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CAPÍTUlO 1

C APÍTUlO 1 P erSPectivaS t eórico -m etodológicaS em d eSenvolvimento H umano A partir

PerSPectivaS teórico-metodológicaS em deSenvolvimento Humano

A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem:

3

Conhecer as perspectivas teórico-metodológicas sobre o desenvolvimento humano.

3

Distinguir as propostas de cada uma das perspectivas teórico-metodológicas sobre o desenvolvimento humano.

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 10 10

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem

Capítulo 1

contextualização

PersPectivas teórico-Metodológicas eM desenvolviMento HuMano
PersPectivas teórico-Metodológicas eM
desenvolviMento HuMano

neste primeiro capítulo, discutiremos o desenvolvimento humano e

a necessidade do conhecimento da Psicologia do Desenvolvimento e da

Aprendizagem para os processos de intervenção do profissional de educação.

você poderia se perguntar sobre a relevância de conhecer a área da

Psicologia do Desenvolvimento em um curso que não é de Psicologia. Algumas pessoas buscam estudar a Psicologia do Desenvolvimento para responderem

a algumas perguntas sobre seus próprios comportamentos, de alguém da

família ou de um amigo. Talvez você já se tenha feito as seguintes perguntas:

- Quando os bebês reconhecem as suas mães pela primeira vez?

- Por que as crianças pequenas dizem, por exemplo, que o sol e as nuvens estão vivos e as seguem.

- O ambiente familiar influencia a personalidade? Se sim, por que crianças de uma mesma família são frequentemente tão diferentes umas das outras?

- Por que os seres humanos são, em alguns aspectos, tão similares uns aos outros e, ao mesmo tempo, tão diferentes?

O desenvolvimento do ser humano é um processo de construção social que se dá nas e através das múltiplas interações que um indivíduo estabelece desde o seu nascimento, com outras pessoas e, particularmente, com aquelas com as quais ele mantém um maior vínculo afetivo. Tais interações ocorrem em ambientes organizados e modificados pelos adultos, conforme as concepções sobre desenvolvimento infantil próprias daquela cultura, das quais eles se apropriam através de suas experiências anteriores (ROssETTi-FERREiRA et al, 2004).

Atualmente, o estudo do desenvolvimento humano enquanto processo

abrange:

• a compreensão dos processos psicobiológicos nele envolvidos (genética, evolução e regulações fisiológicas);

• a análise do espaço sociocultural (família, escola e amigos);

• a análise do tempo real (história e cultura);

• o desdobramento das ações das pessoas.

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Em seguida, apresentaremos as principais teorias que explicam como

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem

Em seguida, apresentaremos as principais teorias que explicam como ocorre o desenvolvimento humano.

O ensino é uma atividade voluntária que se propõe a modificar o

comportamento, os esquemas mentais e as atitudes do aprendiz. Em outras palavras, APRENDER É MUDAR. Deste modo, é necessário compreender

o que estamos querendo mudar (as ações, as atitudes, a forma de resolver

problemas, etc.), como essas ações, atitudes, etc. mudam e, se mudam ao longo do tempo, em qual ou quais momentos as mudanças são possíveis e quais os contextos que facilitam tais mudanças.

Não existe uma explicação simples para tudo isto, pois, afinal, muitas variáveis são importantes e não podemos estudar todas ao mesmo tempo.

Teorias nos auxiliam a entender como as pessoas se desenvolvem e também a compreender o nosso papel nesse processo.

No âmbito científico, tentamos explicar como ocorre o desenvolvimento humano a partir de observações detalhadas e sistemáticas que nos auxiliem a compreender fenômenos como: as semelhanças na aquisição de alguns comportamentos, como andar, falar, escrever; as diferenças individuais em relação à aprendizagem; a forma como são resolvidos problemas e tomadas decisões e muitas outras questões. Obviamente, não existe uma explicação simples para tudo isto, pois, afinal, muitas variáveis são importantes e não podemos estudar todas ao mesmo tempo. Por isso, alguns pesquisadores se dedicaram mais à linguagem, outros ao pensamento, outros aos relacionamentos interpessoais, outros, ainda, às emoções e ao seu controle (ou à falta dele).

De acordo com o assunto pesquisado pelos grupos de cientistas, explicações distintas foram levantadas para cada aspecto do comportamento. Ainda não chegamos a um consenso sobre qual dessas explicações é mais adequada para responder a “tudo ao mesmo tempo”. Talvez uma explicação como esta seja pouco provável, mas como ainda não sabemos, dispomos de um conjunto de boas teorias que conseguem guiar nossa compreensão sobre esses fenômenos. Essas teorias nos auxiliam a entender como as pessoas se desenvolvem e também a compreender o nosso papel nesse processo, no

qual se faz presente o ensino, atividade voluntária que se propõe a modificar o comportamento, os esquemas mentais e as atitudes do aprendiz. Em outras palavras, APRENDER É MUDAR. Deste modo, é necessário compreender

o que estamos querendo mudar (as ações, as atitudes, a forma de resolver

problemas, etc.), como essas ações, atitudes, etc. mudam e, se mudam ao longo do tempo, em qual ou quais momentos as mudanças são possíveis e quais os contextos que facilitam tais mudanças.

Capítulo 1

PersPectivas teórico-Metodológicas eM desenvolviMento HuMano
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desenvolviMento HuMano

a neceSSidade daS teoriaS Para exPlicar oS FenômenoS com oS quaiS noS deParamoS todoS oS diaS

Preste atenção nos dois trechos de artigos relacionados à educação, escritos por Carvalho (2001), que transcrevemos a seguir.

As estatísticas nacionais, embora precárias no que se refere à desagregação por sexo, não deixam dúvidas quanto à diferença de desempenho escolar entre meninos e meninas em todo o ensino fundamental e médio. Podem-se tomar os dados sobre evasão e repetência ou as informações sobre defasagem entre série cursada e idade da criança:

qualquer dessas cifras indica que os meninos teriam maiores dificuldades escolares (CARVALHO, 2001, p.554).

Por que meninos e meninas (em média) têm desempenhos diferentes no que se refere à aprendizagem escolar? É uma questão da nossa biologia diferente (incluindo aí a do cérebro)? Homens e mulheres são diferentes em relação aos aspectos de desenvolvimento e de aprendizagem? Em que seriam diferentes, além de em seus aparelhos reprodutivos e em outros detalhes corporais? seriam fatores sociais os responsáveis por essas diferenças? Quando iniciam essas diferenças? De que modo a escola e outras organizações podem contribuir para essas diferenças? Por que tantos meninos e tantas meninas têm problemas com seu desempenho escolar?

