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O D Í L I A CARREIR250 O R T I G A

RISO E O RISx^EL.

em Millôr- Fernandes :

o cômico, o s a t í r i c o e o "hum or"

Tese a p r e s e n t a d a ao D e p a r t a m e n t o de L e t r a s
C l á s s i c a s e V e r n á c u l a s da F a c u l d a d e de F i ­
losofia, L e t r a s e C i ê n c i a s H u m a n a s da U n i ­
v e r s i d a d e de Sã o Paulo, c o m o r e q u i s i t o p a ­
ra o b t e n ç ã o do grau de D o u t o r em Letras,
área de L i t e r a t u r a Brasilei ra.

O r i e ntador: Pro-F. D r . R o b e r t o de O l i v i e r a
Brandão

........ ...... . 1 I
São P a u l o
Empréstimo Proibido
1992
oP
/xr

h memória de meus pais

Iracema Carreirão Ortiga

Januário da Costa Ortiga


C7
r ^

A gratidão nos leva ao registro de

agradecimentos especiais:

à CAPES pela possibilidade de -Fazer o

doutorado na USPj

à USP pela oportunidade de voltar a ser

aluna;

à UFSC pela confiança e ao DLLV pelo

apoio, na pessoa da professora Maria

Lúcia de Barros Camargo, colega e amiga

dos tempos uspianos e HP1or ianopol it a —

nos;

aos meus alunos, o objetivo maior da

jornada, na pessoa de José Renato de

Far ia; e,

por último, com merecido destaque, ao

orientador e amigo Professor Roberto de

Oliveira Brandão, pela paciência e es­

timulo intelectual.
SUMARIO

A N T E S DAS P R I M E I R A S P A L A V R A S -------------------------------------- i

AS P R I M E I R A S P A L A V R A S ----------------------------------------------- 11

AS P A L A V R A S N E C E S S Á R I A S ---------------------------- ---------------- 38

A C o l o c a ç ã o do P r o b l e m a ----------------------------------------- 34

0 Perfil do R i s o -------------------------------------------------- 42

S o b r e o R i s o ---------------------------------------------------- 43

R a s t r e a n d o a D i v e r s i d a d e ------------------------------------- 50

M o t i v a ç õ e s e Fu n ç õ e s ------------------------------------------ 54

Os R i s o s em Mil 1ôr F e r n a n d e s -------------------------------- 57

0 Perfil do Risível ---------------------------------------------- 68

S obre o Risível -------------------- ------ ------- -------------- 69

Os M o d o s e as I d e n t i d a d e s ------------------------------------ 71

Os M o d o s e as A l t e r i d a d e s ------------------------------------ 76

0 R I S O E 0 C Ô M I C O EM M I L L Ô R F E R N A N D E S --------------------- ----- 93

C o l o c a ç õ e s I n i c i a i s --------------------------------- ---------- 95

0 T e a t r o de Mi 11ôr F e r n a n d e s -------------------------------- 100

0 Risível no T e a t r o de M i l l ô r F e r n a n d e s ------------------ 104

0 C ô m i c o e suas M e s c l a s -------------------------------------- 112

0 RISO E 0 S A T Í R I C O EM M I L L Ô R F E R N A N D E S ------------------------ 132

C o l o c a ç õ e s Iniciais ------------------------------------------- 134

S á t i r a e Satí ric o: uma A p r o x i m a ç ã o ------------------------ 138


A S á t i r a e o S a t í r i c o em M i l l ô r F e r n a n d e s --------------- ---- 141

0 Riso S a t í r i c o em Mill ô r F e r n a n d e s ----------------------- ---- 149

0 S a t í r i c o e su as M e s c l a s ---------------------------------------- 155

0 R I S O E 0 H U M O R EM M I L L Ô R F E R N A N D E S ---------------------------- ---- 173

C o l o c a ç õ e s Iniciai s ------------------------------------------- ---- 175

0 A f o r i s m o em R e f l e x õ e s Sm D o r ----------------------------- ---- 178

A V e r d a d e i r a His tór ia, uma P a r ó d i a ------------------------ ---- 182

0 D i á l o g o Ir ô nico no L i v r o V e r m e l h o ----------------------- ---- 185

0 R i s o e o H u m o r em M i l l ô r ----------------------------------- ---- 188

A Mescla: P a r á v e r u m M i l l ô r ---------------------------------- ---- 197

AS Ú L T I M A S P A L A V R A S ------------------------------------------------------ 203

A l g u m a s C o l o c a ç õ e s ------------------------------------------------- 205

0 E s c r i t o r e suas C i r c u n s t â n c i a s --------------------------- ---- 209

0 H u m o r i s m o de M i l l ô r ----------------------------------------- 214

C a r n a v a l i z a ç ã o e C o l a g e m ---------------------------------- -------218

0 C ô m i c o G r o t e s c o ---------------------------------------------- ---- 220

C o l o c a ç õ e s F i n a i s ---------------------------------------------- ---- 238

APÓS AS Ú L T I M A S P A L A V R A S ------------------------------------------- ---- 251

B I B L I O G R A F I A ---------------------------------------------------------- ---- 259



O a Juno que eu não pude ser no ade­

quado tempo surge no discípulo que

eu posso ser em q u a 2quer tempo.

Al-Fredo Bo si
/Vv '

ANTES

DAS RRIMEIRAS RAl_A<v»RAS


£
fih

"Mas eu a i n d a e s p e r o a n g a ­
riar as s i m p a t i a s da opi­
nião, e o p r i m e i r o reméd io
é -Fugir a u m p r ó l o g o exp lí­
c i t o e longo. O m e l h o r p r ó ­
logo é o que c o n t e m m en o s
c o i s a s , ou que as d i z de u m
jeito obscuro e truncado.”

Brás Cubas
Todo t raba l h o tem suas c i r c u n s t â n c i a s : do e n c o n t r o com o

autor e com os temas, do p r o j e t o que se quer e que se s onha e da

a v e n t u r a do fazer.

Em nosso caso, as c i r c u n s t â n c i a s o r d e n a m - s e em planos

complementares - o pessoal e o c o n textuai . Numa instigante a t r a ç ã o

pelo antagóni co, busca-se na e s f e r a pessoal o a p r e n d i z a d o do r i s í ­

vel em o p o s i ç ã o à tradicional e c o n s e r v a d o r a v a l o r i z a ç ã o do sério.

Dê o u t r o lado, c o n j u g a m - s e algu m a s c i r c u n s t â n c i a s co ntextuais; como

ponto de partida, o es tudo e l a b o r a d o sob a o r i e n t a ç ã o do P r o f e s s o r

Roberto de O l i v e i r a Br andão s obre a iro nia em Manuel Bandeira. 0

t exto p r o d u z i d o s obre a ironia e a e s t r u t u r a colo qui al na poética

de Bandeira ala rga o interesse p e l o m u n d o do risível; assim, da

ironia ao riso, um salto. E o riso m o t i v a o r e e n c o n t r o com M i llôr

F e rnandes, nome s u r g i d o dura nte um a c o n v e r s a com a P r o f e s s o r a Teli

A n c o n a Lopes. Da suge s t ã o à aceitação, a c e n a s um passo. Cumpria- se,

d essa forma, o d e s e j o anti go de e s c o l h e r auto r cuja obra não t i v e s ­

se a f o r t u n a c r í t i c a já bem e s t r u turada, o que não trar ia maiores

contributos par a o estudo, mas que, em con t r a p a r t i d a , p o s s i b i l i t a ­

ria e x p l o r a r t e r r i t ó r i o ainda n ã o c o m p l e t a m e n t e mapeado. No f a s c í ­


4

nio româ nti co pelo origin al e na ânsia "desbrav ador a", ficou e s q u e ­

cida a adv e r t ê n c i a h o r a c i a n a de tomar "ass unt o igual às forças"!.

Ambi ç ã o g r a n d e (e p e q u e n a s p o s s e s >, m a s . Pri me iro, in­

vestim os numa o b r a c u j a linha de força é o hum orismo. Criação da

modernidade, o "hu mo r" a in da não es tá s u f i c i e n t e m e n t e s i s t e m a t i z a ­

do, pois de um lado p r o c e d e da " c o r riqueira p r o b l e m á t i c a cotidia-

na"^, menos visível por esta r mais próxima; e de o u tro lado, ligada

à ilusão refe rencial, sua t e m p o r a l i d a d e é mais passage ira. Segundo,

e s colhemos um a utor da época presente. Há e n tr e os críticos uma

c erta res erv a em lidar com te xtos de autor es da atua lid ad e; prudên­

cia co mpr een sív el não só pela c a u t e l a de julg a r c o i s a s para as

quais falta a p e r s p e c t i v a his tórica, mas tamb é m p e l a i n s u f i c i ê n c i a

de estu dos e m a t e r i a i s de a n á l i s e s mais profundos.

A leitura da obra p u b l i c a d a em livros de M i l l ô r Fernan­

des^ ag uça a r e f l e x ã o so bre o riso e a li teratura; p o r é m s u r g e e

age sor rateira a duvida, que se faz "peti ção de m a i s c e r t e z a " 4 . Em

decorrência, começa o a s s é d i o de perg u n t a s que exigem respostas

cl ara s e imediatas. Daí a u r g ê n c i a de a m p l i a r e d i l a t a r os e s t u d o s

teóri cos sobre o u n i v e r s o do riso na lite r a t u r a e a s sim c h e g a m o s ao

c ômi c o e à sátira, a l é m do "humor".

Diante da d i v e r s i d a d e do risível, o ideal seria, c o n f o r m e

G uim a r ã e s Rosa, a r r a n j a r em "catego rias ", ou p e l o meno s que "se

tenta sse qual que r razoável c l a s s i f i c a ç ã o " das m a n i f e s t a ç õ e s do riso

na literatura, as quais, na c a r ê n c i a de um "n om e apropr iad o, perdo e

ta lvez cham a r - s e de"^: m odos e form as do risível^.

Abor d a r o d i s c u r s o do risível em M i l l ô r Fernandes, - sob

as p e r s p e c t i v a s do cômico, do satír ico , além do "humor" -, n ão im-


plica, nec essar i a m e n t e , c o n s i d e r a r a leitura de M i l l ô r Fernandes

possível apen as sob tais prismas. E s s a prop o s t a não invalida o u t r a s

e a d i v i s ã o t r i p a r t i d a dos modos tem um certo sabor di dático. Tam­

bém, a s e p a r a ç ã o não intenta a c o m p l e t a a l teridad e dos mesmos, pois

entre e l e s há v á rios pont o s de i d e n t i d a d e além do riso. No d e s a f i o

de repe n s a r a que stã o do riso e suas rela ç õ e s com o cômico, o s a t í ­

rico e o "humor", va mos inverter o hab itual c a m inho crítico, indo,

a contr ape lo, do riso (a conv e r g ê n c i a ) aos modos <a t r í p l i c e d i v e r ­

gência), b u s c a n d o nos risos (do cômico, do s a t í r i c o e do "humor")

aq uilo que os s e para (diversidade) e na d i v e r s i d a d e dos m o d o s sua

possível unidade.

é preciso, antes, situ ar o p r o c e d i m e n t o a d o t a d o s o b r e os

m odos nas te orias de que ele se p r e t e n d e tributário. Registra-se

aqui o d é b i t o à "teoria dos modos", s e g u n d o Frye (ainda que b a s t a n ­

te adaptada), à c o n c e i t u a ç ã o de " d i s t a n c i a m e n t o " e n c o n t r a d a em A n ­

dré J o l l ê s 7 e, sobretudo, o débi t o à t r a d i ç ã o a r i s t o t é l i c a ao c o n ­

siderarmos o risível c i r c u n s c r i t o à rea lidade. Assim, o m u n d o do

risível em Mill ô r F e r n a n d e s eixa - s e em três m odo s ( d i s p o s i ç ã o o p e ­

r a t ó r i a que o b j e t i v a ser, antes de tudo, h i p ó t e s e de tr abalho) fun­

damentais de o poet a r e l a c i o n a r - s e c o m a realidade, ao r e p r e s e n t á -

la art i s t i c a m e n t e . 0 "modo" diE r e s p e i t o à r e l a ç ã o de e s s e n c i a l i d a ­

de do a r t i s t a com o mundo, ati tud e que se repr o d u z em grau de c u m ­

p l i c i d a d e no p r o c e s s o "recria dor " da leitura. 0 m o d o c ô m i c o p l a s m a -

se no d i s t a n c i a m e n t o e q u i l i b r a d o e n t r e o "eu" da e s c r i t u r a e o o b ­

jeto ri sível - o m undo d i v e r t i d a m e n t e às a v e s s a s -, m o t i v a n d o o r i ­

so de p r a z e r no gozo de algum a c o i s a ou a l g u é m que no fundo "é i n ­

ferior a n ó s ”. 0 s a t í r i c o funda-se na r e l a ç ã o a m b í g u a de r è p u l s a e
6

de atraç ão do "eu" c o m o obje t o da zombaria - o m undo pervertida-

ment e às avessas - "que se r e p r e e n d e ou se repr o v a e que nos é e s ­

tranho"®. Ri mos c o n t r a al guma c o i s a ou cont r a alguém, no envolvi­

m ento da ati tude ju dicativa: é o riso de exclusão. 0 "humor", o ú l ­

timo modo, c o r r e s p o n d e a uma c e r t a rup tur a da d i s t â n c i a c r í t i c a p e ­

lo e n v o l v i m e n t o e m o c i o n a l de s o l i d a r i e d a d e - com o m u n d o t r i s t e m e n ­

te às avessas -, p r o v o c a n d o o riso que "ri de si mesm o" ante s de

rir de "alguma c o i s a ou alguém". Ao se d e ter na lei tura de c a d a um

dos modos do n ã o - s é r i o ^ (o cômico, o s a t í r i c o e o "humor"), este

trabalho se o r g a n i z a em três ensaios, ter mo aqui a p l i c a d o em seu

s e n tido original de pos s i b i l i d a d e , de t e n t a t i v a incompleta. A essa

leitura pre ce de r e f l e x õ e s t e ó r i c a s sob re a ob ra de arte do riso e

do risível, e a ela s u c e d e um e n s a i o final s o b r e o " h u m o r i s m o b r a ­

sileiro" de Mil lô r Fer nandes.

Não h e s i t a m o s em r e a f i r m a r o c a r á t e r de o p e r a c i o n a l i d a d e

e expe r i ê n c i a de l e i t u r a nest e s m o d o s de r e l a c i o n a m e n t o do poeta

com o mu ndo do risí vel . C o n s t r u í m o s n osso c a m p o de investig açã o:

primeiro, indo alé m das fro n t e i r a s est a b e l e c i d a s , pela t r a d i ç ã o e s ­

tética, entre “g r a n d e s " textos e "pe q u e n o s " textos, na o pção pelo

c o rput da pesquisa; depois, r e p e n s a n d o a l g u m a s teor ias sob re os m o ­

dos do risível e r e o r g a n i z a n d o - a s num qu adro t e ó r i c o compa tív el com

a experiência da leitura. Ássim, a h i p ó t e s e inicial de trabalho

afir m a - s e numa r e f l e x ã o teó rica o p e r a t ó r i a do risível no discurso

de M i llôr Fer nandes, p a r t i n d o do r i s o e suas e s p e c i f i c i d a d e * no c ô ­

mico, no satí r i c o e no "humor".

Algun s a s p e c t o s de t e o r i a lite r á r i a m e r e c e m e s c l a r e c i m e n ­

tos, como a c o n c e i t u a ç ã o do riso, o perfil dos m odos e a rela ç ã o de


7

cada modo com as formas do n ã o - s é r i o m a n i f e s t a s no d i s c u r s o de

Millôr. E s t e s e os t ó p i c o s rel ativ os à s i s t e m a t i z a ç ã o e ntre o c o n ­

teúdo t e ó r i c o e a a b o r d a g e m dos tex tos s e r ã o e l u c i d a d o s nas u n i d a ­

des d e d i c a d a s ao e m b a s a m e n t o teó rico © à m e t o d o l o g i a de trabalho.

Insistimos: a proposta de t r a b a l h o aqui a p r e s e n t a d a é a

me dida de n o s s a vista, não n e c e s s a r i a m e n t e a medi da das coisas, e

se t i v é s s e m o s que a a f e i ç o a r de novo, t a l v e z a leitura se e f e t u a s s e

de uma m a n e i r a diversa. Mas a jo rnada finda indicia a escolha: es­

crever a g o r a ou n u n c a mais. E o t r a b a l h o marca a o p ç ã o que se fez

necessária.

Por último, mas não me no s importante, a p o n t a m o s alguns

obstáculos de percurso-, de inicio, os de comp ree nsão , determinados

pelas d i f i c u l d a d e s de arti c u l a r c o e r e n t e m e n t e as m ú l t i p l a s t e o rias

fi los óficas e e s t é t i c a s sobr e o riso e o d i s c u r s o l i t e r á r i o do r i ­

sível; na seq üê nc ia, os de escolha e c o m p o s i ç ã o a n a l í t i c a dos t e x ­

tos; e a seguir, a d i f i c u l d a d e maior: a escritura. Esta, e x c e s s i v a ­

mente lenta, e x i g e um t r a b a l h o e x a u s t i v o de sem anas na p r o d u ç ã o de

umas p o u c a s linhas. No ato da es critura, interferem as c o r r e ç õ e s do

estilo, as su pressões, os a c r é s c i m o s e as c o n s t a n t e s ref o r m u l a ç õ e s .

Toda uma longa e difícil jornada c u j o preço, alto em demasia, foi

um v e r d a d e i r o "ad eus à vida". Vamo s e s p e r a r que tudo tenha v a l i d o a

pena: tant o "as p e n a s ” c o m o "as recom pen s a s " ^ ® .

Confio esté t r a b a l h o aos t r i s t e s que b u s c a m d e c i f r a r o

esfíngico risível, pois os q u e s t i o n a m e n t o s e as reflexões aqui

apresentados sé p r o p õ e m como um d i s c u r s o sobre o n ã o - s é r i o e se

frustram à m e d i d a que p r o d u z e m um d i s c u r s o sério.


8

NOTAS DXVER8A8

*Con fir a- se a a d v e r t ê n c i a de H o r á c i o sobr e a arte de escre ver in

Sátiras e Epístolas:

"Vós outr o s que escreveis, tomai assu n t o

Igual às forças, medit ar de espa ço

0 peso com que vosso s omb r o s podem.

0 que e s c o l h e r p r o p o r c i o n a d o a ss un to

E l e g â n c i a terá, cla reza e ordem."

^Cf. ROSA, João Guimarã es. Nós, os temulent os in p r e f á c i o à Tuta-

méia (Te rceir as Es tórias). Rio de Janeiro-. L i v r a r i a José Olympio

Editora, 3a. edição, 1969, p .101.

3As p a l a v r a s n e c e s s á r i a s ind icarão os texto s (obras p u b l i c a d a s em

livro) comprobatórios da ess e i d a d e de cada m o d o e òs tex tos de

fronteira.

4Cf. ROSA, João Guim a r ã e s . So bre a Escova m a D ü v i d a in p r e f á c i o à

Tu ta m é i a (Te rce iras Estór ias ). Ri o de Janeiro: L i v r a r i a José Olym-

pio Editora, 3a. edição, 1969, p . 149.

^ N e s t e parágrafo, a s s i n a l a m - s e as incursõ es p r e d a t ó r i a s ao p rim e i r o

prefácio de Tutaméia na p i l h a g e m de e x p r e s s õ e s rosianas, aqui

"ser v i n d o a o u t r o e m p r e g o ”, dife r e n t e e vizinho. Cf. Aletria é.


9

H « r m « n 6 u t ica in p r e f á c i o à Tutamé ia ( T e r c e i r a s Estórias). Rio de

Janeiro: L i y r a r i a José O l y mpio Editora, 3a. edição, 1969, p . 3.

60 modo não é apena s uma c l a s s i f i c a ç ã o gené rica , mas uma m a n e i r a de

ser do discurso, a s i n g u l a r i d a d e que e s p e l h a a relação do a r t i s t a

com o mundo. Cada um dos " m o d o s “, o cômico, o s atír ic o e o "hu­

mor", e x p r e s s a a o r g a n i z a ç ã o de um mater ial oriundo da e x p e r i ê n c i a

a rtística do m u n d o exterior, sendo uma t é c n i c a de agr upa r e l e m e n ­

tos, e v i d e n c i a r intencional idades e i n s t r u m e n t a l i z a r o discurso.

^ Com o m a t i z a d o r e s dos modos, buscamo s inspiração, primeiro, na t e o ­

ria c r í t i c a de Frye, f az en do c o r r e s p o n d e r "modo" ao p r i n c í p i o o»—

denado r do discurso; depois, em An dré Jolles, ao a s s o ciarmos " d i s ­

p o s ição me ntal" à p o s t u r a ( d i s t a n c i a m e n t o ou adesão) do sujeito

(autor/l eit or) em r e l a ç ã o ao ob jeto (tèxto), e ao adaptarmos a

" dis tân ci a" como m o d a l izadora desta relação. Cf. FRYE, Northrop.

Anatomia da Crítica. São Paulo: E d i t o r a Cultrix, 1973 e JOLLES,

André. F o r m a s Simples. São Paulo-. E d i t o r a Cultrix, 1976.

®JOLLES, André. F o r m a s Simples. São Paulo: E d i t o r a Cultrix, 1976,

P .211.

^Julgamos necessário fazer um ”mise au p o i n t " para d izer algumas

palavras sobre o uso da expr e s s ã o " n ã o - s é r i o " , e v i t a n d o todo e

qu alqu er mal - e n t e n d i d o . A esco l h a foi f eita p o rque julgamos ser o

t ermo mais a d e q u a d o para designar, a nível de eq uiv alên cia , o u n i ­

v erso l i t e r á r i o do risível. A opção por "b aixo" ou “inferior" não


nos a f a s t a r i a da a m b i v a l ê n c i a s e mântica. Assim, a advertência bus­

ca e v i t a r (ou s e r i a i n e v i t á v e l ? ) o p e r i g o da i n t e r p r e t a ç ã o p e j o r a ­

tiva. Se u e m p r e g o aqui é v á l i d o a p e n a s c o m o v a r i a n t e da e x p ressão,

" r i s í v e l ".

^Segundo Plínio. 0 Moço, D e m ó c r i t o p r i v i l e g i a v a d uas divi n d a d e s :

"a pen a" e "a r e c o m p e n s a " . Cf. D E M Ó C R I T O Y LU CIPO. D o c t r i n a s Filo -

soficas-R«fltxionet Mor al« *. S a n t i a g o dei Chile: E d i c i o n e s E s c i l -

la, 1938, p . 138.


fV*

AS

R R I MEZ I R A S PALAVRAS
/v ^

"p >~eciso
é ter paciência.

P rccíso
é ter c iênc ia

Preciso
e ter ausência
sutileza, tato, amor, qucrência

P reciso
é ter demênc ia

— o preciso desenho"
ê

Q Este capí t u l o é o limiar da le itura dos " t e x t o s - l e i t u r a ”

• em Mi llôr Fernandes. Portant o, o que nele se vai ler, em sua essên-

A cia, são as linhas g e r a i s da pesquisa*, as b a l i z a s da inve s t i g a ç ã o

W e a m e t o d o l o g i a da abo rdagem. Resumindo: a a p r e s e n t a ç ã o do pr ojeto

com as e x p l i c a ç õ e s dos -Fundamentos t e ó r i c o s e dos procedimentos

£ adotados.

^ Se o título d e s t e es tudo gu arda util idad e, n e l e afi r m a m o s

a a t r í p l i c e leitura - na v isão ensaística. do cômico, do s a t í r i c o e

^ do "humor" - da obra p u b l i c a d a em livros de M i l l ô r Fe rnandes^.

Assinalamos o o b s t á c u l o inicial de o p e r a r um prog r a m a

£ teór i c o c a p a z de atender tão considerável u n i v e r s o de trabalho, que

™ abarca v á r i o s cam pos de integração, e n v o l v e n d o a p o é t i c a e a retó-

A rica dos g ê n e r o s e das formas li terárias do risível. No início da

w jornada, o l v i d a m o s as a n t i g a s a d v e r t ê n c i a s - sobr e a i m p o n d e r a b i 1 i-

_ dade, a i nce rteza e os acid e n t e s de um p e r c u r s o a b r a n g e n t e - ex-

0 pres s a s n o pro vérbio, "qu em muito enfeixa, p o u c o ata".

^ D essa maneira, a abrangência teórica e o c o n seqü ente

Á alargamento da leitura m o t i v a m c o n f l i t o s div ers os. 0 primeiro diz

W respeito à c o n f i g u r a ç ã o do "modo" que s e ^ d i s t i n g u e por ser um con-



í4

junto de ele men tos retóricos, t e m á t i c o s e estilísticos, o r g a n i z a d o s

pela escr i t u r a e c o n f i r m a d o s na leitura, comp o r t a n d o um n ú c l e o de

elementos predominantes e o u t r o « peri fér icos . A e s s ê n c i a de cada

modo repousa na a r m a ç ã o de seus e l e m e n t o s pec u l i a r e s capazes de

conduzir o leitor ao a l i c i a m e n t o no p r o c e s s o de i d e n t i f i c a ç ã o do

mo do e à c o m u n h ã o e s t é t i c a com o autor. 0 modo funda- se na c o r r e s ­

pondência da int enção c ria t i v a inicial e na leitura i n t e r p r e t a t i v a

f i n a l . 3 Cada discurso, do cômico, do s a t í r i c o e do "humor", n o sei o

da h o m o g e n e i d a d e do risível, pode r e o r d e n a r os e l e m e n t o s de sua e s ­

sê nci a em modos e formas diversos. Se gundo, a fortuna s obre o c ô m i ­

co, o satí r i c o e o "humor" é u n â n i m e em evid e n c i a r a a u s ê n c i a de

formas e s p e c í f i c a s a cada um deles, o que nos d i f i c u l t a dese n h a r ,

solitariamen te, o perfil dos modos, uma vez que os m e s m o s se o r g a ­

n i zam num si ste ma c o m b i n a t ó r i o a p r e e n s í v e l mais pela a n á l i s e r e t ó ­

rica e temática, meno s pela possível e s p e c i f i c i d a d e de suas formas.

Terceiro, na t r í p l i c e visão dos modos, há um p r o c e d i m e n t o d i d á t i c o

de for te c ar ga sub jetiva. Aqui ta lvez, a maior incomodidade. Outro

embaraço pode a c r e s c e n t a r - s e aos a n t e r i o r e s à medi da que c a d a um

dos m o d o s se a r t i c u l a com a h i s t ó r i a ideo l ó g i c a e p o l í t i c a da so­

c ied a d e que c o n t e x t u a i i z a a obr a lit erá ria . A cultura, em s u a s m o ­

dificações temporais, a b r anda e a t é n e u t r a l i z a a in vec t iva de c e r ­

tos textos, c i r c u n s c r e v e n d o - o t a um c e r t o r e l a t i v i s m o h i stórico.

Assim, o leitor pode sentir, e v e n t u a l m e n t e , alg uma d i f i c u l d a d e de

c o n t e x t u a i izá-los, qua ndo são t e m a t i z a d o s assuntos e s q u e c i d o s ou

p ouc o conhecidos.

Posto isso, o que d e v e m o s reter, por enquanto, no reco­

nhecimento das TJificuldades do n o s s o projeto, é a c o m p l e x i d a d e p e ­


rigo sa da taref a d e m a r c a t ó r i a das vari a n t e s l i t e r á r i a s do risível,

de e n t r e l i m i t e s d i f í c e i s de serem a vistados plen a m e n t e , e a ulte­

rior aceitação de c e r t a o p a c i d a d e no e s t a b e l e c i m e n t o das ba lizas

entre o cômico, o s a t í r i c o e o ‘
‘humor". Assim, no inte r i o r de ssa

matéria, i n s c r e v e m - s e a l g u m a s abor d a g e n s plausíveis-, p o r uma delas,

as partições são i d e n t i f i c a d a s só a partir das m ú t u a s disc o r d â n -

cias; pela outra, il umina-se, primeiro, o d o m ínio c o m u m des sas d i ­

visões, enfatiza n d o - s e , depois, as relações de h e t e r o g e n e i d a d e ; e,

por último, t r a b a l h a - s e s i m u l t a n e a m e n t e com as i d e n t i d a d e s e as al-

teridades.

Ape sar do a p o r t e difere nci ado , essas p o s t u r a s m a n t ê m la­

ços estreitos. S a b e - s e que o "preciso desen ho" de c a d a modo d e p e n ­

de, em larga medida, do s p r o c e s s o s de joe irar e p r i o r i z a r , passí­

veis de sere m m a n i p u l a d o s ^ pelo pesquisador; i n v e r s amente, sente- se

que os d i s c u r s o s do risív el e s t a b e l e c e m v i n c u l a ç õ e s de "rivalida­

de", que não excluem, contudo, as de "cumplic ida de".

Com a m a n e i r a t r i p l i c a d a de i n s t r u m e n t a l i z a r a le itura em

Millôr, chegamos não à m e d i d a única ou ao cânon per f e i t o , mas, à

med ida pra ticá vel , é a n o s s a esperança.

Has já é t e m p o de a r t i c u l a r m o s os f u n d a m e n t o s do traba­

lho.

Perguntará o leitor: qual é o o b j e t i v o ? R e s p ondemos. 0

resu l t a d o da p e s q u i s a será a p r o d u ç ã o de um t ext o analítico que

p r o b l e m a t i z a o t exto pr imeiro, l e v antando h i p ó t e s e s e indagações. 0


f

i n stigante de n o s s a t a r e f a não é o seu resultado, o t exto com as

hipóteses confirmadas, r e f u t a d a s ou deixadas em aberto. A sua im­

p o r t â n c i a m aior r e p o u s a (con f o r m e o n o sso desejo) nas a t i v i d a d e s de


Í6

percurso: as r e f l e x õ e s paralelas, as c o n s t a n t e s ind agações e, acima

disso, as d i g ressões, todas pequenas v e r e d a s e apar e n t e s desvios

com os quais e s p e r a m o s fortalecer a pesq uis a. Implica, ainda, a c e i ­

te de o u t r o s desafios-, o de produzir um t exto stfrio sobre outro

nSo-sério e a r e c r i a ç ã o de uma " t e o r i a ” a p a r t i r de f ragm en tos de

outr a s teorias. 0 que, fatalmente, nos p r i v a r á da "est ima dos p r u ­

dent es" p e l a possí v e l ousad ia da ab ordagem, e da "adm i r a ç ã o dos im ­

p r u d e n t e s ”, p e l a c a r ê n c i a de si ngularidade. Z a r p a m o s para "onde os

ou tro s fogem, m a n t e n d o firme a rota e firme o t i m ã o rumo ao perigo,

imune ao m e d o ”^.

Antes de a t ingirmos o o b j e t i v o - r e s u l t a d o , a e s critu ra da

leitura, há que se definir o o b j e t i v o - m e i o , ou seja, a ela boração

co nceituai do s modos, a m e t odologia pro c e s s u a l da leitu ra e a s e l e ­

ção dos t e x t o s n u c l e a r e s e per i f é r i c o s de c a d a modo.

P a r a p r e c i s a r a b i n a r i e d a d e -. s é r i o x n S o - s é r i o e as r e l a ­

ções de r u p t u r a da não seriedade, v amos r e c o r r e r à c l á s s i c a imagem

da circunferência, que inscreve um cí rc ulo*, c u j o s e m i - c í r c u l o s u ­

perio r (a v a l o r i z a ç ã o do alto?) e x p r e s s a o c a m p o a p o l í n i c o do p r i ­

meiro e o i n f e r i o r (d esvalorização do b a i xo? ) a g r e g a as vari antes

d i o n í s i c a s do último.

0 lanç a r mão de figuras g e o m é t r i c a s para tal ativid ade

não é um r e c u r s o g r a t u i t o e tam pouco o b j e t i v a impr imir ao trabalho

qualqu er c u n h o científ ico . Interessa-nos, p e l o con trár io, facilitar

a c o m p r e e n s ã o d a q u i l o que se pr etende d e m o n s t r a r com a teoria.

E agora, após essa pe q uena d i g ressão, reto m e m o s o fio das

considerações que e s t á v a m o s a formular: no c e n t r o do sem i - c í r c u l o

inferior que e m b l e m a o t e r ritório da n ã o - s e r i e d a d e , fundam os a fi­


Í7

gura de um t r i â n g u l o maior (isósceles), ins íg nia do cômico, lade a d o

por doi s ou tros tr iâng ulos (o s a t í r i c o e o "humor") c o m p l e m e n t a r e s

e menores, os quais pod em ser c o n s i d e r a d o s tanto um prolongamento

quanto uma rupt ura com o primeiro. De imediato, essa simbolização

geométrica sugere uma indagação-, a l g u m dess e s es pa ços (os t r i â n g u ­

los ins crit os) é mais d e t e r m i n a n t e que OS'd e m a i s ? As m a n i f e s t a ç õ e s

teóricas sobre o tema não nos h a b i l i t a m a dar uma resp o s t a prec isa .

Há v á rias atitud es possíveis. A n o s s a e x p e r i ê n c i a de leitura t e ó r i ­

ca, t o d a v i a nos c o nduz à imagem g e o m é t r i c a desc r i t a na qual se e v i ­

denci a a p r e d o m i n â n c i a do cômico, até p o rque é na quebra do d i s t a n ­

ciamento do "rir de" que s u rgem o a g r e s s i v o e n v o l v i m e n t o s a t í r i c o

do “rir contr a" e o c úmp l i c e humor do "rir c o m ”. Assim, o riso s e ­

ria c o m o uma es pécie de ba ri cent ro, formado pelos três â n g u l o s dos

t r i â n g u l o s inscritos, o ponto v é l i c o d ess a con vergência. A cautelo­

sa r e s p o s t a seria adm it ir que r e n u n ciamos, n esse campo, a q u a i s q u e r

alinhamento te órico e at itude dogmática, para e x p r e s s a r m o s apenas

uma o r d e n a ç ã o de leitura. Assim, fund a m o s a leitura, num a r e f l e x ã o

que p r i v i l e g i a as u n i d a d e s de a l t e r i d a d e de cada modo e r e l e g a n d o a

uma qua se penu m b r a as zonas de i d e n t i d a d e . ^

0 ponto de par tid a da t e o r i z a ç ã o é a obra de Hill ô r F e r ­

nandes. A sua le itura levanta p r o b l e m a s e a solução dos m e s m o s d e ­

pende de um h o r i z o n t e teórico a p r o p r i a d o a asse ntar os f u n d a m e n t o s

regedores de cad a modo. Isso p o r q u e a nos sa prop o s t a de l e i tura

passa, primeir a m e n t e , pela t r i p a r t i c ã o do risível. A indi c a ç ã o do s

princípios teóricos capaz es de v i a b i l i z a r o trípli ce a r r a n j o dos

tex tos p e r m i t e arq u i t e t a r um modelo, com a função precípua de n o r ­

tear a leitura do corpuft da pesq u i s a . O termo "modelo", c ujo uso


í8

am plo tende a d e s v i r t u a r o seu car áte r - mas que a i nda indicia,

confor me U m b e r t o Eco, "uma linha de d i s c u r s o e uma d e c i s ã o m e t o d o ­

lógica"® - é aqui a p r o v e i t a d o na d i m e n s ã o ope r a c i o n a l de estar a

se rviço de uma h i p ó t e s e teórica. Assim sendo, a s s u m i m o s o seu s e n ­

tido de guia de pro c e d i m e n t o s , se qüê ncia de o p e r a ç õ e s p r é - o r d e n a d a s

de ntr o do q u a d r o t e ó r i c o que objetiva, pr imeiro, c i r c u n s c r e v e r os

eleme n tos c o m p o s i c i o n a i s do texto lite rário do risível, p r o c e d i m e n ­

to a ser feito n a u n i d a d e "As Palavras n e c e s s á r i a s ” para, a seguir,

d escrever a o r g a n i z a ç ã o de ss es el ementos em c a d a m o d o e, por ú l t i ­

mo, c omprovar a v a l i d a d e do me smo at ra vés da lei tur a de tex tos re-

p r e s e n t a t i v o s do cômico, do satírico e do "hum or" em Mill ô r F e r n a n ­

des.

Em se t r a t a n d o de uma obra literária, a grande dificulda­

de diz resp e i t o à sua pr ópria nature za e às m ú l t i p l a s leituras, d i ­

versa s e válidas, que ela e n s e j a . 9

Mas c o m o n a d a surge sem raiz, c u m p re-nos, d e s d e logo, r e ­

cuar um p ou co e a b r i r esp aç o para algu mas p o s i ç õ e s . e c o n s i d e r a ç õ e s

sobre a e s p e c i f i c i d a d e da obra de art e .*® S i m u l t a n e a m e n t e p r o c e s s o

e produção, e l a en volve, no seu fazer** a r t ístico, uma operação

comple xa pela qual o a r t i s t a esc olh e uma das m ú l t i p l a s p o s s i b i l i d a ­

des que a r e f e r e n c i a l id ade lhe oferece, - dela se apropri a, a t r avés

de sua p e r c e p ç ã o do mundo, de seus c o n h e c i m e n t o s e de suas v i v ê n ­

cias - e c r i a * ^ p o e t i c a m e n t e uma outra r e a l i d a d e (a obra de arte)

com sua n a t u r e z a de c o m u n i c a ç ã o *3 Nout ra e t a p a p o s t e r i o r e c o m p l e ­

me ntar à p rimeira, o leitor <o ou tro sujeito) , a quem se d i r e c i o n a

a obra, dela faz a m a t é r i a - p r i m a de sua r e f l e x ã o (intelectual e

afetiva) e, port a n t o , inicia uma outr a ãtividade- "re c r i a d o r a " (a


í9

leitura), a nalógica à p r o d u t i v a A lei tura é uma a t i v i d a d e compl e x a

à medida que repro duz a o b r a at ravés dos atos de i n t e r p r e t á - l a e

avaliá-la em busca de seu s e n t i d o ou sua sig nifi ca ção. De inicio,

estamos frente à p o l a r i z a ç ã o entr e a leitu ra como recriação na

coincidência autor/le ito r, e a leitura c omo t r a d u ç ã o a r b i t r á r i a da

obra de arte. Apesar de admitirm os, na ob ra de arte em geral, a

possibilidade de m ú l t i p l a s i n t e r p r e t a ç õ e s e n e n huma def i n i t i v a ; no

c a s o especial da obra de ar te do risível, o car át er de p o s s i b i l i d a ­

des de leitura fica limitado, pois r e p o u s a a sua "execução" na

coincidência ideoló gic a e na i d entida de final entre d e s t i n a d o r e

destinatário.*^ Mas o p r o c e s s o pode ir mais alem, quando a inter­

pretação se faz também e s critura, d e t e r m i n a n d o um novo circuito

desse p r o c e d i m e n t o . Há, ainda, um outr o a s p e c t o a ser c o n s iderado,

pois esse tra je to depende da e s t r e i t a r e l a ç ã o e nt re a lei t u r a da

obra de arte (criar e r e c r i a r / p r o d u z i r e re pro duz ir) e a s o c i e d a d e

que a prefigura, c o n f i g u r a e c o n t e x t u a i i z a . O p e r a - s e assim, por um

curioso paradoxo, uma permu ta, pois a s o c i e d a d e t a m b é m s o f r e a in­

f l u ê n c i a da obra a r t í s t i c a que ela enformou.

Embora a c r i a ç ã o e a r e c r i a ç ã o p a r t i c i p e m de c ó d i g o s c o ­

muns, as marc as c u l t u r a i s e r e ferenciais, ess es não i m p e d e m que a

r e c r i a ç ã o pos s i b i l i t e r u p t u r a s co m a obra de arte e n e l a instaure a

sua polissemia s i g n i f i c a t i v a ou, como diz Iuri L o t m a n "o aume n t o

das p o s s i b i l i d a d e s de e s c o l h a " * ^

Val e lembrar que n e s s e quadr o teórico, o t e x t o 16 do r i s í ­

vel te m al guma s p a r t i c u l a r i d a d e s : ele é prod u t o de um a tradição

cultural e li ter ária e de um c o n t e x t o social que a ele pr ee xistem,

co m os quais convi ve e quase s e m p r e lhe so brevivem. Resu m i n d o , esse


20

texto d a t a d o ten de à vida breve, um a da s razões p elas quais s e m p r e

foi c o l o c a d o no qua dro marginal das m a n i f e s t a ç õ e s a r t í s t i c a s " m e n o ­

res". Por um lado, a sua tes situra a p r e s e n t a i n d elev elmente i m p r e s ­

sas as m a r c a s subjetivas, das i d i o s s i n c r a s i a s do e s c r i t o r ^ (d esti-

n a d o r / n a r r a d o r ) e do h o rizonte de e x p e c t a t i v a s * ® dos p r o v á v e i s l e i ­

tores ( d e s t i n a t á r i o s / n a r r a t á r i o s ), e as o bje t i v a s da r e f e r e n c i a l i -

dade c ultural. Por o utr o lado, é e x a t a m e n t e essa m a r ca r eferen cia l

(tempo e esp aço) c o m p a r t i l h a d a no t e x t o que reduz, de partida, a

g r ande m a r g e m de Va ri a ç ã o i n t e r p r e t a t i v a da obra de arte em geral,

t r a z e n d o p a r a a leitu ra deses text os um a i n t e r - c o m p r e e n s ã o já d i r i ­

gida (e b e m mais acentuada) com a esc r i t u r a . De uma ma neira e s t r a ­

nha, é e x a t a m e n t e essa marca r e f erencial que deter min a, também, a

vida b r e v e de a l g u m a s formas l i t e r á r i a s do risível. A c r e d i t a m o s não

ser n e c e s s á r i o cita r ex emp los da qu ase i l e g i b i l i d a d e das sáti r a s de

Juvenal e M a r c i a l , entre outr os s a t í r i c o s da Antigu ida de, salvo

quando a t i n g e m p r o b l e m a s intemporais da n a t u r e z a humana.

C o i n c i d e n t e com esse p o s i c i o n a m e n t o c o n ceptual da arte e,

em particular, com o da n S o - s s r i s d a d e , c o n c e b e m o s a obra lite r á r i a

de Millôr F e r n a n d e s como "texto" que se e x t e r i o r i z a em variantes

m o dais e de for ma s li terárias d i v e r s a s e cuja t e x t u r a se impregna

de um jogo com ple xo, às vezes eni g m á t i c o , de intr ate xtua i i d a d e , de

intertextualidade, e, sobretudo, de c o n t e x t u a i idade co m a soci e d a d e

que lhe dá o r i g e m e com a qual dial og a. As d i f e r e n ç a s m o dais se

processam n u m jogo de identidades, d e e n c o n t r o e r e c o n h e c i m e n t o de

inte nci ona l i d a d e s , n o diálo go da e s c r i t u r a - l e i t u r a .

Assim, o traç o indelével que fu nda o m o d e l o por nós p r o ­

p ost o tem por e s c u d o o "pacto de c o m u n i c a ç ã o " e n t r e e s c r i t o r / e s c r i ­


tura e le ito r/leitura, o qual se p r o c e s s a na r e l a ç ã o biun í v o c a g e ­

rada no texto e pelo texto. A t r a v é s dela, o leitor se faz c ú m p l i c e

do escritor (ou vic e-v ersa), num d i á l o g o (r et órico e hermenêuti­

co)^ ® c o m o um v a ivém no qual se a l t e r n a m p r o d u ç ã o b recepção/^

As palavras "pacto" e "cu m p l i c i d a d e " são v ocábulos de

forte c a r g a afetiva, mas, ainda assim, b a s t a n t e si gni ficativos. Pa­

ra escapar às g e n e r a l i z a ç õ e s p e r i g o s a s fundam os o s i g n i f i c a d o do

p acto como o r e c o n h e c i m e n t o no ato de ler, o e n c o n t r o de i d e n t i d a ­

des e a reab s o r ç ã o de con tra diçõ es. Ele cria a c u m p l i c i d a d e que se

ativa no r e c o n h e c i m e n t o de i n t e n c i o n a l i d a d e s e p r oduz a c o m u n h ã o de

escritor e leitor. Mas como dar feição c o n c r e t a a este traço de

identidade: leitor/escritor? P a r a nós, a c o n c r e t u d e do p a cto se

r e a liza no texto e seu paratexto, em sua função de e s t a b e l e c e r a

interlocução do t e x t o - e s c r i t u r a ao t e x t o - l e i t u r a . Do leitor e x ige-

se o a b a n d o n o da zona estéril da p a s s i v i d a d e do "olhar", para a f u n ­

d ar- s e na zona fértil e c ria t i v a do "ver". Olh ar não basta, o b a s ­

tante é ver.

Em face disso, v o l t a m o s a afir m a r que a n ossa leitura se

processa num m o v i m e n t o dia lético, primeiro, do impulso centrífugo

pelo qual, após a p r i m e i r a leitura, nos d i s t a n c i a m o s do texto par a

reconstituí-1o, i d e n t i f i c a n d o posturas. A seguir, o m o v i m e n t o c e n ­

tríp e t o de r e a p r o x i m a ç ã o a n a l í t i c a com o texto em b us ca de e l e m e n ­

tos da e s s e i d a d e de c a d a modo e, um p ouco além, para novas e r e i t e ­

rada s leitu ras de textuai i d a d e , as quais g er am o u t r a s interpreta­

ções, ago ra em nível de o r g a n i z a ç ã o textual do cômico, do satí r i c o

e do h u m o r .
No cap ítulo seguinte, a figura imaginada aqui s e r á s u b s ­

tituída por uma grade de ele men tos , os nucleares, c a p a z e s de i den­

tificar o cômico, o satíri co e o "humor", e os periféricos, que se

transfiguram um no outro. Ao e s b o ç o do perfil teó ric o s e g u e - s e uma

o p e r a ç ã o mais complexa d e s d o b r a d a em três estágios. No p r i m e i r o or—

denam-se os textos mais r e p r e s e n t a t i v o s de cada conjunto modal,

b u s c a n d o o que lhes é p r ó prio e n q u a n t o matéria e forma. No segundo,

comrovam-se, atravé s de leitura, os e lementos que im pr i m e m a marca

modal. No último, reflete-se, à luz da visão teórica, os t e x t o s e m ­

blemáticos de cada c a tegoria do risível e os de r e c i p r o c i d a d e p er-j

m a n e n t e e ntre os modos.

0 n o s s o intento m e t o d o l ó g i c o se profunda numa táti c a c o m ­

binatória de d e s a r ticular e s t r u t u r a l m e n t e o corpuft da p e s q u i s a e

r e c o m p ô - l o t r a v e s t i d o nos três m o d o s (movim ent o c e n t rífugo). Busca -

se, c o m p a c i ê n c i a digna de Penélo pe, o p r o c e s s o a l q u í m i c o de s e p a ­

rar na m e s c l a - nas mist uras e nos c o m p o s t o s dos text o s de M i l l ô r -

a t r í p l i c e vertente: do cômico, do s a t í r i c o e do "humor". Questão

impertinente pela força m ú l t i p l a e até fas c i n a n t e das interferên­

c ias e r e p e t ê n c i a s de cada m o d o nos o u t r o s modo s ? é p o s s í v e l . Mas o

p e r c u r s o se justifica, a rigor, como i n s t r u m e n t a l i z a ç ã o d i d á t i c a da

leitura.

Uma vez d e fi nidos os text o s em cada modo, sujeitamos os

m e s m o s a n o v a s leituras, r e a b r i n d o na e s t r u t u r a de cada um d e les as

potencialidades de suas for mas literárias. Assim, cáda categoria

modal se e x p r e s s a numa forma, v a mo s dizer, à g uisa de uma melh or

den o m i n a ç ã o , "matriz" ou " p r ivilegiada": a c o m é d i a no cômico, a sá­

tira no s a t í r i c o e o h u m o r i s m o no "humor". C o m o cada um des modos


23

pode ser t r a d u z i d o em o u tras formas, além da matriz, a forma em si

não ident ifi ca o modo; ap enas o indica.

De que m a n e i r a conc i l i a r a não a s s o c i a ç ã o o b r i g a t ó r i a de

"modo e forma "? E como expli c a r que o m e s m o modo p ossa se m a n i f e s ­

tar por v á r i a s form as? Em outr as pa lavras, de que m a n e i r a a cada

modo pode c o r r e s p o n d e r mais de uma forma, além da matr i z ou c ada

forma r e p e t i r - s e nos o u t ros?

Respo ndemos. Organizando a a t m o s f e r a ^ * ou o r i t m o * ^ de

cada um de le s a p a rtir de uma e s t r u t u r a r e p r e s e n t a t i v a do cômico,

do sat írico e do “humor". A rigor, n e n h u m text o p e r t e n c e a u m modo

puro. Daí a o p ç ã o pela voz adjetiva, que refl e t e essa a r m a ç ã o dos

e lem entos c o n f i g u r a t i v o s de cada modo.

Além disso, a c o n v i v ê n c i a e n t r e eles nunca foi p a c í f i c a e

sem sobressa ltos . E s t a m o s lem brando a a b s o r v ê n c i a que o c ô m i c o s o ­

freu na a n t i g ü i d a d e grega, a s s i m i l a n d o o s a t í r i c o a r i s t o f â n i c o e o

“humor" so crático, e a inver são na m o d e r n i d a d e , com a t e n d ê n c i a de

a m a l g a m a r - s e com o s a t í r i c o e com o "humor".

Algumas p a l a v r a s serão a c r e s c e n t a d a s para r e i t e r a r o c a ­

ráter op eracional de1 n o s s o modelo, que é a c o n s t r u ç ã o de uma g r a d e

de e l ementos o r d e n a d o r e s da leitura. I n v e s t i m o s na sua capacidade

de dar sen t ido a cada uma das m á s c a r a s do risível em Mi llôr F e r n a n ­

des.

Re afirmamos. 0 n o s s o p r o c e d i m e n t o d i d á t i c o é de o r d e m e s ­

t rat égica e não ax iomá tic a. Nele não b u s c a m o s p u l v e r i z a r os t e x t o s

na aná lis e de e l e m e n t o s . m e n o r e s e nos detalham e n t o s , mas c o n d u z i r a

linha da p e s q u i s a em c o n v e r g ê n c i a co m o a l i n h a m e n t o general izarvt e

das c a t e g o r i a s m o d a i s que são, acima de tudo, ind iciadoras de uma


34

v i s ã o do h omem e do mundo.

A c l i v a g e m a que vamos subm e t e r a obra de Mi llôr F e r n a n ­

des funda-se em p r e c e i t o s de cará t e r oper a c i o n a l pois, conf or me a

nossa m e t o d o l o g i a de trabalho, cada um dos m o d o s se est r u t u r a numa

associação de e l e m e n t o s orga n i z a d o s numa r e l a ç ã o m a i s de predomi­

n â n c i a e m e n o s de dominânci a, ou numa r e l a ç ã o de p r e s e n ç a / a u s ê n c i a .

Es tes c a m p o s de a s s o c i a ç ã o p o s s i b i l i t a m a c o n s t r u ç ã o dos

tr ês conjunt os, o cômico, o satírico e o "humor", e n v o l v e n d o o p r o ­

c e s s o de comun ica ção , a i n t e n c i o n a l i d a d e textual, o p a c t o entre e s ­

critura e leitura, e o d i s t a n c i a m e n t o variado, p e l o qual o riso

rompe e c o n f i r m a t e m a s c o muns e específicos, num j o g o do ”eu"/lei -

t ura co m o " o u t r o ” textual.

B uscamo s e v i t a r o e q u í v o c o da o b s e s s ã o me tod ológica, sem,

con tudo , p r e s c i n d i r do m é t o d o cuja função d o m i n a n t e s e r á de o r g a n i ­

z a d o r int er no da e s c r i t u r a e, secunda r i a m e n t e , de d i s c i p l i n a d o r dos

re sultados.
25

N O T A S DI VE RS AS

* Como a p a l avra p e s q u i s a engloba, em sua imp recisão semâ nt ica, vá­

ri as no ções que p odem ser dif e r e n t e s , julgamos o p o r t u n o declarar

que a s s u m i m o s aqui duas de su as signif ica çõe s, é uma a t i v i d a d e que

busca um fim e, portanto, um "res u l t a d o " mas é, também, "produ­

ção". Para Rolan d Barthes, p e s q u i s a "é o nome p r u d e n t e que, sob â

i m p o s i ç ã o de c e r t a s c o n d i ç õ e s sociais, damos ao t r a b a l h o de e s c r i ­

tura". In: R U M O R DA LÍNGUA, S ã o Paulo: Brasiliense, 1988, p . 319.

e Val e a pena re pe tir aqui o n o s s o propósito, pois o foco da p e s q u i ­

sa não incide sobr e a obra c o m p l e t a de Mil lôr Fer na ndes , apenas

s o b r e a q u e l a p u b l i c a d a em livros.

^ C f . ECO, Humberto. A d e f i n i ç ã o da arte, p . 183.

^é esse nci al pa ra o c o n c e i t o de m a n i pulação, si tuar a palavra, no

seu sentido lexical como um at o m uito pessoal (quase man ua l) de

" i m p r i m i r forma" e de "forjar".


26

=Cf. o d i a l o g i s m o intertextual (ou s e ria ci ta ção? ) com Plínio, o

M o ç o (carta X V I , 1), c a p i t u l o "Retrato de P l í n i o Qua ndo Jovem". In:

ECO, Umberto. S ob re os E sp al h o s e o u t r o s ensaios. Trad. Beatriz

Borges. Rio de Janeiro: Nova Fron tei ra, 1989. p . 176.

6A imagem do c í r c u l o com o metá f o r a da lei da b i n a r i e d a d e é usada

d e sde a A n t i g üidade. J.P. Vernant nos info r m a sobre o valor p r i v i ­

le gia do do c í r c u l o aos olhos dos gregos. Pa ra eles, era c o m u m a

relação entre pens a m e n t o e e s t r u t u r a geométrica. Cf. VERNANT,

Jean-Pi err e. M it o e P e n s a m e n t o e n t re os G r e g o s Trad. Haiganuch

Sarian. Sã o Paulo: Difusão E u r o p é i a do Livro. Editora da U n i v e r ­

sida d e de S ã o Paulo, 1973. p p . 1 5 6 a 206.

^Assumimos a p a l avra "reflexão" no seu s e n t i d o radical de r e c i p r o ­

cidade, ou seja, o movi m e n t o de mão d u p l a de cair sobre o objeto

de p e s q u i s a e depois, dele afastado, r e f l e t i - l o na c o n s c i ê n c i a p a ­

ra a p r e e n d e r a sua esseidade.

®Cf. ECO, Umberto. Obra Aberta. Trad. A l b e r t o Guzik e Geraldo

G e rson de Souza. São Paulo: P e r s p e c t i v a , 1968. p .26. Cf. tam bém

GREIMAS, A.J. e C O U R T é S , J o s e p h . D i c i o n á r i o de Semió ti ca Trad.

A lce u Dias L i m a e outros. São Paulo: Cultrix , s/d.


27

?Um dos aspecto s ma is atuantes, hoje em dia, r e l a c i o n a d o s com a

obra dè arte é a sua d i m e n s ã o de p l u r a l i d a d e s i g n i f i c a t i v a , ou de

significação múltipla ou, ainda, de ambi güidade. Essa e xigên cia

e s t rutural da obra de arte c o r r e s p o n d e a a q u i l o que U m b e r t o Eco

d e n o m i n a de "obra aberta", ainda que não seja i n f i n i t a ess a p o s s i ­

bilidade. Mas todas e s s a s expr e s s õ e s a t e s t a m a m u l t i p l i c i d a d e das

p o s s í v e i s leituras e a importânci a do i n térprete pois, s e g u n d o Ro-

land Barthes, i n t e r p r e t a r é "aprec iar o plural" de que a obra é

feita. Cf. BARTHES, Roland. S/Z. Trad. M aria de S a n t a Cruz e Ana

Ma falda Leite. Lisboa-, Edições 70, 1980. p. 13. Cf. t a m b é m a t e o ­

ria da obra aber t a i n : ECO, Umberto. O br a aberta. Trad. Al be rto

Guzik e Gera l d o Gers o n de Souza. Sao Paulo-. P e r s p e c t i v a , 1968.

* ®Embor a uma nota não dê ma rgem bastante para uma e x p o s i ç ã o mais

p r o f u n d a sobre a o b r a artística, co nsi der amo s, e n t r e t a n t o , neces­

sário ref orçar os t r a c o s fund amentais da n ossa c o n c e i t u a ç ã o . 0

leitor p e r s p i c a z n o t a r á que nela incorporamos: elementos subjeti­

vos na sua p r e f i g u r a ç ã o (in ten cionalidade) e na sua leitura; e l e ­

me nto s de s e m i ó t i c a na sua e ssência de c o m u n i c a ç ã o (o p a c t o de

autor e leitor); e e l e m e n t o s sociais na su a poética . Esta m o s

conscientes que a n o s s a c o n c e p ç ã o de obra a r t í s t i c a e t a mbém a

base teó rica do n o s s o modfflo p odem apre s e n t a r a l g u m a s s e m e l h a n ç a s

com a veste de A rlequim. Anal o g i a que se eixa na j u s t a p o s i ç ã o de

cores, te cidos e f o r m a s diversas, mas que apes a r d i s s o forma um

t o d o : uma r o u p a .
28

idéia de arte como fazer não i mpl i c a a negação da s u b j e t i v i d a ­

de, mas a primazia dos p r o c e d i m e n t o s c o n s t r u t i v o s em r e l a ç ã o à

imaginação subjetiva. Cf. PA RE YSON , Luigi. Os p r o b l e m a s da e s ­

tática. Trad. Maria Hele n a Nery Garcez. São Paulo: Livraria

M a r t i n s Fontes, 1984. p .32.

*^A p a l a v r a "criação " é aqui u sada não no sentido h e b r a i c o de fazer

algo do nada, mas na a c e p ç ã o g r e g a de produzir, da r forma e, um

pou co mais além, como p r i n c í p i o que organiza, o r d e n a e instaura

uma o u t r a realidade. Com igual dim ens ão, c i r c u n s c r e v e m o s o u s o do

ter mo "rec riação".

