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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 3º VARA

CRIMINAL DA COMARCA DE GOIÂNIA.

Processo nº: 20120000000

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx, já qualificado nos autos em


destaque, por intermédio da Defensoria Pública do Estado de Goiás, advogado
adiante assinado, com as prerrogativas do art. 5º, § 5º, e 16, parágrafo único, da
Lei nº. 1060/50, que determina a intimação pessoal de todos os atos processuais
em ambas as instâncias e a contagem de todos os prazos processuais em dobro,
bem como a não exigência de exibição de instrumento de mandato, para os
Defensores Públicos, ou quem exerça cargo equivalente, com fundamento no
artigo 403, §3º do Código de Processo Penal, vem à ínclita presença de Vossa
Excelência apresentar seus

MEMORIAIS,

nos termos seguintes.

HISTÓRICO DO PROCESSADO
O acusado foi denunciado como incurso nas sanções do artigo
33, caput, da Lei 11.343/06, em razão dos fatos narrados na inicial acusatória de
fls. 02/06 destes autos.

Segundo narra a denúncia, no dia 04 de Abril de 2012, por volta


das 18:40 horas, na residência sito na Rua 24 de Dezembro, Quadra 11/17, Lote
14, no Setor Estrela Dalva, nesta Capital, o acusado foi surpreendido tendo em

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depósito, aproximadamente, 120 gramas de cannabis sativa e 2,2 gramas de
crack.

A defesa preliminar do acusado foi juntada às fls. 142 deste


processo, oportunidade na qual foram arroladas testemunhas pela Defesa.

Recebida a denúncia (fl. 143/144), iniciou-se a instrução


processual, ao longo da qual foram colhidos os seguintes elementos probatórios:
depoimentos testemunhais e interrogatório do acusado, momento no qual o
acusado não reconheceu a autoria do crime..

Os memoriais da acusação vieram às fls. 367/376, nos quais foi


reiterado os termos da denúncia.

Essa é a síntese deste caderno processual.

II - DO MÉRITO

Da Insuficiência De Provas Para a Condenação:

Partindo-se de uma visão constitucional do processo penal


brasileiro, a sistemática de apuração da ocorrência de infração penal deve sempre
levar em consideração os princípios da presunção de inocência ou de não
culpabilidade (artigo 5º, LVII, CF/881), o princípio do favor rei ou do in dúbio pro
reo2 e o da paridade de armas, para que se possa chegar à conclusão de que o
órgão acusador é o único responsável direto pela produção de provas, ou seja, o
portador do ônus de provar cabalmente a existência da infração penal e quem foi o

1
LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;
2
“Segundo o princípio do favor rei (ou do favor innocentiae, ou do favor libertatis), nos casos em que não seja possível
uma interpretação unívoca, mas se conclua pela possibilidade de duas interpretações antagônicas de uma norma legal, a
obrigação é de se escolher a interpretação mais favorável ao réu. Em outras palavras, a dúvida sempre beneficia o réu
(in dúbio pro reo).” (FEITOZA, Denílson. Direito Processual Penal: Teoria, Crítica e Práxis. Rio de janeiro: Impetus, 5ª
Ed, p. 155
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seu autor.

É neste sentido que caminha o artigo 156 do Código de Processo


Penal, in verbis:. “A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém,
facultado ao juiz de ofício (...)”.

Também se pode extrair essa conclusão da interpretação a


contrário senso do art. 386, VI, parte final, do Código de Processo Penal, que
assim preceitua:

“art. 396. O juiz absolverá o réu, mencionando a causa na parte dispositiva, desde
que reconheça: (...) VI – existirem circunstâncias que excluam o crime ou isentem o
réu de pena (arts. 20, 21, 22, 23, 26 e § 1o do art. 28, todos do Código Penal), ou
mesmo se houver fundada dúvida sobre sua existência; (Redação dada pela Lei nº
11.690, de 2008)

Outro não é entendimento da jurisprudência. Veja-se:

“(...)III. O Estado Democrático, que consagra o estado de inocência como garantia


constitucional, faz com que, no processo penal, todo o ônus de provar a existência do
crime e suas circunstâncias fique a cargo da acusação.” (TJMG; APCR 6016993-
92.2009.8.13.0024; Belo Horizonte; Quinta Câmara Criminal; Rel. Desig. Des. Pedro
Vergara; Julg. 16/11/2010; DJEMG 07/12/2010)