Tradicionalmente a família tem estado por trás do sucesso escolar e tem sido culpada pelo fracasso escolar. Quem não conhece o caso, comum no âmbito das famílias de classe média e das escolas particulares, da mãe que acompanha assiduamente o aprendizado e o rendimento escolar do filho, filha ou filhos, que organiza seus horários de estudo, verifica o dever de casa diariamente, conhece a professora e freqüenta as reuniões escolares? E quem não conhece o discurso, freqüente no âmbito da escola pública que atende às famílias de baixa renda, da professora frustrada com as dificuldades de aprendizagem de seus alunos e que reclama da falta de cooperação dos pais? (CARvAlHO, 2000, p. 143).

São os pais assim tão fundamentais no processo de ensino de seus filhos? Como? Os outros meios sociais nos quais a criança convive não influenciam também? Se esta concepção da influência dos pais no desempenho escolar é tão correta, as crianças criadas em orfanatos e as de famílias desagregadas estão fadadas ao fracasso? Assim sendo, as escolas nada podem fazer por elas? não há outras formas de compensação desse acompanhamento? O que

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem este discurso da professora frustrada – mencionado por Carvalho

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este discurso da professora frustrada – mencionado por Carvalho (2000, p. 143) – pode significar em termos de motivação, tanto para professores quanto para alunos? Por outro lado, a cobrança em demasia, a marcação cerrada dos pais sobre a criança, também podem ser prejudiciais. Então, qual a “dose” correta de acompanhamento? Podemos generalizar estas argumentações?

Em todas as questões que apresentamos, assim como nos relatos de pesquisa, estão implícitas teorias sobre como esses fenômenos ocorrem e, ao mesmo tempo, sobre como esses dados ajudam a reformulá-las. Teorias são assim! não funcionam como crença, mas como mapas. Uma vez que haja mudanças nas localizações, os mapas precisam ser reformulados para se adequarem ao que pode ser, de fato, encontrado no ambiente e ajudar as pessoas a se guiarem pelo território que representam.

Deste modo, diferentes mapas foram construídos ao longo do desenvolvimento da ciência do desenvolvimento humano e todos eles, em suas especificidades, nos ajudam a entender como passamos, de bebês imaturos e com limitações bem claras quanto à aprendizagem, a adultos plenamente capazes de administrar sua própria vida. De posse desses mapas, podemos compreender os caminhos realizados pelas pessoas ao longo dessa jornada e ajudá-las a obterem seus melhores desempenhos ou, ainda, caso haja problemas ao longo do trajeto, podemos tentar ajudá-las a recuperarem seu rumo. Assim, não só seguiremos os mapas, como também auxiliaremos as pessoas a construírem e a reconstruírem seus próprios caminhos.

Desenvolvimento e aprendizagem são processos distintos, mas não se dão em separado.

Desenvolvimento e aprendizagem são processos distintos, mas não se dão em separado. Contudo, para tornar o conteúdo mais didático, apresentaremos os processos de desenvolvimento e de aprendizagem em capítulos separados, juntando-os novamente na síntese que realizaremos no último capítulo.

PerSPectivaS teórico-metodológicaS do deSenvolvimento Humano

t eórico -m etodológicaS do d eSenvolvimento H umano Afirmamos, anteriormente, que as teorias foram construídas

Afirmamos, anteriormente, que as teorias foram construídas com base nos fenômenos que os pesquisadores se propunham entender. Contudo, também é fato que, mesmo observando sob pontos de vista distintos, algumas características são comuns a todas as teorias.

Para a compreensão do processo de desenvolvimento humano, devemos nos voltar para uma orientação relacional que considere a pessoa em seu meio e nas interações dinâmicas, mutuamente construídas e que mudam os ambientes.

Capítulo 1

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Para a análise e a compreensão do desenvolvimento das pessoas, faz-se necessário considerar, ainda, três elementos constitutivos:

- OS CAMPOS INTERATIVOS nos quais o sujeito age: na escola, ocorre

a relação professor-aluno, professores-pais, aluno-aluno. Os cenários são: o

ambiente físico que envolve as pessoas e seus papéis, as relações afetivas e de poder, as funções e as rotinas;

- OS COMPONENTES INDIVIDUAIS os quais se referem aos aspectos

biopsicossociais dos envolvidos no processo: da criança, do professor e dos

pais;

-

O TEMPO envolvido no processo de desenvolvimento de cada pessoa:

o tempo vivido, o presente e o tempo prospectivo.

não se esqueça

Para que o processo de desenvolvimento promova a humanização, o aspecto biológico da pessoa deve ser considerado de maneira integrada aos aspectos relacional, contextual e cultural.

se você deseja conhecer mais sobre este assunto consulte o livro de:

ROSSETTI-FERREIRA, M. C. et al. Rede de significações e o estudo do desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed, 2004.

na educação, sigmund Freud, Jean Piaget, Henri Wallon e levi semenovich vygotsky são teóricos muito conhecidos, pois suas ideias são abordadas na graduação. Cabe, aqui, resgatar as principais ideias destes e de outros teóricos da Psicologia do Desenvolvimento Humano.

de outros teóricos da Psicologia do Desenvolvimento Humano. a) A visão psicanalítica de Sigmund Freud (1856
de outros teóricos da Psicologia do Desenvolvimento Humano. a) A visão psicanalítica de Sigmund Freud (1856

a) A visão psicanalítica de Sigmund Freud (1856 – 1939)

Freud desafiou as noções que existiam em sua época sobre a natureza humana ao propor que somos movidos por conflitos e por motivos os quais não sabemos (inconsciente) e que nossa personalidade é moldada pelas primeiras experiências da vida. Apesar de não ter investigado diretamente as crianças, foi por meio do atendimento clínico com adultos que Freud elaborou uma teoria sobre como ocorre o desenvolvimento psicológico do ser humano. Concluiu que o desenvolvimento humano é um processo conflitivo, pois defendia a ideia de que pelo fato de sermos criaturas biológicas, temos pulsões (desejos) sexuais (produtivas) e agressivas (destrutivas) que devem ser atendidas. Entretanto, a sociedade estipula que muitas dessas pulsões

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem são indesejáveis e devem ser refreadas. A maneira como

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são indesejáveis e devem ser refreadas. A maneira como os pais lidam com tais pulsões agressivas e sexuais nos primeiros anos de vida tem fundamental importância, pois moldarão a conduta e o caráter da criança.

