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Ines i la Araújo

• •
• •

A reGO
OIh d0lllt.-:&.



L rie Acadêmica
• •
01lJ EOITORA UNISI O
UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS

Pró- Re!to ria Co munitária e de Extensão

Reitor
I'c. Aloysio Bohnen , SJ
A reconversão
Vice-Reitor
I'e. Pedro Gilbe rto Go mes
do olhar
Prática d iscursiva
l'r6-Reltor Com u nitário e de Extensão e produç:'io dos sentidos
Vleenle d e Paulo Oliveira Sant'Anna na intervenção sodal

fl/[J EDITORA UNISINOS

l o es ila Araújo

Diretor
Carlos Alberto Gianoni

Conselho EditoriaJ
Anico Inado Chassot (presidentt:)
Carlos AlbertO Gianotti
lone: Maria Ghlslene Bentz
Pc. Jose Ivo Follmann, 5J
Nt:stor Torelly Martins
UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS

Pró- Re!to ria Co munitária e de Extensão

Reitor
I'c. Aloysio Bohnen , SJ
A reconversão
Vice-Reitor
I'e. Pedro Gilbe rto Go mes
do olhar
Prática d iscursiva
l'r6-Reltor Com u nitário e de Extensão e produç:'io dos sentidos
Vleenle d e Paulo Oliveira Sant'Anna na intervenção sodal

fl/[J EDITORA UNISINOS

l o es ila Araújo

Diretor
Carlos Alberto Gianoni

Conselho EditoriaJ
Anico Inado Chassot (presidentt:)
Carlos AlbertO Gianotti
lone: Maria Ghlslene Bentz
Pc. Jose Ivo Follmann, 5J
Nt:stor Torelly Martins
o dI' lLLLmn . 2000

A663 r Ar.I.\Jjo. Im:sirJ


A reconversão do olhar / 1nc:s illlAr.lú jO. _ 5lio Leopoldo: suMÁRIo
Ed. UNISINOS, 2000.
280p. (k.w<:ml C'J)
l'lI It PÁCIO ....... ......................... ... ... ........... .......... ....... .... .. .. .................. .. 7
ISBN 85·743 1-040-9 CDU 659.3
A,J1 )Di\.MH A O U·IARt ........... ...... .............. ........ .. ... ............... .. 15
1. Com'-loicaç:io. 2. Sem,ÓIK:a. 3. ComuniçitÇfo-Sc:mióli· MO I)() DE OUiAR, MODO DE PROPOR ................................... "........... 19
a . I. TiN lo . 11. Sêric. lü;eo n es ................ " ...... " .. " .... , ... , ....... , ............. " .. , .... , ... "........ 20
A disputa pelo poder s imbólico ............... " .. "......................... 24
UnI:! ruptura instaUr:ldora ........... ,.", ......... " ............... ,............ 28
I'crc urso .. ....... ............... ...... ..... ................... .......... .. ................. 33
Prepcu açao: Paulo fUlõIstt: Campos I • O OLHAR DOM INANTE ............ .. ......................... , .. ..... ................... .. 43
Rev isãQ: Renato DeilOS, Dankw:m Ikunsmullcr e o eo nlador de histó rias ........ ......................... ...... ................... . 43
Janaína Pim e nta Lt:mos Comu nicação ru ral: o que se faz , o que se pensa .................. . 45
l!'dltoraçao eletrótlica : Paula Carvalho O pesquisador e seu obje[O encontram a s ua teoria .............. . 104
Capa: AGEXI'P da UNISINOS
Impressão: Gráflc..~ da UN ISINOS l'o ntO de passagem ..... , ....... ........................ .., .. ..... .................. . 107
11 • O O LHAR SEMIO LÓGICO .. .. .... ....................... ..... .. ............... .. 109
Pré·construções .......... .. .. ... ... .. .. ... .............. .. .... ... .... ............... . 109
Condições d e produção .. ....... ......................... ..... .................. . 111
A reprodução inte gral o u parcia l, por qualque.r meiO. das pági nas que com· Postulados ... " ... , ... , ............ ............. , ....... , ................................ . 11 9
põem essa obra, sem a aUlOrlzação do editor, é ilíc itl e se eo ns lilUi numa Princípios me todo ló gicos .............. , ........................................ . 152
comrafação. Fo i fdto o dep6sito legal. I.o nto de passagem ................................................................. , 166
111 . AJUSTE DE f OCO ................ .... ............................. · .................... .. 17 1
Os discursos solid á rios no Nordeste nlral ...... .. ...................... 173
Discurso, discurso s ... , .. .. .. .. ..................... , ....................... " ....... 181
Origens .. .. ..................... ..... .............. , ...... , ........ ................. , ..... . l84
AnáJise textua l ..... ........... " ......... .................... .......... .. ............... 197
DispOSitivOS de e n unciação - das diferenças às semelhanças ..... . 257
IV . FRONTEIRA.......................................................... ................. ....... .... 263
Dirc ho$ rcse rv:ldos à ANID'O DO CAPÍTULO 111 .... 271
I!llh ora d:1 Univers idade: do Vale do Ri o dos Sinos
BIIlLlOGRAFIA .. .. ...... " .. .................. ......... " .................... ... .. .. ................ . 273
Av . Un lslnos. 9 50 ·9302:2·000 · São Leo poldo, RS, Bras!!
TcI .: 5 1.590.8239 · Fax: 5 1.590.8238
c·maU : e dilo r:I@ luna.u o isinos.br
o dI' lLLLmn . 2000

A663 r Ar.I.\Jjo. Im:sirJ


A reconversão do olhar / 1nc:s illlAr.lú jO. _ 5lio Leopoldo: suMÁRIo
Ed. UNISINOS, 2000.
280p. (k.w<:ml C'J)
l'lI It PÁCIO ....... ......................... ... ... ........... .......... ....... .... .. .. .................. .. 7
ISBN 85·743 1-040-9 CDU 659.3
A,J1 )Di\.MH A O U·IARt ........... ...... .............. ........ .. ... ............... .. 15
1. Com'-loicaç:io. 2. Sem,ÓIK:a. 3. ComuniçitÇfo-Sc:mióli· MO I)() DE OUiAR, MODO DE PROPOR ................................... "........... 19
a . I. TiN lo . 11. Sêric. lü;eo n es ................ " ...... " .. " .... , ... , ....... , ............. " .. , .... , ... "........ 20
A disputa pelo poder s imbólico ............... " .. "......................... 24
UnI:! ruptura instaUr:ldora ........... ,.", ......... " ............... ,............ 28
I'crc urso .. ....... ............... ...... ..... ................... .......... .. ................. 33
Prepcu açao: Paulo fUlõIstt: Campos I • O OLHAR DOM INANTE ............ .. ......................... , .. ..... ................... .. 43
Rev isãQ: Renato DeilOS, Dankw:m Ikunsmullcr e o eo nlador de histó rias ........ ......................... ...... ................... . 43
Janaína Pim e nta Lt:mos Comu nicação ru ral: o que se faz , o que se pensa .................. . 45
l!'dltoraçao eletrótlica : Paula Carvalho O pesquisador e seu obje[O encontram a s ua teoria .............. . 104
Capa: AGEXI'P da UNISINOS
Impressão: Gráflc..~ da UN ISINOS l'o ntO de passagem ..... , ....... ........................ .., .. ..... .................. . 107
11 • O O LHAR SEMIO LÓGICO .. .. .... ....................... ..... .. ............... .. 109
Pré·construções .......... .. .. ... ... .. .. ... .............. .. .... ... .... ............... . 109
Condições d e produção .. ....... ......................... ..... .................. . 111
A reprodução inte gral o u parcia l, por qualque.r meiO. das pági nas que com· Postulados ... " ... , ... , ............ ............. , ....... , ................................ . 11 9
põem essa obra, sem a aUlOrlzação do editor, é ilíc itl e se eo ns lilUi numa Princípios me todo ló gicos .............. , ........................................ . 152
comrafação. Fo i fdto o dep6sito legal. I.o nto de passagem ................................................................. , 166
111 . AJUSTE DE f OCO ................ .... ............................. · .................... .. 17 1
Os discursos solid á rios no Nordeste nlral ...... .. ...................... 173
Discurso, discurso s ... , .. .. .. .. ..................... , ....................... " ....... 181
Origens .. .. ..................... ..... .............. , ...... , ........ ................. , ..... . l84
AnáJise textua l ..... ........... " ......... .................... .......... .. ............... 197
DispOSitivOS de e n unciação - das diferenças às semelhanças ..... . 257
IV . FRONTEIRA.......................................................... ................. ....... .... 263
Dirc ho$ rcse rv:ldos à ANID'O DO CAPÍTULO 111 .... 271
I!llh ora d:1 Univers idade: do Vale do Ri o dos Sinos
BIIlLlOGRAFIA .. .. ...... " .. .................. ......... " .................... ... .. .. ................ . 273
Av . Un lslnos. 9 50 ·9302:2·000 · São Leo poldo, RS, Bras!!
TcI .: 5 1.590.8239 · Fax: 5 1.590.8238
c·maU : e dilo r:I@ luna.u o isinos.br
PREFÁCIO

A autora deste livro, Inesita Soares Araújo, destacou-se de ime·


diato e ntre meus alunos de pós-graduação na Escola de Comunica-
ção da Universidade Federal do Rio de Janeiro e tive a felicidade e a
honra d e orientar seu projeto de dissertação de mestrado, de o nde
foi extraída a presente obra, e de estar orientando agora sua lese d e
doutoramento. O encontro entre professor e aluno é sempre exci-
rante e eruiquecedor para ambos. além d o conteúdo ministrado coti-
dianamente nas auJas . Me u encOnlro com Inesita foi , no e ntanto,
muito além de qualquer expectativa, pois desde logo ela se mostrou
uma interlocutora que, apesar da modéstia que lhe é própria, passou
a dialogar comigo e com Outros professores de igual para igual, todo
o processo educacional vindo a culminar na defesa de sua disserta-
ção, quando um professor estrange iro que fazia parte da banca pro-
pôs que lhe fosse arribuído logo o título de Doutor (o que se sabe
não é permitido no país) em lugar do grau de Mestre que pleit'eava. A
recol/versão d o olhar e ncanrou·nos e V'".u agora conquistar lei tores
em todo pais por seu rigo r teórico e metodológico, o riginalidade e
perspicácia na análise social.
Sendo um trabalh o s ingular, quanto ao objeto e modo de abor·
dagem, é, porém, pane de uma obra colech'íl: o dese nvolvimento d e
uma linha teó rica c metodológica no campo da Semio logia dos Ois·
cursos Sociais. Tendo Já produzido diversas leses e dissertações, essa
Linha, por mim o rientada, combina as tendências mais recent'es das
tcorias dos discursos, resultando numa visada que está muito
bem.apresentada pela autora. Uma de suas premissas centr.l.is, a de
que discursos são sempre cOflfextualizados, resulta e m uma maior
aproximação c mre as teorias explicativas da prática social e essas
mesmas práticas, articulação da qual A recotlversão do olhar é. um
bom exemplo . A Escola de Comunicação da Universidade Federal do
Rio de Janeiro tem s ido o loeus desse movimento , que se inicia nos
cu rsos de Semiologia oferecidos no programa de pós·graduação e se
consolida num núdeo d e pesquisa, o NUPEC - Núcleo d e I'esqulsas
PREFÁCIO

A autora deste livro, Inesita Soares Araújo, destacou-se de ime·


diato e ntre meus alunos de pós-graduação na Escola de Comunica-
ção da Universidade Federal do Rio de Janeiro e tive a felicidade e a
honra d e orientar seu projeto de dissertação de mestrado, de o nde
foi extraída a presente obra, e de estar orientando agora sua lese d e
doutoramento. O encontro entre professor e aluno é sempre exci-
rante e eruiquecedor para ambos. além d o conteúdo ministrado coti-
dianamente nas auJas . Me u encOnlro com Inesita foi , no e ntanto,
muito além de qualquer expectativa, pois desde logo ela se mostrou
uma interlocutora que, apesar da modéstia que lhe é própria, passou
a dialogar comigo e com Outros professores de igual para igual, todo
o processo educacional vindo a culminar na defesa de sua disserta-
ção, quando um professor estrange iro que fazia parte da banca pro-
pôs que lhe fosse arribuído logo o título de Doutor (o que se sabe
não é permitido no país) em lugar do grau de Mestre que pleit'eava. A
recol/versão d o olhar e ncanrou·nos e V'".u agora conquistar lei tores
em todo pais por seu rigo r teórico e metodológico, o riginalidade e
perspicácia na análise social.
Sendo um trabalh o s ingular, quanto ao objeto e modo de abor·
dagem, é, porém, pane de uma obra colech'íl: o dese nvolvimento d e
uma linha teó rica c metodológica no campo da Semio logia dos Ois·
cursos Sociais. Tendo Já produzido diversas leses e dissertações, essa
Linha, por mim o rientada, combina as tendências mais recent'es das
tcorias dos discursos, resultando numa visada que está muito
bem.apresentada pela autora. Uma de suas premissas centr.l.is, a de
que discursos são sempre cOflfextualizados, resulta e m uma maior
aproximação c mre as teorias explicativas da prática social e essas
mesmas práticas, articulação da qual A recotlversão do olhar é. um
bom exemplo . A Escola de Comunicação da Universidade Federal do
Rio de Janeiro tem s ido o loeus desse movimento , que se inicia nos
cu rsos de Semiologia oferecidos no programa de pós·graduação e se
consolida num núdeo d e pesquisa, o NUPEC - Núcleo d e I'esqulsas
Tn<,sfluAraujo

e m Estr.1tégias de Comunicação, do qual fazem parte diversos pes- p rio objeto , po rl:m com um aporte de fora - não se trata d e um co-
quisad o res inte rcss:ldos e m desenvolver seu uabalho nessa perspec- nhecimento neutro, m as si m "interessado" - , discu tindo tambl:m os
riscos c vantagens d a junção de um o lhar de d e ntro com um o lhar de
Embora o o bjc to e mpírico do trdbalho apresentado neste Livro fora , ao mesmo te mpo admitindo a impossibilidade de um e de o u·
direcio ne para a comunicação rural no Nordeste, tantO po r se refe rir lro; introduz o s principais conceitos e perspec tivas teóricas d o traba·
OI pr.Íticascomumc lllc assim nome:ld as quanto pela fo rça e c ristaliza· lho .
ç:l0 da designação dcssa área de conhecimento/atuação , A recol/ver· No capítulo de no m inado "O o lhar d o minante", Inesita constrói
são do olbar dc\'e ser percebido para aJém de uma discussão d o o ce nário da ime rvençâo social no me io rural no Nordeste, por meio
campo estritO da comunicação rural. O trabalho de Incsita Soares da análise das principais instâncias d e fo rmação parad igm át ica na co-
Amújo é parte de seu esforço , que o antecede e que não termina municação, e nte nd id as como instâncias mediado ras : lugares de pro-
nele, d e procurar conhecer os modos pelos quais os ato res sociais ce ssamento e (rc)c1aboração de um pc ns'Lme nto e uma p ráxis. O
equilibram fo rças e disputam :1 hegem onia na p rática da intervençáo eixo que conduz a aná lise é a pre missa de que há d o is grandes mode·
social; d e procurar descobrir onde esses modos se naturaJizar::tm e los paradig máticos qu e mo ldam as escolhas e subjaze m nas p ráticas,
os processos que levaram a isso; de descobrir novas o u re novadas O tmnsfe renci al e o dial6gico , percebidos com o :lmagôn icos pelos
pe rspectiv:tS teóricas e m e todoló gicas que poss ibilitem essa proc ura; atores sociais. Procura d e mo nstrdf que o anragonism o é aparen te ,
de discutir , sempre , os modos d e produçáo do saber legitimado, en· ou d e natureza apenas política , mas que teoricamente não apresen·
tre eles o acadê mico, este :uravt=s de sua p rópria prática acadêmica, tam um d iferencial, uma vez que compan'ilh:un a mes ma concepção
to mando sua pró pria pessoa como um agente hibridizante e hibridi· de língua e linguagem . Defende ainda que é e ssa dico to mia uma d as
zado de alguns d os c ampos que com põem o cenário da intervenção causas do imobilismo teórico que se verifica no âmbito da comunica-
social. Assim, no tr.lbalho que resultou neste livro , Inesita estuda as ção rural. As instâncias mediadoras que reconhece são: os cursos
práticas com unica tivas d as institu içôes que atuam no meio mr-.tI do universitários, a ação pr.itica, a pesquisa e os cursos de pós·g radua·
Nordeste; no estudo q ue dese nvolve a rualme nte para seu doutora· ção. N:1 ação prática, dcs t3c:1 os principais núcleos produtores de
me nta , vem analisando as dispUlas no campo da saúde indígena na d iscursos e toma cada núcleo pe la perspectiva da s ua fo m13ção para·
Amazônia; e em futuro próximo, quem sabe, estenderá suas pesqui· digm:í.ric:1 em comunjcaç:io, consolidada pelas pr..iricas atuais, que
sas ao ambie nte socia l e m O utras regiões, e assim por diante. procura descreve r e analisar. Os núcleos estudados ma is a fundo
M:ts o livro não de ixa de ser um:1 com ribu ição para quem traba· são: o s órgãos governamentais, as ONGs, os grupos religiosos, as or-
lha com a chamada comunicação rural. É també m parA lodos que ganizações representativas (especificamente:ls d os s istemas sind ical
tê m o u desejam ter a lgum tipo de atuaçáo no campo da ação co mu· e cooperativista e O MSl) e a e Xle nsão universitária.
nitária o u solidária - is to é, quase todo mundo que trabal h:1 hoje Esse capítu lo p rOCura também dar com:t, com m u ita o riginali-
com imervenção social. E quer também ser uma contribuição à siste - dade, de um processo de construção do o bjeto, com o ele fo i sendo
m:uização da Scmio logia dos Discursos Sociais e uma demonstr-.tção construído :10 longo dos tem pos , processo que extmpolou larga-
de um dos modos possíveis d e se fazer Análise dos Discursos. me nre a pessoa da auto ra, sem prescindir dela. Contém , ponanto,
A reconvf:!rsão d o olbar compõe-se de (1) uma a presentação, implicitamente, u m a diScuss:io meto d o ló gica.
onde a autora , como é de praxe, descreve um pouco a natureZ:1 do No capítulo denominado "O o lhar semio lógico" , Inesita d ed i-
textO e faz ag radecime ntos; (2) uma introdução, o nde ela faz um rc· Cl·se a fazer uma síntese dos princi p:lis :lurOres c idé ias que constitue m
con e do cen:irio e s rudado. lança as hipóteses c premissas d o traba· a Se mio logia dos Discursos Sociais, no enfoqu e (Iue vai propondo . O
lho; narra o percu rso d a construção do o bjeto, discutindo os [COla é introduzido na p:lfte de no mi nada "Pré-construções"; em
pro ble m as da natureza de um conhecimento feito de dentro do pró· "Cond ições de produçâo", são focalizados S:tussure , Pe irce c suas

• ,
Tn<,sfluAraujo

e m Estr.1tégias de Comunicação, do qual fazem parte diversos pes- p rio objeto , po rl:m com um aporte de fora - não se trata d e um co-
quisad o res inte rcss:ldos e m desenvolver seu uabalho nessa perspec- nhecimento neutro, m as si m "interessado" - , discu tindo tambl:m os
riscos c vantagens d a junção de um o lhar de d e ntro com um o lhar de
Embora o o bjc to e mpírico do trdbalho apresentado neste Livro fora , ao mesmo te mpo admitindo a impossibilidade de um e de o u·
direcio ne para a comunicação rural no Nordeste, tantO po r se refe rir lro; introduz o s principais conceitos e perspec tivas teóricas d o traba·
OI pr.Íticascomumc lllc assim nome:ld as quanto pela fo rça e c ristaliza· lho .
ç:l0 da designação dcssa área de conhecimento/atuação , A recol/ver· No capítulo de no m inado "O o lhar d o minante", Inesita constrói
são do olbar dc\'e ser percebido para aJém de uma discussão d o o ce nário da ime rvençâo social no me io rural no Nordeste, por meio
campo estritO da comunicação rural. O trabalho de Incsita Soares da análise das principais instâncias d e fo rmação parad igm át ica na co-
Amújo é parte de seu esforço , que o antecede e que não termina municação, e nte nd id as como instâncias mediado ras : lugares de pro-
nele, d e procurar conhecer os modos pelos quais os ato res sociais ce ssamento e (rc)c1aboração de um pc ns'Lme nto e uma p ráxis. O
equilibram fo rças e disputam :1 hegem onia na p rática da intervençáo eixo que conduz a aná lise é a pre missa de que há d o is grandes mode·
social; d e procurar descobrir onde esses modos se naturaJizar::tm e los paradig máticos qu e mo ldam as escolhas e subjaze m nas p ráticas,
os processos que levaram a isso; de descobrir novas o u re novadas O tmnsfe renci al e o dial6gico , percebidos com o :lmagôn icos pelos
pe rspectiv:tS teóricas e m e todoló gicas que poss ibilitem essa proc ura; atores sociais. Procura d e mo nstrdf que o anragonism o é aparen te ,
de discutir , sempre , os modos d e produçáo do saber legitimado, en· ou d e natureza apenas política , mas que teoricamente não apresen·
tre eles o acadê mico, este :uravt=s de sua p rópria prática acadêmica, tam um d iferencial, uma vez que compan'ilh:un a mes ma concepção
to mando sua pró pria pessoa como um agente hibridizante e hibridi· de língua e linguagem . Defende ainda que é e ssa dico to mia uma d as
zado de alguns d os c ampos que com põem o cenário da intervenção causas do imobilismo teórico que se verifica no âmbito da comunica-
social. Assim, no tr.lbalho que resultou neste livro , Inesita estuda as ção rural. As instâncias mediadoras que reconhece são: os cursos
práticas com unica tivas d as institu içôes que atuam no meio mr-.tI do universitários, a ação pr.itica, a pesquisa e os cursos de pós·g radua·
Nordeste; no estudo q ue dese nvolve a rualme nte para seu doutora· ção. N:1 ação prática, dcs t3c:1 os principais núcleos produtores de
me nta , vem analisando as dispUlas no campo da saúde indígena na d iscursos e toma cada núcleo pe la perspectiva da s ua fo m13ção para·
Amazônia; e em futuro próximo, quem sabe, estenderá suas pesqui· digm:í.ric:1 em comunjcaç:io, consolidada pelas pr..iricas atuais, que
sas ao ambie nte socia l e m O utras regiões, e assim por diante. procura descreve r e analisar. Os núcleos estudados ma is a fundo
M:ts o livro não de ixa de ser um:1 com ribu ição para quem traba· são: o s órgãos governamentais, as ONGs, os grupos religiosos, as or-
lha com a chamada comunicação rural. É també m parA lodos que ganizações representativas (especificamente:ls d os s istemas sind ical
tê m o u desejam ter a lgum tipo de atuaçáo no campo da ação co mu· e cooperativista e O MSl) e a e Xle nsão universitária.
nitária o u solidária - is to é, quase todo mundo que trabal h:1 hoje Esse capítu lo p rOCura também dar com:t, com m u ita o riginali-
com imervenção social. E quer também ser uma contribuição à siste - dade, de um processo de construção do o bjeto, com o ele fo i sendo
m:uização da Scmio logia dos Discursos Sociais e uma demonstr-.tção construído :10 longo dos tem pos , processo que extmpolou larga-
de um dos modos possíveis d e se fazer Análise dos Discursos. me nre a pessoa da auto ra, sem prescindir dela. Contém , ponanto,
A reconvf:!rsão d o olbar compõe-se de (1) uma a presentação, implicitamente, u m a diScuss:io meto d o ló gica.
onde a autora , como é de praxe, descreve um pouco a natureZ:1 do No capítulo denominado "O o lhar semio lógico" , Inesita d ed i-
textO e faz ag radecime ntos; (2) uma introdução, o nde ela faz um rc· Cl·se a fazer uma síntese dos princi p:lis :lurOres c idé ias que constitue m
con e do cen:irio e s rudado. lança as hipóteses c premissas d o traba· a Se mio logia dos Discursos Sociais, no enfoqu e (Iue vai propondo . O
lho; narra o percu rso d a construção do o bjeto, discutindo os [COla é introduzido na p:lfte de no mi nada "Pré-construções"; em
pro ble m as da natureza de um conhecimento feito de dentro do pró· "Cond ições de produçâo", são focalizados S:tussure , Pe irce c suas

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conu-ibuições seminais e são descritas as três fases marcantes da Se- cialis mo, capitalismo e funcionaUsmo, este último com ênfase para;1
miologia, pondo em cena Banhes e sua transição por umas e o utras; fonnação do conceito de Desenvolvimento de Comunidade; depois,
em "Postu lados", a autora apresenta as idéias e conceitos que com· aborda as condições de produção de cada material selecionado, dois
põem o núcleo centraJ da Semio logia dos Discursos Sociais, tais d e cada núcleo discursivo: Estado, ONGs e Igreja, levando às ú ltimas
como sentido e produção dos semidos, prática e formação discursi- conseqüências as recomendações de comparar dispositivos de enun-
va, e fala de uma teoria não subjetiva do sujeito, de enunciação, atra- ciação. Esses fo ...am extraídos de um C01PIlS de cinqüenta impressos
vés principalmente de Foucault e Bcnveniste. No desdobramento circu lantes ou que circu laram no meio n.IraJ, corpus que referencia
deste item, "'A heterogeneidade enunciativa" discute os conceitos de também a análise.
discurso, de polifonia, de dialogismo, de sujeito do enunciado e da Os títulos que encimam a descrição das condições d e produção
enunciação. Bakthin, Foucault e Benveniste são os principais convo- de cada comunidade discursiva podem dar uma idé ia do rumo da
cados. "A semiose infinita" mlla de intenextualidade e da diferencia- análise: "CPT e cia. - o discurso da Igreja produzido de um OUlro lu-
ção entre texto e discurso. "A economia política do significante" gar"; "CNBB - o discurso da hierarquia pelo viés de um pai"; "PMAI-
aborda o mercado s in~bólico , o dispositivo de enunciação, as condi- o discurso da oposição que virou governo"; "Intelectuais o rgãnicos
ções de produção, circulação e consumo, o contrato de leirura, se· sob o patrocínio do Estado"; "PATAC - a missão de fazer crer na força
gundo a ótica de Eliseo Vemn. Mas fala também da pragmática como do çomunitário "j "PTA - a tecnologia redentora pela mão iluminada
relação de construção dos discursos, discutindo os vários contextOS dos técnicos" .
da pr.ílica comunicativa e as noções de cena social e cena discursiva. A análise comparativa foi estruturada em torno d os seguintes
Saindo dos posrulados, o tópico "Discurso e poder" volta com Ve- eixos: a construção da imagem do emissor; a construção da imagem
mn, Foucauh e Bakthin e os associa a Bourdieu, para discutir o p0- do destinatário; as relaçõcs discursivas entre emissor e destinatários',
der simbólico, o poder do texto, as relações de poder e ntre Centro e as relaçõcs de concorrência discursiva; a construção do conceito de
Periferia discursivos, as estratégias desviantes. "Princípios metodoló- "comunidade-. O capítu lo conclui com o modo singu lar como cada
gicos" abre espaço para a Análise dos Discursos, fazendo opções que comunidade discursiva. se posidona no merc-ddo simbólico, algumas
serão concretizadas na análise feita no terceiro capítulo da obra. Pa- generalizações e conclusões referentes às hipóteses iniciais.
lavras plenas e instrumentais; os códigos sêmicos e culturais; operd- Em conclusão, a autora aborda as característica.,.; da natureza do
dores e tempos verbais; operações e nunciativas e de modalização; tidbalho, que funcionam como limitações, coerções ou parâmetros:
aspectos fOrnla.is dos suportes discursivos; formas de silêncio c si len· a s ua pertença ao universo estudado; o amalgamemo do objeto com
ciamemo. Entra ainda em cena , aqui, O conceito de "comunidade seu locus profissional ; o fato de ser um conhecimento em conStru-
discursiva", com a exigência metodológica que impõe. de estudar as ção; a situação de crise e transição paradigmática vivida pelo cenário
condições materiais de produção dos discursos. É de tirar o fôlego! estudado; a peculiaridade da região Nordeste, que exacerba as con-
No capítu lo denominado ~Ajuste de foco'"', é avaJiada a viabili- dições de vida e formas d e e nfrentamento dos agentes individuais e
dade de aplicação do enfoque semiológico - mais especificamente institucionais. Trata ainda da possibilidade de gener.l.lização de um
da Análise de Discursos - às práticas discursivas estudadas, ou seja, estudo sobre:: discursos em suportes impressos e lembra estar falan-
às práticas institucionais de comunicação no meio rural. Antes de en- d o de sentidos propostOS, que nâo necessariamente serão confirma-
trar na análise propriamente dita, InesÍla aprofunda o conceito de dos em recepção.
discurso polêmico. Parte em seguida para a anál ise das condições da A reconuersão do ollJar é um excelente exemplo da aplicabilida-
produção discursiva sobre a ação comu nitária e a solidária: primeiro, de da Análise de Discursos:1 um corpus o riundo de diferentes lugares
as condições histó ricas, políticas e sociais que afetam a todos; em se- SOCiais de fa la, visando a um aprofundamemo e a uma nova m:meir.1
guid:l, as das matrizes do discurso do agir coletivo -cristianismo, so- de se estudarem os embates sociais pela hegemonia. É curioso, tal.

. "
conu-ibuições seminais e são descritas as três fases marcantes da Se- cialis mo, capitalismo e funcionaUsmo, este último com ênfase para;1
miologia, pondo em cena Banhes e sua transição por umas e o utras; fonnação do conceito de Desenvolvimento de Comunidade; depois,
em "Postu lados", a autora apresenta as idéias e conceitos que com· aborda as condições de produção de cada material selecionado, dois
põem o núcleo centraJ da Semio logia dos Discursos Sociais, tais d e cada núcleo discursivo: Estado, ONGs e Igreja, levando às ú ltimas
como sentido e produção dos semidos, prática e formação discursi- conseqüências as recomendações de comparar dispositivos de enun-
va, e fala de uma teoria não subjetiva do sujeito, de enunciação, atra- ciação. Esses fo ...am extraídos de um C01PIlS de cinqüenta impressos
vés principalmente de Foucault e Bcnveniste. No desdobramento circu lantes ou que circu laram no meio n.IraJ, corpus que referencia
deste item, "'A heterogeneidade enunciativa" discute os conceitos de também a análise.
discurso, de polifonia, de dialogismo, de sujeito do enunciado e da Os títulos que encimam a descrição das condições d e produção
enunciação. Bakthin, Foucault e Benveniste são os principais convo- de cada comunidade discursiva podem dar uma idé ia do rumo da
cados. "A semiose infinita" mlla de intenextualidade e da diferencia- análise: "CPT e cia. - o discurso da Igreja produzido de um OUlro lu-
ção entre texto e discurso. "A economia política do significante" gar"; "CNBB - o discurso da hierarquia pelo viés de um pai"; "PMAI-
aborda o mercado s in~bólico , o dispositivo de enunciação, as condi- o discurso da oposição que virou governo"; "Intelectuais o rgãnicos
ções de produção, circulação e consumo, o contrato de leirura, se· sob o patrocínio do Estado"; "PATAC - a missão de fazer crer na força
gundo a ótica de Eliseo Vemn. Mas fala também da pragmática como do çomunitário "j "PTA - a tecnologia redentora pela mão iluminada
relação de construção dos discursos, discutindo os vários contextOS dos técnicos" .
da pr.ílica comunicativa e as noções de cena social e cena discursiva. A análise comparativa foi estruturada em torno d os seguintes
Saindo dos posrulados, o tópico "Discurso e poder" volta com Ve- eixos: a construção da imagem do emissor; a construção da imagem
mn, Foucauh e Bakthin e os associa a Bourdieu, para discutir o p0- do destinatário; as relaçõcs discursivas entre emissor e destinatários',
der simbólico, o poder do texto, as relações de poder e ntre Centro e as relaçõcs de concorrência discursiva; a construção do conceito de
Periferia discursivos, as estratégias desviantes. "Princípios metodoló- "comunidade-. O capítu lo conclui com o modo singu lar como cada
gicos" abre espaço para a Análise dos Discursos, fazendo opções que comunidade discursiva. se posidona no merc-ddo simbólico, algumas
serão concretizadas na análise feita no terceiro capítulo da obra. Pa- generalizações e conclusões referentes às hipóteses iniciais.
lavras plenas e instrumentais; os códigos sêmicos e culturais; operd- Em conclusão, a autora aborda as característica.,.; da natureza do
dores e tempos verbais; operações e nunciativas e de modalização; tidbalho, que funcionam como limitações, coerções ou parâmetros:
aspectos fOrnla.is dos suportes discursivos; formas de silêncio c si len· a s ua pertença ao universo estudado; o amalgamemo do objeto com
ciamemo. Entra ainda em cena , aqui, O conceito de "comunidade seu locus profissional ; o fato de ser um conhecimento em conStru-
discursiva", com a exigência metodológica que impõe. de estudar as ção; a situação de crise e transição paradigmática vivida pelo cenário
condições materiais de produção dos discursos. É de tirar o fôlego! estudado; a peculiaridade da região Nordeste, que exacerba as con-
No capítu lo denominado ~Ajuste de foco'"', é avaJiada a viabili- dições de vida e formas d e e nfrentamento dos agentes individuais e
dade de aplicação do enfoque semiológico - mais especificamente institucionais. Trata ainda da possibilidade de gener.l.lização de um
da Análise de Discursos - às práticas discursivas estudadas, ou seja, estudo sobre:: discursos em suportes impressos e lembra estar falan-
às práticas institucionais de comunicação no meio rural. Antes de en- d o de sentidos propostOS, que nâo necessariamente serão confirma-
trar na análise propriamente dita, InesÍla aprofunda o conceito de dos em recepção.
discurso polêmico. Parte em seguida para a anál ise das condições da A reconuersão do ollJar é um excelente exemplo da aplicabilida-
produção discursiva sobre a ação comu nitária e a solidária: primeiro, de da Análise de Discursos:1 um corpus o riundo de diferentes lugares
as condições histó ricas, políticas e sociais que afetam a todos; em se- SOCiais de fa la, visando a um aprofundamemo e a uma nova m:meir.1
guid:l, as das matrizes do discurso do agir coletivo -cristianismo, so- de se estudarem os embates sociais pela hegemonia. É curioso, tal.

. "
vez, notarquc estc t'rabalho é, no fundo , uma espécie de pesquisa de
mercado, aplicada a um mer<:ado simbólico, mas que, pelo mergu-
lho que faz nos processos sociais e pelos resultados alcançados,
avança muitO em re laçio às análises quantitativas e mesmo qualjtati-
va5 que estamos acostumados a ver sob este nome. Desde já se coloca
como obrd indispens:ive l na bibliografia de comunicadores, cicntis-
tas sociais, professores, animadores socioculrurais e quaisquer ou-
tras pessoas que trabalham ou se interessam pelos processos de
intervenção social. Sua leirura se torna, assim, obrigatória para estu-
dantes de Comunicação, Ciências Sociais, Letras , Serviço Social , His·
tória, par.. citar só aJguns dos cursos superiores cujos alunos irão
benefici ar-se, de agora em diante, de uma tal obra.

Milto"josé Pinto

Para Eduardo,
amor da minha vida.

"
vez, notarquc estc t'rabalho é, no fundo , uma espécie de pesquisa de
mercado, aplicada a um mer<:ado simbólico, mas que, pelo mergu-
lho que faz nos processos sociais e pelos resultados alcançados,
avança muitO em re laçio às análises quantitativas e mesmo qualjtati-
va5 que estamos acostumados a ver sob este nome. Desde já se coloca
como obrd indispens:ive l na bibliografia de comunicadores, cicntis-
tas sociais, professores, animadores socioculrurais e quaisquer ou-
tras pessoas que trabalham ou se interessam pelos processos de
intervenção social. Sua leirura se torna, assim, obrigatória para estu-
dantes de Comunicação, Ciências Sociais, Letras , Serviço Social , His·
tória, par.. citar só aJguns dos cursos superiores cujos alunos irão
benefici ar-se, de agora em diante, de uma tal obra.

Milto"josé Pinto

Para Eduardo,
amor da minha vida.

"
AJUDA-ME A OLHAR'

Dfl,lgQ ",io co"bcda (} mar. O pai. So nlia8QKo' llldlojJ. l e/I(),/-o para que deter)-
brisu (} mar, Viajaram paro o SuL Ele, Q mar, eslat/O do Oll/ro üulQ das du-
lU1S altas, espertmdo.
Q ual/do Q metl/IlO IJ o pai enfim alcmlçaralll aquelas allllras cle areia, depois
de milito camlllbur. () mar esta,.'(l em /rente a Sl!US olhos. I:.'Jo / /anla a Inllmsl.
tido lia mar, e (m,1O (} seu fi l/sor, que (} num/IIO f icou mudo de beleza.
/] quando ftnaltmmle ronSl18ulll jalar, (reme,u/f), gagt.ejamJo, pedlll (la pai:
- Me aftuJa a olhar!
Eduudo Galeaoo, O IiLTO dos abnlços

A historinha de Diego, deslumbrado diante da imensidão da be·


leza d o mar, abre este livro, pelo sentido figurado do seu apelo: "me
ajuda a olhar!"
De pois de mais de uma década às voltas com a prática comuni-
cativa d as insriruições que procuram intervir na reaJidade social, um
curso de mesrrado me d escortino u uma o utra paisagem, ofere-
ceu-me um outro modo d e pe rceber essa mesma prática. Novas d is-
ciplinas e seus mestres me oferecerdm seu o lhar, ajudaram-me a
o lhar. Durante três anos, estudei e refled sobre o vivido, à luz d esses
conhecimentos, até cumprir o rito fmal do mundo acadêmico: de-
fender uma dissertação. Fala",.! e la do polifônico, d o heterogê neo,
da semiose infinita, da pluralidade dos sentidos, das marcas do dis·
curso desmentindo as palavras do poder, da necessária mestiçagem
do saber e muito mais.
O desejo de companilhar a possibilidade de ver o novo move
este trabalho, que traz, quase na íntegra, o texto acadê mico. Seu títu-
lo fala de o lhar. Para ver, é preciso reconve rter o o lhar. Foi isso que
fiz, é isso que desejo propor. Mas a reconversão exige d esprendi-
mento, por vezes impõe nlpruras.
Uma delas, seguramente, é com o te rmo "co municação rural",
que pontua este trabalho. Circunstâncias históricas associam a "co-
municação nlr.tl" à prálica exr:ensionista oficial e, para a maioria das
IX!ssoas, à opção pelo mode lo difusionista. Mais recenteme nte, pas-
AJUDA-ME A OLHAR'

Dfl,lgQ ",io co"bcda (} mar. O pai. So nlia8QKo' llldlojJ. l e/I(),/-o para que deter)-
brisu (} mar, Viajaram paro o SuL Ele, Q mar, eslat/O do Oll/ro üulQ das du-
lU1S altas, espertmdo.
Q ual/do Q metl/IlO IJ o pai enfim alcmlçaralll aquelas allllras cle areia, depois
de milito camlllbur. () mar esta,.'(l em /rente a Sl!US olhos. I:.'Jo / /anla a Inllmsl.
tido lia mar, e (m,1O (} seu fi l/sor, que (} num/IIO f icou mudo de beleza.
/] quando ftnaltmmle ronSl18ulll jalar, (reme,u/f), gagt.ejamJo, pedlll (la pai:
- Me aftuJa a olhar!
Eduudo Galeaoo, O IiLTO dos abnlços

A historinha de Diego, deslumbrado diante da imensidão da be·


leza d o mar, abre este livro, pelo sentido figurado do seu apelo: "me
ajuda a olhar!"
De pois de mais de uma década às voltas com a prática comuni-
cativa d as insriruições que procuram intervir na reaJidade social, um
curso de mesrrado me d escortino u uma o utra paisagem, ofere-
ceu-me um outro modo d e pe rceber essa mesma prática. Novas d is-
ciplinas e seus mestres me oferecerdm seu o lhar, ajudaram-me a
o lhar. Durante três anos, estudei e refled sobre o vivido, à luz d esses
conhecimentos, até cumprir o rito fmal do mundo acadêmico: de-
fender uma dissertação. Fala",.! e la do polifônico, d o heterogê neo,
da semiose infinita, da pluralidade dos sentidos, das marcas do dis·
curso desmentindo as palavras do poder, da necessária mestiçagem
do saber e muito mais.
O desejo de companilhar a possibilidade de ver o novo move
este trabalho, que traz, quase na íntegra, o texto acadê mico. Seu títu-
lo fala de o lhar. Para ver, é preciso reconve rter o o lhar. Foi isso que
fiz, é isso que desejo propor. Mas a reconversão exige d esprendi-
mento, por vezes impõe nlpruras.
Uma delas, seguramente, é com o te rmo "co municação rural",
que pontua este trabalho. Circunstâncias históricas associam a "co-
municação nlr.tl" à prálica exr:ensionista oficial e, para a maioria das
IX!ssoas, à opção pelo mode lo difusionista. Mais recenteme nte, pas-
sou a ser entendida pelo grande público como O conjunto de iniciati- cas SOCiaIS. A5 práticas de comunicação das organizaçócs correspon-
V'dS da mídia voltadas para a informação e a orientação rum!. O dem à sua política d e comunicação, que, por s ua vez, correspondc
presente trabalho faz pane de um esforço pessoal no sentido de ao seu projeto de intervenção social. Não podem, portamo, ser e n-
romper com esse conceito, quando se trata d e designar as prátic-J.s tendidas como um mero conjunto de técnicas e mate riais, sendo ava-
das instituições e organizações que desenvolvem algum projetO de liadas e aperfeiçoadas apenas por uma perspectiva instnune ntalista.
intervenção social no meio rural, sej am elas gove rnamentais ou nao, Repito, este é um texto situado. Como tal, fala de configurações
religiosas ou leigas, do campo político ou popular. Mais que isso, °
sociais que, por natureza, são dinâmicas. O mundo, país, as organi-
substituí-lo por "comunicação pam a intervençáo social ", que cOnSi- zações, as pessoas estão mudando sempre e cada vez mais rapidamen.
dem outra transversalidade e outras ho mologias. Um passo nessa di- te. A cena social que aqui foi estudada não escapa dessa injunção.
reçao consiste justamente e m reconverter o o lhar e percebe r essa Alguns anos já separam o estudo original e a publicação deste .l.ivro. É
prática comunicativa através de o utras perspectivas teóricas, distin- possível Que algumas características contextuais estejam diferentes,
tas das que hoje predominam . A recorwersiio do olbar quer propor principalmente no âmbito das organizações cujas práticas e materiais
uma ruptum, sim, mas uma ruptura instaumdora, que não só aponta de comunicação foram analisadas. A elas peço tolerância e a compre-
os limites, mas sugere como rompê-los. ensão d e que, se fo r.un escolhidas e expostas num dado momento de
O olhar aqui proposto - um entre os possíveis - altera substancial- sua existência, é porque se d estacam de outras pelo entusiasmo e in-
mente o modo de perceber as instituições, os agentes e as relações so- vestimento na comunicação, acreditando na possibilidade de tr'.tIlsfor-
ciais envolvidas na prÁtica comunicativa. Põe em cena os conceitos de mação do mundo do Qual fazem parre e quc desejam me LhorM.
"mercado simbólico··, de "comunidades discursivas" , de ··polifonia", de Chegou a hora dos agradecimentos, a todas as pessoas que, de
"disrursos concorrentes". Fala de "prática discursiva", para designar o um modo ou de outro, deixaram suas marcas neste trabalho. Corren-
conjunto das práticas até aqui nomeadas de "comunicação ruml". do o rist:o d e cometer alguma injustiça, pelo esquecimento, gostaria
Como este, porém, é um texto situado e que consider.! relevan- de destacar algumas delas.
tes as representações dos agentes sociais sobre sua própria realida- Começo pelo pro fessor Milto n José Pinto, meu Querido orien-
de, optei por conservar o termo "comunicação rural", sobretudo tador. Tudo que sei sobre a Semiologia e a Análise de Discursos
quando referenciar as práticas atuais, e ir introduzindo "prática dis- aprendi com ele. As infinitas possibilidades de aplicação desse cam-
cursiva" à medida que a proposta teórica for criando condições par.! po do conhecimento foi ele quem me mostrou . Ofereceu-me mais
t:ll. Mas quero esclarecer que este não é absolutamente um estudo que isso, porém : ofereceu-me a sua amizade e o seu afeto, [:"io impor.
sobre o modelo difusio nista e muito menos sobre a eJ..1:ensão rurAl. tantes para a produção intelectual Quanto o saber científico.
Q uanto a isso muito já se pensou e escreveu , sobretudo no contexto AO professor Antônio Fausto Neto eu chamo de "meu ilumina-
da Teoria da Dependê ncia e do debate sobre o desenvo lvimento Que dor de cena". Ele tcm a capacidade de fv.er \'er o novo, o relevante, o
lhe corresponde u . O mome nto histórico desses estudos já passou e, que vale a pena estudare construir. Aponta as tendêndas da cena social
se aqui são re tomados, o são como instâncias de formação paradig- c acadêmica, desafia a curiosidade imelectual e, com sutileza, empur-
mática do atual momento. r:1-nos para o olho do fum.cão (ainda bem que ele vai junto). Este livro
Porém , mais do que optar por uma terminologia - t: a compre- tcm muito de sua inspiração.
ensão d e mundo e de sociedade Que lhe corresponde - , pareceu-me Outros professores estão aqui presentes, especialmente o pro·
Importante deixar clara a transição para um conceito de política e fcssor Aluízio Trima, cujo curso de "Paradigmas e Modelos da COOlU -
pdtica institucional de comunicação, cujo marco conceitual seja o nicação" foi , sem dúvida, o primeiro passo na reconversão d o o ll1:lr.
d :l ~ teorias d:1 enunciação e do disc urso. Políticas de comunicação Ao professor Muniz Sodré devo o meu aco lhimento no progra·
1', 11 po lfticas de apoio a intervenção social e , neste sentido, são politi- m<l de pós-graduação, eu, que tr.12ia um projeto aparentementel:to

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sou a ser entendida pelo grande público como O conjunto de iniciati- cas SOCiaIS. A5 práticas de comunicação das organizaçócs correspon-
V'dS da mídia voltadas para a informação e a orientação rum!. O dem à sua política d e comunicação, que, por s ua vez, correspondc
presente trabalho faz pane de um esforço pessoal no sentido de ao seu projeto de intervenção social. Não podem, portamo, ser e n-
romper com esse conceito, quando se trata d e designar as prátic-J.s tendidas como um mero conjunto de técnicas e mate riais, sendo ava-
das instituições e organizações que desenvolvem algum projetO de liadas e aperfeiçoadas apenas por uma perspectiva instnune ntalista.
intervenção social no meio rural, sej am elas gove rnamentais ou nao, Repito, este é um texto situado. Como tal, fala de configurações
religiosas ou leigas, do campo político ou popular. Mais que isso, °
sociais que, por natureza, são dinâmicas. O mundo, país, as organi-
substituí-lo por "comunicação pam a intervençáo social ", que cOnSi- zações, as pessoas estão mudando sempre e cada vez mais rapidamen.
dem outra transversalidade e outras ho mologias. Um passo nessa di- te. A cena social que aqui foi estudada não escapa dessa injunção.
reçao consiste justamente e m reconverter o o lhar e percebe r essa Alguns anos já separam o estudo original e a publicação deste .l.ivro. É
prática comunicativa através de o utras perspectivas teóricas, distin- possível Que algumas características contextuais estejam diferentes,
tas das que hoje predominam . A recorwersiio do olbar quer propor principalmente no âmbito das organizações cujas práticas e materiais
uma ruptum, sim, mas uma ruptura instaumdora, que não só aponta de comunicação foram analisadas. A elas peço tolerância e a compre-
os limites, mas sugere como rompê-los. ensão d e que, se fo r.un escolhidas e expostas num dado momento de
O olhar aqui proposto - um entre os possíveis - altera substancial- sua existência, é porque se d estacam de outras pelo entusiasmo e in-
mente o modo de perceber as instituições, os agentes e as relações so- vestimento na comunicação, acreditando na possibilidade de tr'.tIlsfor-
ciais envolvidas na prÁtica comunicativa. Põe em cena os conceitos de mação do mundo do Qual fazem parre e quc desejam me LhorM.
"mercado simbólico··, de "comunidades discursivas" , de ··polifonia", de Chegou a hora dos agradecimentos, a todas as pessoas que, de
"disrursos concorrentes". Fala de "prática discursiva", para designar o um modo ou de outro, deixaram suas marcas neste trabalho. Corren-
conjunto das práticas até aqui nomeadas de "comunicação ruml". do o rist:o d e cometer alguma injustiça, pelo esquecimento, gostaria
Como este, porém, é um texto situado e que consider.! relevan- de destacar algumas delas.
tes as representações dos agentes sociais sobre sua própria realida- Começo pelo pro fessor Milto n José Pinto, meu Querido orien-
de, optei por conservar o termo "comunicação rural", sobretudo tador. Tudo que sei sobre a Semiologia e a Análise de Discursos
quando referenciar as práticas atuais, e ir introduzindo "prática dis- aprendi com ele. As infinitas possibilidades de aplicação desse cam-
cursiva" à medida que a proposta teórica for criando condições par.! po do conhecimento foi ele quem me mostrou . Ofereceu-me mais
t:ll. Mas quero esclarecer que este não é absolutamente um estudo que isso, porém : ofereceu-me a sua amizade e o seu afeto, [:"io impor.
sobre o modelo difusio nista e muito menos sobre a eJ..1:ensão rurAl. tantes para a produção intelectual Quanto o saber científico.
Q uanto a isso muito já se pensou e escreveu , sobretudo no contexto AO professor Antônio Fausto Neto eu chamo de "meu ilumina-
da Teoria da Dependê ncia e do debate sobre o desenvo lvimento Que dor de cena". Ele tcm a capacidade de fv.er \'er o novo, o relevante, o
lhe corresponde u . O mome nto histórico desses estudos já passou e, que vale a pena estudare construir. Aponta as tendêndas da cena social
se aqui são re tomados, o são como instâncias de formação paradig- c acadêmica, desafia a curiosidade imelectual e, com sutileza, empur-
mática do atual momento. r:1-nos para o olho do fum.cão (ainda bem que ele vai junto). Este livro
Porém , mais do que optar por uma terminologia - t: a compre- tcm muito de sua inspiração.
ensão d e mundo e de sociedade Que lhe corresponde - , pareceu-me Outros professores estão aqui presentes, especialmente o pro·
Importante deixar clara a transição para um conceito de política e fcssor Aluízio Trima, cujo curso de "Paradigmas e Modelos da COOlU -
pdtica institucional de comunicação, cujo marco conceitual seja o nicação" foi , sem dúvida, o primeiro passo na reconversão d o o ll1:lr.
d :l ~ teorias d:1 enunciação e do disc urso. Políticas de comunicação Ao professor Muniz Sodré devo o meu aco lhimento no progra·
1', 11 po lfticas de apoio a intervenção social e , neste sentido, são politi- m<l de pós-graduação, eu, que tr.12ia um projeto aparentementel:to

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distante d as linhas de pesquisa ali praticad as. Sem seu es tímulo , tal-
vez a minha his tó ria fosse outra c este livro não existisse .
Muitas pessoas me o fe receram suas preciosas o piniões e análises
d a prática social, o utras tantas me cederam seus impressos c info ml:l-
çõeS. A todas sou muitO grata e espero que se sintam compensadas MODO DE OLHAR, MODO DE PROPOR
pelo seu investimento . Queria :tgradecer especialmente a Pablo Si·
d ersky, da AS-PTA, e ao padre Herminio Canova, d a CI'T.
A Eduardo )o rdão cabe um agradecimento especial, por comp:u"ti. "Transfomlar o mundo é transformar a linguage m, combate r
Ihar comigo seu conhecimento SOCiológico do Nordeste rural , que me suas escleroses e resistir a seus acomodamentos." A frase , pro ferid a
pcmlitiu compreender melhor as novas (:onfiguraçées do cenário da por Ro Iand Barthes em sua magistral aula inaugural no Collcge de
intervenção .social. France, permi te·me começar a falar sobre o tema das práticas de co-
Fui presenteada com duas excelentes r/"."visôes do me u texto. mun k-ação na Lntervenção social. Tenho plena consciência dos Iimi.
Uma, a do professor Anthony Andenion, na époc."l membro do escri- tes d e um trabalho acadêmico. no que lange à capacidade de
tório br.ls ileiro da Fundação Ford e hoje na World Wild tife Fund, trAnsformação do mundo ; três d écada.s j:í nos distanciam da época
Qu e participou da banca examinadora da dissertação e me ho nra em que os intelectuais pe nsavam cons tituir a vangu arda de forças
com sua amizade, Outra, a de Ana Paula Goulan Ribeiro, querida populares re\-olucionárias. Mas tomo por verdadeiro o pressuposlo
amiga desde a.... primeirds horas da grande aventur.l acadêmica, cuja da pragmática discu rsiva de que f.'tlar é fazer, o u melho r, falar é f.lZer
argúcia intelectual mui 10 me ajudou a compreender as sUlilezas d os ver e . portanto , fazer existir. Nas relações do mundo acadêmico com
cami nhos t'e óricos. o mundo da ação pr:.ítica, esse poder d e fazer e,xistir se exerce media.
Um o utro grande amigo se fez presente neste livro: Laerte Ma- do pelo "cfeito-teoria", que faz com que as inte rpretaçõcs teóricas da
gaJhães, colega d e d o uto rado , exímio domador d e imagens no mun- realid :lde física e social sejam tomadas por representações da verda.
do concretO e no virtual , aplainou as agrur.ts do CAminho de uma de e assumidas coletivame nte como na rurais e incontestáve is. Evi.
us uária inexperie nte de computadores. dentemente , para Que tal aconteça, é necessârio que h aja condições
Po r fim , gostaria de expressar meu agradecimemo :'i. Editora históricas e culturais favoráveis, criando um ambiente p rop ício à
UN ISINOS , nas pessoas do seu diretor, professor Carlos Alberto Gia· con jugação de interesses econô micos e políticos em to m o d o esta-
noui, e da dire tora da estante de comunicação, professora lo ne belecimento de algum "regime de verdade" (J:oucault , 1982). Tais
Bentz, por possibilitar a publicação deste livro, permitindo, assim, conside raçõcs vale m ranto para o entendimento do o bjelo quamo
que as idéias aqui expostas cheguem a um maior núme ro de pessoas. do o bjetivo desle livro, que serão aqui introduzidos.
Como se pode perceber, este é um texto polifônico. Tantas vo- . Ao falar d o objeto, pretendo comentar s ua peninéncia, tanto
zes eSlão aqui presentes!..: Participando, muit:ts sem que o soubes· teó n ca Quanto empmca, estendendo-me um pouco sobre os come}(.
sem, d e uma conversação em curso, à qual agora podem incorpo- tos em que procuro situar·me. O contc.'{tO empirico dad acesso, ainda
r.lr·sc, se o desejarem, d e forma intencional. Quem sabe, avalizando {Iue num nível introdutório, às cenas soci::d e discursi\';t que se constituem
o o lhar aqui proposto. Quem sabe, oferecendo out:ra direção possí. alvo. do me u interesse, e o contexto teó rico pcmlitirá fuJar das preocu.
vel parn a qual recom'erter o o lhar. Este deve ser o destino dos livros. paçoes no plano das idéias, que me ICV'.lT:lm até a Semiologia.
A discussão sobre o o bjeto re mete :1 uma outra, e m (o rno d a
rclaç:lo entre o pesquisador e o o bjelo pesquisado, na qual prete n.
d o acercar·me d e alguns proble mas d e mé lod o e da proouçiio de
çonhecimento aplicados ao meu caso particular.

"
distante d as linhas de pesquisa ali praticad as. Sem seu es tímulo , tal-
vez a minha his tó ria fosse outra c este livro não existisse .
Muitas pessoas me o fe receram suas preciosas o piniões e análises
d a prática social, o utras tantas me cederam seus impressos c info ml:l-
çõeS. A todas sou muitO grata e espero que se sintam compensadas MODO DE OLHAR, MODO DE PROPOR
pelo seu investimento . Queria :tgradecer especialmente a Pablo Si·
d ersky, da AS-PTA, e ao padre Herminio Canova, d a CI'T.
A Eduardo )o rdão cabe um agradecimento especial, por comp:u"ti. "Transfomlar o mundo é transformar a linguage m, combate r
Ihar comigo seu conhecimento SOCiológico do Nordeste rural , que me suas escleroses e resistir a seus acomodamentos." A frase , pro ferid a
pcmlitiu compreender melhor as novas (:onfiguraçées do cenário da por Ro Iand Barthes em sua magistral aula inaugural no Collcge de
intervenção .social. France, permi te·me começar a falar sobre o tema das práticas de co-
Fui presenteada com duas excelentes r/"."visôes do me u texto. mun k-ação na Lntervenção social. Tenho plena consciência dos Iimi.
Uma, a do professor Anthony Andenion, na époc."l membro do escri- tes d e um trabalho acadêmico. no que lange à capacidade de
tório br.ls ileiro da Fundação Ford e hoje na World Wild tife Fund, trAnsformação do mundo ; três d écada.s j:í nos distanciam da época
Qu e participou da banca examinadora da dissertação e me ho nra em que os intelectuais pe nsavam cons tituir a vangu arda de forças
com sua amizade, Outra, a de Ana Paula Goulan Ribeiro, querida populares re\-olucionárias. Mas tomo por verdadeiro o pressuposlo
amiga desde a.... primeirds horas da grande aventur.l acadêmica, cuja da pragmática discu rsiva de que f.'tlar é fazer, o u melho r, falar é f.lZer
argúcia intelectual mui 10 me ajudou a compreender as sUlilezas d os ver e . portanto , fazer existir. Nas relações do mundo acadêmico com
cami nhos t'e óricos. o mundo da ação pr:.ítica, esse poder d e fazer e,xistir se exerce media.
Um o utro grande amigo se fez presente neste livro: Laerte Ma- do pelo "cfeito-teoria", que faz com que as inte rpretaçõcs teóricas da
gaJhães, colega d e d o uto rado , exímio domador d e imagens no mun- realid :lde física e social sejam tomadas por representações da verda.
do concretO e no virtual , aplainou as agrur.ts do CAminho de uma de e assumidas coletivame nte como na rurais e incontestáve is. Evi.
us uária inexperie nte de computadores. dentemente , para Que tal aconteça, é necessârio que h aja condições
Po r fim , gostaria de expressar meu agradecimemo :'i. Editora históricas e culturais favoráveis, criando um ambiente p rop ício à
UN ISINOS , nas pessoas do seu diretor, professor Carlos Alberto Gia· con jugação de interesses econô micos e políticos em to m o d o esta-
noui, e da dire tora da estante de comunicação, professora lo ne belecimento de algum "regime de verdade" (J:oucault , 1982). Tais
Bentz, por possibilitar a publicação deste livro, permitindo, assim, conside raçõcs vale m ranto para o entendimento do o bjelo quamo
que as idéias aqui expostas cheguem a um maior núme ro de pessoas. do o bjetivo desle livro, que serão aqui introduzidos.
Como se pode perceber, este é um texto polifônico. Tantas vo- . Ao falar d o objeto, pretendo comentar s ua peninéncia, tanto
zes eSlão aqui presentes!..: Participando, muit:ts sem que o soubes· teó n ca Quanto empmca, estendendo-me um pouco sobre os come}(.
sem, d e uma conversação em curso, à qual agora podem incorpo- tos em que procuro situar·me. O contc.'{tO empirico dad acesso, ainda
r.lr·sc, se o desejarem, d e forma intencional. Quem sabe, avalizando {Iue num nível introdutório, às cenas soci::d e discursi\';t que se constituem
o o lhar aqui proposto. Quem sabe, oferecendo out:ra direção possí. alvo. do me u interesse, e o contexto teó rico pcmlitirá fuJar das preocu.
vel parn a qual recom'erter o o lhar. Este deve ser o destino dos livros. paçoes no plano das idéias, que me ICV'.lT:lm até a Semiologia.
A discussão sobre o o bjeto re mete :1 uma outra, e m (o rno d a
rclaç:lo entre o pesquisador e o o bjelo pesquisado, na qual prete n.
d o acercar·me d e alguns proble mas d e mé lod o e da proouçiio de
çonhecimento aplicados ao meu caso particular.

"
Ao te mp o em que d ese n vo lver os tó pi cos mencio nados , ro reCOrte, metodológico, lcV""J. a optar pelo mo mento específico da
esta re i rormuland o a lgumas questões , a , {ru lo d e hipó te ses , produção discursiva, tomando os processos de circulação e consu-
<Iue d e,,~r.i.o ser respondidas ao longo dos capíl'Ulos, cujo percurso mo e nquantO condições d e produção . O quarto, operacion:al, defi-
será discutido sob o ângulo das escolhas teóricas c metodológicas. nindo como s uportes discursivos a serem analisados os impressos
Cl"cio estar assim cu mprindo a finalidade desta introdução, que produzidos po r aquelas instituições c dirigidos aos camponeses. O
é criar aJgumas condiçóes para:1 leitur:1 do textO que se segue, que, ú himo é um rt."<COrte temático e privilegia os discu rsos sobre :a ação
por sua rem:hica, não está no rol d aqueles de d o mínio comu m. coopt:rativa e solidária como alvo de imeresse analítico. Resuh:1 d :lí
um obj elO que , em termos e mpíricos, pode ser de finido como as
práticas d iscursivas das instituiçÕC!i interessadas em intervir na reali-
Recortes d ad e rural da região Nordeste . Mais especificame nte, as práticas ma-
terializadas na produção e distribuição, entre os camponeses, de
Como grande tema de estudos, meu interesse rec'.ti sobre os me· impressos que , d e uma fo rma ou d e outra, incentive m o tr-.tbalho co·
CLl1ismos de produção de sentido no universo da interven\'ão social, le livo.
aqui representados na especificidade do meio rural. Mais concretamen·
tC, isso signifi<.. a interesse em pesquisar os elementos e mecanismoS o Nordeste das práticas discursivas
constirutivos do regime de verdade no meio rurJ...l : que atores, em que
cenários, descm'olvcm quc estratégillS, o rientados por quais interesses
e objetivos, infonnados por que conjunto de crenças constituídas em Muito se estuda e se escreve sobre a região Nordeste, sob as
que cin..-unsci.nch.. histó ricas e mt.>diad:tS por quc pJ"dticas institucionais . mais dh'el"Sas abordagens: faJa·se de suas estru turas políticas e sociais
E, partindo do princípio de que relações sociais se dão entre discur.;os c arcaicas, d a espccilicidade do semi-árid o , d a posiçlo subalterna na
de que falar é f:J.zer, desvelar de que fonna esses atores representam e econo mia nacional, da miséria social, da cu ltura po pular, dos movi·
exen:em sua açio no mundo pela via discul'Siva. Indo mais além: areicm· mentos sociais, entre OUlros temas . Como raramente tais estudos as·
do que falar de "regime de verdade" é falar do exercício de poder,1 emen- saciam mais d e duas vari:Í\'Cis, rem-se uma realidade fr-.l gme lltada,
der como se estabelecem as relações de poder :UI"a\'(-S dos discun;os. ou a impressão de q ue V{lriOS Nordestes co nvivem lado a lado , sem se
Como disse, e ste é um grande tema, e a p lu ralidade de vdfiáveis interpenetrarcm . É d e todos esses Nordestcs que quero falar, visto
aí envo lvidas é tamanha que exige recortes especifi cas. O primeiro por um o u tro ângu lo , que mes mo sendo o ut.ro pernlcia os demais: o
deles é o geográfi co e localiza na região Nordeste do Brasi l a área de d as p ráticas discu l"Siv"d.S .
abrangência do estudo. O segundo, institucio nal, estabelece como Se m dúvida. o Nordes te é uma região d eprimida social e eco--
parâmetro as ins[ituições sem fins lucrativos que têm como o bje tivo nomicamente, d e forma acentuada no meio rural. Comparada a o u-
provocar algum tipo de tr:m sfo nnação social no meio rur.d .2 O tercci- t·ras regiões, ocupa sempre o ú h imo lugar nos indicadores sociais e
econômicos. Di spõe de me nos tecnologia , mobiliza menos investi-
De :lcordo com Fo uc:luil, Ma ~e rd.:ltk esd cirC\,t:ume mc ligada a sist cm:lS de mentos p úblicos c atrai pouco os privados, o nível de escolaridad e
pode r, que: a produ zem e apóiam , e :t t:fcilOS de po dcrq ue cb induz e que are .. da po pulação é irrisório, a conce mração fundiária é exacerbada, :1
proo.l uzcm ~ ( 1982 : 14) . est rutur-J. de ger.lçao de e mprego e renda praticamente não existe .
2 A CJ(prcssão "mclo rural"" a..~slna l;l. para mim um CSp3~O mu \tidlmcnslom.J, qUI: Dianre disso , nu merosas instituições - gove rnamentais ou priva-
se consti tui no Cn.J7.a mentO de uma dada reKião fbll,:o-geugrállca L-om dete rmi .
n ados tipos de relaçõcs sociais c discursi\'», rornlõl..~ cconõmlc-..IS de: p roduçio,
das, re ligiosas o u leigas, acadí=mic:as ou n:io - procuram d ese nvol·
cstrulurJ de propric:d:adc dos bel\!>. ~laÇÕCs de tnb:l!lu) c C".Ir..Ctcri~1icts L"Ullu- vcr políticas de interve nção, viSando prO\'oC:lr mudanças ora
rai s. No cntanto, neste =ba lho , alguUlas vczes rdcrcn clará apenas ocspaço fJ!'ll. estrll1"ur-J...is, 0 1'".1. conjunturais. Tais políticas são formuladas te ndo
L"O n~ (}-urbano.

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Ao te mp o em que d ese n vo lver os tó pi cos mencio nados , ro reCOrte, metodológico, lcV""J. a optar pelo mo mento específico da
esta re i rormuland o a lgumas questões , a , {ru lo d e hipó te ses , produção discursiva, tomando os processos de circulação e consu-
<Iue d e,,~r.i.o ser respondidas ao longo dos capíl'Ulos, cujo percurso mo e nquantO condições d e produção . O quarto, operacion:al, defi-
será discutido sob o ângulo das escolhas teóricas c metodológicas. nindo como s uportes discursivos a serem analisados os impressos
Cl"cio estar assim cu mprindo a finalidade desta introdução, que produzidos po r aquelas instituições c dirigidos aos camponeses. O
é criar aJgumas condiçóes para:1 leitur:1 do textO que se segue, que, ú himo é um rt."<COrte temático e privilegia os discu rsos sobre :a ação
por sua rem:hica, não está no rol d aqueles de d o mínio comu m. coopt:rativa e solidária como alvo de imeresse analítico. Resuh:1 d :lí
um obj elO que , em termos e mpíricos, pode ser de finido como as
práticas d iscursivas das instituiçÕC!i interessadas em intervir na reali-
Recortes d ad e rural da região Nordeste . Mais especificame nte, as práticas ma-
terializadas na produção e distribuição, entre os camponeses, de
Como grande tema de estudos, meu interesse rec'.ti sobre os me· impressos que , d e uma fo rma ou d e outra, incentive m o tr-.tbalho co·
CLl1ismos de produção de sentido no universo da interven\'ão social, le livo.
aqui representados na especificidade do meio rural. Mais concretamen·
tC, isso signifi<.. a interesse em pesquisar os elementos e mecanismoS o Nordeste das práticas discursivas
constirutivos do regime de verdade no meio rurJ...l : que atores, em que
cenários, descm'olvcm quc estratégillS, o rientados por quais interesses
e objetivos, infonnados por que conjunto de crenças constituídas em Muito se estuda e se escreve sobre a região Nordeste, sob as
que cin..-unsci.nch.. histó ricas e mt.>diad:tS por quc pJ"dticas institucionais . mais dh'el"Sas abordagens: faJa·se de suas estru turas políticas e sociais
E, partindo do princípio de que relações sociais se dão entre discur.;os c arcaicas, d a espccilicidade do semi-árid o , d a posiçlo subalterna na
de que falar é f:J.zer, desvelar de que fonna esses atores representam e econo mia nacional, da miséria social, da cu ltura po pular, dos movi·
exen:em sua açio no mundo pela via discul'Siva. Indo mais além: areicm· mentos sociais, entre OUlros temas . Como raramente tais estudos as·
do que falar de "regime de verdade" é falar do exercício de poder,1 emen- saciam mais d e duas vari:Í\'Cis, rem-se uma realidade fr-.l gme lltada,
der como se estabelecem as relações de poder :UI"a\'(-S dos discun;os. ou a impressão de q ue V{lriOS Nordestes co nvivem lado a lado , sem se
Como disse, e ste é um grande tema, e a p lu ralidade de vdfiáveis interpenetrarcm . É d e todos esses Nordestcs que quero falar, visto
aí envo lvidas é tamanha que exige recortes especifi cas. O primeiro por um o u tro ângu lo , que mes mo sendo o ut.ro pernlcia os demais: o
deles é o geográfi co e localiza na região Nordeste do Brasi l a área de d as p ráticas discu l"Siv"d.S .
abrangência do estudo. O segundo, institucio nal, estabelece como Se m dúvida. o Nordes te é uma região d eprimida social e eco--
parâmetro as ins[ituições sem fins lucrativos que têm como o bje tivo nomicamente, d e forma acentuada no meio rural. Comparada a o u-
provocar algum tipo de tr:m sfo nnação social no meio rur.d .2 O tercci- t·ras regiões, ocupa sempre o ú h imo lugar nos indicadores sociais e
econômicos. Di spõe de me nos tecnologia , mobiliza menos investi-
De :lcordo com Fo uc:luil, Ma ~e rd.:ltk esd cirC\,t:ume mc ligada a sist cm:lS de mentos p úblicos c atrai pouco os privados, o nível de escolaridad e
pode r, que: a produ zem e apóiam , e :t t:fcilOS de po dcrq ue cb induz e que are .. da po pulação é irrisório, a conce mração fundiária é exacerbada, :1
proo.l uzcm ~ ( 1982 : 14) . est rutur-J. de ger.lçao de e mprego e renda praticamente não existe .
2 A CJ(prcssão "mclo rural"" a..~slna l;l. para mim um CSp3~O mu \tidlmcnslom.J, qUI: Dianre disso , nu merosas instituições - gove rnamentais ou priva-
se consti tui no Cn.J7.a mentO de uma dada reKião fbll,:o-geugrállca L-om dete rmi .
n ados tipos de relaçõcs sociais c discursi\'», rornlõl..~ cconõmlc-..IS de: p roduçio,
das, re ligiosas o u leigas, acadí=mic:as ou n:io - procuram d ese nvol·
cstrulurJ de propric:d:adc dos bel\!>. ~laÇÕCs de tnb:l!lu) c C".Ir..Ctcri~1icts L"Ullu- vcr políticas de interve nção, viSando prO\'oC:lr mudanças ora
rai s. No cntanto, neste =ba lho , alguUlas vczes rdcrcn clará apenas ocspaço fJ!'ll. estrll1"ur-J...is, 0 1'".1. conjunturais. Tais políticas são formuladas te ndo
L"O n~ (}-urbano.

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em vista um segme nta d a população pensado em termos de usuários çado pela oricnt':lção internacio nal pa • .! os países perifé ricos no
o u beneficiários d as açõcs propostas, que delas devem (Ornar conhc- se ntido de se imprimir às atividades de descnvolvimenro um cunho
cimento e manifestar s ua adesão. Tenta-se obter isso atrav~s d e pro- cooperativista.
cessos comunicativos o u , nos termOS que pre firo, d e práticas O contexto de crise me ncionado aprese nta outros ângulos,
discursivas , dirigidas, no caso específico, a determinados núcl eos entre os quais O da dificuldad e d e definição dos papéis c O da insa-
da sociedade camponcsa .3 tisf:lçiio co m os próprios limites de atuação. Um fenô meno recente
Os diversos atores implicados nesse cenário companilham a que d ecorre disso é O movimtnto no se ntido d e funcion ârios públi-
idéia de que uma d as motivaçõcs básicas do seu agir (em algu ns ca- cos criare m o rganizaçõcs privad as, que em tesc lhes permitiriam
sos a principal) é a solidariedade e O espíri(O de cooperação, percep- uma atuação po lítica e social mais gr.lIificanre e um nível de gestão
ção de fun cio namento social que tentam transferir aos desti natários ao qual não tê m acesso n~ agências governamentais e , em contra-
de su as políticas dc intervenção. partida , uma tenrativa dos profiss io nais ligados às organizações pri-
A idé ia d e aniculação da sociedade pela solidariedade , em- vad as d e ocuparem cargos públ icos, procurando um maior poder
bora não se ja nova para alguns segmentos , como o religioso, am- lega l de intervir no âmbito socia l, o u seja. mais efetividade para
pliou seu espectro e adquiriu ou trllS dimensões no contextO d e S U:IS ações.
crise das ins tituições e das so luções políticas tradicionais po r qu e Por outro lado , intensificam-se as iniciativas de pa rceria entre
vem atravessando o país. Assim , o Estado, após um período de regi- a... várias institu ições para imp lantação das políticas públicas, o que
me ditato ri:ll , exacerba seu discurso ~ panicipaLi vo", criando o u fo- implica no repasse de recursos finan ceiros d o campo governamen-
mentando to d a son e de mecanismos cole tivos e transfonnando a (ai para o privado . Até mui to recentemente , a visão d o minante era a
ação solid ária num dos seus pi lares de interve nção social. As orga- de "alianças", fundamentalme nte dis tinta da de "parceria". Para
nizações não-govername ntais d e promoção social têm na solidarie- isso colabora amplamtnte a prcss:lo dos orga nism os inte rnacio-
dade um princípio jus tificativo, qu e de rrubaria fromeiras de classe n:tis de cooperação , principalme nte os ofi daiS (como O Banco
e unificaria inte resses e ideais. Pa • .! :15 inslituições religiosas, e la é Mundia l), que chegam mesmo a estabe lecer a p:trceria com a socie-
constitUtiva, co nverte ndo-se em mandamemo divino e em um d os dade ch'il como condição p :lr:1 a d oação de recursos ao gove rno
caminhos da salvação eterna, através da sua ro nna d efrater1lida d e. brasileiro .
E assim por diante . A definição de sociedade civil como "um con- No plano di scursivo, esses movimentos e a indefinição d e pa-
junto de relações sociais mediadas pe la solid ariedade" (Schiochct, pé is produzem uma exacerbação da po lifo nia (vozes qu e se expri-
1994 : 6 1) correspo nde bem 3 perspectiva corre nte e m amplos setO- me m num texto) , havendo uma clara e múlua apropriação d os
res, nos qu ais se incluem os atuais ocupantes do governo rede r:1l e discursos alheios, de [ai sorte que um observador desaviS:ldo não
de alguns estaduais e municipais. Os pró prios campo neses, expos- percebe muita diferença entre os vários núcleos discursivos . Ta nto
tos que são aos discursos dos outros núcleos, n1anifestam em se us mais que, a partir da Eanh Summit 92, o co nceito de Organização
discursos a valorização da ação coop erativa. Esse contexto é re fo r- N:io-Governamental - ONG -, até então restrito e aplic:ívcl :t um
lil)O d e finido de institu ição, p assou a designar par-d o grande públi-
O loda c qualquer o rganização que não stj:1 govername nlaJ , incluin-
3 o COTl(dtO de -Clmpon;::!l~ o u "SQCil.!dadc Cl mpont;~a- é eo mplao c passÍ\'C1
de muitas Interpretaçócs tc:ó ricôl!i. Deixo h test:s de sodologi;l runl ou amro- do ar os grupos ambientalistas , as organizações caritativas e até mes-
po logia tallarefa e a.~sumo que t;lI1npo,,~s des igna , de modo si mplificado. os ha- 1110 algumas ligad as :l interesses econômicos .
bitamC!i do meio roral roi .... tividade de subsistência est:i ligada de algum modo
~ produÇ'ÃO :.l gropaslOr ll. Meu conceilo indui um recool.! socioeconómieo. qoe
l.!lo.:lui O!i mc':di()!; t: grandes propriet;irios rurais. Es.~a definição nio illlplica o
de$COn hccimc: nto d a plunJid..dc de CU1tulõlS, cosmO\isõcs, modos de \ '!\'Cf c
16giCls o rgani7.aü.-aS da suciedadc Clmponesa.

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"
em vista um segme nta d a população pensado em termos de usuários çado pela oricnt':lção internacio nal pa • .! os países perifé ricos no
o u beneficiários d as açõcs propostas, que delas devem (Ornar conhc- se ntido de se imprimir às atividades de descnvolvimenro um cunho
cimento e manifestar s ua adesão. Tenta-se obter isso atrav~s d e pro- cooperativista.
cessos comunicativos o u , nos termOS que pre firo, d e práticas O contexto de crise me ncionado aprese nta outros ângulos,
discursivas , dirigidas, no caso específico, a determinados núcl eos entre os quais O da dificuldad e d e definição dos papéis c O da insa-
da sociedade camponcsa .3 tisf:lçiio co m os próprios limites de atuação. Um fenô meno recente
Os diversos atores implicados nesse cenário companilham a que d ecorre disso é O movimtnto no se ntido d e funcion ârios públi-
idéia de que uma d as motivaçõcs básicas do seu agir (em algu ns ca- cos criare m o rganizaçõcs privad as, que em tesc lhes permitiriam
sos a principal) é a solidariedade e O espíri(O de cooperação, percep- uma atuação po lítica e social mais gr.lIificanre e um nível de gestão
ção de fun cio namento social que tentam transferir aos desti natários ao qual não tê m acesso n~ agências governamentais e , em contra-
de su as políticas dc intervenção. partida , uma tenrativa dos profiss io nais ligados às organizações pri-
A idé ia d e aniculação da sociedade pela solidariedade , em- vad as d e ocuparem cargos públ icos, procurando um maior poder
bora não se ja nova para alguns segmentos , como o religioso, am- lega l de intervir no âmbito socia l, o u seja. mais efetividade para
pliou seu espectro e adquiriu ou trllS dimensões no contextO d e S U:IS ações.
crise das ins tituições e das so luções políticas tradicionais po r qu e Por outro lado , intensificam-se as iniciativas de pa rceria entre
vem atravessando o país. Assim , o Estado, após um período de regi- a... várias institu ições para imp lantação das políticas públicas, o que
me ditato ri:ll , exacerba seu discurso ~ panicipaLi vo", criando o u fo- implica no repasse de recursos finan ceiros d o campo governamen-
mentando to d a son e de mecanismos cole tivos e transfonnando a (ai para o privado . Até mui to recentemente , a visão d o minante era a
ação solid ária num dos seus pi lares de interve nção social. As orga- de "alianças", fundamentalme nte dis tinta da de "parceria". Para
nizações não-govername ntais d e promoção social têm na solidarie- isso colabora amplamtnte a prcss:lo dos orga nism os inte rnacio-
dade um princípio jus tificativo, qu e de rrubaria fromeiras de classe n:tis de cooperação , principalme nte os ofi daiS (como O Banco
e unificaria inte resses e ideais. Pa • .! :15 inslituições religiosas, e la é Mundia l), que chegam mesmo a estabe lecer a p:trceria com a socie-
constitUtiva, co nverte ndo-se em mandamemo divino e em um d os dade ch'il como condição p :lr:1 a d oação de recursos ao gove rno
caminhos da salvação eterna, através da sua ro nna d efrater1lida d e. brasileiro .
E assim por diante . A definição de sociedade civil como "um con- No plano di scursivo, esses movimentos e a indefinição d e pa-
junto de relações sociais mediadas pe la solid ariedade" (Schiochct, pé is produzem uma exacerbação da po lifo nia (vozes qu e se expri-
1994 : 6 1) correspo nde bem 3 perspectiva corre nte e m amplos setO- me m num texto) , havendo uma clara e múlua apropriação d os
res, nos qu ais se incluem os atuais ocupantes do governo rede r:1l e discursos alheios, de [ai sorte que um observador desaviS:ldo não
de alguns estaduais e municipais. Os pró prios campo neses, expos- percebe muita diferença entre os vários núcleos discursivos . Ta nto
tos que são aos discursos dos outros núcleos, n1anifestam em se us mais que, a partir da Eanh Summit 92, o co nceito de Organização
discursos a valorização da ação coop erativa. Esse contexto é re fo r- N:io-Governamental - ONG -, até então restrito e aplic:ívcl :t um
lil)O d e finido de institu ição, p assou a designar par-d o grande públi-
O loda c qualquer o rganização que não stj:1 govername nlaJ , incluin-
3 o COTl(dtO de -Clmpon;::!l~ o u "SQCil.!dadc Cl mpont;~a- é eo mplao c passÍ\'C1
de muitas Interpretaçócs tc:ó ricôl!i. Deixo h test:s de sodologi;l runl ou amro- do ar os grupos ambientalistas , as organizações caritativas e até mes-
po logia tallarefa e a.~sumo que t;lI1npo,,~s des igna , de modo si mplificado. os ha- 1110 algumas ligad as :l interesses econômicos .
bitamC!i do meio roral roi .... tividade de subsistência est:i ligada de algum modo
~ produÇ'ÃO :.l gropaslOr ll. Meu conceilo indui um recool.! socioeconómieo. qoe
l.!lo.:lui O!i mc':di()!; t: grandes propriet;irios rurais. Es.~a definição nio illlplica o
de$COn hccimc: nto d a plunJid..dc de CU1tulõlS, cosmO\isõcs, modos de \ '!\'Cf c
16giCls o rgani7.aü.-aS da suciedadc Clmponesa.

