrio como deliberação antes da ação, isto é, comportamento que pode ser determinado
pela hereditariedade e pelo ambiente passado.

A Psicologia comparativa teve origem na ideia de fazer comparações entre espécies a


fim de conhecer melhor a nossa própria. Passou-se a fazer comparações entre homem e animal
para descobrir seus mecanismos, até mesmo suas formas de pensar e agir.

Essa Psicologia teve grande influência no estudo do Behaviorismo. A seguir, citaremos


alguns pontos marcantes.
Jacques Loeb acreditava na reação direta e automática do animal a um estímulo. Para
ele, não há qualquer explicação em termos de definição consciente do animal referente à reação
comportamental forçada pelo estímulo, o que existe é o movimento forçado involuntário, que,
segundo sua teoria, era chamado de tropismo.

17
FIGURA 2 - JACQUES LOEB

Disponível em: <http://www.flavinscorner.com/jllab.JPG>. Acesso em: 24/09/2010.

Thorndike, um dos principais pesquisadores para o desenvolvimento da Psicologia


animal, elaborou uma teoria de aprendizagem objetiva e mecanicista com enfoque no
comportamento manifesto. Ele também acreditava que o psicólogo devia estudar o
comportamento, não os elementos mentais ou a experiência consciente, não interpretando a
aprendizagem do ponto de vista subjetivo, mas em termos de conexões concretas entre
estímulos e a resposta, embora não admitisse qualquer referência à consciência e aos
processos mentais. Ele criou algumas teorias como a do “conexionismo”, que era baseada nas
conexões entre as situações e as respostas, a aprendizagem por tentativa e erro, que era
baseada na repetição das tendências de respostas que levam ao êxito, que posteriormente ele
definiu como “lei do efeito”, em que os atos que produzem satisfação em determinada situação
tornam-se associados a ela, quando a situação se repete, o ato tende a ocorrer. Outra teoria
seria a “lei do uso e desuso” ou “lei do exercício”, em que afirmava que quanto mais um
comportamento é realizado em uma situação, mais forte se torna a associação entre
comportamento e situação. 18

FIGURA 3 - THORNDIKE

Disponível em: <http://www.chesapeake.edu/library/Stock/edward_thorndike_HEAD.jpg>.

Acesso em: 24/09/2010.

Ivan Pavlov estudou os reflexos condicionados, que seriam reflexos dependentes na


formação entre o estímulo e a resposta. Seus estudos foram feitos por meio de um aparelho
utilizando cães que estudava a resposta da salivação.
FIGURA 4 - IVAN PAVLOV

19

Disponível em:
<http://www.algosobre.com.br/images/stories/assuntos/biografias/Ivan_Pavlov.jpg>. Acesso em:
24/09/2010.

FIGURA 5

Disponível em: <http://images.com.br/imgres>. Acesso em: 24/09/2010.


Todos esses estudiosos importantes influenciaram Watson e seus estudos sobre o
comportamento, fortalecendo desde o início sua intenção de fundar uma escola, onde ele
desejava que o novo Behaviorismo tivesse valor prático e aplicável na vida real.

Para Watson quase todo comportamento é resultado de condicionamento e que o


ambiente molda o comportamento reforçando hábitos específicos. Essa escola tendia a discutir
20
os fenômenos psicológicos em termos de estímulos e respostas, dando origem ao termo
Psicologia de estímulo-resposta (E-R).

De acordo Schultz & Schultz (2005), instinto era conceituado por Watson como
respostas condicionadas socialmente e emoções não passavam de uma simples resposta
fisiológica a estímulos específicos.

Embora o Behaviorismo houvesse chamado a atenção dos psicólogos americanos,


nem todos concordavam com a visão de Watson. Alguns psicólogos desenvolveram sua própria
Psicologia Behaviorista, conduzindo a escola de pensamento em direções distintas.

A carreira produtiva de Watson na Psicologia durou pouco menos de 20 anos, mesmo


assim, afetou profundamente o curso do desenvolvimento da Psicologia por muito tempo.
Watson foi um eficaz agente do Zeitgeist, em uma época de mudanças não apenas na
Psicologia, como também nas atitudes científicas em geral, ele tornou a metodologia e a
terminologia da Psicologia mais objetiva, embora hoje suas formulações não sejam mais válidas.

O Behaviorismo de Watson constituiu o primeiro estágio da evolução da escola de


pensamento comportamental aproximadamente em 1913. Mas não parou por aí! De 1930 a
1960, surge o NeoBehaviorismo, englobando os trabalhos de Tolman, Hull e Skinner. Esses
estudiosos tinham como tópico central da Psicologia o estudo da aprendizagem, os
comportamentos podem ser entendidos por leis de condicionamentos e o operacionismo. E o
terceiro estágio da evolução Behaviorista, que vai de 1960 e perdura até hoje, chamado de
neoneoBehaviorismo ou socioBehaviorismo, incluindo trabalhos de Bandura e Rotter, que
enfocam o retorno do estudo dos processos cognitivos, mas mantendo a abordagem na
observação do comportamento manifesto.

Edward Tolman foi um dos primeiros convertidos ao Behaviorismo e criou o termo


Behaviorismo Intencional, que combina o estudo objetivo do comportamento com a ponderação
da intenção ou a orientação do propósito no comportamento. Seu principal enfoque, segundo
Schultz & Schultz (2005), estava no problema de aprendizagem. Tolman rejeitou a lei do efeito
de Thorndike, afirmando que a recompensa ou o esforço exerciam pouca influência sobre a
aprendizagem, e em seu lugar propunha uma explicação cognitiva para a aprendizagem,
sugerindo que a repetição do desempenho de uma tarefa reforça a relação aprendida entre as
dicas ambientais e as expectativas do organismo, dessa forma, o organismo acaba conhecendo 21
seu ambiente, afirmando serem essas relações estabelecidas pela repetição da realização de
uma tarefa.

FIGURA 6 - TOLMAN

Disponível em: <http://web.syr.edu/~jlbirkla/kb/images/Tolman.jpg>. Acesso em: 24/09/2010.

Já Clark Hull usava uma forma de Behaviorismo mais sofisticada e mais complexa que
Watson, embora ainda fosse considerado como objetivo, reducionista e mecanicista. Descrevia
seu Behaviorismo e sua visão de natureza humana empregando termos mecanicistas e
considerava o comportamento humano automático e possível de ser reduzido e explicado na
linguagem da física. Sua teoria da aprendizagem concentra-se no princípio de reforço, a qual é
essencialmente a lei do efeito de Thorndike.
FIGURA 7 - HULL

22

Disponível em: <http://www.uned.es/psico-2-


PsicologiaII/links/photogallery/1pp/personajes/Clark_L_Hull.jpg>. Acesso em: 24/09/2010.

Segundo Schultz & Schultz (2005), o Behaviorismo de Skinner dedicava-se ao estudo


das respostas, preocupando-se em descrever e não em explicar o comportamento, sua pesquisa
tratava apenas do comportamento observável, e ele acreditava que a tarefa de investigação
científica era estabelecer as relações funcionais entre as condições de estímulos controladas
pelo pesquisador e as respostas subsequentes do organismo. Skinner não duvidava da
existência das condições mentais ou fisiológicas internas, apenas não aceitava sua validade no
estudo científico do comportamento.

Em seus experimentos, Skinner conceituou condicionamento operante como uma


situação de aprendizagem que envolve o comportamento emitido por um organismo em vez de
eliciado por um estímulo detectável. Esse comportamento ocorre sem qualquer estímulo
antecedente externo observável.
FIGURA 8 - SKINNER

23

Disponível em:
<http://3.bp.blogspot.com/_Rg2vOgLY4e0/RwW_V2R4sVI/AAAAAAAAAIM/fTxWXZmueXI/s1600
/skinner.jpg>. Acesso em: 24/09/2010.

Skinner também criou a lei da aquisição, em que a força de um comportamento


operante aumenta quando, em seguida, recebe um estímulo reforçador.

No terceiro estágio da evolução behaviorista chamado de neoneoBehaviorismo ou


socioBehaviorismo, Bandura, Rotter e outros seguidores adotavam uma forma de Behaviorismo
bem mais distinta que a de Skinner. Eles questionavam sua total negação aos processos
mentais ou cognitivos e propunham em seu lugar uma aprendizagem social, uma reflexão sobre
um movimento cognitivo mais amplo na Psicologia como um todo.

Estes teóricos defendiam os pensamentos (cognições), o que fez com que fosse criada
uma divisão no Behaviorismo: nascendo a Psicologia cognitiva. Outros autores desta escola são:
Albert Bandura, Julian Rotter e Aaron Beck. Eles acreditavam que o comportamento pode ser
entendido também a partir da cognição, e que o aprendizado pode existir sem a necessidade de
condicionamento em laboratório, mas pela observação e elaboração do que foi visualizado.
Bandura desenvolveu termos como Reforço Vicário (noção de que o aprendizado pode
ocorrer por observação do comportamento de outras pessoas e das consequências decorrentes,
e não apenas experimentando o reforço diretamente) e Autoeficácia (a percepção do indivíduo
de sua autoestima e a competência em lidar com os problemas da vida).

24
FIGURA 9 - BANDURA

Disponível em: <http://news-service.stanford.edu/news/2006/february22/gifs/ppl_bandura.jpg>.


Acesso em: 24/09/2010.

Rotter desenvolveu uma forma de Behaviorismo que, como a de Bandura, inclui


referência às experiências subjetivas internas, sendo menos radical que o de Skinner. Rotter
concentrou sua pesquisa nas crenças a respeito da origem do reforço. Ela acreditava num Locus
de controle (a ideia sobre a origem do reforçamento, havendo o lócus de controle interno –
crença de que o reforço depende do próprio comportamento das pessoas e Locus de controle
externo – reforço depende das forças externas).
FIGURA 10 -

25

Disponível em: <http://psychlops.psy.uconn.edu/founders/Images/7.jpg>. Acesso em:


24/09/2010.

Segundo Schultz & Schultz (2005), apesar do debate interno a respeito da questão
cognitiva no Behaviorismo ter provocado mudanças no movimento behaviorista, que se seguiram
desde Watson até Skinner, é importante lembrar que Bandura, Rotter e outros
neoneobehavioristas que são defensores da abordagem cognitiva ainda se consideram
behavioristas. Assim, eles podem ser chamados de behavioristas metodológicos, porque se
referem aos processos cognitivos internos como parte do objeto de estudo da Psicologia,
enquanto os behavioristas radicais acreditam que a disciplina devia se dedicar ao estudo do
comportamento público e do estímulo ambiental, e não dos estudos internos presumidos.

Watson e Skinner eram behavioristas radicais. Já Hull, Tolman, Bandura e Rotter


podem ser classificados como metodológicos. Sabe-se que o domínio do tipo de Behaviorismo
de Skinner chegou ao auge na década de 1980 e diminuiu depois de sua morte em 1990.
Skinner até admitiu que sua abordagem estivesse perdendo terreno e que o impacto da
abordagem cognitiva aumentava. E, hoje, o Behaviorismo que permanece vivo na Psicologia
contemporânea, principalmente na Psicologia aplicada, é diferente daquele que surgiu nas
décadas entre o manifesto de Watson, em 1913, e a morte de Skinner, em 1990.

26
2.2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS

De acordo com Skinner (2003), a abordagem comportamental prioriza, na terapia, a


alteração de fatores ambientais e sociais (contingências), possibilitando ao indivíduo discriminar
os estímulos no meio, que contribuem para manutenção de seus comportamentos e, dessa
forma, possibilitar ao indivíduo maior autocontrole diante de seus comportamentos indesejáveis.
Prioriza o uso de experimentos para verificar como ocorre o comportamento e como ele é
mantido e formular conceitos como esquemas de reforçamento, punição, extinção, generalização
de estímulos, equivalências de estímulos, controle de estímulos entre tantos outros.
Como já ressaltamos anteriormente muitos teóricos contribuíram para que o
Behaviorismo chegasse tão longe. Pavlov trabalhou com conceitos como condicionamento
clássico, estímulo não condicionado, estímulo condicionado, Thorndike e sua “Lei do Efeito”;
Skinner, com os conceitos de condicionamento operante, reforçamento positivo, reforçamento
negativo e punição; Wolpe enfatizou novas técnicas para a eliminação de medo e da evitação,
usando uma hierarquia gradual de estímulos ansiogênicos, o que foi chamado de
dessensibilização sistemática e também pela importância do paciente realizar extensas lições de
casa in vivo entre as sessões de terapia.
Hoje, muitos autores conceituam como uma abordagem que trabalha os problemas
psicológicos baseada na filosofia da ciência conhecida como Behaviorismo Radical e na ciência
do comportamento, Análise Experimental do Comportamento. O Behaviorismo radical, muito
trabalhado atualmente por alguns terapeutas, defende que o comportamento dos organismos é
ordenado, passível de ser estudado cientificamente na mesma forma das ciências naturais,
assim busca-se descobrir os eventos no ambiente que determinam os seus comportamentos-
problema e os que os mantêm.
Na terapia comportamental, pensamentos e sentimentos são considerados
comportamentos, diferentes apenas pela forma como se pode ter acesso a eles, pois este se dá
por meio do relato verbal daquele que pensa e sente, ou seja, pensamentos e sentimentos
também são levados em consideração, analisados e passíveis das intervenções do terapeuta.
Cada terapeuta, de acordo com sua abordagem segue uma linha, mas com o mesmo
objetivo, ou seja, melhora e bem-estar do seu paciente, no caso do terapeuta comportamental, 27
ele entende que o cliente é único e seus problemas ou dificuldades são produto de uma história
particular. Com isso, percebe-se uma humanização do processo psicoterápico, buscando assim,
entender cada cliente e cada história, antes de propor qualquer intervenção.
Seu principal instrumento é a análise funcional, ou o levantamento criterioso das
variáveis – eventos, acontecimentos – que estejam funcionalmente relacionados com os
comportamentos desejáveis e indesejáveis do cliente. Com esse entendimento, é possível
propor uma estratégia eficaz no alcance do bem-estar e da melhora do paciente, mas que fique
claro que, na maioria das vezes, não é fácil se chegar a essas variáveis.
De acordo com Saffi, Savoia e Lotufo (2008), a terapia comportamental utiliza na
clínica os conhecimentos derivados das teorias da aprendizagem, sua principal fonte teórica é o
comportamento operante. Diz-se muito que se trata de uma terapia superficial e que aborda
apenas o sintoma, mas isso não é verdade, ela pode ser aplicada a toda gama de problemas
humanos, tanto para o autoconhecimento como para as dificuldades e conflitos interpessoais. Só
que é uma abordagem que exige conhecimento teórico e técnico sofisticado e o terapeuta deve
possuir empatia, interesse pelo paciente e calor humano.
O terapeuta comportamental busca combater os comportamentos-problema, ao
mesmo tempo em que busca instalar e aumentar a frequência de comportamentos adequados
ao contexto, desejáveis, funcionais e geradores de satisfação e felicidade. O clínico, entre outras
funções, auxilia com suas análises na construção de um novo repertório ou no fortalecimento do
repertório existente (SKINNER, 1989).
A terapia comportamental é a aplicação do conjunto de conhecimentos psicológicos,
adquiridos segundo os princípios da metodologia científica, à compreensão e solução de
problemas clínicos. Assim, é uma prática de ajuda psicoterápica baseada na ciência e na
filosofia caracterizada por uma concepção naturalista e determinista do comportamento humano.
Pode ser conceituada também por um processo de aplicação de princípios da teoria da
aprendizagem para a melhoria de comportamentos específicos e, simultaneamente, de avaliação
de quaisquer modificações observadas, analisando se elas são de fato atribuíveis ao processo
de aplicação e, em caso positivo, a que parte desse processo (BOUCHARD, 1979 apud Saffi,
Savoia e Lotufo, 2008).
A terapia comportamental é muito rica em informações e técnicas, ela é formada por
um conjunto considerável de técnicas derivadas de pesquisas, em laboratório ou no próprio
consultório. 28
Para fecharmos esse tópico falaremos mais um pouco sobre o trabalho do terapeuta
comportamental. O primeiro passo é o bom relacionamento com o paciente, por meio da
empatia, do interesse, do calor humano e de outras qualidades do psicoterapeuta (SAFFI,
SAVOIA E LOTUFO, 2008). Ele deve fazer a coleta de informação por meio da anamnese, do
uso de diários, de escalas, de instrumentos diagnósticos e da observação para que se permita
conhecer a pessoa e seus problemas.
A análise funcional é a ferramenta para a coleta de informações e para o conhecimento
da relação entre a pessoa e seu ambiente. Por meio dela procura-se estabelecer todas as
relações de contingências que afetam a pessoa procurando-se descrever operacionalmente o
problema, detalhando os estímulos desencadeantes, os comportamentos envolvidos e as suas
consequências.
Mostraremos agora uma tabela bastante interessante que faz algumas diferenciações
entre Behaviorismo, cognitivismo e construtivismo, para que posteriormente fiquem mais claras
as semelhanças e diferenças entre cada abordagem.
TABELA 1 - DIFERENCIAÇÕES ENTRE BEHAVIORISMO,

COGNITIVISMO E CONSTRUTIVISMO

29

Disponível em: <http://www.prof2000.pt/users/amtazevedo/af24/teorias.gif>.

Acesso em: 24/09/2010.

Sintetizando tudo que já dissemos, podemos frisar que o terapeuta comportamental


focaliza-se no comportamento manifesto, salientando de acordo com Kaplan e Sadock (2003), a
remoção de sintomas manifestos, sem considerar as experiências privadas ou conflitos internos
do paciente. Percebemos que o objetivo terapêutico de quem segue essa abordagem é claro e
concreto: a extinção de hábitos ou atitudes mal-adaptativas e sua substituição por padrões
novos, apropriados e não provocadores de ansiedade.

Os métodos inerentes às terapias do comportamento fundamentam-se na crença


fundamental de que as ansiedades e os comportamentos persistentes e mal-adaptativos foram
condicionados ou aprendidos. Portanto, o tratamento efetivo consiste de variadas formas de
descondicionamento ou desaprendizagem, isto é, o comportamento inadequado aprendido pode
ser desaprendido.

Ainda segundo Kaplan e Sadock (2003), o clínico que deseja adotar o enfoque
comportamental deve responder a algumas questões (tabela abaixo) em conjunto com o
30
paciente, parentes ou outros responsáveis, que foi preparada por Robert Paul Liberman:

TABELA 2 – QUESTÕES

1. Quais são os problemas e objetivos da terapia?

Esta questão aborda as conquistas do paciente, bem como os déficits no comportamento


adaptativo e excessos de comportamento mal-adaptativo. Frequentemente, os problemas do
paciente estão relacionados com a oportunidade inadequada ou contexto inapropriado das
respostas comportamentais. A avaliação dos problemas e uma formulação de objetivos devem
considerar toda a faixa de resposta objetivas, subjetivas, afetivas, sociais e cognitivas.

2. Como o progresso pode ser medido e monitorado?

Cada problema e objetivo exige especificação comportamental e monitoramento contínuo em


termos de frequência, duração, forma, latência ou contexto da ocorrência. A operacionalização
dos objetivos da terapia possibilita que o terapeuta determine se as intervenções selecionadas
são eficazes e oferece a base empírica para a terapia comportamental.

31
3. Que contingências ambientais estão mantendo o problema?

Uma análise do comportamento considera as relações funcionais entre os problemas clínicos e


seus antecedentes ambientais (estímulos precipitadores ou desencadeantes) e consequências
(reforçadores).

Antes de formular um plano de tratamento, o terapeuta deve compreender as contingências


sociais e instrumentos presentes, que podem ter de ser modificadas para um resultado eficaz.

4. Que intervenções tendem a ser efetivas?

Esta questão final aborda as técnicas específicas que podem ser usadas no plano de
tratamento. Somente após as três primeiras perguntas terem sido respondidas, uma seleção
racional das intervenções pode ser feita. Frequentemente, uma combinação de princípios de
aprendizado é usada, para maximizar os efeitos do tratamento.
Citaremos uma tabela feita por Rebecca Jones citada por Kaplan e Sadock (2003):

TABELA 3 – INFORMAÇÕES

Modificar padrões comportamentais mal-


OBJETIVO adaptativos aprendidos que levam a sintomas 32
patológicos.

Comportamentos mal-adaptativos específicos, bem-


definidos, circunscritos e facilmente identificáveis
(Exemplo: fobia, consumo excessivo de alimentos,
CRITÉRIOS DE SELEÇÃO
disfunções sexuais). Transtornos psicofisiológicos nos
quais as manifestações dos sintomas são afetadas pelo
estresse (Exemplo: asma, dor e hipertensão)

Geralmente limitado em tempo, específico ao


DURAÇÃO
comportamento em particular.

Baseada no princípio da teoria da aprendizagem e da


teoria do aprendizado:

 Condicionamento clássico e operante;


 Treino de relaxamento;
TÉCNICAS
 Reforços;
 Terapia aversiva;
 Dessensibilização sistemática;
 Imersão;
 Modelagem participante;
 Economia de fichas.
2.3 INDICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES

A terapia comportamental pode ser indicada e útil para tratar praticamente todos os
33
problemas de saúde e de comportamento de atuação do psiquiatra ou do psicoterapeuta, como:

 Fobias específicas;
 Agorafobia com ou sem pânico;
 Fobia social;
 Transtornos de ansiedade;
 Transtorno obsessivo-compulsivo;
 Disfunções sexuais: em especial ejaculação precoce e vaginismo;
 Dificuldade de relacionamento interpessoal;
 Reabilitação de doentes crônicos;
 Depressão;
 Transtornos alimentares;
 Problemas de comportamento na infância;
 Problemas de comportamento na adolescência;
 Abuso de dependência de álcool e drogas;
 Autoconhecimento.