As ideias mais conhecidas da visão psicanalítica são, sem dúvida, as que se referem às etapas do desenvolvimento psicossexual, ou seja, são as afirmações de que o desenvolvimento psicológico está fortemente atrelado às pulsões sexuais. Para Freud, o sexo era o instinto mais importante, uma vez que é o que garante a continuidade da espécie. Os relatos de seus pacientes com transtornos mentais normalmente circulavam ao redor de conflitos sexuais infantis reprimidos. Acreditava que à medida que a pulsão sexual amadurecia, seu foco mudava de uma parte do corpo para outra, e cada mudança levava a uma nova fase do desenvolvimento psicossexual. Para Freud, as fases do desenvolvimento humano são: oral, anal, fálica, latência e genital.

O bebê obtém prazer, satisfação, pela estimulação da região da boca.

Urinar e defecar voluntariamente tornam-se os meios primários de satisfação.

• A Fase Oral – surge com o nascimento e perdura até o final do 1º ano:

o instinto sexual concentra-se na boca (sugar, mastigar, morder). O bebê

obtém prazer, satisfação, pela estimulação da região da boca. Desta forma, presenciamos o bebê se tranquilizar quando mama no seio da mãe ou na mamadeira e quando suga uma chupeta, o próprio polegar ou o dedo do pé. Freud afirmava que os aspectos emocionais desta fase estavam relacionados com os comportamentos passivo (até os 3 meses) e ativo (após os 3 meses), isto é, relacionados à incorporação das relações afetivas vividas com as pessoas próximas ao bebê e às respostas dadas a essas pessoas.

• A Fase Anal – tem início no final do 1º ano e vai até o início dos 3 anos:

urinar e defecar voluntariamente tornam-se os meios primários de

satisfação. A criança já inicia a maturidade neurológica da região pélvica e começa a sentir o enchimento da bexiga e do intestino. Esvaziá-los provoca

a sensação de prazer, e a criança começa a perceber o momento de fazê-

lo. Como a fala já existe, a criança sinaliza para os adultos quando urinou ou defecou na roupa, e esta passa a ser uma das principais preocupações dos pais. O treinamento para o uso do banheiro produz grandes conflitos entre a criança e seus pais, pois, em algumas situações, há desentendimentos entre as partes, ora os pais brigando ou castigando a criança, ora a criança enfrentando esse comportamento dos pais com a retenção das fezes ou liberando-as nos momentos ou ambientes inapropriados. O ambiente emocional criado pelos pais pode produzir efeitos duradouros no controle das fezes ou da urina que, segundo Freud, pode ser levado para a vida adulta, como a prisão de ventre ou diarreia diante de situações de grande ansiedade. Essa relação do controle esfincteriano também desencadeia o processo de aprendizagem de autocontrole e da ciência de que suas ações podem controlar mudanças no ambiente, como o comportamento dos pais

e dos outros adultos.

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• A Fase Fálica – dura dos 3 aos 6 anos: o prazer vem da estimulação genital. A criança, nessa fase, descobre que é “gostoso” manipular a região genital e, por isso, não é raro nos depararmos com crianças que estão com as mãos nos órgãos genitais. É a fase em que a curiosidade

sexual é bastante presente, e as crianças querem saber sobre a origem e

o nascimento dos bebês. Também é nesse período que vemos a criança

“se enamorar” por um dos pais, o do sexo oposto ao da criança. Freud denominou esta relação de “querer permanecer” com um dos pais e de “rivalizar” com o outro de Complexo de Édipo, defendendo-a como uma relação saudável da infância e que propicia a identificação da criança com os papéis sexuais. nesse período, a criança descobre seu corpo como fonte de prazer, mas, obviamente, não como um adulto pensa ou desfruta do prazer. Também aprende a valorizar e a preservar seu corpo, o que a

ajuda a se autopreservar.

• A Latência – vai dos 6 aos 11 anos. Freud não denominou a latência de fase porque as pulsões sexuais são dirigidas às atividades acadêmicas e esportivas, e não ao próprio corpo como acontece nas fases anteriores. O desenvolvimento psicológico continua a se desenvolver à medida que a criança adquire mais habilidades de resolução de problemas na escola e internaliza valores morais com a ajuda dos amigos os quais adquirem maior importância em sua vida. Boa parte das normas sociais de convivência é aprendida nesse período.

• A Fase Genital – dos 12 anos em diante: a chegada da puberdade desperta conflitos relacionados à identificação sexual, ou seja, surgem

dúvidas referentes ao papel sexual e a atividades sexuais. Os jogos sexuais são comuns e surgem como experiências auxiliares nesse processo; os conflitos na adolescência se referem a expressar seus desejos de maneiras socialmente aceitas. A finalização dessa fase se dá quando a pessoa sabe o seu papel sexual e com quem deseja se relacionar sexualmente, já que a satisfação está em dar e receber prazer da outra pessoa. Esse período marca a entrada na vida adulta. É durante esse período que as pessoas começam a desenvolver relacionamentos interpessoais amorosos

e também as amizades duradouras, bem como obtêm maior controle sobre

suas emoções. São capazes de elaborar seus projetos de vida pessoais levando em conta seus sentimentos e os dos outros.

Freud chamou a atenção para não nos prendermos nas idades por ele definidas. Essas idades servem apenas como parâmetros para sabermos em que momento da vida os conflitos próprios de cada uma delas poderiam se apresentar.

A curiosidade sexual

é

bastante presente,

e

as crianças querem

saber sobre a origem e o nascimento dos bebês.

Boa parte das normas sociais de convivência é aprendida nesse período.