13Cf. MUKAROVSKY, Ian. E s c r i t o s s obre e s t é t i c a e s e m i ó t i c a da a r ­


te. Trad. Manuel Ruas. Lisboa: Ed ito rial Estampa, 1981. pp.1 6 -

17. T a m b é m Lotma n r econhece na arte o seu caráter de c o m u n i c a ç ã o

particu lar . Cf. in A e s t r u t u r a do t e x t o artístico. Trad. M a r i a do

carmo V i e i r a R a p o s o e A l b e r t o Raposo. Lisboa: E ditor ial Esta mpa ,

1978.

*4Cf. PAREYSON, Luigi. Os p r o b l e m a s da estética. Trad. M a r i a H e ­

lena Nery Garcez. São Paulo: L i v r a r i a Martins Fo ntes, 1984. p p .

151-177. T a m b é m so bre a leitu ra e seus e n v o l v i m e n t o s i n t e r d i s c i -

plinares veja-se o c a p í t u l o 11 Ir. P s i c o l o g i a da L e i t u r a i n D U -


FRENNE, Mikel. A e s t é t i c a e as c i ê n c i a s da arte Vol.l, Trad.

A l b e r t o Bravo. Lisboa: L i v r a r i a Bertr and , 1982.

i^Sobre o p r o b l e m a da s i g n i f i c a ç ã o do t e x t o a r t í s t i c o confira-se

L OTM A N Iuri em A e s t r u t u r a do t e x t o a r t í s t i c o Trad. Maria do

Carm o V i eira R a p o s o e A l b erto Raposo. Lisboa: Estampa, 1978.

P P . 73-99.

*6 0 "texto" é e n t e n d i d o aqui no seu s i g n i f i c a d o mais amplo e plu­

ral, c o m o s i n ô n i m o de obra ar tística, e também, no sentido mais

objetivo, d e s i g n a n d o qualq uer d i s c u r s o que c o n f i g u r e uma obra li­

terária. V e j a - s e os capítulos: "0 c o n c e i t o de te xto" e "Texto e

sistem a" in LOTMAN, Iuri. Obra citada.

*7j u l g a m o s o p o r t u n o e s c l a r e c e r as r a z õ e s do uso da expr e s s ã o "es­

critor*’
, a quem a t r i b u í m o s uma s i g n i f i c a ç ã o mais profunda, que

àque l a de "es c r e v e n t e " ou "autor", s i g n i f i c a ç ã o esta orig i n á r i a

da consciência do "fazer artístico ", p o i s "o e s c r i t o r é aquele

que trab a l h a sua p a l a v r a (mesmo se é i n spira do) e se absorve fu n­

cionalmente n esse trabalho". Cf. BARTHE S, Roland. Critica e v e r ­

dade. Trad. G e r a l d o Gerson de Souza. São Paulo: Perspectiva,

P P .31 a 36.
30

*® 0ut ra e x pressão de m ú l t i p l a i m p l i c a ç ã o te órica e oper acional, o

" h o r i z o n t e de esp era " pode ser e n t e n d i d o como um c o n j u n t o de ati^

tudes cultu rai s de um d e t e r m i n a d o público, numa é p o c a d e t e r m i n a ­

da. Vale des tac ar duas coisas. Primei ro, Jaus não t o m a uma a t i t u ­

de c e n t r í f u g a em r e l a ç ã o ao texto, trata-se ap enas de um a l a r g a ­

mento do campo de estudo. Segundo: a teor i a de Jaus p a r e c e mais

centrada no leitor do que no público. Cf. JAUS, H.R.V. Estética

da Re cepção: c olo c a ç õ e s gerais. Trad. Luiz Co sta Lima, in A L i t e ­

r a t u r a e o Leitor, Rio de J a n e i r o : Paz e Terra, 1979. T a m b é m Sar-

tre e n f a t i z a o leitor ao e s t a b e l e c e r que todo t e x t o é c o n s t r u í d o

a p a r t i r de um c e r t o s e n t i m e n t o em r e l a ç ã o ao seu p ú b l i c o p o t e n ­

cial, fic and o i mpr e g n a d o no t exto a im agem d a q u e l e s a quem a obra

se destina. Sartre v a l o r i z a o p r o b l e m a sob um o u t r o ângulo, o do

es critor. Cf. Jè an- Pau l Sartre. T r a d u ç ã o Car los F e l i p e Moisés.

Que é a literatura. São Paulo: ática, 1989. p p .55-124.

^Tocamos aqui em o u t r o a s p e c t o abissal da obra de arte: a inten­

cion alidade. Jan M u k a r o v s k y faz d i s t i n ç ã o entre o b j e t i v o exterior

e intencio nal ida de, pois "ao d e i x a r de ter em c o n s i d e r a ç ã o o o b ­

j eti v o exterior, a o b r a faz a p a r e c e r um sujeito, quer dizer, uma

p e s s o a que criou i n t e n c i o n a l m e n t e " e essa i n t e n c i o n a l i d a d e "liga-

se a i n d a mais e s t r e i t a m e n t e à sua fonte hum ana" (p.257). Cf. MU-

K A R O V S K Y , Jan. Op.cit., p p . 257-259.


preciso re definir o emprego d e s s e s dois termos - retórica e

h e r m e n ê u t i c a - cada um de les de p a s s a d o denso. A p a l a v r a r e t ó r i c a

é a s s u m i d a aqui no seu se ntido lato de meios atr av és dos quai s o

e s c r i t o r c o m u n i c a ao leitor (pelo e a t r a v é s do texto) a sua p e r s ­

pectiva do m undo e o conv e n c e da validade dela. E n c ampamo s,

igualmente, a d i m e n s ã o arifttotélica de té c nica que o b j e t i v a um

resultado. H e r m e n ê u t i c a é, também, a s s u m i d a na sua a mp la a c e p ç ã o

de s i g n i f i c a r qua lquer técn ica de i n t e r p r è t a ç ã o .

2*A expressão "atmosfera c ô m i c a " , u s a d a por P i e r r e - A i m é Touchard

pa ra d e s i g n a r o u n i v e r s o do c ô m i c o em sua rela ç ã o com o a g e n t e do

riso, que se c a r a c t e r i z a pel o d i s t a n c i a m e n t o e pela curi o s i d a d e ,

mantendo nossa aten ç ã o dispersa nos d e t a l h e s dive r s o s conforme

assinala Stendhal no seu "Ra cine e S h a k e s p e a r e " . Cf. TOUCHARD,

P i e r r e-Aimé. Dioniso: apologia do teatro. Trad Mar ia H e l e n a R i ­

beiro da C u n h a e Mar ia Ce cília de M o r a i s Pinto. São Paulo: Cu l-

trix. E d . da U n i v e r s i d a d e de São Paulo, 1978.

2 2 a e x p r e s s ã o "rit mo cômico", u sada por S u s a n n e K. Langer, para d e ­

s ign a r o c a r á t e r único, a bre vid ade , as lim i tações e, sobr etu do,

os im pulsos de vida que e m p r e s t a m uma u n i d a d e o rgâ n i c a que "será

rompida, o eu irá d e s i n t e g r a r - s e e nã o m a i s existir". Cf. LANGER,

Susanne. S e n t i m e n t o e Forma. Trad. Ana M. G o l d b e r g e r C o e l h o e

J. Guin sbu rg. São Paulo-. Perspe cti va, 1980.


AS

RALAVRAS MEICESSARIAS
• #
"que para dizer tudo, temo e receio,

que qualquer longo tempo curto sejra."

Camões
COLOCACSO DO PROBLEMA

"O homem é o única animal que ri.

Ar ist ót e 1es

"O riso é próprio cios homens."

Ra.be 1a.±s

"O riso é o h o m e m ."

Dugas
A ruptu ra da seri e d a d e na arte lite r á r i a vem d e s p e r t a n d o
crescente inte resse entre os p e s q u i s a d o r e s . Por que a fr eq üência

dos estudos sobre o tema? Uma p a l i n g e n e s i a da c r í tica lite r á r i a ?

Sinal, talvez, da d e s s a c r a l i z a ç ã o cu ltural que p r e f e r e a a b o r d a g e m

do d i s t a n c i a m e n t o irônico? é verd a d e que os gregos, na infâ nci a da

c u l tura ocidental, já dava m sinal disso, a l i a n d o à i n t e r rogação f i ­

lo sófica o q u e s t i o n a m e n t o satírico. No entanto, essa d e s s a c r a l i z a ­

ção é sob a forma tônica, ainda que sa rcástica, e não a d e s t r u t i v a

e niil i s t a dos te mpos modernos. Justame nte , por que a freqüência

atual dos e s t u d o s sobre o t ema? Esse i n t e r e s s e pa rece ligado às

contradições da vida moderna, na qual o riso se "faz signo e c o n s ­

ciência de n ossa c i são com o mundo"*. A p r e d i l e ç ã o pela m i l i t â n c i a

do risível tornou-se, hoje, p a r t i c u l a r m e n t e fo rte na l i teratur a e

nas artes, tal vez para c o m p e n s a r a c r e s c e n t e r e d u ç ã o do e s p a ç o da

aleg r i a na vida cotidiana, s o b r e t u d o nos p a í s e s indust ria liza dos ,

onde um grand e n ú m e r o de p e s s o a s dá p r e f e r ê n c i a às formas anversa s

da seriedade®. Mas, em que c o n s i s t e m as m a n i f e s t a ç õ e s literá ria s da

não-seriedade? A ntes de qualq uer t e n t a t i v a de resposta, s eria mais

oportuno rep ensar com m aior a c u i d a d e a sua s i g n i f i c a ç ã o ou, mesmo,


36

o se u princípio. Primeir o, r e s s a l t a a duv ida sobr e a legitimidade

da de nom inação, s e n d o a " n ã o - s e r i e d a d e " um títu lo d i d á t i c o que r e ­

cobre, aqui, uma c e r t a v a r i e d a d e do risível no d i s c u r s o literário.

A escolha do term o n ã o - s e r i e d a d e e sua v ari a n t e não-sério pa ra

emoldurarem o m u n d o do risível, fa zendo e q u i v a l e r "sér io" e "não-

sério " à não risível e risível, es tá isenta de v a l o r a ç ã o das pri­

m e i r a s s obre as ú l t i m a s e da idéia de s e p a r a c a õ ent re elas.

Mas é, pr eci samente, a s e p a r a ç ã o que deve m o s em p r i m e i r o

lugar examinar. Assim, o mais a d e q u a d o s e ria qu estio nar a p o l a r i d a ­

de: s é r i o e não-sério. A d upla face de Jano ou p r o c e s s o de e s p e l h a -

m e n t o ? No mundo g r e g o clássico, o s é r i o é m a r cado p e l a p r e s e n ç a dos

deuses e da fatalidade, e o não -sério, pela a u s ê n c i a dos d e u s e s e

pelo erro humano; em ambos, um " d e s c e n s u s ad inferos", um fio a

p rumo no homem. Contudo, a u n i d a d e de c o n t r á r i o s - s é r i o e n ã o - s é ­

rio - a s s i n a l a o p e n s a m e n t o g r e g o pr imitivo. Essa c o n t a m i n a ç ã o r e ­

cíproca é e n c o n t r a d a em H o m e r o e c o n f i r m a d a mais tarde por Platão,

para q u e m os dois d i s c u r s o s são i n t e n t o s a l t e r n a t i v o s de u m o b j e t i ­

vo comum: ex pu r g a r a inquietação, ásquilo, ao a f a star do t r á g i c o os

elementos satíricos, inicia a c i s ã o que a teoria a r i s t o t é l i c a irá

acentuar na s e p a r a ç ã o da p o e s i a dra máti ca, trági ca e cômica. Já os

r o m a n o s - h e r d e i r o s da t r a d i ç ã o grega: a antiga, dos m i mos e p a n t o ­

mimas, e a mo der na (sé culo III a.C.), das d i a t r i b e s e s t ó i c a s e c í ­

n i c a s - r e t o r n a m ao m i s t o de s é r i o e não -sé rio , cujo s limites a re­

t ó r i c a a j u d a c o n f u n d i r .3 Ao longo da Idade Média, o c r u z a m e n t o ou a

c i s ã o do b i n ô m i o " l u d i c r a - s e r i a " s o f r e c o n s t a n t e o s c i l a ç ã o por p a r ­

te d o s t e ó r i c o s da Igreja, indo do " r e p ú d i o r i g o r i s t a até a b e n e ­

v o l e n t e t o l e r â n c i a " * . No fim da Idade Média, o c r i s t i a n i s m o "retor—


37

na" à c isão e o c l a s s i c i s m o a ratific a, na v a l o r i z a ç ã o do s ério e

na rejeição do não-sério. Ao c o n t e x t u a i i z a r a época de Rabel ais ,

Bakhti n a s s i n a l a a conc e p ç ã o do riso no Renascim ent o: sepa r a - s e da

cult u r a p o p ular e ingressa na erudita, c o m o h e r d e i r o da A n t i g u i d a ­

de, c o n f o r m e as visõ es de A r i s t ó t e l e s (mar ca d i s t i n t i v a do homem),

de H i p ó c r a t e s atr avé s de D e m ó c r i t o ( i n s t i t u i ç ã o espiritual do ho­

mem) e de L u c i a n o (signo de l i b e r d a d e do espí r i t o e da palav ra).

Em con t r a p a r t i d a , na Idade Média, o r i s o v iveu fora da esf er a o f i ­

cial da ideo l o g i a e da li ter at ura elevad a, d ando o r ige m às formas e

aos ritos cômicos. Tam bém a partir dos s é c u l o s segu i n t e s ao R e n a s ­

cimento, há uma reve rsão do quadro so cial do riso, não sendo mais

"forma un iv ersal de c o n c e p ç ã o do mu ndo", o riso pass a a a p r e s e n t a r

ca rát er n e g a t i v o e o dom í n i o do c ô m i c o l imi t a - s e aos vícios do i n ­

divíduo e da socieda de^ . Mas a m o d e r n i d a d e , a par tir da estética

romântica, p r e g a o regr e s s o ( p a l i n g e n e s i a ? ) à m e s c l a ^ Contudo, p e ­

los padrões aind a m a n i q u e í s t a s de n o s s a n o r m a social vigente, a

i deo logia da s e r i e d a d e atua no c ampo s u b l i m e e do belo, m a n t e n d o o

discurso do poder. Em "pólo oposto", s i t u a - s e a n ã o - s e r i e d a d e c o m o

id eologia de oposição: crítica, d e s t r u t i v a e acusatória. Essa d i a ­

lética nã o inva l i d a a reflexão de Cícero-, " generum grav i u m et io-

c o rum u n a m e s s e rationem''7 , pois ambo s os d i s c u r s o s são t r a j e t ó r i a s

p a r a l e l a s do m e s m o p e r c u r s o na r e v e l a ç ã o a l t e r n a d a de uma r e a l i d a d e

que no fu ndo c o n s i s t e na " i n - d i f e r e n ç a " dos opostos. Até porque, é

possível c o n h e c e r os o p o s t o s um pe lo outro. E o n ã o - s é r i o não é a

mais s éri a forma do sér io? P o d e-se ser sério, rindo.

Seria ent ão o riso, que f r a g m e n t a o m undo estável do s é ­

rio, uma p o s s i b i l i d a d e c o m u m do n ã o - s é r i o (das formas l i t erárias do


38

" r i s í v e l " ) ? Noss a p r o p o s t a pa rte des sa i n t e r r o g a ç ã o e expõe o m a t e ­

rial que permite, se não res pondê-la, alargá-la, p o n d o seus f u n d a ­

m e n t o s teóricos.

A modernidade acen t u o u as c l á s s i c a s manifestações do

"n ão-s ério"; elas subsist em, não apen as nas f o rmas substa nt ivas , a

comédia e a sátira, mas tamb é m nas formas a d j e t i v a s ® cuja diluição

e f l e x i b ilidade c a r a c t e r i z a m a cont e m p o r a n e i d d e -. a dar resp ostas

o b l í q u a s à i n q u ietante vida do sé culo XX. Elas são resp o s t a s c u l t u ­

ra is e, em c onsequê ncia, d i f e r e n c i a d a s es pacial e temporalmente.

Man i f e s t a m - s e , na preferên cia, p el as formas d i s c u r s i v a s ágeis e

breves. Ta mbém sua f i n a l i d a d e é fluida e ambígua, al gumas delas

a n á r q u i c a s como o "humor"; outras mais a u t o r i t á r i a s c omo o satí r i c o

e o cômico.

Mas p e r m a n e c e o uso da velha arma dos g r e g o s antigos, a

ironia, agor a como uma m e t á f o r a do não r e s o l v i d o p a r a d o x o do homem

d i a n t e de uma s o c i e d a d e que, cada vez mais, a m e a ç a esmagá-lo. Assim

o u S o da ironia, da paródi a, de todas as formas de in ver sã o são m a ­

neiras de a p r e s e n t a r uma s i t u a ç ã o quase impo ssível de ser a p r e s e n ­

tada de outra, con f i g u r a n d o , sim ult aneamente, a denúncia e a resis­

tência .

Contudo, r e d u z i n d o às de vidas p r o p o r ç õ e s dos fatos, c o n s ­

t a t a m o s que, ape sar do se u a c eite na m o d e r nidad e, há e s e mpre houve

d e s d e Aris tóte les , uma impl í c i t a v a l o r i z a ç ã o e s t é t i c a da arte serifs

a i n d a que o c a r á t e r d e s v a l o r a t i v o do risível, c o m o p r o d u t o estét i c o

menor, fosse meno s a c e n t u a d o em cer tas é p ocas da c u l t u r a ocidental.

Mas o que fund a a v a l o r i z a ç ã o da arte s é r i a ? é possível

que a d i c o t o m i a s e r i e d a d e e não s e r i e d a d e se a s s e n t a no fato de os


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te nto s do não s ério serem uma a m e a ç a à lit eratura séria, esta e m b a

sada na idéia de s u p e r i o r i d a d e humana. Assim, ao desvel ar o "ridí

calo", a pequ e n e z do ser hum ano e a f r a g ilidade das suas institu i

coes sociais, a arte do risível i n t r o d u z elem e n t o s de r e f l e x ã o so

bre a " i n v i a b i l i d a d e do homem", e em cons eqü ênc ia, a d e s s a c r a l i z a

cã o da pr ópria literatura.
PERFIL DO RISO

"O homem é a único animal


que chora e ri, pai s t? o
único que percebe a dife­
rença entre o que as coisas
safo e o que deveriam ser"

Ui 11 iam Hazlitt
40

N O T A S D IV ER SA S

^Confiram-se as r e f l e x õ e s de O c t a v i o Paz sobre a a m b i v a l ê n c i a do

ri so na modernidade: n e g a ç ã o de si m es mo e dos outros, e s i g n o de

rupt u r a com o mundo. In. Lo« S i g n o s en Rotacion y O t r o s Ensayos.

Ma drid Alianza Ed itorial S.A., Í97Í, p .3 0 . Veja-se, ainda, a c o ­

n o t a ç ã o de m o d e r n i d a d e c o m o t empo de cisão, d e n e g a ç ã o de si mesmo

e, sobretudo, tempo de crítica. In. PAZ, Octavio. Os Filhos do

Barro: do roma n t i s m o k v a n g u a r d a T rad u ç ã o de 0 1 ga S a v a r y . Rio de

Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

2para Jean F o u r a s t i é o lugar do riso, na vida coti d i a n a , ten de a

r e d u z i r - s e mais em p a í s e s industri ali zad os, que nos p a í s e s pobres,

onde o "home m da ruá é m u i t o mais alegre e ri com m u i t o mais f a c i ­

lidade". Tal vez p ara c o m p e n s a r esta falta, o h omem m o d e r n o bu sque

nas formas artí s t i c a s do risível uma ce rta com p e n s a ç ã o . Cf. o a u ­

tor s upr ac itad o. " R e f l e x ã o s obre o riso" In: R e v i s t a D i ó g c n e s NB

09. Brasília-. E d i t o r a U n i v e r s i d a d e de Brasília, 1985, p p .35-47.

^ V e j a - s e a c o l a b o r a ç ã o fu nd amen tal de Cu rti us so bre o tema do sério

e nã o-sério, no c a p í t u l o "Gr a c e j o e s e riedade na L i t e r a t u r a M e ­

dieval", e s p e c i a l m e n t e p á g i n a s 436 e 437. In: L i t e r a t u r a E u r o p é i a

e Idade M édia Latina. Trad. T e o d o r o Cabral e P a u l o R ó n a i . Rio de

Janeiro. Inst ituto Naci o n a l do Livro, 1957.


41

^Cf. CURTIUS, E . R o b e r t , obra citada, p . 443. Vejam-se, ainda, so­

bre o riso na vida cultural da Idade M é d i a e sua posi ç ã o de " r e l e ­

gado para fora de todas as es feras o f i c i a i s da ideologia", as c o ­

lo cações de Mi khail Bakhtin. In. A C u l t u r a P o p u l a r na Idade Mtfdia

• no R e n a s c imento . São paulo: E d i t o r a H u c i t e c / E d i t o r a Uni v e r s i d a d e

de Brasília, 1987, p p . 63-83.

5cf. Bakhtin, obra citada, p . 105-123.

*Cf. PAZ, Octavio. Os Filhos do Barro. Obra citada, p . 199.

^Cf. CÍCERO, M. Tulio. "De Oratore". In-. O e u v r e s C o m p l e t e s (Tome

Premier). Paris: C h e z Firmin - Didot Frères, Fils et Cie, L i b r a i ­

res, 1875, p . 269. Vi de a me sma p o s t u r a em P l a t ã o (Rep úbli ca e B a n ­

quete), para quem a pi edade no t r á g i c o e o d é s p r e z o no cô mico são

condutas idênticas. Cf. P L A T 8 0 . O e u v r e s Com pletes. T r a duction

n o u v e l l e et n o t e s par Léon Robin. Paris: L i b r a i r e Gallimard, 1950.

® A p e s a r de t r i b u t á r i a da n o m e n c l a t u r a a d o t a d a por Anatol Rosenfeld,

estamos aqui u s a n d o as e x p r e s s õ e s " s u b s t a n t i v a " e "adjetiva" no

sentido mais a m p l o dos vocábulos, f a z endo r e c u a r a últ ima a uma

espécie de p r é - gê nero, ca paz de a d m i t i r a dilui ção , a mescla, o

hibridismo e a p o l i f o n i a da mode rnidade. Cf. 0 T e a t r o ápico- São

Paulo : Perspectiva, 1985. p p . 15-19.


Sobre o Riso

Sistematizar o papel do riso na lite r a t u r a constitui-se

tarefa instigante, p o r é m perigosa. 0 p r o p ó s i t o aqui, no entanto,

rest r i n g e - s e a d e t e r m i n a d o s aspectos do tema, a t u a l i z a n d o coloca­

ções. Nem uma t e n t a t i v a de r e f o r m u l a ç ã o teórica, ne m uma revisão

diacrônica dess es e s t u d o s desd e Aris tóteles: o ri so a p e n a s como um

v e c t o r , um c e n tro de forças. Afin a - s e o tema nã o p e l o fio a prumo,

mas pela c i r c u l a r i d a d e d o s ponteiros.

De iní cio se e v i d e n c i a m os p r e s s u p o s t o s do r i s o na r e a l i ­

dade humana. A a s s e r t i v a a r i s t o t é l i c a - da iner ê n c i a h u m a n a do riso

deix a e n t r e v e r sua e x t e n s ã o e profundeza. 0 riso, que Rabelais

conf i r m a ser " p r ó p r i o do homem", ao hu man izá-l o, o distingue e o

d i s t a n c i a das outras c r iaturas. Eis a p r i m e i r a a m b i g u i d a d e do riso:

marca d i s t i n t i v a do h o m e m e signo do seu d i s t a n c i a m e n t o com o m u n ­

do.

A questã o p r i m e i r a p r e n d e - s e não t anto ao seu d e s e n v o l v i ­

ment o histórico, mas à poss ível i n t e r p r e t a ç ã o de sua gênese. Ou,

melhor, a indi cia r a l g u m a s d i r e ç õ e s de procura, pois a o r i g e m do

riso é o c i r c u n s t a n c i a l e, s alvo erro, o acessó rio . 0 riso pare ce

ter a c o m p a n h a d o o e v o l u i r da espé c i e humana. Contudo, a distância


44

h i s t ó r i c a t orna inviável tal d o c u m e n t a ç ã o T r a b al ha-se no c ampo das

hipóteses. Terá o riso advi n d o do ritual p r i m i t i v o de m o s t r a r d e n ­

tes ao e s t r a n h o e n q u a n t o ameaça? A i n d a a g ora guar d a - s e des se ritual

de a g r e s s ã o a h o s t i l i d a d e do riso que r i d i c u l a r i z a - e a ssi m se faz

ferino, ferindo*. Ou, será o riso um s i gno ancestral do inst i n t o

defensivo? 0 riso, que mata pelo ridículo, d e s m i s t i f i c a o r e s p e i t o

e o medo i n s p i r a d o s pelo s seres p e r i g o s o s os quais, no real da vida

cotidiana, eles r e s p e i t a m e tem em ^ Idêntica é a dime n s ã o do riso

para o h o m e m medieval: "v itória s o b r e o m e d o ” p r o v o c a d o pelo temor

das forcas n a t u r a i s e pe la ame aça moral^.

F i c a m a v e n t u r a d a s apenas e ssas duas hipóteses, m e s m o sem

a p r e c i á - l a s c o m a a ten ç ã o que merecem, poi s não cabe aqui uma e x p o ­

si ção m i n u c i o s a sobre a or igem do riso. Até p o rque o leque é s u f i ­

cientemente a b e r t o para incluir v á r i a s o u t r a s hipóteses-, a origem

sexual, a erótica, a o r igem má gi c a e até m e s m o a or igem dia ból ica .

Isto sem e s q u e c e r a possível o r i g e m lúdica do riso.

Da fo rt una c r í t i c a do ri so s e r ã o e n c a m i n h a d a s (sem pre­

tensão exaustiva) apenas as p e r s p e c t i v a s t r a d i c i o n a i s mais rele­

vantes. A i n d a que algu n s de seus a u t o r e s t e n ham tan g e n c i a d o o p r o ­

blema, a r e f e r ê n c i a se faz ne ce ssár ia: A r i s t ó t e l e s (Da Alma, III,

X), na a f i r m a t i v a de ser o homem o ú n i c o v i v e n t e que ri e no i m b r i ­

car (Poética) do risível com o d i s f o r m e não dolo r o s o ou destrutiv o;

C í c e r o (Da Or ató ria, II, LVIII), na r e p e t ê n c i a da visão a r i s t o t é l i -

ca do risível, a b o r d a n d o o riso c o m o f or ma de distensão; Q u i n t i l i a -

no (Da I n s t i t u i ç ã o Oratória, L V I , III), ao id enti fic ar o riso como

um t a l ento con t r a d i t ó r i o , uma d i s p o s i ç ã o de espí r i t o difícil de ser

d e f i n i d a que, r e p o u s a n d o sobre o e q u í v o c o buscado, reanima, distrai


45

e faz e s q u e c e r a fadiga; H o b b e s (Do Homem, XII, VII), q u and o o a s ­

socia ao sen t i m e n t o de o r g u l h o a d v i n d o da conc e p ç ã o de n ossa s u p e ­

riori dad e, relativa à i n f e r i o r i d a d e de outrem; Kant (Críti ca do

Juízo), ao c o nsider ar o riso c o m o d e c o r r e n t e da t r a n s f o r m a ç ã o s ú b i ­

ta de uma e x p e c t a t i v a densa em nada; Sch o p e n h a u e r (0 Mundo como

V o n t a d e e Represen taç ão) , no c o n d i c i o n a r o risível ao p a r a d o x o e n ­

tre o que se pensa e o que se vê; Hegel ( E s t é t i c a - P o e s i a ), que o

concebe como e x p r e s s ã o do d e s e j o de m os tr ar nossa sab edoria; Spe n-

cer (A F i s i o l o g i a do Riso, I), p a r a quem o riso é um modo de 1 ibe-

rar a ten s ão rep resada numa d e s c o m p r e s s ã o que implica s ú b i t o pra­

zer .

0 d e t a l h a m e n t o dess a s p e r s p e c t i v a s sobre o riso, em a l g u ­

mas frases ou brev es parágraf os, s eria r i s í v e l . C o n t u d o n o s s o v í n ­

culo com esses estudos está em inst i g a r sua c o m p r e e n s ã o ao tocá-lo,

não em ref azer o caminho. N e n h u m c r i t é r i o p erm i t e a b o r d a r o riso

sem r e d u z i r - l h e a complexi dad e; nem filósofos, nem r e t ó r i c o s che­

garam a e x p r e s s a r a sua e s s ê n c i a n u m perfil "fechado". De maneira

geral, os fre q ü e n t a d o r e s do tema insistem, apesar das d i f i c u l d a d e s

suscita das , em eixar essas t e o r i a s em pólos anta gôn ico s. Um grupo

c e n t r a d o na qu e l e que ri (Platão, Kant, S c h o p enhauer e S p e n c e r ), f a ­

z end o o riso d epe n d e r de uma c o n t r a d i ç ã o de juízo entr e o ideal e o

real. Outro, c e n t r a d o no o b j e t o do riso (Aristóteles, Hobbes e He ­

gel), b u s c a n d o o risível nos d e s v i o s do múndo referencial. Essas

teorias, mais h a b i t u a l m e n t e d e n o m i n a d a s de d e g r a d a ç ã o (erro) à s e ­

gunda e de c o n f l i t o ( p e rcepçã o do erro) à primeira, r e d u zem-se, no

fundo, - a um p r i v i l é g i o de aporte. Insatisf a t ó r i o s são os rótulos-,

subjet ivo , intelectual e de c o n f l i t o para o p r i m e i r o co njunto; o b ­


46

jetivo, moral e de d e g r adaç ão, para o outro.

Sum arizar e s t u d o s mais atuai s sobre o tema t a m b é m não é

n o ssa pretensão. A p esar disso, duas exce çõe s se fazem n e c e s s á r i a s

à medi d a que comb i n a m os e l e m e n t o s des sas duas linhas, reintegran­

d o -as numa esp éc ie de f i l o s o f i a social: as p e r s p e c t i v a s b e r g s o n i a n a

e freudiana. Ambas atuais, e n q u a n t o permanentes.

Na obra de B e r g s o n - 0 Ris o (Ensaio s o b r e a s i g n i f i c a ç ã o

do cômico) -, p u b l i c a d a no co meço deste século, d o i s a s p e c t o s ex­

pressivos merecem, de início, reparo. Primeiro, o subtítulo faz

apelo à sign i f i c a ç ã o do cômico, no seu imbricar com o r i s í v e l . D e ­

pois, o p r e f á c i o indicia a m e t o d o l o g i a do trabalho, "os p r o c e d i m e n ­

tos de fa bri cação do cômico". F u n d a m e n t a o ref leti r' s o b r e o tema,

p a r t i n d o de uma enorm e d o c u m e nta ção. Nas formas l i t e r á r i a s do c ô m i ­

co, b usca as razões p e l a s quais ri uma sociedade. Ao p r o b l e m a t i z a r

a a b o r d a g e m <0 que é o r i s o ? Que e x p rime o r i s í v e l ? Há variedade

no r iso? Qual a sua função?), Bergson a p r o f u n d a p o n d e r a ç õ e s de C í ­

ce ro que, no "De Orator e", q uestiona a natu r e z a do riso, n ão se e n ­

vergonhando de igno rar a q u i l o que os ou tros p r e t e n d i a m saber. E

finda por de ixar a D e m ó c r i t o - "viderit Deraocritus" - o c u i d a d o de

expl i c a r o riso*: P r o c e d e n d o de inda gações sobre seu sentido, Berg­

son e s p e c i f i c a as c a r a c t e r í s t i c a s ge rais do riso; t i p i c i d a d e hu mana

("não exis t e fora do que é p r o p r i a m e n t e humano"); insensibilidade

(inim igo da emo ção e dos s e n t i m e n t o s é uma e s p é c i e de "anc s t h é s i e

m o m e n t a n é e d u c o e u r " ) ; a t i v i d a d e social (seu a m b i e n t e vi ve nci al é a

sociedade, pois "Le r i r e doit répo n d r e à c e r t a i n e s e x i g e n c e s de la

vie en commun"); e p r á t i c a definida, c o r r i g i r desvios®.


47

Em o u tras palavras: primeiro, o riso é c o m p o r t a m e n t o h u ­

mano por excelên cia, pois o home m ri do p r ó p r i o homem. Na r e a l i d a ­

de, Be rgson r e a f i r m a a c a r a c t e r í s t i c a a r i s t o t é l i c a da in erê ncia h u ­

mana do riso. A ins ensibilidade, s e g u n d o t r a ç o distin tiv o, c o r r e s ­

pond e à i m o b i l i d a d e ou à c o n t u m á c i a do co ração, a s s i n a l a d a por Ho b-

bes, s endo uma forma de r e s i s t ê n c i a à a ç ã o do r i s í v e l . A q u e l e que

ri g u arda di stância, pois a empa t i a é a n t a g ô n i c a do riso, que

"s'adresse à l ' i n t e l l i g e n c e pure". Ter ceiro. Bergson inaug ura um

intelectualismo soci ológico, o riso c o m o e f e i t o que se p rod u z no

indivíduo e cuja p r o d u ç ã o não depe n d e a p e n a s dele, mas de um m e c a ­

n ismo g e r a d o pela natu r e z a ou por uma t r a d i ç ã o de vida em s o c i e ­

dade. Desta maneira, o riso c o n f i g u r a - s e num produto vector ial ,

n o r t e a d o no ind ivíduo por uma c o n s c i ê n c i a coletiva. Por último, ao

afirmar que "a rigidez é o cômi c o e a c o r r e ç ã o dela é o riso"^,

Ber gson recupera a d i visa "ride ndo cast i g a t mores" de Lu cílio,

mais t arde a d o t a d a por Jean de San teu il p a r a a " commedia deli'ar­

te". F i x a sua função de c a s tigo i n f l i g i d o p e l a s o c i e d a d e ( agressão

colet i va) em d e c o r r ê n c i a da falta de e l a s t i c i d a d e e ad aptação, en­

fim, de toda sor te de d i s s i d ê n c i a s individuais ( m a rginalidade)

a t e n t a t ó r i a s à vida s o c i a l .

Assim, a visão b e r g s o n i a n a b a l i z a - s e na t r a d i ç ã o p l a t ô n i ­

ca da sin on ím ia: riso e cômico. Tal d e m a r c a ç ã o a t alha os d e s c a m i ­

nhos de um a inves tid a mais abrang ent e. N ã o se q uestiona a v i n c u l a -

ção do c ô m i c o ao riso, nras a r e c í p r o c a n ã o se faz v e r d a d e i r a - o

riso pode d e c o r r e r de m o t i v a ç õ e s outras. S e u â m bi to é mais amplo, é

c e r t o que B e r g s o n se abei r a de A r i s t ó t e l e s ao ress a l t a r a utilida­

de social do riso. Essa função social a s s e n t a - s e em dois p o n t o s b a ­


48

silares: primeiro, o c ô m i c o c o m o forma de a u t o - d e s t r u i ç S o da s o c i e ­

dade; segundo, o riso c o m o t e r a p ê u t i c a capaz de s a l v a r da "morte"

e s s a m e s m a sociedade. Assim, na t e o r i a " m e c â n i c o - s o c i a l " do cômico,

cabe ao riso a função ú n i c a de c e n s u r a social, c o n s c i e n t e ou in­

conscie nte . E j u stam ente aqui que julga m o s residir o a s p e c t o mais

vul ne rável da teoria bergsoniana: d e s e m p e n h a r á o r i s o papel so­

cial - uno e idêntico - como, por exemplo, de cen sor social? Em

verdade são múl tip las as suas fun ções sociais, e o p r o b l e m a nã o se

r e s o l v e na função una, a p o n t a d a por Bergson. Além disso, uma c l a r i ­

fi c ação se faz n e c e s s á r i a p a r a a c o m p r e e n s ã o do ato de rir como

reflexo do grupo social: s i m p l e s resultado, ou há uma i n t e n ç ã o a

direcioná-lo? Não é difícil d e t e c t a r as implica çõe s p o l í t i c a s da

t e oria bergsoniana: o riso é s o c i a l m e n t e útil.

Freud, por sua vez, toca, secundar iamente, no p r o b l e m a do

riso e do côm ico ao tra tar do c h i s t e e do humor. D i f e r e n t e m e n t e de

Bergson, cuja visão do risível c e n t r a - s e no cômico, F r eud e s t a b e l e ­

ce rela ç ã o entre o riso e v á r i a s c a t e g o r i a s do risível: a carica­

tura, o chiste, o hu mor e o cômico. Os s u b s í d i o s f r e u d i a n o s ao tema

do riso deri vam de a b o r d a g e n s indi r e t a s em fases d i s t i n t a s na for—

m a ç ã o de seu pensamento, d e s d e "os C h i s t e s e sua r e l a ç ã o co m o In ­

consciente" (1905) até "Hum o r " (1928).

Ao ajuizar o riso, i n q u i e t a - s e com suas r a z õ e s e p r o c u r a

explicá- lo, co e r e n t e m e n t e c o m a d o u t r i n a p s i c a n a l í t i c a , a p a r t i r de

fato r e s internos, sub jeti vo s. P r o c e d e da p e ssoa que ri e ins tal a

no p s i q u i s m o concreto a c a t e g o r i a com p o r t a m e n t a l do riso, vincu­

lan do- a ao p rincípio do p r a z e r (ec ono mia na e n e rgia m e n t a l > : _ o c ô ­

mico e n q u a n t o poup a n ç a com o pensament o; o humor, com o sentimento;


49

e o chiste, com a inibição. A base do p r a z e r na v i s ã o freu diana é a

c o m p a r a ç ã o da real i d a d e com sua r e p r o d u ç ã o defor mad a, a caricatura.

Ao c o n t r á r i o de Bergson, cuja d o c u m e n t a ç ã o se a p ó i a na lite r a t u r a

do cômico, o material fr eudiano é mais amplo: social, com b a s e na

h i s t ó r i a da ca ric atu ra; clínico, na o b s e r v a ç ã o de pacientes; e o de

pesquisa , com crianças.

0 pensamento f r eudiano n i v e l a o riso (prod uto social) ao

s onh o (pro d u t o associai) como d e f e s a em face das a n s i e d a d e s e an­

gústias e o refere, também, com a sexu alidade, formas de d i s t e n s ã o

às r e p r e s s õ e s dos tabus sociais. M a i s ainda, em toda s as forma s do

risível re conhece, como marca p e r c eptível, sua a n a l o g i a com a vida

infantil (regressão). Q u and o c o n c e i t u a o riso c o m o "produto de um

p r o c e s s o automát ico , t o r nado possíve l, ape nas pelo d e s c a r t e de n o s ­

sa a t e n ç ã o conscie nte "^, Freud a v i z i n h a - s e do p r e c e i t o c l á s s i c o de

Quintiliano, "o riso anima, dis tra i e faz esqu e c e r a fadiga"®. Em

ambos, o r i s o como p r i n c í p i o de d i stensão. Na r e t o m a d a a n a l í t i c a do

humor, F r e u d o expõ e como r e s p onsável p e l o s o r riso discreto, com­

p l a c e n t e e so litário. R e c u p e r a a sep aração: o humor é o riso de uma

só pessoa; o cômico, de duas; e o chiste, de três. 0 i n teresse de

F reud p e l o riso coin c i d e com a fase inicial da p s i c a n á l i s e e o p r ó ­

prio a u t o r o c o n s i d e r a um d e s v i o em suas inve s t i g a ç õ e s s obre o s o ­

nho. é n e s s e c o n t e x t o que a r e f l e x ã o f reu d i a n a deve ser ap ree ndid a.

As c o n s i d e r a ç õ e s de Berg s o n e Freud sob re o tema não se

esgotam nás descrições aqui a d u z i d a s e, não obstante, elas nos

fo r n e c e m u m a r e f e r ê n c i a t e ó rica p a r a r e p e n s a r o c o n c e i t o do riso.

Mas c o n t i n u a o embate: o que é pois o riso ? Como a p r e e n ­

d ê - l o por p e n s a m e n t o para, depois, t r a d u z i r por p a l a v r a s o se u c o n ­


50

ceito? Seri a inútil a força de quere r e x p l i c á - l o ? é possível que

se di ga do riso o que Santo A g o s t i n h o diz ia do tempo, que é fami­

liar a cada um de nós, mas que n i n g u é m o pode e x p l i c a r aos outros:

"Se n i n g u é m mo perguntar, eu sei; se o quiser expl i c a r a quem me

f izer a pergunta, já não sei"?. A d i f i c u l d a d e ou a i m p o s s i b i l i d a d e

dessa f o r mulaçã o teóri ca é r e c o n h e c i d a por p e n s a d o r e s da A n t i g ü i ­

d a d e à Moder nida de, que t e ntam em vão r e s o l v e r o problema. Após s é ­

culos de reflexão o riso instiga, res ist e e zomba de t od os os e s ­

forço s i n t e r p r e t a t i v o s . Ori e n t a m - n o s , por con seguinte, duas quase

certez as: o riso resiste a toda e x p l i c a ç ã o de conjunto; o ris o é

indefiní vel e, talvez, nem d e v a ser toma d o em c o n s i d e r a ç ã o o es­

fo rço de defini-lo. Descarta da, assim, a h i p ó t e s e de um c o n c e i t u a r

s a t i s f atór io, re sta -nos a p e n a s um c o n j u n t o de po ntos de reflexão.

Rastreando a Diversidade

0 prime i r o ponto se refere à d i v e r s i d a d e do riso. 0

per s p e c t i v a d o , tr ad icio nal e moderno, p o s s i b i l i t a d i s t i n g u i r o r i ­

so: somático (titilatio), m a n i f e s t a ç ã o dos sentidos; emocional

(laetitiae), e x p r e s s ã o do affe ctu s; e intelectual, p e l o "desloca­

ment o " no fazer artístico. D i v i s ã o essa de valor p u r a m e n t e d i d á t i ­

co, pois s o m a m - s e no r i s o os planos, o intelectual de sua formaç ão

e o social de sua causalidade, ao pla no físi co,de sua exp re ssã o.

Ele é ao m esmo tempo uma p a i x ã o da alma e do corpo (mesmo porq u e o


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aspe cto s o m á t i c o do riso não exclui sua e s s ê n c i a intelectual, s a lvo

a <t i t i l a t i o ) . M e s c 1a m - s e , dessa maneira, os elem e n t o s s o c i o lógico,

psicológico e -Fisiológico, ficando impossível d i s t i n g u i r m a t é r i a e

espí r i t o p a r a t o r n á - l o inteligível.

Üm p onto per sistente, que inte g r a o p a t r i m ô n i o do c o n s e n ­

so crítico, é avul t a r no riso o c a r á t e r de a ntít ese e o e f e i t o de

am bivalência. S i t u a d o num c a mpo dividido, c o n f i g u r a - s e por um lado

c omo forma de eng aja men to; por outro, de dist anc iamento. D e sta m a ­

n eira o r i s o a s s e m e l h a - s e a uma p a r t i t u r a de vozes dialéticas-, c r í ­

tica e denegridora. uma; c o n s t r u t i v a e regenera dor a, a outra. Essa

dualidade (de imp iedade e sabedoria, s e g u n d o Pascal* ®) incita e

acirra seu uso a cada crise da h i s t ó r i a cultural, pois o riso se

faz, ao m e s m o tempo, arma contr a a c o r r u p ç ã o e s i gno d essa m esma

corrupção. Bas ta lembrar Ra belais que o r i e n t a o riso c o n t r a as foi—

ças d o m i nantes, feudal e religiosa.

No riso, [ambivalência e a m b i g ü i d a d e ^ c o r r e m para lel as, tão^

a m b i v a l e n t e quan to a m b i g ü o é o riso. Pl*atão, ao imb ric ar riso e c ô ­

mico, i n s i s t e no c a r áter de de sp r e z o i n e r e n t e a este riso e desta­

ca suá e s t r a n h a ambigüidade, pois e v i t a - s e dar-lhe c ausa e, em re-

vanche, b u s c a - s e d e s c o b r i - l o nos out ros **. T a mbém H o b b e s ressalta

esse â n g u l o do riso ao c o n c e b ê - l o em d u p l a com as lágrimas, p o ntas

op ostas de u m eixo comum (não foi H e r á c l i t o quem a f i r m o u ser a h a r ­

moni a t e c i d a de tons dif erentes?). A mp l i a n d o , sua m e c â n i c a re sult a

da d i s t e n s ã o c i r c u n s c r i t a ao tem po p res e n t e , pois Ho bb e s figura o

riso e o c h o r o como "movimentos r e p e n t i n o s que o h á b i t o a amb os faz

de sapa recer, pois n i n g u é m ri de p i a d a s velhas, nem c hora por c aus a

de uma v e l h a c a l a m i d a d e " * ^ £ i s al' o u t r o c o m p o n e n t e estru tur al do


riso: sua marca tem pora l r e s u l t a n t e da r e f e r e n c i a l i d a d e e h i s t o r i ­

cida d e que se ins crevem em t odas as formas a r t í s t i c a s do nlo-sé rio .

Ao falarmos de a m b i v a l ê n c i a e a m b i g ü i d a d e no riso não p o ­

d emos esquecer o e n s a i o de B a u d e l a i r e sobre o tema, "De 1 'Essence

du Rir« ct généralemente du Comique danm l«s Art» Plastiques, de


1853 "*3 Essa análise, a n t e r i o r à de Bergson, a c e n t u a a a m b i v a l ê n ­

cia do riso cuja e s s ê n c i a r e side no "orgulho " e na "idéia de n ossa

superioridade", s e ndo s a t â n i c o em p r i n c í p i o e inco mpatível com a

s a b e d o r i a e a inocência. B a u d e l a i r e trabalha os a s p e c t o s m e t a f í s i ­

cos e psicológicos, que Bergson evit o u abo rdar em sua i n t e r p r e t a ç ã o

social do riso. Mas, os a s p e c t o s p s i c o l ó g i c o s da t e o r i a baudelai-

r iana fundame nta rão a a n á l i s e fr eudiana do riso-, as puls õ e s s u b s t i ­

tu indo as posse ssõ es e os n o s s o s desejos, aos demônios .

0 ensai o de Baudelaire, na sua p r i m e i r a parte, e n f a t i z a a

antinomia entre a s a b e d o r i a e o riso ("la s a g e s s e et le rire"),

s end o o último, geralment e, "apa n á g i o dos tolos" e imp l i c a n d o i g ­

n o r â n c i a e fraqueza*^. Ao c o n t r á r i o de Bergson, o riso, pa ra B a u d e ­

laire, é ao mesmo t empo u m a fo rça an t i-social e social: f enômeno de

caducidade de um mundo, c o m o uma queda do e s t a d o parad isía co, e

ta mbé m da de iscência de um outro.

Baudelaire, entr e t a n t o , situa em camp o s d i v e r s o s o riso e

alegria. A alegria é una, mas m a n i f e s t a - s e algu m a s vezes de forma

invisível e outras, p e l a s lágrimas. Já o riso é e x p r e s s ã o de um

sentimento c o n t r a d i t ó r i o que se p r o c e s s a no c h o q u e de dois i n f i n i ­

tos: de uma grandeza i n f i n i t a e de uma infinita m i s é r i a * ^ Tributá­

rio de Baudelaire, O c t á v i o Paz d i s t i n g u e os dois risos, da a l e g r i a

que saco d e as e n t r a n h a s do mundo, e do cômico, que é sig no do m undo


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subterrâneo e de seus poderes. 0 p r i m e i r o une, o s e g u n d o a c e n t u a a

s e p a r a ç ã o do homem com o mundo. A p e s a r de conf i r m a r s e r e m a m b o s n a ­

tureza h u m a n i z a d a no corpo, s e p a r a a alegria, um a c o r d o com o m un do

natural, do riso, uma t r a n s g r e s s ã o da o rdem natural

A busca, o u t r o r a c o n f i a d a ao p e n s a m e n t o fil osó fico , en­

contra-se hoje t a m b é m s u b m e t i d a aos esfo r ç o s das b u s c a s a n t r o p o l ó ­

gica, s o c i o l ó g i c a e psicoló gica, além da estética. A s s i m as r e f l e ­

xões, en t r e l a ç a n d o - s e , inva d e m - s e ou amar r a m - s e umas às outras.

Os estu d o s de R ei na ch s o b r e o cará ter m á g i c o do riso nas

culturas an tiga s r e v e l a m sua i m p o r t â n c i a como ritual de renovação

da vida, quer na fec u n d i d a d e d o s c a n t o s (hinos homéricos), quer na

p r ó p r i a g ê n e s e do m u ndo e dos d e u s e s (hinos órficos). Em c o n t r a p a r ­

tida, a p o n t a a r e s i s t ê n c i a de a l g u n s traços d essa p o s t u r a em ritos

r e l i g i o s o s ("risus pasc ali s") , ma s afir ma a total l a i c i z a ç ã o do r i ­

so e su a s u b s t i t u i ç ã o pelas l á g r i m a s nos ritos c ri st ãos. 0 riso

distancia-se da vi da religiosa, p e r d e n d o espaço, a t u a lm ente, até

m esm o na vi da p r o f a n a ^ .

Numa a b o r d a g e m psic o l ó g i c a , Ougas b u sca e x p l i c a r o riso

como um s e n t i m e n t o complexo, m i s t o de simpatia e a n t ipatia, impli­

c ando uma rupt u r a de equilíbr io. Ao c a t e g o r i z a r as v á r i a s teorias

filosóficas sobre o riso, r e s e r v a à c a t e g o r i a est ética, de cará t e r

lúdico, a c o n c e i t u a ç ã o do riso c o m o e p i f e n ô m e n o da i m a g i n a ç ã o c ô m i ­

ca*®.

N uma discussão de h o r i z o n t e s mais amplos, S ully diri ge

p arte de sua i n v e s t i g a ç ã o à o r g a n i z a ç ã o do riso coral da c o m é d i a e

à aparição de uma nova espécie, o riso individual e desinteressa­

do do h u m o r e do h u m o r i s m o * ^ .
Para Vic tor off , o h um or não é um riso supra- soci al como

des ej a Sully, mas uma c o m b i n a ç ã o dos ris os fundamentais: o de a c o ­

lhida e o de exclusão. Este último, l i gado ao risível é o riso

c r i s t a l i z a d o pela s o c i e d a d e e c apaz de r e p e r c u s s õ e s sociais**®.

Circunscrevendo seus e s t udos ao c a m p o estético, L a l o e n ­

fatiza a p o l i f o n i a do riso, u n i v e r s o imenso, h e t e r o g ê n e o e plural,

que cen tra seu val or no dúbio pr azer da d i s s o n â n c i a (harmonia p e r ­

dida), b u s c a n d o no b aixo (risível), o r e s g a t e da a s s onância (o e l e ­

vado). Faz a c o r r e s p o n d ê n c i a forma e c o n t e ú d o no riso estético: do

cô mi co como ação, do h u m o r c o m o s e n t i m e n t o e do chiste, obra de i n ­

teligência. A fili a ç ã o fr eudiana é e v i d e n t e ^ l .

M o t i v a coes e Funçioe s

Como t o d o ato de c o n s c i ê n c i a c o n s i s t e numa c erta a t i t u d e

que o s u j e i t o a d o t a em r e l ação ao objeto, c o l o c a - s e a pergu nta :

"De que r i m o s ? ” Nã o v a m o s dar uma res p o s t a definitiva. Até p o r q u e a

resposta, m e s m o provisó ria, não é fácil. Ou, não é fácil e n c o n ­

trá- la fa cilmente. Uma c o m p l e x i d a d e i n s u s p e i t a ocul t a - s e debaixo

de sua e n g a n o s a s implicidade . 0 riso r e s i s t e e parece z o mbar de

todos a q u e l e s que c r ê e m po der d e t e r m i n a r suas causas. M u d a m - s e as

motivações, a l t e r a - s e o riso.

0 riso satírico, no-qual se m e s c l a m o ódio e o medo, não

s eria um r e t o r n o às o r i g e n s ? 0 que nos faz rir? 0 "animal ride ns"


de A r i s t ó t e l e s d e fine o h o m e m (a gente e objeto do riso), mas as s i ­

tuações que o m o t i v a m se c i rcunscrevem, unicamente, nas s u a s p o s ­

s i b i l i d a d e s ? Não há o b j e t o s cômicos, p oré m s i t u a ç õ e s cômicas, afir­

ma Bergson. Não e x i s t e para nós, s e g u n d o Baudelaire, o c ô m i c o em

si, mas uma d i s p o s i ç ã o mental p a r a criá - l o e rec onhe cê-lo, qu ando

criado.

A que st ão r e f e r e n t e à função do riso possui uma longa

história, no m undo oci den tal , de P l a t ã o até o presente. De L u c í l i o

a Bergson, o lema c o n s a g r a d o pela "comé dia de arte" s i n t e t i z a uma

das p o s s í v e i s funções do riso: c o r r i g i r de svios r e p r e s e n t a d o s pelo

risível. 0 "ride n d o castiga t more s " conti nua no "rir para coibir"

de Qui nti liano. Ou, na a s s e r t i v a de Juvenal. "Para os c o s t u m e s r e ­

p ree n d e r do povo, é melh o r arma o riso". Ou, ainda, a persistência

do " r i d e n d o d i cere v e r u m ” de H o r á c i o nos se rmões c r i s t ã o s do fim

da Idade M é d i a ^ S

T e n s ã o e d i s t e n s ã o são as forças que i m p u l s i o n a m a vida;

contrariá-las gera a r i g i d e z (cômico) susp eit a à socie dade . Esta,

ao d e p a r a r - s e com algo que a i n q u i e t a e a ameaça, r eage c o n d e n a n d o

a rigi d e z ao r i d í c u l o e a c oage c o m o riso. Assim, na d e f e s a (forma

e v o l u t i v a do ances tra l e s t a d o de aler ta? ) dos gr upos s o c i a i s c o n t r a

alterações na cultura, o r iso d e s e n h a sua pos tura c o n s e r v a d o r a de

manutenção dos padrões. Aqui, o r i s o / c ô m i c o que insiste em m o s t r a r

o aves s o para o bter o ideal. N e s s a função de " t e r a p ê u t i c a social",

uma o b s e r v a ç ã o mais a c u r a d a c o n f i r m a o p r ivilégio do que "deveria

ser", no c h oq ue com "o que é" Uma ob líqua busca de um t e m p o pri­

mordial de p e r f e i ç ã o ? 0 d u p l o movi ment o, destr uir para c o nstruir,

configura a função r e n o v a d o r a do riso. A part i r . d o d e s c r é d i t o dos


56

padrões esta bele cid os, o riso in dicia c a m i n h o s re novadores, como

forca benigna com o valo r c o g n o s c i t i v o que, m e s m o a p r e s e n t a n d o um

mundo ao avesso, nos c o n d u z à "verdade" a t r a v é s das cois as ao c o n ­

trário. Possível, ainda, o riso ser arma p u n i t i v a na busc a do

e q u i l í b r i o e da o r d e m ? Pascal afir m a a p o s s i b i l i d a d e de rir sem f e ­

rir a caridade, pois esta, segu n d o Sant o Agost inho , obr iga às v e zes

a rir dos erros dos h o m e n s pa ra lev á- los a rir de suas faltas e d e ­

las f u g i r ® 3 . Mas, v á l i d a é, também, a a d v e r t ê n c i a de Croce, para

quem o riso most r a o que esta errado, mas não nos afas ta do er-

ro2*. Ou teria o riso, como força d e s m i s t i f i c a d o r a , a função nii­

lista de simpl es d e r r u b a d a ? Essa função, de q u e s t i o n a m e n t o satí r i c o

em sua gên ese grega, a p r e s e n t a - s e no m undo r o m a n o tant o no ris o

z o m b e t e i r o de Horácio, quanto na i nvectiva c a ú s t i c a de Juvenal, é o

ris o demoníaco da r e t ó r i c a da derrisão, c u j a a l e gria m al ig na de

destruir insta ura a d u a l i d a d e hostil entr e o " e u ” e o "mundo". S e ­

ria este "risuin nihi est bens" que o G ê n e s i s (Si.6) repu dia? Mas

esta postura de agressão, ainda que d i s s i mulada, pres s u p õ e (no

ag ent e do riso) um c e r t o e n v o l v i m e n t o em ocional , uma aproximação

com o o b jeto do riso, função que, no fundo, pode ser cons iderada,

também, uma n o s t a l g i a de um "te mp o perfe ito ". Aqui, po demos c o n s i ­

derar o riso de e x c l u s ã o de que tr ata Dupréel em sua abor d á g e m s o ­

cioló gic a, e cuja m a n i f e s t a ç ã o mais freq ü e n t e é o s o r r i s o sard ó n i c o

da sátira^S.

Por último, o riso, ao e x p r e s s a r um d e s e q u i l í b r i o inte­

rior, libert a s e n t i m e n t o s de inibição e r e p r e s s ã o que as sim se li­

b era m e se sublimam. Essa lib eração é, s e g u n d o Freud, fugaz, furti­

va e inesperada. 0 riso, ao pene t r a r no â m a g ó do ser humano, cu mp re


57

a função de d e s m a scaramento, pela re ti r a d a das m ú l t i p l a s máscaras

urdidas pela seriedade. Mas na def esa cont ra a ang ústia , o riso

po de ser a p r ó p r i a máscara, pois, como diz o poeta: " Q u a n t a gente

que ri talvez exista, cuja v e n t u r a ún ica c o n s i s t e p a r e c e r aos ou­

tros venturosa". Ou, ainda, o riso a próp r i a arma p a r a e x o r c i z a r o

mal .

Essa s funções e m ú l t i p l a s outr as (aqui não mencionadas)

não esgotam to das as p o s sibilidades, tal a a b r a n g ê n c i a do tema.

D essa forma, as c o l o c a ç õ e s a n t e r i o r e s são apen as t e n t a t i v a s de pro-

blematizar as fun çõ es do riso. Até por q ue todas e s s a s f u n ç õ e s t e n ­

dem mais a c o m p l e m e n t a r e m - s e do que a e x c 1u i r e m - s e . Mas se, de um

lado, a p o s s i b i l i d a d e de a c e i t a ç ã o de todas não r e s u l t a em c o n f u s ã o

de pensamento, de o u tro lado, não nos aproxima de uma m e l h o r com­

preensão.