No caso do autoconhecimento, o terapeuta auxilia o paciente a explicitar as variáveis


que influenciam seu comportamento, podendo a partir disso, auxiliar a pessoa a modificar seu
ambiente para que possam ocorrer mudanças no seu comportamento, ou seja, autocontrole.

Cordioli (2008) cita que a terapia comportamental é também utilizada como


coadjuvante no tratamento de:
 Depressão maior, particularmente na fase inicial de pacientes gravemente
deprimidos;
 Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade;
 Estresse pós-traumático;
 Transtornos de impulsos: Tricotilomania, comprar compulsivo e jogo patológico;
 Déficits de habilidades sociais: transtornos de personalidade, esquizofrenia, 34
deficiências mental e autismo;
 Deficiência de controle esfincteriano;
 Obesidade;
 Hipertensão;
 Insônia e insônia primária;
 Asma;
 Dor crônica;
 Cefaleia, etc.

Cordioli (2008) também cita algumas contraindicações na terapia comportamental:

 Níveis de ansiedade muito elevados ou incapacidade de tolerar aumento dos níveis


de ansiedade (transtorno da personalidade borderline, histriônica);
 Problemas caracterológicos graves, incapacidade de estabelecer um vínculo com o
terapeuta (personalidade esquizoide ou esquizotípica);
 Incapacidade de estabelecer um relacionamento honesto com o terapeuta
(personalidade antissocial);
 Ausência de motivação.
Mas, caso seja a terapia cognitivo-comportamental, podemos dizer que aumenta o
leque de atuação, e podemos citar alguns transtornos que houve algum nível de evidência de
eficácia:

 Sintomas de esquizofrenia; 35
 Sintomas de demência;
 Crises convulsivas não epilépticas;
 Reabilitação cognitiva;
 Insônia;
 Síndrome da fadiga crônica;
 Transtorno da personalidade borderline;
 Conflitos familiares;
 Tabagismo;
 Obesidade;
 Autismo;
 Transtorno do pânico;
 Depressão;
 Fobias;
 Transtorno obsessivo-compulsivo;
 Tiques;
 Parafilias;
 Disfunção sexual;
 Problemas de comportamento na infância;
 Treino de habilidades parentais;
 Bulimia nervosa;
 Transtorno de estresse pós-traumático;
 Dor crônica;
 Vítimas de abuso sexual;
 Jogo patológico;
 Dependência de drogas;
 Problemas de saúde relacionados com comportamento;
 Prevenção de problemas de saúde;
 Promoção de saúde;
 Ansiedade generalizada;
 Enurese noturna;
 Transtorno bipolar.

36

Abaixo veremos um gráfico que mostra alguns transtornos que acometem a população
e com eles suas taxas, em alguns, bastante elevadas, e perceberemos o quanto é importante o
trabalho psicoterápico.
37

Disponível em: <http://www.ip.usp.br/imprensa/aconteceu/hu.JPG>. Acesso em: 24/09/2010.

2.4 TÉCNICAS DA TERAPIA COMPORTAMENTAL


De acordo com Knapp (2004), todos os experimentos comportamentais têm um
elemento cognitivo e a modificação das distorções cognitivas se dá também por meio das
técnicas comportamentais.

Padesky (1994 apud KNAPP, 2004) afirma que a forma mais eficaz de modificar
principalmente pressupostos e regras subjacentes é por meio de experimentos comportamentais,
38
assim o paciente experimenta na prática o que acontece quando ele se engaja em
comportamentos, que permitem examinar a veracidade e/ou utilidades dessas crenças
subjacentes.

Leahy (1996 apud KNAPP, 2004) diz que o objetivo dessas técnicas ou intervenções
comportamentais é aumentar o comportamento positivo enquanto diminui o negativo, sendo
assim pode-se dizer que o engajamento em um comportamento que traz resultados positivos
aumenta a autoeficácia do indivíduo e estimula o empenho em novos comportamentos mais
adaptativos.

A seguir algumas técnicas:

 Alvos comportamentais

Segundo Rangé (2004), nessa técnica o terapeuta ajuda o paciente a identificar


possíveis comportamentos específicos que deseja modificar a curto, médio e longo prazo. Esse
autor cita alguns exemplos para ficar mais claro:

 O engajamento em exercícios físicos;


 As tarefas de casa concluídas;
 O número de páginas de leitura diária;
 A diminuição da checagem obsessiva;
 A lavagem das mãos.
No caso de haver grandes alvos comportamentais, de difícil execução de uma só vez,
devem ser divididos em pequenos comportamentos de mudança, até que o comportamento
como um todo se modifique.

Com essa técnica, o paciente aprenderá a estipular metas e objetivos específicos e


factíveis, tais comportamentos são passíveis de aferição em determinado período de tempo.
39
Assim, o terapeuta deve questionar o paciente para saber se o objetivo foi alcançado,
isso depois de algum tempo.

 Dessensibilização sistemática

Essa técnica foi criada por Joseph Wolpe, e baseia-se segundo Kaplan e Sadock
(2003), no princípio comportamental do contracondicionamento, o qual afirma que o indivíduo
pode superar a ansiedade mal-adaptativa provocada por uma situação ou objeto aproximando as
situações temidas gradualmente, em um estado psicofisiológico que iniba a ansiedade.

Nessa técnica, o cliente é treinado a relaxar, é colocado em contato com uma


hierarquia de situações geradoras de ansiedade e é solicitado a relaxar enquanto imagina cada
uma delas, assim o paciente atinge um estado de completo relaxamento, quando é exposto ao
estímulo que provoca a resposta de ansiedade. Nesse caso, a reação negativa de ansiedade é
inibida pelo estado de relaxamento, num processo chamado de inibição recíproca.

Em vez de utilizar as situações ou objetos reais que provocam medo, paciente e


terapeuta preparam uma lista graduada ou uma hierarquia de cenas provocadoras de ansiedade
associadas aos medos do paciente. Finalmente, o estado aprendido de relaxamento e as cenas
provocadoras de ansiedade são sistematicamente pareados ao tratamento.

Percebemos que a dessensibilização sistemática consiste então de três etapas: treino


de relaxamento, construção de hierarquia e dessensibilização do estímulo.
 Exposição in vivo

Semelhante à dessensibilização, exceto pelo fato de que o cliente realmente


experimenta cada situação.

40

 Exposição com prevenção de respostas

Confrontar uma situação ou estímulo temido.

Exemplo: o paciente obsessivo-compulsivo é instigado a refrear a lavagem de suas


mãos após mergulhá-las em água suja.

 Flooding ou Inundação

É uma modalidade de exposição in vivo em que um indivíduo fóbico é exposto ao


objeto ou situação mais temido por um período prolongado sem oportunidade de fugir.

 Reforçamento seletivo

Reforço de comportamento específico, muitas vezes, mediante o uso de fichas que


podem ser trocadas por recompensas.

 Modelagem

Segundo Atkinson (2002), consiste em reforçar somente variações de respostas que se


desviam na direção desejada pelo experimentador.
Na técnica de modelagem “o terapeuta modela a resposta/comportamento que se
deseja” (RANGÉ, 2004), ou seja, ele reforça apenas os comportamentos desejados.

 Modelação (imitação)

41

É o processo pelo qual uma pessoa aprende comportamentos observando e imitindo


os outros. É um método bastante eficaz de mudança de comportamento, pois uma vez que
observar os outros é uma das principais formas humanas de aprender, assistir pessoas que
estão apresentando comportamento adaptativo ensina melhores estratégias de enfrentamento às
pessoas com respostas inadaptativas. A modelação é eficaz na superação de medos e
ansiedades porque oferece uma oportunidade para observar outra pessoa passar pela situação
geradora de ansiedade sem se ferir.

Exemplo: O terapeuta emite comportamentos assertivos durante a sessão que podem


ser copiados pelo cliente e reproduzidos.

 Ensaio comportamental

Nessa técnica o paciente dramatiza o comportamento que planeja conduzir fora da


terapia.

Exemplo: O paciente pode demonstrar como ser assertivo mediante um diálogo com
seu chefe.

 Hierarquia de respostas/estímulos

Nessa técnica, tem-se uma lista de situações ou respostas, das mais temidas até as
menos temidas, para serem usadas em exposição.
Exemplo: o paciente e o terapeuta fazem uma lista de situações ou comportamentos
que o primeiro teme, com hierarquia de temor. O paciente fóbico de elevador coloca “pensar em
elevador” como a menos temida e “subir de elevador o edifício mais alto da cidade” como a mais
temida.

42
 Autorrecompensa

De acordo com Knapp (2004), é usar autoelogio, gratificações e reforços concretos


para incrementar comportamentos desejáveis.

Exemplo: o paciente pode se recompensar com consequências positivas tangíveis


(uma comida, um filme, um presente ou um comportamento prazeroso) ou com autoafirmações
positivas (“estou orgulhoso de mim mesmo por tentar”).

 Treinamento de Relaxamento

Relaxar diferentes grupos musculares em sequência, imaginar figuras relaxantes,


praticar exercícios de respiração.

 Reforço

Para Skinner, segundo Myers (1999), recompensa é representado pela palavra


“reforço”, que pode ser conceituada como qualquer evento que aumente a frequência de uma
reação precedente. Assim, o reforço pode abranger uma série de ações, como um elogio ou uma
salva de palmas. Existem dois tipos básicos de reforço, o positivo e o negativo.
 Reforço positivo: O reforço positivo é capaz de fortalecer uma reação quando
oferece um estímulo logo após esta reação. Ele aumenta a probabilidade de um
comportamento pela presença (positividade) de uma recompensa (estímulo).

 Reforço negativo: O reforço negativo é capaz de fortalecer uma reação quando


43
remove algum tipo de estímulo aversivo. Ele aumenta a probabilidade de um
comportamento pela ausência (retirada) de um estímulo aversivo (que cause
desprazer) após o organismo apresentar o comportamento pretendido.
Segundo alguns autores, o que difere um reforço positivo de um reforço negativo é que
o primeiro consiste em inserir um estímulo reforçador no ambiente e o segundo consiste em
retirar um estímulo aversivo.

Ex. 1: comportamento de estudar bastante é reforçado pelo estímulo reforçador de se


receber uma boa nota, de modo que a boa nota é um reforço positivo.

Ex. 2: desligar o telefone durante uma conversa desagradável retirará do ambiente um


estímulo aversivo, que é a conversa, de modo que desligar o telefone é um reforço negativo.

 Punição

A punição é um estímulo aversivo que reduz a probabilidade do comportamento.


A punição pode ser positiva e negativa:

 Punição Positiva: Inseri-se no ambiente um estímulo aversivo:


Ex: um puxão de orelha.

 Punição Negativa: Retirada de um estímulo reforçador do ambiente:


Ex: proibição de assistir televisão.

OBSERVAÇÕES:
 Reforço negativo não é a mesma coisa que punição: o reforço negativo é um
estímulo que aumenta a frequência do comportamento que consiste em retirar um
estímulo aversivo do ambiente.
 Reforço ou reforçamento não é recompensa.
 Reforços não apenas aumentam a probabilidade de incidência no comportamento
como também são utilizados para que um determinado comportamento deixe de 44
acontecer, estimulando a não incidência do determinado comportamento.
 Técnicas comportamentais para diminuação de frequência de um determinado
comportamento:
o Punição positiva, pela qual se insere algo aversivo no ambiente;
o Punição negativa, pela qual se retira algo reforçador do ambiente;
o Extinção.

 Extinção

É a retirada total do estímulo ao comportamento do ambiente.

Veja quadro com tipos de reforçamento e punição de acordo com Atkinson (2002):

TIPOS Reforçamento Reforçamento Punição positiva Punição


positivo negativo
negativa

Estímulo Remoção de um Apresentação de Remoção de um


agradável que estímulo um estímulo estímulo agradável
ocorre após um desagradável desagradável depois que um
comportamento depois que um depois que um comportamento
DEFINIÇÃO
desejado. comportamento efeito indesejável indesejado ocorre.
desejado ocorre. ocorre.

45
Aumenta a Aumenta a Diminui a Diminui a
probabilidade do probabilidade do probabilidade do probabilidade do
comportamento comportamento comportamento comportamento
EFEITO desejado. desejado. indesejado. indesejado.

Nota alta em uma Permitir a uma Uma nota baixa Cortar a televisão
prova. criança que saia em um exame. de uma criança que
EXEMPLO
do seu quarto se comporta mal.
depois de parar
com um acesso
de raiva.

 Terapia aversiva

De acordo com Kaplan e Sadock (2003), técnica prega que quando um estímulo nocivo
(punição) é apresentado imediatamente após uma resposta comportamental específica, esta
acaba sendo inibida ou extinta. Assim, existem muitos tipos de estímulos aversivos como:
o Choques elétricos;
o Substâncias que induzem vômito;
o Punição corporal;
o Reprovação social, etc.

46
O estímulo negativo é pareado ao comportamento que é, assim, suprimido. O
comportamento inadequado geralmente desaparece após uma série de tais sequências.

A terapia aversiva tem sido usada no tratamento de vários transtornos, dentre eles:

o Abuso de álcool;
o Parafilias;
o E outros comportamentos com qualidades impulsivas e compulsivas.

Muitos terapeutas a contestam, dizendo que ela é controvertida. Um exemplo é que a


punição nem sempre leva à diminuição esperada na resposta e pode, às vezes, ser
positivamente reforçadora.

2.5 CONCEITOS BÁSICOS

 Condicionamento respondente

De acordo com Skinner (1987), diz respeito ao reflexo condicionado de Pavlov, que
prepara o organismo para reagir a um ambiente ao qual apenas o indivíduo é exposto.
 Estímulo não condicionado

De acordo com Atkinson (2002), é um estímulo que automaticamente provoca uma


resposta, normalmente por intermédio de reflexo, sem condicionamento prévio.

47

 Resposta não condicionada

Resposta originalmente dada a um estímulo não condicionado, usada como base para
estabelecer uma resposta condicionada a um estímulo anteriormente neutro.

 Estímulo condicionado

Estímulo anteriormente neutro que passa a gerar uma resposta condicionada por meio
de associação com um estímulo não condicionado.

 Resposta condicionada

A resposta aprendida ou adquirida a um estímulo que originalmente não provoca


resposta, ou seja, um estímulo condicionado.

 Comportamento operante
Nesse tipo de comportamento novas respostas podem ser fortalecidas – reforçadas –
por eventos que as seguem imediatamente.

48
 Aprendizagem social

Processo de aprendizagem no qual um indivíduo muda seu comportamento em função


de observar, ver ou ler a respeito do comportamento de outro indivíduo.
3 TERAPIA COGNITIVA

3.1 HISTÓRICO
49

De acordo com Beck (1964), a Terapia Cognitiva foi desenvolvida por Aaron T. Beck,
como uma psicoterapia breve, estruturada, orientada ao presente, para depressão, direcionada a
resolução de problemas atuais e a modificar os pensamentos e comportamentos disfuncionais.
Segundo Beck (2007), Aaron T. Beck a desenvolveram na Universidade da Pensilvânia
no início da década de 60. Desde lá, Beck e outros vêm adaptando com sucesso essa terapia
para um conjunto surpreendentemente diverso de populações e desordens psiquiátricas.
O modelo cognitivo propõe que o pensamento distorcido ou disfuncional, que sabemos
que influencia o humor e o comportamento do paciente, seja comum a todos os distúrbios
psicológicos. Portanto, se o paciente faz uma avaliação realista e modifica seu pensamento, ele
produz uma melhora no humor e no seu comportamento. Para se ter uma melhora duradoura
deve-se modificar as crenças disfuncionais básicas dos pacientes.
Beck (1997) enfatiza que a terapia cognitiva é utilizada em uma ampla gama de
aplicações também apoiadas por dados empíricos, que são derivados da teoria. A terapia
cognitiva foi extensamente testada desde 1977, em que estudos controlados demonstraram sua
eficácia no tratamento do transtorno depressão maior, transtorno de ansiedade generalizada,
transtorno de pânico, fobia social, abuso de substância, transtornos alimentares, problemas de
casais e depressão de pacientes internados.
Beck (1997) diz que a terapia cognitiva pode ser usada também para pacientes com
diferentes níveis de educação e renda, pacientes de todas as idades, da pré-escola até os
idosos.
Outras formas de Terapia Cognitivo-comportamental foram desenvolvidas por outros
teóricos. A Terapia racional-emotiva de Albert Ellis, a modificação do comportamento de Donald
Meichenbaum e a Terapia multimodal de Arnold Lazarus, e muitos outros contribuíram de forma
importante para o desenvolvimento da Terapia Cognitiva – incluindo Michael Mahoney, Vittorio
Guidano e Giovanne Liotti.
A integração entre as abordagens cognitiva e a comportamental aconteceu a partir da
aceitação de ideias cognitivas influenciada pelos “três sistemas” de Lang, (Salkovskis et al. 1997)
que são o comportamental, o cognitivo/afetivo e o fisiológico. Esse conceito enfatiza que os
problemas psicológicos poderiam ser conceitualizados de maneira útil em sistemas de resposta 50
sutilmente ligados. Isso foi um marco para a aceitação das noções cognitivas na abordagem
comportamental.
O tratamento na abordagem cognitivo-comportamental objetiva ajudar o paciente a
reconhecer padrões de pensamento distorcido e comportamento disfuncional, utilizando-se a
discussão sistemática e tarefas comportamentais previamente estruturadas para ajudar o
paciente a avaliar e modificar tanto seus pensamentos deformados quanto seus comportamentos
disfuncionais.
Três proposições fundamentais são identificadas como estando no cerne das terapias
cognitivo-comportamentais (KNAPP, 2004):

 A atividade cognitiva influencia o comportamento, isto é, a avaliação cognitiva dos


fatos pode influenciar a resposta a esses fatos;
 A atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada;
 O comportamento desejado pode ser influenciado mediante a mudança cognitiva.

3.2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA TERAPIA COGNITIVA

A terapia cognitiva tem como objetivo resolver problemas atuais e modificar


pensamentos disfuncionais. Seu objetivo é reestruturar as cognições disfuncionais e dar
flexibilidade cognitiva no momento de avaliar situações específicas. Visa também à resolução de
problemas focais, objetivando, em última análise, dotar o paciente de estratégias cognitivas para
perceber e responder ao real de forma funcional.
O terapeuta cognitivo formula as ideias e crenças disfuncionais do paciente sobre si,
sobre suas experiências e sobre seu futuro em hipóteses e, então, testa a validade dessas
hipóteses de uma forma objetiva e sistemática.
Segundo Beck & Alford (2000), a terapia cognitiva considera a cognição a chave para
os transtornos psicológicos. “Cognição” é definida como aquela função que envolve deduções
sobre as experiências e sobre a ocorrência e o controle de eventos futuros. Na terapia cognitiva 51
clínica, a cognição inclui o processo de identificar e prever relações complexas entre eventos, de
modo a facilitar a adaptação a ambientes passíveis de mudanças. Esta terapia propõe que os
transtornos psicológicos resultam de uma maneira disfuncional de perceber os acontecimentos,
influenciando com isso, o afeto e o comportamento. Então, uma modificação na cognição
influenciará na mudança do afeto e consequentemente do comportamento.

Os sustentáculos conceituais da prática da Terapia Cognitiva são os seguintes


(explicaremos esses conceitos mais detalhadamente nos próximos tópicos):

 Esquemas e crenças centrais: Os esquemas são estruturas cognitivas dentro do


pensamento, cujo conteúdo específico é composto pelas crenças centrais;
 Pensamentos automáticos: “Pensamentos automáticos são um fluxo de
pensamento mais manifesto” (BECK, 1964).
 Estratégia compensatória: São comportamentos que visam a aliviar ou anular os
pensamentos automáticos e emoções negativas;
 Conceituação cognitiva: É uma hipótese sobre pensamentos, suposições, emoções
e crenças do paciente.

No decorrer desse tópico voltaremos não só à Terapia Cognitiva, mas adentraremos


em conceitos que se referem à Terapia Cognitivo-comportamental, para que fique mais claro
como se dá o trabalho das duas abordagens.

De acordo com Rangé (2004), a Terapia Cognitivo-comportamental é uma integração


dos princípios e práticas das terapias, comportamental e cognitiva. É abordagem ativa, diretiva e
estruturada usada no tratamento de uma variedade de problemas psiquiátricos, fundamentada
nos modelos cognitivo e comportamental, caracterizada pela aplicação de uma variedade de
procedimentos clínicos como introspecção, teste de realidade, insight e inúmeros procedimentos
comportamentais que conduzem a aprendizagens para aperfeiçoar discriminações e corrigir
concepções equivocadas, modificar estados emocionais e mudar comportamentos julgados
inadequados.

A abordagem cognitivo-comportamental enfatiza a expressão de conceitos em termos


52
operacionais e a comprovação empírica do tratamento por intermédio de estudos experimentais.
Esse tratamento está baseado no aqui e agora, e tem como objetivo principal ajudar os
pacientes a promover mudanças desejadas em sua vida. Para tanto, é necessário que o
paciente trabalhe junto com o terapeuta numa relação cooperativa em que ambos planejam as
estratégias para enfrentar problemas claramente identificados, sendo uma terapia limitada
temporalmente e com objetivos previamente estabelecidos (SALKOVSKIS et al. 1997).