As pessoas começam a desenvolver relacionamentos interpessoais amorosos e também as amizades duradouras, bem como obtêm maior controle sobre suas emoções

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Como podemos perceber, a teoria psicanalítica do desenvolvimento está

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Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Como podemos perceber, a teoria psicanalítica do desenvolvimento está

Como podemos perceber, a teoria psicanalítica do desenvolvimento está centrada na vida emocional das pessoas. Este modelo (ou como nos referimos anteriormente, mapa) pressupõe que o desenvolvimento emocional condiciona o desenvolvimento das outras características humanas, como a cognitiva (percepção, memória, pensamento e linguagem).

se o modelo psicanalítico prevê que o desenvolvimento emocional dá condições para o desenvolvimento das demais capacidades humanas, qual deveria ser o papel do professor e da escola ao longo desse processo?

A seguir, apresentaremos a perspectiva dos teóricos da Psicologia do Desenvolvimento Humano utilizados como fundamento nos Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e nos Parâmetros Curriculares Nacionais, documentos oficiais que fornecem as diretrizes para o fazer do professor nas instituições de ensino brasileiras.

b) A teoria cognitivo-desenvolvimental, de Jean Piaget (1896-1980)

Os estudos de Piaget demonstraram que tanto as ações que a pessoa executa como o próprio pensamento implicam em uma organização lógica, a qual, por sua vez, está montada sobre capacidades reguladas pelo funcionamento do sistema nervoso. Por isso, para compreender o desenvolvimento da inteligência, Piaget buscou articular dois conjuntos de variáveis: as de origem biológica e as de origem na capacidade para processar informações.

Testes de inteligência mostraram a Piaget que as respostas erradas eram, com frequência, mais interessantes que as corretas. Piaget observou que as crianças da mesma idade cometiam os mesmos tipos de erros nas respostas.

Os resultados da aplicação de testes de inteligência mostraram a Piaget que as respostas erradas eram, com frequência, mais interessantes que as corretas. Piaget observou que as crianças da mesma idade cometiam os mesmos tipos de erros nas respostas. isto o levou a tentar compreender como se desenvolvem o pensamento e a lógica da criança, que é qualitativamente diferente da lógica do pensamento adulto.

Foi por meio da elaboração do Método Clínico (de situações de experimentação e de interrogação) que Piaget demonstrou ser possível compreender que a lógica não é algo inato, isto é, que já nasce com a pessoa. Trata-se de um fenômeno que se desenvolve gradativamente no ser humano e que depende dos seguintes fatores:

• biológicos (crescimento orgânico e maturação do sistema nervoso);

• exercício e experiência física (ação da pessoa sobre os objetos que precisa conhecer);

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• interações e transmissões sociais (ocorrem por meio da linguagem);

• equilibração das ações.

Para compreender o processo de desenvolvimento da inteligência, Piaget transferiu da Biologia a concepção de “adaptação” afirmando que a capacidade cognitiva sofre um processo contínuo de ajustamento. Este ajustamento não tem origem biológica (apesar de se dar sobre o sistema nervoso), mas psicológica, ou seja, à medida que a criança passa por novas experiências, reconstrói sua forma de analisar o meio que a cerca. Esta “forma de analisar o mundo a sua volta” marca o que Piaget denominou de esquemas cognitivos. Antigas estruturas são ajustadas a novas funções, e o desenvolvimento de novas estruturas preenche funções antigas. Por exemplo: a criança nasce com o reflexo de sucção, antiga estrutura que é ajustada à mamadeira, ao dedo ou a sugar o líquido por um canudinho. Temos aqui o desenvolvimento de uma nova estrutura. Isto pressupõe que o desenvolvimento do intelecto humano se dá de forma contínua, sendo que cada função do pensamento se liga a uma base pré-existente e, ao mesmo tempo, se transforma para ajustar-se a novas exigências do meio ambiente. Esta é a expressão psicológica da adaptação.

Há dois mecanismos envolvidos na adaptação dos processos mentais às novas situações às quais a pessoa precisa se adaptar:

assimilação: que é a incorporação de novas experiências ou de informações à estrutura mental já existente, sem alterá-la e

acomodação: que é o processo de reorganização dessas estruturas, de tal forma que possam incorporar os novos conhecimentos, transformando-os para se ajustarem às novas exigências do meio.

Quando você entra, por exemplo, em contato com um conteúdo novo (psicologia do desenvolvimento, por exemplo), precisa assimilar os conceitos e, quando os compara ou os aproxima de algo que você já conhece, está acomodando). Quando a assimilação e a acomodação estão em harmonia (ocorrendo simultaneamente), o sujeito está em equilíbrio, ou seja, adaptou- se, aprendeu uma nova situação. Procedendo num movimento em espiral, essas estruturas começam a se adaptar às novas circunstâncias, indo em direção a um estado superior e mais complexo de equilíbrio. Assim, à medida que o indivíduo adquire conhecimento, modifica suas estruturas mentais de organização da informação; isto, por sua vez, aumenta suas chances de adaptação ao ambiente.

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem Para Piaget, a adaptação é um processo contínuo no

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Para Piaget, a adaptação é um processo contínuo no qual a estrutura hereditária interage com o meio externo de modo a reconstituir-se visando a uma melhor sobrevivência. O conhecimento é uma relação evolutiva da criança e de seu meio. no decurso do relacionamento com o meio, a criança exibe, em algumas idades, estruturas ou organizações de ação e pensamento características, denominadas de estágios. Para Piaget os estágios são:

sensório-motor, pré-operatório, operatório-concreto e operações formais.

A criança forma conceitos sobre a realidade física e social, aprende as formas básicas do relacionamento emocional e adquire as bases de um sistema de valores.

• Estágio sensório-motor – de 0 a 2 anos

É a fase em que predomina o desenvolvimento das percepções e dos movimentos. O desenvolvimento físico é acelerado, pois se constitui no suporte para o aparecimento de novas habilidades. O desenvolvimento ósseo, muscular e neurológico permite a emergência de novos comportamentos, como sentar-se, engatinhar e andar, o que, por sua vez, propiciará um domínio maior do ambiente. A criança forma conceitos sobre a realidade física e social, aprende as formas básicas do relacionamento emocional e adquire as bases de um sistema de valores. nesse período, acontece a aquisição da linguagem articulada, cujo processo se completará no estágio seguinte, e que constitui elemento de fundamental importância para os outros aspectos do desenvolvimento humano.

• Estágio pré-operatório – de 2 a 7 ou 8 anos

A criança começa a usar símbolos mentais - imagens ou palavras que representam objetos que não estão presentes.