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"
A ,..,.,."rr........;.,d(J oIba~

A dis puta pelo poder s imbó lico ridos entre os núcleos concorrentes : uma vez que estes se organizam
e atuam em fun ção de políticas vohadas à popu lação, é :1 aceitação
ou não das po líticas po r essa população Que legitima seus autores.
Nesse ponto, é possívellevanrar algumas hipÓteSes. A primei- Mas os camponeses não são ape nas objeto de disputa : eles partici-
ra delas é que as instituições que compõem esse ce nário pa rtici- pam ativamente do processo d e negociação de sentido , confron-
pam, po r me io de suas organizações (aqui consideradas núcleos tando interesses e desenvolvendo estmtégias. Minha hipótese é
discursivos) , de um:\ disputa de seu lido , ou seja , disputam com :L" que os núcleos ins titucionais não ope ram com a idéia d esse com-
demais o direito pela preva lência do seu modo d e pe rcebere plane- ponamento estratégico dos destinatários de seus discursos, conside-
jar a sociedade (que e m última análise se expressará na formulação rando-os "receptores" e não "inrerlocutores". Com base na teoria se-
de políticas públicas) . Formam um m ercado simb6lico, no qual as mio ló gica dos disc ursos , considero que as m a rcas dessa concepção
relações ocorrem e ntre discursos c onde se negociam apoios ou se estão presentes nos textos que fazem circu lar :ltr"dvés d os me ios. É
estabelece uma concorrência. Tal disputa nãose d á num nível cons- també m através das marcas que se pode identi.fic;tr outros aspeCtos
ciente verificand o-se m esmo nos processos em que predominem d a imagem que os n úcleos emissores tem do dest inatário , a sua
relaç~s de parceria ou em que se explicitem prindpios de ação so- auro-imagem e o lipo de relação que pr opõem entre um e outro.
lidária . Não estou pondo em dúvida o ideal d e ação solidária, :tlé Tais imagens, que podem ser inferidas no dispositivo de
mesmo porque há campos cuja lógica de funci onamento favorc::ce emwcillçâo de cada discurso , são um pomo nevrálgico nas rela-
esse tipo de posicionamenro, como é o caso do campo religioso. ções de po der inere ntes ao func io namento do mercado simbólico,
Mas cons idero a hipÓteSe de que :1 prática sociod iscursiV".1 d os nú- uma vez que estas são detinidas pelo modo como os desrin:lIários
cleos estudados denuncia um outro e ixo em torno d o qual se mo- aceitam o u rejeitam o que lhes é proposto. Essa premissa- que, para
"em os atores, o eLxo da disputa do "poder simbólico". O objetivo ser inleir.tffiente validada, exigirIa u ma análise dos discursos em re-
é , em última análise, pôr em cena um modo de percebe r as relações cepção - é fund ;tffiental para a com preensão das escolhas teóricas e
sociais que [Orne por referência a construção dessas relações pela me todológicas, a.s.sim como à construção d;IS cenas social e discur-
via discursiva e cuja pert inê ncia pretendodemons tr:u" na seqüência s iva .
do trabalho. Uma OUlra premissa fundamental neste tr:lbalho é a de que os
Uma o utm hipóteSe é a de que os discursos produzidos pelos v;írios núcleos aqui considerados e missores vêm-se debatendo, nos
núcleos trazem marcas da cena social descrila . Eles expressam os últimos 25 anos , entre dois grandes mode los d e comunicação, per-
acordos o u co nco rrências, dentro da atual crise de identidade. Em cebidos como anmgônicos: O rrotlSfereucial (ou difusionista) e o
outros termos, é possível identiticar, através da análise dos discursos dlal6glco (ou humanis ta), ambos solidificados no in ício da d écada
desses núcleos, o modo como cada um se posiciona no m e rcad o de 70, o primeiro de justificativa predominantemente téc nica e o
si mbó lico e com que cstr::uégias disputa a supremac ia sobre os ou- segundo eminente mente polítko. A idéia que defend o é a de que , a
Iras. despeito de a lg umas lenlativas de revisão c rítica, os pratic:lIltes da
As instiruições e stabelecem uma relação discursil'a com os nú- c hamada comunicação ruml e nccrmram-se nessa aparente dicoto-
cleos tia sociedade camponesa , mediad3 por uma certa variedade de mia , se m conseguir perceber o núcleo comum às propos tas - que
meios e processos de comunicação. Os discursos veiculados freqüe n- e m e ndo como sendo o modelo in!ormaciof/til de comunicação- e
te mente inclue m , no plano da doutrina, O ~stímulo à ação so li~ :\ria , IIper:t1ll com os dois modelos simu ltaneamente, o dialógico emba·
e nqu :lIltO procuram definir sua própria pratica como exprcssao do IIH I1(.I0 a teoria e o transferencial di recionando a prática . Dessa for-
compromisso solidário com uma sociedade fundada na justiça social. IIHI , são le vados :I uma espécie de esquizofrenia entre o m o d o de
í.i possível , nes te pontO, formu lar o utra hipótese, que co nside- tOllcebc,":1 socie dade e as re laçõcs entre seus atores e o modo de
ra:l pre missa de que os camponeses são o ccntro da d is puta d e sen-

,. "
A ,..,.,."rr........;.,d(J oIba~

A dis puta pelo poder s imbó lico ridos entre os núcleos concorrentes : uma vez que estes se organizam
e atuam em fun ção de políticas vohadas à popu lação, é :1 aceitação
ou não das po líticas po r essa população Que legitima seus autores.
Nesse ponto, é possívellevanrar algumas hipÓteSes. A primei- Mas os camponeses não são ape nas objeto de disputa : eles partici-
ra delas é que as instituições que compõem esse ce nário pa rtici- pam ativamente do processo d e negociação de sentido , confron-
pam, po r me io de suas organizações (aqui consideradas núcleos tando interesses e desenvolvendo estmtégias. Minha hipótese é
discursivos) , de um:\ disputa de seu lido , ou seja , disputam com :L" que os núcleos ins titucionais não ope ram com a idéia d esse com-
demais o direito pela preva lência do seu modo d e pe rcebere plane- ponamento estratégico dos destinatários de seus discursos, conside-
jar a sociedade (que e m última análise se expressará na formulação rando-os "receptores" e não "inrerlocutores". Com base na teoria se-
de políticas públicas) . Formam um m ercado simb6lico, no qual as mio ló gica dos disc ursos , considero que as m a rcas dessa concepção
relações ocorrem e ntre discursos c onde se negociam apoios ou se estão presentes nos textos que fazem circu lar :ltr"dvés d os me ios. É
estabelece uma concorrência. Tal disputa nãose d á num nível cons- també m através das marcas que se pode identi.fic;tr outros aspeCtos
ciente verificand o-se m esmo nos processos em que predominem d a imagem que os n úcleos emissores tem do dest inatário , a sua
relaç~s de parceria ou em que se explicitem prindpios de ação so- auro-imagem e o lipo de relação que pr opõem entre um e outro.
lidária . Não estou pondo em dúvida o ideal d e ação solidária, :tlé Tais imagens, que podem ser inferidas no dispositivo de
mesmo porque há campos cuja lógica de funci onamento favorc::ce emwcillçâo de cada discurso , são um pomo nevrálgico nas rela-
esse tipo de posicionamenro, como é o caso do campo religioso. ções de po der inere ntes ao func io namento do mercado simbólico,
Mas cons idero a hipÓteSe de que :1 prática sociod iscursiV".1 d os nú- uma vez que estas são detinidas pelo modo como os desrin:lIários
cleos estudados denuncia um outro e ixo em torno d o qual se mo- aceitam o u rejeitam o que lhes é proposto. Essa premissa- que, para
"em os atores, o eLxo da disputa do "poder simbólico". O objetivo ser inleir.tffiente validada, exigirIa u ma análise dos discursos em re-
é , em última análise, pôr em cena um modo de percebe r as relações cepção - é fund ;tffiental para a com preensão das escolhas teóricas e
sociais que [Orne por referência a construção dessas relações pela me todológicas, a.s.sim como à construção d;IS cenas social e discur-
via discursiva e cuja pert inê ncia pretendodemons tr:u" na seqüência s iva .
do trabalho. Uma OUlra premissa fundamental neste tr:lbalho é a de que os
Uma o utm hipóteSe é a de que os discursos produzidos pelos v;írios núcleos aqui considerados e missores vêm-se debatendo, nos
núcleos trazem marcas da cena social descrila . Eles expressam os últimos 25 anos , entre dois grandes mode los d e comunicação, per-
acordos o u co nco rrências, dentro da atual crise de identidade. Em cebidos como anmgônicos: O rrotlSfereucial (ou difusionista) e o
outros termos, é possível identiticar, através da análise dos discursos dlal6glco (ou humanis ta), ambos solidificados no in ício da d écada
desses núcleos, o modo como cada um se posiciona no m e rcad o de 70, o primeiro de justificativa predominantemente téc nica e o
si mbó lico e com que cstr::uégias disputa a supremac ia sobre os ou- segundo eminente mente polítko. A idéia que defend o é a de que , a
Iras. despeito de a lg umas lenlativas de revisão c rítica, os pratic:lIltes da
As instiruições e stabelecem uma relação discursil'a com os nú- c hamada comunicação ruml e nccrmram-se nessa aparente dicoto-
cleos tia sociedade camponesa , mediad3 por uma certa variedade de mia , se m conseguir perceber o núcleo comum às propos tas - que
meios e processos de comunicação. Os discursos veiculados freqüe n- e m e ndo como sendo o modelo in!ormaciof/til de comunicação- e
te mente inclue m , no plano da doutrina, O ~stímulo à ação so li~ :\ria , IIper:t1ll com os dois modelos simu ltaneamente, o dialógico emba·
e nqu :lIltO procuram definir sua própria pratica como exprcssao do IIH I1(.I0 a teoria e o transferencial di recionando a prática . Dessa for-
compromisso solidário com uma sociedade fundada na justiça social. IIHI , são le vados :I uma espécie de esquizofrenia entre o m o d o de
í.i possível , nes te pontO, formu lar o utra hipótese, que co nside- tOllcebc,":1 socie dade e as re laçõcs entre seus atores e o modo de
ra:l pre missa de que os camponeses são o ccntro da d is puta d e sen-

,. "
I ncsita A.mijo

procur.u- intervir nessa socie dade, por intermédio das práticas co- A RECONVERSÃO DO OU lAR
municativas. TEMA DE Procc:sso~ de produç~o d os s~midos no univcr'lIO d:l.
Um a idé ia que tentarei defender ao longo do Capítulo I é a de ESTUDO Interv~nção soc.i:ll.
que tamo a d ificu ldade de extrapolar a abordagem dicotômica como OBJ ETIVO I'mpor uma rceo oven;âo do olhar sob re: as práticas ins·
os limites das revisões críticas intentadas situam-se no fato de ter tltucionais de eomunieaç-.io no meiO rural. lnstiruindo um
modo d e: abordagem que: tome por refcrenciõLl teórico um
pennanccido intocada a concepção lingüística que se encontra subja- dado L"Unjunto de teses d~ Semiologia dos Dlscursos Sociais e
cente aos modelos dominantes, que estabelece a Iíngu:l como e spaço por rcf~rência empíriCol ~ L'Onstruçio das relações MX:lais peb
de interação e a comunicação como um processo d e ajustamento de via discursiVll.
OBJETO
códigos.
Essas hipóteses c premissas orientam a formulação e a condu- Te:órlco O interesse c aplicabilidad<;: das teorias sc: miológieas
ao processo d e produçao dos sentidos no umpo d~~ politl-
ção do presente trabalho, que propõc um outro modo de abordar as eas de intervenção so d ;rJ.
práticas discursivas no meio rural, tomando como referencial teóli- EmpíriCO A!; prátiCôls dIscursivas das inst.ituiçõcs e grupos inte-
co as teses da Sem io logia dos Discursos Sociais. Estas refonnulam o ress<l.dos em int<;:rvir 001. realidade rural da região Nordeste.
modo de perceber as relaçõcs comunicativas entre as instituições e HIPÓTESES
os destinatários de suas políticas sociais . A Semiologia dos Discursos GenériC3 A Scmlologia dos Discursos Sociais possibillta i C......
Sociais, que será tratada em detalhes no Capítulo 11 , é uma disciplina , municação para li. InteJYenç~o SOCial um a\';lnço em relação
nova, com um acentuado potencial de renovação da abordagem das ao seu aNal e:stágio de: dcscn\"Olvimemo, ca ....u:terizado este
por um ap~rente antagonismo e ntre: dois modelos de al,."a o.
pr.íticas sociais e pode ser definida, inicialmente , com o "ciência que dicOlOmia que imobili2.ll a produção do conh e cime:nto.
estuda os fenômenos sociais como fenô m e nos de produção de senti-
Es p ecíficas 1. A.~ instituiçoes panicipmn d e um mcread osimbólieo.
dos". no qual disputam a dominância na produção dos sc:midos. ou
Não é minha pretensão formu lar um mode lo semiológico de seja. disputam a pre\'alência do s~u modo de pcn.:eber e pla-
comunicação para a intervenção social, m as propor uma recotlver- nejar 3 SOCiedad e .
sâo do o/bar, como modo de romper os limites dos modelos domi- 2. A prática socjodiscursi~. denuncia um e:ixo d e: arti-
nantes e abrir cami nho para uma posterior construçiio de um culação da socic:dade: pela disputa do Ixx.!<;:r simbó lico e:
negoJ pardõLlmcmc 3 rctórk. da anicu lação pela solidarie:da-
modelo operacional e compatível com a concepção poLítica de socie- d o.
dade e intervenção social que os núcleos discursivos demonstram
3. Os di~cun;os da.s organizaçõcs dirigidos aos campo-
ter. O quadro seguinte sintetiza e o rganiza as p rincipais p ropostas neses = m marcas d<l. cena soc iai 00 qual estão inscritos.
deste trabalho. Ess:lS marcas e:videnciam relaçôcs de conL"Orrênda entre os
núcleos d iscursivOS e dc domina<,.-ao emre estes e: os campo-
nc:sc:s. Pre missa: é na pcitica discursiva que os agentes ex-
pn:s~3m Sll:tS concepçóc:s sobre a MX:icdadc e as reiaçõcs
sociais. partidpando assim ativame:me da re-prod ução des-
sas relações .
4 . Camponeses s:io consldendos receptores passivos
dos discursos a eles dirlgidos e n.'i:o agente~ de uma práti ca
diM;ur.;iv-.I. Premissa: CôlmponesC$ s~o Interlocutores atIvos,
cxcrct m parei definitório na produção dos sc:midos clrcu ·
lantes.

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I ncsita A.mijo

procur.u- intervir nessa socie dade, por intermédio das práticas co- A RECONVERSÃO DO OU lAR
municativas. TEMA DE Procc:sso~ de produç~o d os s~midos no univcr'lIO d:l.
Um a idé ia que tentarei defender ao longo do Capítulo I é a de ESTUDO Interv~nção soc.i:ll.
que tamo a d ificu ldade de extrapolar a abordagem dicotômica como OBJ ETIVO I'mpor uma rceo oven;âo do olhar sob re: as práticas ins·
os limites das revisões críticas intentadas situam-se no fato de ter tltucionais de eomunieaç-.io no meiO rural. lnstiruindo um
modo d e: abordagem que: tome por refcrenciõLl teórico um
pennanccido intocada a concepção lingüística que se encontra subja- dado L"Unjunto de teses d~ Semiologia dos Dlscursos Sociais e
cente aos modelos dominantes, que estabelece a Iíngu:l como e spaço por rcf~rência empíriCol ~ L'Onstruçio das relações MX:lais peb
de interação e a comunicação como um processo d e ajustamento de via discursiVll.
OBJETO
códigos.
Essas hipóteses c premissas orientam a formulação e a condu- Te:órlco O interesse c aplicabilidad<;: das teorias sc: miológieas
ao processo d e produçao dos sentidos no umpo d~~ politl-
ção do presente trabalho, que propõc um outro modo de abordar as eas de intervenção so d ;rJ.
práticas discursivas no meio rural, tomando como referencial teóli- EmpíriCO A!; prátiCôls dIscursivas das inst.ituiçõcs e grupos inte-
co as teses da Sem io logia dos Discursos Sociais. Estas refonnulam o ress<l.dos em int<;:rvir 001. realidade rural da região Nordeste.
modo de perceber as relaçõcs comunicativas entre as instituições e HIPÓTESES
os destinatários de suas políticas sociais . A Semiologia dos Discursos GenériC3 A Scmlologia dos Discursos Sociais possibillta i C......
Sociais, que será tratada em detalhes no Capítulo 11 , é uma disciplina , municação para li. InteJYenç~o SOCial um a\';lnço em relação
nova, com um acentuado potencial de renovação da abordagem das ao seu aNal e:stágio de: dcscn\"Olvimemo, ca ....u:terizado este
por um ap~rente antagonismo e ntre: dois modelos de al,."a o.
pr.íticas sociais e pode ser definida, inicialmente , com o "ciência que dicOlOmia que imobili2.ll a produção do conh e cime:nto.
estuda os fenômenos sociais como fenô m e nos de produção de senti-
Es p ecíficas 1. A.~ instituiçoes panicipmn d e um mcread osimbólieo.
dos". no qual disputam a dominância na produção dos sc:midos. ou
Não é minha pretensão formu lar um mode lo semiológico de seja. disputam a pre\'alência do s~u modo de pcn.:eber e pla-
comunicação para a intervenção social, m as propor uma recotlver- nejar 3 SOCiedad e .
sâo do o/bar, como modo de romper os limites dos modelos domi- 2. A prática socjodiscursi~. denuncia um e:ixo d e: arti-
nantes e abrir cami nho para uma posterior construçiio de um culação da socic:dade: pela disputa do Ixx.!<;:r simbó lico e:
negoJ pardõLlmcmc 3 rctórk. da anicu lação pela solidarie:da-
modelo operacional e compatível com a concepção poLítica de socie- d o.
dade e intervenção social que os núcleos discursivos demonstram
3. Os di~cun;os da.s organizaçõcs dirigidos aos campo-
ter. O quadro seguinte sintetiza e o rganiza as p rincipais p ropostas neses = m marcas d<l. cena soc iai 00 qual estão inscritos.
deste trabalho. Ess:lS marcas e:videnciam relaçôcs de conL"Orrênda entre os
núcleos d iscursivOS e dc domina<,.-ao emre estes e: os campo-
nc:sc:s. Pre missa: é na pcitica discursiva que os agentes ex-
pn:s~3m Sll:tS concepçóc:s sobre a MX:icdadc e as reiaçõcs
sociais. partidpando assim ativame:me da re-prod ução des-
sas relações .
4 . Camponeses s:io consldendos receptores passivos
dos discursos a eles dirlgidos e n.'i:o agente~ de uma práti ca
diM;ur.;iv-.I. Premissa: CôlmponesC$ s~o Interlocutores atIvos,
cxcrct m parei definitório na produção dos sc:midos clrcu ·
lantes.

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"
"O texto quer dizer tecido." (Roland Banhes)
Uma ruptura instauradora
"O ter sido foi tecido, fio a fio , em miubas veias." (Raimundo Gadelha)

o título deste livro expressa, então, uma intenção e uma pro-


posta . Foi inspirado num trecho de O poder simbólicu, de J>ielTe A clássica divisão e ntre teoria e metodologia pode ser vista como
Bou rdieu, em que ele coment:! a necessidade de uma ruptu ra com fruto da apliC'.tção, no campo do con hecimento, da divisão sodal do
modos de pensar, com conceitos e com métodoS que têm a aparê n- trab:t1ho, cuja utilização acrítica tende :t transformas a metodologia
cia de bom senso cie ntífico, estabelecendo "um novo o lhar", na im- em um receituário de técnicas desconectadas da especificidade dos
possibilidade da produção de "um homem novo". Bouroieu (ala em objeros (a cargo dos metod610gos) c:t teoria num conjunto de idéias
"conversa0 do pcnsamelllo" ou "revoluçãO do o lhar", referind o-sc desvinculadas do modo d e construção do objeto e da verificação em-
ao rompimentO com o pré-construído e com tudo que o s ustenta pírica. oi
como no rma fundamental da prática científica. Concord:tndo com Tal preocupação se me afigurou tão logo percebi que a Semio-
ele, prefiro, porém , falar em "reconversão do olhar~ , levando e m logia dos Discursos Sociais punha e m foco aJguns conceitOS que
cons ideração que toda ruptura só é possível porque já existe um co- obrigaV'.I.ffi a repensar a adequaçÃo metodológica às convicções que
nheci mento antes constru ído c esse conhecimento integra as condi- eles expressam . Como afirma Lopes, "o saber de uma disciplina n:io
ções de produção do novo conhecimentO, sendo d ele constiruti\'o. é desmcável d e sua implementação na investigação" (1990: 79) . Isto
Creio que o mais :Idcquado seria falar e m uma "ruptur.t instaurado- é mais fácil de pe rcebe.. quando se trata do método de pesquisa de
ra" usando uma fóm1Ula de Michel de Certeau , que não supõe apa- campo, ou tr.ttamemo dos dados empíricos, muito embora h:lja uma
ga:;ls marcas da experiência e do conhecimento acumulados, o que forte te ndência para se tomarem os métodos de pesquisa gerados a
seria de fato impossívd, m:LS n:dirccion;lf o esforço intcle<'tual no partir de um paradigma - o positivista - e no seio de uma determina-
sentido de entenderas limites desse saber, questioná-los e instaurar da conjuntura histórica e sociaJ - a da sociedade no rte·americana
princípios de um novo s:lber, produzido por um outro modo de dos anos 40-60- por uma metodologia científica de validade univer-
olhar. sal. isenta de comprometimentos de qualquer narun. .za, inclusive
Trata-se, então, de reconvcrteroolhare instiruir um outro modo ideológicos.5 É a relação sujeilo-objeto, porém, que exige maior
de perceber as pr:'uicas d e comunicação das instituições que desenvol- atençi.o do pesquisador, tanto por ser :di mais dificil escapar às im-
vem políticas d e imervenç:io, mais especificamente no meio rural. posições paradigmáticas dominantes, <Iue conferem ares de cientifi-
Temos aqui alguns problemas de ordem metodológica, que p0- cidade e neutralidade aos procedimentos objelivist:lS, quanto por
deriam se r resumidos na segui nte questão: como situar o problema ser o ponto mais relegado na construçao da coerência teórico-meto-
d:\ produção de conhecimento delllro da 5emio logia dos Discur.iOS dológica e da comprovação da validade de uma linha anaJítica.
Sociais? A Semiologia traz consigo postulados que não podem se ..
consider-J,dos r;10 somcme no plano teórico, impondo uma reflexão
também metodo lógica . A reconversão do o lhar exige uma mudança 4 Bourdieu "r.ríhul a con~"gl'lllçio dcssa f6rmula 11 "/)(Iftll"8 cJcn tífk.(· a seu ver
form:l.d:l. por Parson5. Menon e I.v.õusfcld, cuja Jegitim:l.çio cstni~ ;I$sociada;'
de perspectiva e m todos os sentidos, dos quais des taco dois, um de- posição de dom,nâncb Intemadorul dos EUA. Um a bo:a d lscuss.;\o CTÍI;"." ,b
corrente do outro: o d a natureza intenextual do processo analítico e dicOl:omia IL'Ori:l-mc«xlolo gia pode se r enconU'ada e m Howard Bccker. Sob
a relação do pesquisador com seu objeto. O que se segue não pre- OUtro ângulo. m~~ aind" no Icrritório da discussão e pistcmológica sobre meiO-
dolugia, há O Uvro do.: lmacolana V. Lopes.
tende ser um "tratado" sobre o tema, mas, tomando emprestadas P:I-
b vras de wiugens tein, "' fr.lgmentos de uma novo' maneira de pensar 5 O própriO Icnno "o bjeto de estudo" i: produto dCM:I ,i >ã o metodológica. Vou
ulill:Ú·lolllq\li, e mbur.. s:l.bcdora de :;U:l.$ implicaçõcS o.: correndo o risco de pa·
e de agi r~ . n.:o.:er comr:ldltória, por n:'io cncon!r.lrou u'O IIUo.: possa corresponder com ela-
TC'. ta ao seu To;:f<.:rcnlc.

" "
"O texto quer dizer tecido." (Roland Banhes)
Uma ruptura instauradora
"O ter sido foi tecido, fio a fio , em miubas veias." (Raimundo Gadelha)

o título deste livro expressa, então, uma intenção e uma pro-


posta . Foi inspirado num trecho de O poder simbólicu, de J>ielTe A clássica divisão e ntre teoria e metodologia pode ser vista como
Bou rdieu, em que ele coment:! a necessidade de uma ruptu ra com fruto da apliC'.tção, no campo do con hecimento, da divisão sodal do
modos de pensar, com conceitos e com métodoS que têm a aparê n- trab:t1ho, cuja utilização acrítica tende :t transformas a metodologia
cia de bom senso cie ntífico, estabelecendo "um novo o lhar", na im- em um receituário de técnicas desconectadas da especificidade dos
possibilidade da produção de "um homem novo". Bouroieu (ala em objeros (a cargo dos metod610gos) c:t teoria num conjunto de idéias
"conversa0 do pcnsamelllo" ou "revoluçãO do o lhar", referind o-sc desvinculadas do modo d e construção do objeto e da verificação em-
ao rompimentO com o pré-construído e com tudo que o s ustenta pírica. oi
como no rma fundamental da prática científica. Concord:tndo com Tal preocupação se me afigurou tão logo percebi que a Semio-
ele, prefiro, porém , falar em "reconversão do olhar~ , levando e m logia dos Discursos Sociais punha e m foco aJguns conceitOS que
cons ideração que toda ruptura só é possível porque já existe um co- obrigaV'.I.ffi a repensar a adequaçÃo metodológica às convicções que
nheci mento antes constru ído c esse conhecimento integra as condi- eles expressam . Como afirma Lopes, "o saber de uma disciplina n:io
ções de produção do novo conhecimentO, sendo d ele constiruti\'o. é desmcável d e sua implementação na investigação" (1990: 79) . Isto
Creio que o mais :Idcquado seria falar e m uma "ruptur.t instaurado- é mais fácil de pe rcebe.. quando se trata do método de pesquisa de
ra" usando uma fóm1Ula de Michel de Certeau , que não supõe apa- campo, ou tr.ttamemo dos dados empíricos, muito embora h:lja uma
ga:;ls marcas da experiência e do conhecimento acumulados, o que forte te ndência para se tomarem os métodos de pesquisa gerados a
seria de fato impossívd, m:LS n:dirccion;lf o esforço intcle<'tual no partir de um paradigma - o positivista - e no seio de uma determina-
sentido de entenderas limites desse saber, questioná-los e instaurar da conjuntura histórica e sociaJ - a da sociedade no rte·americana
princípios de um novo s:lber, produzido por um outro modo de dos anos 40-60- por uma metodologia científica de validade univer-
olhar. sal. isenta de comprometimentos de qualquer narun. .za, inclusive
Trata-se, então, de reconvcrteroolhare instiruir um outro modo ideológicos.5 É a relação sujeilo-objeto, porém, que exige maior
de perceber as pr:'uicas d e comunicação das instituições que desenvol- atençi.o do pesquisador, tanto por ser :di mais dificil escapar às im-
vem políticas d e imervenç:io, mais especificamente no meio rural. posições paradigmáticas dominantes, <Iue conferem ares de cientifi-
Temos aqui alguns problemas de ordem metodológica, que p0- cidade e neutralidade aos procedimentos objelivist:lS, quanto por
deriam se r resumidos na segui nte questão: como situar o problema ser o ponto mais relegado na construçao da coerência teórico-meto-
d:\ produção de conhecimento delllro da 5emio logia dos Discur.iOS dológica e da comprovação da validade de uma linha anaJítica.
Sociais? A Semiologia traz consigo postulados que não podem se ..
consider-J,dos r;10 somcme no plano teórico, impondo uma reflexão
também metodo lógica . A reconversão do o lhar exige uma mudança 4 Bourdieu "r.ríhul a con~"gl'lllçio dcssa f6rmula 11 "/)(Iftll"8 cJcn tífk.(· a seu ver
form:l.d:l. por Parson5. Menon e I.v.õusfcld, cuja Jegitim:l.çio cstni~ ;I$sociada;'
de perspectiva e m todos os sentidos, dos quais des taco dois, um de- posição de dom,nâncb Intemadorul dos EUA. Um a bo:a d lscuss.;\o CTÍI;"." ,b
corrente do outro: o d a natureza intenextual do processo analítico e dicOl:omia IL'Ori:l-mc«xlolo gia pode se r enconU'ada e m Howard Bccker. Sob
a relação do pesquisador com seu objeto. O que se segue não pre- OUtro ângulo. m~~ aind" no Icrritório da discussão e pistcmológica sobre meiO-
dolugia, há O Uvro do.: lmacolana V. Lopes.
tende ser um "tratado" sobre o tema, mas, tomando emprestadas P:I-
b vras de wiugens tein, "' fr.lgmentos de uma novo' maneira de pensar 5 O própriO Icnno "o bjeto de estudo" i: produto dCM:I ,i >ã o metodológica. Vou
ulill:Ú·lolllq\li, e mbur.. s:l.bcdora de :;U:l.$ implicaçõcS o.: correndo o risco de pa·
e de agi r~ . n.:o.:er comr:ldltória, por n:'io cncon!r.lrou u'O IIUo.: possa corresponder com ela-
TC'. ta ao seu To;:f<.:rcnlc.

" "
'ne$lla lIraúJa

Se acei!:tmos a idé ia de que discursos são um sistema de "efei· em "ma rede ( .. .). Ctmwfla ascVlulições dI! produção do lliscu rSQ e de Sll// ob·
jeto (.. .) Um dlscllrso flullllerá portal/to lima ma~c(.l de cielllifici~u(l,", e;>.pfic/·
lOS de sentido"; se estamos lidando com e produzindo um discun;o tmulo as cOlldlçó<ts e IIS rt'gras d/! SlIfl protluçtlf) .., em primeIro (lig ar, as
científico ; se discursos funcionam dentro de um "sistem a prod uti· relaç()es de VIu/e m lsu.( 19<J4 : 11 0).
vo"; se entendemos que o conhecimento científico é moed a c ircu·
A relação do analista com o objelo e nvolve, porem, outrdS con·
lante no "mercado simbólico " dos sentid os produzidos. fica fácil
s iderações. A prática científica d o minante impôc o distanciamento
perceber que
entre o pesquisado r c o objeto pesquisado, com o fim de aumentar
(Iproblem" do ronbl!Clm.mto sltua·se nu Imerlorde uma f//Iustclo milito mais ao máximo a isenção e a neutr.uidade, bem·vistas na p erspecliva p0-
ampla, a sabt'r, a fJmwclo do SISllJflll1 prodllfillO dos tliscursos sociais, o qual
ê, por s//a IICZ; //mfragmelllo do campo de produçQo soela' ,lo t emido. (VeTÓn ,
sitiVista dt: ciência . É O processo d e objetivação da realidade, que eli·
1980: 103) minaria os vieses de toda natureza e marClria a disIinção entre
ciê ncia e ideologia. Como objetivar, porém , algo no qual se está pro-
Se assim é, torna-se indispens;ivel aplicar alguns princípios se- funda me nte implicado? Não creio ser possível. O interesse e a pe r-
miológicos da produção do seI/lido ao (mto metodológico do obje· ccpç:"io que provê m do fato de se pcn'e ncer a um determinado
to . O da existência de um mercado simbólico está na base da campo têm OUU-dS características bem distintas daqueles do analista
concepção de funcionamento social que aqui se adota, fuzendo-se cx6geno. Envolvem não s6 uma forma de con hecime nto p rático,
presente forteme nte ao longo d o trabalho. Por isso quero me referir que mantém urna relaç:io dialética com o conhecimento teórico, mas
a outro p rincípio, o da "intertextualidade", que influi deciSivamente também im plica ser parte consl itUliva do objeto. Não há como de·
nas minhas opções me todológicas. marcar rigidame nte os Limites e ntre o pesquisador (e seu discurso
A anál ise de um texto d entro do universo textual q ue lhe cor- analisador) e o objeto pesquisado. O objeto não está lá, pronto, já
responde abre proficuos caminhos para o entendimento da sua dado , à espera do analista, por um "aro teórico inaugural", mas se
constituição e do modo de o su jeito participar do jogo de produção constitui no processo das relações sociais, do qual este participa. Nas
dos sentidos . A rede de relações com textos que lhe an tecedem lhe p:l1avras de Bou rdieu, o o bjeto "é prodUZido socialmente, num tra·
são contemporâneos o u com texros vindouros permite. entre ourras balho coletivo de construção d a realidade social e por meio d este
vantage ns, dialetizar a relação leirura-escritur:.1 (Dosse, 1994: 76) , re· t"lbaUlo" ( 1989: 37). No meu caso panicu lar, esta caraCl"eríst.icd. se
lativizando a concepção d e au toria c mooificandoo est:ltulo dos tex· acenroa, por estar I·r:.uando de processos de I.inguagem, de práticas
tOS e autores convocad os para a fundame ntação do q ue se produz. d iscursivas, que não se pode separar d e s ua histo ricidade e que de fi·
Passa-se a perceber o trabalho intelectual como pane de um trabalho nem a historicidade de todos os atores envolvidos.
coletivo, elo de uma rede de intercâmbios, que SÓ pode ser compre- Po r o utro lad o , há se m dúvida um a diferenciação eDlre pesqui.
endido se for leV:ldo em consideração o universo textual em que se sador e pesquisado, que é demarcada pelo lugar de o nde se o lha.
inscreve, considerado como COftdição de produção . A historicização Como diz Bakthin, o que vemos é dctcnninado pelo lugar de o nde
adquire suma importância neste quadro de reflexõcs, e no ambiente ve mos. E é inevit'.ível pensar a partir de um lugar, que no caso de um
teórico semiológico é condição de cientificidade. produlOrde uma disse rtação está também inscrito c m o urras "fo rma·
Isso pode ser aplicado também à relação do analis ta com o ob- çõt.'S discu rsivas", dis tintas daquelas do agente da prÁtica social . Eu
jeto, ao modo de conce.lx-to e aode construí-to . Nas palavras de Cer· não posso evitar pensar as práticas discu rsivas das instituições a par·
teau, Ilrdesse o utro tugar e assi m dissolver os vários textos desse universo
ao "esquecer" o trabalho coleti/IO nu qual se inscrem/!, uo isolar d/! sua gêfl/!51! na minha noV"J. culrura, amalgamada , comp6sita de conhecimento
histórica O obj/!ffJ de sell d iscurso, Iml "tll//or" pratica a denegaçâo d/! sua si. prático e teó rico.
I"açdo real. 1:'1<1 Critl aficçdo do 11111 IIIJ;ar próprio. ( ... ) O (l/O de iroJar ti reM.
ção Sltjei/(NJbjeto 0 11 a reltlÇfJo dlscuno-objeto I a aburaçâu que gera IInIa Po r o utro lado, ainda, se tomo como verdadeird a existência de
nm,,'uçdo de "autor". l:;'S54' mo apaga os /raçQS de pertença de lima pesquisa UIII mercado simbólico no <Iual, como afirmei, o conhecime nto cien-

lO li
'ne$lla lIraúJa

Se acei!:tmos a idé ia de que discursos são um sistema de "efei· em "ma rede ( .. .). Ctmwfla ascVlulições dI! produção do lliscu rSQ e de Sll// ob·
jeto (.. .) Um dlscllrso flullllerá portal/to lima ma~c(.l de cielllifici~u(l,", e;>.pfic/·
lOS de sentido"; se estamos lidando com e produzindo um discun;o tmulo as cOlldlçó<ts e IIS rt'gras d/! SlIfl protluçtlf) .., em primeIro (lig ar, as
científico ; se discursos funcionam dentro de um "sistem a prod uti· relaç()es de VIu/e m lsu.( 19<J4 : 11 0).
vo"; se entendemos que o conhecimento científico é moed a c ircu·
A relação do analista com o objelo e nvolve, porem, outrdS con·
lante no "mercado simbólico " dos sentid os produzidos. fica fácil
s iderações. A prática científica d o minante impôc o distanciamento
perceber que
entre o pesquisado r c o objeto pesquisado, com o fim de aumentar
(Iproblem" do ronbl!Clm.mto sltua·se nu Imerlorde uma f//Iustclo milito mais ao máximo a isenção e a neutr.uidade, bem·vistas na p erspecliva p0-
ampla, a sabt'r, a fJmwclo do SISllJflll1 prodllfillO dos tliscursos sociais, o qual
ê, por s//a IICZ; //mfragmelllo do campo de produçQo soela' ,lo t emido. (VeTÓn ,
sitiVista dt: ciência . É O processo d e objetivação da realidade, que eli·
1980: 103) minaria os vieses de toda natureza e marClria a disIinção entre
ciê ncia e ideologia. Como objetivar, porém , algo no qual se está pro-
Se assim é, torna-se indispens;ivel aplicar alguns princípios se- funda me nte implicado? Não creio ser possível. O interesse e a pe r-
miológicos da produção do seI/lido ao (mto metodológico do obje· ccpç:"io que provê m do fato de se pcn'e ncer a um determinado
to . O da existência de um mercado simbólico está na base da campo têm OUU-dS características bem distintas daqueles do analista
concepção de funcionamento social que aqui se adota, fuzendo-se cx6geno. Envolvem não s6 uma forma de con hecime nto p rático,
presente forteme nte ao longo d o trabalho. Por isso quero me referir que mantém urna relaç:io dialética com o conhecimento teórico, mas
a outro p rincípio, o da "intertextualidade", que influi deciSivamente também im plica ser parte consl itUliva do objeto. Não há como de·
nas minhas opções me todológicas. marcar rigidame nte os Limites e ntre o pesquisador (e seu discurso
A anál ise de um texto d entro do universo textual q ue lhe cor- analisador) e o objeto pesquisado. O objeto não está lá, pronto, já
responde abre proficuos caminhos para o entendimento da sua dado , à espera do analista, por um "aro teórico inaugural", mas se
constituição e do modo de o su jeito participar do jogo de produção constitui no processo das relações sociais, do qual este participa. Nas
dos sentidos . A rede de relações com textos que lhe an tecedem lhe p:l1avras de Bou rdieu, o o bjeto "é prodUZido socialmente, num tra·
são contemporâneos o u com texros vindouros permite. entre ourras balho coletivo de construção d a realidade social e por meio d este
vantage ns, dialetizar a relação leirura-escritur:.1 (Dosse, 1994: 76) , re· t"lbaUlo" ( 1989: 37). No meu caso panicu lar, esta caraCl"eríst.icd. se
lativizando a concepção d e au toria c mooificandoo est:ltulo dos tex· acenroa, por estar I·r:.uando de processos de I.inguagem, de práticas
tOS e autores convocad os para a fundame ntação do q ue se produz. d iscursivas, que não se pode separar d e s ua histo ricidade e que de fi·
Passa-se a perceber o trabalho intelectual como pane de um trabalho nem a historicidade de todos os atores envolvidos.
coletivo, elo de uma rede de intercâmbios, que SÓ pode ser compre- Po r o utro lad o , há se m dúvida um a diferenciação eDlre pesqui.
endido se for leV:ldo em consideração o universo textual em que se sador e pesquisado, que é demarcada pelo lugar de o nde se o lha.
inscreve, considerado como COftdição de produção . A historicização Como diz Bakthin, o que vemos é dctcnninado pelo lugar de o nde
adquire suma importância neste quadro de reflexõcs, e no ambiente ve mos. E é inevit'.ível pensar a partir de um lugar, que no caso de um
teórico semiológico é condição de cientificidade. produlOrde uma disse rtação está também inscrito c m o urras "fo rma·
Isso pode ser aplicado também à relação do analis ta com o ob- çõt.'S discu rsivas", dis tintas daquelas do agente da prÁtica social . Eu
jeto, ao modo de conce.lx-to e aode construí-to . Nas palavras de Cer· não posso evitar pensar as práticas discu rsivas das instituições a par·
teau, Ilrdesse o utro tugar e assi m dissolver os vários textos desse universo
ao "esquecer" o trabalho coleti/IO nu qual se inscrem/!, uo isolar d/! sua gêfl/!51! na minha noV"J. culrura, amalgamada , comp6sita de conhecimento
histórica O obj/!ffJ de sell d iscurso, Iml "tll//or" pratica a denegaçâo d/! sua si. prático e teó rico.
I"açdo real. 1:'1<1 Critl aficçdo do 11111 IIIJ;ar próprio. ( ... ) O (l/O de iroJar ti reM.
ção Sltjei/(NJbjeto 0 11 a reltlÇfJo dlscuno-objeto I a aburaçâu que gera IInIa Po r o utro lado, ainda, se tomo como verdadeird a existência de
nm,,'uçdo de "autor". l:;'S54' mo apaga os /raçQS de pertença de lima pesquisa UIII mercado simbólico no <Iual, como afirmei, o conhecime nto cien-

lO li
r""SI/OMOÚjo

tífico é moeda forte , é preciso assumi.r que estou em pleno exercício metodologia, que, apesar de olhar o objeto por dentro , mantém os
do jogo estr'.négico de interesses que move tal mercado. O poder de lugares mu ito bem demarcados. Pretendo tratar da construção do
fazer ver c fazer crer, objeto de toda disputa de poder simbólico, está objeto a panir da minha experiência pessoal como agente da prática
associado ao capital culrural dos agentes. Além disso, :10 organ i7.ar que busco analisar. Tomar como rcferencia meu percurso, recons-
sobdetenninada perspectiva os fatos sociais que formam o objeto de truir a sociogenesedo meu pensamento, isto faz parte d as condiçóes
eStudo, estou tentando produzi r um dado efeito de se ntido ao im- de desenvolvimento desse pensame nto e , conseqüememelHe, do
primir à realidade um princípio de classificação (se vai ser acolhido obje to, fazendo e ntende r como ele se ofereceu à minha percepção,
ou não, isso d epender.í. do quantO corresponde à pe rcepção dos d e- marcada por quais variáveis históricas, políticas , sociais e p essoais.
mais agentes, à sua necessidade de explicação dos fatos , do meu capi- Em o utros termos, com preender o que, no curso d os aconteci men-
tal simbólico acumu lado e da concorrência discur.!iiva, entre outros tOS dos últimos 25 anos, fo rjou meu modo de olhar sobre os fatos ,
fatores) . Como diz Certeau, "o s 'objetos' de nossas pesquisas 11:10 produzindo assim O meu o bjeto de análise.
podem ser d estacados do 'comércio' intelectual e social que organi- Encerro este tópico com a \-"Oz de Bourdieu , que muito refletiu
za suas dis tinções e seus deslocamentos (op. cit. : 110).
M
e escreveu sobre os proble mas da constnlção do conhecimento: "A
Há também que considerar a força da intertextualidade, que faz condição preliminar d e toda conslrução de ob jeto é o controle da re-
falar por meu tCXto mú ltiplas vozes que também são parte do objeto lação muitas vezes inconsciente e obscura , com o objeto a ser cons-
e que por essa via participam do mercado simbólico, sem que sobre truído" (1990: 134) . Fo i isto que tentei fazer e que poderá ficar mais
e las eu possa exerce r ple no controle. daro no próximo tópico, em que apresento c justifico o percurso do
Diame desses dilemas, enCOntro algumas soluçõcs. A primeira, trabalho.
certame nte , é entender e aceitar que a verdade do mundo social é
sempre constituída por uma dupla dimen.s.1.o, a objetiva e a subjetiva, Percurso
e que recusar essa evidência leva a criar artificialismos que pOdem re-
sultar infrutíferos. Uma possibilidade de conciliar essas dimensões no
p lano da anáJise é ficar com a fórmula bourdieuniana de "objetivação l.evando-se em conta as reflexões anteriores, talvez seja possí-
participante", por intennédio da qual se tem:t demarcar os detenni- vel en tender meu interesse e m romper com os p ré-construídos no
names sociais e individuais "dos próprios princípios de apreensão d e campo d as práticas de comun.icaç.'io no meio rural. Ao invés de s im-
qualquer o bje to possível" (op. di .: 51) . plesmente escolher um d os modelos dis poníveis e f.aê-Io funcionar
A segunda é solidificar a decisão de forçar os limites da lingua- med iante sua aplicação a uma realidade , o pte i por identificar o tra-
gem, já que de suas redes somos cativos, buscando desnaturalizar as balho social de consrrução dos instrumentos que desenh am a reali-
práticas discursivas (inclusive a minha). dade nesse campo particu lar.
Finalmente, optar por uma abordagem u!órico·feno menológi- Repito, sou parte interessada no jogo de disputas de sentido
ca do objeto a ser estudado , assert iv--.l que pede um esclarecimento . em que esse trabalho se dá. Por isso, vou mais aJém : não só ide mifi-
Uso o termo "fe nomenológico" com um sentido mais metafó rico co , mas procuro avaliar criticamente a :Idequação das o rientações
que preciso, se considerarmos a linha fil osófica de pcnsamemo d a paradigmáticas às necessidades das instituiçôcs (Capítulo I) c: propo-
fenomenologia , que prima por reduzir o objeto à sua essência. Nãoé nho uma reorientação teórica (Capítulo 11) . Mas isso é algo novo,
isto que pretendo e sim evitar me acercar do objeto de um modo pu- nesse campo: não há rastros a seguir. Então. tesro a viabilidade e a
mmente inte lectual. Não pretendo, porém, recorrer à pesquisa parti- ulilidade do enfoque (Capítulo \rI) .
cipante - que leva às últimas conseqüências a relação pesquisa/ação Com Bo urdieu, acredito que, quando se trata do mundo social ,
política e é mais apropriada a o utro tipo de proposta - e nem à Etno- falar com autoridade s ignifica fazer. A questão da autOridade re lacio--

12 lJ
r""SI/OMOÚjo

tífico é moeda forte , é preciso assumi.r que estou em pleno exercício metodologia, que, apesar de olhar o objeto por dentro , mantém os
do jogo estr'.négico de interesses que move tal mercado. O poder de lugares mu ito bem demarcados. Pretendo tratar da construção do
fazer ver c fazer crer, objeto de toda disputa de poder simbólico, está objeto a panir da minha experiência pessoal como agente da prática
associado ao capital culrural dos agentes. Além disso, :10 organ i7.ar que busco analisar. Tomar como rcferencia meu percurso, recons-
sobdetenninada perspectiva os fatos sociais que formam o objeto de truir a sociogenesedo meu pensamento, isto faz parte d as condiçóes
eStudo, estou tentando produzi r um dado efeito de se ntido ao im- de desenvolvimento desse pensame nto e , conseqüememelHe, do
primir à realidade um princípio de classificação (se vai ser acolhido obje to, fazendo e ntende r como ele se ofereceu à minha percepção,
ou não, isso d epender.í. do quantO corresponde à pe rcepção dos d e- marcada por quais variáveis históricas, políticas , sociais e p essoais.
mais agentes, à sua necessidade de explicação dos fatos , do meu capi- Em o utros termos, com preender o que, no curso d os aconteci men-
tal simbólico acumu lado e da concorrência discur.!iiva, entre outros tOS dos últimos 25 anos, fo rjou meu modo de olhar sobre os fatos ,
fatores) . Como diz Certeau, "o s 'objetos' de nossas pesquisas 11:10 produzindo assim O meu o bjeto de análise.
podem ser d estacados do 'comércio' intelectual e social que organi- Encerro este tópico com a \-"Oz de Bourdieu , que muito refletiu
za suas dis tinções e seus deslocamentos (op. cit. : 110).
M
e escreveu sobre os proble mas da constnlção do conhecimento: "A
Há também que considerar a força da intertextualidade, que faz condição preliminar d e toda conslrução de ob jeto é o controle da re-
falar por meu tCXto mú ltiplas vozes que também são parte do objeto lação muitas vezes inconsciente e obscura , com o objeto a ser cons-
e que por essa via participam do mercado simbólico, sem que sobre truído" (1990: 134) . Fo i isto que tentei fazer e que poderá ficar mais
e las eu possa exerce r ple no controle. daro no próximo tópico, em que apresento c justifico o percurso do
Diame desses dilemas, enCOntro algumas soluçõcs. A primeira, trabalho.
certame nte , é entender e aceitar que a verdade do mundo social é
sempre constituída por uma dupla dimen.s.1.o, a objetiva e a subjetiva, Percurso
e que recusar essa evidência leva a criar artificialismos que pOdem re-
sultar infrutíferos. Uma possibilidade de conciliar essas dimensões no
p lano da anáJise é ficar com a fórmula bourdieuniana de "objetivação l.evando-se em conta as reflexões anteriores, talvez seja possí-
participante", por intennédio da qual se tem:t demarcar os detenni- vel en tender meu interesse e m romper com os p ré-construídos no
names sociais e individuais "dos próprios princípios de apreensão d e campo d as práticas de comun.icaç.'io no meio rural. Ao invés de s im-
qualquer o bje to possível" (op. di .: 51) . plesmente escolher um d os modelos dis poníveis e f.aê-Io funcionar
A segunda é solidificar a decisão de forçar os limites da lingua- med iante sua aplicação a uma realidade , o pte i por identificar o tra-
gem, já que de suas redes somos cativos, buscando desnaturalizar as balho social de consrrução dos instrumentos que desenh am a reali-
práticas discursivas (inclusive a minha). dade nesse campo particu lar.
Finalmente, optar por uma abordagem u!órico·feno menológi- Repito, sou parte interessada no jogo de disputas de sentido
ca do objeto a ser estudado , assert iv--.l que pede um esclarecimento . em que esse trabalho se dá. Por isso, vou mais aJém : não só ide mifi-
Uso o termo "fe nomenológico" com um sentido mais metafó rico co , mas procuro avaliar criticamente a :Idequação das o rientações
que preciso, se considerarmos a linha fil osófica de pcnsamemo d a paradigmáticas às necessidades das instituiçôcs (Capítulo I) c: propo-
fenomenologia , que prima por reduzir o objeto à sua essência. Nãoé nho uma reorientação teórica (Capítulo 11) . Mas isso é algo novo,
isto que pretendo e sim evitar me acercar do objeto de um modo pu- nesse campo: não há rastros a seguir. Então. tesro a viabilidade e a
mmente inte lectual. Não pretendo, porém, recorrer à pesquisa parti- ulilidade do enfoque (Capítulo \rI) .
cipante - que leva às últimas conseqüências a relação pesquisa/ação Com Bo urdieu, acredito que, quando se trata do mundo social ,
política e é mais apropriada a o utro tipo de proposta - e nem à Etno- falar com autoridade s ignifica fazer. A questão da autOridade re lacio--

12 lJ
1,,~J1laArmljo

na-se com a da legitimidade, que começa a tomar forma no atO mes- ciência possível" de um dado grupo social está delimitada por inJun.
mo de pôr e m causa a naruralidade da ordem vigente; que se nutre ções teóricas, sim, mas também por determinantes históricas, polftiC'dS,
da mÍStica que envolve o saber domo da academia; que reforça·se sociais e instiructonais. VaJe pt:ruhu" no que disse $ante: os tipos de cons.
com o álibi da experiência vívida; mas que se defronta com um só li- ciência sáo insuperáveis e nquantO não for superado O movimento his.
do adve rsário, que são as representações par.ldigmáticas inscritas tó rico de que são expressão. Quando o movimemo histórico entra em
nas instituições e em seus agen tes. crise, configura·se uma "c rise de t eoria~ , que é "'a expressão panicular
Aqui faz-se necessário abrir um breve parê ntese para. esclarecer de uma crise social e seu imobilis mo é condicionado pelas contradi.
os conceitos que estão sendo utifuados de modelo e paradigma quc , ções que dilaceram a sociedade::" (Lopes, op. dr. : 33).
por admitirem acepções várias, reque rc m que se precise aquela ado- Parece-me que estamos vive ndo um mo me nto desses. O cená.
rada. Goza de gr.t.nde prestígio nos meios científicos a definição de rio no qual me situo é tipicamente de c rise. Há mic ro rrupruras visí.
Tho mas Kuhn (199 1: 2 18), segundo a qual paradigma é "3 constela· veis por todo lado. Os modelos de comunicação (e outros) não
ção d e valores, crenças. técnicas partilhadas pelos membros de uma atendem mais às necessidades instirucionais , mas o imobilismo do
comunidad e de[erminada". Para Kuhn, é o paradigma que estabele· cam po da produção teórica de conhecimentos é pat'e nte, num uni.
cc as mesmas regras c padrÕC!s para a prática cie ntífka d e um grupo - verso cuja relação entre prática e teoria é bastante estreita. Um me-
concepção adequada aos meios acadêmicos e de pesquls:t, principaJ- mento propício, como se vê. a propoSfas de "reconversao d o o lhar",
me nte àqueles lig:tdo s às ciências exatas e da natureza. Modific lOdo pois supõe-se uma prt:disposição para mudanças.
lige iramente os tcnnos da d efinição, par.t moldá·la ao universo aqui Não é fácil propor mudanças quando se tr'dta de práticas sociais,
tratado, paradigma será entendido como um conjunto de idé ias, me- porque, como diz CeMeau, "essas práticas VOlta e meia exace rbam e
d os de ser e de pensar que confere m identidade à prátiC'd de um dese ncaminham as nossas lógicas" (op. dt.: 43). Mais dificil ainda em
dado grupo social. O paradigma alUa sobre a escolha dos problemas te mpos d e c rise : velhos par.tdigmas mesclam-se com os emergentes ,
de pesquisa, o s mé todos de análise e avaliaç'do, a opção por esta o u de form a nem sem pre coerente, e o que era hOje amanhã já se modi-
aquela linha teórica e circunscreve O ele nco de modelos que vão di- ficou . Nesse quadro, a Icntativa de aprisionar um COntexto ou fazer
recionar a açao prática de um grupo. Ainda com Bourdieu , ·'esst! es- um recaMe minimamente estável da realidade é le merMia. De que
paço das ro madas de posição científicas (e e pistemológictS) sempre modo procure i cumprir essa rarefa? Dividindo·a em três panes.
comanda as práticas o u em todo caso sua signific:lção social, quer sai-
bamos ou não disso - e com certeza tanto mais brutalme nte quanto
me nos o sabemOS" ( 1990: 44) . o olhar dominante
Modelos são o paradigma visível, tangível, avaliável. Um mo de-
lo é uma fo nna, um mo lde pelo qual se procura analisar e explicar
A primeira parte relata a cOnstruçâo do o bjeto ao mesmo tem.
uma dada realidade . Por o utro lado, é a representação simbólica das
po em que caracteriza o olhar do minanre na co municação rural.
estruturas e relaçÕC!s que estão presentes no processo modelado . Como já disse , tomo como ponto de referência as vÁrias instâncias
Um paradigma pode com pona r diversos modelos, que, po r sua vez,
profissionais e intelec tuais pelas quais me constituí como agente so.
são fund ados em alguma teoria. Dito d essa forma, pode parecer que cial, numa a bordagem que inle::gr.t a minha pessoa no movimento
há uma rígida hier.lrqu ia entre teoria e modelo . quando, na verdade,
das idéias e d3 produção social do conhecimento sobre a comunica-
há uma circularidade: teorias ge ram modelos que possibilitam novas
ção rural. Bourdieu faz me nção, aludindo ao seu pró prio intento, à
teorias , que geram novos modelos . "i1usiio rerrospectiva" de quem procura fazer uma análise retroativa
I':trad igmas podem ser e ntendidos corno tipos de consciê ncia
da elaboração d e conceitos (1990: 3 1) . Para minimizar tal risco, do u
social possível , nos termos d iscutidos por Goldman (s/d) . A "cons- po r aceito que a visão de hOje eSlá confonnada pelos conhecimentos

"
1,,~J1laArmljo

na-se com a da legitimidade, que começa a tomar forma no atO mes- ciência possível" de um dado grupo social está delimitada por inJun.
mo de pôr e m causa a naruralidade da ordem vigente; que se nutre ções teóricas, sim, mas também por determinantes históricas, polftiC'dS,
da mÍStica que envolve o saber domo da academia; que reforça·se sociais e instiructonais. VaJe pt:ruhu" no que disse $ante: os tipos de cons.
com o álibi da experiência vívida; mas que se defronta com um só li- ciência sáo insuperáveis e nquantO não for superado O movimento his.
do adve rsário, que são as representações par.ldigmáticas inscritas tó rico de que são expressão. Quando o movimemo histórico entra em
nas instituições e em seus agen tes. crise, configura·se uma "c rise de t eoria~ , que é "'a expressão panicular
Aqui faz-se necessário abrir um breve parê ntese para. esclarecer de uma crise social e seu imobilis mo é condicionado pelas contradi.
os conceitos que estão sendo utifuados de modelo e paradigma quc , ções que dilaceram a sociedade::" (Lopes, op. dr. : 33).
por admitirem acepções várias, reque rc m que se precise aquela ado- Parece-me que estamos vive ndo um mo me nto desses. O cená.
rada. Goza de gr.t.nde prestígio nos meios científicos a definição de rio no qual me situo é tipicamente de c rise. Há mic ro rrupruras visí.
Tho mas Kuhn (199 1: 2 18), segundo a qual paradigma é "3 constela· veis por todo lado. Os modelos de comunicação (e outros) não
ção d e valores, crenças. técnicas partilhadas pelos membros de uma atendem mais às necessidades instirucionais , mas o imobilismo do
comunidad e de[erminada". Para Kuhn, é o paradigma que estabele· cam po da produção teórica de conhecimentos é pat'e nte, num uni.
cc as mesmas regras c padrÕC!s para a prática cie ntífka d e um grupo - verso cuja relação entre prática e teoria é bastante estreita. Um me-
concepção adequada aos meios acadêmicos e de pesquls:t, principaJ- mento propício, como se vê. a propoSfas de "reconversao d o o lhar",
me nte àqueles lig:tdo s às ciências exatas e da natureza. Modific lOdo pois supõe-se uma prt:disposição para mudanças.
lige iramente os tcnnos da d efinição, par.t moldá·la ao universo aqui Não é fácil propor mudanças quando se tr'dta de práticas sociais,
tratado, paradigma será entendido como um conjunto de idé ias, me- porque, como diz CeMeau, "essas práticas VOlta e meia exace rbam e
d os de ser e de pensar que confere m identidade à prátiC'd de um dese ncaminham as nossas lógicas" (op. dt.: 43). Mais dificil ainda em
dado grupo social. O paradigma alUa sobre a escolha dos problemas te mpos d e c rise : velhos par.tdigmas mesclam-se com os emergentes ,
de pesquisa, o s mé todos de análise e avaliaç'do, a opção por esta o u de form a nem sem pre coerente, e o que era hOje amanhã já se modi-
aquela linha teórica e circunscreve O ele nco de modelos que vão di- ficou . Nesse quadro, a Icntativa de aprisionar um COntexto ou fazer
recionar a açao prática de um grupo. Ainda com Bourdieu , ·'esst! es- um recaMe minimamente estável da realidade é le merMia. De que
paço das ro madas de posição científicas (e e pistemológictS) sempre modo procure i cumprir essa rarefa? Dividindo·a em três panes.
comanda as práticas o u em todo caso sua signific:lção social, quer sai-
bamos ou não disso - e com certeza tanto mais brutalme nte quanto
me nos o sabemOS" ( 1990: 44) . o olhar dominante
Modelos são o paradigma visível, tangível, avaliável. Um mo de-
lo é uma fo nna, um mo lde pelo qual se procura analisar e explicar
A primeira parte relata a cOnstruçâo do o bjeto ao mesmo tem.
uma dada realidade . Por o utro lado, é a representação simbólica das
po em que caracteriza o olhar do minanre na co municação rural.
estruturas e relaçÕC!s que estão presentes no processo modelado . Como já disse , tomo como ponto de referência as vÁrias instâncias
Um paradigma pode com pona r diversos modelos, que, po r sua vez,
profissionais e intelec tuais pelas quais me constituí como agente so.
são fund ados em alguma teoria. Dito d essa forma, pode parecer que cial, numa a bordagem que inle::gr.t a minha pessoa no movimento
há uma rígida hier.lrqu ia entre teoria e modelo . quando, na verdade,
das idéias e d3 produção social do conhecimento sobre a comunica-
há uma circularidade: teorias ge ram modelos que possibilitam novas
ção rural. Bourdieu faz me nção, aludindo ao seu pró prio intento, à
teorias , que geram novos modelos . "i1usiio rerrospectiva" de quem procura fazer uma análise retroativa
I':trad igmas podem ser e ntendidos corno tipos de consciê ncia
da elaboração d e conceitos (1990: 3 1) . Para minimizar tal risco, do u
social possível , nos termos d iscutidos por Goldman (s/d) . A "cons- po r aceito que a visão de hOje eSlá confonnada pelos conhecimentos

"
l ""s/t" Araújn

de hoje e que q ualquer esforço de memó ria que se possa fazer não
co n~a dessas preocupações e sis tematizar algumas condições d e pro-
vai consegu ir incluir com fide lidade todas as V-AriávC::is que condicio-
duçao pam os capírulos seguintes.
nam as perce pções e escolhas que resultaram no atual ob jeto de pes-
quisa.
Pela particularidade de abrangência de um perCUniO pessoal, o olhar semio/6gico
são trazidas à cena várias instâncias cons tirutiv".LS das bases paradigmá-
ricas do universo estudado. Assim, fo nnaç-J.o acadêmica (gradu;tÇi.o e
pós-graduação) , po líticas e prd.ticas ins titucionais d e comunicação e Sob esse título, o rganiza-se a segunda parte d o me u esru do.
cenários de pesquisa são arrolados c inter-relacionados, possibilitan· Seu o bje tivo principal fo i convocar um certO número de autores e al-
do a um só lempo deLinear oobjelo d e investigação e traçaroquadro gumas de suas idéias para com por o quadro teórico que embasa a
co nccituaJ que subjaz nesse unive rso, com suas implicações histó ri- proposta d e rcconversão do o lhar. Não d efendo, absolutamente,
cas, políticas, teóricas e metodológicas. E, embora analisando cada que a Sc mio logia seja a ú nica disciplin a que pode provocar transfo r-
instância de p er si, houve a preocupação em não perder de vista a maç~ no contexto imobilis ta de conhecimento , ide ntificado no
concepção relacional de socied ade , fu ndame ntal para a compreen· Caplfulo I. Mas el a me parece uma opção muito intcressam e , n a sua
são do funci o namento do mercad o simbólico. ~ria n tc da Semio logia d os Discursos Sociais. SU;lS vantagens pode-
Oplei por privilegiar a análise d as práticas: os conceitos que vão rao ser pesadas ao lo ngo d os capítulos, mas imediatamente mencio-
°
aos poucos fo rmando quadro teórico das práricas são inferidos a no tres.
partir d e las. Uma das premissas deste trJ.baJho é a de Que é nas pr.iti· Uma, que da conduz ao necessário apagamento das fronteiras
cas discu rsivas (ou d e comunicação) que o s agentes express:tm suas d icotômicas, possibilit:l.ndo avanços na compreensão dos fenô me-
reais concepções sobre o fun cionamento social. Então, discu nios n?s sociais. O utra , a d e que, por s ua própria his tóri a c pelo fato de
teóricos são importantes - e muito - , mas só na medida em que p0- por e m cena p reocupações comuns a vários campos do saber, favo-
dem ser contrapostos a uma dada prática. Uma hipótese levantada rece amplamente a tr.tnsdisciplinaridade, produzindo assim um co-
considera que, mesmo que no plano da retórica se procure substiruir nhecimento mais p lur::tJ. A terceira, o modo como lida com a questão
os modelos de sociedade e de comunicação, os textoS que materIali- do "sujeito", o u seja: privilegiando a inrersubjetividade .
zam a p rática comunicari.....t trazem as marcas dos antigos paradignus As pOSSibilidades que o o lhar semio lógico abre são amplas e so-
que se pensa descartados, dando·se continu idade à ve lha ordem ins· bre tudo noV3S, no campo d a inten·enção sociaJ j ainda necessitam
tituída. 1'01· outro lado, centro a atenção nos paradigmas e modelos ser construídas. Sua viabilkbd e pede esrudos arravés dos quais se
que por via das prálicas surgem como d o minantes. Os o utros adqu i· possa avaliar como fu nciona o quadro conceitual aplicad o a um con.
rem pertinência na medida em que estabelecem certo equilíbrio d e Junto de dados empíricos . É isso que pretendo na terceim parte .
forças com os dominantes e deixam marcas, nem que seja pela polê-
mica .
Aj uste de foco
Kuhn afinna que "o conhecimento cientifico, como a linguagem,
é intrinsecame nte a propriedade comum de um grupo ou e nL5.o não c
nada . Para e ntendê· lo, precisamos conhecer as características essen- Uti lizando o mé todo d a Análise de Discu rsos (AO), exa mino os
ciais dos grupos que os criam e o utilizam" (199 1: 257). Por seu turno , dJsposW vos de enu"ciação de seis mate riais de comuniC".tção dirigi.
tanto 8ecker como 80 urdieu insis tem na im portância d a ins tituição d os aos camponeses, provenientes de instâncias institucionais dis.
nas re presentações dos agentes . O Capítulo I buscou justame nte dar tirHas. O irwan·alile refc rencial é a ação cooperativa (ou solid ária) e
() que busco descobrir é como os núcleos constroem discursivamen-

" J7
l ""s/t" Araújn

de hoje e que q ualquer esforço de memó ria que se possa fazer não
co n~a dessas preocupações e sis tematizar algumas condições d e pro-
vai consegu ir incluir com fide lidade todas as V-AriávC::is que condicio-
duçao pam os capírulos seguintes.
nam as perce pções e escolhas que resultaram no atual ob jeto de pes-
quisa.
Pela particularidade de abrangência de um perCUniO pessoal, o olhar semio/6gico
são trazidas à cena várias instâncias cons tirutiv".LS das bases paradigmá-
ricas do universo estudado. Assim, fo nnaç-J.o acadêmica (gradu;tÇi.o e
pós-graduação) , po líticas e prd.ticas ins titucionais d e comunicação e Sob esse título, o rganiza-se a segunda parte d o me u esru do.
cenários de pesquisa são arrolados c inter-relacionados, possibilitan· Seu o bje tivo principal fo i convocar um certO número de autores e al-
do a um só lempo deLinear oobjelo d e investigação e traçaroquadro gumas de suas idéias para com por o quadro teórico que embasa a
co nccituaJ que subjaz nesse unive rso, com suas implicações histó ri- proposta d e rcconversão do o lhar. Não d efendo, absolutamente,
cas, políticas, teóricas e metodológicas. E, embora analisando cada que a Sc mio logia seja a ú nica disciplin a que pode provocar transfo r-
instância de p er si, houve a preocupação em não perder de vista a maç~ no contexto imobilis ta de conhecimento , ide ntificado no
concepção relacional de socied ade , fu ndame ntal para a compreen· Caplfulo I. Mas el a me parece uma opção muito intcressam e , n a sua
são do funci o namento do mercad o simbólico. ~ria n tc da Semio logia d os Discursos Sociais. SU;lS vantagens pode-
Oplei por privilegiar a análise d as práticas: os conceitos que vão rao ser pesadas ao lo ngo d os capítulos, mas imediatamente mencio-
°
aos poucos fo rmando quadro teórico das práricas são inferidos a no tres.
partir d e las. Uma das premissas deste trJ.baJho é a de Que é nas pr.iti· Uma, que da conduz ao necessário apagamento das fronteiras
cas discu rsivas (ou d e comunicação) que o s agentes express:tm suas d icotômicas, possibilit:l.ndo avanços na compreensão dos fenô me-
reais concepções sobre o fun cionamento social. Então, discu nios n?s sociais. O utra , a d e que, por s ua própria his tóri a c pelo fato de
teóricos são importantes - e muito - , mas só na medida em que p0- por e m cena p reocupações comuns a vários campos do saber, favo-
dem ser contrapostos a uma dada prática. Uma hipótese levantada rece amplamente a tr.tnsdisciplinaridade, produzindo assim um co-
considera que, mesmo que no plano da retórica se procure substiruir nhecimento mais p lur::tJ. A terceira, o modo como lida com a questão
os modelos de sociedade e de comunicação, os textoS que materIali- do "sujeito", o u seja: privilegiando a inrersubjetividade .
zam a p rática comunicari.....t trazem as marcas dos antigos paradignus As pOSSibilidades que o o lhar semio lógico abre são amplas e so-
que se pensa descartados, dando·se continu idade à ve lha ordem ins· bre tudo noV3S, no campo d a inten·enção sociaJ j ainda necessitam
tituída. 1'01· outro lado, centro a atenção nos paradigmas e modelos ser construídas. Sua viabilkbd e pede esrudos arravés dos quais se
que por via das prálicas surgem como d o minantes. Os o utros adqu i· possa avaliar como fu nciona o quadro conceitual aplicad o a um con.
rem pertinência na medida em que estabelecem certo equilíbrio d e Junto de dados empíricos . É isso que pretendo na terceim parte .
forças com os dominantes e deixam marcas, nem que seja pela polê-
mica .
Aj uste de foco
Kuhn afinna que "o conhecimento cientifico, como a linguagem,
é intrinsecame nte a propriedade comum de um grupo ou e nL5.o não c
nada . Para e ntendê· lo, precisamos conhecer as características essen- Uti lizando o mé todo d a Análise de Discu rsos (AO), exa mino os
ciais dos grupos que os criam e o utilizam" (199 1: 257). Por seu turno , dJsposW vos de enu"ciação de seis mate riais de comuniC".tção dirigi.
tanto 8ecker como 80 urdieu insis tem na im portância d a ins tituição d os aos camponeses, provenientes de instâncias institucionais dis.
nas re presentações dos agentes . O Capítulo I buscou justame nte dar tirHas. O irwan·alile refc rencial é a ação cooperativa (ou solid ária) e
() que busco descobrir é como os núcleos constroem discursivamen-

" J7
I "tl/la llraújtl

te as imagens de si, do destinatário, do s oUlros agentes sociais (con- por meio d a ;tnálise dapolifonitl constirutiv:t dos discursos . Po r o u-
correntes ou não) e do modo de relação entre e1es_ tro :1ngulo, por scr um método basicament"c comparativo e rebcio-
AAD é o mt!todo preferencial de análise d:l Semiologia dos Dis- nal, pe rmire ro mar um caso particular e cons iderá-lo de ntro do
c ursos Sociais, embora não o único. Como ins trumelHO de crít ica con junto dos possíveis, a partir d as homo logias enrre campos dife-
po lítica se revela muito interessante, pelo fato d e que , no domín io re ntes o u mesmo de contextos ou c ircunstâ ncias dislintas d e um
d o simbólico, atos d e forma são :u os d e força e atos d e fo rça também mesmo campo, Assim , apesar do corp us ser constituído por impres-
se manifestam por atos d e fo rma. A AD caracteriza essa lrans m uta- sos contemporflneos, to mo como t..'Ontrapomo todo um conjunto de
ção, ao lidar com :IlOS discursivos em sua forma m aterial, sem disso- ou tros impressos, que circ ularam e fo ram consumidos em condições
ciá-Ias d a cena social em quc se inscrevem . e m omentos diversos, que permite m compree nder os que são o bje-
Optei por tr.lbalhar apenas com discursos impressos, por três to de análise d et'.tI.bada.
razões associadas . Uma, porque os impressos concretiz:tm bem essa Tal o pção impõe certos limites. A pani r m esmo d o reconheci-
materiaUdade . O utra, por serem o meio prefe rido pelos núcleos mento de que, como diz Ver6n, "todo discurso desenha um campo
para veicul:u- seus discu rsos. Po r último, porque , base:lda e m estu- de e feitos de scmido, c n:io um só e fe ito " ( 1983: 34) e que estes se-
d os anteriores, acredi to serem os impressos os materiais com m aio r rão produzidos e m reccp\' âo , para um d eterminado ind ivíduo o u
relev-âncla no âmbito da recepção, tanto no que respeita à credIbi li- g rupo e numa determinada situação , é necessário d e limitar clara-
dade como à capacidade d e circulação e reprodução. mente os ho rizontes d a análise de um corpus fo rmado por materiais
Po r outro lado, a esco lha por trabalhar apenas com a ins tância impressos extr.lídos d o processo d e c irc ul:tção e consumo .
da produç ão, justamente num mo m e nto de revitalização dos estu- Bak"thin alertara antes para o utro â ngulo desse pro blema, o do
dos de recepção, lem sua r.l.Zão de ser. Cons iderando-se q ue os dis- contexto enunciativo . quando escre veu que "a comunicaç:io verbal
cursos das ins tiruições exercem pllpel d eterminante nas condições não poderá ja mais ser compreendida e explicada fo ra d o vínc ulo
de recepção, creio na necessidade de compreendê-los melho r, sob com a situação concreta" ( 1992: 124) . Re fe ria-se ele :10 d iscurso es-
um prisma difereme dos adotados até agOrll, até m esmo para p rodu - cri tO, que integraria um fluxo contínuo, no qual "qualquer enuncia-
zir estudos d e recepção mais St:gu ros. Aliás, os estudos d e recepção ção, po r mais signifkaliv-d e comple ta que seja, constil'Ui apenas um3
não deveria m prescindir nunca d a an:i1ise das ins tãncias de produ- fração de um3 corrente de comun icação verba l ininlcrrupta" (ide m :
ção, sem :I qual fi cam incompletos. Creio também ser necessária 123) .
uma certa cautela quanto à e uforia em to mo da im portância dos es- É interessante notar que B:t.kthln se p reocupava, em cena as-
ludo s de recepção , para que s implesme nte n ão se invertaM as polari- peclO, com O que Foucault chamou de "discurso fundador ", tema
dades d o modelo informacional e se ma ntenha sua linearidade e o tramdo também por Verón (1980) , Orlandi ( 1993) e por Maingue neau,
eSlancam ento d os seus com ponentes . Alé m disso, o discurso neoli- na aná lise da "dêixis fundadora" c "dêixis discursiva"' ( 1993: 42) , a
beraJ tende a uni\'crsaliz:tr a noção d o mercad o como regulado r do propósi to d esse contimmm que é o ato comunicativo. A cena, s imul-
equilíbrio social, focalizando a ate nção no consumo. Apesar d e ter ta neamente social e discursiva, não (·e m nunca um pontO zero, a par-
uma cerra r,trio, tal d iscurso apaga as desigualdades e nega o confli- tir d o qual se possa imobilizá-Ia para fins d e análise . Há sempre um
to social e, se essa reflexão é :Iplicáve l à ênfase excessiva na recepção, ";tn tes", conhedd o o u não pelos interlocuto res, fo rmado por confl i-
o é também para a re presentação d e me rcado s imbólico, um dos ei- lOS, rituais, acordos, expectati"as c umpridas o u fru strad as, etc., q ue
xo s do o lhar que aqui pro pon ho e para tal m e mantenho atenta . faz com que cada mome nto em si seja um e feito de e nunciaçõcs :m -
A AO permite que se identifique e se vá alé m do efeito naturali- (criores . O analista pode supor, mapear práticas institucio na is , Ic-
7.3nte d as teorias nas rcpresent"dçõcs sociais - limite encontrado pe- v:mtar indicadores, m as nunca controlar todas as variáveis d:1
los processos habituais de me dição e mpírica de ;ttitudes e opiniões - produção dos se m id os. Como recursos oferecidos pela AO par.l mi-

lO
"
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te as imagens de si, do destinatário, do s oUlros agentes sociais (con- por meio d a ;tnálise dapolifonitl constirutiv:t dos discursos . Po r o u-
correntes ou não) e do modo de relação entre e1es_ tro :1ngulo, por scr um método basicament"c comparativo e rebcio-
AAD é o mt!todo preferencial de análise d:l Semiologia dos Dis- nal, pe rmire ro mar um caso particular e cons iderá-lo de ntro do
c ursos Sociais, embora não o único. Como ins trumelHO de crít ica con junto dos possíveis, a partir d as homo logias enrre campos dife-
po lítica se revela muito interessante, pelo fato d e que , no domín io re ntes o u mesmo de contextos ou c ircunstâ ncias dislintas d e um
d o simbólico, atos d e forma são :u os d e força e atos d e fo rça também mesmo campo, Assim , apesar do corp us ser constituído por impres-
se manifestam por atos d e fo rma. A AD caracteriza essa lrans m uta- sos contemporflneos, to mo como t..'Ontrapomo todo um conjunto de
ção, ao lidar com :IlOS discursivos em sua forma m aterial, sem disso- ou tros impressos, que circ ularam e fo ram consumidos em condições
ciá-Ias d a cena social em quc se inscrevem . e m omentos diversos, que permite m compree nder os que são o bje-
Optei por tr.lbalhar apenas com discursos impressos, por três to de análise d et'.tI.bada.
razões associadas . Uma, porque os impressos concretiz:tm bem essa Tal o pção impõe certos limites. A pani r m esmo d o reconheci-
materiaUdade . O utra, por serem o meio prefe rido pelos núcleos mento de que, como diz Ver6n, "todo discurso desenha um campo
para veicul:u- seus discu rsos. Po r último, porque , base:lda e m estu- de e feitos de scmido, c n:io um só e fe ito " ( 1983: 34) e que estes se-
d os anteriores, acredi to serem os impressos os materiais com m aio r rão produzidos e m reccp\' âo , para um d eterminado ind ivíduo o u
relev-âncla no âmbito da recepção, tanto no que respeita à credIbi li- g rupo e numa determinada situação , é necessário d e limitar clara-
dade como à capacidade d e circulação e reprodução. mente os ho rizontes d a análise de um corpus fo rmado por materiais
Po r outro lado, a esco lha por trabalhar apenas com a ins tância impressos extr.lídos d o processo d e c irc ul:tção e consumo .
da produç ão, justamente num mo m e nto de revitalização dos estu- Bak"thin alertara antes para o utro â ngulo desse pro blema, o do
dos de recepção, lem sua r.l.Zão de ser. Cons iderando-se q ue os dis- contexto enunciativo . quando escre veu que "a comunicaç:io verbal
cursos das ins tiruições exercem pllpel d eterminante nas condições não poderá ja mais ser compreendida e explicada fo ra d o vínc ulo
de recepção, creio na necessidade de compreendê-los melho r, sob com a situação concreta" ( 1992: 124) . Re fe ria-se ele :10 d iscurso es-
um prisma difereme dos adotados até agOrll, até m esmo para p rodu - cri tO, que integraria um fluxo contínuo, no qual "qualquer enuncia-
zir estudos d e recepção mais St:gu ros. Aliás, os estudos d e recepção ção, po r mais signifkaliv-d e comple ta que seja, constil'Ui apenas um3
não deveria m prescindir nunca d a an:i1ise das ins tãncias de produ- fração de um3 corrente de comun icação verba l ininlcrrupta" (ide m :
ção, sem :I qual fi cam incompletos. Creio também ser necessária 123) .
uma certa cautela quanto à e uforia em to mo da im portância dos es- É interessante notar que B:t.kthln se p reocupava, em cena as-
ludo s de recepção , para que s implesme nte n ão se invertaM as polari- peclO, com O que Foucault chamou de "discurso fundador ", tema
dades d o modelo informacional e se ma ntenha sua linearidade e o tramdo também por Verón (1980) , Orlandi ( 1993) e por Maingue neau,
eSlancam ento d os seus com ponentes . Alé m disso, o discurso neoli- na aná lise da "dêixis fundadora" c "dêixis discursiva"' ( 1993: 42) , a
beraJ tende a uni\'crsaliz:tr a noção d o mercad o como regulado r do propósi to d esse contimmm que é o ato comunicativo. A cena, s imul-
equilíbrio social, focalizando a ate nção no consumo. Apesar d e ter ta neamente social e discursiva, não (·e m nunca um pontO zero, a par-
uma cerra r,trio, tal d iscurso apaga as desigualdades e nega o confli- tir d o qual se possa imobilizá-Ia para fins d e análise . Há sempre um
to social e, se essa reflexão é :Iplicáve l à ênfase excessiva na recepção, ";tn tes", conhedd o o u não pelos interlocuto res, fo rmado por confl i-
o é também para a re presentação d e me rcado s imbólico, um dos ei- lOS, rituais, acordos, expectati"as c umpridas o u fru strad as, etc., q ue
xo s do o lhar que aqui pro pon ho e para tal m e mantenho atenta . faz com que cada mome nto em si seja um e feito de e nunciaçõcs :m -
A AO permite que se identifique e se vá alé m do efeito naturali- (criores . O analista pode supor, mapear práticas institucio na is , Ic-
7.3nte d as teorias nas rcpresent"dçõcs sociais - limite encontrado pe- v:mtar indicadores, m as nunca controlar todas as variáveis d:1
los processos habituais de me dição e mpírica de ;ttitudes e opiniões - produção dos se m id os. Como recursos oferecidos pela AO par.l mi-

lO
"
I "~SIW ArmlJu

nimizar tallimitaçao, ele conta. com a pró pria natureza d os d iscursos


duto res de discursos dirigidos à sociedade campo nesa, e como Sê
que, tomando as palavras de Certeau, configuram eSsas m:lrcas.
como os ull,msflios, (... ) são marCluJos por IISUS; apl"f.'seJllarll â allãlln~ as mar- COm la l trajeto busquei dar co nta dos o bjetivos traçados de um
cas l/e aros uu processus de emmelação; significam as operações que/oram modo adequad o a um o bje to que cons idero político: o fat~ d e sc
objeto, opera(Óf!s reftllivas a situafÓCs e encartiveis C(imo moeJa{izaçóes co"-
jmlfllrais do cmm ciado 011 tla prtilica; de m(}(lo mais fato, indicam " orlautu pro~r p.roblcmas de conhecime nto a Qualquer aspecto da socicda-
"mil bl.storicitltule socll" lia qual us s#tclllas 11ft rt'presenlaç,/(!S 0 11 us proced i- ~e a[~,~)u,-lhe esse caráter. No fundo, como diz Bourdieu , todo saber
mentos de fabricação IUlo aparecem mais só como II"adros IIUfflla/ IIIQS maS (' pclmco, porque [em s ua gênese nas relações de poder. Mas esta é
cvmo illStnlmemos manipuláveis por usuários. ( 1991: 82)
uma lo nga conversa . Passemo s, pois, ao Capítulo I.
Conla também com uma exigência do próprio método, a d e
analisaras condições de produção dos discursos, que inclue m , e ntre
o utros, os contextos s ituacio na l e da ação disçursiva. De qualque r
modo , essas questões põem em jogo não só a impossibilidade d e tra-
tar separadamente as cenas social e discursiva, como o caráter parcial
de toda análise, para o qual Verón sempre alerta,
Pe mlanece ainda a restrição à supressão, no estudo d as instân-
cias d e produção de discursos, d as circunstâncias d e inte rlocuÇ"Ão,
modeJadoras d os sent idos. A pro pósito , Bourdieu manifestou-se:
o discllnu escrito é fI/li produ /Q estra ..bo, que Sé' i",'(!Uta, 11(.0 oo,I/"JIIIO p uro
etl/re aquele que escrelJe " o que ele t"IH a diZer. d It/0'1Jl'm de q,u~lquer e~l)l'­
rlí'm ela dirt!ta de ImUl relação social, à margem wmbbll deCVl/stratlgfmemos
c das w/icltaçÓf's de uma tlemam/a /med/fllamel/te percelJida, que se mani-
festo por lodo ti/lU de slgllus ile resistê>lcia ou til' ap rrR.'(lçiJQ.( I 99Q, 9)

Tal proble ma, inegável, principalme nte por se sabe r que luga-
res e momentos de e nunciação são d efinid ores dos lugares e posi-
ções e nunciativos, começa a se r contornado pelo enrendimemo de
como funciona o mecan ismo da imerrexrualidadc. Não é certo que o
:ltO de C5CI'e\--er está livre de constrangimentos e ocorre à margem
das re lações socia is . Um texto está sempre prenhe de o utras vozes,
além da do aU lor, inclusive as dos interlocutores. Como diz Baklhin ,
/XX/e·SI! compr('l"fldera pala ura "diálugo" /I/lm ~tlfidOllmpJo, i!lu é, /lão llfJe-
IItU como CU/1IIm/caçõo ~ 1>0= alta, d e pessoas CQ/ucudas fa ce a fa c(!, mas
toda comulllcaçao verbal, de qualquer tipo que seja. Destafonlla. u ll/seursu
escrito sempre responde Q alguml' cuisa, rrf.. ta, cOtiflnllu . antecipa respostas
e oojeçóes pot/meiais, procura apolo etc:. CopoÚ L ' I n}

Enfim, o que me proponho, nesse mome nto e de ntro das limi-


t:tÇÕCS aqu i comentad as, é veri.lkar, através d o desvelame mo dos dis-
positivos próp rios de e nunciação, se os discursos If".u:e m as marcas
d o cenário construído , no que range aos núcleos inst itucionais pro-

. .
I "~SIW ArmlJu

nimizar tallimitaçao, ele conta. com a pró pria natureza d os d iscursos


duto res de discursos dirigidos à sociedade campo nesa, e como Sê
que, tomando as palavras de Certeau, configuram eSsas m:lrcas.
como os ull,msflios, (... ) são marCluJos por IISUS; apl"f.'seJllarll â allãlln~ as mar- COm la l trajeto busquei dar co nta dos o bjetivos traçados de um
cas l/e aros uu processus de emmelação; significam as operações que/oram modo adequad o a um o bje to que cons idero político: o fat~ d e sc
objeto, opera(Óf!s reftllivas a situafÓCs e encartiveis C(imo moeJa{izaçóes co"-
jmlfllrais do cmm ciado 011 tla prtilica; de m(}(lo mais fato, indicam " orlautu pro~r p.roblcmas de conhecime nto a Qualquer aspecto da socicda-
"mil bl.storicitltule socll" lia qual us s#tclllas 11ft rt'presenlaç,/(!S 0 11 us proced i- ~e a[~,~)u,-lhe esse caráter. No fundo, como diz Bourdieu , todo saber
mentos de fabricação IUlo aparecem mais só como II"adros IIUfflla/ IIIQS maS (' pclmco, porque [em s ua gênese nas relações de poder. Mas esta é
cvmo illStnlmemos manipuláveis por usuários. ( 1991: 82)
uma lo nga conversa . Passemo s, pois, ao Capítulo I.
Conla também com uma exigência do próprio método, a d e
analisaras condições de produção dos discursos, que inclue m , e ntre
o utros, os contextos s ituacio na l e da ação disçursiva. De qualque r
modo , essas questões põem em jogo não só a impossibilidade d e tra-
tar separadamente as cenas social e discursiva, como o caráter parcial
de toda análise, para o qual Verón sempre alerta,
Pe mlanece ainda a restrição à supressão, no estudo d as instân-
cias d e produção de discursos, d as circunstâncias d e inte rlocuÇ"Ão,
modeJadoras d os sent idos. A pro pósito , Bourdieu manifestou-se:
o discllnu escrito é fI/li produ /Q estra ..bo, que Sé' i",'(!Uta, 11(.0 oo,I/"JIIIO p uro
etl/re aquele que escrelJe " o que ele t"IH a diZer. d It/0'1Jl'm de q,u~lquer e~l)l'­
rlí'm ela dirt!ta de ImUl relação social, à margem wmbbll deCVl/stratlgfmemos
c das w/icltaçÓf's de uma tlemam/a /med/fllamel/te percelJida, que se mani-
festo por lodo ti/lU de slgllus ile resistê>lcia ou til' ap rrR.'(lçiJQ.( I 99Q, 9)