EMENTA: APELAÇÃO CRIMINAL – TRÁFICO DE DROGAS – ABSOLVIÇÃO –


RECURSO MINISTERIAL PUGNANDO PELA CONDENAÇÃO DO APELADO –
IMPOSSIBILIDADE – AUSÊNCIA DE PROVAS PARA SUSTENTAR UM DECRETO
CONDENATÓRIO – RECURSO IMPROVIDO. Há que absolver o agente quando não
existem provas suficientes a lastrear um decreto condenatório, ou seja, havendo
dúvida quanto à autoria há de se aplicar o princípio do “in dubio pro reo”. (TJMS,
ApCriminal n. 2009.022059-9, Primeira Turma Criminal, Rel. Des. Marilza Lúcia
Fortes, j. em 24.11.2009)

Mas cumpre destacar que não é qualquer prova que será hábil ao
fim proposto. É preciso que a prova seja judicializada, isto é, produzida perante um

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Juiz de Direito e sob o manto do contraditório e da ampla defesa. 3 E mais, mister
se faz que a prova seja lícita e legítima, isto é, que seja produzida com a
observâncias das normas constitucionais e legais.4

Portanto, a premissa básica que o julgador deve ter ao examinar


a sua causa é que o órgão acusador deve buscar a verdade real, produzindo
provas judiciais claras e precisas de que houve uma infração penal e quem
foi o seu autor ou partícipe, tudo com a observância das normas legais e
constitucionais, sob pena de se reconhecer a dúvida, por menor que seja, em
favor do réu, conforme preconiza o artigo 386, VII, do CPP.

Feitas essas considerações, passa-se à defesa do acusado.

O conjunto probatório formado neste caderno processual é


completamente frágil e não conclusivo sobre a real participação no delito de tráfico
de drogas que supostamente ocorria na residência do acusado. Ao revés, as
provas produzidas pela acusação são apenas indiciárias, de modo que não servem
para qualquer juízo de condenação.

Há que se dizer, como ficou bem claro ao longo do processo, o


acusado não morava na residência onde ocorreu a apreensão das drogas. Ele
apenas estava no local onde a droga foi apreendida. Ressalte-se que inclusive
indicou de quem era a droga, ou seja, colaborou com a investigação, que por sinal
foi muito falha e cheia de dúvidas.
3
Esta é uma leitura constitucional do artigo 155 do Código de Processo Penal, que assim diz: Art. 155. O juiz formará
sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua
decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não
repetíveis e antecipadas.
4
CPP - Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo, as provas ilícitas, assim entendidas as
obtidas em violação a normas constitucionais ou legais. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 1o São também inadmissíveis as provas derivadas das ilícitas, salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade
entre umas e outras, ou quando as derivadas puderem ser obtidas por uma fonte independente das primeiras. (Incluído
pela Lei nº 11.690, de 2008)
§ 2o Considera-se fonte independente aquela que por si só, seguindo os trâmites típicos e de praxe, próprios da
investigação ou instrução criminal, seria capaz de conduzir ao fato objeto da prova. (Incluído pela Lei nº 11.690, de
2008)
§ 3o Preclusa a decisão de desentranhamento da prova declarada inadmissível, esta será inutilizada por decisão judicial,
facultado às partes acompanhar o incidente.
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Como se verifica do interrogatório do acusado, ele nega
veementemente que jamais praticou o delito descrito na inicial acusatória.

De mais a mais, o depoimento testemunhal utilizado pelo


Ministério Público para tentar incriminar o acusado está em descompasso com o
restante das provas, notadamente porque a únicas testemunhas que confirmam o
fato narrado na inicial são os policiais que participaram da investigação e prisão,
cujos depoimentos devem sempre ser visto com reserva, como bem é
fundamentado pela Doutrina pátria:

“[...]é de bom senso e cautela que o magistrado dê valor relativo ao


depoimento, pois a autoridade policial, naturalmente, vincula-se ao que
produziu investigando o delito, podendo não ter a isenção indispensável
para narrar os fatos, sem uma forte dose de interpretação.
(...)
Cabe, pois, especial atenção para a avaliação da prova e
sua força como meio de prova totalmente isento. Sobre a
possibilidade de se arrolar somente policiais para depor,
em lugar de efetivas testemunhas, isto é, aqueles que
presenciaram algo diretamente vinculado ao fato, está a
crítica de Espínola Filho: “Amanhã, a polícia é chamada
ao lugar onde um crime foi ou está sendo cometido. Vão
três ou quatro funcionários, encontram pessoas dando
notícias detalhadas dos fatos, com minúcias e históricos
completos; ouvem-nas, e delas abstraem inteiramente,
daí a seguir; pois resolvem constituir-se em
testemunhas, reportando à autoridade policial, na
delegacia, o que lhes foi contado por toda aquela gente,
que não foi incomodada, nem o nome lhe sendo tomado
(Código de Processo Penal brasileiro anotado.v.3,p.90)”

Deste modo, em homenagem ao princípio da presunção de


inocência, há de ser julgada improcedente a pretensão acusatória, com
fundamento no artigo 386, V, do Código de Processo Penal.