Corresponde ao período pré-escolar no qual o organismo se torna estruturalmente capacitado para o exercício de atividades psicológicas mais complexas, como o uso da linguagem articulada. A criança começa a usar símbolos mentais - imagens ou palavras que representam objetos que não estão presentes. De acordo com Piaget, o período pré-operacional é dividido em dois estágios: a) de 2 a 4 anos de idade, em que a criança se caracteriza pelo pensamento egocêntrico demonstrado pela dificuldade em se colocar no lugar do outro. Mateus (4 anos) e Marcos (2 anos), por exemplo, são irmãos. Perguntamos a Mateus quem era seu irmão, e ele imediatamente nos respondeu que Marcos era o seu irmão. Então lhe perguntamos quem era o irmão de Marcos, e Mateus não soube nos responder. Isto ilustra a ideia de Piaget de que a criança, nessa fase, ainda não consegue se colocar no lugar do outro; b) e dos 4 aos 7 anos, em que a criança se caracteriza pelo pensamento intuitivo. As operações mentais da criança, nesse estágio, se limitam aos significados imediatos do mundo infantil.

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• Estágio operatório-concreto – de 8 a 11 anos

Neste estágio, a criança desenvolve noções de tempo, de espaço, de

velocidade, de ordem e de casualidade, sendo capaz de relacionar diferentes aspectos e abstrair dados da realidade. Apesar de não se limitar mais a uma representação imediata, depende do mundo concreto para abstrair. A criança se torna capaz de reconstruir, no plano de representação, o que já havia construído no plano de ação. Passa de um estado inicial em que tudo está centrado no corpo e na ação próprios do sujeito a um estado de descentração que implica em relações objetivas com os acontecimentos, com os objetos

e com as pessoas. Um importante conceito desta fase é o desenvolvimento

da reversibilidade, ou seja, da capacidade da representação de uma ação no sentido inverso de uma anterior, anulando a transformação observada. nesse estágio, surge o conhecimento das conservações físicas: quantidade, peso, volume, comprimento, superfície e volume espacial. surgem, também, as noções de classificação, de seriação, de multiplicação e de compensação, que são o conhecimento lógico-matemático.

• Estágio das operações formais – dos 12 aos 14, 15 anos

O adolescente é capaz de executar o “raciocínio hipotético-dedutivo”, ou seja, é capaz de raciocinar com base em hipóteses que o levariam a certas deduções lógicas. É capaz de inferir e deduzir resultados de suas próprias proposições. O sujeito é capaz de raciocinar por teorias, e não apenas pelos aspectos reais e empíricos observados, utilizando-se, ainda, do método empírico, com base no mundo concreto e real. Entretanto, dispõe, nesse momento, das habilidades necessárias para, por meio do processo analítico, abstrair hipóteses e deduções dos pensamentos concretos. Piaget também descreve as generalidades possíveis do raciocínio inferencial de um adolescente nas relações que ele estabelece com Proporções e Probabilidades, ainda que o mesmo não tenha consciência da existência dessa capacidade. nas operações formais entre adolescentes de 11-12 a 14-15 anos, a organização hipotético-dedutiva é produto do funcionamento intelectual mais complexo; este modelo impõe sua estrutura ao pensamento.

O desenvolvimento da reversibilidade, ou seja, da capacidade da representação de uma ação no sentido inverso de uma anterior, anulando

a

transformação

observada.

O

adolescente é

capaz de executar o “raciocínio hipotético- dedutivo”.

Os domínios de operações lógicas anteriores, juntamente com o desenvolvimento da linguagem, são os responsáveis pelo que Piaget caracterizou de formação espontânea de um interesse pela investigação, completando a estrutura mental própria do pensamento adulto.

A teoria cognitivo-desenvolvimental, como já designa seu nome, enfatiza

a questão do conhecimento, ou seja, como se desenvolvem as capacidades

cognitivas do sujeito. Isto não significa que os demais processos não sejam

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem importantes, mas que eles seguem o padrão do desenvolvimento

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem

importantes, mas que eles seguem o padrão do desenvolvimento cognitivo.

Assim, quanto mais adaptativa a estrutura cognitiva, mais adaptado emocional

e socialmente o indivíduo.

O curso desta adaptação não é guiado apenas pela maturação (ou pelo desenvolvimento biológico), mas, principalmente pelas experiências às quais as pessoas são submetidas. Deste modo, mesmo tendo padrões gerais similares, o curso de desenvolvimento de cada sujeito é sempre individual.

de desenvolvimento de cada sujeito é sempre individual. Para refletir : Usando o referencial
de desenvolvimento de cada sujeito é sempre individual. Para refletir : Usando o referencial

Para refletir:

Usando o referencial cognitivo-desenvolvimental, como poderíamos supor o papel de pais e de educadores no processo de desenvolvimento e de aprendizagem das pessoas?

GOUlART, i. B. Piaget: experiências básicas para utilização pelo professor. Petrópolis: Vozes, 2005.

neste capítulo, abordamos somente a teoria cognitivo-desenvolvimental de Piaget sem entrar em seus aspectos relativos à educação. Exporemos o tema mais apropriadamente quando falarmos do construtivismo, no capítulo 4.

c) A teoria do materialismo-dialético, de Henri Wallon (1872 – 1962)

Wallon buscou compreender o desenvolvimento humano sob a perspectiva da pessoa completa (emoção, afeto e movimento), considerando que as condições orgânicas e sociais constituem a emergência das atividades em cada estágio.

Wallon dedicou-se a estudar a Psicologia considerando que a questão fundamental desta área é o estudo da consciência e que, para isso, seria necessário estudar o desenvolvimento da criança para explorar as origens biológicas da consciência. Buscou compreender o desenvolvimento humano sob a perspectiva da pessoa completa (emoção, afeto e movimento), considerando que as condições orgânicas e sociais constituem a emergência das atividades em cada estágio. O organismo, em cada época e em cada

cultura, desenvolverá características em cada estágio, criando possibilidades

e limites para essas características.

Wallon

propôs

cinco

estádios,

assim

desenvolvimento humano:

por

ele

denominados,

do

• Estádio impulsivo-emocional (de 0 a 1 ano)

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Do nascimento aos três meses, as atividades do ser humano visam à exploração do corpo e de suas sensibilidades externas e internas. É uma atividade global, não- estruturada, com movimentos bruscos, desordenados, com enrijecimento e relaxamento da tensão muscular. são selecionados pela criança aqueles movimentos que garantem a aproximação do outro, que satisfazem as suas necessidades; por isso eles funcionam como instrumento expressivo de estados de bem-estar e de mal-estar. Dos 4 aos 12 meses, já há padrões emocionais diferenciados para o medo, para a alegria, para a raiva. inicia-se o processo de discriminação de formas de se comunicar pelo corpo.