Os Risos em Ml I Iôr Fernandes

Assi m c h e g a m o s a um p onto deci s i v o nas i n d a g a ç õ e s p r e c e ­

dentes: sa bem os o que é o riso sem, contudo, t r a d u z i - l o em pala­

vras. Descartada, como foi ant eri ormente, a h i p ó t e s e de uma con cei-

tuação s atisfatória, r e s t a - n o s refle tir sobre a p o s s í v e l d i s t i n ç ã o

(pelo menos a nível didát ico ) do riso p r o d u z i d o p e l o s m o d o s do r i ­

sível em M i llôr Fer nandes. I n t e r e s s a - n o s o riso m o t i v a d o pelo tex­

to literário. Ele cria um c i r c u i t o de percepção, de cumplicidade,


58

de pact o e n t r e a tríade: autor, t exto e leitor. 0 texto é, assim, o

e spa ç o de p r o d u ç ã o e de consumo, onde se c u mp re o e n c o n t r o e ntre

a u tor e leitor, c o m p l e t a n d o - s e o c i r c u i t o pelo riso.

Im e d i a t a m e n t e se colo ca aqui o p r o b l e m a de c o n s i d e r a r a

possibilidade de at ingir pe lo riso as v a r i a ç õ e s dos modos: o c ô m i ­

co, o s a t í r i c o e o "humor". Quan t o mais nã o fosse, para ver as m a r ­

gens do problema e question á-l as. T r a t a - s e de limites e não de

front e i r a s .

Na anál i s e dos m a t i z e s do riso, b u s c a m o s a d i f e r e n c i a ç ã o

entr e os t r ê s mo dos fu n d a m e n t a i s do risível. No polifônico riso

milloriano s u b s i s t e um laço c omum e fo rte de p r o t e s t o e de c o n t e s ­

tação que v i a b i l i z a a sua i d entidade com o u n i v e r s o do risível.

Mas, em con t r a p a r t i d a , d i f i c u l t a s e p a r a r n essa p o l i f o n i a os risos,

diferenciá-1os e a j u s t á - l o s a cada um dos modos. Aqui t a mbém se

confirma o t a m a n h o da noss a ambição, pois com o definir, como s e p a ­

rar o que é p r ó p r i o do homem, o r iso? C o m o d i s c i p l i n a r essa i n t e r ­

liga ção do r i s o com os modo s ? E s t a r i a nas d i f e r e n t e s d i s t â n c i a s de

rela ç ã o do "eu" <o agen te do riso), c o m o o b j e t o do riso <o risí­

v el) ? Assim, três p o s s i b i l i d a d e s d e s s a s r e l a ç õ e s são aqui a v e n t u r a ­

das, c o n f o r m e o “eu" d i s t a n c i a o risível e o circuns cre ve. 0 a s s u n ­

to é i n s t i g a n t e e amplo, mas n ossa a t i v i d a d e li mit a -se ap enas a in­

terl i g a r o r i s o com as p o s t u r a s do risível que c o n s i d e r a m o s f u n d a ­

mentais: o cômico, o s a t í r i c o e o "humor".

Em cada s i t u a ç ã o e x i s t e n c i a l , há o b j e t i v o s a a t e n d e r e

amea ças a evitar. Assim, há s e mpre uma r e l a ç ã o de c o n f l i t o do "eu"

com o "mundo". Mas o riso é a d e n e g a ç ã o dess e c o n f l i t o ou, como

diz J e a n - C o h e n , sua "não d r a m a t i z a ç ã o ”^ ^ . E o age n t e do riso, at ra-


59

vés dele, c o n q u i s t a seu a fas ta ment o, seu d i s t a n c i a m e n t o , sua não

i mpl i c a ç ã o com o mundo. N e s s a e x t e r i o r i d a d e e na v a r i a ç ã o da dis­

tânci a do "eu" com o "o utro" fun da -se a nos sa d i f e r e n c i a ç ã o entre

as posturas: cômica, s a t í r i c a e humorística.

No cômico, a d i s t â n c i a re duz o o u t r o a o b j e t o c a p a z de

contemplação e de ju dicação. 0 riso moti v a d o pel o c ô m i c o funda -se -Y

na vis ão do risível como o b j e t o passível de uma operação social

transfo rma dora , de i n t e n ç ã o perfe cti va.

0 riso nos t e xtos c ô m i c o s de M i llôr F e r n a n d e s vive da

diss onância, da inversão. N eles d eparamos com a natureza hu ma na

co ntra ditória, de que fala Baude lai re, as r e l a ç õ e s de i n c o n g r u ê n c i a

de S c h o p e n h a u e r , ou o d isto an te, s e g undo B e r g s o n . Mas a fonte p r i ­

mordial do riso e do c ô m i c o em Mil lôr é o da i nve r s ã o que se ex­

p r essa pela s m ú l t i p l a s form as de ironia, que e xpõe uma s i t u a ç ã o p a ­

ra sina l i z a r e x a t a m e n t e o oposto, é o riso a l egre que se funda na

percepção da inv ersão dos a c o n t e c i m e n t o s e da l i m i t a ç ã o e p e q u e n e z

humanas que se c o n f i g u r a m em um m undo d i v e r t i d a m e n t e às avessas.

Nas p eç as "Pigma leoa ", "Do T a m a n h o de um Defunto", "Um e l e f a n t e no

Caos", assim como nos t e x t o s " C o n p o z i s s õ i s Im fãtis" e " L i ç õ e s de Um

Ignor ant e" constata-se esse ri so que alicia O leitor, tornando-o

c ú m p l i c e do e s c r i t o r d i a n t e d e s s e mund o às avessas.

A p o s tura *sat íricaJ lança suas raízes na n e g a ç ã o do outro,

no ód io e no d e s e j o de a n i q u i l a m e n t o . M e s c l a - s e a d i s t â n c i a pelo

e n v o l v i m e n t o emocional. Uma f r u i ç ã o maligna m arca o s o r r i s o s a r c á s ­

tico do satí r i c o (nem s e m p r e o ris o mani f e s t o é o b r i g a t ó r i o ) , e há

se mpr e um v e s t í g i o de agr essã o, m e s m o não h a v e n d o ó d i o franco. 0

riso s a t í r i c o pode ser i r ô nico ou sarcástico, c o n f o r m e a c u s a ou mi-


6<ò

lita. è o riso da d e r r i s ã o de que nos falam S p i n o z a e D e s c a r t e s e

no qual a a l e g r i a se amálgama com o ódio. 0 ris o s a t í r i c o é tão

mais forte e á c i d o q u anto mais ilustre for o o b j e t o do r i s í v e l .

0 ri so sat íri co, aquele que se c o m p r a z a rir de um mund o

pervertidamente às avessas, inspir a-s e em M i l l ô r no e s p e t á c u l o da

vida p o l í t i c a de n o s s o país e no c o t i d i a n o da v i d a humana. Na sc e do

contraste c a u s a d o p e l a d istância p r o f u n d a e n t r e o que d e v e r i a ser

mas não é, entr e o ideal e o real da vida c o t i d i a n a pequ e n a e r i d í ­

cula. É o riso l i gado a um c o m p o r t a m e n t o h u m a n o a b s o l u t a m e n t e inad­

missível. A l i m e n t a - s e do sarcasmo, da ironia m i litante, da paródia

e dos jogo s de pâ lavras. Mas o seu p onto v é l i c o é a caricat ura, no

ataq ue d i r e t o e na i d e n t i f i c a ç ã o do sati riz ado . A c a r i c a t u r a e, de

um modo geral, o d e s e n h o de Millôr Fe rnandes, é fu nd a d a sob re a e s ­

tétic a da diss o n â n c i a , na d e s p r o p o r ç ã o e d e f o r m a ç ã o intencional dos

traços.

E s t e é o r i s o que a utentica o p acto que se e s t a b e l e c e e n ­

tre o e s c r i t o r e o leitor, após a leitura de t e x t o s que c o m p õ e m os

três volumes do " D i á r i o da Nova Repúblic a", "Que P aís é Este?",

"Todo Homem é M i n h a Caça". Em outros, como os da s é r i e das fábulas,

também e n c o n t r a m o s o ris o satírico, p o r é m com uma t e n d ê n c i a para o

"humor".

Já /o s o r r i s o ~è~õ~rri'sõ~'do humor/1 e i x a m - s e numa relação de

alteridade <o "o ut r o " é quase um "alte»—ego"), e s t a b e l e c e n d o elos

de simp a t i a e n t r e a g e n t e e objeto. Não há a excl u s ã o , pois o agente

do riso in cl u i - s e t a m b é m no objet o do r i s í v e l .

0 riso do- h u m o r é de todos eles o m a i s ref lex ivo , aquele

cujo b a l i z a m e n t o a p r e s e n t a maior c omplexidade. S u r g e do con fro nto



\

da e x p e c t a t i v a com a realidade, ou da d e s c o b e r t a do n o s s o ridículo.

é o riso que conf i r m a a atmo s f e r a de apatia, de c e t i c i s m o e de

a c e i t a ç ã o da ine v i t a b i l i d a d e do erro humano. Em Millôr, aparece li­

gado a for m a s lit e rárias cu rtas e c l á s s i c a s de c o n t e ú d o invertido

pelo autor, à ironia verbal e, sob retudo , à ironia na a c e p ç ã o mais

ampla da palavra, ou seja, a que se a p r o x i m a da p o s t u r a socrá tic a,

que age na d i s s i m u l a ç ã o da qui lo que d e v e r i a ser mas não é. Este r i ­

so m i l l o r i a n o reage contra os t e m o r e s da alma, de que nos fala

Bakhtin, e nos liberta de sé culos de o p r e s s ã o l e v a ndo-nos em r e van-

che a rir de um mundo t r i stemente às avessas. Os Hai-kais, os p o e ­

mas de " P a p á v e r u m Millo r" e os e p i g r a m a s de " R e flexões Sem Dor" r e ­

vel am essa aguda p e r c e p ç ã o das c o n t r a d i ç õ e s do h omem e suas cir­

cunstâncias. Aqui a ironia se d i s t a n c i a da m i l i t â n c i a do s a t í r i c o e

m esm o das inv ersõ es cômicas, r e v e s t i n d o - s e mais de uma p o s t u r a do

homem diante do mundo. Um outro a s p e c t o desse riso ainda merece

destaque-. o fato de o humor inve s t i r no s e n t i m e n t o do o p ost o faz

com que ele seja basta n t e presente na auto-ir oni a.

Assim, no cômi c o d e p a r a m o s com o riso que denuncia; no

satírico, co m o riso de acusação. M a s em am bos a ce rteza da supe­

rior ida de, a "sú bita gló ria" de que nos fala Hoobes. Já o riso do

humo r c o n s t a t a a fragilid ade humana; é o rir para ev it a r as l á g r i ­

mas pa ra d e f e n d e r - s e do medo e da d o r .

Operado esse esboço, r e s t a d e c l a r á - l o um simpl es esboço,

um e s b o ç o n e c e s s á r i o e nada mais do que um esboço. P r e l ú d i o que se

impõe p a r a torn ar sensível o que aq ui está em jogo: o riso, e p i f e -

n ô m e n o dos m o d o s liter ári os do ris íve l.


62

N OT AS DI VE RS AS

*Canevacci a s s i n a l a a o r i g e m ambivalente do r i s o c i t a n d o as p e s q u i ­

sas do e t ó logo E i b 1- E i b e s f e l d t ,- par a quem o n o s s o riso é, ainda,

fortem ent e m o t i v a d o p e l o senti do a g r e s s i v o de sua origem: "ri-se

de alguém, r i d i c u l a r i z a - s e alguém, e tudo isso é feito p r a z e r o s a ­

mente em c omum c o m os outros. Quem ri j u n t o c o m os outros, sent e-

se ligado a e s s e s a t r avés de tal "ódio r i t u a l i z a d o " (Amore e

ódio, Milão, M o n dadori, 1977, p . 204). Cf. CANE V A C C I , Máximo. An­

tropologia do Cinema . São Paulo: E d i t o r a B r a s i l i e n s e S . A., 1984,

P P .105-120:

2cf. CLASTRES, Pie rre. A Soci e d a d e C o n t r a o Estado. Ri o de J a n e i ­

ro: Livr a r i a Francisco Alves Edit o r a S . A., 2 . e d ., 1978,

P P . 101-102.

3"0 h o mem medieval s e n t i a no riso, com uma a c u i d a d e particular, "a

vi tória sobre o medo", nã o som ente como uma v i t ó r i a s obre o terror

m í s t i c o ("terror d i v i n o " ) e o medo que i n s p i r a v a m as for ças da n a ­

tureza, mas a n t e s de tudo como uma v i t ória s o b r e o m e d o moral que

acorrentava, o p r i m i a e obsc u r e c i a a c o n s c i ê n c i a do homem, o medo

de tudo que era s a g r a d o e interdito ("tabu" e "maná"), o m e d o do

poder di vino e hu mano, dos man d a m e n t o s e p r o i b i ç õ e s a u toritárias,

da mort e e dos c a s t i g o s de além-tumulo, do inferno, de tudo que

era "mais temível que a terra". Ao derrotar e s s e medo, o riso es ­

clar e c i a a c o n s c i ê n c i a do h o m e m , r e v e l a v a - l h e u m n o v o mundo". Cf.

BAKHTIN, M., obra citada, p .78.


63

4Cf CÍCERO, M. Túlio, obra citada, p . 864.

®No d e c u r s o de sua p e r m a n ê n c i a em C l e r m o n t - F e r r a n d , B e r g s o n p r o f e ­

re, em 1884, sua série de c o n f e r ê n c i a s sobre o "Riso" (De que r i ­

m os? - Por que rimos?). 0 s u c e s s o jun to ao p ú b l i c o leva o autor a

desenvolver r e flexões em t o r n o do tema, que s erão a p r o v e it adas,

q u inze anos mais tarde, no livr o "Le Rire" (Essai sur la s i g n i f i ­

cation du comique). A tese de Bergs on sobre o riso desdobra-se.

(...) 0 homem é "un animal qui sait rire" (p.3); (...) 0 r i s o se

faz acompanhar de i n s e n s i b i l i d a d e e indiferença, qualquer coisa

como "un* a n e s t h é s i e m o m e n t a n é e du coeur" (p 4); (...) 0 as pe c t o

grup ai é inere nte ao riso, p o i s "doit r é p o n d r e à c e r t a i n s e x i g e n ­

ces de la vie en commun" (p.6); (...) "Le rire est, avant tout,

une c o r r e c t i o n " ( p . 150). Cf. BERGSON, Henri. Le R i r e (Essai sur la

signification du c o m i q u e ). P a r i s : Pres s e s U n i v e r s i t a i r e s de F r a n ­

ce, 1977.

^Idem, ibidem, p p . 38-150.

?Cf. FREUD, Sigmund. Os C h i s t e s e sua r e l a ç ã o co m o inc ons cien te.

Trad. M a r g a r i d a Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

®Cf. QUINTIL IANO, M. Fábio. " I n s t i t u t i o n O r a t o i r e " VI, III, in

O e u v r e s Com pl ète s. T r aduction de La C o l l e c t i o n P a n c k o u c k e par M.C.

V. Quiz ill e. Tome 10. Paris. G a r n i e r Frères, s.d., p . 155.


64

*Cf. ST O AGOSTINHO. Conf iss Se s. Tradução por J O l i v e i r a S a ntos e

A. A m b r ó s i o de Pina. 10.ed. Porto: L i v r a r i a A p o s t o l a d o da I m p r e n ­

sa, 1981, P .304.

*®A d u a l i d a d e do riso, m e s c l a de "pra zer " e "dor" p a r a Platão, "ta­

lento contraditório" para Q u i n t i l i a n o e Baud e l a i r e , enc on t r a em

Pascal sua e x p r e s s ã o lapidar: "Há no riso uma i m p i e d a d e e uma s a ­

bedo r i a divina", p . 109. Cf. PASCAL, Biaise. "Onz i è m e lettre"

O euv r e s Complètes. Tome Premier. Paris: Ha chette, 1958.

**Cf. PLATSO. "La R e p u b lique". Oeuv r e s C o mplètes. T r aduction et

no tes par Léon R obin et M.J. Moreau. Paris: Gallim ard, 1950,

P .1221

*2 Cf. HOBBES, Thomas. L e v i a t a I. 2. ed . São Paulo. Abril Cultural,

1979, p . 36.

*3cf. BAUDELAIRE, Char les . "De L ' e s s e n c e du rire" in Oe uv res

Co mplètes. Paris-. Gal limard, 1976, pp. 527-558.

i*No seu e s t udo s o bre a e s s ê n c i a do riso, B a u d e l a i r e r e j e i t a a tese

do cômi c o o b j e t i v o , d e t e r m i n a d o por caus as e x t e r i o r e s , recomendan­

do, para expl i c a r o riso, a busc a de fato res in ternos, subjeti­

vos .

*5... "comme le rire est e s s e n t i e l l e m e n t humain, il est e s s e n t i e l ­

lement contradictoire, c ' e s t - à - d i r e qu'il est à la fois si gne


65

d'une grandeur infini* et d ' u n * m i s è r e infinie ( . . ) C'est du

choc p e rp ét ua i de ces deux i nf i n i s que se d ég a g é le r i r e . " (Cf.

BAUD ELA IRE . Obra citada, p . 532

l ^ O c t a v i o Paz or ie nta suas e s p e c u l a ç õ e s numa linha m e t a f í s i c a i d ê n ­

tica à li nha b a u d e l a i r i a n a e r e i n t e g r a o riso aos r i t u a i s de r e ­

t orn o às orig e n s má gicas do mundo, r e l a c i o n a n d o - o com o l ú d i c o e

com o sagrado. Especifica, ainda, a a n t i n o n i m i a "riso e t r a b a l h o "

na sociedade moderna, pois "a m e d i d a que ampl ia la esfera dei

trabajo, se reduce la de la risa"; in Los Si gn o s en R o t a c i o n y

Otros E n s a y o s . Madrid: A l i a n z a Ed it o r i a l S.A., 1983, p . 29

l^Cumpre ter em mente que as r e f l e x õ e s de Re ina ch c i r c u n s c r e v e m - s e

ao r i s o ritual, he rd eir o d a q uele ri so dos d e uses de que nos f a ­

la H o m e r o na Ilíada, XIX, portan to, " ve ro l a et it ia e s i g n i s " Cf.

REINACH, Salomon. "Le Rire R i t u a l ” in Cultes, M yt h e s et Reli­

gions, Paris: Ernest Leroux, éditeu r, 1912. p p . 109-120.

*®A t e o r i a de Dugas introduz uma face nova nos es tudos s o b r e o r i ­

so : su a a l i a n ç a com o jogo. E s t e c a r á t e r lúdico do riso (cômico)

é des e n v o l v i d o , mais r ec entemente, por H u i z i n g a in “H o m o Lu-

dens". Cf. DUGAS, L. P s y c h o l o g i e du Rire. Paris, Félix Alcan

Éditeur, 1910.

*9 C f . SULLY, James. Essai Sur le Rire. (trad. d ' a n g l a i s par L. et

A , T e n i e r ),-P aris : Félix Alcari édit e u r , 1904.


66

2®0 a utor dese n v o l v e p a r a l e l a e a r t i c u l a d a m e n t e c o n s i d e r a ç õ e s sobre

o riso e o risível, ambos e n q u a d r a d o s no e s p o n t â n e o (natural) ou

no e s t e r i o t i p a d o (artificial). Distingue, assim, de um lado o r i ­

sível e o riso natural li gado à a l e g r i a e de outro, o risível e o

riso ar tificial ger ado pelo cômico. Nega a fun ção ú n i c a prop o s t a

por Bergson, pois tanto nas s o c i e d a d e s m o d e r n a s q u a n t o nas a n t i ­

gas, o riso é p o l i f u n e i o n a l . Cf. VICTOROFF, David. Le Rire et le

Risible. In tro duction a la P s y c h o - S o c i o l o g i e du Rire. Paris-.

Presses Universitaires de France, 1953.

®*Lalo c o n c e i t u a o riso c o m o um jogo d e s v a l o r a t i v o que se proce s s a

e ntre "du a s . v o z e s d i s s o n a n t e s de ura c o n t r a p o n t o " . Cf'. LALO, C h a r ­

les. E s t h é t i q u e du Rire. Paris: Flamm ari on, 1949.

®2cf. CURTIUS, obra citada, p .436.

2 3 C f. PASCAL, Biaise, obra citada.

S 4 C f. C R O C E , Benedetto. A Poesia, (trad. F l ávio L o u r e i r o Chaves),

Port o Alegre: Ediç õ e s da F a c u l d a d e de F i l o s o f i a da U.F.R.G. S.,

1967, p . 209.

2®A p e r s p e c t i v a de D u p r é e l , com base nas r e l a ç õ e s sociais, separa o

riso de e x c l u s ã o (as forma s do cômico) do riso de a c o l h i d a (as

manifestações da alegria). Nega, t a mbém a fu nção ú n i c a proposta

por Bergson, Infeliz ment e, não t i v e m o s a c e s s o d i r e t o ao autor.

Conhecemos sua te or ia pela r e f e r e n c i a s e e x p l a n a ç õ e s efet u a d a s


67

por V i c t o r o f f . Cf. VI CTOROFF. O b r a citada.

^COHEN, Jean. " C o m i q u e et p o é t i q u e " in P o é t i q u e 61, Paris: Seuil,

fevereiro/1985.
PERFIL DO RISÍVEL

" Q u a n d o C a r i a l e st-Firmou q u e 'o


homem é o único animal *11x12 ri
nato -Fazia com isso uma mera
constatação biológica. Biologi­
c a m e n t e a h i e n a t a m b é m ri . Fa­
zia u m a c o n s t a t a ç r a o p s i c o l ó g i c a
e social . Seu erro era apenas
a d m i t i r o riso c o m o u m a quali­
d a d e h u m a n a , q u a n d o ê u m de-Fei —
to. O h o m e m , da m a n e i r a por que
vive, nao t e m d o q u e ri r. Por
isso, à -Frase d e C a r i a l e , d e v e -
s e a c r e s c e n t a r : £T e r i n d o que
e l e mostra o a n i m a l q u e é ."

fix 1 1or fernandes


Sob re o Risível

0 d i s c u r s o do risível est abe lece , de um lado, minuciosa

r elaç ão de fatur a com a real i d a d e mais banal e com o vu lgar coti­

diano. De outro, institui uma a m b í g u a p o é t i c a de dissonâ ncia *, e x ­

pressa na c o n s t e l a ç ã o de atit u d e s contradi t ó r i a s , aguerridas e cé ­

ticas; na d e s s a c r a l i z a ç ã o de tudo que é abissal na n a t u r e z a h u m a ­

na; no p r o t e s t o d i s t o r c i d o e p r o v o cati vo; na c o n t e s t a ç ã o ferina,

mas oblíqua; e na lin gu agem ora prosai ca, ora poética, m uita vez

vulgar. Identifica-se com um r e a l i s m o ingênuo, mas se envo l v e em

c o mplexas a s s o c i a ç õ e s d i a l é t i c a s ("não d e v e r i a ser" v e rsus "deve­

ria ser"), s e r v i n d o - s e de um c o n j u n t o de s utis p r o c e s s o s retó ric os,

est i l í s t i c o s e lingüísticos.

C omo arte, a n ã o - s e r i e d a d e está p r e s a a da dos h i s t o r i c i s -

tas, sua c o n c e i t u a ç ã o funda-se no t e m p o e no espaço, e fecha- se a

quaisquer definições mesmo as de c a r á t e r g e n e r a l i z a n t e . Contudo,

alguns traço s de seu perfil, na atua l i d a d e , p o d e m aqui ser r e c o n h e ­

cidos sem m a i o r e s a p r o f undamentos. S e r i a n e c e s s á r i o ir bem mais

longe e mais devagar. Por enquanto, cabe a p e r g u n t a : , e m que t e m a s e

em que p r o c e s s o s do fazer ela se r e c o n h e c e na m o d e r nidade?


70

Opta mos pela forma o b l í q u a de resp o n d e r e a p o s t a m o s em

algumas re fle xõ es capazes de a t e nder a es sa pergunta, ma is para

c o n c e i t u a r e menos para definir. Algu m a s c o l o c a ç õ e s se fa zem n e c e s ­

sárias para tra çar ó e s p e c t r o do risível. A p r i m e i r a é a sua l i g a ­

ção intríns eca com a "fea ldade"^, seu e l e m e n t o composicional de

f orma e de conteúdo, e a prima zia, n essa arte, dos "procedimentos

con s t r u t i v o s " , poéticos e ret óric os, em rela ç ã o à imagi naç ão^ . Sua

e s t é t i c a é mais de conteúdo, ape s ar de o c o n t e ú d o só e x i s t i r d e v i d o

à forma^.

A segunda, a sua i n t e n s i f i c a ç ã o no mo dernismo, que m arca

a p r e d i l e ç ã o dos temp os a t u a i s pela n e g a t i v i d a d e , pelo d i s t o r c i d o e

pelo protesto. As razões d e s s a p r e f e r ê n c i a p odem ser busca das , en­

tre outras, no e n f r a q u e c i m e n t o dos c h a m a d o s "gên eros mai ore s", em

espe cial, a tragéd a e a epopéia. E ainda, na c o n v e r g ê n c i a dos e l e ­

m e n t o s da tragé dia e da c o m é d i a que a p a r t i r do R o m a n t i s m o t e n d e m a

se fundir. Mas é inques tio náve l, q u a i s q u e r que s ejam as suas ra­

zões, o diá logo cons t a n t e da m o d e r n i d a d e com a mescla, com o dis­

t o r c i d o e com a dissonância.

Desse enf oq ue em g r a n d e plano, g o s t a r í a m o s de p a r t i c u l a ­

rizar um aspecto: o gosto pela t é c n i c a da negação. A negatividade

e x i s t e pelo seu valor de o p o s i t i v o na obra, para r e j e i t a r a si p r ó ­

pria na busca do positivo^, é como a dissonânc ia, que s e rve para

"denunciar o m undo que o cria"^. Os r e s u l t a d o s d e s s a a c e n t u a d a inj

clinação da e s t é t i c a m o d ern a p e r m i t e m a s u p o s i ç ã o de e f e i t o s p e r i ­

féricos, ou seja, a n e g a t i v i d a d e como v a l o r em si mesmá, sem o o b ­

jetivo de ant ít e s e a que ela serve. Vale, assim, a dúvida, pois se

de um lado a n e g a t i v i d a d e gera p r a z e r r e o riso é d i s t o uma teste-


71

munha, nem s e m p r e c o n f i g u r a - s e em posi tiv o. Esse a m b í g u o pra ze r p o ­

de resolvei—se em si, no p r ó prio riso, não b u s c a n d o a sua antítese,

a m u d a n ç a a que a n e g a t i v i d a d e do risível e do riso se propõem. 0

p r o c e s s o de n e g a ç ã o que d e v eria indi c i a r o positivo, pode ver f r u s ­

trado seu o b j e t i v o ess enci al a t r a v é s de p r o c e d i m e n t o s di fer ent es.

Assim, no c ô m i c o o n e g a t i v o pode r e s o l v e r seu prazer, d e s l o c a n d o o

uso do "erro" para o ag ente da ação r i d í c u l a e nele se esgotar. 0

s atí r i c o c o r r e o risco de e x a u r i r - s e no riso v i r u l e n t o de a t a q u e e

de ti rar o seu praz e r da destruição. No humor, o p r a z e r pode cen­

trar-se, apenas, na p r ó p r i a t é c ni ca da n e g a t i vidade, até p o r q u e a

sua e s s ê n c i a é de d e s e n c a n t o e de c e t i c i s m o em r e l a ç ã o a quai s q u e r

a t i t u d e s re for mistas.

As rápi d a s c o l o c a ç õ e s a c ima e x p o s t a s o b j e t i v a m e v itar uma

idéia errônea, de a s s o c i a r a funç ão do riso a uma d i m e n s ã o p u r a m e n ­

te mo ral izante. é p r e c i s o c o n f e s s a r que a tare f a de s e p a r a ç ã o não é

das mai s fáceis. Contudo, a função é t i c a é mais ampla.

Os Modas e as Ident idades

Já a l o n g a m o s as g e n e r a l i z a ç õ e s em t orn o do perfil da arte

do r i s í v e l . R e s t a e s t a b e l e c e r algu n s p o n t o s de c o n v e r g ê n c i a dos m o ­

dos para, a seguir, determo-n.çs nas dive rgências. As semelhanças

en tre eles são m a n i f e s t a s e c o n stantes , s endo as d i f e r e n ç a s m enos

p r o f u n d a s por i n v o l v e r e m c erta dose de c o n t e x t u a i i z a ç ã o . B a sta l e m ­


72

br ar que a visã o t r i p a r t i d a depende não só da escri tur a, como t a m ­

bé m da leitura. T e r e m o s o p o r t u n i d a d e de v o l t a r ma is adia n t e a falar

sobre as d i f e r e n ç a s e n t r e os modos do risível. No momento, de vemos

cump r i r ainda duas t a r e f a s de destaque: a sua fu nção crí t i c a e a

sua t é c n i c a e x p r e s s i v a de inversão, amba s c o m u n s às trê s variantes.

Va le lemb rar que a e s t é t i c a da d i s s o n â n c i a na m o d e r n i d a d e "erige -se

em pro tes to" ^, diluindo-se, assim, a função moralizante.

Mas a arte do risível tem c o m p r o m i s s o s a s a l d a r e v e r d a ­

des a defender. Não é, abso lut amen te, d e s i n t e r e s s a d a , até porque "a

ideologia e a v e r d a d e da arte não se c o m p o r t a m e n t r e si como o cão

e o gato"®.

Em todas as suas m a n i f e s t a ç õ e s (modos e formas), ela

e x i s t e em função de o u t r a coisa além de si mesma, c o m o signo de c i ­

sã o e c a n t o de p r o t e s t o a ser c a n t a d o em c o n j u n t o (esc r i t u r a e lei­

tura) discurso de e m p e n h a m e n t o e c á l c u l o com rumo demar cad o, que

busca reaç õ e s p r é - d e t e r m i n a d a s em seus des t i n a t á r i o s , im plicando

intenção t á tica e u s o social. Em a l g um as de su as es pécies, há o

combate e x p r e s s o (modo e formas do satírico); em o u t r a s (as formas

do cômico), a urge n t e n e c e s s i d a d e de e v i d e n c i a r o e r r o pelo n e g a t i ­

vo; e, ainda, aque l a s (o h u mor e suas v a r iantes) que levam à r e f l e ­

xão s o b r e os erros em ve z de seu combate, p r o d u z i n d o m e l h o r e s re­

s u l t a d o s com menor preg açã o.

A e s s ê n c i a d e s s a arte é a ativ i d a d e c r í t i c a e n t e n d i d a no

seu s e n t i d o mais a m p l o de c o n s c i e n t i z a r e de modificair. A p esa r de

seu e f e i t o social ser indireto, ela c o n t r i b u i - a t r a v é s de proc e s s o s

subterrâneos para a t r a n s f o r m a ç ã o da soci eda de. E s s a feiçã o c r í t i ­

ca, esse enga jame nto , não n e c e s s i t a ser, o b r i g a t o r i a m e n t e , políti­


73

co. Mas em todas as suas m a n i f e s t a ç õ e s (o cômico, o s a t í r i c o e o

humor) configura-se como d i s c u r s o de poder. 0 desejo de "modifi­

car", o " c o m p o r t a m e n t o didático", o "a taque viru l e n t o " e a "cons­

c i ê ncia crít i c a " são indíci os de auto rid ade. Na arte do risível, a

m a n i p u l a ç ã o do o u v i n t e / l e i t o r e v i d e n c i a - s e na c o n d u ç ã o do pacto, na

identificação de p r o j e t o s e p r o p ó s i t o s entre narr a d o r e ouvinte.

Das v a r iantes, o s a t í r i c o é o d i s c u r s o mais fo rtemente mo nológic o,

mais ce ntrípeto, mais p r ó x i m o do p o der e, conseqü e n t e m e n t e , mais

f o r t e m e n t e indutor. A s e g u n d a e s f e r a é a do cômico, onde o d i s c u r s o

de p oder se dilui na p o s t u r a de d i s t a n c i a m e n t o e na a u s ê n c i a da voz

nar rati va. Mais a f a s t a d o está o "humor", no qual a p e r s u a s ã o é mais

d i l uída e o d i s c u r s o mais c o n t a m i n a d o pelo ceticismo. Daí ser' a

forma p r i v i l e g i a d a pela modernidade, como ve rem os mais adiante.

Mas toda obr a de arte a p r e s e n t a dois estrato s de se ntido.

0 s e n t i d o d e c l a r a d o pela fala; e o outro, o s e n tid o o c u l t o do si­

lêncio. Na arte do risível, este s e n t i d o n ã o - d e c 1 arado já se e n c o n ­

tra fortemente i ndiciado pela inversão: o que se d e s e j a obter é

aq uilo que não se diz e d e s e j a - s e re je i t a r aquilo que se diz. Ela

trabalha como uma t a p e ç a r i a que se tece pelo anverso, um t e x t o que

se lê "à so mb ra das linhas". 0 t e x t o p r o d u z i d o s u b s c r e v e rio s i l ê n ­

cio o seu d e sejo e "cria" um u n i v e r s o que ele mes mo repele. São

textos ambíguos, pois, além de d o c u m e n t a r o que M i l l ô r chama da

" i n v i a b i l i d a d e do ser humano", d e i x a m e n t r e v e r um a n s e i o de p e r f e i ­

ção e u m a " n o stalgia do que foi, mas já não é"?. Eles são c o n s t r u í ­

dos m o s t r a n d o o que "não d e v e r i a ser", num p r o c e d i m e n t o r e t ó r i c o de

dupla instrução: "busq ue" aí, no texto, o seu anverso, que jaz no

s ilê n c i o e "compare" as du as a t u a ç õ e s ou situações. Esse c o m p o r t a -


74

mento do d i s c u r s o textual pode ter o seu m e c a n i s m o refo r ç a d o pela

ilus t r a ç ã o co m o d e s e n h o caricatural, p r e s e n t e s em alg uns livros

de Millôr. Um dos p r o b l e m a s que tem e n f r e n t a d o essa tát ica do in ­

v ers o pelo v e r s o é que ela não e n c obre a sua r e t ó r i c a de a u t o r i d a ­

de. A d ú vida qu® s u b j a z diante dessa t é c n i c a de inversã o órig i n a - s e

na sua d u p l i c idade: ou firma um c o m p r o m i s s o com o novo ou mascara

uma at itude c onservado ra. 0 outro p e r i g o d e s s e d i s c u r s o é o seu c a ­

rá ter c o n c l u s i v o que não se abre ao i n t e r r o g a t i v o , pois nele se d e ­

s enha uma p r o b l e m á t i c a que já vem julgada.

Assim, o risco dessa técnica de inve r s ã o é pois de mão

dupla. De um lado ela institui e c o n f i g u r a um c o m p o r t a m e n t o à som­

bra das linhas com di sc ursos de não t o l e r â n c i a que subordinam a

d i f e r e n ç a à identi dade . De outro, sofr e o r i s c o do desvio, de e x a u ­

ri»—se no a p r e s e n t a d o e, deste modo, c a s t r a r - s e o d e sejo ou frus­

trar—se o p r o j e t o de denúncia.

0 c a r á t e r corr e t i v o do risível t e n d e a dilui*—se no final

d este século, q u ando se re conhece a c o m p l e x i d a d e do m undo e a r e l a ­

tivi d a d e das verdade s, quando um p e s s i m i s m o p r o f u n d o par ece d i s s o l ­

ver todas as es peranças. A m o d e r n i d a d e a r r a s t a c o n s i g o uma n e c e s s i ­

dade profunda de d e s m i s t i f i c a r e de incl u i r o plurali smo . Em sua

e s s ê n c i a es sa arte tend e a d e s l o c a r - s e m a i s p a r a a h a r m o n i a do p r o ­

test o e da den ún cia, atenu and o a i n t e n s i d a d e do ímpeto corretivo.

Assim, a t é c n i c a da inversão, a força d i a l é t i c a do m u ndo às aves s a s

e o d i s c u r s o de a u t o r i d a d e te ndem a d i m i n u i r no c ô m i c o e no "h u ­

mor", a favor da p e r m a n ê n c i a no satí rico. T a l v e z a forma co rreta de

a p r e s e n t a r o p r o b l e m a fosse apont ar a c o n v e r g ê n c i a dos três discur

sos no "hu mo ri smo" . A estét ica da p ó s - m o d e r n i d a d e obedece à idéia


da c i r c u l ari dad e da d i a l é t i c a de ruptu ra e r e c o n c i 1 i a ç ã o . Daí o e m ­

p rego da figura geo m étrica, ( p rocedimen to que a d o t a m o s no c a p í t u l o

"As P r i m e i r a s Palavras", do s e m i - c í r c u l o inferior p a r a r e p r e s e n t a r

o universo da n ã o - s e r i e d a d e por nos pa recer adeq uada, fundindo a

arte séri a (sem i - c í r c u l o su perior) à não séria, à m e d i d a que, a p e ­

sar de antagônicas, a p r e s e n t a m band e i r a s comuns.

0 "humor", e n t r e as três m a n i f e s t a ç õ e s da n ã o - s e r i e d a d e ,

casa - s e melhor com a a t m o s f e r a de d e s e n c a n t o e x i s t e n c i a l d o m i n a n t e

na atualidade. 0 "h umor" e o humorismo, a n u n c i a m o e n f r a q u e c i m e n t o

de uma c o n c e p ç ã o c l a r a e d e f i n i t i v a do mundo social e g e r a m um a a t ­

mosfera fluída, i m p r ó p r i a à idéia de correção. Inclinam-se a redu­

zir o ímpeto r e f o r m i s t a e libert ári o, e a in ves t ir sua e n e r g i a numa

ironia defe n s i v a a par da r e f l e x ã o sobre a c o n d i ç ã o humana. 0 satí­

rico dilui- se no h u m o r i s m o s a r c á s t i c o d e n u n c i a n d o o a b u s o do poder

p o l í t i c o e i d eologia s o p r e s s o r a s do homem. 0 c ô m i c o c o n c e n t r a - s e na

c r í t i c a à c o n duta social, c o n f i g u r a n d o - s e o modo de m a i o r diluiçã o,

pois cede ao "novo hu mor" um e s p a ç o cada vez maior.

Chegam os agora ao cern e da questão-, na c o n f o r m a ç ã o dos

mo dos do risível não p r e v a l e c e nem o pólo das c a r a c t e r í s t i c a s a n a ­

lógicas, nem o pólo das d i f e r e n c i a ç õ e s . 0 que p r e d o m i n a é o e q u i l í ­

brio - apes ar de ser, às vezes, um e q u i l í b r i o t e n s o que o s c i l a e n ­

tre o seme l h a n t e e o di f e r e n t e .
76

Os Modos e as A l teridades

A p a r t i r dos ele ment os que o r g a n i z a m o "-fundo comum" dos

três modos, v a m o s b u scar os traços d i s t i n t i v o s ca p azes de p a r t i c u ­

larizar a " f i g u r a ” da s var ian tes do risível.

Esses elementos o r i g i n a m - s e de a t i v i d a d e s tex tuais vá­

rias: a sem iótica, e n tendida em sua a c e p ç ã o de emissão, c o n d u ç ã o e

recepção de um c o n teúdo*®; a retórica, e n v o l v e n d o as rela çõe s entre

o escritor, o l e itor e o texto; e a poét ic a, na c o n s t r u ç ã o de ■for­

mas** e d i s c u r s o s do risível. Em o u t r a s p ala vras, os modos se d i f e ­

r e n ciam pela o r g a n i z a ç ã o de estrutura, c o n t e ú d o e té cnica d i s c u r s i ­

va. Contudo, o r e c o r t e de cada modo não te m c a r á t e r de pontuação

final, pois a p e r m e a b i l i d a d e en tre eles d i f i c u l t a a d e f i n i ç ã o e nos

obriga a a m p l i a r as explicações.

0 que d i s t i n g u e e sepa ra os m o d o s ? S e r i a o riso, que s e m ­

pre a c o m p a n h o u o h o m e m nos seus m o m e n t o s m a i s graves, o p onto capaz

de op era r a d i f e r e n ç a ? Ou ela repo u s a na d i s t â n c i a ma ior ou menor

entre o text o e os seus a ge nt es de p r o d u ç ã o e de r e p r o d u ç ã o ? Ou s e ­

ria a i n t e n c i o n a l i d a d e da escritura, c o n f i r m a d a pela leitura, a

função d i s t i n t i v a ? A mane i r a de dar fo rma ao c o n t e ú d o funda a es­

sê nci a de cada um de les? Para c a r a c t e r i z á - l o s seria suficiente

atribuir-lhes conteúdo d i f e r e n c i a d o ? Há r e c u r s o s d i s c u r s i v o s que

lhes são p r ó p r i o s ? Essa estr a t é g i a de c o l o c a r a qu estão sob a forma

interrogativa a p r e s e n t a a v a n t a g e m de, a t r a v é s das dúvidas, v i s u a ­

li zarmos a p r o f u n d i d a d e do problema, pois as d i f e r e n ç a s não apre­

se nta m c a r á t e r opos i t i v o , mas de composição.


77

Assim, a cli va g e m a que v a m o s subm e t e r a obra de Millôr

Fernandes funda- se em p r e c e i t o s de c a r á t e r op eracional pois, con­

forme a n o s s a metodologia, cada um dos mod os se e s t r u t u r a ■


numa a s ­

sociação d e sses elementos, o r g a n i z a d o s numa grade de p r e d o m i n â n c i a

e não de dominân cia. Ess as marc a s d i s t i n t i v a s p a r t i c i p a m do s e n t i d o

( com unic a ç ã o ) , da subs t â n c i a de s i g n i f i c a ç ã o (conteúdo) e das c a t e ­

gorias de forma e discurso. E o perfil de cada modo se a n c o r a na

f e ição p r ó p r i a de o rga n i z a r os e l e m e n t o s de ide nti dade e os de al-

teri dad e, ca pazes de conf i gurarem, r e t ó r i c a e poetica men te, os m o ­

d e l o s de lei tur a do cômico, do s a t í r i c o e do "humor".

Os traços d i f e r e n c i a d o r e s formam dois conjuntos, um de

representação quat e r n á r i a e o u t r o ternária. No primeiro, os d i fe-

renciadores são s i s t e m a t i z a d o s p o r o u t r o s subconjuntos. Um o r g a n i ­

zado p e l a s mút uas rela ções de e s critor, leitor e texto (a i n t e n c i o ­

nal idade, o pac to e o d i s t a n c i a e n t o ) ; o outro, pela s u b s t â n c i a de

significação (os p r o c e s s o s r e t ó r i c o s e os c onteúdos te mát icos); o

segui nte , p e l o s recu r s o s de e n f o rmação; e, o último, p elos p r o c e d i ­

m e n t o s dis cursivos. 0 s e g u n d o c o n j u n t o c o n f i g u r a - s e pela r e p e t ê n c i a

do s elementos ac ima n o m i n a d o s e p e l a a u s ê n c i a de forma m a t r i z ou

substantiva do c ô mico c do sa tírico, a co mé dia no p r i m e i r o e a s á ­

t ira no último.

Pr elimi n a r m e n t e , c u m p r e r e s s a l t a r que o modo, ao t r a d u z i r

um " c o n h e c i m e n t o do mundo", e n v o l v e a e s t r a t é g i a de sua m u d a n ç a e

p r e s s u p õ e uma intenção. Essa i n t e n c i o n a l i d a d e res ult a do a r r a n j o de

a tit udes, c o n t e ú d o s e formas, e x p r e s s a d o s em atos de linguagem. Pa­

ra evitar possíveis mal-entendidos, s a l i e n t a m o s que a "intenção”

deve ser c o m p r e e n d i d a aqui c o m o u m a s u b j e t i v i d a d e o b j e t i v a d a pel o


78

discurso, referi da no t e x t o e seu paratexto. Em cons e q ü ê n c i a , cada

um dos mo do s m a nifesta uma m a n e i r a desigual de ver o m undo e de m o ­

difi cá- lo. Assim, a p a r t i c u l a r i d a d e modal eixa-se, pri mei ro, na in­

te nci onalidade, que se im bri ca à " d i s posição me ntal" de A ndré Jol-

les*2, ou mesmo ao "ritmo" de S u s a n n e K. I_anger*3.

0 cômic o re vela os e r r o s e as fraquez as humanas, ao m e s ­

mo tempo que bu sca um e q u i l í b r i o social. Nele está incrustado o

“élan v i t a l “*4 , o s e n t i m e n t o de jov i a l i d a d e pe lo qual o conflito

com o m un do tende a ser superado.

No satírico, a i n t e n c i o n a l i d a d e vem s i n a l i z a d a na " e x p o ­

sição n e g a t i v a de um n e g a t ivo"*®. 0 p r o c e s s o se a d ensa na sátira,

cu jo ata que di reto cir c u n s c r e v e , espacial e t e m p o r a l m e n t e , o fato,'

e iden t i f i c a o s u j eito satirizad o. 0 riso s a r c á s t i c o sustenta a

c u m p l i c i d a d e de e s c r i t u r a e leitura no r e c o n h e c i m e n t o da invectiva.

É cer to que os três m o d o s se reve s t e m de uma i n t e n c i o n a ­

lid ade agressiva. No satí rico, esse instinto dilacera-se entre

"eros" e "tanato", e ntre o im puls o de vida p r e s e n t e no ri sível e o

instinto de destruição. Mas, no cômico, o ins tin to a g r e s s i v o é a t e ­

nuado p ela v i t a l i d a d e a t í p i c a d e s t e modo. E, no "humor", o ata que

se fragmenta, perde seu ímpeto, ao d e s v i a r - s e na t o l e r â n c i a pelo

"d iferente".

Os mo dos t a mbém e s t a b e l e c e m um elo d i a l é t i c o e n t r e o "eu"

( e s c r i tor/ leitor) e o "o utro" (texto), pelo qual os s u j e i t o s r e p e ­

lem o u n i v e r s o cr iado pela e s c r i t u r a / l e i t u r a . Tal r e l a ç ã o d i v e r s i ­

f ica- se s e g u n d o a maior òu m enor d i s t â n c i a o r d e n a d a e n t r e os s u j e i ­

tos e o texto. A d i s t â n c i a maio r firma o cômico, e a r u p t u r a desse

afastamento faz s u rgir o s a t í r i c o e o "humor". 0 ódio a p r o x i m a o


79

s a t í r i c o e a to le r â n c i a o humor.

0 cô mico em Mill ôr F e r n a n d e s gera um d e s c o m p a s s o e n t r e o

"ego s c r i p t o r " e o cont e ú d o textual, d a n d o cau sa ao d i s t a n c i a m e n t o

que se a p r o x i m a ao "desprezo" a r i s t o téli co, à "insensibilidade"

b e r g o n i a n a ou à “superio r i d a d e " de H o b b e s .

Es se dist anc iam ent o, que imp rim e ao texto um c a r á t e r de

al t eridade, . rea l i z a - s e melh or no dra mático , cuj as -formas, a comé­

dia, a -Farsa e variantes, são m a r c a d a s pela ausê n c i a do n arrado r.

Em c o n t r a p a r t i d a , o d i s t a n c i a m e n t o nas formas n a r r a t i v a s d e f i n e - s e

pela presença de um n a r r a d o r - p e r s o n a g e m . Em "Conpozissõis Imfã-

tis"i6, "esc r i t a s sem pres sa e sem press ões" , Mi llôr cria a m á s c a r a

do n a r r a d o r infantil, d e s i n i b i d o e d e s c o n d i c i o n a d o , como se esti­

vesse " o b s e r v a n d o pela primeira vez" a si mesmo e ao mundo. 0 c o n ­

t eúd o i n e s p e r a d o dos p r o c e d i m e n t o s n a r r a t i v o s diversos (defi niç ões ,

observações e p e r g u n t i n h a s > causa no leitor o efe ito de e s t r a n h a ­

mento c a p a z de suscitar o riso. T a m b é m c o n s t a t a - s e a c r i a ç ã o de um

narrador—pe rso nag em, agora mais p r ó x i m o do escritor, em " L i ç õ e s de

Um Ignorante"U , cujas n a r r a t i v a s sã o de amplo e s p e c t r o e de ex­

p r e s s ã o v a r i a d a (conceitos, n a r r a t i v a pa rod ísti ca, bi ogr afi as, crô­

nicas, notas, conselhos, i m p ressões e confissão ). 0 " i g n o r a n t e " que

dá lições, o faz num p r o c e s s o de i n v e r s ã o de forma e conteúdo, evi­

denciando na crôn i c a "Ser Gagá" que p a r o d i a a c r ô ni ca "Ser Broti­

nho" de P a u l o M e nd es Campos: “Ser g a g á é fogo. Ou melhor, é m ui to

frio"*®. Ou ai nda na história "0 F i l h o P r o d í g i o ” em que se c o n s t a ­

ta, de -início no título, o c r u z a m e n t o de do is clichês: "Filho P r ó ­

digo" e "Me ni no Prodígio". Um m u n d o às a v e s s a s ta mbém é c o n c r e t i z a ­

do nas falas do filho que c o r r e s p o n d e m às do padr ão paterno. "Se


80

e r rava di zia ao pai: - Na ve r dade não sei o que está acontecendo

com os meninos da m i n h a idade. No seu t empo nã o era assim.

0 satírico em M i llôr a p r o f u n d a a repu l s a do "eu" com o

"outro" s a t i r i z a d o e p r o d u z uma a m b í g u a r e l a ç ã o de d i s t anciamento,

rompida pelo riso s a r c á s t i c o que a p r o x i m a para "ver melhor" e t o r ­

nar mais e f ic az o a t aque f r o n t a l . Esse é o " ri so c apaz de m a tar às

c l aras - matar m o r a l m e n t e " de que fala M o n t e i r o L o b a t o ao tra çar o

h i s t ó r i c o da c a r i c a t u r a no Brasil^®. é o que a c o n t e c e no "Di ário da

Nova República"21, uma c o l e t â n e a em três volumes, da p r o d u ç ã o de

M i l l ô r no Jornal do Brasil durante um p e r í o d o p a r t i c u l a r m e n t e tens o

da vid a p o l í t i c a brasileira, de 01/02/85 a 20/05/88. Por exemplo,

em " A n o t a s s õ e s " , de 18/01/87: "Enquanto t r a ç a d i a t r i b e s terríveis

'ao pé do rádio', na sua sintaxe i n t e n s a m e n t e peculiar, vosso pre­

si den te c o n t i n u a d i s t r i b u i n d o cana i s de t e l e v i s ã o para a m i g o s e s ó ­

cios, isto é, mais t e v ê s p i r a t a s " 2 2

Já o "hum or" cria um d i s t a n c i a m e n t o a m b i v a l e n t e motiva do,

ora pela e m p a t i a que a p r o x i m a o ag en te do riso ao o b j e t o risível,

ora p elo c e t i c i s m o c a paz de c a usar o est r a n h a m e n t o . " R e f l e x õ e s Sem

Dor"23 é uma c o l e t â n e a de aforismos, forma c o n c i s a de e x p r e s s a r a d ­

vertência, que ve m s endo u sad a desde a a n t i g ü i d a d e c l á s s i c a na sua

di m e n s ã o de l i t e r a t u r a séria. 0 seu uso como arma para r i d i c u l a r i ­

zar foi i n t r o d u z i d o por Swift e Voltaire. Em " R e f l e x õ e s Sem Dor",

os a forismos o s c i l a m entr e o " h u m o r ” e o sat írico, no c o n s t a n t e uso

da paró d i a e da aut o - i r o n i a : "Eu só não sou o h o m e m mais b r i l h a n t e

do m und o porque n i n g u é m me p e r g u n t a as r e s p o s t a s que eu s e i . "24 Em

"Hai-kais"2^, o e s t r a n h a m e n t o é c a u s a d o f r e q ü e n t e m e n t e pela inve»

são irônica: "Enfim, no meu c a m i n h o r / U m a e s t á t u a e q ü e s t r e / c o m o he-


rói sozinh o" ®^.

A modernidade, ao v a l o r i z a r o in di víduo e o cotidiano,

faz de ambos o conteúdo p r i v i l e g i a d o da obra de arte, em p a r t i c u l a r

a do risível. A arte ociden tal , dos g r e s o s aos no ssos dias vem se

processando na dire ç ã o do i n d i v í d u o e de suas c i r c u n s t â n c i a s numa

tragetória dessacralizante de seres, ações e temas s u p e r i o r e s em

d i r e ç ã o ao inferior, ao c o t i d i a n o e ao banal.

0 cont e ú d o o c u p a em cada modo uma p o s i ç ã o estra tég ica ,

pois, de um lado, como " s u b s t â n c i a t e m á t i c a " ele não se e s g o t a t o ­

talmente nu m modo p o d e n d o ser r e t o m a d o no outro. Contudo, p e r s i s t e

a sua c a r a c t e r í s t i c a de e l e m e n t o d i f e r e n c i a d o r .

&
0 satí r i c o em M i l l ô r a p r e s e n t a um a linha t e m á t i c a mais

voltada para a d o c u m e n t a ç ã o social, o s c i l a n d o do p o l í t i c o ao(ônti-y

D i v e r s a m e n t e da c o m é d i a c l á s s i c a que investia no r i d í c u l o

das personagens c a r a c t e r i z a d o r a s de um vício, o c ô mico de Mill ô r

a m p l i a o â m bito da d e n ú n c i a f a z endo i n c i d i - l a sobre as m a z e l a s s o ­

ciais deformadoras do homem. Não há na g a l e r i a c ômi c a milloriana

p e r s o n a g e n s que gr av i t a m em torn o de um vício. To das elas têm o s e u

r i d í c u l o o r i u n d o de fatos s o c i a i s .

Já os temas r e l a c i o n a d o s com a c o n d i ç ã o h u mana e seus a n ­

s e i o s de l i berdade são c a r a c t e r í s t i c o s do "humor", que é o mais m e ­

tafísico dos modos do risível: "é meu c o n f o r t o , / D a vida só me ti-


ram/morto"27

M e s m o com 1 inhas t e m á t i c a s diferentes, a substância cons­

titutiva das três m á s c a r a s do ri sível e x p r i m e o d e s a c o r d o do homem

com o m u n d o .
82.

0 modo designa, ao mesm o tempo, o c o n t e ú d o e a m a n e i r a de

organizá-lo que pode se revestir de formas variadas. Daí a fo rma

não ser subs t a n c i a l aos modos, mas acidental. A sua c o n f i g u r a ç ã o se

e f etua na m a n e i r a c a l e i d o s c ó p ica de orqu e s t r a r o tento, um c o n t e ú d o

que se f r a g m e n t a e se enforma, d i v e r s i f i c a d o no t r í p l i c e a s p e c t o do

risível.

Do c ô mico nasc e "formas" mais definidas, a comédia e a

farsa, além de o u t r a s como a c r ô n i c a e a paródia. A p r i m e i r a fase

da obra d r a m á t i c a de Mill ô r d i s t i n g u e - s e pela p r e s e n ç a de c o m é d i a s

e farsas: " P i g m a l e o a " 2 8 ( "D0 T a m a n h o de Um D e f u n t o " ^ ? e "Um E l e f a n ­

te no Caos"3®.

J á o s a t í r i c o se m a n i f e s t a na sua forma s u b s t a n t i v a , a

sátira, que, por sua vez se expressa, ora em verso, ora em prosa,

como acontece em " D i ário da Nova República", e s o m ente prosa em

"Que País é Este?"31, "To do Homem é M i n h a Ca ça"32 0 c a m p o do s a t í ­

rico a l a r g a - s e para incl uir tamb é m fábulas, crônicas e e p i gramas.

Bas ta le mbrar a s érie de fábulas: " F á b u l a s F a b u l o s a s " ^ , " N ovas F á ­

bula s F a b u l o s a s " 3 4 e "Eros Uma Vez"3®.

0 "hu mor" r e c o n h e c i d a m e n t e não possui forma esp e c í f i c a ,

mas se a p r e s e n t a em M i l l ô r F e r n a n d e s s o b r e t u d o at rav és de m ú l t i p l a s

for mas m e n o r e s como af orismos, m á x i m a s e poema s curtos. “P a p á v e r u m

M i l l ô r " 3 6 é uma c o l e t â n e a de p r o c e d i m e n t o s poéticos diverso s, e ntre

os quais encontramos o poema-piada "Tudo que eu digo, acred ite ,

/T eri a mais solidez/ Se, em vez de c a r i o q u i n h a , / E u fosse um v elh o

c h i n i s ”37. " R e f l e x õ e s Sem Dor" é s e r v i d o por uma i n s t r u m e n t a l i d a d e

verbal ousada e ágil e um c e rto " h u m o r ” i n g l ê s ."Todos os homens

nascem iguais, mais a m a i o r p arte d i m i n u i com o tempo"38. O u : "Meu


83

pai nas c eu na Espanha, m inha mie na Itália e eu no Rio. Na verdade,

nem sei como c o n s e g u i m o s nos e n c o n t r a r "39.

Os p r o c e d i m e n t o s d i s c u r s i v o s são quase, idênt icos nos três

modos. C o n s u b s t a n c i a - s e através da ironia, par ódi a, intertextuali-

dade, intratextuai idade e contextuai i d a d e .

0 uso da ironi a como e s t r a t é g i a d i s c u r s i v a do r

cing e - s e a uma a n t i g a tradição que remo n t a aos gregos. "0 último

r e f úgio do o p r i m i d o é a ironia e n e n h u m tirano, por mais violento

que seja, es cap a a ela. 0 tiran o pode e v itar uma fotografia. Não

pode i mp ed ir uma car ica tura . A m o r d a ç a a u m e n t a a mordacidade "^®.

Ela e s t a b e l e c e um c o m p l e x o jogo de h eterogêneos, s e para e inver te o

ideal e o desej a d o d a q u i l o que a s o c i e d a d e apresenta.