Tal proble ma, inegável, principalme nte por se sabe r que luga-
res e momentos de e nunciação são d efinid ores dos lugares e posi-
ções e nunciativos, começa a se r contornado pelo enrendimemo de
como funciona o mecan ismo da imerrexrualidadc. Não é certo que o
:ltO de C5CI'e\--er está livre de constrangimentos e ocorre à margem
das re lações socia is . Um texto está sempre prenhe de o utras vozes,
além da do aU lor, inclusive as dos interlocutores. Como diz Baklhin ,
/XX/e·SI! compr('l"fldera pala ura "diálugo" /I/lm ~tlfidOllmpJo, i!lu é, /lão llfJe-
IItU como CU/1IIm/caçõo ~ 1>0= alta, d e pessoas CQ/ucudas fa ce a fa c(!, mas
toda comulllcaçao verbal, de qualquer tipo que seja. Destafonlla. u ll/seursu
escrito sempre responde Q alguml' cuisa, rrf.. ta, cOtiflnllu . antecipa respostas
e oojeçóes pot/meiais, procura apolo etc:. CopoÚ L ' I n}

Enfim, o que me proponho, nesse mome nto e de ntro das limi-


t:tÇÕCS aqu i comentad as, é veri.lkar, através d o desvelame mo dos dis-
positivos próp rios de e nunciação, se os discursos If".u:e m as marcas
d o cenário construído , no que range aos núcleos inst itucionais pro-

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I - O OLHAR DOMINANTE

o contador de histórias
Em O livro dos a braços, Eduardo Galeano fala das figuras de
barro dos índios hopis, do Novo México, que representam os conta-
d o res de histórias, fi gu r:.Is humanas "brOlad:1S de pessoinhas" que
saem de dentro de si. Ao iniciar este ca pítulo, s into-me um pouco
como aqueles narradores da me mó ria coletiva , sem que tenha, de
modo aJgum, a prele nsão d e deselllpt!nhar aqu i essa função. Mas o
que me proponho sei que não vou cumpri-lo sozinh a e que muitas
vozes se farão presentes alravés da minha .
Meus objetivos são dois e me parece impossível d issociá-los.
Um , é relatara processo de construção d o meu o bjeto de estudo. , Foi
um lo ngo percurso, por meio d o qual um campo de interesses foi-se
configurando. e nquanto se acumu lav-'! um conhecimento que pôde,
enflm, ser processado a pan:ir de um outro tipo d e conhecime nto , de
narureza acadêmiCl. Para mim , o objeto não é um simples reCOrle
temporário t: casual d e u ma dada realidade . Antes, é um mo me nto
específico de um processo que lhe transcende largamente e só ad-
q uire sentido confrontado com o utras variáveis desse processo e
com sua pró pria histó ria. Dessa his tó ria participam inúmeros atores
sociais, que assim como cu são constitutivos do o bjeto. O modo d e
olhar esse objeto o u, por ourra, o modo de recortar a realidade e
convenê·la num o bjeto de reflexão, é CCrlamente panicu la r e s ingu-
lar, mas, corno diz Michel de Cert'eau , "todo lugar p r6prio é alterad o
po r aquilo que, d os o urros, já se acha ncle" (1994 : 110).
O o utro objetivo é ide ntificar ;IS caracte rísticas do alUal mo do
dominante d e pensar e faze r a comunicação, ao mesmo te m po em
que de marco alguns de seus d eterminantes his tóricos. Te nto fazer
isto através da correlação de fatores de ordem política, teórica e prá-
tica, que se manifestam concretamen te por intermédio de ins tâncias
de coostiruição e d e mediação do que podemos chamar de "parAdig-
I - O OLHAR DOMINANTE

o contador de histórias
Em O livro dos a braços, Eduardo Galeano fala das figuras de
barro dos índios hopis, do Novo México, que representam os conta-
d o res de histórias, fi gu r:.Is humanas "brOlad:1S de pessoinhas" que
saem de dentro de si. Ao iniciar este ca pítulo, s into-me um pouco
como aqueles narradores da me mó ria coletiva , sem que tenha, de
modo aJgum, a prele nsão d e deselllpt!nhar aqu i essa função. Mas o
que me proponho sei que não vou cumpri-lo sozinh a e que muitas
vozes se farão presentes alravés da minha .
Meus objetivos são dois e me parece impossível d issociá-los.
Um , é relatara processo de construção d o meu o bjeto de estudo. , Foi
um lo ngo percurso, por meio d o qual um campo de interesses foi-se
configurando. e nquanto se acumu lav-'! um conhecimento que pôde,
enflm, ser processado a pan:ir de um outro tipo d e conhecime nto , de
narureza acadêmiCl. Para mim , o objeto não é um simples reCOrle
temporário t: casual d e u ma dada realidade . Antes, é um mo me nto
específico de um processo que lhe transcende largamente e só ad-
q uire sentido confrontado com o utras variáveis desse processo e
com sua pró pria histó ria. Dessa his tó ria participam inúmeros atores
sociais, que assim como cu são constitutivos do o bjeto. O modo d e
olhar esse objeto o u, por ourra, o modo de recortar a realidade e
convenê·la num o bjeto de reflexão, é CCrlamente panicu la r e s ingu-
lar, mas, corno diz Michel de Cert'eau , "todo lugar p r6prio é alterad o
po r aquilo que, d os o urros, já se acha ncle" (1994 : 110).
O o utro objetivo é ide ntificar ;IS caracte rísticas do alUal mo do
dominante d e pensar e faze r a comunicação, ao mesmo te m po em
que de marco alguns de seus d eterminantes his tóricos. Te nto fazer
isto através da correlação de fatores de ordem política, teórica e prá-
tica, que se manifestam concretamen te por intermédio de ins tâncias
de coostiruição e d e mediação do que podemos chamar de "parAdig-
Comunicação rural: o que se faz, o Que se pensa
mas e modelos d a comunicação ru .....lr. Essa práxis comuniC'.niva
constitui-se na vida socia l, nas relaçõcs concretas e ntre os agentes
sociais (e ntre os quais estou) e suas vozes compare!.:em ao lado da As práticas discursivas d as instiruiçÕt:s para o meio rural consti-
minha, dentro da minha, seja na fo rma mais explícita da citação, seja tuem-se num cenário configu .......do basiC'dmc mc por dois tipos d e in-
de modo maiS sUlil , pelos subterfúgios da polifo nia discursiva. ten'enç:"lo social : :1 comunicação para o descnvolYimento e a educação
Enfim, como n os ens ina Ba)",hin , o OutrO atravessa e constitui p opular. De acordo com sua natureza e fins , a instituição confere
o Eu e , :10 ler textOS e pr.:íticas alheias, é a mim mesmo que esto u le n- m ais peso a um dos dois tipos, mas de fo nna geral ambos estão prt:-
d o _Esse principio , que se estende aqui :lO intrinc:lmcn lo constituti- scllles , senão como o bjetivo , pelo me nos emprestando s uas card.ctc-
vo e ntrc objeto e sujeito, te lll como resu ltante o capítulo que ora se rist iC'.lS ao discu rso c à prática. Assim, po r exemplo , a interve nção d e
inicia, dividido e m duas partes. Na primeira, identifico e d escrevo um grupo ligado ii Igre ja Cató lica, com tendê ncias progressistas,
qualro instâncias de cons tituição par:u.ligmática da comunicaçáo ru- provavelmente assumirá características mais próprias da educação
ral, ligadas à minha trajetória profissional: os cu rsos u niversit:irios, a popu lar, não o bstanle sua pr.\tica possa vir a ser identificada com a
ação prática, a pesquisa e OS cursos de pós-graduação. A ação prática comunicação para o desenvolvimento , enquanto que a de um ó rgão
desdobra-se na análise de ci nco das mediações Instjtucion:lis mais go ve rnamental tenderá para a comunicação para O desenvolvimen-
p resentes no meio rural; as agências estatais de desenvolvimento , as to, em bora possa fundame ntar s ua ação, no plano das inte nções e
organizações priV:ldas de promoção social (ONGs) , os grupos religio- dos documemos, nos pressupostos da educação popular. Ambos os
sos, as organizaçõcs representativas d a população e a e.'{tensão uni · conceitos são portad o res de uma acenruada polissemia, le ndo s ido
versitária. Na segunda, faço uma síntese da pri me ira e introduzo o palco c objeto de d isput."IS entre as instituições e os grupos pelo d irei-
Capítulo 11 , a partir da questão: que O UITOS modos de o lhar a prática to de definir o significado das palavras (/eseulJollJitl/emlO e educação
comunicativa podem ser mobil izados, no cenário da intcr.'enção so- popular, signific-ddo que historicamente! fo i-se modifica ndo ao longo
daI no meio rur:ll? d o tempo e de acordo com as mudanç'dS poliricas e sociais e que , ain-
Reafinno o caráter s ubsidi;Írio desse capírulo , que [em a função da hoje, difere segundo os locutores que delas fazem uso. Sem e ntrar
de demarcar uma realidade sobre a qual incide a proposta central do n o mérito ideológico das definições, "ações de d esenvo lvimento" se-
rrab.'llho . Tenhoccrteza d e que só uma fr:lçãO mínima dessa realid ade r:io e nte ndidas aqui como aquelas que o bjetivam promover:t melho-
plural pôde ser aqui considerada. E sei que me u modo panicul:u- de ria d a qualidade d e vida d a população; por "educação popular"
perceber e nomear os fatos pode não coincidir com o de outrOS ato res compreender-se-á as ações que visam aos processos educativos da
que participam da mesma cena, mesmo aqueles cujas vozes fo ram p opul:lção no sent.ido da sua promoção l~O m n seres humanos e
aqui arregimentadas. Afinal, "intercâmbios, leirurdS e confrontos, que como atores políticos.
fonnam suas condições de possibilidade, cada csrudo panicular é um Nesse cenário, mO\"em-se atores diversos. que podem, num pri-
espelho de cem faces (neste espaço os outros estão sempre a parecen- me iro momentO, ser agrupad os em dois núcleos; um, form ado pelas
do) , mas um espelho panido e anam6 rfico (os o utros aí se frag~ e n ­ instituições que desenvo lvem políticas sociais visando intervir, por
tam e se alteram)" (Ceneau, op. cit .: 11 0) . Mas, como se podera ver, m eio d a p«x luçl0 e transferência de conhecimentos, na feição so-
este é um objeto em pennanente construção . O que se escreve ho je, c ioeconô mico-culrur.tl da sociedad e camponesa, SOCiedade que,
amanh ã poder.:í estar desarualizado: são pessoas, s:"to relações, é a vida u suária de tais políticas, conslirui o o u tro núcleo. Não são núcleos
social que aqui se tenta aprisionar por alguns momentos, e como tal ho mogêneos; muito pelo contrário, cada um comporta uma p lurali-
não poderia ser diferenle. dade d e estratos e seus agentes negociam de forma diferenciada as
pr:iticas econômicas, sociais e discu rsiV:ls que são postas em cena.
I ~or o utro lado, apesar d e haver uma ccrta sedimentação na divisão

.. "
Comunicação rural: o que se faz, o Que se pensa
mas e modelos d a comunicação ru .....lr. Essa práxis comuniC'.niva
constitui-se na vida socia l, nas relaçõcs concretas e ntre os agentes
sociais (e ntre os quais estou) e suas vozes compare!.:em ao lado da As práticas discursivas d as instiruiçÕt:s para o meio rural consti-
minha, dentro da minha, seja na fo rma mais explícita da citação, seja tuem-se num cenário configu .......do basiC'dmc mc por dois tipos d e in-
de modo maiS sUlil , pelos subterfúgios da polifo nia discursiva. ten'enç:"lo social : :1 comunicação para o descnvolYimento e a educação
Enfim, como n os ens ina Ba)",hin , o OutrO atravessa e constitui p opular. De acordo com sua natureza e fins , a instituição confere
o Eu e , :10 ler textOS e pr.:íticas alheias, é a mim mesmo que esto u le n- m ais peso a um dos dois tipos, mas de fo nna geral ambos estão prt:-
d o _Esse principio , que se estende aqui :lO intrinc:lmcn lo constituti- scllles , senão como o bjetivo , pelo me nos emprestando s uas card.ctc-
vo e ntrc objeto e sujeito, te lll como resu ltante o capítulo que ora se rist iC'.lS ao discu rso c à prática. Assim, po r exemplo , a interve nção d e
inicia, dividido e m duas partes. Na primeira, identifico e d escrevo um grupo ligado ii Igre ja Cató lica, com tendê ncias progressistas,
qualro instâncias de cons tituição par:u.ligmática da comunicaçáo ru- provavelmente assumirá características mais próprias da educação
ral, ligadas à minha trajetória profissional: os cu rsos u niversit:irios, a popu lar, não o bstanle sua pr.\tica possa vir a ser identificada com a
ação prática, a pesquisa e OS cursos de pós-graduação. A ação prática comunicação para o desenvolvimento , enquanto que a de um ó rgão
desdobra-se na análise de ci nco das mediações Instjtucion:lis mais go ve rnamental tenderá para a comunicação para O desenvolvimen-
p resentes no meio rural; as agências estatais de desenvolvimento , as to, em bora possa fundame ntar s ua ação, no plano das inte nções e
organizações priV:ldas de promoção social (ONGs) , os grupos religio- dos documemos, nos pressupostos da educação popular. Ambos os
sos, as organizaçõcs representativas d a população e a e.'{tensão uni · conceitos são portad o res de uma acenruada polissemia, le ndo s ido
versitária. Na segunda, faço uma síntese da pri me ira e introduzo o palco c objeto de d isput."IS entre as instituições e os grupos pelo d irei-
Capítulo 11 , a partir da questão: que O UITOS modos de o lhar a prática to de definir o significado das palavras (/eseulJollJitl/emlO e educação
comunicativa podem ser mobil izados, no cenário da intcr.'enção so- popular, signific-ddo que historicamente! fo i-se modifica ndo ao longo
daI no meio rur:ll? d o tempo e de acordo com as mudanç'dS poliricas e sociais e que , ain-
Reafinno o caráter s ubsidi;Írio desse capírulo , que [em a função da hoje, difere segundo os locutores que delas fazem uso. Sem e ntrar
de demarcar uma realidade sobre a qual incide a proposta central do n o mérito ideológico das definições, "ações de d esenvo lvimento" se-
rrab.'llho . Tenhoccrteza d e que só uma fr:lçãO mínima dessa realid ade r:io e nte ndidas aqui como aquelas que o bjetivam promover:t melho-
plural pôde ser aqui considerada. E sei que me u modo panicul:u- de ria d a qualidade d e vida d a população; por "educação popular"
perceber e nomear os fatos pode não coincidir com o de outrOS ato res compreender-se-á as ações que visam aos processos educativos da
que participam da mesma cena, mesmo aqueles cujas vozes fo ram p opul:lção no sent.ido da sua promoção l~O m n seres humanos e
aqui arregimentadas. Afinal, "intercâmbios, leirurdS e confrontos, que como atores políticos.
fonnam suas condições de possibilidade, cada csrudo panicular é um Nesse cenário, mO\"em-se atores diversos. que podem, num pri-
espelho de cem faces (neste espaço os outros estão sempre a parecen- me iro momentO, ser agrupad os em dois núcleos; um, form ado pelas
do) , mas um espelho panido e anam6 rfico (os o utros aí se frag~ e n ­ instituições que desenvo lvem políticas sociais visando intervir, por
tam e se alteram)" (Ceneau, op. cit .: 11 0) . Mas, como se podera ver, m eio d a p«x luçl0 e transferência de conhecimentos, na feição so-
este é um objeto em pennanente construção . O que se escreve ho je, c ioeconô mico-culrur.tl da sociedad e camponesa, SOCiedade que,
amanh ã poder.:í estar desarualizado: são pessoas, s:"to relações, é a vida u suária de tais políticas, conslirui o o u tro núcleo. Não são núcleos
social que aqui se tenta aprisionar por alguns momentos, e como tal ho mogêneos; muito pelo contrário, cada um comporta uma p lurali-
não poderia ser diferenle. dade d e estratos e seus agentes negociam de forma diferenciada as
pr:iticas econômicas, sociais e discu rsiV:ls que são postas em cena.
I ~or o utro lado, apesar d e haver uma ccrta sedimentação na divisão

.. "
histórica das funçót!s sociais, esta não se apresenta de forma rígida xos discursivos d esse cenário , ainda que se ja impossível regislr"dr
o u estática. Assim, tanto uma organi.zaç'.l.o de camponeses pode assu - grAficame nte toda a dinâmica e as interconexões que o caracte rizam :
mir em certas circunstâncias o papel de produtor ou executor de p0-
líticas sociais e/ou públicas para a sociedade que re presenta, como
uma institu ição do primeiro núcleo pode tornar-se objeto das políti- ~-,FLUXOS E ATORES DA PRÃT1CA DISCURSIVA --_~
NO MEIO RURAL
cas geradas por o utra instituição_
No campo d as insliruições, distinguem-se quaTro núcleos com
objetivos e práticas distintos: as o rganizações govername ntais, as re·
ligiosas. as universidades (po r meio da extensão n.tra[) c as organiza-
ções privadas de pro moção social, estas con hecidas por ONGs -
O rganizações Não-Governamemais. Um q uintO núcleo é fornlado , Igrejas
C
pelas organizações representati\"3S da popu lação- sindicatos, associa- N
ções de produtores, e tc. I)cstacam-se neste ú ltimo , como produtores
imensivos d e discursos dirigidos a seus representados, os organismos
o
"
S
Sociedade ,
O
M

R
de representação e assessoria do sistema cooperativista. do siste ma T
sindical e o Movimento dos Sem-Terra que, apesar da d esignação •I
ONGs
C
I
O
("movimento"), é institucionaJizado . N:i.o se pode d eixar de mencio- A
nar também os meios de comunicação privados (mais especific:l-
OrganizaçOes
mente a TV) e os produtores d e bens mate riais de consumo (aqui representativas
incluindo insumos agrícolas e remédios) que, ainda que não se jam
gerado res de políticas públicas ou sociais, fazem pane do cenário.
Os p artidos po líticos fazem-se prese ntes nesse contextO, em tem pos
eleitorais. Alguns de les, em geral ligados a corre ntes mais progressis- ",rOIA
tas, têm feito tentativas de manter uma ação comunicativa mais cons-
tante com a p o pulação. No entanto, são tão rants as concretizações
dessa inte nçáo Que não se justifica incluí-los no mesmo nível d os d e-
mais núcleos emissores. Não o bstante, sua estreita vi nculação com Os mode los e paradigmas que o rientam a prática de comunica-
outraS organizações, principalmente ONGs c grupos religiosos, faz çlo rur:ll nao surgi ram do nada ne m fo ram impoStOS arbitrariameme
com que suas vozes estejam presentes nos d iscu rsos circulantes. por algum poder superio r. Eles fora m construídos através de um
Pard viabi lizar seus objetivos, muitos desses gn lpos contratam os processo histó rico de mediaçõcs institucionais, que também não fo-
serviços de profissionais da comunicação. seja p ara a elaboração de r.lm produtos de meras decisões o u desejos de u ma elite dirigeme,
políticas de linguagem, seja para im plementá-las. É aí que se d á minha mas sofreram as in junções de toda uma con juntura política e teó rica
inserção nesse universo, iniciaLnc nte como formuladora de políticas internacio nal e nacionaJ. São essas mediações que passo a analisar,
e estratégias institucionais de cornuníca\-"áo e produto ra de mate riais buscando correlacioná-Ias com um cenário externo e mais globaJ .
educa[ivos , em segu ida como consultord das organizações, assessora Lembro que o termo " media ções~ não se limita a designar "pontos
dos quadros técnicos e pesquisadora. de passagem", mas também de processamento e reelaboração de um
O diagrama abaixo permite visualizar os principais atores e flu- pensamento c umaprá.:\·is.

46 47
histórica das funçót!s sociais, esta não se apresenta de forma rígida xos discursivos d esse cenário , ainda que se ja impossível regislr"dr
o u estática. Assim, tanto uma organi.zaç'.l.o de camponeses pode assu - grAficame nte toda a dinâmica e as interconexões que o caracte rizam :
mir em certas circunstâncias o papel de produtor ou executor de p0-
líticas sociais e/ou públicas para a sociedade que re presenta, como
uma institu ição do primeiro núcleo pode tornar-se objeto das políti- ~-,FLUXOS E ATORES DA PRÃT1CA DISCURSIVA --_~
NO MEIO RURAL
cas geradas por o utra instituição_
No campo d as insliruições, distinguem-se quaTro núcleos com
objetivos e práticas distintos: as o rganizações govername ntais, as re·
ligiosas. as universidades (po r meio da extensão n.tra[) c as organiza-
ções privadas de pro moção social, estas con hecidas por ONGs -
O rganizações Não-Governamemais. Um q uintO núcleo é fornlado , Igrejas
C
pelas organizações representati\"3S da popu lação- sindicatos, associa- N
ções de produtores, e tc. I)cstacam-se neste ú ltimo , como produtores
imensivos d e discursos dirigidos a seus representados, os organismos
o
"
S
Sociedade ,
O
M

R
de representação e assessoria do sistema cooperativista. do siste ma T
sindical e o Movimento dos Sem-Terra que, apesar da d esignação •I
ONGs
C
I
O
("movimento"), é institucionaJizado . N:i.o se pode d eixar de mencio- A
nar também os meios de comunicação privados (mais especific:l-
OrganizaçOes
mente a TV) e os produtores d e bens mate riais de consumo (aqui representativas
incluindo insumos agrícolas e remédios) que, ainda que não se jam
gerado res de políticas públicas ou sociais, fazem pane do cenário.
Os p artidos po líticos fazem-se prese ntes nesse contextO, em tem pos
eleitorais. Alguns de les, em geral ligados a corre ntes mais progressis- ",rOIA
tas, têm feito tentativas de manter uma ação comunicativa mais cons-
tante com a p o pulação. No entanto, são tão rants as concretizações
dessa inte nçáo Que não se justifica incluí-los no mesmo nível d os d e-
mais núcleos emissores. Não o bstante, sua estreita vi nculação com Os mode los e paradigmas que o rientam a prática de comunica-
outraS organizações, principalmente ONGs c grupos religiosos, faz çlo rur:ll nao surgi ram do nada ne m fo ram impoStOS arbitrariameme
com que suas vozes estejam presentes nos d iscu rsos circulantes. por algum poder superio r. Eles fora m construídos através de um
Pard viabi lizar seus objetivos, muitos desses gn lpos contratam os processo histó rico de mediaçõcs institucionais, que também não fo-
serviços de profissionais da comunicação. seja p ara a elaboração de r.lm produtos de meras decisões o u desejos de u ma elite dirigeme,
políticas de linguagem, seja para im plementá-las. É aí que se d á minha mas sofreram as in junções de toda uma con juntura política e teó rica
inserção nesse universo, iniciaLnc nte como formuladora de políticas internacio nal e nacionaJ. São essas mediações que passo a analisar,
e estratégias institucionais de cornuníca\-"áo e produto ra de mate riais buscando correlacioná-Ias com um cenário externo e mais globaJ .
educa[ivos , em segu ida como consultord das organizações, assessora Lembro que o termo " media ções~ não se limita a designar "pontos
dos quadros técnicos e pesquisadora. de passagem", mas também de processamento e reelaboração de um
O diagrama abaixo permite visualizar os principais atores e flu- pensamento c umaprá.:\·is.

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Os cursos uuiversittÍrios Instituto de Pesqu isa de Comunicação da Unh'ersidade de St:mford
( EUA) - , patrocinado pela UNESCO. Adepto da Teoria da Ação, de
A primei.ra de55:ts mediações é a representada pel05 cursos uni- TalcOIl Parsons, Schr:.lmm analisa, numa abordagem funcionalista e
ver5itários de Comunicaç:io Social, não só porque é ali que os profis- instrume ntal . as fun çõcs que os Meios d e Comunicação de Massa-
sionais da área forjam sua visão teórica sobre o funcionamento da M CM - podem desempenhar nos países subdesenvo lvidos e conclui
socied:lde e as práticas a da cor responde ntes, mas porque foi a im- com uma série d e recomendações aos governos, estabelece ndo uma
plantação e a oriem:tção d esses cursos que legitimo u e ajudo u a cris- relação causal direta entre informação e "progresso nacional". No
taliz:tr modelos e paradigmas vigentes na comunicação rural . Por prefáciO do livro , escrito por Alberto Oines, h:í o seguinte trecho,
que bem exemplifica O espírito da época:
outro lado, dentro do propósito met'Odo lógico de delineamento do
objeto d e pesquisa a partir do meu trajeto pessoal, a gmduação uni- A escalada s()Cial de 11111 indlu{duu dentro dogrllpo ti lima dewrrimc/a rI/reta
vershária representou o primei.ro estágio. tio seu g rtW rle I,I/ormaçdo. E e$lcgruu de infol'maç4a éfmtu de Sell e,lIra_.
Fiz parte da prime i.ra tunna do curso de Comunicação Soei:ll da menta com a sls/ema do ql/al faz parte (p. 17).
UFPE, entre os anos de 7 1 e 75. Naquela época, vigorava o currícu lo E mais na frentc;
regu lamentado em 1969 no bojo da refonna universitaria exigida
pelo acordo MEC/USAID, que introduzira modificações fundamentais ( ... ) mas é !ichmmm quem fO ....1!aJ Pers/Jecti/Jas ollsa ndo vlsfumbl'(lr coisas po.

no de 1966, adotado :ué e ntão.6 Além de desvincular a fomlação e m


°
slfl~Jas 11 afirmando que se sll/xlese,wolulmeUlo miQ é apenas 11m COnjlm/o

Comun icação Social da formação específiCA em Jornalismo, currí- ° de mdlcesll taxas. mas também lI/tIa pustul'a merl/al. e"fiivJxxle scrallerado
por fatores psiool6gicus (p. 19).
cu lo direcionava os cursos para uma qualificação mais técnica dos
profissionais, atendendo assim a um duplo objetivo: esvaziar a co- Po r "fatores psicológicos" entenda-se "mOtivação para o pro-
municação d o seu potencial político de contestação e transformação g.ress~", um conceito fundament:d para a formação dos novos profis-
social e preparar quadros que correspondessclll aO projeto de mo- s l o,n:l.ls que aruariam numa região pobre e arrasada em relação ao
dernização do país, perfeitamente sintonizado com a orielllaç-Jo teó- °
prus, como é Nordeste.
rica no ne-americana. Eram tempos de McLuhan e a aldeia global; O curso da UFPE, primeiro d o gênero na região, foi oferecido
tempos de Cibernetica ,e da Teoria dos Sistemas; te mpos de Shannon por cinco anos atr.lvés de um convênio com uma pequeníssima ONG,
e We:lVer e da Teoria da Informação ; tempoS de sucesso da noção de o Centro de Comunicação Social do Nordeste _ CECOSNE. Para for-
feedbl'lck , de David Berlo, que tinha a capacidade de apaziguar as mar seu quadro docente, o CECOSN E conrratou professores ligados
consciê ncias, fazendo com que lodos nos sendssemos perfeito.) de- às áreas de Filosnth e (:j~nrias Hllffi:lnas. Tateando no campo especi-
mocratas, não coniventes com o sistema e com o regime. A comuniCA- fico da comunicação, descobrindo os autores quase :10 mesmo tempo
ção, pensava-se, resolveria todos os problemas do subdesenvolvimento que seus alunos, os mcstres imprimiram às disciplinas o viés que traziam
que . afinal, ccam problemas de falta de informação, de educação e d e seus campos de orige m. Assim . os Fundamentos Científicos da Co-
de cultura - idé ia herdada do período Kubitschek e introduzida no municação tiveram uma abordagem filosófico-humanista; as discipli-
Brasil pela UNESCO. nas. d.~ Psicologia vieram impregnadas de bcha\~ orismo ; Pesquisa de
Um exemplo ilust'r.nivo dessa conccpç-Áo é o livro Comunica- O pm.ao e MercadolOgia introduziu os métodos e técnicas empiricis-
ção de massa e desctloolv;mellto , de Wilbur Schramm - diretor d o ms em voga nos EUA; e Sociologia trouxe a discussão sobre os MCM
baseada em Umbeno Eco e nos primeiros sons que nos chegavam da
'r,eona Crítica. Transit:wd-se emre as teorias que privilegiavam O indi-
6 Pode-se obll:r Um1l :lnâli5c minucio~;a d esse proa:550 de rormaçlodOlll'\urlcu- V1duo e aquelas que tinham a massa como unidade social a ser cons i-
los dos CUfl'OS dc comuniaçio e s u~ n::laçio com U$ ObjCli'"OS do poder c m d e r.tda, sem que se estabelecesse e ntre elas ne nhuma inte r-relação c
Wr.BER, t994: 9 t -l 04.

.
Os cursos uuiversittÍrios Instituto de Pesqu isa de Comunicação da Unh'ersidade de St:mford
( EUA) - , patrocinado pela UNESCO. Adepto da Teoria da Ação, de
A primei.ra de55:ts mediações é a representada pel05 cursos uni- TalcOIl Parsons, Schr:.lmm analisa, numa abordagem funcionalista e
ver5itários de Comunicaç:io Social, não só porque é ali que os profis- instrume ntal . as fun çõcs que os Meios d e Comunicação de Massa-
sionais da área forjam sua visão teórica sobre o funcionamento da M CM - podem desempenhar nos países subdesenvo lvidos e conclui
socied:lde e as práticas a da cor responde ntes, mas porque foi a im- com uma série d e recomendações aos governos, estabelece ndo uma
plantação e a oriem:tção d esses cursos que legitimo u e ajudo u a cris- relação causal direta entre informação e "progresso nacional". No
taliz:tr modelos e paradigmas vigentes na comunicação rural . Por prefáciO do livro , escrito por Alberto Oines, h:í o seguinte trecho,
que bem exemplifica O espírito da época:
outro lado, dentro do propósito met'Odo lógico de delineamento do
objeto d e pesquisa a partir do meu trajeto pessoal, a gmduação uni- A escalada s()Cial de 11111 indlu{duu dentro dogrllpo ti lima dewrrimc/a rI/reta
vershária representou o primei.ro estágio. tio seu g rtW rle I,I/ormaçdo. E e$lcgruu de infol'maç4a éfmtu de Sell e,lIra_.
Fiz parte da prime i.ra tunna do curso de Comunicação Soei:ll da menta com a sls/ema do ql/al faz parte (p. 17).
UFPE, entre os anos de 7 1 e 75. Naquela época, vigorava o currícu lo E mais na frentc;
regu lamentado em 1969 no bojo da refonna universitaria exigida
pelo acordo MEC/USAID, que introduzira modificações fundamentais ( ... ) mas é !ichmmm quem fO ....1!aJ Pers/Jecti/Jas ollsa ndo vlsfumbl'(lr coisas po.

no de 1966, adotado :ué e ntão.6 Além de desvincular a fomlação e m


°
slfl~Jas 11 afirmando que se sll/xlese,wolulmeUlo miQ é apenas 11m COnjlm/o

Comun icação Social da formação específiCA em Jornalismo, currí- ° de mdlcesll taxas. mas também lI/tIa pustul'a merl/al. e"fiivJxxle scrallerado
por fatores psiool6gicus (p. 19).
cu lo direcionava os cursos para uma qualificação mais técnica dos
profissionais, atendendo assim a um duplo objetivo: esvaziar a co- Po r "fatores psicológicos" entenda-se "mOtivação para o pro-
municação d o seu potencial político de contestação e transformação g.ress~", um conceito fundament:d para a formação dos novos profis-
social e preparar quadros que correspondessclll aO projeto de mo- s l o,n:l.ls que aruariam numa região pobre e arrasada em relação ao
dernização do país, perfeitamente sintonizado com a orielllaç-Jo teó- °
prus, como é Nordeste.
rica no ne-americana. Eram tempos de McLuhan e a aldeia global; O curso da UFPE, primeiro d o gênero na região, foi oferecido
tempos de Cibernetica ,e da Teoria dos Sistemas; te mpos de Shannon por cinco anos atr.lvés de um convênio com uma pequeníssima ONG,
e We:lVer e da Teoria da Informação ; tempoS de sucesso da noção de o Centro de Comunicação Social do Nordeste _ CECOSNE. Para for-
feedbl'lck , de David Berlo, que tinha a capacidade de apaziguar as mar seu quadro docente, o CECOSN E conrratou professores ligados
consciê ncias, fazendo com que lodos nos sendssemos perfeito.) de- às áreas de Filosnth e (:j~nrias Hllffi:lnas. Tateando no campo especi-
mocratas, não coniventes com o sistema e com o regime. A comuniCA- fico da comunicação, descobrindo os autores quase :10 mesmo tempo
ção, pensava-se, resolveria todos os problemas do subdesenvolvimento que seus alunos, os mcstres imprimiram às disciplinas o viés que traziam
que . afinal, ccam problemas de falta de informação, de educação e d e seus campos de orige m. Assim . os Fundamentos Científicos da Co-
de cultura - idé ia herdada do período Kubitschek e introduzida no municação tiveram uma abordagem filosófico-humanista; as discipli-
Brasil pela UNESCO. nas. d.~ Psicologia vieram impregnadas de bcha\~ orismo ; Pesquisa de
Um exemplo ilust'r.nivo dessa conccpç-Áo é o livro Comunica- O pm.ao e MercadolOgia introduziu os métodos e técnicas empiricis-
ção de massa e desctloolv;mellto , de Wilbur Schramm - diretor d o ms em voga nos EUA; e Sociologia trouxe a discussão sobre os MCM
baseada em Umbeno Eco e nos primeiros sons que nos chegavam da
'r,eona Crítica. Transit:wd-se emre as teorias que privilegiavam O indi-
6 Pode-se obll:r Um1l :lnâli5c minucio~;a d esse proa:550 de rormaçlodOlll'\urlcu- V1duo e aquelas que tinham a massa como unidade social a ser cons i-
los dos CUfl'OS dc comuniaçio e s u~ n::laçio com U$ ObjCli'"OS do poder c m d e r.tda, sem que se estabelecesse e ntre elas ne nhuma inte r-relação c
Wr.BER, t994: 9 t -l 04.

.
' nu;'" Arm'jo

sem que se fizesse uma ponte entre t(X1a essa par.úe nlâlia de idé ias e a possível ao receptor, escolher um canal que pe rmitisse a minimi7..'I'
realkl:lde social - brasileira e noroes tina - na qual os profissionais de- ção de ruídos e levar em consideração ofeedbllck na reaJ imentaç'Jo
veriam aruar, uma vez fonnados . d o processo. Tudo muito simples, tudo muito o rgânico, rudo funcio-
Por esse caos teó rico, unificado c ordenado apenas pel:t Teoria nando mecânica c perfeitamente dentro d e uma lógica causal e uma
da Inrormação, aceita com "a Teoria da Com unicaçflo", passou uma visão instrumental da comunicação.
boa pane das pessoas que se inreressaram por comunicação nesse É fácil perceber por tcls dessa concepçl0 o grande paradigma
período (não só de Pernambuco, mas também de outros estlldos da das ciências sociais, o positivi sta. O positivismo esre,,·e rOl1emente
região Nordeste) , como alunos regulares ou ouvintes de cursos es- presente nas teorias da comunicação, principalmente entre os anos
pecíficos. Uma parte dessas pessoas direcionou-se para a atividade 50 e 80, o que é compreensí\'ei numa perspectiva histórica : seria pra-
empresarial (publicidade, sobretudo), Outr.1.5 ocupanm espaços na ticame nte impossível uma teoria e modelos das clências sociais gera-
mídia, mas uma parccla cons iderável - e é esta que inreressa aqui - d os nos anos 40-70, numa sociedade como a norte.americana
passou a constituir o corpo docente dos cursos de comunicação (re- escaparem das grandes linhas poSitivistas do pensamenlO. An:ilise~
produzindo. pois, o proceSSo de ronnaçáo) ou roram trabalhar como sociais, métodos de pesquisa , decisões políticas, políticas de romla-
técnicos e assessores de comunicação na área governamental, nas ção de recursos humanos, ludo roi conformado por aquela <Iue pare-
ONGs c no movimento popular. Uns c outros também passar:.\m a cia uma verdade inelutáveL É arravés do terceiro tema b:isico da
ensinar comunicação nos cursos de nível médio , nos de cooper:ui- d outrina, o da neçcssidade de um espírito positivo na organização
vismo , agronomia e exte nsão rural . Não se pode deixar de mencio nar d as estrutur..tS sociais c políticas, que se investe na ronnação daquela
aqui os numerosos religiosos que acorreram ao curso da UFPE naque- que de\'cria ser uma nova elite dentífico-industrial, capaz de desen-
le período, tanto pelo rato de a comunicação estar "em alta" também volver atividades técnicas correspondentes a cada uma das ciências
nos meios católicos como pela vincuiaçáo do CECOSNE com uma (daf o incentivo;\ especialização) , l:Ontcxto que produz, entre o u-
congreg:.lção religiosa: naquela época, sem dúvida, o CECOSNE era a tros, os cursos de comunicação . Por outro lado , é só a panir do final
palavr..l autorizada em t..'o municação SOCial, no Nordeste. da déCtda de 70 que se afirmariam no Brasil as teorias críticas da cul.
P:tirando acima da diver..ificação de abordagens c marcando pro- tura, assim como cresceria a inRuência marxis ta no âmbitod:t univer-
fundamente a ronnaç:lo teórica (e, em decomncia, a pr.itica Ix>srerior) sidade, mais especificamente das teses de Althusser e de Gr..tmsci.
desses profissionais, pode·se identificar o paradigma inromlacional .I'ode·se ainda le mbrar que o grande debate nacional político-acadê-
que, atr..lvés de alguns modelos, sobrerudo o clássico de Ulsswel1 : mico que se verificava em tOrno das tcorias da dependéncia, no qual
quem ~ diz o que ==- :lI'rdvc:s de que canal ==- aQuem==- com Que ereilo, se problematizavam as noçóes de imperialismo c outras que pu-
cstabe lecia que a comunicação era um processo com começo e fim . nham em xeque os modelos importados de desenvolvimento e de-
composto por: um emissor (ao Qual Clbia a iniciativa) ; uma me nsa- femlia m a necessidade de políticas nacionais de comunicação, não
gem, rormada por códigos verbais o u n;io; um canal, que cumpria a conseguiu permear os currículos fo nnais dos cursos de graduação
mera função de transmissor; um receptor, a quem C:lbia a decirração nem equilibr..tr rorças com as correntes teóricas hegemônicas .
da mensagem. A intençl0 da comunicllção erd sempre prm'OCar um VOltando à rcgião NordeSle : o Ulros cursos foram implantados,
detenninado ereÍlO no receptor, o <Iue poderia ser avaliado através Outr:.IS idéias ror:tm agregadas, OU tras correntes teóricas ganharam
dofeedback. A noç.!o de ruído recebia extrema relevância, possivel- cs paço . O curso de comunicação concretizou mais sua presença na
mente porque fosse através da tipificação de ruídos possíveis que se universidade após O fim do convcnio com o CECOSNE, passando in-
podia acentuar a especificidade de cada disciplina: se de o rdem cul- clusive a funcionar no camjJUs, mudança que teve várias conseqüências,
IUraJ (socio logia) , motivacional (psicologia), etc. Comunicar-se bem entre elas a d e minimi7.ar a abordagem humanista das disciplinas e
era, então, articu lar os códigos da língua da rorm:1 mais adequada .'Iccmuar o car.ítcr técnico e inserumemal do currículo. Mas as bases

SI
"
' nu;'" Arm'jo

sem que se fizesse uma ponte entre t(X1a essa par.úe nlâlia de idé ias e a possível ao receptor, escolher um canal que pe rmitisse a minimi7..'I'
realkl:lde social - brasileira e noroes tina - na qual os profissionais de- ção de ruídos e levar em consideração ofeedbllck na reaJ imentaç'Jo
veriam aruar, uma vez fonnados . d o processo. Tudo muito simples, tudo muito o rgânico, rudo funcio-
Por esse caos teó rico, unificado c ordenado apenas pel:t Teoria nando mecânica c perfeitamente dentro d e uma lógica causal e uma
da Inrormação, aceita com "a Teoria da Com unicaçflo", passou uma visão instrumental da comunicação.
boa pane das pessoas que se inreressaram por comunicação nesse É fácil perceber por tcls dessa concepçl0 o grande paradigma
período (não só de Pernambuco, mas também de outros estlldos da das ciências sociais, o positivi sta. O positivismo esre,,·e rOl1emente
região Nordeste) , como alunos regulares ou ouvintes de cursos es- presente nas teorias da comunicação, principalmente entre os anos
pecíficos. Uma parte dessas pessoas direcionou-se para a atividade 50 e 80, o que é compreensí\'ei numa perspectiva histórica : seria pra-
empresarial (publicidade, sobretudo), Outr.1.5 ocupanm espaços na ticame nte impossível uma teoria e modelos das clências sociais gera-
mídia, mas uma parccla cons iderável - e é esta que inreressa aqui - d os nos anos 40-70, numa sociedade como a norte.americana
passou a constituir o corpo docente dos cursos de comunicação (re- escaparem das grandes linhas poSitivistas do pensamenlO. An:ilise~
produzindo. pois, o proceSSo de ronnaçáo) ou roram trabalhar como sociais, métodos de pesquisa , decisões políticas, políticas de romla-
técnicos e assessores de comunicação na área governamental, nas ção de recursos humanos, ludo roi conformado por aquela <Iue pare-
ONGs c no movimento popular. Uns c outros também passar:.\m a cia uma verdade inelutáveL É arravés do terceiro tema b:isico da
ensinar comunicação nos cursos de nível médio , nos de cooper:ui- d outrina, o da neçcssidade de um espírito positivo na organização
vismo , agronomia e exte nsão rural . Não se pode deixar de mencio nar d as estrutur..tS sociais c políticas, que se investe na ronnação daquela
aqui os numerosos religiosos que acorreram ao curso da UFPE naque- que de\'cria ser uma nova elite dentífico-industrial, capaz de desen-
le período, tanto pelo rato de a comunicação estar "em alta" também volver atividades técnicas correspondentes a cada uma das ciências
nos meios católicos como pela vincuiaçáo do CECOSNE com uma (daf o incentivo;\ especialização) , l:Ontcxto que produz, entre o u-
congreg:.lção religiosa: naquela época, sem dúvida, o CECOSNE era a tros, os cursos de comunicação . Por outro lado , é só a panir do final
palavr..l autorizada em t..'o municação SOCial, no Nordeste. da déCtda de 70 que se afirmariam no Brasil as teorias críticas da cul.
P:tirando acima da diver..ificação de abordagens c marcando pro- tura, assim como cresceria a inRuência marxis ta no âmbitod:t univer-
fundamente a ronnaç:lo teórica (e, em decomncia, a pr.itica Ix>srerior) sidade, mais especificamente das teses de Althusser e de Gr..tmsci.
desses profissionais, pode·se identificar o paradigma inromlacional .I'ode·se ainda le mbrar que o grande debate nacional político-acadê-
que, atr..lvés de alguns modelos, sobrerudo o clássico de Ulsswel1 : mico que se verificava em tOrno das tcorias da dependéncia, no qual
quem ~ diz o que ==- :lI'rdvc:s de que canal ==- aQuem==- com Que ereilo, se problematizavam as noçóes de imperialismo c outras que pu-
cstabe lecia que a comunicação era um processo com começo e fim . nham em xeque os modelos importados de desenvolvimento e de-
composto por: um emissor (ao Qual Clbia a iniciativa) ; uma me nsa- femlia m a necessidade de políticas nacionais de comunicação, não
gem, rormada por códigos verbais o u n;io; um canal, que cumpria a conseguiu permear os currículos fo nnais dos cursos de graduação
mera função de transmissor; um receptor, a quem C:lbia a decirração nem equilibr..tr rorças com as correntes teóricas hegemônicas .
da mensagem. A intençl0 da comunicllção erd sempre prm'OCar um VOltando à rcgião NordeSle : o Ulros cursos foram implantados,
detenninado ereÍlO no receptor, o <Iue poderia ser avaliado através Outr:.IS idéias ror:tm agregadas, OU tras correntes teóricas ganharam
dofeedback. A noç.!o de ruído recebia extrema relevância, possivel- cs paço . O curso de comunicação concretizou mais sua presença na
mente porque fosse através da tipificação de ruídos possíveis que se universidade após O fim do convcnio com o CECOSNE, passando in-
podia acentuar a especificidade de cada disciplina: se de o rdem cul- clusive a funcionar no camjJUs, mudança que teve várias conseqüências,
IUraJ (socio logia) , motivacional (psicologia), etc. Comunicar-se bem entre elas a d e minimi7.ar a abordagem humanista das disciplinas e
era, então, articu lar os códigos da língua da rorm:1 mais adequada .'Iccmuar o car.ítcr técnico e inserumemal do currículo. Mas as bases

SI
"
paradig máticas eStavam solidamente formadas - com o veremos mais o jJ(/rmfigllm fi'lgllístfcu tlumimwle
adiante - não ex:Hamente pcl:l competência de um corpo d ocente ,
m as po rque fazíamos todos, a lunos, pro fessores, instiruiçáo, parte
de uma época em que a comunicação (oi consid ernda estr.Hégica Não seria possível abordar aqui lo<bs as teorias que já fora m
para os interesses nacionais e internacionais , havendo um a lto inves- formuladas a respeito do signo, t:toro pelos filósofos da linguagem
limemo na disseminaç:lo de idéi:LS que possibilitassem a implanta- com o. pelos li ngüistas e teóricos d:a comunic tção h umana. De uma
ção d e um modelo dcsenvolvi mcntista, capitalista e apolítico. Esse ma n e:,r~ e...<t~emamente simplitiC'dda, poder-se-ia d izer que o concei-
contexto de época é que me leva:1 afirmar que, e mbora os o utros to de _sl gn~ apolHa pard o que é ace ito com o representação d e algo
c ursos d e comunicação pudesse m encaminhar dife rentemente a que "'lO a SI mesmo, ou seja, o seu referente . A relação e ntre o signo
aplicação do m esmo currk ulo , e nfatizando outrOS aspeCtOS (como o e o .refe,:nte (també m c hamado "sign ificanre") seria m ed iada pela
da UnD, que vinculava forteme nte a comunicação com o d esenvolvi- codlficaçao e pnxluziria o significado. As variações teór icas existen-
m e m o), o u conferir ê nfa.se maio r a o utras correntes teóricas (C'olSO da les, qu ~. dive rgem sobre os fa tores que inlerferem nessa relação e,
UFRJ , onde a semio logi:t da época e a Escola de Frankfurt tive ram consequenremenre , no modo de produção d o s ignificado, S:IO, de
mais influê ncia) , a base paradigmática fo i a mesma e (oi, como já dis- cena forma , ho mogeneizadas pelo paradigma lingüístico dominante
se, sólida. Mais d e duas d écadas depois, é possível ide ntificá- Ia subja- que possibilita e legitima a noção de signo e CJue estabelece aJgun~
cem c e m quase to das as políticas e pr.hicas d e comunicação (e aqui pressu postos que afetam dirct"'dmellte a Teoria da Comunicação. Hefe-
me rt:firo ao campo da comunicação rural, embora o panorama pos- ~.m-se estes:i imanê ncia d o sentido nas palavras e à autonomia d o su-
sa se repetir e m OUtros campos), ainda que mesclados com o utros Jeito em relação à língua e à produç:"io da significação.
paradigmas e mergenrcs, seja no campo re ligioso, político, governa- De :1t_'Ordo com esse modo de pensar. a língua cons istiria num
me ntal o u não. As escol:t$ de (:omunicação da rcKião, cujo q uadro d o-- reperrório de cód igos com significado já estabelecido (sentido ima-
cente é em grande parte fonu ado por alunos da década de 70 e por neme ~ palavras) do qual o s uje ito la nçaria m ão sempre que tivesse
p rofessores que naquela época iniciaram sua profissão, c umprem pa- n~cess ld ade de se comunicar, fazendo uma combinação a cada situa-
pei fundamental nessa re produção. "Acentuando a dimensão da re- çao, se~u ndo as rcgr.lS d a g mf1l:ítiCl c da simaxe. O sig nificado da sua
produção, os conteúdos do e nsino te nde m II seguir a reboque da alocuçao seria, po is, construído por ele , e mbora dentro d as nomlas
realidade, distanciados das práticas da socie dade e refratários às mu· d:alJngua. Um sujeito scnmnticamente ativo e s intaticamente passivo.
danças que não consegu em abso('\'cr"', confirma Lopes (op. cit.: 64) . AO rccep~o r caberia buscar compree nder o significado da mensagem ,
Po r outro lado, m esmo :tS infl uências teóricas ma is ma rcantes e:t e ficáCia da comunicação esta ria na capac idade de l:stabelccer uma
que aportaram no campo da comunicação vi.ndas d e o utras áreas d as perfeita corre lação e ntre o senrido d o dilo e d o com pree nd ido.
ciê ncias huma nas e produzidas por o utra visão parndigmática, que Essa idéia apóia-se num modelo d o s ig nifiClOtc/s ignificado que
pode ser chamada de "conflitua!" , como a Teoria Crítica e algumas (en~a ~ar conta do fenôm e no da sig nificação através dessa relação di-
teses m a rxis tas, traziam subjacentes a essência do modelo comunica- cotomlca e mecân ica c ntre o o bjero e o que ele s ignifica. Po r o utrO
tivo dominante, o u seja, a existência de um núcleo emissor, ativo, pro- lado , demarca fro nte iras rígidas e ntre a sintaxe e a semântica, a lé m
duto r de sentido - c veiculador de ideologia, o que e ra fund:amental de ~csco nhecc(" a prdgmátiC-d . Tal modelo cristaliza a noção de ideo--
pard essas COlTCntes -, e um núcleo receptor, passivo, que consom c I ~gla como co nfinada ao :lmbito sem ântico, d os conteúdos, sendO:1
acriticamente as m e nsagens que lhe c hegam - e , em conseqüência, é s intaxe ~cutr.1 e desprovida d e conoração. O pró prio par conceitual
ideologicamente do minado. I'ara e ntender m e lhor essa base comum dcnotaçao/conotação, característico das reorias do s igno, evide nc ia e
entre correntes tão díspares na sua origem , é preciso nos remcte nnos sacmmcn ta essa separaçiio e ntre fo rma e COnteúdo e dissocia :I for-
ã m:)(,:ão de signo e ao parad igma lingüístico oorrt':sponde ntc . m a da ideologia: a denotaçáo - aspccto forma l do signo _ seri:l d es-

" "
paradig máticas eStavam solidamente formadas - com o veremos mais o jJ(/rmfigllm fi'lgllístfcu tlumimwle
adiante - não ex:Hamente pcl:l competência de um corpo d ocente ,
m as po rque fazíamos todos, a lunos, pro fessores, instiruiçáo, parte
de uma época em que a comunicação (oi consid ernda estr.Hégica Não seria possível abordar aqui lo<bs as teorias que já fora m
para os interesses nacionais e internacionais , havendo um a lto inves- formuladas a respeito do signo, t:toro pelos filósofos da linguagem
limemo na disseminaç:lo de idéi:LS que possibilitassem a implanta- com o. pelos li ngüistas e teóricos d:a comunic tção h umana. De uma
ção d e um modelo dcsenvolvi mcntista, capitalista e apolítico. Esse ma n e:,r~ e...<t~emamente simplitiC'dda, poder-se-ia d izer que o concei-
contexto de época é que me leva:1 afirmar que, e mbora os o utros to de _sl gn~ apolHa pard o que é ace ito com o representação d e algo
c ursos d e comunicação pudesse m encaminhar dife rentemente a que "'lO a SI mesmo, ou seja, o seu referente . A relação e ntre o signo
aplicação do m esmo currk ulo , e nfatizando outrOS aspeCtOS (como o e o .refe,:nte (també m c hamado "sign ificanre") seria m ed iada pela
da UnD, que vinculava forteme nte a comunicação com o d esenvolvi- codlficaçao e pnxluziria o significado. As variações teór icas existen-
m e m o), o u conferir ê nfa.se maio r a o utras correntes teóricas (C'olSO da les, qu ~. dive rgem sobre os fa tores que inlerferem nessa relação e,
UFRJ , onde a semio logi:t da época e a Escola de Frankfurt tive ram consequenremenre , no modo de produção d o s ignificado, S:IO, de
mais influê ncia) , a base paradigmática fo i a mesma e (oi, como já dis- cena forma , ho mogeneizadas pelo paradigma lingüístico dominante
se, sólida. Mais d e duas d écadas depois, é possível ide ntificá- Ia subja- que possibilita e legitima a noção de signo e CJue estabelece aJgun~
cem c e m quase to das as políticas e pr.hicas d e comunicação (e aqui pressu postos que afetam dirct"'dmellte a Teoria da Comunicação. Hefe-
me rt:firo ao campo da comunicação rural, embora o panorama pos- ~.m-se estes:i imanê ncia d o sentido nas palavras e à autonomia d o su-
sa se repetir e m OUtros campos), ainda que mesclados com o utros Jeito em relação à língua e à produç:"io da significação.
paradigmas e mergenrcs, seja no campo re ligioso, político, governa- De :1t_'Ordo com esse modo de pensar. a língua cons istiria num
me ntal o u não. As escol:t$ de (:omunicação da rcKião, cujo q uadro d o-- reperrório de cód igos com significado já estabelecido (sentido ima-
cente é em grande parte fonu ado por alunos da década de 70 e por neme ~ palavras) do qual o s uje ito la nçaria m ão sempre que tivesse
p rofessores que naquela época iniciaram sua profissão, c umprem pa- n~cess ld ade de se comunicar, fazendo uma combinação a cada situa-
pei fundamental nessa re produção. "Acentuando a dimensão da re- çao, se~u ndo as rcgr.lS d a g mf1l:ítiCl c da simaxe. O sig nificado da sua
produção, os conteúdos do e nsino te nde m II seguir a reboque da alocuçao seria, po is, construído por ele , e mbora dentro d as nomlas
realidade, distanciados das práticas da socie dade e refratários às mu· d:alJngua. Um sujeito scnmnticamente ativo e s intaticamente passivo.
danças que não consegu em abso('\'cr"', confirma Lopes (op. cit.: 64) . AO rccep~o r caberia buscar compree nder o significado da mensagem ,
Po r outro lado, m esmo :tS infl uências teóricas ma is ma rcantes e:t e ficáCia da comunicação esta ria na capac idade de l:stabelccer uma
que aportaram no campo da comunicação vi.ndas d e o utras áreas d as perfeita corre lação e ntre o senrido d o dilo e d o com pree nd ido.
ciê ncias huma nas e produzidas por o utra visão parndigmática, que Essa idéia apóia-se num modelo d o s ig nifiClOtc/s ignificado que
pode ser chamada de "conflitua!" , como a Teoria Crítica e algumas (en~a ~ar conta do fenôm e no da sig nificação através dessa relação di-
teses m a rxis tas, traziam subjacentes a essência do modelo comunica- cotomlca e mecân ica c ntre o o bjero e o que ele s ignifica. Po r o utrO
tivo dominante, o u seja, a existência de um núcleo emissor, ativo, pro- lado , demarca fro nte iras rígidas e ntre a sintaxe e a semântica, a lé m
duto r de sentido - c veiculador de ideologia, o que e ra fund:amental de ~csco nhecc(" a prdgmátiC-d . Tal modelo cristaliza a noção de ideo--
pard essas COlTCntes -, e um núcleo receptor, passivo, que consom c I ~gla como co nfinada ao :lmbito sem ântico, d os conteúdos, sendO:1
acriticamente as m e nsagens que lhe c hegam - e , em conseqüência, é s intaxe ~cutr.1 e desprovida d e conoração. O pró prio par conceitual
ideologicamente do minado. I'ara e ntender m e lhor essa base comum dcnotaçao/conotação, característico das reorias do s igno, evide nc ia e
entre correntes tão díspares na sua origem , é preciso nos remcte nnos sacmmcn ta essa separaçiio e ntre fo rma e COnteúdo e dissocia :I for-
ã m:)(,:ão de signo e ao parad igma lingüístico oorrt':sponde ntc . m a da ideologia: a denotaçáo - aspccto forma l do signo _ seri:l d es-

" "
I"cs/w Araujo

provida de sentido, enquanro que a conotação- aspecto simbólico - diStribuição e consumo de bens agrícolas, assim corno o desenvo lvi-
seria a correia de transmissão ideológica, mento e a transformação da vida rural" ( l978: 83). Aqui será adotado
Ora, como observa Eliseo Verón (1980: 93) , essa concepção e tr.ttildo como sinônimo o sentido mais corrente, que corresponde
às políticas e práticas institucionais de comunicação - em outros ter-
n(lo ~ uma illl)(!IIçLlo arbitrária de certos UIIgfiistas em semló/ogus. Au COlllró,·
rio, reflefl!uu reproduz. 'IU nE/leI da teoria Iillgiiística. uma cOlIsclêllcla social mos, práticas discu rsiv-d.S - direcionadas aos segmenlos sociais que
bem (letermlllada da flIivfdade dalillguagem; decorre de 1111/ cOlifunto precl· constituem o público pmencial ou efetivo das organizaçôes que bus·
so de I)peraçães ideol6gicas. O mecanismo /deol6gicv de base oi, assim. lima cam intervir na realidade do meio ruraL7
projeção. sobre os sistuII/as comp!uxos. de um m(}(lelo fl!cllológico·/llslrume" ·
tal sug/llulo o qual Iinguage/ls sâu máquillas trollsparentes cujo funciuna·
A comunicação rural , como atividade planejada e direcionada,
muniu repousa 'UlS necessidades de crmumicaçdo dos usuários. é antiga no Brasi l, embora o conceito seja mais recente, tendo sido
antecedido pe lo de "informação rural", cujos primeiros registros da-
interessante observar que, ao admitir, mesmo que de forma tam de 1900 (Bordenave, 1988: 23). A idéia de c011lunkação substi-
não e..xplícita. o modelo da comunicaçãu proveniente da Teor ia da tui a d e infonnação no bo jo do movimento d e implantação da
lnformação - e assim incorporar o p:rradigma lingüístico nele subja- extensão rur.u nos moldes norte·americanos, na década d e 40, por
cente -, as teorias que se fil iam ao paradigma conflitual incorrem em meio das "Missões Rumis" e afirnla.se, na década de 60, como conse-
cenas contradiçôes, como a que existe entre o idealismo próprio da qüência da reorientação da UNESCO sobre o papel da comunicação
concepção de significação subjacente àquela matriz lingüística c o para os países não-desenvolvidos. Está, então, vl nculada por origem
materialismo dialético, base do paradigma conflitual. Essas e outras ã ação dos órgãos governamentais. Não é de se estran har, ponanto,
contradiçóes vão espelhar-se nas políticas e práticas discursivas das que todos os outros segmentos institucionais que passaram a atuar
instituições que intervêm no meio rural. sistematicamente no meio rural tenham se posicionado política, d is·
c ursivae metodologicam e nte em relação à extensão oficial e s ua prá.
A ação prática tica comunicativa .
Na seqüência, passo a analisar cada núcleo discursivo institucio-
nal pelo ãngulo de suas práticas e pressupostos, buscando identifi-
A segunda das mediações de construção/reproduÇloJIegitima. car onde e como os modelos e paradigmas se manifestam e se
ção dos modelos e paradigmas vigentes na comunicação rural é cons- reproduzem. Do ponto de vista da m inha relação pessoal com a
tituída pelo conjunto das práticas institucionais de inten'enção social. construção do objeto, tais núcleos têm sido meu locus profissional.
"Comunicação rural" é um conceito que, tomado litemlmente,
englobaria um espectro m uito amplo de atividades , ou seja, qual- Ór,gãos GO/J(!nlamelltais
quer ato humano praticado entre pessoas num âmbito não urbano.
Porém , seu uso no Brasil refere-se mais comumente às esrratégias de
comunicação desenvolvidas pelas instituiçôcs junto à sociedade cam- Tal e qual em relação aos demais núcleos , é impossível definir
ponesa, com vistas à consecução dos seus projetos de imervenção so· um só pressupostO para a prática de comunicação ou um só ripo de
cial. Mais raramente, o termo é usado pam designar os processos de prática comunicativa dos ó rgãos governamentais, devjdo às contradi·
comunicação que ocorrem horizontalmente entre os camponeses,
ou a partir deles. Uma rerceim acepção engloba a mídia comercial es- 7 A .. tu il l fr:lgmentação do ObjetO da co municação em ~ahcrcs regio nais. cada
pecializada no meio rural (revisras, programas de 1V e rádio, etc.). "<.2 mais numerosos -comunicaç-.ío sind ical. popular. empresarial. o rganiza cio-

Bordenave assim a definiu : "Conjunto de mensagens, fluxos e pro- nal, rur.tl . ele. - deoorn:: muilo m~is d~ U!ilid~de e conveniê nci a de se especifi·
car um~ determinnd~ prátic~ social e 05 atOres nel~ implicados. do que d~
cessos de comunicação, veiculados, seja por pessoas, meios e organi- con"iq,-.io de tlue sãu fenumenos distintos aO qual c..'Orrcs pondem conheci·
zaçôes, que se relacionam direta o u indiretamente com a produção, mentos distintos.

54
"
I"cs/w Araujo

provida de sentido, enquanro que a conotação- aspecto simbólico - diStribuição e consumo de bens agrícolas, assim corno o desenvo lvi-
seria a correia de transmissão ideológica, mento e a transformação da vida rural" ( l978: 83). Aqui será adotado
Ora, como observa Eliseo Verón (1980: 93) , essa concepção e tr.ttildo como sinônimo o sentido mais corrente, que corresponde
às políticas e práticas institucionais de comunicação - em outros ter-
n(lo ~ uma illl)(!IIçLlo arbitrária de certos UIIgfiistas em semló/ogus. Au COlllró,·
rio, reflefl!uu reproduz. 'IU nE/leI da teoria Iillgiiística. uma cOlIsclêllcla social mos, práticas discu rsiv-d.S - direcionadas aos segmenlos sociais que
bem (letermlllada da flIivfdade dalillguagem; decorre de 1111/ cOlifunto precl· constituem o público pmencial ou efetivo das organizaçôes que bus·
so de I)peraçães ideol6gicas. O mecanismo /deol6gicv de base oi, assim. lima cam intervir na realidade do meio ruraL7
projeção. sobre os sistuII/as comp!uxos. de um m(}(lelo fl!cllológico·/llslrume" ·
tal sug/llulo o qual Iinguage/ls sâu máquillas trollsparentes cujo funciuna·
A comunicação rural , como atividade planejada e direcionada,
muniu repousa 'UlS necessidades de crmumicaçdo dos usuários. é antiga no Brasi l, embora o conceito seja mais recente, tendo sido
antecedido pe lo de "informação rural", cujos primeiros registros da-
interessante observar que, ao admitir, mesmo que de forma tam de 1900 (Bordenave, 1988: 23). A idéia de c011lunkação substi-
não e..xplícita. o modelo da comunicaçãu proveniente da Teor ia da tui a d e infonnação no bo jo do movimento d e implantação da
lnformação - e assim incorporar o p:rradigma lingüístico nele subja- extensão rur.u nos moldes norte·americanos, na década d e 40, por
cente -, as teorias que se fil iam ao paradigma conflitual incorrem em meio das "Missões Rumis" e afirnla.se, na década de 60, como conse-
cenas contradiçôes, como a que existe entre o idealismo próprio da qüência da reorientação da UNESCO sobre o papel da comunicação
concepção de significação subjacente àquela matriz lingüística c o para os países não-desenvolvidos. Está, então, vl nculada por origem
materialismo dialético, base do paradigma conflitual. Essas e outras ã ação dos órgãos governamentais. Não é de se estran har, ponanto,
contradiçóes vão espelhar-se nas políticas e práticas discursivas das que todos os outros segmentos institucionais que passaram a atuar
instituições que intervêm no meio rural. sistematicamente no meio rural tenham se posicionado política, d is·
c ursivae metodologicam e nte em relação à extensão oficial e s ua prá.
A ação prática tica comunicativa .
Na seqüência, passo a analisar cada núcleo discursivo institucio-
nal pelo ãngulo de suas práticas e pressupostos, buscando identifi-
A segunda das mediações de construção/reproduÇloJIegitima. car onde e como os modelos e paradigmas se manifestam e se
ção dos modelos e paradigmas vigentes na comunicação rural é cons- reproduzem. Do ponto de vista da m inha relação pessoal com a
tituída pelo conjunto das práticas institucionais de inten'enção social. construção do objeto, tais núcleos têm sido meu locus profissional.
"Comunicação rural" é um conceito que, tomado litemlmente,
englobaria um espectro m uito amplo de atividades , ou seja, qual- Ór,gãos GO/J(!nlamelltais
quer ato humano praticado entre pessoas num âmbito não urbano.
Porém , seu uso no Brasil refere-se mais comumente às esrratégias de
comunicação desenvolvidas pelas instituiçôcs junto à sociedade cam- Tal e qual em relação aos demais núcleos , é impossível definir
ponesa, com vistas à consecução dos seus projetos de imervenção so· um só pressupostO para a prática de comunicação ou um só ripo de
cial. Mais raramente, o termo é usado pam designar os processos de prática comunicativa dos ó rgãos governamentais, devjdo às contradi·
comunicação que ocorrem horizontalmente entre os camponeses,
ou a partir deles. Uma rerceim acepção engloba a mídia comercial es- 7 A .. tu il l fr:lgmentação do ObjetO da co municação em ~ahcrcs regio nais. cada
pecializada no meio rural (revisras, programas de 1V e rádio, etc.). "<.2 mais numerosos -comunicaç-.ío sind ical. popular. empresarial. o rganiza cio-

Bordenave assim a definiu : "Conjunto de mensagens, fluxos e pro- nal, rur.tl . ele. - deoorn:: muilo m~is d~ U!ilid~de e conveniê nci a de se especifi·
car um~ determinnd~ prátic~ social e 05 atOres nel~ implicados. do que d~
cessos de comunicação, veiculados, seja por pessoas, meios e organi- con"iq,-.io de tlue sãu fenumenos distintos aO qual c..'Orrcs pondem conheci·
zaçôes, que se relacionam direta o u indiretamente com a produção, mentos distintos.

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"
Jnenta Araujo

ções que os pcrnleiam e às tentativas de ruptura com o modo hege- Rogers.9 Berlo, a partir da Teoria da Info mlação e das teses de Skin-
mônico de pensar e agir. Mas é possível identificar aquilo que é ner, propõe um modelo no qual o o bjetivo é obter do recepror con-
dominante, que pode ser observado como regularidade, Que resiste e dutas desejáveis propostas pelo cmissor, mediante estímu los e
persiste a todas as iniciativas isoladas de muronça. mo ldagem de hábitos e comportame mos. Sofisticado, de aparência
Os ó rgios governamentais que :ltu:un no campo operam basica- d e mocrática - tanto por ver no receptor características iguais ao
meme com as áreas temáticas de pnxlução (agrícola e animal) e sau- emissor, como por incluir a noção de realimentação -, Serlo mar-
d e. Na primeir..l , podem ser incluídos associativismo e implanta- cou profundameme a noção do que consistiria o processo de comu-
ção/gestão de org:tniz:u;Õt!s prodmivas, além de lemas propriamente nicação, não só da extensão rural ofidal, mas também dos demais
agropastoris. A segunda engloba os remas rdativos a economia do- segmentos. Rogers foi o OUtro grande mentorda época, por intenné-
méstica, água e saneamento , prevenção e trat:unenlO de docnças .8 dio do modelo de difusão/adoç..1.o de inovaçõcs, propoStO inicial-
A concepção de comunicação está associada ao uso dos meios, s0- me nte no seu livro Difllsao de iflOvações ( 1962) e rea(jrnlado e m
bretudo os impressos e o rádiO, seguidos pelos vídeos e audiovisuais. Comunicação de inovações (1971) . Fundonalista, ele s ima adoção
Os meios, ou seja, a "comunicaç;ío", apóiam o método de rrabalho de inovações como resultado da necessidad e de segurança pessoal e
baseado em visitas individuais e re uniÕCs . Há a modalidade de ~cam ­ social. Tal adoçio dar·se-ia num cOIl /imwm , no qual se poderia
panha", principalmente na área da saúde, com a difusão massiva de identificar três etapas : antecedentes (onde se considera a identidade
infonnação. Aqui e ali, surge m iniciativas que fogem desse padrão, do potencial "adotante" e sua pen:epção da situação); processo
mas não são re presentatiV"dS, pode ndo ser facilmente contabilizadas (centrado nas fontes de informação, que servem dec.stímulo ao indi-
c , se são apOntad:lS como exemplares de um nO\'o modo de fazer co- víduo); e resultados (adoção ou rejeição). Legitimando essas aborda-
municaç-.1o para o desenvolvimento, não conseguiram ainda se impor gens encontrava·se a Teoria da Modernizaçáo, de David Lerner, Que
como modelo. Um dos pressupostOS b{lSicos da prática comunicatiVoI localh:aV"..1 o problema da mudança em futores psicossociais .
é , pois, o da comunicação como infra~stru tura para as atividades de Berlo c Rogers levavam em conta que os receptores rinham
campo. O Outro é :mterior a este e relaciona-se à I.-uncepção de que a uma cultura própria - conheci mentos, valo res, experiências - e que
solução dos problemas d e desenvolvimenro encontr:l-se na comuni- isso não poderia ser ignorado, sob pena de fracasso dos o bjetivos da
cação, cujos instrumentos de vi:lbilizaçio e oper..lcionaJização são os comunicaçao. Decorre disso a ênfase na noção defeedback , que per-
me ios. Para entender melhor tais pressupostos e como eles se m:m- mi tiria 30 emiSSOr ajustar seus códigos ao receptor, criando mensa-
tt:m ou se articulam com outros, :uU:llmc nte, façamos uma análise re- gens facilmente d(.'Codificáveis. Mas essa clareza não evito u que
IrospecriV'"d Tf.."Cenle das idéias que dirigiram o curso da ação. Lembro tr:tbalhasscm basicamente com a intenção de indução ou persuasão,
que vou ater-me ao período compreendido emre os anos 70 e 90,
embora possa referir-me a discussõcs e propostas teóricas geradas
num lempo anterior. 9 Uma abordagem mais detalhad~ c..I:1..5 Jdéiu e modcl05 desses lIutores c s ua in-
Pode-se distinguir dois momentos mar<:'1.ntes em relação à co- f1u i': naa na orrens;;,o rural pode se r obtida em Friedrich.Já Sauqu<:t q ueo;tionõl
a r<:al influê ncla dos me!'1llOS sabn:: a pr:h k:a cxtcnsion isra, ... m a \'CO", (Iu<: Sr':fTIc,.
municação. O primeiro, cunhado pelo difusio nismo, tinha como Ih!lnte ti po d" poslUra c comport;J.mc m o poderia .ser obscfV'~do lambém e nln::
mentores basicamente dois n orte-americanos: David ncrta c Everen os Ittnicas rranceses, em seus lrablllhos dese n volvime ntiSlôlS na Árria o u na
Á.o;ia, e eles n~o le riam acesso aO!i teórH.'0"5 norte-arne ril:ll.nu5. Creio qu e aqui
ccrt;J.rne ntc ~e pode vo lt:lr a fal:lf" na to rÇll 1.105 par..digmas. lJ.crlo e Rog<:T5 n~o
siio e xemplos unlcos de aulO~S qu<: a §5imil~rnrtl um parndlgma c o co n\"<:rt e-
r~m em modelo~. Al é m da mais , c.~sa vi5~O parndigm:itja impregllava forte-
m<:llt e os estudos c recomendaçôcs da UNESCO. que cr~m vál idos para tado
mundo n:\o-descnvo lvid o e náo :;ó p.lrn a Améria utin:a. Haia viSta ao livro a-
8 As pr.itie:l5 <: moddos da comunicao;io na irea espc:cifica da s:lílde sio aborda· (ado de Sc.hramm. escrito par enoomen<b da própria UNESCO. eom :a finalida-
d os t':m R(lCha Pill:!. qu<: tr:lÇl um I»florama <..Tilico do sela r. de d e divu lgar mundialmente suas direltues.

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Jnenta Araujo

ções que os pcrnleiam e às tentativas de ruptura com o modo hege- Rogers.9 Berlo, a partir da Teoria da Info mlação e das teses de Skin-
mônico de pensar e agir. Mas é possível identificar aquilo que é ner, propõe um modelo no qual o o bjetivo é obter do recepror con-
dominante, que pode ser observado como regularidade, Que resiste e dutas desejáveis propostas pelo cmissor, mediante estímu los e
persiste a todas as iniciativas isoladas de muronça. mo ldagem de hábitos e comportame mos. Sofisticado, de aparência
Os ó rgios governamentais que :ltu:un no campo operam basica- d e mocrática - tanto por ver no receptor características iguais ao
meme com as áreas temáticas de pnxlução (agrícola e animal) e sau- emissor, como por incluir a noção de realimentação -, Serlo mar-
d e. Na primeir..l , podem ser incluídos associativismo e implanta- cou profundameme a noção do que consistiria o processo de comu-
ção/gestão de org:tniz:u;Õt!s prodmivas, além de lemas propriamente nicação, não só da extensão rural ofidal, mas também dos demais
agropastoris. A segunda engloba os remas rdativos a economia do- segmentos. Rogers foi o OUtro grande mentorda época, por intenné-
méstica, água e saneamento , prevenção e trat:unenlO de docnças .8 dio do modelo de difusão/adoç..1.o de inovaçõcs, propoStO inicial-
A concepção de comunicação está associada ao uso dos meios, s0- me nte no seu livro Difllsao de iflOvações ( 1962) e rea(jrnlado e m
bretudo os impressos e o rádiO, seguidos pelos vídeos e audiovisuais. Comunicação de inovações (1971) . Fundonalista, ele s ima adoção
Os meios, ou seja, a "comunicaç;ío", apóiam o método de rrabalho de inovações como resultado da necessidad e de segurança pessoal e
baseado em visitas individuais e re uniÕCs . Há a modalidade de ~cam ­ social. Tal adoçio dar·se-ia num cOIl /imwm , no qual se poderia
panha", principalmente na área da saúde, com a difusão massiva de identificar três etapas : antecedentes (onde se considera a identidade
infonnação. Aqui e ali, surge m iniciativas que fogem desse padrão, do potencial "adotante" e sua pen:epção da situação); processo
mas não são re presentatiV"dS, pode ndo ser facilmente contabilizadas (centrado nas fontes de informação, que servem dec.stímulo ao indi-
c , se são apOntad:lS como exemplares de um nO\'o modo de fazer co- víduo); e resultados (adoção ou rejeição). Legitimando essas aborda-
municaç-.1o para o desenvolvimento, não conseguiram ainda se impor gens encontrava·se a Teoria da Modernizaçáo, de David Lerner, Que
como modelo. Um dos pressupostOS b{lSicos da prática comunicatiVoI localh:aV"..1 o problema da mudança em futores psicossociais .
é , pois, o da comunicação como infra~stru tura para as atividades de Berlo c Rogers levavam em conta que os receptores rinham
campo. O Outro é :mterior a este e relaciona-se à I.-uncepção de que a uma cultura própria - conheci mentos, valo res, experiências - e que
solução dos problemas d e desenvolvimenro encontr:l-se na comuni- isso não poderia ser ignorado, sob pena de fracasso dos o bjetivos da
cação, cujos instrumentos de vi:lbilizaçio e oper..lcionaJização são os comunicaçao. Decorre disso a ênfase na noção defeedback , que per-
me ios. Para entender melhor tais pressupostos e como eles se m:m- mi tiria 30 emiSSOr ajustar seus códigos ao receptor, criando mensa-
tt:m ou se articulam com outros, :uU:llmc nte, façamos uma análise re- gens facilmente d(.'Codificáveis. Mas essa clareza não evito u que
IrospecriV'"d Tf.."Cenle das idéias que dirigiram o curso da ação. Lembro tr:tbalhasscm basicamente com a intenção de indução ou persuasão,
que vou ater-me ao período compreendido emre os anos 70 e 90,
embora possa referir-me a discussõcs e propostas teóricas geradas
num lempo anterior. 9 Uma abordagem mais detalhad~ c..I:1..5 Jdéiu e modcl05 desses lIutores c s ua in-
Pode-se distinguir dois momentos mar<:'1.ntes em relação à co- f1u i': naa na orrens;;,o rural pode se r obtida em Friedrich.Já Sauqu<:t q ueo;tionõl
a r<:al influê ncla dos me!'1llOS sabn:: a pr:h k:a cxtcnsion isra, ... m a \'CO", (Iu<: Sr':fTIc,.
municação. O primeiro, cunhado pelo difusio nismo, tinha como Ih!lnte ti po d" poslUra c comport;J.mc m o poderia .ser obscfV'~do lambém e nln::
mentores basicamente dois n orte-americanos: David ncrta c Everen os Ittnicas rranceses, em seus lrablllhos dese n volvime ntiSlôlS na Árria o u na
Á.o;ia, e eles n~o le riam acesso aO!i teórH.'0"5 norte-arne ril:ll.nu5. Creio qu e aqui
ccrt;J.rne ntc ~e pode vo lt:lr a fal:lf" na to rÇll 1.105 par..digmas. lJ.crlo e Rog<:T5 n~o
siio e xemplos unlcos de aulO~S qu<: a §5imil~rnrtl um parndlgma c o co n\"<:rt e-
r~m em modelo~. Al é m da mais , c.~sa vi5~O parndigm:itja impregllava forte-
m<:llt e os estudos c recomendaçôcs da UNESCO. que cr~m vál idos para tado
mundo n:\o-descnvo lvid o e náo :;ó p.lrn a Améria utin:a. Haia viSta ao livro a-
8 As pr.itie:l5 <: moddos da comunicao;io na irea espc:cifica da s:lílde sio aborda· (ado de Sc.hramm. escrito par enoomen<b da própria UNESCO. eom :a finalida-
d os t':m R(lCha Pill:!. qu<: tr:lÇl um I»florama <..Tilico do sela r. de d e divu lgar mundialmente suas direltues.

" "
I "ulta Araujo

de cond icio namento d o rL-cepror aos inte resses e o bje tivos pred efi- XOS, não foi assimil:lda, assi m como todas as V:lri:iveis que com poriam
nidos d a fo nte , que pod e ria m ser ape rfeiçoados media nte realime n- os "e feitos limit:tdos d a comunicação": os :lgen tes da p rática incor-
tação, mas não revistos o u mo dific:.dos segundo os interesses do porar.1m tâo só os e le me ntos ce ntrais do modelo , com suas inte r-re-
recepto r. Em seu s mod elos, o receptor é algué m com condutas inde- lações primárias.
sejáveis, que devem ser modificadas pela ação d o emissor e - o que é O segundo mome nto ve rifica·se na d écada de 80, com a abertur.l
imponante - pod e m ser modificadas . A visão social que está n a base política, quando se te nto u revisar os pressupostos da extensão ruraJ e
desses d o is a uto res é o rganiCiSta, sendo a sociedad e um conjunto d c re d efinir suas d i.re trizes. Q debate sobre a disjuntiva exte nsão/comu.
estruturas que inte r..gem funcionalme nte, por inte rméd io de rela· niC:lçâo não e ra mais novo, me nos no plano Inte rno do s is te ma, mais
ções causais e de mecanismos regulado res. no pl :mo acad ê mico e inte rnacional. Já em 1972 , a UNESCO passara a
O texto seguinte, extraíd o de um docume nto d e 1982 da re come ndar que a comunicaç.l o fosse vista como um processo "multi-
Empresa de Extensão RU r.ll d o Par.. n:í , "Meios e métodos de comuni· lateral" e o CIES I'AL - Cenuu Internacional d e Estudos Superiores de
cação rural", cxempUfica bem o quanto esses mode los determina- I'eriodismo paJ"3 :1 Amé rica Latina - pass:u-a a dar corpo, :ttravés d e
ram o mo do de e m e nder e fAZer a e xte nsão/comunicação rural. s u as o ficin as e seminários, à idéia da necessid :td e de particip:lç:tO dos
NQ~$l' objetili<O ê oh/I!r lima melhor eficácia "a extellsdQ nlral. Dl! tal for",a
camponeses e m todas as e tapas das ações com u nitárias, do pl:tneja.
que 1//1/ ",ímero crescei/ti! (Ie clientes da eX!I;,.sãu cO/l/pree,ula I! ael" te a men· me m o à avaliação. Nessa é poca, o de bate polít ico que se travava e m
sagem lll! mmumto dlt prodllllvidade JJQr prdllcas mais rac1t.)II,lis, ( ...) Não se tomo d os e fei tos e reações ao im perialismo tinha como um d e seu s ei.
Itsqlleçam IIImca do euetlclal: qlleo c/lell lecomprT!f!/ula e se delxeco/wimcer.
XOS:t q uestão ru ral, tanto pela importância das teses da refo mla agrá-
I'ara Isto, h6 os ml:todos. E.T/s/em os meios de comm'Icaç4o. que perm item
persmuliro cll/mte de/om," ",,,Is rápida e ' ficllZ. (.. ,) O Im portemte é o resl/l· ria qU:lntO por serem o campo C a política agricola espaços que
ladoJi"al, a adoçtJo de tecllologla ( ...). A. metodulogla Ilti/{Z(I</tl deve cOlldu. tom avam mais visíveis as te nta tiv-J.S hegc mô nicas d os países centr.. is. A
zir o {lmelmor n/ral a mustr(lr i' ltereSSI! na ad oçào ell! prdllcas Itllsillaelas.
(a/l 11(1 Sauquel: 25)
"transferência tecno lógica", conceito essencial de toda a p rática de ex-
te nsão rural, concentrava e exp rim ia tudo o que se combatia poUtica-
Cabe ainda uma referência ao modelo comunicativo do "Fluxo m e nte e contra ele m uitosc escreveu . Em 1968, Paulo Freire publicou
e m duas e ta pas", fonnulado por Uizarsfeld e m 1944 e desenvolvido seu clássico Extensão ou conJtmicaçãoi' Q UlI"OS auto res, como Luís
depois amplame nte por Me n o n, Katz. Kla pper, Howland c o u rros, Beltrán eJuan Bordenave, insistiam e m ale n ar p arA a inviabilidade, a
que co nferia relevo ao papel do mediador no processo da comun iCl- inconveniê ncia e comprometimentOS ideológicos d o modelo chbisico
ção. Segundo e le, entre o e missor e o receptor, afetando a recepç.'io extensionista e m vigor. No entanto , é só em meados dos anos 80 que
d a me nsagem, haveria a fil,.'Ura de u m intermed iário , geralme nte o "li- su rgem no próprio sis te ma condições de se falar sobre isto. Além d e
d e r de opinião", d ando-se o p rocesso e m do is passos: d a fo me para O alg umas d issen açóes de mestrado levad as a cabo por algu ns técnicos
mL-diador e deste para o recep tor. Esse modelo foi fundame ntal para a extcnsionis tas, duas publicações d evem ser me nciOnad as como muito
adoç:io do método de trabalho de fonnação de lide ranças comunitá rias. represen tativas.
p rocurando-se através delas atingir as demais pessoas. Na prática, O Ií· Em 1987, o docume nto "A comunicação na extensão ru ral: fun-
d e r fu ncio naria como u m meio de adequar as mensagens ao repenó- d a mentos e diretrizes operacio n ais" , resu ltame d e um ciclo de semi.
riu lingüístico c c ulruraJ do público, aume ntando o índice de ná rios ocorrido no Sis te ma Embr.u'e r, que visavam ajustar a prática
aedtação/adoçáo d as inovaçõcs propoStas. de comunicação às m ud a nças que se tentava operar na e mpresa, d is-
Inreressantc é nOtar que uma d as pri nci pais contribuições d es· corre sobre a nova visão d a extensão rural ,
se modelo à com p reensão d os mecani smos de fun ciona mc nro da co· ( ... ) l'I!rdeldeirmmmle demacrdllca 1/ po/lular. Uma ER que j amais esqu~'C.. que
m u nicação - a "dclinição d a situação comunicativa" - , conceito q ue a melhoria d(~s C'(J,,~liçóesde Irabalbo e devida das famílias rurais só I: possl.
localiza os processos comunicativos sob par.lmetros sociais com pie- vel com a redwrlblllrdu da riqlle.::a. (Ia renda e do fXJde r em "ossa sociedade.
Um(I ER que se ellgaja selll qualquer lIacilaçào no processo de RefQml(l AgrA.

