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A Casa do futuro terá Sensores e Horta

Quando eu era criança, imaginava o futuro com carros voadores, cidades


suspensas, trabalho automatizado, aparelhos eletrodomésticos inteligentes,
robôs que além de cozinharem, lavarem e limparem a casa, ainda dariam
conselhos e cantariam para o bebê dormir; com um toque no botão do meu
“relógio-controle-remoto” eu acionaria luzes, controlaria a umidade e
temperatura do ambiente, prepararia a hidromassagem com meus sais
prediletos, trancaria janelas e portas, controlaria as cortinas, ligaria o som,
regaria o jardim e prepararia uma recepção com abraço apertado e cachorro
abanando o rabo (Ops! Acho que não existia essa função).

Na minha imaginação, o humano teria pouca participação nessa casa do futuro,


além de desfrutar e monitorar.

O ano 2000 seria a data do evento – “O Futuro chegou! ”, e no dia 1 de janeiro


de 2000, o futuro entraria pela porta da frente do planeta.

Estamos em 2017, e não vejo carros voando, não tenho nenhum robô fazendo
meu suco, apenas um liquidificador pilotado por mim mesma; ainda acendo as
luzes no interruptor e ligo o som com meu dedo indicador.

O futuro tem menos casas inteligentes do que eu imaginava, menos abundância


e muito mais pessoas, lixo e carências.

Mudou o futuro ou mudei o meu conceito de futuro?

Algumas questões são fundamentais para entender um pouco a respeito da


casa e do futuro – dois conceitos que mudam a cada novidade tecnológica.

A primeira questão é “Qual a quantidade de pessoas que a Terra consegue


abrigar e alimentar? ”

A segunda é “Como construir casas e produzir alimentos para uma população


de 7 bilhões de pessoas sendo que a tendência da população mundial está
sendo dobrar a cada 35 anos aproximadamente? ”

A terceira é “Como abrigar toda essa população em uma moradia adequada, na


qual o cidadão possa ter atendidas as suas necessidades básicas e fundamentais
de subsistência, com dignidade e sem causar danos ao planeta? ”

Somos 7 bilhões de pessoas organizadas em algumas centenas (ou serão


milhões?) de tribos, completamente diferentes em seus hábitos, crenças,
expectativas, ambições, dogmas, relação com o planeta e o grupo em que está
inserido.

Muita diversidade para um planeta que pede socorro e uma população de seres
vivos que agoniza junto com ele.

O cenário é assustador tanto para casa quanto para futuro:

- déficit habitacional em torno de 6 milhões de unidades no Brasil;

- o setor da construção civil consome 75% dos recursos naturais extraídos, gera
80 milhões de toneladas de resíduos por ano, devido à queima de combustíveis
fósseis, sua cadeia produtiva contribui de forma significativa para a emissão de
gases de efeito estufa (GEE), como o CO2, também responde por 40% do
consumo mundial de energia e por 16% da água utilizada no mundo;

- 1 bilhão de pessoas passam fome no mundo. Todo ano, 5 milhões de seres


humanos estão se juntando ao exército de famintos;

De acordo com Lester Brown, “A questão não é‚ o quanto consumimos, mas


como produzimos o que consumimos. ” Podemos acrescentar “como
descartamos o que consumimos”.

Diante desse cenário como seria a casa do futuro?

Um projeto arquitetônico de uma casa de baixo custo, orientado a partir de


diretrizes gerais relacionadas a projetos sustentáveis inclui:

• Acessibilidade – todos os espaços de passagem e banheiros permitem a


movimentação segura de idosos e cadeirantes. Dê “possibilidade e condição de
alcance, percepção e entendimento para a utilização com segurança e
autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e
elementos” (ABNT, 2004)

• Adequação Climática - adequação ao local e ao clima, visando o combate à


radiação solar excessiva, à grande luminosidade e privilegiando a ventilação e
iluminação natural.

• Água – Captação e utilização de água de chuva, redução do uso e tratamento


de águas residuárias.
• Energia –Redução do consumo de energia e desenvolvimento de tecnologias
de baixo custo, para utilização de energia solar e eólica, de acordo com a
região.

• Materiais e Tecnologias de Construção - Identificar os materiais locais,


recursos naturais e desenvolver novos materiais e componentes; proporcionar a
interação dos moradores da comunidade e seus saberes com o processo
construtivo.

• Saneamento eficiente – desenvolver fossa séptica mais eficiente e, ao mesmo


tempo, acessível às populações mais pobres.

• Sistema construtivo - adoção de sistemas de construção otimizados que


possibilitem a autoconstrução e a diminuição de perdas de material.

• Horta – cultivar e produzir o próprio alimento livre de agrotóxicos significa


reconectar com Gaya, a Grande Mãe Terra é generosa e alimentaria todos os
seus filhos, se não esbarrasse na ambição, no desrespeito e ganância. Para isso
é necessário que a família e a educação sejam parceiros para resgatar valores
como respeito, compaixão, humildade, paciência, persistência... aprender a
cuidar da horta é aprender a cuidar da vida e dos seres deste planeta.

Gaia está viva, mas precisa de cuidados, para não sucumbir aos rastros deixados
pela ganância e ignorância dos seus filhos humanos. Os filhos de Gaia
dependem da saúde da Mãe para continuar existindo como civilização.

A crise pela qual passamos não é ambiental, mas civilizacional. O planeta


retoma seu equilíbrio, mas a humanidade não. Nossa carência não é unicamente
de casas e educação ambiental, mas de valores, ética, identidade e respeito pelo
planeta.

A arquitetura é um instrumento para ajudar nesse processo de cura do planeta


e resgate da dignidade e qualidade de vida do ser humano. A casa é o primeiro
abrigo, depois do útero e pode se tornar a porta para a descoberta de ser e
estar no mundo. Construir casas que permitam essa experiência, sem agredir o
planeta é o desafio da arquitetura.

O grande desafio da Sustentabilidade e Humanização da Arquitetura é adequar


a casa ao lugar, em harmonia com a natureza, respeitando a cultura e as
expectativas da comunidade; é atender as necessidades de sobrevivência e
dignidade.
“Você pode levar um cavalo para a água, mas não pode fazê-lo beber."
(Yogananda)

Não podemos obrigar o cavalo a beber água, não temos nenhum poder sobre a
sede, mas temos as condições necessárias e responsabilidade de construirmos
bebedouros com qualidade e quantidade suficientes, para que a natureza se
encarregue do resto.

Arq. Míriam Morata Novaes