FIGURA 11

Pensamentos Automáticos

Crenças Subjacentes

(pressupostos e regras)
Crenças Nucleares

(esquemas)

Objetivos da TCC:
 Identificar e modificar a forma distorcida de pensar;
 Identificar e modificar as emoções que esses pensamentos provocam;
 Identificar e modificar os comportamentos que são tomados como consequência
desses pensamentos e emoções;
 Utilizar formas alternativas, mais funcionais, de pensar e se comportar diante das
situações; 53
 Reestruturar crenças nucleares;
 Solucionar problemas;
 Construir estratégias de enfrentamento;
 Construir habilidades necessárias ao enfrentamento;
 Prevenir recaídas.

3.3 INDICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES

De acordo com Young (2003), pacientes diagnosticados com transtorno de


personalidade e pacientes crônicos, muitas vezes, não respondem ao tratamento com a terapia
cognitiva de curto prazo. Isso pode ser explicado por três características que estes pacientes
possuem:

 Rigidez;
 Evitação;
 Dificuldades interpessoais.
A rigidez está presente na maioria dos pacientes com transtorno de personalidade, não
só rigidez como padrões invasivos, inflexíveis, círculos viciosos e muito duradouros, o que
atrapalharia nesse tipo de terapia, pois ela exige certa flexibilidade por parte dos pacientes.

Muitos pacientes com transtorno de personalidade bloqueiam ou evitam seus


pensamentos e sentimentos por serem muito dolorosos. “Essa evitação pode ser explicada como
54
resultado de um condicionamento aversivo, onde a ansiedade e a depressão foram
condicionadas a lembranças e associações, levando à evitação, o que dificulta muito o
tratamento cognitivo” (YOUNG, 2003, p. 13).

Outra característica dos pacientes com transtorno de personalidade é o relacionamento


interpessoal disfuncional que não permite um relacionamento colaborativo entre paciente e
terapeuta como prega a terapia cognitiva.

De acordo com Cordioli (2008) a terapia cognitiva está bem-estabelecida nos


seguintes transtornos:

 Depressão unipolar de intensidade leve ou moderada, não psicótica;


 Transtorno de ansiedade (associada à terapia comportamental e a drogas);
 Transtornos alimentares;
 Transtornos somatoformes (hipocondria e transtorno Dismórfico corporal).
O mesmo autor cita algumas indicações da terapia cognitiva como tratamento
coadjuvante:

 Abuso de substância e álcool;


 Transtorno de personalidade;
 Transtornos psicóticos (esquizofrenia e transtorno delirante);
 Transtorno bipolar;
 Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade;
 Dor crônica.
Segundo Cordioli (2008) a terapia cognitiva, em princípio, é contraindicada para os
seguintes transtornos:

 Doença mental orgânica, que implica comprometimento cognitivo (demência);


 Retardo mental; 55
 Pouca capacidade para trabalhar introspectivamente (identificar pensamentos,
emoções, crenças e expressá-los em palavras);
 Psicose aguda;
 Patologia grave do caráter borderline ou antissocial;
 Ausência de motivação.

3.4 TÉCNICAS DA TERAPIA COGNITIVA

Rangé (2004), em seu texto “Por que sou terapeuta cognitivo-comportamental?”, cita
as técnicas mais usadas na TCC e diz que usa primariamente, no trabalho cognitivo, o método
socrático, não podendo ser de forma alguma persuasivo, transcorrendo fundamentalmente, em
torno de perguntas que o terapeuta faz para que o paciente possa questionar os fundamentos de
suas crenças e, na ausência destes, poder modificá-las.

Os questionamentos que motivam as reestruturações giram em torno


fundamentalmente de evidências que sustentam as crenças e pensamentos automáticos e de
alternativas possíveis de se interpretar a situação. O que vai acontecer é que a falta de
evidências e a descoberta de outras interpretações abala a confiança na crença, tornando-a uma
hipótese, entre outras, sujeita a uma verificação.

 Automonitoramento ou autorregulação
Segundo Atkinson (2002), como o cliente e o terapeuta raramente se encontram mais
do que uma vez por semana, o cliente deve aprender a controlar e regular seu próprio
comportamento, de modo que o progresso possa ser feito fora do horário da terapia. Além disso,
quando as pessoas sentem que são responsáveis por sua própria melhora, elas têm mais
chances de manter os ganhos que conquistaram.

56
Essa técnica envolve monitorar, ou observar, nosso próprio comportamento e usar
várias técnicas como autorreforço, autopunição, controle de condições de estímulo,
desenvolvimento de respostas incompatíveis, para mudar o comportamento de inadaptação.
Deste modo, o indivíduo monitora seu comportamento mantendo um registro cuidadoso dos tipos
de situações que provocam comportamento inadaptativo e os tipos de respostas que são
incompatíveis com ele.

Ex.1: Uma pessoa preocupada com seu abuso de álcool observaria os tipos de
situações em que se sente mais tentada a beber e tentaria controlar estas situações ou imaginar
uma resposta mais incompatível com o beber.

Ex.2.: Um homem que acha difícil não acompanhar os colegas de trabalho em um


drinque na hora do almoço, poderia planejar almoçar no escritório, controlando assim seu
comportamento de beber pelo controle do ambiente. Caso sinta-se tentado a relaxar com uma
bebida ao chegar do trabalho, ele poderia utilizar em seu lugar uma partida de tênis ou uma
corrida como modo de aliviar a tensão, pois essas duas atividades seriam incompatíveis com o
beber.

 Programação de atividades

De acordo com Knapp (2004), uma vez monitoradas as atividades que mais dão prazer
e/ou habilidades, a dupla terapêutica prescreve atividades diárias que tragam recompensas ao
paciente.
Exemplo: Uma dona de casa pode ter muitas habilidades em fazer aquele bolo que
seus filhos adoram, o que lhe traz prazer. Como está deprimida e antecipa somente sentimentos
negativos e uma expectativa de futuro sombrio, planeja como experimento fazer o bolo preferido
dos filhos e observar quais as suas recompensas por ter feito algo que, embora relutasse a
princípio, acabou trazendo-lhe grande satisfação. Percebemos que a programação da atividade
é útil em aumentar a autoeficácia do paciente e em encorajá-lo a buscar outras atividades que 57
lhe deem prazer.

- Terapeuta: “Você me falou que, diferente do que havia imaginado, se surpreendeu


quando percebeu que estava feliz com os seus filhos, que outras atividades a senhora poderia
realizar que talvez lhe tragam satisfação?

 Prescrição de tarefas graduais

Segundo Knapp (2004), neste tipo de técnica escolhem-se os comportamentos, os


quais produzem prazer e/ou habilidades, ou seja, que trará algum tipo de recompensa e
prescreve-se para o paciente. Todavia, tendo bastante cuidado para não iniciar atividades que
são muito difíceis para o paciente, pois isso pode minar sua autoeficácia e até comportamentos.
Inicia-se sempre da mais fácil para mais difícil.

 Solução de problemas

Esta técnica refere-se a tornar disponível uma variedade de respostas efetivas para
lidar com uma situação problemática, aumentando a possibilidade de o paciente selecionar a
resposta alternativa mais efetiva disponível (D’ZURILLA e GOLDFRIED, 1971; DOBSON, 2001
apud KNAPP, 2004).

Devem-se seguir os seguintes passos:


 Identificar e especificar o problema;
 Gerar soluções possíveis para lidar com o problema;
 Avaliar as consequências de cada uma das diferentes soluções encontradas;
 Escolher e colocar em prática a solução escolhida para ser testada;
 Avaliar os resultados obtidos com a solução selecionada;
 Se necessário, promover modificações e colocá-las em prática novamente. 58

 Treinamento de habilidades sociais (assertividade)

Nessa técnica, o terapeuta busca o aprendizado da assertividade por meio da


instrução de como fazer afirmações e solicitações legítimas. Segundo Knapp (2004), o paciente
pratica comportamentos assertivos fora da sessão, numa escala de comportamentos assertivos
dos mais fáceis até os mais difíceis de realizar, isto inclui aprender a escutar e interessar-se
pelos outros, elogiar e gratificar.

 Treinamento de comunicação

No treinamento de comunicação, o paciente treina o que quer dizer de forma clara e


objetiva, sem agressividade e mostrando o que espera do outro.

 Treinamento de escuta ativa

No treinamento da escuta ativa, o paciente aprende a escutar, perguntar, simpatizar,


validar e refrasear (você está dizendo que...).
 Psicoeducação

A Psicoeducação visa a deixar o paciente informado sobre seu problema ou transtorno


e mostrar como se vai trabalhar.

A Psicoeducação acerca do transtorno melhora a motivação para a mudança e 59


estimula a participação proativa do paciente na recuperação. Pode-se dizer que ela ajuda o
paciente a retirar o aspecto distorcido que atribui a si mesmo por não ser capaz de resolver o
problema, podendo ser feita por intermédio de folhetos explicativos, artigos de revistas, livros,
páginas de internet e qualquer outro material que tenha informações verdadeiras (KNAPP,
2004).

 Identificação de pensamento automático/distorcidos ou ABC

Nesse modelo de Albert Ellis, o A se refere aos eventos, às situações ou às


experiências ativadoras, o B refere-se às crenças, aos esquemas e pensamentos, e o C refere-
se às consequências, que podem ser comportamentais, emocionais ou físicas.

A (ativador) B (Beliefs) C (Consequências)

Evento ou situação ativadora Pensamentos automáticos, Emocionais,


pressupostos, regras, crenças comportamentais, físicas.
(esquemas).

FONTE: Knapp (2004).


 Registro de pensamentos automáticos distorcidos

Nesse modelo, assim que o paciente perceber que seu humor está mudando –
piorando –, ele deve se perguntar: O que está passando no meu pensamento? Dessa forma, ele
identificará seu pensamento, e a partir dele irá perceber a emoção que vem junta e
60
consequentemente o comportamento provocado.

Essa técnica foi formulada por Aaron Beck e modificada por Judith Beck – nota-se que
ela é bem parecida com a técnica de Ellis.

 Questionamento Socrático e Descoberta Guiada

Por intermédio de perguntas abertas, o terapeuta vai orientando o paciente de forma


que ele entenda seus próprios problemas, explore possíveis soluções e desenvolva um plano
para lidar com as dificuldades; seu objetivo é a avaliação independente e racional dos problemas
e de suas soluções.

 Experimentos comportamentais

Segundo Padesky (1994), a forma mais efetiva de examinar e desafiar o pressuposto,


pensamentos e esquemas são os experimentos comportamentais, em que o paciente vai lidar
com situações que não confirmem suas falsas crenças de si.

Segundo Beck (2007), os experimentos comportamentais testam diretamente a


validade dos pensamentos ou das suposições do paciente e são uma importante técnica
avaliativa, utilizada sozinha ou acompanhada pelo questionamento socrático, podendo ser feitas
dentro ou fora do consultório.
 Técnicas de reatribuição

Nessa técnica, o terapeuta ajuda o paciente a flexibilizar seu julgamento por meio da
identificação de outros fatores que contribuem para o resultado final ou pelo reconhecimento de
diferentes critérios usados para avaliar a responsabilidade pessoal e a de terceiros. Ou seja,
61
Cordioli (2008) mostra que essa técnica é usada quando o paciente apresenta um padrão de
autoatribuição de responsabilidades irreais em relação a vários resultados negativos.

Knapp (2004), afirma que essa técnica é usada com pacientes que frequentemente
consideram-se culpados por determinadas situações, ou, ao contrário, colocam toda a culpa em
outras pessoas. Seu objetivo é levar os pacientes a considerarem todos os possíveis fatores e
indivíduos envolvidos em determinadas circunstâncias, e a ponderarem um nível mensurável de
responsabilidade a cada um desses fatores/indivíduos.

 Ressignificação

De acordo com Knapp (2004), é semelhante à reatribuição, pois seu objetivo seria
ajudar o paciente a produzir uma resposta racional aos eventos, ou seja, uma versão mais
lógica, realista e mais adaptativa do pensamento automático.

 Seta descendente

Nessa técnica é feito um questionamento sucessivo sobre o significado de uma


determinada cognição até alcançar seu significado mais central, podendo ser feito, segundo
Cordioli (2008), mediante perguntas como: “O que isso significaria para você, e se o pior
acontecer, e se isso for verdadeiro, então o que significa?”.

 Descatastrofização
Essa técnica objetiva “fazer com que o indivíduo imagine a consequência mais temida
e possa reavaliá-la por meio de diversas técnicas cognitivas” (CORDIOLI, 2008).

 Exame de vantagens e desvantagens

62

Cordioli (2008) afirma que o objetivo dessa técnica é ressaltar as desvantagens e


enfraquecer as vantagens que mantêm uma crença. Por exemplo, com um paciente com
problemas de drogas, enumeram-se as vantagens de se drogar, as vantagens de não se drogar,
as desvantagens de se drogar e as desvantagens de não se drogar.

 Continuum Cognitivo

Segundo Cordioli (2008), essa técnica deve ser usada quando uma das distorções
predominantes é o pensamento dicotômico. Assim, o terapeuta cria um continuum cognitivo, de 0
a 100%, para o que se está avaliando, em termos de tudo ou nada. Depois se pede que o
paciente compare seu desempenho com o de outros indivíduos, posicionando-os no gráfico,
facilitando assim que o paciente avalie-se de forma mais relativa.

 Técnica do gráfico em forma de pizza

Usado para o paciente ver suas ideias em forma de gráfico. Digamos que ele poderia
colocar no gráfico metas que se queira alcançar, fazendo assim dois gráficos, um com o real e
outro com o que considera ideal.

Cordioli (2008) diz que a visualização dos pensamentos em gráfico é útil para que o
paciente discrimine qual sua parcela de responsabilidade em algum resultado ou o quanto
deseja investir em alguma área de sua vida.
 Role-play

Esta técnica pode ser usada para uma ampla variedade de propósitos, ou seja, uma
dramatização que pode ser usada na identificação de pensamentos automáticos, para
desenvolvimento de uma resposta racional e para a modificação de crenças, sendo também
63
usada para aprender habilidades sociais (BECK, 1997).

 Cartões de enfrentamento

Nessa técnica, se usam cartões pequenos, geralmente de tamanho 8x13cm, que o


paciente o mantém por perto, em gavetas, na carteira, na bolsa, no bolso, fixados em espelhos,
geladeira ou painel do carro; assim, o paciente deve seguir uma rotina de lê-los algumas vezes
por dia num período regular (BECK, 1997).

Ele pode assumir algumas formas diferentes (BECK, 1997):

o Escrever em um dos lados um pensamento automático ou uma crença, seguida de


sua resposta adaptativa; do outro, escrever estratégias comportamentais para uma
situação problemática específica, assim, motivando o paciente;
o Escrever estratégias que foram discutidas na sessão a fim de lembrar o paciente;
o Usado para motivar o paciente quando este estiver desmotivado.

 Empirismo colaborativo

Aqui, o trabalho é conjunto entre terapeuta e paciente, que usam experimentos para
confirmar e refutar as hipóteses levantadas para explicar o sofrimento psicológico do paciente e
criar novos mecanismos, mais adaptáveis, para lidar com eles.
 Biblioterapia

Podemos dizer que esta técnica consiste na leitura de variados materiais,


possibilitando que o paciente obtenha mais informações fora da sessão e com isso, segundo
Cordioli (2008), reestruture certas cognições.
64
A Biblioterapia pode ser feita por meio da indicação de livros, páginas de internet
(confiáveis), folhetos e outros tipos de literatura.

3.5 CONCEITOS BÁSICOS DA TERAPIA COGNITIVA

De acordo com Dobson & Franche (2002), a terapia cognitiva foi


desenvolvida por Aaron Beck quando realizava trabalhos com pessoas
depressivas, seu modelo cognitivo de disfunção enfatiza o potencial dos
indivíduos para perceber negativamente o ambiente e os acontecimentos
que os rodeiam e, por meio destas percepções negativas, criar neles
mesmos a perturbação emocional.

A Terapia Cognitiva identifica três níveis de pensamento, como já falamos


anteriormente: os pensamentos automáticos, as crenças intermediárias e as crenças centrais.
Os pensamentos automáticos são conteúdos espontâneos que fluem em nossa mente a partir de
acontecimentos do nosso dia a dia; as crenças intermediárias correspondem ao segundo nível
de pensamento e refletem ideias ou entendimentos mais profundos que os pensamentos
automáticos e ocorrem sob a forma de suposições ou regras; e as crenças centrais, seriam o
nível mais profundo da estrutura cognitiva, são compostas por ideias absolutistas, rígidas e
globais que um indivíduo tem sobre si mesmo.
Beck (1997) faz distinção entre esquemas e crenças, pois estas são as ideias mais
centrais da pessoa a respeito do self, enquanto esquemas seriam as estruturas cognitivas dentro
dos pensamentos, cujo conteúdo específico refere-se às crenças centrais.

Knapp (2004) também confirma essa distinção e acrescenta que na literatura os


conceitos de crenças, mais especificamente as nucleares, com frequência são usados
65
indistintamente, mas de acordo com o propósito clínico, podemos fazer a seguinte diferenciação:

 Esquemas são estruturas cognitivas;


 Crenças referem-se ao conteúdo dos esquemas.

De acordo com alguns autores como Falcone (2001), Knapp (2004) e Beck (2000) são
feitas algumas distinções a esses conceitos:

 Pensamentos automáticos

Alguns autores, que trabalham com a terapia cognitiva, conceituam como


conteúdos espontâneos que fluem em nossa mente a partir de acontecimentos do
nosso dia a dia. Que pensamentos poderiam ser esses? Tais pensamentos são as
cognições mais fáceis de serem acessadas e modificadas, podendo ocorrer em forma
de pensamento ou em forma de imagem. Geralmente, não são acessíveis a nossa
consciência, mas podem ser identificados após um treinamento adequado, como por
exemplo, solicitando ao paciente que pergunte a si mesmo quando verificar uma
mudança brusca de humor, “o que está passando por sua cabeça agora?”. Isso pode fornecer
qual pensamento disfuncional está por trás dessa variação de humor.

Podemos classificar os pensamentos automáticos, levando em consideração a sua


validade e utilidade, em três tipos (BECK, 1997):
 Distorcidos, ocorrendo apesar das evidências encontradas;
 Acurados, mas com a conclusão distorcida;
 Acurados, mas totalmente disfuncionais.

Os pensamentos automáticos estão intimamente relacionados com as crenças centrais


e não necessariamente são peculiares a pessoas com angústia. São pensamentos comuns a 66
todos os indivíduos. O que se sabe é que a maioria das pessoas não é ciente de sua existência,
embora com um pouco de treino já se possa trazer esses pensamentos facilmente à consciência.

Quando os pensamentos automáticos se tornam conscientes, é possível se fazer uma


avaliação da realidade e se existe ou não uma disfunção psicológica a ser trabalhada.
Então, qual seria o trabalho de um terapeuta cognitivo? O terapeuta cognitivo está
preocupado em identificar os pensamentos disfuncionais, ou seja, os pensamentos que trazem
prejuízo ao funcionamento psíquico de um indivíduo, pois de certa forma distorcem a realidade e
dificultam o alcançar metas.
Geralmente esses pensamentos são breves e o paciente está mais ciente da emoção
do que o pensamento em si, podendo vir de forma verbal ou visual ou em ambas as formas, bem
como podem ser avaliados de acordo com sua utilidade e validade.

 Crenças

As crenças podem ser:

o Intermediárias;
o Centrais.

o Crenças intermediárias: Correspondem ao segundo nível de pensamento e


refletem ideias ou entendimentos mais profundos que os pensamentos automáticos e ocorrem
sob a forma de suposições ou regras.
Constituem uma forma que o indivíduo encontrou para reduzir o sofrimento provocado
pelas crenças centrais. Essas crenças pressupõem que:

Desde que determinadas regras, normas e atitudes sejam cumpridas,


não haverá problemas, e o indivíduo se mantém relativamente estável
67
e produtivo. No entanto, se, por alguma circunstância, esses
pressupostos não estão sendo cumpridos, o indivíduo torna-se
vulnerável ao transtorno emocional quando as crenças nucleares
negativas são ativadas (KNAPP, 2004, p. 25).

o Crenças centrais: Seriam o nível mais profundo da estrutura cognitiva e


compostas por ideias absolutistas, rígidas e globais que um indivíduo tem sobre si mesmo, as
pessoas e o mundo.
São incondicionais, isto é, independentemente da situação que se apresente ao
indivíduo, ele irá pensar de modo consoante com suas crenças. Segundo Knapp (2004), as
crenças centrais vão se construindo e se formando desde experiências de aprendizado mais
primitivas e são fortalecidas ao longo da vida, moldando a percepção e a interpretação dos
eventos, modelando o jeito psicológico de ser. Caso não haja ações corretivas dessas crenças
centrais disfuncionais, o indivíduo irá considerá-las como verdades absolutas e imutáveis.

O objetivo último da terapia é a modificação dessas crenças disfuncionais, o que irá


resultar em mudanças duradouras na vida do indivíduo, mas que fique claro que o terapeuta
inicia o processo sempre modificando os pensamentos automáticos para depois chegar até as
crenças.

As crenças centrais disfuncionais podem ser colocadas em dois grandes grupos,


expandidos agora para três, de acordo com Beck (2000):

 Crenças nucleares de desamparo:

Crenças sobre ser impotente, frágil, vulnerável, carente, desamparado e necessitado.


 Crenças centrais de desamor:

Crenças sobre ser indesejável, incapaz de ser gostado, incapaz de ser amado, sem
atrativos, imperfeito, rejeitado, abandonado e sozinho.

68

 Crenças centrais de desvalor:

Crenças sobre ser incapaz, incompetente, inadequado, ineficiente, falho, defeituoso,


enganador, fracassado e sem valor.

Aprender a modificar pressuposições e crenças centrais mal adaptadas pode ajudar a


reduzir o número de pensamentos automáticos negativos, distorcidos que se tenha.