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I "ulta Araujo

de cond icio namento d o rL-cepror aos inte resses e o bje tivos pred efi- XOS, não foi assimil:lda, assi m como todas as V:lri:iveis que com poriam
nidos d a fo nte , que pod e ria m ser ape rfeiçoados media nte realime n- os "e feitos limit:tdos d a comunicação": os :lgen tes da p rática incor-
tação, mas não revistos o u mo dific:.dos segundo os interesses do porar.1m tâo só os e le me ntos ce ntrais do modelo , com suas inte r-re-
recepto r. Em seu s mod elos, o receptor é algué m com condutas inde- lações primárias.
sejáveis, que devem ser modificadas pela ação d o emissor e - o que é O segundo mome nto ve rifica·se na d écada de 80, com a abertur.l
imponante - pod e m ser modificadas . A visão social que está n a base política, quando se te nto u revisar os pressupostos da extensão ruraJ e
desses d o is a uto res é o rganiCiSta, sendo a sociedad e um conjunto d c re d efinir suas d i.re trizes. Q debate sobre a disjuntiva exte nsão/comu.
estruturas que inte r..gem funcionalme nte, por inte rméd io de rela· niC:lçâo não e ra mais novo, me nos no plano Inte rno do s is te ma, mais
ções causais e de mecanismos regulado res. no pl :mo acad ê mico e inte rnacional. Já em 1972 , a UNESCO passara a
O texto seguinte, extraíd o de um docume nto d e 1982 da re come ndar que a comunicaç.l o fosse vista como um processo "multi-
Empresa de Extensão RU r.ll d o Par.. n:í , "Meios e métodos de comuni· lateral" e o CIES I'AL - Cenuu Internacional d e Estudos Superiores de
cação rural", cxempUfica bem o quanto esses mode los determina- I'eriodismo paJ"3 :1 Amé rica Latina - pass:u-a a dar corpo, :ttravés d e
ram o mo do de e m e nder e fAZer a e xte nsão/comunicação rural. s u as o ficin as e seminários, à idéia da necessid :td e de particip:lç:tO dos
NQ~$l' objetili<O ê oh/I!r lima melhor eficácia "a extellsdQ nlral. Dl! tal for",a
camponeses e m todas as e tapas das ações com u nitárias, do pl:tneja.
que 1//1/ ",ímero crescei/ti! (Ie clientes da eX!I;,.sãu cO/l/pree,ula I! ael" te a men· me m o à avaliação. Nessa é poca, o de bate polít ico que se travava e m
sagem lll! mmumto dlt prodllllvidade JJQr prdllcas mais rac1t.)II,lis, ( ...) Não se tomo d os e fei tos e reações ao im perialismo tinha como um d e seu s ei.
Itsqlleçam IIImca do euetlclal: qlleo c/lell lecomprT!f!/ula e se delxeco/wimcer.
XOS:t q uestão ru ral, tanto pela importância das teses da refo mla agrá-
I'ara Isto, h6 os ml:todos. E.T/s/em os meios de comm'Icaç4o. que perm item
persmuliro cll/mte de/om," ",,,Is rápida e ' ficllZ. (.. ,) O Im portemte é o resl/l· ria qU:lntO por serem o campo C a política agricola espaços que
ladoJi"al, a adoçtJo de tecllologla ( ...). A. metodulogla Ilti/{Z(I</tl deve cOlldu. tom avam mais visíveis as te nta tiv-J.S hegc mô nicas d os países centr.. is. A
zir o {lmelmor n/ral a mustr(lr i' ltereSSI! na ad oçào ell! prdllcas Itllsillaelas.
(a/l 11(1 Sauquel: 25)
"transferência tecno lógica", conceito essencial de toda a p rática de ex-
te nsão rural, concentrava e exp rim ia tudo o que se combatia poUtica-
Cabe ainda uma referência ao modelo comunicativo do "Fluxo m e nte e contra ele m uitosc escreveu . Em 1968, Paulo Freire publicou
e m duas e ta pas", fonnulado por Uizarsfeld e m 1944 e desenvolvido seu clássico Extensão ou conJtmicaçãoi' Q UlI"OS auto res, como Luís
depois amplame nte por Me n o n, Katz. Kla pper, Howland c o u rros, Beltrán eJuan Bordenave, insistiam e m ale n ar p arA a inviabilidade, a
que co nferia relevo ao papel do mediador no processo da comun iCl- inconveniê ncia e comprometimentOS ideológicos d o modelo chbisico
ção. Segundo e le, entre o e missor e o receptor, afetando a recepç.'io extensionista e m vigor. No entanto , é só em meados dos anos 80 que
d a me nsagem, haveria a fil,.'Ura de u m intermed iário , geralme nte o "li- su rgem no próprio sis te ma condições de se falar sobre isto. Além d e
d e r de opinião", d ando-se o p rocesso e m do is passos: d a fo me para O alg umas d issen açóes de mestrado levad as a cabo por algu ns técnicos
mL-diador e deste para o recep tor. Esse modelo foi fundame ntal para a extcnsionis tas, duas publicações d evem ser me nciOnad as como muito
adoç:io do método de trabalho de fonnação de lide ranças comunitá rias. represen tativas.
p rocurando-se através delas atingir as demais pessoas. Na prática, O Ií· Em 1987, o docume nto "A comunicação na extensão ru ral: fun-
d e r fu ncio naria como u m meio de adequar as mensagens ao repenó- d a mentos e diretrizes operacio n ais" , resu ltame d e um ciclo de semi.
riu lingüístico c c ulruraJ do público, aume ntando o índice de ná rios ocorrido no Sis te ma Embr.u'e r, que visavam ajustar a prática
aedtação/adoçáo d as inovaçõcs propoStas. de comunicação às m ud a nças que se tentava operar na e mpresa, d is-
Inreressantc é nOtar que uma d as pri nci pais contribuições d es· corre sobre a nova visão d a extensão rural ,
se modelo à com p reensão d os mecani smos de fun ciona mc nro da co· ( ... ) l'I!rdeldeirmmmle demacrdllca 1/ po/lular. Uma ER que j amais esqu~'C.. que
m u nicação - a "dclinição d a situação comunicativa" - , conceito q ue a melhoria d(~s C'(J,,~liçóesde Irabalbo e devida das famílias rurais só I: possl.
localiza os processos comunicativos sob par.lmetros sociais com pie- vel com a redwrlblllrdu da riqlle.::a. (Ia renda e do fXJde r em "ossa sociedade.
Um(I ER que se ellgaja selll qualquer lIacilaçào no processo de RefQml(l AgrA.

" "
ria, 110 fortallXim~tltO dcfu mulS orgu nizacio nais" aSSOC/(l(i~'(ls dos agriclIl-
/orl'S, (I/,e mel/OS têm tillv L'ae /;uz IIUS espaços IXOI/õmlros, s()Cioocollf)lIIicm
A o utra publicação, de 1988, é a brochura Comunicação ruml;
~ sociQPQ/itlcos. Que ousadame,,/e aceita relJellsar sua eXIJerlé"cia d e traba· proposição critica d e lima nova con cepção, de Odilo Friedrich, téc"
lho com as 1ll111bere$ cjorJells rurais, segmelltos clIlturalmCl/te Qprimldos, /lU nico da Embratt!r. Nela, O :tuto r de nuncia o car.1tcr ideológico das teo-
illtcrlor mesmo dasfmfiks eXc/llidus tluslHmeftcios da chml/u(la modemlzu-
fdo (/a agr/c/l llllra ( ... ). (p . 13· 14)
rias que dão sustenraç:"to à extensão rural, analisa as práticas vigentes
e p ropõe um novo modelo, qu e ele deno mino u "humanis ta", repro,
Com referência à concepção de Educação, preconiza que du zid o a seguir:
... li mediallle a /X,rtlclpaçdo (fue Ul'xrrc{(u u reflexiiQ.. o mciocíllio, tI in/e/I_
gêll citf, II imagillllçt'lo e a crlllt/,;ldad e freme aos problemas do sistema (11/-
produ çdo I' das rela ç6cs sueill/s. Cbegar·se-á, assim, à COllllmialçàa dialOgl·
ca, I'SS(hICiu ,lul'dllcaçtiv e, por amsegu /" t". da E.·dellsão NI/ral.

E propõe uma comunicação que, en tre outros requisitos,


/lÚO mais udmila o rl'/aciollamelltQ l'l/m:aclollal !'{lo p rofeswr -sabe lIulo " .
o almlO "/gl/ orame ,I" rell/ldade '. A relação elllre educa/lor e educam/" pas-
sa a ser ,lo tipo horim lllal. centrado ti O/liálogo entro slljt!l/os e /liio 110 "' 0116-
logu do prufeuor (mjfdto, ativo e agellle) freI/te ao "/"" 0 (ubjf!/o . recip/tmlf!.
pau/tlQ e o,wl"te). (p. 16)

Reconhece que
Iltt'i!I1/Os em 11m" lCC/eda(le (Qm IIIf~rc:ssesco'if1itmllc:s quc adut" "" 1 modelo
I
de deSel//lU/llim ellfO /lU1/(ulu para u eflc/6rICla em de/r/mellfo da cqiiltltltle.
Nesse modelo, /lmfl m/' lO r/lI sol/dif/cll scus /III eresses IIU medida em que im -
IX>e (Ortt ;/IImmellle seus IlUlores e busco malller i,,,II/I1(all<, sIm situação huSe-
mÓ/lICQ, cmllrarlal/(Io UI ;I/teress!!s dOI U1s me,lIos majuritár/os da lCC/!!l/ade.
A roml/lt/caçiiu, assim comu loda Extl.',/Sl1u RI/rui, fax parte tio cm rjlllllO tle
mecmliSl1los de slls/ellf(lçâu desses imeres.sn, q,,(lIldo atua re/urçalldo mUC/1l-
los de dl/-sel/vo/"imeUlO IlIjustm e (Wlcelllrado,f!$,

e afirma que
( ...) " 6.-tellstlo Il .. ra/ tem culldiçõef de assumir lima postUr(l que resulte
II/Imll comullicaçao dl"/68ica, crilica, fH'Ntctptlf;t.'U, prublc:matizadol"a, bu-
ma,,/,'" c: (Jucstit)tlatJora, comprometida (um a eqtiitlmJ!! e ,,110 ape'uls com
U c:1.w açãollll prod/tçiioe ~prodl/tivtdadeftsica. Em SIl/1/(I, lima postura '1'le
resgate a /mpurtallcill ,Jus meios de cQIl/lm/ctlçtlo tiOpT"QCes$o de cOlIscienl iza· .~
çiio dus agricullUres e " 0 apoio ti sua at/vlllm/c prorlllUI/tl, II/samlQ ti me/ho-
ria efet/IXI das cu",UÇ6l'I de "Ida dos qlle trabalham a terra c geram riquczas.
( p . 22) J
A razão da ênfase c espaço que d o u aos te rmos desse d ocume n-
tO é o f,HO de eles, além d e ilustrarem perfeitame nte a tentativa de r:l -
zer funcio n:u o sistema so b um par.tdigma oposto ao anterio r - que
fica bem caracterizado por sua denegação explícita - , expressarem
com fidelid ade o discurso d as ONGs, grupos da Igreja. e de sero res d~l
extensão univel"Sitária.

60 61
ria, 110 fortallXim~tltO dcfu mulS orgu nizacio nais" aSSOC/(l(i~'(ls dos agriclIl-
/orl'S, (I/,e mel/OS têm tillv L'ae /;uz IIUS espaços IXOI/õmlros, s()Cioocollf)lIIicm
A o utra publicação, de 1988, é a brochura Comunicação ruml;
~ sociQPQ/itlcos. Que ousadame,,/e aceita relJellsar sua eXIJerlé"cia d e traba· proposição critica d e lima nova con cepção, de Odilo Friedrich, téc"
lho com as 1ll111bere$ cjorJells rurais, segmelltos clIlturalmCl/te Qprimldos, /lU nico da Embratt!r. Nela, O :tuto r de nuncia o car.1tcr ideológico das teo-
illtcrlor mesmo dasfmfiks eXc/llidus tluslHmeftcios da chml/u(la modemlzu-
fdo (/a agr/c/l llllra ( ... ). (p . 13· 14)
rias que dão sustenraç:"to à extensão rural, analisa as práticas vigentes
e p ropõe um novo modelo, qu e ele deno mino u "humanis ta", repro,
Com referência à concepção de Educação, preconiza que du zid o a seguir:
... li mediallle a /X,rtlclpaçdo (fue Ul'xrrc{(u u reflexiiQ.. o mciocíllio, tI in/e/I_
gêll citf, II imagillllçt'lo e a crlllt/,;ldad e freme aos problemas do sistema (11/-
produ çdo I' das rela ç6cs sueill/s. Cbegar·se-á, assim, à COllllmialçàa dialOgl·
ca, I'SS(hICiu ,lul'dllcaçtiv e, por amsegu /" t". da E.·dellsão NI/ral.

E propõe uma comunicação que, en tre outros requisitos,


/lÚO mais udmila o rl'/aciollamelltQ l'l/m:aclollal !'{lo p rofeswr -sabe lIulo " .
o almlO "/gl/ orame ,I" rell/ldade '. A relação elllre educa/lor e educam/" pas-
sa a ser ,lo tipo horim lllal. centrado ti O/liálogo entro slljt!l/os e /liio 110 "' 0116-
logu do prufeuor (mjfdto, ativo e agellle) freI/te ao "/"" 0 (ubjf!/o . recip/tmlf!.
pau/tlQ e o,wl"te). (p. 16)

Reconhece que
Iltt'i!I1/Os em 11m" lCC/eda(le (Qm IIIf~rc:ssesco'if1itmllc:s quc adut" "" 1 modelo
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de deSel//lU/llim ellfO /lU1/(ulu para u eflc/6rICla em de/r/mellfo da cqiiltltltle.
Nesse modelo, /lmfl m/' lO r/lI sol/dif/cll scus /III eresses IIU medida em que im -
IX>e (Ortt ;/IImmellle seus IlUlores e busco malller i,,,II/I1(all<, sIm situação huSe-
mÓ/lICQ, cmllrarlal/(Io UI ;I/teress!!s dOI U1s me,lIos majuritár/os da lCC/!!l/ade.
A roml/lt/caçiiu, assim comu loda Extl.',/Sl1u RI/rui, fax parte tio cm rjlllllO tle
mecmliSl1los de slls/ellf(lçâu desses imeres.sn, q,,(lIldo atua re/urçalldo mUC/1l-
los de dl/-sel/vo/"imeUlO IlIjustm e (Wlcelllrado,f!$,

e afirma que
( ...) " 6.-tellstlo Il .. ra/ tem culldiçõef de assumir lima postUr(l que resulte
II/Imll comullicaçao dl"/68ica, crilica, fH'Ntctptlf;t.'U, prublc:matizadol"a, bu-
ma,,/,'" c: (Jucstit)tlatJora, comprometida (um a eqtiitlmJ!! e ,,110 ape'uls com
U c:1.w açãollll prod/tçiioe ~prodl/tivtdadeftsica. Em SIl/1/(I, lima postura '1'le
resgate a /mpurtallcill ,Jus meios de cQIl/lm/ctlçtlo tiOpT"QCes$o de cOlIscienl iza· .~
çiio dus agricullUres e " 0 apoio ti sua at/vlllm/c prorlllUI/tl, II/samlQ ti me/ho-
ria efet/IXI das cu",UÇ6l'I de "Ida dos qlle trabalham a terra c geram riquczas.
( p . 22) J
A razão da ênfase c espaço que d o u aos te rmos desse d ocume n-
tO é o f,HO de eles, além d e ilustrarem perfeitame nte a tentativa de r:l -
zer funcio n:u o sistema so b um par.tdigma oposto ao anterio r - que
fica bem caracterizado por sua denegação explícita - , expressarem
com fidelid ade o discurso d as ONGs, grupos da Igreja. e de sero res d~l
extensão univel"Sitária.

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fnnilaArm;jo

o dlsclI ~s(} da classe dom inaute, ao absorver cerlal cara Clurlslfcus do II/QI';'
É fáci l perceber que é um mod elo idealista, o ricnt'ado pelo obje- memo popular, pW'o Prll>"llrtlu r Slms privilégios, ou/arma lle ficufullll lflllo tias
tivo de interação e (Iue se articula ('cnda como pressuposto a conju n- roluÇÕf!s de produçdo e da pt!1lf!lraçiiQ I! I!;>-pa llsdo do capitalism o ' w cam po,
ção dc interesses e ntre extensio nistas e camponeses. Por o utro lado, com li Sllburdllluçiio ,los trabalbadores 11 pequl!m)s produ/ores rJlt"(lls ao.s i,,-
tcrcss/'$ do cap/wlismo, cQ/ocO/ldo-os a servi ço dOI mmple;>"OS agruiluJustriais.
excl ui os o utros agentes sociaiS, os O UltOS discursos, as relações de (idem)
poder; exclui, e nfim, o cenário social e m que tal e ncont'ro deveria
acontecer, além d e trazer imp lícita a idéia de que o sujeito domina Havia uma certe7.3 teórica de que erol possível provocar mudan-
p lenamente seu discuCSQ, de fomu a-histórica e descontt:..xrualizada. ças de fund o n a socied ade a partir da aplicação desses no\'os mode-
Em contraposição, O discurso d o primeiro documento mostra-se los, daí inclusive a deno minação ge nérica que receberam : modelos
impregnado por uma interpretação dialético-marxista da realidade, de transformação eSl"nllural . Mas, como d iz. Oliveint. (1988: 45),
m:lI"Cada pela luta de classes, que não deixa opção à Extensão: ou ela "suas práticas não passaram de pequenos 'focos ' no mapa das ações
está do lado dos opressores o u dos o primidos. Nas concepções d e institucionais". As causas disto podem ser localizadas no âmhilo in-
educação e comunicação, é clara a influ~ n cia das leses de I'aulo Frei- u; rno dos sis temas - Cl.'iO mais ca.f"dcteristico das agê ncias o fi ciais de
re, apontando-se o diilogo problematizador COmo única escolha do desenvolvimento , mas também nas deficiências dos pró prios mode-
"novo extensionista". Mas na seção dedicada às recomendaçôes de or- los, como será visto mais adiante.
dem pr.ítica, a ~ nfase absoluta recai sobre a política de edição da A extensão rural no Brasil não é pratic:ula apenas pelas e mpresas
Embrater e , em segu ndo plano, sobre o uso do vídeo e é aí que se per- ligadas até 1990 ao Sistema Embrater. IOMencionei seus d ot:lIll1t=ntos
cebe o peso d a noção instrumental da comunicação. O empenho em e fundamentação teórica porque fo i e la quem mais s istem atizou e
aperfeiçoar o s istema de edição de materiais demo nstra, por o utro expôs suas concepçõe.... e diretrizes para 3 comunicaç:l0 e produziu
lado , a persisl~ nci a da idéia de que a eficácia d a comunicaçáo repousa análises da sua prática. Alé m disso, os d ocumentos são representati-
na qualidade técnica d as men... agens (voltamos a Shan no n & Weaver) vos das práticas e concepções d e o U[ros núcleos oficiais que d esen-
e na adequação dos códigos das mensagens aos receptores (voltamos vo l\'em e/ou implantam políticas públicas (no meio rural, mas nâo só
:I Geria). Indo mais além : evide ncia a concepção de que os mareriais nele), que se fora m constituindo e se moldando à sua image m e se-
d e comunicaç-.io seriam neutros ideologicamente: a ideologia estaria melh:lnça. ll Os diversos ó rgãos estaduais e federai s de desenvolvi-
somente nas relaçôes sociais. mento lêm seus técnicos de campo e seus pro gramas de extensão,
Documentos como esse, contrapostos à pr.ítica ainda hoje vi- ainda q ue vinculados a projetos determinad os e ainda que :tSsim não
gente, são indiC'.tdores de como O debate crítico que se esrabeleceu queiram se deno minar. O Ministério da Agricultura, Abastecimento e
nos anos 70, sob forte influência dos marxismos gramsciano e althus- Refonna Agrária tem na sua estrutura um Departame nto de Assistên-
seriano c da Escola de Frankfurt, foi incorporado apenas no nível re- cia Técnica e Extens:io Runtl, que fo menta ações de extensão em
tó rico, não d eLxanclo maiores conseqüências . Poder-se-ia mesmo
afirmar que, ao inverso, fun ciOno u como um freio ou obstácu lo às tO O SiSte ma fui desa tivado no inicio do governo Collor, sob a a leg:lção de não
mudanças. Marangón (1994: 6-7) menciona as inúmer:ts tentativas au:ndcr aO!! pcqucnOl!' I>r(xlulorc::s e ser dispcnshd ao.~ gr.mdeS. Alguns dos
de os extensio nisms"sc inscreve re m e m movimentos popu lares e se nlkleos ~5laduais - Emalcr - dt.~p;o~..:~r:t>m . o ulmS fo nm c nca mp;ldos petos
g()\'Crnrn; c~rndu~ i5.
aliare m aos legítimos interesses d as comunidades, atuando por meio
I1 No Cõlmpo da sa\td~, \"Crifica·sc u m /x)(NrI 1l.'1.'t"ntc cm tomo de rdlo:ôes críti<::u c
das práticas p:lrtici pativas d os re feridos movimentos" e que foram prupost;lli sobn: os modelos e práticas de oomu n ~âo, embor.l n:io direcionado
abortadas pelas críticas, tania externas quanto de d e ntro d o s istema. pnra a in lt,.'1'Vt;nçio ...~pcl.1fiCl no meio rum!. Nos tCldosci!'O.llanleS, podc-se.: Itlcnlili·
Críticas que se fundamentavam no mesmo referencial teórico que as car principalmentc O par.uJigm~ cnlt:rgcnte dM políticas públ ica.'l associ:ulas ~o
direito de cidadania, com cnrasc no direito :l in ro nn:u;áo. Mas a pr:hiC:l dom l·
propostas de reformulaçõcs, entre o utras a de que aquele era nanlo: ainda é nOMeada pelos mc:smos moc.lcJOS deScritO!! cm rd:r.çio:l :r.grIC\lI·
lun, inclu indo:> proouc,;:io de m:>leri:r.is edUCJ livos d e IOfina ccntr:l li7.:r.da. e m
larga csc:tl.a e distnbuld05 como paCOtes a tooU:lS rcgiÕCli.

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fnnilaArm;jo

o dlsclI ~s(} da classe dom inaute, ao absorver cerlal cara Clurlslfcus do II/QI';'
É fáci l perceber que é um mod elo idealista, o ricnt'ado pelo obje- memo popular, pW'o Prll>"llrtlu r Slms privilégios, ou/arma lle ficufullll lflllo tias
tivo de interação e (Iue se articula ('cnda como pressuposto a conju n- roluÇÕf!s de produçdo e da pt!1lf!lraçiiQ I! I!;>-pa llsdo do capitalism o ' w cam po,
ção dc interesses e ntre extensio nistas e camponeses. Por o utro lado, com li Sllburdllluçiio ,los trabalbadores 11 pequl!m)s produ/ores rJlt"(lls ao.s i,,-
tcrcss/'$ do cap/wlismo, cQ/ocO/ldo-os a servi ço dOI mmple;>"OS agruiluJustriais.
excl ui os o utros agentes sociaiS, os O UltOS discursos, as relações de (idem)
poder; exclui, e nfim, o cenário social e m que tal e ncont'ro deveria
acontecer, além d e trazer imp lícita a idéia de que o sujeito domina Havia uma certe7.3 teórica de que erol possível provocar mudan-
p lenamente seu discuCSQ, de fomu a-histórica e descontt:..xrualizada. ças de fund o n a socied ade a partir da aplicação desses no\'os mode-
Em contraposição, O discurso d o primeiro documento mostra-se los, daí inclusive a deno minação ge nérica que receberam : modelos
impregnado por uma interpretação dialético-marxista da realidade, de transformação eSl"nllural . Mas, como d iz. Oliveint. (1988: 45),
m:lI"Cada pela luta de classes, que não deixa opção à Extensão: ou ela "suas práticas não passaram de pequenos 'focos ' no mapa das ações
está do lado dos opressores o u dos o primidos. Nas concepções d e institucionais". As causas disto podem ser localizadas no âmhilo in-
educação e comunicação, é clara a influ~ n cia das leses de I'aulo Frei- u; rno dos sis temas - Cl.'iO mais ca.f"dcteristico das agê ncias o fi ciais de
re, apontando-se o diilogo problematizador COmo única escolha do desenvolvimento , mas também nas deficiências dos pró prios mode-
"novo extensionista". Mas na seção dedicada às recomendaçôes de or- los, como será visto mais adiante.
dem pr.ítica, a ~ nfase absoluta recai sobre a política de edição da A extensão rural no Brasil não é pratic:ula apenas pelas e mpresas
Embrater e , em segu ndo plano, sobre o uso do vídeo e é aí que se per- ligadas até 1990 ao Sistema Embrater. IOMencionei seus d ot:lIll1t=ntos
cebe o peso d a noção instrumental da comunicação. O empenho em e fundamentação teórica porque fo i e la quem mais s istem atizou e
aperfeiçoar o s istema de edição de materiais demo nstra, por o utro expôs suas concepçõe.... e diretrizes para 3 comunicaç:l0 e produziu
lado , a persisl~ nci a da idéia de que a eficácia d a comunicaçáo repousa análises da sua prática. Alé m disso, os d ocumentos são representati-
na qualidade técnica d as men... agens (voltamos a Shan no n & Weaver) vos das práticas e concepções d e o U[ros núcleos oficiais que d esen-
e na adequação dos códigos das mensagens aos receptores (voltamos vo l\'em e/ou implantam políticas públicas (no meio rural, mas nâo só
:I Geria). Indo mais além : evide ncia a concepção de que os mareriais nele), que se fora m constituindo e se moldando à sua image m e se-
d e comunicaç-.io seriam neutros ideologicamente: a ideologia estaria melh:lnça. ll Os diversos ó rgãos estaduais e federai s de desenvolvi-
somente nas relaçôes sociais. mento lêm seus técnicos de campo e seus pro gramas de extensão,
Documentos como esse, contrapostos à pr.ítica ainda hoje vi- ainda q ue vinculados a projetos determinad os e ainda que :tSsim não
gente, são indiC'.tdores de como O debate crítico que se esrabeleceu queiram se deno minar. O Ministério da Agricultura, Abastecimento e
nos anos 70, sob forte influência dos marxismos gramsciano e althus- Refonna Agrária tem na sua estrutura um Departame nto de Assistên-
seriano c da Escola de Frankfurt, foi incorporado apenas no nível re- cia Técnica e Extens:io Runtl, que fo menta ações de extensão em
tó rico, não d eLxanclo maiores conseqüências . Poder-se-ia mesmo
afirmar que, ao inverso, fun ciOno u como um freio ou obstácu lo às tO O SiSte ma fui desa tivado no inicio do governo Collor, sob a a leg:lção de não
mudanças. Marangón (1994: 6-7) menciona as inúmer:ts tentativas au:ndcr aO!! pcqucnOl!' I>r(xlulorc::s e ser dispcnshd ao.~ gr.mdeS. Alguns dos
de os extensio nisms"sc inscreve re m e m movimentos popu lares e se nlkleos ~5laduais - Emalcr - dt.~p;o~..:~r:t>m . o ulmS fo nm c nca mp;ldos petos
g()\'Crnrn; c~rndu~ i5.
aliare m aos legítimos interesses d as comunidades, atuando por meio
I1 No Cõlmpo da sa\td~, \"Crifica·sc u m /x)(NrI 1l.'1.'t"ntc cm tomo de rdlo:ôes críti<::u c
das práticas p:lrtici pativas d os re feridos movimentos" e que foram prupost;lli sobn: os modelos e práticas de oomu n ~âo, embor.l n:io direcionado
abortadas pelas críticas, tania externas quanto de d e ntro d o s istema. pnra a in lt,.'1'Vt;nçio ...~pcl.1fiCl no meio rum!. Nos tCldosci!'O.llanleS, podc-se.: Itlcnlili·
Críticas que se fundamentavam no mesmo referencial teórico que as car principalmentc O par.uJigm~ cnlt:rgcnte dM políticas públ ica.'l associ:ulas ~o
direito de cidadania, com cnrasc no direito :l in ro nn:u;áo. Mas a pr:hiC:l dom l·
propostas de reformulaçõcs, entre o utras a de que aquele era nanlo: ainda é nOMeada pelos mc:smos moc.lcJOS deScritO!! cm rd:r.çio:l :r.grIC\lI·
lun, inclu indo:> proouc,;:io de m:>leri:r.is edUCJ livos d e IOfina ccntr:l li7.:r.da. e m
larga csc:tl.a e distnbuld05 como paCOtes a tooU:lS rcgiÕCli.

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"
todo país. inclusive d e organismos privados. Já o Ministério d a Saúde [e resses, co ntradições, diSputas por hegemonias, as mesmas que
fo menta nos eS1"ados açõcs denominadas d e lEC - Info rmação, Edu- sâo ide ntificadas na sociedade e que estas não se d esfaze m por d e-
cação e Comunicação que, com algumas e."I(ceções, são tipicamente creto; ui:s, que, em que pese a visão de processo, a comunicação
extensio nis tas. continu:t sendo tratada de fo rma mecanicis ta e instrume ntal. O fatO
A título d e ilustrAção, ci to trt.-chos d o trabalho apresentado no I de adOlar como um dos o bje tivos a "conscientização" d os agriculto-
Seminário de ComunicaÇ"".lo Ruml da Universidade Federal de Viçosa res, o u de insistir no canít"er dialógico e panicipativo da comunica-
_ UFV ( 1994) por um membro do Centro de Comunicaçáo do ção, se por um lado s ignifica um avanço em te rmos poLíticos, por
CAT1,tSecrctaria d e Agricultura de São Paulo, um d os maiores e mais o utro lado, no plano comunicativo, ajuda a esc.llnotear a manuten -
bem.aparelhados do país e que nunca integrou o sistema Emb ....Atcr. ção d aqu ele que talvez seja O maiorobst:ículo a uma real transforma-
( ... ) bis/em várltu recursos, o COllfa/O direto com o agric/ll/ora/rauh <Ie ,,1st·
çâo do cenário da exten são e d a Comunicação Rural : o paradigma
tas, numl(jes. /HIleslrar, dlas-de-c:am]JfJ, demo"straçóes de ml lOOo, "Idros lingüístico, com seu subp roduto da visão de comunicação como es-
educmllJQS, il rformespara.ftJnlals, relJisfas e emissoras de rmlio, eU;. A utiliza· paço d e harmonia e interação, no qual me ios e fo rmas sâo neutros
çlfo d esses recursos delle ser adeqluuJa a cada situação. tmllSj(Jnnundo-se em
tl/Stnlmelltojaclll/ador da traflsjerimciu de feCJIo/"gfll.
ideologicamente.

E mais adiante :
Orgall lzaçiiet Nâo-GQ,.'cmQmcII/(Ils (ONG$)
o prime Iro /HIsso 1 allaflsar o que o agriculto r já tem de c"nhecimrm/o c, a
/HIrtlr tial, / wllltlll/elltar a 110110 j'ifonnoçdo.w /ocllologla que se quer ("cor.
/J(Jra r. ( ...) Se/or dlfldl eO/lVellcê·lo, "Jemonslre a ele. Para isso, exlstcm os re·
, ,,rsotja dttuloJ: llltls-tle·campu, ptl/eSlrus, vídeos, ele. (Par.mhos. 1<1 : Anais
o termo ONG f.J.rn referê ncia, :tqui , às organizações de caráter
do Scmlnário, 11 ().. 111) privado que têm como objetivo mais amplo favorecer ou criar condi·
ções para a mudança social, contrapondo-se às atuaiS hegemonias
É JUStamente na prática atual de comu nicação runtl, perfeita· nos campos político, cu lrur.u ou econõ mico. Posicio nam·se em geral
me nte descrita nesse trecho , que pode mo s avaliar a persiS tência da a favor d as mino rias ou d as maio rias sile nciad as e tend em a trabalhar
formação paradigmática calcada na Teoria da Info rmação, reforçada com os segmentos d a população que estão e m d esvantagem social.
pela noção funcionaliSl3 d e sociedade e bchaviorista do comporta- Mais especificame nte, ONG des igna, neSte lCXtO, a rração d esse uni-
menlO huma.no e legitimada por uma concepçâo d e linguagem que verso que desenvo h'e seu s trabalhos jUntO à população rural.
se e ntranha c pcrmc ia sub-repticiamente todo esse campo de idéias: As ONGs fo rmam um núcleo discu rsivo dos mais expressivos
o d a língua como repertório de códigos com sentido preestabeleci- no cenário analisado. Emhora !'>f'j:. compoSIO por unidades com inte_
do, à disposição d o us uário para suas necessidades d e comu n ica- resSt..'S e áreas temáticas os mais d iversos, tiver:tm até po uco tempo
ção - visão sincrõ nica, a-histórica, apolítica, que conduz à idéia de s u a unidade social garantida pela posição negativa que assumem
um receptor passivo e acrílico. Fo m13ção paradigmá tica que insisle frenle aos órgãos go\'ername nta i s~ a panir mesmo de su a autodeno-
em se mante r, embo ra disfarçada por uma retórica crítica. dialé tica, minação. Tendo surgido e se afirmado como uma reação da socieda-
humanista o u revolucio nária . Formação paradigmática capaz de re- de civil frente à atuação ine fi caz e/o u indesejada de um EstadO que
sistir às te mativas bem·i ntencio nadas de alguns dirigentes e mem- re prese ntaria o s interesses das çI ,tSses dominantes , as ONGs caracte-
bros d os corpos tt!cnicos, cujos esforços não parecem d ar-se conta rizaram-se po r um discu rso marcado pela perspectiva da solidarieda-
de pelo me nos t rês ângulos da quest:i.o que dificultam o processo de social, da justiça, da redistribuição das riquezas nacionais, da
d esejado de mudança. Um , que todos os s istemas o ficiais d e exte n· igualdade d e direitos. Nesse contexto, a comunicação fo i sempre tr:1-
são o u d e comunicação para o desenvolvimento integram o aparato tada como mecanismo de apoio à consecuç:i.o dos o bjetivos inStitucio-
ideológico do Estad o e , portamo , correspondem a interesses bem nais, não logrando obter o mesmo estatuto das demais áreas d o

.
d efin id os ; d o is. que inte rnamente a cada s is tema h á uma luta d e in-

"
todo país. inclusive d e organismos privados. Já o Ministério d a Saúde [e resses, co ntradições, diSputas por hegemonias, as mesmas que
fo menta nos eS1"ados açõcs denominadas d e lEC - Info rmação, Edu- sâo ide ntificadas na sociedade e que estas não se d esfaze m por d e-
cação e Comunicação que, com algumas e."I(ceções, são tipicamente creto; ui:s, que, em que pese a visão de processo, a comunicação
extensio nis tas. continu:t sendo tratada de fo rma mecanicis ta e instrume ntal. O fatO
A título d e ilustrAção, ci to trt.-chos d o trabalho apresentado no I de adOlar como um dos o bje tivos a "conscientização" d os agriculto-
Seminário de ComunicaÇ"".lo Ruml da Universidade Federal de Viçosa res, o u de insistir no canít"er dialógico e panicipativo da comunica-
_ UFV ( 1994) por um membro do Centro de Comunicaçáo do ção, se por um lado s ignifica um avanço em te rmos poLíticos, por
CAT1,tSecrctaria d e Agricultura de São Paulo, um d os maiores e mais o utro lado, no plano comunicativo, ajuda a esc.llnotear a manuten -
bem.aparelhados do país e que nunca integrou o sistema Emb ....Atcr. ção d aqu ele que talvez seja O maiorobst:ículo a uma real transforma-
( ... ) bis/em várltu recursos, o COllfa/O direto com o agric/ll/ora/rauh <Ie ,,1st·
çâo do cenário da exten são e d a Comunicação Rural : o paradigma
tas, numl(jes. /HIleslrar, dlas-de-c:am]JfJ, demo"straçóes de ml lOOo, "Idros lingüístico, com seu subp roduto da visão de comunicação como es-
educmllJQS, il rformespara.ftJnlals, relJisfas e emissoras de rmlio, eU;. A utiliza· paço d e harmonia e interação, no qual me ios e fo rmas sâo neutros
çlfo d esses recursos delle ser adeqluuJa a cada situação. tmllSj(Jnnundo-se em
tl/Stnlmelltojaclll/ador da traflsjerimciu de feCJIo/"gfll.
ideologicamente.

E mais adiante :
Orgall lzaçiiet Nâo-GQ,.'cmQmcII/(Ils (ONG$)
o prime Iro /HIsso 1 allaflsar o que o agriculto r já tem de c"nhecimrm/o c, a
/HIrtlr tial, / wllltlll/elltar a 110110 j'ifonnoçdo.w /ocllologla que se quer ("cor.
/J(Jra r. ( ...) Se/or dlfldl eO/lVellcê·lo, "Jemonslre a ele. Para isso, exlstcm os re·
, ,,rsotja dttuloJ: llltls-tle·campu, ptl/eSlrus, vídeos, ele. (Par.mhos. 1<1 : Anais
o termo ONG f.J.rn referê ncia, :tqui , às organizações de caráter
do Scmlnário, 11 ().. 111) privado que têm como objetivo mais amplo favorecer ou criar condi·
ções para a mudança social, contrapondo-se às atuaiS hegemonias
É JUStamente na prática atual de comu nicação runtl, perfeita· nos campos político, cu lrur.u ou econõ mico. Posicio nam·se em geral
me nte descrita nesse trecho , que pode mo s avaliar a persiS tência da a favor d as mino rias ou d as maio rias sile nciad as e tend em a trabalhar
formação paradigmática calcada na Teoria da Info rmação, reforçada com os segmentos d a população que estão e m d esvantagem social.
pela noção funcionaliSl3 d e sociedade e bchaviorista do comporta- Mais especificame nte, ONG des igna, neSte lCXtO, a rração d esse uni-
menlO huma.no e legitimada por uma concepçâo d e linguagem que verso que desenvo h'e seu s trabalhos jUntO à população rural.
se e ntranha c pcrmc ia sub-repticiamente todo esse campo de idéias: As ONGs fo rmam um núcleo discu rsivo dos mais expressivos
o d a língua como repertório de códigos com sentido preestabeleci- no cenário analisado. Emhora !'>f'j:. compoSIO por unidades com inte_
do, à disposição d o us uário para suas necessidades d e comu n ica- resSt..'S e áreas temáticas os mais d iversos, tiver:tm até po uco tempo
ção - visão sincrõ nica, a-histórica, apolítica, que conduz à idéia de s u a unidade social garantida pela posição negativa que assumem
um receptor passivo e acrílico. Fo m13ção paradigmá tica que insisle frenle aos órgãos go\'ername nta i s~ a panir mesmo de su a autodeno-
em se mante r, embo ra disfarçada por uma retórica crítica. dialé tica, minação. Tendo surgido e se afirmado como uma reação da socieda-
humanista o u revolucio nária . Formação paradigmática capaz de re- de civil frente à atuação ine fi caz e/o u indesejada de um EstadO que
sistir às te mativas bem·i ntencio nadas de alguns dirigentes e mem- re prese ntaria o s interesses das çI ,tSses dominantes , as ONGs caracte-
bros d os corpos tt!cnicos, cujos esforços não parecem d ar-se conta rizaram-se po r um discu rso marcado pela perspectiva da solidarieda-
de pelo me nos t rês ângulos da quest:i.o que dificultam o processo de social, da justiça, da redistribuição das riquezas nacionais, da
d esejado de mudança. Um , que todos os s istemas o ficiais d e exte n· igualdade d e direitos. Nesse contexto, a comunicação fo i sempre tr:1-
são o u d e comunicação para o desenvolvimento integram o aparato tada como mecanismo de apoio à consecuç:i.o dos o bjetivos inStitucio-
ideológico do Estad o e , portamo , correspondem a interesses bem nais, não logrando obter o mesmo estatuto das demais áreas d o

.
d efin id os ; d o is. que inte rnamente a cada s is tema h á uma luta d e in-

"
I m'sltaAraújo

conhecimento. Daí O pouco ou nenhum espaço dado aos seus pro- cunstanciais, nas ONGs, tal discurso é constitutivo da própria mística
fissionais , em geral convocados pam a produção de materiais especí- institucional. E, se no sistema oficial de extensão a contr.tdição é s6
ficos ou para a capacitação pontuaJ das equipes técnicas. 12 aparente, exatamente pelo discurso ser apenas produto das boas in-
O pressuposto básico da atividade comunicativa é a superação tenções de uma minoria, nas ONGs ela se caracteriza como contradi-
do dilema entre objetivos e área geográfica, em geral superdimensio- ção lógica, no sentido da incompatibilidade entre raclocínioe ação.
nados, e a pouca disponibilidade de pessoal, frente às melas e prazos Para entender melhor essa contrddição, teríamos que ir buscá-Ia
estabelecidos . Meios e métodos de comunicação são pensados como mais fundo, no conjunto das COncepções, discursos e práticas das
reforço à tarefa de provocar mudanças sociais, disseminando em maior ONGs, procurando identificar ali as bases par-ddigmáticas que possibi-
escala propostas , análises, informações, tecnologias, denúncias, pa- litam a adoção de dererminados modelos d e comunicação. Lembro
lavras de ordem, que idealmente seriam realizadas no trabalho "cor- que os anos 90 são de crise e transição, o que desestabiliza e obriga a
po-a-corpo", através da comunicação interpessoal, quase sempre relarivizar constatações e afirmações que até poucos anos atrás tinham
consubstanciada em " reuniões". caráter soberano. Nos meios ';onguianos" , fala-se muito em um "vazio
Os temas abordados pelas ONGs podem ser classificados em: de paradigmas". Mesmo aceitando a procedênCia da constatação _ até
pol.íticas públicas, questão agr:.í.ria, direitos humanos, produção e porque náo está em meu alcance verificá-Ia no mo mento -, levanto a
tecnologia (incluindo gestão e comercialização) , mulher e criança, hipótese de que os antigos par-ddigmas não foram ainda descanados.
saúde, meio ambiente e formação política e sindical, temas que rara- Eles se manifestariam nas estratégias de comunicação e nas marcas do
mente são tratados de forma isolada. As ações situam-se, de uma for- discurso institucional dirigido aos C'J.mponeses. A descrição que se se-
ma ger:.tl, nos âmbitos de: apoio à organização sociaJ e política; gue diz respeito a um passado recentíssimo, que ainda não pode ser
fornlação de lideranças; defesa d os dire itos; incentivo e apoio à orga- desconsiderado quando se passa ao plano da influência sobre as pr,íti-
nização econômico-produtiva; organização comunitária e democr'J.- cas de comunicação.
mação da informação. Quanto aos meios utilizados, os impressos Po r circunstâncias histÓricas que dirigiram o curso d as idéias e
são os preferidos, seguidos pelo rádio. A produção de vídeos cresce moldaram a formação teórica dos membros das organizações de as-
rapidamente, embora não corresponda a um concomitante incre- sessoria nas três últimas décadas, 13 estes assimilaram paradigmas e
mento na utilização. Nos processos de capacitação - presentes na maio- modelos de ação que, de certa forma, Contrapõem-se, não só teórica
ria das ações -, recorre-se ao uso de cartazes, diapositivos, vídeos, músi- como ideologicamente.
ca e dr.unatizações, entre outros. O primeiro desses paradigmas, que é também o mais visível,
As ONGs aprescnt.un uma similitude com os organismos oficiais por ter s ido verbaJizado no discurso individuaJ e insritucional. é sem
em relação à comunicação, que se localiza na dificuldade de compa- dúvida o conflitual. Até há pouco tempo, manifestava-se sob a forma
ribilizar discurso e prática. Embora não costu me m expressar sua po- úo discurso dialético·marxista. Na análise socioeconômica e política,
sição teórica e ideológica sobre a comunicação em documentos as ONGs utilizavam amplamente conceitos como "modo e relações
como o da Embrater, se o fizessem os termos seriam muito pareci- de produçao", "mais-valia", "reproduçao da força de trabalho",
dos, porém com um diferenciaJ importante : se aquele corresponde a '"base" e "superestrutura", "campesinato", "'classe" e seus derivados
uma posição isolada de um grupo de técnicos e aJguns dirigentes cir- "consciência e lura de classes", "'contradição", "burguesia", "autoges-

Mcncionaria como mais rclc\Olmc:s a militância politic~. as diretrizes imernaclo-


"
Estou falando em tennos genls. AlgumaS exce ções fonm possibilitadas por di-
rigentes que perceberam 3 necess it.iade de mudar a ótica, lnn~ndo a eomuni·
cação como algo m31s SiS t';mico ou processual e que, acol hemlu n()vólS fOnll:l!'l
" nai.-l p:U-d uma na..-d ordem CCOflÕmic:t e de comunicaç:i.o, os movimentos amhien.
talist.1 e alternativo, o debate sobre tecnologias ólprop riadas t'l!T"Sll S modernas c a
de pensar e agir. contribuíram decisi\Olmemc para a emers;io d3S questõe s fOrmação acadêmica - em geral no campo da.s ciência.s humanas , :lgronórnlC'd~
Ou biológicas.

..
aqui lCamdas .

"
I m'sltaAraújo

conhecimento. Daí O pouco ou nenhum espaço dado aos seus pro- cunstanciais, nas ONGs, tal discurso é constitutivo da própria mística
fissionais , em geral convocados pam a produção de materiais especí- institucional. E, se no sistema oficial de extensão a contr.tdição é s6
ficos ou para a capacitação pontuaJ das equipes técnicas. 12 aparente, exatamente pelo discurso ser apenas produto das boas in-
O pressuposto básico da atividade comunicativa é a superação tenções de uma minoria, nas ONGs ela se caracteriza como contradi-
do dilema entre objetivos e área geográfica, em geral superdimensio- ção lógica, no sentido da incompatibilidade entre raclocínioe ação.
nados, e a pouca disponibilidade de pessoal, frente às melas e prazos Para entender melhor essa contrddição, teríamos que ir buscá-Ia
estabelecidos . Meios e métodos de comunicação são pensados como mais fundo, no conjunto das COncepções, discursos e práticas das
reforço à tarefa de provocar mudanças sociais, disseminando em maior ONGs, procurando identificar ali as bases par-ddigmáticas que possibi-
escala propostas , análises, informações, tecnologias, denúncias, pa- litam a adoção de dererminados modelos d e comunicação. Lembro
lavras de ordem, que idealmente seriam realizadas no trabalho "cor- que os anos 90 são de crise e transição, o que desestabiliza e obriga a
po-a-corpo", através da comunicação interpessoal, quase sempre relarivizar constatações e afirmações que até poucos anos atrás tinham
consubstanciada em " reuniões". caráter soberano. Nos meios ';onguianos" , fala-se muito em um "vazio
Os temas abordados pelas ONGs podem ser classificados em: de paradigmas". Mesmo aceitando a procedênCia da constatação _ até
pol.íticas públicas, questão agr:.í.ria, direitos humanos, produção e porque náo está em meu alcance verificá-Ia no mo mento -, levanto a
tecnologia (incluindo gestão e comercialização) , mulher e criança, hipótese de que os antigos par-ddigmas não foram ainda descanados.
saúde, meio ambiente e formação política e sindical, temas que rara- Eles se manifestariam nas estratégias de comunicação e nas marcas do
mente são tratados de forma isolada. As ações situam-se, de uma for- discurso institucional dirigido aos C'J.mponeses. A descrição que se se-
ma ger:.tl, nos âmbitos de: apoio à organização sociaJ e política; gue diz respeito a um passado recentíssimo, que ainda não pode ser
fornlação de lideranças; defesa d os dire itos; incentivo e apoio à orga- desconsiderado quando se passa ao plano da influência sobre as pr,íti-
nização econômico-produtiva; organização comunitária e democr'J.- cas de comunicação.
mação da informação. Quanto aos meios utilizados, os impressos Po r circunstâncias histÓricas que dirigiram o curso d as idéias e
são os preferidos, seguidos pelo rádio. A produção de vídeos cresce moldaram a formação teórica dos membros das organizações de as-
rapidamente, embora não corresponda a um concomitante incre- sessoria nas três últimas décadas, 13 estes assimilaram paradigmas e
mento na utilização. Nos processos de capacitação - presentes na maio- modelos de ação que, de certa forma, Contrapõem-se, não só teórica
ria das ações -, recorre-se ao uso de cartazes, diapositivos, vídeos, músi- como ideologicamente.
ca e dr.unatizações, entre outros. O primeiro desses paradigmas, que é também o mais visível,
As ONGs aprescnt.un uma similitude com os organismos oficiais por ter s ido verbaJizado no discurso individuaJ e insritucional. é sem
em relação à comunicação, que se localiza na dificuldade de compa- dúvida o conflitual. Até há pouco tempo, manifestava-se sob a forma
ribilizar discurso e prática. Embora não costu me m expressar sua po- úo discurso dialético·marxista. Na análise socioeconômica e política,
sição teórica e ideológica sobre a comunicação em documentos as ONGs utilizavam amplamente conceitos como "modo e relações
como o da Embrater, se o fizessem os termos seriam muito pareci- de produçao", "mais-valia", "reproduçao da força de trabalho",
dos, porém com um diferenciaJ importante : se aquele corresponde a '"base" e "superestrutura", "campesinato", "'classe" e seus derivados
uma posição isolada de um grupo de técnicos e aJguns dirigentes cir- "consciência e lura de classes", "'contradição", "burguesia", "autoges-

Mcncionaria como mais rclc\Olmc:s a militância politic~. as diretrizes imernaclo-


"
Estou falando em tennos genls. AlgumaS exce ções fonm possibilitadas por di-
rigentes que perceberam 3 necess it.iade de mudar a ótica, lnn~ndo a eomuni·
cação como algo m31s SiS t';mico ou processual e que, acol hemlu n()vólS fOnll:l!'l
" nai.-l p:U-d uma na..-d ordem CCOflÕmic:t e de comunicaç:i.o, os movimentos amhien.
talist.1 e alternativo, o debate sobre tecnologias ólprop riadas t'l!T"Sll S modernas c a
de pensar e agir. contribuíram decisi\Olmemc para a emers;io d3S questõe s fOrmação acadêmica - em geral no campo da.s ciência.s humanas , :lgronórnlC'd~
Ou biológicas.

..
aqui lCamdas .

"
(ttcs /la Araújo

tão" e "ideologia". A crença externadaera a de que o conflito, as con- o bj e tivos. Atualmente, verifica-se um deslocamento nas categorias
tradições e a luta d e classes move riam historicameme a humanidade contempladas nas avaliações, m ais por exigência das organizações
no semido de uma sociedade na qua l predominassem os valores doadoras de recurso d o que por convicçóes d os "onguianos". Os v-.t-
igualitários. No atual momento, a lg uns desse,~ conc~it~S f~~dm ,:1:- lores atuais são eficiência, eficácia e efetivid ade, pró prios do modelo
tivizados e acrescentados o utros, como os de excl Uldo e c ldad ao , liberal e retomados pelo neolibemlismo .
d e ntro de uma linha ora dominante de preocupação com as po líticas Portanto, mesmo considemndo as mudanças que estão se ope·
públicas. O paradigma pe rmanece o conflitual , recon hece~se que há rando no universo conceituaJ das ONGs, podem os afirmar que te·
desníveis e conflitos , mas estes devem ser resolvid os pela \'ta do Esta- mos dois gntndes paradigmas d as ciências sociais ali imbricados, o
do moderador, isto é, pelas políticas públicas. conflitual e o funcion alista, direcionando o rumo das reflexões, esta-
No e ntanto, a utilização d esse marco conceitual de fundo ficava belecendo os parâmetros da ação e determinando os critérios da ava-
restrita aos limites da análise macrossocial, além d e constituir a base liação. A estes, somam·se outros parâmetros conce ituais, específi cos
do discurso veiculado nos processos de capacitaçao e nos m e ios de de cada opção tem ática , e m geral associados ao g rande paradigma
comunicação. Quando p assavam ao p lano m icrossocial, isto é, no conflitual. Assim , as ONGs que atuam na área da tecnologia agrope-
âmbito interno dos grupos espeóficos com que trabalha m , ocorria cuária incorporam os p ressu postos da agroecologia, as que militam
uma mudança sensível, passando a valer as referências teóricas ~o em saúde o pe ram com os fundamentos dos direitos d e cidada nia, as
paradigma estruturo·funcionalista. No planejamento ~ ~mpl antaçao que se dedicam à organização d as mulheres adicionam modelos pró-
das estratégias d e ação, deixavam transparecer uma vlsao d o corpo prios das relações d e genero, etc. Essas visões pamdigmáticas refle-
social com o um sistema estruturado e funcional , no qual cada pane te m -se na análise da questão específica da comunicação, assim como
da estrutura relaciona·se funcionalme nte com as demais, send o as nos modelos comunicativos adotad os.
divergências vistas como disfun ções ameaçadoras à unidade do siste- Sendo p rod uto de um movime nto social d e reação a um Estado
ma. Nesse quadro, localizam-se o estímulo às numerosas modalida· au tori tário e o bjetivando , e n tre o u tras coisas, combater os e fe itos
des de organização comunitária, como clu bes de máes, grupos de perversos de uma modernização capitalista desumanizante e exclu-
jovens, g rupos de saúde, associações de produtores e o utraS, no.s dente, as ONGs adotaram , marcadamente nos anos 80 e 90, a noção
quais a coesão e o consenso são valores estimu lados . U~ a,outra . att. humanista e dia lógica de comunicação proposta por Paulo Freire e
rude resultante dessa concepção d e funcionamento SOCial e cans.de· consolidada pela Igreja nos anos 70, atr.tvés das Comunidades Ecle-
r.ar indesejável o elemento individual ou coletivo que nao responda siais de Base. O c aminho dificilmente teria s ido outro: havia a histó·
positivamente aos estímlllos oferecidos . ria pessoal de e ngajame nto político de seus membros. que de uma
Quando , ao fin a l de um período de trabalho , re~avam u~na forma o u outra tinham participado d o debate nacional sobre as polí·
avaliação, as ONGs comumente utilizav:.\m , para o plano m lcros.sOClal, ticas alte rnativas de comunicação; havia a necessidade de compatibi.
categorias d o mais puro positi\'ismo e mpirista, ou seja, as relatlv-dS ao lizar a discussão que se processava, no plano tecnológico, e m torno
progresso e evolução observável e quantificável. Buscava~ , no entan· de procedimentos alternativos às p ráticas e modelos hegemô nicos; c
to, aferir conquist:ls no plano das relações d esses microsslstem.as ~o m havia a oposição explícita ao modo de-pensar e agir das agências o fi·
o sistem a sociopolítico-económico mais amplo, e n tendidas prmclpal- ciais de desenvolvimenlo, Po r fim , havia a estreita vinculação com os
m e nte como vitórias políticas da classe trabalhadora conrra a hege- núcleos discursivos da Igreja Católica Progressista, para quem a co·
m onia das classes do m inantes. E, mais ai nda, na contabilidade geral m unicação dialógica era a essência d o seu modo d e agir.
d as perdas e ganhos, e ram as categorias dialéticas e os o~jetivOs ~e Mas. se essas eram algumas coordenadas do cenário que as
cu nho político.id eológico que pesavam mais. As estratégl~ de açao ONGs construíram e se conseguiram modelar o discu rso institucio-
e ram confrontadas, em última análise, com essas categonas e esses nal sobre a comunicação, havia outras, que se mostrJr.lffi mais sóli·

.. ..
(ttcs /la Araújo

tão" e "ideologia". A crença externadaera a de que o conflito, as con- o bj e tivos. Atualmente, verifica-se um deslocamento nas categorias
tradições e a luta d e classes move riam historicameme a humanidade contempladas nas avaliações, m ais por exigência das organizações
no semido de uma sociedade na qua l predominassem os valores doadoras de recurso d o que por convicçóes d os "onguianos". Os v-.t-
igualitários. No atual momento, a lg uns desse,~ conc~it~S f~~dm ,:1:- lores atuais são eficiência, eficácia e efetivid ade, pró prios do modelo
tivizados e acrescentados o utros, como os de excl Uldo e c ldad ao , liberal e retomados pelo neolibemlismo .
d e ntro de uma linha ora dominante de preocupação com as po líticas Portanto, mesmo considemndo as mudanças que estão se ope·
públicas. O paradigma pe rmanece o conflitual , recon hece~se que há rando no universo conceituaJ das ONGs, podem os afirmar que te·
desníveis e conflitos , mas estes devem ser resolvid os pela \'ta do Esta- mos dois gntndes paradigmas d as ciências sociais ali imbricados, o
do moderador, isto é, pelas políticas públicas. conflitual e o funcion alista, direcionando o rumo das reflexões, esta-
No e ntanto, a utilização d esse marco conceitual de fundo ficava belecendo os parâmetros da ação e determinando os critérios da ava-
restrita aos limites da análise macrossocial, além d e constituir a base liação. A estes, somam·se outros parâmetros conce ituais, específi cos
do discurso veiculado nos processos de capacitaçao e nos m e ios de de cada opção tem ática , e m geral associados ao g rande paradigma
comunicação. Quando p assavam ao p lano m icrossocial, isto é, no conflitual. Assim , as ONGs que atuam na área da tecnologia agrope-
âmbito interno dos grupos espeóficos com que trabalha m , ocorria cuária incorporam os p ressu postos da agroecologia, as que militam
uma mudança sensível, passando a valer as referências teóricas ~o em saúde o pe ram com os fundamentos dos direitos d e cidada nia, as
paradigma estruturo·funcionalista. No planejamento ~ ~mpl antaçao que se dedicam à organização d as mulheres adicionam modelos pró-
das estratégias d e ação, deixavam transparecer uma vlsao d o corpo prios das relações d e genero, etc. Essas visões pamdigmáticas refle-
social com o um sistema estruturado e funcional , no qual cada pane te m -se na análise da questão específica da comunicação, assim como
da estrutura relaciona·se funcionalme nte com as demais, send o as nos modelos comunicativos adotad os.
divergências vistas como disfun ções ameaçadoras à unidade do siste- Sendo p rod uto de um movime nto social d e reação a um Estado
ma. Nesse quadro, localizam-se o estímulo às numerosas modalida· au tori tário e o bjetivando , e n tre o u tras coisas, combater os e fe itos
des de organização comunitária, como clu bes de máes, grupos de perversos de uma modernização capitalista desumanizante e exclu-
jovens, g rupos de saúde, associações de produtores e o utraS, no.s dente, as ONGs adotaram , marcadamente nos anos 80 e 90, a noção
quais a coesão e o consenso são valores estimu lados . U~ a,outra . att. humanista e dia lógica de comunicação proposta por Paulo Freire e
rude resultante dessa concepção d e funcionamento SOCial e cans.de· consolidada pela Igreja nos anos 70, atr.tvés das Comunidades Ecle-
r.ar indesejável o elemento individual ou coletivo que nao responda siais de Base. O c aminho dificilmente teria s ido outro: havia a histó·
positivamente aos estímlllos oferecidos . ria pessoal de e ngajame nto político de seus membros. que de uma
Quando , ao fin a l de um período de trabalho , re~avam u~na forma o u outra tinham participado d o debate nacional sobre as polí·
avaliação, as ONGs comumente utilizav:.\m , para o plano m lcros.sOClal, ticas alte rnativas de comunicação; havia a necessidade de compatibi.
categorias d o mais puro positi\'ismo e mpirista, ou seja, as relatlv-dS ao lizar a discussão que se processava, no plano tecnológico, e m torno
progresso e evolução observável e quantificável. Buscava~ , no entan· de procedimentos alternativos às p ráticas e modelos hegemô nicos; c
to, aferir conquist:ls no plano das relações d esses microsslstem.as ~o m havia a oposição explícita ao modo de-pensar e agir das agências o fi·
o sistem a sociopolítico-económico mais amplo, e n tendidas prmclpal- ciais de desenvolvimenlo, Po r fim , havia a estreita vinculação com os
m e nte como vitórias políticas da classe trabalhadora conrra a hege- núcleos discursivos da Igreja Católica Progressista, para quem a co·
m onia das classes do m inantes. E, mais ai nda, na contabilidade geral m unicação dialógica era a essência d o seu modo d e agir.
d as perdas e ganhos, e ram as categorias dialéticas e os o~jetivOs ~e Mas. se essas eram algumas coordenadas do cenário que as
cu nho político.id eológico que pesavam mais. As estratégl~ de açao ONGs construíram e se conseguiram modelar o discu rso institucio-
e ram confrontadas, em última análise, com essas categonas e esses nal sobre a comunicação, havia outras, que se mostrJr.lffi mais sóli·

.. ..
P~"lura C/u. SIW IIlIurme diwrsldade é u pomo d ói partida para Indicar
das e mais eficazes no jogo das relaçócs de fo rça entre dois grandes quaIS o/Il~n/(Ilwas tknlco s a /lmIF'r. C/li que ritmo, com que eSlrat4:lo.
mode los de ação, im pondo-se à prática. Estas foram, principalmen-
te, a fo rmação teó rica dos dirigentes e dos profissionais da comun i- Indo mais além : nos vários momemos de capacitação que te-
cação, mo ldada nos anos 70. e a pouca openlcionalidade do mooelo nho coorde nado, no âmb ito das ONGs, ao lançar a pergunta: "o que
dialógico de comunicação frente aos objetivos urgemes das ONGs de é comunicação?", obten ho as respostas m ais diversificadas, aparen-
fazer funcio nar um novo ti po de sociedade, que incl u ía propoStas t:tndo provirem de diversas concepções. A um exa lll C mais alento
tecnológicas, políticas. econô micas e sociais. Acrescente-se ;, isto a porém, é possível identificar alguns e lementos comuns a todos: u~
dificuldade do modelo dialógico em se libertar dos pressupostOS da emissor, ao qual cabe a in iciativa, atento às caracteristicas sociais e
Teoria da Informação, o que acabava por criar uma séria contradição Cu lturais do seu público e que tem a intenção de intervir na realida-
interna; enquanto se p ropunha respeitar e panir do conhecime nto de Social; um receptor, dono d e um repenó rio cultu ral e Lingüístico,
do inte rlocuto r, a eficácia do modelo residia na compatibilização ao qual assiste o direito (re lativo) de panicipação no processo de co-
(ideológica, cxperiencial e vocabu lar) entre os códigos de emissor e municação e do qual se espera receptividade às propoStas do emis.
receptor, que garantisse uma compreensão adequada e livrc de ru í- sor; uma mensagem, ajustada às poSSibi lidades de deco dificação do
dos do que se queria comunicar. Tal contradição provocou o surgi- receptor e que tam bém pode provir d este receptor, desde que con-
memo e uso intensivo de expressões como "levar conscicnt"ização", formada nos parâmetros do emissor; um canal, adequado às possibl-
"mostrar a realidade social", "fazer refl etir sobre", "dar o direito de", lid ~des institucionais C/ou às características culturdis d o receptor.
"permitir o acesso à info rmação" , "possibilitar a panicipação", etc., Unmdo estes e1emenros, aparece a concepção de comunicação como
com aparê ncia muito dialógica, mas que reproduziam O esquema bá- processo de interação, d e encontro, de fusão de interesses comuns.
sico, unidir<..'Cional e amoritário (ou paternalista) do emissor - men- Ao se pedir aos meSmos grupos uma análise d os meios de co-
sagem - receptor. mu nicação na sociedade, ouve·se um discurso sobre a indústria cul.
Os poucos documentos existentes sobre comunicação tr:tduzem tura~ - frAgmento mais conhecido da Teoria Crítica _ justifictdo pela
essa tensão constante entre modos de perceber a prática comu nicati- noçao de que cad a ind ivíduo é d iretame nte aferado pelas mensagens
va. To memos como exemplo o texto Experiências das organizações da mídia, mostrando-se indefeso diante delas: se estiver ao alcance
fllio-gu/Jernamenta is em cOlmmfcaçào na transferência de tecnolo- da me nsagem, será atingido. A análise é conclu ída, quase sempre ,
gias alternativas (Von der Weid, 1987) , cuia tíru lo já é um posicio- por uma apologia da democratização d os meios massivos de comu-
namento dentro do modelo difusion ista. Na página 2, lemos , a nicação, entendida apenas como o acesso ao con trole dos canais de
respeilo da polít ica modernizantc do regime militar: rá~ i o e TV, com o obietivo de interferir no sistcm:1 fie informaçao c
Os meamumos /ltil~os 110 pl"OC~Uo liDO foram prl"clpalm~lItil us da co-
veicular mensagens compromet idas com o "in teresse popular".
rmmicaçõo _ Q que implica em CQ' JI)I;mclmetlto ou persuasãu - ma.s os do co"s- O lliando por o urro ãngu lo , o das prátic-As e materiais que con-
Ir·(u tgimellto. s u bstanciam a intenção de se ":o municar, o que enco ntramos?
1) uma estratégia centrada na C""apacitaç:io fonnal e info nnal:
E, na página 5, sobre suas próprias ações;
cursos, treinamentos, estágios, vis itas e reuniões de variados tipos;
/SIO Implica lia ;rlserçiJo de /Im IrabatlxJ li" d/fusão d~ 1er:tIQlogIa profimda- 2) uma opção pr~ferenci:tI por meios de comunicação que pos-
meti/e IJlllculollQ (lOS mml lmetltos sociais 110 campo ( ... ).
sam atingi r um maior número de pessoas.
Logo e m seguida, porém , afirma : Ambos, capacitação c meios de comunicação, veiculam COnteú-
dos de natureza técnica (saúde, agricultura, etc.), organlzativa e polí-
Ol/tro aspecto deQpçrJurlas ONGs- riem sempreadotadojxJr tQflos, ~ IICrdadl!
- foi Q de respeitar o "saber poplllar~, os conher:iml!tltus aculllular/us /XiI" prd- tica (estas duas incluindo aspectos socioeconõmicos) .
tlM emp/rlca dos peqUl!rl()S IJrodIIfOres, bem como Slla 11IIeligblcla e capacl-
(l a(l e criadura. ( ...) Compr~lIdllr (l dim}mica social e prudlltlt..a dos /Xq/tllllOS

70 TI
P~"lura C/u. SIW IIlIurme diwrsldade é u pomo d ói partida para Indicar
das e mais eficazes no jogo das relaçócs de fo rça entre dois grandes quaIS o/Il~n/(Ilwas tknlco s a /lmIF'r. C/li que ritmo, com que eSlrat4:lo.
mode los de ação, im pondo-se à prática. Estas foram, principalmen-
te, a fo rmação teó rica dos dirigentes e dos profissionais da comun i- Indo mais além : nos vários momemos de capacitação que te-
cação, mo ldada nos anos 70. e a pouca openlcionalidade do mooelo nho coorde nado, no âmb ito das ONGs, ao lançar a pergunta: "o que
dialógico de comunicação frente aos objetivos urgemes das ONGs de é comunicação?", obten ho as respostas m ais diversificadas, aparen-
fazer funcio nar um novo ti po de sociedade, que incl u ía propoStas t:tndo provirem de diversas concepções. A um exa lll C mais alento
tecnológicas, políticas. econô micas e sociais. Acrescente-se ;, isto a porém, é possível identificar alguns e lementos comuns a todos: u~
dificuldade do modelo dialógico em se libertar dos pressupostOS da emissor, ao qual cabe a in iciativa, atento às caracteristicas sociais e
Teoria da Informação, o que acabava por criar uma séria contradição Cu lturais do seu público e que tem a intenção de intervir na realida-
interna; enquanto se p ropunha respeitar e panir do conhecime nto de Social; um receptor, dono d e um repenó rio cultu ral e Lingüístico,
do inte rlocuto r, a eficácia do modelo residia na compatibilização ao qual assiste o direito (re lativo) de panicipação no processo de co-
(ideológica, cxperiencial e vocabu lar) entre os códigos de emissor e municação e do qual se espera receptividade às propoStas do emis.
receptor, que garantisse uma compreensão adequada e livrc de ru í- sor; uma mensagem, ajustada às poSSibi lidades de deco dificação do
dos do que se queria comunicar. Tal contradição provocou o surgi- receptor e que tam bém pode provir d este receptor, desde que con-
memo e uso intensivo de expressões como "levar conscicnt"ização", formada nos parâmetros do emissor; um canal, adequado às possibl-
"mostrar a realidade social", "fazer refl etir sobre", "dar o direito de", lid ~des institucionais C/ou às características culturdis d o receptor.
"permitir o acesso à info rmação" , "possibilitar a panicipação", etc., Unmdo estes e1emenros, aparece a concepção de comunicação como
com aparê ncia muito dialógica, mas que reproduziam O esquema bá- processo de interação, d e encontro, de fusão de interesses comuns.
sico, unidir<..'Cional e amoritário (ou paternalista) do emissor - men- Ao se pedir aos meSmos grupos uma análise d os meios de co-
sagem - receptor. mu nicação na sociedade, ouve·se um discurso sobre a indústria cul.
Os poucos documentos existentes sobre comunicação tr:tduzem tura~ - frAgmento mais conhecido da Teoria Crítica _ justifictdo pela
essa tensão constante entre modos de perceber a prática comu nicati- noçao de que cad a ind ivíduo é d iretame nte aferado pelas mensagens
va. To memos como exemplo o texto Experiências das organizações da mídia, mostrando-se indefeso diante delas: se estiver ao alcance
fllio-gu/Jernamenta is em cOlmmfcaçào na transferência de tecnolo- da me nsagem, será atingido. A análise é conclu ída, quase sempre ,
gias alternativas (Von der Weid, 1987) , cuia tíru lo já é um posicio- por uma apologia da democratização d os meios massivos de comu-
namento dentro do modelo difusion ista. Na página 2, lemos , a nicação, entendida apenas como o acesso ao con trole dos canais de
respeilo da polít ica modernizantc do regime militar: rá~ i o e TV, com o obietivo de interferir no sistcm:1 fie informaçao c
Os meamumos /ltil~os 110 pl"OC~Uo liDO foram prl"clpalm~lItil us da co-
veicular mensagens compromet idas com o "in teresse popular".
rmmicaçõo _ Q que implica em CQ' JI)I;mclmetlto ou persuasãu - ma.s os do co"s- O lliando por o urro ãngu lo , o das prátic-As e materiais que con-
Ir·(u tgimellto. s u bstanciam a intenção de se ":o municar, o que enco ntramos?
1) uma estratégia centrada na C""apacitaç:io fonnal e info nnal:
E, na página 5, sobre suas próprias ações;
cursos, treinamentos, estágios, vis itas e reuniões de variados tipos;
/SIO Implica lia ;rlserçiJo de /Im IrabatlxJ li" d/fusão d~ 1er:tIQlogIa profimda- 2) uma opção pr~ferenci:tI por meios de comunicação que pos-
meti/e IJlllculollQ (lOS mml lmetltos sociais 110 campo ( ... ).
sam atingi r um maior número de pessoas.
Logo e m seguida, porém , afirma : Ambos, capacitação c meios de comunicação, veiculam COnteú-
dos de natureza técnica (saúde, agricultura, etc.), organlzativa e polí-
Ol/tro aspecto deQpçrJurlas ONGs- riem sempreadotadojxJr tQflos, ~ IICrdadl!
- foi Q de respeitar o "saber poplllar~, os conher:iml!tltus aculllular/us /XiI" prd- tica (estas duas incluindo aspectos socioeconõmicos) .
tlM emp/rlca dos peqUl!rl()S IJrodIIfOres, bem como Slla 11IIeligblcla e capacl-
(l a(l e criadura. ( ...) Compr~lIdllr (l dim}mica social e prudlltlt..a dos /Xq/tllllOS

70 TI
j.,u l/a"raUju A I"«OI' . ...rsdo do v/bar

Na maioria dos processos de capacitação, podemos ide mifi(,..u' d eranças e utilização das mesmas como elemento facilitador dos
sinais da influencia das reses condu tivistas sobre o cornjX)rtamento p rocessos comun icativos é somada a tendência mais recente de aJgu-
humano, que seria passível de moldagem, mediante estímu los c re- m:LS ONGs de trabalhar não maiS diretamente com pessoas atomiza-
compensas. Numa escala progressiva de seleção dos mais aptos , os das ou organizadas em comunidades, mas com suas orga nizações
que respondem melhor e mais rápido aOs estímulos fornecidos de repreSentativas , via de regra as s indicais. Embora isso corresponda a
form:I S várias sao "premiados" com viagens, aumento de prestígiO uma discussão no p lano político, no plano comunicativo significa
junto às organizações, benefícios materiais e até mesmo possibilida- apenas mudar a instância de intermediação. Busca-se a legitimação e
d es de ganhos financeiros . Em contrapartida, os que não respondem a otim ização dos processos de intervenção social, tal como havia
de fo rma esperada são deixados de lado aos poucos.'" sid o formulado por Lazarsfeld .
Quanto aos materiais, são canilhas, jornais e OUlros impressos, A prática das ONGs d á connetude à observação de Wolf de que
progrolmas de rádio e videocasse te - por meio de seu conteúdo ten- ":lO se recusar a pertinê ncia comunicativa se tennina por aceitar o
tam influenciar, fonnar opiniao, moldar atitudes, obter adesões, su- modelo mais simplificado em cena durante longo tempo, o derivado
gerindo uma influencia das teorias da persuasão ou, em outros da teoria da informação" ( 1987 : 126). A maioria dos dirigentes das
termos, uma perspectiva da proposta Institucional como um produ- ONGs nao considera a especificidade da comunlcaç:lo, não contrata
tO de consumo. Uns poucos materiais objetivam taO só informar so- profissionais adequados e crê que tudo pode ser resolvido no âmbi-
bre detenninado tema e outros tôlnlOS se propõem a d ocumentar um t"O das opções e do discurso político.
fato ou experiência de dete rminado ~rupo (geraJmente vídeos) . A Destacaria ainda um pontO sobre a prática comunic:uiva das
mística do "alternativo", fortemente presente nas opçõeS tecno lógi- ONGs. Trata-se da natureza dessa prática, induzida pel os modelos
cas no C"".Impo da agriculturol, manifes ta-se também na escolha dos de rivoldos da Teoria da Informaç--."io. De caráter unidirecional e verti-
meios de comunicação, m:LS com ênf,LSe bem menor, cenu'ada nas C-.t.JjSlõl, (ais modelos conduzem ao amoritarismo o u , na melhor das
formas e com uma conseqüência perversa: os materiais freqüente- hipóteses, ao patem:llismo e assistencialismo , atitudes contr...ditÓrias
mente reproduzem as fonnas do minantes, porém co m uma quaHda- ~o m alguns dos valores mais caros àquelas organizações, como a
de de produção muito inferior à da mídia convencional ou mesmo à Igualdade, a reciprocidade dos conhecimentos , a perspectiva cntica
dos ó rgãos governamemais. Um tipo de materiaJ que deve ser lemo da educação popular e a autogestão. lndo um pouco mais além : a teo-
brado é o produzido com a participaçao dos núcleos receptores, es- ria behaviorista, que subjaz nos modelos de comunicaç:1o mendonados
tabelecida em vários níveis (comeúdo, foona, ilustração, impressão aci ma, prevê a obtenç:1o de comportamentos e atitudes desejáveis. O
etc.) . Qualquer que.St'"ja o material e seu objetivo. em gel"dl e les estão o bjetivo da co,? unicação é obler mudança de V'ollorcs , condutas, co-
associados a ou tras práticas institucionais, ou seja, do pontO de vista nheçimentos. E produto e serve a uma concepção de sociedade divi-
discursivo não partem do zero e não se apresentam isoladamente. dida entre os que sabem , possuem os valores corretos, as canduras
Outro pontO a se considen r é o quanto a prática das ONGs foi desejáveis (o emissor) e os ( IUC não sabem c cujos vaJores "indesejá-
influenciada, a exemplo dos ó rgãos governamentais, pela teoria do veis" d evem ser modificados (os receptores) . É uma visão (Iue propi-
fluxo da comunicação em duas etapas. Ao trabalho de forma\'ão de li· cia os esquemas sociais d e d o minação que 5.1.0 combalidos pe las
ONGs, até mesmo se constituindo na razão de ser de muiflLS delas.
I'or outro lado, as noções provenientes da Teoria Crítica , mais
14 Visto e ditO assim. parece: multo cru c: injustO com as ONGs. Mas , para além d:L'l
aparênd3s e de outr:l.'llr.lriáveis que humanizam ~ pr-.ítiea de$$;tS organi7.:I~·ud, a especificamente sobre a indúSlria cultural, são coere ntes com os mo-
IllSpiração skinncriana é bOlStanle eviden te n~s csu-.ltégL"lS de muitas dclll.:!. lnsis- delos de comunicação implícilos na prática das ONGs , uma vez que
10 , porém , em lembr.u que eslOU falando de paradigmas (e d e org'.lniz:lçíx:s partem dos mesmos pressuposlOS da unidirecionalidade do fluxo
n~o-Xõldêmicas, que habitualmente n~o ren<:tcrn sobre tais queMÕCS). ,)Imanto
de foml:IÇÓCSquc se incorpor-.am sutilmente c num plano nio-r.ldonal ou Int<:o- comunicativo e do receptor passivo e acrítico. E o que poderia ser
donal .

11 7l
j.,u l/a"raUju A I"«OI' . ...rsdo do v/bar

Na maioria dos processos de capacitação, podemos ide mifi(,..u' d eranças e utilização das mesmas como elemento facilitador dos
sinais da influencia das reses condu tivistas sobre o cornjX)rtamento p rocessos comun icativos é somada a tendência mais recente de aJgu-
humano, que seria passível de moldagem, mediante estímu los c re- m:LS ONGs de trabalhar não maiS diretamente com pessoas atomiza-
compensas. Numa escala progressiva de seleção dos mais aptos , os das ou organizadas em comunidades, mas com suas orga nizações
que respondem melhor e mais rápido aOs estímulos fornecidos de repreSentativas , via de regra as s indicais. Embora isso corresponda a
form:I S várias sao "premiados" com viagens, aumento de prestígiO uma discussão no p lano político, no plano comunicativo significa
junto às organizações, benefícios materiais e até mesmo possibilida- apenas mudar a instância de intermediação. Busca-se a legitimação e
d es de ganhos financeiros . Em contrapartida, os que não respondem a otim ização dos processos de intervenção social, tal como havia
de fo rma esperada são deixados de lado aos poucos.'" sid o formulado por Lazarsfeld .
Quanto aos materiais, são canilhas, jornais e OUlros impressos, A prática das ONGs d á connetude à observação de Wolf de que
progrolmas de rádio e videocasse te - por meio de seu conteúdo ten- ":lO se recusar a pertinê ncia comunicativa se tennina por aceitar o
tam influenciar, fonnar opiniao, moldar atitudes, obter adesões, su- modelo mais simplificado em cena durante longo tempo, o derivado
gerindo uma influencia das teorias da persuasão ou, em outros da teoria da informação" ( 1987 : 126). A maioria dos dirigentes das
termos, uma perspectiva da proposta Institucional como um produ- ONGs nao considera a especificidade da comunlcaç:lo, não contrata
tO de consumo. Uns poucos materiais objetivam taO só informar so- profissionais adequados e crê que tudo pode ser resolvido no âmbi-
bre detenninado tema e outros tôlnlOS se propõem a d ocumentar um t"O das opções e do discurso político.
fato ou experiência de dete rminado ~rupo (geraJmente vídeos) . A Destacaria ainda um pontO sobre a prática comunic:uiva das
mística do "alternativo", fortemente presente nas opçõeS tecno lógi- ONGs. Trata-se da natureza dessa prática, induzida pel os modelos
cas no C"".Impo da agriculturol, manifes ta-se também na escolha dos de rivoldos da Teoria da Informaç--."io. De caráter unidirecional e verti-
meios de comunicação, m:LS com ênf,LSe bem menor, cenu'ada nas C-.t.JjSlõl, (ais modelos conduzem ao amoritarismo o u , na melhor das
formas e com uma conseqüência perversa: os materiais freqüente- hipóteses, ao patem:llismo e assistencialismo , atitudes contr...ditÓrias
mente reproduzem as fonnas do minantes, porém co m uma quaHda- ~o m alguns dos valores mais caros àquelas organizações, como a
de de produção muito inferior à da mídia convencional ou mesmo à Igualdade, a reciprocidade dos conhecimentos , a perspectiva cntica
dos ó rgãos governamemais. Um tipo de materiaJ que deve ser lemo da educação popular e a autogestão. lndo um pouco mais além : a teo-
brado é o produzido com a participaçao dos núcleos receptores, es- ria behaviorista, que subjaz nos modelos de comunicaç:1o mendonados
tabelecida em vários níveis (comeúdo, foona, ilustração, impressão aci ma, prevê a obtenç:1o de comportamentos e atitudes desejáveis. O
etc.) . Qualquer que.St'"ja o material e seu objetivo. em gel"dl e les estão o bjetivo da co,? unicação é obler mudança de V'ollorcs , condutas, co-
associados a ou tras práticas institucionais, ou seja, do pontO de vista nheçimentos. E produto e serve a uma concepção de sociedade divi-
discursivo não partem do zero e não se apresentam isoladamente. dida entre os que sabem , possuem os valores corretos, as canduras
Outro pontO a se considen r é o quanto a prática das ONGs foi desejáveis (o emissor) e os ( IUC não sabem c cujos vaJores "indesejá-
influenciada, a exemplo dos ó rgãos governamentais, pela teoria do veis" d evem ser modificados (os receptores) . É uma visão (Iue propi-
fluxo da comunicação em duas etapas. Ao trabalho de forma\'ão de li· cia os esquemas sociais d e d o minação que 5.1.0 combalidos pe las
ONGs, até mesmo se constituindo na razão de ser de muiflLS delas.
I'or outro lado, as noções provenientes da Teoria Crítica , mais
14 Visto e ditO assim. parece: multo cru c: injustO com as ONGs. Mas , para além d:L'l
aparênd3s e de outr:l.'llr.lriáveis que humanizam ~ pr-.ítiea de$$;tS organi7.:I~·ud, a especificamente sobre a indúSlria cultural, são coere ntes com os mo-
IllSpiração skinncriana é bOlStanle eviden te n~s csu-.ltégL"lS de muitas dclll.:!. lnsis- delos de comunicação implícilos na prática das ONGs , uma vez que
10 , porém , em lembr.u que eslOU falando de paradigmas (e d e org'.lniz:lçíx:s partem dos mesmos pressuposlOS da unidirecionalidade do fluxo
n~o-Xõldêmicas, que habitualmente n~o ren<:tcrn sobre tais queMÕCS). ,)Imanto
de foml:IÇÓCSquc se incorpor-.am sutilmente c num plano nio-r.ldonal ou Int<:o- comunicativo e do receptor passivo e acrítico. E o que poderia ser
donal .