A int er text uai idade ou inserção de d i s c u r s o s d i v e r s o s na

composição de um t exto é uma m a n o b r a r e t ó r i c a que Millôr e m p re ga

i n d i s c r i m i n a d a m e n t e nos três modos em p r o c e d i m e n t o s variados-, a c i ­

tação, o pastiche, a paródia, a r ef er ênc ia. A t í tulo de ilustração,

encaminhamos a citação de S h a k e s p e a r e , na charge publicada em

24/04/85, três dias após a mort e de Tancredo-. "Se é agora, nã o vai

ser depois; se nã o for depois, se rá agora; se for agora, será a

qualqu er h o r a ”^^.

A a u t o - i r o n i a tamb ém se faz p r e s e n t e nos textos de Mi 1 -

lôr. Nel es o n a r r a d o r d e s e m p e n h a d u p l o papel, p r o t a g o n i s t a e ant a-

gonista, de Prom e t e u e do abutre: "Não c o n h e ç o n i n g u é m que, como

eu, te nha tanta n o ç ã o de ser um h o m e m medíocre. 0 que, de sde logo,

me to rna um home m e x t r a o r d i n á r i o ”^ ; "Millôr, nã o e ntendes nada,

/Diz, e repe t e , / a bada lada"^^; "Vou já p a s s a n d o do meio da viaa e

de r ep en te descubro, assustado, que a i nda e s t o u em P i r a p o r a " ^ .


8A

A imitação z o m b e t e i r a em sua d i m e n s ã o de p a r ó d i a é de

longa data, out ra p r o v o c a ç ã o t í pica do satírico. Todo t e x t o l i t e ­

rário tem semp re um lado de imitação paródica. Os t emas bíblico s,

em p a r t i c u l a r a g ê n e s e bíblica, são a p r o p r i a ç õ e s p a r ó d i c a s cons­

t a n t e s na obra de M i llôr Fer nan des. P u b l i c a d o em m a i o de 1963 em "0

Cruzei ro" , a p a r ó d i a "Esta é a V e r d a d e i r a H i s t ó r i a do P a r a í s o " c a u ­

sou ao autor uma série de diss abo res . Ele relata, de forma s a r c á s ­

tica no p r ó l o g o do livro h o m ô n i m o p u b l i c a d o em 1972, e sses d i s s a b o ­

res, c o n c l u i n d o que: "De lá pra cá mu dou o Natal, mudei eu, m u d o u a

I g r e j a " 4 ® Tamb é m em " P a p á v e r u m Mil lôr" e n c o n t r a m o s a i n t e r t e x t u a -

1 idade bí bl i c a por e x e m p l o no a p r o v e i t a m e n t o das t r í a d e s 4^. P orém

os p r o c e d i m e n t o s d i s c u r s i v o s de intratextuai idade e de c o n t e x t u a l i -

dade s erão e n f o c a d o s na u n i d a d e "As últimas Pal avras".

A leitura que p r e t e n d e m o s d e s e n v o l v e r nos c a p í t u l o s se­

guintes não é uma c o m p r o v a ç ã o da teor ia pois foram as primeiras

l e i t u r a s dos t e xtos m i l l o r i a n o s que p o s s i b i l i t a r a m p e r c e b e r as três

espécies do risível. A p a r t i r daí foi c o n s t r u í d a uma t e o r i a capaz

de instrumentalizar a le itu ra crítica. Portanto, não nos move a

preocupação de a v a l i a r a teoria, mas usá -la para fazer surgi r, a

partir da i l u m i n a ç ã o teórica, o cômico, o s a t í r i c o e o “h u m o r " em

Millôr Fernandes. V a m o s t e n t a r uma a ç ã o - l e i t u r a de configuração

dialógica entre t e or ia e t e x t o e vice-versa. Eis a r a z ã o p e l a qual

a v i v ê n c i a da a t i v i d a d e a que vam os proc e d e r não p o d e se r u m a e x e m ­

p l i f i c a ç ã o s i s t e m a t i z a d a da teoria, mas apenas uma p o s s i b i l i d a d e de

e m b a s a r a visã o t r í p l i c e do ri sível em Millôr.

0 reco r t e textual será amplo, de m a n eira a p e r m i t i r a in­

clusão de um n ú m e r o m a i o r de t e x t o s no univ e r s o de c a d a e s p é c i e do
85

risível. A s s i m a leitura s e ,faz por um d u p l o procedimento. Prelimi­

narmente, por um pro ces so de s e l e ç ã o dos text os exemplares, que

a c u m u l a m um n ú m e r o maior de e l e m e n t o s i d e n t i f i c a d o r e s de um modo, e

dos text o s per iféricos, que e s t a b e l e c e m r e l a ç õ e s com os o u t r o s m o ­

dos. E, a seguir, por um d i á l o g o e n t r e os e l e m e n t o s t eóri cos e t e x ­

tos, os de e s s ê n c i a e os h í b r i d o s que a leitura col oco u à m a r g e m do

n ú c l e o modal.

A nossa m e t odologia tra bal ha, dedutiva e indut ivam ent e,

da t e o r i a para o obj et o da p e s q u i s a e d e s t e par a aquela. Mas esse

m o v i m e n t o vai pe rmitir uma m a r g e m de cr iação. Nes se proc e s s o de d e ­

comp o r o c o r p u s e recompô-lo, o que e q u i v a l e dize r que as a t i v i d a ­

des de a g e n c i a m e n t o dos e l e m e n t o s t e ó r i c o s não irá escravizar a

a ç ã o - l eitura, que fará, também, um t r a ç a d o ma is largo e sem as m i ­

n ú c i a s c o m p r a b a t ó r i a s . A te or ia e o m é t o d o de leitura serão fios de

c o n d u ç ã o subjace nte .

A o p ç ã o foi p r i v i l e g i a r no cômic o, prime ira men te, as suas

formas s u b s t a ntivas, a co média e a farsa, c o m o r e p r e s e n t a t i v a s d e s ­

se modo: “Do T a m a n h o de Um Defundo ", “P i g m a l e o a ”, “Um E l e f a n t e no

C a o s “. Idên t i c o p r o c e d i m e n t o foi e f e t u a d o em rel açã o ao sa tírico,

com o e n f o q u e das "crônicas" s a t í r i c a s dos três volu mes do " D i á r i o

da Nova Re p ública", da m i s c e l â n e a te xtua l dos livros "Que Paí s é

Este?", " Todo H o m e m á Minha Caça". Por último, no "humor", por di-

lui r-s e em um n ú m e r o muito g r a n d e de f o r m a s b r e v e s e de impacto,

op t amos p e l o s Hai- k a i s do livro h o mônimo, os a f o r i s m o s dàs " R e f l e ­

xões se m D o r " .

Paralelamente a este p r o c e d i m e n t o de incidir a lei tura

dos t e x t o s r e p r e sentativos , vamos, secundariamente, ler os text o s


86

de 1 i m i n a r i d a d e que se c o l o c a m na s p e r i f e r i a s de c a d a m o d o em d i r e ­

ç ã o do outro. No cômico, v a m o s nos d e t e r em a l g u n s a s p e c t o s de m e s ­

cla nos li vros " C o n p o z i s s õ i s Imfã tis" e "Liç õ e s de Um Ig nor ant e", o

primeiro t e n d e n d o ao humor, e o s e g u n d o ao satírico . Na periferia

do m o d o sa tírico, iremos p r i v i l e g i a r as f á b u l a s co m suas t e n d ê n c i a s

ao "humor", s o b r e t u d o as p r i m e i r a s " F á b u l a s F a b u l o s a s " , "N ovas F á ­

b u l a s F a b u l o s a s " e "Eros Uma Vez". I d ê n t i c o foi o n o s s o p r o c e d e r no

"humor", com o " L ivro V e r m e l h o do P e n s a m e n t o de Millôr ", na p a r ó d i a

"A V e r d a d e i r a H i s t ó r i a do P a r a í s o " e as v a r i e d a d e s p o é t i c a s do "Pa-

p á v e r u m M i l l ô r ”.
87

N OTA S DIVE R S A S

*A n oç ão de d i s s o n â n c i a é tomada aqui na p e r s p e c t i v a de Adorno, c o ­

mo o "termo t é c n i c o p a r a a recepção a t r a v é s da arte d a q u i l o que

tanto a e s t é t i c a como a ingenuidade c h amam "-feio". ADORNO, The odo r

W. Te oria E s t é t i c a Trad. Artu r Morão, Lisboa: E d i ç õ e s 70, 1982,

P .6 0 .

^Tal v e z seja aqui o m o m e n t o de e s t a b e l e c e r a significação deste

"feio" a r i s t o t é l i c o na sua i dentificação com o "ridículo e o bai­

xo", que dão prazer, de C í cero e Quinti lian o; com a " d e g r adação"

de Hobbes; com o " i l ó g i c o " de K a n t ; com a " i n c o n g r u ê n c i a " de ScKo-

penhauer; com o " m e c â n i c o " de Bergsonj e a i n d a com a " d i s s o n â n c i a ”

da mo dernidade.

3Ao dest a c a r a d e c o m p o s i ç ã o e d e s o r g a n i z a ç ã o como "selos de a u t e n ­

ticidade" do m o d e r n i s m o (p.35), A d o r n o enfat iza, no artista, o

gosto pela e x p e r i m e n t a ç ã o e pelo novo; e, na obra, "o p r i m a d o dos

procedimentos construtivos em relação à imaginação subjectiva”

(p.36), lembrando, contudo, que es ses p r o c e d i m e n t o s são " o r g a n i ­

zados s u b j e t i v a m e n t e " , p . 37).

Assim, o risível, na sua v o c ação de art e de ruptura, dá ênfase

a e sses p r o c e s s o s de construção, sobretu do, àqueles de cará ter

dialético. Cf. AFORNO, T.W. op.cit., p.35, 36 e -37 .


88

^A b i z a n t i n a polêm ica sobre forma e c o n t e ú d o ainda p r o d u z conflito.

Daí b u s c a r m o s e l e m e n t o s dé a p o i o na teor ia de Adorno: "No c o n f l i ­

to, a e s t é t i c a do c o n t e ú d o leva, ironicamente, a mel hor em v i r t u d e

de o v a l o r das obras e da arte em geral, que é o seu fim, não e s ­

tar ligada à forma, mas ao conteúdo. Mas ele só e x i s t e d e v i d o à

forma estética. Se a e s t é t i c a deve n c l e a r m e n t e t r a t a r da forma,

ela a d q u i r e um conte ú d o ao t o r n a r as formas eloqüen tes ". Cf. A D O R ­

NO, T.W. op.cit., p . 322.

5" A negação pode t r a n s f o r m a r - s e em prazer, mas não em positivo."

Cf. ADORNO, T .UI. op.cit., p .54 .

*Cf. ADORNO, T.W. op.cit., p .63 .

7 Cf. ADORNO, T.W. op.cit., p .60 .

8 Cf. ADORNO, T.W. op.cit., p . 262.

9 Cf. ADORNO, T.W. op .ç i t ., P .153.

*®A p a l a v r a é aqui e m p r e g a d a no seu sentido amplo. P a r a Ernst Fis-

cher é tudo aqu ilo que a o b r a de arte apres ent a ((tema, assunto,

significado ou mensage m). Cf. FISCHER, E r n e s t . A N e c e s s i d a d e da

Arte. Trad. Orlando N e v e s Lisboa: Edit o r a Ulis seia, sem da ta

( p . 146). Cf. tamb ém BAKHTIN, Mikhail. Q ue st õe s de L i t e r a t u r a e de

E s té ti ca . Trad. A u r o r a F. B e r n a r d i n i e outros. São P a u l o : E d i t o ­

ra " Hucitec, 1988, p p . 2 9 a 44. Cf. igu almente ADORNO, T.W. Op


8?

cit., p .322 e 323.

HA pal avra "forma" está sendo u s a d a no seu s e n tido substanci al que

só a d q u i r e e x i s t ê n c i a i n c o r p o r a n d o - s e a uma matéria. Cf ECO, H u m ­

berto. Arte e B e l e z a na E s t é t i c a Med iev al. Trad. Mári o Sabino

Filho. Rio de Janeiro: Globo, 1989. p . 113.

JOLLES, André. F o r mas Simples. Trad. Á l v a r o Cabral. São P a u ­

lo-. E d i t o r a Cultrix, 1976. p .209

i^Cf. L A N G E R K., Susanne. S e n t i m e n t o e Forma. Trad. Ana M. Gold­

b e r g e r C o e l h o e J. Guinsburg. Sã o Paulo: E d . Perspec tiv a, p .339 a

364 .

14"o s e n t i m e n t o da comé d i a é um s e n t i m e n t o de v i t a l i d a d e i n t e n s i f i ­

cada, e s p í r i t o e vont a d e desa fia dos , c o m p r o m e t i d a no g r a n d e jogo

com a Sorte. 0 ver d a d e i r o a n t a g o n i s t a é o mundo". Cf. idem, ibi­

dem , p .362.

i5cf. KAYSER, Wolfang. Análise e I n t e r p r e t a ç ã o da Obr a Li te rária.

V o l . 2, Coimb ra: Armê n i o Amado Editor, 1970. p . 301.

l^F ERNA NDE S, Millôr. C o n p o z i s s S i s I m f ã t i s Rio de Janeiro-. E d i t o ­

rial M ó r d i c a Ltda., 1975

leidem. L i ç õ e s de Um Ignorante. 4. ed . R i o de Janeiro-. Paz e Terra,

1977. -
90

*®Idem. Ibidem, p .131.

leidem. Ibidem, p .39.

2®L0BA T0, Monteiro. U r u p é s e o u t r o s contos. São Paulo. Nacio nal ,

1943. pp .554 a 566.

2Í FERNANDES, Millôr. D i á r i o da Nova República. 3 Vol. P o r t o A l e ­

gre. L&PM Edito res Ltda., 1985, 1988, 1988.

22ldem. Ibidem.

Refl e x õ e s Sem Dor. São Paulo: E d i tora E d i b o l s o S.A., 1977.

Saldem. Ibidem, p .23.

25lbidem. Hai-kais. Rio de Janeiro: Edito rial N ó r d i c a Ltda., 1986.

®^Idem. Ibidem, p .69.

2 7 Idem. Ibidem, p . 28.

2®Idem. Pigmaleoa. Sã o Paulo: Ed. Bra si lien se, 1965.

Saldem. Teatr o de M i l l ô r F e r n a n d e s - Do T a m a n h o de Um Defunto. Rio

de Janeiro: Ed. C i v i l i z a ç ã o Br asile ira , 1957


91

3®Idem. Um Elefante no C a ü s . P o r t o Alegre: L&M Editores Ltda.,

1979 .

31ldem. Q u e P a í s é Este? São Paulo: C í r c u l o do Livro S.A., 1978.

32ld em. T o d o H o m e m é M inha Caca. Rio de Janeiro: E d . Nórdica, 1981.

33ldem. F á b u l a s Fabulosas. Rio de Janeiro-, Ed. Nórdica, s/d.

34ldem. N o v a s F á b u l a s Fabulosas. Ri o de Janeiro: E d . Nórdica, 1978.

3 S i d em. E r o s Um a V e z. Rio de Janeiro: E d . Nórdica, s/d.

Saldem. P a p á v e r u m Millôr. Rio de Janeiro: E d . Nórdica, 1974.

3 7 Idem. Ibidem, p . 9.

3®Idem. R e f l e x õ e s Sem Dor, p .46.

3*Id e m . I b i d e m , p .19.

4®Idem. C o n v e r s a Com Borjalo, in L i v r o V e r m e l h o dos P e n s a m e n t o s de

Millôr. R i o de Janeiro: E d . Nórdica, 1973.

4*Idem. D i á r i o da N o v a República, vol . 1, p . 82.


O RISO E O CÔMICO

EM MILLÔR FERNANDES
Widern. L i v r o V e r m e l h o dos P e n s a m e n t o s de Millôr, p .70

^Idem. Hai- kais, p .59.

Widern. R e f l e x õ e s Sem Dor, p . 3.

^^Idein. Esta è a V e r d a d e i r a H i s t ó r i a do Paraíso. Rio de Janeiro:

F r a n c i s c o A l v e s E d i t o r a S.A., 1972, no prólogo.

4^Idem. P a p á v e r u m Millôr, p p .175 e 176.


"Nada mais triste do que o riso. . . Ror
isso, a intenção dos autênticos e s c r i ­
tores de comédia — quer dizer, os mais
p ro-Fundos e honest os — não c, de modo
algum, unicamente divertir—nos, mas
abrir despudoradamente nossas c i c a t r i ­
zes mais doloridas para que as sintamos
com mais Forca. Isto pode ser aplicado
a Shakespeare e a Molière tanto quanto
a Terencio e a Aristó-Fanes

F e d e r ico Fe 11ini
C a 1ocsLçSe s Iniciais

0 problema do cômi c o possui ra ízes pro fun das , mas sua

te ori a formal é tardia. As r e f l e x õ e s sobre a m a t é r i a tem, nos p e n ­

sa dores da a n t i g ü i d a d e c l á s s i c a e em outr o s pos ter iores, caráter

indireto, d e s e n v o l v e n d o - s e na d u a l i d a d e das inda g a ç õ e s sobre o riso

e a c o m é d i a . 0 r e g i s t r o de a l g umas delas d o c u m e n t a a f e c u n d i a d e do

tema. C o n t u d o não d e v e m o s p e r d e r de vi sta o p e r i g o de nos t o r n a r m o s

c ô m i c o s no afã de e x p l i c a r o que p o s s i v e l m e n t e seja inexpl icá vel .

0 inte r e s s e p e l o c ô m i c o pode ser d a t a d o h i s t o r i c a m e n t e no

int erio r da c u l t u r a grega, p a r t i n d o das r e f l e x õ e s de Platão, que

aproxima o cômi c o ao t r á g i c o e d e s taca d ois a s p e c t o s s u b j e t i v o s do

primeiro, o praz er m a l i c i o s o e o s e n t i m e n t o de a u t o - v a l o r i z a ç ã o que

a percepção do c ô m i c o nos causa, ao p asso que A r i s t ó t e l e s centra

sua poé tica do c ô m i c o no erro ou d e f eito que não p r o v o c a piedade

nem dor, apenas d esprezo. S e g u i n d o a t r a d i ç ã o Aris totélica, dois

dos mais r e p r e s e n t a t i v o s r e t ó r i c o s clássicos, Cíce r o e Quin tiliano,

consideram o c ô m i c o na sua d upl a função de d i s t e n d e r e de morali­

zar. Bem mais tarde, H o b b e s une, no cômico, a c o n s c i ê n c i a de n ossa

superioridade à p e r c e p ç ã o da s ú b i t a d e g r a d a ç ã o de al go que deve r i a

ser superior. Por o u t r o lado, r e t o m a n d o a d i s t e n ç ã o apon t a d a por


96

Quin t i l i a n o , a idéia do c ô mico em Kant fu nda -s e na li be ração de

tensão pelo absurdo dos fatos e pela es pera frustrada. Scho p e -

nhauer, de certa forma, reto ma Kant e fixa o c ó m i c o na p e r c e p ç ã o de

uma i n c o n g r u ê n c i a na c o m b i n a ç ã o súbi t a de dois a s p e c t o s i n c o m p a t í ­

veis, a idéia e o ac on tecimento. H e g e l , por sua vez, d e s t a c a um a s ­

pecto impo r t a n t e para a n o ssa v i s ã o do cômico-, o distanci a m e n t o ,

frut o da n ã o - i d e n t i f i c a ç ã o do age nte do riso com o cômico.

No sécu l o XX, va mos e n c o n t r a r a c l á s s i c a tese de Berg son

s obr e o cômico, o rígido, o m e c â n i c o e a d i s t r a ç ã o em o p o s i ç ã o ao

vivo, ao flexível e à atenção, é cômi c a na teoria b e r g s o n i a n a a r i ­

gidez id ênt ic a à fealdade da t e oria a r i s t o t é l i c a . Num a p orte d i f e ­

renciado , Freud p r i v i l e g i a na p e r c e p ç ã o do c ô m i c o o processo de

comparação entre a p e r f e i ç ã o do eu e a i m p e r f e i ç ã o do "outro", que

se a s s e n t a numa ec onomia dos g a stos de pensame nto, distanciando-se

da s u p e r i o r i d a d e k a n t i a n a e da n ã o - i d e n t i d a d e de Hegel.

James Sully, no seu e n s a i o so bre o riso, a g r u p a as teo­

rias do c ô m i c o sob duplo eixo-, da "degradação" e da "con tra dição".

A p r i m e i r a recua a A r i s t ó t e l e s e faz do côm i co uma r e a l i d a d e exte»—

na, o b j e t i v a e c i r c u n s c r i t a ao inferio r que não c a u s a pena nem dor.

A essa te oria Ho bbes acre s c e o s e n t i m e n t o de s u p e r i o r i d a d e que a

visão do cômi c o nos causa. Na m esma linha, e n c o n t r a m o s Ber g son que

substitui a d e f o r m a ç ã o da te oria a r i s t o t é l i c a pelo r í g i d o e pelo

mecân ico .

No pólo op osto s i t u a - s e a t e oria da c o n t r a d i ç ã o (confli to

ou incongruênc ia), que faz d e r i v a r o c ô m i c o da p e r c e p ç ã o de um c o n ­

traste e ntre e l e m e n t o s de uma situação: o e s p e r a d o e o acontecido.

E s t a teoria, que p r i v i l e g i a a subjetividade, vai de P l a t ã o a Freud,


97

passando, com ligeiras m o d i f i c a ç õ e s por K a n t , S c h o p e n h a u e r e He gel .

Para a prim e i r a corrente, a essê n c i a da a t i v i d a d e do c ô ­

mico é d e s t a c a r o defeito, a diss o n â n c i a , para obter o riso. E o

faz como um p r o c e d i m e n t o de a d a p t a ç ã o do home m ao seu meio social.

A função de " c orrigir" não é m e t afís ica, mas social, s e g u n d o a t e o ­

ria berg soniana. 0 c ô mico se configu ra, assim, como uma f orça de

luta c o ntra o "erro", que ele denu nci a, e como um p rete x t o p a r a i n ­

dici a r o correto.

A s e g u n d a corre n t e e n f a t i z a o e l e m e n t o s u b j e t i v o na c o n ­

f igu ração do cômico, ao in stalar o "real" no psiquismo. E d e s t a c a a

relatividade do cômico, à medi d a que a c o m p a r a ç ã o se p r o c e s s a no

íntimo do sujeito: es pe r a m o s o ideal e p e r c e b e m o s a deformação.

Conforme a t e o r i a freudiana, a m e l h o r e x p r e s s ã o dessa corr e n t e , o

objetivo do c ô m i c o não é t r a n s c e n d e n t a l ne m social, mas funciona

c o m o e l e m e n t o l i b e rtador das tensões.

Embora aqui não se dê m a r g e m a uma revisão do problema

concei tua i do cômico, não c o n s i d e r a m o s inú teis essas c i t a ç õ e s s i g ­

ni fica tivas, pois, a p a rtir delas, em traç o s gerais, o p e r a r e m o s as

c a r a c t e r í s t i c a s e os elem e n t o s e s t r u t u r a i s do cômico.

Porém n e n h u m a das várias t e o r i a s so br e o c ô mic o c o n s e g u e

explicar, a co ntento, a c o m p l e x i d a d e do p r o b l e m a e a d i v e r s i d a d e de

categorias que ele recobre. Q u a l q u e r t e n t a t i v a de c riar u m a e x p l i ­

c a ç ã o global para o cômi c o r e d u n d a r i a em mera ilusão.

Mas o que é o c ô m ico? Ou, p a r a f r a s e a n d o S h a k e s p e a r e -. Como

a c h a r e m o s o a c o r d o deste desa c o r d o ?

Não e s t a m o s à altu ra de f o r n e c e r uma resp o s t a s a t i s f a t ó ­

ria. Até p o r q u e não encon tr amos , no d e c o r r e r de nossa pes quisa,


98

conceituações de concordância plena. Mas, de qua lq ue r maneira,

acreditamos ser possível assentar seu perfil a part ir de alg u m a s

características relevantes que a j u d a m a f u n d a m e n t a r o c ô mico em

Mil lô r Fernandes.

0 c ô m i c o é um trib u t o à h u m a n i d a d e do h o m e m no r e c o n h e c i ­

m ent o de sua fr agilidade. Talvez e s t e j a m aí as razo e s pelas quais

ele é popular. 0 u n i v e r s o do côm i co é c o m p o s t o da imita ção da ação

de seres h u m a n o s ridí culo s, ainda que não s e j a m malvados. Esse u n i ­

vers o c o n f i g u r a - s e em uma espécie de hybris, uma v i o l a ç ã o das n o r ­

mas e das m e d i d a s sociais, isto é, "dos l i m ites que o h omem deve

e n c o n t r a r em suas r e l a ç õ e s com os o u tros ho mens"*. A c r i a ç ã o c ô mica

é d i v e r t i d a m e n t e às avessas. Ela nasc e das c o n t r a d i ç õ e s e se a p r e ­

senta a t r a v é s de m ú l t i p l a s formas de inversão, como a ironia, a p a ­

ródia, a falsa inoc ê n c i a e a incon gr uênc ia. Es se mund o d e s v a l o r i z a ­

do, c o t i d i a n o e c o m u m tende a g erar o d e s p r e z o a r i s t o t é l i c o , a i n ­

s e n s i b i l i d a d e bergsoniana, o que p r o v o c a um d i s t a n c i a m e n t o em r e l a ­

ção ao leitor.

No c ô m i c o há uma a g r e s s ã o " s a l v í f i c a e saudável", capa z

de m o t i v a r uma v i sãò ma is clar a da reali dade . Sem ofer e c e r r e s p o s ­

tas ou soluções, ele d e n u n c i a o risível e, a p e s a r de projetar, às

vezes, uma imagem du ra e violenta, o faz de um a ma neira "leve, b r e ­

ve e alegre".

0 c a r á t e r social do c ô mico se e v i d e n c i a na n e c e s s i d a d e de

ter o u v i n t e s e na p e r c e p ç ã o co nte xtu ai. Em c onseqüência, ele tende

ao e n v e l h e c i m e n t o rápidoj como. a f i r m a Hobbes, "nin g u é m ri de ve lh as

piadas".
99

0 côm ico n ã o tem um d o m í n i o que lhe seja próprio. Dizendo

melhor, não há para ele d o m í n i o interdito. Não há t a m p o u c o uma t é c ­

nica que pertença, e x c l u s i v a m e n t e , a este modo. Mas, sem dúvida, a

té cnica p r e d o m i n a n t e é a da ironia e suas m ú l t i p l a s va riantes. As­

sim, a d e s s a c r a l i z a ç ã o c o n f i g u r a a tônica do cômico, não poupando

nada, nem ninguém.

0 texto l i t e r á r i o c ô m i c o eixa-se na c u m p l i c i d a d e de autor

e leitor; o p r i m e i r o a l i c i a n d o o segundo para o bter o riso. Ao p r a ­

zer c ômi c o mistura-s e, todavia, uma forte dose de d e sp razer, daí a

sua am big üidade. Esse p r a z e r estr a n h o surge do r e c o n h e c i m e n t o da

inversão, send o "ligeiro, p obre de conteúdo, s u p e r f i c i a l e epid é r -

mico"2.

Sin tetizando, o c ô m i c o literário está a n c o r a d o na tría de

form ada pelo autor, t exto e leitor. Primeiro, o a u t o r cri a um te xto

negativo, d e s s a c r a l i z a d o , di ss ona nte, pelo qual b u s c a a c u m p l e c i d a -

de do leitor para o c o r r e r o riso. 0 un iv e r s o c r i a d o p e l o t ex to é

d e s valorizado, baixo, inferior, centrado no i n d i v í d u o e seu coti­

diano. à medi da que p e r c e b e e sta inversão, o leitor, a t r a v é s de um

a m b í g u o jogo de d e s p r a z e r e orgulho, d i s t a n c i a - s e do u n i v e r s o c ô m i ­

co, a c e n t u a n d o esta c i s ã o pelo riso. A função m o r a l i z a n t e ou ética

d e s t e s te xtos fund a - s e no i d e a l i s m o que se lê à s o m b r a das linhas.

Assim, a p a r t i r d e s t e s elem e n t o s t r i b u t á r i o s de amb as as

c o r r e n t e s teóricas do cômico, iremos lê-lo nos t e x t o s d r a m á t i c o s de

M i l l ô r e, mais adiante, n o s t e xtos que se s i tuam na p e r i f e r i a deste

modo- -
Í00

O Teatro de Millôr Fernandes

Os textos d r a m á t i c o s de M i l l ô r F e r n a n d e s p e r c o r r e m uma

trajetória que vai da comé d i a à farsa, na prim e i r a fase, pa ssando,

na segunda, pela "comédia séria", até c h e g a r ao texto de c o l a g e m da

terceira fase. Por hora nos d e t e r e m o s nos texto s da primeir a, fi­

c a n d o os d e mais para serem t r a t a d o s em "As últi m a s Palavras".

Há no universo teatral de M i llôr F ernandes duas linha s

dramáticas distintas, m o t i v a d a s ora pelo cô mico ora pelo cômico

grotes co^ , uma centra da mais no r i d í c u l o do c o m p o r t a m e n t o do h u m a ­

no, e a o utra nas c o n t r a d i ç õ e s da c o n d i ç ã o humana. Mas em t o d a s as

fases de seu teatro, Millô r se a t e v e em desve l a r as ra zões g e r a d o ­

ras do c ô m i c o no home m e dela s fazer o alvo de sua ironia. Procedi­

m ento que o apro x i m a mais de B e a u m a r c h a i s , não chegando a c r i a r t i ­

pos bem marcados, como àque l e s que c o m p õ e m a galeria de Moliè re.

Temo s presente que as o r d e n a ç õ e s e os a g r u p a m e n t o s c las-

s i f i c a t ó r i o s deix a m t r a n s p a r e c e r c e r t o grau de simplici dad e. Contu­

do, v a mos recor rer a estes p r o c e d i m e n t o s por mo ti vos de economia

processual. Assim, p a r t i n d o das v a r i a ç õ e s da d e s d r a m a t i z a ç ã o ^ dos

text o s de Millôr, o r g a n i z a m o s a sua obra teatral em três c onj un tos.

No prime iro , inclue m-s e os textos-. "Do T a m a n h o de um D e f u n t o ”,

"Pi g m a l e o a " e "Um Elefante no Caos". N eles não há c o n f l i t o s sé rios

que não p o s s a m ser r e s o l v i d o s p e l o s pe rs onagens, e o d e s e n v o l v i m e n ­

to orgânico das peç as não a p r e s e n t a un icidade, se ndo e p i s ó d i c o o

ritmo de todas elas. Os textos d e s t a fase c r i a m um u n i v e r s o f i c c i o ­

nal de a p a r e n t e simplicidade, no qual o c i r cunstancial do a c o n t e c e r


Í0 Í

c o t i d i a n o alia - s e à c i rcunstancial idade pa ra doxa l do homem.

Os recu r s o s do côm ic o u t i l i z a d o s n esta fase são, em sua

quase totalida de, os de "inversão"-, a ironia em suas varian tes , as

oposições, e os e f e i t o s p a r o d í s t i c o s .

Coerente com sua a tividade de jornalist a, e de cronista

do cotid ian o, Millôr, em suas p r i m e i r a s p r o d u ç õ e s dramát ica s, se

fixa no ag ir do dia a dia de p e r s o n a g e n s insp i r a d o s em m o d e l o s c i ­

tadinos. Os p e r s o n a g e n s ass umem p o s i ç õ e s que e m b l e m a t i z a m p o s t u r a s

c o muns a t odas os h a b i t a n t e s de uma g r a n d e cidade. As c o n c e n t r a ç õ e s

urbanas e a v o r a c i d a d e das c o n s t r u t o r a s i m o b i l i á r i a s vão, g r a d a t i -

vamente, m u d a n d o a feição das cida d e s b r a s i l e i r a s e t o r n a n d o a vida

da c l asse média, que nelas vivem, cada vez mais difícil. 0 teatro

d est a fase p a r t e da v i v ê n c i a do e s c r i t o r como m o r a d o r de um bairro,

cujo c r e s c i m e n t o d e s o r d e n a d o vai, p r o g r e s s i v a m e n t e , dificultando-

lhe a vida. Na e x p e r i ê n c i a pessoal, b u s c a os tem as das p eças "Pig-

male o a " (a e x p l o r a ç ã o i m o b i 1 i á r i a >; "Do T a m a n h o de um Defunto" (a

violência urb ana) e "Um Elefante no C aos" (as m a z e l a s da adminis-

t raçã o p ú b l i c a ).

Na s e g u n d a fase de sua obra dra máti ca, os tex tos de Mil-

lôr a f a s t a m - s e do ritmo da co mé dia e m e s m o da farsa de "Um E l e f a n t e

no Caos", para p r o d u z i r text os que a p r e s e n t a m uma e s t r u t u r a d r a m á ­

tica mais densa. A sua ironia se a p r o f u n d a e o t e x t o mesc l a e l e m e n ­

tos do s ér io com o risível. A b a n d o n a o tom p a n f l e t á r i o da p r i m e i r a

fase pa ra investir: na o r g a n i z a ç ã o e x p r e s s i v a da es trutura, tornan­

do a ação mais unitár ia; e na a c e n t u a ç ã o p s i c o l ó g i c a das persona­

gens. Esta fase não se e n q u a d r a t o t a l m e n t e no cômico, nos. term o s do

nosso modelo teórico, daí ape nas f a z e r m o s m e n ç ã o dela aqui e na


í 02

unidade dedic a d a ao hu morismo. T r a t a - s e das p e ç a £ " é ..."; "Flávia,

Cabeça, Tronco e Me mbr os"; e "Duas Tábua s ê uma Paixão". Nelas, os

asp ectos d r a m á t i c o s se d i v e r s i f i c a m com a i n c l u s ã o de te mas sérios

como a morte ("Duas T á b u a s e Uma Paixão") e s e p a r a ç ã o de c a sais e

suicídio ("e..."). As p e r s o n a g e n s te ndem a se e n v o l v e r numa a t m o s ­

fera ob sessiva de d e s e j o s e se a f a stam do e s q u e m a t i s m o típico das

p e r s onagens do cômico, à medi d a que se d e s l o c a m para s i t u a ç õ e s mar—

ginais de c o n f l i t o e t e n s ã o que c a r a c t e r i z a m o trágico ("é...",

"Duas Tábuas e uma Paixã o") . Es te des vio se ac entua, numa atmo s f e r a

de absurdo e x i s tencial e de cao s social, na peça "Flávia, Cabeça,

Tronco e Membros".

Os tex t os da s e g u n d a fase o s c ilam e n t r e o c ô m i c o e o g r o ­

tesco, expressando as c o n t r a d i ç õ e s de uma s o c i e d a d e opr ess ora , à

medida que eles i n v e s t e m c o n t r a os absur dos e os i n j u s t o s siste mas

sociais que inibe m a c r i a t i v i d a d e e a libe rdade humanas. 0 universo

dra mático des tas p e ç a s gira em tor no de dis p u t a s familiar es, neuro­

ses, suicídio, frustrações, sonhos, s e n t i m e n t o s de culpa, que são

mov imentos interior es, i n d i v i d u a i s e não col etivos. A p e sar do as­

pecto psico lóg ico, e s t a ê n f a s e não invalida a tese do social, pois

toda cond uta i n divi dual é m o l d a d a pe la sociedad e^. Não é a cond uta

t i pificada dos p e r s o n a g e n s de Moli è r e ou de M a r t i n s Pena, mas a

crít ica oblíqua à s o c iedade, p a s s a n d o pela c o n d u t a indiv idu al c o r ­

rompidas, d e f o r m a d a e absurda.

Os n o mes d a s p e ç a s às vez es d e n u n c i a m a ironia p o é t i c a da

sua composição, "é. . c o m o s í m b o l o da "ext r e m a a c e i t a ç ã o do d e s ­

tino h u m a n o " 6 ; "Flávia, Cabeça, Tronco e Membros", i n s p i r a d o em um

trecho do m o n ó l o g o de " J ú l i o César", de S h a k esp eare: "De v e m o s as-


í 03

sassiná-lo com c o r a g e m , / m a s sem ódio; t r i n c h á - l o como uma igua­

r i a . " 7 N este ú l t i m o texto, na me scla de e l e m e n t o s que comp õ e m o c ô ­

mi co gro tesco, a c r e c e n t a - s e traços do absurdo.

Nos t e x t o s de c o l a g e m de Millôr, a preocupação contesta-

tória que s e m p r e m a r c o u a sua p r o d u ç ã o teatral se a c e ntua e se t o r ­

na mais c o m b a t i v a e d o m i n a n t e a partir do gol pe p o l í t i c o - m i 1 itar de

1964, que p r o p i c i o u o for t a l e c i m e n t o e a d o m i n a ç ã o de três "cla sses

sociais"-, os mil itares, os t e c nocratas e os po líticos. Essa t r íade

do poder e suas i m p l i c a ç õ e s vai ser o alvo pr inc ipal destes textos,

que apresentam uma forte i n t e n c i o n a l i d a d e satírica. Mas o a t aque

diri g ir-se-á, de uma m a n e i r a geral, a t odas as formas de opressão.

Paralelamente a este a s p e c t o político, o teatro de c o l a ­

gem dei xa de ser um texto de um autor e p assa a fun cionar em uma

dimensão ritual do múltiplo, atra v é s do e n c o n t r o i d e ológico de e s ­

critores, da r e u n i ã o de textos de gêne r o s diver sos , que formarão

outr o texto; e da c o n v e r g ê n c i a de v á r i a s lingua gen s, a verbal, a

musical e a fílmica. Essa p o l i f o n i a de g ê n e r o s e lin guagens c a r a c ­

te riz a o " h u m o r i s m o " de Millôr, e n t e n d i d o como a s í n tese e a con­

v e r g ê n c i a das três m á s c a r a s do risível.

E s t e s t e x t o s de c o l agem r e p r e s e n t a m um m o m e n t o i m p ortante

na h i s t ó r i a do t e a t r o brasileiro, não só pelo v a l o r de c o n t e s t a ç ã o

política, mas t a m b é m pelo v a n g u a r d i s m o estético.

0 c a r á t e r h í b r i d o das peça s (prosa, verso, mú sica e p r o ­

jeções) c o n f e r e às m e smas uma a função d i d á t i c a de c o m bate de p e r ­

suas ã o _ .

0 t e a t r o de c o l a g e m é também, em sua ess ênci a, um re nov ar

da ling u a g e m te atral, uma ve rt e n t e nova capaz dé c o n v i v e r com as


í 04

formas clá ssicas da l i t e r a t u r a d r a m á t i c a e de instaurar, a t r a v é s de

sua estr utu ra fragme ntad a, uma v i são do mund o que se faz metáfora

da soci edade moderna, na rupt u r a com os cânones, do formal e do m a ­

terial, a ser usad o s no espetá cul o.

Na úl tima u n i d a d e des te trabalho, em c o e r ê n c i a com a n o s ­

sa proposta limitar—n o s - e m o s a m o s t r a r os p r o c e d i m e n t o s p o é t i c o s de

composição de alg un s te xtos da segunda e t e rceiras fases do tea t ro

milloriano

O Risxvel no Teatro de ttillôr Fernandes

Ao nos a p r o x i m a r m o s do "cômico" de Mi 11 ôr Fernan des , te­

mos de levar em c o n s i d e r a ç ã o que nele o riso s u r ge b a s i c a m e n t e de

um lúdico p r o c e s s o de inversão, que se c o n s u b s t a n c i a no pa ra doxal

c o m p o r t a m e n t o do homem, na i n s i g n ific ânc ia do seu cotidiano, na r e ­

p e t i ç ã o dos seus p e q u e n o s e r i d í c u l o s vícios, e x p o n d o as mazelas


<_______ —...... .... ............. —
humanas e sociais, e reve lan do, nas e n t r e l i n h a s aq uilo que d e v e r i a

ser, mas inf eli zmente não o é.

Partindo d e s s a s pr emissas, vamos e n c a m i n h a r a l g u m a s re­

fl exões que p a r t i c u l a r i z a m em M i l l ô r os p r o c e d i m e n t o s em r e l a ç ã o ao

riso, lembran do que o m e s m o é p r ó p r i o do homem e que a mbos s o f r e m a

ação do tempo. Assim, do p o nto de vis ta crono lóg ico, é possív el

a c o m p a n h a r ,na literatura d r a m á t i c a do escritor, as a l t e r a ç õ e s do

cômico, o qual vai, g r a d a t i v a m e n t e , c o n f u n d i n d o - s e aos o u t r o s modos

do risível, como t e r e m o s a o p o r t u n i d a d e de ver mais adiante.


Í05

0 riso franco e quase a l eg re das p r i m e i r a s p r o d u ç õ e s d r a ­

máticas, "Do Tamanho de um Def un to " (1954), "Pig m a l e o a " (1955), "Um

Elefante no Caos" (1955), vai t r a n s f o r m a n d o - s e em um riso dolo r o s o

p r ó x i m o ao grotesco, pela sua m e s cla com a se riedade. Assim, o riso

que b r o t a da leitura dos outr o s text os d r a m á t i c o s de Millôr, "é..."

(1977), "Flávia, Cabeça, Tr onco e M embros" (1978) e “Duas Tábua s e

uma Paix ã o " (1982), d i s t a n c i a - s e d a q uele quase a l e g r e das pri m e i r a s

produ çõe s, a comédia e a farsa. E vai c e d e n d o e s p a ç o ao c ô m i c o g r o ­

t e s c o e ao absurdo.

Veja m o s agora como se p r o c e s s a o riso e o c ô m i c o nos t e x ­

tos da p r i m e i r a fase d r a m á t i c a de Millôr.

A peç a "Do Tamanho de Um Defunto", e stá i n s e r i d a nu ma c o ­

letânea de te xtos d e n o m i n a d a "Te atr o de M i l l ô r Fernandes", da qual

fazem parte, além da peça referida, "Uma Mu lh e r em Trê s Atos", "Bo­

nito como um Deus" e "A Gaivota", p u b l i c a d a em 1957. "Do T a m a n h o de

Um Defunto" foi r e p r e s e n t a d a pela p r i m e i r a vez a 3 de março de

1955, pela C o m p a n h i a Ludy V elo s o - A r m a n d o Couto, no T e a t r o de B o l ­

so, do Rio de Janeiro. A peça se compõe de um ato único, com quatro

personagens, e a m b i e n t a d a no s u b ú r b i o de An d araí - Rio de Janeiro,

em é poca atual. 0 tít ulo i n spira-se em um v e r s o de Paulo Me nd es

Campos: "Est amos gra nde - do tama n h o de um defunt o"® . Es ta inter-

textualidade se r e pete nu ma fala de um personage m: "é m u i t o bom a

g e nte ser do tama n h o de um defunto"^. Em o utra p a s s a g e m cita o p r ó ­

prio nome do poeta: "LADRSO: 0 carro sse l faz g i ra r a t arde em c a l ­

ma. B o n i t o não é? ROBERTO: é . .. LADRJ50: é do P a u l o M e n d e s Campos.

0 S e n h o r já leu êle?"
í 06

Na d e s c r i ç ã o do c e n á r i o d e s t a peça e nas d i d a s c á l i a s v e ­

ri fica-se que Millô r assume, com c e r t o grau de autoridade, a funç ã o

de o r q u e s t r a r o c o n j u n t o do espet ác ul o, t r a t a n d o do texto, da c e n o ­

grafia e da m o v i m e n t a ç ã o cê nica dos pe rso na gens . C r emos que essa

p r e o c u p a ç ã o pode ser e x p l i c a d a à luz da forte c o n s c i ê n c i a que o e s ­

critor tem da i m p o rtância de qualquer d e t a l h e da r e presentação, que

pode ser mais eloq ü e n t e do que as p a l a v r a s

A peça "Do Tam anho de um Defunto" e x e m p l i f i c a o riso que

se a r t i c u l a no d i s c u r s o do c ô mico em sua forma p r i v i l egia da, a co­

média. A principa l m o t i v a ç ã o que leva o leitor ao riso origina-se

de uma d i n â m i c a p e r c e p t i v a que se p r o c e s s a entre ele è o texto, no

qual a ação cô mica c e n t r a - s e em uma s é r i e de inv ers ões a p o i a d a s nas

c o n t r a d i ç õ e s de c a r á t e r dos p e r s o n a g e n s ,de situações, e, s o bretudo,

em atos t r a n s g r e s s i v o s do co tidiano. Um médico, exaurido, que co­

nhece estatísticas de ro ubos e a c o n s e l h a o ladrão a r e s p e i t o dos

lucros do seu ofício; um ladrão, i n t e l e ctualizad o, que lê p o e m a s e

os r e c o m e n d a ao médico; a p o l í c i a p r e s e n t e quando i n o p o r t u n a e a u ­

sente quando ne ces sár ia. E mais ainda, o ladrão que a c o n s e l h a m e d i ­

das de s e g u r a n ç a às suas vítimas: "qua n d o quiser s o c o r r o nã o g r i t e

'Ladrão! As sassino!' que n i n g u é m vem. Grite: 'Fogo! Incê ndi o!' que

logo cor re uma mulidão. A gente não é boa madame, mas é curi o s a " * * .

E ainda filosofa, com eloqüê ncia , s o b r e a falta de solidariedade

humana: “Hoje ser ão t o dos mortos, todos! M o r r e r ã o t o d o s os home n s

de bem. A t erra fica rá um p a r a í s o de larápi os e ass ass ino s. Então,

em meio à c h u v a e aos raios, nós nos a s s a l t a r e m o s ent re nós mesmos,

nos roubaremos e nos mataremos, numa fe sta íntima, n u m a S o d o m a e

G amor ra da Pat ifari‘


a " * 2 . A r m u l h e r m e d r o s a que t e r m i n a por manter
í 07

uma longa c o n v e r s a com o ladrão: "e o m é d i c o que s olta o ladrão por

conhecer o s i s t e m a p e n i t e n c i á r i o da cida d e e s aber que o mesmo t i ­

nha p ouco te mpo de vida!, c o n h e c e n d o como c o n h e ç o as p r i sões de sta

ci dad e eu não p o s s o m a ndar e n c a r c e r a r um h omem no esta do em que v o ­

cê está"*3. 0 m é d i c o que se sen te "um h o mem c o n t r a toda uma s o c i e ­

dade" se c o n t r a p õ e ao ladrão que se d e c l a r a "vítima do sistema",

ambos e m b 1e m a t i z a n d o o c o n f r o n t o de s e g m e n t o s s o c i a i s de uma s o c i e ­

dade inj usta e caótica.

A peça apr ese nta , sem dúvida, uma c e n s u r a social, ineren­

te a tod os os m o d o s do risível, mas o r i tmo é a i nda o do c ô mico que

denuncia as m a z e l a s da sociedade, a t r a v é s de um retr a t o c r í t i c o de

uma e ntão alegre e c ô m i c a cidade: São S e b a s t i ã o do Rio de Janeiro.

"Pigmaleoa", escrita em três atos e a p r e s e n t a d a como m e ­

l odra ma humor íst ico, nos remete de início ao "P igma leão" de Rous-

seau, c o n s i d e r a d o o p r i m e i r o m e l o d r a m a moderno, na acepção de uma

peça com a c o m p a n h a m e n t o musical e cujo e n r e d o o s c i l a entre a c o m i ­

c i dade e a s e n t i m e n t a l i d a d e . 0 meios, na peça de Millôr, fica di­

v e r t i d a m e n t e por c o n t a de "Duque Estrada", p á s s a r o de um ú nico c a n ­

to, o hino na cio na l brasileiro. Os a c o r d e s do mesmo, aqui e ali no

d e c o r r e r da peça, a c e n t u a m a sua c o n t e x t u a i i z a ç ã o e p o n tuam os seus

momentos risíveis. 0 p r ó p rio autor, na dida s c á l i a , sug er e que o

e f eito cô mico "d eve vir do fato de o p ú b l i c o a c h a r que o pass a r i n h o

es tá a s s o b i a n d o bem demais"*^.

0 tema, r e c o r r e n t e em sua l i t e r a t u r a dramática, é "o da

destruição de um a c i d a d e que p o d e r i a ser q uase utópica, - para c o n s ­

t r ução da mais s ó r d i d a c o n c e n t r a ç ã o i m o b i l i a r i a de que se tem n o ­

tícia: C o p a c a b a n a " *5 Este tema, sério, é c a p a z de pr ov ocar riso


í 08

por caus a da ins i s t ê n c i a i n o p o r t u n a do corre t o r e pela p o s i ç ã o da

casa, a u l t i m a de Copacab ana, cerc a d a de e d i f í c i o s por t o d o s os l a ­

dos.

0 riso nes ta peça b r o t a da p ercepção de m ú l t i p l a s i n v e r ­

sões: o p r ó p r i o título, v e r s ã o femi nina do mito de P i g maleão, cria

uma e x p e c t a t i v a de t r a n s f o r m a ç ã o que, ironicamente, o c o r r e r á ap enas

com a aleg r e Ismênia (ir oni a do nome trágico) ao c eder ao assédio

da e s p e c u l a ç ã o imobiliária; o cenário, num c o n t r a s t e cômico, com-

P Õe- s e de um velho c a s a r ã o d e c o r a d o em pa drões u l t r à - m o d e r n o s ; a

seqüência de quiproquós, e s t r u t u r a d o r a da peça, se o r g a n i z a pela

fac il idade de sua reversão, como, por exemplo, os v á r i o s reve s e s

sofr i d o s por Ismênia, que s u p e r a a todos com gal har dia . Essa capa­

ci da de de s u p e r a r os m ú l t i p l o s e pequen os conflitos, é um a das ca-

racteríst icas do cômico.

Risíveis t a m b é m sã o os próprio s nomes dos p e r s o n a g e n s e,

destes, ain da os c a r a c t e r e s s i n g u l a r e s e as suas a ç ões i nesp er adas ;

os jogos de palavras; os acontec i m e n t o s , r idículos uns e absurdos

outros; e o d e s f e c h o i n v e r t i d o do enredo. Os nom es d u p l i c a d o s (Fio-

refiore, Blum blu m) m o t i v a m o riso pela própria rep et ição . Mais r i ­

sível ainda será a d e s c oberta, pela oca siã o do c a s a m e n t o de Júlia

Fio ri fiori e Josué B lu mb lum , de que os dois s o b r e n o m e s tinham, em

línguas diferent es, a m e s m a si gn ific açã o, ou seja, "flor— f l o r ”, o

que torn a v a dispensá vel o p r e c o n c e i t o da mãe de Júlia. Se não o

mais risível, pelo menos o ma is simb ó l i c o do ri tm o a l e g r e e b r i n c a ­

lhão do cômico, talv ez seja o s o b r e n o m e “S c h e r z z o ” de Ismênia. Ain­

da m o tivo de riso, pelo seu s i g n i f i c a d o d e s a s s o c i a d o do comporta­

m e nto da persona gem , t emos o e x e m p l o do Pa dre A n s e l m o da Anuncia-


í 09

ção, que sem pre se " an un cia" apenas para a r r e c a d a r d i n h e i r o em b e ­

nefí c i o de sua igreja. Igualmente risível está o nome "Lusíada"

p e r t e n c e n t e a uma h u m i l d e em pr egada doméstica, c u j o nome se liga ao

p ass a d o g l o r i o s o da t erra de seu pai. A c o m i cidade, capaz de gerar

o ris o pode originai—se ainda das a tit u d e s i n e s p e r a d a s e c o n t r a d i ­

tórias das p e r s o n a g e n s como a de Regina, pela s ú b i t a t r a n s f o r m a ç ã o

de viúv a conv i c t a em n o i v a ingênua.

Os jogos de pala v r a s valem pelo inespe rad o, pelo insól ito

e pela r e f e r ê n c i a oculta: Você c o n s u l t o u a l g u m p s i c a n a l i s t a a u s ­

trí aco ? - Não, c o n s u l t e i um re lo jeiro suíço. Eles são uns cr aque s

em cabeça de mul her"*^. Aqui depa ramos com a i n t e r f e r ê n c i a de sé­

ries de que fala Be rgson, no c r u z a m e n t o e i n t e r c r u z a m e n t o de e s p e ­

cialidades (psicanálise e relógio) e n a c i o n a l i d a d e s (aust ría ca e

suiça) a qual p r o d u z o efei to risível pela a s s o c i a ç ã o de idéias

(lembr amo s a teoria fre udi ana ) em torno do fazer f uncionar "o m e c a ­

nismo que há d e n t r o da ca beça de uma mulher"*^.

A c o m i c i d a d e das soluçõe s dos c o n f l i t o s a s s e n t a - s e s o b r e ­

tudo numa c r i t i c a i r ô n i c a à frágil e s t r u t u r a da s o c i e d a d e e do h o ­

mem que a organiza. A maior parte das p e r s o n a g e n s vive à m a r g e m do

trab a l h o e as que t r a b a l h a m d e m o n s t r a m - s e i n c o m p e t e n t e s para tal: o

psicanalista que clini ca, mas de p s i c a n á l i s e sabe ap en as a teoria;

o dele g a d o passíve l de ser manobrado; ou a c o l u n i s t a social que

“fala" várias línguas, mas na realidade, c o n h e c e de cada some nte

uma meia dúzia de pa lav ras .

Da c o m i c i d a d e dos ac on teci men tos , e s t a m o s l embrando a s i ­

tua çã o a b s urda da p r o t a g o n i s t a que resp o n d e a um p r o c e s s o judicial

em v i r tude de ter " r o g a d o uma praga" que fez rui r um e d i f í c i o em-


í Í0

construç ão; ou o r i d í c u l o de seu filho psic analista, que tra ta sua

c l e p t o m a n í c a irmã atr a v é s de uma e sdrúxula a t i v i d a d e de roubo.

Os "co n f l i t o s cômicos", s eguindo a t r a d i ç ã o da comé d i a

nova grega, se r e s o l v e m com muita facilidade: o i n q u é r i t o s o l u c i o ­

n á-s e pelo c a s a m e n t o do d e l e g a d o com a irmã da ré; a c l e p t o m a n i a de

Júli a d e s a p a r e c e d i ante da atitude ben ign a e " c o n i v e n t e " do marido;

Ismê nia ac aba c e d endo à p r e s s ã o imobiliá ria e faz o p a c t o m e f i s t o ­

félic o de v e n d e r sua casa às forças da demolição, da d e s t ruição.

0 final de Pigma leoa , ao se d e s m a n c h a r e m de m a n e i r a r i s í ­

vel os pequ e n o s confl ito s, conf i r m a o d e s f e c h o c l á s s i c o de uma c o ­

média em que tudo a c a b a bem. Mas na peça em questão "tud o acaba

bem" somente po rque Is mênia (a Pig maleoa) t r a n s f o r m a o seu dram a

pessoal (perda da casa) em comédia: "- Neste m undo não há f e l i c i d a ­

de. Portanto, a g en te tem que ser feliz as sim mesmo"*®.

0 p r e f á c i o de Pigm ale oa, data do de mar ço de 1965, p o r t a n ­

to dez anos dep ois da esc rit ura, nos fornece algu ns d a d o s s obr e as

i n tenções da p e ç a , q u e o a u tor cons i d e r a como uma " t a r e f a m e r a m e n t e

p r ofissional, quase uma b r i n c a d e i r a de mau gosto, a m a r r a n d o os p r ó ­

prios braços com a m a ior l i m i t a ç ã o que pode ser dada a um a utor - a

limi t a ç ã o de servi r a um p ú b l i c o que nem é simples, n e m é culto,

nem é sofi sticado, nem e s t á ligado às raízes e s s e n c i a i s do p o v o " ^ .

Com s a r c á s t i c a s p a l a v r a s d e f i n e esta pla téi a como "burra, até onde

uma p l a téia sem gosto, sem fé, sem busca, sem origem, p o d e ser bur-

ra"2®. E declara, ainda, a sua r e l ação a mb íg ua com a p e ç a à m e dida

que o tema da d e s t r u i ç ã o de uma c i dad e lhe é caro, mas lhe é d e s a ­

grad áve l a p e r s p e c t i v a da c o l u n i s t a s o c i a l ® * .
í íí

Vale também, regi strar um c o m p o r t a m e n t o que é r e p e t i t i v o

em Mi llôr e que diz respeito não ao texto, mas à r e p r e s e n t a ç ã o da

peça. T r a t a - s e da i n t e r f erê ncia do a u t o r nas a t r i b u i ç õ e s do dire­

tor, s o b r e t u d o no d e t a l h a m e n t o de cenário, fi gur inos e até na t i p o ­

logia das pers ona gen s. Ilustra a a f i r m a t i v a a i n dicação do s o t a q u e

de P e . Anselmo: ‘
‘L e v í s s i m o sotaque, não se d i s t i n g u e se de i t a l i a n o
ou c a s t e l h a n o " 2 2

0 t í tulo " P i g m a l e o “23 e v i d e n c i a a in te rtextuai idade c o m a

peça de B e r n ard Shaw, embo r a já l a n ç a n d o mã o da técn i c a de inve r s ã o

(típica do côm ico) na mu dança da p e r s p e c t i v a m a s c u l i n a para f e m i n i ­

na. I n v e r s ã o que se c o n f i r m a r á na f r u s t r a ç ã o da e x p e c t a t i v a que o

título gera no leitor.

0 r á pido exam e do riso e do c ô m i c o na p r i m e i r a fase do

t e atro de M i l l ô r F e r n a n d e s nos p e r m i t e e s b o ç a r algu ns e l e m e n t o s de

identidade.

Nos p e r s o n a g e n s . d e p a r a m o s c o m uma a u s ê n c i a de valo r e s m o ­

rais e uma a c e n t u a d a c o n c e n t r a ç ã o nas f r a q u e z a s do c a r áter humano.