O desenvolvimento de novas pressuposições e crenças centrais pode reduzir a


angústia e facilitar a mudança do comportamento de forma que esteja de acordo com as novas
crenças.

Essas pressuposições e as crenças, frequentemente, são adquiridas na infância


quando a criança interage com outras pessoas significativas e encontra uma série de situações
que confirmem essa ideia.

As crenças centrais negativas são usualmente globais, rígidas e supergeneralizadas.


Quando ativada, o paciente facilmente é capaz de processar informações que a apoiam, mas
falha em reconhecer e distorce informações que são contrárias a ela. As crenças levam a
sofrimento psíquico e comportamentos desadaptativos além de dificultarem a concretização dos
objetivos.

De acordo com Beck (1997), as crenças centrais influenciam o desenvolvimento de


uma classe intermediária de crenças que consiste em atitudes, regras, expectativas e
suposições. Essas crenças intermediárias influenciam sua visão de uma situação, o que, por sua
vez, influencia como ele pensa, sente e se comporta. O relacionamento dessas crenças
intermediárias com as crenças centrais e pensamentos automáticos estão retratados a seguir:

69

Crenças Centrais

Crenças Intermediárias

(regras, expectativas, atitudes e suposições)

Pensamentos Automáticos

Modelo Cognitivo:

Crenças Centrais
Crenças Intermediárias

(regras, expectativas, atitudes e suposições)


70

Situação

Pensamentos Automáticos

Emoção

Conforme explicado no começo deste texto, é essencial para a terapia cognitiva que se
aprenda a conceituar as dificuldades em termos cognitivos, a fim de se proceder a mudanças.
Crenças Centrais

Eu sou incompetente

71

Crenças Intermediárias

(regras, expectativas, atitudes e suposições)

Se eu não entendo algo perfeitamente, então eu sou burro.

Situação Pensamentos Automáticos Reações

Leitura deste texto Isso é difícil demais. Emocional:

Eu jamais entenderei isso. Tristeza

Comportamental:

Fecha o livro

Fisiológica:

Peso no abdômen

FONTE: Beck (1997).


 Esquemas

De acordo com Beck (2000), esquemas seriam estruturas de cognição com


significados, servindo como o principal caminho para o funcionamento ou adaptação psicológica.

Os esquemas são considerados ingredientes de suma importância no modelo 72


cognitivo, pois eles servem para moldar os dados em cognições, constituindo a base para extrair,
diferenciar e codificar os estímulos que confrontam o indivíduo.

Beck (1997) mostra que os tipos de esquemas empregados determinam como o


indivíduo estruturará experiências diferentes e que, quando eles são ativados em uma situação
específica, determinam diretamente o modo como a pessoa responde.

De acordo com Beck (2000), esquemas seriam estruturas de cognição com


significados, servindo como o principal caminho para o funcionamento ou adaptação psicológica.

Entende-se que esse significado refere-se à interpretação da pessoa sobre um


determinado contexto e da relação daquele contexto com ela. Os esquemas seriam estruturas e
estariam compostos por crenças.

Para o melhor entendimento de esquemas, como se dividem, não podemos deixar de


ressaltar a Teoria dos Esquemas. Young (2003) conceitua esquema como uma estrutura
cognitiva que filtra, codifica e avalia os estímulos a que o organismo é submetido – como
veremos nos próximos tópicos.

Veja agora no quadro abaixo um exemplo:

Pensamento Automático Pressupostos Subjacentes Crenças Nucleares


Pensamento Fisiologia: calafrio, “É muito perigoso interagir com “Sou incapaz de ser amado”
taquicardia e sudorese. as pessoas, pois elas não iriam
gostar de mim”.
Emoção: angústia e medo.
“Para não ter problemas, eu 73
Comportamento: fuga e
não devo interagir com as
evitação.
pessoas”.

1. Ativados por eventos 1. Pressupostos, regras, 1. Conteúdo - ideias e


externos/internos; normas e atitudes; conceitos mais fundamentais
acerca de si, dos outros, e do
2. Pensamentos ou imagens; 2. Condicionante e imperativo;
mundo;
3. Alteração de 3. Estratégias Compensatórias.
2. Esquemas
humor/fisiológico.

 Modelo Cognitivo

Como já sabemos, a terapia cognitiva baseia-se no modelo cognitivo, que defende a


hipótese de que as emoções e os comportamentos das pessoas são influenciados por sua
percepção dos eventos. Não é uma situação por si só que determina o que as pessoas sentem,
mas, antes, o modo como elas interpretam uma situação.

O modelo cognitivo de interações (cognição, humor e comportamento) sugere uma


variedade de intervenções, que vão desde as programadas para a modificação do afeto, para
alcançar mudança comportamental, como também, intervenções focalizadas nas cognições.
Percebemos então, que o ponto central seria quebrar o ciclo que perpetua os
problemas do indivíduo, por intermédio de técnicas que focalizam a modificação dos
pensamentos automáticos, para a melhoria do humor ou para a modificação dos
comportamentos do paciente.

Um fator muito importante a ser considerado na terapia cognitiva diz respeito à


74
familiarização do paciente no modelo cognitivo, no qual o paciente será ensinado:

 A identificar os seus pensamentos automáticos que ocorrem em situações


problemáticas;
 A reconhecer os efeitos que eles produzem na emoção e no comportamento;
 A responder de forma eficaz a esses pensamentos disfuncionais.

Então, o modo como as pessoas se sentem está associado ao modo como elas
interpretam e pensam sobre as coisas e situações. A situação em si não determina diretamente
como elas se sentem, mas o pensamento desse sujeito sobre essa situação é que vai determinar
seu comportamento, assim sua resposta emocional é intermediada por sua percepção da
situação.
Tendo identificado seus pensamentos automáticos, você pode avaliar sua validade. Se
o sujeito verifica que a interpretação dele é errônea e a corrige, você provavelmente descobre
que o seu humor melhora. Em termos cognitivos, quando pensamentos disfuncionais são
sujeitos à reflexão racional, nossas emoções em geral mudam.
E é isso que a terapia busca: pensamentos racionais, reflexão racional, para que não
caiamos nas armadinhas da nossa mente.

 Conceituação cognitiva

Conceituação Cognitiva é a formulação do caso, embasada na concepção cognitiva


dos transtornos emocionais do paciente.
Por intermédio da conceptualização ou conceituação cognitiva serão percebidos os
seguintes aspectos (KNAPP, 2004):

 Os problemas atuais e os fatores estressores precipitantes que contribuíram para


seus problemas psicológicos ou interferiram em sua habilidade para resolvê-los; 75
 As aprendizagens e experiências antigas que contribuíram para os problemas
atuais,
 Os pensamentos automáticos, as crenças intermediárias e as crenças centrais;
 Os mecanismos cognitivos, afetivos e comportamentais que ele desenvolveu para
enfrentar suas crenças disfuncionais;
 Como ele percebe a si mesmo, os outros e o mundo.

 Identificação de Pensamentos Automáticos

De acordo com vários autores já citados, os pensamentos automáticos são


pensamentos, palavras, imagens ou recordações que vêm espontaneamente em nossas mentes
durante o dia.

Sempre que temos um estado de humor forte, há também pensamentos automáticos


presentes que fornecem pistas para a compreensão de nossas reações emocionais.

 O que estava passando em minha mente, instantes antes de eu começar a me


sentir deste modo?
 O que isso diz a respeito de minha pessoa se for verdade?

 O que isso significa em relação a mim, minha vida e meu futuro?

 O que temo que possa acontecer? 76

 O que de pior poderia acontecer se isso fosse verdade?

 O que isso significa em termos do modo como a(s) outra(s) pessoa(s) sente(m) ou
pensa(m) a meu respeito?

 Quais imagens ou lembranças tenho nesta situação?

FONTE: Greenberger (1999).

Quando temos pensamentos automáticos negativos, geralmente damos importância a


dados que confirmam nossas conclusões. Uma forma muito importante de desfazer esses
pensamentos é reunir evidências que apoiam e não apoiam os pensamentos, assim ajudaríamos
a esclarecer nossos pensamentos e reduzir a intensidade dos estados de humor angustiantes.

Não esquecendo que evidências consistem de dados, informações e fatos, e não de


interpretações.

 Eu tive alguma experiência que mostra que este pensamento não é completamente
verdadeiro o tempo todo?

 Se meu melhor amigo ou alguém que amo tivesse este pensamento, o que eu diria
para ele ou ela?

77
 Se meu melhor amigo ou alguém que me ama soubesse que estou tendo este
pensamento, o que diriam para mim? Quais evidências eles me mostrariam que
sugeririam que meus pensamentos não são 100% verdadeiros?

 Quando não estou me sentindo deste modo, penso sobre este tipo de situação de
forma diferente? Como?

 Quando me senti deste modo no passado, sobre o que pensei que me ajudou a me
sentir melhor?

 Eu já estive neste tipo de situação antes? O que aconteceu? Há alguma diferença


entre esta situação e as situações anteriores? O que aprendi de experiências
prévias que poderia me ajudar agora?

 Existem pequenas coisas que contradizem meus pensamentos que eu possa estar
descartando como não sendo importante?

 Daqui a cinco anos, se olhar para trás em relação a esta situação, eu olharei para
ela de forma diferente? Concentrarei minha atenção em qualquer outra parte de
minha experiência?

 Existe algum ponto positivo ou forte em mim, ou na situação, que estou ignorando?
 Estou tirando conclusões precipitadas que não são totalmente justificadas pelas
evidências?

 Estou me culpando por algo sobre o qual não tenho controle total? 78

FONTE: Greenberger (1999).

 Reestruturação Cognitiva

De acordo com Greenberger (1999), quando as evidências não apoiam os


pensamentos automáticos, devemos construir um ponto de vista alternativo da situação que seja
mais coerente com as evidências.

Percebemos como as evidências são importantes para desfazer esses pensamentos


automáticos, que aparecem nas nossas mentes. Caso as evidências apoiem apenas
parcialmente os pensamentos automáticos, devemos construir um pensamento compensatório
que resuma as evidências que apoiam e contradizem o pensamento original.

Por fim, é importante avaliar nossa crença no pensamento alternativo ou


compensatório com uma escala que varia de 0 – 100%.

 Com base nas evidências encontradas, existe um modo alternativo de pensar ou de


compreender esta situação?
 Construir uma ideia, frase ou pensamento compensatório a partir do resumo ou
combinação de todas as evidências que apoiam meu pensamento automático e de
todas as evidências que contradizem este meu pensamento.

 Se alguém de quem gosto estivesse nesta situação, tivesse estes pensamentos e


79
tivesse estas informações disponíveis, qual seria meu conselho para esta pessoa?
Como eu sugeriria que a pessoa compreendesse a situação?

 Se meu pensamento automático fosse verdadeiro, qual seria a pior consequência?


Se meu pensamento automático não fosse verdadeiro, qual seria a melhor
consequência? Se meu pensamento automático fosse verdadeiro, qual será a
consequência mais realista? Posso lidar com essas consequências?

 Alguém em quem confio poderia pensar de outro modo para compreender esta
situação?

 As outras pessoas consideram esta experiência como sendo tão séria quanto eu
considero?

 Algumas pessoas consideram-na menos séria? Por quê?

 Quão séria ou grave eu consideraria a experiência se meu melhor amigo fosse o


responsável e não eu?

 Quão importante esta experiência parecerá daqui a um mês? Um ano? Cinco anos?

 Quão séria eu consideraria a experiência se alguém fizesse isso para mim?


 Eu sabia de antemão o significado ou as consequências de minhas ações (ou
pensamentos)? Com base no que eu sabia e passava na época, os meus
julgamentos atuais são pertinentes?

80
 Pode qualquer dano que ocorreu ser corrigido? Quanto tempo isso vai levar?

 Houve uma ação até mesmo pior que eu tenha considerado e evitado?

FONTE: Greenberger (1999).

3.6 TEORIA FOCADA EM ESQUEMAS DE YOUNG

Abordaremos aqui algumas teorias do desenvolvimento cognitivo, para que possamos


entender como se dá a formação dos esquemas e crenças discutidos por Young.

De acordo com Papalia (2000), a maioria dos pesquisadores do desenvolvimento


cognitivo usa umas das quatro abordagens para estudos de questões referentes ao
desenvolvimento cognitivo:

 Abordagem Behaviorista: como já detalhamos anteriormente, estuda a mecânica


básica da aprendizagem, preocupando-se em como o comportamento muda em resposta à
experiência.
 Abordagem Piagetiana: observa as mudanças na qualidade do funcionamento
cognitivo, ou o que a pessoa é capaz de fazer; faz relação com a evolução das estruturas
mentais e como as crianças se adaptam ao seu ambiente, sustentando que a cognição se
desenvolve em etapas.
 Abordagem Psicométrica: Tenta medir as diferenças individuais em termos de
quantidade de inteligência. 81
 Abordagem do Processamento de Informação: Concentra-se nas diferenças
individuais quanto ao modo no qual as pessoas usam sua inteligência, focando os processos
envolvidos na percepção e no manuseio de informação.

Como podemos perceber, cada abordagem tem sua importância e todas nos ajudam a
compreender o comportamento inteligente. Nesse tópico, focaremos nosso estudo em Piaget e
Bartlett, pois segundo Beck & Freeman (1993), o conceito de esquemas tem uma história
relativamente ligada a estes dois teóricos, que foram os primeiros a definir o que seria um
esquema descrevendo-o como estruturas que integram e atribuem significados aos eventos, em
seguida trabalharemos como se dá o processamento de informações.

Segundo Mussen (2001), Piaget acreditava que o desenvolvimento do conhecimento é


um processo ativo dependente da interação entre a criança e o ambiente. A criança não possui
um conjunto predefinido de habilidades mentais e nem é um recipiente passivo de estímulos do
ambiente. A partir da infância, o movimento cada vez mais dá lugar ao pensamento e o
aprendizado continua a ser um processo interativo.

Papalia (2000) cita que Piaget acreditava que o núcleo do comportamento inteligente
estaria numa capacidade inata de adaptar-se ao ambiente, pois é a partir daí que ele descreve o
desenvolvimento cognitivo como uma série de estágios. Em cada estágio a criança desenvolve
uma nova maneira de pensar e responder ao ambiente; esse desenvolvimento ocorreria por
meio de três princípios que estão inter-relacionados: organização, adaptação e equilibração.

A organização cognitiva é a tendência de criar sistemas de conhecimento cada vez


mais complexos. Desde que nascem, as pessoas organizam o que conhecem por meio de
representações mentais da realidade que as ajudam a dar sentido a seu mundo. Dentro dessas
representações mentais encontram-se as estruturas chamadas esquemas, que podem ser
conceituados como padrões organizados de comportamento que uma pessoa usa para pensar e
agir em uma situação.

À medida que as crianças adquirem mais informação, seus esquemas tornam-se cada
vez mais complexos, progredindo as maneiras de realizar ações motoras até o pensamento
crítico sobre percepções sensoriais, e depois até o pensamento abstrato.
82
A adaptação é o modo como lidamos com as novas informações, que vai envolver a
assimilação – que seria tomar uma informação e incorporá-la em estruturas cognitivas existentes
–, e a acomodação – que seria mudar nossas ideias para incluir um novo conhecimento.

Já a equilibração é uma busca constante de equilibrio, entre a criança e o mundo


exterior e entre as próprias estruturas cognitivas da criança.

Papalia (2000) afirma que, segundo Piaget, os esquemas têm origem no exercício dos
reflexos, ou seja, o recém-nascido, ao exercitar seus reflexos hereditários começa a relacionar o
contexto no qual o reflexo é aplicado com a situação alcançada por ele, dando origem aos
esquemas.

Essas informações nos mostram que o esquema piagetiano é uma estrutura cognitiva
dinâmica que se modifica ao longo do tempo, agregando conhecimento. É por meio de suas
interações, das experiências que a criança vivencia, que ela constrói ativamente os seus
conhecimentos. A ação da criança sobre os objetos é que possibilita a formação da inteligência,
em que a estrutura lógica é formada pelo desenvolvimento cognitivo, e neste sentido, a
socialização, a linguagem, a curiosidade é expressão do desenvolvimento cognitivo.

Não se esquecendo de citar Bartlett, Atkinson (2002) afirma que talvez ele tenha sido o
primeiro psicólogo a estudar sistematicamente os efeitos dos esquemas sobre a memória. Ele
sugeriu que distorções de memórias muito semelhantes àquelas que ocorrem quando
encaixamos pessoas em estereótipos podem ocorrer quando tentamos encaixar narrativas em
esquemas. O que Bartlett concluiu na sua pesquisa sobre os esquemas é que os dois aspectos
da memória, preservar e construir, podem sempre estar presentes, embora sua ênfase relativa
possa depender da situação exata.
Fica bem claro como Piaget e Bartlett querem definir um esquema: uma representação
mental de uma classe de pessoas, objetos, eventos e situações.

Como sabemos, o desenvolvimento intelectual é um processo que começa desde o


nascimento da criança (e, possivelmente, antes). Papalia (2000) nos confirma isso quando diz
que um bebê ao nascer apresenta comportamentos simples e também alguns reflexos. Ele
83
necessita de toda a atenção e cuidados do adulto, sozinho ele não sobreviveria, pois o período
que vai do nascimento à aquisição da linguagem é marcado por um extraordinário e complexo
desenvolvimento da mente. A criança progressivamente aumenta o autocontrole do seu próprio
corpo e sentimentos. Assim, ela conseguirá pouco a pouco lidar com as demandas da vida.

A partir dessas concepções básicas citadas anteriormente, percebemos o quanto


Piaget contribuiu para a descoberta dos processos de pensamentos e dos mecanismos de
aprendizagem e como ele chegou à definição do que seria um esquema.

Para entendermos de forma clara o que seriam realmente os esquemas de Young já


fizemos uma breve revisão sobre a Terapia Cognitiva anteriormente, que é o ponto-chave para
entendermos a definição de esquemas.

Para o entendimento da evolução e desmistificação de como são esses esquemas e


como se dividem, não podemos deixar de ressaltar a Teoria dos Esquemas de Young (2003),
que conceitua esquema como uma estrutura cognitiva que filtra, codifica e avalia os estímulos a
que o organismo é submetido.

Young é responsável por uma abordagem chamada “Terapia focada nos Esquemas”,
que se baseou na Terapia Cognitiva de curto prazo, terapia esta que se refere à abordagem de
terapia Cognitiva de 16 a 20 sessões, originalmente desenvolvida por Beck e colegas para
tratamento da depressão. Young usou a teoria dos esquemas para tratar pessoas com
transtorno de personalidade.

De acordo com Young (2003), existem algumas suposições importantes sobre os


pacientes a respeito da Terapia Cognitiva de Curto Prazo, que seria a Terapia Cognitiva criada
por Beck.
 Os pacientes têm acesso aos sentimentos com um breve treinamento. Ou seja, com
um treinamento relativamente breve podemos ensinar o paciente a perceber
quando estiver sentindo-se ansioso, triste, zangado, culpado ou com alguma outra
emoção. Porém, existem pacientes que estão bloqueados e não entram em contato
com seus sentimentos, para estes pacientes é necessário modificar a abordagem
da terapia cognitiva. 84

 Os pacientes têm acesso a pensamentos e imagens com um breve treinamento,


mas como toda regra tem suas exceções, os pacientes com transtornos de
personalidade precisam de estratégias diferentes, pois eles não conseguem chegar
aos seus pensamentos automáticos ou mesmo afirmam não ter nenhuma imagem.

 Esse tipo de terapia defende que os pacientes têm problemas identificáveis a serem
focalizados, caso alguns tenham problemas vagos ou difíceis de definir, deve-se
também modificar a terapia cognitiva para trabalhar com esses pacientes que vêm
ao consultório sem ter nada específico como problema.

 Uma das técnicas utilizadas nessa terapia são tarefas de casa e também o uso de
estratégias de autocontrole, mas alguns pacientes resistem a isso, mostrando que
estão muito mais motivados a depender do terapeuta e a obter apoio do que
aprender estratégias para ajudarem a si mesmos.

 Deve haver um relacionamento colaborativo entre paciente e terapeuta, mas


existem casos também em que é muito difícil engajar pacientes num
relacionamento colaborativo, podendo isso atrapalhar a terapia.

 Só que o relacionamento terapêutico não é o foco maior do problema, mas em


pacientes com transtornos de personalidade, que possuem sérias dificuldades de
relacionamento interpessoal, seria muito importante focalizar esse problema de
relacionamento, embora a terapia cognitiva tenha poucos estudos de como
trabalhar em profundidade o relacionamento terapêutico.

 Todas as cognições e todos os padrões de comportamento podem ser modificados


por análise empírica, discurso lógico, experimentação, passos graduais e prática.
85

FIGURA 12

Disponível em: <http://www.psicronos.pt/imagens/destaques/terapia_cognitva.gif>.

Acesso em: 24/09/2010.

Young (2003) propõe alguns constructos para tratamento de pacientes com transtorno
de personalidade, que seriam muito difíceis de tratar por meio do modelo cognitivo, ele propõe
uma expansão do modelo cognitivo proposto por Beck.

Seriam eles:

 Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIAs);


 Domínio de um esquema;
 Processos de um Esquema:
o Manutenção de um esquema;
o Evitação dos esquemas;
o Compensação dos esquemas.