• Estádio sensório-motor e projetivo (de 1 a 3 anos)

As atividades se concentram na exploração do espaço-físico, sendo que são auxiliadas pela fala a qual acompanha os gestos. A discriminação pelos objetos promove o desenvolvimento afetivo e o cognitivo.

• Estádio do personalismo (de 3 a 6 anos)

nesse estádio, ocorre a exploração de si mesmo por meio de atividades de oposição ao outro (expulsão) e de sedução, de imitação. inicia-se o processo de discriminação entre o eu e o outro, com insistência nas expressões eu, meu, não.

• Estádio categorial (de 6 a 11 anos)

Como já está clara a diferenciação entre o eu e o outro, a criança se sente mais à vontade para explorar o mundo físico em atividades de agrupamento, de seriação, de classificação e de categorização em vários níveis de abstração.

• Estádio da puberdade e adolescência (dos 11 anos em diante)

na puberdade e adolescência, acontece a exploração de si mesmo por meio de atividades de confronto, de autoafirmação, de questionamentos, apoiando-se em grupos de pares e contrapondo-se aos valores. Há o domínio de categorias cognitivas de maior nível de abstração.

Wallon postulou quatro leis que regulam o funcionamento dos estádios do desenvolvimento:

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem - lei da predominância funcional: em cada um dos

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- lei da predominância funcional: em cada um dos estádios, há o predomínio de uma das dimensões (afetiva ou cognitiva), sendo o desenvolvimento motor utilizado como manifestação dessa predominância;

- Lei da alternância funcional: o predomínio das dimensões afetiva, cognitiva

e motora se alterna ao longo dos estádios;

- lei da integração funcional: há integração entre os estádios do desenvolvimento humano, isto é, os primeiros são mais simples, com atividades mais primitivas, como sugar o dedo, olhar para um objeto que se move a sua frente, que vão sendo dominadas e integradas às atividades mais complexas dos estádios seguintes, conforme as possibilidades do sistema nervoso e do meio ambiente;

- lei da tendência do sincretismo à diferenciação: os movimentos, os afetos e

as ideias são confusas inicialmente e vão se tornando mais claros, precisos

inicialmente e vão se tornando mais claros, precisos e coordenados; Para Wallon, educar significa promover

e coordenados;

Para Wallon, educar significa promover condições que respeitem as leis que regulam o processo de desenvolvimento, mantendo, a todo momento, a integração dos conjuntos (motor, afetivo e cognitivo), levando em consideração as possibilidades orgânicas e neurológicas do momento e as exigências dos adultos (MAHONEY, 2003).

Algumas instituições de ensino adotaram a perspectiva walloniana e estabeleceram a avaliação do aluno considerando as dimensões afetiva, cognitiva e motora em separado, conforme podíamos observar nos boletins escolares dessas instituições.

se você quiser saber mais sobre este assunto consulte os seguintes livros:

saber mais sobre este assunto consulte os seguintes livros: GAlvÃO, izabel. Henri Wallon: uma concepção dialética

GAlvÃO, izabel. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis: vozes, 2002.

MAHONEY, Abigail Alvarenga; ALMEIDA, L. (orgs.). Henri Wallon: psicologia e educação. são Paulo: loyola, 2003.

d) A teoria histórico- cultural de Levi Semenovich Vygostsky (1896 –

1934)

vygotsky defendia a ideia de que o desenvolvimento do ser humano é

Capítulo 1

PersPectivas teórico-Metodológicas eM desenvolviMento HuMano
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fortemente influenciado pelas condições históricas e sociais nas quais vive, pois é nessas condições que a pessoa dá sentido ao que faz e pensa. A mente humana é entendida como um sistema complexo e autorregulado de natureza social, cultural e comprometida com a história da pessoa que sente, atua e dá significações às suas ações no ambiente em que vive.

Vygotsky propõe o estudo da consciência com base em três ideias fundamentais:

- a adoção de um método genético ou evolutivo como eixo básico: o estudo do desenvolvimento a partir do surgimento das funções mentais como processos biológicos que se tornam culturais, considerando os comportamentos que evoluíram na espécie humana;

- os processos psicológicos superiores têm origem social: os processos

psicológicos superiores (aprendidos) são distintos dos processos básicos (instintivos), porque dependem da interação do sujeito com outras pessoas para se desenvolverem. Os processos básicos se definem pelas atividades do recém-nascido de sugar, de chorar, de balbuciar. Durante

o desenvolvimento humano, os processos básicos se transformam em

processos psicológicos superiores, tais como o pensamento, a imaginação,

a abstração, a memória mediada, a linguagem, etc. Para vygotsky,

primeiramente os processos estão no universo coletivo (o interpsicológico)

e, por meio da aprendizagem, são internalizados (o intrapsicológico) pela

pessoa de acordo com seu modo particular de pensar sobre o mundo;

- o caráter mediado pelos instrumentos desses processos: a linguagem é o processo psicológico mais importante, porque é por meio dela que o ser humano constrói, na interação com outras pessoas, os significados sobre o que faz e pensa.

Durante o desenvolvimento humano, os processos básicos se transformam em processos psicológicos superiores, tais como o pensamento, a imaginação, a abstração, a memória mediada, a linguagem, etc.

As ideias de Vygotsky centralizam-se em três grandes áreas:

• A relação entre desenvolvimento e aprendizagem:

Defende a ideia de que o desenvolvimento humano não é sinônimo de maturação orgânica; de que aprender consiste na apropriação do conhecimento histórico e culturalmente construído pela humanidade. O desenvolvimento do ser humano resulta do movimento dialético entre aprendizagem e desenvolvimento.

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Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem • O papel das interações sociais no desenvolvimento e

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• O papel das interações sociais no desenvolvimento e na aprendizagem:

Incluem as relações entre adulto-criança e entre criança-criança; possibilitam a apropriação das significações socialmente produzidas, bem como a formação das funções psicológicas superiores.