Os temas c ô m i c o s e stão ligados ao c o t i d i a n o de uma c i dade d i v i d i d a

por personagens que formam uma e s p é c i e de g a l e r i a de vítimas, se

bem que às avessas, a exem plo de c o n t r i b u i n t e s a t a r e f a d o s e donas

de casa medrosa s, de um lado e, de outro, la drões elegantes, a mbos

m e d i a d o s por uma polícia, ora ingênua, ora m a l a n d r a ("Do T a m a n h o de

Um Def unto"); ou a um e s tilo de vida a m e a ç a d a pela especulação, i m o ­

biliária (" P i g m a l e o a " ); ou, ainda, a um c a ó t i c o país metaforizado

pelo e d i f í c i o em cham as ("Um E l e f a n t e no Caos"). A inda impulsionam,

ci tan do Millôr, o "riso leve e o t i m i s t a " , p leno de "en er gi a vital,

de uma e x a l t a d r a l e g r i a de viver m a i s ou m e nos geral, ac entuada,


í í£

aqui e ali, num e n o u t r o i ndivíduo ainda mais p o s s u í d o do gozo p l e ­

no de um e x t r a o r d i n á r i o s e nso lúdico"24, um a in da a l egre mundo às

avessas

0 CÔMICO E SUAS M E S C L A S

0 cômico, p e l a a b r a n g ê n c i a de formas e pela a m p l i t u d e t e ­

mática, torna-se a e s s ê n c i a do risível, o m o d o privilegiado que

coexiste tanto com o s a t í r i c o quanto com o "humor". Porém, essa

permeabilidade de mesclar—se com os outr os modos, e n seja o surgi­

mento de textos p e r i f é r i c o s que não se i d e n t i f i c a m de todo com o

cômico mas, ai nda assim, g r a v i t a m ao seu redor. Por isso, o p e s q u i ­

sador se de para com p r o b l e m a s na o r d e n a ç ã o da leitura, pois a c o e ­

x istência de d i f e r e n t e s e l e m e n t o s modai s d i f i c u l t a - l h e a t a refa

classificatòria e, ao m e s m o tempo, imprime à p e s q u i s a um m o v i m e n t o

de circula rid ade . Eis a razão pela qual b u s c a m o s expressar es sa

c i r c u l arida de na c o n v e r g ê n c i a do "hu morismo c a r n a v a l i z a n t e " de Mi l-

lôr.

Via de regra, ocor r e a t r a n s m u t a ç ã o do c ô m i c o que tend e a

romper com os seus limites e fundir-se, ora ao satír ico , ora ao

"humor".

Em M i l l ô r Fer nand es, a rup tur a do c ô m i c o su rge à medi d a

que a sua indi g n a ç ã o e o a t a q u e dire t o o leva para o satírico, como

a contec e em a l guns t e x t o s de "Liç ões de Um Ign ora nte" , ou para a


íí3

perspectiva intemporal de h u m o r ao imbrica»—se em a l guns textos, à

v i s ã o infantil das "Co npo zis soi s".

Assim, o r i s í v e l / c ô m i c o em Mi llôr não se e s g o t a na l i t e ­

ratura dramática. Vamos encontrá-lo, igualmente, em o u t r a s formas

d isc ursivas. Con s i d e r a m o s t a m b é m inclu so no u n i v e r s o do c ô m i c o os

livro s acima citados, pond o de p a rte al guns textos do primeiro, nos

quais p odem verificar—se t r a ç o s n í t i d o s do satírico, o que os c o l o ­

cam na fran ja elást ica do cômico, em d i r e ç ã o à c o n f i g u r a ç ã o do s a ­

tírico.

" C o n p o ziss ois Imfãtis", c o n j u n t o formado por s e s s e n t a e

uma comp osi çõe s, sob a p e r s p e c t i v a de um narr a d o r criança, foram

escrit as, conf o r m e te st e m u n h o do autor "sem pr es sa e sem pressão,

d u r a n t e m u i t o s e muitos anos, ao s a bor do acaso ou da v o n t a d e " 2 5 ^

t é c n i c a da vis ão infantil do m u n d o atra v é s das c o m p o s i ç õ e s tem como

d a t a inicial o ano de 1946 qua ndo c o m e ç a r a m a ser p u b l i c a d a s na s e ­

ção " PIF-PAF" de "0 Cru zei ro" 26. _ E s c r e v e r à m a n eira infantil é

uma e x p e r i ê n c i a simples, se você tem uma c er ta c a p a c i d a d e zcn de se

abstrair de toda uma c o n c e i t u a ç ã o que lhe impu seram d esde o berço,

voltar às origens. Mas é fundamental não desmu nh ecar , nem fazer

g r a c i n h a pura e simple s"® ?

A fim de s i m p l i f i c a r m o s a e x p o s i ç ã o vamo s d e s c r e v e r a o»—

denação dos textos. P r i m e i r o t emos a fala p a r a textual do escritor

que nos for ne ce informa ções sobr e a i n t e n c i o n a l i d a d e d elas e con­

firma a b u s c a de "infanti l i d a d e " no s e n t i d o de uma v i são "virgem"

do mundo: "A in fantilidade é uma longa conq uista"®® . Ao come ntar

s obre esta técnica, Millôr a a p r o x i m a da c r i a ç ã o de tip os cômicos,

s e ndo necessária muita c a u t e l a p a r a não romper "toda a mag ia da


í Í4

p e r s o n a l iz a ç S o "29

As com po si ções , que na ver dade mui to se a p r o x i m a m das d e ­

finições, p o dem ser o r d e n a d a s em tor no de c inco grupos, cada um co m

subespécies. 0 p r i m e i r o deles, a c r i a nça e suas circunstâncias,

co m preende c i n c o redações. 0 segundo, a c r i a n ç a e o seu c o n h e c i m e n ­

to do mundo, c i r c u n s c r e v e um n ú m e r o maior, c i n q ü e n t a e duas c o m p o ­

sições que r e t r a t a m a c r i a n ç a em r e l ação com outras p e s so as (doze),

com os fatos da vida ou com os o b j etos (trinta e sete) e com os

ani mais (treze). E n c o n t r a m o s aind a o u tras e s p é c i e s de r e d a ç ã o em

torno das d efiniç ões , das o b s e r v a ç õ e s e das p e r g u n t a s du vidosas. Em

quase to das v e r i f i c a m o s o p r o c e d i m e n t o t í p i c o das c o m p o s i ç õ e s , ou

seja, de se i n s t r u m e n t a l i z a r e m a t r avés do v erbo "ser". Em termos

precisos, sessenta e seis iniciam com o verb o "ser" e as outras

cinco com o u t r o s verbos.

Mil lôr manipula, como um a u t e n t i c o artesão, os m e i o s de

obter o riso, a t r a v é s de vário s recursos, é no r e c o n h e c i m e n t o da

intencionalidade de sses arranjos que se dá a c o n i v ê n c i a com o l e i ­

tor, s i n a l i z a d a pelo riso.

S i s t e m a t i z a r os pro cedi mentos, quer de natu r e z a ret óri ca,

quer estilí sti ca, não é de empresa fácil, c o n t u d o vamos e x p e r i m e n ­

tar fazê-lo sem m a i o r e s c o m p r o m e t i m e n t o s te rminol ógicos. 0 p r o c e d i ­

mento bási c o é a d i s s i m u l a ç ã o que se p r o c e s s a at ravés de uma táti c a

irônica. Pa ra e x e m p l i f i c a r essa técn i c a t r a n s c r e v e m o s uma das "con-

pozissõis", d e n o m i n a d a "A Tinta de Es crever": "A tinta de e s c r e v e r

é um líq uid o com que a gente suja os d e d o s quando vai fazer a li­

ção. A g ente p o d i a fazer a lição com lápis mas com lápis er a m u i t o

fácil e por isso a p r o f e s s o r a não deixa. A s s i m a _gente tem que t o ­


í15

mar m uito cuid a d o p o r q u e com tinta o e rro nunc a mais sai. E uma

coisa que eu nSo sei é como um vidrinho de tinta tSo pequeno pode
ter tanto erro de P o r t u g u ê * " 3 ® . (0 g rifo é nosso).
Esta t é c n i c a se e f etua atra v é s da c o n j u g a ç ã o de três e l e ­

mentos. a i n t e n c i o n a l i d a d e do escritor; o processo narrativo atra­

vés do n a r r a d o r - c r i a n ç a ; e o riso do leitor que s i n a l i z a a c u m p l i ­

cidade da leitura com a es critura. 0 p r o c e d i m e n t o é simples, parte

de uma prem issa séria e vai, g r a dativamente, i n t r o d u z i n d o no c orpo

da n a r r a t i v a uma d e s c o n t i n u i d a d e que r ompe a e x p e c t a t i v a do leitor

para inserir, numa e s p é c i e de e p i g r a m a ao final do texto, uma in ­

ver sã o de sentido. T r a t a - s e da " ir on ia retó r i c a " na acepção de

Heinrich I_ausberg3i, c o m p r e e n d i d a na sua inte n ç ã o de i nstaurar o

e s t r a n h a m e n t o e, por co ns eguinte, o riso. Essa t á t i c a p e r p a s s a toda

a obra m i l l o r i a n a com a l g u m a s m o d i f i c a ç õ e s e apr i m o r a m e n t o s , sobre­

tudo, nas "Fábulas" com o v e r e m o s adiante. Nas " C o n p o z i s s õ i s Imfã-

tis", o riso não se limi ta a esta técnica, s u r g i n d o ta mbém da p r ó ­

pria visã o inve rtida que t e m a t i s a t odas as n a r r a t i v a s e, mais a i n ­

da, da ironia verbal dos jogos de palavra s. Resu min do, esses p r o c e ­

dime n t o s são todos v a z a d o s na ironia: a narr ativ a, a temá t i c a e a

verbal. Como esta t é c n i c a é r e p e t i t i v a no livro em pauta, e s c u s a m o -

nos de al ongar as e x e m p l i f i c a ç õ e s . V amos a p enas indic ar que o p r o ­

cesso de p a r o n o m á s i a o c o r r e mais f r e q ü e n t e m e n t e nas " D e f i n issões"

("Uma bola é o que r o l a " ) 3 2 quando a a l t e r a ç ã o de bola para rola

ca usa o e s t r a n h a m e n t o e o risível. Ou, ainda, na c o m p o s i ç ã o "0 C a n ­

g u r u ” quan do o n a r r a d o r af irma que a b o l s a do c a n g u r u "não é a t i ­

racolo, é no próp r i o colo. Ah* A h !" 3 3


í Í6

0 "fazer a r tístico" em prosa do r i s í v e l / c ô m i c o m i l l o r i a n o

inve ste no p r o c e s s o paródico, que assume v a r i a d a s manifestações,

reveladoras de uma ambí g u a finalidade-, de v a l o r i z a ç ã o do antigo,

pelo e m p r e g o c o n s t a n t e das form as clás s i c a s de t r a n s m i t i r c o n h e c i ­

mentos; e de d e s m i s t i f i c á - l a s pelo uso in vertido do c o n t e ú d o dess a s

formas. T r a t a - s e de um a r t i f í c i o retó r i c o que põe em jogo a ambi­

güidade para o bter o e s t r a n h a m e n t o cau s a d o pela s formas arca i c a s

asso cia das , de m a n e i r a inusitada, a um d i v e r t i d o mund o às avessas,

surgindo o riso d e s s a d i s s o n â n c i a entre os planos da e x p r e s s ã o e o

do sentido. D e st a maneira, o e f e i t o de estr anhamento, que a f a s t a o

leitor pelo i n e s p e r a d o "do m u n d o ext erior" v e rsus o e s p e r a d o “do

mundo interior", m o tiva o riso. Entretanto, esse "c hoque p s í q u i c o "

de que nos fala L a u s b e r g ^ * é c a u s a d o de m a n eira doce, pel a p e r s u a ­

são s u ave e x e r c i d a pela r e t ó r i c a da ironia, daí i n s i s t i r m o s no riso

a ind a a l egre do cômico.

A p o é t i c a do risível em “Lições de um Ig norante" r e p o u s a

sua t á t i c a de o b t e n ç ã o do riso em m a n o b r a s diversas-, na p a r ó d i a das

fo rmas discursivas t radicionais; na inv er são do c o n t e ú d o das li ­

ções; e no a b s u r d o do p r o j e t o inicial: o ign oran te que se p r o p õ e a

dar lições. V a m o s começar, s e p a r a n d o essas técn i c a s e c o n h e c e n d o o

p o der de seu a p e l o ao riso. 0 t í t u l o já instaur a a atmosfera do

mundo às avessas, um " i g n o r a n t e ensina ndo ", o que nos r e m e t e a v á ­

rios e x e m p l o s d e s s a inversão. No m o m e n t o e s t a m o s l e m b r a n d o o quadro

de Brueg hel - "A P a r á b o l a dos Cego s " (1568) - um d o c u m e n t o exem p l a r

do m u n d o às a v e s s a s em que os c e g o s são guia d o s por cegos.

As epígr afe s, que se s u c e d e m à de dic atória, a Luciano

Carneiro p r o c e s s a m um jogo d i a l é t i c o entre " c o n h e c i m e n t o " e " i g n o ­


í 17

rância", risível pe la ine sp erad a e irônica n e g a ç ã o do saber. De um

lado, temos a irôni ca ci tação de um e p i g r a m a b í b lico con tido no

Eclesiastes, 1,18. ("Quem aum ent a o seu c o n h e c i m e n t o a um en ta a sua

dor")3S> E de o u t r o lado, inscreve, t a m b é m sob -forma ep ig ramá tic a,

o a u t o l o u v o r a sua igno rân cia ("Minha e s p e c i a l i d a d e e meu orgulho:

sou o m a i o r le igo do país")^6. Esse jogo irônico entre as c i t a ç õ e s

é f o r t a l e c i d o pelo se ntido das mesmas, e s t a b e l e c e n d o um e f e i t o c ô ­

mico c apaz de m o t i v a r um riso d i v e r t i d o que vai se acen t u a n d o e às

vez es se m e t a m o r f o s e a n d o - s e em s a t í r i c o no d e c o r r e r da leitura de

outros textos.

Em "Liçõ es de um Ign orante" t odos os t e x t o s são p e r p a s s a ­

dos pela iro nia que se inscreve na p r ó p r i a estrutura, "o i gnorante

que dá lições", ou nas técnicas r e t ó r i c a s de persuasão, ou ainda,

na t e s s i t u r a verbal. Mas todas ela s e x p r e s s a m a inversão que c a r a c ­

teriza t a nto o c ô m i c o quanto o satírico.

Um o u t r o p r o c e d i m e n t o usado, exp l i c i t a m e n t e , para a ob­

te nçã o do riso é a téc nic a da ironia repetitiva, re curso i t e r a t i v o

utilizado também em ambos os m odos do risível, tanto em nível de

estrutura de organ izaç ão, quanto em nível de espacial i d a d e . A p r i ­

meira constatação d essa r e p e t i ç ã o o c o r r e em nível intratextuai,

considerando-se que toda a obra de Millôr, p u b l i c a d a em livros, é

c o n s e q ü ê n c i a de um proc e s s o de recolha de t e x t o s que se e n c o n t r a v a m

i n seridos n o u t r o contexto, o da sua p r o d u ç ã o j o r n a l í s t i c a nas re­

v i s t a s "A Ciga rra" , "0 Cru zeir o" e "Veja". A r e p e t i ç ã o se c o nstitui

numa e s p é c i e de r e t ó r i c a interna, c o m a n d a n d o toda a c o n s t r u ç ã o p o é ­

tica de sua o b r a em livros, a s s u n t o que ire mos to car na últi m a u n i ­

dade deste trabalho. Vamos, como exemplo, demonstrar a adaptação


íí8

deste r e c u rso com a aju da de um dos te xtos do livro, e s c o l h i d o para

tal por nos parecer emblemá tic o, um quase m o d e l o em seus aspectos

de espacialidade i terativa e, sobretudo, considerando o sen tido

irônic o de seu conteúdo. Trata-se do t e x t o - a b e r t u r a do livro "Notas

de um ignorante", em que parodia, prim eira m e n t e , os p r e f á c i o s c o n ­

f e ssionais e traça, no decorrer da "Nota", o perfil de sua i g n o r â n ­

cia, u s ando o recu r s o retórico, agora sob um p r i s m a lúdico do d i s ­

curso, o da r e p e t i ç ã o irônica de uma expre ssã o. 0 mote é a cult u r a

de seus am igòs e c o n h e c i d o s diante da qual o narr ado r, e s t a r r e c i ­

do, para e se pergunta, rep etidas vezes, com p e q u e n a s alterações,

at ravés do refrão: "que fiz dos meus anos de vida"3^.

0 monólogo-confissão é d u p l a m e n t e irôn i c o à m e did a que

parodia, não o i gno r a n t e que tudo sabe, mas o s á b i o que se interro-

ga.

A ordenação r e petitiva se e f e t u a por uma sequência de

quatr o i n t e r r o g a t i v a s ex plícitas, com ligeiras va riações: "Que fiz

eu de minha v i d a ? " / ”Que fiz e u ? ”/ “Que fiz de m i nha v i d a ? " / " Q u e fiz

eu de m i nha vida ?"

O u tro e f e i t o c ô mico é o da d i s p o s i ç ã o i n v e r t i d a da ordo

natural is para obter—se o risível pela in ver s ã o i n e s p e r a d a do final

e, com ela, o e f e i t o do estr anhamento, é o que a c o n t e c e no fim p a ­

radoxal da c r ô n i c a supra cit ada , quando o n a r r a d o r d e c l a r a só lhe

restar "uma c o n c l u s ã o a que du rante anos r e c u s o u por o r g u l h o e ver—

gonh a - sou, por n a t u r e z a e formação, um h u m o r i s t a . "

Bergson, no seu livro "O.riso", nos fala s o b r e os p r o c e s ­

sos u t i l i z a d o s p e l a comédia: a repetição, a inversão e a interfe­

rê ncia de séri e s que t a nto ap are c em em nível da situação- quanto em


í 19

nível de p a l a vras^.. Est es r e c u r s o s r e t ó r i c o s e e s t i l í s t i c o s sã o

usados, igualmente, na l i t e r a t u r a séria. Estam os lemb rando o ubi

sunt^?, a r epetição cuja ê n fase p r o d u z o e s t r a n h a m e n t o que tanto

s erve p a r a obter a te nsão do dr amático, quanto a d i s t e n s ã o do c ô m i ­

co e do sat í r i c o .

Em Millôr esta t é c n i c a surge, às vezes, aprimorada em

conjugação com a paródia satíri ca. Na c r ô nica "0 . banh eiro ", ao

e f e i t o i r ô nico da r epet ição a l i a - s e a e x p r e s s ã o p a r o d í s t i c à "o c a s ­

telo do h o m e m é seu banheiro", que d e s s a c r a l i z a o topos da t r a d i ç ã o

popular, a casa como o c a s t e l o do homem.

A crônica inicia com a i r onia diss imulada, "Não é o lar o

último rece s s o do h omem ci vil izad o, sua úl tima fuga, o derradeiro

recanto em que pode e s c o n d e r sua s m á g o a s e dores. Não é o lar o

castelo do homem. 0 c a s telo do h o m e m é seu banh eiro"^®. E p a r t i n d o

dess a ú l t i m a assertiva, vai, num len to e inc idi oso p r o c e s s o de p e r ­

suasão, repetindo, ironicamente, c o m ligeir as variações, as e x p r e s ­

sõ es adv erb iai s: é ali... / ali e só ali, / Aqui é que... / é nes­

se... / é aqui.... / é aqui... / aqui nimguém... / aqui n e s t e p a l ­

co... /. E no final, a m arc a c o m u m a todas as crôn i c a s que c o m p õ e m

este livro, a té cni ca e l a b o r a d a de inversão, do d e s f e c h o i n e s p e r a ­

do: "Xan tipa, que diabo, me joga e s s a toalha". Aqui oco rre o c r u z a ­

mento c o m out ro recurso retórico, ou seja, a ide n t i f i c a ç ã o de sua

p o s t u r a r e f l e x i v a com a s o c r á t i c a a t r a v é s da a l usão a Xantipa.

Outro ex emplo da t é c n i c a de r e p e t i ç ã o e n c o n t r a m o s na c r ô ­

nica "Ser Gagá"^* que é uma p a r ó d i a s a t í r i c a da c r ô n i c a de Paulo

M e n d e s Campos, "Ser Brotinho". T e x t o que M i l l ô r usa r e p e t i d a s veze s

em o u t r o s livros, comò em "Trinta- A n o s de Mim Mesm o" e na peça “0


Í2<ò

Homem do P r i n c í p i o ao Fim". A c r ô ni ca a p r e s e n t a r itmo e a tmosfera

tí pico s do c ô m i c o grotes co, à medi da que o tema sério, a velhice, é

enfo c a d o de forma c ari c a t u r a l e satírica. C a d a um dos seis p a r á g r a ­

fos que c o m p õ e o t e x t o se inicia com uma das v a r i a n t e s do "Ser Gagá

não é v i v e r a p e n a s nos idos do passado: é m u i t o mais!"

E, assim, vai repetindo, agora sob forma afirmativa:

"Ser G a g á é ficar pens a n d o o di a in te i r o como seria bom

ter tr inta anos ..."

"Ser G a g á é sentir p l e n a m e n t e que tudo que se l e u . .

"é se apegar, d esespera damente, p e l o t r e m e n d o impulso da

e x s t ê n c i a ..

"Ser G a g á é procura r com afã a i m p o r t â n c i a do car go para

ser

Aqui também pode mos c o m p r o v a r a c o n s t a t a ç ã o da técn ica

m i l l o r i a n a de c o n c l u i r ca da texto ou su bt exto, com a ironia de s a l ­

to, a " vira da" que usa com m a e s t r i a no final da c r ô n i c a paródia:

"Ser Gaga é fogo. Ou melhor, é m uito frio". 0 e m p r e g o da e x p r e s s ã o

p o p ular "é fogo" p r o v o c a uma invers ão do e f e i t o g r o t e s c o do te xt o

para o e f e i t o cômico.

Uma o u t r a técn i c a u t i l i z a d a por M i l l ô r é a ironia r e t ó r i ­

ca cuja t á tica c o n s i s t e em obter um p a s s a g e i r o ma l-entend ido, ú a

ironia que usa a c o n f i s s ã o em um lúdi co j o g o de dize r uma coi sa p a ­

ra o bter um o u t r o e f e i t o a ser desfeito, com rapidez, pelo riso.

Vejamos um exemplo-.

"E c o n t i n u o aqui_, p e q u e n o e fraco, mas semp r e o f e r e c e n d o

meus s e r v i ç o s à g r a n d e caus a da P a z : da paz dom ést ica , da s a n t i d a ­

de, d o amcrr filiar, fraternar, c o n j u g a r - pra nã o falar dos outros.


Í2Í

Po ssuo a l g u m a s virt u d e s cardeais; que o cardeal me perdoe. Sou m a n ­

so, mas n ã o manco. Sou terno, e us o ternos. Sou -famélico e como

pouco. Sou p r e c i s o no amor e sei onde me ponho. Mae afinal, me d i s ­

se o Papa, o s en h o r está aqui para se c o n f e s s a r ou para se g a b a r ?

Minhas qualidades, ah, são m e n o s qu alidades do que um a

pr esunção. M i n h a educaçaõ, meu p r o c e s s o de luta, meu ato de v iv er -

tudo uma c o m é d i a de erros, embor a uma felicidade: é preferí vel pois

uma c o m é d i a de erros a uma tragédia de acertos. Ofer eço-vos, assim,

irmãos m e u s e leitores, o si mples c o r o l á r i o de tudo em que corolo.

Oas v e r d a d e s que digo verda des n ovas serão, nat ura lm ente , deduzi­

das. A s s i m c o m o quem diz: o p r e ço do favor c u m p r i d o é a obrigação

de fazer n o v o s favores"*®. (Os g r i f o s são nossos).

No c orpo da "confissão" o c o r r e m o u t r o s recursos, c o m o o

da afirmação c o m p o s t a de dois s e g m e n t o s que se contrapõem: "Sou

manso, ma s nã o manco", ora pela s i m p l e s m u d a n ç a de uma letra (man­

so/man co) , ora pela mudan ça de sentido: "ter no e te rnos" / "car­

deai s e car dea l". Em todos, um m e s m o jogo e n t r e o som e o sentido

propiciado p e l a p a r o n o m á s i a com função irônica. Aqui tamb é m a i r o ­

nia de s a l t o ou "virada", que c a r a c t e r i z a o final de todos os s e g ­

men to s do t e x t o e cujos exempl os p o d e m s e r e m c o n s t a t a d o s na leit u r a

do f r a g m e n t o textual que r e p r o d u z i m o s acima, e no qual g r i f a m o s o

p r o c e s s o de inversão.

O u t r o re cur so ret óri co é a defin içã o, ta mbém e m p r e g a d a do

ponto de v i s t a literário, seg un do Lausb erg, co m o o b j e t i v o de m o t i ­

var o e s t r a n h a m e n t o e o c o n s e q ü e n t e a f a s t a m e n t o do leitor em r e l a ­

ção ao u n i v e r s o do risível. De modo geral, o seu uso na lit e ratura

está e n t r e l a ç a d o com a poes ia de c a r á t e r a l e g ó r i c o ou com o teatro-


í22

poético. Mill ôr faz d essa técn i c a um uso e x t r e m a m e n t e repetitivo.

Em "Trin ta Anos de Mim Mesmo", o autor regi s t r a o s u r g i m e n t o delajia

seção "M os ai cos " uma das v á rias seções que c o m p u n h a m as duas p á g i ­

nas d'"0 PIF- PA F" da r e v i s t a “0 Cruzeiro", nos idos de 1954.

A d e f i n i ç ã o faz p a r t e da c o m p r e e n s i b i 1 idade sem ântica, e

Millôr a empr e g a com uma t é c nica especial, que iremos d e s c r e v e r em

rápidos traços até p o r q u e ela é faci lmente rec onhecida, o que d i s ­

pensa maiores explicações. P a r t i n d o de uma colocação, a definição

propriamente dita, o n a r r a d o r vai g r a d a t i v a m e n t e m u d a n d o o sent i d o

sério para introduzir, lentamente, a deformação da significação

or iginal até c h e g a r ao ú l t i m o parágrafo, quando p e l o p r o c e s s o da

in ve r s ã o irônica, c h ega a uma c o n t r a - d e f i n i ç ã o que age no sentido

de invertê-la, de de turpá -la, como te rem os a o p o r t u n i d a d e de ver

ma is a d i a n t e .

Assim, vejamos e sses p r o c e d i m e n t o s em - "A Máquina da

Justiça e suas P eças P r i n c i p a i s " * ^ - um c o n j u n t o fo rmado por d e f i ­

nições que como o nome indica, se e ixam no s i s t e m a judicial : o

juiz, o juri, a vitima, o promo tor , o a d v o g a d o de defesa, o delega­

do de polícia, o réu, a ò p i n i ã o públ i c a e a testemunha. A forma é a

definição ("finitio") que t r a d i c i o n a l m e n t e a lit e r a t u r a us a com a

"intenção de p r o v o c a r o est r a n h a m e n t o " , e que aqui é c o l o c a d a pa ra

produzir o riso satírico. P a r a e x e m p l i f i c a r como se p r o c e s s a essa

t é c n i c a d i s c u r s i v a do risível, vejamos a d e f i n i ç ã o de Juiz:

"0 Juiz é um h o m e m acima do bém e do m a l . P e l o m enos no

sen_t ido legal da palavra. Agora, se a l e i t iver e s t a b e l e c i d o que o

bem é o mal e vi ce- versa, c o m o tanta s vezes acontece, o Juiz deixa

de fazer parte do s u b s t r a t o na i m p a r c i a l i d a d e h u mana já que a lei é


í £3

dura mas é lei. Donde se pode dizer que nada p r e j u d i c a mais à n a t u ­

rez a huma n a do que o D i r e i t o R o m a n o .

0 p r o c e d i m e n t o c o n s i s t e em in st aura r um d i s c u r s o do

ro c o nceitual-sério, que p ouco a pouco vai i n v e r t e n d o a sua d i r e ç ã o

discur siv a, para c o n c l u i r com uma a f i r m a ç ã o d i s j u n t i v a da inicial,

na visível conc l u s ã o de que o Dir eito em vez de ajudar, é prejudi­

cial ao homem.

Em "Técnica e é tica do Cho fer de P r a ç a " 4^, deparamo-nos

com uma série de v á r i a s n o rmas sobre a sinalização, a m a n u t e n ç ã o do

veículo, os modos c o r r e t o s de pegar os p a s s a geiros, as t é c n i c a s de

r e l a c i o n a m e n t o com os mesmos, a v e r i f i c a ç ã o do taxímetro, as g o r j e ­

tas e sua recepção. Só que o c o n t e ú d o é t i c o de todo s os ar ti gos

d e ste c ó digo de t é c n i c a profissional estão o r g a n i z a d o s s a t i r i c a m e n -

te às avessas. E aqui, c o m o em to dos os o u t r o s textos, d e p a r a m o s a

m esm a té cnica de finalizar, ou seja, com uma e s t r a n h a e inve r t i d a

pr opos içã o.

Assim vejamos, no artigo p r i m e i r o d este c ó d i g o de T é c n i c a

e á tica do Chofer de P r a ç a •.

"Todo bom c h o f e r de praça deve s aber que, èm a l g u m a s in ­

terseções de ruas, e x i s t e m si na is s e m a f ó r i c o s d e s t i n a d o s a c o n t r o ­

lar o tráfego. C o n v e n c i o n o u - s e que quan do e s ses s i n a i s m o s t r a m a

luz v erde o c arro pode avançar; quando e x i b e m a luz a m a r e l a os c a r ­

ros d e vem ficar em at enção, e que quando e s t ã o no v e r m e l h o os c a r ­

ros d e vem parar. Mas um bo m cho fe r p ro f i s s i o n a l usa s e m p r e um p r o ­

cesso especial pa ra s a b e r quando deve avançar. Es se p r o c e s s o con­

siste em o b s e r v a r os pedestres. Qu an d o um ou ma i s d e l e s s a em da

calcada, e atingem exatamente o c e n t r o da rua, é h o r a de dispa­


í 84

r a r . " 4 ^ (0 g r i f o é nosso).

Marcamos no texto o seu final, c o n s t r u í d o na o b s e r v â n c i a

desse s a l t o de inversão ir ônica e satírica.

Cada modo do risível em sua o r g a n i z a ç ã o textual, compõe-

se de um c o n j u n t o de livros e c a d a um deles, por sua vez, reúnem

vár io s textos, ficando m uito difícil acha r um livro c o m p l e t a e a d e ­

q u a d a m e n t e e n q u a d r a d o em um modo. A n o s s a a t i v i d a d e de leit ura b u s ­

ca d e s c o b r i r em cada um dos modos do r i s í v e l , além dos tr aç o s d i s ­

tintivo s, a mola p r o p u l s o r a do r i t m o cômico, do s a t í r i c o e do " h u ­

mor". Os tex tos de "L ições de um I g n o r a n t e ”, por exemplo, oscilam

entre duas inte nçõ es fundamentais, o d e s p r e z o do c ô m i c o e o s a r c a s ­

mo do sa tírico. Na sua quase totalidade, o satí r i c o de M i l l ô r F e r ­

n a n d e s d i r i g e - s e cont ra o pode r p o l í t i c o e a todas as formas de p o ­

der o p r e s s o r a s do homem, d i f i c i l m e n t e a t a c a n d o o povo. Mas aqui e

ali e s c a p a m farpas e s a r c a s m o s d i r i g i d o s tam bém a s i s t e m a s p e r i f é ­

rico s do p o d e r ou mesmo a algun s t i p o s populares, como é o c a s o dos

motoristas de praça, é o que ocorre, ainda, em al guns textos de

"L içõ es de um Ignorante", como "A arte de e s c r e v e r uma carta", onde

u t i l i z a a t é c n i c a da d e f i n i ç ã o irônica p a r a s a t i r i z a r o h á b i t o p o u ­

co c o m u m e n t r e os b r a s i l e i r o s de se c o m u n i c a r e m por e s c r i t o e, s a r ­

casticamente, solicita a seus leitores que usem p r e f e r e n c i a l m e n t e a

"útil e s i n g e l a m i s s i v a " 4 7 . Na crôn ica , "Brasil, p a í s comunista"

utiliza uma sel eção de palav r a s tais como: p r o p r ie dade, esquerda,

arte diri g i d a , ascensão do pro l e t a r i a d o , m a t e r i alista, r e v olta p e r ­

manente, t r a b a l h o forçado, campos de c o n c e n t r a ç ã o , t odas de c o n o t a ­

ção id eológica, b u s c a n d o através d e l a s s a t i r i z a r o ja rgão p o l í t i c o

das e s q u e r d a s 4®. L e v e m e n t e s a t í r i c a s t a m b é m são as crônicas: "La-


d r õ e s e como t r a t á-lo s"; "Con se lhos Grã -Finos" e " Impressõe s",

E s t a m o s d a n d o aqui ap enas uma d e m o n s t r a ç ã o s u m á r i a de d i-

versos procedimentos p o é t i c o s e r e t ó r i c o s do riso e do c ô m i c o em

M i l l ô r F e rnandes.
í 26

N OTAS DI VE R SA S

*Cf. ABBAGNANNO, Nicola, D i c i o n á r i o de Filosofia. Trad. Alfredo

Bosi. 2. ed . São Paulo: Edit o r a M e s t r e Jou, 1962. p .495

2|_IPPS, Teodoro. Los F u n d a m e n t o s de La Estética. B i b lioteca C ien-

t í fico -Filo sóf ica . T r aduccion de t e r c e r a edic i ó n alem ana a p r ó l o -

go de Edua r d o O v e j e r o a Maura M a d r i d . Daniel Jorro Editor, 1923.

P 557 ,

^Estamos e v i t a n d o d e l i b e r a d a m e n t e c riar n ovos term os para d e s i g n a r

as linhas d i f e r e n c i a d a s dò teat ro de M i l l ô r Fernandes. Assi m nos

apropriamos de dois t e rmos t r i b u t á r i o s da teor i a de Baudel air e, o

cô mi co s i g n i f i c a t i v o e cô mico grotesco. 0 p r i m e i r o como sinônimo

do cômico p r o p r i a m e n t e dito, liga n d o - s e ao u n i v e r s o ridículo e

quase alegr e dos seus t e xtos de c o m é d i a e f a r s a . Já o te rmo c ô m i c o

grotesco, de a p r o p r i a ç ã o mais ab ra ngen te, c o r r e s p o n d e aos t ext o s

da segunda fase que vão além do r i d í c u l o do h o m e m para in serir

questionamentos s obre a c o n d i ç ã o humana, m i s t u r a n d o o séri o e o

risível.

^Est a m o s usan do a e x p r e s s ã o " d e s d r a m a t i z a ç ã o " na mes ma d i m e n s ã o s e ­

mântica que lhe foi a t r i b u í d a por Jean Sareil para de signar a a u ­

sênc ia de u n i d a d e dramática, substituída, no cômico, pela multi­

pli cidade. Esta p l u r a l i d a d e de p e r s p e c t i v a faz com que o c ô m i c o se

processe por p u l o s e saltos, o que gera d i s t a n c i a m e n t o e ambiglii-

_ dade: diver te e c a u s a desprazer. Cf. SAREIL, Jean. L ' á c r i t u r e Co-


i 27

inique. Paris: Presses U n i v e r s i t a i r e s de France, 1984. p p . 44-49.

^Da n o ç ã o da c o r r e s p o n d ê n c i a ent re o individual e o social, e das

suas reciprocas int erdependências, Ad orno nos forn ece uma aguda

a n á l i s e no seu ensai o Líri c a e Soc iedade. Cf. Os P e n s a d o r e s Trad .

Jos é L i n o Grünnevald. São Paulo-. Abril Cultural, 1980.

^ C f . F E R N A N D E S , Millôr. è... P orto Alegre: L & P M , 1978. p . 160.

^Idem. Flávia, Cabeça, T r onc o e Membros, p . 3.

ÔFER N A N D E S , Mill ôr Do Tam a n h o de um Defunto, in T e a t r o de Mil lôr

Fern a ndes. Rio de Janeiro-. E d i t o r a C i v i l i z a ç ã o B r a s i l e i r a S.A.,

1957. p . 95.

^Idem, ibidem, p . 149.

l®Idem, ibidem, p . 134.

Ibidem, ibidem, p . 163.

l®Idem, ibidem, p . 134.

Ibidem, ibidem., p . 163.

Hldem. Pig mal eoa . São Paulo. E d i t o r a Bras ilie nse , 1965. p . 43.
í 28

leidem, ibidem, prefácio, p.VI.

*6 FERNANDES, Millôr. Pigmaleoa. Sã o Paulo. Ed it ora Brasi lien se,

1965. p .67.

*7 Idem, ibidem, p .67 .

*®Idem, ibidem, p . 70.

*9 Ide m, ibidem, prefácio, p.V.

8 « 1 dem, ibidem, prefácio, p . VI.

Wildem, ibidem, prefácio, p . VI.

22ldem, ibidem, prefácio, p .XI .

230 ti tulo indicia, a priori, a i n t e r t e x t u a l i d a d e com P i g m a l e ã o d e

Bernard Shaw, de quem Mil lôr s e mpre se c o n f e s s o u admirador. 0 tí­

tulo da peça liga-se ao mito de P i gmaleão, len dár io Rei de Chi­

pre. 0 tema foi a p r o v e i t a d o por W.S. Gilbert na co média "Pi gma -

1 ion and Galatea". 0 cinema fez a a d a p t a ç ã o musical da peça de

Bernard Shaw no filme "Ma Fair Lada" de G e orge Cukor em 1964. Cf.

HARVEY, Paul. D i c i o n á r i o Oxford de L i t e r a t u r a Clássica. Trad.

Mári o da Gama Kura- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda.,

s/d .
í 29

S^ FERNANDES, Millôr. Um E l e f a n t e no Caos, prefácio, p ,16 .

25jc|em C o n p o z i s s S i s Imfitis, p 8.

S^idem. Tri nta An os de Mi m Mesmo, p . 20.

Saldem, ibidem, p .232.

2®Idem. C o n p o z i s s S i s Imfãtis, p . 7.

Saldem. T r i n t a Anos de Mim Mesmo, p .232.

3®Idem. C o n p o z i s s S i s Imfãtis, p . 17.

3*La usb erg , ao tratar dos tro pos de salto, o faz distinguindo a

alegoria e a ironia, esta como tropo de p e n s a m e n t o que e m p r e g a a

t é c n i c a de ação como arma de e n gano na a l t e r a ç ã o da s i t u a ç ã o in i­

cial. Cf. L A U S B E R G , Heinrich. E l e m e n t o s de R e t ó r i c a Literária.

Trad. R.M. R o sado F e r n a n d e s . 2 . e d . Lisboa: F u n d a ç ã o Gulbenkian,

1972. p . 249-254.

3®F ERNANDES, Millôr. C o n p o z i s s S i s Imfãtis, p .30.

33ldem, ibidem, p .62.

3*Lausberg defi n e o e s t r a n h a m e n t o como um e f e i t o p s í q u i c o exercido

no i n d i v í d u o pelo ines p e r a d o do mundo e x t e r i o r (contexto), e s c l a ­


í 30

r e c e n d o que a qual idade geral do ines per ado é a v a r i a ç ã o que p r o ­

vo ca acréscimo de c o n h e c i m e n t o s e de v ivências afetiva s. Esse

efeito de e s t r a n h a m e n t o se i d entific a com o distanciamento de

Brecht. Cf. Obra citada, p . 112.

3 S FERN AND ES, Hill.ôr. L i çSes de Um Ignorante, p . 6.

3^Idem, ibidem, p . 6.

S a l d e m , i b i d e m , p p . 9- 1 4 .

38b er gS0N, H e n r y . 0 Riso, p .63.

3?CURTIUS, Ernest Robert. L i t e r a t u r a E u r o p é i a e Idade M é d i a L a t i ­

na. Trad. T e o doro Cabral. R i o de Janeiro: Insti tut o Naci o n a l do

Livro, 1957.

*®FE R N A N D E S , ibidem, p p . 15-18.

**Idem, ibidem, p p .128-131.

*2jdem, ibidem, p . 174.

* 3 i d e m , i b i d e m , p p . 113- 1 1 6 .

**Idem, ibidem, p . 113.


r/0 fec<3 Un;

O RISO E
T O SATÍRICO

e:m m i l l ô r r e r n a m d e s

A
4®Idem, ibidem, p p .64-69.

4 ^Idem, ibidem, p .65.

4 7 Idem, ibidem, p.3i.

4 ®Idem, ibidem, p .80.


Companheiros de p rofissao
cuidado com a Sátiras ela
pode g lor i-Ficar . . .

Mil loi- Fernandes


Col ocacões Inxc iais

S a b e m o s que a r e l a t ividade é inerente a toda pesqu isa s o ­

bre c o n h e c i mento. Assim, não deve caus a r e s t r a n h e z a ao leitor se,

ao t r a t a r m o s de tão v a s t o assunto, u t i l i z a r m o s a a p r e s e n t a ç ã o es­

quemática. F o r a m c i r c u n s t â n c i a s d i v e r s a s que nos o b r i g a r a m a a s s u ­

mir essa po stura, e m b o r a o nosso t r a b a l h o tenha sido fruto de uma

longa e m i n u c i o s a investigação.

Daqui para a frente iremos p e r c o r r e r um e s paço a m b íg uo e

ambiv alente, pois v amos abo rdar um tema - o s a t í r i c o - que todos

s e n t e m o que é, má s p o u c o s sabem como ele é.

Na verdade, os conc e i t o s de " s atíri co" e "sátira" p a r e c e m

tão claros, tão evid ente s, que a tar ef a de d e l i m i t á - l o s pode c o n f i -

gurar-se desnecessária. Ao falar-se de sátira, s u p o m o s que todos

sa ib am de que se trata. Entretanto, se c o t e j a r m o s al gu m a s aborda­

gens t e ó r i c a s a r e s p e i t o do assunto, e x p e r i m e n t a r e m o s d i f i c u l d a d e s

em e s t a b e l e c e r a c o r d o sobr e os seus e l e m e n t o s def ini dor es. A a p r o ­

priação des ses dois termos pelo uso cor rente, s o b r e t u d o do s a t í r i ­

co, j o g a - n o s no t e r r e n o in sid ios o do m ú l t i p l o e do impreciso.

Os romanos, in ventores da s á t i r a como forma, c o n s i d e r a m -

na liga da à m i s t u r a de c o isa s h e t e r o gêneas , mas o orgu l h o que move


í 35

a a f i rmativa de Q u i n t i l i a n o ( "« atira tota nost r a •st"), s obr e a g ê ­

nese da sátira e a s u p e r i o r i d a d e da poesia satí r i c a em Roma, repou­

sa num equív oco de ap ropriação, pois não se dava c onta do s alto d i ­

f e r enciado entre a o r i g i n a l i d a d e e a adaptação.

A p r u d ê n c i a a c o n s e l h a a não nos e n r e d a r m o s no d i s c utível

problema da gênese da sátira. Porém, esta impr e c i s ã o pode ser a m e ­

nizada se fizermos d i s t i n ç ã o e n t r e a sátira, como forma s u b s t a n t i ­

va, e o satírico.

Parece inq u e s t i o n á v e l que a sátira como forma lite r á r i a

be m definida teve sua o r i g e m no m u n d o romano, s o b r e t u d o se c o n s i d e ­

rar mo s o seu c a r á t e r mor a l i z a n t e , freq üentemente d e s t a c a d o pelos

es t u d i o s o s do gênero. Os p r i m e i r o s satír icos r o m anos fora m Lucílio,

Uarrão, Horáçio, Marci al e Juvenal, mas as raíz es da s á t i r a pod em

recua r à satura*, r e p r e s e n t a ç ã o em que se m e s c l a m cantos, danças,

d e c l a m a ç õ e s em p rosa e em verso; à carmina, cantos p o p u l a r e s a m o r o ­

sos e sarcásticos; à atelana, em sua essên cia farsesca; ao f as ce ni -

no, em sua li ce nciosidade.

Contudo, a favor da o r i g e m grega, temos as h i p ó t e s e s de

que sua gênese r e p o u s a no d r a m a satírico; na p a r á b a s e da comédia

velha, p r i n c i p a l m e n t e de Arist ófanes; nas d i a t r i b e s de Bion e Men i-

po; e na poesia de e s c á r n i o de A r q u í l o c o e Hipônax.

Tão impr e c i s o e t r a i ç o e i r o quanto a a b o r d a g e m da gênese,

é o pr ob lem a da d e f i n i ç ã o da s á t i r a e do satírico, principalmente

se levarmos em c o n s i d e r a ç ã o que a m b o s es tão ligados à d i s s o n â n c i a e

ao desprezo, o que os a p r o x i m a m u i t o do cômico.

Mas em c o n s o n â n c i a com os p r o c e d i m e n t o s a d o t a d o s na u n i ­

da de do cômico, t a m bém aqui a p r e s e n t a r e m o s d i a c r o n i c a m e n t e as re-


í 36

flexões sobre o s a t í r i c o e a sátira, sem c o n t u d o nos alo n g a r m o s

muit o .

No m u n d o grego, Platão, no "Banquete", fu nde as no ções de

cômi co e satírico, mas Aristó tele s, na "Poética", a s s o c i a o s a t í r i ­

co a ações ign óbeis que se p r o c e s s a m a t r avés do vitu péri o. A s s i n a ­

la, ainda, que t a n t o a c o m é d i a quanto a t r a g é d i a só a d q u i r i r a m e s ­

tilo pr óprio quand o se a f a s t a r a m dos "arg u m e n t o s b r e v e s e da e l o c u ­

ção grote s c a do s a t í r i c o “2 .

Já no m u n d o romano, Horác io ("ri dendo d i c e r e verum") e

Juvenal ("riden do cmstig at mores") afi rmam ser a v e r d a d e a matér i a -

prima da sátira, ao m esmo tem po que d e l i n e i a m as duas vertentes: a

otimista, hor acia na, e a pessimista, juv enalesca. A primeira corri­

ge, a s e g unda destrói.

Bem mais tarde, Spinoza, em sua "ética", ao definir a

derrisão, nos p e r m i t e i d e n t i f i c á - l a ao satírico, a mbos como a n e g a ­

ção e a d e s t r u i ç ã o d a q u i l o que odiamos. Na r e t o m a d a da p e r s p e c t i v a

latina, Boi leau c o n f i r m a a o r igem roman a da sátira, "ar mada da v e r ­

dade", nos v e r s o s de Lucílio, Horácio e Juvenal. Já no início dá

mod ernidade, Baudelaire, nos seus "Esc ritos s obre Arte", c o n f i r m a o

cará ter d e m o l i d o r do satírico, i d e n t i f i c a n d o - o com o p e n s a m e n t o de

Voltaire. Mais p r ó x i m o de nós, Bakhtin inclui na l i t e r a t u r a carna -

valizada, aquel a que, d i r e t a ou indi reta men te, está ligada ao " f o l ­

clore carnavalesco (antigo ou m e d i e v a l )"3, a s á t i r a menipéia, o

d i á logo s o c r á t i c o e a diatribe.

Contudo, e stas refl e x õ e s não c h e g a m a a t i n g i r a e s s ê n c i a

da sátira. Por isso, tere m o s que reco r r e r aos t e ó r i c o s modernos p a ­

ra delin e a r o seu perfil. -


í 37

Para Gilbert H i g h e t , a sá tira p inta pessoas, freqüente­

m e n t e em c o r e s sombrias, mas com "um míni m o de c o n v e n ç ã o e um m á x i ­

mo de realidade", u t i l i z a n d o uma li ngu agem corajosa, viva e atual.

S e g u n d o o autor, "a sát ira é livre, fácil e direta", a s s u m i n d o três

forma s m a i s importantes: o monólogo, a p a r ó d i a e a narrativa^.

Já na vi são de Ma thew H o d g a r t , a s á t i r a não é uma c a t e g o ­

ria bem de fini da, mas uma e x p r e s s ã o de s i g n i f i c a d o m uito amplo, não

se l i m i t a n d o ao âmb it o da literatura. Para ele, a estranha mobili­

dade da s á t i r a faz com que ela não se es tr atifique. Contudo dois

elementos se associ am em ca r áter p e r m a n e n t e na sua essência-, a d e ­

form a ç ã o e a inversão.

Por out ro lado, André J o lles a c e n t u a o cará t e r d e s t r u t i v o

da s á t i r a e a define como a " z o m b a r i a d i r i g i d a ao o b j e t o que se r e ­

pr e e n d e ou se rep rov a e que nos é es tra nho" ^. Destaca, assim, o

d e s p r e z o e o d i s t a n c i a m e n t o que o o b jeto s a t i r i z a d o p r o v o c a no le i­

tor.

Entr eta nto , Ar thur P o l l a r d a c e n t u a que a s á t i r a te m o o b ­

jetivo p r e c í p u o de d e s p e r t a r no leitor o e s p í r i t o de c r í t i c a e de

co n denação, é o faz p r o v o c a n d o e m o ç õ e s que vão do desprezo, passan­

do pe la raiva, até o ódio. 0 s a t i r i s t a b u s c a o riso no e x a g e r o do

ridículo6 .
j.38

Sátira e satírico-, uma aproximação

0 nosso o b j e t i v o n e s t a unid a d e é fundar, e s t a b e l e c e n d o os

limite s e s u b l i n h a n d o os c a r a c t e r e s disti ntiv os, os e l e m e n t o s de

e s s e i d a d e da sátira e do sat írico, termo s que se e n t r e l a ç a m à m e d i ­

da que o satíri co é, ao m e s m o tempo, essê n c i a e d i l u i ç ã o da sátira.

Na a n t i g u i d a d e c l á s s i c a latina, a s áti r a se f ormaliza num

gênero, ao pã sso que o s a t í r i c o tem a sua orig e m na c u l t u r a grega,

disseminado em v á r i a s o u t r a s e s p é c i e s literárias. P o r é m a mbos a t a ­

cam diretamente, pela d e f o r m a ç ã o carica tur al d a q u i l o que desejam

desmoraíizar. A sátira, c o m o vim os an ter ior mente, manifesta-se em

du as vertentes, a a m e n a de H o r á c i o e a c o n t u n d e n t e de Juvenal, mas

a mbas se p o s i c i o n a m c o m o g u a r d i ã s da verdade, po is o a s p e c t o mora-

liza nte é s i g n i f i c a t i v o na c u l t u r a latina. 0 satírico, ao contrá­

rio, se re la ciona a s e n t i m e n t o s de ódio e de des truição.

Na mo de rnidade, a p a r t i r da ruptura e f e t u a d a p ê l o s r o m â n - .

ticos, a sátira não e s t á mais p resa a uma forma l i t e r á r i a e s p e c i f i ­

ca, e tende mes mo a d e s a p a r e c e r , dando e s p a ç o ao sat íric o, é inte­

ress a n t e observ ar que h o j e em dia o s a t í r i c o p a r e c e se aproximar

daquele e xistente na c u l t u r a grega, à medi d a que a m b o s se descom­

prometem com a m o r a l i d a d e , a favor da ética. Mas c o m o em todos os

m o dos do risível há s e m p r e um cará t e r de d e s a p r ovação, consideramos

necessários algun s e s c l a r e c i m e n t o s para l e l o s s o bre moralidade e

ética. Para d e s a p r o v a r é n e c e s s á r i o "ter", ou por r e f l e x ã o própria,

ou por inf luê nci a social, um padrão, um m o d e l o de valor, que se e s ­

p e r a enco ntrar em u n a d e t e r m i n a d a circunstância^ . De m a n e i r a geral,


í 39

podemos s e p a r a r na sát ira duas posturas, fun dam entadas, a prim eir a

na m o r a l i d a d e e a segunda na ética. Quan d o a p r o x i m a m o s os dois t i ­

pos de com p o r t a m e n t o , não e s t amos c o n s i d e r a n d o a m o r a l i d a d e jud aic o

-c rist a, mas apenas o padr ã o do "•thos" social. L e m b r a m o s que Mil-

lôr a f i r m a jama i s ter escr i t o uma moral mo ralizante®.

Mas, r etomando as n o ssas reflexões, vamo s e s q u e m a t i z a r os

t r a ç o s i d e n t i f i c a d o r e s do satírico. Ele é c o n s t r u í d o s obre uma p r e ­

mência no a p u r a m e n t o da n a t u r e z a huma n a e da soc iedade, e se pro­

cessa a t r a v é s de inversõ es e d e f o r m a ç õ e s que ma nifestam, indireta­

mente, a su a int e n c i o n a l i d a d e a g r e s s i v a e destrut iva.

No jogo c o n t r a s t i v o e ntre a ide a l i z a ç ã o do "eu" satír ico

e a r e a l i d a d e do "outro" satiri zad o, o im pulso s a t í r i c o ser á mais

feroz q u a n t o mais dist a n t e e s t i v e r e m um do outro. E stas i nversões e

deformações, que c a r a c t e r i z a m o t exto satírico, se i n s t r u m e n t a l i z a m

através da ironia, tanto mais ferina qua nto m ais p o d e r o s o e o p r e s ­

sor for o satirizado.

0 ímpeto da sá tira d e p e n d e do grau de i n d i g n a ç ã o do s a t i ­

rista, s e n d o tant o maio r quanto m ai or for a d i f e r e n ç a e ntre o ideal

e o real. P a r a que o p acto ent re o e s c r i t o r e o leitor se processe,

é n e c e s s á r i a ta mbém a cert e z a de que o o b j e t o s a t i r i z a d o mere ç a a

c rítica , até p o rque ta lvez o m aior c o m p r o m i s s o da s á t i r a se ja com a

v erdade . Assim, o v e r d a d e i r o s a t i r i s t a é aque l e que, a l é m do com­

prometimento com a verdade, se faz p o r t a - v o z de uma indi g n a ç ã o c o ­

letiva.

S i n t e t izan do. Primeiro, o s a t í r i c o cr ia um u n i v e r s o "in­

f e r i o r ”, e i x a d o em te mas do cot idi ano , p r i n c i p a l m e n t e polític o, di-



recionado ao int ere sse coletivo. Segundo, ele se c a r a c t e r i z a pelo
í 40

ataq ue -frontal, pela inve ctiva e pela i d e n t i f i c a ç ã o do satirizado.

Terceiro, a i n t e n c i o n a l i d a d e e a a u t o r i d a d e do d i s c u r s o satí r i c o

são mais a c e n t u a d a s que as dos o u t r o s m o d o s do risível. Quarto, a

produção do t exto e a sua p ercepção pela leit ura ass e n t a m - s e numa

d i f e r e n ç a m aior e n t r e o que de veria ser e o que é, c apaz de i n s t a u ­

rar um m undo a b s u r d a m e n t e às avessas. Quinto, tem uma nít ida função

social que o s c i l a e ntre o corri gir e o destruir. Sexto, m a n i f e s t a -

se por m ú l t i p l a s formas, lite rári as ou não literárias, identifica­

das em sua m a i o r i a pela pres enç a do n a r r a d o r e pela br evidade. S é ­

timo, sua e s t r a t é g i a de acusação se p r o c e s s a num jogo de e spe l h i s -

mo, atra v é s da i n v e r s ã o (ironia, paradoxo, a n t í t e s e e paródia), da

deformação (exagero, distorção, v i o l ê n c i a e o b s c e n i d a d e ) e da lin­

g u agem s i m p l e s e d i r e t a (coloquialismo, ant icl ímax , topicalidade).

Oitavo, p r o v o c a um e s t r a n h a m e n t o s i n g u l a r no leitor pela m i s t u r a de

d i v e r s ã o e desprez o. Nono, ao p a r o d i a r o homem, o satírico motiva o

riso s a r c á s t i c o e i c o n o c l a s t a que se faz arma, lança e punhal, c o n ­

tra todos os v í c i o s humanos. Décimo, a s á t i r a p r e n d e - s e à t e m p o r a ­

lidade, nacional e de épocaj o t e mpo c o n d e n a a sát ira à o b s c u r i d a ­

de; em outras pal avras, a sátira e o s a t í r i c o e n v e l h e c e m com muita

facilidade.

A m o d e r n i d a d e diminui a força da sátira. Porém, em con­

trapartida, a u m e n t a o c a m p o de atua ç ã o do satírico.


í 4í

A Sátira e a Satírica em M i l 13 r Fernandes

A má scar a s a t í r i c a em Mill ô r F e r n a n d e s e n f o r m a t i z a - s e na

s á t i r a ao abor dar te mas p o l í t i c o s em Diár io da Nova R e p ú b l i c a e t e ­

mas so c iais em Que País é Este?. Tanto a s á t i r a p o l í t i c a quan to a

social não resultam de uma visão individual do escri tor , mas se fa-

zem porta-vozes de um grupo, c o n s t i t u i n d o - s e numa lit e r a t u r a que

d o c u m e n t a todo um p e r í o d o p o l í t i c o e social da h i s t ó r i a brasileira.

Desta posição der i v a m c o n s e q u ê n c i a s outraê. Em p r i m e i r o lugar, a

acentuada r e f e r e n c i a l i d a d e da sá ti r a ao se p r o p o r r i d i c u l a r i z a r a

sociedade e a p o l í t i c a pelo at aque direto e p e l o d i s c u r s o sólido,

sem adi posi dad es, tí pi co da li ngu agem coloquial que a s á tira adota.

E, segundo, a a p r o p r i a ç ã o de formas li te rá rias c a n ô n i c a s oriundas

de culturas clás s i c a s (fábulas, aforismos, e p i g r a m a s ) às quais o

e s c r i t o r e m p r e s t a um c o n t e ú d o inv ertido que, na rea lidade, não d e i ­

xa de ser par ódia satírica.

No Diár i o da Nova Repúbli ca?, r e c o l h a em três volu m e s de

textos do coti d i a n o político, publ i c a d o s no Jornal do Brasil, como

vimos ante rio rme nte , entr e 0 1 / 0 2 / 8 5 a 20/05/88, deparamos com o

exemplar riso s a t í r i c o que surge, na melh or t r a d i ç ã o da sátira, do

a t a q u e frontal e d e s t r u t i v o aos p o l í t i c o s e a c o n t e c i m e n t o s que m a r ­

caram o ad vento da Nova República, "a doença, o m a r t í r i o e a morte

de Tancredo, a pos se de S a r n e a * o país " b i g o deado", o Pac to com

s e u s ovo s q u a d r a d o s . .."1®.
0 Diário... se c o n f i g u r a numa e s p é c i e de s á t i r a menipéia,

que m i s t u r a pr osa e verso, a p r e s e n t a n d o s e m p r e u m a - f o r t e r e f e r e n ­


í 42

ciai idade. Na vari e d a d e de temas que co mpõ em esses textos, perpassa

uma c r í t i c a v e r r i n o s a que se p r o c e s s a at ravés da c a r i c a t u r a m o r d a z

e agressiva e de uma li ngu agem e i v a d a de sarcasmos. Harmonizando

tema e ritm o satírico, o D i á r i o . .. pas sa da críti ca a c e r b a até um

cert o h umor negro. Seus alvos p r e f e r i d o s são os abusos e os a b s u r ­

dos da p o l í t i c a e dos p o l í t i c o s da Nova República.