Agora, conceituaremos cada um, para que a Teoria dos Esquemas de Young fique
mais clara.
86

 Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIAs): Young (2003) diz que esses


esquemas referem-se a temas extremamente estáveis e duradouros que se desenvolvem
durante a infância, são elaborados ao longo da vida e são disfuncionais em um grau significativo.
A grande maioria desses esquemas são crenças e sentimentos incondicionais sobre si mesmo
em relação ao ambiente, sendo autoperpetuadores e, portanto, muito resistentes à mudança.
Eles podem levar a um sofrimento psicológico, seja direta ou indiretamente, sua ativação é feita
por meio de acontecimentos ambientais relevantes para um esquema específico, sendo mais
ligados a altos níveis de afeto quando ativados do que a suposições subjacentes. Eles parecem
ser resultado de um temperamento inato da criança interagindo com experiências disfuncionais
com os pais, irmãos e conhecidos durante os primeiros anos de vida, ou seja, em sua maioria
não são resultados de acontecimentos traumáticos isolados, a maioria é causada por padrões
continuados de experiências nocivas cotidianas com outras pessoas que reforçam de alguma
maneira o esquema.

 Domínio de um esquema: Segundo Young (2003), são cinco necessidades


desenvolvimentais primárias que a criança precisa negociar para se desenvolver de maneira
sadia. Podemos dizer que questões como temperamento inato e a biologia desempenham um
papel no desenvolvimento de alguns desses esquemas. Assim, esses dois fatores associados ou
combinados com os estilos parentais e as influências sociais às quais a criança está exposta é
que desenvolve as tarefas (conexão e aceitação, autonomia e desempenho, limites realistas,
auto-orientação e autoexpressão, espontaneidade e prazer) relacionadas com os esquemas que
citamos acima, ou seja, quando os pais e o ambiente social são ótimos, as crianças se
desenvolvem de maneira sadia em todas as cinco áreas, caso esse ambiente não seja bom, a
criança pode desenvolver Esquemas Iniciais Desadaptativos em um ou mais dos domínios de
esquemas, que persistem por toda a vida e tornam-se princípios organizadores do
funcionamento cognitivo, emocional, interpessoal e comportamental do paciente. Caso não
consiga, terá dificuldades para funcionar nos seguintes domínios de esquemas:

o Desconexão e rejeição;
87
o Autonomia e desempenhos prejudicados;
o Limites prejudicados;
o Orientação para o outro;
o Supervigilância e inibição.

Os esquemas que fazem parte desses domínios serão citados detalhadamente no


decorrer deste capítulo.

Agora, falaremos de Processos de um Esquema:

o Manutenção de um esquema;
o Evitação dos esquemas;
o Compensação dos esquemas.

o Manutenção de um esquema: Refere-se a processos pelos quais os esquemas


iniciais adaptativos (EIAs) são reforçados. Essa manutenção, de acordo com Young (2003),
acontece salientando ou exagerando informações que confirmam os esquemas e negando ou
minimizando informação que contradizem o esquema. Muitos desses processos de manutenção
dos esquemas são descritos por Beck como distorções cognitivas. O terapeuta geralmente
encontra uma enorme resistência quando começa a contestar esses esquemas, pois o paciente
tem certeza que eles são verdadeiros. Nesses processos, incluem-se distorções cognitivas
explicadas em nível cognitivo e padrões de comportamento autoderrotistas, explicados em nível
comportamental, que são os principais mecanismos de manutenção de esquemas e juntos
servem para perpetuá-los, tornando-os cada vez mais inflexíveis.

o Evitação dos esquemas: São três os tipos mais importantes de evitação dos
esquemas – cognitivo, afetivo e comportamental – eles permitem que o paciente escape da dor
88
associada ao seu EID.

o Compensação dos esquemas: Refere-se a processos que supercompensam os


EIA.

Vale ressaltar que em Young (2003) foram citados 18 Esquemas Iniciais


Desadaptativos, estando agrupados nos cinco domínios de esquemas abaixo:

 Desconexão e rejeição

Expectativa de que as necessidades de segurança, estabilidade, carinho, empatia,


compartilhamento de sentimentos, aceitação e respeito não serão atendidos, previsivelmente. A
família de origem é tipicamente desligada, rejeitadora, refreada, solitária, explosiva, imprevisível
ou abusiva.

Esquemas associados:

o Abandono/instabilidade;
o Desconfiança/abuso;
o Privação emocional;
o Defectividade/vergonha;
o Isolamento social/alienação.
 Autonomia e desempenhos relacionados

Expectativa sobre si mesmo e o ambiente que interferem na capacidade percebida de


separar-se, sobreviver, funcionar independentemente ou ter um bom desempenho. A família de
origem é tipicamente emaranhada, abala a confiança da criança em si mesma, é superprotetora
89
ou não consegue reforçar a criança para ter um desempenho competente fora da família.
Esquemas relacionados:

o Dependência/incompetência;
o Vulnerabilidade/incompetência;
o Emaranhamento/self subdesenvolvido;
o Fracasso.

 Limites prejudicados

Deficiência em limites internos, responsabilidade com os outros ou orientação para


objetivos em longo prazo. A família de origem é tipicamente caracterizada pela permissividade,
excesso de indulgência, falta de direção ou senso de superioridade em vez de confrontação,
disciplina e limites apropriados em relação a assumir responsabilidades, cooperar de maneira
recíproca e estabelecer metas.

Esquemas relacionados:

o Merecimento/grandiosidade;
o Autocontrole/autodisciplina insuficientes;
 Orientação para o outro

Um foco excessivo nos desejos, sentimentos e respostas dos outros, à custa das
próprias necessidades a fim de obter amor e aprovação, manter o sentimento de conexão ou
evitar retaliação. A família de origem é tipicamente baseada na aceitação condicional, em que as
90
crianças precisam suprimir aspectos importantes de si mesmas a fim de obter amor, atenção e
aprovação.

Esquemas relacionados:

o Subjugação;
o Autossacrifício;
o Busca de aprovação/busca de reconhecimento.

 Supervigilância e inibição

Nesse esquema, há uma ênfase excessiva na supressão dos sentimentos, dos


impulsos e das escolhas pessoais espontâneas ou na criação de regras e expectativas
internalizadas rígidas sobre desempenho e comportamento ético à custa da felicidade,
autossupressão, relaxamento íntimo ou saúde. A família de origem é tipicamente severa,
exigente e, às vezes, punitiva. Esquemas relacionados:

o Negativismo/pessimismo;
o Inibição emocional;
o Padrões inflexíveis/crítica exagerada;
o Caráter punitivo.
Na teoria da terapia cognitiva, a natureza e a função do processamento de informação,
formação de esquemas (atribuição de significados), constituem a chave para entender o
comportamento mal adaptativo e os processos terapêuticos adaptativos.

Embora os significados sejam construídos pelas pessoas em vez de serem


componentes preexistentes da realidade, eles são corretos ou incorretos em relação a um
91
determinado contexto ou objetivo. Então, quando ocorre a distorção cognitiva, os significados
são disfuncionais ou mal adaptativos, essas distorções incluem erros no conteúdo cognitivo
(significados), no processamento cognitivo (elaboração de significados) ou ambos.

“Os esquemas evoluem para facilitar a adaptação da pessoa ao ambiente e são neste
sentido estruturas teleonômicas” (BECK, 2000, p. 25). Portanto, eles são essencialmente
estruturas de significado consciente e inconsciente, em que servem à função de sobrevivência.

Neste sentido, percebe-se que um estado psicológico não é nem adaptativo, nem mal
adaptativo em si, mas encontra-se em relação ao contexto do ambiente social e físico mais
amplo no qual a pessoa está inserida. O significado que uma pessoa atribui a uma situação, ou a
forma como um evento é estruturado, construído por uma pessoa, é que determina como aquela
pessoa se sentirá e se comportará.

Beck (2003) simplifica isso quando diz que as crenças que temos sobre nós mesmos,
sobre o mundo e sobre o futuro determinam o modo como nos sentimos: o que e como as
pessoas pensam afetam profundamente o seu bem-estar emocional. E é desse princípio que
vem a ideia de que, examinando nossas crenças e, nos apropriando e modificando-as, afetamos
diretamente o nosso bem-estar emocional.

Podemos entender isso melhor quando percebemos como se dá a formação de um


esquema: nossas respostas emocionais e comportamentais, bem como nossa motivação, não
são influenciadas diretamente por situações, mas sim pela forma como processamos essas
situações, em outras palavras, pelas interpretações que fazemos dessas situações, por nossa
representação dessas situações, ou pelo significado que atribuímos a elas. As nossas
interpretações, representações ou atribuições de significado, por sua vez, refletem-se no
conteúdo de nossos pensamentos automáticos, contidos em vários fluxos paralelos de
processamento cognitivo que ocorrem em nível pré-consciente.
O conteúdo de nossos pensamentos automáticos, pré-conscientes, reflete a ativação
de estruturas básicas inconscientes, os esquemas e crenças, e o significado atribuído pelo
sujeito ao real.

Nossas interpretações, representações, ou atribuições de significado atuam como


variável mediacional entre o real e as nossas respostas emocionais e comportamentais. Daí
92
decorre que, para modificar emoções e comportamentos, intervimos sobre a forma do indivíduo
processar informações, ou seja, interpretar, representar ou atribuir significado a eventos, em uma
tentativa de promover mudanças em seu sistema de esquemas e crenças.

Como já foi dito, as crenças estão contidas dentro dos esquemas, ou seja, “as crenças
são um registro da história de cada entidade, da confiança que temos em obter as coisas que
desejamos ou em ter sucesso em nossas empreitadas” (LE BON, 2001, p. 58).

Por intermédio da história de vida do sujeito e com base em experiências relevantes


desde a infância, desenvolvemos um sistema de esquemas, que estão cheios de crenças,
localizado em nível inconsciente ou, utilizando conceitos da Psicologia Cognitiva, em nossa
memória implícita.

Esquemas, nesse sentido, podem ser definidos como superestruturas cognitivas, que
refletem regularidades passadas, conforme percebidas pelo sujeito. Ao processarmos eventos,
os esquemas implicitamente organizam os elementos da percepção sensorial, ao mesmo tempo
em que são atualizados por eles, em uma relação circular. Os esquemas ainda dirigem o foco de
nossa atenção.

Como já foi explicitado, incorporadas aos esquemas, são desenvolvidas crenças


básicas e pressuposições intermediárias específicas para diferentes classes de eventos, as
quais são ativadas em vista de eventos críticos eliciadores. A ativação dessas crenças reflete-se
em nosso pré-consciente, nos conteúdos dos pensamentos automáticos, que representam nossa
interpretação do evento, ou o significado atribuído a ele. Esses, por sua vez, influenciam a
qualidade e intensidade de nossa emoção e a forma de nosso comportamento frente a essa
determinada situação.

Sintetizando como essas crenças atuam podemos dizer, que elas se desenvolvem na
infância à medida que a criança interage com outras pessoas significativas e encontra uma série
de situações que confirmem essa ideia, e essas crenças centrais negativas podem vir à tona
apenas durante momentos de aflição psicológica.

Segundo Beck (1997), quando uma crença central é ativada, o sujeito é facilmente
capaz de processar informações que a apoiam, mas ele frequentemente falha em reconhecer e
distorce as informações que são contrárias à crença central.
93
Chegamos até aqui com o propósito de mostrar que a construção de significados é
muito importante e que esses significados interferem na nossa vida, pois essas crenças que
adquirimos tornam-se verdades absolutas e são apenas ideias que podem ser modificadas.

É de extrema importância a interpretação que o próprio paciente tem sobre sua


experiência, sobre seu mundo e sobre si mesmo. Não se trata mais de descobrir os significados
ocultos, mas de conhecer os processos de sua construção.

Como diz Silva (2003), um sistema de crenças e valores é capaz de conferir


continuidade e coerência a nossas vidas, em razão de nos ajudar a tomar decisões e a avaliar a
importância das experiências pessoais. Temos a tendência de aceitar melhor aquilo que está de
acordo com nossas crenças e, ao aceitar, nós o validamos como verdadeiro.

3.7 DIFERENÇA ENTRE COGNITIVISMO E O CONSTRUTIVISMO

Algumas concepções alicerçam a teoria e a prática dos diferentes modelos cognitivos.


Temos o cognitivismo tradicional (cognitivismo-objetivo) e o cognitivismo construtivista
(construtivista).

De acordo com Nabuco (2003), para os cognitivistas o conceito de realidade e de


construção de significados pode ser entendido como fruto direto das representações extraídas da
realidade externa, ou seja, no desenvolvimento da nossa cognição, exibimos uma inclinação
natural para revelar internamente os significados da existência concreta externa. Os conceitos já
estão existentes no mundo exterior. Evidencia-se a busca contínua daquilo que objetivamente
existe no mundo. Ao nos defrontarmos com o mundo, abstrairemos os conceitos possíveis, e
nosso pensamento, em sua atividade, buscará tais eventos.

Segundo Beck (1964), não é a situação e o contexto que determinam o que as pessoas
94
sentem, mas sim o modo como elas interpretam os fatos. Dessa forma, percebe-se que
conhecimento é uma representação imediata do mundo exterior, dessa realidade que é única.

Já para o construtivismo, os conceitos de realidade e construção de significados


encontram-se subordinados à influência das emoções. É por meio dos elementos proprioceptivos
e das estruturas vivenciais (aquelas que interpretam os estímulos pela experiência) que ocorrerão
esses processos. Assim, a realidade interna será vista como derivada do modo pelo qual cada
indivíduo sente emocionalmente o mundo, mediante percepções corpóreas e tácitas produzidas
pelo seu aparecimento.

Percebemos que aqui, primeiro sente-se algo para depois pensar no seu conteúdo, a
emoção sempre criará problemas para o pensamento resolver. No quesito emoção, os
cognitivistas afirmam que as emoções são derivadas dos padrões de pensamento, pautadas nas
crenças, direcionando a maneira como as pessoas interpretam a situação.

Para o construtivismo, as emoções não são nem racionais, nem irracionais, mas sim
adaptativas por natureza. Não são as emoções que nos afligem, mas a dificuldade de entendê-las.
Somos aquilo que sentimos que somos.

A psicopatologia afirma, cognitivamente, que algumas doenças surgem de pensamentos


negativos automáticos e quanto mais se desenvolverem os sintomas, mais intensos se tornarão os
PNAs, maior será a validade da crença central disfuncional, mantendo o círculo vicioso em
atividade. As crenças disfuncionais deslocam as estruturas mais adaptativas, compostas por
crenças mais razoáveis e adaptativas, prevalecendo nos atos finais de significação.

Nabuco (2003) diz que o construtivismo, as disfunções e os distúrbios emocionais


surgem quando as pessoas não se sentem autorizadas a reconhecer, sentir ou até mesmo
legitimar determinadas emoções. Aqui, os padrões desadaptativos ou dolorosos da experiência
emocional refletem as tentativas individuais de adaptação e desenvolvimento.
No tratamento, o cognitivismo foca a eliminação, o controle ou a substituição dos
padrões negativos do pensamento. Propõe-se a identificação, seguida da alteração dos padrões
irracionais por padrões mais lógicos e realistas.

Para o construtivismo, a ênfase está na experiência e na expressão apropriada das


emoções, assim como na exploração do seu desenvolvimento.
95

3.8 PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

Os princípios que aqui citaremos são de extrema importância para se entender e


trabalhar com a terapia cognitiva, sendo citados em Beck (2003):

 Formulação em contínuo desenvolvimento do paciente e de seus problemas

A terapia cognitiva se baseia em uma formulação em contínuo desenvolvimento do


paciente e de seus problemas em termos cognitivos, assim o terapeuta deve identificar o
pensamento atual do paciente, que ajuda a manter seus sentimentos, depois investiga os
comportamentos.

Percebe-se que os comportamentos problemáticos, ao mesmo tempo em que fluem do


pensamento disfuncional, também reforçam os pensamentos do paciente. O terapeuta também
identifica fatores precipitantes que influenciam as percepções do paciente. E podemos dizer que
ele deve levantar hipóteses sobre eventos desenvolvimentais e padrões duradouros de
interpretação desses eventos que podem ter predisposto o paciente ao transtorno ou problema a
que ele está acometido.

Assim, o terapeuta baseia sua formulação nos dados que o paciente traz e continua a
refinar a conceituação ao longo da terapia.

Em alguns momentos o terapeuta partilha a conceituação com a paciente para ter


certeza que está indo no caminho certo.

O paciente aprende principalmente a identificar os pensamentos associados a seu


sentimento, ou seja, que esses são condutores de seu comportamento e, assim, avaliar e 96
formular respostas mais adaptativas ao seu pensamento, para se ter comportamentos
funcionais.

 Aliança terapêutica segura

A terapia cognitiva requer uma aliança terapêutica segura, por que muitos pacientes
têm dificuldade em confiar e trabalhar com seu terapeuta. Assim, este deve demonstrar todos os
ingredientes básicos necessários em uma situação de aconselhamento, que são:

o Cordialidade;
o Empatia;
o Atenção;
o Respeito genuíno;
o Competência.

Demonstre fazendo declarações empáticas, escutando com atenção e cuidado,


resumindo cuidadosamente seus pensamentos e sentimentos e sendo realisticamente otimista.

O terapeuta também deve pedir o retorno ao final de cada sessão para certificar-se de
que o paciente se sentiu entendido em relação à sessão.

Deve-se tomar cuidado com pacientes com transtornos de personalidade, pois estes
necessitam de maior atenção no que se trata de relacionamento terapêutico e uma boa aliança
de trabalho.
 Colaboração e participação ativa

A terapia cognitiva enfatiza colaboração e participação ativa. Dessa forma, o terapeuta


deve encorajar o paciente a ver a terapia como um trabalho em equipe, em que juntos eles
decidem coisas, como o que trabalhar em cada sessão, a frequência com que eles deveriam
97
encontrar-se e o que deveriam fazer, entre as sessões, como tarefa de casa da terapia.

A princípio, o terapeuta é mais ativo em sugerir uma direção, mas o terapeuta deve
encorajar o paciente a tornar-se mais ativo nas sessões, como decidir sobre que tópicos falar,
identificar as distorções em seu pensamento, resumir pontos importantes e projetar tarefas para
casa.

 Terapia orientada em metas e focalizada em problemas

A terapia cognitiva é orientada em meta e focalizada em problemas. Na sessão inicial,


o terapeuta deve pedir para seu paciente, enumerar seus problemas e estabelecer metas
específicas, ou seja, o paciente deve relatar quais são seus problemas, o que lhe angustia, e
depois tentar buscar soluções para resolver estes problemas, que seriam as metas.

O terapeuta deve ajudar o paciente a avaliar e responder a seus pensamentos que


interferem em suas metas e a avaliar a validade desses pensamentos no consultório por meio
de um exame de evidências.

Uma vez que o paciente reconhece e corrige a distorção em seu pensamento, ele é
capaz de beneficiar-se com a resolução de problemas diretamente para melhorar seus
relacionamentos.

Portanto, o terapeuta presta atenção particular aos obstáculos que impedem o


paciente de resolver problemas e atingir metas por si mesmo.

Percebemos que o terapeuta precisa conceituar as dificuldades específicas do


paciente e avaliar o nível apropriado de intervenção.
 Inicialmente focaliza o presente

A terapia cognitiva inicialmente enfatiza o presente. Na maioria dos tratamentos, o


foco recai sobre os problemas atuais e sobre situações específicas que são aflitivas para o
paciente.
98
Para se reduzir os sintomas deve-se fazer uma avaliação realista do problema e do
que ele está causando, assim esse terapeuta inicia a terapia com exame de problemas no aqui
e agora, independentemente do diagnóstico.

A atenção só volta-se para o passado em três circunstâncias, segundo Beck (2003):

o Quando o paciente expressa uma forte predileção a fazer isso;


o Quando o trabalho voltado em direção a problemas atuais produz pouca ou
nenhuma mudança cognitiva, comportamental e emocional;
o Quando o terapeuta julga que é importante entender como e quando ideias
disfuncionais importantes se originaram e como elas afetam o paciente hoje.

O terapeuta ajuda a avaliar a validade dessas crenças tanto no passado como no


presente, fazendo com que o paciente desenvolva crenças mais funcionais e mais razoáveis.

 Educativa

A terapia cognitiva é educativa, visa ensinar o paciente a ser seu próprio terapeuta e
enfatiza prevenção da recaída. Na sessão inicial, o terapeuta deve educar o paciente sobre
informações que dizem respeito a seu transtorno, sobre o processo da terapia cognitiva, como a
terapia trabalha esse transtorno e sobre o modelo, como a terapia cognitiva conduzirá o
problema.
Dessa forma, o paciente aprenderá a estabelecer metas, identificar e avaliar
pensamentos e crenças e planejar mudança comportamental, mas também aprenderá como
fazer isso sozinho e depois continuar sem a ajuda do terapeuta.

 Tem tempo limitado 99

A terapia cognitiva visa ter um tempo limitado. O terapeuta tem metas para serem
trabalhadas com seus pacientes:

o Prover alívio de sintomas;


o Facilitar uma remissão do transtorno;
o Ajudar a resolver seus problemas mais prementes.

Pacientes com depressão ou transtornos de ansiedade são tratados de quatro a 14


sessões, porém nem todos os pacientes fazem progresso suficiente em apenas alguns meses.
Alguns pacientes requerem um ou dois anos de terapia (ou possivelmente mais) para modificar
as crenças disfuncionais muito rígidas e os padrões de comportamento que contribuem para a
sua angústia crônica.

 Sessões estruturadas

As sessões de terapia cognitiva são estruturadas. O terapeuta cognitivo deve estruturar


e estabelecer o que vai ser feito em cada sessão, assim ele verifica o humor do paciente, solicita
uma breve revisão da semana, estabelece, de comum acordo entre ambos, uma agenda para a
sessão, obtém feedback sobre a sessão anterior, revisa a tarefa de casa, discute os itens da
agenda, estabelece nova tarefa para casa, resume com frequência e busca feedback no final de
cada sessão.
Essa estrutura que acabamos de citar deve permanecer constante ao longo da terapia.