• O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)

O desenvolvimento humano compreende dois níveis: o nível real de desenvolvimento (seriam os frutos), o que a pessoa é capaz de fazer de maneira independente; e o nível potencial de desenvolvimento (seriam as flores), o que a pessoa seria capaz de fazer. Entre esses dois níveis, existiria uma região dinâmica que permite a transição do funcionamento interpsicológico para o intrapsicológico que acontece nas situações interativas. Essa região, vygotsky denominou de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Ex.: Há uma criança de 7 anos que consegue montar uma pipa. sobre essa habilidade, a criança estaria no nível real de desenvolvimento. se fosse colocada com outra que ainda não desenvolveu tal habilidade, a criança de 7 compartilharia sua habilidade auxiliando a outra no seu processo de desenvolvimento. A interação das duas criaria a Zona de Desenvolvimento Proximal, na qual a segunda criança alcançaria, com o auxílio da primeira, o nível potencial de desenvolvimento.

A utilização do conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal pode se dar em três direções: a) enquanto medida que marca a distância entre a atuação independente e a atuação assistida; b) por meio da brincadeira, sendo que essa atividade assume o mesmo status que o processo ensino/aprendizagem; c) como diferença que surge no desenvolvimento da criança, quando esta se encontra em contextos assistidos socialmente e em contextos individuais.

e) A visão etológica do desenvolvimento humano

A Etologia é a ciência que estuda as bases evolutivas do comportamento e as contribuições de respostas evolutivas para a sobrevivência e o desenvolvimento das espécies.

Nesta abordagem, é seguida a ideia de que as influências biológicas possuem papel significativo no desenvolvimento humano. De acordo com a visão etológica clássica, membros de todas as espécies animais nascem com certo número de comportamentos biologicamente programados:

- Comportamentos que sao produtos da evolução e

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- comportamentos adaptativos à medida que contribuem para a sobrevivência do indivíduo.

Há a crença de que essas características programadas biologicamente evoluíram como resultado do processo de seleção natural: no curso da evolução, genes que geraram características mais adaptativas foram selecionados favoravelmente, aumentando a taxa de reprodução de quem os possuía.

O estudo dos indivíduos ocorre em ambiente natural porque os etólogos acreditam que os comportamentos inatos que moldam o desenvolvimento dos seres humanos são mais facilmente identificados e entendidos, se observados no ambiente em que evoluíram e se mostraram adaptativos.

Quando falamos em Etologia, sobre comportamento inato, não estamos querendo dizer que o comportamento é IMUTÁVEL. Pelo contrário, o que marca a evolução do comportamento é exatamente sua capacidade plástica, ou seja, sua capacidade de mudar diante dos novos desafios do ambiente. neste sentido, os etólogos defendem a ideia de que a aprendizagem é em si uma característica inata de todas as espécies animais, mas que se mostra distinta de acordo com a complexidade do sistema nervoso e também das experiências do indivíduo ao longo de sua vida.

John Bowlby, na década de 1970, acreditava que as crianças realizam grande variedade de comportamentos pré-programados, como também que cada um desses comportamentos promove um tipo particular de experiência que ajudará o indivíduo a sobreviver e a se desenvolver normalmente, como, por exemplo, o choro do bebê.

O significado adaptativo do choro de um bebê garante que:

os etólogos defendem a ideia de que a aprendizagem é em si uma característica inata de todas as espécies animais, mas que se mostra distinta de acordo com a complexidade do sistema nervoso e também das experiências do indivíduo ao longo de sua vida.

- as necessidades básicas (fome, sede, segurança) sejam satisfeitas e que

- o bebê terá contato suficiente com outro ser humano para formar o apego emocional primário.

Os etólogos acreditam que as primeiras experiências são de extrema importância no desenvolvimento do ser humano. Descrevem os períodos sensíveis como o ponto ótimo para a emergência de determinadas características ou comportamentos e no qual o indivíduo se encontra particularmente sensível às influências do ambiente. Os três primeiros anos são considerados um período sensível para o desenvolvimento de respostas sociais e emocionais nos seres humanos, pois é neste período que há a

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Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem formação de laços emocionais significativos. sHAFFER, David R.

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem formação de laços emocionais significativos. sHAFFER, David R.

formação de laços emocionais significativos.

sHAFFER, David R. Psicologia do desenvolvimento: infância e adolescência. São Paulo: Thomson Learning, 2005.

f) O modelo bioecológico de Bronfenbrenner (1917)

Para Bronfenbrenner, o desenvolvimento está intrinsecamente associado às estabilidades e às mudanças que ocorrem nas características biopsicológicas da pessoa durante o seu curso de vida e ao longo de gerações. Essas transformações provocam uma reorganização que procede de maneira continuada dentro da unidade tempo-espaço e em diferentes níveis: das ações, das percepções, das atividades e das interações com o seu mundo (DESSEN; COsTA, 2008).

Quando a criança está vivenciando uma experiência familiar, entra em contato com diferentes papéis, como o de mãe, de pai, de irmãos, de tios e de avós, e, quando participa, por exemplo, do espaço da creche e da casa, tem a oportunidade de estabelecer diferentes repertórios de comportamento para cada um deles.

Ambiente ecológico é definido por Brofenbrenner como um conjunto de estruturas concêntricas, em que cada uma abarca progressivamente a outra, começando com o microssistema e se ampliando até o cronossistema.

Ambiente ecológico é definido por Brofenbrenner como um conjunto de estruturas concêntricas, em que cada uma abarca progressivamente a outra, começando com o microssistema e se ampliando até o cronossistema. O esquema de sistemas proposto por este autor está assim constituído:

- Microssistema: pessoa,

- Mesossistema: família, escola, igreja, etc.,

- Exossistema: amigos da família, serviços de saúde da comunidade, vizinhos,

- Macrossistema: políticas públicas, valores e crenças de uma cultura e

- Cronossistema: tempo e espaço.

Este modelo permite avaliar não somente os resultados do desenvolvimento, mas também a efetividade dos processos que produzem esses resultados. Possibilita revelar como os resultados do desenvolvimento e os processos variam como uma função conjunta das características da pessoa e do ambiente, o que permite identificar a associação de fatores que contribuem para o desenvolvimento.

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BROnFEnBREnnER, Urie. A ecologia do desenvolvimento humano. Porto Alegre: ArtMed, 1996.