Aqui a sátira, menos a b r a n g e n t e que o satírico, l i mita

sua esfera de atuação ao c ampo p o l í t i c o num pse ud o d i á l o g o e ntre

dois s u j e i t o s ativ os (escrit o r / l e i t o r ) e um su jeito p a s s i v o ( v í t i ­

ma). 0 Diário..., como toda sátira, de pende d o p a c t o c o m o leitor.

Daí o e s f o r ç o do escritor de p e r s u a d i r o leitor, l e v a n d o - o ao " r e ­

conhecimento da i n t e n c i o n a l i d a d e satír ica . Para tanto, M i l l ô r usa

quase s e mpre uma e s t r u t u r a epi g r a m á t i c a , um discurso b r e v e e i n c i ­

sivo, além do r e f o r ç o caricatural.

0 d i s c u r s o da sátira, e m esmo do satírico, m o t i v a d o p e l a

crítica indignada, c o n f i g u r a - s e n u m a ling u a g e m direta, b r e v e e i n ­

cisiva.

A forma epigramá tic a, p e l a sua concisão, é e x e m p l a r do

ataq u e e d e s t r u i ç ã o do sat iriz ado , a s sim como a anti ga s á t í r a - l i b e -

lo que, pela força mág ica das p a l a v r a s rituais, matav a s u a s víti­

mas** .
0 d e s e n h o c a r i c a t u r a l , c o m o e l e m e n t o de p i n t u r a s a r c á s t i ­

ca, é um v el ho al iado da sátira, de a c o r d o com a lógica a r i s t o t é l i -

ca de p i ntar os home n s pior e s do que são, atr avé s do e x a g e r o e da

deforma ção . A caricatu ra, pela tr adiç ão, d e v e r i a ser autô nom a, mas

em Millôr ela ass ume às veze s o papel de ilustração, e seu apelo

visual c o m p l e m e n t a o texto. Esta i l u s t r a ç ã o tant o pode ser e s q u e m á -


í 43

tica, sem d e f o r m a ç ã o satírica, como nas C o n p o z l * « Õ i » Im f l t 1«, quan­

to c a r i c a t u r a l deformante, presente no D i á r i o da Nova República, em

Qut Pai» á E » t«? e nas fábulas.

A t a re fa de d e s m o n t a g e m de uma o b r a é s e m p r e ingrata. Mas

ela se faz n e c e s s á r i a para dete c t a r m o s os p r o c e d i m e n t o s poéticos

u t i l i z a d o s na p r o d u ç ã o s atírica de Millôr.

A r e c o m e n d a ç ã o de Hi pdcrat es ( " S i m i l i a cum si mi l i b u * cu-

rantur") pode ser a p l i c a d a como o p r i n c í p i o geral que dire c i o n a o

a t a q u e s a t í r i c o de M i l l ô r nos três volumes do Diário.... Neles c o m ­

b a t e m - s e as m a z e l a s a d m i n i s t r a t i v a s da Nova R e p ú b l i c a com as velhas

armas da sátira-, a i nve c t i v a impiedosa, a luci d e z cruel, a ling u a ­

ge m forte, e o d e s e n h o caricat ura l que i d e n t i f i c a o satiriz ado .

Acreditamos possível c o n s i d e r a r a obra em questão uma

es p é c i e de s á tira menip éia , como a f i r m a m o s a n t e r i o r m e n t e , em v i r t u ­

de de s erem os três v o l u m e s c o n s t i t u í d o s de t e xtos de espéc ies li­

terárias diversas: os m onólogos s a t í r i c o s do tipo d i a t r i b e <"Cum

L a u d e " , dé 05 /02 /8 5); a poe sia e p i g r a m á t i c a de c u n h o s a t í r i c o ("Ri­

mas Vorazes ", de 08/07/86); as n a r r a t i v a s curtas, em especial as

fábu l a s f a bulosas ("Dia do Juízo", de 0 7 / 02 /87); a c r ô n i c a sat írica

("Nepo tis mo" , de 09/02/ 85); os c o n s e l h o s i n v e r t i d o s ("Co nse lhos de

s o b r e v i v ê n c i a pa ra b u r o c r a t a s nesta hora tã o nova da República", de

15/02/85); os r e t r a t o s em 3/4 de algu ns a m i g o s 6 x 9 : ("Fernanda

(Torres) M o n t enegro", de 09/05/85; "C arlo s Drumm o n d de Andrade", de

11/08/87; "Hen r i q u e de Souz a Filho", HENFIL, de 07/ 01/88); os re­

tratos satíricos (" Ped ro Tico Tavinhe" e " Larigoni Delpiazza", de

25/03/ 85) ; as r e f l e x õ e s irônicas ("Entre o N a d a e o Absoluto", de

21/02 /88 ); as a n o t a ç õ e s (de 18/01/87; as p e r g u n t a s ("Ministério de


i 44

Perguntas Cretinas", de 19/05/87); os Hai-k ais ("Fuço e soluço/A

v ida e o tempo/Tá tudo ruço", de 01/11/87); as v i r u l e n t a s c r í t i c a s

l i t e r á r i a s ao Brejal dos Guajas, de José Sarney (de 20 a 30/01/88);

as po esias trad u z i d a s ("Olhai, moçada, Po esia é isso!", de

09/11 /85 ); os a p o t e g m a s do vil metal (31/01/87); os v a d e - m é c u m ("do

prefeito liberal", de 22/ 02/85); a par ódi a ("Vou-me E m b o r a de Pa-

sárgada", de 14/10/87).

0 dever da c o m p r o v a ç ã o exige que façamos, pel o menos,

umas b r eves e x e m p l i f i c a ç õ e s sob re os p r o c e d i m e n t o s a c i m a apontados.

N esse sentido, vam os e s c o l h e r dois dos apo tegm as que o e s c r i t o r t e ­

ce em to rno do tema do vil metal-. "Que seria dos e c o n o m i s t a s se não

fosse a ext rema m i s é r i a do m u n d o " * 3 ; OL!, "A d e m o c r a c i a m o d e r n a é

c o n s t i t u í d a por quatro poderes, o legislativo., o exe c u t i v o , o j u d i ­

c i á r i o e o dinheiro. S en dò que este funciona junto com todos os o u ­

tros e pode f uncionar sem n e n h u m d e l e s " * 4 . Aqui, o af or ism a, na sua

força p e r s u a s i v a de fazer "ver" a verdade, dest a c a o p oder do di­

n h e i r o na s o c i e d a d e moderna.

Como tod os os sati ris tas , Millôr, ao c r i a r um mundo às

avessas, o faz u t i 1 i z à n d o - s e de vári os recursos de inversão, entre

eles a paródia. A c r ô n i c a "Ser P olít ico" imita às a v e s s a s "Ser B r o ­

tinho", de Paulo M e nde s Campos, que o escritor já t i n h a p arodiado

em "Ser Gagá", do livro L i ç õ e s de um Ignorante. "Ser P o l í t i c o " é um

texto dedi c a d o a "todos os que se iniciam. Ou m e s m o pros que estão

aca bando": "Ser p o l í t i c o é e n g o l i r sapo e não ter indigestão, res­

peitar o ar do e x e c u t i v o e não senti r a execução, é acreditar no

diálogo em que o p o der fala e ele escuta, é ser ao m e s m o tempo um

ímã e um c a l e i d o s c ó p i o de boatos, é apr end er a s o f r e r humilhações


í 45

todos os dias, em pequena s doses, até ficar c o m p l e t a m e n t e imune à

ofensa global, é esvaz iar a t r a g é d i a atual com uma d e m a g o g i a r e p e ­

tida de t r a g é d i a antiga, é ver o que não exis t e e olhar, sem ver, a

miséria exis ten te, é não ter r e l i g i ã o e por isso mesm o c o r t e j a r a

todas, é, no meio da mais d e g r a d a n t e deso n r a e ncontr ar s e mpre uma

s a í d a honrosa, é nunca pisar nos a m i g o s sem pedir desculpas, é cor­

rer logo pra b i l h e t e r i a quando a l g u é m grita que o circo p ega fogo,

é rir do s e m - g r a ç a e n c o n t r a n d o no a n t i e s p í r i t o o supr emo deleite

desde que seu port a d o r seja bem alto, é fl exionar a espinha, a vo­

cação e a alm a em longas p r o s t r a ç õ e s ante o pod er como preparação

do dia de exercê-lo, é recompor com e s t o i c i s m o i n d i g nidades p a s s a ­

das p r o j e t a n d o pra histór ia uma b i o g r a f i a no mí nimo improvável, é

a l m o ç a r quatro vez es e jantar umas seis pra reso l v e r d e f i n i t i v a m e n ­

te o p r o b l e m a da nossa s u b n u t r i ç ã o endêmica, é tentar n o b r e m e n t e a

r e d i s t r i b u i ç ã o dos bens sociais, co meçando, é natural, por a c u m u l á -

los, pois não se. pode di st r i b u i r o pã o disperso, e é ser p r o b o s e ­

guindo a u t o - c r i t é r i o . E assim, por c o n h e c e r p r o f u n d a m e n t e a causa

p ú b l i c a e a n a t u r e z a humana, e s t a r s e m p r e p r on to a u su f r u i r d i a r i a ­

m e n t e o go zo de pe qu e n a s p r o v a ç õ e s e a s o f re r na pró pr ia p el e i n s u ­

p o r t á v e i s v a n t a g e n s . " 15 <0 g rifo é nosso).

Nesta paródia, a ironia se i d e n t i f i c a com a p o s t u r a m e n ­

tal que c a r a c t e r i z a todos os m o d o s do risível, à medid a que ela

p r o c e s s a a d u p l i c i d a d e de dizer uma coisa, jogan do com a sua i n v e r ­

são. 0 r e c u r s o retórico u sad o por M i l l ô r de ence r r a r o texto c o m um

salto irônico, a vira da de d i r e ç ã o e sentido, repet e-se aqui, a

exemplo dos tex to s de C o n p o z i s s S i s I m f S t i s e L içõe s de um I g n o r a n ­

te, e s t u d a d o s no capítulo sobr e o côm ic o. -


í 46

P oré m a maio r fr eqüência no " D i á r i o . . é a das cr iaç ões

de texto c u r t o com charge, nas quais a p r e d o m i n â n c i a do texto sobre

a charge, e v i c e-versa, é gera lm ente s u t i l . To davia, em alg umas d e ­

las, observa-se a s u p e r i o r i d a d e de um s o b r e o outro. Do prim e i r o

caso, e x e m p l i f i c a m o s a cria ç ã o de 02/05/85, s o b r e o tema do "pac­

to", tão s a t i r i z a d o por Millôr, na qual o d e s e n h o do "pacto" dos

ovos qua drados i l u stra o texto, que faz um j o g o p a r o n o m á s i c o de p a ­

lavras que r e p e t e m "pacto" (p a c t o l ó g i c o , pac tronal, p a c t o t e i r o s ).

Do segundo, as c r i a ç õ e s de 21 e 22/08/85, se riadas, nas quais o

texto, em b a l õ e s de H i s t ó r i a s em Quadrin hos , complementam o dese­

nho, este b a s t a n t e ex pressivo.

Contudo, a interde p e n d ê n c i a entre t e x t o e c h a r g e é v e r i ­

ficada, por exemplo, na pub l i c a ç ã o de 02/ 08/8 7, em que text o e c a ­

ricatu ra se c o n j u g a m para sat iri zar a a b s u r d a q u a n t i d a d e (ci nqüenta

e sete) de m i n i s t r o s e a baixa qualid ade (todos s u b s e r v i e n t e s ) do

ministério de Sarney. A charge most ra os m i n i s t r o s em forma de

guir l a n d a em t o r n o da figura do pres i d e n t e e o p e q u e n o tex to se r e ­

fere à fala p r e s i d e n c i a l : "Reuni os s e n h o r e s m i n i s t r o s para uma

disc u s s ã o a b e r t a e d e m o c r á t i c a sobre o p l a n o m a c r o e c o n ô m i c o . Mas,

por favor, n i n g u é m diga amém antes de eu termi nar .

Millôr s u b v e r t e a técnica t r a d icional da s á t i r a à me dida

que, em vez de o c u l t a r - s e sob uma másc ara narr a t i v a , ele se tex tua -

liza num c o m e n t a d o r c r í t i c o que p articip a do t e x t o sob forma c a r i ­

catural e à m a r g e m da charge. Este p r o c e d i m e n t o é rep e t i t i v o , prin­

cipalmente no p r i m e i r o volume, e aparece, inclusi ve, na capa dos

três. Na c h arge de 26 /0 5/85, sobre os "ratos s a n e a d o r e s da Nova R e ­

pública", M i l l ô r surge, em cari cat ura ao pé da página, satirizando


í.4‘
7

o o t i m i s m o de então: "0 o t i m i s m o é o óp io da Nova República ". Ainda

d e n t r o da mesma linha, como ocor r e na cria ç ã o de 16/02/85, ele p r ó ­

prio centraliza a charge, p r o c e d i m e n t o que també m se repe t e mais

o s t e n s i v a m e n t e no p rim e i r o volume.

0 escr ito r ai nd a cria o u t r o p r o c e d i m e n t o de a u t o - t e x t u a -

lização, que não é risível mas i m p r e g n a d o de auto- iro nia . á a in­

clusão de da dos b i o g r á f i c o s que ele insere em quase todos os v o l u ­

mes da sua obra, a e x e m p l o da s é rie "Quan do Todos Viviam", de 25 e

26/03/87.

Mas, ao to ca rmos na crônica, c o n s i d e r a m o s quase o b r i g a t ó ­

ria a s i m p l i f i c a ç ã o do v e r d a d e i r o s e n t i d o que e m p r e s t a m o s a esse

tema. Até po rque a ironi a é um dos te rmos de uso c o r r e n t e que se

inscreve no âm bito dos v o c á b u l o s a m b í g u o s pela sua polisse mia . Mes­

mo c o n s i d e r a n d o os m ú l t i p l o s d e s e m p e n h o s da ironia, ela c o n s e r v a a

sua essência de du pli cidade: o t e x t o a dize r "alguma co isa" e o

contexto a indicar outra. Essa funç ã o de "inversão", de a m b i g u i d a ­

de, está imp lícit a na p a l a v r a "ironia" que repr e s e n t a uma post u r a

mental, um e t hos discursivo, t í p i c o da c u l t u r a grega, e que c o n s i ­

deramos o i n s t r u m e n t a l i z a d o r de todos os "modos do risível" nos

textos de Mill ô r Fernandes. Ela não é a p e n a s uma figura, um tropo,

mas exprime, em todas as suas m a n i f e s t a ç õ e s , um jogo textual a m b í ­

guo com o contexto.

A ú l t i m a a s s o c i a ç ã o da s á t i r a e da i r o n i a * ^ nos obri g o u a

fazer c o l o c a ç õ e s sobre o pr obl ema. A ironia, em sua ação ef icaz de

sarcasmo e de ataque diréto, t ende a f u n d i r - s e com a sátira. Mas a

sátira, ao investir no ataq u e d i r e t o que a carac ter iza , tende a fa­

zer d e s a p a r e c e r a suti l e z a da ironia. Duas c o n s e q ü ê n c i a s advê m d e s ­


Í48

sa atitude: a a d e s ã o fácil do leitor, que se i d e n t i f i c a com o l e i ­

tor na aç ão de a t a c a r o satirizado, e o e n v e l h e c i m e n t o ráp ido do

ataque satíric o. L e m b r a m o s que a sáti r a é á mais fort e m e n t e r e t ó r i ­

ca das três m á s c a r a s do não-sério.

Se no Diário.. . a sát ira p o l í t i c a é a tônica, nos tex tos

de "Que País é Es te?" ela perde a sua força i n v e c t i v a e se dilui na

abrangência t e m á t i c a do social. 0 alvo r e s t r i t o da sáti r a no Diá­

rio..., d i r e c i o n a d o aos po líticos da T e r c e i r a Repúb lica , amplia-se,

em Que País..., d i l u i n d o o ataque pa ra a b r a n g e r todo o país, em ble-

m a t i z a d o pela c i d a d e de "São S e b a s t i ã o do Rio de Janeiro", e o todo

po vo br asil eiro, r e p r e s e n t a d o pelo carioca. De o u t r o lado, c o m p e n ­

sando a d i l u i ç ã o t e m á t i c a temos uma cer ta u n i f o r m i d a d e de e n f o r m a -

t izaç ão dos textos, pois a mai ori a dos mesm o s pode ser c o n s i d e r a d a

como variante do m o n ó l o g o satírico. As s u b e s p é c i e s de ste gênero

são: a crônica, a carta, a lição, o brevi ári o, a dis se rtaç ão, a

história, a co nfis são, o guia, o decálogo, o projeto, a consulta, o

tópico, o balanço, ao lado de umas p o u c a s formas d i a l o g a i s como a

entrevi sta , o d i á l o g o e o teatro corisco.

Re pet e-se, nesse livro, o p r o c e d i m e n t o parodístico de

Mi llôr de o b ter o risível atra vés do t r a v e s t i m e n t o de vári a s form as

l i terárias tra d i c i o n a i s , conforme v imos acima, a quem Millôr em­

pr esta um c o n t e ú d o invertido.

A leitura parate xt ual nos leva de imediat o à capa, que

emblematiza a s i t u a ç ã o caót ica do país, a t r a v é s de uma char ge do

mapa do_ Brasil, na qual os Est a d o s e s t ã o c a o t i c a m e n t e dispostos.

Esta d e s o r g a n i z a ç ã o é tema dos d i v e r s o s m o n ó l o g o s s a t í r i c o s e tem

como m i c r o c o s m o a c i d a d e do Rio dé Janeiro, c o r r o í d a pe la e s p e c u l a ­


í 49

ção im obili ári a e pela p és si ma a d m i n i s t r a ç ã o pública. 0 povo, aqui

o cario ca, é a v í t i m a ma ior dess es desmandos.

é evidente que liillôr at ribui uma s i g n i f i c a ç ã o especial à

tematização da cidade, cons t a n t e em sua obra - b a s t a lembrar "Pig-

maleoa" e "Um E l e f a n t e no Caoe" Mais que pitores co, ex iste um v a ­

lor s i m b ó l i c o do ser humano, po is o h omem e sua c i d a d e estão c o n t i ­

do s um no outro. Mi llôr rec onh ece d e m ô n i o s d e s a g r e g a d o r e s da cida de

na especulação imobiliária, no c o r r o m p i d o s i s t e m a p o l í t i c o e na

p r ó p r i a i n v i a b ilidade do homem.

O Risa Satírico em Millôr Fernandes

Em Millôr, o riso s a t í r i c o o r i g i n a - s e da i m b ricação de

v á r i o s proc edi ment os: do ataqu e d i r e t o c o n t i d o na m e n s a g e m textual;

da dissonância do d e s e n h o c a r i c a t u r a l ; e da i n v e r s ã o das formas

dis c u r s i v a s , em m ú l t i p l a s v a r i a n t e s paródicas. M a s esse riso não se

esgota na pa ródia dos gên e r o s e formas literárias, eme rgin do, tam­

bém, do jogo lúdi co e s a r c á s t i c o das palavras.

Na o b t e n ç ã o do riso s a t í r i c o se faz i m p o r t a n t e a p a r t i c i ­

pação do leitor em c o n i v ê n c i a com a i n t e n c i o n a l i d a d e do escritor,

razão pela qual os teór i c o s r e c o m e n d a m a i d e n t i f i c a ç ã o do obj e to

s a t i r i z a d o para que essa alia nça se torne mais r á p i d a e fácil.

Em a l g u n s t e x t o s do D iá r i o da No va Re pú b l i c a , o riso mo*-

t i v a - s e pela dupla i d e n t i f i c a ç ã o dos sat irizados, a verbal e a icô-


í 50

nica, c o m p l e m e n t a d o com a p r e s e n ç a o b s e s s i v a do satirista, t a n t o em

nível textual nas nota s de rodapé, quanto nos desenhos a u t o - c a r i c a ^

turais. Na capa do prime i r o volu m e da série, o s a t i r i s t a aparece

num p e q u e n o desenho, d a t i l o g r a f a n d o a nota: "Cada país tem o p r o f e ­

ta que merece", p a r ódia risível de uma m á x i m a do I l u m i n i s m o fran­

cês. é t a mbém exem p l a r desses p r o c e d i m e n t o s de c o m p o s i ç ã o a capa do

s e g u n d o volume, onde apare ce a d upla charge, a do P r e s i d e n t e da R e ­

pública "Sir Ney" de olhos v e n d a d o s e andar tateante; e a dó s a t i ­

rista, em t a m a n h o reduzido, e s c r e v e n d o à máquina: “Pô, e a i n d a d i ­

zem que Deus é brasileiro". C o n s t a t a - s e o riso s a r c á s t i c o e i c o n o ­

c l asta que funda o pacto de i d entida de ent re o leitor e o e s c r i t o r

na aversão comum ao objeto sa ti riza do. "Não deu no Fant á s t i c o . A

No va República é a única i d en tidade que so fre s i m u l t a n e a m e n t e de

a r t e r i o s c l e r o s e e dan ça de São Guido"*®.

0 d e s e n h o satíri co em M i l l ô r não serve apenas de a p o i o ou

de c o m p l e m e n t a ç ã o ao texto, mas e x erce t a m b é m a a m b i v a l e n t e função

de s i g n i f i c a n t e e de significado. E a c h a r g e passa a ter uma i n t e n ­

ção s i g n i f i c a t i v a mais complexa, a de repre sent ar, em seu s tr aços

despojados e defo rmántes, a e s s ê n c i a do s a t í r i c o milloria no. Vale

co mo exemplo, a c h arge p u b l i c a d a em 20/03/8 5, pela d e f o r m a ç ã o e x a ­

g e r a d a do b i gode de Sarney, fo rmando um todo, d e b a i x o do qual o s a ­

t i r i s t a a p a r e c e datilografando-. "FOMOS B I G O D E A D O ." .

E ntre os d iver so s p r o c e s s o s de inv e r s ã o te mos a paró d i a

de t e m a s b í b l i c o s que é r e c o r r e n t e em M i l l ô r Fernandes. Há uma s é ­

rie de c h a r g e s (Tancredo) que e x e m p l i f i c a tal método, s e n d o qúe na

primeira d elas T a n c r e d o . a p a r e c e t r a v e s t i d o de M o isés sobre as " A l ­

terosas <Monte dos Sina is) " com a p r i m e i r a proibição, em todo o


15 í

território nacio nal , e em todos os m eio s de comuni cação, do uso da

frase proverbial. 'Até aí m o rreu N e v e s ' . " 2 ® E n c o ntra mos, em d i a p a ­

são com o travesti men to, o jogo de pala v r a s e n t r e o título "Tan CRE -

DO" e a ú l tima p a l a v r a "Neves". Idên ti co p r o c e d i m e n t o o c o r r e com o

acréscimo da c o n s o a n t e f i n a l “s ” ao no me “sinai", m o t i v a n d o outra

carga semâ n t i c a (sinais) r e l a c i o n a d a com a p r o i b i ç ã o e, ao mesmo

tempo, numa séri e inv ert ida que nos r e mete ao espa ç o bíblico do

monte sagrado.

Pela sua r e f e r e n c i a l i d a d e , os t e xtos s a t í r i c o s em geral,

e em p a r t i c u l a r os que c o m p õ e m os três v o l u m e s do D i ário da Nova

Rep ública, ensejam dois ti pos de leitura. A primeira implica um

deslocamento do leitor ao p a s s a d o para se t o rna r c ú m p l i c e d a q u e l e s

que fizeram a le itur a na p r ó pria época do acont eci m e n t o . A segunda,

o d e s l o c a m e n t o do t ex to ao m o m e n t o presente, p e r m i t i n d o - l h e uma n o ­

va leitura filt r a d a pelo c o n t e x t o a t u a l .

Assim, a c o n e x ã o e n tre o risível (o riso) e a t e m p o r a l i ­

dade a presenta d u p l o aspecto: de um lado, o tem po exer c e sobre as

form as do risível um efei t o c o r r o s i v o que pode a c arretar a sua i l e ­

gibilid ade , se não forem a d o t a d o s os p r o c e d i m e n t o s de lei tura acima

des critos; em c o n t r a p a r t i d a , o passar do t e mpo pode p r o p i c i a r uma

outra leitura dè d i m e n s ã o irônica. S obre a ileg i b i l i d a d e imp ressa

pelo tempo, v am os citar, à g uisa de exe m p l i f i c a ç ã o , o "Manifesto

Satírico" do dia 12/02/85, no qual o satirista' loca liz a o úni co lu­

gar de Brasíl ia a ser a d m i n i s t r a d o com a b s o l u t a compet ênc ia, a es­

trebaria, numa a l usão risível às p r e f e r ê n c i a s e q ü inas do úl timo

p r e s i d e n t e do r e gime ditato rial militar. Os lei tor es da época i d e n ­

tificaram com f a c i l i d a d e ~ a a l u s ã o satírica, mas paira dúvida sobre


ise

a c o m p r e e n s ã o do mes mo p e l a s novas gerações. A l i n h a d o nesta p o s s i ­

bilidade do e n v e l h e c i m e n t o rápi do do satírico, temos publicada, em

03/0 2 / 8 5 , uma char ge a l u s i v a ao c o m p o r t a m e n t o do r e f e r i d o e x - p r e s i ­

dente, que em uma das ú l t i m a s ent rev ist as, antes de deix a r o g o v e r ­

no, d e s p e d i u - s e do povo b r a s i l e i r o com um g es to chulo. A char ge s u ­

pracitada re t rata o g e s t o numa c o m p o s i ç ã o car ica tural, em que o

corpo t a u r i n o do p r e s i d e n t e é m o s t r a d o em linhas g r o s s e i r a s e sem

cabe ça, de sta can do-se, em p rim e i r o plano, o g es to de tris te memó­

ria. A b a i x o da carica tur a, lê-se a s e g u i n t e c o m p o s i ç ã o e p i g r a m á t i ­

ca, que t a n t o pra z er deu ao leitor bra sile iro : "Não General, o povo

j a m a i s o esquecerá. 0 s e n h o r semp re será lembrad o como o h omem que,

no m o m e n t o inoportuno, no tom inadequado, no local impróprio, com

r o u p a s in con venientes, d i s s e coisas i n q u a l i f i c á v e i s " ® * . Aqui o riso

brota das duas s e q ü ê n c i a s de classes de palavras, de um lado a s é ­

rie de s u b s t a n t i v o s (momento, tom, local, roupas) e, de outro, a

série de a d j e t i v o s inic i a d o s com o p r e f i x o in (inoportuno, i n ade­

quado, impróprio, inconveni ent es, inquali f i c á v e i s ) . As sér ies se

juntam n uma s e q ü ê n c i a i terativa através do p r e f i x o “i n ” que, além

do reforço, ser ve pa ra c o m p o r o r e t rato às a v e s s a s do p o l í t i c o que

surgiu de forma não a d e q u a d a (não foi eleito), agiu de forma não

c o n v e n i e n t e a um ser humano, muito m e nos ao P r e s i d e n t e da R e p ú b l i ­

ca.’

Os m e s m o s p r o c e s s o s para o b t e n ç ã o do riso e n c o n t r a m o s no

l ivr o Que P a í s á E*te?, c o l e t â n e a de sátiras, cuja capa, de autoria

do esc rit or, ide n t i f i c a bem o s a t i r i s t a e o s a t i rizado, o pr ime iro

num d e s e n h o a u t o c a r i c a t u r a l como p r o f e s s o r e o s e g u n d o num mapa do

Br asil com os E s t a d o s c a o t i c a m e n t e di spo st os. 0 c o n t e ú d o é uma s é ­


rie . de d isse rtações, de alto teor satírico, que g r a v i t a m em torno

do h o m e m e das suas c i r c u n s t â n c i a s de cidadão,

No v a m e n t e e n c o n t r a m o s aqui o p r o c e d i m e n t o p a r o d í s t i c o p a ­

ra obtenção do riso. ê a adoção de -Formas dissertat i v a s , cujo c o n ­

teúdo é s e m p r e invertido. A e n t r e v i s t a que s u r preende pelo i n u s i t a ­

do do seu conteúdo; o novo có digo civil pub l i c a d o antes de ser s a n ­

cionado; a e p i s t o l o g r a f i a do p r e s e n t e para o passado; ò decálogo

para a c o n c ó r d i a nacional, d e f i n i t i v a e universal, que estabelece

princípios que são iron icamente negat ivo s: "Todos serão profunda­

mente hipócritas"22 . No prim e i r o texto, à guisa de p r e f á c i o e d i t o ­

rial, r e p e t i n d o o vel ho l u g a r - c o m u m de sa l v a g u a r d a r as r e s p o n s a b i ­

lidades, Mill ô r afi rma sob a m á s c a r a dos patrocina dor es, que os

textos sã o a b s o l u t a m e n t e v e r d a d e i r o s e dignos de total con f i a n ç a ,

apesar de uma sé rie en orme de p r o c e d i m e n t o s ina dequ ado s como: notí­

cias fa bricadas, c o m e n t á r i o s indevidos, disp a r a t e s e fal sificações,

etc./etc., todos com o o b j e t i v o n i t i d a m e n t e di famatórios.

Na pág ina seguinte, o u t r o l u g a r-comum é a p r e s e n t a d o de

forma risível. Trata-se da a dvertência, famosa ad ver tência, dos

filmes norte-americanos so bre a m e r a c o i n c i d ê n c i a de semelhanças

com pessoas viva s ou mortas. M i l l ô r conclui dize n d o "que tudo, é

evidente, se passa em o utra ép oca e num país ima giná rio ."

Uma vari a n t e do m o n ó l o g o satírico, a p a r e n t e m e n t e criada

por Horácio, é a carta, conf o r m e a c e n t u a Gilbert H i g h e t . No te xto

" C a rtas ao P a s s a d o - de S.D., 1977, para P.A.C., 1 5 0 0 ”, Mill ô r u t i ­

liza um r e c u r s o c omum aos s a t iristas, que é a inversão do fluxo

temporal, indo do p r e s e n t e para o passado, para "ca muflar" o s a t i ­

rizado. S a b e m o s que a s igla S.D. r e f e r e - s e a Sé rgio Dourado, a quem


í 54

Millôr r e s p o n s a b i l i z a pela d e struição da c i d a d e do Rio de Janeiro.

A cart a se c o n s t i t u i num primor de tira d a s s a t í r i c a s e se encerra

com um PS, risível pelo jogo paródico que p e r m i t e d u p l a leitura: a

do passado, pela r e f e r ê n c i a h istórica do d e s c o b r i m e n t o , e a do p r e ­

sente, pela d e s t r u i ç ã o ca usada pelo missivis ta.

Além d e s s e s p r o c e d imento s par ódi cos , r i s í v e i s no estra­

nhamento causado pelo contras te entre a forma s é r i a e o cont eúd o

n ão-sér io, ex e m p l i f i c a m o s , a seguir, o risível na p a r ó d i a verbal e

no e p i g r a m a satírico.

No m o n ó l o g o satíri co "0 C a r i o c a é. A n t e s de Tudo", d e p a ­

r amo s com a i n v e r s ã o da clá ssi ca e x p r e s s ã o de E u c l i d e s da Cunha, em

"Os Sertões" ("0 s e r t a n e j o é antes de tudo um f o r t e ”), já no pró­

prio título. 0 us o p a r o dístico desta e x p r e s s ã o se r e pete mais

adiante, quando M i l l ô r afirma que "o cari o c a é a cima de tudo um lú­

d i c o ”. Vale r e s s a l t a r que aqui o r e c urso p a r o d í s t i c o a t enua s o b r e ­

maneira a força do ataqu e satírico, m e s c l a n d o - o com o humor. De

igual natureza, t e m o s a u t ilização de p a r ó d i a v e r b a l sobre o c o n h e ­

cido ver so de V i n í c i u s de Moraes, - "As feias que me p e r d o e m mas

beleza é f u n d a m e n t a l " ~, p a rodiado em. "Os p a u l i s t a n o s que me p e r ­

d o e m mas ser c a r i o c a é essencial".

Para o r e c u r s o do epigrama s a t í r i c o serve de e x e m p l o o

dístico ao pé da página: "Se o país c o n t i n u a r d esse jeito vão a c a ­

ba r tend o que a p e l a r pa ra a c o m p e t ê n c i a ”23 qu e ste outro: "Há m u i ­

tas formas de ser útil ao país. Uma delás é se locu p l e t a r d i s c r e t a ­

mente"^ A inda s o b r e o mesmo tema: "R esponda depre ssa: Se as p u n i ­

ções do c orão fos s e m ta mbém a p licadas no Brasil, q ua nt os ma net as

tecíamos nas a l t a s e s f e r a s ? " 2 5 Em um e x e m p l o que il ustra a dupla


í 55

l e i t u r a em função da p a s s a g e m do tempo, aludi da acima, t emos a nota

e p i g r a mática. "No Brasil j a m a i s h a v e r á um Watergate. Para c o n t r o l a r

os te le f o n e s é preciso, a n t e s de tudo, fazer com que e l e s funcio-

n e m ”2 6 . o riso aqui, nascia, na época, do r e c o n h e c i m e n t o ao a t aque

d i r e t o à d e f iciência do n o s s o s i s t e m a de t e lef onia que nos p e r m i t i ­

ria ter uma sit uação s e m e l h a n t e à o c o r r i d a nos Est ado s Unidos. Con­

tudo, o tempo imprimiu ao t exto o utra dimen s ã o risível . A m e l h o r i a

do noss o siste ma t e l e f ô n i c o p e r m i t i u o gram p e a m e n t o do telefone

p a r t i c u l a r do Vice-Presi dente. E até po d emos p r e s c i n d i r da e f i c i ê n ­

cia do s i s tema telefônico, par a ter o nosso “Col 1o r g a t e " , d o l o r o s a ­

mente r i s í v e l .

Desta maneira, o riso que brot a de um texto sat íric o, na

convergência da i n t e n c i o n a l i d a d e com o r e c o n h e c i m e n t o da leitura,

r o m p e o d i s t a n c i a m e n t o e ntre os a g e n t e s do riso ( e s c r i t o r / l e i t o r ) e

o satiri zad o. A tática de p e r s u a s ã o que o text o s a t í r i c o poss ui é

reforçada pela forte ref e r e n c i a l idade do mesmo, pois el e é c o n s t i ­

tuído em função de uma r e a l i d a d e do m u ndo exterior, cujos vícios

d e n u n c i a e dese ja destruir.

O Satírico e Suas M c s c 2as

Entre as v a r i a d a s m a n i f e s t a ç õ e s do s a t í r i c o temos as fá­

bulas, que não são p r o c e d i m e n t o s e x c l u s i v o s do sat íric o; elas podem

ocorrer ta mbém no m u i t i facet ado u n i v e r s o do " h u m o r ”. Assim, ao de-


Í 56

1 inearmo s os e s q u e m a s do risível em M i l l ô r F e r n a n d e s nos d e p a r a m o s

co m as suas -Fábulas nos livros F á b u l a s Fabulosas, N ov a s F á b ul as F a ­

bulosas e E r o s Uma Vez, pu blica dos r e s p e c t i v a m e n t e em 1973, 1978 e

1987, e que na r e a l i d a d e são rec olhas da s u b s e ç ã o "Fábu las F a b u l o ­

sas", i n i c i a d o em I960, em 0 P i f - P a f / O C r u z e i r o . 27

As -Fábulas de Millôr, ap esar de p r ó x i m a s das narrativas

de Esopo, F e d r o e La Fontaine, para c i t a r os mais c o n h e c i d o s fabu-

listas, d e l a s se d i s t a n c i a m pelo t r a t a m e n t o especial que o e s c r i t o r

imprime às s uas "fábulas, fabulosas". M i l l ô r p r o c e s s a uma v e r d a d e i ­

ra metamorfose estrut ural , quer p e l a m o d e r n i z a ç ã o do conteúd o,

atualizando o s ' t e m a s ou m e s c l a n d o - o s co m a temá t i c a das n a r r a t i v a s

popula res , quer pela inver são do p r o c e s s o narrativo, particulari-

zando-o, ao d e s t a c a r o dí stic o moral do c o r p o n a r r a t i v o e ao sub-,

ve rt er a m e n s a g e m moralizante.

Assim, o que sing u l a r i z a a f á b u l a m i l l o r i a n a é o a p r o v e i ­

tamento p a r a d o x a l da tradição. As a ç õ e s de acre scentar, escol her ,

ocultar, d e f o r m a r e tr a n s f o r m a r são i n e r e n t e s à cria ç ã o art ísti ca,

porém, M i l l ô r im prime às suas fá bulas um c a r á t e r "particular", ca­

paz de c o n f e r i r - l h e s uma posiç ão a m b i v a l e n t e , pois elas não c o p i a m

os p a d r õ e s c a n ô n i c o s das fábulas, mas c r i a m uma real i d a d e nova. á

uma l ei tu ra que se p r o c e s s a sobre o u t r a leitura, não c o p i a n d o e nem

a s u b s t i t u i n d o integralme nte , mas c r i a n d o e recriando, a part i r dos

m ode l o s e c o n ô m i c o s da fábula, uma o u t r a realid ade , mantendo, porém,

as linhas g e r a i s de sua estr a t é g i a satí rica. A c o m p r e e n s ã o dest a

singularidade é essenci al j>ara a t e n t a r m o s para a poét i c a do ri so e

do risível na p r o d u ç ã o das fábulas de Millôr.


í 57

Sobre a raiz d e s s e itine rár io de recriação, no a p r o f u n d a ­

m ent o e na in versão irônica, o próprio Millôr nos dá "testemunho:

"Os prob l e m a s d evem ser a p r o f u n d a d o s e levados s e m p r e um pa sso

a d i ante do ponto em que o d e i x o u a geraç ão anterior. Na fábula da

R a p o s a e das Uvas vo cê n ã o deve ace ita r o final de Esopo, a d m i t i n d o

a frus t r a ç ã o da raposa, é fundamental ver ificar se as uvas r e a l m e n ­

te esta v a m verdes"®®. E s t e "d iálogo" satíri co é, na realidade, um

monólogo sa tír ico com um int e r l o c u t o r imaginário, e que o escr i t o r

e s c l a r e c e ser uma c o n v e r s a com sua filha Pa ola Fer nan des, em 1972.

A fábula, de g ê n e s e longíngua, pare ce ter n a s c i d o de uma

natural nec e s s i d a d e h u m a n a de se exprimi r com a a j u d a de uma forma

simbólica. é uma n a r r a t i v a breve, e de certa forma ale górica, que

fala de maneira o b l í q u a ou no silêncio®?.

A concepção c l á s s i c a do gênero, quer li gado à tradi ç ã o

retórica grega ou à p e d a g ó g i c a latina, p r i v i l e g i a nã o a narrativa

em si, mas os valores é t i c o s que elas indiciam®®.

As fábulas anti gas, das quais conh e c e m o s as de Esopo e as

de Fedro, a p r e s e n t a m de m a n e i r a p e r s i s t e n t e a l g umas p a r t i c u l a r i d a ­

des narrativas. Prime iro , a h u m a n i z a ç ã o dos animais, a a n i m a ç ã o de

objetos e a pres e n ç a de p e r s o n a g e n s mitológicos. Segundo, a narra­

ção poética de fatos c o t i d i a n o s radi c a d o s em algo que é t r a n s g r e d i ­

do. Depois, a b i p o l a r i d a d e est rutural comp o s t a de um e l e m e n t o p o é ­

tico - a cr iação f a b u l í s t i c a - e, de um el emento d i d á t i c o - a lição

de moralidade.

Na Idade M é d i a é difícil se para r a f á b u l a ,■tanto do " f»-

blian" - ris ív ei s a v e n t u r a s h u m a n a s -, quanto da e p o p é i a satí r i c a

de animais.
í 58

A fábula a n c o r a sua n a r r a ç ã o numa prova, um e n f r e n t a m e n t o

entr e pares z o o m ó r f i c o s díspares, ao p a s s o que o "fablian" o faz

numa a v e n t u r a humana. Mas ambos são a l e g o r i a s ca pazes de nos fazer

c o n h e c e r m e l h o r a c o n d i ç ã o do h omem e e n t e n d e r a o r g a n i z a ç ã o de sua

s ocieda de. 0 p r i m e i r o investe na fun ção r e t ó r i c a ou pedagó gi ca; a

s e g unda faz do riso a arma cont ra o r i d í c u l o do homem.

Em Millôr, o material n a r r a t i v o o r i undo do "fablian",

mesmo c a m u f l a d o sob o títu lo de fábula, faz apelo à n a r r a t i v a r i s í ­

vel, num p r o c e s s o que resgata e r e n o v a as té cni ca s do gênero, mas

dele conservando o o b j e t i v o de d e n ú n c i a na sua caça ao h omem e a

sua soci edade: "Pois fora do ser h u m a n o não há salvação. Fora do

ser humano a vida não tem enredo. Eu não res isto a um ser h uma-

n o " 3 * . L e g í t i m o r e p r e s e n t a n t e d essa t r a d i ç ã o narrativa, das fábu l a s

e dos "fabliaux", M i l l ô r constrói sua s fáb ulas m i s t u r a n d o os fios

d e sses d o i s gêneros. Conserva, do primei ro, em linhas gerais, a es­

trutura n a r r a t i v a e, do segundo, a a t m o s f e r a do risível. Na u t i l i ­

zaç ão das fábulas, ou dos "fabliaux", Mil lô r nos dá testemunh o,

primeir o, da p o s s i b i l i d a d e de r e t o m a d a na m o d e r n i d a d e de espécies

narrativas clássi cas . E, segundo, ao s u b v e r t e r a técn i c a de n a r r a ­

tiva t r a d i c i o n a l e ao inscrev er n e l a uma paradoxal inversão, acaba

por d e s s a c r a l i z a r a narrativa.

Os t í t u l o s das "fá bu las m i l l o r i a n a s " f u n c i o n a m como uma

p r o m e s s a e uma o r i e n t a ç ã o ao leitor, faze n d o - o i d e n t i f i c a r a inter-

t e x t u a l i d a d e com as fáb ula s c l á s s i c a s e os p a r a d i g m a s n a r r a t i v o s do

gênero. ... - -

Há a p e r s i s t ê n ç i a de t í t u l o s i n d icat ivos dos p a res zoomá-

tic os que são c o m u n s na s fábulas de Esopo, Fed ro e La F o n t a i n e como


Í.59

"0 lobo e o c o r d e i r o " , "A raposa e o bode", (Fábulas F a b u l o s a s ) 3 2 ,

"0 lobo e o a r m i n h o " , "0 macaco e o corvo", "0 leio • o rato" <No-

vas Fábu l a s Fa bulosas) 33 « "A rS e o boi", (Eros uma v e z ) ^ 4 . O u t r a s

a p elam para a form açã o de novos p are s de a n i mais como: “0 g a t o e a

barata", “A bara ta e o rato" (Fábulas Fab u l o s a s > 3 5 , "0 eq uino e o

suíno", (Novas F á b ulas F a b u l o s a s >36. A p a r e c e m ai nda os pares mis­

tos, anim a i s e h o men s do tipo "0 jeca e o burro", “0 cav alo e o c a ­

valeiro", "Jonas e o peixe grande"; ou a n i m a i s e vege t a i s "0 c a r a ­

col e a pitanga", "A raposa e as u v a s ”-, ou mesm o de vege t a i s c o m o :

"0 jato b á e os ju ncos" (Eros uma v e z > 3 7 Contudo, a f r eq üência de

pa res h u m a n o s é a maior. Apenas a t í t u l o de e x e m p l i f i c a ç ã o c i t a r e ­

mos al guns d e l e s : "0 homem feio e o h o m e m mais feio", "0 U l e m a e o

chofer", "0 c a l ifa e o office-boy", "0 e s t u d a n t e gran d e e o p r o f e s ­

sor pequ eni no", "0 rei e o escravo", "0 a l d e ã o e o de mô nio" (Fábu­

las F a b u l o s a s >^®; "0 herói e o a n t i - herói", "Sorab e Rustam", "Nar­

ciso e Eco" (Eros uma vez>39; "0 g r a n d e s ábio e o imenso tolo", "A

be la e a besta" (Novas Fá bu la s F a b u l o s a s ) 4 ®. Cabe a ssina lar a e x i s ­

tê nci a de p ar es a n i mais p r o t a g o n i s t a s de fábulas, mas cujo título

não ind icia a sua existência. V e j a m o s c o m o e x e m p l o "No dia em que o

fato f a l o u “4 *, c ujos p r o t a g o n i s t a s são um a dama gentil e senil e um

ga to siamês. 0u, “A galinha r e i v i n d i c a t i v a " 4 ^ , hist ó r i a c e n t r a d a no

e n c o n t r o de um galo velho e uma g a l i n h a nova. Mas os tít ulos t a m b é m

têm a funçã o de fazer i n , quer p elas a l i a n ç a s insólitas, algumas

das quais já vimos acima, quer pelo p i t o r e s c o de sua suge s t ã o c o m o ,

"0 esc ula rápio, Patchut a l a " , "0 c a m e l ô acamelado'1, "0 home m que i n ­

ventava comp anhias", "Piorar para m e l hora r", "Rib amar tiro c e r t e i ­

ro", "0 fruto da R a i n h a V i r g e m " " V ê n u s , a d e u s a da amora".


í 60

Em algumas, o risível s u r g e da tran sgre ssã o do p a r a d i g m a

conh eci do; nout ras rep ous a o r i d í c u l o na a g r a m a t i c a l i d a d e , ma s t o ­

das são t e s t emunhas da v i o l ê n c i a d e f o r m a d o r a do risível.

Contudo, o t r a t a m e n t o p a r o d í s t i c o da fábula c l á s s i c a vai

além do jogo risível que se i n s c r e v e no título, atua ndo t a m b é m na

organização do discurso na rrativo. A n a r r a t i v a de Millôr, seguindo

o p a r a d i g m a clássico, es tabelece, em rápi d a s pinceladas, o a m b i e n t e

e os persona gen s. "Estava o c o r d e i r i n h o beben do água, q u a ndo viu

refletida no rio a so mb ra do lobo". Aqui a primeira e risível in­

versão, ao pr ivilegiar a p e r s p e c t i v a do animal mais fraco, o cor­

deiro, ao c o ntrário da fábula de E s o p o que inicia com o lobo v endo

o c o r d e i r o be bendo água num rio e ima gina um pretexto para d e v o r á -

lo. 0 t e x t o de Millô r salta, abru p t a m e n t e , para e n f r e n t a m e n t o do

carneiro com o lobo. "Mais pagar com a vi da o teu miseráv el crime.

Que c r i m e ? - p erguntou o c o r d e i r i n h o t e n t a n d o ganhar tempo, pois já

sabia que com lobo não adianta a r g umentar. "0 crime de suj ar a ág ua

que eu bebo"*3 . Fugindo do p a r a d i g m a dá fábula, Mi ll ôr a l o n g a este

episód io, a rgu m e n t a n d o em torno da inf ra ç ã o peq uena p r a t i c a d a pelo

cordeiro e das gra ndes p u n i ç õ e s e s t a b e l e c i d a s pelo mais forte, o

lobo. A seguir, a risível p r o p o s t a do c a r n e i r o em “a l e m ã o kantia­

no": " D o u - l h e toda razão, mas f a ç o - l h e uma proposta-, se me deixar

livre atra i r e i pra cá todo o r e b anho"** . Risível pela inve r s ã o do

c l á s s i c o papel de bom car át er que c a r a c t e r i z a o cordeiro.

N esta fábula de Millôr, a c l á s s i c a "prova" e ntre o animal

grande, poderoso, e o frágil animal p e q u e n o ,surge i n f l u e n c i a d a p e ­

las h i s t ó r i a s de exem p l o e de pr oveito, sob a espéc ie das trê s p e r ­

gu ntas en igmáticas. Em Esopo, o e n f r e n t a m e n t o não se r e s o l v e nos


í6i

argumentos defensivos do cor dei ro, que apesar de ter reconhecida

sua faci l i d a d e de defesa, ela não o s al va de ser devorado. Em F e d r o

e La Fontaine, a o c orrência é idêntica, o lobo ca rrega o c o r d e i r o e

depois o come, sem nen hum o utro pr ocedimento, pois como a f i r m a La

F ont aine, no início de sua fábula sob o mesmo tema, "a razão do

mais forte é sempre melhor".

A fábula m i l l o r i a n a inve r t e de uma forma risível a c l á s ­

sica, sobr e t u d o para o leitor que não desc o n h e c e o pa radigma. Pri­

meiro, inclu ind o como úl tima p e r g u n t a uma pseu do frase de Bern a r d

S haw que é de um primor satírico: “Vai haver eleiç ões em 6 6 " 4 5 s e ­

gundo, fazendo rev erte r a s i t u a ç ã o da vitó r i a do mais forte para

sua derrota, pois quando "ia se p r e p a r a n d o para dev ora r o c o r d e i r o "

a p a r e c e u "o ca çador e o e s q u a r tejou".

Além de tornar o seu d i s c u r s o uma p ar ód ia do d i s c u r s o dos

fab uli sta s, Millôr joga com o u t r a s d i s c o r d â n c i a s . Talvez a i n v e r s ã o

mais risível seja a da a p r e s e n t a ç ã o da "moralidade". Ao contrário

da t r a d i ç ã o que a faz surgir exp l i c i t a d a , no final em Esopo, ou v a ­

riando o p r o c e d i m e n t o , ora nò início, ora no final, em F e d r o e La

Fontaine, na fábula a m o r a l i d a d e s e p a r a - s e da n a rrativa par a su rg i r

bem e v i d e n c i a d a sob a forma de dí stico, d e n o m i n a d o "moral".

Sepa r a d a do corpo da n a rrativa, passa a ser um elemento

paratextual que assenta sua a u t o r i d a d e no escritor e não no n a r r a ­

dor. 0 p r o c e d i m e n t o t o r n a - s e mais risível pela total inversão do

conselho cont i d o no dístico. A sua "m oral" não tem c a r á t e r p r o i b i ­

tivo ou inibitório. Não há uma i n j u n ç ã o no sentido de fazer ou não

fazer al guma coisa. Busca dar s u g e s t õ e s sobr e as a l t e r n a t i v a s de

ação. Ao parodiar a paixão p e d a g ó g i c a das fábulas, e seu- p oder m a ­


162

nipulador das mente s infantis, a fábula de Mi llôr alert a pa ra a

açao de se deix ar guiar pelos o u t r o s sem ouvir a voz interior. Suas

li çõe s (há se mpre uma lição) d i s t a n c i a m - s e da m o r a l i d a d e t r a d i c i o ­

nal à m e d i d a que não objetiva a p e r f e i ç ã o humana, mas a c o n s c i ê n c i a

da sua imperfeição.

Para quem Millôr e s c r e v e as suas fábu las? Quem é o pa ct á-

rio i d e a l i z a d o pelo e scritor? Aqui, mais uma vez, p e r g u n t a s de d i ­

fícil resposta.

A destinação não se e s gota na dedic ató ria, mas e s t a é,

sem dúvida, r e v e l a d o r a da i d e n t i d a d e do leitor ideal, que é alg uém

a i n d a passíve l de se dução pela fábula: a sua p a l a v r a e o seu s i l ê n ­

cio. T a l v e z o m o d e l o do d e s t i n a t á r i o ideal fosse o p r ó p r i o d e s t i n a -

dor. "H oje n i n g u é m é mais c r i a n ç a do que eu, a i n f a n t i l i d a d e é uma

lo nga conquis ta" .

Em F á b ulas (1963), a i d e ntidade do n a r r a t á r i o é e x p l í c i -

ta-, " P ara o Ivan Fernandes, meu amigo". A cu rta d e d i c a t ó r i a a s s i n a ­

la a n a t u r e z a mai or da rela ç ã o e nt re o e s c r i t o r e seu leitor, a

ami zade . Na últi m a dás n a r r a t i v a s que c o m põem o livro, nos d e p a r a ­

mos com a t e x t u a l i z a ç ã o de Ivan, numa p a r ódia dos c é l e b r e s con tos

de m o r a l i d a d e , q u e .partem da proposta, e x e c u ç ã o ou s o l u ç ã o de t a r e ­

fa eni g m á t i c a , feita pelo rei, pelo pai ou pelo m e s t r e a t r ê s s ú d i ­

tos leais, três filhos amado s ou três d i s c í p u l o s de dicados.

A d e d i c a t ó r i a tem aqui dupl a função, reveladora e docu­

mental. Sob a forma de marca explícita, firma a r e l a ç ã o e n tre o

destinador, que se faz p r e s e n t e ("meu amigo"), e o d e s t i n atário,

seu c o m p a n h e i r o de leitura. Mas a d e d i c a t ó r i a pode ser a m p l i a d a por

um t e x t o de n a t u r e z a documental. Em F á b u l a s Fabu losa s, essa ocor­


rência se c o n f i r m a num tex to p r o f u n d a m e n t e irônico. Primeiro, indi­

ci ando a a t u a l i d a d e do g ê n e r o - "Muitas das fábulas aqui p r e s e n t e s

já eram ve lhas no banq u e t e de Balta zar e ainda s erão novas quan do o

Brasil for uma d e m o c r a c i a " - e a p o s t a n d o muito pou co num g o v e r n o do

povo e para o povo no Brasil. A seguir, s a t i r i z a n d o a moralidade

das fábulas na afirmativa. "Não p r e t e n d e r ensinar nada, se não...".

0 "senão" abre espa ço para três tipos de e n s i n a m e n t o às a v e s s a s . a

paz na terra in dep ende de noss a vont ade (inverte ndo o díst i c o c r i s ­

tão de “paz na terr a aos home n s de boa vontade"); a v i t ó r i a na vida

vem mais de n o ss os d e f e i t o s do que de nos sas qualidades, contra­

riando a idéia de que o s u c e s s o na vida de pende de q u a l i f i c a ç ã o m o ­

ral, e a in versão satí r i c a de um c o n h e c i d o p r o v é r b i o popular sobr e

o poder da Fé de remo ver montanhas, que só ocor r e r á no dia em que

um industrial e s p i r i t u o s o cham a r de Fé às suas esca vad eira s.

A a u t o - i r o n i a se faz p r e s e n t e na amb ígu a c o n s t a t a ç ã o de

que a obra é " d i s p e n s á v e l ”, como são d i s p e n s á v e i s "todos os ou­

tros". Sem duvida, uma m o d é s t i a b a s t a n t e relativa. Para que se t e ­

nha a m e dida dess a d i m e n s ã o irônica e c o n t r a d i t ó r i a , pode - s e r e t o ­

mar o texto em sua parte final. "Mas sej a tudo pela vont a d e de Alá

que é Deus - e de Maom é que, felizmente, não é seu ú nic o profe­

ta". Aqui, p o d e m o s ler o v i r t u o s i s m o n a r r a t i v o de Millôr, que en­

cerra o text o de forma inusitada, mas a l t a m e n t e rev e l a d o r a das r e ­

lações e s t a b e l e c i d a s no início en tre d e s t i n a d o r e d e s t i n atário, pai

e filho, mest r e e poeta.

Assim, vej amos a fala textual e o seu silêncio. A r e l a ç ã o

entre os s u j e i t o s do tex to (autor e leitor), aqui f o r t a l e c i d o s p e ­

los laços de amizade, é exp licitada, "meu a m i g o ”. Subjaz, to davia,


í64

a r e l a ç ã o -Filial, m e t a f o r i z a d a entre "Alá - que é Deus -" e "Maomé

que, -Felizmente, não é seu único profeta", e que d e i x a no sil ênc io

e l o q u e n t e a rel açã o c r i s t ã entre o Pai, que é Deus, e seu único fi­

lho, mas não único profeta. Esse labi r í n t i c o jogo r e lacion al r e f l e ­

te os a m b i v a l e n t e s laços que se estab ele cem, seja no p l a n o s u b j e t i ­

vo, seja no ficcional, entr e o fabu lista e seu leit or simbólico. Os

papéis - de Deus, Pai e Me stre - d e s e m p e n h a d o s pel o f abulista c o r ­

re spondem, para o leitor, aos de profeta, filho e di sc ípulo. Vale

l embr ar que Cristo foi filho, pr ofeta e d i s c í p u l o e que em pr e g o u a

p a r á b o l a como forma de d i s c u r s o persuasivo.

Na série das fáb ulas de Millôr, as d e d i c a t ó r i a s a p r e s e n ­

tam- s e variadas, quer na sua destinação, individual ou coletiva,

quer no d e s v e l a m è n t o do dedicador, iau, ainda, na manipulação da

le itura textual. Em F á b u l a s Fabulosas, a d e d i c a t ó r i a i ns c r e v e - s e na

primeira e na últi m a das v ariantes apontadas. Já em N o v a s Fá bulas

Fabulosas (1978), ela é s u b s t i t u í d a por um p r e c i o s o e x e r c í c i o de

a uto -ironia: a "Ap res en taçã o", que ilustra a s e g u n d a al ter nativa,

ou seja, a reve l a ç ã o do autor. 0 te xto b i o g r á f i c o i n i c i a com a voz

do n a r r a d o r imparcial, tendo como pon to de part i d a a e l o g i o s a r e f e ­

rência a Mill ôr F e r n a n d e s - “um dos p o ucos e s c r i t o r e s univ e r s a i s

que p o s s u í m o s " - feita pelo crí tic o F a usto Cunha. E fech a o perfil

p r o f i s sion al, a s s i n a l a n d o que "a tudo quant o faz, M i l l ô r e m p r e s t a o

b r i l h o de seu gênio c r i a t i v o vol tad o i n s i s t e n t e m e n t e p a r a o seu s e ­

melhan te, a quem 'obriga' a so rrir e a p e n s a r e a r e c r i a r " (os gri-

sos são n o s s o s ) .