 Paciente aprende a identificar e responder a pensamentos e crenças

100
A terapia cognitiva ensina os pacientes a identificar, avaliar e responder a seus
pensamentos e crenças disfuncionais. Um dos métodos que pode ser utilizado para fazer o que
falamos acima é por intermédio do questionamento socrático leve, que ajuda a promover o
sentimento do paciente, no qual o terapeuta está verdadeiramente interessado, sem desafiar ou
persuadir o paciente a adotar o ponto de vista do terapeuta. Já em outros momentos pode utilizar
descoberta orientada, na qual o terapeuta chega a crenças subjacentes que o paciente mantém
sobre si mesmo, seu mundo e outras pessoas.

Mediante todas essas técnicas de questionamento, ele também a orienta em avaliar a


validade e a funcionalidade das suas crenças.

 Uso de técnicas

A terapia cognitiva utiliza uma variedade de técnicas para mudar pensamento, humor
e comportamento. Embora estratégias cognitivas como questionamento socrático e descoberta
orientada sejam centrais à terapia cognitiva, técnicas de outras abordagens são também usadas
nesta terapia.

Que fique claro que a terapia varia consideravelmente de acordo com o paciente
individual, a natureza de suas dificuldades, suas metas, sua habilidade de formar um vínculo
terapêutico forte, sua motivação para mudar, sua experiência prévia com terapia e suas
preferências de tratamento. A ênfase no tratamento depende do transtorno(s) particular do
paciente e assim de acordo com esse transtorno serão escolhidas as técnicas que mais se
adéquam ao momento e ao contexto que o paciente traz.
3.9 DISTORÇÕES COGNITIVAS

As pessoas, muitas vezes, tendem a cometer erros em seus pensamentos.


101
Percebemos que com frequência, há uma tendência sistemática negativa no processamento
cognitivo daqueles que estão sofrendo de algum mal-estar psicológico. E a identificação dessas
distorções cognitivas é essencial e muito importante para sua correção. Veremos agora os erros
ou distorções mais comuns:

 Personalização;
 Catastrofização;
 Rotulação;
 Magnificação/minimização;
 Leitura mental;
 Supergeneralização/hipergeneralização;
 Desqualificando ou desconsiderando o positivo;
 Declarações do tipo “eu deveria ou eu devo”;
 Visão em túnel;
 Vitimização;
 Questionalização;
 Pensamento do tipo tudo ou nada/polarização ou pensamento dicotômico;
 Raciocínio emocional;
 Abstração seletiva;
 Adivinhação;
 Inferência arbitrária.

 Personalização
É a tendência a se ver como causador de fatos ruins, sem o ser de fato. Acredita-se
que os outros estão se comportando negativamente devido a você ou por sua culpa, sem
considerar explicações mais plausíveis para o comportamento do outro.

Knapp (2004) é assumir a culpa ou responsabilidade por acontecimentos negativos,


falhando em ver que outras pessoas e fatores também estão envolvidos nos acontecimentos.
102
Exemplo:

Meu amigo foi rude comigo, devo ter feito algo de errado.

Se algo de errado acontecer no meu aniversário, a culpa será só minha.

 Catastrofização

Knapp (2004) conceitua essa distorção como uma pessoa que pensa que o pior de
uma situação irá acontecer sem levar em consideração a possibilidade de outros desfechos. Ele
afirma que é acreditar que o que aconteceu ou irá acontecer será terrível e insuportável.

 Os eventos negativos que podem ocorrer são encarados como catástrofes


intoleráveis, em vez de serem vistos em perspectiva.
 Antecipar que as coisas, de qualquer maneira, vão dar errado, sem base para isso.
 Prever o futuro, antecipando problemas que podem não vir a existir.
 Estabelece expectativas negativas como se já fossem fatos.

Exemplo: Eu sei que serei rejeitada.

Eu não suportarei a separação da minha mulher.

Se eu perder o controle, será o meu fim.


 Rotulação

Como o próprio nome já diz é a tendência a descrever erros ou medos como,


características estáveis do comportamento ou da personalidade, como fossem rótulos pessoais.

De acordo com Knapp (2004), coloca-se um rótulo global e fixo sobre si mesmo ou 103
sobre os outros sem considerar que as evidências poderiam levar a uma conclusão menos
desastrosa.

Exemplo: Eu sou um fracassado (em vez de: falhei nisso!).

Ele não presta mesmo! (diante de um ato impensado do outro).

 Magnificação/minimização

É a tendência a diminuir a importância dos aspectos positivos em si mesmo, nos outros


ou nas situações e ampliar ou engrandecer a importância dos aspectos negativos. O positivo é
minimizado, enquanto o negativo é maximizado.

Exemplo: Obter boas notas não quer dizer que sou inteligente (ao passo que as notas
baixas provam que é um fracasso).

Eu tenho um ótimo emprego, mas todo mundo tem, e com tantas falhas qualquer dia
irei perdê-lo.

 Leitura mental
De acordo com Knapp (2004), quando uma pessoa tem distorções desse tipo, ela
presume, sem evidências, que sabe o que outros estão pensando, geralmente dela,
desconsiderando outras hipóteses possíveis.

Exemplo: Tenho certeza que o professor está pensando que eu não estudei. 104

Ele não gostou da minha casa.

 Supergeneralização ou hipergeneralização

É a tendência a ver um evento negativo como um padrão interminável de perigos ou


sofrimentos. Tira-se uma conclusão negativa muito abrangente e radical que vai muito além da
situação atual.

Exemplo: Se eu senti medo aqui, vou sentir sempre de novo.

Tudo dá sempre errado para mim (após ter batido o carro).

Todo homem faz a mesma coisa, traem.

 Desqualificando ou desconsiderando o positivo

É a tendência a rejeitar experiências ou fatos positivos por insistir que eles não contam,
por qualquer motivo.

Exemplo: Sou burra e fraca (mesmo depois de ter passado no vestibular e ter se
formado).
Eu fiz bem aquele projeto, mas isso não significa que eu seja competente, eu apenas
tive sorte.

 Declarações imperativas
105

É a tendência a dirigir a própria vida em termos de “deverias”, por avaliações de “certo


ou errado”, em vez de dirigi-la por seus desejos.

Tem-se uma ideia exata estabelecida de como você ou os outros deveriam se


comportar, superestimando quão ruim será se as expectativas não forem preenchidas.

Knapp (2004) também cita demandas feitas a si mesmo, aos outros e ao mundo para
evitar as consequências do não cumprimento dessas demandas.

Exemplo: Eu deveria estudar mais (em vez de: eu quero ou não quero estudar mais).

É terrível que eu tenha cometido este erro, eu deveria sempre dar o melhor de mim.

 Visão em túnel ou seleção arbitrária

É a tendência em selecionar e ver apenas os aspectos negativos de uma situação.

Exemplo: O professor do meu filho não sabe fazer nada direito: ele é crítico, insensível
e ensina mal.

Eu sou burro, tirei outra nota baixa.

 Vitimização
É a tendência a considerar-se injustiçado ou não compreendido. A fonte da maioria dos
problemas geralmente é em razão dos outros ou por algumas situações. Há recusa ou
dificuldade de se responsabilizar pelos próprios sentimentos ou comportamentos.

Exemplo: Minha mãe não entende meus sentimentos.

Faço tudo pelos meus amigos, mas eles não me agradecem. 106

 Questionalização

De acordo com Knapp (2004), é a tendência a focar o evento naquilo que poderia ter
sido e não foi. Culpar-se pelas escolhas do passado e questionar-se por escolhas futuras.

Exemplo: Se eu tivesse aceitado o outro emprego, estaria melhor agora... e se o outro


emprego não der certo?

Se eu não tivesse viajado, isso não teria acontecido.

 Pensamento do tipo tudo ou nada/polarização ou pensamento dicotômico

É a tendência de interpretar todas as experiências em termos de categorias opostas e


polarizadas. Pensamento do tipo tudo ou nada, branco ou preto, perfeição ou fracasso, sempre
ou nunca. Perceber tudo em termos absolutos.

Exemplo: Se eu não for um sucesso total, eu serei um fracasso.

Um sinal imprevisto no meu corpo significa perigo iminente.

 Raciocínio emocional
É a tendência a tomar as próprias emoções como provas de uma verdade. Pensa-se
que algo deve ser verdade porque sente que é. Nesse caso, a pessoa com a distorção deixa o
sentimento lhe guiar, ou seja, guiam a interpretação da realidade.

Exemplo: Se eu sinto pânico aqui, é porque essa situação é mesmo perigosa. 107

Eu sei que eu faço muitas coisas certas, mas eu ainda me sinto um fracasso.

 Abstração seletiva

É a tendência a focalizar apenas um detalhe retirado de um contexto, ignorando outros


aspectos também importantes, e conceber a totalidade da experiência com base no fragmento
selecionado. Presta-se atenção indevida a um detalhe negativo em vez de considerar o quadro
geral.

Exemplo: Cometi um erro neste trabalho, ele está deplorável (quando o erro é
secundário e está em meio a muitos aspectos positivos do trabalho).

Sou impotente (diante de uma única falha erétil).

 Adivinhação

Nesse caso, pessoas com a distorção preveem o futuro, antecipam problemas que
talvez não venham a existir.

Exemplo: Eu não irei me sentir bem quando viajar.

Sei que não irei gostar desse emprego.


 Inferência arbitrária

É a tendência a chegar a uma conclusão (ou a uma regra) na ausência de evidências


ou provas suficientes, ou por meio de um raciocínio falho.

108

Exemplo: Não sou atraente para as mulheres (após algumas tentativas infrutíferas).

3.10 PERFIL COGNITIVO DOS TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS

De acordo com Kaplan e Sadock (2003 apud BECK e RUSH, ANO), o perfil cognitivo
de alguns transtornos psicológicos são os seguintes:

TABELA 4 - TRANSTORNOS

Transtornos Conteúdo cognitivo específico

1. Anorexia nervosa Medo de ficar gordo e disforme.


2. Comportamento suicida Desesperança e deficit na resolução de
problemas.

109
3. Transtorno obsessivo-compulsivo Alerta repetido ou dúvidas sobre a
segurança e atos repetidos para afastar
ameaças.

4. Transtorno depressivo Visão negativa de si mesmo.

5. Transtorno de ansiedade Medo de perigo físico ou psicológico.

6. Transtorno de pânico Interpretação errônea e catastrófica de


experiências corporais e mentais.

7. Transtorno de personalidade paranoide Visão dos outros como manipuladores e


mal-intencionados.
8. Fobia Perigo em situações específicas e
evitáveis.

9. Hipocondria Atribuição de sério transtorno médico.


110

10. Episódio hipomaníaco Visão inflada de si mesmo, da


experiência e do futuro.

11. Transtorno conversivo Conceito de anormalidade motora e


sensorial.

FONTE: Kaplan e Sadock (2003 apud BECK e RUSH, 1997).

3.11 ESTRUTURAÇÃO DAS SESSÕES

É preciso citar como é estruturada a sessão de TCC. Segundo Rangé (2001), a


estrutura é a seguinte:
o Revisão do humor, revisão da semana – checagem do humor para monitoramento
do progresso terapêutico;
o Ponte com a sessão anterior – feedback do paciente acerca do que foi aprendido na
sessão anterior;
o Revisão das tarefas;
o Fazer a agenda dos tópicos importantes a serem discutidos na sessão e trabalhar 111
os itens da agenda;
o Estabelecimento de novas tarefas de casa;
o Resumo da sessão e feedback – o paciente é solicitado a resumir os pontos
principais que foram aprendidos e também revelar quais sentimentos experimentou
na sessão.

 Revisão do humor/ Revisão da semana

De acordo com a maioria dos autores, a sessão inicial de terapia tem várias metas
importantes. Knapp (2004) diz que é necessário, nessa sessão, revisar o humor. Isso pode ser
feito por meio de uma nota de zero a 10 para o humor, em que zero indica nenhuma depressão
ou ansiedade e 10 indica muita depressão e ansiedade. Deve-se também revisar os
acontecimentos bons e ruins que aconteceram no intervalo dessas sessões, para que se dê
prioridade a algumas questões a serem trabalhadas.

Beck (1997, apud RANGÉ, 2001) elenca questões como estabelecer rapport, refinar a
conceituação, socializar o paciente no processo e na estrutura da terapia cognitiva, educar o
paciente sobre o modelo cognitivo e sobre o seu transtorno prover esperança e algum alívio de
sintomas e também desenvolver uma sólida aliança terapêutica e encorajar o paciente a aliar-se
ao terapeuta para alcançar metas terapêuticas são questões de suma importância a serem
trabalhadas.

 Ponte com a última sessão


Cada sessão deve dar um sentido de continuidade, por isso é muito importante que o
terapeuta faça perguntas como: O que você lembra-se de mais importante da última sessão?
Assim, o paciente fará a interligação com a sessão passada sem muita dificuldade. Alguns
pacientes são muito esquecidos, nesses casos aconselha-se o uso de uma agenda ou caderno
para que seja feita a anotação de pontos importantes, relembrando mais facilmente da sessão
anterior. 112

 Revisão das tarefas

Segundo Knapp (2004), uma tarefa que não deu certo ou não alcançou o resultado
esperado traz muitas informações, pois ao realizar a revisão da tarefa podemos confirmar se a
direção e a marcha do trabalho terapêutico estão adequadas, ou se ainda é necessário
incrementar as habilidades e autoeficácia do paciente, caso a tarefa não tenha seguido como
planejado.

É muito importante que o terapeuta sempre revise a tarefa de casa, pois quando o
terapeuta não revisa a tarefa e não extrai dela todo o aprendizado possível, ou seja, quando o
terapeuta mostra de forma mais clara o objetivo da tarefa e como ela pode ajudar o paciente,
estará reforçando no paciente a ideia de que a tarefa não é importante.

 Fazer agenda

Como já discutimos antes, esse tipo de terapia tem uma sessão estruturada; assim é
feita a agenda, que nos mostrará como seguir no decorrer da sessão, quais problemas são mais
e menos importantes, estabelecendo assim ordem de prioridades e evitando que se perca
tempo com questões que não teriam importância naquela sessão. Ela deve ser feita no início
das sessões em comum acordo com o paciente.

Dessa forma, pode-se perguntar ao paciente no começo da sessão: O que o paciente


gostaria de trabalhar na sessão de hoje?
 Resumos periódicos/Resumo final

Nesse tipo de terapia, o paciente deve fazer resumos para que ele fortaleça o que foi
aprendido. São feitos os resumos periódicos ou capsulares, em que são realizados ao longo da
sessão e o resumo final, sendo relembradas as principais descobertas. O terapeuta pode ajudar
113
o paciente a fazer esses resumos com a seguinte pergunta: O que você está levando da sessão
de hoje?

Segundo Knapp (2004), devem ser resumidos as descobertas e aprendizados que


ocorreram, com conclusões e experimentos que irão confirmar e fortalecer os aprendizados.

 Feedback da sessão

O feedback deve ser feito regularmente, para que o terapeuta perceba algum
problema na relação terapêutica, buscando informar contrariedades e insatisfações do paciente
com o terapeuta. Deve-se também buscar o feedback de como está o tratamento, o que o
paciente está sentindo e pensando acerca do processo e do progresso terapêutico, pois,
segundo Knapp (2004), essas informações do percurso terapêutico podem corrigir o rumo da
terapia.

3.12 INSTRUMENTOS UTILIZADOS

 Conceituação Cognitiva
Nome_________________________________________________

Idade:_________

Data: _________

114
Dados relevantes da infância

Crenças Centrais

Crenças Intermediárias

(Atitudes, regras, expectativas, suposições)


115

Estratégias Compensatórias

Situação: Situação: Situação:

Pensamento Automático Pensamento Automático Pensamento Automático


Significado do PA Significado do PA Significado do PA

116

Emoção Emoção Emoção

Comportamento Comportamento Comportamento

FONTE: Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica


Exemplo de Conceituação cognitiva:

Nome: A.B.C

Idade: 18 anos
117
Data: 15/05/2005

Dados relevantes da infância

Morte do pai aos cinco anos de idade;

Decepção com o primeiro amigo da adolescência;

Nunca conseguiu arranjar namorada.

Crenças Centrais

Sobre si:

Eu sou sozinho;

Eu sou inútil;
Sou infeliz;

Não sou amado.

Sobre os outros:
118
Sou louco;

Sou estranho;

Sou lesado.

Crenças Intermediárias

(Atitudes, regras, expectativas, suposições)

Mesmo que eu arranje namorada e emprego eu ainda vou ser triste;

Se meu pai estivesse vivo eu não seria assim;

Mesmo que eu fique bom da depressão eu ainda vou ser infeliz.

Estratégias Compensatórias
Fazer terapia;

Ler poetas tristes, como Augusto dos Anjos;


119
Isolar-se e não fazer amizades;

Beber para preencher o vazio que existe dentro de si;

Pensar muito em suicídio e ver como a única saída.

Situação: Situação: Situação:

Briga com a mãe sobre a Saindo da escola e vendo as Dia dos namorados, sem
conta de energia. pessoas sorrindo. namorada.

Pensamento Automático Pensamento Automático Pensamento Automático.

Eu tenho ódio das pessoas.

Quero me matar. Ninguém gosta de mim.

Significado do PA Significado do PA Significado do PA

Sou sozinho, ninguém gosta


Eu não sirvo pra nada. Eu sou infeliz e sozinho. de mim.

120
Emoção Emoção Emoção

Tristeza. Tristeza, raiva. Melancolia e tristeza.

Comportamento Comportamento Comportamento

Agressividade com a mãe e Ir para casa e se isolar no Chorar.


se isola mais ainda em seu quarto.
quarto para ouvir música.

 Registro de Pensamentos Disfuncionais (RPD)

Data/ Situação Pensamento Emoção Comportamento

Horário
121

 Registro de Pensamento mais complexo

Nome: _______________________________________________________

Idade: _____________

Data: ____________
Distorçõe
Pensamento Evidências Evidência Pensamento
Situaçã Humo s Humo
s Apoiadora s s
o r Cognitiva r
Automáticos s Contrárias Alternativos
s

122

FONTE: Greenberger (1999).

 Tabela de atividades

Essa tabela de atividades é como se fosse uma monitoração de atividades, em que o


paciente vai colocar o grau de prazer (P) e o grau de realização (R), de 1 a 10. Tabela de
atividades segundo Beck (1997):
TABELA 5 - TABELA DE ATIVIDADES

Dia 1 Dia 2 Dia 3 Dia 4 Dia 5 Dia 6 Dia 7

6-7

7-8

8-9 123

9-10

10-11

11-12

12-1

1-2

2-3

3-4 Estudo

R=2

P=1

4-5

5-6

6-7 Jantar

R=2

P=4

7-8

8-9

9-10

10-11

11-12 Dormir
12-1 ...

1-2 ...

2-3 ...

3-4 ...

4-5 ... 124

Mediante a tabela, terapeuta e cliente vão tirar conclusões sobre o que mais o paciente
faz por prazer de maneira a sentir-se realizado.

 Questionando pensamentos automáticos

Este quadro de questionamento está de acordo com Beck (1997):

Questionando os pensamentos automáticos:

1. Quais são as evidências?


Quais são as evidências que apoiam essa ideia?

Quais são as evidências contra essa ideia?

2. Existe uma explicação alternativa?


3. Qual é o pior que poderia acontecer? Eu poderia superar isso?
O que é o melhor que poderia acontecer?
Qual o resultado mais realista?

4. Qual é o efeito da minha crença no pensamento automático?


Qual poderia ser o efeito de mudar meu pensamento?

5. O que eu deveria fazer em relação a isso?


6. O que eu diria (a um amigo) se ele ou ela estivesse na mesma situação? 125

 Notas de terapia

Notas de terapia extraídas de Beck (1997):

Notas de Terapia

Nome do paciente:

Data:

Sessão nº:

Escores objetivos: Algum teste que pode ter sido feito com o paciente.

Roteiro do paciente:
Objetivos do terapeuta:

Pontos importantes da sessão:


126

Tarefa de casa:

Sessão seguinte ou sessão futura:

 Relatório de ligação de sessão

Este relatório foi extraído de Beck (1997) – com a bibliografia foi adaptada com
permissão de Thomas Ellis.

Relatório de ligação de sessão

1. Sobre o que nós falamos na sessão anterior, o que foi importante? O que você
aprendeu? (1 a 3 frases).
2. Houve algo que incomodou você na última sessão? Qualquer coisa que você
esteja relutante em dizer?
3. Como foi a sua semana? Como estava o seu humor, comparando a outras
semanas? (1 a 3 frases)
4. Alguma coisa aconteceu nessa semana que seja importante discutir? (1 a 3 frases)
5. Que problemas você deseja colocar no roteiro? (1 a 3 frases)
6. Que tarefa de casa você fez/não fez? O que você aprendeu? 127

 Relatório de terapia

Este relatório foi extraído de Beck (1997), por Judith S Beck:

Relatório de terapia

1. O que você vivenciou hoje que é importante para você lembrar?


2. Quando você sentiu que podia confiar no seu terapeuta hoje?
3. Houve qualquer coisa que incomodou você em relação à terapia hoje? Se houve, o
que foi?
4. Quanta tarefa de casa você fez para a terapia hoje? Quão propenso você está a
fazer a nova tarefa de casa?
5. O que você deseja certificar-se de abordar na próxima sessão?
 Guia para sessões de autoterapia

Este guia está de acordo com Beck (1997):

128

Guia para sessões de autoterapia

1. Estabelecer o roteiro:
o Sobre os tópicos ou situações importantes eu deveria pensar?

2. Revisar tarefa de casa:


o O que eu aprendi?
o Se eu não fiz a tarefa de casa, o que me atrapalhou (problemas práticos,
pensamentos automáticos)?
o O que eu posso fazer para me tornar mais propenso à realização da tarefa de
casa desta vez?
o O que eu devo continuar a fazer como tarefa de casa?