11 7l
entendido como um par:ldoxo. levandoem conta as intenções e con· c\'angélicos também têm suas políticas d e linguagem , mas são volra·
cepções expressas pelos membros e dirigentes d as ONGs. transmu· c.l:ls par.! o proselitismo religioso. Estes que ser:l0 aqui considerados
ta-se e m coerência, quando enfocamos a dupla herança - a politica e ('u ores do cenário analisado tÍ!m , igualmeluc, o bjetivos evangeliza-
a re ligiosa _ na sua fo rmação discurs iva, que os faz acreditarem que dores, mas associados a uma visiio social bem mais terrena e imedia.
são porta-vozes da Verdade, da Jusliça e do Bem, o que os to rnaria t":l . 1;i1iam -se na maioria das vezes à.s corremes mais p rogressistas das
insuspeitos de qualquer inrenção de dominação_ Igrejas, adotando em gemi os pressupostos da Teologia da liberta·
Voltamos por essa via a uma das principais idéias defe ndidas ção, que busca associar os princípios da fé cristii a uma perspt:ctiv-d
aqui, a d;l preeminência de um paradigma lingüístico que no plano de s uperação das desiguaJdad es sociais e d e Iibc nação de todas as
da comunicação unifica rodos os demais, escamoteando as divergên- fo rmas de opressão.
cias e criando uma aparÍ!ncia de coerê ncia lógica. Uma das caracte· Tais grupos trabalham com uma temática equivalenle à das
rís ticas desse paradigma, relembro, é considerar a ideo logia como ONGs. Há alguma distinção e m re lação à.quelas o rganizações, no
prerrogativa dos cOnleúdos, sendo a forma neutra e romla" aqui que tange aos métodos de trabalho, embora o valor conferido às re-
compreendendo os aspecros fomlais da língua (sintaxe) , dos meios I:lções inrerpessoais e o hábito de reuniões sejam ainda mais arraiga-
c dos materiais) . Neutra seria também a fo mla de circulação e de dos . Devido talvez à formação religiosa, sob o signo do humanismo
consumo dos materiais e seu conteúdo. cristão, ao objetivo de f.tZcr cumprir os desígnios divinos e à menor
Outra característica, já mencionada, é a de que o sentido já esta- formalização de suas organizações, os membros desses núcleos ten-
ria dado na mensagem veiculada, promo no texto elaborado pelo dem a viver mais perto dos que seri:lm os receptores de suas mensa-
emissor. Sentido que se toplcaHza na semântica da linguagem, :lde· gens e a optar por p ráticas mais ho rizo ntais d e aç:lo educativa. Em
reme aos cód igos c que prescinde da cooperação do receptor, a não o utras palavras, práticas que incenrivem a iniciativa c a ação popula-
ser para decifrá-lo. A recepção seria equivalente, então, à descoberta res, permanecendo na retagu arda, com a função de apoio. E é a títu-
da Verdade. Nessa perspectiva, é impossÍ\-e! negar a adequação dos lo de apoio que fazem uso intensivo do ddio e dos impressos.
modelos de comunicação que regem a prátiC"d d as OI'{Gs. restando a Embora possa parecer paradoxal, essa estratégia e nvolvendo meios
contradição com :1 análise macrossocial e com os objetivos e pressu - de comunicação massivos pode ser e nte ndida se cons iderdmlOS a
postOS filosóficos e ideológicos instirucionais. m issão evangelizadora que é a razão de ser desses núcleos e que é ex-
Um Outro núcleo discursivo , tão presente quantO as ONGs e os pressa d e fo rma mais o u me nos explícita, na razão ill\'ersa do engaja-
ó rgãos governamentais, é cons tiruído pe los grupos religiosos; falan- me nto polítiCO de seus membros. A difusão d a palavra divina através
do instilucio nalme me, pelas Igrejas. Vejamos quais S30 suas especifi- do e nvio de missio nários aos quatro costados d o mundo é substiruí-
cidades. da, em tem]X)s midiáticos, pelo rádio, lV e pelos jornais. A "culrura"
persiste, embora o discurso já não se ja o mesmo, podendo-se dizer
Gmj)QS re/fg losos
que é equh'3lente ao das ONGs, marcado por um modo de ver a sacie-
d:lde a panirdas relações de classe e da luta con tra as diversas rormas
de opressão de injustiça soçial.
"Grupos religiosos" nomt:ia, aqui , as organizações ou grupos Este seria, pois, um de seus pressu postOS para a comunicação,
de pessoas ligados de alguma fonna às instituições religiosas - equi· enraizado na cu ltura institucio nal : a difusão da palavra divina. O ou-
pes paroquiais, comissões pastorais, organizações diocesanas, servi· tro, mais voltado às preocupaçõcs atuais, cons iste em denunciar e se
ços de congregações , etc. A maioria pertence à 19reja Cató lica contr-apor ao discurso da mídia . Ao discurso , nete·se, não à tecnolo-
Romana, embora haj:' alguns trabalhos desenvolvidos pelas igrejas gia. Procura-se ombrear tecnologicamente co m as elites dominantes,
evangélicas. principalmenre a Luterana e a Metodista. Outros ..Imos a fim de competir discursivarnente no mercado das produções sim·

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"
entendido como um par:ldoxo. levandoem conta as intenções e con· c\'angélicos também têm suas políticas d e linguagem , mas são volra·
cepções expressas pelos membros e dirigentes d as ONGs. transmu· c.l:ls par.! o proselitismo religioso. Estes que ser:l0 aqui considerados
ta-se e m coerência, quando enfocamos a dupla herança - a politica e ('u ores do cenário analisado tÍ!m , igualmeluc, o bjetivos evangeliza-
a re ligiosa _ na sua fo rmação discurs iva, que os faz acreditarem que dores, mas associados a uma visiio social bem mais terrena e imedia.
são porta-vozes da Verdade, da Jusliça e do Bem, o que os to rnaria t":l . 1;i1iam -se na maioria das vezes à.s corremes mais p rogressistas das
insuspeitos de qualquer inrenção de dominação_ Igrejas, adotando em gemi os pressupostos da Teologia da liberta·
Voltamos por essa via a uma das principais idéias defe ndidas ção, que busca associar os princípios da fé cristii a uma perspt:ctiv-d
aqui, a d;l preeminência de um paradigma lingüístico que no plano de s uperação das desiguaJdad es sociais e d e Iibc nação de todas as
da comunicação unifica rodos os demais, escamoteando as divergên- fo rmas de opressão.
cias e criando uma aparÍ!ncia de coerê ncia lógica. Uma das caracte· Tais grupos trabalham com uma temática equivalenle à das
rís ticas desse paradigma, relembro, é considerar a ideo logia como ONGs. Há alguma distinção e m re lação à.quelas o rganizações, no
prerrogativa dos cOnleúdos, sendo a forma neutra e romla" aqui que tange aos métodos de trabalho, embora o valor conferido às re-
compreendendo os aspecros fomlais da língua (sintaxe) , dos meios I:lções inrerpessoais e o hábito de reuniões sejam ainda mais arraiga-
c dos materiais) . Neutra seria também a fo mla de circulação e de dos . Devido talvez à formação religiosa, sob o signo do humanismo
consumo dos materiais e seu conteúdo. cristão, ao objetivo de f.tZcr cumprir os desígnios divinos e à menor
Outra característica, já mencionada, é a de que o sentido já esta- formalização de suas organizações, os membros desses núcleos ten-
ria dado na mensagem veiculada, promo no texto elaborado pelo dem a viver mais perto dos que seri:lm os receptores de suas mensa-
emissor. Sentido que se toplcaHza na semântica da linguagem, :lde· gens e a optar por p ráticas mais ho rizo ntais d e aç:lo educativa. Em
reme aos cód igos c que prescinde da cooperação do receptor, a não o utras palavras, práticas que incenrivem a iniciativa c a ação popula-
ser para decifrá-lo. A recepção seria equivalente, então, à descoberta res, permanecendo na retagu arda, com a função de apoio. E é a títu-
da Verdade. Nessa perspectiva, é impossÍ\-e! negar a adequação dos lo de apoio que fazem uso intensivo do ddio e dos impressos.
modelos de comunicação que regem a prátiC"d d as OI'{Gs. restando a Embora possa parecer paradoxal, essa estratégia e nvolvendo meios
contradição com :1 análise macrossocial e com os objetivos e pressu - de comunicação massivos pode ser e nte ndida se cons iderdmlOS a
postOS filosóficos e ideológicos instirucionais. m issão evangelizadora que é a razão de ser desses núcleos e que é ex-
Um Outro núcleo discursivo , tão presente quantO as ONGs e os pressa d e fo rma mais o u me nos explícita, na razão ill\'ersa do engaja-
ó rgãos governamentais, é cons tiruído pe los grupos religiosos; falan- me nto polítiCO de seus membros. A difusão d a palavra divina através
do instilucio nalme me, pelas Igrejas. Vejamos quais S30 suas especifi- do e nvio de missio nários aos quatro costados d o mundo é substiruí-
cidades. da, em tem]X)s midiáticos, pelo rádio, lV e pelos jornais. A "culrura"
persiste, embora o discurso já não se ja o mesmo, podendo-se dizer
Gmj)QS re/fg losos
que é equh'3lente ao das ONGs, marcado por um modo de ver a sacie-
d:lde a panirdas relações de classe e da luta con tra as diversas rormas
de opressão de injustiça soçial.
"Grupos religiosos" nomt:ia, aqui , as organizações ou grupos Este seria, pois, um de seus pressu postOS para a comunicação,
de pessoas ligados de alguma fonna às instituições religiosas - equi· enraizado na cu ltura institucio nal : a difusão da palavra divina. O ou-
pes paroquiais, comissões pastorais, organizações diocesanas, servi· tro, mais voltado às preocupaçõcs atuais, cons iste em denunciar e se
ços de congregações , etc. A maioria pertence à 19reja Cató lica contr-apor ao discurso da mídia . Ao discurso , nete·se, não à tecnolo-
Romana, embora haj:' alguns trabalhos desenvolvidos pelas igrejas gia. Procura-se ombrear tecnologicamente co m as elites dominantes,
evangélicas. principalmenre a Luterana e a Metodista. Outros ..Imos a fim de competir discursivarnente no mercado das produções sim·

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I <lU/Ia Araujo

bólicas. Os projetos de educ:lção popular para a leitura c rÍ(ica das meios, entre os núcleos relig iOSOS e seus interlocutores. E, como sa-
mídias fazem pane dcssa posnlra, que percebe a ideologia localizada bemos, :I opção por este o u aquele meio não é desvinculada de uma
apenas nos conteúdos. c oncepç;lo mais ampla de sociedade, das relações sociais (: d o papel
A CNB B - Confcrência Nadonal dos Bispos do Brasil - s itua a de cada um nesse cenário . Reflete e produz, simultaneamente, o tipo
Com unicação ao lado da Educação e da Pastoral Social. como um se- de inte n 'ençáo que se pretende, que é condicionada pela percepção
tor da sua "Linha 6" de ação pastoral, linha que cuida da "Dimensão de Si mesmo c do Outro. Sobre este aspecto, seria interessante reto-
Sociolr.wsfonnadora". Po r meio dela , a Igreja solidariza-se "com as mar um pouco da história de como fomm formadas as concepções
aspirações e esper'd.nças da huma nid:tdc" c Ué levada pela 'fome e sobre comunicação. na Igre j:l.
sede de justiça' a põr·sc a serviço da causa dos direitos e da promo- Mencionei anteriormente que a comuniC-.lção estava "e m alta"
ção da pessoa humana, especialme ntc dos mais pobres, denuncian- no s meios C-.ltólicos, nos idos de 70. De fato, desde muito antes a
do '3S injustiçAS e violências. parA que possa surgir uma sociedade Igreja Católica dedicou atenção ao papel dos meios de comunicação
verdadeiramente JUSta e solidária" (CNBB, 1992: 10). na sociedade. Gomes ( 1995) identifica três fases distimas nessa rela·
Nessa perspectiva, muhas dioceses possuem emissoras radiofó- ç ão que, apesar de s ucessivas cronologicamente, Coexistem - de
nic:ls, que em geral contam com alto índice de audiência popular. modo confliti vo - nos dias atuais. A primeira teve início no papado
Sua programação vai desde a ce le bração da missa :ué programas de de Pio Xl (década de 30) , com a e ncíclica Vigilallli Cura. e percebia
denúncia e noticiários, passando por uma variada gama de progra- os meios d e comunicação (i nicia lmente o cinema, depois o rádio e a
mas educativos. Cedem espaços a organizações populares e a ONGs. TV) como ameaçadores à integridade moral dos fiéis . São típicos des·
A maior parte desses programas está articulada com um conjunto de Sa é poca os guias sobre os filmes em circulação, que estabeleci am
ações de base e tem como objetivo , além de disseminar infonnaçõcs quais deles poderiam ser assistidos pela família cristã.
mais amplamente, fom e mar e dinamizar aquelas ações. A segunda rase lCri:1 sido inaugurada e m 1957, com a e ncíclica
Os impressossãoem geral boletins e jornais, c ujoobjeti\'o é , na /IIiranda Prorstls, de I·io XII , que tratava do cine ma , rádio, lV. O do-
maioria dos casos, denunciar as siruaçães vividas pelos camponeses, c umento considerava que as técnicas são nobres, são exemplos da
obter adcsâo às causas populares, ou promover o intercâmbio de no- capacidade criadora do home m , mas que poderiam ser utilizadas
tícia entre os vários núcleos de leitores. Com menor freqüência, en· para o bem o u para o mal . Era a abertuí.l para um tempo de deslum-
co ntram-se cartilhas, calendários e Outros tipos de textos csçrilOS. brdmcnto com os Meios de Comu nicação de Massa como recurso
Por ou tro lado, as fones similitudes entre o humanismo das cvangelizador, que foi solidificado pelo decreto de João XXIII Inter
propostas de Paulo Freire e os princípios fil osófi cos c ristãos, so- Mlrifica , promulgado em 1963 , no Concílio Vaticano 11 . O dec reto
mados à ~ opção preferencial pelos pobres", tornam inevinivcl a in· criou o Dia Mundial das Comunicações Sociais e fon'a leceu as Orga·
corporação pelos grupos religiosos do modo idealista freireano de nizações Católicas Internac ionais de Comunicação. Este espírito re·
perceber a comunicação, isto é , como espaço d e comunhão. O para- cebeu nova ratificação com o documento Communio el Progressio ,
digma lingüístico que se mOSlr.l tão evidente ~as concepções e práti- produzido e m 197 1 pe la I·omwcia Comissão para os Meios d e Co-
cas das ONGs c órgãos governamentais aqui aparece ocultado pela municação Social. a pedido de Paulo VI, que via os meios como "ins-
míst'iC".l que envolve a pal:avra que e mana desses núcleos: sua legiti- trumentos da comunhão e do progresso d a sociedade humana" (op.
midade , conferida pelo direito de representação da palavra divina, é dI. : 14).
consagrada pela opção pelos pobres. Palavra cujo sent ido já estaria A última fase corresponde à compreensão da comunicação
d eterminado, proposto pelo emissor. Retornamos, pois, via concep- como processo e ao imeresse no desvendamenro da sua estrutur.l e
ção de linguagem, a um modelo de comunicação linear e unidirecio- funcionamento social. O ambiente que propicio u o surgimento des·
nal , pelo menos no que concerne à relação comunicativa através dos se modo de ver tem início na LI Conferência Geral do Episcopado La·

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I <lU/Ia Araujo

bólicas. Os projetos de educ:lção popular para a leitura c rÍ(ica das meios, entre os núcleos relig iOSOS e seus interlocutores. E, como sa-
mídias fazem pane dcssa posnlra, que percebe a ideologia localizada bemos, :I opção por este o u aquele meio não é desvinculada de uma
apenas nos conteúdos. c oncepç;lo mais ampla de sociedade, das relações sociais (: d o papel
A CNB B - Confcrência Nadonal dos Bispos do Brasil - s itua a de cada um nesse cenário . Reflete e produz, simultaneamente, o tipo
Com unicação ao lado da Educação e da Pastoral Social. como um se- de inte n 'ençáo que se pretende, que é condicionada pela percepção
tor da sua "Linha 6" de ação pastoral, linha que cuida da "Dimensão de Si mesmo c do Outro. Sobre este aspecto, seria interessante reto-
Sociolr.wsfonnadora". Po r meio dela , a Igreja solidariza-se "com as mar um pouco da história de como fomm formadas as concepções
aspirações e esper'd.nças da huma nid:tdc" c Ué levada pela 'fome e sobre comunicação. na Igre j:l.
sede de justiça' a põr·sc a serviço da causa dos direitos e da promo- Mencionei anteriormente que a comuniC-.lção estava "e m alta"
ção da pessoa humana, especialme ntc dos mais pobres, denuncian- no s meios C-.ltólicos, nos idos de 70. De fato, desde muito antes a
do '3S injustiçAS e violências. parA que possa surgir uma sociedade Igreja Católica dedicou atenção ao papel dos meios de comunicação
verdadeiramente JUSta e solidária" (CNBB, 1992: 10). na sociedade. Gomes ( 1995) identifica três fases distimas nessa rela·
Nessa perspectiva, muhas dioceses possuem emissoras radiofó- ç ão que, apesar de s ucessivas cronologicamente, Coexistem - de
nic:ls, que em geral contam com alto índice de audiência popular. modo confliti vo - nos dias atuais. A primeira teve início no papado
Sua programação vai desde a ce le bração da missa :ué programas de de Pio Xl (década de 30) , com a e ncíclica Vigilallli Cura. e percebia
denúncia e noticiários, passando por uma variada gama de progra- os meios d e comunicação (i nicia lmente o cinema, depois o rádio e a
mas educativos. Cedem espaços a organizações populares e a ONGs. TV) como ameaçadores à integridade moral dos fiéis . São típicos des·
A maior parte desses programas está articulada com um conjunto de Sa é poca os guias sobre os filmes em circulação, que estabeleci am
ações de base e tem como objetivo , além de disseminar infonnaçõcs quais deles poderiam ser assistidos pela família cristã.
mais amplamente, fom e mar e dinamizar aquelas ações. A segunda rase lCri:1 sido inaugurada e m 1957, com a e ncíclica
Os impressossãoem geral boletins e jornais, c ujoobjeti\'o é , na /IIiranda Prorstls, de I·io XII , que tratava do cine ma , rádio, lV. O do-
maioria dos casos, denunciar as siruaçães vividas pelos camponeses, c umento considerava que as técnicas são nobres, são exemplos da
obter adcsâo às causas populares, ou promover o intercâmbio de no- capacidade criadora do home m , mas que poderiam ser utilizadas
tícia entre os vários núcleos de leitores. Com menor freqüência, en· para o bem o u para o mal . Era a abertuí.l para um tempo de deslum-
co ntram-se cartilhas, calendários e Outros tipos de textos csçrilOS. brdmcnto com os Meios de Comu nicação de Massa como recurso
Por ou tro lado, as fones similitudes entre o humanismo das cvangelizador, que foi solidificado pelo decreto de João XXIII Inter
propostas de Paulo Freire e os princípios fil osófi cos c ristãos, so- Mlrifica , promulgado em 1963 , no Concílio Vaticano 11 . O dec reto
mados à ~ opção preferencial pelos pobres", tornam inevinivcl a in· criou o Dia Mundial das Comunicações Sociais e fon'a leceu as Orga·
corporação pelos grupos religiosos do modo idealista freireano de nizações Católicas Internac ionais de Comunicação. Este espírito re·
perceber a comunicação, isto é , como espaço d e comunhão. O para- cebeu nova ratificação com o documento Communio el Progressio ,
digma lingüístico que se mOSlr.l tão evidente ~as concepções e práti- produzido e m 197 1 pe la I·omwcia Comissão para os Meios d e Co-
cas das ONGs c órgãos governamentais aqui aparece ocultado pela municação Social. a pedido de Paulo VI, que via os meios como "ins-
míst'iC".l que envolve a pal:avra que e mana desses núcleos: sua legiti- trumentos da comunhão e do progresso d a sociedade humana" (op.
midade , conferida pelo direito de representação da palavra divina, é dI. : 14).
consagrada pela opção pelos pobres. Palavra cujo sent ido já estaria A última fase corresponde à compreensão da comunicação
d eterminado, proposto pelo emissor. Retornamos, pois, via concep- como processo e ao imeresse no desvendamenro da sua estrutur.l e
ção de linguagem, a um modelo de comunicação linear e unidirecio- funcionamento social. O ambiente que propicio u o surgimento des·
nal , pelo menos no que concerne à relação comunicativa através dos se modo de ver tem início na LI Conferência Geral do Episcopado La·

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lnt'Sila Araujt)

tino-Amenc-. tno , realizado em 1968 e m Mede llín (Colô mbia), e GeraJ da UCBCem 197 1, d edicada ao tema "A Igreja e a O pinião I~i ·
instala-se definitivamente na lU Conferencia, e m Puebla (México), b lic3 no Brasil ":
no ano de 1979 . Ela é co nte mporânea, no pl ano nacional, ao debate olalO de (ligo ser a cellO pelo público m Io (lispellsa cu1ltrole e a ção, pois (I "b·
sobre a dependência, à reflexão teórica e política sobre os "apare- jetiuidad~ por/e (/esaparl!Cer diallle das ma"ipulaÇÕes. lim l.'f!'Zdlller/1/"$ mil
lhos ideológicos de Estado ~, ao combate à cens ura. No plano ins titu- /6mm de opl"iúes. poderemos ler 11/1/ mercado de idéias e ideologia; lima I" .
(flis/ria de fazeres e p ra:eres. A própria no /icla pode lom"r-se tlrgcx:ldl.'I! f ( ... ).
cional da Igre ja, é contempo1.\ne:1 e subsidia o surgimento e Tak-ez "U/lca lenha sido /Je,'(/adeira a tese: ~OI)i,,'âo Pública = l'erJutle ". 0 1/
afirmação d as CEBs - Comunidades Eclesia is de Base, que fo ram ma- vox popull . vox Dei Nu ellfalllo. é af qu e se slflla o /(Iral de lodos os homel/s d e
trizes d e muitos segmentos do movime nto po pular. Está tambe m na bem. em estJ«fal. dos qw/! assllmiram a reS/)OlIsabil/ll"de p elo EII.:mge fbu ; d e·
V<"ràoeles empenhar-se para que a v(Ix populi sl'ja r",IImelllea V()I( Del (lIpud
base do Pro jeto de Leirura Crítica da Comunicação, iniciatiVA da Gomes. oI'. cit.: 86)
UCBC - União Cristã Bras ileira d e Comunicação Social, fundada e m
1970, entidade que congrega pesquisadores e comunicadores cris- Os grupoS religiOSOS , assim como as ONGs, c rêem poder resol-
t;10s - projeto que visava ao desenvolvime nto da consciê ncia critica ver os problemas comunicativos apenas pelo viés dos conteúdos.
d os receptores. Inicialme nte ,"CItado aos ed ucad o res e age ntes pas- Acaba m, assim , por adotar e reproduzir modelos s implificados d e
torais, a panirde 1982 o proje to p rocurou abrir-se aos grupos popu- comu nicação, juscunente aqueles que se impõem por s ua aparê ncia
lares, mud ando também (pelo me no s no nível dos d ocumentos de naturalidade. E, tal e qual ocorre e ntre as ONGs, nos mo mentos
o fi ciais) os princípios metodo lógicos : passaria a as:mnür "uma meto- de capacitação em comunicação desses grupos o modelo info rmacio-
do logia partid p:ltiva. o nde a a nálise crítica dos meios de comunica- nal de comunicaçao e merge com bastante vigor, expressos ,'e rbal-
ção é realiz:tda a partir da percepção que estes grupos e laborAm , me nte por pessoas que acreditavam , até e ntão, serem a única
tendo como referência seu ti po d e inserção no processo produtiVO e interpretação possível do processo de comunicação e não percebiam
na articulação política d e s ua classe" (op. CiL: 194). su as implicaçúes teóricas o u ideológicas. Aí est:i a fo rça do paradig-
Apesar de se dife re nciarem e m algu ns aspectos, como aponta ma, nesta. carac te rística da inconsciê ncia, nessa naturalização dos
Gomes, parece-me que há dois eixos comuns a essas poSturas, que mo ldes de explicação da realidade.
S;10 : I) conside rar os meios de comunicação como ne ut ros, correias Apesar das o rigens e pressupostOS distintos , os núcleos religio-
de tran s missão ideo lógica. estruturas vazias que podem ser preen- sos bebem nas mesmas fOOles teóricas que as ONGs e isto, somado à
c hidas com conteúdos que servem o u não aos interesses do "povo .sua legitimidade e aceitação e ntre os camponeses, to ma as alianças
d e Deus"; 2) <Iue é a Igreja - e seu s agentes-quem deté m o poder d e inevitáveis. Alé m d o mais, m uilas ONGs foram criadas por egressos
julgar o que é o u não adequado a esse povo e d e produzir o melho r d os meios religiosos. Po r estas e outras razócs, a prática discursiva
"rc<.:he io " para os meios. Esse modo de perceber-se e aos meios d e das Igrejas exerce um pape l definitó rio e m relação àquelas o rganiza-
comu nicação é ho je vis ível tam o nas recentes iniciativas tia hierar- çôes. O mesmo nio se pode afirma r taxativameme sobre o utro nú-
quia cató lica d e invcstir e mpresarialme nte nos MCM para ampliar os cleo discursh'O, o da extensão universitá ria. Mas f...lemos antes das
efeitos d o seu prose litismo religioso (e assim competir no mercado org:mizaçõcs represe nt ativas , um núcleo que traz a singula ridade de
s imbó lico das religiões) , como na atividade mais localizada e associa- ser ao mesmo te mpo emissor e recepto r de seus discursos.
da às lutas populares, por exemplo a dos núcleos da Clrr - Comissão
PastoraJ da Te rra. O tcnno "comunic-dção liben adora", amplamente
u tilizad o nesses meios, é bastante sintomát ico d esse estado de coi-
sas, que pode também ser percebido nessa fa la de Dom Paulo Evaris-
tO Arns, arcebispo d e São !'aulo , na abertura da Primeira Assemblé ia A sociedade camponesa dispõe de um di\'ersificado conjunto
d e organizações representa tivas fo rmalizadas. As mais rradicionais c

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lnt'Sila Araujt)

tino-Amenc-. tno , realizado em 1968 e m Mede llín (Colô mbia), e GeraJ da UCBCem 197 1, d edicada ao tema "A Igreja e a O pinião I~i ·
instala-se definitivamente na lU Conferencia, e m Puebla (México), b lic3 no Brasil ":
no ano de 1979 . Ela é co nte mporânea, no pl ano nacional, ao debate olalO de (ligo ser a cellO pelo público m Io (lispellsa cu1ltrole e a ção, pois (I "b·
sobre a dependência, à reflexão teórica e política sobre os "apare- jetiuidad~ por/e (/esaparl!Cer diallle das ma"ipulaÇÕes. lim l.'f!'Zdlller/1/"$ mil
lhos ideológicos de Estado ~, ao combate à cens ura. No plano ins titu- /6mm de opl"iúes. poderemos ler 11/1/ mercado de idéias e ideologia; lima I" .
(flis/ria de fazeres e p ra:eres. A própria no /icla pode lom"r-se tlrgcx:ldl.'I! f ( ... ).
cional da Igre ja, é contempo1.\ne:1 e subsidia o surgimento e Tak-ez "U/lca lenha sido /Je,'(/adeira a tese: ~OI)i,,'âo Pública = l'erJutle ". 0 1/
afirmação d as CEBs - Comunidades Eclesia is de Base, que fo ram ma- vox popull . vox Dei Nu ellfalllo. é af qu e se slflla o /(Iral de lodos os homel/s d e
trizes d e muitos segmentos do movime nto po pular. Está tambe m na bem. em estJ«fal. dos qw/! assllmiram a reS/)OlIsabil/ll"de p elo EII.:mge fbu ; d e·
V<"ràoeles empenhar-se para que a v(Ix populi sl'ja r",IImelllea V()I( Del (lIpud
base do Pro jeto de Leirura Crítica da Comunicação, iniciatiVA da Gomes. oI'. cit.: 86)
UCBC - União Cristã Bras ileira d e Comunicação Social, fundada e m
1970, entidade que congrega pesquisadores e comunicadores cris- Os grupoS religiOSOS , assim como as ONGs, c rêem poder resol-
t;10s - projeto que visava ao desenvolvime nto da consciê ncia critica ver os problemas comunicativos apenas pelo viés dos conteúdos.
d os receptores. Inicialme nte ,"CItado aos ed ucad o res e age ntes pas- Acaba m, assim , por adotar e reproduzir modelos s implificados d e
torais, a panirde 1982 o proje to p rocurou abrir-se aos grupos popu- comu nicação, juscunente aqueles que se impõem por s ua aparê ncia
lares, mud ando também (pelo me no s no nível dos d ocumentos de naturalidade. E, tal e qual ocorre e ntre as ONGs, nos mo mentos
o fi ciais) os princípios metodo lógicos : passaria a as:mnür "uma meto- de capacitação em comunicação desses grupos o modelo info rmacio-
do logia partid p:ltiva. o nde a a nálise crítica dos meios de comunica- nal de comunicaçao e merge com bastante vigor, expressos ,'e rbal-
ção é realiz:tda a partir da percepção que estes grupos e laborAm , me nte por pessoas que acreditavam , até e ntão, serem a única
tendo como referência seu ti po d e inserção no processo produtiVO e interpretação possível do processo de comunicação e não percebiam
na articulação política d e s ua classe" (op. CiL: 194). su as implicaçúes teóricas o u ideológicas. Aí est:i a fo rça do paradig-
Apesar de se dife re nciarem e m algu ns aspectos, como aponta ma, nesta. carac te rística da inconsciê ncia, nessa naturalização dos
Gomes, parece-me que há dois eixos comuns a essas poSturas, que mo ldes de explicação da realidade.
S;10 : I) conside rar os meios de comunicação como ne ut ros, correias Apesar das o rigens e pressupostOS distintos , os núcleos religio-
de tran s missão ideo lógica. estruturas vazias que podem ser preen- sos bebem nas mesmas fOOles teóricas que as ONGs e isto, somado à
c hidas com conteúdos que servem o u não aos interesses do "povo .sua legitimidade e aceitação e ntre os camponeses, to ma as alianças
d e Deus"; 2) <Iue é a Igreja - e seu s agentes-quem deté m o poder d e inevitáveis. Alé m d o mais, m uilas ONGs foram criadas por egressos
julgar o que é o u não adequado a esse povo e d e produzir o melho r d os meios religiosos. Po r estas e outras razócs, a prática discursiva
"rc<.:he io " para os meios. Esse modo de perceber-se e aos meios d e das Igrejas exerce um pape l definitó rio e m relação àquelas o rganiza-
comu nicação é ho je vis ível tam o nas recentes iniciativas tia hierar- çôes. O mesmo nio se pode afirma r taxativameme sobre o utro nú-
quia cató lica d e invcstir e mpresarialme nte nos MCM para ampliar os cleo discursh'O, o da extensão universitá ria. Mas f...lemos antes das
efeitos d o seu prose litismo religioso (e assim competir no mercado org:mizaçõcs represe nt ativas , um núcleo que traz a singula ridade de
s imbó lico das religiões) , como na atividade mais localizada e associa- ser ao mesmo te mpo emissor e recepto r de seus discursos.
da às lutas populares, por exemplo a dos núcleos da Clrr - Comissão
PastoraJ da Te rra. O tcnno "comunic-dção liben adora", amplamente
u tilizad o nesses meios, é bastante sintomát ico d esse estado de coi-
sas, que pode também ser percebido nessa fa la de Dom Paulo Evaris-
tO Arns, arcebispo d e São !'aulo , na abertura da Primeira Assemblé ia A sociedade camponesa dispõe de um di\'ersificado conjunto
d e organizações representa tivas fo rmalizadas. As mais rradicionais c

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1""'-;1<1 Araujo A rr!Ct>i!I",r"' " 110"/10,,,

consolidadas são o sistema sindical e o cooperativista. Recente mente, mitir o acesso direcionad o da TV aos seus domínios. Embora n O
verificou-se um crescimento das associações e surgiu o MST - Movi- seja regra exclusiva, a produção d os impressos é centra.lizada na Se-
mento dos Sem-Terra, articulação institucionalizada dos campone- cretaria Nacional do MST, com sede e m São Paulo.
ses que não possuem terra de cultivo no país. O sistema sindical é um razoável produtor de impressos (carti-
O sistema sindical obedece a uma estrutura típica de partido lhas, boletins e jornais, principalmente) e um dos d ois núcleos (Us-
político, tendo como base os sindicatos si ngu lares e evoluindo até as cursivos que mais utiliza o rádio (o outro é a Igreja) . Embora,
centrais sindicais, passando pelos p ó los regionais, federações e sta- logicamente , as fede r.lções con tabilizem mais iniciativas neste lLSp<!C-
duais e uma confede ração - CONTAG . O MST estrururd-se como to (mais recursos, assessorias e pessoal qualificado) , os sindicatos
uma federação de coordenações estaduais, cuja direção máxima rambém estão no "mercad o". Info rmação e capacitação são as fun -
compete a uma coordenação nacio nal . O sistema cooperativista ções p rimordiais, embora nas épocas d e campanha salarial predomi-
apóia-se numa estrutura de OCEs - Organizações das Cooperativas ne a de mo bilização. Os temas priorizam o s projetos e progrdmas
Estaduais, filiadas à OCB - Organização das Cooperativas Brasileiras. o fi ciais destinados ao m eio rural, as infonnações sobre o próprio
Este último sistema rem rambé m c aráter coercitivo, na medida em movimento, a capacitação em processos organizativos e , em meno r
que a filia ção :ls QCEs é condiçáo d e funcionam e nto para qua lquer escala, temas voltados ã atividade el.u nômica, principalmente pelo
cooperativa . Diferencia-se d os demais também por não ser exclusivo viés da tecnologia apropriada à pequena produção.
de organizações rurais, muito embora a grande maioria das coopera- O sistema cooperativista sempre conferiu grande importância à
tivas no Brasil sejam rurais e a maior parcela dos discursos circulan- comunicação, entendida como suporte à doutrinação dos associa-
tes sej a dirigida a e las e a seus associados. Outro diferencial é não dos. Um d os principias do cooperativismo é a educação permanente
dizer respeito apenas aos peque nos agricultores, mas incluir nos pard a cooperação, que tem sido tratada como divulgação da doutrina
seus me mbros m éd ios e g randes proprier;írios. e da legislação. O m e io mais utiliz:ldo é o impresso, que se presta bem
Os três núcleos desenvo lvem intensa prática discursiva junto a a essa fun ção, e m forma de cartilhas, folhetos , jo rnais c boletins. A
suas bases, utilizando-se mais comumeme os impressos. Os sindica- OCB, inclusive, possui uma gráfica bcm-equipada, de o nde produz e
tos recorrem também ao rádio, com bastante imens idade . Vejamos distribu i grande parte dos impressos circulantes no sistema. As filiadas
algumas características singulares. possuem cada uma suas próprias estratégias e impressos correspon-
O MST parece estar vivendo uma fase de transição, da qual faz demes, alé m de fazerem circular entre suas associadas os m ateriais da
parte uma revisão dos seus pressupostos quanto à comunic ação, ou OCB. Na região Nordeste, o siste ma possui, desde 1974, uma o rganiz..'l-
pelo menos das fun ções a ela atribuídas. Até recente mente , consistia ção d e assessoria, a Assocene - Associação d e Orientação às Coopera-
num instnJme ntal voltado para a relação com os participantes do tivas do Nordeste, que confere d estaque às atividades comunicativas
movimento (potenciais ou efetivos) e suas fun ções eram basicamen- embord se possa dizer que, até os anos 80, estas envolviam um espec:
te duas: mobilização e informação alternativa à grande imprensa. tro mais amplo de preocupações que o atual. Hoje, a comunicação
Pela primeira, produziam-se cartazes, folhetos e panfletos . Pela se- serve primeiramente de apoio ao processo de capacitação d o quadro
gunda, faziam circular ojornal dos Sem-Terra , publicação mensal de dirigemes e assessores das coopcnltivas, à divu lgaçáo de progra-
com norícias das lutas dos trabalhadores, mas que não dis pensava um mas oficiais para o setor, além de iniciat ivas descontínuas de órgãos
forte componente de doutrinação. Hoje, a atividade comunicativa in- informativos. Ontem, chegou-se a promover seminários nacionais e
corpora duas outras funções: a de a poio ao processo de o rganizaçáo latino-americanos de comunicação cooperativa, aos quais eram trazi-
e capacitação dos assentados e a divulgação do movimento aos ou- dos especialistas em comunicação rural e educação popular, como
tros segmentos da sociedade, na busca de solidariedade e alianças. Juan Bordenave, Manuel Calvelo, Regina Sizcnando e Osório Mar-
Entram em cena os programas de rádio e as canilhas, a lém de se per- ques. Além d os programas o ficiais , os temas tratados pela A.ssocene em

8. 81
1""'-;1<1 Araujo A rr!Ct>i!I",r"' " 110"/10,,,

consolidadas são o sistema sindical e o cooperativista. Recente mente, mitir o acesso direcionad o da TV aos seus domínios. Embora n O
verificou-se um crescimento das associações e surgiu o MST - Movi- seja regra exclusiva, a produção d os impressos é centra.lizada na Se-
mento dos Sem-Terra, articulação institucionalizada dos campone- cretaria Nacional do MST, com sede e m São Paulo.
ses que não possuem terra de cultivo no país. O sistema sindical é um razoável produtor de impressos (carti-
O sistema sindical obedece a uma estrutura típica de partido lhas, boletins e jornais, principalmente) e um dos d ois núcleos (Us-
político, tendo como base os sindicatos si ngu lares e evoluindo até as cursivos que mais utiliza o rádio (o outro é a Igreja) . Embora,
centrais sindicais, passando pelos p ó los regionais, federações e sta- logicamente , as fede r.lções con tabilizem mais iniciativas neste lLSp<!C-
duais e uma confede ração - CONTAG . O MST estrururd-se como to (mais recursos, assessorias e pessoal qualificado) , os sindicatos
uma federação de coordenações estaduais, cuja direção máxima rambém estão no "mercad o". Info rmação e capacitação são as fun -
compete a uma coordenação nacio nal . O sistema cooperativista ções p rimordiais, embora nas épocas d e campanha salarial predomi-
apóia-se numa estrutura de OCEs - Organizações das Cooperativas ne a de mo bilização. Os temas priorizam o s projetos e progrdmas
Estaduais, filiadas à OCB - Organização das Cooperativas Brasileiras. o fi ciais destinados ao m eio rural, as infonnações sobre o próprio
Este último sistema rem rambé m c aráter coercitivo, na medida em movimento, a capacitação em processos organizativos e , em meno r
que a filia ção :ls QCEs é condiçáo d e funcionam e nto para qua lquer escala, temas voltados ã atividade el.u nômica, principalmente pelo
cooperativa . Diferencia-se d os demais também por não ser exclusivo viés da tecnologia apropriada à pequena produção.
de organizações rurais, muito embora a grande maioria das coopera- O sistema cooperativista sempre conferiu grande importância à
tivas no Brasil sejam rurais e a maior parcela dos discursos circulan- comunicação, entendida como suporte à doutrinação dos associa-
tes sej a dirigida a e las e a seus associados. Outro diferencial é não dos. Um d os principias do cooperativismo é a educação permanente
dizer respeito apenas aos peque nos agricultores, mas incluir nos pard a cooperação, que tem sido tratada como divulgação da doutrina
seus me mbros m éd ios e g randes proprier;írios. e da legislação. O m e io mais utiliz:ldo é o impresso, que se presta bem
Os três núcleos desenvo lvem intensa prática discursiva junto a a essa fun ção, e m forma de cartilhas, folhetos , jo rnais c boletins. A
suas bases, utilizando-se mais comumeme os impressos. Os sindica- OCB, inclusive, possui uma gráfica bcm-equipada, de o nde produz e
tos recorrem também ao rádio, com bastante imens idade . Vejamos distribu i grande parte dos impressos circulantes no sistema. As filiadas
algumas características singulares. possuem cada uma suas próprias estratégias e impressos correspon-
O MST parece estar vivendo uma fase de transição, da qual faz demes, alé m de fazerem circular entre suas associadas os m ateriais da
parte uma revisão dos seus pressupostos quanto à comunic ação, ou OCB. Na região Nordeste, o siste ma possui, desde 1974, uma o rganiz..'l-
pelo menos das fun ções a ela atribuídas. Até recente mente , consistia ção d e assessoria, a Assocene - Associação d e Orientação às Coopera-
num instnJme ntal voltado para a relação com os participantes do tivas do Nordeste, que confere d estaque às atividades comunicativas
movimento (potenciais ou efetivos) e suas fun ções eram basicamen- embord se possa dizer que, até os anos 80, estas envolviam um espec:
te duas: mobilização e informação alternativa à grande imprensa. tro mais amplo de preocupações que o atual. Hoje, a comunicação
Pela primeira, produziam-se cartazes, folhetos e panfletos . Pela se- serve primeiramente de apoio ao processo de capacitação d o quadro
gunda, faziam circular ojornal dos Sem-Terra , publicação mensal de dirigemes e assessores das coopcnltivas, à divu lgaçáo de progra-
com norícias das lutas dos trabalhadores, mas que não dis pensava um mas oficiais para o setor, além de iniciat ivas descontínuas de órgãos
forte componente de doutrinação. Hoje, a atividade comunicativa in- informativos. Ontem, chegou-se a promover seminários nacionais e
corpora duas outras funções: a de a poio ao processo de o rganizaçáo latino-americanos de comunicação cooperativa, aos quais eram trazi-
e capacitação dos assentados e a divulgação do movimento aos ou- dos especialistas em comunicação rural e educação popular, como
tros segmentos da sociedade, na busca de solidariedade e alianças. Juan Bordenave, Manuel Calvelo, Regina Sizcnando e Osório Mar-
Entram em cena os programas de rádio e as canilhas, a lém de se per- ques. Além d os programas o ficiais , os temas tratados pela A.ssocene em

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I!...sll" i\mújo

sua aruaJ prática discursivacorrespondem:i nova orientação do sistema e cional sobre a comu nicação com a abordagem dos temas Ir.llad05
são os mesmos da OCB: autogesruo, planejamenlo estratégico, ges- nas Clrtilhas, como mOSfr-J o exemplo abaixo, pinçado da primeira
tão empresaria l, enfim , rcstrururaç:"io administmtiva. de uma série de três cartilhas produzidas pela Assocene, para um
Apesar das diferenças e ntre os três segmentos descritos, pode-se programa de capacitação à distància :
dizer que têm um mesmo pressuposto para a comunicação, que os
COOPEl!A71VAÉ PARA. QUEMl- É paro qu(!m qu(!r, multaI Ê para qu(!m prec/.
distingue dos demais núcleos estudados: é o da coesão e eficiência do t para (PU!1I1 1mbalha, mul/u! O MERCADO VAI SEl.l:."CIONItR AS'
sa .. mllllO!
sistema. O modo de arualiz.í.-Io é que difere. havendo uma divagem MW/ORES COOPERA77VAS: -A que tem ri mo!lhor pl'fJduto' -A que tem a mC!lhor
acentuada entre o cooperativismo de um lado e o sindicalismo e o qualidade. EM CONSEQOÊNCiA.: AS COOPERAITVAS TEJi.;,o QUE SELEGONAll
SEUS ItSSOQJ\/JOS: os mais compe/elllesl Os que têm m elhores leCIw/ogfas! E
MST de outro. Assim, enquanto o MST preconiza, como estr.négia de
imegração d os assentados não-organiz:ldos, "a informação e a comuni-
cação permanente" , sugerindo: "- ocupar espaços na imprensa local,

os qlleqlll!rem Sl!remprcsnrios CQQpermivados!Osqu6 trabalham melhor! (p

Mais adiante, na página 26-7 :


especialmente rádio; - utilizar os espaços disponíveis nas escolas; -
dese nvolver programas de rádio e boletins infomtativos; - lutar por A NOVA COOPERA71VA OI:VIi; - SUPERAR OS JJlOQUElOS: CULnJRMS: n!oor
ter nos assentamentos postOS telefônicos~ (cartilha do MST: "Como ndoreS; acubar com 0$ pré-concei/os. PSICOLÓGICOS: n/lUlar de atitude e
postura. SOClAiS: mfX/ifjcar os refacl~»uml/m/o.s com aSSOCladus,[tmCIt.mários,
org:lnizar os asseOlados individuais", p . 17), a OCB localiza li comu- cflentes e outras Coopemlfws. POUTlCOS: deve jJfYJmOI' er a aglut/naçuu de
nicação na sua "estrutura de serviços" e lhe atribui os seguintes obje- forças. JfSJ"ENDI!R OS ll/llrrES: /lrumot'er (/ educa(flu e a partidpaçãu; c riar e
tivos: M divulgar a política, as proposras, as diretrizes, as metas e as divulgar IIOVOS CUflbm"'f!I/tOS; cstabelecer: IIUI1QS relacfotUlme,,/os, "ovas
atitudes. IIOVOS valores, IIUWIS idéias, 110001 CUI/Cei/US, "ovas/orças.
conquistas do cooperativismo" (canilha da OCB: "O cooper.ll ivismo
brasileiro", p . 25). POr último , registraria que a discuss;lo sobre os modelos huma-
A heterogene idade dos componentes desses núcleos torna difí- nisras ou diaJógicos apena"i raspou de leve os componentes desse
cil falar em um modelo de comun icação implícito nas suas práticas. nudeo, vinculados que esravam mais a determinlldas pessoas que ali
Mas é possível identificar alguns elementos que se repetem, embora passaram do que propriame nte a uma postura institucional. Assim,
associados a diferentes matrizes de concepção social. Um cenamen- não lendo sido fruto de Um debate interno ou de um movimento his-
te é a visão instrumentalista da comunicação. Outro, ade um proces- tórico das organizações, praticamente não deixaram resíduos sendo
so linear e unidirecional, mesmo se tratando de sistemas onde, em possível detectá·los :lpenas e m alguns textos do COOpenltivi;mo do
tese. haveria uma relação de horizontal idade . O fat'O é que a fonnaJi- início d os anos 80.1.5
Z:IÇ:i.O cia."i estrutUras, a existência de um quadro diri)!eme e das figu- Entrementes, passemos ao último núdeo, formado pela extcn-
rdS dos técnicos c assessores instalam uma siruação extremamenle sào universitária .
semelhante:i dos demais mkleos, principalmente no segmento coo-
perativista.
Chamaria ainda aten\'ão para a forte presença, neste último,
dos mesmos pressupostOS teóricos da extensão rural oficial, princi-
palmente da Teoria da M.odernização. Assim, tmta-se a comunicação
como estÚIlulo necessário e suficiente para converter pessoas ina-
daptadas à modernidade em ativos agentes da moderna sociedade.
Não se tem produzido discursos recentes sobre a comunicação,
o nde se possa comprov:Lr tal af.umação, mas a postura acima pode
ser inferida somando-se O que já fo i exposto quanto:i atitude institu-
" Excluo ;I(lul a Imensa de ....'t:S(.-i'ncia do movimemo siodk:d dos primeiros ;1005
da d écada d e 60, pOI" esur {or.. d o ãmhilO do trabaLho. t-k s mu a»lm náo h1
m ;uo.5 ~;si~-ei5 dCSS;l époc:a no atual discuT'$Osindlcal, no que [lI ng.: ao:, mode-
lo:. de comunlcaç:lo.

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sua aruaJ prática discursivacorrespondem:i nova orientação do sistema e cional sobre a comu nicação com a abordagem dos temas Ir.llad05
são os mesmos da OCB: autogesruo, planejamenlo estratégico, ges- nas Clrtilhas, como mOSfr-J o exemplo abaixo, pinçado da primeira
tão empresaria l, enfim , rcstrururaç:"io administmtiva. de uma série de três cartilhas produzidas pela Assocene, para um
Apesar das diferenças e ntre os três segmentos descritos, pode-se programa de capacitação à distància :
dizer que têm um mesmo pressuposto para a comunicação, que os
COOPEl!A71VAÉ PARA. QUEMl- É paro qu(!m qu(!r, multaI Ê para qu(!m prec/.
distingue dos demais núcleos estudados: é o da coesão e eficiência do t para (PU!1I1 1mbalha, mul/u! O MERCADO VAI SEl.l:."CIONItR AS'
sa .. mllllO!
sistema. O modo de arualiz.í.-Io é que difere. havendo uma divagem MW/ORES COOPERA77VAS: -A que tem ri mo!lhor pl'fJduto' -A que tem a mC!lhor
acentuada entre o cooperativismo de um lado e o sindicalismo e o qualidade. EM CONSEQOÊNCiA.: AS COOPERAITVAS TEJi.;,o QUE SELEGONAll
SEUS ItSSOQJ\/JOS: os mais compe/elllesl Os que têm m elhores leCIw/ogfas! E
MST de outro. Assim, enquanto o MST preconiza, como estr.négia de
imegração d os assentados não-organiz:ldos, "a informação e a comuni-
cação permanente" , sugerindo: "- ocupar espaços na imprensa local,

os qlleqlll!rem Sl!remprcsnrios CQQpermivados!Osqu6 trabalham melhor! (p

Mais adiante, na página 26-7 :


especialmente rádio; - utilizar os espaços disponíveis nas escolas; -
dese nvolver programas de rádio e boletins infomtativos; - lutar por A NOVA COOPERA71VA OI:VIi; - SUPERAR OS JJlOQUElOS: CULnJRMS: n!oor
ter nos assentamentos postOS telefônicos~ (cartilha do MST: "Como ndoreS; acubar com 0$ pré-concei/os. PSICOLÓGICOS: n/lUlar de atitude e
postura. SOClAiS: mfX/ifjcar os refacl~»uml/m/o.s com aSSOCladus,[tmCIt.mários,
org:lnizar os asseOlados individuais", p . 17), a OCB localiza li comu- cflentes e outras Coopemlfws. POUTlCOS: deve jJfYJmOI' er a aglut/naçuu de
nicação na sua "estrutura de serviços" e lhe atribui os seguintes obje- forças. JfSJ"ENDI!R OS ll/llrrES: /lrumot'er (/ educa(flu e a partidpaçãu; c riar e
tivos: M divulgar a política, as proposras, as diretrizes, as metas e as divulgar IIOVOS CUflbm"'f!I/tOS; cstabelecer: IIUI1QS relacfotUlme,,/os, "ovas
atitudes. IIOVOS valores, IIUWIS idéias, 110001 CUI/Cei/US, "ovas/orças.
conquistas do cooperativismo" (canilha da OCB: "O cooper.ll ivismo
brasileiro", p . 25). POr último , registraria que a discuss;lo sobre os modelos huma-
A heterogene idade dos componentes desses núcleos torna difí- nisras ou diaJógicos apena"i raspou de leve os componentes desse
cil falar em um modelo de comun icação implícito nas suas práticas. nudeo, vinculados que esravam mais a determinlldas pessoas que ali
Mas é possível identificar alguns elementos que se repetem, embora passaram do que propriame nte a uma postura institucional. Assim,
associados a diferentes matrizes de concepção social. Um cenamen- não lendo sido fruto de Um debate interno ou de um movimento his-
te é a visão instrumentalista da comunicação. Outro, ade um proces- tórico das organizações, praticamente não deixaram resíduos sendo
so linear e unidirecional, mesmo se tratando de sistemas onde, em possível detectá·los :lpenas e m alguns textos do COOpenltivi;mo do
tese. haveria uma relação de horizontal idade . O fat'O é que a fonnaJi- início d os anos 80.1.5
Z:IÇ:i.O cia."i estrutUras, a existência de um quadro diri)!eme e das figu- Entrementes, passemos ao último núdeo, formado pela extcn-
rdS dos técnicos c assessores instalam uma siruação extremamenle sào universitária .
semelhante:i dos demais mkleos, principalmente no segmento coo-
perativista.
Chamaria ainda aten\'ão para a forte presença, neste último,
dos mesmos pressupostOS teóricos da extensão rural oficial, princi-
palmente da Teoria da M.odernização. Assim, tmta-se a comunicação
como estÚIlulo necessário e suficiente para converter pessoas ina-
daptadas à modernidade em ativos agentes da moderna sociedade.
Não se tem produzido discursos recentes sobre a comunicação,
o nde se possa comprov:Lr tal af.umação, mas a postura acima pode
ser inferida somando-se O que já fo i exposto quanto:i atitude institu-
" Excluo ;I(lul a Imensa de ....'t:S(.-i'ncia do movimemo siodk:d dos primeiros ;1005
da d écada d e 60, pOI" esur {or.. d o ãmhilO do trabaLho. t-k s mu a»lm náo h1
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lo:. de comunlcaç:lo.

02
"
A cxtens(1o universitária Ou, para citar um documento oficial, o conceito de extensão es·
tabelecido pelo Fórum de Pr6-Reitores de Extensão das Universida·
des Públicas Brasileiras:
Numericamente bem menor, este núcleo caracteriza-se pela in-
termitência das ações, pela própria natureza de seus objetivos. Apesar -". extensão universitária e f) processu educalif}(). cultural e cientifico que arti-
cula o el/sil/o e a pesquisa de/orll1l1lndl$soclávtd e utabiliza a relaçáo tram-
de a Escola Superior de Agriculrura e Veterinária (atual Universidade /omwdora elltrea .wiuersidade e a sociedatle. É uma via de mão dupla. com
Federal de Viçosa) já em 1926 ter incluído a extensão universitária Irãns/to assl!guradtJ à comullidade acadêmica, que encontrará, na socieda-
em suas atividades-fins (ensino, pesquisa e cxtensão), s6 em ]931 de, a oporllmidadede e/aboraçilo da prtl.-ds de um corlhecimel/to acadêmico.
No retOnlO à ul/ilJef"sidade, docemes e discentes trardo um apnmdizado q'le,
ela foi oficializada, com a "Reforma das Universidades Públicas Brasi· subml!lido à reflexiio trorica, será acrescida àquele conhecimento. Esseflu;w
leiras". que estabelece a troca de saberes sistematizado, acadêmico e popular terá
como conseqüência a produçãu de corlbecimento resultante do confronto
A I'xtlmsãu .miIJusitária "destina-se a di/atar os belwfícios da lItmos/era .mi- com as realidades brasileira e regioual: a democratlZaçâo do CQ'lhecímellto
t'/!rsiuiria àqueles que nào SI! f!tlCOtltram aSJ()(;i(J(los a e1a - e us curso~ 11' ex- acadêmico e li pllrllclPllçiiu e/eUIJa da cotmmidade lia atuaç40 da Imiversl-
tens40 são "destinadas a pN..>pagar. em belleftclo da culetlllQ, a allllld(lt!e dade. Além de instrumentallzadora desse processo dialético de teoria e práti-
lrolica e clemifica dos Institutos UlIi,'ersitários ". (Mello, apud Obcid: 114) ca, a extellsão é um trabalho imerdiscip/lnar quefaVQrece a visãu integrada
du scx;ial. (documento final do I Encontro Nacional, B~iliól , 1987)
Ainda segundo Obeid, a idéia de "promover a difusão da cultu-
ra acadêmica em um processo educativo permanente à população Na prática da extensão, porém, a realidade é o utra, observan-
estranha à universidade" foi solidificada nos anos do regime militar, do-se uma tensão constante entre os grupos que atuam sob o signo
com a criação do CRUTAC (Centros ({urais Universitários de Treina- do difusionismo (dominante) c os que lutam pela incorporação dos
me nto e Ação Comunitária), do projeto Rondon e dos campi avança- princípios estabelecidos. Via de regra, a extensão universitária pode
dos. É necessário nomr que esses instrumentos da extensão ser caracterizada como grupos de alunos sob a coordenação de al-
universitária estiveram ;lSsociados ao projeto desenvolvime ntiSta da- guns professores, que elegem uma determinada área - um assenta-
queles anos, além de funcionarem como adestramento ideol.ógi C~ mento, povoado, comunidade, cooperativa, etc. - e ali executam
dos futuros profissionais, que em tese serviriam aos p lanos naCionaiS projetos pontuais.l 6 Embora baja uma ou outra exceção e esforços
de ingresso na mode rnidade. Como niio poderia deixar de ser, co- no sentido de estabelecer bases para uma ação mais contínua e com-
municação, educação, transferência tecnológica e desenvolvimento prometida, o que se o bteve não foi ainda suficiente para se sobrepor
eram conceiros quase sinonímicos. aos "velhos modelos" que a concebem como promotora de cursos
Na segunda metade dos anos 80, alguma mudança se observa de pequena duração ou de "ações comunitárias itinerantes".
no se ntido de incorporar os novos debates políticos c as oricmaçÕC5 Os remas geralmente se prendem à organização social ou à pro-
emergentes quanto à educação popular e os processos dial6gicos de dução. A produção de materiais de apoio ao processo de comunica-
comunicação. Neste sentido, é sintomático o trecho seguinte: ção não é significativa e , quando ocorre, é sob a forma de impressos.
A mudança proposta dá-61! em term06 polílico-melOdo/ógicos. /'til que u polltO O tipo de abordagem varia bastante, de acordo com a orientação do
de IX/rtida "ai da COIICrl!/(J real au cOllcre/o pensado. por í"terl~,éd;Q de uma professor ou das diretrizes de cada univers idade. Assim, pode-se as-
prállca social que ifl6ere 1/0 seu caminbara partilha ea sofldanedade para a se melhar à extensão rural oficial ou se identificar com as linhas de
constnlÇtlo de um projeto histórico de sociedadl', símultt21wa e a. lm~ 6a~tu ~la
qualidade IIafo"I/ação dos pro/lssiollais, em term~s de compelem:w teclU~a ação dos grupos mais progressistas. Naqueles, a linha mestra é a
e compromisso políticu. Neste COl/texto, a extensa? .expressa-se como açao transferência tecnológica. Nestes, a participação popular.
vinculada, comíllua e processual de lima IIo/Ja polmca, uma nuva filoso/la,
uma n01)a IJOSlUra de ação IW mlil!l!rsidade. (O~id : 11 5·6)
16 Neste M:mldo. pode-se consultar o ólITigo d" Callou C uutr~ . que relata e ~nali·
sa os esforços d e M:tores univasit:l.rios pela implantação, n:l. extensão, de um
"" modelo gerencial de comunicaç:io'·.

. "
A cxtens(1o universitária Ou, para citar um documento oficial, o conceito de extensão es·
tabelecido pelo Fórum de Pr6-Reitores de Extensão das Universida·
des Públicas Brasileiras:
Numericamente bem menor, este núcleo caracteriza-se pela in-
termitência das ações, pela própria natureza de seus objetivos. Apesar -". extensão universitária e f) processu educalif}(). cultural e cientifico que arti-
cula o el/sil/o e a pesquisa de/orll1l1lndl$soclávtd e utabiliza a relaçáo tram-
de a Escola Superior de Agriculrura e Veterinária (atual Universidade /omwdora elltrea .wiuersidade e a sociedatle. É uma via de mão dupla. com
Federal de Viçosa) já em 1926 ter incluído a extensão universitária Irãns/to assl!guradtJ à comullidade acadêmica, que encontrará, na socieda-
em suas atividades-fins (ensino, pesquisa e cxtensão), s6 em ]931 de, a oporllmidadede e/aboraçilo da prtl.-ds de um corlhecimel/to acadêmico.
No retOnlO à ul/ilJef"sidade, docemes e discentes trardo um apnmdizado q'le,
ela foi oficializada, com a "Reforma das Universidades Públicas Brasi· subml!lido à reflexiio trorica, será acrescida àquele conhecimento. Esseflu;w
leiras". que estabelece a troca de saberes sistematizado, acadêmico e popular terá
como conseqüência a produçãu de corlbecimento resultante do confronto
A I'xtlmsãu .miIJusitária "destina-se a di/atar os belwfícios da lItmos/era .mi- com as realidades brasileira e regioual: a democratlZaçâo do CQ'lhecímellto
t'/!rsiuiria àqueles que nào SI! f!tlCOtltram aSJ()(;i(J(los a e1a - e us curso~ 11' ex- acadêmico e li pllrllclPllçiiu e/eUIJa da cotmmidade lia atuaç40 da Imiversl-
tens40 são "destinadas a pN..>pagar. em belleftclo da culetlllQ, a allllld(lt!e dade. Além de instrumentallzadora desse processo dialético de teoria e práti-
lrolica e clemifica dos Institutos UlIi,'ersitários ". (Mello, apud Obcid: 114) ca, a extellsão é um trabalho imerdiscip/lnar quefaVQrece a visãu integrada
du scx;ial. (documento final do I Encontro Nacional, B~iliól , 1987)
Ainda segundo Obeid, a idéia de "promover a difusão da cultu-
ra acadêmica em um processo educativo permanente à população Na prática da extensão, porém, a realidade é o utra, observan-
estranha à universidade" foi solidificada nos anos do regime militar, do-se uma tensão constante entre os grupos que atuam sob o signo
com a criação do CRUTAC (Centros ({urais Universitários de Treina- do difusionismo (dominante) c os que lutam pela incorporação dos
me nto e Ação Comunitária), do projeto Rondon e dos campi avança- princípios estabelecidos. Via de regra, a extensão universitária pode
dos. É necessário nomr que esses instrumentos da extensão ser caracterizada como grupos de alunos sob a coordenação de al-
universitária estiveram ;lSsociados ao projeto desenvolvime ntiSta da- guns professores, que elegem uma determinada área - um assenta-
queles anos, além de funcionarem como adestramento ideol.ógi C~ mento, povoado, comunidade, cooperativa, etc. - e ali executam
dos futuros profissionais, que em tese serviriam aos p lanos naCionaiS projetos pontuais.l 6 Embora baja uma ou outra exceção e esforços
de ingresso na mode rnidade. Como niio poderia deixar de ser, co- no sentido de estabelecer bases para uma ação mais contínua e com-
municação, educação, transferência tecnológica e desenvolvimento prometida, o que se o bteve não foi ainda suficiente para se sobrepor
eram conceiros quase sinonímicos. aos "velhos modelos" que a concebem como promotora de cursos
Na segunda metade dos anos 80, alguma mudança se observa de pequena duração ou de "ações comunitárias itinerantes".
no se ntido de incorporar os novos debates políticos c as oricmaçÕC5 Os remas geralmente se prendem à organização social ou à pro-
emergentes quanto à educação popular e os processos dial6gicos de dução. A produção de materiais de apoio ao processo de comunica-
comunicação. Neste sentido, é sintomático o trecho seguinte: ção não é significativa e , quando ocorre, é sob a forma de impressos.
A mudança proposta dá-61! em term06 polílico-melOdo/ógicos. /'til que u polltO O tipo de abordagem varia bastante, de acordo com a orientação do
de IX/rtida "ai da COIICrl!/(J real au cOllcre/o pensado. por í"terl~,éd;Q de uma professor ou das diretrizes de cada univers idade. Assim, pode-se as-
prállca social que ifl6ere 1/0 seu caminbara partilha ea sofldanedade para a se melhar à extensão rural oficial ou se identificar com as linhas de
constnlÇtlo de um projeto histórico de sociedadl', símultt21wa e a. lm~ 6a~tu ~la
qualidade IIafo"I/ação dos pro/lssiollais, em term~s de compelem:w teclU~a ação dos grupos mais progressistas. Naqueles, a linha mestra é a
e compromisso políticu. Neste COl/texto, a extensa? .expressa-se como açao transferência tecnológica. Nestes, a participação popular.
vinculada, comíllua e processual de lima IIo/Ja polmca, uma nuva filoso/la,
uma n01)a IJOSlUra de ação IW mlil!l!rsidade. (O~id : 11 5·6)
16 Neste M:mldo. pode-se consultar o ólITigo d" Callou C uutr~ . que relata e ~nali·
sa os esforços d e M:tores univasit:l.rios pela implantação, n:l. extensão, de um
"" modelo gerencial de comunicaç:io'·.

. "
InrJlluArmij<)

A comunicação é consid erad a peça-cnave nesse COntexto de ex· na sua aparência lógica c inCOntestável continua norteando as con.
te nsão unive rsitária: cepções e práticas da comu n icação rural.
Nos últimos allos m/ll/o se /um tI/seul/do a q/les/do de um modeJo para a ex-
Acrescemaria aqui, ainda d e nt ro da hipó lese d o mode lo dial6-
tenSlÍo capaz llc promowr social, poIi/lca e f!COl/omic:amell/e as camadas l U· giro como obsráculo ao aV"dnço da teoria e da pr.itica de comunica·
tas po{mlares >lO melu rural. A parlir das idéias de PaI/lo Freire sobre a ção rural, a observação de O live ira (op. cit.: 46) d e que "a ê nfase
ql/esMo, quase I/il/gl/ém ",ais dlwlda, pelo mUI/os a I/ível (s/c) llodisCl"SO, da
impor/dl/cla da comunicaçôo como ulabilwltlora desse processo. FtL.""C' ex·
excessiva na trAnsfo rmação estrutural, e m detrime nto d e questões
tel/são nlral é ItSUI/)e/~'C1!1" uma relação de /roca de saberes. ExtellSlÍO é Isso: mais específicas da comunicação, te rmino u por le\".tr à idcologização
troa' de .wlHlres. t:",lsuJo e reuUtmmtaçáo, o que alracter/.ul Q processo (lI' co- de suas premissas, as quais se to maram mais douninárias do que cien·
tlllm' cardo. tificas". O liveira meneio na a exacerbação d a visão diCOu}mica entre
Esse texto, pinçado da apresentação do segundo núme ro do classes dominante e do minada, q ue nesse modelo explica todos os
CaLienlOS de c;xlctlsão rura l , coloca em cena a concepção de comunl· problemas, inclus ive os da co municação, e levou a dificuldades de
c"lção: um processo, d ialógico no sentido "freireano", caracterizado o rdem metodológica quando no confronto com a realidade . 17
pelo par emlssão/realimentaçáo. No entanto, os artigos publicados no
mes mo caderno fa'l.c m insisteme menção às contradições do tecido P<.m/QS ,Ie roll!llIrgcl/c la
social e às lu tas populares como força propu lsora do conbcci mCnlO
e da mudança. Nova mente somos confrontad os com a dificuldade
de compatib ilizar a análise macrossocial com o modelo de comuni· Estes doco núcleos - Órgãos Governamentais, ONGs, Igrejas,
caÇ"do. A an:í.lise segue na direção do conflito , da d ialética , d a com ra· Organizações Rcprese ntalh'as e Extensão Universit:lria - que, por in-
dição. O modelo mecaniciza e idealiza as relações comunicativas, termédio de políticas d e inte rve nção, atuam no meio ru ral não agem
ainda que sob o "mamo sagrado" d as idéias de Paulo Freire . de forma iso lada, nem seus discu rsos são impermeáveis aos de mais.
Tah'el. aí - na forte e sempre presenre he rança d iscursiva de Pau· A pr.itica discursiva não corrcsponde rigidamente à demarcação de
10 Freire - resida um dos o bstáculos a se elaborar um modelo d e co- fronteiras institucionais. A "cont:uninação" é inevitável e, ainda que
municação que corresponda à noção conflirual de sociedade que não o fosse pela própria natura:! d :! inte rdiscurs ividade, o seria pela
esse e o utros núcleos demonstram ter. Freire, a partir d e uma visão própria dinâmica social. A :ln:i1isc d e per se permitiu d e linear algu.
humanista e ide:disra, crio u as bases filosóficas de uma nova postura mas especificidades que se locaJi.z.1m mais n:! estruturação e o bjeti-
em relação à co municação, no contexto de apoio às luras populares. vos institucio nais e me nos nas concepções e práticas sociais e de
Não criou um mode lo , m:lS se o tivesse reito p rovavelme me Icria comunicaçáo. A respeito destas, creio se r pos.~ívcl identificar seis
uma carnct'crística marcame : a de buscar a interAção, a fusão, o e n· posturas comuns aos núcleos analisados, que resumo a seguir.
rendime nto e o considerar plename nte possível. Um modelo de co- • Dificuldade de compatibiliz."lr análise macrossocial e mode·
munhão, no qual o verdadeiro sentido seria produzido pe lo los d e comunicação. Aquela, com base no p:tradigma conflitu:!l, com
compro misso ideológico dos e missores com os receptores e garanti. ênfase n:tS re lações dialéticas da sociedade. Est'es, idealistas e meca·
do pelo u so de um universo vocabular e conceitual compatível com
O universo expe rieneial desses últimos. Um modelo que veria o Bem
e a Verdade como conteúdos C:lpaze.s de unificar os imeresses mais t7 Valdir Olivei ra, a~sim como Migu el Angelo (I:!. SlI vc:lra. João CulO!> CanutO,
diversos e contradiló rios e no qual a produção de sentido continua· Eduardo Co nU'eras, Benho Mar:tng6 n, entre OUlTOS, fv.em pane do reduzido
ria localizada no ajuste de cód igos. Po r fim , um modelo que tr:uia grupo que nos anos 80 refletiu criticamente: sobre: a co mun iç,.ção I"llral, embo-
r.I l()Çalizad~ na prâtiCól cJ'1I!n si on'~t3 a li cia i, temando sair do drc ulo vi cioso
implícito aquele o utro, o da emissão·recep ção·realimenraçáo , que e ntrc os m oúc:lu~ (Hfuslon!slll5 e os de trans fonna~' iio estru tu ral. Ml!.'§ mo e nt re
eSIc.~, nem todos esopar.lm de: perce: ber a comunk';l.~·:io como algo :lbstr.uo ,

..
ou com vida própria, indepelldc:me da pr:hiC;1 dos agcntl'li.

B6
InrJlluArmij<)

A comunicação é consid erad a peça-cnave nesse COntexto de ex· na sua aparência lógica c inCOntestável continua norteando as con.
te nsão unive rsitária: cepções e práticas da comu n icação rural.
Nos últimos allos m/ll/o se /um tI/seul/do a q/les/do de um modeJo para a ex-
Acrescemaria aqui, ainda d e nt ro da hipó lese d o mode lo dial6-
tenSlÍo capaz llc promowr social, poIi/lca e f!COl/omic:amell/e as camadas l U· giro como obsráculo ao aV"dnço da teoria e da pr.itica de comunica·
tas po{mlares >lO melu rural. A parlir das idéias de PaI/lo Freire sobre a ção rural, a observação de O live ira (op. cit.: 46) d e que "a ê nfase
ql/esMo, quase I/il/gl/ém ",ais dlwlda, pelo mUI/os a I/ível (s/c) llodisCl"SO, da
impor/dl/cla da comunicaçôo como ulabilwltlora desse processo. FtL.""C' ex·
excessiva na trAnsfo rmação estrutural, e m detrime nto d e questões
tel/são nlral é ItSUI/)e/~'C1!1" uma relação de /roca de saberes. ExtellSlÍO é Isso: mais específicas da comunicação, te rmino u por le\".tr à idcologização
troa' de .wlHlres. t:",lsuJo e reuUtmmtaçáo, o que alracter/.ul Q processo (lI' co- de suas premissas, as quais se to maram mais douninárias do que cien·
tlllm' cardo. tificas". O liveira meneio na a exacerbação d a visão diCOu}mica entre
Esse texto, pinçado da apresentação do segundo núme ro do classes dominante e do minada, q ue nesse modelo explica todos os
CaLienlOS de c;xlctlsão rura l , coloca em cena a concepção de comunl· problemas, inclus ive os da co municação, e levou a dificuldades de
c"lção: um processo, d ialógico no sentido "freireano", caracterizado o rdem metodológica quando no confronto com a realidade . 17
pelo par emlssão/realimentaçáo. No entanto, os artigos publicados no
mes mo caderno fa'l.c m insisteme menção às contradições do tecido P<.m/QS ,Ie roll!llIrgcl/c la
social e às lu tas populares como força propu lsora do conbcci mCnlO
e da mudança. Nova mente somos confrontad os com a dificuldade
de compatib ilizar a análise macrossocial com o modelo de comuni· Estes doco núcleos - Órgãos Governamentais, ONGs, Igrejas,
caÇ"do. A an:í.lise segue na direção do conflito , da d ialética , d a com ra· Organizações Rcprese ntalh'as e Extensão Universit:lria - que, por in-
dição. O modelo mecaniciza e idealiza as relações comunicativas, termédio de políticas d e inte rve nção, atuam no meio ru ral não agem
ainda que sob o "mamo sagrado" d as idéias de Paulo Freire . de forma iso lada, nem seus discu rsos são impermeáveis aos de mais.
Tah'el. aí - na forte e sempre presenre he rança d iscursiva de Pau· A pr.itica discursiva não corrcsponde rigidamente à demarcação de
10 Freire - resida um dos o bstáculos a se elaborar um modelo d e co- fronteiras institucionais. A "cont:uninação" é inevitável e, ainda que
municação que corresponda à noção conflirual de sociedade que não o fosse pela própria natura:! d :! inte rdiscurs ividade, o seria pela
esse e o utros núcleos demonstram ter. Freire, a partir d e uma visão própria dinâmica social. A :ln:i1isc d e per se permitiu d e linear algu.
humanista e ide:disra, crio u as bases filosóficas de uma nova postura mas especificidades que se locaJi.z.1m mais n:! estruturação e o bjeti-
em relação à co municação, no contexto de apoio às luras populares. vos institucio nais e me nos nas concepções e práticas sociais e de
Não criou um mode lo , m:lS se o tivesse reito p rovavelme me Icria comunicaçáo. A respeito destas, creio se r pos.~ívcl identificar seis
uma carnct'crística marcame : a de buscar a interAção, a fusão, o e n· posturas comuns aos núcleos analisados, que resumo a seguir.
rendime nto e o considerar plename nte possível. Um modelo de co- • Dificuldade de compatibiliz."lr análise macrossocial e mode·
munhão, no qual o verdadeiro sentido seria produzido pe lo los d e comunicação. Aquela, com base no p:tradigma conflitu:!l, com
compro misso ideológico dos e missores com os receptores e garanti. ênfase n:tS re lações dialéticas da sociedade. Est'es, idealistas e meca·
do pelo u so de um universo vocabular e conceitual compatível com
O universo expe rieneial desses últimos. Um modelo que veria o Bem
e a Verdade como conteúdos C:lpaze.s de unificar os imeresses mais t7 Valdir Olivei ra, a~sim como Migu el Angelo (I:!. SlI vc:lra. João CulO!> CanutO,
diversos e contradiló rios e no qual a produção de sentido continua· Eduardo Co nU'eras, Benho Mar:tng6 n, entre OUlTOS, fv.em pane do reduzido
ria localizada no ajuste de cód igos. Po r fim , um modelo que tr:uia grupo que nos anos 80 refletiu criticamente: sobre: a co mun iç,.ção I"llral, embo-
r.I l()Çalizad~ na prâtiCól cJ'1I!n si on'~t3 a li cia i, temando sair do drc ulo vi cioso
implícito aquele o utro, o da emissão·recep ção·realimenraçáo , que e ntrc os m oúc:lu~ (Hfuslon!slll5 e os de trans fonna~' iio estru tu ral. Ml!.'§ mo e nt re
eSIc.~, nem todos esopar.lm de: perce: ber a comunk';l.~·:io como algo :lbstr.uo ,

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ou com vida própria, indepelldc:me da pr:hiC;1 dos agcntl'li.