DESSEN, M. A. e COSTA JR., A.L. (orgs.). A ciência do desenvolvimento

humano: tendências atuais e perspectivas futuras. Porto Alegre: ArtMed,

2008.

algumaS conSideraçõeS

Porto Alegre: ArtMed, 2008. a lgumaS c onSideraçõeS Para que tantas teorias diferentes para explicar um

Para que tantas teorias diferentes para explicar um mesmo fenômeno? Existe uma teoria mais correta? Como comentado no início deste capítulo, as teorias sobre o desenvolvimento humano foram desenvolvidas em tempos e contextos diferentes e tentaram explicar coisas diferentes. veja: a teoria psicanalítica foi criada no início do século XX por um médico psiquiatra e se concentrou nos mecanismos formadores de transtornos mentais; a teoria cognitivista-desenvolvimental foi desenvolvida por um biólogo e filósofo (especializado em epistemologia – a origem do conhecimento), entre as décadas de 1930 e 1970, e se concentrou nas habilidades intelectuais; a teoria materialista-dialética foi desenvolvida entre as décadas de 1920 e de 1950 por um educador, médico e político francês que trabalhou com crianças deficientes (principalmente intelectuais), razão pela qual sua teoria releva mais as capacidades afetivas e psicomotoras; a teoria histórico-cultural foi desenvolvida, também, entre as décadas de 1920 e 1930 por um educador e linguista, em pleno momento do desenvolvimento da extinta União soviética. Naquele contexto, as ideias marxistas influenciaram muito toda a atividade intelectual e, consequentemente, o trabalho de vygotsky, que se concentrou nas habilidades de linguagem e na capacidade de interação social como motores do desenvolvimento humano.

Já a teoria etológica do desenvolvimento, de tradição evolucionista, mostra que as continuidades entre as espécies não podem ser postas de lado, uma vez que o ser humano é mais uma dentre tantas espécies animais. Desta forma, o estudo do desenvolvimento humano tem muito a ganhar quando realiza uma análise comparativa com outros animais, pois alguns processos devem ser comuns a todos. Por fim, a teoria ecológica, criada entre as décadas de 1950 e de 1970 por um psicólogo clínico, amplia o fenômeno do desenvolvimento para além do indivíduo (não que as outras também não o fizessem, mas não tão explicitamente), colocando o seu entorno na análise. A teoria pressupõe que vários profissionais de áreas distintas podem e devem trabalhar em conjunto para que compreendamos o desenvolvimento humano, uma vez que cada especialidade (psicólogos, assistentes sociais, educadores, cientistas políticos) tem treinamento e habilitação para um determinado tipo de sistema. Assim, o estudo e o planejamento do desenvolvimento humano

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Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem devem ter em conta a estruturação de meios contextuais

Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem

devem ter em conta a estruturação de meios contextuais (nos mais diversos níveis de organização) adequados e saudáveis.

O importante, neste capítulo, é você entender que existem formas diferentes de analisar o processo de desenvolvimento. Cada uma das teorias trouxe contribuições importantes para a compreensão dos fenômenos que ocorrem ao longo da vida de uma pessoa e cada uma delas abre um leque de possibilidades para que seja estruturada uma intervenção educativa ou re- educativa. Conhecer as ideias desses teóricos do desenvolvimento humano é fundamental para entrarmos no próximo capítulo, sobre o ciclo vital.

para entrarmos no próximo capítulo, sobre o ciclo vital. Reflita : Teorias são mapas, e sua
para entrarmos no próximo capítulo, sobre o ciclo vital. Reflita : Teorias são mapas, e sua

Reflita:

Teorias são mapas, e sua função é guiar o fazer profissional. Contudo, há diferentes tipos de mapas, pois cada um deles se dedica a representar fatos distintos (mapas geográficos, mapas populacionais, mapas geológicos, etc.). Por isso, precisamos, antes de usar os mapas, saber o que estamos querendo encontrar! Você tem uma definição de desenvolvimento humano e de como este se dá? Sua definição é baseada em quê? Sua definição lhe permite fazer previsões sobre o que deve encontrar ao longo do desenvolvimento? Sendo baseada em algo (como a observação), ela é ou não uma teoria?

Atividade de Estudos:

Reflita sobre algumas questões básicas do desenvolvimento e escolha uma ou mais afirmativas com a(s) qual(is) você concorda. Não se esqueça de justificar a sua opção:

1) Influências biológicas (hereditariedade, forças maturacionais) e influências ambientais (cultura, vizinhança, estilos dos pais, experiências educacionais), ambos contribuem para o desenvolvimento. sobretudo:

a. Os fatores biológicos contribuem mais que os fatores ambientais

b. Ambos os fatores contribuem na mesma medida

c. Fatores ambientais contribuem mais que os fatores biológicos

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2) Crianças e adolescentes são:

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a. seres ativos que possuem importante papel na determinação do próprio processo desenvolvimental.

b. Seres passivos, cujo processo desenvolvimental reflete, em grande parte, as influências de outras pessoas e de circunstâncias que não podem controlar.

3) Reflita sobre as questões abaixo:

a. você concorda com as ideias de Freud? Com quais e por quê?

b. Qual a contribuição da visão de Freud sobre o desenvolvimento do ser humano?

4) Faça uma lista com as semelhanças e diferenças entre as teorias do desenvolvimento propostas por Piaget e Wallon.

5) Que comportamentos humanos você considera parte do código genético humano, produto da seleção natural?

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Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem 6) Em que teoria desenvolvimental a influência de níveis

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6) Em que teoria desenvolvimental a influência de níveis múltiplos do ambiente é fundamental para o ser humano?

reFerênciaS

CARVALHO, M. E. P. Relações entre família e escola e suas implicações de gênero. Cadernos de Pesquisa, v. 30, nº 110, p. 45-56, 2000.

CARVALHO, Marília Pinto de. Mau aluno, boa aluna? Como as professoras avaliam meninos e meninas. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 9, n. 2, p. 554-574, dez. 2001.

DESSEN, M. A.; COSTA JR., A. L. (orgs.). A ciência do desenvolvimento

humano: tendências atuais e perspectivas futuras. Porto Alegre: ArtMed,

2008.

MAHONEY, Abigail Alvarenga; ALMEIDA, L. (orgs.). Henri Wallon: psicologia e educação. são Paulo: loyola, 2003.

ROSSETTI-FERREIRA, M. C. et al. Rede de significações e o estudo do desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed, 2004.

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