Na remota hipótese de se reconhecer a procedência da pretensão


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acusatória, em homenagem ao princípio da eventualidade e da ampla defesa,
sustenta-se o quanto segue.

Da Desclassificação

Sustenta o nobre Promotor de Justiça que a imputação correta


para o caso em análise é a do artigo 33, caput, da Lei 11.343/06. Ademais,
assevera que o fato de o acusado ser usuário não afasta da condição de traficante.

Apesar do esmero do membro Ministerial, não se pode coadunar


do seu entendimento. O caso do acusado merece especial atenção, pois é nítido
que o seu dolo foi unicamente o de ir à residência onde sabia que encontraria a
droga para seu consumo pessoal, especialmente pelo fato de ser um usuário de
drogas pesadas.

Veja-se, então, os motivos para se desclassificar a conduta do


acusado para a prevista no artigo 28 da Lei de Drogas.

Como se verifica do acima mencionado dispositivo legal, a


configuração do crime de uso de droga ocorre quando presente o dolo específico,
isto é, quando o agente pratica qualquer das condutas descritas no tipo (adquirir,
guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo) com a consciência e
vontade de que a droga é para consumo pessoal.

Para facilitar a orientação do Julgador, a própria Lei de Drogas


cuidou de estabelecer requisitos objetivos para se extrair qual era a real destinação
da droga. Senão veja-se:

Art. 28 [...]§ 2o Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o


juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às
condições em que se desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem
como à conduta e aos antecedentes do agente. (destacou-se)

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Note-se que não é somente um critério é que irá distinguir o
usuário do traficante. A lei não contém palavras inúteis. Se ela enumerou uma série
de critérios que levam à caracterização do usuário de drogas, todos eles devem
ser sopesados conjuntamente pelo aplicador da lei, especialmente porque o texto
legal não estabelece preponderância de um sobre outro. 5 Então, ao intérprete não
cabe fazer distinção onde a lei não o fez.

No caso em análise, é nítido que o dolo do acusado foi o de


especificamente ter a droga para seu próprio consumo, conforme se pode observar
do seu interrogatório prestado na fase policial e judicial, bem assim dos demais
depoimentos colhidos ao longo da instrução processual.

Por outro lado, contrariando a conclusão Ministerial, o acusado


diz claramente que trabalhava antes de ser preso, de modo que não se pode dizer
que o tráfico era a fonte de renda do acusado.

A quantidade da droga apreendida não pode denotar, por si só, a


traficância. Ao contrário, a natureza de droga apreendida, dada a sua
potencialidade para a dependência, faz com que o usuário busque seu consumo
várias vezes ao dia, o que justifica a quantidade encontrada.

Eis, a propósito, o ensinamento do brilhante doutrinador LUIZ


FLÁVIO GOMES6:

“A quantidade da droga, por si só, não constitui, em regra, critério determinante. Claro
que há situações inequívocas: uma tonelada de cocaína ou de maconha revela
traficância (destinação a terceiros). Há, entretanto, quantidades que não permitem
uma conclusão definitiva. Daí a necessidade de se valorar não somente um critério (o
quantitativo), senão todos os fixados na Lei.”

5
É o que diz Luiz Flávio Gomes – Coord. (in Lei de Drogas Comenta: artigo por artigo. São Paulo: RT, 4ª Ed., 2011, p.
172/173: “Cabe ao Juiz (ou à autoridade policial) reconhecer se a droga encontrada era para destinação pessoal ou
para tráfico. Para isso a lei estabeleceu uma séria enorme de critérios. Logo, não se trata de uma opinião do juiz ou de
uma apreciação subjetiva. Os dados São Objetivos”
6
Ibidem, p. 173/174.
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Deste modo, há que se considerar que o acusado agiu com o fim
especial de guardar a droga apenas para seu consumo próprio. Com efeito, deve a
conduta do acusado ser desclassificada para a do artigo 28 da Lei 11.343/06.

DOS PEDIDOS

Ante o exposto, requer-se:

1. Que a pretensão acusatória seja julgada improcedente,


absolvendo o acusado xxxxxxxxxx na forma do artigo 386, V, do CPP;
2. Ratificar a solicitação ministerial quanto à absolvição do
acusado quanto ao crime de associação para o tráfico ilícito de drogas (art. 35 da
lei 11.343/06), posto não existir provas de ter o acusado concorrido para ocorrência
da infração penal.
3. Que seja julgada improcedente a pretensão acusatória, para
o fim de desclassificar a conduta do acusado para a do artigo 28 da Lei 11.343/06.

Pede Deferimento.

Goiânia, 28 de Julho de 2014

LANKER VINÍCIUS BORGES SILVA


OAB/GO nº 25.413

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