B6
1...·.IIIIo'IraújQ

nicislas, ancorados na Teoria da Informação, com inspiração funcio- to da(s) teoria(s) implícita(s) nas p ráticas. A forç.'I dos paradigmas re.
nalista . side justamente aj, de um lado na inconsciência e d e outro na
• Entendimento dos modelos transferencial e dialógico como naturalização das teorias e dos modelos, pri ncipaJmente se estamos
antagônicos e não percepção do seu núcleo comum . lidando com um paradigma que p rocura trazer para as ciências sociais
• Dificuldade em aplicar a análise social à própria ins tituição, o modo de pe nsar das ciências da n:nureza. As pessoas que praticam
situação dt!corrente de uma visão missionária de si mes mo. a comunicação rural pensam, freqü e ntam cursos buscam assessoria
• Percepção da comunicação como resposta para as questões incorporam novas idéias. Mas a força paradigmãtica do modelo d~
sociais (e institucionais) . Essa noção não difere muito daquela pro- comunicação que se fundamenta numa concepção de linguagem sim.
°
posta pe la UNESCO, nos anos 50/60. que muda é a abordagem dos
princípios e métodos da comunicação, persistindo a idéia central. Ao
pies e convincente e que pennanece como espinha dorsal da maioria
das análises, concepções e pr:iricas de comunicaç.ão rural, lança uma
invés de comunicação como instrumento do desenvolvimento, pas· cortina sobre certas evidências ecristaliza uma teoria sobre o proces.
samos a tê·la como instrumento de transfomlação soci:tl. 50 da comunicação como verdade inelutável.
• Panicipação popu lar como conceito-chave para esta ·' nO....J." Pierre Bo urdieu faz menção à "ilusão da constância do no mi.
abordagem da comunicação, apropriado das mais diversas formas . nar, referindo ·se à convicção corrente que um mesmo concei[Q (ou
• Noção d e ideologia vinculada :t conteúdos . Ideologia como palavra) pode ser empregado para designar a realidade que designa.
algo abstrato que é incutido através da interpretação dos fatos sociais va tem pos antes (1990: 2). Creio que isto acontece fonemente com o
e veiculada nas mensage ns o ferecidas aos receptores. Meios, fo rmas, modelo de com unicação que aqui está e lll questão, tanto mais na
formatos , processos de recepção e consu mo são ideologicamente medida em que seus adeptOs (se é que se pode chamar assim a quem
neutros. adere inconscientemente) não tt:m o há bilo de refletir criticamente
• Concepção de linguagem apoiada em três pilares : língua sobre os conceitos subjacentes à sua prática, suas cond ições históri.
como repenório , imanência do sent ido nas palavras (relação mecâ· cas de produção e aplicação. Historicizar leVa à desnaturalização e
nica significante / significado) e autonomia do sujeito sobre :I língua desf.az dicotomias qu e, por mecanismos d iversos d o jogo de interes.
e sobre aconsQ'Ução do s ignificado. De tal concepção não se tem c1a· ses de classe, transfonnam-se .em categorias d e percepção, como é o
reza, estando e la implíci ta nos modelos d e comu nicação adotados, caso, só para ci tar um exemplo , de "em issor.receptor··. Adicional.
tanto o transferendal como o dialógico. me nte , ajuda a evi tar que se tome um modelo , representaçãoesque.
Evidentemente, poder·se.ia apontar algumas exceções e m cada mática de uma explicação da realidade, como sinônimo da pró pria
núcleo, _nas ins isto em que e las são forruita5, não represenrando o realidade.
conjunto; talvez um aind a débil movimento no sentido da mudança. A análise que foi fe ita neste tópico - dos conceitos e pr:iticas co-
Oque há, sim, é a percepção em boa parte dos grupos de que há uma municativas dos principais n úcleos discursivos que Operam no meio
inadequação d os seus métodos em relação aos objetivos, mas a rea· rur.ú - procurou mostrar como os modelos e paradigmas atuam, evi.
ção tem s ido, quase sempre, a de radicalizar a participação popular, tando·se tratar "a comunicação" como algo intangível, superestrutu.
oque confirma a solidez da idéia de que o problema da comunicação ral. Como p rocesso social, ocorre c é produzido na in teração e no
reside num ajuste de códigos: ajuste cultural , verbal o u de Outra n:t· confronto social , portamo através dos age ntes sociais e s uas práticas
TUreza, mas sempre ajuste de códigos. discursivas.
Cerrame nte essa discrepância entre teoria e prática e a conco- As o utras instâncias de produç:io c reprodução d os modelos e
mitante dificu ldade em detectá·la não pode ser imputada a uma defi· paradigmas têm uma característJca dife re nciada, e mbora não menos
cii:ncia de raciocínio que assolaria tal qu antidade d e pessoas e importante: são os espaços de elaboraçao teórica. E é um desses es.
organizações . A explicação pode estar, em parte, no desconhecimen· paços, o da pesquisa, que na seqüência será abordado. Faço, porém,

.. ..
1...·.IIIIo'IraújQ

nicislas, ancorados na Teoria da Informação, com inspiração funcio- to da(s) teoria(s) implícita(s) nas p ráticas. A forç.'I dos paradigmas re.
nalista . side justamente aj, de um lado na inconsciência e d e outro na
• Entendimento dos modelos transferencial e dialógico como naturalização das teorias e dos modelos, pri ncipaJmente se estamos
antagônicos e não percepção do seu núcleo comum . lidando com um paradigma que p rocura trazer para as ciências sociais
• Dificuldade em aplicar a análise social à própria ins tituição, o modo de pe nsar das ciências da n:nureza. As pessoas que praticam
situação dt!corrente de uma visão missionária de si mes mo. a comunicação rural pensam, freqü e ntam cursos buscam assessoria
• Percepção da comunicação como resposta para as questões incorporam novas idéias. Mas a força paradigmãtica do modelo d~
sociais (e institucionais) . Essa noção não difere muito daquela pro- comunicação que se fundamenta numa concepção de linguagem sim.
°
posta pe la UNESCO, nos anos 50/60. que muda é a abordagem dos
princípios e métodos da comunicação, persistindo a idéia central. Ao
pies e convincente e que pennanece como espinha dorsal da maioria
das análises, concepções e pr:iricas de comunicaç.ão rural, lança uma
invés de comunicação como instrumento do desenvolvimento, pas· cortina sobre certas evidências ecristaliza uma teoria sobre o proces.
samos a tê·la como instrumento de transfomlação soci:tl. 50 da comunicação como verdade inelutável.
• Panicipação popu lar como conceito-chave para esta ·' nO....J." Pierre Bo urdieu faz menção à "ilusão da constância do no mi.
abordagem da comunicação, apropriado das mais diversas formas . nar, referindo ·se à convicção corrente que um mesmo concei[Q (ou
• Noção d e ideologia vinculada :t conteúdos . Ideologia como palavra) pode ser empregado para designar a realidade que designa.
algo abstrato que é incutido através da interpretação dos fatos sociais va tem pos antes (1990: 2). Creio que isto acontece fonemente com o
e veiculada nas mensage ns o ferecidas aos receptores. Meios, fo rmas, modelo de com unicação que aqui está e lll questão, tanto mais na
formatos , processos de recepção e consu mo são ideologicamente medida em que seus adeptOs (se é que se pode chamar assim a quem
neutros. adere inconscientemente) não tt:m o há bilo de refletir criticamente
• Concepção de linguagem apoiada em três pilares : língua sobre os conceitos subjacentes à sua prática, suas cond ições históri.
como repenório , imanência do sent ido nas palavras (relação mecâ· cas de produção e aplicação. Historicizar leVa à desnaturalização e
nica significante / significado) e autonomia do sujeito sobre :I língua desf.az dicotomias qu e, por mecanismos d iversos d o jogo de interes.
e sobre aconsQ'Ução do s ignificado. De tal concepção não se tem c1a· ses de classe, transfonnam-se .em categorias d e percepção, como é o
reza, estando e la implíci ta nos modelos d e comu nicação adotados, caso, só para ci tar um exemplo , de "em issor.receptor··. Adicional.
tanto o transferendal como o dialógico. me nte , ajuda a evi tar que se tome um modelo , representaçãoesque.
Evidentemente, poder·se.ia apontar algumas exceções e m cada mática de uma explicação da realidade, como sinônimo da pró pria
núcleo, _nas ins isto em que e las são forruita5, não represenrando o realidade.
conjunto; talvez um aind a débil movimento no sentido da mudança. A análise que foi fe ita neste tópico - dos conceitos e pr:iticas co-
Oque há, sim, é a percepção em boa parte dos grupos de que há uma municativas dos principais n úcleos discursivos que Operam no meio
inadequação d os seus métodos em relação aos objetivos, mas a rea· rur.ú - procurou mostrar como os modelos e paradigmas atuam, evi.
ção tem s ido, quase sempre, a de radicalizar a participação popular, tando·se tratar "a comunicação" como algo intangível, superestrutu.
oque confirma a solidez da idéia de que o problema da comunicação ral. Como p rocesso social, ocorre c é produzido na in teração e no
reside num ajuste de códigos: ajuste cultural , verbal o u de Outra n:t· confronto social , portamo através dos age ntes sociais e s uas práticas
TUreza, mas sempre ajuste de códigos. discursivas.
Cerrame nte essa discrepância entre teoria e prática e a conco- As o utras instâncias de produç:io c reprodução d os modelos e
mitante dificu ldade em detectá·la não pode ser imputada a uma defi· paradigmas têm uma característJca dife re nciada, e mbora não menos
cii:ncia de raciocínio que assolaria tal qu antidade d e pessoas e importante: são os espaços de elaboraçao teórica. E é um desses es.
organizações . A explicação pode estar, em parte, no desconhecimen· paços, o da pesquisa, que na seqüência será abordado. Faço, porém,

.. ..
uma ressalva : minha inserção aqui, não tendo s ido pela via acadêmi- formação profiSSional (que incluía atuação direta com os campone_
ca, tr.LZ a dupla condição teóriCA e prática, como se poderá avaliar. ses, avaUações. diagnósticos, e tc.), a ObservAÇ-.10 rigorosa das práticas
c~municativas das instituições e o consumo de uma li teratura predo-
minantemente latino-americana sobre experiências e concepções de
apren.dizagem de adultos e comunicação popular.
E então - em 1988 - que dou início a uma ampla pesquisa empí-
Fiz e faço pane desse universo e, como tal, não poderia ficar rica, que teve como projeto confLnnar o u não a hipótese da existência
imune:ao modo dominante de pensar. Mas a narureza do trabalho de de uma lógica de comunicação própria dos camponeses, distinta de
assessoria institucional que. .dentro de um conceito, de amogestão, o utros segmen tos da popu lação. e delinear seus contornos. A investiga-
(cm como papel precípuo propor reflexões sobre a pr.itica, associada ção abrangeu seis estados da região Nordeste e envolveu diretamente
a uma curiosidade dc pesquisadora, propiciaram-me uma perma- 18 ~~niza~S c 1150 camponeses. O IcvantamcnlO bibliográfico
nenle preocupação em observ:.tr critiC:lmente a relação discurso/prá- prellllunar, fe ito em bibliotecas de universidades, centros de pesqui-
tica, detectar os impasses e dificu ldades e descobrir suas raízes. s.a, _ONGs e órgãos públicos, que visava aponrar o panorama d as pes_
Dei.xando dc lado as <Iuestões mais próprias da educação popular, os Q.UIS3S_ em comunicação rur.u, pós-me em contato com a seguinte
primeiros iflSfgbts na direção de uma mudança de abordage m (o ram Sltuaçao :
referentes à imponância da fo mla no processo de comunicação. Mas • Um farlO material compoSto por reJatórios de pesquisa e arti-
isto nflo implicam, absolutamente, mudança de paradigma. Trata- gos escritos por pesquisadores estrangeiros (norte-americanos e
va-se de aperfeiçoar o modelo, na medida em que considerava que f~Anceses, em sua maio ria) , descrevendo os resultados de investiga-
não só O conteúdo continha s ignificados, ponanto nâo só e le dcveria çoe:- lev-d.das ~ efeito ",os COntine ntes não-desenvolvidos, sobretudo
ser ajustado ao universo do receptor. Era um avanço, certamenle. mas n a Alrica, na Asia (na India, especificamemc) e em menor escala na
na concepção de linguagem e do processo d e produção do semido. América Latina . Todos , sem exceção, voltados parA processos de de-
Um segundo passo foi descobrir a dimens:l0 da pragmática (ai nda codificação d e mensagt!ns por populações não.alfabetizadas.
que assim 0:10 fosse no meada) , isto é , do valor das formas de recep- . • Um conjunto subs t:m d;t1 de dissertações de mestrado pro-
ção, circulação e consumo dos materiais e das mensagens por eles d.m:ldas por profissionais dos sistemas o ficiai s de pesquisa e exten-
veiculadas. Este, s im, re presento u uma mudança de rumo , na medi- sao rural, defendidas principalmenre nos cursos de pós-graduação
da em que deslocou o eixo da comunicação d o emissor e da mensa- das UFRGS, UFV, UnB e (MS, no período de 1965 a 1987. Tais traba-
gem para o receptor e para o proce.sw l!e produção dos sen tidos em lhos procuravam estudar a compreensão. por p ,tne d os agricultores.
recepção . Maso paradigma lingüístico nflo fora substancialmente a](e- das mensagens produzidas pela extensão, principalmente a leitura-
rado: continuava pensando em temlOS da busca da interação através bilidade dos textos; o papel dos meios massivos e dos meios utiliza-
da compree nsão dos mecanismos de reconhecimento e consumo dos pela e),1:ensão na adoção de novas propostas tecnol6gicas, COm
das mensagens. i!nfasc nas análises comparAtivas; os fato res comunicacionais da
Ambas as dimensões - forma e pragmática da comunicação- fo- I.r.msferência tecnol6gica.
rnm incorporndas nos eventoS de capacitação sob minha responsabi. • Um pt:queno número de dissertaçôcs abordando a comuni-
lidade. o que pennitiu confimlar, por s ua receptividade, que cação popu lar, sobretudo com o e nfoque de comunicação alternati-
correspondiam a uma explicação da realidade mais de acordo com a va, ou seja, de resistência ideológica :l. dominação de classe.
complexidade dos processos sociais que compun ham o universo d e • Artigos publicados em revistas diversas, denunciando o cará-
atuação das organiz.'lções. Faltava confirmação, porém. O que cu ter manipulado .. e a1ienanre dos meios da comunicação de m:lssa.
pensava até então era fruto da conjugação d e três vertentes: min ha

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"
uma ressalva : minha inserção aqui, não tendo s ido pela via acadêmi- formação profiSSional (que incluía atuação direta com os campone_
ca, tr.LZ a dupla condição teóriCA e prática, como se poderá avaliar. ses, avaUações. diagnósticos, e tc.), a ObservAÇ-.10 rigorosa das práticas
c~municativas das instituições e o consumo de uma li teratura predo-
minantemente latino-americana sobre experiências e concepções de
apren.dizagem de adultos e comunicação popular.
E então - em 1988 - que dou início a uma ampla pesquisa empí-
Fiz e faço pane desse universo e, como tal, não poderia ficar rica, que teve como projeto confLnnar o u não a hipótese da existência
imune:ao modo dominante de pensar. Mas a narureza do trabalho de de uma lógica de comunicação própria dos camponeses, distinta de
assessoria institucional que. .dentro de um conceito, de amogestão, o utros segmen tos da popu lação. e delinear seus contornos. A investiga-
(cm como papel precípuo propor reflexões sobre a pr.itica, associada ção abrangeu seis estados da região Nordeste e envolveu diretamente
a uma curiosidade dc pesquisadora, propiciaram-me uma perma- 18 ~~niza~S c 1150 camponeses. O IcvantamcnlO bibliográfico
nenle preocupação em observ:.tr critiC:lmente a relação discurso/prá- prellllunar, fe ito em bibliotecas de universidades, centros de pesqui-
tica, detectar os impasses e dificu ldades e descobrir suas raízes. s.a, _ONGs e órgãos públicos, que visava aponrar o panorama d as pes_
Dei.xando dc lado as <Iuestões mais próprias da educação popular, os Q.UIS3S_ em comunicação rur.u, pós-me em contato com a seguinte
primeiros iflSfgbts na direção de uma mudança de abordage m (o ram Sltuaçao :
referentes à imponância da fo mla no processo de comunicação. Mas • Um farlO material compoSto por reJatórios de pesquisa e arti-
isto nflo implicam, absolutamente, mudança de paradigma. Trata- gos escritos por pesquisadores estrangeiros (norte-americanos e
va-se de aperfeiçoar o modelo, na medida em que considerava que f~Anceses, em sua maio ria) , descrevendo os resultados de investiga-
não só O conteúdo continha s ignificados, ponanto nâo só e le dcveria çoe:- lev-d.das ~ efeito ",os COntine ntes não-desenvolvidos, sobretudo
ser ajustado ao universo do receptor. Era um avanço, certamenle. mas n a Alrica, na Asia (na India, especificamemc) e em menor escala na
na concepção de linguagem e do processo d e produção do semido. América Latina . Todos , sem exceção, voltados parA processos de de-
Um segundo passo foi descobrir a dimens:l0 da pragmática (ai nda codificação d e mensagt!ns por populações não.alfabetizadas.
que assim 0:10 fosse no meada) , isto é , do valor das formas de recep- . • Um conjunto subs t:m d;t1 de dissertações de mestrado pro-
ção, circulação e consumo dos materiais e das mensagens por eles d.m:ldas por profissionais dos sistemas o ficiai s de pesquisa e exten-
veiculadas. Este, s im, re presento u uma mudança de rumo , na medi- sao rural, defendidas principalmenre nos cursos de pós-graduação
da em que deslocou o eixo da comunicação d o emissor e da mensa- das UFRGS, UFV, UnB e (MS, no período de 1965 a 1987. Tais traba-
gem para o receptor e para o proce.sw l!e produção dos sen tidos em lhos procuravam estudar a compreensão. por p ,tne d os agricultores.
recepção . Maso paradigma lingüístico nflo fora substancialmente a](e- das mensagens produzidas pela extensão, principalmente a leitura-
rado: continuava pensando em temlOS da busca da interação através bilidade dos textos; o papel dos meios massivos e dos meios utiliza-
da compree nsão dos mecanismos de reconhecimento e consumo dos pela e),1:ensão na adoção de novas propostas tecnol6gicas, COm
das mensagens. i!nfasc nas análises comparAtivas; os fato res comunicacionais da
Ambas as dimensões - forma e pragmática da comunicação- fo- I.r.msferência tecnol6gica.
rnm incorporndas nos eventoS de capacitação sob minha responsabi. • Um pt:queno número de dissertaçôcs abordando a comuni-
lidade. o que pennitiu confimlar, por s ua receptividade, que cação popu lar, sobretudo com o e nfoque de comunicação alternati-
correspondiam a uma explicação da realidade mais de acordo com a va, ou seja, de resistência ideológica :l. dominação de classe.
complexidade dos processos sociais que compun ham o universo d e • Artigos publicados em revistas diversas, denunciando o cará-
atuação das organiz.'lções. Faltava confirmação, porém. O que cu ter manipulado .. e a1ienanre dos meios da comunicação de m:lssa.
pensava até então era fruto da conjugação d e três vertentes: min ha

90
"
I"esila A.raújo

Tais estudos e pesquisas são decorrência lógica da visão desen- Os demais abordaram temas relacionados à disseminação de In·
volvimentista dos anos 60, que culminou com o currículo dos cursos fomlaçóes elou valores sociais, por meio do rádio e vídeos, propon-
de comunicação no início da década de 70. São também produto da do re flexões sobre a eficácia comparativa dos meios ou o papel dos
preocupação e prioridade dos organismos oficiais de extensão rural radialistas na difusão de valores urbanos para o meio rural. Ao lançar
com o processo da comunicação. Eles sistematizam e legitimam , sob um desafio à UFV quanto à instalação de um curso de rádio rural ,
o signo da cientificidade da pesquisa acadêmica, modelos de comu- pergunta:
nicação que, na sua origem histórica, foram constituídos para expli- Por que 11<10 fonuar aqui umll impor/allle base de graduaçã<.> e pesqlllsa sobrll
car realidades outras ou atender interesses especificos, Se olharmos as relações ,1<.> r(Úlio com os moradoresdazOtla rural, como empresários, pro·
dutores, callçÕ<!s em busca da tmllsforffluçd<.> do cidadão, que la11tO busca·
com mais atenção, as dissertações são aplicações (melhor dizendo,
/nOS? (p. 35)
testes) de teorias ou modelos prontos a um determinado objeto. Por
essa via, testou-se a validade do modelo de comunicação em duas Considemndo que a lntercom é um dos dois fóruns nacionais
etapas, das fónnulas de leiturabilidade, da eficácia de modelos de catalisadorcs dos pesquisadores em comunicação - o outro é a Com-
persuasão, etc. pós - , valeria ainda mencionar que o número 59 da RBC (1988) , con-
Por outro lado, as raras teses sobre comunicação popular traziam sagrado à Comunicação Rural, traz apenas três trabalhos sobre o
à cena conceitos como begemonia, contracultura, indústria cultu- tema: uma entrevista com o editor-chefe do programa "Globo Ru-
ral, cultura subalterna, alienaçâo e resistência, dominaçâo, ideo- ral", um estudo de caso sobre o mesmo programa na região su l de
logia , associados ao paradigma contlitual, e trd.balhavam com uma U- Minas Gemis, cujo objetivo era "explicitar a comunicação - via televi-
nha mais cultur-.tIista, vendo a comunicação como forma de expressão são - para o meio rur-.t.I como fator de integmção do empresariado
cultural e política das camadas populares. De resto, não se associava rural com o complexo agropecuário" e um estudo sobre "O novo
essa linha de pesquisa à problemática da sociedade camponesa, a perfil da comunicação rural brasileim". Ao todo, os tmbalhos ocu-
não ser pelo viés da cultura popular, numa perspcctiV"d., via de regra, pam 42 de suas 190 páginas, o que também é um dado a se conside-
folclorista . "u.
Os dados mais atuais sobre a pesquisa em comunicação ruml Tome mos outra publicação da Intercom, o livro Comunicação
conflffilam que a situação pouco se alterou, de 1988 para cá. No I Se- rural: discurso e prática (1993) , que sistematiza os trabalhos apre-
minário de Comunicação Rural da UFV, já mendonado e que data de sentados no congresso da sociedade em 1988, cujo tema central foi
julho de 1994, o presidente da Imercom - Sociedade Brasileira de "Comunic ação Ruml", Na introdução, uma das organizadoras afirma
Estudos Interdisciplinares em Comunicação - fez um balanço dos que
progressos nesse campo específico de pesquisa, que ele acreditava infe/izme"'e "O decurrer dos últimos a/los (a co mun icação rural) 11<10 mere-
estar refletido nas publicações especializadas da Intercom e em seus ceu, por parte das escolas de comunicação social, a atençào devida, /a1ll0 110
eventos regionais e nacionais. Deteve-se então no aprofundamell1o que se refere ao f!tlslPlo, qllalllo a uma me/bvrdefiniçã<.> das Unhas depcsqlli-
sa,Jicallt/o muito impregnada do exteusiouism<.>, d<.>futlciotlalismo e do difu<
dos estudos que lhe parecemm avançados e representativos da atua- siolllsmu de Inovaçóes, sob fu rte influência dos paradigmas importados,
lidade. Três, publicados na RBC - Revista Brasileira de Comunica- dts/allclados, portanto, da rea/ldmle brasileira. (Kul"L'lch: 7)
çâo, de jul ./dez. 1985, e um na mesma revista, de 1991. Este último
Não se pode ter uma concepção ingênua da pesquisa em comu-
. .. examiuou a nivel (sle) dos agriCll/tores as SUtIS principais fOf/tes de Infor-
nicação rur-.tI como que desvinculada das questões agrícola , econô-
mação, canais, llpos, qual/tidade e rdel·tU/cla local das i,ljormaç{Jes que re-
cebem e deixam de receber sobre sua produçM e comercialização agrlcvla. mica e política. Tal associação já ficou clara no que tange ao modelo
(Qudroz: 33) difusionista e agora pode-se perceber uma certa tendência a pensar
que, uma vez que se tem consciência crítica sobre as implicações p0-
lítico-ideológicas do modelo, fica mais fácil superá-Ias, como se a

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I"esila A.raújo

Tais estudos e pesquisas são decorrência lógica da visão desen- Os demais abordaram temas relacionados à disseminação de In·
volvimentista dos anos 60, que culminou com o currículo dos cursos fomlaçóes elou valores sociais, por meio do rádio e vídeos, propon-
de comunicação no início da década de 70. São também produto da do re flexões sobre a eficácia comparativa dos meios ou o papel dos
preocupação e prioridade dos organismos oficiais de extensão rural radialistas na difusão de valores urbanos para o meio rural. Ao lançar
com o processo da comunicação. Eles sistematizam e legitimam , sob um desafio à UFV quanto à instalação de um curso de rádio rural ,
o signo da cientificidade da pesquisa acadêmica, modelos de comu- pergunta:
nicação que, na sua origem histórica, foram constituídos para expli- Por que 11<10 fonuar aqui umll impor/allle base de graduaçã<.> e pesqlllsa sobrll
car realidades outras ou atender interesses especificos, Se olharmos as relações ,1<.> r(Úlio com os moradoresdazOtla rural, como empresários, pro·
dutores, callçÕ<!s em busca da tmllsforffluçd<.> do cidadão, que la11tO busca·
com mais atenção, as dissertações são aplicações (melhor dizendo,
/nOS? (p. 35)
testes) de teorias ou modelos prontos a um determinado objeto. Por
essa via, testou-se a validade do modelo de comunicação em duas Considemndo que a lntercom é um dos dois fóruns nacionais
etapas, das fónnulas de leiturabilidade, da eficácia de modelos de catalisadorcs dos pesquisadores em comunicação - o outro é a Com-
persuasão, etc. pós - , valeria ainda mencionar que o número 59 da RBC (1988) , con-
Por outro lado, as raras teses sobre comunicação popular traziam sagrado à Comunicação Rural, traz apenas três trabalhos sobre o
à cena conceitos como begemonia, contracultura, indústria cultu- tema: uma entrevista com o editor-chefe do programa "Globo Ru-
ral, cultura subalterna, alienaçâo e resistência, dominaçâo, ideo- ral", um estudo de caso sobre o mesmo programa na região su l de
logia , associados ao paradigma contlitual, e trd.balhavam com uma U- Minas Gemis, cujo objetivo era "explicitar a comunicação - via televi-
nha mais cultur-.tIista, vendo a comunicação como forma de expressão são - para o meio rur-.t.I como fator de integmção do empresariado
cultural e política das camadas populares. De resto, não se associava rural com o complexo agropecuário" e um estudo sobre "O novo
essa linha de pesquisa à problemática da sociedade camponesa, a perfil da comunicação rural brasileim". Ao todo, os tmbalhos ocu-
não ser pelo viés da cultura popular, numa perspcctiV"d., via de regra, pam 42 de suas 190 páginas, o que também é um dado a se conside-
folclorista . "u.
Os dados mais atuais sobre a pesquisa em comunicação ruml Tome mos outra publicação da Intercom, o livro Comunicação
conflffilam que a situação pouco se alterou, de 1988 para cá. No I Se- rural: discurso e prática (1993) , que sistematiza os trabalhos apre-
minário de Comunicação Rural da UFV, já mendonado e que data de sentados no congresso da sociedade em 1988, cujo tema central foi
julho de 1994, o presidente da Imercom - Sociedade Brasileira de "Comunic ação Ruml", Na introdução, uma das organizadoras afirma
Estudos Interdisciplinares em Comunicação - fez um balanço dos que
progressos nesse campo específico de pesquisa, que ele acreditava infe/izme"'e "O decurrer dos últimos a/los (a co mun icação rural) 11<10 mere-
estar refletido nas publicações especializadas da Intercom e em seus ceu, por parte das escolas de comunicação social, a atençào devida, /a1ll0 110
eventos regionais e nacionais. Deteve-se então no aprofundamell1o que se refere ao f!tlslPlo, qllalllo a uma me/bvrdefiniçã<.> das Unhas depcsqlli-
sa,Jicallt/o muito impregnada do exteusiouism<.>, d<.>futlciotlalismo e do difu<
dos estudos que lhe parecemm avançados e representativos da atua- siolllsmu de Inovaçóes, sob fu rte influência dos paradigmas importados,
lidade. Três, publicados na RBC - Revista Brasileira de Comunica- dts/allclados, portanto, da rea/ldmle brasileira. (Kul"L'lch: 7)
çâo, de jul ./dez. 1985, e um na mesma revista, de 1991. Este último
Não se pode ter uma concepção ingênua da pesquisa em comu-
. .. examiuou a nivel (sle) dos agriCll/tores as SUtIS principais fOf/tes de Infor-
nicação rur-.tI como que desvinculada das questões agrícola , econô-
mação, canais, llpos, qual/tidade e rdel·tU/cla local das i,ljormaç{Jes que re-
cebem e deixam de receber sobre sua produçM e comercialização agrlcvla. mica e política. Tal associação já ficou clara no que tange ao modelo
(Qudroz: 33) difusionista e agora pode-se perceber uma certa tendência a pensar
que, uma vez que se tem consciência crítica sobre as implicações p0-
lítico-ideológicas do modelo, fica mais fácil superá-Ias, como se a

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"
(n ....i/a Araujo A .-eco.wersOO da ulbur

consciência pudesse dissolveras condições de produção da pesquisa dos recursos naturAiS do planeta com uma situação de mais justiça
científica , num passe de mágica. social.
É assim que gostaria de mencionar, entre outras relações, a rt:- Relomando o fio da meada, para entretccé-lo novamente com
presentada pelos modelos agrícolas adotados, tomando como exem- meu perc urso dentro desse cenário: as pesquisas que eu bavia iden-
plar o da sustentabilidade. que ainda ensaia os seus primeiros tificado fiO levantamento bibliográfico, tanto as de investigadores es-
passos. E por que o da s ustentabilidade? Porque carrega consigo a trangeiros como as d e bmsileiros, procuravam verificar, em última
ilusão do novo, do revolucionário, d o "politic;unente correto", sen- análise , a adequação dos códigos aos receplOres ou as variáveis que
do defendido por todas as instâncias da prática discursiva no meio criaJ"iam obstáculos o u fac ilitariam a realização do ideal da comun i-
rural. cação, viSlO como a perfeita correspondência elllre a m e nsagem emi-
O modelo da sustentabilidade resulta do fracasso da Revoluçáo tida e sua decodificação. A pesquisa que coordenei - agora é possível
Verde e seu vetor "aumento de produtividade" como fator de desen- perceber - , ainda que questio nando a prerrogatiV""J. do emissor na
volvimento e e1iminador da pobreza no mundo. EmborA sem aban- produção do sentido e a preocupaç ão exclusiva com o njvel semânti-
donar a preo<.:upação com a produção, põe em cena a necessidade co das mensagens, funcionou sob a égide d o mesmo modelo básico
d e preservação dos recursos naturais, que se dariam atrAvés de um d e com unicação. Mas o fato de adotar alguns princípios do mé todo
novo padrão agrícola. O componente ecológico do modelo é cen- d e pesquisa-ação, o ler incluído o modo de recepção como obje to de
trAI , mas não exclusivo, uma vez que leva em Conta a dimensão ética, investigação e as categorias de rcaç iío eleitas para obscf"V""dção H1 per-
incluindo fatores sociais, econômicos, culturais e políticos. Nesse re- mitiram que emergissem do trAbalho de campo questões irrecusáveis
ferencial , fundamental se torna a utilização de recursos e conheci- que , ainda num plano intuitivo, apontavam noutra direção, além de
mentos locais, o que remete à panicipação dos agricultores, o confirmarem hipó teses que Cf"dm até então baseadas em suposições.
respeitO às suas tradições e cultura e à educação agroambiental (cf. As mais significativas foram :
c!Silveira: 45-7). • Que a produção do sentido se dava, de fato, em recepção e
Estamos , pois, confrontados com detemlinantes que estão ine- que e ra plural , isto ·é , havia infinitas possibilidades de decodificação
xoravelmente relacionados com a comunicação rural, apare ntemen- da mesma mensagem.
te na perspectiva dos modelos dialó gicos, e a pesquisa deve sofrer • Q ue o significado apreendido dependia mais das fomlas de
coerções desse novo cenário, como antes acontece u com a Revolu- c irculação e de uso do que do conteúdo ou da forma da mensagem.
ção Verde, adicionando aos parâmetros teóricos e metodológicos • Que a fo mla das mensagens - formato , cor, tipo e tamanho
outros condicionantes , que correspondem a interesses políticos c de letm, diagramação, formato de programas, ritmo, densidade, etc.
econômicos (para uma abordagem minuc iosa dessa relação, sugiro - produzia sentido tanto ou mais que o conteúdo.
consultar Silveira: 45-8). O que se pode indagar é se a dinâmica pró- • Que os receptores se percebiam representados pelo emissor
pria da pesquisa em Comuni<.:ação Rural conseguirá fazer face a essa nesses aspectos formais , e não apenas na representação pictórica.
nova conjuntura de modo mais eficaz d o que aquele com que se • Que o texto verbal predominava sobre as imagens, na produ-
houve com o modelo de modernização tecnológica e explorar sua
ção do sentido.
margem de independência, que certamente e felizmente existe. E, se
assim for, não se prender ao modelo dialógico-panicipativo até exau-
ri-lo, sem perceber suas conexões com os velhos paradigmas c com
interesses pouco defensáveis. O modelo da sustentabilidade não é 18 Foram pre:vis{<ls seis ca{egori:..s d e reação que , e: m prirn:ípio . comeriam os indi-
inocente nem humanista e ainda não se pode saber se vai conseguir cadores d a efetividade c efic áda d os meios e mens agens, interesse: (motivo..-
çiio), leitur~ (ou reconhccimenlO), compreen s:ío (arúlisc e inte rprela....o).
compatibilizar interesses dos países hegernônicos na consef"V""d.ção créd ito (ace itação ou confianç<l), assimilação (ou lncorpornção) e aplicação

.
(ação prálica) .

"
(n ....i/a Araujo A .-eco.wersOO da ulbur

consciência pudesse dissolveras condições de produção da pesquisa dos recursos naturAiS do planeta com uma situação de mais justiça
científica , num passe de mágica. social.
É assim que gostaria de mencionar, entre outras relações, a rt:- Relomando o fio da meada, para entretccé-lo novamente com
presentada pelos modelos agrícolas adotados, tomando como exem- meu perc urso dentro desse cenário: as pesquisas que eu bavia iden-
plar o da sustentabilidade. que ainda ensaia os seus primeiros tificado fiO levantamento bibliográfico, tanto as de investigadores es-
passos. E por que o da s ustentabilidade? Porque carrega consigo a trangeiros como as d e bmsileiros, procuravam verificar, em última
ilusão do novo, do revolucionário, d o "politic;unente correto", sen- análise , a adequação dos códigos aos receplOres ou as variáveis que
do defendido por todas as instâncias da prática discursiva no meio criaJ"iam obstáculos o u fac ilitariam a realização do ideal da comun i-
rural. cação, viSlO como a perfeita correspondência elllre a m e nsagem emi-
O modelo da sustentabilidade resulta do fracasso da Revoluçáo tida e sua decodificação. A pesquisa que coordenei - agora é possível
Verde e seu vetor "aumento de produtividade" como fator de desen- perceber - , ainda que questio nando a prerrogatiV""J. do emissor na
volvimento e e1iminador da pobreza no mundo. EmborA sem aban- produção do sentido e a preocupaç ão exclusiva com o njvel semânti-
donar a preo<.:upação com a produção, põe em cena a necessidade co das mensagens, funcionou sob a égide d o mesmo modelo básico
d e preservação dos recursos naturais, que se dariam atrAvés de um d e com unicação. Mas o fato de adotar alguns princípios do mé todo
novo padrão agrícola. O componente ecológico do modelo é cen- d e pesquisa-ação, o ler incluído o modo de recepção como obje to de
trAI , mas não exclusivo, uma vez que leva em Conta a dimensão ética, investigação e as categorias de rcaç iío eleitas para obscf"V""dção H1 per-
incluindo fatores sociais, econômicos, culturais e políticos. Nesse re- mitiram que emergissem do trAbalho de campo questões irrecusáveis
ferencial , fundamental se torna a utilização de recursos e conheci- que , ainda num plano intuitivo, apontavam noutra direção, além de
mentos locais, o que remete à panicipação dos agricultores, o confirmarem hipó teses que Cf"dm até então baseadas em suposições.
respeitO às suas tradições e cultura e à educação agroambiental (cf. As mais significativas foram :
c!Silveira: 45-7). • Que a produção do sentido se dava, de fato, em recepção e
Estamos , pois, confrontados com detemlinantes que estão ine- que e ra plural , isto ·é , havia infinitas possibilidades de decodificação
xoravelmente relacionados com a comunicação rural, apare ntemen- da mesma mensagem.
te na perspectiva dos modelos dialó gicos, e a pesquisa deve sofrer • Q ue o significado apreendido dependia mais das fomlas de
coerções desse novo cenário, como antes acontece u com a Revolu- c irculação e de uso do que do conteúdo ou da forma da mensagem.
ção Verde, adicionando aos parâmetros teóricos e metodológicos • Que a fo mla das mensagens - formato , cor, tipo e tamanho
outros condicionantes , que correspondem a interesses políticos c de letm, diagramação, formato de programas, ritmo, densidade, etc.
econômicos (para uma abordagem minuc iosa dessa relação, sugiro - produzia sentido tanto ou mais que o conteúdo.
consultar Silveira: 45-8). O que se pode indagar é se a dinâmica pró- • Que os receptores se percebiam representados pelo emissor
pria da pesquisa em Comuni<.:ação Rural conseguirá fazer face a essa nesses aspectos formais , e não apenas na representação pictórica.
nova conjuntura de modo mais eficaz d o que aquele com que se • Que o texto verbal predominava sobre as imagens, na produ-
houve com o modelo de modernização tecnológica e explorar sua
ção do sentido.
margem de independência, que certamente e felizmente existe. E, se
assim for, não se prender ao modelo dialógico-panicipativo até exau-
ri-lo, sem perceber suas conexões com os velhos paradigmas c com
interesses pouco defensáveis. O modelo da sustentabilidade não é 18 Foram pre:vis{<ls seis ca{egori:..s d e reação que , e: m prirn:ípio . comeriam os indi-
inocente nem humanista e ainda não se pode saber se vai conseguir cadores d a efetividade c efic áda d os meios e mens agens, interesse: (motivo..-
çiio), leitur~ (ou reconhccimenlO), compreen s:ío (arúlisc e inte rprela....o).
compatibilizar interesses dos países hegernônicos na consef"V""d.ção créd ito (ace itação ou confianç<l), assimilação (ou lncorpornção) e aplicação

.
(ação prálica) .

"
Inu/lDATQUjo

• Que a adequação do conteúdo aos interesses reais dos recep- que são e ntre nós os centros gerado res/repassadores d o conheci-
tores possibilitava a superação das dificuldades associadas à inade- me m o teórico con tempo rÂneo sobre comunicação.
quação dos códigos. As possibilidades ocorriam e m cinco cstados, com a oferta. dc
As d escobenas da pesquisa provocaram uma sensação de des- cursos em três universidades de São Paulo e o utr-d..S em Brasília, Sal-
confono, na medida em que o novo conhecimento não cabia mais vado r, Rio de jane iro e Recife.
nos parâmetros do modelo que percebia a comunicação como um A UFRPE - Universidade Federal Rural de Pe rnambuco - o ferecia
processo inte rativo detenninado por relações causa is. É importante o cu rso de mestrado em Administração Rural e Comunicação Rur-.I.l,
lembrar que não se raciocinaV:1 em termos de modelo o u paradigma . vinculado à área de administração. Era o único l.'lIrso especificamente
Sem víncu los com o universo acadêmico, nâo procurei enqua- direcio nado par.! o meio rural. As abordagens predominantes, até
drar-me em algum referencial teórico explíci to . Fo i uma pesquisa e m ão, eram a da Fo lkcomunicação, vertente de estudos que associa
empírica e seus resuh ados foram analisados de fonna também empí- :1 comunicação às manifestações culturais tradicionais das d :lsses p0-
rica: o objeto fo i circunscrito, investigado , descritO e analisado com pulares e a dos estudos sobre a prática comunicatiV""d das instituições
critérios advindos da prática . .Mas hoje é possível perceber tanto o (com ê nfase na e:'(te nsão rural oficial) , enfocada mais freqüentemen-
modelo d e comunicação que ali estava subjacente como o esforço te sob a mesma ó tica das pesquisas dos anos 70 mencionadas no tó-
para extrapolá·lo, na medida e m que a realidade se mostrava muito pico anterio r. Havia alguns esforços isolados no semido de análises
mais complexa . Foi esse esforço que me fez procurar uma pós-gradu- d e audiência e das implicaçocs ideológicas dos meios massivos, ou
ação, na tent:uiV""d de ampliar me us conbecimentos teó ricos. Sabia :tnálises das construçõcs simbólicas no processo da comuniC""J.çáo,
que para avançar não era mais possível ficar só com a prática. m as que não haviam se afirmado como linha de pesquisa. Arualmen-
te , poder-se-ia dizer que os interesses seguem duas grandes te ndên-
cias. Uma, predominame ainda, marcad amente ligada aos int eresses
A pós·graduaçào dos órgãos governamentais, voltada aos problemas do desenvolvimen-
tO regio nal e ancordda nas práticas transferenciais de comunicação. Ou-
tr.! , preocupada com os novos atores sociais, novas tecnologias, com
Abordar separ-.ldamente pesquisa e pós-graduação em comuni·
:lS implicações ideológicas da comunicação e apoiada nos modelos
cação pode causar estranheza, uma vez que são os cu rsos de mestra·
do e d o uto rndo a principal instância de produção cie ntífica nessa dialógicos.
área. Faço-o para caracterizar alguns pontos que me parecem re levan· O lMS - Ins tituto Mc todis ra de Ens ino Superior - manté m, des-
tes c que ralvC"".f. não pudcssem ser evidenciados numa abordagem uni_ de 1978, uma li nha d e pesquisas em comunicação rural , tendo sid o
ficada, como a importância relativa da disciplina no conjunto e a um d os principais pólos produtores de dissertações nessa ;írca nos
1100S 80. lnduída na área de concentração "Co municação Cie ntmca
comparação entre suas preocupações teóricas e as d as dema.is espe-
cializações. e Tecnológica"', objetiva fo rmar "profissionais pesqu isadores interes·
No ano d e 199 1, época em que decidi ingressar numa pós-gra. slu los ( ... ) na disseminação eficiente d e informações tecnológicas
duação em cornunicação, o panor.J.ma era bastante diversificado, ( o municaÇÍ-o empresarial e rural) , d e modo a contribuir para uma
oferecendo opções de cursos em nível de mest:r.tdo que diferiam democratização d os resultados da pesquisa e m ciê ncia e tecno logian
substancialmente em s ua abordagem teórica. Um hrcve resumo de ( :Irdoso: 1988 , p . 129) . Especificamente, a linha de pesquisa desen·
cada um pode ilustrnressa afinnação, além de traçar um quadro. ain- volve o "estudo d o processo de comunicação vo ltado às especialidades
4a que superficial, das principais linhas d e estudo c pesquisa que vi- do meio rur.t1. Comunicaç;10 e difusão de inowções. Comunicação e
nham (e em geral ainda pennaneccm) sendo p rivilegiadas nestcs eXI 'nsão rural. Comunicação e pesquisa agropecuária. A dimensão
"nclocultur-.I.l d a comunicação com o ho mem do campo" (catálogo

.. "
Inu/lDATQUjo

• Que a adequação do conteúdo aos interesses reais dos recep- que são e ntre nós os centros gerado res/repassadores d o conheci-
tores possibilitava a superação das dificuldades associadas à inade- me m o teórico con tempo rÂneo sobre comunicação.
quação dos códigos. As possibilidades ocorriam e m cinco cstados, com a oferta. dc
As d escobenas da pesquisa provocaram uma sensação de des- cursos em três universidades de São Paulo e o utr-d..S em Brasília, Sal-
confono, na medida em que o novo conhecimento não cabia mais vado r, Rio de jane iro e Recife.
nos parâmetros do modelo que percebia a comunicação como um A UFRPE - Universidade Federal Rural de Pe rnambuco - o ferecia
processo inte rativo detenninado por relações causa is. É importante o cu rso de mestrado em Administração Rural e Comunicação Rur-.I.l,
lembrar que não se raciocinaV:1 em termos de modelo o u paradigma . vinculado à área de administração. Era o único l.'lIrso especificamente
Sem víncu los com o universo acadêmico, nâo procurei enqua- direcio nado par.! o meio rural. As abordagens predominantes, até
drar-me em algum referencial teórico explíci to . Fo i uma pesquisa e m ão, eram a da Fo lkcomunicação, vertente de estudos que associa
empírica e seus resuh ados foram analisados de fonna também empí- :1 comunicação às manifestações culturais tradicionais das d :lsses p0-
rica: o objeto fo i circunscrito, investigado , descritO e analisado com pulares e a dos estudos sobre a prática comunicatiV""d das instituições
critérios advindos da prática . .Mas hoje é possível perceber tanto o (com ê nfase na e:'(te nsão rural oficial) , enfocada mais freqüentemen-
modelo d e comunicação que ali estava subjacente como o esforço te sob a mesma ó tica das pesquisas dos anos 70 mencionadas no tó-
para extrapolá·lo, na medida e m que a realidade se mostrava muito pico anterio r. Havia alguns esforços isolados no semido de análises
mais complexa . Foi esse esforço que me fez procurar uma pós-gradu- d e audiência e das implicaçocs ideológicas dos meios massivos, ou
ação, na tent:uiV""d de ampliar me us conbecimentos teó ricos. Sabia :tnálises das construçõcs simbólicas no processo da comuniC""J.çáo,
que para avançar não era mais possível ficar só com a prática. m as que não haviam se afirmado como linha de pesquisa. Arualmen-
te , poder-se-ia dizer que os interesses seguem duas grandes te ndên-
cias. Uma, predominame ainda, marcad amente ligada aos int eresses
A pós·graduaçào dos órgãos governamentais, voltada aos problemas do desenvolvimen-
tO regio nal e ancordda nas práticas transferenciais de comunicação. Ou-
tr.! , preocupada com os novos atores sociais, novas tecnologias, com
Abordar separ-.ldamente pesquisa e pós-graduação em comuni·
:lS implicações ideológicas da comunicação e apoiada nos modelos
cação pode causar estranheza, uma vez que são os cu rsos de mestra·
do e d o uto rndo a principal instância de produção cie ntífica nessa dialógicos.
área. Faço-o para caracterizar alguns pontos que me parecem re levan· O lMS - Ins tituto Mc todis ra de Ens ino Superior - manté m, des-
tes c que ralvC"".f. não pudcssem ser evidenciados numa abordagem uni_ de 1978, uma li nha d e pesquisas em comunicação rural , tendo sid o
ficada, como a importância relativa da disciplina no conjunto e a um d os principais pólos produtores de dissertações nessa ;írca nos
1100S 80. lnduída na área de concentração "Co municação Cie ntmca
comparação entre suas preocupações teóricas e as d as dema.is espe-
cializações. e Tecnológica"', objetiva fo rmar "profissionais pesqu isadores interes·
No ano d e 199 1, época em que decidi ingressar numa pós-gra. slu los ( ... ) na disseminação eficiente d e informações tecnológicas
duação em cornunicação, o panor.J.ma era bastante diversificado, ( o municaÇÍ-o empresarial e rural) , d e modo a contribuir para uma
oferecendo opções de cursos em nível de mest:r.tdo que diferiam democratização d os resultados da pesquisa e m ciê ncia e tecno logian
substancialmente em s ua abordagem teórica. Um hrcve resumo de ( :Irdoso: 1988 , p . 129) . Especificamente, a linha de pesquisa desen·
cada um pode ilustrnressa afinnação, além de traçar um quadro. ain- volve o "estudo d o processo de comunicação vo ltado às especialidades
4a que superficial, das principais linhas d e estudo c pesquisa que vi- do meio rur.t1. Comunicaç;10 e difusão de inowções. Comunicação e
nham (e em geral ainda pennaneccm) sendo p rivilegiadas nestcs eXI 'nsão rural. Comunicação e pesquisa agropecuária. A dimensão
"nclocultur-.I.l d a comunicação com o ho mem do campo" (catálogo

.. "
I_sita Araújo

de pós-gr.tduação do lMS: 54) . As outras linhas de pesquisa da área cesa (Porto, 1988: 138-45). Nos anos 70, porém, o curso eSICVC
são Divulgação Cientffica e Comunicação Empresarial. A área de con- forremente marcado pela linha de "Comunicação e Desenvolvimen_
centração "Teoria e Ensinoda Comunicação" é dirigida principalmen- to" . Mas, comando com professores que participavam ativamenre do
te a professores de comunicação que se interessem especialmente debate nacional sobre uma noV"d. ordem internacional de comunica-
pelo "estudo dos fenômenos da comunicação em sociedades depen- ção, sobre a dependência versus imperialismo e que se preocupa-
dentes", e desenvolve duas linhas de pesquisa: "Comunicação, Edu- vam com uma abordagem teórica Que privilegiasse as características
cação e Sociedade", voltada para a forrnaçao metodológica e teórica políticas, sociais e econômicas da América Latina, o mestrddo tentou
dos docentes e a de "Comunicação e Cultura", que "analisa e inter- se posicionar como uma reação às matrizes teóricas hegemônicas, de
preta culturas como sistema de comunicação. Pesquisa fOrmas de co- caráler difusionista. Talvez por isso tenham-se adiantado ao que viria
municação entre subsistemas culturais e fomlas e funções da cultura ocorrer mais tarde com outros cursos, incorporando a dimensão crí-
popular e urbana" (idem : 117). Há aparentemente uma desvincula- tica, ideológica e cultural em alguns estudos sobre comunicação
ção entre comunicação rurdl e cuhura popular, pois esta linha de rural, embora outros se alivessem às preocupações típicas do setor e
pesquisa da época. Que eram as de aperfeiçoar os processos de transferência
de infonnação tecnológica. No seu conjunto, não chegaram a diferir
visa a observação parttclpante das experiências populares, com a coleta (lral
de divulgação da produção cu/tural d"s gnlpoS subaflenlOs. espet;falmeme a dos colegas de outras pós-graduações, no que respeita ao modelo
realizaçãu artistica. asfonllas de lazer, a literatura urllf e escrila. a história básico de comunicação e à busca de sua otimização. Atualmente, o
de ddll. a ação retll/ndicatória, a m(mijes/ação religiosa. Buscar·se-á slgnifi- interesse pela comunicaçdo rural está "em baixa", se tomarmos
caçdo simbólica hltema e extema ao grupo, bem comu as funções sociais da
produção popular ( idem :119).
como indicador o catálogo de dissertações defendidas: a última so-
bre temas rurais data de 1979.
enquanto que a outra visa a otimização dos processos de difusão tec- O Programa de Estudos Pós-graduados em Comunicação e Se·
nológica, isto é, privilegia o pólo emissor. O recéptor, nesse caso, miótica, da PUC de São Paulo, Que data de 1978, privilegia, como o
não é visto como produtor de cultura popular, mas como parâmetro nome indica, a Semiótica,
da eficácia dos processos dirigidos pelo emissor. Difúsão é um con-
coluna dorsal da estrutura curricular. Isto slg'lifica: 11 fn!X!.<tfgaçãusemiõlicil
ceito inapelavelmente unilateral e difusão de inovações remete para é a principal f unte de UI,de sdu geradas as linhas de direcionamento das peso
o modelo desenvolvimentista de Everctt Rogers, ainda que se inscre- quisas (Draga. 1988: 110).
va nele a preocupação com os aspectos ideológicos da comunicação.
Além disso,
O curso de mestrado em comunicação da UnB - Universidade
de BrdSilia - tinha, como linhas prioritárias de pesquisa, as dt: "Políli- Semfólfca t percebl(la como cl~"cla capazde/undamemllra feitura e alld-
.0\

cas de Comunicação", "Comunicação e Cultura" e "Jornalismo Políti- /lse critica du /u"ciullamellto de todo e qualquer proc.essu de linguagem ( ... ).
(idc:m: 111 )
co". A partir do início da década de 80, os temas predominantes
foram os que possibilitaV"am "a análise critica do fenômeno do po- o mestrado não tém despertado a atenção dos interessados em
der, nas instituições, nas práticas e no veículo ", com um enfoque ge- comunicação rural, Que aparentemente desconhecem a validade dos
ralmeme marxista. As teorias da Escola de Frankfurt, a UNESCO, conhecimentos semiótioos para a compreensão dos fenômenos sociais
Matellart e outros teóricos da Dependência na América Latina sáo as que se processam no meio rum!.
matrizes preferenciais dessa linha de estudos. São incorporados, en- A UN ICAMP - Universidade Estadual de Campinas (SP) - im-
rre outros. autores btino-americanos (Barbero, Paulo Freire, Candi- plantara recentemente um Curso de Pós-graduação em MuJtimeios,
ni, Beltrán, etc) , a correnle ultrafrankfurtiana de Baudrillard , que se propunha a "formar e Qualificar pessoal para a utilização de
teóricos ingleses da vertente dos estudos culturais, além de abrir es- recursos de mu ltimeios na pesquisa de Artes e Comunicações" (fo-
paço para a Análise de Discursos, pela abordagem semiológica fTan- lheto do mestrado) . Suas áreas de pesquisa privilegiam a relação dos

.. ..
I_sita Araújo

de pós-gr.tduação do lMS: 54) . As outras linhas de pesquisa da área cesa (Porto, 1988: 138-45). Nos anos 70, porém, o curso eSICVC
são Divulgação Cientffica e Comunicação Empresarial. A área de con- forremente marcado pela linha de "Comunicação e Desenvolvimen_
centração "Teoria e Ensinoda Comunicação" é dirigida principalmen- to" . Mas, comando com professores que participavam ativamenre do
te a professores de comunicação que se interessem especialmente debate nacional sobre uma noV"d. ordem internacional de comunica-
pelo "estudo dos fenômenos da comunicação em sociedades depen- ção, sobre a dependência versus imperialismo e que se preocupa-
dentes", e desenvolve duas linhas de pesquisa: "Comunicação, Edu- vam com uma abordagem teórica Que privilegiasse as características
cação e Sociedade", voltada para a forrnaçao metodológica e teórica políticas, sociais e econômicas da América Latina, o mestrddo tentou
dos docentes e a de "Comunicação e Cultura", que "analisa e inter- se posicionar como uma reação às matrizes teóricas hegemônicas, de
preta culturas como sistema de comunicação. Pesquisa fOrmas de co- caráler difusionista. Talvez por isso tenham-se adiantado ao que viria
municação entre subsistemas culturais e fomlas e funções da cultura ocorrer mais tarde com outros cursos, incorporando a dimensão crí-
popular e urbana" (idem : 117). Há aparentemente uma desvincula- tica, ideológica e cultural em alguns estudos sobre comunicação
ção entre comunicação rurdl e cuhura popular, pois esta linha de rural, embora outros se alivessem às preocupações típicas do setor e
pesquisa da época. Que eram as de aperfeiçoar os processos de transferência
de infonnação tecnológica. No seu conjunto, não chegaram a diferir
visa a observação parttclpante das experiências populares, com a coleta (lral
de divulgação da produção cu/tural d"s gnlpoS subaflenlOs. espet;falmeme a dos colegas de outras pós-graduações, no que respeita ao modelo
realizaçãu artistica. asfonllas de lazer, a literatura urllf e escrila. a história básico de comunicação e à busca de sua otimização. Atualmente, o
de ddll. a ação retll/ndicatória, a m(mijes/ação religiosa. Buscar·se-á slgnifi- interesse pela comunicaçdo rural está "em baixa", se tomarmos
caçdo simbólica hltema e extema ao grupo, bem comu as funções sociais da
produção popular ( idem :119).
como indicador o catálogo de dissertações defendidas: a última so-
bre temas rurais data de 1979.
enquanto que a outra visa a otimização dos processos de difusão tec- O Programa de Estudos Pós-graduados em Comunicação e Se·
nológica, isto é, privilegia o pólo emissor. O recéptor, nesse caso, miótica, da PUC de São Paulo, Que data de 1978, privilegia, como o
não é visto como produtor de cultura popular, mas como parâmetro nome indica, a Semiótica,
da eficácia dos processos dirigidos pelo emissor. Difúsão é um con-
coluna dorsal da estrutura curricular. Isto slg'lifica: 11 fn!X!.<tfgaçãusemiõlicil
ceito inapelavelmente unilateral e difusão de inovações remete para é a principal f unte de UI,de sdu geradas as linhas de direcionamento das peso
o modelo desenvolvimentista de Everctt Rogers, ainda que se inscre- quisas (Draga. 1988: 110).
va nele a preocupação com os aspectos ideológicos da comunicação.
Além disso,
O curso de mestrado em comunicação da UnB - Universidade
de BrdSilia - tinha, como linhas prioritárias de pesquisa, as dt: "Políli- Semfólfca t percebl(la como cl~"cla capazde/undamemllra feitura e alld-
.0\

cas de Comunicação", "Comunicação e Cultura" e "Jornalismo Políti- /lse critica du /u"ciullamellto de todo e qualquer proc.essu de linguagem ( ... ).
(idc:m: 111 )
co". A partir do início da década de 80, os temas predominantes
foram os que possibilitaV"am "a análise critica do fenômeno do po- o mestrado não tém despertado a atenção dos interessados em
der, nas instituições, nas práticas e no veículo ", com um enfoque ge- comunicação rural, Que aparentemente desconhecem a validade dos
ralmeme marxista. As teorias da Escola de Frankfurt, a UNESCO, conhecimentos semiótioos para a compreensão dos fenômenos sociais
Matellart e outros teóricos da Dependência na América Latina sáo as que se processam no meio rum!.
matrizes preferenciais dessa linha de estudos. São incorporados, en- A UN ICAMP - Universidade Estadual de Campinas (SP) - im-
rre outros. autores btino-americanos (Barbero, Paulo Freire, Candi- plantara recentemente um Curso de Pós-graduação em MuJtimeios,
ni, Beltrán, etc) , a correnle ultrafrankfurtiana de Baudrillard , que se propunha a "formar e Qualificar pessoal para a utilização de
teóricos ingleses da vertente dos estudos culturais, além de abrir es- recursos de mu ltimeios na pesquisa de Artes e Comunicações" (fo-
paço para a Análise de Discursos, pela abordagem semiológica fTan- lheto do mestrado) . Suas áreas de pesquisa privilegiam a relação dos

.. ..
I nn /la Arn,ijo

multimcios com a ciência, processos de significação, comuniclção e tal no Orasil: a quamidade das mensagens e o seu significado em rc·
metodologia de pesquisa, além da abordagem de concepção e realiza- lação ao desenvolvimento sociar, de 1983, que não fugiam da matriz
çiio. Antropologia visual, produção simbólica e imaginário, a conver- paradigmática em vigor. Atualmente, algumas pesquisas e disserta-
gência da ane, ciência e tecnologia, fotografia, registros audiovisuais ções vêm sendo desenvolvidas na linha dos estudos de recepção,
da cuhura popular e tecnologias de comunicaçiio aplicadas são alguns dand()..se ênfase aos processos sociais e culturais de mediação. Em
temas contemplados nas lin has de pesquisa. O program,a procura comunicação rural, no âmbito das pós-graduações, é talvez o esforço
"criar condiçães para a pesquisa e o experimento de uma mctodol().. mais significativo para descartar a já clássica dicoromia entre os mode-
gia autônoma dos mullimeios, tendo como preocupação o seu de- los tr.losferenciais e d ialógicos. O programa de pós-graduação da USP,
sempenho na sociedade brasileira" (idem) . implantado em 1972 (mestrado) e 1980 (doutorado) , apresenta uma
O mestrado da UFBA - Universidade Fedeml da Oahia - era o grnnde diversid ade d e linhas de pesquisa e abordagens l'e6rito-me-
mais recenle de todos, implantado em 1990. Seu programa caracteri- tooológicas (Lopes, 1990: 67·76), sendo desnecessário listá-Ias.
z..'l-se como sendo de Pós-gr.lduação em Comunicação e Cu ltura Mencionaria, no entanto . pcla importância que poderia ter para os
Conremporlneas e busca uma abordagem interdisciplinar, como estudos da comunicaçiio rural, a influência gramsciana nos estudos
convém ao seu objeto de estudo. I'or outro lado, entende que optar voltados para a cu ltur.! popu lar, que procuram desenvolver metod()..
por "comu nicação e cultur'd" não é justapor dois campos de proble- lagias qualitativas e a rece nte linha direcionada para os esrudos de
mas, mas trabalhar sobre uma unidade, recepção, que vem incorporando os modelos e quadros conceituais
o nde o ",,;>rO ~ dado pela romp~eensdo de q.,e, 'lU rolllemporalleldlltfe lU tá elll de autores latino-americanos, cntre outros j esús Barhero, Nestor
I1lgur lima nova cuffura e qlle esta clllllI~a pode ser enlendilfll d e modo /ecl/II' Candini, Jorge González e Guillermo Orozco, que (,r'dZem à cena a
do tlpellas lellQ/ldQ-seem COllfa SI.1U essencial enlace com as "ovas/ormas, fi,, ·
vida colidiana, o consumo cuhur:.tI, as mediações institucio nais, as arti-
8 "08e"s e procl'!iSOS da comlmlcllçtJo.
culações entre os movimcntos sociais e as pr:âlicas de comunicação e
Ou se ja, seu objeto compreende "a culturA contempor.inea na- o utras instâncias até então re legadas. Influenciando rortemente seus
quilo que nela se explica pela presença abrangeme dos meios de c().. trabalhos estão não SÓ as teses gramscianas, como O conjunto de
municação" (manual de info rmação ao candidato de 1994). O idéias conhecido por Estudos Cu ltur'dis, originado no Comemporacy
programa d ispõe de duas linhas de pesquisa: "Comunicação, cu ltu- Cu lrural Srudics ar Binningham .
ra , poder e sociabilidade" e "Experiência e expressão", ambas bas- A UFRJ - Universidade Federal do Rio de j aneiro - dcsenvolve
tante abrangentes. um Programa de Pós-graduaçiio em Comunicação e Cu ltura, com o
O mestrado em comunicação da Escola de Comunicação e curso de Teorias da Comunicação e da Cultura nos níveis de Mestr'd-
AMes da USP - Universidade de São Pau lo - te\re, e m tempos p ;lSsa- do (desde 1972) e Doutorado (criado em 1983) . "O pressupostO fun-
do s - década de 70 - , uma linha d e estudos de comunicação ruraJ , damentai das atividades do programa é o de que a comunicação não
que produziu uma certa quantidade de dissertações em tomo dos chega a constituir um projeto especifico de uma ciência espedfica,
processos de difusão tecno lógica, adicionando, a partir d os anos 80, mas, ao contrário, constitui a própria força estruturante do campo
o enfoque de suas relações com a mudança social. Num artigo de humanístico" (d'Amaral, 1988: 122). Essa visão remete para o concei·
1988, onde analisa o "novo pcrfil da comunicação rural brasileira", tO que se afirmou como eixo do progr'dma, que é o da Iransdiscipli-
Bueno chama atenção para sete dissertações que, a seu ver, aponta- naridade, percebida como indispensável para compreender a
vam para um revigoramento da produção de conhecimento sobre a complexidade dos estudos da Comunicação. As quatro li nhas de pes-
Comunicação Rural. As duas mais recemes eram "O papel da comu- quisa : "Comunicação e Sociedade", "Comunicação e Discurso" (hoje
nicação interpessoal na difusão de inovações : o caso dos produtores Comunicação e Sistem,lS Simbólicos), "Comunicação e Sujeito" e
de soja no município de Cambé\ de 1982, e "A função do jornal ru- "Comunicação e Sistemas de Pensamento", visam

100 101
I nn /la Arn,ijo

multimcios com a ciência, processos de significação, comuniclção e tal no Orasil: a quamidade das mensagens e o seu significado em rc·
metodologia de pesquisa, além da abordagem de concepção e realiza- lação ao desenvolvimento sociar, de 1983, que não fugiam da matriz
çiio. Antropologia visual, produção simbólica e imaginário, a conver- paradigmática em vigor. Atualmente, algumas pesquisas e disserta-
gência da ane, ciência e tecnologia, fotografia, registros audiovisuais ções vêm sendo desenvolvidas na linha dos estudos de recepção,
da cuhura popular e tecnologias de comunicaçiio aplicadas são alguns dand()..se ênfase aos processos sociais e culturais de mediação. Em
temas contemplados nas lin has de pesquisa. O program,a procura comunicação rural, no âmbito das pós-graduações, é talvez o esforço
"criar condiçães para a pesquisa e o experimento de uma mctodol().. mais significativo para descartar a já clássica dicoromia entre os mode-
gia autônoma dos mullimeios, tendo como preocupação o seu de- los tr.losferenciais e d ialógicos. O programa de pós-graduação da USP,
sempenho na sociedade brasileira" (idem) . implantado em 1972 (mestrado) e 1980 (doutorado) , apresenta uma
O mestrado da UFBA - Universidade Fedeml da Oahia - era o grnnde diversid ade d e linhas de pesquisa e abordagens l'e6rito-me-
mais recenle de todos, implantado em 1990. Seu programa caracteri- tooológicas (Lopes, 1990: 67·76), sendo desnecessário listá-Ias.
z..'l-se como sendo de Pós-gr.lduação em Comunicação e Cu ltura Mencionaria, no entanto . pcla importância que poderia ter para os
Conremporlneas e busca uma abordagem interdisciplinar, como estudos da comunicaçiio rural, a influência gramsciana nos estudos
convém ao seu objeto de estudo. I'or outro lado, entende que optar voltados para a cu ltur.! popu lar, que procuram desenvolver metod()..
por "comu nicação e cultur'd" não é justapor dois campos de proble- lagias qualitativas e a rece nte linha direcionada para os esrudos de
mas, mas trabalhar sobre uma unidade, recepção, que vem incorporando os modelos e quadros conceituais
o nde o ",,;>rO ~ dado pela romp~eensdo de q.,e, 'lU rolllemporalleldlltfe lU tá elll de autores latino-americanos, cntre outros j esús Barhero, Nestor
I1lgur lima nova cuffura e qlle esta clllllI~a pode ser enlendilfll d e modo /ecl/II' Candini, Jorge González e Guillermo Orozco, que (,r'dZem à cena a
do tlpellas lellQ/ldQ-seem COllfa SI.1U essencial enlace com as "ovas/ormas, fi,, ·
vida colidiana, o consumo cuhur:.tI, as mediações institucio nais, as arti-
8 "08e"s e procl'!iSOS da comlmlcllçtJo.
culações entre os movimcntos sociais e as pr:âlicas de comunicação e
Ou se ja, seu objeto compreende "a culturA contempor.inea na- o utras instâncias até então re legadas. Influenciando rortemente seus
quilo que nela se explica pela presença abrangeme dos meios de c().. trabalhos estão não SÓ as teses gramscianas, como O conjunto de
municação" (manual de info rmação ao candidato de 1994). O idéias conhecido por Estudos Cu ltur'dis, originado no Comemporacy
programa d ispõe de duas linhas de pesquisa: "Comunicação, cu ltu- Cu lrural Srudics ar Binningham .
ra , poder e sociabilidade" e "Experiência e expressão", ambas bas- A UFRJ - Universidade Federal do Rio de j aneiro - dcsenvolve
tante abrangentes. um Programa de Pós-graduaçiio em Comunicação e Cu ltura, com o
O mestrado em comunicação da Escola de Comunicação e curso de Teorias da Comunicação e da Cultura nos níveis de Mestr'd-
AMes da USP - Universidade de São Pau lo - te\re, e m tempos p ;lSsa- do (desde 1972) e Doutorado (criado em 1983) . "O pressupostO fun-
do s - década de 70 - , uma linha d e estudos de comunicação ruraJ , damentai das atividades do programa é o de que a comunicação não
que produziu uma certa quantidade de dissertações em tomo dos chega a constituir um projeto especifico de uma ciência espedfica,
processos de difusão tecno lógica, adicionando, a partir d os anos 80, mas, ao contrário, constitui a própria força estruturante do campo
o enfoque de suas relações com a mudança social. Num artigo de humanístico" (d'Amaral, 1988: 122). Essa visão remete para o concei·
1988, onde analisa o "novo pcrfil da comunicação rural brasileira", tO que se afirmou como eixo do progr'dma, que é o da Iransdiscipli-
Bueno chama atenção para sete dissertações que, a seu ver, aponta- naridade, percebida como indispensável para compreender a
vam para um revigoramento da produção de conhecimento sobre a complexidade dos estudos da Comunicação. As quatro li nhas de pes-
Comunicação Rural. As duas mais recemes eram "O papel da comu- quisa : "Comunicação e Sociedade", "Comunicação e Discurso" (hoje
nicação interpessoal na difusão de inovações : o caso dos produtores Comunicação e Sistem,lS Simbólicos), "Comunicação e Sujeito" e
de soja no município de Cambé\ de 1982, e "A função do jornal ru- "Comunicação e Sistemas de Pensamento", visam

100 101
trabalhar tcorlcame>,te as eslrulllms SQCÍais, psíquicas e as lógicas de produç.Jo gia, e tnografia, lingüística, semiologia, psicanálise, entre o utros. Não
dos atuais "wdQS de prNerIÇa do SUjeilO no munda. A. lais lirrbas jntet1!S$Qm os t emos aqui apenas o problema da dt."Svinculaç:io conhecimento prá-
sl$lemas d e per,same,uo q"e col/fluíram para a presente mtJdenlldade; a pm.
dllfão do 1'('al e ben.s simbólicos pelas i,ullÍstrias do conhecimelllO; as n/llla, rico/conhetimento teórico, fe nômeno corriqueiro e já sobe jamente
~ .IOS sistemas ped~gfcas: as .-epercusWes das culturas poPlllores e enfOC"Ado, sob v.irias abordage ns. É na produção do con hecimento
arcaicas na cMade con(r.'mpord./ea; a ,wtllre:«l du 'W/lU espaço-tl!1l1/XJ urba. acad êmico , mesmo, que se observ'd essa dificuldade e m absorver e
no; as "OI'as teCIJ(;logl(ls (Ia imagf'11l; os modas de pmdllfiiu ecirclllaf<W (Iw
discur$O$ $i)CiaLf; a pmd"fâo da subjetividade; o COlidlan" sob a égl(le (Ia produzir novos modos de pensar. Avançou·se, sim , quando foi incor-
IIOlla soclalf::aç40 ()JH!rada pelos meios de comunicação, a quesldo da ética porada a preocupação com os aspectos ideo ló gicos da comunicação:
social/medima, «(olhc lo dc aprcsemaç:io do Progr.tma) :15 abordagens iniciais, apolíticas e a·históric.lS, passaram a conviver

Trabalhando com psicanálise, filosofia, lingüística, semiologia, com aquelas que comemplaV"dlll vari:ívcis relacionadas aos interesses
sociologia, antropologia e Outras disciplinas, mestrado e domorado políticos, econômicos e sociais, mais espccifiC".une nte das classes do-
trazem p:tr:l a comunicação os paradigmas respectivos, provocando minantes. Incorporou'se, no âmbil'O da reflexão e no de uma Teoria
uma reaniculaçáo dos modos de pensar e perceber o fenômeno co- Geral, alguns aspectos do paradigma conflitu al, mas náo se abando-
munic:uivo . Apesar disso, não costuma atrair estudantes inleressa- no u o positivista, na sua expressão mais funcionalista , no âmbito dos
dos na comunicaçáo rural (poucos na comunicaçáo popular) , o que modelos.
é compreensível, na medida em que estes buscam temas aparenle- Poder-se-ia levantar algumas hipóteses sobre tal imobilismo
mente mais vi nculad os à problemática rural, além d e uma aborda- teÓrico. A primeira delas seria o fato de que a maioria absoluta das
gem pragmática, postura que ternlina por alimentar o ciclo d e pessoas interessadas e m desenvolver estudos sobre a Comunicação
produção-reprodução dos paradigmas c modelos correntes na práti- Rural está vinculada a uma instituição que tem a necessidade de se
ca e na pesquisa. Foi teorando romper esse ciclo que escolhi o curso comunicar "bem " com os camponeses panl cumprir seus objetivos,
da ECOIl1FRj, com uma abordagem eminentemente teórica e rrans- quase sempre de divulgação ou transfen!ncia de u m d eterminad o
disciplinar, buscando um conhecimento que a pdtica e as tt!orias conhecimento. Estaríamos, então, diante de uma inexorável razão
tradicio nais específicas da comunicação não pareciam poder ofere- funcional. Indo mais além, essas pessoas seriam beneficiárias de um
cer. De tal escolha resultou o presente livro. programa de aperfeiçoamento de pessoal , e não de formação de pes-
quisadores. E aperfeiçoamento d e pessoal para quê? Para conferir
mais e ficácia à implantação o u gestão de modelos de intervenção s0-
Algumas reflCXÓl!s cial no me io ruraL As principais coordenadas para o d ese nvolvimen-
to de uma teoria e m Comunic lção Rur.l! seriam fornecidas não pelo
COn junto da d isciplina, nas suas v:írias dimensõcs, mas pelas exigên-
Desse resumo das pós-graduações em comunicação e me rgem
cias e interesses próprios de outros campos, como o agrícola, o d a
algumas constataçõcs e ques tões. Prime iro, a de que a comunicação
saúde e o econômico. A estreita correlação com o tema da tecnologia
rural é pensada de forma muito cOmpartime ntalizada. sem nenhuma
corrobora certamente a tendência a prioriz.:u o e nfoque dos meios,
interação com outros campos da atividade comunicativa, nem mes-
fazendo com Que se confunda evolução tecnológica dos meio s com
mo O da comunicação popular, além de vincular-se predominante-
evolução da Comunicação Rural. Emble mático dessa postura é um
mente à questãO agrícola, como se esta fo sse a única dimensão d a
dos trabalhos apresentados no I Seminário de Comunicação de Viço-
sociedade camponesa. Segu ndo, d e que nâo conseguiu beneficiar-se
sa (1994), onde podemos ler, num contexto de abordagem do "gran·
dos avanços teóricos da disci plina, permanecendo atrelada a velhos
de desenvolvimento d a comunicação rural de 1980 a 1989":
modelos. Não só as teorias da comunicação avançardm em direção:\
adequação à sociedade latino-americana, como incorporar.IJll contri- i bom lembrar. ..o c"talllo. que as prl"clpias bdslcos de tra"smissão de co'
IIhedmenlus ndo foram alterados. mas tljJetWS SlIafurma e (IS téctJfcas ~ra
buições das disciplinas de d o mínios conexos - sociologia. antropolo- se chegar ao receptor. S/ldl!s ai" da st'lu utilizados em I't'tm lUeS téc,,'cas. ,.,m,

102 lO'
trabalhar tcorlcame>,te as eslrulllms SQCÍais, psíquicas e as lógicas de produç.Jo gia, e tnografia, lingüística, semiologia, psicanálise, entre o utros. Não
dos atuais "wdQS de prNerIÇa do SUjeilO no munda. A. lais lirrbas jntet1!S$Qm os t emos aqui apenas o problema da dt."Svinculaç:io conhecimento prá-
sl$lemas d e per,same,uo q"e col/fluíram para a presente mtJdenlldade; a pm.
dllfão do 1'('al e ben.s simbólicos pelas i,ullÍstrias do conhecimelllO; as n/llla, rico/conhetimento teórico, fe nômeno corriqueiro e já sobe jamente
~ .IOS sistemas ped~gfcas: as .-epercusWes das culturas poPlllores e enfOC"Ado, sob v.irias abordage ns. É na produção do con hecimento
arcaicas na cMade con(r.'mpord./ea; a ,wtllre:«l du 'W/lU espaço-tl!1l1/XJ urba. acad êmico , mesmo, que se observ'd essa dificuldade e m absorver e
no; as "OI'as teCIJ(;logl(ls (Ia imagf'11l; os modas de pmdllfiiu ecirclllaf<W (Iw
discur$O$ $i)CiaLf; a pmd"fâo da subjetividade; o COlidlan" sob a égl(le (Ia produzir novos modos de pensar. Avançou·se, sim , quando foi incor-
IIOlla soclalf::aç40 ()JH!rada pelos meios de comunicação, a quesldo da ética porada a preocupação com os aspectos ideo ló gicos da comunicação:
social/medima, «(olhc lo dc aprcsemaç:io do Progr.tma) :15 abordagens iniciais, apolíticas e a·históric.lS, passaram a conviver

Trabalhando com psicanálise, filosofia, lingüística, semiologia, com aquelas que comemplaV"dlll vari:ívcis relacionadas aos interesses
sociologia, antropologia e Outras disciplinas, mestrado e domorado políticos, econômicos e sociais, mais espccifiC".une nte das classes do-
trazem p:tr:l a comunicação os paradigmas respectivos, provocando minantes. Incorporou'se, no âmbil'O da reflexão e no de uma Teoria
uma reaniculaçáo dos modos de pensar e perceber o fenômeno co- Geral, alguns aspectos do paradigma conflitu al, mas náo se abando-
munic:uivo . Apesar disso, não costuma atrair estudantes inleressa- no u o positivista, na sua expressão mais funcionalista , no âmbito dos
dos na comunicaçáo rural (poucos na comunicaçáo popular) , o que modelos.
é compreensível, na medida em que estes buscam temas aparenle- Poder-se-ia levantar algumas hipóteses sobre tal imobilismo
mente mais vi nculad os à problemática rural, além d e uma aborda- teÓrico. A primeira delas seria o fato de que a maioria absoluta das
gem pragmática, postura que ternlina por alimentar o ciclo d e pessoas interessadas e m desenvolver estudos sobre a Comunicação
produção-reprodução dos paradigmas c modelos correntes na práti- Rural está vinculada a uma instituição que tem a necessidade de se
ca e na pesquisa. Foi teorando romper esse ciclo que escolhi o curso comunicar "bem " com os camponeses panl cumprir seus objetivos,
da ECOIl1FRj, com uma abordagem eminentemente teórica e rrans- quase sempre de divulgação ou transfen!ncia de u m d eterminad o
disciplinar, buscando um conhecimento que a pdtica e as tt!orias conhecimento. Estaríamos, então, diante de uma inexorável razão
tradicio nais específicas da comunicação não pareciam poder ofere- funcional. Indo mais além, essas pessoas seriam beneficiárias de um
cer. De tal escolha resultou o presente livro. programa de aperfeiçoamento de pessoal , e não de formação de pes-
quisadores. E aperfeiçoamento d e pessoal para quê? Para conferir
mais e ficácia à implantação o u gestão de modelos de intervenção s0-
Algumas reflCXÓl!s cial no me io ruraL As principais coordenadas para o d ese nvolvimen-
to de uma teoria e m Comunic lção Rur.l! seriam fornecidas não pelo
COn junto da d isciplina, nas suas v:írias dimensõcs, mas pelas exigên-
Desse resumo das pós-graduações em comunicação e me rgem
cias e interesses próprios de outros campos, como o agrícola, o d a
algumas constataçõcs e ques tões. Prime iro, a de que a comunicação
saúde e o econômico. A estreita correlação com o tema da tecnologia
rural é pensada de forma muito cOmpartime ntalizada. sem nenhuma
corrobora certamente a tendência a prioriz.:u o e nfoque dos meios,
interação com outros campos da atividade comunicativa, nem mes-
fazendo com Que se confunda evolução tecnológica dos meio s com
mo O da comunicação popular, além de vincular-se predominante-
evolução da Comunicação Rural. Emble mático dessa postura é um
mente à questãO agrícola, como se esta fo sse a única dimensão d a
dos trabalhos apresentados no I Seminário de Comunicação de Viço-
sociedade camponesa. Segu ndo, d e que nâo conseguiu beneficiar-se
sa (1994), onde podemos ler, num contexto de abordagem do "gran·
dos avanços teóricos da disci plina, permanecendo atrelada a velhos
de desenvolvimento d a comunicação rural de 1980 a 1989":
modelos. Não só as teorias da comunicação avançardm em direção:\
adequação à sociedade latino-americana, como incorporar.IJll contri- i bom lembrar. ..o c"talllo. que as prl"clpias bdslcos de tra"smissão de co'
IIhedmenlus ndo foram alterados. mas tljJetWS SlIafurma e (IS téctJfcas ~ra
buições das disciplinas de d o mínios conexos - sociologia. antropolo- se chegar ao receptor. S/ldl!s ai" da st'lu utilizados em I't'tm lUeS téc,,'cas. ,.,m,

102 lO'
Ine$llu Ara,ljo

" fõcs grupals de flgrlcllltorn, ap.!/Ias COIII lima t'allfagem lte q .mlfdade em
lermos d e fotografia 0 11 de gráficos e quadros atualmellfe milito M m elabora. dão sustentação a essa venenre d e estudos; por e nquanlo, é neces..d.
llos em sistema de comp"taçâo gráfica; l ra'lS/JanJ"cias para retroprojetor rio destacar que as noções de linguage m e do seu papel nas rclll,Ocs
oom ,,"alldalle/au r, 011 em relmfUes 110 campo, Q velbodl/)u", serladQj)rudll' comunicativas são muito diversas daquelas pressupostas no pllrJdlgma
tido mam,almem e CQm alltalizaçâo em sl/afarma grdfica. (Sa flll>:i: 9 7)
info nnacio naJ e talvez seja este o di.ferendal que pennita supcr;tr os
Esse quadro , que com algumas exceções caracteriza-se pelo bai· modelos que inspiram hoje a prática de comunicação rural.
xo nível de investime nto crítico nos projetos de pesquisa, com a con· Ao conrr.írio d o que geralmeme ocorre nos trabalhos acadêml·
seqüente ausência de renovaçÃo de idé ias e produção de um cos, quando se opta por uma proble mática e mpírica que permira
conhecime nto novo e com a legiti mação do já estabelecido, roi o que operar satisfamriamente os conceitos d e uma detenninada tco ria,
se me afiguro u, ao decidir faze r uma pós·graduação . percorri o caminho inverso : com uma proble má tica empírica nas
mãos, tive acesso e o ptei por uma teoria que me pareceu ampliar for-
midavelmente os limites até e ntão est'reitos de exp licação dos fen 6-
o p esquisador e seu objeto encontram a su a teoria menos que me interessavllm . A Semio logia agregava naturalmente
conhecimentos de outras disci plin:1S, tr:lbalhav:.l a partir de um:l
perspec tiva histórica e cu ltur:d , conferia imponânda à pragmática
LL'vei para o curso de mestr.tdo um objeto de pesquisa pré-confi-
das relações comunicativas e pania li rígida espinha dorsal do mo<le·
gura.do : quc ri:l. cSlUdar os processos de reconhecime mo das me nsa·
lo info rruacional, ao instaurar a pluralidade de instâncias produmrJ.s
gens entre os camponeses, sob o enfoque da transd isciplinaridade.
O conceito de "recon heci mento", utilizado na pesquisa empírica. pa·
de sentido.
recia-me suficie me me me amplo para acolher todas as variá\"(!is - amro- Confrontada com o novo quadro conceitual , capitaneado pelas
pológicas, socio lógicas, psicológicas ou lingüísticas - que pudessem noções de "enunciação", "discu rso" e "pro<lução de sentido", que se
interferir na recepçiio d os materiais de comunicaç-do que as inSlitui· contrapunham à de "comunicação", fui pcrccbendo que, antes de es·
ções e ndereçavam a seu público e me davam a ilusão de ler avançlldo tudar os processos d e recepção - agora vislos como de "efeilos de
sentido" - teri:l que compreende r bem me lho r as implicações da
muitos anos·luz e m relação ao modo d e pensar corrente no me u uni-
construção d iscursiva d os núcleos institucionais. Em o Ul ras pala-
verso d e ação. As coisas não eram bem assim e logo descobri que
continuava presa ao velho paradigma. Já havia, porém , c riado ple nas vras, só seria produtivO abordar os e feilos de sentido quando com·
condições inte lectuais para razer a trans ição para um ourro refe re n · pree ndesse todas as inslâncias postas e m jogo pelos núcleos que se
cial teórico, cuja poss ibilidade me foi sendo desvelada na seqüência pre te ndem produlores de se mido .
de cursos o rerecidos de ntro da linha de pesquisas "Comunicação e Mas. se por um lado sabia que ainda havia muito o que estudar
Discu rso", mais especificamente pelo viés da Semiologia . sobre os processos de produção discursiva, por o utro tinha a convic·
ção de que o se ntido se produz efetivame nte em recepção , is[o é , no
A Semiologia pr:lticlda na ECO/llFR) estuda os fe nôme nos sociais
como fe nômenos de produção de sentido. Não bUSCA, poré m, at ri· consumo textual e que este é o ângu lo sobre o quaJ menos conhed·
buir um sentido aos discursos sociais , mas conhecer os mecanismos mento foi produzido . Tentei, e ntão, açambarcar num SÓ projeto de
pelos quais se põe em jogo um deternlinado processo d e produção e pesquisa todas as variáveis que p oderia m integrar um processo de
produção do sentido no meio rural , da produção ao consumo dis-
de efeitos de semido. Para essa semio logia, que confere relevo à no-
cursivo.
ção de "clluncia(; iio" , o mais importante é o disc urso, que se cons trói
Era um projeto excessivamente ambicioso. Mas o que me fez
e m inte ração social c sempre numa perspectiva diacrônica. Decor-
desistir foi perceber os riscos que comport:lva de retorno ao velho
rê ncia disso é o privilegiamenlo da AnáJise de Discursos como ins·
Inlll1entO melOdo lógico, e mbora não exclua outras possibilidades. paradigma, na medida em que levaria a confrontar o scmldo prelclt·
O capÍllllo seguinte será d edicado ao detaJhamemo das teorias que dido com O sentido produzido , o u seja, tr.lbal har nOV:UlleIllC - alnclu

lO' 10.
Ine$llu Ara,ljo

" fõcs grupals de flgrlcllltorn, ap.!/Ias COIII lima t'allfagem lte q .mlfdade em
lermos d e fotografia 0 11 de gráficos e quadros atualmellfe milito M m elabora. dão sustentação a essa venenre d e estudos; por e nquanlo, é neces..d.
llos em sistema de comp"taçâo gráfica; l ra'lS/JanJ"cias para retroprojetor rio destacar que as noções de linguage m e do seu papel nas rclll,Ocs
oom ,,"alldalle/au r, 011 em relmfUes 110 campo, Q velbodl/)u", serladQj)rudll' comunicativas são muito diversas daquelas pressupostas no pllrJdlgma
tido mam,almem e CQm alltalizaçâo em sl/afarma grdfica. (Sa flll>:i: 9 7)
info nnacio naJ e talvez seja este o di.ferendal que pennita supcr;tr os
Esse quadro , que com algumas exceções caracteriza-se pelo bai· modelos que inspiram hoje a prática de comunicação rural.
xo nível de investime nto crítico nos projetos de pesquisa, com a con· Ao conrr.írio d o que geralmeme ocorre nos trabalhos acadêml·
seqüente ausência de renovaçÃo de idé ias e produção de um cos, quando se opta por uma proble mática e mpírica que permira
conhecime nto novo e com a legiti mação do já estabelecido, roi o que operar satisfamriamente os conceitos d e uma detenninada tco ria,
se me afiguro u, ao decidir faze r uma pós·graduação . percorri o caminho inverso : com uma proble má tica empírica nas
mãos, tive acesso e o ptei por uma teoria que me pareceu ampliar for-
midavelmente os limites até e ntão est'reitos de exp licação dos fen 6-
o p esquisador e seu objeto encontram a su a teoria menos que me interessavllm . A Semio logia agregava naturalmente
conhecimentos de outras disci plin:1S, tr:lbalhav:.l a partir de um:l
perspec tiva histórica e cu ltur:d , conferia imponânda à pragmática
LL'vei para o curso de mestr.tdo um objeto de pesquisa pré-confi-
das relações comunicativas e pania li rígida espinha dorsal do mo<le·
gura.do : quc ri:l. cSlUdar os processos de reconhecime mo das me nsa·
lo info rruacional, ao instaurar a pluralidade de instâncias produmrJ.s
gens entre os camponeses, sob o enfoque da transd isciplinaridade.
O conceito de "recon heci mento", utilizado na pesquisa empírica. pa·
de sentido.
recia-me suficie me me me amplo para acolher todas as variá\"(!is - amro- Confrontada com o novo quadro conceitual , capitaneado pelas
pológicas, socio lógicas, psicológicas ou lingüísticas - que pudessem noções de "enunciação", "discu rso" e "pro<lução de sentido", que se
interferir na recepçiio d os materiais de comunicaç-do que as inSlitui· contrapunham à de "comunicação", fui pcrccbendo que, antes de es·
ções e ndereçavam a seu público e me davam a ilusão de ler avançlldo tudar os processos d e recepção - agora vislos como de "efeilos de
sentido" - teri:l que compreende r bem me lho r as implicações da
muitos anos·luz e m relação ao modo d e pensar corrente no me u uni-
construção d iscursiva d os núcleos institucionais. Em o Ul ras pala-
verso d e ação. As coisas não eram bem assim e logo descobri que
continuava presa ao velho paradigma. Já havia, porém , c riado ple nas vras, só seria produtivO abordar os e feilos de sentido quando com·
condições inte lectuais para razer a trans ição para um ourro refe re n · pree ndesse todas as inslâncias postas e m jogo pelos núcleos que se
cial teórico, cuja poss ibilidade me foi sendo desvelada na seqüência pre te ndem produlores de se mido .
de cursos o rerecidos de ntro da linha de pesquisas "Comunicação e Mas. se por um lado sabia que ainda havia muito o que estudar
Discu rso", mais especificamente pelo viés da Semiologia . sobre os processos de produção discursiva, por o utro tinha a convic·
ção de que o se ntido se produz efetivame nte em recepção , is[o é , no
A Semiologia pr:lticlda na ECO/llFR) estuda os fe nôme nos sociais
como fe nômenos de produção de sentido. Não bUSCA, poré m, at ri· consumo textual e que este é o ângu lo sobre o quaJ menos conhed·
buir um sentido aos discursos sociais , mas conhecer os mecanismos mento foi produzido . Tentei, e ntão, açambarcar num SÓ projeto de
pelos quais se põe em jogo um deternlinado processo d e produção e pesquisa todas as variáveis que p oderia m integrar um processo de
produção do sentido no meio rural , da produção ao consumo dis-
de efeitos de semido. Para essa semio logia, que confere relevo à no-
cursivo.
ção de "clluncia(; iio" , o mais importante é o disc urso, que se cons trói
Era um projeto excessivamente ambicioso. Mas o que me fez
e m inte ração social c sempre numa perspectiva diacrônica. Decor-
desistir foi perceber os riscos que comport:lva de retorno ao velho
rê ncia disso é o privilegiamenlo da AnáJise de Discursos como ins·
Inlll1entO melOdo lógico, e mbora não exclua outras possibilidades. paradigma, na medida em que levaria a confrontar o scmldo prelclt·
O capÍllllo seguinte será d edicado ao detaJhamemo das teorias que dido com O sentido produzido , o u seja, tr.lbal har nOV:UlleIllC - alnclu

lO' 10.
1."..lIla Araujo

que com o utro suporre teó rico - sobre a compatibilidade entre o Ponto de passagem
di to e o compreendido. O problema foi equacionado d a forma mais
prude nte , o ptando por exer-citac os novos parâmetros de análise em
um objeto mais restrito, confirmando a viabilidade e solidificando o . Ret?mando o lema d a introdução, épocas d e trJ.nsição par:tdlg.
ajustamento de uma linha teórica ampla à realidade empírica da co- máuca sao propícias a revisóes críticas, mas estas correm o risco de
municação rural . n:io consegu ir abacc:u todas as nuanças, os e ntreme ias, os indícios
Tomei emão as práticas d e comunicação que concretizam polí. de mudança. Creio que aqui ficaram car.tctcrizadas as linh as d o mi.
ticas dirigidas ao me io rural e deçidi analisi·las no seu aspecto de nantes d a tt."Oria e da ação prática da comunicação rur.tI que são, afio
construção d iscursivA, buscando emender como estão ali propostas nal, resu ltantes de uma série de her..tnças teó ricas que fordm
e pré--configuradas as relações sociais, que são, e m úhima instância, recebidas e processadas ao longo d as últimas d écadas c que ainda es.
relações de poder. Esta opção não me faz abrir Illão d o projeto mais tão submetidas a algu mas "camisas d e força" paradigmáticas. A gêne.
amplo , visto não como o estudo de um processo linear, mas dos pro- se da constitu ição d o meu o bjeto de pesquisa, que tem origem
cessos d e interlocução como loct4S privilegiado dos efeitos de sentido ness:tS he ranças. inclusive sob seus mecani smos coercitivos, mas ca.
que constituem os grupos e as relações sociais, que provavelmente racteriz:t·se como uma tentativa d e ruprura, torna·o emblemático do
virão no tempo adel:luado. momemo em que vivemos . Ele carrega dentro de si, tal qual um con.
Mas o que se apresentava tão simples na ve rdade não o era, na tador de histórias, os muitos percursos, as muitas vivências, erros e
medida em que para propor uma nova leitura da comunicação rural acertos, uto pias, desgastes, CAnsaços, certezas e inquietações, d esis.
é necessário explicitar seu caráter de novidade. Em o utras palavras, tências e persis tências que acompanham a todos que se dedicam à
antes de apontar para o OUIro é preciso caraClerizar o mesmo . E o comun icação nos processos d e interve nção social.
que parecia ser possfvel em poUC.lS páginas, no processo d e análise E fo i esse objeto, assim constituído, que me interpelo u t: me
foi se mostrando complexo, por me defrontar com um paroldigma confrOfllOu com a exigência de novas leituras, novas abordagens teó-
solidamente enraizado, com formas e âmbitos múltiplos de manifes- ricas e metodológic:ts que possam responder às questõcs que vão
taçõcS que se interpenetram e se condicio nam mutu:lluente . A decu. e mergindo da s ua an:Uise. Se os mode los aruais se mostram limitado-
pagem d essas fonnas e àmbitos, que resulto u neste capítulo, mais res do conhecimento sobre o objem, que outros se aprcsemam
que um início d e argumentação em fJ.vordo parad igma semio lógico, como opção? Que OUtros modos de ol har a prática comunicatiVA po-
permitiu delinear com maio r precisão que tipo de idé ias, concep· dem ser mo bil izados, no cenário da intervenção social no meio ruo
çôt:s e modelos desejo questionar, representando o p:ISSO linal na ral?
constnlção d o o bje to a ser esrudado . Uma primeira opção aparece clarJ. : ;t rransdiscipllnarldade
Por outro lado, nego u parcialmente a suspeita de divó rcio e n. perspectiva que permite trazer para o o bjeto mé todos e p ressupos:
tre teoria e prática, uma vez que deixou bem claro que, em comuni. tos teóricos de o utras áreas do saber humano , que façam avançar o
cação rural , a pesquisa emana d a prática e que esta se realimenta da conhecimento sobre os processos e as relações comunicativas. Na
teoria consolidada nas pesquisas, na medida em que os pesquisado- área mesmo da comunicação, é necessário quebrar as fronteir.lS de.
res são em geral agentes sociais da ação prática, que mome ntanea. marc.ttÓrias d as competências e considerar âmbito d a comunicação
mente se vinculam à academia. Este t, porém , um conhecimento rural todo e qualquer ganho teórico e met'odológico, como o que
circulare imobilista, que não facilita o avanço em termos de e labora. vem ocorrendo , por exemplo , 1.."111 relação aos estudos de recepção
çãode uma teo ria mais ajustada ao atual COntexto his tó rico, político, no conte.xto la tino·americano.
cultural e social d o pafs. Minha escolha baseia·se nessas duas premissas e recai sobre o
modo semiológico d e oU,ar. T:llvez seja precipitado fa lar agora em
"modelo" semio lógico; um "modo de o lharn é, porém, o primeiro e

'" 107
1."..lIla Araujo

que com o utro suporre teó rico - sobre a compatibilidade entre o Ponto de passagem
di to e o compreendido. O problema foi equacionado d a forma mais
prude nte , o ptando por exer-citac os novos parâmetros de análise em
um objeto mais restrito, confirmando a viabilidade e solidificando o . Ret?mando o lema d a introdução, épocas d e trJ.nsição par:tdlg.
ajustamento de uma linha teórica ampla à realidade empírica da co- máuca sao propícias a revisóes críticas, mas estas correm o risco de
municação rural . n:io consegu ir abacc:u todas as nuanças, os e ntreme ias, os indícios
Tomei emão as práticas d e comunicação que concretizam polí. de mudança. Creio que aqui ficaram car.tctcrizadas as linh as d o mi.
ticas dirigidas ao me io rural e deçidi analisi·las no seu aspecto de nantes d a tt."Oria e da ação prática da comunicação rur.tI que são, afio
construção d iscursivA, buscando emender como estão ali propostas nal, resu ltantes de uma série de her..tnças teó ricas que fordm
e pré--configuradas as relações sociais, que são, e m úhima instância, recebidas e processadas ao longo d as últimas d écadas c que ainda es.
relações de poder. Esta opção não me faz abrir Illão d o projeto mais tão submetidas a algu mas "camisas d e força" paradigmáticas. A gêne.
amplo , visto não como o estudo de um processo linear, mas dos pro- se da constitu ição d o meu o bjeto de pesquisa, que tem origem
cessos d e interlocução como loct4S privilegiado dos efeitos de sentido ness:tS he ranças. inclusive sob seus mecani smos coercitivos, mas ca.
que constituem os grupos e as relações sociais, que provavelmente racteriz:t·se como uma tentativa d e ruprura, torna·o emblemático do
virão no tempo adel:luado. momemo em que vivemos . Ele carrega dentro de si, tal qual um con.
Mas o que se apresentava tão simples na ve rdade não o era, na tador de histórias, os muitos percursos, as muitas vivências, erros e
medida em que para propor uma nova leitura da comunicação rural acertos, uto pias, desgastes, CAnsaços, certezas e inquietações, d esis.
é necessário explicitar seu caráter de novidade. Em o utras palavras, tências e persis tências que acompanham a todos que se dedicam à
antes de apontar para o OUIro é preciso caraClerizar o mesmo . E o comun icação nos processos d e interve nção social.
que parecia ser possfvel em poUC.lS páginas, no processo d e análise E fo i esse objeto, assim constituído, que me interpelo u t: me
foi se mostrando complexo, por me defrontar com um paroldigma confrOfllOu com a exigência de novas leituras, novas abordagens teó-
solidamente enraizado, com formas e âmbitos múltiplos de manifes- ricas e metodológic:ts que possam responder às questõcs que vão
taçõcS que se interpenetram e se condicio nam mutu:lluente . A decu. e mergindo da s ua an:Uise. Se os mode los aruais se mostram limitado-
pagem d essas fonnas e àmbitos, que resulto u neste capítulo, mais res do conhecimento sobre o objem, que outros se aprcsemam
que um início d e argumentação em fJ.vordo parad igma semio lógico, como opção? Que OUtros modos de ol har a prática comunicatiVA po-
permitiu delinear com maio r precisão que tipo de idé ias, concep· dem ser mo bil izados, no cenário da intervenção social no meio ruo
çôt:s e modelos desejo questionar, representando o p:ISSO linal na ral?
constnlção d o o bje to a ser esrudado . Uma primeira opção aparece clarJ. : ;t rransdiscipllnarldade
Por outro lado, nego u parcialmente a suspeita de divó rcio e n. perspectiva que permite trazer para o o bjeto mé todos e p ressupos:
tre teoria e prática, uma vez que deixou bem claro que, em comuni. tos teóricos de o utras áreas do saber humano , que façam avançar o
cação rural , a pesquisa emana d a prática e que esta se realimenta da conhecimento sobre os processos e as relações comunicativas. Na
teoria consolidada nas pesquisas, na medida em que os pesquisado- área mesmo da comunicação, é necessário quebrar as fronteir.lS de.
res são em geral agentes sociais da ação prática, que mome ntanea. marc.ttÓrias d as competências e considerar âmbito d a comunicação
mente se vinculam à academia. Este t, porém , um conhecimento rural todo e qualquer ganho teórico e met'odológico, como o que
circulare imobilista, que não facilita o avanço em termos de e labora. vem ocorrendo , por exemplo , 1.."111 relação aos estudos de recepção
çãode uma teo ria mais ajustada ao atual COntexto his tó rico, político, no conte.xto la tino·americano.
cultural e social d o pafs. Minha escolha baseia·se nessas duas premissas e recai sobre o
modo semiológico d e oU,ar. T:llvez seja precipitado fa lar agora em
"modelo" semio lógico; um "modo de o lharn é, porém, o primeiro e

'" 107
I n....lla Araújo

indis pensável passo, caso se queira chegar a um modelo transforma-


dorda pl1Ílica social, que seja ao mesmo Icmpo novo, libenodos an-
ligas vínculos e operacional, apropriável e aplicável pelos agenles
sociais.
O próximo capírulo dará acesso à fundamentação leórica do 11- O OLHAR SEMIOLÓGICO
paradigma semiológico e possibilitará uma comparação conçeituaJ e
melodoJógica com o informacional , que doravame será designado
aqui por comunicacional, em consider:.u;ão às multas agregações Pré-construções
leóricas que foram sendo feilas ao modelo inicial de Shannon & Wea-
ver, embora sem alred·lo na sua essência.
Não vou repetir aqui ;\s críticas ao mode lo info rmacional,
mas creio ser imponame voltar a aJguns de. seus limites epistemoló-
gicos, panicularmente os que dizem respeito aos problemas do sig-
nificado e da relação do sujeito com a língua.
A concepção de comunicação implkila no modelo é a de
Imnsferência de informação entre dois pólos, dcscarmndo a de
transformação de um código em oUlro eeliminando , em conseqüên-
cia, a preocupação com o significado. Por de, pode-se chegar ao es·
tudo das formas d e c."pressão, mas sob seu aspeCIO d e sinaJ físico .
Estudam-se canais e códigos, mas com O foco centrado na clareza das
mensagens, na eficácia da transmissão. A re lação entre os pólos
e missor e receptor, mediada pelo canal, é concebida, dessa forma,
como se pudesse ocorrer independentemente dos mecanismos de
construção do significado. Adicio nalmente, e missor e recep[Qr sâo
percebidos como entidades sem memória e imunes a quaisquer ou-
lros processos comuniCAtivos (Iexlos, mediações ... ), vistos estes
como "ru idoÇ, interferências nocivas a serem previstas e controla-
das.
A noção de "código" - siste ma si ntático, organizador d e uma
seqüênda de sinais (ou sistema organ izad or de sign ifican les) - traz
implícit'a uma idéia de re l:lçâo e ntre o sujeito e a língua. O s uje ito
e missor reco lhe na língua - sistcma pronto de códigos - aquilo que
convém aos seus objetivos imediatos, organiza-o segundo regras sin-
tMicas e gramaticais e envia/transfere ao sujeito-receptor, a quem
cabe a lareJ-a da decodificação - tradução literal da mensagem, que
deve ser facilitada pela elim inação dos ruídos. A ligação e ntre o sujei-
[Q emissor e o repenório de códigos faz·se , pois, pela intc nção de se
comunicar, caracterizando-se uma concepção instrumentalista da
re lação língua-sujeito.