3. Revisão da semana passada:


o Além da tarefa de casa específica, eu usei alguma ferramenta de terapia
cognitiva?
o Olhando para trás, teria sido vantajoso ter usado mais intensamente as
ferramentas da terapia cognitiva?
o Como eu me lembrarei de usar as ferramentas da próxima vez?
o Que coisas positivas acontecem durante a semana? Pelo o que eu mereço
crédito?
o Algum problema surgiu? Se sim, quão bem eu administrei? Se o problema
reincidir, como eu o manejarei da próxima vez?

4. Pense sobre tópicos/situações problemáticas atuais:


o Como estou vendo isso realisticamente? Eu estou reagindo exageradamente?
o Há outro modo de ver isso?
129
o O que eu deveria fazer?

5. Prever problemas possíveis que podem ocorrer entre esse momento e a próxima
sessão de terapia:
o Que problemas podem surgir nos próximos dias ou semanas?
o O que eu deveria fazer se o problema de fato surgir?
o Ajudaria imaginar-me enfrentando o problema?
o Que eventos positivos eu tenho para esperar no futuro?

6. Estabelecer nova tarefa de casa:


o Que tarefa de casa seria útil? Eu deveria considerar:
 Fazer RPDs;
 Monitorar minhas atividades;
 Agendar atividades de prazer e domínio;
 Trabalhar sobre uma hierarquia comportamental;
 Ler anotações da terapia;
 Praticar as habilidades como relaxamento ou lidar com imagens;
 Fazer um diário de autodeclaração positiva;
o Que comportamento eu gostaria de mudar?

7. Marcar a próxima sessão da terapia:


o Quando deveria ser a próxima sessão? Quanto tempo deveria passar?
o Eu deveria fazer sessões futuras regularmente no primeiro dia de cada
semana/mês/estação?
 Resolução de Problemas

Escolha
Definiçã Pensament Consequência da 130
Pensamento
o do o Alternativa s realistas de alternativ Reavaliaçã
s
problem alternativo s cada a e plano o
automáticos
a realista alternativa de
execução

3.13 RELAÇÃO TERAPÊUTICA


A relação terapêutica é a base de uma boa terapia, pois a boa terapia se desenrola
num enquadre clínico com um vínculo que favoreça esse processo, com essa junção de extrema
relevância para o processo fluir de forma harmoniosa entre terapeuta e cliente.

Quando há uma boa relação terapêutica, cria-se um ambiente que permita a revelação
do interior desse sujeito e favorece o desenvolvimento do processo singular de cada um, assim o
131
que está mais oculto se mostra, permitindo que o processo aconteça.

Uma sólida relação terapêutica é a condição necessária para uma TCC efetiva.
Algumas questões ou atributos como empatia, interesse genuíno, calor humano, autenticidade,
devem estar presentes em todo terapeuta cognitivo. E essa relação que se estabelecerá será
vista como um esforço colaborativo entre terapeuta e paciente.

Juntos, terapeuta e cliente estabelecem os objetivos da terapia e cada sessão, prazo e


duração do contrato terapêutico, os sintomas-alvo, as tarefas, etc., ficando clara a participação
ativa do paciente em seu processo de mudança.

 Função da Relação Terapêutica

Muitos autores concordam em dizer que a terapia tem como função básica promover
mudanças comportamentais que visam diminuir o sofrimento do paciente e aumentar as
contingências reforçadoras, e isso, pode acontecer de duas maneiras:

 Por intermédio do uso de alguns procedimentos, técnicas, instruções, etc.;


 Mediante a relação estabelecida entre terapeuta e cliente, que como já vimos é
muito importante.

Segundo Skinner (1953), a terapia tem como função primordial reduzir os efeitos
gerados por punição.
Kohlenberg e Tsai (1987) e Rosenfarb (1992) completaram as suposições de Skinner,
afirmando que um cliente também pode buscar ajuda porque suas relações interpessoais
apresentam-se insatisfatórias e as fontes de reforço não são suficientes.

Pode-se conceituar relação terapêutica como uma oportunidade para que o cliente
emita comportamentos que lhe têm trazido problemas e a partir da interação com o terapeuta,
132
aprender formas mais efetivas de respostas.

Lettner (1998) aponta que o sucesso da terapia está diretamente ligado à qualidade da
relação terapêutica. Negligências nessa relação podem levar ao fracasso do tratamento.

Outro fator importante é a percepção do cliente sobre essa relação, em que sendo
vista de forma positiva está relacionada com a efetividade do tratamento.

Um resultado terapêutico satisfatório origina-se em parte, de características pessoais


do terapeuta, de acordo com Lettner (1998) e Casullo (1999):

 Postura empática;
 Compreensão;
 Aceitação desprovida de julgamentos;
 Autenticidade;
 Autoconfiança;
 Flexibilidade na aplicação das técnicas;
 Terapeutas avaliados como calorosos, amigáveis, comprometidos, tolerantes e
interessados são aqueles que têm maior sucesso nos resultados do tratamento.

Pesquisas mostram alguns comportamentos considerados relevantes no tratamento:

 Altas taxas de comportamentos gestuais do terapeuta;


 Grande número de verbalizações do terapeuta e do cliente referentes a eventos
privados;
 Elementos advindos da história de vida do terapeuta;
 Opção sexual entre terapeuta e cliente;
 Questões socioeconômicas;
 Postura diretiva por parte do terapeuta acarreta resistência;
 Terapeutas experientes são mais bem avaliados pelos clientes do que iniciantes.

133

Citaremos agora algumas habilidades terapêuticas que merecem especial atenção


durante um processo terapêutico:

 Habilidades Empáticas;
 Habilidades Verbais;
 Habilidades Não verbais.

Agora veremos algumas habilidades de observação, que devem ser consideradas


durante a sessão terapêutica, pois trarão muitas respostas às perguntas do terapeuta.

 Habilidades dos Sentidos

o VISÃO: Olhar Clínico – Observação;


o AUDIÇÃO: Escuta-Ativa;
o TATO: Cinesiologia (Hipercinesia e Hipotensão);
o FALA: Consecução de fatos, Repetições, Erros, Parafraseamento, etc.

 Instrumentos de avaliação da relação terapêutica

Há dois principais conjuntos de instrumentos de avaliação da relação terapêutica:


 1º conjunto:

Vários tipos de questionários, escalas e listas de avaliação respondida, ora por


clientes, ora por terapeutas, ora por ambos. 134

 2º conjunto:

Baseia-se na observação das sessões de terapia, incluindo observações de vídeos.

A pesquisa clínica ocorre com frequência em ambiente experimentalmente não


controlado e deve ser feita de modo a não interferir na interação terapeuta – cliente. O
pesquisador é o terapeuta e a observação ocorre de forma menos neutra, já que o próprio
terapeuta contribui continuamente para ela.

Três tipos de perguntas de pesquisas podem ser formuladas com relação ao processo
terapêutico:

 Um tipo de questão geral: este tipo de questão permite a elaboração de dados por
manipulação experimental.
 Dada certa consequência, de que operações e sob quais condições podem levar à
determinada consequência?
 Dada uma condição ou problema, que operação pode levar à determinada
consequência?

Assim, segundo Lettner (1998) e Casullo (1999), foram elaboradas algumas


recomendações de pesquisas necessárias de como:
 Elucidar fatores comuns e únicos entre as várias escolas de terapia;
 Esclarecer os diferentes tipos de alianças;
 Determinar se o estilo de personalidade ou o nível do sofrimento afetam o papel
que a aliança pode representar na mediação de mudanças positivas em terapia,
entre outras.

135

As características que mais fortemente discriminam a avaliação comportamental da


não comportamental e que as classificaram quanto aos seus objetivos, focos, metas, estratégias,
inferências, suposições sobre causalidade e propriedades dos comportamentos-problemas são
variáveis observáveis em oposição a variáveis ou eventos intrapsíquicos da avaliação não
comportamental e, também, a busca de relações funcionais envolvendo variáveis de estímulos e
de respostas, quando se referiam ao foco das avaliações.

Outro fator importante é a escolha do instrumento, que também deve seguir critérios
que sejam compatíveis com o referencial teórico da abordagem, não havendo uma abordagem
comportamental ou cognitiva utilizando um instrumento cuja fundamentação teórica encontra-se
respaldada na teoria tradicional de personalidade.

A avaliação é utilizada pela maior parte dos profissionais com a finalidade de


diagnóstico e ao final de cada intervenção servindo de base para avaliação da prática do
profissional.

Segundo Matos (1999), é característico do psicólogo comportamental/ cognitivo, visto


que não fecha o diagnóstico inicialmente, rever a cada intervenção os objetivos e as hipóteses
de avaliação, sendo novamente avaliados para uma intervenção futura.

Alguns instrumentos como as entrevistas são as estratégias e os instrumentos


utilizados com maior frequência na avaliação. Desse modo, pode-se supor que tais profissionais
deveriam seguir o que preconizam os pressupostos da avaliação cognitivo-comportamental –
características acentuadamente divergentes em relação à avaliação tradicional. A ênfase estaria
no estabelecimento de relações funcionais em vez de causais, nas quais o comportamento-
problema seria entendido com base nos princípios da aprendizagem social e da análise
experimental do comportamento, e não na teoria tradicional da personalidade.
 Check list de habilidades terapêuticas

Veremos agora algumas habilidades terapêuticas que o profissional deve ter. Segundo
Rangé (2001), o terapeuta deve se questionar se realmente está alcançando o que se propõe
um terapeuta dessa linha e checar suas habilidades terapêuticas:
136

 O terapeuta preparou uma agenda para sessão? O terapeuta cognitivo deve se


antecipar e planejar a sessão para que não se perca.

 Os itens eram específicos e orientados para o problema?

 Foram estabelecidas prioridades? Geralmente, escolhe-se ou inicia-se trabalhando


os problemas menos graves.

 A agenda foi adequada ao tempo?

 O terapeuta cobriu a maioria dos itens da agenda?

 O terapeuta foi flexível para incluir temas relevantes que apareceram na sessão?
Deve-se ter bastante atenção para não perder o foco do problema e ter cuidado se
o paciente traz sempre um problema novo.

 Soube limitar temas não pertinentes? (eram mesmo não pertinentes?). Deve-se ter
bastante atenção com o teor emocional, cognitivo que o paciente traz, escutar bem,
perguntar, questionar e podar o que não é necessário.
 Identificou os problemas específicos e centrais a serem enfocados? Observar
sempre os problemas gerais e centrais, atentando-se ao que está atrapalhando o
cliente nesse momento.

 Estes problemas eram apropriados para serem tratados nesse momento? Deve-se
137
escolher o problema mais emergencial nesse momento para o paciente.

 Concentrou-se em apenas um ou dois (sem ficar pulando entre vários)? Deve-se


focar o problema que vai ser trabalhado.

 Soube fazer perguntas abertas para obter dados relevantes? Deve-se ter cuidado
para não induzir o paciente por meio das perguntas.

 O terapeuta fez resumos periódicos para verificar sua compreensão e sintonia?


Deve-se sempre fazer resumos quando tiver histórias confusas, com muitas
pessoas, para verificar se o que estamos entendendo é correto.

 O terapeuta ofereceu feedback?

 Ele solicitou feedback (sobre a sessão atual, em momentos da sessão atual e sobre
a sessão anterior)? Nesses casos, se o paciente não estiver conseguindo raciocinar
sobre este feedback, uma saída seria usar a descoberta orientada.

 Solicitou sugestões e opções? Sempre perguntar para o cliente se ele tem alguma
sugestão ou proposta para resolver aquela situação.
 Entremeou resumos, exemplos, reflexões e espelhamento? Tentar mostrar para o
cliente situações de ganhos, mudanças que ele conseguiu alcançar e tudo que está
se transformando na sua vida depois da terapia.

 Foi socrático? Fez perguntas e questionamentos para mostrar incongruência no


138
pensamento do paciente? Deve-se fazer o paciente pensar, questionar, perguntar, e
nunca se deve dar respostas ao paciente.

 Caso o terapeuta seja ansioso, deve trabalhar isso para que não atropele as
informações que o paciente traz e possa pontuar na hora certa.

 Fez perguntas para ajudar o paciente a explorar sentimentos acerca de um


problema? Nesse caso, busca-se primeiro trabalhar com questões racionais e
depois entra nas emocionais.

 Fez perguntas para examinar alternativas de solução de um problema? Muitas


vezes, acontece de o paciente não ver soluções para seus problemas, nesse caso
muda-se a situação (distração) e depois retorna.

 Fez perguntas para examinar consequências positivas ou negativas de alguma


ação proposta? Deve-se trazer consciência ao problema.

 Explicou a lógica da técnica utilizada? Sempre explicar a técnica e o que objetiva


alcançar com ela, sempre mantendo o contato com os olhos e passando segurança.

 Fez um resumo sobre os progressos alcançados na sessão? Deve-se sempre que


puder fazer um reforço.
 Explicou a lógica de usar trabalhos para casa?

 Revisou o trabalho de casa da sessão anterior?

 Resumiu os progressos alcançados com o trabalho de casa? 139

 Estabeleceu novos trabalhos de casa?

 O trabalho de casa foi apropriado aos problemas identificados e tratados na


sessão?

3.14 COMPONENTES RELEVANTES PARA SE CHEGAR AO PROBLEMA

Existem cinco componentes relevantes para qualquer problema (GREENBERGER,


1999):

 Aspectos ambientais ou situacionais;


 Reações físicas;
 Estados de humor;
 Comportamentos;
 Pensamento.

Cada um dos cinco componentes, afeta e interage com os demais. Desse modo,
pequenas mudanças em qualquer desses aspectos podem acarretar mudanças nos demais.
Podemos perceber que é muito importante identificar esses componentes, pois esta
identificação nos ajudaria a direcionar as áreas de mudança.

Citaremos agora alguns questionamentos que nos ajudariam a identificar esses


componentes, de acordo com (GREENBERGER, 1999):

140

 Mudanças ambientais ou situações de vida

o Ultimamente, tenho experimentado qualquer mudança?


o Quais foram os eventos mais estressantes para mim no último ano?
o Nos últimos três anos?
o Cinco anos?
o Na minha infância?
o Estou passando por quaisquer dificuldades duradouras ou atuais (incluindo ser
discriminado ou molestado por outros)?

 Reações físicas

o Tenho quaisquer sintomas físicos que me incomodam, tais como mudanças em


nível de energia, apetite e sono, bem como sintomas específicos, tais como
flutuações no ritmo cardíaco, dores de estômago, sudorese, tontura, dificuldades
respiratórias ou dor?

 Humor

o Que palavras isoladas descrevem meus estados de humor (triste, nervoso, raivoso,
culpado, envergonhado, etc.)?
 Comportamento

o Que coisas eu faço que gostaria de mudar ou melhorar?


 No trabalho?
 Em casa?
141
 Com amigos?
 Em mim mesmo?
o Evito situações ou pessoas quando estar envolvido poderia ser vantajoso para
mim?

 Pensamentos

o Quando em estados de humor fortes, que pensamentos têm a respeito de sua


própria pessoa?
 Sobre outras pessoas?
 Meu futuro?
o Quais pensamentos interferem na realização de coisas que eu gostaria de fazer ou
acho que deveria fazer?
o Quais imagens ou lembranças me vêm à mente?

EXERCÍCIO

Mudanças ambientais

Situações de Vida
Reações físicas

Humor

142
Comportamento

Pensamentos

FONTE: Greenberger (1999).

3.15 A TCC E A FAMÍLIA

De acordo com Datillio (2004), a Terapia Familiar nas abordagens cognitivo-


comportamentais centra-se na análise detalhada dos conflitos cotidianos que podem levar à
ruptura da relação, bem como do funcionamento e manutenção de problemáticas geradoras de
interações disfuncionais. Essas problemáticas podem variar muito de família para família, abaixo
alguns exemplos:

 Deficits em habilidades de comunicação;


 Resolução de problemas;
 Excessos de comportamentos negativos;
 Deficits de comportamento positivo entre casais e membros familiares;
 Deficits e excessos na experiência e expressão de emoções.

 Avaliação inicial

143

Objetivos:

 Convocar maior número possível de familiares, envolver os que estão mais


motivados a participar; trabalhar com estes no sentido de atrair os que estão
ausentes no processo;
 Extrair a queixa e a percepção de cada membro da família;
 Investigar toda a história familiar (eventos positivos e negativos);
 Explorar a demanda apresentada com as características de cada família e dinâmica
dos relacionamentos, ou seja, tentar perceber o que acontece com o paciente em
meio a sua família;
 Trabalhar com recursos utilizados para lidar com a situação e os fatores que
favorecem o seu uso;
 Tentar entender o interesse do grupo em seu conjunto;
 Coletar informações sobre as cognições, reações emocionais e comportamentais
dos familiares e entre si, no sentido de formular hipóteses, as quais vão sendo
testadas nas sessões subsequentes.

Instrumentos utilizados:

 Entrevista individual e grupal com membros da família;


 Questionários de descrição pessoal;
 Inventários;
 Observação comportamental das interações familiares.
Intervenções terapêuticas:

 Trabalhar nas intervenções as principais questões apresentadas, pressões de vida


e estressores que produzem dificuldades de adaptação, padrões construtivos e
problemáticos de macronível em suas interações que parecem estar influenciando 144
os problemas presentes;
 Considerar as mudanças advindas com a terapia e como isso afetará a homeostase
ou equilíbrio da família.

Modelo terapêutico:

 Educar a família e o paciente ao modelo Cognitivo-comportamental: estrutura e


natureza colaborativa da abordagem, princípios e métodos envolvidos;
 Tarefas de Casa;
 Sessão Terapêutica: agenda, regras básicas de comportamento dos familiares
dentro e fora das sessões (revelar segredos para o terapeuta que não podem ser
revelados aos demais, participam de todos nas sessões, comportamentos verbais e
físicos agressivos são inaceitáveis).

Intervenções terapêuticas:

Modificando distorções cognitivas e extremadas

 Identificar pensamentos automáticos: observar padrões de pensamentos


associados a reações emocionais e comportamentais negativas dos membros
consigo mesmo.
 Identificar distorções cognitivas: leitura de pensamentos, hipergeneralização,
maximização e minimização, personalização e pensamento dicotômico.
 Reestruturar pensamentos automáticos: identificar distorções em seu modo de
pensar e analisar alternativas e verificar as alterações das reações emocionais e
comportamentais de si e de outros membros (evidências? alternativas? informações
adicionais?). 145
 Verificando e modificando regras, pressupostos e crenças nucleares (seta
descendente – “e se acontece o que acarretaria?”).

Intervindo com experiências comportamentais

 Testar as previsões de que determinadas ações acarretarão certas respostas dos


outros membros;
 Uso de role-play no sentido de despertar reações disfuncionais em interações
familiares no setting terapêutico – interação in vivo;
 Troca de papéis no sentido do outro compreender melhor a situação vivenciada
pelo membro;
 Cuidado com técnica de imagens!

Modificando padrões comportamentais

 Treinamento em comunicação (escuta e expressão);


 Treinamento em resolução de problemas;
 Acordos para mudança de comportamento;
 Intervenção para deficits e excessos de reações emocionais.

Pelo o que tem se encontrado na literatura, observa-se que a abordagem cognitivo-


comportamental na terapia familiar tem se concentrado mais no tratamento de determinados
transtornos em membros individuais, mais do que no alívio do conflito e da disfuncionalidade
geral da família.

Algumas informações são utilizadas em conflitos familiares em função de transtornos


de condutas dos filhos, TDAH, Esquizofrenia, Transtorno Bipolar, Drogadição, Alzheimer como a
psicoeducação sobre a etiologia, sintomas e fatores de risco, atuais tratamentos eficazes,
146
treinamento de capacidade de comunicação e resolução de problemas, manejo de recaídas e
crises.

3.16 MITOS EQUIVOCADOS SOBRE TERAPIA COGNITIVA

Knapp (2004) é um dos autores que cita com exatidão alguns mitos que são
confundidos com a teoria da terapia cognitiva. Citaremos as 14 concepções equivocadas que
este autor frisou em seu livro:

 Muitas pessoas pensam ou falam que a Terapia Cognitiva (TC) é baseada no


poder do pensamento positivo.

Pode-se dizer que não seria bem no pensamento positivo, mas sim no poder do
pensamento realista, pois pensamentos otimistas demais podem ser tão prejudiciais e mal
adaptativos quanto uma visão extremamente negativa.

O seu objetivo não é fazer com que o paciente tenha só pensamentos positivos, pois
isso seria um equívoco, mas o correto seria corrigir os pensamentos distorcidos ou
disfuncionais, promovendo formas mais adaptativas de lidar com os problemas reais.

 A TC de psicopatologia propõe que os pensamentos negativos distorcidos causam


a psicopatologia.

Essa proposição seria incorreta, pois existem outros fatores que influenciam também
a psicopatologia. Sabemos que, embora os pensamentos distorcidos façam parte do ciclo
vicioso da psicopatologia, eles não são o único fator importante. Temos outras questões que
147
influenciam fortemente a psicopatologia, as quais seriam os desequilíbrios bioquímicos, os
eventos de vida e as relações interpessoais, que são elementos que interagem conjuntamente,
formando a psicopatologia.

 Muitos dizem que a TC é simples e apenas utiliza o senso comum.

Seria isso mesmo? O senso comum pode ser utilizado na terapia cognitiva, mas, na
maior parte do tempo, terapeuta e paciente têm muito trabalho em desvendar as interações
cognitivo-afetivo-comportamentais do paciente, que por sinal são muito complexas.