A seg und a parte, " A u t o b i o g r a f i a de mim m e s m o à m a n e i r a de

mim próprio", esbo ç a um perfil p s i c o l ó g i c o dialrético-. "não e n t endo


Í65

do que sei, (...) se fico, ansei o p e l o de sco nhecido. Se parto, rói-

me a s e p a r a ç ã o . " E, ainda, sua p r o f i s s ã o de fé. "Sou um crente,

pois c r e i o -firmemente na des c r e n ç a . " Desvela, também, sua forte c a ­

r a c t e r í s t i c a narcisista, que alg un s a u t o r e s insi ste m em ser a m a r c a

pr i mordial ao humor, ao afirm ar ter e m p r e s t a d o "um b r i l h o no vo ao

humor nativo", e não crer em Deus, "mas sei que ele crê em mim." Na

últi m a parte, o seu se mpre r e a f i r m a d o a u t o d i d a t i s m o . "o que não sei

semp r e ignorei sozinho. Nunca n i n g u é m me ens in ou a pensar, a escre­

ver ou a desenhar, coisa que se p e r c e b e facilmente, examinando

qualqu er dos meus trabalhos."

0 últ imo livro de fábulas, Eros uma vez (Í987), foi o r g a ­

nizado de forma d i f e r e n t e dos dois anteriores: sem a dedicatória

que r e v e l a o dest ina tár io, nem a que d e s v e l a o dedica dor . Au sentes,

como t a m b é m estão ause n t e s as i l u s t r a ç õ e s p a r a t e x t u a i s , i ncluídas

nos dois prim e i r o s livros. Vale um s e g u n d o reg istro de uma m a t é r i a

que a t r a v e s s a a n ossa - a i l u s t r a ç ã o de capa. E n q u a n t o os dois p r i ­

me iro s livr os de f áb ul as a p r e s e n t a m c a p a e ilus tra ção ( p a r a t e x t u a i s

e text uais) do escritor, no último, t a n t o a capa c o m o as ilustra­

çõe s são de aut ori a de N a n i . Aqui, M i l l ô r assume a a t i t u d e s o c r á t i ­

ca de recusa»—se a "en sin ar" os s e u s le itores a ntes da leitura,

preferindo d e i x á - l o s encontrar, por si mesmos, as s o l u ç õ e s no p r o ­

cesso de ler. Contudo, ao c o n t r á r i o das lições so cráticas, o f ab u-

lista inver te o d e s e m p e n h o e a s s u m e o a uto r i t á r i o papel de intér­

pre te (moral) en tre a r e a l i d a d e è a humanidade.

De tudo que o b s e r v a m o s nos textos s a t í r i c o s de Millôr

Ferna nde s, em p a r t i c u l a r n a q u e l e s que foram objetos da nos sa l e i t u ­

ra (Diário da Nova Rep úbl ica , Que P a i s è Est e? e os três liv r os das
fábulas), s u b l i n h a m o s al gumas p a r t i c u l a r i d a d e s com as quais e n c e r ­

ramos esta unidade.

0 pode r de p e r s u a s ã o da sát ira é mais a c e n t u a d o que nos

de mai s d i s c u r s o s da n ã o - s e r i e d a d e , e x e r c i d o por um ser h u m a n o d i r e ­

tame nte sobre outro, e busca ndo e n v o l v ê - l o num a relação a n t a g ô n i c a

c o ntra um terceiro.

Ao se firmar como e xe rcício de v i o l ê n c i a c o n t r a violên­

cia, o satí r i c o de M i l l ô r Fer nandes não ofer e c e soluções, mas induz

para o caminho in verso do sat i r i z a d o numa i n t e n c i o n a l i d a d e de fácil

compreensão pelo leitor, so bre tudo nas fábulas, nas quais a moral

invert ida reve la o s e n t i d o satírico do texto.

0 alvo p rincipal de sua verve s a t í r i c a é o h omem c i t a d i ­

no, em especial o carioca, que vive o d o l o r o s o a p o u c a m e n t o do c o t i ­

diano. Algu ns t e xtos de Que País é Este ? e v i d e n c i a m esta situação.

Em geral, os teó ri cos da s á tira alertam para o fato de

que o ataque s a t í r i c o será tanto ma is e f icaz quanto men or for o e n ­

volvimento pes soa l do satirista, r e c o m e n d a n d o ao e s c r i t o r uma p o s ­

tura impessoal e ética. Millôr, em m o m e n t o algu m da obra, desliza

para o ataq ue pe ssoal ou es cá r n i o de defe i t o s físicos (lampoon),

r e s t ringindo sempre o seu ataque aos poderosos, incompetentes ou

corrupt o s .

Uma ú l t i m a questão a ser c o l o c a d a diz r e s p e i t o à d e l i b e ­

ração de e v i t a r m o s o t e r r e n o p e r i g o s o de apon t a r as i n f l u ê n c i a s li ­

terár ias e as a n a l o g i a s com ou tros satiristas. Contudo, acentuamos

as s e m e lhanças tem áticas, apesar da d i s t â n c i a temporal, e n t r e M i l ­

lôr e Juvenal, à m e d i d a que ambos e x p l o r a m ps escâ n d a l o s p o l í t i c o s

e as maz elas da a d m i n i s t r a ç ã o pública, tendo como ponto de p a r t i d a


c o t i d i a n o de uma cidade, seja Roma, seja Rio de J a n eiro
i 68

N O T A S DIVER S A S

*0 nome o r i g i n a - s e do latim " s a t u r a ” ou " s a t i r a e ” s i g n i f i c a n d o p r i ­

meiramente "cheio" e que veio a significar, posteriormente "uma

mistura chei a de dif e r e n t e s coisas". Alguns e s t u d i o s o s a v e n t a m a

possibilidade de o te rmo estar ligado à or igem etru s c a e outros

assinalam a sua possível lig açã o com ó v o c a b u l á r i o o alimentício.

Cf. HIGHET, Gilbert. The A n a tomy of Satire. New Jersey: Prince­

ton U n i v e r s i t y Press, s/d.

2cf. ARIST ÓTEL ES. Poética. Trad. Eu doro de Souza. P o rto Alegre:

Globo, 1966, p . 72.

^BA KHTIN, Mikhail. P r o b l e m a s da P o é t i c a de Dos to ie vsky . Trad.

P a u l o Bezerra. Rio de Janeiro. F o r e n s e Unive rsi tári a, 1981, p .92.

4 HIGHET, Gilbert. Obra citada, p . 3.

^Cf. JOLLES, André. F o rmas Simples. Trad. Alva r o Cabral. São

Paulo. Cultrix, 1976, p . 211.

^Cf. POLLARD, Arthur. Satire. London: Met huen & Co ltd., 1977,

P .74.

7Sobre o a s s u n t a reme t e m o s o leitor ao ensa io "La Morale Est- E l l e

Vraiment Mo rte ?" de A l a s d a i r Mac Intyre in, C r i t i q u e n2 463, Pa-

~ r is: E d i t i o n s de M i n u i t , décembre, 1985.


í 69

^FER NAN DES , Millôr. T r i n t a Anos de Mim Mesmo, p .233.

*0 p r ó p r i o autor, numa e n t r e v i s t a a Geneton Mor ae s Neto, no c a d e r n o

"Idéias*' do Jornal do Brasil, de 07/11/87, r e s s a l t a a i m p o rtância

do livro e r econhece que atac a não a pess oa -Física do político,

mas o seu c o mportamento, s e n do impiedoso: "Desde o p r i n c í p i o eu

sa bia que Sarney era um idiota. Infeli zme nte eu e s t a v a certo"

1®PEDREIRA, Fernando. "Mil l ô r no JB", prefácio in D i á r i o da Nova

República. Po rto Alebre. L&PM Editores Ltda., in vern o de 1985,

vol .1

**H0DGART, Matthew. La Sátira. Lo tra dujo al espanol Angel Guil-

lén. Madrid: E d i c i o n e s Guadarram a. S.A., 1969, p . 150.

l^Es t a m o s aqui n o v a m e n t e a m p l i a n d o o sen tid o de um term o para r o t u ­

lar o “estilo" m i l l o r i a n o de misturar pro sa e verso. Trat a - s e de

uma d e n o m i n a ç ã o quase e q u i v a l e n t e à c a r n a v a l i z a ç ã o , ou seja, m i s ­

tura de "gêneros, e s p é c i e s e formas li ter ár ias div er sa s", envol­

vid os com o p r o jeto i d e o l ó g i c o da sátira.

l^FERNANDES, Millôr. D i á r i o da Nova República, vol.II, p .38.

Midem, ibidem, p .82 .

Ilidem, ibidem, p . 71
í 70

1 6 Id em, ibidem, vol.Ill, p . 72.

*7 S á t i r a e ironia são f r e q ü e n t e m e n t e confun did as, até por que a ú l ­

tima é a arma p r i v i l e g i a d a da primeira. S e g un do Nort h r o p Frye, a

sátira e a ironia o r g a n i z a m o myt hos do inverno, ”e a sátira é a

iro ni a m i l i t a n t e ”. Cf. Obra citada, p.2i9.

*8 f e R N A N D E S , Millôr. D i á r i o da No va República, v o l . 3, p . 7.

*9id em, ibidem, v o l l , p .46 .

2®Idem, ibidem, p . 25.

21 Id em, ibidem, p .3.

22idem, Que País á Este? p .30.

23idem, ibidem, p .62.

24id e m , ib i d e m , p .97.

25 Idem, ibidem, p . 118

Saldem , ibidem, p .27 .

2 7 Id em, Trinta Anos de Mim Mesmo, p . 94


1 71

28ldem, L i vro V e r m e l h o dos P e n s a m e n t o s de Millôr, p . 16.

2?Alguns aut or es b u s c a m dist i n g u i r as suas v a r i a n t e s narr ati vas ,

c o n s i d e r a n d o a fábula como história de animais, o apólogo, de s e ­

res inani mad os e a parábola, de homens. Simples preciosismo ou

uma preocupação d i d á t i c a ? 0 recur so pode ser v á l i d o ap enas no

se n t i d o op eracional, pois todos os f a b u l i s t a s c l á s s i c o s mi sturam,

sob o rótul o de fábula, os apólogos, as p a r á b o l a s e as fábulas,

propriamente ditas. Até porq ue a sua o r i g e m e t i m o l ó g i c a c o n f u n d e

e funde, ’
’falar" e "história".

3 0 Ari s t ó t e l e s (Retórica) marg i n a l i z a o fabulista, negando-lhe a

c o n d i ç ã o de po eta e, em contra par tida , P l atão (República) o r e c o ­

menda. Apesar de F e d r o garantir à fábul a o p a d r ã o poét i c o e o

ritmo sat ír i c o tão a g o s t o dos romanos, o gênero, c o n s i d e r a d o m e ­

nor, não logrou boa a c e i t a ç ã o na l i tera tura latina. Cf. CCHA M -

BRY, émile. "No tic e sur ésope et les fables esopiqu es" , in Eso-

pe-Fables. Paris: "Les B e i les L e t t r e s ”, p .196.

3*Idem, To do h om em é m i n h a caça.

S^idem, F ábu l a s Fabulo sas , p .20 e 78.

33ldem, Novas F á b u l a s Fabulosas, p .23 e 65.

3^Idem, Eros uma vez, p .36


Saldem, F á b u l a s Fabu losas, p .15 e 81.

Saldem, N o v a s F á b u l a s F a b ulosas, p .35.

37jdem, Eros uma vez, p .65.

3®Idem, F á b u l a s Fabu losa s, p . 17, 45, 634, 75, 123 e 126.

39jdem, E r o s um a vez, p . 25, 85 e 104.

4®Idem, N o v a s F á b u l a s Fa bulosa s, p .47 e 60.

41-Idem, F á b u l o s a s F a bulosas, p . 9.

4 2 Id e m , ib i d e m , p .22.

43ldem, F á b u l a s Fa bulosas, p .20.

««Id e m , ib i d e m , p .20.

45id e m , ib i d e m , p .21 .
O RISO E O HUMOR

EM MILLÔR FERNANDES
"Assim cama a m e 1anca 1ia e a tristeza
que se tornou leve, o humor é o cômico
que perdeu peso corpóreo (aquela d im en ­
são da carnal idade humana que no e nt an ­
to -Faz a grandeza de Boccaccio e R a b e ­
lais> e poe em dúvida o eu e o mundo,
com toda a rede de relações que os
const i t u e m .'*

ítalo Calvino
Co Iocações

0 "humor" não tem a fort una cr ít ica de suas raíz es h i s t ó ­

r icas na p r o p o r ç ã o da f o r tuna do côm ico ou do satírico. Em c o n t r a ­

partida, na pr ópria m o d e r nidade, a p r e o c u p a ç ã o com o tema do "hu­

mor" ga nhou forte impulso nas c o n s c i ê n c i a s críticas, como bem de­

m o n s t r a m os mú lt i p l o s e s t u d o s que lhes são a t u a l m e n t e dedicados.

Assim, no m un do do p e n s a m e n t o atual, vai se c o n c r e t i z a n d o

a t e n d ê n c i a para am plia r o seu co nc e i t o e, igualmente, para c o n f e ­

ri r -lhe uma posição de p r i v i l é g i o no ca mpo do c o n h e c i m e n t o humano.

Ess a d i s s e m i n a ç ã o em áreas d i v e r s a s tende a imprimir no hu mor uma-

largueza de conc e i t o s tão vasta, que se torna muito difícil tra çar

o seu perfil, pois as p e s q u i s a s atuai s tend em a p r i v i l e g i a r s e t o r e s

do c o n h e c i m e n t o humano, t o r n a n d o s etoriais as suas c o n c e i t u a ç õ e s

Apesa r de d i v e r s o s autores e s t a b e l e c e r e m d i f e r e n ç a s f u n ­

damentais entre o "humor" e a ironia, se p e n s a r m o s na ironia, em

sua d i m e n s ã o socrática, s e n t i r e m o s a t en dê nci a de e s t a b e l e c e r p o n ­

tos de anal o g i a entr e ela e o "humor". 0 que c o n s i d e r a m o s essencial

é faz erm os uma a p r o x i m a ç ã o entr e ambos at ravés da p o s tura mental

que lhes dá origem.


17 6

A c o n s u l t a b i b l i o g r á f ica s o b r e o tema não é ale nta dor a. A

acentuada d i s c o r d â n c i a entre os t e ó r i c o s coní unde òs e s t u d i o s o s do

assunto. A prime i r a d i f i c u l d a d e d i a n t e da qual se depa ra o p e s q u i ­

sador é fazer a d i s t i n ç ã o entr e o h u m o r e o cômico. Freud, no seu

"Chiste" considera o humor uma forma do cômico. Pirandello, no s

"Ensaios"*, nega ao humor a c a p a c i d a d e de designar todas as e x p r e s ­

sões do cômico, c o l o c a n d o - o como um a c a t e g o r i a independente. Para

Celestino de La Vega, o h umor s i t u a - s e no limite do risível, sendo

o e l e m e n t o de e q u i l í b r i o ent re o c ô m i c o e o trágico.

Esta s poucas r e f e r ê n c i a s já d e ixam entre ver a i m p o s s i b i ­

lidade de um aco rdo entre os teóricos, o que faz per tencer ao pa­

trim ô n i o do cons e n s o assi n a l a r a e x t r e m a amb igüidade do vocábulo

"humor" e a d i f i c u l d a d e de c o n c e i tuá-lo.

Uma coisa, contudo, pare c e evidente: da A n t i g ü i d a d e g r e g a

à moderni dad e, o h u mor tem sofrido, em sua essência, um p r o c e s s o de

t r a n s f o r m a ç ã o progressiva. Ele vai, cada vez mais, passando do a b s ­

trato ao conc r e t o e a b s o r v e n d o e l e m e n t o s do cômi co e do satírico.

Estas c o n s i d e r a ç õ e s e v i d e n c i a m a nossa p r e o c u p a ç ã o em e s ­

tabelecer uma cert a a nalo g i a com as u n i d a d e s precedentes. Contud o,

por ser muito di scutível a p o s s i b i l i d a d e de traçar a sua gênese

h i s t ó r i c a e, dian te da a m p l i t u d e co m que o tema está sendo e s t u d a d o

na mod ernidade, temos que a s s u m i r um c a m i n h o próprio, s o l i t á r i o e,

sob retudo, perigoso. Portanto, v a mos p a s s a r d i r e tame nte às c a r a c t e ­

rísticas do humor em Millô r Fe rnandes.

No de curso da noss a pe squ isa, e na elab o r a ç ã o do quad r o

teórico, assumimos, com rela ç ã o ao u n i v e r s o do risível, que há três

modo s - o cômico, o s a t í r i c o e o h u m o r - e que entre eles existem,


além dos laços comuns, tra ços de identidade. Mas o importante, rea­

firmamos, não é e s t a b e l e c e r a totaí i n d e p e n d ê n c i a de cada um deles,

mas particularizá-los em função de uma visã o de m u n d o p e c u l i a r a

cada um e de uma m a n e i r a especial de rei a c i o n a r - s e com o risível.

A p r i m e i r a c a r a c t e r í s t i c a que e v i d e n c i a m o s no humor mil-

lo ria no é a vis ão p e s s i m i s t a da condição h u m a n a e da soci e d a d e b r a ­

sileira. São text os que de ix a m e ntr e v e r a r e l a ç ã o a g ô n i c a do e s c r i ­

tor com a r e a l i d a d e que o circun scr eve : o m u n d o ridículo, povoado

de seres inf eriores e p r e o c u p a d o s com seu m e s q u i n h o cotidiano. Mas

nos te xtos de R e f l e x õ e s Sem Dor, nos Hai-kais, na gra nde maioria

dos p o emas de P a p á v e r u m Millôr, ou ainda nos a f o r i s m o s do L i vro

Vermelho p e r c e b e - s e a p r e s e n ç a de e lementos a t e n u a d o r e s da d i s t â n ­

cia crítica, que a gran d e m a i o r i a dos aut ores a f i r m a ser a empatia.

Ao m e smo tempo, é essa empa t i a que faz com que o h u m o r se d i s t a n c i e

do risível e se a p r o x i m e do sério. Mesmo m o s t r a n d o o ridíc u l o da

n a t u r e z a humana, o humo r o faz com um certo s e n t i m e n t o de simpatia,

incl u i n d o - s e ne sse universo. Daí a freq üênc ia da a u t o - i r o n i a que se

insere nos text os de hum or millorianos. Esse se nti ment o, todavia,

não che ga a c o m p r o m e t e r o c e t i c i s m o que c a r a c t e r i z a o autor.

0 humo r não acusa o mundo, e não m i l i t a junt o ao leitor,

co n f o r m e faz o satírico. Nele desaparece, quase por completo, o ím­

pet o de corrigir, de m o d i f i c a r o mundo, por não a c r e d i t a r ser p o s ­

sível corrigi-lo.

0 humor l ig a- se ao detalhe, ao r e c o r t e sem compromisso

com o todo. Enfoca, p r o d u z luz, ilumina um aspecto, um ponto e nele

incide a sua crítica. Daí sua pref e r ê n c i a pe las forma s condensadas,

o aforismo e o provérbio
í 78

0 riso do humor é um riso que se faz mais reflexivo, que

vê no o ut ro um alter-ego. Esta nova dime n s ã o do riso é c o n s e q ü ê n c i a

da p o s i ç ã o p r i v i l e g i a d a que a m o d e r n i d a d e conferiu ao humor. Ins-

taur a - s e um riso mais sutil, no r e c o n h e c i m e n t o das limisfcações do

"eu” e do "outro". Ao debruçar—se so bre a frag ili dade humana, o

faz o l h a n d o ao seu redor a p a rtir de si mesmo. Daí ser a a u t o - i r o -

nia uma c o n s t a n t e nos textos de humor.

O Aforismo em Reflexões Sem Dor

ReflexSes Sem Dor se c o n s t i t u i numa c oletânea de pensa­

ment o s de M i llôr p u b l i c a d o s pela 'revista Veja, de 1968 até a p r o x i ­

m a d a m e n t e 19 77.

Em toda a obra de Millôr, qualq uer que seja a v e r t e n t e do

não-sé rio , p e r p a s s a uma atitude de c a ç ador do rid ículo humano. Den­

tro desta postura, a sua p r o d u ç ã o de humor se rea liza me lhor nas

formas menores: os a for i s m o s de R e f l e x õ e s Sem Dor; os hai-k a i s do

livro homônimo; e os poemas com final e p i g ramático de Papáverum

Millôr. Se o cômi co ajuda a ver o h o m e m através do seu ri dículo, e

o satírico, a lutar contra todas as formas de opressão, cabe ao

"humor" dar uma outra dim e n s ã o à vida do homem, e n s i n a n d o - o a vi­

ver .

é o c o t i d i a n o que se faz m a t é r i a - p r ima dessas Reflexões

Sem Dor, c i r c u n s c r e v e n d o - s e às r e l a ç õ e s entre o indiv ídu o e a so­


í 79

ciedade nos a c o n t e c i m e n t o s do dia-a-dia. Assim, os outros, a quem

são d i r i g i d a s as ref lexões, e stão insc ritos n ess a sociedade, envol­

v i d o s t a n t o quanto o "eu" do h u m o r i s t a no a c o n t e c e r da vida humana.

é na p e q u e n a dime n s ã o do c o t i d i a n o vivido, em o p o s i ç ã o ao canônico,

que se d e s e n h a a visã o do "h umor" em Millôr Fer nan des .

Todo s os p r o c e s s o s e os est ilo s de c o m p o s i ç ã o u t i l i z a d o s

no humor são anál o g o s à q u e l e s do cômi c o e do satírico. Porém, no

humor ess as técni cas se p a r t i c u l a r i z a m no dizer uma co isa quer e n d o

dizer o utra que não é o b r i g a t o r i a m e n t e c o n t r a d i t ó r i a E, ainda, no

re d u z i r a força da c o n d u ç ã o textual; no ref re ar o ímpeto agressivo;

no diminuir o d i s t a n c i a m e n t o e ntre e s c r i t o r / 1e i t or e texto. Além

diss o , - o "humor" busc a impri mir ao riso uma d i m e n s ã o ôntica de l i ­

bertar o homem de seus ressent i m e n t o s , faz endo-o ir ao en contro de

si m e s m o à medi da que o faz c o n s c i e n t i z a r - s e de suas limitações.

Dentr o da n ossa p r o p o s t a de leitura da c o m p o s i ç ã o p o é t i c a

e r e t ó r i c a de textos mi ll orianos, va mos ini c i a l m e n t e isolar os e l e ­

mentos da abertura e e n c e r r a m e n t o do livro Assim, o prólog o e o

e p í l o g o jo gam com e l e m e n t o s text u a i s que reve l a m o eu e o outro. No

prólogo temos um a f o r i s m o que é o a p r o v e i t a m e n t o de um velho topos

s obre a pass a g e m rá pida da vida, uma varia nte da p r i m e i r a p a rte do

aforismo de Hipócrates: "a vida é breve, a arte é longa, a ocasião

fugitiva, a e x p e r i ê n c i a e n g a n o s a e o juízo d i f í c i l ”. A o r i g i n a l i d a ­

de de Mill ô r está em inver t e r iro nic amente a p o s t u r a tradic ion al e

séria do a fori sm o para e m p r e s t a r - l h e uma vir ada irônica. "Vou já

p a s s a n d o do meio da vida e de re pente descubro, as sustado, que a i n ­

da e stou em Pirapora"^.
180

Quanto ao epílogo, temos um a f o r i s m o bast a n t e cético em

rela ç ã o à " n o b r e z a ” do ser humano: "A ú n i c a nobr e z a do ser h u m a n o é

ser e s p l ê n d i d o em cinzas, faustos o nos túmulos, s o l e n i z a n d o a m o r t e

com incrível esp len dor, t r a n s f o r m a n d o em c e r i m ô n i a e pompa a e s t u ­

pide z de sua natu rez a" ^.

0 que p r e d o m i n a em R e f l e x õ e s Sem Dor é o aforismo, que

imprime ao livro uma u n i f o r m i d a d e de g ê n e r o raro nos demais. 0 a f o ­

rismo, de sde a a n t i g ü i d a d e cláss i c a até os n o ssos dias, est eve s e m ­

pre a serv i ç o tanto da l i te ratura c é t i c a e p e s s i m i s t a quanto da s a ­

tírica. C a r a c t e r i z a - s e pela sua e x p r e s s i v i d a d e de dizer muit o com

muit o pouco, pela leveza no t r a t a m e n t o da maté ria grave, de i n v e r ­

são da ordem natural, e por m a n i f e s t a r uma forma aguda de p e s s i m i s ­

mo .

As R e f l e x õ e s a p r e s e n t a m um p e n s a m e n t o e uma advertência

às avessas, mas são feitas de forma fra gme ntá ria, segui ndo a ten­

dência de M i l l ô r de inverte r o tema.

Os "af o r i s m o s " m i l l o r i a n o s p o d e m ser a grup ados em q u a t r o

unid a d e s temáticas.

0 primeiro g rupo eixa-se na t e m a t i z a ç ã o do autor, seus

dados b i o g r á f i c o s e e x p e r i ê n c i a s de vida. "Sozinho, órfão no m u n d o

estudando à noite, jovem t r a b a l h a n d o e e s t u d a n d o à noite, já h o m e m

e lendo e a p r e n d e n d o - entre o t r a b a l h o c o m p u l s i v o e a d i v e r s ã o i r ­

resistível -, um dia, já na maturidade, tive, afinal, a sens a ç ã o de

que sabia a l g u m a coisa, de que era, com razoável c o m p 1a c ê n c i a , um

home m culto. Mas aí!, a cultu ra já tinh a sa ído de moda"*. Observa-

se aqui, a inse r ç ã o no d esenlace de uma piad a que inverte a e s t r u ­

tura para i n t r o d u z i r o e s t r a n h a m e n t o
Í8Í

A i n d a no mesmo grupo, e x e m p l i f i c a m o s um o utro a f o r i s m o em

cujo d e s e n l a c e temos a mes ma t é c n i c a de estranh a m e n t o . "C ada dia há

ma is g e n t e a s s i s t i n d o t e l e v i s ã o para e s c a p a r à real ida de. E eu, que

d e s e j o a p e n a s escap ar da tel evi sã o?"® .

0 segundo grupo se o r g a n i z a em torno das conceituações,

em que o a f o r i s m o se a p r o x i m a das m á x i m a s e das sentenças:

"Um filósofo mu itas v e z e s é obscuro. Mas não b asta ser

o b s c u r o para ser um fi lós ofo " (p.i4>

" Pens ar - eis um verbo r e f l e x i v o ” (p.5).

"0 Vício se diverte, a V i r t u d e se chateia; a Prudência

paga" < p .15).

0 te rceiro grupo é c o n s t i t u í d o por provér_bios, frases

feitas, chichês, topos e máximas, a quem o autor empre sta , aqui e

ali, t r a t a m e n t o parodístico.

"Os olhos acre d i t a m no que vêem. Os ouvidos a c r e d i t a m no

que as outras pess o a s vêem" (p.60).

"Mui tos serão os c h a m a d o s e p o uc os os atendidos. Isso é

da Bíblia ou da T ele f ô n i c a ? " (p.60).

E no quarto grupo, e n c o n t r a m o s a f o r i s m o s s o bre tema s g e ­

rais, ent re eles o tema da mulher: "Toda vez que as m u l h e r e s estão

qu ase nos c o n v e n c e n d o de que são i n t e l e c t u a l m e n t e iguais aos ho­

mens, vêm os d e s g r a ç a d o s dos c o s t u r e i r o s i n t e r n a c i o n a i s e impõe m a

el as mais uma dessas ridí c u l a s modas que e s t r a g a m tudo"^.

Os af or ismo s se inscrevem, a ss im como os e p i g r a m a s e os

provérbios populares, na t r a d i ç ã o da o r a l i d a d e literária. Daí o

c o n s t a n t e a p r o v e i t a m e n t o que Mil l ôr faz deles.


í 82

A Verdadeira História: Uma Pa rod ia

Ao falar mos de obr a de arte no c a p í t u l o das "Primeiras

Palavras", s a l i e n t a m o s o seu aspecto de produção, de fazer a r t í s t i ­

co, e da relaçã o que se e s t a b e l e c e entre a escr itu ra, o texto e a

sua leitura.

Na adição da paródia, escrita sobre o u t r a escrita, o e s ­

critor inscreve um texto em outr o texto, e s t a b e l e c e n d o um diálogo

e n tre as visões de m u n d o que eles expressam. E esse diál o g o pode

estabelecer rela ç õ e s que tanto podem ser de "ca nto para lelo" ou de

"cant o de protesto".

Em Millô r Fer nan des , a par ódi a quase sempre se inscreve

ha se gunda hipótese, ou seja, de marc ar uma inve r s ã o ir ônica e e s ­

t abe l e c e r uma re lação de e s t r a n h a m e n t o com o tex to parodiado. A tô­

nica desse proceder é a a d o ç ã o da inversão ir ônica entre a forma de

expressão e a m a t é r i a de seu conteúdo. Também it er ati vo é o apro­

veitamento p a r ó d i c o do d i s c u r s o bíblico, em espec ial da gênese. A

Bíblia é uma obra m u i t o h e t e r o g ê n e a em sua escritura, pois há uma

d i f e r e n ç a ac en tuad a de e s t i l o entre os div ersos livros, como a "Ge-

nese", o "Livro de Jó" e o "Apocalipse". Dentre esses, o discurso

da "Gênese" é o mais p a r o d i a d o por Millôr, t a lvez por de ixar t r a n s ­

p a r e c e r um estilo aut ori tário, o que pro voc a a reaçã o c o n t e s t a t ó r i a

do escritor. Contudo, não ousamos levantar h i p ó t e s e com re lação a

este procedimento, que, em Millôr, assume a forma irônica de " r u p ­

tura com o passad o" ^


A le itura que vamos fazer de e l e m e n t o s p a r a t e x t u a i s pode

contribuir para d e s v e l a r m o s os m e c a n i s m o s poét i c o s da sua c o m p o s i ­

ção e a i n t e n c i o n a l i d a d e da sua escri tur a. Na capa de rosto, ilus­

tr ada por um d e s e n h o c omp o s t o pela s m o n t a n h a s da baía da G u a n a b a r a

e p elos p á s s a r o s c o loridos que a sobr evoa m, po demos intuir qué o

local do p a r a í s o seja o próp r i o Rio de Janeiro. A dedicatória, que

a r rola diversas per sona l idades, e s t r a n g e i r a s e nacionais, a quem

M i llôr c h a m a de "meus c o m p a n h e i r o s de ofício", e s tabelece uma r e l a ­

ção de l i n h a g e m entre os h u m o r i s t a s e s t r a n g e i r o s e os brasileiros ,

com d e n o m i n a d o r e s comuns, como o s a t í r i c o para relacionar G r e g ó r i o

de M a t o s a Arist óte les , a l it e r a t u r a infantil para Lewis Carrol e

M o n t e i r o Lobato, o humor para C e r v a n t e s a M a c hado de Assis, a c r i a ­

ção de p e r s o n a g e n s infantis para W i l h e l m Busch a Ziraldo, o humor

satírico para GBS (George Ber nard Shaw) a VG (Vão Gogo), en tre ou-

t ros .

0 Prefácio é a hist ó r i a da V e r d a d e i r a História, em que

M i llôr registra a gênese deste trabalho, "e scr i to aos poucos, ao

acaso, fra ses soltas, conc e i t o s ocas ionais". Foi apr e s e n t a d o pela

p r i m e i r a vez na déc ada de 50, num p r o g r a m a de t elevisão em Belo H o ­

rizonte, e pub lic ado , como encarte especial, na revi sta 0 Cr uze iro,

em maio de 1963, oc asião em que o e s c r i t o r viajava pela Europa, on­

de teve n o t í c i a do editorial que "rev e l a v a " o não c o n h e c i m e n t o da

p u b l icação. Assim, a p u b l i c a ç ã o do e n c a r t e vale u - l h e a d e m i s s ã o da

re v i s t a na qual tr abal hara 25 anos. Este e p i s ó d i o marcou p r o f u n d a ­

men te o escritor, a po nto de o t exto ser rea p r o v e i t a d o em várias

o u tras obras. Por exemplo, em Trint» Anot de Mim Me»mo, ele r e p r o ­

duz o qua dro final do encarte, em que a p a rece c a r i c a t u r a d o , a c u s a n ­


í 84

do Deus de inc o m p e t ê n c i a por fazer o mundo, com "p res sa leva ria " 7

dias, quando tinha toda a e t e r n i d a d e para fazê-lo.

Ao fa larmos de car i c a t u r a , faz-se c o n v e n i e n t e f a z e r m o s a

separação entre as dua s e s p é c i e s de desen ho car ica tur al e m p r e g a d a s

por Millôr. De um lado, t e m o s o retr a t o em charge, manifestação

gráfica do espírito s a t í r i c o m i l l o r i a n o em sua função de exa ge ro,

de d i s t o r ç ã o e de d e f o rma ção. M i l l ô r apen as usa es se r e c u r s o para

atacar os p oderosos e/ou incompet e n t e s , como faz no D i á r i o da N o v a

R e p ú b l i c a e em Que País é Este?. De outr o lado, t em os o d e s e n h o c a ­

r i c atural, ig ualmente def o r m a d o , representando o comportamento h u ­

m a n o e as situ ações do m u n d o ref erencial, pr es entes em C q n p o 2 Í s sSis

I nfâ t i s

Devemos c o n f e s s a r que as dife r e n ç a s en tre os dois tipos

são b a s t a n t e sutis, d i f í c e i s de s erem d e m arcadas com e x a t i d ã o e l ó ­

gica, fic ando d e p e n d e n t e da s u b j e t i v i d a d e pró pria a toda leitura.

To davia, ou samos dize r que, ao termo s esses textos, não vim os o

componente de d e g r a d a ç ã o que c a r a c t e r i z a o Diário da Nova R e p ú b 1 i-

ca. Na Ver d a d e i r a H i s t ó r i a nos d e p a r a m o s com desenhos, deforma ntes,

é claro, mas cuja d e f o r m a ç ã o a p r o x i m a - s e mais da v isão lúdica do

cômico^ sem a p r e o c u p a ç ã o do a t a q u e a g r e s s i v o que c a r a c t e r i z a o s a ­

tírico.

A paródia m i l l o r i a n a A V e r d a d e i r a Hist ó r i a do P a r aíso m a ­

n i f e s t a com clarez a a i n t e r a ç ã o entre univ ers os de v a l o res d i f e r e n ­

tes e antagônicos. Aqui, o d i á l o g o p o l i f ô n i c o se faz no a p r o v e i t a ­

mento paró d i c o de uma h i s t ó r i a séria co ntada de forma c ô m i c o - s a t í -

rica, e s t a b e l e c e n d o um liame inve r t i d o entre duas cult u r a s diver­

sas, a sagrada e a profana, e e n tre dois discursos, sério o p r i m e i ­


í 85

ro e risível o segundo.
Em Millôr, a pa ró dia c o n f i g u r a um comporta m e n t o , um t exto

num c o n t e x t o contradi t ó r i o . Esse c o n t r a s t e p r o d u z o estranhamento

irônico que m o t i v a o riso. E este riso nã o se c o m p r o m e t e nem com a

censura e nem com a destruição; seu c o m p r o m i s s o m a i o r é troc ar do

h ome m e do mundo.

O Diálogo Irônico no "Livro Vermelho"

Em o L i v r o V e r m e l h o dos P e n s a m e n t o s de Millôr, d e p a r a m o -

nos com o risível que osc ila do " h u m o r ” ao satírico. 0 livro está

o r g a n i z a d o a p a r t i r de uma gama mui to g r a n d e de "f alas m o n o l ó g i c a s "

que se t r a v e s t e m de um " p s e u do-diálogo " com um ouvinte, que tanto

pode ser um a l i a d o quanto um opo nente Aqui, o "eu" fala em seu

próprio nome, sob a m á s cara de um "diálogo", de uma "conversa", di­

rigi n d o - s e diretamente a um narratário, i d e n t i f i c a d o ou não, mas

que às v ez es se c o n f i g u r a num aliado, e, n o u t r a s vezes, a aliança é

pura ironia. E s t a s c o n v e r s a s são p l e n a s de s a b e d o r i a às avessas,

nas quais se e n c o n t r a m t extu aiizados o "eu" do h u m o r i s t a e o "ou­

tro" (o leitor) cúmplice, ambos rindo de si m e s m o s e dos "outros".

0 leitor/ouvinte torna-se a l i a d o em sua tare fa de "rir

com o o utr o dos outros", pois aqui o riso não se esgo t a no texto

como ocor re no cômico, mas conduz a uma reaç ã o reflexiva. No L i v r o

Vermelho, o ri sível se atenua na a b s t r a ç ã o filosófica, só r o m p ida


í 86

em a l guns textos, nos quais se perc e b e a i n t e n c i o n a l i d a d e s atírica.

Como em outr os t e xto s mil lor ian os, aqui a ironia t r a b a l h a

na e s t r a t é g i a disc u r s i v a de invert er o conte ú d o textual, estabele­

c e n d o uma re lação de d i s s o n â n c i a entre a estrutura, de -Forma e t e m a

sérios, trata d o s i r o n i c a m e n t e . 0 livro se propõe a ser uma r e v i s ã o

do pensamento e s t r a t i f i c a d o so bre o qual a ironia m i l l o r i a n a irá

a bri r p e r s p e c t i v a s para n ovas reflexões, à mane i r a dos Ensa ios , de

M ontaig ne, os textos se o r g a n i z a m a partir de vi nte e três eixos

temáticos, cujos títul os são da mais alta seriedade, relacionando-

se, por exemplo, com a religião, a educ a ç ã o e a liberdade. Estes

t ema s se m a n i f e s t a m a t r avés de v a r i a ç õ e s do " p s e u d o - d i á l o g o " , p r o ­

c e s s a n d o - s e de duas maneiras. Na primeira, o ouv int e está i d e n t i f i ­

cado, e o d i á logo se re veste de m a n i f e s t a ç õ e s que lhe são t r a d i c i o ­

nais, como a conve rsa <a m a i o r incidência), o encontro, a discus­

são, a rod ada de pôquer e o pa po furado. Na segunda, o d i á l o g o é de

c unho didático, não e x i s t i n d o o ou vinte identificado, e expressan­

d o-s e por palestras, lições, ex pli cações, mesas-r edo ndas . Mas em

ambo s os casos, as r e f l e x õ e s a p r e s e n t a v a m aspect os de afor ism o, a

que a ironia retóric a de M i l l ô r e m p r e s t a um sentido c o n t r á r i o da­

quele expli cit ado . E x e m p l i f i c a n d o a prim e i r a teoria do diálogo, com

o u v i n t e identificado, temos: "Não conh e ç o ninguém, como eu, que t e ­

nha tanta no ção de ser um h o m e m medíocre. 0 que, d e sde logo, me

torn a um home m e x t r a o rdinário"®. Este é também um e x e m p l o que i l u s ­

tra a a u t o - i r o n i a e o salt o irôni co que inverte o c o n t e ú d o da re­

flexão. Sobre a manei ra sem o ouvi n t e identificado, a p r e s e n t a m o s o

a f o r i s m o ta mb ém e x t r e m a m e n t e irônico. "Os parad oxo s entr e a t é c n i c a

e a real i d a d e se acentuam, c o n t i n u a m o s novos nas fotos a n t i g a s e


187

v e l h o s nas -Fotos novas"?.

Al ém do título, a capa, de au toria de seu amigo e i g u a l ­

m e nte h u m o r i s t a Ziraldo, t a mbém indica a irô nica inter tex tua i idade

com o livro de M a o - T s é - T u n g . Essa ironia é r e f o r ç a d a pela m o n t a g e m

f o t o g r á f i c a do r e t r a t o do r e f e r i d o políti co e filó s o f o c h inês com o

rost o de Mi 11ô r .

A p a r ó d i c a c h a m a d a que abre o livro, " H u m o r i s t a s do m u n ­

do, uni-vos!", e l u c i d a a inte nçã o irônica que se r e f o r ç a na "Noite

dos co ordenadores", pois s a b emos ser Millôr o único. Esta nota " o m ­

breia" 0 L ivro V e r m e l h o a uma sé rie de ob ras c a p a z e s de "co nduzir

g r a n d e s m a ss as da h u m a n i d a d e " e faz dele "um v e r d a d e i r o o r g a s m o fi ­

losófico que fará e s t r e m e c e r o m u ndo nas suas bases"*®.

A ironia, v elha e fiel c o m p anh eira de j o r nada em toda

t-rajetória de "humor", vai além da i n s t r u m e n t a l i z a ç ã o do discurso,

chegando a t ext uai i z a r-se num dos aforismos-, "0 ú l t i m o r e f úgio do

oprimido é a ironia e n e n h u m tirano, por mais v i o l e n t o que seja,

e sca p a a ela. 0 tir ano pode evit ar uma fotografia, não pode impedir

uma caricat ura. A mordaça aumenta a mordacidade (grifo nosso) **

Verifica-se no text o s u p r a c i t a d o a m esma t é c nica de es­

tra nhamento, do salto irô nic o da virada de sentido, que, aliás,

p r e d o m i n a no segme n t o final de cada aforismo. E para ev itar a r e p e ­

t i ç ã o exaustiva, vamos fazer uma outra e x e m plificação. Assim, veja­

mos no "diálogo" com Dom Marcos Barbosa, em 1966: "Deus proteje os

frac os e des amp arad os, mas um bom s i n d i c a t o ajuda" (grifo nosso)*2.
í 88

O Riso e o "Humor" em Millôr Fernandes

0 "humor" de Mi llôr F e r n a n d e s não se limita a fazer e s p i ­

rito. A sua d i m e n s ã o é mais a mp la e a função mais profunda, à m e d i ­

da que revela as falhas do c o m p o r t a m ento h u m a n o e o faz sem a su­

perficialidade do c ô m ico e a a g r e s s i v i d a d e do satírico. Re ve la c o m

maestria o c o n t r a s t e entre o que d e v e r i a ser e o que é, e, ao c o n ­

trár i o dos o u tros modos, a p r e s e n t a maior agudez a psic o l ó g i c a no

q u e s t i o n a m e n t o das r a zões do r i d í c u l o do homem.

A m o d e r n i d a d e alar ga o c ampo de sign i f i c a ç ã o do "humor",

investindo, não t anto na sua d i m e n s ã o social, mas s ob retudo na i n ­

dividual, p r i v i l e g i a n d o - o como um p r i n c í p i o narc isista e um meca­

n ismo de auto -de fes a.

Em todas as formas da arte da n ã o - s e r i e d a d e , o ponto de

partida é o e s t a b e l e c i m e n t o de uma rela ç ã o dual entre o "eu" e o

"outro", cuja te nsão é sempre dialé tic a. Essa tensão anta g ô n i c a tem

no riso a sua mar ca m a n i f e s t a como e l e m e n t o de di stensão nas d iver-

sidades das r e l a ç õ e s agônicas impr e s s a s pelo cômico, pelo s a t í r i c o

e pelo "humor". Geralmen te, essa te ns ã o se resolve, no cômico, no

próprio texto, com a adesã o do leitor, e n q u a n t o no satírico, ela

e x t r a p o l a o t exto pelo ímpeto de ação a g r e s s i v a car a c t e r í s t i c o d e s ­

te modo já no "humor", pela e m p a t i a e s t a b e l e c i d a entre _o "eu" e o

"outro", a te nsão diminui e cede e s p a ç o à reflexão.

Ao contrário do satírico, cujo riso é mais fa cilme nte

id entificável pe los seus e l e m e n t o s de s a r c a s m o e derrisão, o riso

do humo r é mais div ers ificado, ora ele é zombeteiro, ora é cético,

ora cáustico. Mas quase sempre mela ncólico.


í 89

Em R e f l e x S e s Sem Dor» c o l e t â n e a de p e n s a mentos, de afo­

rismos, j orra o riso sábio do humor que a p osta na s o b r e v i v ê n c i a h u ­

mana, não pelo so frimento, mas pelo riso. De igual forma se repe te

aqui a ironia com as formas c l á s s i c a s da literatura, a exemplo do

afori smo , u sado ta nto na l i t e r a t u r a sé ria quanto na satírica. Mil-

lôr e m p r e s t a a esta e s p é c i e lite r á r i a a c a r a c t e r í s t i c a p e c u l i a r de

uma i n v e r s ã o irônic a que p r o v o c a um jogo ambíguo.

Dos m u itos aforismos r i s í v e i s nas R e f l e x S e s Sem Dor,

exemplificamos, a seguir, algu n s de c a r á t e r c o nceituai que se a s s e ­

m e l h a m m u i t o às m áxi m a s de n a t u r e z a filosófica:

"Viver é d e s e n h a r sem borr a c h a " (p.88)

"Pen sar - eis um v erbo r e f l e x i v o ” (p.5).

"Sem espe l h o r e t r o v i s o r n i n guém vai pra frente" (p.20).

"Igno rar é a ú nica respo s t a possível p a r a a ignorância "

( p .22).

"Qua ndo muit a gente ins iste m uito temp o que você está e r ­

rado, você deve estar certo" (p.21).

Na mesma linha de s e m e l h a n ç a e n c o n t r a m o s os topoi que

M i l l ô r dá um toque risível:

"A experiência é uma boa escola, mas não tem al unos"

< P .16)

"D izem que Deus e s c r e v e cert o por linhas tortas. Pelo

mund o que temos, p a rece que o melhor m e s m o ainda é a c a ­

ligrafia" <p .20) .

"A vida não é um retrato, é uma caricatura, e nem p a r e c i ­

da" (p.39).
190

"0 c a m inh o do a n o n i m a t o à G l ória e ao P oder é longo, d i ­

fícil, tortuoso. Mas a volta é bem mais fácil" <p.65).

Os afor i s m o s de Re f l e x S e s Sem Dor p o d e m t a mbém se e x p r e s ­

sar pela paró d i a de a d á g i o s populares, a que o aut or imprime um

c o n t e ú d o invertido, p r o c e s s o que ocorr e no d e s e n l a c e do afor i s m o ou

numa inversão de p a l a v r a s que subverte o s e n t i d o do adágio:

"0 preço da libe r d a d e é a et erna vi gi lânc ia. Por isso é

que os s e r v i ç o s de vigi l â n c i a e stão cada vez mais ca ros"

< P .5).

"Cuidado: à n o i t e todos os p e d e s t r e s são pardos !" (p.8).

"Nunca deix e para am anh ã o que pode d e i x a r hoje" (p .10).

"Tempo é dinheiro. Contratempo é nota promissória"

( P . 22).

"Não é que o c rime não compensa, é que, quando compensa,

muda de nome" (p .45).

"Em política nada se destrói, nada se cria-, tudo se

t ran sfo rm a" (p.78).

Pode mos diz er que o riso prov o c a d o por to dos estes afo­

rismos brot am do r econhe c i m e n t o , por p art e _ d o leitor, da forma t r a ­

dicional e da sua inversão, da quebra de e x p e c t a t i v a entre o que se

e s pera e o que acontece. Mas, sem dúvida, dos a f o r i s m o s de Refle­

xSes sem Dor, os mais r i s í v e i s são os que textual izam a auto - i r o -

n ia :

"Por que será que me de ram este lugar na última fila e

por trás da c o l u n a ? " (p.10)


Í9Í

"Quando eu nasci, os médi c o s me acharam perfeitamente

normal. Mas os e n g e nheiros b a l a n ç a r a m a cabeça" (p.72).

"Eu só não sou o homem mais b r i l h a n t e do mundo, porque

n i n g u é m me perg u n t a as r e s p o s t a s que eu sei" ( p .23).

E o mais sutil do riso no "humor" m i l l o r i a n o sur ge do

Hai-kais, p e q u e n o s p o emas de origem j a p o n e s a que são formas p o p u l a ­

res, e a l g u m a s v eze s de cu nho humo ríst ico . Este livro, em acordo

com os d e mai s livros de Millôr, se o r g a n i z a da rec ol ha de c o m p o s i ­

ções p o é t i c a s de n o v e n t a e três (93) hai-kais, escritos entre 1959

e 1986 e p u b l i c a d o s pela N ór di ca em 1986, com il ustr ações do pró­

prio aut or .

0 prefácio, d e nominado pe lo aut or como uma "peq uen a in­

trodução para os não iniciados", e s c l a r e c e os vários tópicos r e l a ­

cionados com a obra: o moti v o de adota r a "graf ia (co m p r o m e t i d a ) "

de Hai-kai, e v i t a n d o o Haiku; o ligeiro h i s t ó r i c o do p e q ueno p oema

japonês, a c e n t u a n d o - 1he a origem popu l a r e a sua impregnação pelo

humor; e o seu in te resse pelo gêne ro que o escr i t o r data em 1957,

quando e s c r e v i a o "P if- Paf" na revista 0 Cruzeiro.

Millôr, nest e s poem as dim inutos, cons e g u e com rara m a e s ­

tria atingir o risível da nature za humana, trat a n d o - a com a tole^

r â ncia e a s a b e d o r i a de .quem sabe que o ideal que subjaz "à s o m b r a

das linhas" é inviável dian te da frag i l i d a d e do homem

Nest e s po emas c o m prova-se a t r a j e t ó r i a m i l l o r i a n a do s a ­

tír ic o para o "humor", à medida que nel es se perc e b e o gradativo

abandono dos d e s d o b r a m e n t o s de e s p a c i a l i d a d e e de temp ora lida de,

que c a r a c t e r i z a m a l guns poemas de Pap áverum, em direção às imagen s


i 92

aéreas e à u n i v e r s a l i z a ç ã o temática. A pr ese nça cons t a n t e das nu­

vem. <:• tia 1 u.i, tariln ri nível t fxtual .1 ni'vi*l (Ic :i Iu-.t r .u, Tíc»,

tem o p o d e r de t r a n s m i t i r a l e veza e a se nsa ção do insu ste ntáv el,

ao m e s m o tem po que e s t a b e l e c e um jo go a nt i t é t i c o de t r a n s p a r ê n c i a e

de o p a c i d a d e com a sombra. Esta, também, t e matizada em al guns p o e ­

mas e em vá rias ilustrações.

Nos Hai-kais, o c o m p r o m i s s o com a referencialidade se

pulveriza em e l e m e n t o s v i s í v e i s e ident if i c á v e i s com o cotid ian o,

mas que se trad u z e m em um "hum or" s uave e leve. Nestes ver sos c u r ­

tos, cada pala v r a se torna um t exto pela força de seu significado

s e m â n t i c o e pela p o s s i b i l i d a d e e x p l o r a t ó r i a de seu tecido verbal.

As suas m ú l t i p l a s " d r a m a t i s personae", o próprio autor,

os' animais, os seres inanimados, os elem e n t o s da naturez a e as i m a ­

gens ó t i c a s e s t a b e l e c e m uma f r a t e r n i d a d e poética típica do humor:

todo s u n i d o s na bus ca e x i s tenci al de enten der a vida e de s u p o r t a r

a c a r g a do viver.

0 que se de staca na t e x t u a i i z a ç ã o do escritor, como " o b ­

jeto poétic o", são as c i r c u n s t â n c i a s em que ela se processa, oscin-

do dos dado s b i o g r á f i c o s às r e f l e x õ e s sobre a e x p e r i ê n c i a pes soa l

("Mil lôr não ente n d e s n a d a / D i z e r e p e t e , / a bad aladas) em umas e em

outras, até o nível da ilustração. Resumindo, são h a i - k a i s que o s ­

c i l a m do a u t o b i o g r á f i c o ao a u t o - r e f 1e x i v o .

Dos hai- k a i s de Millôr, d e s t a c a m o s alguns em que se p e r ­

cebe a auto-ironia:

"0 cét ico s á b i o / S o r r i / S ó com um lábio" (p.44).

"Meu d i n h e i r o / V e m t o d o / D o meu tinteiro" (p.38)

"é meu c o n f o r t o / D a vida só me tir am/ Morto" (p.28)


iJ. o-
/■ •

0 riso t a m b é m pode ser m o t i v a d o p elos Hai-kais com temas

do cot i d i a n o :

"Nos d i a s c o t i d i a n o s / é que se p a s s a m / O s anos" (p.87).

"A a l e g r i a / é toda feita/De m e l a n c o l i a " (p.89).

"0 pato, meni n a / é um a n i m a l / C o m bu zi n a " (p.76).

O u t r o s existem, cujo riso b r o t a do c o n t r a s t e entr e a f o r ­

ma p o é t i c a e o t r a t a m e n t o pros a i c o do tema.

"A vida é b e l a / B a s t a s a l t a r / P e l a janela" ( p . 18).

"A c a v e i r a é bem r a ra/Pois não p ensa nem fa la :/ Só enca ra"

<p .35) .

"Com pó é m i s t é r i o / A mulh er ao e s p e l h o / R e t o c a o adulté­

rio" ( p .68)

Os p o e m a s de P a p á v e r u m M i l l ô r m e s c l a m as vária s másc a r a s

do risível, a cômica, a sat írica e a domin ant e, que é a do “humor".

Em c o n s o n â n c i a com os p r o c e d i m e n t o s an teri ores, vam os exemplifi car ,

a t r avés de a l guns poemas, que o riso é m o t i v a d o pelo r e c o n h e c i m e n t o

da auto- iro nia :

"Só SEI QUE NADA SEI

Poesia com Autocrítica

Há os que não sabem a n t r o p o l o g i a

E os que ignoram tri gon omet ria .

Só de mim n i n g u é m pode falar nada.


194

Minha igno rânc ia

Não é e s p e c i a l i z a d a ” (Grifo nosso) (p.27)

P e rcebe-se aqui t a m b é m a t é c n i c a comum da p o esia h u m o r í s ­

tica, b a s t a n t e e xplorada por Millôr, que cons iste em inscrever, nos

doi s ú l t i m o s versos do poema, ora um epigrama, ora uma piada, cor­

r e s p ondente, na prosa, ao s alto irôn i c o a que fizemos d i v e r s a s a l u ­

sõe s n este trabalho.

Veja mos também este p e q u e n o poema, que co njuga a a uto-

ironi a ao a p r o v e i t a m e n t o p a r o d í s t i c o de um dos mais anti g o s to pos

da l i t e r a t u r a ocidental, a q u e l e que c o m p a r a a vida a um palco:

"POEM INH A S H A K E S P E A R I A N O

0 mundo é um palco'

Me d i s s e r a m .

Mas vejam o papel

Que me d e r a m ! ” ( p . 125).

Neste livro, o ri so t a m b é m pode surgir do a p r o v e i t a m e n t o

parodístico de um di ta do popular, e do d e s d o b r a m e n t o r e p e t i t i v o em

" c a d e i a ” de um dos versos,_ que inscr eve no po ema uma ambigüidade

risível:

"A PENA (MATEMÁTICA)

DO ROUBO EM CADE I A

Se o ladrão que ro uba lad rão

Tem cem anos de p e r d ã o


í 95

0 ladrão que r o u b a ladrão

Que rouba ladrão

Que roub a ladrão

Que ro uba ladrã o

Que rouba ladrão

Deve ter

Um mil hão " ( p .41>

Aqui, novame nte , o desenlace do p oema se p r o c e s s a de uma

mane i r a aguda e com a l g u m a s i n g u l aridade de contraposição de

idéias e s p e r a - s e um p e r d ã o e, em vez disso, surg e "Um milhão".

Ou tro p r o c e d i m e n t o risível" do h umor é a u t i l i z a ç ã o m ú l t i ­

pla do mesm o material verbal, ligados por uma repetição fônicar

" P OEMINHA NEUR Ó T I C O " - "V ocê patriótico, eu m uito d e s p ó t i c o / E es-

clerótico/ teu irmão e x ó t i c o / E m a c r o b i ó t i c o ./Tu do caótico, bicho,

/m ui t o c a ó tico A r e s s o n â n c i a em "ó" cons t r ó i um d u p l o jogo: a c a r ­

ga s e m â n t i c a da i n t e r j e i ç ã o ”0 h ! ”, que d e n o t a r i a e s p a n t o e a d m i r a ­

ção, in verte-se i r o n i c a m e n t e em um risível "ó" de deboche.

Ai nda o u tro p r o c e d i m e n t o humorís tic o, que goza de ampla

a c o l h i d a na obra p o é t i c a de Millôr, é aqu ele que p r o v o c a o riso p e ­

la e x ó tica o r g a n i z a ç ã o dos versos na r e p e t i ç ã o de uma m e sma letra.

V e j a m o s o a r r anjo nout r o "poeminha" "Jô QUE é F U N D A M ENTAL": "Histo­

riar os híbr i d o s h i p o f á s i c o s da h o m o t i p i a / H u m o r i z a r a h i p é r b o l e da

héct i c a hermética/Holoparasitar o hom em h o r r e n d o para a hipofi-

1 ia/ H u m a n i z a r o humu s horal da heresia". Aqui, o ris o se acentua

pela inver são entre o fundamental e o s u p é r f l u o uma letra já d e s ­

provida de som e s e n t i d o que, sobr e v i v e n d o pelas reg ras o r t ográfi-


196

cas - t a m b é m r o m p i d a s no poema -., não é fundamental em t e rmos f ô n i ­

cos. A s e n s a ç ã o de arcaís mo e, por que não dizer, de e n v e l h e c i m e n ­

to, a c e n t u a - s e com o v o c a b u l á r i o erudito, de uso restrito, que se

to rna hilário no c ontraste com a g r a f i a inusita da do t e rmo "h

oral". 'A a u s ê n c i a de som e de s e n t i d o dos "hs", c o r r esponde a perd a

de s ent i d o nos vocá b u l o s arcaicos, aos quais ainda resta o som.

Tais vocáb ulos , no entanto, são r e - s e m a n t i z a d o s no c ontraste com as

pou ca s e s i g n i f i c a t i v a s p a l a v r a s do poema que ainda fazem p a r t e do

uso coloq uial , historiar, hum ori zar , o h omem horrendo, hum ani zar .

Lido s ness a seqüência, temos um s e n t i d o do "fundamental", m e s m o que

disperso em meio do supletivo, que o supe r a q uantita tiv ame nte. Mo­

ral. para h u m a n i z a r o homem horrendo, é p r e c i s o resgatá-lo, com h u ­

mor e histór ia, dent r e a a b u n d â n c i a do supérfluo.