'OI
I n....lla Araújo

indis pensável passo, caso se queira chegar a um modelo transforma-


dorda pl1Ílica social, que seja ao mesmo Icmpo novo, libenodos an-
ligas vínculos e operacional, apropriável e aplicável pelos agenles
sociais.
O próximo capírulo dará acesso à fundamentação leórica do 11- O OLHAR SEMIOLÓGICO
paradigma semiológico e possibilitará uma comparação conçeituaJ e
melodoJógica com o informacional , que doravame será designado
aqui por comunicacional, em consider:.u;ão às multas agregações Pré-construções
leóricas que foram sendo feilas ao modelo inicial de Shannon & Wea-
ver, embora sem alred·lo na sua essência.
Não vou repetir aqui ;\s críticas ao mode lo info rmacional,
mas creio ser imponame voltar a aJguns de. seus limites epistemoló-
gicos, panicularmente os que dizem respeito aos problemas do sig-
nificado e da relação do sujeito com a língua.
A concepção de comunicação implkila no modelo é a de
Imnsferência de informação entre dois pólos, dcscarmndo a de
transformação de um código em oUlro eeliminando , em conseqüên-
cia, a preocupação com o significado. Por de, pode-se chegar ao es·
tudo das formas d e c."pressão, mas sob seu aspeCIO d e sinaJ físico .
Estudam-se canais e códigos, mas com O foco centrado na clareza das
mensagens, na eficácia da transmissão. A re lação entre os pólos
e missor e receptor, mediada pelo canal, é concebida, dessa forma,
como se pudesse ocorrer independentemente dos mecanismos de
construção do significado. Adicio nalmente, e missor e recep[Qr sâo
percebidos como entidades sem memória e imunes a quaisquer ou-
lros processos comuniCAtivos (Iexlos, mediações ... ), vistos estes
como "ru idoÇ, interferências nocivas a serem previstas e controla-
das.
A noção de "código" - siste ma si ntático, organizador d e uma
seqüênda de sinais (ou sistema organ izad or de sign ifican les) - traz
implícit'a uma idéia de re l:lçâo e ntre o sujeito e a língua. O s uje ito
e missor reco lhe na língua - sistcma pronto de códigos - aquilo que
convém aos seus objetivos imediatos, organiza-o segundo regras sin-
tMicas e gramaticais e envia/transfere ao sujeito-receptor, a quem
cabe a lareJ-a da decodificação - tradução literal da mensagem, que
deve ser facilitada pela elim inação dos ruídos. A ligação e ntre o sujei-
[Q emissor e o repenório de códigos faz·se , pois, pela intc nção de se
comunicar, caracterizando-se uma concepção instrumentalista da
re lação língua-sujeito.

'OI
Considerando-sc esses e outros limites, pode-se contrapor lodológicas associam uma tcoria d o s ujeito e uma tcoria da produ-
um modo diverso de conceber a relação comunic:uiva, fund ado nas ção social do sentido, tornando-o bastante re presentativo da arual
tcorias semiológicas mais recentes. Um dos pomos de partida desl'e Semio logia.
trabalho é a convicção de que a comunicação rural, como conjunto De Banhes, semiólogo e mblemático da corrente france sa,
de conhecimentos e práticas, tcm multo a ganhar com a Semio logia recolho s ua ê.nfase na análise da "heterogeneidade constitutiva" do
dos Discursos Sociais, disciplina que não tem sido reputada como re· texto, vozes "em of[" da cultura . "Cadeia remissiva de significantes ~ e
lev-.lIue pelos técnicos e pesqu isado res do setor, o que é compreensí. "disseminação espadal do sentido " sâo algumas de suas id éias que
vel, um;a vez que trabalham sob a influê ncia de um modelo que não receberão acolhida especial.
ce ntr.a o foco na questão do significado, do sentido. Pois é exatame n· Bourdie u, SOCió logo, o ferece eleme ntos paca análise das
te isso que faz a Semiologia , ciênci a que estuda os fenômenos d a co- condições sociais de produção discursiva e das relações d e poder
municaç:lo como fenô menos d e produção de sen tido s. Que O discurso cOnstrói, por meio de seu s conceitos de "inte resse",
O o bjetivo des te capítulo é selecionar e ;apresentar teorias e "eslr:u égia" e "poder simbóJjco"_
conceitos semiológicos que formem as bases d e um Outro o lhar so- Banh es, Verón e Bourdieu, os d o is primeiros retrdbalhando
bre a comunicação runl.l e fu ndamemem uma me todolo gia d e análi- as idéias de Ben\'eniste , Bakthin e Foucauh numa perspectiva mais
se das práticas discursivas institucionais que circulam no campo . metodológica e o segundo o ferecendo a perspectiva de ou trd disci-
Muitos sao os auto res disponíveis e as nuanças entre eles plin a ao conhecime nto d o fun cio namento do mercado simbólico,
por vezes são s utis. O p rincípio scmio lógico da o; intcrtcxtualidade" fomlam o segundo eixo teórico. O prime iro eixo está na origem das
o per.a aí fo rtemente, faze ndo com que em cada um se percebam os mi nhas escolhas. O segundo, no centro. Há o utros Que, slruando-se
demais, por oposição ou afi nidade. O ptei por seis deles corno piCces n:t periferia, mas e m constante relação dialógica com o cenrro, exer-
de resisUltl cc: Émile 8enveniste , Michel Foucault e Mikhall 8akthin ; cer:l0 algum pode r so bre o rumo d as minhas anáJises . Serão me ncio-
Eliseo Verón, Roland B:lfIh es e Pierre Bourdieu. nados à medida que de les fizer recurso.
Bakthin , fil ósofo da linguagem , subverte as concepções mais Na seqüência, abordarei algumas condições que penniti-
aceitas sobre a língua e estabelece as noções irreversh'e is de "polifo- ram, num dado COntexto histó rico, a produção d as idéias que fo r·
nia" e "dialogismo··. mam a base do que hoje chamamos "Semio logia dos Discursos
Foucault , filósofo do discurso e das relações d e poder que se Sociais". Em seguida, to marei OS postu lados dessa Semio logia, iden-
instauram pela prática discurs iva. "Micropoder" e "centro-periferia" tificando as principais COncepções teóricas que estão ali compreen-
são seus conceitos que me illleress:un mais diretamente, alé.m d o d e didas c rclacionllndo-as com o meu objeto de estud o. Num terceiro
"discurso" e seus derivados. mo mento, d iScut irei os fundamemos d e uma metodo logia d e anâli-
Be nve niste, lingüista, fo rmul:!. a teo ria d:t enu nciação, passo St! a partir dessas concepções, e indicarei os procedimentos mais
fundam ental para 3.5 teorias semio lógicas do discurso. Chama alen- adequados à verificação d as h ipóteses empíricas, que deverão ser
ção para o "aparelho fo rmal da enunciação", IOrnando irrecusávcl a adotadas no exame do C01PUS selecionado.
abo rdagem lingüística na anáJjse discursiva.
Esses três :lUtOres fo rmam um primeiro eixo teó rico c se
const itue m e m condições d e p rodução paca os o utros três.
Condições d e prod u ção
Ver6 n, semió logo, Irabalha com o p ressu poslO da existência
de um "mercado si mbó lico", ao Qual aplica o mo de lo de sistema pro- A Semiologia tem su a histó ria estre imme me vincu lada à do
dUlivo. Suas análises comemplam a "heteroge neid ade discu rsiva", Estruturalismo. Bandeira da modernidade. contestação à hegemo nia
sobre tudo a constiruinre o u mostrada. Suas propostas teóricas e me-

li' .11
Considerando-sc esses e outros limites, pode-se contrapor lodológicas associam uma tcoria d o s ujeito e uma tcoria da produ-
um modo diverso de conceber a relação comunic:uiva, fund ado nas ção social do sentido, tornando-o bastante re presentativo da arual
tcorias semiológicas mais recentes. Um dos pomos de partida desl'e Semio logia.
trabalho é a convicção de que a comunicação rural, como conjunto De Banhes, semiólogo e mblemático da corrente france sa,
de conhecimentos e práticas, tcm multo a ganhar com a Semio logia recolho s ua ê.nfase na análise da "heterogeneidade constitutiva" do
dos Discursos Sociais, disciplina que não tem sido reputada como re· texto, vozes "em of[" da cultura . "Cadeia remissiva de significantes ~ e
lev-.lIue pelos técnicos e pesqu isado res do setor, o que é compreensí. "disseminação espadal do sentido " sâo algumas de suas id éias que
vel, um;a vez que trabalham sob a influê ncia de um modelo que não receberão acolhida especial.
ce ntr.a o foco na questão do significado, do sentido. Pois é exatame n· Bourdie u, SOCió logo, o ferece eleme ntos paca análise das
te isso que faz a Semiologia , ciênci a que estuda os fenômenos d a co- condições sociais de produção discursiva e das relações d e poder
municaç:lo como fenô menos d e produção de sen tido s. Que O discurso cOnstrói, por meio de seu s conceitos de "inte resse",
O o bjetivo des te capítulo é selecionar e ;apresentar teorias e "eslr:u égia" e "poder simbóJjco"_
conceitos semiológicos que formem as bases d e um Outro o lhar so- Banh es, Verón e Bourdieu, os d o is primeiros retrdbalhando
bre a comunicação runl.l e fu ndamemem uma me todolo gia d e análi- as idéias de Ben\'eniste , Bakthin e Foucauh numa perspectiva mais
se das práticas discursivas institucionais que circulam no campo . metodológica e o segundo o ferecendo a perspectiva de ou trd disci-
Muitos sao os auto res disponíveis e as nuanças entre eles plin a ao conhecime nto d o fun cio namento do mercado simbólico,
por vezes são s utis. O p rincípio scmio lógico da o; intcrtcxtualidade" fomlam o segundo eixo teórico. O prime iro eixo está na origem das
o per.a aí fo rtemente, faze ndo com que em cada um se percebam os mi nhas escolhas. O segundo, no centro. Há o utros Que, slruando-se
demais, por oposição ou afi nidade. O ptei por seis deles corno piCces n:t periferia, mas e m constante relação dialógica com o cenrro, exer-
de resisUltl cc: Émile 8enveniste , Michel Foucault e Mikhall 8akthin ; cer:l0 algum pode r so bre o rumo d as minhas anáJises . Serão me ncio-
Eliseo Verón, Roland B:lfIh es e Pierre Bourdieu. nados à medida que de les fizer recurso.
Bakthin , fil ósofo da linguagem , subverte as concepções mais Na seqüência, abordarei algumas condições que penniti-
aceitas sobre a língua e estabelece as noções irreversh'e is de "polifo- ram, num dado COntexto histó rico, a produção d as idéias que fo r·
nia" e "dialogismo··. mam a base do que hoje chamamos "Semio logia dos Discursos
Foucault , filósofo do discurso e das relações d e poder que se Sociais". Em seguida, to marei OS postu lados dessa Semio logia, iden-
instauram pela prática discurs iva. "Micropoder" e "centro-periferia" tificando as principais COncepções teóricas que estão ali compreen-
são seus conceitos que me illleress:un mais diretamente, alé.m d o d e didas c rclacionllndo-as com o meu objeto de estud o. Num terceiro
"discurso" e seus derivados. mo mento, d iScut irei os fundamemos d e uma metodo logia d e anâli-
Be nve niste, lingüista, fo rmul:!. a teo ria d:t enu nciação, passo St! a partir dessas concepções, e indicarei os procedimentos mais
fundam ental para 3.5 teorias semio lógicas do discurso. Chama alen- adequados à verificação d as h ipóteses empíricas, que deverão ser
ção para o "aparelho fo rmal da enunciação", IOrnando irrecusávcl a adotadas no exame do C01PUS selecionado.
abo rdagem lingüística na anáJjse discursiva.
Esses três :lUtOres fo rmam um primeiro eixo teó rico c se
const itue m e m condições d e p rodução paca os o utros três.
Condições d e prod u ção
Ver6 n, semió logo, Irabalha com o p ressu poslO da existência
de um "mercado si mbó lico", ao Qual aplica o mo de lo de sistema pro- A Semiologia tem su a histó ria estre imme me vincu lada à do
dUlivo. Suas análises comemplam a "heteroge neid ade discu rsiva", Estruturalismo. Bandeira da modernidade. contestação à hegemo nia
sobre tudo a constiruinre o u mostrada. Suas propostas teóricas e me-

li' .11
1,,~.11<l Armljo

das humanidades clássicas, o programa estnHuralistal9 aglutinou Saussure solidifica a noção de siSfema e , ao lado da interde-
em to rno de si mais de uma geração de intelectuais que viviam inten· pendência dos seus e lemenlos, a institui como um dos pilares da sua
samente o desenvo lvimento das Ciências Sociais e demonstravam reoria lingüística , que prima pelo alto grau de abst'f-:u;ão. Associada
sensibilidade para um tipo de saber considerndo marginal o u mes· intim amente a essa noção, está a oposição diacronia·sincronia. O s is-
mo proscrito. O Estruturalismo represemava também a senha para a tema, e m Saussure, exige como co ndição de análise a eliminação do
aquisição do estatuto de "científico", a inda negado:\s disciplina.s hu· lem po histórico . O corte sincrõnico é o utra fonnulação bás ica do es-
manas e sociais (apesar de a lguns irrecusáveis avanços e conquistas Ir ururalismo (e um de seus pOntos nevrálgicos) .
propiciados pelo positivismo) . Uma terceira tese a d estacar é a da ins ignificância do sujeito,
Certamente não se pode falar do estrutuF.t.!ismo como se fosse excl uído em prol do rigor c ie ntífico. Saussure distinguiu Iíngml (s0-
uno c homogcneo. Mú ltiplos o bjetos, múltiplas disciplinas, múlti· cial) c/ala (individual), sendo aquela o o bje to d a lingüística, o unico
pias abordage ns , múltiplas histórias o fe recem o risco de reducionis· que, a seu ver, poderia dar racionalidade científica à sua ciência. A
mo às Icntativas de e ncontrar matrizes comuns. Mas, se há uma base eliminação do sujeito falante, a expulsão d o indivíduo do horizonte
unificadora, e la se e ncontrn no âmbilO da Lingüística m oderna e c ie ntífico, como um estorvo, fo i tambi!lIl amplamente incorporada
p ara compreendê·la - e à Semiologia - é indispensáve l passar pela fi· pelo prognuna estruturalista e definiu por um tempo os rumos da
gura de ferd inand de Saussure. Semio logia. Mas, para compreender me lhor a relação e ntre a Lin-
lingüista, de nacionalidade suíça, Saussurc propôs uma Lin· güística de Sau~sure e a Serniologia, é preci~o falar da sua teoria do
güística Geral e uma nova ciê ncia, a Semio logia. Tendo nascido no signo .
século XIX e mo rrido em 1913, lançou suas teses no famoso "Curso Influenciado por lJurkhe im , primeiro sociólogo que eSlabe-
de Lingüística Geral" (depois çonvenido e m livro, por seus alunos) , lece u a prevalência do socia l sobre o individual, Saussure propõe
na Univer.tidade de Genebra, e ntre 1907 c 19 11. Esse final· início de uma teoria dos s ignos cuja idéia central é a divisão entre a fala , ob je-
.século era palco de inte nsos debalcs lingüísticos e , na questão "natu· tO real , c a língua, o bjem de estudo. Par" e le, d ever·se·ia abstrair do
ralismo versus convencionalis mo do signo", a última hipótese o bti· objeto real aquilo que é estável e controlável, que forma a estruturn,
n ha a preferência. Portanto , a descoberta do caráter arbitrário do isto é, a língua . A língua seria o social e a fala o individual e a ciência
signo - todo s igno seria regido por conve nções cu lturais _ não fo i a de\'eria ocupar·se do social.
maior comribuiç;i.o d e Saussurc, e s im o fato de lê-lo vinc ulado a Enquanto a fala é o domín io d o sinal, a língu :l i! o te rrirório
uma teoria do valo r, ou seja, atribuir·lhe um princípio semiológi- do signo , que resulta da som a dosigni/icante, - imagem acústica" do
co. 20 A língua seria um sistem:. constiruído pord iff' re.nça... puras, não signo, e do si?,lli/fcado, a contrJ.partida mental do conceito . Signifi·
por conteúdos; os signos teriam seu valor definido por oposição a cante e significado são indissociáveis e ambos são unidades Cu lturais.
outros e esra é uma das formulações de base do EstrutuF.t.!ismo. Com o primeiro , cla~sificamos os sinais da língua; COm o segundo , os
objeros t: pensame ntos reais.
Com a exclusão do referente , :I supressão da fu nção re feren-
D'ÚsSl.: apoma. dc:mro da d iversidade e ~ truturalisl.a. uma di5lÍn,,;tu que é, um·
" bém . um princíp io d ", dassi ficação: o ~tru tu ra.li.s.mo c ientífico. re presentado
p rincipal mel'lte por L6i·Su :r.uss, Gn:im.:r.s e Lacan '" e n voh'Cndo. por ~:Onsé·
cial e o conseqüe nte fechamento da língua sobre si mesma, Saussure
fez uma opção pelo signo, re me lendo O semido p:lr3 os domínios da
qliéncia. a al'luopologia. a semiÓtica c: a p:iiC;J.n;ó1isc:; o c5 U'UlUrali5mo$cmiol6- Metafisica e esta será uma das marcas do Estrururalismo. Por Outro
gito. "mais Oc:xivd. mili s ondubmc: ou f,.'lIm h iamc:~, no qual se des mcariam lado, s ua postura imanemista está na o rigem do paradigma li ngüís ti-
lJart hc$, Serre.s, Gc nc lle e Todorov; c um c:stru turallsmo h istori cl:t.ado, com
Allhosser, FouClIult, Dc:rrlda e Vernant ( t933: 16). co assimilado pc.la maioria d as Ciências Sociais até nossos dias, ao
(IUal me referi ame rionnente . As teses de Saussure levam a perceber
20 N~o hi COf1S('nso e m tomo dessa discussão. EsIOU aqu i assum indo o ponto de
' 1St:. de Cl:iudinc Nonnand , a presso em c: ntK\'Í5l:r. C(lO(c.."t.!id.a :li Dossc (op. a língua como repertório d e códigos com o s ignificado predet'cnni·
1.'11.: (8).

11 1 11 ]
1,,~.11<l Armljo

das humanidades clássicas, o programa estnHuralistal9 aglutinou Saussure solidifica a noção de siSfema e , ao lado da interde-
em to rno de si mais de uma geração de intelectuais que viviam inten· pendência dos seus e lemenlos, a institui como um dos pilares da sua
samente o desenvo lvimento das Ciências Sociais e demonstravam reoria lingüística , que prima pelo alto grau de abst'f-:u;ão. Associada
sensibilidade para um tipo de saber considerndo marginal o u mes· intim amente a essa noção, está a oposição diacronia·sincronia. O s is-
mo proscrito. O Estruturalismo represemava também a senha para a tema, e m Saussure, exige como co ndição de análise a eliminação do
aquisição do estatuto de "científico", a inda negado:\s disciplina.s hu· lem po histórico . O corte sincrõnico é o utra fonnulação bás ica do es-
manas e sociais (apesar de a lguns irrecusáveis avanços e conquistas Ir ururalismo (e um de seus pOntos nevrálgicos) .
propiciados pelo positivismo) . Uma terceira tese a d estacar é a da ins ignificância do sujeito,
Certamente não se pode falar do estrutuF.t.!ismo como se fosse excl uído em prol do rigor c ie ntífico. Saussure distinguiu Iíngml (s0-
uno c homogcneo. Mú ltiplos o bjetos, múltiplas disciplinas, múlti· cial) c/ala (individual), sendo aquela o o bje to d a lingüística, o unico
pias abordage ns , múltiplas histórias o fe recem o risco de reducionis· que, a seu ver, poderia dar racionalidade científica à sua ciência. A
mo às Icntativas de e ncontrar matrizes comuns. Mas, se há uma base eliminação do sujeito falante, a expulsão d o indivíduo do horizonte
unificadora, e la se e ncontrn no âmbilO da Lingüística m oderna e c ie ntífico, como um estorvo, fo i tambi!lIl amplamente incorporada
p ara compreendê·la - e à Semiologia - é indispensáve l passar pela fi· pelo prognuna estruturalista e definiu por um tempo os rumos da
gura de ferd inand de Saussure. Semio logia. Mas, para compreender me lhor a relação e ntre a Lin-
lingüista, de nacionalidade suíça, Saussurc propôs uma Lin· güística de Sau~sure e a Serniologia, é preci~o falar da sua teoria do
güística Geral e uma nova ciê ncia, a Semio logia. Tendo nascido no signo .
século XIX e mo rrido em 1913, lançou suas teses no famoso "Curso Influenciado por lJurkhe im , primeiro sociólogo que eSlabe-
de Lingüística Geral" (depois çonvenido e m livro, por seus alunos) , lece u a prevalência do socia l sobre o individual, Saussure propõe
na Univer.tidade de Genebra, e ntre 1907 c 19 11. Esse final· início de uma teoria dos s ignos cuja idéia central é a divisão entre a fala , ob je-
.século era palco de inte nsos debalcs lingüísticos e , na questão "natu· tO real , c a língua, o bjem de estudo. Par" e le, d ever·se·ia abstrair do
ralismo versus convencionalis mo do signo", a última hipótese o bti· objeto real aquilo que é estável e controlável, que forma a estruturn,
n ha a preferência. Portanto , a descoberta do caráter arbitrário do isto é, a língua . A língua seria o social e a fala o individual e a ciência
signo - todo s igno seria regido por conve nções cu lturais _ não fo i a de\'eria ocupar·se do social.
maior comribuiç;i.o d e Saussurc, e s im o fato de lê-lo vinc ulado a Enquanto a fala é o domín io d o sinal, a língu :l i! o te rrirório
uma teoria do valo r, ou seja, atribuir·lhe um princípio semiológi- do signo , que resulta da som a dosigni/icante, - imagem acústica" do
co. 20 A língua seria um sistem:. constiruído pord iff' re.nça... puras, não signo, e do si?,lli/fcado, a contrJ.partida mental do conceito . Signifi·
por conteúdos; os signos teriam seu valor definido por oposição a cante e significado são indissociáveis e ambos são unidades Cu lturais.
outros e esra é uma das formulações de base do EstrutuF.t.!ismo. Com o primeiro , cla~sificamos os sinais da língua; COm o segundo , os
objeros t: pensame ntos reais.
Com a exclusão do referente , :I supressão da fu nção re feren-
D'ÚsSl.: apoma. dc:mro da d iversidade e ~ truturalisl.a. uma di5lÍn,,;tu que é, um·
" bém . um princíp io d ", dassi ficação: o ~tru tu ra.li.s.mo c ientífico. re presentado
p rincipal mel'lte por L6i·Su :r.uss, Gn:im.:r.s e Lacan '" e n voh'Cndo. por ~:Onsé·
cial e o conseqüe nte fechamento da língua sobre si mesma, Saussure
fez uma opção pelo signo, re me lendo O semido p:lr3 os domínios da
qliéncia. a al'luopologia. a semiÓtica c: a p:iiC;J.n;ó1isc:; o c5 U'UlUrali5mo$cmiol6- Metafisica e esta será uma das marcas do Estrururalismo. Por Outro
gito. "mais Oc:xivd. mili s ondubmc: ou f,.'lIm h iamc:~, no qual se des mcariam lado, s ua postura imanemista está na o rigem do paradigma li ngüís ti-
lJart hc$, Serre.s, Gc nc lle e Todorov; c um c:stru turallsmo h istori cl:t.ado, com
Allhosser, FouClIult, Dc:rrlda e Vernant ( t933: 16). co assimilado pc.la maioria d as Ciências Sociais até nossos dias, ao
(IUal me referi ame rionnente . As teses de Saussure levam a perceber
20 N~o hi COf1S('nso e m tomo dessa discussão. EsIOU aqu i assum indo o ponto de
' 1St:. de Cl:iudinc Nonnand , a presso em c: ntK\'Í5l:r. C(lO(c.."t.!id.a :li Dossc (op. a língua como repertório d e códigos com o s ignificado predet'cnni·
1.'11.: (8).

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1.....$11« Armijc.o

nado (m esmo consid erando a natureza cultural da d eterminação para a arual Semiolo gia dos Discursos Sociais, indicadas por I' imo (0J'.
dos s ignificad os) , d is ponível para eventuais combina tó rias sintáticas cit.) .
e gr:lma ticais. Ances, porém , uma o bservação: o fa tO de Peirce e Saussure,
A panirdc su a teoria do sig no , Saussure pre ....ê a necessidade trabalhando em diferentes continentes e sem se conhecerem, tere lll
c propõe uma na \'3 ciê ncia, a Semio logia , que integrAria nãos6 a Lin· produzido na mesm.'1 época uma teoria dos s ig nos, e videncia a exis-
güístiC-A, mas todas as disciplinas interessadas no estudo d a "vida dos tê ncia de condições teó ricas d e prod ução que extrapolam os limites
signos no seio d a vida socia l" (op. cit.: 24) . Desde e ntão, a Semio lo · geográficos e os c írculos intelectuais de perte nça. A preocupação com
g ia percor re m ú ltiplos cam inhos, ganhando cores e rumos :lcordes o sig nificado (ou com o semido) re mete:\ Grécia antiga, com os sofis-
com O movime nto d as idé ias nas Ciê ncias Humanas, princi pal mc nre tas, co m Aristó teles e Platâo, d e pois com os céticos, Sro. Agostinho e
as Sociais . tantos o utros, e nunca abando no u o cenár io flI osófko. Mas o debate
O tcnno "Scmio logia", o riginá rio da me d icina, s ig nifica lire· sobre a linguagem data d a me mdc d o século XIX e to m a maior vulto
ralm e m e "estudo dos signos". Há hoje diversas definições : c iê ncia da no início do século XX; a conjunçio das duas q uestões resulta, entre
sig nlfl cação, dos s ignos, ciência ge rAI de todas as linguage ns, ciê ncia Outr.LS coisas, nas teorias d o signo . E nio são só Pe irce e Saussure que
que estuda os fe nô m e nos da c ultu nl como de comunicação ... Há inte gram esse ce nário. J.udwig Frege , lóg ico e mate mático alemão,
també m o te rmo "Sc rnió tica", que para uns e quiva le a Semio lo gia , propôs e m 1892, num anigo intirulado "Sobre refe rê ncia e sentido",
para o utro s desig na uma ciê ncia mais abrangente, com o r igem nos uma teoria dos signos, na qual d e fine "sentido" COmO O modo de apre·
postulad os d e Cha rle s Pe irce . Este é o caso d e Sanrae lla (199 1: 8 2) , sentar o o bjeto no mundo. O o bjeto não significaria aquilo que objeti·
que considerA a Sem iologia uma Semiót ica e special, com a função de vamente é, nâo haveria uma relaç:io d e imanê ncia entre o bjeto e
pree nche r os de talhes descritivos d a Semió tica geral, m ais a mpla e significado, que nio seria constante e sim mod ificar-se-ia segundo fa·
abstrata. Já Pinto ( 1994 : 1-2) não vê razões de peso para distingu ir, tores culturais e circunstancia is . O real seria c riado pelo s ig nificado,
como diSCiplinas d iferentes, a sem iologia france sa da linha pe ircea· visão que con{rMia o imane ntismo d os q ue afinnam q ue o significado
na. nasce do real . Esta IlOÇdO, a da natureza. contextual e cu ltural d o senti·
Peirce vive u na mesm a éPOC-A d e Saussure ( 1839 - 19 14). d o , i:. extremame nte atual, assim com o O uso d o t~ nno "scntido " que,
Com fo rmação e m c iê nc ias exa tas. era apaixo nado pela lógica e a como veremos mais adiante , contrapõe·se ao "significad o-, na mode ro
concebia com o intrinsecame nte vinculada a uma teoria geral dos s igo na Semiologia. Frege fo rmulo u uma teco" d o sig no e m uso, distinta
nos, a q ue ele de no mino u Se mió tica. Nas suas palavrAS, " ... d esde o d a de Saussure, teoria da língua e m estad o pote ncial, e da de Peirce,
dia e m que , na idade d e 12 o u 13 a nos, eu peg uei no quano d e me u teoria da aquisição da linguagem . Esta última afirmação nos reme te de
irmão mais \'c1ho uma cópia d a Lógica de Whatele}' e pergunte i a c1e volta às contribuições de I~irce para a Semio logia dos Discursos Sociais.
o que e ra a Lógica, ao receber uma resposta simples, jogue i-me no A primeirA, destacada por I'im o , re m carite r e pistemoló gico
assoalho e me e nte rre i no livro . Desde e ntão, nu nca esteve e m me us e d iz res pe ito à na tureza d o conhecimento , que seria se mpre "m e di-
poderes estuda r qua lq uer coisa - matemática, ética, metafísica, a na- ado por algum s iste ma d e representação", me diado , portantO, pela
to mia , termodinâmica , ótica, g ravila~":.lo , astrono mia, ps icologia , fo- c ulturA (c pela linguagem , j:í que toda re presc n ração ocorre por ai·
né tica, econo m ia, a h istória d a ciência, jogo de cartas, ho m e ns e g um s istema d e linguagem ). Ta l :ú'imlação conduz à idé ia da "semiO-
mulhe res. vinbo , m e tro lo gia , exceto como um e srudo de Semió tica" sis", que seria a capacidade d e um signo ge rar o utro sig no , fo rmando
(afJud S:mtae ll a, o p . cit .: 2i) . Tal d eclantçáo, alé m de fazer eme nde r uma cadeia d e "interpretanres" na me nte dos indivíduos, num pro-
as pre te nsões hc ge m ô nicas e e nglobadoras dos defenso re s da Semi6· cesso infinito , cujo lim ite e staria na cultu ra e na bistoric idadc que
tlca , d á piStas d a diflcu ldade que é resumir a teoria dos s ignos de Pe ir· nos impõe o que e co mo pensa r e m cad a tempo, lugar e circunstàn·
(:e . Po r isso, are nho-me às suas principais c importantes co ntribuições

li' 115
1.....$11« Armijc.o

nado (m esmo consid erando a natureza cultural da d eterminação para a arual Semiolo gia dos Discursos Sociais, indicadas por I' imo (0J'.
dos s ignificad os) , d is ponível para eventuais combina tó rias sintáticas cit.) .
e gr:lma ticais. Ances, porém , uma o bservação: o fa tO de Peirce e Saussure,
A panirdc su a teoria do sig no , Saussure pre ....ê a necessidade trabalhando em diferentes continentes e sem se conhecerem, tere lll
c propõe uma na \'3 ciê ncia, a Semio logia , que integrAria nãos6 a Lin· produzido na mesm.'1 época uma teoria dos s ig nos, e videncia a exis-
güístiC-A, mas todas as disciplinas interessadas no estudo d a "vida dos tê ncia de condições teó ricas d e prod ução que extrapolam os limites
signos no seio d a vida socia l" (op. cit.: 24) . Desde e ntão, a Semio lo · geográficos e os c írculos intelectuais de perte nça. A preocupação com
g ia percor re m ú ltiplos cam inhos, ganhando cores e rumos :lcordes o sig nificado (ou com o semido) re mete:\ Grécia antiga, com os sofis-
com O movime nto d as idé ias nas Ciê ncias Humanas, princi pal mc nre tas, co m Aristó teles e Platâo, d e pois com os céticos, Sro. Agostinho e
as Sociais . tantos o utros, e nunca abando no u o cenár io flI osófko. Mas o debate
O tcnno "Scmio logia", o riginá rio da me d icina, s ig nifica lire· sobre a linguagem data d a me mdc d o século XIX e to m a maior vulto
ralm e m e "estudo dos signos". Há hoje diversas definições : c iê ncia da no início do século XX; a conjunçio das duas q uestões resulta, entre
sig nlfl cação, dos s ignos, ciência ge rAI de todas as linguage ns, ciê ncia Outr.LS coisas, nas teorias d o signo . E nio são só Pe irce e Saussure que
que estuda os fe nô m e nos da c ultu nl como de comunicação ... Há inte gram esse ce nário. J.udwig Frege , lóg ico e mate mático alemão,
també m o te rmo "Sc rnió tica", que para uns e quiva le a Semio lo gia , propôs e m 1892, num anigo intirulado "Sobre refe rê ncia e sentido",
para o utro s desig na uma ciê ncia mais abrangente, com o r igem nos uma teoria dos signos, na qual d e fine "sentido" COmO O modo de apre·
postulad os d e Cha rle s Pe irce . Este é o caso d e Sanrae lla (199 1: 8 2) , sentar o o bjeto no mundo. O o bjeto não significaria aquilo que objeti·
que considerA a Sem iologia uma Semiót ica e special, com a função de vamente é, nâo haveria uma relaç:io d e imanê ncia entre o bjeto e
pree nche r os de talhes descritivos d a Semió tica geral, m ais a mpla e significado, que nio seria constante e sim mod ificar-se-ia segundo fa·
abstrata. Já Pinto ( 1994 : 1-2) não vê razões de peso para distingu ir, tores culturais e circunstancia is . O real seria c riado pelo s ig nificado,
como diSCiplinas d iferentes, a sem iologia france sa da linha pe ircea· visão que con{rMia o imane ntismo d os q ue afinnam q ue o significado
na. nasce do real . Esta IlOÇdO, a da natureza. contextual e cu ltural d o senti·
Peirce vive u na mesm a éPOC-A d e Saussure ( 1839 - 19 14). d o , i:. extremame nte atual, assim com o O uso d o t~ nno "scntido " que,
Com fo rmação e m c iê nc ias exa tas. era apaixo nado pela lógica e a como veremos mais adiante , contrapõe·se ao "significad o-, na mode ro
concebia com o intrinsecame nte vinculada a uma teoria geral dos s igo na Semiologia. Frege fo rmulo u uma teco" d o sig no e m uso, distinta
nos, a q ue ele de no mino u Se mió tica. Nas suas palavrAS, " ... d esde o d a de Saussure, teoria da língua e m estad o pote ncial, e da de Peirce,
dia e m que , na idade d e 12 o u 13 a nos, eu peg uei no quano d e me u teoria da aquisição da linguagem . Esta última afirmação nos reme te de
irmão mais \'c1ho uma cópia d a Lógica de Whatele}' e pergunte i a c1e volta às contribuições de I~irce para a Semio logia dos Discursos Sociais.
o que e ra a Lógica, ao receber uma resposta simples, jogue i-me no A primeirA, destacada por I'im o , re m carite r e pistemoló gico
assoalho e me e nte rre i no livro . Desde e ntão, nu nca esteve e m me us e d iz res pe ito à na tureza d o conhecimento , que seria se mpre "m e di-
poderes estuda r qua lq uer coisa - matemática, ética, metafísica, a na- ado por algum s iste ma d e representação", me diado , portantO, pela
to mia , termodinâmica , ótica, g ravila~":.lo , astrono mia, ps icologia , fo- c ulturA (c pela linguagem , j:í que toda re presc n ração ocorre por ai·
né tica, econo m ia, a h istória d a ciência, jogo de cartas, ho m e ns e g um s istema d e linguagem ). Ta l :ú'imlação conduz à idé ia da "semiO-
mulhe res. vinbo , m e tro lo gia , exceto como um e srudo de Semió tica" sis", que seria a capacidade d e um signo ge rar o utro sig no , fo rmando
(afJud S:mtae ll a, o p . cit .: 2i) . Tal d eclantçáo, alé m de fazer eme nde r uma cadeia d e "interpretanres" na me nte dos indivíduos, num pro-
as pre te nsões hc ge m ô nicas e e nglobadoras dos defenso re s da Semi6· cesso infinito , cujo lim ite e staria na cultu ra e na bistoric idadc que
tlca , d á piStas d a diflcu ldade que é resumir a teoria dos s ignos de Pe ir· nos impõe o que e co mo pensa r e m cad a tempo, lugar e circunstàn·
(:e . Po r isso, are nho-me às suas principais c importantes co ntribuições

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J "~dla "'mujo

cia . O conceito de "semio se infinita" é o cerne de um d os postulados Lingü ística Geral e dese java aplicar a noção d e "siste ma de s igno s"
d a mode rna scmiologia, como se verá mais adiante. às represenraçõcs cole tivas, visando à sua desmistificação. Foi o mo-
A 5eb'\Jnda contribuiç-I.o a rt.'"Ssalrar localiza·se na noção de que mento e m que se introduziu a Serniologia como modo d e acesso à
"o ho me m é um produto d a linguage m , q ue ele se constitui e m suje i. análise d os discu rsos. As in nuê ndas mais marcantes fo rd.m o marxis·
tO pela linguagem, antecipa ndoconcepçÕ<..-s d a psicanâlise lacaniana e mo fr.mkfurtiano, O estruturalis mo lingüístico saussuria no e a hipó-
dos teórico s da análise dos discursos" (p. 2) . tese antropológica d e que todo fe nô me no cuhuraJ é um fen ô me no
Mas há um ou tro aspt:CtO a destacarem Peirce, que é sua preo- de comunicação. A questão q ue nesse período tinha relevância é :
cupa':,"Íio co m :t pragmálica. A tcoria de S:m ssure era bidimc nsional, "qual é o significado?" e se associava à preocu pação com as ideologias
corre laciona ndo ape nas sintaxe (d o mínio da combinaçl0 d os sigo d omina ntes. A id(..'Ologia era e ntendida como fal sa consciê ncia d a rea·
nos) c semântica (d o m ínio d a significação). Ele não se punha a ques- lidade, imposta pelas classes d o min:lntes.
tâo do poder de tr.ms formação dos signos sobre a realidade , questão A segunda Sem/o lo gia to mo u corpo e m 1964 , com a pub lica-
que preocupava Peirce, herdeiro d a tradição utilita rista no n e·ame ri. ção, no nU 4 da revista Commzmicatlons, d e "Ele mentos de Semio lo-
cana., que o leva a fo mlular a pergunta: "como oser humano percebe gia", também d e Banhes, que ele pre te nde q ue seja o manifesto d e
as cois as?". Tal pe rgunta resul ta na fo mlUlação d a noçâo de cbnheci· uma nova ciê n cia, com bases finOldas em Saussure, Jak.o bson e
me nto me ncionada, mas também o faz p ro por a p ragmá tica como a Hjelmslev2 1 e que d e veria ser a ciê ncia por excelê ncia da socied ad e.
te rceira dinu;:n.são a .ser consid e r.tda no estud o dos signos, aspecro Nesse proje to, e le conta com o apoio de Greimas , seu pai intelectual
tão a tual na t'e oria scmio ló gica quanto os a nterio res. e ade pto de uma Semió lica Geral como ciê ncia englo bado ra . Em
Re to ma ndo o que seria uma disputa entre a Semiótica e a Se· "Ele me ntos", levanta a poSSi bilidade d e inve n e r a p roposta de Saus-
mio logia, que ro ci tar a d efini ção que San taella dá de Semiót'ica: " ... é s ure de qu e a Lingüística seria p arte da Semio logia, divide o livro se-
a ciê ncia que te m por o bjeto d e investiWlção todas as lingu agens pos· gundo ru bricas a traíd as da Lingüística Estrutural e afirma que seu
síveis, ou seja, que re m por o bjetivo o exame dos modos de constitu i- objeti vo é "t irar da Lingüístict os conceilOs analíticos a respeito dos
ção de todo e qualqu er fe nôme no co mo fe nôme no de produção d e quais se pe nsa a prior; serem suficienteme nte gerais para permitir a
significação e d e sentido " (op. cil. : 13) . Ora, tal de finição descreve preparação d a pesquisa se mio lógica" (197 1: 13) .
ta mbé m a Semio logi:l . Q uero crer que as o bjeçõcs que Santaella faz Esse "m a nifesto " conhece um sucesso e no mlt: e transfo r-
localizam·se na natureza do corte saussuria no c nas concepçóes d a ma-se e m referê ncia obrigató ria para todos o s estudos semio ló gicos
fase estrutur:liista da Semio lo gia. Mas como ciência e m constante dos anos 60·70 . São tempos e m que a pergunta central da Semiologia
tl'3nsfo rmação e co nSTruíd a historicame nte no bo jo de movime ntos passa a ser: "como o significad o é produzido?" Essa f.tSC semio lógica
de c ritica e com est:lção, Semiologia e semiólogos acompanharam convive hoje com a terceira, como veremos mais adiante, ma nte ndo
seu te m po e revisaram criticame nte seus postu lados. Fala-se, ho je, a im ponância d a indagaçáo c de alguns dos seus pressupostos estru-
e m prime ira, segunda e terceira semio logias, e mbora a idenrificaçáo turalist:\S.
d os traços e o br.lS marcantes desses mo me ntos variem d e acordo Os anos 60-70 foram extremamente vigorosos p:lf'a a vida inte-
com a abordage m do auto r. lectual européia e principalmente para a fi-.mcesa. vários estudos semio-
É d ificil demarcar os limites d as fases por q ue passou a Semio- lógicos são levad os a cabo, publica·se muito , as teorias da c nunci:lção e
logia, o ra su perpostas, o ra em ruptura. O que se segue é a pe nas uma
a proximação, o bje tivando carac te rizar e m grandes linhas o processo
d e construção d os obje tos de inte resse d a discip lina. A primeira cor- 21 Hjchnslc:v roi um IIngü iSI:I. di nam:l.n:ju ês que levou ~ õlbord~gcm estnllural às
responde ria aos anos 50 , cuja obra emble mática é Mitologias, d e Ro- úhimu conSC<lúê ncias. ch<..'ga ndo ;a scpõlraf (I que: Saussure c,;oru;ider...... Inse:·
la nd Barthes, publicada em 19 57. Ele ac.!ba ra d e ler O Curso d e p:lli,wl. o s ignifica nte - q uede dc nomlnouJonllu dO!O!XfJressdo- e: o significa-
do _ /o n llu de cOllteúdo. Ne:sse movimento, accntua a abSIrnç;lO c ~ buSl.."lI da
e:;tnJ tura t: ctia a "glossc:: m:itM.:lI", d lsclplin."1 com as p ira~õcs hcge mo nlc:l.s.

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J "~dla "'mujo

cia . O conceito de "semio se infinita" é o cerne de um d os postulados Lingü ística Geral e dese java aplicar a noção d e "siste ma de s igno s"
d a mode rna scmiologia, como se verá mais adiante. às represenraçõcs cole tivas, visando à sua desmistificação. Foi o mo-
A 5eb'\Jnda contribuiç-I.o a rt.'"Ssalrar localiza·se na noção de que mento e m que se introduziu a Serniologia como modo d e acesso à
"o ho me m é um produto d a linguage m , q ue ele se constitui e m suje i. análise d os discu rsos. As in nuê ndas mais marcantes fo rd.m o marxis·
tO pela linguagem, antecipa ndoconcepçÕ<..-s d a psicanâlise lacaniana e mo fr.mkfurtiano, O estruturalis mo lingüístico saussuria no e a hipó-
dos teórico s da análise dos discursos" (p. 2) . tese antropológica d e que todo fe nô me no cuhuraJ é um fen ô me no
Mas há um ou tro aspt:CtO a destacarem Peirce, que é sua preo- de comunicação. A questão q ue nesse período tinha relevância é :
cupa':,"Íio co m :t pragmálica. A tcoria de S:m ssure era bidimc nsional, "qual é o significado?" e se associava à preocu pação com as ideologias
corre laciona ndo ape nas sintaxe (d o mínio da combinaçl0 d os sigo d omina ntes. A id(..'Ologia era e ntendida como fal sa consciê ncia d a rea·
nos) c semântica (d o m ínio d a significação). Ele não se punha a ques- lidade, imposta pelas classes d o min:lntes.
tâo do poder de tr.ms formação dos signos sobre a realidade , questão A segunda Sem/o lo gia to mo u corpo e m 1964 , com a pub lica-
que preocupava Peirce, herdeiro d a tradição utilita rista no n e·ame ri. ção, no nU 4 da revista Commzmicatlons, d e "Ele mentos de Semio lo-
cana., que o leva a fo mlular a pergunta: "como oser humano percebe gia", também d e Banhes, que ele pre te nde q ue seja o manifesto d e
as cois as?". Tal pe rgunta resul ta na fo mlUlação d a noçâo de cbnheci· uma nova ciê n cia, com bases finOldas em Saussure, Jak.o bson e
me nto me ncionada, mas também o faz p ro por a p ragmá tica como a Hjelmslev2 1 e que d e veria ser a ciê ncia por excelê ncia da socied ad e.
te rceira dinu;:n.são a .ser consid e r.tda no estud o dos signos, aspecro Nesse proje to, e le conta com o apoio de Greimas , seu pai intelectual
tão a tual na t'e oria scmio ló gica quanto os a nterio res. e ade pto de uma Semió lica Geral como ciê ncia englo bado ra . Em
Re to ma ndo o que seria uma disputa entre a Semiótica e a Se· "Ele me ntos", levanta a poSSi bilidade d e inve n e r a p roposta de Saus-
mio logia, que ro ci tar a d efini ção que San taella dá de Semiót'ica: " ... é s ure de qu e a Lingüística seria p arte da Semio logia, divide o livro se-
a ciê ncia que te m por o bjeto d e investiWlção todas as lingu agens pos· gundo ru bricas a traíd as da Lingüística Estrutural e afirma que seu
síveis, ou seja, que re m por o bjetivo o exame dos modos de constitu i- objeti vo é "t irar da Lingüístict os conceilOs analíticos a respeito dos
ção de todo e qualqu er fe nôme no co mo fe nôme no de produção d e quais se pe nsa a prior; serem suficienteme nte gerais para permitir a
significação e d e sentido " (op. cil. : 13) . Ora, tal de finição descreve preparação d a pesquisa se mio lógica" (197 1: 13) .
ta mbé m a Semio logi:l . Q uero crer que as o bjeçõcs que Santaella faz Esse "m a nifesto " conhece um sucesso e no mlt: e transfo r-
localizam·se na natureza do corte saussuria no c nas concepçóes d a ma-se e m referê ncia obrigató ria para todos o s estudos semio ló gicos
fase estrutur:liista da Semio lo gia. Mas como ciência e m constante dos anos 60·70 . São tempos e m que a pergunta central da Semiologia
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de c ritica e com est:lção, Semiologia e semiólogos acompanharam convive hoje com a terceira, como veremos mais adiante, ma nte ndo
seu te m po e revisaram criticame nte seus postu lados. Fala-se, ho je, a im ponância d a indagaçáo c de alguns dos seus pressupostos estru-
e m prime ira, segunda e terceira semio logias, e mbora a idenrificaçáo turalist:\S.
d os traços e o br.lS marcantes desses mo me ntos variem d e acordo Os anos 60-70 foram extremamente vigorosos p:lf'a a vida inte-
com a abordage m do auto r. lectual européia e principalmente para a fi-.mcesa. vários estudos semio-
É d ificil demarcar os limites d as fases por q ue passou a Semio- lógicos são levad os a cabo, publica·se muito , as teorias da c nunci:lção e
logia, o ra su perpostas, o ra em ruptura. O que se segue é a pe nas uma
a proximação, o bje tivando carac te rizar e m grandes linhas o processo
d e construção d os obje tos de inte resse d a discip lina. A primeira cor- 21 Hjchnslc:v roi um IIngü iSI:I. di nam:l.n:ju ês que levou ~ õlbord~gcm estnllural às
responde ria aos anos 50 , cuja obra emble mática é Mitologias, d e Ro- úhimu conSC<lúê ncias. ch<..'ga ndo ;a scpõlraf (I que: Saussure c,;oru;ider...... Inse:·
la nd Barthes, publicada em 19 57. Ele ac.!ba ra d e ler O Curso d e p:lli,wl. o s ignifica nte - q uede dc nomlnouJonllu dO!O!XfJressdo- e: o significa-
do _ /o n llu de cOllteúdo. Ne:sse movimento, accntua a abSIrnç;lO c ~ buSl.."lI da
e:;tnJ tura t: ctia a "glossc:: m:itM.:lI", d lsclplin."1 com as p ira~õcs hcge mo nlc:l.s.

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do discurso entram em cena, Bakmin e l'eirce são tr.tduzidos e trazi- qüência) . Estava preparado o terreno para uma terceira rase, na qual
dos à luz, a Análise do Discurso constitu i-se como método preferenci- a pergunta bisica passaria a ser: "como O sentido circula e é consu-
al da Scmio logia. Corrcspondem, estes anos, ao apogeu e ao declínio mido?"' Contribuíram baslante para essa nova possib ilidade episte-
do Estruturalismo. mológica as idéias do 016sofo alemão Wittgenslein (Teoria dos Jogos
Banhes, em plena repercussão positiva de "Elementos ... ", c das Palavras) e as de Austin , filóso fo inglês, estas expressas no seu
deixa esse território para Greimas e sua Se:miótica e busca Outros ru- artigo "Qlland dire c'es/ faire". POstulavam eles que a análise semio-
mos , Influenciado pelas idéias de Derrida, filósofo desconslrutivista, lógica deveria panir do concreto, do cotidiano das pessoas, da manei-
ra de f,dar.23
mas também por BaJ..win, cujas teses ele conhecera alrJvés de uma
aluna sua no CoUege de France, )u lia Kristeva.22 Depois de ter s ido No atual mo mento, ainda em cons trução, :I preocupação é
discípu lo aplicado de Hjelmslev, em 1977 e le afinna, na sua "Aula ~. o com os processos de recepção como produrores de sentido , enquan-
que seria a síntese dos direcionamentos que havia imprimido aos tO que no segundo privilegiar.tm-se os processos de produção dis-
seus trabalhos semiológicos nos anos anteriores: cursiva. Os estudos de recepçio surgiram e se firmaram em o urros
domínios, o da Cúmnumicatlun researcb , e estiveram sempre associa-
A f)'emlologia seria aquele lrabalboquf! n!COlbe o Impuro (llIlingllU, o refll'
go da ItngiilstlCll, a corrupção Imerllata (Ia mfmsagll'm, nada me/los que
dos à pesquisa funcional none-americana e aos âmbitos da sociolOgia,
os desejos, os temores. as carriS, as Inrlmldações, as aproxlllwfÓeS. as ler- da psicologia e da ciência polítka. Relegados a um plano secundário
,,,,rus, (J$ pm/eslOs, as desculpas. lU agn:ssões, lIS mús icas de que ~feila a no contexto de reação à hegemo nia americana, ressu rgem agora e n-
língua 1Ilfva. (p. ~2)
tre nós em outro cenário, o da interdisciplinaridade e da reabilitação
Saía assim do rígido formalismo e do objclivis mo abstrato da do receptor como sujeitO ativo. Uma das ciências que vêm sendo
análiSt: estrutural e abria a Semio logia para um tipo de análise que, sem convocadas para dar conta d esse "novo" objeto é a Semiologia, justa-
perder o rigor científico, incorporavd os I:ldos humano e his tó rico da mente por ter dado e5St: s:llto na direção de incorporar uma pr:lgmiti-
linguagem, jus to aqueles que h:lviam s ido considerados espúrios pela ca do discurso ao seu corpo teó rico e constituir-se como uma ciência
lingüística estruturalista. I;ez o que recomendara no pref:kio à edição da comunicação.
brasileira dos "Elementos ... ": Mas antecipo-me à segunda pane deste capítulo , em que
pretendo apontar e comentar os postulados da Scmio logia que se pra-
Por olllras palllura$, cumpre passar por eSles ElE},fENTOS mas tUIo se de-
ler /leles. Cada leilor dew "eproduzir em si o mo/}I",e"l() '''s/drlco que, a
tica hOje, mais especificamente da Semiologia dos Discursos Soci:lis.
Imrt/r destas baSRS "ecessdrlas. le'JQII a Semlo/agia rulo someme a apro- Passemos cnrJ.o a eles.
fundar-se (o que é "ormal), mas também a d/wrstjtcar-sc.[rQgme,uur.se e
alé mesmo co,,'radlzer-se (etllrar tiO campo fccUlulo das cotrlrml/çues),
l"" Sllma, expor·se.
Pos tulados
É então que a Semio logia acolhe as idé ias d e "significado dis-
sem inado espadalrnente", de "polifonia" (ou he terogeneidade d is- As idéias e conceitos que compõem o núcleo cCIlI r:11 da Se-
cursiva) , de "semiose infinita", de "dialogismo", reabilita o su je ito miologia dos Discursos Sociais poderiam ser abordados de múltiphts
:lIr:lvés da teoria da enunciação e passa:t considerar a histó ria como maneiras. Escolhi a proposta po r !'imo ( 1994 : 13-20) , que o rgan iza e
constitutiva dos sem idos (Iodos estes temas serão u-J.tad os na se- s intetiza em três postulados os "princípios teórico-epistemológicos

A his tória de Roland B~nhc:~ t:onfum.lt:-sc com a da Semiologla . Sc:nsrvd às t,m-


" d ê ncias do mundo intdt:ctu~J (rJncCs, com um espírito etern:unt;ntt; renova-
dor, t:r:I um scmioclasta convicto e nas suas virias fascs IUlou scmp~ co ntr.l
23 A "Filosofia da tingua~i:m do uso cOlkli~no H. cujo mc,~trc maior roi Wingcnstein
ronheceu grande ~uccsso. SeUl> :tdcplos rc:jdtam:a an:lllse: fonnaJ das c:5truru~
10(.13 fonn:a de esterc:Ó'\ipos, vendo m:h:~ o Km:anlO perverso d:a n:uur.didade". lingüístias c criem que a ch:a,'c do signific:ado csd nos usos pr:hio,."()s c ratu:ais
sob o qual silo pc:rpc:ru:adas as d om in3ç{lcs klcotógias. d:a lingu:agcm.

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do discurso entram em cena, Bakmin e l'eirce são tr.tduzidos e trazi- qüência) . Estava preparado o terreno para uma terceira rase, na qual
dos à luz, a Análise do Discurso constitu i-se como método preferenci- a pergunta bisica passaria a ser: "como O sentido circula e é consu-
al da Scmio logia. Corrcspondem, estes anos, ao apogeu e ao declínio mido?"' Contribuíram baslante para essa nova possib ilidade episte-
do Estruturalismo. mológica as idéias do 016sofo alemão Wittgenslein (Teoria dos Jogos
Banhes, em plena repercussão positiva de "Elementos ... ", c das Palavras) e as de Austin , filóso fo inglês, estas expressas no seu
deixa esse território para Greimas e sua Se:miótica e busca Outros ru- artigo "Qlland dire c'es/ faire". POstulavam eles que a análise semio-
mos , Influenciado pelas idéias de Derrida, filósofo desconslrutivista, lógica deveria panir do concreto, do cotidiano das pessoas, da manei-
ra de f,dar.23
mas também por BaJ..win, cujas teses ele conhecera alrJvés de uma
aluna sua no CoUege de France, )u lia Kristeva.22 Depois de ter s ido No atual mo mento, ainda em cons trução, :I preocupação é
discípu lo aplicado de Hjelmslev, em 1977 e le afinna, na sua "Aula ~. o com os processos de recepção como produrores de sentido , enquan-
que seria a síntese dos direcionamentos que havia imprimido aos tO que no segundo privilegiar.tm-se os processos de produção dis-
seus trabalhos semiológicos nos anos anteriores: cursiva. Os estudos de recepçio surgiram e se firmaram em o urros
domínios, o da Cúmnumicatlun researcb , e estiveram sempre associa-
A f)'emlologia seria aquele lrabalboquf! n!COlbe o Impuro (llIlingllU, o refll'
go da ItngiilstlCll, a corrupção Imerllata (Ia mfmsagll'm, nada me/los que
dos à pesquisa funcional none-americana e aos âmbitos da sociolOgia,
os desejos, os temores. as carriS, as Inrlmldações, as aproxlllwfÓeS. as ler- da psicologia e da ciência polítka. Relegados a um plano secundário
,,,,rus, (J$ pm/eslOs, as desculpas. lU agn:ssões, lIS mús icas de que ~feila a no contexto de reação à hegemo nia americana, ressu rgem agora e n-
língua 1Ilfva. (p. ~2)
tre nós em outro cenário, o da interdisciplinaridade e da reabilitação
Saía assim do rígido formalismo e do objclivis mo abstrato da do receptor como sujeitO ativo. Uma das ciências que vêm sendo
análiSt: estrutural e abria a Semio logia para um tipo de análise que, sem convocadas para dar conta d esse "novo" objeto é a Semiologia, justa-
perder o rigor científico, incorporavd os I:ldos humano e his tó rico da mente por ter dado e5St: s:llto na direção de incorporar uma pr:lgmiti-
linguagem, jus to aqueles que h:lviam s ido considerados espúrios pela ca do discurso ao seu corpo teó rico e constituir-se como uma ciência
lingüística estruturalista. I;ez o que recomendara no pref:kio à edição da comunicação.
brasileira dos "Elementos ... ": Mas antecipo-me à segunda pane deste capítulo , em que
pretendo apontar e comentar os postulados da Scmio logia que se pra-
Por olllras palllura$, cumpre passar por eSles ElE},fENTOS mas tUIo se de-
ler /leles. Cada leilor dew "eproduzir em si o mo/}I",e"l() '''s/drlco que, a
tica hOje, mais especificamente da Semiologia dos Discursos Soci:lis.
Imrt/r destas baSRS "ecessdrlas. le'JQII a Semlo/agia rulo someme a apro- Passemos cnrJ.o a eles.
fundar-se (o que é "ormal), mas também a d/wrstjtcar-sc.[rQgme,uur.se e
alé mesmo co,,'radlzer-se (etllrar tiO campo fccUlulo das cotrlrml/çues),
l"" Sllma, expor·se.
Pos tulados
É então que a Semio logia acolhe as idé ias d e "significado dis-
sem inado espadalrnente", de "polifonia" (ou he terogeneidade d is- As idéias e conceitos que compõem o núcleo cCIlI r:11 da Se-
cursiva) , de "semiose infinita", de "dialogismo", reabilita o su je ito miologia dos Discursos Sociais poderiam ser abordados de múltiphts
:lIr:lvés da teoria da enunciação e passa:t considerar a histó ria como maneiras. Escolhi a proposta po r !'imo ( 1994 : 13-20) , que o rgan iza e
constitutiva dos sem idos (Iodos estes temas serão u-J.tad os na se- s intetiza em três postulados os "princípios teórico-epistemológicos

A his tória de Roland B~nhc:~ t:onfum.lt:-sc com a da Semiologla . Sc:nsrvd às t,m-


" d ê ncias do mundo intdt:ctu~J (rJncCs, com um espírito etern:unt;ntt; renova-
dor, t:r:I um scmioclasta convicto e nas suas virias fascs IUlou scmp~ co ntr.l
23 A "Filosofia da tingua~i:m do uso cOlkli~no H. cujo mc,~trc maior roi Wingcnstein
ronheceu grande ~uccsso. SeUl> :tdcplos rc:jdtam:a an:lllse: fonnaJ das c:5truru~
10(.13 fonn:a de esterc:Ó'\ipos, vendo m:h:~ o Km:anlO perverso d:a n:uur.didade". lingüístias c criem que a ch:a,'c do signific:ado csd nos usos pr:hio,."()s c ratu:ais
sob o qual silo pc:rpc:ru:adas as d om in3ç{lcs klcotógias. d:a lingu:agcm.

'li '19
Innfla Aruújo

básicos d csta linha do pensamento 5emiológico". Cada poslu lado t"rapartida, nada no funcionam ento de uma sociedade é estmnho ao
propiciam o acesso a consid e rações sobre a peninéncia de um ccnú sentido (Verón, 1980: 192).
quadro conceitual para o objeto aqui estudado, alé m de pcnnitir a O sentido não pode se r isolado, congelado (como se pensa
localizaçáo, nesse quadro, d o s autores que me empreSlam s uas IC· em rc1ação ao significado) e também não pode ser tomado como um
ses. Antes, porém , quero fazer algumas considerações sobre certos o bjeto integral: o Que se convencionou chamar de "imerpretaçáo" é
pressupostos dessa abordagem semio lógica, com o ob jetivo de esta· uma tentativa de imobilização do sentido, especulat"iva e fugaz , que
belecer uma base de emendime lllo dos po stulados. se realiza a partir de o utras interpretações e tão logo acontece desen-
A concepção de Semiologia que passo a adOlar é a de "ciên- cadeia outros efeitos d e sentido, náo havendo gar.mtias a seu respei-
cia que estuda os fenô me nos sociais como fenômenos d e produção to. O st:ntido não é algo p:tlpá"el ou concreto ; por isto, convém
de sentidos". Para emendê-Ia é preciso uma remissão aos cQncei[Os ul.ilizar a expressão efeOos d e sentido. Sentidos sáo cfe ilos de troca
desenlidoe deprodllçiio dc scnlido . Mencionei, no ló pico amenor, a de Linguagens.
preocupação milenar com O proble ma do significado, que ocupou O sentido manifesta-se nos textos, ou nos discursos, por
0:10 só a Filosofia, mas também o utras ciências, entre elas a lingü ísti- uma ação do sujeito. Nessa afirmaçii.o, estão contidos os dois núdeos
ca, a Antropologia, a Etno logia, a Psicanálise e, desde seu surgimen- que constituem o objelo de interesse d as teorias que compõem a
ro, a Semiologia . A noçáo de significado, porém , rraz ho je uma carga atual Semiologia, a rcoria do sujeito e ;t teoria dos discursos sociais.
semântica associada a teorias e métodos que se deseja superar, mais Esta última, que também é cham ada teoria da produçi"to social do
espcdfic-.lmeme o método esrnlluralista de análise, qut! vê O signifi- sentidO, tem sua o rigem na obm de Michel Foucault e a teo ria do su-
cado localizado nas estrunlms, isoladas e imobilizadas pelo analista. jeito baseia-se na teoria da enunciação de Émile Benvenist"e .
Significado, assi.m, carrega a idéi:l d e algo pramo, cris talizado e ima- A teoria dos discursos sociais trabalha com o s processos d e
neme, isto é, de que cada objeto possui um s ignificado estáve l, pró- cons tituição d o discurso, que pode ser definido como o lugar do tra.
prio , que indepcnde das circunstâncias. Essa idéia, como já se viu, é b:t1ho social de produção do sentido. O discurso não é um o bjeto,
herança da lingüística saussuriana, estando intimamente associada não se limita às possibilidades de articulaçáo de conceitos isolados
ao conceito de sigilo. A Se mio logia propõe o tennosetllido e preten- da língua, não é O reflexo de uma situaçÃO. Antes, configura-se como
de semantiz:.í-Lo com os arribulOS que percebe nos fen ômenos sociais: um:t prática: a pritlCll discurs iva. Nas pal:avr.ls de Fouc:lult,
a plur:llidade, o dinamismo e a propriedade de se constitu ir a cada gosta,.Ia de mO$/rtl,.f/11I! ()S "dlscllrs()s" ( ... ) 'II'U sdu 11111 /}IIm e simples e1l-
situação de comunicação. Na perspect iva. do sentido, o que realmen- /rec"aall/erllo decolsase/I<l/fw ras: Iram" ooscllru dus col$as. cadeia ma-
te importa é o processo. não a estrutura. Decorrentes d essa natureza rlife~fa, llisil!el e co/orltla das p u/m,ras; goSftlrlf' tlc m ()slrur lflle Q discl/r"$O
"ao é .ml(' e5lrellil slllJCrJ"fclctle C{JIlf(ltO, ou tleCOllfroll/O, el/tre rmm reall.
dinâmica do conceito são os re rmos produção de !ienlído e efcltos de dade c lima Ifn8ua. o IlIIrl'lCamlmlo ~lfre mn léxico e lima experiimcia;
sem/do. gostaria de mostrar, fJQr melo ,I" e:remplos precisos, que, mmllsando os
Os sentidos n:1o estão prontos nos objetos o u nas p:tlavr.ls, próprios discursus. Ilf!rIIOS se ,Iesfazvrem os laços upDrerltememe Itlo f ortes
e"lre as /XIlauras fi as coisas, e destacar-se 11m co,ljllmQ de regras, prOprias
repito. Mas também não nascem d o nada, espontaneamente. Eles da prdtica discursiva. Essas reJIrtls defiliem IldQ a exls/éllcl" mllda de
são produzidos em cada ato verbal , na co-presença dos sujcilOS, em- lima realMade, //Iio o uso ctlt/{mloo ,Ie 11m IJQCablllárlo, mas o reglmedm
bora a ele náo se restrinjam. As relaçóc::s sociais, que sâo o locus da objetos. "As pt)!twrase flS colsus" éo tftlllo _ sério _de um problema : e ti. °
til/O - ir(;lIioo - do traballJO lfl.e lhe modifica a/unlUl, lhe ,lesloco os da-
produção de sentido, ocorrem e m determinadas condiçõcs hislóri- dus e revela, afiliaI da CO II/US, lima larefa imelrnmellto1 difereme, qll"
cas, cu lturais e políticas e sáo mediadas po r instituições, umas e o u- COIIS/Sle em m"io mais tratar us tl/SCl/rsus rumo COlljmllO de SigilOS (e/e-
lr.IS exercendo coerções sobre o processo de significação. Pode-se memos sigrrljlcu"les f/lle remetem a c01lf"údus 011 "1"cscnlaçóes), mas
rumo práticas que formam s/Slemalicallletlle os obje/os de que falam.
dize r, então, Que o sentido é produto do "trabalho social". Em con- ( 1986: 56)

12. 'lO
Innfla Aruújo

básicos d csta linha do pensamento 5emiológico". Cada poslu lado t"rapartida, nada no funcionam ento de uma sociedade é estmnho ao
propiciam o acesso a consid e rações sobre a peninéncia de um ccnú sentido (Verón, 1980: 192).
quadro conceitual para o objeto aqui estudado, alé m de pcnnitir a O sentido não pode se r isolado, congelado (como se pensa
localizaçáo, nesse quadro, d o s autores que me empreSlam s uas IC· em rc1ação ao significado) e também não pode ser tomado como um
ses. Antes, porém , quero fazer algumas considerações sobre certos o bjeto integral: o Que se convencionou chamar de "imerpretaçáo" é
pressupostos dessa abordagem semio lógica, com o ob jetivo de esta· uma tentativa de imobilização do sentido, especulat"iva e fugaz , que
belecer uma base de emendime lllo dos po stulados. se realiza a partir de o utras interpretações e tão logo acontece desen-
A concepção de Semiologia que passo a adOlar é a de "ciên- cadeia outros efeitos d e sentido, náo havendo gar.mtias a seu respei-
cia que estuda os fenô me nos sociais como fenômenos d e produção to. O st:ntido não é algo p:tlpá"el ou concreto ; por isto, convém
de sentidos". Para emendê-Ia é preciso uma remissão aos cQncei[Os ul.ilizar a expressão efeOos d e sentido. Sentidos sáo cfe ilos de troca
desenlidoe deprodllçiio dc scnlido . Mencionei, no ló pico amenor, a de Linguagens.
preocupação milenar com O proble ma do significado, que ocupou O sentido manifesta-se nos textos, ou nos discursos, por
0:10 só a Filosofia, mas também o utras ciências, entre elas a lingü ísti- uma ação do sujeito. Nessa afirmaçii.o, estão contidos os dois núdeos
ca, a Antropologia, a Etno logia, a Psicanálise e, desde seu surgimen- que constituem o objelo de interesse d as teorias que compõem a
ro, a Semiologia . A noçáo de significado, porém , rraz ho je uma carga atual Semiologia, a rcoria do sujeito e ;t teoria dos discursos sociais.
semântica associada a teorias e métodos que se deseja superar, mais Esta última, que também é cham ada teoria da produçi"to social do
espcdfic-.lmeme o método esrnlluralista de análise, qut! vê O signifi- sentidO, tem sua o rigem na obm de Michel Foucault e a teo ria do su-
cado localizado nas estrunlms, isoladas e imobilizadas pelo analista. jeito baseia-se na teoria da enunciação de Émile Benvenist"e .
Significado, assi.m, carrega a idéi:l d e algo pramo, cris talizado e ima- A teoria dos discursos sociais trabalha com o s processos d e
neme, isto é, de que cada objeto possui um s ignificado estáve l, pró- cons tituição d o discurso, que pode ser definido como o lugar do tra.
prio , que indepcnde das circunstâncias. Essa idéia, como já se viu, é b:t1ho social de produção do sentido. O discurso não é um o bjeto,
herança da lingüística saussuriana, estando intimamente associada não se limita às possibilidades de articulaçáo de conceitos isolados
ao conceito de sigilo. A Se mio logia propõe o tennosetllido e preten- da língua, não é O reflexo de uma situaçÃO. Antes, configura-se como
de semantiz:.í-Lo com os arribulOS que percebe nos fen ômenos sociais: um:t prática: a pritlCll discurs iva. Nas pal:avr.ls de Fouc:lult,
a plur:llidade, o dinamismo e a propriedade de se constitu ir a cada gosta,.Ia de mO$/rtl,.f/11I! ()S "dlscllrs()s" ( ... ) 'II'U sdu 11111 /}IIm e simples e1l-
situação de comunicação. Na perspect iva. do sentido, o que realmen- /rec"aall/erllo decolsase/I<l/fw ras: Iram" ooscllru dus col$as. cadeia ma-
te importa é o processo. não a estrutura. Decorrentes d essa natureza rlife~fa, llisil!el e co/orltla das p u/m,ras; goSftlrlf' tlc m ()slrur lflle Q discl/r"$O
"ao é .ml(' e5lrellil slllJCrJ"fclctle C{JIlf(ltO, ou tleCOllfroll/O, el/tre rmm reall.
dinâmica do conceito são os re rmos produção de !ienlído e efcltos de dade c lima Ifn8ua. o IlIIrl'lCamlmlo ~lfre mn léxico e lima experiimcia;
sem/do. gostaria de mostrar, fJQr melo ,I" e:remplos precisos, que, mmllsando os
Os sentidos n:1o estão prontos nos objetos o u nas p:tlavr.ls, próprios discursus. Ilf!rIIOS se ,Iesfazvrem os laços upDrerltememe Itlo f ortes
e"lre as /XIlauras fi as coisas, e destacar-se 11m co,ljllmQ de regras, prOprias
repito. Mas também não nascem d o nada, espontaneamente. Eles da prdtica discursiva. Essas reJIrtls defiliem IldQ a exls/éllcl" mllda de
são produzidos em cada ato verbal , na co-presença dos sujcilOS, em- lima realMade, //Iio o uso ctlt/{mloo ,Ie 11m IJQCablllárlo, mas o reglmedm
bora a ele náo se restrinjam. As relaçóc::s sociais, que sâo o locus da objetos. "As pt)!twrase flS colsus" éo tftlllo _ sério _de um problema : e ti. °
til/O - ir(;lIioo - do traballJO lfl.e lhe modifica a/unlUl, lhe ,lesloco os da-
produção de sentido, ocorrem e m determinadas condiçõcs hislóri- dus e revela, afiliaI da CO II/US, lima larefa imelrnmellto1 difereme, qll"
cas, cu lturais e políticas e sáo mediadas po r instituições, umas e o u- COIIS/Sle em m"io mais tratar us tl/SCl/rsus rumo COlljmllO de SigilOS (e/e-
lr.IS exercendo coerções sobre o processo de significação. Pode-se memos sigrrljlcu"les f/lle remetem a c01lf"údus 011 "1"cscnlaçóes), mas
rumo práticas que formam s/Slemalicallletlle os obje/os de que falam.
dize r, então, Que o sentido é produto do "trabalho social". Em con- ( 1986: 56)

12. 'lO
Complexificando o conceito, Foucault afirma que a prática logia d os Disc ursos Sociais. O outro aspecto é o d a existê ncia de um
discursiV'd. é "aparelho formal d:1 enunciação", formas grdmat icais que revelam a
11", ronjwl/O (Ie regras mlúulmas, bistórlcas, sempre del ... mrllladas 1/0 rclaç:io d o locutor com a língua e com O seu dizer e marcam sua posi-
tempo e 110 I.'spaço, quc(lejlnlmlll, em 111110 dada época c para lima dele,.. ção d iscursiva . Essas marcas da enunciação são i"dividuos lingüís-
mil/ada óri.'u soda/. cwnõmica. seusrdfica ou /illgiiisllcu, as cOl/diçQes ticos: pronomes pessoais e demo ns trativos, tempos e modalidades
de excrdcio daflmção ellwrciatil-'a. (idem : 136)
ve rbais, formas de im imação, interrogação, advé rbios de modo, as-
Percebe·se aqui claramente q ue o discurso depende das re- serçõcs que só adq uirem sentido no momento da enunciação, a cada
des d e memó ria e das suas condições histó ricas de produção, mas enunciação e sempre em re lação ao "aqui e agora" d o locutor.
cada ato d iscursivo é ú nico e desestabiliza em certa medida tais coer- O aro de dizer, então. é individual, mas o processo é social. É
ções, en tre outras razões, pela ação que nele exerce o sujeito . Daí a impossível ao suje iro desvencilhar-se das coerções, sejam e las histó-
Semio logia ter, como sua o utra verte nte , uma teoria do sujeito , mais ricas. culturais o u sociais, porque só h:i sentido dentro d essa ord e m.
precisamente a teoria d a e nunciação, fo mlUlada o riginalme nte por Nenhuma enunciação ocorre d esvinculada do jogo social, constata-
Benveniste. ção que leva Verón a afirmar:
Vimos com Foucault que o discurso fo nna os objetos que t."rltrekJçadfJ por toda pa rte às opcraç()es (liscur.duas, afetando a f(}(/o i'ls-
f,d a, significando isto que o sentido d os o bjetos é constituído pe lo lall/e o próprio tI/(lfer/allexical, o dfsj><JI/llvo de elllmclaçãu é essu rede
de traçus pela q/lal o jmagimírio da JUstúria uem e,L.ertar-se em estrutu-
discurso. Mas ele fonna também os sujeitos e essa é uma idéia que se rações delermlnadas da ordem slmb6l1ca. ( 1!mO: 204)
choca com a concepção d e que é osujeito que d etermina od iscurso.
Pêche u.x refere-se à ilusáo da autonomia do s uje ito como um efeito Podcr-se-ia dizer, então, que a Semio logia opera com uma
ideológico, que e le deno mina efeito -sujeitO. Atra\""és desse m<.-canis- t"eoria não-subjeriva do sujeito. 24 Um o ut"ro pressupoS(Q da aborda-
mo, o sujeito imagina-se fonte d o se ntid o do que diz, e mbo ra esteja gem semiológica diz res peito à concepção de linguagem . Confonne
apenas retomando sentidos preexlstemes (Orlandi, 1993: 69) . argumentei antes, os modelos corre ntes de comun icação vêem a lin-
Já a pragmát ica do discurso concede ao sujeito a preeminên- guagem como o espaço d e comunhão, d e interação , idé ia que está
cia na produção do sentido, ao localizá-lo no ajuste da interpretação associada à da possibilidade de ajuste harmônico e dur.tdo uro e ntre
e ntre imerlocutores e dar ao sujeito o estatuto de ce nrro dos proro- emissor e receptor e d e controle exercido pelo e missor sobre seu
colos d iscurs ivos. discu rso. A Semio logia opera com o utro par-ddigma, com o rigem na
A teoria da e nunciação, tal como ho je é aceita e praticada, filosofia d e Mikhail Bakthin , que emende a língua como o espaço
lenla uma concillação entre as duas pOSnH"l.lS. De rato. como esclare- ond e se d ão os e mbates de sentido . F.m b:lI"t"", sim , pois a linguagem é
ceu Benveni stc, o único modo de fazer o discurso funcionar é pel:! resu ltante de uma disputa permanente de sentido entre os atores so-
intervenção do suj cit"o, que nele investe sua subjetividade. Ele defin e ciais, construindo-se no uso social , culrural e historicamcm e deter-
:t e nunciaçÃO como O "colocar em fundonamemo a língua por um minado . Os d iscu rsos seriam , então, espaços de conrronto, noção
atO individual d e utiliz'lÇão" (1989: 82) , mas deixa claro que é no atu extre mamente importante para este trabalho , pois está na base d e
enunciativo que o sujeito secons tirui, e não apenas a s i, sujeito locu- uma de suas hi póteses centrais, a da existê ncia de discu rsos concor-
tor, mas também ao su jcito-alocut:irio . Em outras pala\'ras, define rentes no meio rural .
não só a pOsição do Eu , mas também a do Tu. "Toda e nunci:tção é,
cxplicita ou im p licitamente uma alocução, ela postu la um alocutá-
rio" (idem:84) . Par:I Benvcniste , "o que e m geral caracteriza a enun- 24 ... d iscussão sobre :I. n:l.lureza do ~ulel lo envol\'e cemmenle multíSlSlmo mais
collslderaçÔC$quc as que loram aqui arregimcllIadu. P;tr1l um aprofundamc:nto
ciação é a acenruação da relação discursiva com o parceiro" (idem: no iimbito da teoria do discul'5O, Jl>(Xk-.St: consult:&f" Paul H enry, no ~rtlgo 11ltru-
87), e este é um dos aspectos de sua {c::oria que sio retidos pela Semio- dUlÓrio do li\'l"O Por uma a'lóliseaulo"uJtlru do discurso _ Uma lmroduçio 2
obra d e Mlchd r k heux ( 1990).