 A TC convence as pessoas a sair dos seus problemas.

Esse tipo de terapia não trabalha convencendo ou argumentando o paciente do que


ele tem que fazer. Aqui, o terapeuta guia o paciente para que ele próprio faça descobertas ao
observar criticamente suas distorções, e assim trabalha as resistências e estimula o
desenvolvimento de habilidades necessárias para futuramente analisar por si mesmo seus
problemas.

 A TC ignora as emoções.

Sabemos que nesse modelo as cognições são o alvo principal, mas se trabalha sim as
emoções. Knapp (2004) diz que por vezes, a forma mais adequada de examinar os
pensamentos é pelas emoções.

 A meta da TC é eliminar as emoções.

148
Sua meta não é eliminar as emoções e sim ajustar a emoção à situação e ajudar o
paciente a ser capaz de se adaptar com a emoção e regular as reações emocionais
exageradas.

 A TC é a aplicação de uma variedade de técnicas.

A terapia cognitiva desenvolveu uma ampla variedade de técnicas específicas e


também as emprestou livremente de outras terapias. Entretanto, é fundamental ressaltar que
cada caso é um caso, e o terapeuta não deve se focar apenas em técnicas, pois isso não será
de forma alguma eficaz.

 A TC ignora o passado e se interessa apenas pelo presente.

Quando necessário, é investigado sim o passado, mesmo porque somente é possível


chegar a muitos detalhes quando há essa volta ao passado. Só que nesse método é possível
resolver os problemas focalizando primariamente o presente. Segundo Dattilio (1992), o foco não
é tanto o que foi, mas o que é e o que mantém ou reforça o comportamento disfuncional.

 A TC é superficial.

A Terapia Cognitiva pode trabalhar superficialmente ou mais profundamente, isso vai


depender do objetivo do indivíduo e dos problemas a serem tratados, sendo o paciente a tomar
a decisão final sobre o grau de mudança que quer atingir.

 A relação terapêutica não é importante na Terapia Cognitiva.

149
Concepção muito errada sobre esse modelo, a relação é muito importante, sem ela o
método colaborativo não anda.

 A TC tem um limite de 15 a 25 sessões ou menos.

A TC tende a obter resultados terapêuticos relativamente rápidos, mas a duração do


tratamento depende da natureza dos problemas do paciente e de seu nível de motivação para
aprofundar o entendimento de suas questões, então o que podemos concluir é que ela pode
variar de algumas sessões até vários anos.

 Fazer TC significa não usar medicação.

Em muitas situações o paciente só poderá fazer um tratamento cognitivo quando


estiver medicado, em especial nas depressões graves, no transtorno bipolar, em psicoses e
mesmo nos transtornos de ansiedade mais debilitantes, explica Knapp (2004). Assim, podemos
dizer que ela é compatível com os medicamentos e pode ser um complemento à
psicofarmacoterapia, e vice-versa.

 A TC é apropriada apenas para pessoas articuladas, com boa capacidade


intelectual.

Seria mais fácil trabalhar com pacientes com boa capacidade de raciocínio, com sólida
formação educacional, alguns conhecimentos psicológicos e motivação para o tratamento, mas
também não quer dizer que qualquer pessoa de qualquer nível intelectual ou classe social
possa ser trabalhada, tem-se apenas que adaptar de forma mais simples àquela pessoa.
Segundo Beck (1995), pesquisas já demonstraram que esse modelo é efetivo para pacientes
com diferentes níveis de escolaridade, renda e cultura. Ela precisa apenas ser adaptada às
necessidades das pessoas. 150

 A TC não é eficaz em pacientes com transtornos mentais graves.

Ela pode sim ser usada de forma eficaz para pacientes com transtornos mentais
graves, mesmo hospitalizados.

3.17 RECAÍDAS

A prevenção de recaídas, ponto importante no tratamento, consiste em ajudar o


paciente a tornar-se ciente das situações de risco, a identificar sinais indicadores de recaída e a
desenvolver estratégias voltadas para lidar com as situações de risco.

No tocante ao término da terapia, este deve estar pautado nos objetivos que foram
montados conjuntamente para nortear o tratamento. Alcançado os objetivos, e feito o trabalho de
prevenção de recaídas, terapeuta e paciente decidem ir diminuindo o número de sessões e sua
periodicidade:
Se o paciente desejar, pode retornar ocasionalmente para sessões de
reforço. E, em qualquer momento, pode voltar ao tratamento para mais
um conjunto de sessões, a fim de abordar novas questões e
aprofundar seu entendimento cognitivo comportamental (KNAPP,
2004, p. 35).

151
ANEXOS

A. RESOLUCÃO CFP N° 002/95 DE 20 de fevereiro de 1995

152
Dispõe sobre prestação de serviços psicológicos por telefone.

O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais e


regimentais,
CONSIDERANDO análise efetivada pela Câmara de Orientação e Fiscalização sobre
anúncios publicados em jornais relativos a serviços tais como Teleajuda, Teleaconselhamento e
similares;
CONSIDERANDO que a matéria tem sido objeto de consultas a este Conselho
Federal;
CONSIDERANDO finalmente que é atribuição do Conselho Federal de Psicologia
orientar, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de psicólogo;

RESOLVE:

Art. 1º Incluir a alínea "o" no Art. 02 do Código de Ética Profissional do Psicólogo,


Resolução CFP 002/87 de 15 de agosto de 1987 com a seguinte redação:
Art. 2º Ao Psicólogo é vedado:
1º) Prestar serviços ou mesmo vincular seu título de Psicólogo a serviços de
atendimento psicológico via telefônica".
Art. 2º Caberá aos Conselhos Regionais fiscalizar, junto à categoria, a observância do
disposto na presente resolução.
Art. 3º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação, revogando as
disposições em contrário.

Brasília (DF), 20 de fevereiro 1995.


B. Resolução CFP Nº 003/2000 de 25 de Setembro de 2000

Regulamenta o atendimento psicoterapêutico mediado por computador.

153
Esta resolução foi alterada e revogada. Veja a Resolução CFP Nº 012/2005 de 18 de
agosto de 2000.

C. Resolução CFP N.º 010/2000 de 20 de dezembro de 2000

Especifica e qualifica a Psicoterapia como prática do Psicólogo.

O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais e


regimentais, que lhe são conferidas pela Lei nº 5.766, de 20 de dezembro de 1971 e;

CONSIDERANDO a natureza pública do Conselho Federal de Psicologia, da qual


decorre tanto a necessidade de aprimorar os serviços técnicos dos psicoterapeutas, quanto a
defesa da população usuária desses serviços e do cidadão e;

CONSIDERANDO o disposto no art. 2º, alíneas “e” e “n” do Código de Ética


Profissional do Psicólogo, que veda ao psicólogo utilizar-se do relacionamento terapêutico para
induzir a pessoa atendida à convicção religiosa, política, moral ou filosófica, bem como
estabelecer com a mesma relacionamento que possa interferir negativamente nos objetivos do
atendimento ou qualquer outro que viole princípios técnicos, éticos ou científicos.

RESOLVE:
Art. 1º A Psicoterapia é prática do psicólogo por se constituir, técnica e
conceitualmente, um processo científico de compreensão, análise e intervenção que se realiza
através da aplicação sistematizada e controlada de métodos e técnicas psicológicas
reconhecidos pela ciência, pela prática e pela ética profissional, promovendo a saúde mental e
propiciando condições para o enfrentamento de conflitos e/ou transtornos psíquicos de
indivíduos ou grupos. 154

Art. 2º Para efeito da realização da psicoterapia, o psicólogo deverá observar os


seguintes princípios e procedimentos que qualificam a sua prática:

I. Buscar um constante aprimoramento, dando continuidade à sua formação por meio


de centros especializados que se pautem pelo respeito ao campo teórico, técnico e ético da
psicologia como ciência e profissão;
II. Pautar-se em avaliação diagnóstica fundamentada, devendo, ainda, manter registro
referente ao atendimento realizado: indicando o meio utilizado para diagnóstico, ou motivo inicial,
atualização, registro de interrupção e alta;
III. Esclarecer à pessoa atendida o método e as técnicas utilizadas, mantendo-a
informada sobre as condições do atendimento, assim como seus limites e suas possibilidades;
IV. Fornecer, sempre que solicitado pela pessoa atendida ou seu responsável,
informações sobre o desenvolvimento da psicoterapia, conforme o Código de Ética Profissional
do Psicólogo;
V. Garantir a privacidade das informações da pessoa atendida, o sigilo e a qualidade
dos atendimentos;
VI. Estabelecer contrato com a pessoa atendida ou seu responsável;
VII. Dispor, para consulta da pessoa atendida, de um exemplar do Código de Ética
Profissional do Psicólogo, no local do atendimento.
Art. 3º Os casos omissos serão resolvidos pelo Plenário do CFP.

Art. 4° Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 5° Revogam-se as disposições em contrário.


Brasília (DF), 20 de dezembro de 2000.

ANA MERCÊS BAHIA BOCK


155
Conselheira-Presidente
D. RESOLUÇÃO CFP Nº 010/2003 de 14 de Junho de 2003

Altera a Resolução CFP N° 003/2000. Esta resolução foi revogada. Para acessar a
nova resolução veja Resolução CFP Nº 012/2005
de 18 de agosto de 2005.

156
E. RESOLUÇÃO CFP Nº 012/2005 DE 18 DE AGOSTO DE 2005

Regulamenta o atendimento psicoterapêutico e outros serviços psicológicos mediados


por computador e revoga a Resolução CFP N° 003/2000.

O CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, no uso de suas atribuições legais,


estatutárias e regimentais,
CONSIDERANDO que, de acordo com o Código de Ética Profissional do Psicólogo é
dever do psicólogo prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas
e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimento e técnicas
reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional;
CONSIDERANDO que, de acordo com o Código de Ética Profissional do Psicólogo, é
dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger, por meio da
confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organizações, a que tenha acesso no
exercício profissional;
CONSIDERANDO o disposto no Código de Ética Profissional do Psicólogo sobre a
realização de estudos e pesquisas no âmbito da Psicologia;
CONSIDERANDO o princípio fundamental do Código de Ética Profissional do
Psicólogo que determina que o psicólogo atuará com responsabilidade, por meio do contínuo
aprimoramento profissional, contribuindo para o desenvolvimento da Psicologia como campo
científico de conhecimento e de prática;
CONSIDERANDO as Resoluções do CFP n°. 10/97 e 11/97 que dispõem,
respectivamente, sobre critérios para divulgação, publicidade e exercício profissional do
psicólogo, associados a práticas que não estejam de acordo com os critérios científicos
estabelecidos no campo da Psicologia e sobre a realização de pesquisas com métodos e
técnicas não reconhecidas pela Psicologia;
CONSIDERANDO que os efeitos do atendimento psicoterapêutico mediado pelo
computador ainda não são suficientemente conhecidos nem comprovados cientificamente e
podem trazer riscos aos usuários;

CONSIDERANDO o encaminhamento do V CNP - Congresso Nacional da Psicologia - 157


de que o Sistema Conselhos de Psicologia deve continuar e aprimorar a validação de sites que
possam prestar serviços psicológicos pela internet, de acordo com a legislação vigente, ainda
que em nível de pesquisa;
CONSIDERANDO a importância de atestar para a sociedade os serviços psicológicos
que possuam respaldo técnico e ético;
CONSIDERANDO a decisão deste Plenário em 13 de agosto de 2005;

RESOLVE:

CAPÍTULO I - DO ATENDIMENTO PSICOTERAPÊUTICO

Art. 1o O atendimento psicoterapêutico mediado pelo computador, por ser uma prática
ainda não reconhecida pela Psicologia, pode ser utilizado em caráter experimental, desde que
sejam garantidas as seguintes condições:

I. Faça parte de projeto de pesquisa conforme critérios dispostos na Resolução


196/96, do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde ou legislação que venha a
substituí-la, e resoluções específicas do Conselho Federal de Psicologia para pesquisas com
seres humanos em Psicologia;
II. Respeite o Código de Ética Profissional do Psicólogo;
III. O psicólogo que esteja desenvolvendo pesquisa em atendimento psicoterapêutico
mediado pelo computador tenha protocolo de pesquisa aprovado por Comitê de Ética em
pesquisa reconhecido pelo Conselho Nacional de Saúde, conforme resolução CNS 196/96 ou
legislação que venha a substituí-la;
IV. O psicólogo pesquisador não receba, a qualquer título, honorários da população
pesquisada, sendo também vedada qualquer forma de remuneração do usuário pesquisado;
V. O usuário atendido na pesquisa dê seu consentimento e declare expressamente,
em formulário em que conste o texto integral desta Resolução, ter conhecimento do caráter
experimental do atendimento psicoterapêutico mediado pelo computador, e dos riscos relativos à
privacidade das comunicações inerentes ao meio utilizado;
VI. Esteja garantido que o usuário possa a qualquer momento desistir de participar da
pesquisa, retirando a autorização, impedindo que seus dados até então recolhidos sejam 158
utilizados na pesquisa;
VII. Quando da publicação de resultados de pesquisa, seja mantido o sigilo sobre a
identidade do usuário e evitados indícios que possam identificá-lo;
VIII. O psicólogo pesquisador se compromete a seguir as recomendações técnicas e
aquelas relativas à segurança e criptografia reconhecidas internacionalmente;
IX. O psicólogo pesquisador deverá informar imediatamente a todos os usuários
envolvidos na pesquisa, toda e qualquer violação de segurança que comprometa a
confidencialidade dos dados.

Art. 2º O reconhecimento da validade dos resultados das pesquisas em atendimento


psicoterapêutico mediado pelo computador depende da ampla divulgação dos resultados e
reconhecimento da comunidade científica e não apenas da conclusão de pesquisas isoladas.
Art. 3º Os psicólogos, ao se manifestarem sobre o atendimento psicoterapêutico
mediado pelo computador, em pronunciamentos públicos de qualquer tipo, nos meios de
comunicação de massa ou na Internet, devem explicitar a natureza experimental desse tipo de
prática, e que como tal, não pode haver cobrança de honorários.
Art. 4º As disposições constantes na presente Resolução são válidas para todas as
formas de atendimento psicoterapêutico mediado por computador realizado por psicólogo,
independente de sua nomenclatura, como psicoterapia pela Internet, ou quaisquer termos que
designem abordagem psicoterapêutica pela Internet, tais como psyberterapia,
psyberpsicoterapia, psyberatendimento, cyberterapia, cyberpsicoterapia, cyberatendimento, e-
terapia, webpsicoterapia, webpsicanálise, e outras já existentes ou que venham a ser
inventadas. São também igualmente válidas quando a mediação computacional não é evidente,
como o acesso à Internet por meio de televisão a cabo, ou em aparelhos conjugados ou híbridos,
bem como em outras formas possíveis de interação mediada por computador, que possam vir a
ser implementadas.
Art. 5º As pesquisas realizadas sobre atendimento psicoterapêutico mediado pelo
computador deverão ser identificadas com certificado eletrônico próprio para pesquisa,
desenvolvido e conferido pelo Conselho Federal de Psicologia, na forma de selo, número com
hiperligação ou equivalente, a ser incluído visivelmente nos meios em que são realizadas, como
sites e páginas de Internet e equivalentes.

159
I. Para efeito do disposto acima, o psicólogo responsável pela pesquisa, que esteja
regularmente inscrito em Conselho Regional de Psicologia e em pleno gozo de seus direitos,
dirigirá requerimento ao Conselho Regional de Psicologia via site www.cfp.org.br/selo, com
protocolo em que detalha a pesquisa da forma padronizada recomendada pelo Conselho Federal
de Psicologia e pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, e após análise e
constatada a regularidade da pesquisa, será concedida a certificação eletrônica, devendo o
psicólogo notificar ao Conselho Regional de Psicologia toda eventual mudança de endereços
eletrônicos e de formatação da pesquisa realizada.
II. A hiperligação nos selos, números ou outra forma de certificado eletrônico deverá
remeter ao site do Conselho Federal de Psicologia ou Conselho Regional de Psicologia onde
conste o texto integral desta Resolução e outras informações pertinentes a critério do Conselho
Federal de Psicologia.

CAPÍTULO II - DOS DEMAIS SERVIÇOS PSICOLÓGICOS

Art. 6º São reconhecidos os serviços psicológicos mediados por computador, desde


que não psicoterapêuticos, tais como orientação psicológica e afetivo-sexual, orientação
profissional, orientação de aprendizagem e Psicologia escolar, orientação ergonômica,
consultorias a empresas, reabilitação cognitiva, ideomotora e comunicativa, processos prévios
de seleção de pessoal, utilização de testes psicológicos informatizados com avaliação favorável
de acordo com Resolução CFP N° 002/03, utilização de softwares informativos e educativos com
resposta automatizada, e outros, desde que pontuais e informativos e que não firam o disposto
no Código de Ética Profissional do Psicólogo e nesta Resolução, sendo garantidas as seguintes
condições:
I. Quando esses serviços forem prestados utilizando-se recursos de comunicação
on-line de acesso público, de tipo Internet ou similar, os psicólogos responsáveis deverão ser
identificados através de credencial de autenticação eletrônica por meio de número de cadastro
com hiperlink, hiperligação ou outra forma de remissão automática, na forma de selo ou
equivalente, desenvolvido e conferido pelo Conselho Federal de Psicologia. Os selos, números
ou outros tipos de certificados eletrônicos conferidos trarão a identificação do ano de sua
concessão e prazo de validade, a critério do Conselho Federal de Psicologia. As hiperligações
ou remissões automáticas dos certificados eletrônicos concedidos deverão necessariamente 160
remeter à página do site do Conselho Federal de Psicologia que conterá o texto integral desta
Resolução e também os números de cadastro ou sites que estejam em situação regular, e outras
informações pertinentes a critério do Conselho Federal de Psicologia.
II. Para efeito do disposto acima o psicólogo responsável técnico pelo serviço, que
esteja regularmente inscrito em Conselho Regional de Psicologia e em pleno gozo de seus
direitos, dirigirá requerimento ao Conselho Regional de Psicologia via site www.cfp.org.br/selo,
prestando as informações padronizadas solicitadas em formulário a respeito da natureza dos
serviços prestados, qualificação dos responsáveis e endereço eletrônico, e receberá certificação
eletrônica do tipo adequado que deverá ser incluída visivelmente em suas comunicações por
meio eletrônico durante a prestação dos serviços validados. O procedimento de cadastro e
concessão de certificado eletrônico será sempre gratuito.
III. A Comissão Nacional de Credenciamento de Sites avaliará os dados enviados
para a aquisição de certificação, e encaminhará parecer a ser julgado na Plenária do Conselho
Regional de Psicologia em que o psicólogo requerente está inscrito.
IV. Da decisão do Conselho Regional de Psicologia caberá recurso voluntário ao
Conselho Federal de Psicologia.
V. O Conselho Regional de Psicologia utilizará os dados enviados pelo requerente
para verificar e fiscalizar os serviços oferecidos pelos psicólogos por comunicação mediada pelo
computador a distância. Na detecção de qualquer irregularidade nos serviços prestados, o
Conselho Regional de Psicologia efetuará os procedimentos costumeiros de orientação e
controle ético.
VI. O cadastramento eletrônico deverá ser atualizado anualmente junto ao Conselho
Regional de Psicologia via site www.cfp.org.br/selo. Essa reatualização deverá ser sempre
gratuita, e o novo certificado conferido trará a data de sua concessão e prazo de validade. Os
serviços em situação irregular não receberão a revalidação do cadastramento.
VII. O psicólogo responsável pelo site deverá informar ao Conselho Regional de
Psicologia, via site www.cfp.org.br/selo alterações no serviço psicológico prestado.

Art. 7º Caso o Sistema Conselhos de Psicologia identifique, a qualquer tempo,


irregularidades no site que firam o disposto nesta Resolução, no Código de Ética Profissional do
Psicólogo e na legislação profissional vigente estará configurada falta ética e o site será 161
descredenciado.
Art. 8° É permitido aos psicólogos que prestam os serviços indicados no Art. 6° desta
Resolução a cobrança de honorários desde que se respeite o Art. 20 do Código de Ética
Profissional do Psicólogo que veda a utilização do preço como forma de propaganda.
Parágrafo Único - Caso o psicólogo queria prestar um serviço gratuito, o mesmo
deverá seguir o padrão de qualidade e rigor técnico que trata essa Resolução sendo necessário
seu credenciamento.
Art. 9° Será mantida, pelo Sistema Conselhos de Psicologia, Comissão Nacional de
Credenciamento de Sites que além da avaliação dos sites, apresentará sugestões para o
aprimoramento dos procedimentos e critérios envolvidos nesta tarefa e subsidiará o Sistema
Conselhos de Psicologia a respeito da matéria.
Art. 10º Para realização do credenciamento de sites de que tratam os artigos
anteriores a Comissão Nacional de Credenciamento de Sites terá um prazo máximo de 30 dias
para encaminhar sua avaliação ao CRP.

I. Da data de recebimento do parecer da referida Comissão, o Plenário do Conselho


Regional de Psicologia terá o prazo máximo de 60 dias para efetuar o julgamento.
II. Da decisão do CRP, as partes terão um prazo de 30 dias a contar da data da
ciência da decisão para interpor recurso ao Conselho Federal de Psicologia.

Art. 11º Ficam revogadas as disposições em contrário, em especial a Resolução CFP


n.° 003/2000.
Art. 12º Esta Resolução entra em vigor na dada de sua publicação.

Brasília (DF), 18 de agosto de 2005.


ANA MERCÊS BAHIA BOCK
Conselheiro Presidente

162
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