'22 '"
Complexificando o conceito, Foucault afirma que a prática logia d os Disc ursos Sociais. O outro aspecto é o d a existê ncia de um
discursiV'd. é "aparelho formal d:1 enunciação", formas grdmat icais que revelam a
11", ronjwl/O (Ie regras mlúulmas, bistórlcas, sempre del ... mrllladas 1/0 rclaç:io d o locutor com a língua e com O seu dizer e marcam sua posi-
tempo e 110 I.'spaço, quc(lejlnlmlll, em 111110 dada época c para lima dele,.. ção d iscursiva . Essas marcas da enunciação são i"dividuos lingüís-
mil/ada óri.'u soda/. cwnõmica. seusrdfica ou /illgiiisllcu, as cOl/diçQes ticos: pronomes pessoais e demo ns trativos, tempos e modalidades
de excrdcio daflmção ellwrciatil-'a. (idem : 136)
ve rbais, formas de im imação, interrogação, advé rbios de modo, as-
Percebe·se aqui claramente q ue o discurso depende das re- serçõcs que só adq uirem sentido no momento da enunciação, a cada
des d e memó ria e das suas condições histó ricas de produção, mas enunciação e sempre em re lação ao "aqui e agora" d o locutor.
cada ato d iscursivo é ú nico e desestabiliza em certa medida tais coer- O aro de dizer, então. é individual, mas o processo é social. É
ções, en tre outras razões, pela ação que nele exerce o sujeito . Daí a impossível ao suje iro desvencilhar-se das coerções, sejam e las histó-
Semio logia ter, como sua o utra verte nte , uma teoria do sujeito , mais ricas. culturais o u sociais, porque só h:i sentido dentro d essa ord e m.
precisamente a teoria d a e nunciação, fo mlUlada o riginalme nte por Nenhuma enunciação ocorre d esvinculada do jogo social, constata-
Benveniste. ção que leva Verón a afirmar:
Vimos com Foucault que o discurso fo nna os objetos que t."rltrekJçadfJ por toda pa rte às opcraç()es (liscur.duas, afetando a f(}(/o i'ls-
f,d a, significando isto que o sentido d os o bjetos é constituído pe lo lall/e o próprio tI/(lfer/allexical, o dfsj><JI/llvo de elllmclaçãu é essu rede
de traçus pela q/lal o jmagimírio da JUstúria uem e,L.ertar-se em estrutu-
discurso. Mas ele fonna também os sujeitos e essa é uma idéia que se rações delermlnadas da ordem slmb6l1ca. ( 1!mO: 204)
choca com a concepção d e que é osujeito que d etermina od iscurso.
Pêche u.x refere-se à ilusáo da autonomia do s uje ito como um efeito Podcr-se-ia dizer, então, que a Semio logia opera com uma
ideológico, que e le deno mina efeito -sujeitO. Atra\""és desse m<.-canis- t"eoria não-subjeriva do sujeito. 24 Um o ut"ro pressupoS(Q da aborda-
mo, o sujeito imagina-se fonte d o se ntid o do que diz, e mbo ra esteja gem semiológica diz res peito à concepção de linguagem . Confonne
apenas retomando sentidos preexlstemes (Orlandi, 1993: 69) . argumentei antes, os modelos corre ntes de comun icação vêem a lin-
Já a pragmát ica do discurso concede ao sujeito a preeminên- guagem como o espaço d e comunhão, d e interação , idé ia que está
cia na produção do sentido, ao localizá-lo no ajuste da interpretação associada à da possibilidade de ajuste harmônico e dur.tdo uro e ntre
e ntre imerlocutores e dar ao sujeito o estatuto de ce nrro dos proro- emissor e receptor e d e controle exercido pelo e missor sobre seu
colos d iscurs ivos. discu rso. A Semio logia opera com o utro par-ddigma, com o rigem na
A teoria da e nunciação, tal como ho je é aceita e praticada, filosofia d e Mikhail Bakthin , que emende a língua como o espaço
lenla uma concillação entre as duas pOSnH"l.lS. De rato. como esclare- ond e se d ão os e mbates de sentido . F.m b:lI"t"", sim , pois a linguagem é
ceu Benveni stc, o único modo de fazer o discurso funcionar é pel:! resu ltante de uma disputa permanente de sentido entre os atores so-
intervenção do suj cit"o, que nele investe sua subjetividade. Ele defin e ciais, construindo-se no uso social , culrural e historicamcm e deter-
:t e nunciaçÃO como O "colocar em fundonamemo a língua por um minado . Os d iscu rsos seriam , então, espaços de conrronto, noção
atO individual d e utiliz'lÇão" (1989: 82) , mas deixa claro que é no atu extre mamente importante para este trabalho , pois está na base d e
enunciativo que o sujeito secons tirui, e não apenas a s i, sujeito locu- uma de suas hi póteses centrais, a da existê ncia de discu rsos concor-
tor, mas também ao su jcito-alocut:irio . Em outras pala\'ras, define rentes no meio rural .
não só a pOsição do Eu , mas também a do Tu. "Toda e nunci:tção é,
cxplicita ou im p licitamente uma alocução, ela postu la um alocutá-
rio" (idem:84) . Par:I Benvcniste , "o que e m geral caracteriza a enun- 24 ... d iscussão sobre :I. n:l.lureza do ~ulel lo envol\'e cemmenle multíSlSlmo mais
collslderaçÔC$quc as que loram aqui arregimcllIadu. P;tr1l um aprofundamc:nto
ciação é a acenruação da relação discursiva com o parceiro" (idem: no iimbito da teoria do discul'5O, Jl>(Xk-.St: consult:&f" Paul H enry, no ~rtlgo 11ltru-
87), e este é um dos aspectos de sua {c::oria que sio retidos pela Semio- dUlÓrio do li\'l"O Por uma a'lóliseaulo"uJtlru do discurso _ Uma lmroduçio 2
obra d e Mlchd r k heux ( 1990).

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Por out'ro lado , assume-se que a linguagem também condido- ·'mostrada". A constitutivo. designaria as \--ozes implícitas no discurso,
na a visão de mundo, o u seja, produz o real, idéia que se contrapõe à aquelas que se o riginam na história, na culrur.J. e que podem ser
mais comumente ado tada, de que ela ape nas a expressa. Esta última identificadas pelo estudo das condições d e produção discu rsiva. A
é uma concepção utilitarista da língua, que a percebe como exterior consthuinte se riam as vozes explíci tas, que se "mostram" na. supem-
ao sujeito, quando sujeito e linguagem encontram-se nUTna comple- cie lexrual. "Heterogeneidade const irutiva d o d iscurso e heterogenei-
xa re laÇio cxterior/inrcrior. A hipótese da narurcz.1 culrur.ll da lin- dade mostmda do discurso representam duas ordens de realidade
guagem, associada à da sua função modeladora da visão d e mundo, diferentes: a d os pr<x:essos reais de constituição de um discurso e a
que fOi ado tada amplamente por Barthes e todos os demais sem iólo- dos p rocessos n:l0 menos reais, de representação, num discurso , de
gos d e segunda e terceira ger.lções, esrá fundada nos trabalhos de sua constitu ição" (idem : 32). A const itutiVoI exerceria uma força d esa.
EdW'.trd Sapir e Benj:lrnln Lee Whorf. Segundo eles, a estrutura da gregadora na ilusão de a uto nomia do sujeiro sobre o discurso e man-
linguagem d e uma cultura detennina o comportame nto e os hábitos teria um processo d e "negociação- com as form a.s mostroldas da
de pe nsame ntO nessa cu ltura . hetero geneidade, estas exercendo a função de "proteção" do efeito
Po r fim , considemr a linguagem como locus de construçáo de unidade e de subjetividade. .
do real também impl ica colocá·la no cerne da teoria d o poder s imbó- Considerarei aqui os termos "polifo nia" e "he teroge neida-
lico, cUja prem issa é a de que os agentes soc iais disputam o poder de de" como equivalentes, ambos referindo-se à pluralidade de vozes
estabelecer as catego rias de percepção e de no meação das coisas do que constiruem os discursos, à revelia ou não dos locutores. A abor-
mundo, ou se ja, de cons truir o real. dage m possibilit:tda pe lo modelo comunicacional remete para a aná-
Passemos, entre tanto, aos postu lados da Semio logia dos lise das intenções de comunicação versus o e feito provocado . A idéia
Discursos Sociais. de polifonia conduz ao exame das vozes que constituem os discursos
circulantes no meio rural e como s ua articulação produz sentidos. O
mapeamento das vozes constitutivas pen nite sair da análise de certa
A beterogeneidade elllwciativa fomla maniqu eíst:l, que vê manipu lação ideo lógica o u adesão solidá.
ria à cau sa dos receptores nas pniLicas discursivas, e perceber que
A questão de fundo deste postu lado é a da natureza d o sujei- cada discurso trn: e m s i as marcas do já vivido , já dilO, já escrito: que
to, cu ja u nicidade e auto nomia d iscursiva a Semiologia põe em cau- histó ria, quI.! cu ltura ali se expressam e que tipo de coerções exer-
sa. Comr... a id éia ainda dominanle de que a pessoa que fala é cem sobre o o utro conjunto de vozes, aquelas visíveis na s uperficie
totalmenre responsáve l pelas re presenrac;6es du seu d iscurso, a Se· do texto . Por sua \"ez, a análi.st: da he teroge neidade cons tituinte pos-
miologia propõe um a OUtm, a de que o discurso é composto por d i- sibilita entender a pluralidade d e s ujeitos (Iue habitam e cons uoem
versas vozes, cujos consciência e co ntrole escapam em parte ao cada ato d iscursivo, pcrspectiV'.J. bem mais rica do que aquela basea-
locuto r e que se manifestam em cada atO enunciativo. Aessa caracte· da nos moldes clássicos da comu n icação, que reduze m os s ujeitOS à
rística discursiva Bakthin deno mino u polifonia: cada fala, cada figura d o emissor I.! estabelecem uma reJaç"io ins trume ntalista e "me-
dnica entre ele c a língua .
e nunciação, é palco de expressão de uma mu ltiplicidade d e vozes,
algumas arregimentadas intencionalmente pelo IOCUlor e o utras das A categoria qut! está no cerne do conceito d e polifonia é a al-
quais e le não se d á conta . teridade, a figu rol do Outro, que é cons titutiva do sujei to . A relação
Po r divergências quanto ao es tatuto do su jeito nas teses do Eu com o O utra é profunda e indissoci:ivcl. Bakthin propôs O ter.
baklhin ianas, Auth ier-Revuz prop6s o termo "heterogeneidade enun· mo dtll/ogismo para dar coma dessa rdaçiio, em que o Eu SÓ se cons·
datiV'.J." para designara polifonia discursiva, distinguindo entre:1 hete- titul pela existê ncia d o Ou tro, em diálogo com o O utro. !)ar.l ele,
rogeneidade constirutiva e a constituinte, esta também chamada de aquela é uma catego ria ontológica: ou se é dialógico, ou não .st: é. O

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Por out'ro lado , assume-se que a linguagem também condido- ·'mostrada". A constitutivo. designaria as \--ozes implícitas no discurso,
na a visão de mundo, o u seja, produz o real, idéia que se contrapõe à aquelas que se o riginam na história, na culrur.J. e que podem ser
mais comumente ado tada, de que ela ape nas a expressa. Esta última identificadas pelo estudo das condições d e produção discu rsiva. A
é uma concepção utilitarista da língua, que a percebe como exterior consthuinte se riam as vozes explíci tas, que se "mostram" na. supem-
ao sujeito, quando sujeito e linguagem encontram-se nUTna comple- cie lexrual. "Heterogeneidade const irutiva d o d iscurso e heterogenei-
xa re laÇio cxterior/inrcrior. A hipótese da narurcz.1 culrur.ll da lin- dade mostmda do discurso representam duas ordens de realidade
guagem, associada à da sua função modeladora da visão d e mundo, diferentes: a d os pr<x:essos reais de constituição de um discurso e a
que fOi ado tada amplamente por Barthes e todos os demais sem iólo- dos p rocessos n:l0 menos reais, de representação, num discurso , de
gos d e segunda e terceira ger.lções, esrá fundada nos trabalhos de sua constitu ição" (idem : 32). A const itutiVoI exerceria uma força d esa.
EdW'.trd Sapir e Benj:lrnln Lee Whorf. Segundo eles, a estrutura da gregadora na ilusão de a uto nomia do sujeiro sobre o discurso e man-
linguagem d e uma cultura detennina o comportame nto e os hábitos teria um processo d e "negociação- com as form a.s mostroldas da
de pe nsame ntO nessa cu ltura . hetero geneidade, estas exercendo a função de "proteção" do efeito
Po r fim , considemr a linguagem como locus de construçáo de unidade e de subjetividade. .
do real também impl ica colocá·la no cerne da teoria d o poder s imbó- Considerarei aqui os termos "polifo nia" e "he teroge neida-
lico, cUja prem issa é a de que os agentes soc iais disputam o poder de de" como equivalentes, ambos referindo-se à pluralidade de vozes
estabelecer as catego rias de percepção e de no meação das coisas do que constiruem os discursos, à revelia ou não dos locutores. A abor-
mundo, ou se ja, de cons truir o real. dage m possibilit:tda pe lo modelo comunicacional remete para a aná-
Passemos, entre tanto, aos postu lados da Semio logia dos lise das intenções de comunicação versus o e feito provocado . A idéia
Discursos Sociais. de polifonia conduz ao exame das vozes que constituem os discursos
circulantes no meio rural e como s ua articulação produz sentidos. O
mapeamento das vozes constitutivas pen nite sair da análise de certa
A beterogeneidade elllwciativa fomla maniqu eíst:l, que vê manipu lação ideo lógica o u adesão solidá.
ria à cau sa dos receptores nas pniLicas discursivas, e perceber que
A questão de fundo deste postu lado é a da natureza d o sujei- cada discurso trn: e m s i as marcas do já vivido , já dilO, já escrito: que
to, cu ja u nicidade e auto nomia d iscursiva a Semiologia põe em cau- histó ria, quI.! cu ltura ali se expressam e que tipo de coerções exer-
sa. Comr... a id éia ainda dominanle de que a pessoa que fala é cem sobre o o utro conjunto de vozes, aquelas visíveis na s uperficie
totalmenre responsáve l pelas re presenrac;6es du seu d iscurso, a Se· do texto . Por sua \"ez, a análi.st: da he teroge neidade cons tituinte pos-
miologia propõe um a OUtm, a de que o discurso é composto por d i- sibilita entender a pluralidade d e s ujeitos (Iue habitam e cons uoem
versas vozes, cujos consciência e co ntrole escapam em parte ao cada ato d iscursivo, pcrspectiV'.J. bem mais rica do que aquela basea-
locuto r e que se manifestam em cada atO enunciativo. Aessa caracte· da nos moldes clássicos da comu n icação, que reduze m os s ujeitOS à
rística discursiva Bakthin deno mino u polifonia: cada fala, cada figura d o emissor I.! estabelecem uma reJaç"io ins trume ntalista e "me-
dnica entre ele c a língua .
e nunciação, é palco de expressão de uma mu ltiplicidade d e vozes,
algumas arregimentadas intencionalmente pelo IOCUlor e o utras das A categoria qut! está no cerne do conceito d e polifonia é a al-
quais e le não se d á conta . teridade, a figu rol do Outro, que é cons titutiva do sujei to . A relação
Po r divergências quanto ao es tatuto do su jeito nas teses do Eu com o O utra é profunda e indissoci:ivcl. Bakthin propôs O ter.
baklhin ianas, Auth ier-Revuz prop6s o termo "heterogeneidade enun· mo dtll/ogismo para dar coma dessa rdaçiio, em que o Eu SÓ se cons·
datiV'.J." para designara polifonia discursiva, distinguindo entre:1 hete- titul pela existê ncia d o Ou tro, em diálogo com o O utro. !)ar.l ele,
rogeneidade constirutiva e a constituinte, esta também chamada de aquela é uma catego ria ontológica: ou se é dialógico, ou não .st: é. O

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'"
["e~if.. Armijo A tVeQ"versdo do olbar

dialogismo é a rede interativa q ue articula as vozt:S de um discu rso, é enunciação um locutor t: um enunciador. O locutor seria aquele que
o jogo das diferenças e d as relações: emre sujeitos do mesmo texto. se a presenta como responsável pelo enunciado, categoria que elt:
M

emre enunciados, cnLre textos, enue [e.'Cto e COntexto e assim por dian- sulxlivide em "falante e -' Iocuto r", ainda admitindo que o locumr
le. pode apresentar-se como "locutor propriamente dito" e "locutor en-
Os modelos dialó gicos e m voga na prática comunicativa no quanto pessoa no mundo ".
m e io rural e nte nde m o diálogo - que também ocupa lugar centrdl - Assumirei aqui a seguinte classificação, quanto aos sujeitos
de uma forma dife rente , no sentido comum do tenno: duas ou m:lis que constituem o discurso:26
pessoas em processo de [roca ou interlocução. O diálogo é provoca- • sujeitada enunciaçáo - é a imagem daquele que se apre."ema
do pelos su jeitos, que preexistem ao discurso e seu desenrolar pode como emissor, como responsável pelo discurso . No nível da prd[ica
ser controbdo. Ser dialógico é uma opção política e supõe critérios discursiva no meio rural. em muitos casos este sujeito coincide com
de equanimidade . Para nossa Semiologia o dialógico estabelece-se o emissor real, Que nem sempre é o que produz o suporte discursi-
em outra instância, a da estrururação dos discursos. E - diferença vo, mas aquele que o faz circular ou imemlcdeia o consumo. Esta
fundamemal cnt're as duas abordagens - é por meio do dialogismo distinçao tem sido feita intuitivame nte por agentes da prática socia l,
que os sujeitos se constituem. isto é, constituem-se no discurso. 25 manejando-a de acordo com a conveniência de assumir ou náo de-
Tal proposiç.io apresenta-se darl.lmeme na teoria da enunci:l- terminados pontos de vista expressos nos textos.
ção de Benveniste, que desvela não só as fo nn as pelas quais o Eu se • sujeito do enunciado - é a imagem daque le a quem se fala .
constitui t: se posidona discursivamente , mas também o Tu , ou seja, que corresponde ao receptor idealizado. Em (Coxtos cuja característi-
o interlocutor. Benveniste, que tinha o sujeito como centro de refe- ca é a impessoalidade, este sujeito passa a ser aquele de Quem se fala,
rência do aparelboformal da cllIwciação, distinguiu entre sujeito embora continue sendo a segunda pessoa do discurso (o sujeito do
da emmcíação e slIJeito do enunciado. O primeiro é o lug:lr ideali- enunciado corresponde ao "sujeito falado").
z.1.do do Eu, a imagem do Eu, e não o sujeito real. É a maneira pela • cnunciadores - são todas as demais vozes a rregimentadas
qual O Eu se define no pró prio discurso. Jâ os sujeitos do enunciado pelo emissor, para compore legitimar s ua própria imagem, de forma
são aqueles que aparecem como personagens do texto. Essa classifi- implícita o u explícita : discurso direto ou indireto, uso de aspas ou
cação náo atende mais às atuais necessidades de análise dos discur- itálico, provérbios e ditados populares, argumen(:lção polêmica,
sos. Pinto (1994 : iO) acrescenta o suJeifof~,lado , que corresponde:\ pressuposiçôes, todas as fonnas dedenegaç'J.o e indeterminação gra-
imagem d o Tu construída discursivamente pelo Eu , quando aceita matical, etc.
pelos destinatários. Em cstudos de recepção este conceito t pan.ic u- Mas Qual seria a vamagf'm fil"~' rrnb:l lhar com essa muhipli_
lannente útil, porque fala da imagem que os receptores assumem ao cidade de sujeitos, no quadro de uma teoria da enunciação?
se reconhecerem nos e nunciadorcs a eles atribuídos pelo emissor. E Sem prejulzo de o utra.s considerações, uma grande vanta-
que são e"mlciado,.es? Sáo as vozes presentes na enunciação cujas gem para o analista é perceber como se formam as precondiçõcs de
palavras náo são explícitas (é o caso, por exemplo, do discurso indi- produçao do sentido, no plano intratextual. As image ns construídas
reto) . " Enundadores" faz parte da dassificaçáo p roposta por Duerot , e nunciativd.mente serão propostas no processo de circulaçáo e con-
que declaril s6 haver polifonia q uando se pode distinguir numa sumo e sua aceitaçáo ou rt:jt:içiiu pelo receptor conformar.lo o senti-

25 Qua l'110 a esse aspc:ctO - os ~u j eilos conslituem·se 1'10 discul!óO -. há con(oronn- 26 Sei que esto u usando uma dassi fi c:l\·:i.o n50 mullO "nnndox:t~. no sentido de
cJn enue os virlos aUlOrCll . J~ o COl1(elto de dialógico admile nuam.:lS. Bcn\'enls- que me aproprio dos le rm os de: Ebklhin. l.Io:n\'enISle: e Ducrm, all'm de }>inlO.
le, por exemplo. u"dbalha com ~ n~-;;o, mas pc:n:ebc: apenas um~ CSlrutura mas n:io os ulillzo rigoronrncnte de acordo com qualq\ler um delc:s. Parto de
di~lóglca nn e nuncJ:u;:io. (onfonnada por dUõlS f1gur"J.S que se ren:zam . um~ tcntatiV'olS ameriord de razo:>.los funclonal' n~ anáJi.~ dc corpus diM.'1.II'!!iI.vs seme-
origem e outra fim da enunciação. Em Baklhin. por~m . o (onceito i: maiS lfiscc- lhantes aos que aqui serão onjc:tO do: ~l\ldo. que me ber.tm vo:r il dificuldilde de
r:.d. t!lando no cerne (,I;a sua lcorla. se trabalhar com classiflClçõcs d .::llllhildas e l'Om nu~nças qu:,l.'\C impcrcepcí~"Cis.

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["e~if.. Armijo A tVeQ"versdo do olbar

dialogismo é a rede interativa q ue articula as vozt:S de um discu rso, é enunciação um locutor t: um enunciador. O locutor seria aquele que
o jogo das diferenças e d as relações: emre sujeitos do mesmo texto. se a presenta como responsável pelo enunciado, categoria que elt:
M

emre enunciados, cnLre textos, enue [e.'Cto e COntexto e assim por dian- sulxlivide em "falante e -' Iocuto r", ainda admitindo que o locumr
le. pode apresentar-se como "locutor propriamente dito" e "locutor en-
Os modelos dialó gicos e m voga na prática comunicativa no quanto pessoa no mundo ".
m e io rural e nte nde m o diálogo - que também ocupa lugar centrdl - Assumirei aqui a seguinte classificação, quanto aos sujeitos
de uma forma dife rente , no sentido comum do tenno: duas ou m:lis que constituem o discurso:26
pessoas em processo de [roca ou interlocução. O diálogo é provoca- • sujeitada enunciaçáo - é a imagem daquele que se apre."ema
do pelos su jeitos, que preexistem ao discurso e seu desenrolar pode como emissor, como responsável pelo discurso . No nível da prd[ica
ser controbdo. Ser dialógico é uma opção política e supõe critérios discursiva no meio rural. em muitos casos este sujeito coincide com
de equanimidade . Para nossa Semiologia o dialógico estabelece-se o emissor real, Que nem sempre é o que produz o suporte discursi-
em outra instância, a da estrururação dos discursos. E - diferença vo, mas aquele que o faz circular ou imemlcdeia o consumo. Esta
fundamemal cnt're as duas abordagens - é por meio do dialogismo distinçao tem sido feita intuitivame nte por agentes da prática socia l,
que os sujeitos se constituem. isto é, constituem-se no discurso. 25 manejando-a de acordo com a conveniência de assumir ou náo de-
Tal proposiç.io apresenta-se darl.lmeme na teoria da enunci:l- terminados pontos de vista expressos nos textos.
ção de Benveniste, que desvela não só as fo nn as pelas quais o Eu se • sujeito do enunciado - é a imagem daque le a quem se fala .
constitui t: se posidona discursivamente , mas também o Tu , ou seja, que corresponde ao receptor idealizado. Em (Coxtos cuja característi-
o interlocutor. Benveniste, que tinha o sujeito como centro de refe- ca é a impessoalidade, este sujeito passa a ser aquele de Quem se fala,
rência do aparelboformal da cllIwciação, distinguiu entre sujeito embora continue sendo a segunda pessoa do discurso (o sujeito do
da emmcíação e slIJeito do enunciado. O primeiro é o lug:lr ideali- enunciado corresponde ao "sujeito falado").
z.1.do do Eu, a imagem do Eu, e não o sujeito real. É a maneira pela • cnunciadores - são todas as demais vozes a rregimentadas
qual O Eu se define no pró prio discurso. Jâ os sujeitos do enunciado pelo emissor, para compore legitimar s ua própria imagem, de forma
são aqueles que aparecem como personagens do texto. Essa classifi- implícita o u explícita : discurso direto ou indireto, uso de aspas ou
cação náo atende mais às atuais necessidades de análise dos discur- itálico, provérbios e ditados populares, argumen(:lção polêmica,
sos. Pinto (1994 : iO) acrescenta o suJeifof~,lado , que corresponde:\ pressuposiçôes, todas as fonnas dedenegaç'J.o e indeterminação gra-
imagem d o Tu construída discursivamente pelo Eu , quando aceita matical, etc.
pelos destinatários. Em cstudos de recepção este conceito t pan.ic u- Mas Qual seria a vamagf'm fil"~' rrnb:l lhar com essa muhipli_
lannente útil, porque fala da imagem que os receptores assumem ao cidade de sujeitos, no quadro de uma teoria da enunciação?
se reconhecerem nos e nunciadorcs a eles atribuídos pelo emissor. E Sem prejulzo de o utra.s considerações, uma grande vanta-
que são e"mlciado,.es? Sáo as vozes presentes na enunciação cujas gem para o analista é perceber como se formam as precondiçõcs de
palavras náo são explícitas (é o caso, por exemplo, do discurso indi- produçao do sentido, no plano intratextual. As image ns construídas
reto) . " Enundadores" faz parte da dassificaçáo p roposta por Duerot , e nunciativd.mente serão propostas no processo de circulaçáo e con-
que declaril s6 haver polifonia q uando se pode distinguir numa sumo e sua aceitaçáo ou rt:jt:içiiu pelo receptor conformar.lo o senti-

25 Qua l'110 a esse aspc:ctO - os ~u j eilos conslituem·se 1'10 discul!óO -. há con(oronn- 26 Sei que esto u usando uma dassi fi c:l\·:i.o n50 mullO "nnndox:t~. no sentido de
cJn enue os virlos aUlOrCll . J~ o COl1(elto de dialógico admile nuam.:lS. Bcn\'enls- que me aproprio dos le rm os de: Ebklhin. l.Io:n\'enISle: e Ducrm, all'm de }>inlO.
le, por exemplo. u"dbalha com ~ n~-;;o, mas pc:n:ebc: apenas um~ CSlrutura mas n:io os ulillzo rigoronrncnte de acordo com qualq\ler um delc:s. Parto de
di~lóglca nn e nuncJ:u;:io. (onfonnada por dUõlS f1gur"J.S que se ren:zam . um~ tcntatiV'olS ameriord de razo:>.los funclonal' n~ anáJi.~ dc corpus diM.'1.II'!!iI.vs seme-
origem e outra fim da enunciação. Em Baklhin. por~m . o (onceito i: maiS lfiscc- lhantes aos que aqui serão onjc:tO do: ~l\ldo. que me ber.tm vo:r il dificuldilde de
r:.d. t!lando no cerne (,I;a sua lcorla. se trabalhar com classiflClçõcs d .::llllhildas e l'Om nu~nças qu:,l.'\C impcrcepcí~"Cis.

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1"~fllaAraújo

do produzido, ao lado de outr:.lS condições. Certamente, esta é uma eretos que a vida penetra na língua", afirmo u ele (p. 282) . SU:l abor-
instância analítica que pennite sair dos limites eSI'rcitos da compati- dagem é bastant'e profunda e estrutura-se em torno do tema ccntml
bi lização de códigos como condição de "sucesso" da comunicação, d e toda s ua obrd - a polifo nia e O diaJogisl1lo -e com e la temos mui-
que t: o próprio dos modelos em voga. Como instrumento de crítica to que aprender c refletir. Mas vo u tomar aqu i, como transição defi-
e autocrítica, o conceito de polifo nia fornece elementos para romper nitiva entre os postulados da heterogeneidade e nunciariva e o da
a ilusâo de unicidade do sujeitO e de sua autonomia sobre o discur- semiose infinita, <Iue conte mpla a inlcncxtuaJidade, um trecllo de
so, possibilit::mdo a avaliação e revisão das estratégias diSCllrsims. No Arqueologia d o saber, e m que Fo ucauh fala do enunciado, que ele
postu lado três retomarei esta discussão, ao abordar o modo como as conside.-a uma unidade do discurso.
relações de poder se constituem discursivamente, a partir das figums Por mais banal que seia, por mCI/os ;mpor'a"l/~ que {I Imagl"e/llOs em
dos sujeitos da enunciação, do enunciado e dos e nunciadores. No Sllas collscqüêllClus, por mais f ad lmeme esqllecid o que possa ser "p6s slla
mo mento, dese jo discutir um outro ângulo do rema da enunciação, aparição,/JQr memu cnte"dirlo ou mal decifrado que o Sflponhu",os, um
emUle/Lido IÍ Sl!m!He 11111 acolltec/mentv que l/em a fíllgullnem o Se/llido
que servirá também como po ntO de passagem para o segundo poSTU- podem ('S8<JllIr Inteiramente. Trala·se de um acvmeclmenlo estranho. por
lado: o ângulo dos e nunciados. certo: inlclalmelfle porque está ligado, de fim Illdo, n Im, gestl/ de f!jit:ritll
Alguns teóricos do discurso considerdm que enunciado é ou à ortlt:ulação de IImil pulaura, mas, /JOrOfflro lado, abre para si mes-
m o Ilflla e;l"Ístê1lcla romallescentl! no campo de uma m emória, 011 lia ma-
um conceito a ser ultrapassado em favor do de discurso . "Enuncia· lerialidude dos mfllmscrllos, d os livros e de q"alquer fo rma L/e r"ejlstro:
do" guardaria ranços de uma semiologi:1 saussuriana, referi ndo-se a em ses'lida, /XJrtl'l{! ff líll ico COIIIO ludo acomecimento, mos eSlá aberto ti
uma mem combinação de conteúdos preexistentes na língua. O "dis- repetição, ti transfo rmaçâo, ti reolit>ação:/i"al",entl1, porqUI1 está ligado
não apenas a silfluÇ(ks tJue o !JroIJocam, e u co"seqfiellclas /XJrele OCasiv.
curso", emend ido como o lugar de produção sodal do sentido, seria nadas, /lias ao mesm o tempo, e sl!8"IIdu lima modul/llude illtelramellle
o único objeto de interesse do analista . dlfl1fi!ntl1, a ellum:lados {Iue o prt'Cedem e o st'guem. (p. 32)
Creio Que há um certo sectarismo nessa perspectiva . Ou me-
lhor, não me parece pertinente a equivalência dos dois termos em Pela im(XIrtância de SU:lS p:tla\'r:ls e pertin€ncia pard meus
quadros teóricos distintos. Discursos são formados , e ntre OUtros ele· objetivos, persisto na citação:
me ntOS, por conjuntos de enunciados. De fala , o enunciado reme- Mll5 J4! lrolamos, em reluçlJo I) /ir,gua e ao IXlllsalllelflO, a fl/srâ,rela do
re-nos ao domínio das palavras e o discurso ao do sentido, mas ocontl1cillllmlo e"'ltIclalivo. mro é parll tlissemillur ImW IJOeiro Ifefalos e
sim !)lIrtl estarmos seguros tlc 111'10 rolaClouá·!t1 com O/X.,.IIdures r/c sinfes'!
"enunciado" está vincu lado às teorias da enu nci:lção, é uma unidade que sejam purmmmle psicológicos (lI IlIlelll"tlo 110 (mlor, afUnl/lI de sell es·
pr,l,gmática, isto é , a linguagem em enunciação. A disrlnção que a pírito, o rigor de SI:II pe'lsal/l(mlu, os /el/ms '//le o obct'Cllm. o proieto que
me u ver poderia ser feita ê em n:lação 3. "senrença" (011 fra-.c, ou ora- alrulJf!SSll SI'" e.xisrêncl" e lhe IM slgnlflcoçl1o) e potlenllos Ufln-errdcr ou.
trus JIH>l/aS de rf!glllundade, outros tipos (141 reltlçO<.'S. 1«:/lIçÜ<.~· '!mo: ....
çÃo) , esta s im objeto da lingüística, mera combinação de conteúdos emulC/atlos (mesmo que escapum Il rol/selO" d u tio IlfItor; mesmo qlle se
lingüísticos predetenninados. A sentença é [mosfonnada e m enuncia- Irate d I) efllltu:itllfus lJue "tio liJm o mesmo aflfUr; llleSmu 'I"e os rlu/ures
do pelos mecanismos da enunciação, que confo nnam uma situação ,Ido se a:mbeçam) ; relliç6es efllf1! gn.pus tle (.,lIme/tulos Imlm estuhek'Cidos
(lIlesJll0 que euesgnlpos não remetum II()S mesmos tlom lll los nem" domí.
d e comunicação. O atO de produzir os enu nciados faz parte dos estu- Illos Il#zinl1US; m esmo que Ir/iO I/,,,,Imm o mesmo " ;''1.>/ fun llal: mesmo que
°
dos do discurso, e não seu texto, é que já nos advenia Bakthin "tio CU/lSflllfam o lugar de trocas (/I.e /XXlllm ser 11(l1(lf"mllwtlas): rduçiJes
( 1992: capoV) . O fil ósofo ruSSO vinculou a questão dos enunciados à Crllre cml"e/ad(u (m g rupos lle emmcltlllos c aCO/lleclllll!mos de lima or-
dem illlt!lramellfe difenmte ( Irollc" . ('C'Qlfumlca, social. política). F=er
dos gêneros do discurso, que pard ele se constituem a partir de um apalVCer, em slla Pllrf!Zn, o esptlço CIII IJIICse lfen'rll'fllflcm os acolI/rximerl-
ce no núme ro de enunciados estáveis . Entendia O enunciado como los disC/usioos 11110 ~ telllar reswbl!l«{õ·/o (11/1 11m ISo/limemo quellada p0-
uma unidade de comunicação verbal, diferentemenle da oração, deria sllperar; "til) é/t'CM./o em si mesmo: é tomar·SI! livre para (k'screIJer,
,/ele e fo ra lIele,jugos de relaç(Jes. (p. 33)
unidade da língua. "A língua penetra n:l vida :1fr:lVt:S dos e nunciados
concretos que a realizam, e ê também através dos enunciados con·

'" '"
1"~fllaAraújo

do produzido, ao lado de outr:.lS condições. Certamente, esta é uma eretos que a vida penetra na língua", afirmo u ele (p. 282) . SU:l abor-
instância analítica que pennite sair dos limites eSI'rcitos da compati- dagem é bastant'e profunda e estrutura-se em torno do tema ccntml
bi lização de códigos como condição de "sucesso" da comunicação, d e toda s ua obrd - a polifo nia e O diaJogisl1lo -e com e la temos mui-
que t: o próprio dos modelos em voga. Como instrumento de crítica to que aprender c refletir. Mas vo u tomar aqu i, como transição defi-
e autocrítica, o conceito de polifo nia fornece elementos para romper nitiva entre os postulados da heterogeneidade e nunciariva e o da
a ilusâo de unicidade do sujeitO e de sua autonomia sobre o discur- semiose infinita, <Iue conte mpla a inlcncxtuaJidade, um trecllo de
so, possibilit::mdo a avaliação e revisão das estratégias diSCllrsims. No Arqueologia d o saber, e m que Fo ucauh fala do enunciado, que ele
postu lado três retomarei esta discussão, ao abordar o modo como as conside.-a uma unidade do discurso.
relações de poder se constituem discursivamente, a partir das figums Por mais banal que seia, por mCI/os ;mpor'a"l/~ que {I Imagl"e/llOs em
dos sujeitos da enunciação, do enunciado e dos e nunciadores. No Sllas collscqüêllClus, por mais f ad lmeme esqllecid o que possa ser "p6s slla
mo mento, dese jo discutir um outro ângulo do rema da enunciação, aparição,/JQr memu cnte"dirlo ou mal decifrado que o Sflponhu",os, um
emUle/Lido IÍ Sl!m!He 11111 acolltec/mentv que l/em a fíllgullnem o Se/llido
que servirá também como po ntO de passagem para o segundo poSTU- podem ('S8<JllIr Inteiramente. Trala·se de um acvmeclmenlo estranho. por
lado: o ângulo dos e nunciados. certo: inlclalmelfle porque está ligado, de fim Illdo, n Im, gestl/ de f!jit:ritll
Alguns teóricos do discurso considerdm que enunciado é ou à ortlt:ulação de IImil pulaura, mas, /JOrOfflro lado, abre para si mes-
m o Ilflla e;l"Ístê1lcla romallescentl! no campo de uma m emória, 011 lia ma-
um conceito a ser ultrapassado em favor do de discurso . "Enuncia· lerialidude dos mfllmscrllos, d os livros e de q"alquer fo rma L/e r"ejlstro:
do" guardaria ranços de uma semiologi:1 saussuriana, referi ndo-se a em ses'lida, /XJrtl'l{! ff líll ico COIIIO ludo acomecimento, mos eSlá aberto ti
uma mem combinação de conteúdos preexistentes na língua. O "dis- repetição, ti transfo rmaçâo, ti reolit>ação:/i"al",entl1, porqUI1 está ligado
não apenas a silfluÇ(ks tJue o !JroIJocam, e u co"seqfiellclas /XJrele OCasiv.
curso", emend ido como o lugar de produção sodal do sentido, seria nadas, /lias ao mesm o tempo, e sl!8"IIdu lima modul/llude illtelramellle
o único objeto de interesse do analista . dlfl1fi!ntl1, a ellum:lados {Iue o prt'Cedem e o st'guem. (p. 32)
Creio Que há um certo sectarismo nessa perspectiva . Ou me-
lhor, não me parece pertinente a equivalência dos dois termos em Pela im(XIrtância de SU:lS p:tla\'r:ls e pertin€ncia pard meus
quadros teóricos distintos. Discursos são formados , e ntre OUtros ele· objetivos, persisto na citação:
me ntOS, por conjuntos de enunciados. De fala , o enunciado reme- Mll5 J4! lrolamos, em reluçlJo I) /ir,gua e ao IXlllsalllelflO, a fl/srâ,rela do
re-nos ao domínio das palavras e o discurso ao do sentido, mas ocontl1cillllmlo e"'ltIclalivo. mro é parll tlissemillur ImW IJOeiro Ifefalos e
sim !)lIrtl estarmos seguros tlc 111'10 rolaClouá·!t1 com O/X.,.IIdures r/c sinfes'!
"enunciado" está vincu lado às teorias da enu nci:lção, é uma unidade que sejam purmmmle psicológicos (lI IlIlelll"tlo 110 (mlor, afUnl/lI de sell es·
pr,l,gmática, isto é , a linguagem em enunciação. A disrlnção que a pírito, o rigor de SI:II pe'lsal/l(mlu, os /el/ms '//le o obct'Cllm. o proieto que
me u ver poderia ser feita ê em n:lação 3. "senrença" (011 fra-.c, ou ora- alrulJf!SSll SI'" e.xisrêncl" e lhe IM slgnlflcoçl1o) e potlenllos Ufln-errdcr ou.
trus JIH>l/aS de rf!glllundade, outros tipos (141 reltlçO<.'S. 1«:/lIçÜ<.~· '!mo: ....
çÃo) , esta s im objeto da lingüística, mera combinação de conteúdos emulC/atlos (mesmo que escapum Il rol/selO" d u tio IlfItor; mesmo qlle se
lingüísticos predetenninados. A sentença é [mosfonnada e m enuncia- Irate d I) efllltu:itllfus lJue "tio liJm o mesmo aflfUr; llleSmu 'I"e os rlu/ures
do pelos mecanismos da enunciação, que confo nnam uma situação ,Ido se a:mbeçam) ; relliç6es efllf1! gn.pus tle (.,lIme/tulos Imlm estuhek'Cidos
(lIlesJll0 que euesgnlpos não remetum II()S mesmos tlom lll los nem" domí.
d e comunicação. O atO de produzir os enu nciados faz parte dos estu- Illos Il#zinl1US; m esmo que Ir/iO I/,,,,Imm o mesmo " ;''1.>/ fun llal: mesmo que
°
dos do discurso, e não seu texto, é que já nos advenia Bakthin "tio CU/lSflllfam o lugar de trocas (/I.e /XXlllm ser 11(l1(lf"mllwtlas): rduçiJes
( 1992: capoV) . O fil ósofo ruSSO vinculou a questão dos enunciados à Crllre cml"e/ad(u (m g rupos lle emmcltlllos c aCO/lleclllll!mos de lima or-
dem illlt!lramellfe difenmte ( Irollc" . ('C'Qlfumlca, social. política). F=er
dos gêneros do discurso, que pard ele se constituem a partir de um apalVCer, em slla Pllrf!Zn, o esptlço CIII IJIICse lfen'rll'fllflcm os acolI/rximerl-
ce no núme ro de enunciados estáveis . Entendia O enunciado como los disC/usioos 11110 ~ telllar reswbl!l«{õ·/o (11/1 11m ISo/limemo quellada p0-
uma unidade de comunicação verbal, diferentemenle da oração, deria sllperar; "til) é/t'CM./o em si mesmo: é tomar·SI! livre para (k'screIJer,
,/ele e fo ra lIele,jugos de relaç(Jes. (p. 33)
unidade da língua. "A língua penetra n:l vida :1fr:lVt:S dos e nunciados
concretos que a realizam, e ê também através dos enunciados con·

'" '"
Muitas das maneiras correntes de abordar o texto são incom-
É d esses jogos de relaçõcs que passarei a trata r, num segun· patíveis com a Semiologia dos Discursos Sociais, que considera in·
do postulado da Serniolo gia dos Discursos Sociais, o postulado da dispensável o enfoque da il1lerle.'-'tualidade, jogo de relaçóes eorre
semiose infinita. textos, essência d o postulado da semiose infinita. O conceito em
Dakthin e exemplar nesse sentido. Para ele, texto é tudo aqui lo que
A semiose ;'Ifinita diz respeito a produçócs culturais fundadas na linguagem , Como
Bak1hin não admite produção c ulturaJ fora da linguagem, essa defi·
niçãoapaga adi(erença entre "fora ·· e "dentro" do tcxtoe ins tala uma
As considerações de FouC:.lU1t sobre o enunciado tr.LZcrn à luz noção englobadora do textual, do intenextual e d o contextual
:t essência do postulado da semiose infinita. Como vimos em Pcirce, a (Stam, op. cit. : 13) .
semiosis consiste numa rede infinim de remissivas de reprcsema· Trabalhare i aqui com o seguinte ente ndimento:
çóes na mente dos indivíduos: cada significante rcme te para ou- ,. um texto é um conjunto de enunciados, algo que pode ser
tro(s) s ignificante(s), n:l 0 se c hegando a um sentido está,,'el, a não delimitado. Não se restringe, poré m, aos escritos: uma mús ica, por
ser muito provisoriame nte, Essa concepção de como se dá a produ· e xe mplo , pode ser consider:tda um to1:o.
ção do semido recusa não s6 aquelas o urtaS, que supõem o significa· ,. um disc urso, mais do que um conjunto de te..xtoS, é uma prá-
d o imane nte aos objetos (inclusive os lingüísticos) , mas também as tica , e seus limites precisos não podem se r estabelecidos, a não ser
que estabelecem um sujeito transcendc mal, causa, explicaçáo e sen- por uma decisão a rbitrária d o a nalista, para fins d e estudo , <Iuando
tido último de todos os renô menos sodais (por exe mplo , a His tó ria, então se delimita um corpus discursivo , fomlado por um detennina-
o Inconscieme, a EstrulUr:t, o Sistema, Deus, a Luta d e Classes e tc.) . do número de textos,
Essa rede de re mi ssivas ocorre não só em relação a uma pala- O conceito de dialogism o de Bakthi n engloba o processo de
vra (os tbesounlS e a técnica de criação conhecida por bralrlstor- semiose InfInita, ao se definir como a forma de articu lação das diver·
ming valem·se desse princ ípio) , m as qualquer tipo o u tamanho de sas ....ozes presentes nos textOS e ao considerar essa articu lação como
texto o u de e nunciado. E aqui, antes d e mais nada, é necessário f.lZe r condição de produção dos sentidos, Mas o te rmo arualme nte mais
uma distinção tem1ino ló gica . :Idotado é interle.>.'lIIoUdade , proposto por Julia Kristcva, em 1966,
Os autores untam diferente me nte os conceitos de texto e com o fim de realçar essa propriedade dos textos de se relacio narem
discurso. De um modo geral , é aceita a equivalência e ntre os dois , com outros textos, anteriores, conrempor-1neos ou subseqüentes,
m as Yerón estabelece uma distinçáo metodológica iml)Ortante . Para o u com acontecime nros de o u tra ordem, O termo vem sendo usado
de, o lexto é o objeto empírico d e estudo, que e le prefere cha mar de como si nô nimo d e ilJterdiscursividade, até mesmo porque se refe-
'·fe ixes textuais", uma vez que são compostos d e uma "pluralidade re m :10 mesmo fen ô meno, o d ;1 semiose infinita . A semiose ocorre
de maté rias signifi cantes" (1980: 105) : esses fe ixes n ão se restringe m co m enunciados, com textos ou com discursos. Os limites para o
à escrita, são conjuntos como escrim·imagem, imagem·som etc, Por processo de associação de representações que ela provoca são esta-
discurso ele emende um ripo detenninado de abordagem dos tex· belecidos pela história, pela cult ura e pelo mo memo que se vive,
tos, o u seja, "um certo e nfoque te ó rico de um dado conju nto signifi- conjunto de par-lmetros a que I;oucault deno minou dcprá lica dis·
cante" (ide m). O textO não teria unidade própria, constituindo-se Cllrsilltl , COmo visro antes.
em "alguma coisa que explode numa pluralidade de direções" Alguns auto res denominam fonlla ção discursiva a esse lu·
(1983: 2) . Um objeto he terogêneo, ":lO mesmo tempo m~ l tidele~ml­ Wlr d e construção do sentido, utilizando-se de um termo também
nado e multideterminante" (idem : 3) . O discurso, conceito teÓriCO, pro posto por Fo ucault, que assim designava mais exatame nte o prin·
"designa o o bjeto que resulta de uma certa visada de textOS , d e uma Ilplo de dispersão e de repartição dos e nunciados (regulõll"idade dos
certa m a neir:t de abordar o textual" (ide m),

'lO '"
Muitas das maneiras correntes de abordar o texto são incom-
É d esses jogos de relaçõcs que passarei a trata r, num segun· patíveis com a Semiologia dos Discursos Sociais, que considera in·
do postulado da Serniolo gia dos Discursos Sociais, o postulado da dispensável o enfoque da il1lerle.'-'tualidade, jogo de relaçóes eorre
semiose infinita. textos, essência d o postulado da semiose infinita. O conceito em
Dakthin e exemplar nesse sentido. Para ele, texto é tudo aqui lo que
A semiose ;'Ifinita diz respeito a produçócs culturais fundadas na linguagem , Como
Bak1hin não admite produção c ulturaJ fora da linguagem, essa defi·
niçãoapaga adi(erença entre "fora ·· e "dentro" do tcxtoe ins tala uma
As considerações de FouC:.lU1t sobre o enunciado tr.LZcrn à luz noção englobadora do textual, do intenextual e d o contextual
:t essência do postulado da semiose infinita. Como vimos em Pcirce, a (Stam, op. cit. : 13) .
semiosis consiste numa rede infinim de remissivas de reprcsema· Trabalhare i aqui com o seguinte ente ndimento:
çóes na mente dos indivíduos: cada significante rcme te para ou- ,. um texto é um conjunto de enunciados, algo que pode ser
tro(s) s ignificante(s), n:l 0 se c hegando a um sentido está,,'el, a não delimitado. Não se restringe, poré m, aos escritos: uma mús ica, por
ser muito provisoriame nte, Essa concepção de como se dá a produ· e xe mplo , pode ser consider:tda um to1:o.
ção do semido recusa não s6 aquelas o urtaS, que supõem o significa· ,. um disc urso, mais do que um conjunto de te..xtoS, é uma prá-
d o imane nte aos objetos (inclusive os lingüísticos) , mas também as tica , e seus limites precisos não podem se r estabelecidos, a não ser
que estabelecem um sujeito transcendc mal, causa, explicaçáo e sen- por uma decisão a rbitrária d o a nalista, para fins d e estudo , <Iuando
tido último de todos os renô menos sodais (por exe mplo , a His tó ria, então se delimita um corpus discursivo , fomlado por um detennina-
o Inconscieme, a EstrulUr:t, o Sistema, Deus, a Luta d e Classes e tc.) . do número de textos,
Essa rede de re mi ssivas ocorre não só em relação a uma pala- O conceito de dialogism o de Bakthi n engloba o processo de
vra (os tbesounlS e a técnica de criação conhecida por bralrlstor- semiose InfInita, ao se definir como a forma de articu lação das diver·
ming valem·se desse princ ípio) , m as qualquer tipo o u tamanho de sas ....ozes presentes nos textOS e ao considerar essa articu lação como
texto o u de e nunciado. E aqui, antes d e mais nada, é necessário f.lZe r condição de produção dos sentidos, Mas o te rmo arualme nte mais
uma distinção tem1ino ló gica . :Idotado é interle.>.'lIIoUdade , proposto por Julia Kristcva, em 1966,
Os autores untam diferente me nte os conceitos de texto e com o fim de realçar essa propriedade dos textos de se relacio narem
discurso. De um modo geral , é aceita a equivalência e ntre os dois , com outros textos, anteriores, conrempor-1neos ou subseqüentes,
m as Yerón estabelece uma distinçáo metodológica iml)Ortante . Para o u com acontecime nros de o u tra ordem, O termo vem sendo usado
de, o lexto é o objeto empírico d e estudo, que e le prefere cha mar de como si nô nimo d e ilJterdiscursividade, até mesmo porque se refe-
'·fe ixes textuais", uma vez que são compostos d e uma "pluralidade re m :10 mesmo fen ô meno, o d ;1 semiose infinita . A semiose ocorre
de maté rias signifi cantes" (1980: 105) : esses fe ixes n ão se restringe m co m enunciados, com textos ou com discursos. Os limites para o
à escrita, são conjuntos como escrim·imagem, imagem·som etc, Por processo de associação de representações que ela provoca são esta-
discurso ele emende um ripo detenninado de abordagem dos tex· belecidos pela história, pela cult ura e pelo mo memo que se vive,
tos, o u seja, "um certo e nfoque te ó rico de um dado conju nto signifi- conjunto de par-lmetros a que I;oucault deno minou dcprá lica dis·
cante" (ide m). O textO não teria unidade própria, constituindo-se Cllrsilltl , COmo visro antes.
em "alguma coisa que explode numa pluralidade de direções" Alguns auto res denominam fonlla ção discursiva a esse lu·
(1983: 2) . Um objeto he terogêneo, ":lO mesmo tempo m~ l tidele~ml­ Wlr d e construção do sentido, utilizando-se de um termo também
nado e multideterminante" (idem : 3) . O discurso, conceito teÓriCO, pro posto por Fo ucault, que assim designava mais exatame nte o prin·
"designa o o bjeto que resulta de uma certa visada de textOS , d e uma Ilplo de dispersão e de repartição dos e nunciados (regulõll"idade dos
certa m a neir:t de abordar o textual" (ide m),

'lO '"
conceitos, dos tipos de enunciação, das escolhas temáticas etc.). ~ o Ro land Barthes, e m Sarrazirle , trabalha a idéia da cadeia de
e lso de Maingueneau (1993), ou de O rl:mdi (1993: l OS) . esta afirman- re missivas cuhur.:tis de s ignific:U1tc a s ignificante, descartando de fini-
do que "é a fOl1l1ação discursiva que determina o que JX>de e o que tivame mc a ex istência de um Significado último e demonstrando
d eve ser ditO, a p:U1lr de uma posiç.:io dada numa conjunturA dada H
• como o sentido se espraia pelo texto, sem ordem nem amarras for-
O que d eve ser dito implica o que nâo dc.:ve ser dilO, isto é, mais. MTudo significa sem cessar e várias vezes, mas sem delegação a
uma determinada formação discursiva, ao demarcar os limites do dito um grande conjunto final , a uma estrmura d erradeira" (1992 : 45).
e do dizer, auto maticamente estabelece critérios de exclusão, o que Contra :tlinearidade d o signific-.lOte ele opõe um significado espacial-
nos reme te par.l a noç-.io bakthini:ma d e linguagem como arena dos mente d isseminaf.io, cuja cris mHzação só pode ser e me ndida como
embatcs sociais. Formação discursiva, sob este ângulo, pode ser com- um mo mento fugaz , po mo de cruzamen to de uma rede de remissi-
preendid:1 como as forças sociais que se exprimem num discurso e é vas intertexruais.27 Com Banhes , percebe-se com clareza o domínio
por e;se p risma <Iue se pode emender que um mesmo dist.'Urso possa da memó ria no imeruiscurso. Os dois o unos d o mínios são o da atua-
ser palco de \~árias fom1açõcs discursivas, e mbor::l o efeiTO de unidade lidade , a que j,i me referi, e o da alllecipação, que caracteriza o ro r-
que o s ujeito le nta produzir fAça uma predo minar sobre as o utr:IS. nar-se, na atualidade, a me mó ria dos discursos que se seguido.
Fico com a noção defomwçdo discursiva que pode, talvez, A 00(;-:'\0 de "texto" e seu lugar como unidade d e análise
ser sintetizad a como "condições d e exercício da função enuncialiva", s ubstirui , na Semiologia dos Discursos Sociais, a de ·· me nsagem", ca-
reservando o tenno prática discursiva para d esignar a pr:itica con- racterística d os modelos comunicacio nais. A repercussão dis to nos
crera dessa função, que se traduz em discursos . O conceito de p rá tica estudos d as prátkas discursivas em processos de i.ntervenção social é
d iscu rsiva também designa a reve rsibilidade das faces social e textual considcr:lvel.
dos discursos (Maingueneau , 1993: 56) . MMensagcm·· conduz:'i análise d e três e lemen tos: o emissor,
Eu dizia antes, a respeit'O dos discursos, que não se pode es- produto r d:J. mensagem , numa relação de auto ria e inte ncio nalida-
tabelecer seus limites. A razão disro localiza-se no fenô meno da in- de: a m ensagem e m si , nos seus aspeCtOS de forma e conteúdo ; e o
le rdiscursividade , que faz com que, por um lado , cada discu rso traga receptor, numa perspectiva da capacidade f.i e decodificação (ou
e m si, constituriv:unente , a história de todos os discursos que pode- compree nsão d o significado) e utilização d as info rmações contidas
ria ter sido e a d e todos seus "a ncestrais"; po r ourro, é o mesmo pro- na mensagem . Avalia-se a adequação entre o ditO, a forma de dizer e
cesso semió tico que fAZ com que o discurso só se concretize na o compreendido , tomada como medida da eficlÍci:J.. Como fo i mos-
prática discursiva, o que o torna singular e imprevisível: no instante trado antes, est:l tem sid o a te ndência, embora possa se apresentar
da interlocução , há uma combinação única com os outros discursos com justificativas Ideológicas diStintas, o u operar e m campos temáti-
circ ulantes, a começar pelado recepto r, ao qual se juntam expectati- cos os mais di\·crsos.
v:.tS, posição social dos interloclltores, os ritos e lugares institucionais, Já a abordagem semiológicl do "texto", com a insepará,'e1
elc. Um texto escrito reproduzido em 10 situações diferentes p rodu- noção de interre;\."lUalidade, pro move OUtra forma de acercamento
zir.t 10 discursos diferentes. Daí os limites do discurso serem instáveis, do pro ble ma. Gerar um texto é ger'M umaes tnuégia, sem dúvida, e a
serem os limites dos efeitos d e sentido que produz. roda estratégia corresponde uma intenção de produzir semidos; no
Mas, corno esse ú ltimo aspecto será melho r desenvolvido no entanto , um texro e se us efeitos de sentido só nodem ser compreen·
postulado [rês, voltemos à intertextualidade como jogo relacio nal didos arr... vés d e meCAnismos que des"ende rn e m que malha, em (Iue
das diversas vozes presentes e ausentes nos textoS, como uma das rede d e outros textos e le se e ncontra e como se manifestam naquela
chaves mCStras da imeligibilidade dos mecanismos de prod ução do materi alidade discursiva . Os se ntidos d e um te.'I(fO não podem ser en-
sentido.
27 Para um~ :ln ~lisc c um exemplo da pm~ibi l ld3de de aplicu,.-:1o dt"~ corn:cpçlo
c do método decorrente , pO<..!c-s.e oonsullu Pinto ( 1992).

'" I))
conceitos, dos tipos de enunciação, das escolhas temáticas etc.). ~ o Ro land Barthes, e m Sarrazirle , trabalha a idéia da cadeia de
e lso de Maingueneau (1993), ou de O rl:mdi (1993: l OS) . esta afirman- re missivas cuhur.:tis de s ignific:U1tc a s ignificante, descartando de fini-
do que "é a fOl1l1ação discursiva que determina o que JX>de e o que tivame mc a ex istência de um Significado último e demonstrando
d eve ser ditO, a p:U1lr de uma posiç.:io dada numa conjunturA dada H
• como o sentido se espraia pelo texto, sem ordem nem amarras for-
O que d eve ser dito implica o que nâo dc.:ve ser dilO, isto é, mais. MTudo significa sem cessar e várias vezes, mas sem delegação a
uma determinada formação discursiva, ao demarcar os limites do dito um grande conjunto final , a uma estrmura d erradeira" (1992 : 45).
e do dizer, auto maticamente estabelece critérios de exclusão, o que Contra :tlinearidade d o signific-.lOte ele opõe um significado espacial-
nos reme te par.l a noç-.io bakthini:ma d e linguagem como arena dos mente d isseminaf.io, cuja cris mHzação só pode ser e me ndida como
embatcs sociais. Formação discursiva, sob este ângulo, pode ser com- um mo mento fugaz , po mo de cruzamen to de uma rede de remissi-
preendid:1 como as forças sociais que se exprimem num discurso e é vas intertexruais.27 Com Banhes , percebe-se com clareza o domínio
por e;se p risma <Iue se pode emender que um mesmo dist.'Urso possa da memó ria no imeruiscurso. Os dois o unos d o mínios são o da atua-
ser palco de \~árias fom1açõcs discursivas, e mbor::l o efeiTO de unidade lidade , a que j,i me referi, e o da alllecipação, que caracteriza o ro r-
que o s ujeito le nta produzir fAça uma predo minar sobre as o utr:IS. nar-se, na atualidade, a me mó ria dos discursos que se seguido.
Fico com a noção defomwçdo discursiva que pode, talvez, A 00(;-:'\0 de "texto" e seu lugar como unidade d e análise
ser sintetizad a como "condições d e exercício da função enuncialiva", s ubstirui , na Semiologia dos Discursos Sociais, a de ·· me nsagem", ca-
reservando o tenno prática discursiva para d esignar a pr:itica con- racterística d os modelos comunicacio nais. A repercussão dis to nos
crera dessa função, que se traduz em discursos . O conceito de p rá tica estudos d as prátkas discursivas em processos de i.ntervenção social é
d iscu rsiva também designa a reve rsibilidade das faces social e textual considcr:lvel.
dos discursos (Maingueneau , 1993: 56) . MMensagcm·· conduz:'i análise d e três e lemen tos: o emissor,
Eu dizia antes, a respeit'O dos discursos, que não se pode es- produto r d:J. mensagem , numa relação de auto ria e inte ncio nalida-
tabelecer seus limites. A razão disro localiza-se no fenô meno da in- de: a m ensagem e m si , nos seus aspeCtOS de forma e conteúdo ; e o
le rdiscursividade , que faz com que, por um lado , cada discu rso traga receptor, numa perspectiva da capacidade f.i e decodificação (ou
e m si, constituriv:unente , a história de todos os discursos que pode- compree nsão d o significado) e utilização d as info rmações contidas
ria ter sido e a d e todos seus "a ncestrais"; po r ourro, é o mesmo pro- na mensagem . Avalia-se a adequação entre o ditO, a forma de dizer e
cesso semió tico que fAZ com que o discurso só se concretize na o compreendido , tomada como medida da eficlÍci:J.. Como fo i mos-
prática discursiva, o que o torna singular e imprevisível: no instante trado antes, est:l tem sid o a te ndência, embora possa se apresentar
da interlocução , há uma combinação única com os outros discursos com justificativas Ideológicas diStintas, o u operar e m campos temáti-
circ ulantes, a começar pelado recepto r, ao qual se juntam expectati- cos os mais di\·crsos.
v:.tS, posição social dos interloclltores, os ritos e lugares institucionais, Já a abordagem semiológicl do "texto", com a insepará,'e1
elc. Um texto escrito reproduzido em 10 situações diferentes p rodu- noção de interre;\."lUalidade, pro move OUtra forma de acercamento
zir.t 10 discursos diferentes. Daí os limites do discurso serem instáveis, do pro ble ma. Gerar um texto é ger'M umaes tnuégia, sem dúvida, e a
serem os limites dos efeitos d e sentido que produz. roda estratégia corresponde uma intenção de produzir semidos; no
Mas, corno esse ú ltimo aspecto será melho r desenvolvido no entanto , um texro e se us efeitos de sentido só nodem ser compreen·
postulado [rês, voltemos à intertextualidade como jogo relacio nal didos arr... vés d e meCAnismos que des"ende rn e m que malha, em (Iue
das diversas vozes presentes e ausentes nos textoS, como uma das rede d e outros textos e le se e ncontra e como se manifestam naquela
chaves mCStras da imeligibilidade dos mecanismos de prod ução do materi alidade discursiva . Os se ntidos d e um te.'I(fO não podem ser en-
sentido.
27 Para um~ :ln ~lisc c um exemplo da pm~ibi l ld3de de aplicu,.-:1o dt"~ corn:cpçlo
c do método decorrente , pO<..!c-s.e oonsullu Pinto ( 1992).

'" I))
contrados nas suas cade ias verbais, eSludad as na fonua como estão gia d os Discu rsos Sociais incorporou o ens iname n tO da AntrOpolo-
o rganizadas. Como diz Mainguencau, gia de que os fen ômenos culrurais funcio nam sob uma lógica d e
... o texto mio é um f!"51<XJ lle / PlI!rtl! qUI! basta segmePltar para dele ~xlmir
mercado - a lógica d a produção, circu laç:io e consumo dos seus pro-
uma imetpretaflJo. mas Inscrew·S(> II/,ma ce,/ll elllmclallva c lljos fllga res dUlos.
de pfT)(./IIÇtJ/J I! d I! imetprclafão NliiQ lIlraL-essndos por tl/ltmpafÕes, re· Trazendo isso para o plano dos discursos - o d o mínio do
C/Jllsln,çi'ws de SUQ5 respectil'l/S imagens, imagells estas Impostas pelos /i .
mi/es tl(l/ormação disc:ursllJu. ( 1993: 9 1)
s imbólico - , afirma que o espaço d a comun icaf,.""áo cons titui um mer-
cadosim bólico, que opera segundo as reg'-"-s d e qualquer o utro mer-
o conce ito de texto põe d e lado os d e signo, cQdigo, me nsa- cado: é s6 através do processo de produção, circulação e consumo
gem, tão familiare s aos modelos comunicacionais, e lraz à cena a preo- que os objetos adquirem a condiç:"io de significante . É esta premissa
cupação com as marcas do Outro, alteridade constitutiva do sen tido e seus desdobramentos que fomlam o postulado da econo mia políti-
a p:lnir mesmo da estrururação textual num contexto d iscu rsivo . c.'l do s ignificante e é também uma lese central na proposta teóri-
Ide mificar a adequação d e uma me nsage m a seu público o u co-metodológica de veiÓn. Nas suas palavras,
os e fe itos que nele produz abre algumas portas para a geração de es- lrala-se, para uós. de Ctmceber /JS I lmlÍmellos de M!.uido como te.ufo. de
tratégias na comunicação, mas certamente fica muilo aqué m da com- "'" ladu, $(,,,,prO!aJumw de InwsllmelllO "OS C:0 1lglomerutlustlo! mmlfrlas
preensão dos mecanis mos intenexluais que faze m funcionar os slgll lJlcantesl! com o remetem/o, dco/lrro latiu. au/""ciU1/ameIlfO da rede
sc",iórica COllc(1)/,wli:ada cu"", siste",a prudul 11.'0. Esses Im!l!sl/men/u?
processos d e semiose social, scmiose que é dinamizada pelos confli- wo sW;Ci!I(vefs de sI!rem descritos COII/O CO'Vfll/los de prucessos prodllli-
tOS sociais, os quais se expressam claramente nos lextos prOduzidos I.\OS. Um a abordagem q ll e se propollhtl U aplicar. aos/ellónumos de senti·
pelos agemes, d esde que sejam mirados sob a ó tica discu rsiva. do, o mrx/do de um sistema prodmfvo, deve postulllr roluçiies
$Ístem tltlctl$ O!tltre amjlllllos signifiCiJlltn dados, por um Indu e os aspec-
Do ponto de vis ta da recepção, o fato de alguém se expor a tos jíw dame,ltais de lodo sistema pf"f)(lutllJQ. de uutro: produçlJo, d n:ula-
uma mensagem - ler uma canilha, poraemplo - não é detenninan- çdo, CO'lSflmo. ( 1980: 190)
te da sua prática s ubseqüente e s im o mo do pelo qual esta pessoa se
re laciona cOm o textO, que o utros textos são postos em cena, assu- Nesse me rcado, as relações d ;io-se entre discu rsos c é atnl-
mindo im pon:i.ncia a história daquele texto, a d e suas leiturdS e a do vés d eles que os sujeitos negociam su as trocas, tendo C0l110 o bjetivo
leito r; em o utras pab.vras, o modo de le ilura e o sujeito-leitor que a disputa d os scntidos, o u melhor, a supremacia na consl"rução d os
lhe corresponde . sentidOS d o minantes.
O terceiro posrulado permitirá perceber as difere nças nm- Q uero lembrar que o sujeito, tal como aqui é percebido, não
damenr:tis enrre as ~horcl~gt': ns c:omunicacional e semiológica. ao tem controle tOtal sobre seu d iscurso, nem conscii:nda ple na das vozes
Ir.lzer à cena o conceito de m ercado simbólico , no qu al instiruições que ne le se manifes tam . A conccpçfto de "negoc.iaçáo d e sentido",
e indivíduos posicionam-se discursivOlmente, po r intemlédio de seus por exigir pelo me nos dois sujeitos e duas estratégias discursivas,
dispositivos d e e nunciação, na disputa pela prerrogativa da constnJ- pode levar a esquecer ou camuflar essas premissas, fundam entais
ção do sentido d o minante. para a Semiologi:t: a da poüssemia incontrolável do texlO e a do fun-
cioname nto discursivo a partir de dife re ntes matrizes.
Retornando ao mercado s imbólico: a e,"'(emplo d o que ocor-
A economia polltica do significante re nos Outros mercados, o nde osistcm:t produtivo d etermina e deixa
m:trcas nos o bjetos produzidos, também o s discu rsos são d etenuina-
d os pelo s istema de produção, circu l:tç:"io c consumo, que neles d ei-
Discip lina plural e receptiva , :tcolhendo ao longo de s ua
constiruição aportes de diversas dc::ndas e teorias e rctrabaUlando
s uas premissas sob a perspectiva d a produção do se ntido, a Semiolo- Z8 tn"CO\I;mcmQ (de scm ido). põlr.! Vemn , ~ign mCil cotOC2l" sentido no CSpõlÇQ e
no lempo, sob õl (o mla de proct:SliO~ dj~cu rsj\"O!l .

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o rganizadas. Como diz Mainguencau, gia de que os fen ômenos culrurais funcio nam sob uma lógica d e
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cadosim bólico, que opera segundo as reg'-"-s d e qualquer o utro mer-
o conce ito de texto põe d e lado os d e signo, cQdigo, me nsa- cado: é s6 através do processo de produção, circulação e consumo
gem, tão familiare s aos modelos comunicacionais, e lraz à cena a preo- que os objetos adquirem a condiç:"io de significante . É esta premissa
cupação com as marcas do Outro, alteridade constitutiva do sen tido e seus desdobramentos que fomlam o postulado da econo mia políti-
a p:lnir mesmo da estrururação textual num contexto d iscu rsivo . c.'l do s ignificante e é também uma lese central na proposta teóri-
Ide mificar a adequação d e uma me nsage m a seu público o u co-metodológica de veiÓn. Nas suas palavras,
os e fe itos que nele produz abre algumas portas para a geração de es- lrala-se, para uós. de Ctmceber /JS I lmlÍmellos de M!.uido como te.ufo. de
tratégias na comunicação, mas certamente fica muilo aqué m da com- "'" ladu, $(,,,,prO!aJumw de InwsllmelllO "OS C:0 1lglomerutlustlo! mmlfrlas
preensão dos mecanis mos intenexluais que faze m funcionar os slgll lJlcantesl! com o remetem/o, dco/lrro latiu. au/""ciU1/ameIlfO da rede
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processos d e semiose social, scmiose que é dinamizada pelos confli- wo sW;Ci!I(vefs de sI!rem descritos COII/O CO'Vfll/los de prucessos prodllli-
tOS sociais, os quais se expressam claramente nos lextos prOduzidos I.\OS. Um a abordagem q ll e se propollhtl U aplicar. aos/ellónumos de senti·
pelos agemes, d esde que sejam mirados sob a ó tica discu rsiva. do, o mrx/do de um sistema prodmfvo, deve postulllr roluçiies
$Ístem tltlctl$ O!tltre amjlllllos signifiCiJlltn dados, por um Indu e os aspec-
Do ponto de vis ta da recepção, o fato de alguém se expor a tos jíw dame,ltais de lodo sistema pf"f)(lutllJQ. de uutro: produçlJo, d n:ula-
uma mensagem - ler uma canilha, poraemplo - não é detenninan- çdo, CO'lSflmo. ( 1980: 190)
te da sua prática s ubseqüente e s im o mo do pelo qual esta pessoa se
re laciona cOm o textO, que o utros textos são postos em cena, assu- Nesse me rcado, as relações d ;io-se entre discu rsos c é atnl-
mindo im pon:i.ncia a história daquele texto, a d e suas leiturdS e a do vés d eles que os sujeitos negociam su as trocas, tendo C0l110 o bjetivo
leito r; em o utras pab.vras, o modo de le ilura e o sujeito-leitor que a disputa d os scntidos, o u melhor, a supremacia na consl"rução d os
lhe corresponde . sentidOS d o minantes.
O terceiro posrulado permitirá perceber as difere nças nm- Q uero lembrar que o sujeito, tal como aqui é percebido, não
damenr:tis enrre as ~horcl~gt': ns c:omunicacional e semiológica. ao tem controle tOtal sobre seu d iscurso, nem conscii:nda ple na das vozes
Ir.lzer à cena o conceito de m ercado simbólico , no qu al instiruições que ne le se manifes tam . A conccpçfto de "negoc.iaçáo d e sentido",
e indivíduos posicionam-se discursivOlmente, po r intemlédio de seus por exigir pelo me nos dois sujeitos e duas estratégias discursivas,
dispositivos d e e nunciação, na disputa pela prerrogativa da constnJ- pode levar a esquecer ou camuflar essas premissas, fundam entais
ção do sentido d o minante. para a Semiologi:t: a da poüssemia incontrolável do texlO e a do fun-
cioname nto discursivo a partir de dife re ntes matrizes.
Retornando ao mercado s imbólico: a e,"'(emplo d o que ocor-
A economia polltica do significante re nos Outros mercados, o nde osistcm:t produtivo d etermina e deixa
m:trcas nos o bjetos produzidos, também o s discu rsos são d etenuina-
d os pelo s istema de produção, circu l:tç:"io c consumo, que neles d ei-
Discip lina plural e receptiva , :tcolhendo ao longo de s ua
constiruição aportes de diversas dc::ndas e teorias e rctrabaUlando
s uas premissas sob a perspectiva d a produção do se ntido, a Semiolo- Z8 tn"CO\I;mcmQ (de scm ido). põlr.! Vemn , ~ign mCil cotOC2l" sentido no CSpõlÇQ e
no lempo, sob õl (o mla de proct:SliO~ dj~cu rsj\"O!l .

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'"
I ".-slta AFtlujo

xa s uas ll1 ól1"G l S. É nesta hi pótese que se baseia Veróo, para propor Também inte gram o dispositivo os discursos que fo .....un ex-
como m étodo d e análise o percurso inve rso : a partir d as pistas forn e- cl uídos . A (orma m a is radical d e negação, que é a exclusão, participa
c idas pelas marcas do discu rso, reconstruir as operações que leva- de modo conrundente da imagem d o sUjeito da enunciação. AHás, ã.
ram ao seu c ngendrame nto e e ntão compreender os m ecanismos de a ná lise do não-dit"o , doexduído, é fundame ntal na compn:ensão d as
base d o funcio name m o social. "Analisando produtos visamos pro- d eterminações d e cada discurso: po rque não poderia ser Outro, por-
cessosn (ide m: 180), processos que são cu lturais, sociais e políticos. que (o i ele o produzido, entre tantOS discursos possíveis naquela e
Tal proposta inclui tacitam e nle uma teoria da e nunciação, e m o utras formações discu rsivas. O lugar que um disc urso ocupa e
associada a uma pragmát ica d a comuni cação. Vejamos o que isso os e feitos de sentid o que produz são d e terminados lambém pelos
significa. "fantasmas " d os discursos que foram excl uídos em seu (avor.
A e nunciação é a paJavra no merC""ddo . E, par.J. estar no merca- Os disposilh'os de enunciação a travessam, pois, lodo o dis-
d o , d esen" o l\'e estratégias d e concorrência, que pode m ser in(eridas c u rso e ao (azê-Io d eixam marcas, como já m encione i a propósito d o
pelo dispositivo de ellunciação, CJue é a (arma particular pe la qual seu s is te m a produtivo. São essas marcas que pennitem ao recepto r
os v;.\rios suje itos (ou as vozes) se organizam e dialo gam nos discur- refazer as o perações do emissor e p:ln'icipar d a negociação de senti-
sos. Forma particubr, porque se constró i difert!ntemente em cad a d o e m que consiste a prática discu rsiva . E isso ele faz com seu pró-
discurso, pelas modalidades do dizer, que depende m da si tuaçáo de prio dispositivo, que difici lmente coinc ide com o d o e missor, uma
comunicação, que é sempre singular. É atrJ.vés d o dispositivo de vez que dispositivo s são condic io nados, e ntre o utros fulores, pela
e nunciaç:.io que o su je ito e missor constrói a sua própria imagem e a culrura, posição social e interesses d e classe e institucionais dos sujei-
d o receptor, e propõe um modo d e relaç:i o e ntre eles. Verón adora o tOS e nunciadores. No caso específico das pr.í.ticas discu rsivas no
[e nno "COntr.J.to d e leitura~ para se referir aOS dis positivos de enuncia- me io rural , essa def.lsage m é acentuada não só pela estrurur.J. con-
ção d os discursos escritos. Creio, po ré m , que seria mais uma propos- cc mradora do direito de fa lar, como pela distância temporal emrc a
ta d e contmto , que o receptor assinaria apenas no mOmento da produção e consumo discursivos. Como a lerta Verón,
recepção. No caso dos ó rgãos da imprensa, que têm consu mo regular ( ... ) para QS dlsCII1'slJS cuja clrculaçliQ.r;o,uum o é diferida 0 /1 , por assim
por um público habiru al , pode-se taJvez falar em contrato , já que o re- dizer. existe a fungo prazo, "lio se potlc e$l/ltl!Cer li ma dlss/m etrla entclul
cepto r Lu: suas escolhas ao idt:nti6car-se o u n.'io com aque le d i... positi- e,llre c:undlÇÓ(!S l/eprrxil.çdu enm dfçóes l/e rccepçdo, 11m" ve.:prudu..-idu U
díscllr.F.J. em cm ltlições dClenlljlladas, ('StUf pe""allf!Cem e pcrml.mecemo
vo. O vínculo e orre as panes é mais dur:h·d . Mas no caso do tipo de semp~e as m esmas. A rn:epçiio, ou [) CQllsumo, pelo comrárlo, estli "conde-
discurso escrito que c ircula no me io rur.t.l, que não tem regularidade, "mio " a modiftca~'$e I"de/i"idameme. ( ...) Esse descompasso lIOda mais
ncm de circulação ncm dos modos d e dizer, carla aro de recepção ad- é do ql/eo prillçiplo lle cr.msll/ulçdo da história dos textos. O qlle é Impor-
tante reteréqllll a bls/6ria de 11111 Il'XfCJ OI' lle 11m cUlljullt(J lJe textos cmlSis-
mi te a dupla possibilidade da aceitação o u da rejeição d o contrato pro- te ,,"m processo de alterações sistemáticas. ao 10llRO do Ill/llfXJ blst6ricu.
posto. Por isto , fico mesmo com O lermo "dispositivO de e nuncia\--:lo". do sist e/lla de ~el(/ç6eselllre "gramática "deprudllçüu e "grlJ/IIálica" de re-
Fazem parte do dispositivO não só a organização textuaJ, in- collbeclml!'llu.~ ( 1980: 1(9)
cl ui.ndo imagens, cores, diagramação e o te.x tO escrito , mas também
Os diSpoSitivOs de enunciação con sisfe m , certam e nte , numa
O meio d e comun.icação escolhido , o (o nnato do material e o modo
te ntativa de estabilização d o sentido e nis to o sujeito e missor investe
de c irculação. Assim , uma canilha constrói imagens dis tintas d e uma
sua competê n cia discursiva, m as a n:llurcz:.1 d os discursos (poli fô ni-
apostii:J., a escolha do rádio produz sentidos difereOles da de um au-
diovisual , a distribuição de um jornal através do sindicato denota
concepções das re lações e papéis sociais diversas da e ntrega pelas
mãos d o re presentante da organização que o produziu .
29 Vc:ron US3 o Icrmogramárica como 1;!(luiYlIolcnlt::I di.~posil i\"o. Por OUtro b.do.
diSlinguc "wtY;a d e traço, o segundo ~ignHic:mdo:l marca qU:lndo illll;! rprC:l:lda
ocn tro d o disolrso.

IJ. ll7
I ".-slta AFtlujo

xa s uas ll1 ól1"G l S. É nesta hi pótese que se baseia Veróo, para propor Também inte gram o dispositivo os discursos que fo .....un ex-
como m étodo d e análise o percurso inve rso : a partir d as pistas forn e- cl uídos . A (orma m a is radical d e negação, que é a exclusão, participa
c idas pelas marcas do discu rso, reconstruir as operações que leva- de modo conrundente da imagem d o sUjeito da enunciação. AHás, ã.
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base d o funcio name m o social. "Analisando produtos visamos pro- d eterminações d e cada discurso: po rque não poderia ser Outro, por-
cessosn (ide m: 180), processos que são cu lturais, sociais e políticos. que (o i ele o produzido, entre tantOS discursos possíveis naquela e
Tal proposta inclui tacitam e nle uma teoria da e nunciação, e m o utras formações discu rsivas. O lugar que um disc urso ocupa e
associada a uma pragmát ica d a comuni cação. Vejamos o que isso os e feitos de sentid o que produz são d e terminados lambém pelos
significa. "fantasmas " d os discursos que foram excl uídos em seu (avor.
A e nunciação é a paJavra no merC""ddo . E, par.J. estar no merca- Os disposilh'os de enunciação a travessam, pois, lodo o dis-
d o , d esen" o l\'e estratégias d e concorrência, que pode m ser in(eridas c u rso e ao (azê-Io d eixam marcas, como já m encione i a propósito d o
pelo dispositivo de ellunciação, CJue é a (arma particular pe la qual seu s is te m a produtivo. São essas marcas que pennitem ao recepto r
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sos. Forma particubr, porque se constró i difert!ntemente em cad a d o e m que consiste a prática discu rsiva . E isso ele faz com seu pró-
discurso, pelas modalidades do dizer, que depende m da si tuaçáo de prio dispositivo, que difici lmente coinc ide com o d o e missor, uma
comunicação, que é sempre singular. É atrJ.vés d o dispositivo de vez que dispositivo s são condic io nados, e ntre o utros fulores, pela
e nunciaç:.io que o su je ito e missor constrói a sua própria imagem e a culrura, posição social e interesses d e classe e institucionais dos sujei-
d o receptor, e propõe um modo d e relaç:i o e ntre eles. Verón adora o tOS e nunciadores. No caso específico das pr.í.ticas discu rsivas no
[e nno "COntr.J.to d e leitura~ para se referir aOS dis positivos de enuncia- me io rural , essa def.lsage m é acentuada não só pela estrurur.J. con-
ção d os discursos escritos. Creio, po ré m , que seria mais uma propos- cc mradora do direito de fa lar, como pela distância temporal emrc a
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recepção. No caso dos ó rgãos da imprensa, que têm consu mo regular ( ... ) para QS dlsCII1'slJS cuja clrculaçliQ.r;o,uum o é diferida 0 /1 , por assim
por um público habiru al , pode-se taJvez falar em contrato , já que o re- dizer. existe a fungo prazo, "lio se potlc e$l/ltl!Cer li ma dlss/m etrla entclul
cepto r Lu: suas escolhas ao idt:nti6car-se o u n.'io com aque le d i... positi- e,llre c:undlÇÓ(!S l/eprrxil.çdu enm dfçóes l/e rccepçdo, 11m" ve.:prudu..-idu U
díscllr.F.J. em cm ltlições dClenlljlladas, ('StUf pe""allf!Cem e pcrml.mecemo
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discurso escrito que c ircula no me io rur.t.l, que não tem regularidade, "mio " a modiftca~'$e I"de/i"idameme. ( ...) Esse descompasso lIOda mais
ncm de circulação ncm dos modos d e dizer, carla aro de recepção ad- é do ql/eo prillçiplo lle cr.msll/ulçdo da história dos textos. O qlle é Impor-
tante reteréqllll a bls/6ria de 11111 Il'XfCJ OI' lle 11m cUlljullt(J lJe textos cmlSis-
mi te a dupla possibilidade da aceitação o u da rejeição d o contrato pro- te ,,"m processo de alterações sistemáticas. ao 10llRO do Ill/llfXJ blst6ricu.
posto. Por isto , fico mesmo com O lermo "dispositivO de e nuncia\--:lo". do sist e/lla de ~el(/ç6eselllre "gramática "deprudllçüu e "grlJ/IIálica" de re-
Fazem parte do dispositivO não só a organização textuaJ, in- collbeclml!'llu.~ ( 1980: 1(9)
cl ui.ndo imagens, cores, diagramação e o te.x tO escrito , mas também
Os diSpoSitivOs de enunciação con sisfe m , certam e nte , numa
O meio d e comun.icação escolhido , o (o nnato do material e o modo
te ntativa de estabilização d o sentido e nis to o sujeito e missor investe
de c irculação. Assim , uma canilha constrói imagens dis tintas d e uma
sua competê n cia discursiva, m as a n:llurcz:.1 d os discursos (poli fô ni-
apostii:J., a escolha do rádio produz sentidos difereOles da de um au-
diovisual , a distribuição de um jornal através do sindicato denota
concepções das re lações e papéis sociais diversas da e ntrega pelas
mãos d o re presentante da organização que o produziu .
29 Vc:ron US3 o Icrmogramárica como 1;!(luiYlIolcnlt::I di.~posil i\"o. Por OUtro b.do.
diSlinguc "wtY;a d e traço, o segundo ~ignHic:mdo:l marca qU:lndo illll;! rprC:l:lda
ocn tro d o disolrso.

IJ. ll7
l ..c~lIa Araujo A ""'Il>wersdo ,I" ulbt.r

0 , intertextual) e do p róprio sentido (abissal) faze m com que não impõe uma imagem de si , que v-di se refl etir no dispositivo de enunci-
haja qualquer garantia em relação a isso. ação, na cons tnlÇ"..Io do sujeito do enunciado.
Da noção d c palavr.l no mercado e da natureza singular dos , No momento do consumo discursivo, essa image m proposta
dispositivos de e nunciação decorre uma conseqüência metodológica. s:ra elemento relevante das cond ições de recepção. Daf decorre que
Trata-se do sentido diferencial dos discursos, o u seja: um texto ou dis-