Neste poema, Millô r F e r n a n d e s efetua, ainda, uma d e f i n i ­

ção do humor, teor i z a n d o o p r ó p r i o texto: o que é fundamental é o

humor, co mo forma de h umanizar a p r ó p r i a moral. Desse _modo, o p oema

prat i c a o h umor duplamente-, de um lado, tratand o do tema da perda

de s e n t i d o do ser humano; de outro, p r a t i c a n d o a a u t o - r e f 1e x i v i d a d e

de voltar-se sobre o próprio humor. Trata-se, na verdade, de uma

prát i c a t i p i c a m e n t e moderna, similar, por exemplo, aos p r o c e d i m e n ­

tos da p o e s i a na modernidade, que se v olta sobre si mesma e nega o

uso da l i n g u a g e m em sua função c o m u n i c a t i v a estrita. Ac rescente-se,

ainda, o e l e m e n t o de r e l a t i v i z a ç ã o da tragé d i a e temos o humor m o ­

derno .

Se o riso motivado pelo c ô m i c o causa um prazer estranho

que p e r m i t e ao autor e a seu leitor e l e v a r e m - s e acima das c o n t r a d i ­

ções humanas, o riso satí r i c o acen t u a a sep aração entre o m undo


real e o ideal, t i r ando sua força da mili t â n c i a c o n t r a o erro. Já o

ris o do h umor a s s e n t a - s e no c e t i c i s m o ca usado pela p e r c e p ç ã o da im­

p o s s i b i l i d a d e de ação mod i f i c a d o r a ; é o riso d e s - d r a m a t i z a d o , fruto

de uma e s p é c i e de abulia, a c e i t a ç ã o da i n e v i t a b i l i d a d e do "erro".

Não in veste em ne nh um poder, mas busca, para a l i v i a r suas angús­

tias, o máximo, não de saber, mas de sabedoria. P o rém tod os os usos

o do s a t í r i c o e o do “humo r" t iram seu ambíguo, p r a z e r da d i s s o n â n ­

cia que b usca no risível, d i r e t a ou obliqua men te, o r e s gate da as-

sonância .

0 riso do c ô m i c o é o r i u n d o de uma percepção: o julgar, o

sa tíri co, de uma ação: o agir destrut ivo; e o humor, de uma r e f l e ­

xão: o ver.

A Mescla.: Fapáveruin Hi l l ôr

0 livro c o m p r e e n d e um c o n j u n t o de p o em as que r e c o b r e m um

interregno de quase tr inta anos, de 1945 a 1973. A r e c o l h a é feita

pelo p r ó p r i o escritor, de textos p u b l i c a d o s em r e v i s t a s nas quais

ele c o l ab orava, ou m a n t i n h a uma s eção perm a n e n t e como "Pos te E s c r i ­

t o ” em A Cigarra, "Pi f-Pa f" em 0 C r u z e i r o ou "Millôr-. e n f i m um e s ­

critor sem e s t i l o ” na Veja Esta at it ude do autor, constatada em

nossa pesquisa, pode ser c o n f i r m a d a numa a f i r m a ç ã o d o próp r i o M i l ­

lôr ao dizer que quase todos os seus livros são feitos de "textos

e s c r i t o s a t r a v é s dos anos", aos quais bu sca imprimir "uma certa or-

g a n icidade, o se ntido geral, c a b e n d o ao título def i n i r o seu con­


í 98

teúdo"^^. Aliás, s o b r e esta técnica de r e c olha farem os a l g u m a s c o ­

lo cações no c a p í t u l o das úl timas Palavra s, ao estudarmos Tri nta

An os de Mim M e s m o é M i l l ô r no P a s q u i m

P a p á v e r u m M i l l ô r é c o m p o s t o de 180 p o e m a s de e s p é c i e s d i ­

v e rsos como p o e m i n h a s (61), poesias c u r t a s (49), poes i a s longas

(18), versinhos d i d á t i c o s (6), p o e s i a p a r o d í s t i c a (6), epig r a m a

(5), c a nção (5), ode(5), entre o u tros de me no r inc i d ê n c i a como a c a ­

lanto, m o n ó l o g o madri gal, b i o g r a f i a e balada.

0 d e s e n h o da capa do livro, de a u t o r i a do próp r i o e s c r i ­

tor, é a i l u s t r a ç ã o do ’
’P o e m i n h a ú l t i m a V o n t a d e " da página 10. 0

livro é d e d i c a d o a sua filha, "que é como eu". A t í t ulo de e p í g r a f e

te mos o pe queno poema, em que o autor, u t i l i z a n d o o recu r s o da ir o­

nia retórica pa ra i n tro duzir o ' t o p o s da modéstia , humildemente

a f irma que os p o e m i n h a s que c o m põem o livro "não tem qualqu er p r e ­

tensão". Mas, por o u t r o lado, ressa l v a que "dois ou três são e x t r e ­

m a m ente pretenciosos"^. Mas essa m o d é s t i a é c o n t r a p o s t a logo no

primeiro poema, ao lamentar o seu local de n ascime nto , a quem r e s ­

p o n s a b i l i z a pelo não r e c o n h e c i m e n t o de seu valor.

E encerra o livro com o p r ó l o g o de sua autoria, para

adaptação de Ant ígona, no qual as ú l t i m a s p a l a v r a s e x p r e s s a m a e s ­

sênc i a da sua p r o f i s s ã o e a sua forma de luta: "Aind a não a c redita-

mos que, no final,/O bem semp re t r i u n f a / M a s já c o m e ç a m o s a crer,

e m o c i o n a d o s ,/ Q u e , no fim, o mal nem sem p re vence./ " Mas, nos dois

últi m o s versos, à moda do dese n l a c e dos epigr ama s, o escri tor s u b ­

v erte o ritmo do poema, i n t r o d u z i n d o o p o e m a - p i a d a quê causa e s t r a ­

n heza e moti va o riso: "0 mais difícil da luta/é d e scobrir o lado

em que 1u t a r ”.
í 99

No c o n j u n t o dest es poemas, m e s c l a m - s e as v á r i a s m á s c a r a s

do risível, p r e d o m i n a n d o a do "humor". Contudo, aqui e ali, s u r g e m

po ema s de ritmo c ô m icos e, em m enor m a rgem a l g u n s de impregnação

satírica. Por esse motivo, c o l o c a m o s este livro nos limit es do

" h u m o r ”, pois d i r e c i o n a - s e ao h u m o r i s m o c a r n a v a l i z a n t e que será

t r a t a d o na u n i d a d e seguinte.

Evidentemente que a p a r t i ç ã o dos poe mas nas três v e r t e n ­

tes do riso está c o m p r o m i s s a d a com a s u b j e t i v i d a d e da leitura. To­

davia, p a r a atenuar es sa imprecisão, vamos e s t a b e l e c e r c r i t é r i o s de

a g r u p a m e n t o dos po emas ne ss es três eixos. Assim, por razõ es d i d á t i ­

cas, c o n s i d e r a m o s pert e n c e r à e s f e r a do cômi co a q u e l e s poemas que

trabalham imagens do m undo exterior. "CÍRCU LO - E no final, a v e r ­

dade, irmã o , / é que as m u l h e r e s , / A cada dia que p a s s a / M a i s e mais

e s t ã o / P r e s a s à libertação''*^.

Quando nos poe mas p r e p o n d e r a uma p e r s p e c t i v a do "eu", ou

quando o escr i t o r se inscreve no p r ó prio texto, temos o humor:

" P O E M I N H A A UM F O T Ó G R A F O - Retoca, meu rapaz, r e toca b e m ; / T i r a aqui

um p o u c o da p a p a d a , / E mete uns c a b e l o s m a i s ; / T e m quase n a d a . / C o r t a

a c u r v a do n a r i z / A l i s a as r u g a s / R a s p a a c i c a t r i z / (não morri por um

triz ) / E não esq uece de b o t a r / U m p ou co de br ilho j u v e n i l / N o olhar.

/Eu lhe reco men dei b e m / A o fazer o p e d i d o : / N ã o me a g r a d a sair/Tão

parec i d o ."

Inc luímos no c o n j u n t o do sat í r i c o os p o e m a s nos quais se

identifica a intencional idade a g r e s s i v a do escritor: POEMINHA DE

PLUS CA C H A N G E - A roupa o c a b e l o / A m e n t e / T u d o pra frente./Ah, como

são i g u a i s / E s s e s ca ras d i f e r e n t e s ! " * ?


800

Pode c a u s a r e s t r a n h a m e n t o o e m p r e g o que ire mos fazer, no

c a p í t u l o seg uin te, das d e n o m i n a ç õ e s " a b s u r d o " e "g ro tesco". A n oss a

escolha tem a p o i o nas r e f l e x õ e s de F r i e d r i c h e A d o r n o qu an d o a f i r ­

mam ser o " h u m o r i s m o " mais c o n d i z e n t e com a f r a g m e n t a ç ã o da m o d e r ­

nidade. "G h u m o r i s m o redu z a r e a l i d a d e a p e d a ç o s i n v e r t e n d o o inve-

r o s s í m e l , funde t e mpos e c o i s a s dís par es, é e x p r e s s ã o da d i s c o r d â n ­

cia e n t r e o h o m e m e o mundo"*® .
20 í

NOTAS D I V E R S A S

^PIRANDELLO, Luiz. E n s a y o s . T radu cc ión dei italiano por José Mi­

guel Velloso. Madrid: Edic i o n e s Guadar ram a, 1968.

2 f e RNANDES, Millôr. R eflexões Sem Dor, p . 3.

^Idem, ibidem, p . 94.

^Idem, ibidem, p . 13.

^Idem, ibidem, p .45.

6 Idem, ibidem, p .66.

^HUTC HEO N, Linda. A p o é ti ca da p ó s - m o d e r n i d a d e . Rio de Janeiro:

I m a g o , 1992.

®FERNANDES, Millôr. Livro V e r m e l h o dos p e n s a m e n t o s de Millôr,

P .70

?Idem, ibidem, p .97.

*®Idem, ibiddem, p . 11 e 12.

**Idem, ibidem, p .33.


202

leidem, ibidem, p .27.

ilidem. T o d o h o m e m é min ha caça, p .202.

*4 Idem. P a p á v e r u m Millôr, p . 8.

ibidem, ibidem, p .181.

ilidem, ibidem, p . 14.

*7 Idem, ibidem, p. 153.

10F RIE DRICH, Hugo. E s t r u t u r a da lírica moderna. São Paulo: Duas

Cidades, p .195.
AS ÚLTIMAS PALAVRAS
"Se um ep isódio que você achai
importante não está aqui, rele­
v e , a vida é longa e o show é
c u r t o ."

Mi 113r Fe m a n d e s
Algumas Ca 1ocações

0 roteiro t r a ç a d o d u r ante o p r o j e t o da pesq uisa sofreu

consideráveis d e s v i o s até cheg ar a sua escritura. "Tudo é c o m p o s t o

de mudanç a" e t a m b é m em nós tudo muda, c o n s o a n t e os fios da m u d a n ­

ça, de que s o m o s agentes. No pri ncí pio , c o n c e b e u - s e um unive r s o d i ­

ferente no que diz r e s p e i t o à o r d e n a ç ã o e à tes situ ra do trabalho.

E de ssa d i f e r e n ç a cu mpre logo r e g i s t r a r as mo tiva ções que a d e t e r ^

minaram. As i mpr e s s õ e s e as a m b i g u i d a d e s surg idas em decorrência

das s u c e s s i v a s le itu ra s dos text os de M i l l ô r Fer nan des provocaram

tensões e q u e s t i o n a m e n t o s que p a s s a r a m a exigi r respostas. D esta

maneira, a p e r c e p ç ã o inicial, em suas m ú l t i p l a s dúvidas, d e m a n d a v a

um quadro t e ó r i c o que fosse capaz de t o r n á - l a consciente e que,

após r e s t a u r a d o o e q u i l í b r i o romp i d o p el as tensões, p o s s i b i l i t a s s e

o e m b a s a m e n t o n e c e s s á r i o à i n s t r u m e n t a l i z a ç ã o da abo rda gem textual.

Em co nseqüência, a l a r g o u - s e o ca mpo da t e o r i a para perm iti r a cons- *

tr ução dos m o d e l o s que o f e r e c e s s e m uma ins tância ord enad ora à l e i ­

tura. Este foi o m o m e n t o de li c a d o no qual dev e ríamos buscar, de

imediato, a c o n f i g u r a ç ã o teó ri ca e balizar, em definitivo, os l i m i ­


206

tes da pesquisa, p a s s a n d o logo do a b s t r a t o à p r á t i c a da escritura.

Mas o temp o gasto para e l a b o r a r o perfil do riso e do risível am­

p l i o u d e m a s i a d a m e n t e a e s f e r a t e ó rica e a l t e r o u a feiçã o inicial do

estudo. Cr emos que essa p a s s a g e m foi m u i t o lenta em de co r r ê n c i a da

f a s c i n a ç ã o pela ref l e x ã o teórica. De q u a l q u e r modo, uma correção de

fundo ago ra r e s u l t a r i a fazer d e s a p a r e c e r o trabalh o, pois nele as

partes e stã o o r q u e s t r a d a s de forma que cada uma d e l a s repete e a m ­

plia a pr ecedente. A l guns t ó p icos a b o r d a d o s nu ma u n i d a d e reap a r e c e m

alargados e a p r o f u n d a d o s mais adiante. E, por cons egu inte , não p o ­

deríamos chegar a fazer um final com c a r a c t e r í s t i c a s de sínt ese ou

m e s m o de conclusão.

Pouca aten ç ã o foi dada às p a l a v r a s de Quintiliano, suge­

r indo u m ;e n c e r r a m e n t o objetivo, capaz de ser a p r o v a d o pelos sá bios

e e n t e n d i d o pelos leigos*. Não e x p l o r a m o s um c a m i n h o reto, nem f i r ­

m amo s uma corrida d i r e c i o n a d a lin e a r m e n t e à chegada. 0 interesse,

s e g u r a m e n t e o maior, fez-se pelo p r ó p r i o itinerário.

Orientaram-nos linhas de p e n s a m e n t o que per m i t i r a m criar

uma t e o ria sobre "os mod os e as formas do risí v e l " com a intertex-

tualidade2 de vári a s outras, con forme já a s s i n a l a m o s em "Antes das

P r i m e i r a s Palavras".

Assim, t-odo o p e r c u r s o c o n s t i t u i u - s e de uma at ivi dad e de

risco, pois o u n i v e r s o do riso e do risível é m u i t o amplo e a nossa

v isão te órica dos "modo s" abrangeu a p r o d u ç ã o e a r e c e p ç ã o do texto

art ísti co. Incidiu, ainda, na condução retóri ca, na cons t r u ç ã o p o é ­

tica e, sobretudo, na i n s t r u m e n t a l i z a ç ã o da ironia. A cla s s i f i c a ç ã o

da ob ra de Mi llôr F e r n a n d e s pela t r í p l i c e v e r t e n t e do risível t o r ­

n o u-se possível, p e n s a n d o os modos d i f e r e n t e m e n t e dos gêneros l i t e ­


S07

rários e e n q u a d r a n d o - o s numa c a t e g o r i a mais recuada, como se fosse m

pré-gêneros^.

Chegamos, agora, ao m o m e n t o de e x a m i n a r algu n s aspectos

que m e r e c e m uns ú l t i m o s reparos.

0 que no decor r e r das ativ i d a d e s de lei t ura c h a m a m o s de

" m o d e l o ” é, sobretudo, um p r o c e d i m e n t o opera cion al. Contudo, nos

a n t e c i p a m o s a p o s s í v e i s ò b j e ç õ e s ao ca ráter c o n t r a d i t ó r i o do mesmo,

à m e d i d a que ele osci l a entr e um p r o c e d i m e n t o de c erta forma e s t r u ­

tural e uma a b e r t u r a a p r o c e s s o s ideológicos e semi óti cos . De fato,

no seu bojo d e l i n e i a m - s e duas linhas me todológicas, de um lado, o

apel o à d e s c r i ç ã o de e l e m e n t o s n u c l e a r e s e perif éri cos ; de outro, a

proposta dos "modos" como r e p r e s e n t a ç ã o do m undo e co mo t é c n i c a de

comun ica ção .

0 méto d o de p a r t i l h a r os textos dessa m a n e i r a firm ou uma

diretriz que a c r e d i t a m o s a d e q u a d a para s i s t e m a t i z a r a p o l i v a l ê n c i a

da obra estudada. Tarefa difícil, pois o t e r r i t ó r i o e ntre e l e s é

permeável, p o d e n d o cada espé c i e do risível emig r a r de um modo para

o outro. Além disso, e f e t u a m o s um corte, p r i v i l e g i a n d o a l guns t e x ­

tos e o l v i d a n d o outros. Como e s t r a t é g i a de leitura, o p e r a m o s com um

mosaico gran de de textos, o que impossib i l i t o u que nele s se esgo­

tassem todo s os e l e m e n t o s l e vantados para c o n f i g u r a r os m o dos do

risível.

Essas o b s e r v a ç õ e s v ale m para situar o leitor, mas c o r r e ­

mos o r isco de e n v e r e d a r m o s pelo d i s c u r s o teorizante.

E ei s-no s de volt a à t e n t a t i v a de conclusão, localizando,

antes de mais nada, a e s t r u t u r a do trab a l h o que part e de uma i n t r o ­

dução (Antes das P r i m e i r a s Palavra s) na qual estão c o l o c a d a s a gê-


208

nese e as linhas gera i s do projeto. Na p r i m e i r a u n i d a d e (As P r i m e i ­

ras Palavras), busca m o s b a l i z a r a m o l dur a te órica e os modelos de

leitura; na segunda (As P a l a v r a s Nec essár ias), p r o b 1e m a t i z a m o s o

risível e o riso, esse ú l t i m o como o p r o d u t o e o d e n o m i n a d o r c o m u m

no qual se imbricam todas as vari a n t e s modais. Além disso, m a r c a m -

se os elem e n t o s retó r i c o s e poéticos i d e n t i f i c a d o r e s de cada modo.

E, ainda, dese n h a - s e a m e t o d o l o g i a da e s c o l h a dos tentos. A seguir,

as três unidade s de leitura, o cômico, o satí r i c o e o "humor",

através da vi são dos e l e m e n t o s de e s s e i d a d e e dos e l e m e n t o s de al-

teridade. E, por último, esta conc l u s ã o h e t e r o d o x a que abre e s p a c o

para a c o n v e r g ê n c i a dos três modos no "humorism o" de M i llôr F e r n a n ­

d e s 4 . Por isso, doravante, cada vez me nos usar e m o s os termos "modo"

e “m o d e l o ” e p a s saremos a falar da c o n v e r g ê n c i a que não carr e g a a

a x i o l o g i a da separação.

Antes de c o n t i n u a r m o s , vale a f i rm ar que esse texto é um

”pré- tex to ", um po nt o de apoio, para o r i e n t a ç ã o de fu turos traba­

lhos, o que ju sti fica a p r e o c u p a ç ã o com as ra zo es t e ó r i c a s e a a u ­

s ê n c i a de uma "conc lus ão co ncl usiva", pois ele o b j e t i v a abrir c a m i ­

nhos par a outr as reflexões.

Estabelecido esse intento de c a r á t e r geral, a ele a d i t a ­

mos os p r o p ó s i t o s de evit ar julg a m e n t o s c r í t i c o s e de e m i t ir^ juí zos

v a l o r ativo s. Entretanto, c o n c o r d a m o s que a op ção pela leitura de

uma obra a r tística implica a sua valoração. Assim é fácil demons­

trar que os atos p r e p a r a t ó r i o s de c o n s t r u i r a tríp l i c e visão e de

r e o r g a n i z a r a escritura, nas c a t e g o r i a s do risível, asse n t a m p r o c e ­

dimentos de um "fazer" c r í t i c o e t e s t e m u n h a m um su bj a c e n t e julga­

mento v a l o r a t i v o do corp u s . A leitura dos tex tos sel e c i o n a d o s (de


2<Ò9

novo o c r i t é r i o v a l o r a t i v o da escolha) p e l a ó tica do cômico, do s a ­

tíric o e do "hu mor" emoldura uma ação crítica, pois ela, quer d e s ­

critiva, quer i n t e r p r e t a t i v a , env olve s e m p r e crit é r i o s de j u l g a m e n ­

to. Uma e s t r a t é g i a dign a de Pilatos, pois des faz -se , assim, a últi­

ma laçada do nó p r o b l e m á t i c o de toda a b o r d a g e m textual, ou seja,

evi tar " j u l g a m e n t o s de v a l o r ”. Pode -se de uma mane i r a oblíqua, "di­

zer o que ele é, sem dizer o que ele vale"^. Em outra s palavras, o

julgamento de v a l o r foi um debate que b u s c a m o s contornar, mas ele

já se inscr eve na p r ó p r i a es colha do o b j e t o a ser pesquisado.

O Escr xt or e S u a s Cx rcunstUne ias

A p e s q u i s a c i r c u n s c r e v e u - s e a t e xtos de um escri t o r que,

pela sua a t i v i d a d e jornalística, tem uma p r o d u ç ã o mu ito v asta e

q uai squer que foss e m os rumos da a b ordagem eles seriam p o s s í v e i s de

o bje ç ã o crítica. S e r á r el a t i v a m e n t e fácil d e m o n s t r a r que al gu ns a s ­

pe cto s do trabalho, a s e l eção dos textos e a ç ã o - l e i t u r a não foram a

me lho r escolha, ou que lhes faltou, aqui e acolá, uns a p r o f u n d a m e n ­

tos. Contudo, v o l t a m o s a afirm ar que o e s t u d o não pre te nd e ser d e ­

finit ivo .

No d e c u r s o deste trabalho, a s s u m i m o s g e r almente o p onto

de p a r t i d a do o b s e r v a d o r da poética de M i l l ô r Fernandes. Contudo,

gostaríamos agora de considerar alguns a s p e c t o s da obra artística

do ponto de v ista do homem que a criou.


Síô

Mas o que dizer do e s c r i t o r ? S o bre sua vida p r o f i s sional ,

s i s t e m a t i z a d a em parte no livro " T r inta Anos, de Mim Mesmo" e em um

segmento d e l a r e s g a t a d o em "Mi llô r no P a s q u i m " ? E de sua b i o g r a f i a

que vai se c o m p o n d o at ravés de f r a g m e n t o s em a l guns livros, p r i n c i ­

p a l m e n t e nos p r e f á c i o s e p o s f á c i o s ? Não é este o ca mi n h o que ire mos

apr o f u n d a r , o da biografia^. Mas cabe d e s t a c a r a sua trajetória

c o e r e n t e e sem concessões, toda v o l t a d a à a t i v i d a d e de escritor.

Aos qua t o r z e anos'7, já traba l h a para "0 C r uzeiro" na f u n ­

ção de c o n t í n u o e em pouco temp o d e s e n h a e r e dige legendas, sendo

empossado, aos deze s s e i s anos, s e c r e t á r i o de "A Cigarra", na qual

manteve uma s eção d e n o m i n a d a “P o s t e - E s c r i t o " de 1943 a 1945. E ntre

1939 e 1944, d i r i g i u também uma r e v i s t a de qu adrinhos ("0 Guri") e

outra de c o n t o s poli c i a i s ("Detetive"). Em 1944 t r a n s f e r i u - s e para

a r e v i s t a "0 C r u z e i r o ”, onde pas sa a assinar, a parti r de 1945, um a

s eçã o de duas páginas, "0 Pif-Paf: cada n ú mero é exemplar, cada

exemplar é um número". Foi d e m i t i d o d este s e m a n á r i o em v i r t u d e da

p u b l i c a ç ã o de um enc art e especial, "A V e r d a d e i r a H i s t ó r i a do P a r a í ­

so", em 1963. Lança, em 1964, j u n t a m e n t e com S é rgio Porto, Jaguar,

Ziraldo, Fortuna e ou tros a r e v i s t a h u m o r í s t i c a ”0 Pif-Paf" (dez

págin as) , que teve apenas oito n ú m eros pu blicados. A part i r de

1968,—foi e d i t o r do s e m a n á r i o "0 Pasq u i m " e tam bém pass ou a c o l a b o ­

rar na r e v i s t a "Veja", da qual saiu por motivos políticos. Atual­

ment e p u b l i c a duas pági nas na revista. "Isto é", além de uma c o l u n a

d i á r i a com textos e dese n h o s no "Jornal do Brasil".

São pou cas as pessoas a quem os "fados e acasos", além da

auto-determinação, deram o e n se jo de assim proceder. Não há r e g i s ­

tro de d e s v i o s para ex erce r a t i v i d a d e s b u r o c r á t i c a s ou polí tic as,


Síí

c o i s a incomum num país como ò nosso, onde os i n t e l e c t u a i s g e r a l m e n ­

te se comprometem, por r a z õ e s várias, com a t i v i d a d e s d í s p a r e s de

sua vocação. A c o n f i a n ç a em si mesmo, a lucidez do a u t o - r e c o n h e c i -

m e n t o e a cap a c i d a d e do p r o c e d e r independente. a t e s t a m o va lor d e s s e

humorista bem brasile iro , que por um ac aso c h a m o u - s e Millôr, con­

fi rm a n d o a sua d e s t i n a ç ã o para o humor.

A carr e i r a a r t í s t i c a de M i llôr F e r n a n d e s p a u t a - s e numa

ligação profun da entre as a t i v i d a d e s de j o r nalista e as de escri­

tor. 0 jornalismo, para ele, não se c a r a c t e r i z a como um trabalho

complementar ou p a r a l e l o à literatura. R e g i s t r a m - s e em n ossa l i t e ­

r a t u r a ca sos de e s c r i t o r e s q u e , por questões de s o b r e v i v ê n c i a , p r o ­

d u z i r a m para jornais, a e x e m p l o de Ar thur Azevedo, Lima Barreto, ou

m e s m o de Gra c i l i a n o Ramo s que a c e i t o u o papel de revisor. Tratando-

se, porém, de Millôr Ferna nde s, a sua lit era tur a está v i s c e r a l m e n t e

li gad a ao jornalismo, e a m a i o r i a dos seus livros, s a l v o a l i t e r a ­

tura dramática, são r e c o l h a s de t e xtos p u blicados i n i c i a l m e n t e em

j o r n a i s e revistas.

Outro aspecto a d e s t a c a r é o seu a u t o d i d a t i s m o em uma s o ­

c i e d a d e ávida por titulação, na qual os intelectuais têm, g e r a l m e n ­

te, formação acadêmica. Vale a pena ouvi r Millôr-, " A p esar da e s c o ­

la, sou b a s icamente um auto did ata. Tudo o que não sei semp r e i g n o ­

rei sozinho. Nunca n i n guém me e n s i n o u a pensar, a e s c r e v e r ou a d e ­

senhar, coisa que se perc e b e facilmente, exam i n a n d o qual q u e r um dos

m e u s trabalhos"®.

Millôr, em . sua r e s i s t ê n c i a ao c o n s e r v a d o r i s m o intelec­

tual, e em sua cons t a n t e luta cont r a toda s as formas de op re ssã o,

d i s t a n c i a - s e do p r o c e d i m e n t o de fuga pa ra um viver isola do adotado,


2Í 2

por exemplo, por Montaigne, H erc ülano e Gide. Contudo, estabelece

um " a f a s t a m e n t o s o f i s t i c a d o " ^ que lhe permite, atra vés do r e l a c i o ­

namento com a r e a l i d a d e que o circun scr eve , o r e g i s t r o dos a c o n t e ­

ci me n t o s no seu p r ó p r i o pulsar e a r e f l e x ã o irônica sobre eles. E s ­

se d i s t a n c i a m e n t o o levará também a debruçar—se c r i t i c a m e n t e so bre

sua produção em jornal e revista, e a p a r t i r de la compor gran d e

part e de sua obra literária. A p r o f u n d a n d o mais o proc e s s o de r e s g a ­

te de algu n s s e g m e n t o s de sua e s critura j o r n a l íst ica, passa a de­

s e n v o l v e r uma lite r a t u r a documental*®, tant o em "Millôr no Pasquim"

quanto em "Tri n t a Anos de Mim Mesmo", como v e r e m o s mais adiante.

Mas quem é Mi llôr? Um cét ico que não é p e s s i m i s t a ? "Sou

uma pe ssoa de um c e t i c i s m o muito grande. Não c o n f u n d i r com pessi­

mismo! 0 c e t i c i s m o é uma indagação p e r m a n e n t e - que leva à c r i a t i ­

vidade"**. Um e s c r i t o r ou um h u m o r i s t a ? "0 h u m o r i s t a é uma coisa

que há em mim. Se você quiser um termo é escritor. N i n guém é h u m o ­

r ista o t e mpo todo. E eu, na maior parte das vezes, não sei se e s ­

tou e s c r e v e n d o c o i s a s engr a çadas ou não engraçadas"*^ . Um e scri t o r

do c o t i d i a n o ? "Tod o m un do diz que a vida é c u r t a - e eu digo que a

vida é perto, na m inha vizinhança. Essa é a filosofia. Hoje sou um

h o mem da P raça General Osório. Meu p e r í m e t r o di minui cada vez

mais"*3. Um m i s a n t r o p o amável? "Não ten ho i n t e n ç ã o de ser popular.

Acho que ser p o p u l a r é ser vulgar. 0 que eu g o s t o é de ter p r e s t í ­

gio em d e t e r m i n a d a s c l a s s e s ” *^ . Um m e l a n c ó l i c o h u m o r i s t a ? "Sou uma

p e ssoa lamentavelmente feliz. Não cobro do p a s s a d o o fato de não

ter na sc i d o p r í n c i p e da Inglaterra. Ou mais bonito, mais i n t e l i g e n ­

te e mais capaz do que sou. Sempre tive boa saúde. Sempre tive em

torno de mim p e s s o a s me amando, gost a n d o de mim inten same nte e me


SÍ3

■fazendo sentir basta nte protegido, é o que interessa, em última

análise. Q u a n t o ao resto, sou c é t i c o " * ^

E o que pensa Mill ôr dos h u m o r i s t a s ? "Aqui estão, s e n h o ­

res, pela p r i m e i r a e última vez a ntes do e s t o u r o final, os nossos

humoristas bolshoi, santos da graça, h e róis do espírito, conjunto

orqu e s t r a l da sátira, graf i s t a s do lúdico, c o n c r e t i s t a s do s u b j e t i ^

vo, fazendeiros do ar, o m á ximo de a m b i ç ã o num mí nimo de homens.

Pois que ser h u m o r i s t a é, para todo s nós, r ealmente o máx imo de a m ­

bição e, para dizer o me smo de o utra forma, o máx imo de pr etensão.

Cons e g u i m o s , com a graça de Deus - h u m o r i s t a também ile - e o a u x í ­

lio de Seu Filho, notável t r o c a d i 1h i s t a ("Pedro, tu és Pedra, e so­

bre ti e d i f i c a r e i a minha igreja") - a r r a n c a r o h u m o r i s m o da d e g r a ­

dação ond e se achava, s u b - p r o f i s s ã o , sub-missão, e colo c á - l o vivo,

feliz -e t r i u n f a n t e no tro no (ou c o m i s s a r i a d o ? ) que lhe es tava re­

servado dentro da próp ria e s t r u t u r a do ser huma no - Homo Ludens"

(Millôr F e r n a n d e s - né Vão Gôgo).

D i s t a n c i a d o de e n g a j a m e n t o s p o l í t i c o s - p a r t i d á r i o s d e f i n e -

se como um anarquista, um livre p e n s a d o r e um p ensa do r novo (nin­

guém e s t e v e tão perto da liberd ade )*^ . Consegue, com especial b r i ­

lho, c o n c i l i a r um anarquismo, visível na p o l i f o n i a de seus textos,

a um c e rto c o n s e r v a d o r i s m o que se i nscreve em alg umas m a n i f e s t a ç õ e s

do risível. Daí seu h u m o r i s m o c o n f i g u r a r a amb i v a l ê n c i a ao c o n t r a ­

por o c e t i c i s m o textual a um ideal de p e r f e i ç ã o que subjaz à s o m b r a

das linhas.

Assim, o " e s t r a n h o ” h u m o r i s m o de Millôr permite dizer s o ­

bre ele o m e smo que se di sse de Juvenal: não é um moralista, por­

qu ant o não tem e x p 1 icita men te a inte n ç ã o de mod ificar o mundo, mas
SÍ4

a p e n a s de refl e t i r a c o n d i ç ã o humana.

O Humorismo de Mi Ilôr

F e itas essa s c o n s i d e r a ç õ e s prelimi nare s, vamos e n c a m i n h a r

algumas c o l o c a ç õ e s no s e n t i d o inv erso do trabalho, ou seja, da d i ­

versidade à unidade, das m á s c a r a s do risível ao " h u m o r i s m o ”. Daqui

em d i a n t e fala remos em " hum o r i s m o " na d ime n s ã o b r a s i l e i r a do termo,

aquela para a qual c o n v e r g e m o cômico, o sa tírico e o "humor". No

d e s e n v o l v i m e n t o dõ trabalho, e m p r e g a m o s "humor" como e x p r e s s ã o c o r ­

relata ao c ô mico e ao s a t í r i c o , -para designa r a últ ima face do r i ­

sível no c o r p u s da pesquisa. Porém, de que ma neir a e x p l i c a r a mu­

d a n ç a t e r m i n o l ó g i c a que i n t r o d u z o termo g e n e r a l i z a n t e " h u m o r i s m o " ?

Antes de mais nada, im põ e-se o recorte conceituai, pois o " h u m o r ”,

no n o s s o trabalho, é uma p o s t u r a do risível, e q u i v a l e n t e ao c ô m i c o

e ao s a t í r i c o e, em c o n t r a p a r t i d a , o h u m o r i s m o diz respeito aos

procedimentos poéticos do "humor". C o n t u d o para não inovar muito,

optamos por cons e r v a r aqui a p a l a v r a "humoris mo" com o sent i d o s e ­

melhante a " c a r n a v a l i z a ç ã o " . Donde se segue que, nest a unidade,

"humorismo" apro x i m a - s e do âm bito s e m â n t i c o de " c a r n a v a l i z a ç ã o " na

r e f e r e n c i a l idade teó rica de Bakhtin so bre o " n ã o -sé rio" em .Rabe-

l a is*7 V amos apenas s i n a l i z a r as t écn i c a s de carnavalização no

"humorismo mi llo riano", não a p r e s e n t a n d o em detalhes a sua funda­

mentação teórica. Devemos e s c l a r e c e r que o termo " c a r n a v a l i z a ç ã o " ,


Sí 5

apes a r de t r i b u t á r i o de Bakhtin, a d q u i r e aqui um sentido p r ó p r i o à

medida que possibilita a inclusão, no hu morismo, de elementos

o r i u n d o s do cômico, do s a t í r i c o e do "humor"; de técn i c a s de m o n t a ­

gem e c o l agem de textos; e, so bretudo, do d i á l o g o ambi valente, ins­

t a u r a d o pela ironia entre o que se diz e o que se quer dizer.

Como toda leitura, a n ossa não c h e g a a ati ngi r a t o t a l i ­

dade do texto, mas tira dele os t r aços c a p a z e s de r e c o m p ô - l o em o u ­

tro. Vamos a con tra pelo , r e c o l o c a r no t exto de Mil lôr os e l e m e n t o s

diversos que s e p a r a m o s para com por as três más car as, e a s sim che­

garmos à c o n f i g u r a ç ã o do seu "humorismo". Desta maneira, iremos

p e r c o r r e r o c a m i n h o inverso: da v isão tríplice, àque la do " h u m o r i s ­

mo" dos tex t os m a r g i n a i s de cada modo e dos m a r g i n a l i z a d o s na noss a

abordagem. E n c o n t r a m o - n o s novamente, em c o e r ê n c i a com os procedi-

ment os ant e r i o r e s , diant e do propósit o de evit ar int e r p r e t a ç õ e s e

análises, pois o o b j e t o da r e f l e x ã o c i n g e - s e à p o é ti ca da a r q u i t e ­

tura do "humorismo".

Mil lô r Fernandes, e x p e r i m e n t a d o r de c a m i n h o s múltiplos,

é, ao mesmo tempo, arte s ã o e criador que sabe e x p l o r a r as p o t e n c i a ­

lidades textuais, o que confere uma feiç ão espe cial ao seu h u m o r i s ­

mo. Ante s de m e r g u l h a r m o s nos m e c a n i s m o s de sua poética, vamos, de

acordo com o m é t o d o anterior, acentuar, a i nda que em traços l i g e i ­

ros, os e l e m e n t o s f o r madores do " h u m o r i s m o milloriano". Em out ras

palavras, verificar, na c o n v e r g ê n c i a dos m o d o s do risível, o que o

caracteriza como um texto nuclear, cuja força c e n t r í p e t a atrai os

elementos do cômico, do satírico e do "h umor" e promove a polifo­

nia, sua pedra angular.


£í 6

E assim, do ca os p r o v e n i e n t e da -fusão das v a r i a n t e s do

risível, e m e r g e o " h u m o r i s m o brasi lei ro" , c o n v e r g e n t e e híbrido. A

mescla carn aval izant e é múltipla-, primeiro, ass e n t a - s e no a m á l g a m a

dos três modos; segundo, a sua c o n s t r u ç ã o se faz por um movimento

centrípeto pelo qual os texto s de f ronteira n e u t r a l i z a m as à l t e r i -

dade s m o d a i s e c o m p a r t i l h a m um e s p a ç o sem partições; terceiro, pela

c o m p 1e m e n t a ç ã o do discurso, o verbal e o desenho caricat ura l; quar­

to, pela p r e s e n ç a de e l e m e n t o s da l i t eratura séria que se a s s o c i a m

ao risível; quinto, pela p o s s i b i l i d a d e de fusão de pa lco e platéia,

com a r u p t u r a da ilusão cê nica e; por último, c a r a c t e r i z a - s e pela

r e g ê n c i a a b s o l u t a do riso, pois o c o m p r o m i s s o entre o h u m o r i s m o e o

riso é profu ndo . Desta maneira, pode - s e dizer de Mil lôr h u m o r i s t a o

que Ju venal dizia de Demòcrito, que toda rel ação com os h o m e n s da-

va -l hè m o t i v o para o riso. Então, em vez de chorar dia nte da e s t u ­

p ide z h u m a n a como Heráclito, pref e r e rir como Demòcrito*®. "É m enos

uma a t i t u d e o t i m i s t a do que realista! Em qualquer s i t u a ç ã o é f u n d a ­

mental não e s q u e c e r o riso, o pran t o só serve para c h o r a r ”*9.

0 riso brota de um leque muito grande de op ções criati­

vas, em v i r t u d e de o h u m o r i s m o a b r a n g e r ele mentos d i v e r s o s e d í s p a ­

res o r i u n d o s do u n i v e r s o do s é rio e do " n ã o - s é r i o " . 0 h u m o r i s m o e o

riso a ele a s s o c i a d o lançam suas raízes nas inversões carnavales­

cas; no caos textual, na te nsa r e l a ç ã o a ntit éti ca de a t r a ç ã o e r e ­

pulsa, e s t a b e l e c i d a pelo fascínio de Eros e pelo e m p e n h o d e s t r u t i v o

de Tân ato s®® . Daí que esse riso, mais comple xo e co ntr aditório, im­

plic a a m e s c l a de ou tr os risos. Não é p r o p riamente o riso a l egre da

primeira fase da p r o d u ç ã o d r a m á t i c a de Millôr ("Do Tamanho de Um

Defunto", "Um Elefa n t e no C a o s ” e " P i g m a l e o a " ). Não é também, em


ai 7

sua tota lid ade, idê nti co ao riso que brota dos Hai-k ais , nem mesmo

dos a f o r i s m o s das "R ef lexões Sem Dor", mas a p r o x i m a - s e mais do riso

híbrido que a pro dução v a r iada do "Pap á v e r u m Mill ôr" faz surgir. E

m e s m o de a l guns textos de "Liçoes de Um Ig norante" ou das fábulas.

Ao cont r á r i o do "humor", que se incluiu no risível, o

" h u m o rismo ", pela força do c o m p o n e n t e satírico, te nde a a c e n t u a r o

" a f a s t a m e n t o do univ e r s o textual criado" pelo ridíc u l o do h omem e o

absurdo do mundo que o c i r c u n s c r e v e e op erar a "est r a n h a empresa",

c o m o nos fala Molière, de fazer rir d a q u i l o que no fundo é mais s é ­

rio do que r i s í v e l .

Ao integrar- se como s u jeit o-o bje t o da obra de art e , o c o ­

t i d i a n o (os seres, as relaç õ e s en tre eles, a p a i s a g e m e os ob j et os )

instaura um jogo comp l e x o e con traditório. □e um lado, a est ét ica

m o d e r n a c o n f e r e - l h e a c a t e g o r i a de maté r i a da obra de art e -, por ou-

tro, essa estética p e r m i t e - l h e e s t a b e l e c e r um co rte (um d i s t a n c i a ­

mento) na sua rei ação de c o n t e ú d o (suj eit o/o bjet o) com os outros

dois s u j e i t o s do texto, o n a r r a d o r e o seu ouvinte. Assim, na mo­

dernidade d e s m i s t i f i c a - s e a obra de arte com a ruptura de sua aura

de "pureza e s a n t i d a d e " ® * ; e a arte superior c o m p r o m e t e - s e com a

ar te p o p u l a r e marginal. E todos os a c o n t e c i m e n t o s do cotid ian o, ao

se t r a n s f o r m a r e m em m a t éria artística, prov o c a m a d e r r u b a d a de o u ­

tra interdição. a magn i t u d e dos temas da arte. Avançando ainda

mais, i n d içamos outra, t r a t a - s e da a u t e n t i c i d a d e e i m p o rtância da

obra de arte, agora v u l g a r i z a d a p elas técnic as de reprodução. Wal-

ter Benjamin , num ensaio b a s t a n t e c o n h e c i d o sobre a arte e a ép oca

de sua repr o d u ç ã o técnica, e n foca a s p e c t o s dessa redução, salien­

tando a l aici za ção da arte, na c o n d i ç ã o de objeto passível de ser


2í 8

reproduzido e comercializado: do e s c r i t o r ao editor, do editor ao

livreiro, e do li vr e i r o ao leitor^S

A r u p t u r a da aura da obra a r t í s t i c a e a c o n seqüente d e m o ­

cratização da art e inser e no c ont e x t o social aspect os i n u sitados

como o ris co de perda, por parte do leitor, de uma das gr andes 1 i-

berdades do homem: a sua c a p a c i d a d e de r e f l e x ã o crítica. Assim, os

t e xtos l i t erários do risível, v e i c u l a d o s d i a r i a m e n t e pelos jorn a i s

e s e m a n a l m e n t e p e l a s revistas, agem sobre o i n c o n sciente e s o bre a

c a p a c i d a d e de j u l g a m e n t o do públ i c o leitor. Essa produção, que alia

a e x p r e s s ã o verbal à i m a g í s t i c a (o d e s e n h o e a caricatura), a d i a n t a

ao leitor um c erto grau de in formação e uma forte carga de c r í t i c a

c a paz de d i r e c i o n a r a sua v isão do mundo e influenci ar a sua e s c a l a

de vai ores

Carnavalizaçlo e Calagem

A car n a v a l i z a ç ã o , que iremos identificar nos textos do

" h u m o r i s m o m i l l o r i a n o " , implica ainda, o r e c o n h e c i m e n t o de p r o c e d i ­

m e n t o s d i s c u r s i v o s e q u i v a l e n t e s à imbr i c a ç ã o e k inte raç ão de d i f e ­

rentes voze s textuais, a inter e a intr atex tua i i d a d e . Mas esses

t e xtos estabel ece m, também, uma p e r muta de posi ção das vozes tex­

t uai s na inver são p a r ó d i c a entre o te xto original e o recriado, co­

mo vimo s na "moral" das fábulas. 0 h u m o r i s m o de Millôr confirma a

intertextualidade i n t r í n s e c a da e s c r i t u r a a rtísti ca e a coloca no


2Í9

c e n t r o da sua poét i c a do humorismo. 0 e s c r i t o r co nstrói um t e x t o no

qual se c r u z a m fragm ento s de ou tr os textos, p r ó p r i o s ou alheios. No

seu di scu rs o, usa um complexo p r o c e s s o i n t e r t e x t u a l , lanç a n d o mio

de v á r i o s p r o c e d i m e n t o s p a r o d í s t i c o s , s e m p r e a c e n t u a n d o a inversão.

Pretendemos, ao adota r o termo int e r t e x t u a i i d a d e , destacar os vá­

rios a s p e c t o s que nos pa recem f u n d a m e n t a i s d e s s e s p r o c e d i m e n t o em

Millôr, d i z e n d o como eles são c o n s t i t u í d o s . C o m e c e m o s por uma ob­

servação de. cará t e r t e r m i n o l ó g i c o s o b r e intert ext uai idade que é

u s ada aqui no s e n tido mais am plo de i n t r o m i s s ã o ou a p r o v e i t a m e n t o s

de um t ext o no outro. Assim pode - s e d i z e r que em Millôr, a inte»—

t e x t u a l i d a d e é t r a b a l h a d a sob vár ios as pec tos , o que nos p o s s i b i l i ­

ta orga n i z á - l a , didaticamente, em v á r i o s conjuntos. □ primeiro

identifica-se pelo a p r o v e i t a m e n t o de t e x t o s alheios: nas d e d i c a t ó ­

rias; nas epígr afe s; nas cita ções e x p l í c i t a s ou implícitas; ou no

teat r o de colagem, e n tend ido como a r e c o l h a de textos em t o rno de

_ um tema; ou, ainda, em p r o c e d i m e n t o s p a r ó d i c o s diversos. Seg und o, a

i ntr atextuai i d a d e , que se real iza no a p r o v e i t a m e n t o de fragmentos

textuais de uma obr a em outra; na r e c o l h a em livros de suas a t i v i ­

dades literárias no jornalismo; e na o r d e n a ç ã o documental de sua

a t i v i d a d e j o r n a l í s t i c a num d e t e r m i n a d o ó r g ã o e durante um c e r t o p e ­

ríodo, como são os casos de "0 D i á r i o de N o v a República", em r e l a ­

ção ao "Jornal do Br asil" entre 0 1 / 0 2 / 8 5 a 20/05/88, e de "Millôr

no Pas quim", a b r a n g e n d o tre zen tas semanas, e n t r e os anos de 1969 a

1975, no s e m a n á r i o "Pasquim". Terceiro, na m e s m a linha de i n tertex-

tualidade, aind a que de sent ido mais amplo, temos uma escri tur a,

sob um c o r t e temporal, na qual se m e s c l a m o documental, o memoria-

lismo e a r e f l e x ã o críti ca sobre sua pro duç ão, em "Trinta Anos de


see-

Mim Mesmo". Quarto, nos p r o c e d i m e n t o s de p a r a t e x t u a i i d a d e , para d e ­

signar as relações text u a i s que se p r o c e s s a m às m a r g e n s do texto,

nos prefácios, posfácios, t í t u l o s d e d i c a t ó r i a s e notas, como vimos

nas u n i d a d e s anteriores. E, por último, um outr o p r o c e d i m e n t o que

vamos d e nominar de p r á t i c a met atextual, nos te xtos em que o e s c r i ­

tor, num jogo lúdico, insere uma c r í t i c a ao seu p r ó p r i o texto, como

acontece em "Duas Tá buas e Uma Paixão"; ou aind a qua nd o rev ela a

gênese de p rocessos de c r i a ç ã o no g l o s s á r i o de " T r inta Anos de Mim

Mesmo". Essas técnica s de inte rte xtua i idade c o n f e r e m ao " h u m o r i s ­

mo" de Millô r F ernandes uma dupla feição: de vest e arleq uina l, por

seú h i b r i d i s m o e mul t i p l i c i d a d e ; e de discurso vetoria l, pela c o n ­

f l u ê n c i a dos "modos" do risível.

O Cômico Grotesco

A obra d r a m á t i c a de Mil lôr F e rnandes se c o m p õ e de um c o r ­

po de textos que pode ser c l a s s i f i c a d o em dois tipos de cômico: o

"significativo” e o "grotesco", confor me e x p r e s s õ e s de Baudelai­

r e ^ . Os textos da p r i m e i r a fase dramática, o c ô m i c o s i g nificativo,

e x p l o r a m o rid íc ulo do h o m e m e a s ociedad e que o circ unscrev e. E os

da s e g u n d a fase, o a b s u r d o da c o n d i ç ã o humana. Um m u n d o " d i v e r t i d a ­

mente às avessas" cede lugar a um mundo " a n g u s t i a d a m e n t e às aves­

sas", o que ocorre nas peça s "Duas Tábuas e Uma Pa ixão" (197E) e

"Flávia, Cabeça, Tr on co e M e m b r o s ” <1978).


SSÍ

A d e s p e i t o da comici dade dess a s peças, os procedimentos

do risível v a r i a m de m a n eira p e r c e p t í v e ^ . N elas se acen tua o riso

a m argo e c á u s t i c o que ora aproxima -se do satírico, ora do grotesco.

Na m e s c l a do c ô m i c o e do tr ágico,a p r i m e i r a das peça s acima c i t a d a s

aborda, e ntre o u t r o s subtemas, o a t e n t a d o do R i o c e n t r o o c o r r i d o em

19 de maio de 1981, inv ertendo os fatos, não o "tentado", mas o

acon tec ido . Mas o s i m b o l i s m o da peça é ai nda s a t i r i z a r o Brasil,

emblematizado por um p r é d i o velho, a e x e m p l o do e d i f í c i o em c h a m a s

em "Um E l e f a n t e no Caos" e da última ca sa de C o p a c a b a n a em "Pi gma-

leoa". 0 riso t a mbém se faz tri butári o de um jogo séri o/c ômic o, de

memória e e s q u e c i m e n t o en tre as irmãs C o r d é l i a e Ceei; o que d e v e ­

ria ser im po r t a n t e pa ra uma delas, o c a v a l i n h o de cristal, o é a p e ­

nas para a outra, na inve rsão d ialétic a do que é e s q u e c i d o por uma

e lembrad o apen a s pela outra. E m o l d u r a n d o a c a ó t i c a s i t u a ç ã o e x i s ­

tencial mostrada no texto, a peça come ç a com um m o n ó l o g o cômico,

leve e b r e j e i r o sob re a morte, disc u r s o que se a s s e n t a na t r a d i ç ã o

p o p u l a r sobre o e s c o n d e r - s e da morte: "Compro uma p a n e l a / e n t r o d e n ­

tro d e l a / E . .. t a p o ! " 2 ^ £ termina com a me sma p e r s o n a g e m num m o n ó ­

logo de igual tema, agora revestid o de trag icidade: "Só p enso q u a n ­

do, como, e onde vou morrer. A int e r r o g a ç ã o é estéril, a resp o s t a

próxima - r e s p o s t a que eu não vou ouvir. Mas o h o rror me mata an­

tes, pois, viva ainda, eu j á me vejo mort a e essa a n t e c i p a ç ã o c o m ­

pensa em ago nia e d e s f a l e c i m e n t o a i g norância da morte que eu terei

já morta. Nunca n i n g u é m me disse que deix ar de sofrer doía t a n ­

to. "23.

Te nd e n d o ao a b s u r d o 2 ^, "Flávia, Cabeça, Tron co e Mem br o s "

é uma peça em dois atos, centrada num mun do a b s u r d a m e n t e às aves­


222

sas, e c u j a s p e ripéc ias g r o t e s c a s reproduz em, em nível simbólico, a

situação do país em 1963. 0 t e x t o m i s t u r a recursos do cô mico a t r a ­

vés da p a r ó d i a do discurso bí blico, do satír ico na c o n f i g u r a ç ã o c a ­

ri catural das personagens, e do g r o t e s c o nas sit uaç ões inve r t i d a s

até o paradoxo, é o caso do juiz de J u s t i ç a chamad o Paulo Moral,

cu jo c o m p o r t a m e n t o é uma c o m p l e t a inversão da ética jurídica e h u ­

mana. Ele c o biça e d e s e n c a m i n h a uma menor, torna-se amante da mu­

lher do amigo, trama o a s s a s s i n a t o da próp ria esposa, liber ta os

criminosos da amante e c o n d e n a um n egr o inocente pelo fato de ser

negro. A m e s c l a do risível com a d e f o r m a ç ã o de caráter das p e r s o n a ­

ge ns c a r a c t e r i z a o côm ico grotes co, pela forma cômica de conteúdo

trágico.

A pass a g e m do cômi c o sig n i f i c a t i v o , da prime ira fase, pa­

ra o c ô m i c o grote s c o da segunda, p o d e ser explica da à luz da te oria

de Ba udelaire, que nó seu e n s a i o s o b r e o cô mico nas artes p l á s t i c a s

destaca e ssas duas formas p a r a d i g m á t i c a s •. a primeira, em to rno das

re l a ç õ e s sociais, e a segunda, e n f o c a n d o as angústi as da condição

humana.

0 teatro m i l l o r í a n o apresen ta, ainda, um outro universo

d ramáti co, o "teatro de colagem". Sob esta rubrica inscrevem os os

textos: "Li b e r d a d e L i b e r d a d e ” (1965, em parcer ia com Flávi o Ran­

gel); "0 H o m e m do P rincípio ao Fim" (1967); "A História é Uma H i s ­

tória" (1977); "Bons Tempos, Hein ? ! " (1979).

Há uma ten dência na e s t é t i c a da arte de bus car em é p o cas

anteriores a gênese de um e s t i l o moderno. No mundo cl ássico seria

te meridade, dada a d istância temp ora l e a pa rca documentação, bus­

c a r m o s s e m e l h a n ç a s entre o dram a s a t í r i c o gr ego e o teatro de c o l a ­


gem . Mas cr emos ser possí vel a proximar este u l t i m o da fra g m e n t a ç ã o

pictór ica , em especial do cubismo. Ambos b u s c a m uma real i d a d e que

subjaz à a p a r ê n c i a a t r a v é s de uma d e s c o n s t r u ç ã o , de uma f r a g m e n t a ­

ção de inte r a ç ã o de v i s õ e s m ú l t i p l a s e de uma i n v e r s ã o do real, re­

f let i n d o a próp r i a d e s a g r e g a ç ã o da modernidade.

Q teatr o de c o l a g e m surge, todavia, nos qua dro s do teatro

moderno como uma le gítima e x p r e s s ã o da d r a m a t u r g i a do s é culo "XX",

na sua ânsia de romp er com a ilusão cênica, contrapondo-se à drama­

t u r g i a do s é culo "XIX" da qual Ibsen se faz seu m e l h o r r e p r e s e n t a n ­

te. 0 te atro de Ibsen b u s c a fortal ece r o e f e i t o da ilusão d r a m á t i ­

ca, à medi d a que suas p e ç a s acen tuam o cará t e r r e a l i s t a e m i m é t i c o

do text o e mantém, no espe tác ulo, o d i s t a n c i a m e n t o físico da pla­

té ia com o palco. A r u p t u r a d a mode r n i d a d e com os e s q u e m a s de texto

e de r e p r e s e n t a ç ã o tem como pont o de pa r tida o t e a t r o de Pirandelo,

cu ja tôni c a é a quebr a da ilusão teatral, p e r m i t i n d o ao l e i t o r / e s ­

p e c t a d o r p a r t i c i p a r de m a n e i r a cr ítica e não em oc ional do e s p e t á c u ­

lo. Dest a maneira, o t e a t r o mode rno inverte o e s q u e m a do séc ulo

"XIX", na busca da que br a da ilusão, ao d e s v e n d a r o c a r á t e r de fi c­

ção do texto e de r e p r e s e n t a ç ã o do e s p e t á c u l o e, mais além, no

afastamento das e m o ç õ e s para mante r o l e i t o r / e s p e c t a d o r num hori­

zonte c r í t i c a cap az de f a z ê-l o p a r ticipar a t i v a m e n t e do espetác ulo .

C oer e n t e com os p r o c e d i m e n t o s anterio res , far emos algumas

considerações de o rdem t e ó r i c a e, poster iorm ent e, sobre a c o n s t r u ­

ção d e stes textos. Sem e n t r a r m o s no méri to da questão, le mbr amos

que a d e n o m i n a ç ã o “t e a t r o de c o l a g e m “, adot a d o pela crítica, no

fundo pode ci rcunscreve»—se ao termo " c a r n a v a l i z a ç ã o " que Bak hti n

usou para desig n a r a p o l i f o n i a textual ou m e s m o a par ódia na sua


cc4

acep ç ã o mais a m p l a ^

Ess e tea tro org a n i z a - s e e s t r u t u r a l m e n t e na m o n t a g e m de

vários te xtos r e t i r a d o s de cont e x t o s d i v e r s o s e a g l u t i n a d o s em t o r ­

no de um tema, procedendo, desta forma, a um a narr a t i v a que rompe

com os p a d r õ e s t r a d i c i o n a i s do gênero. C a r a c t e r i z a - s e por fazer i n ­

tervir, ao mes mo tempo, dive rsas m a n e i r a s de t e a t r a l i z a ç ã o do t e x ­

to-. com a inserç ão de outros tex tos ( mon ó l o g o s e diálogos); com a

p a r t i c i p a ç ã o da m ú s i c a na função de ligar ou se parar os quadros; na

pr o j e ç ã o de material gráfico, para p r o j e ç ã o ou exib i ç ã o de "sli­

des", ou, ainda, de curt os trecho s de filmes. Os quadros, de c u r t a

duração, se s u c e d e m numa es pécie de r e p r e s e n t a ç ã o frontal sem c e n á ­

rios, mas g e r a l m e n t e conduzidos por um n a r r a d o r . Esse narr a d o r r o m ­

pe com a l inguagem teatral tradi cio nal, pela qual o p ú b lico r e c e b e

obliqüamente a i n formação e a com unicação, para, de ce rta forma,

re s g a t a r a p a r á b a s e gre ga e, assim, i n s t a u r a r uma c o m u n i c a ç ã o d i r e ­

ta com o público. 0 texto e s t r u t u r a - s e em tor no de um tema, incor­

porando textos de gêneros e au tores divers os, reco r r e n d o a l i n g u a ­

gens diversas: a gráfica, a icônica e a musical. Esses e l e m e n t o s de

descontinuidade, esse ca ráter de monta gem , provocam a quebra do

p r i n c í p i o de ilusão e p r opici am o d i s t a n c i a m e n t o , pois o l e i t o r / e x -

pect a d o r pas sa a ser um crítico do p r ó p r i o espetáculo. A complemen-

taçã o da fala c a n t a d a pode também s e r v i r para, ironizar o corte na

s e q ü ê n c i a temporal da narração cênica.

Millôr, coerente com o c o m p o r t a m e n t o que lhe é habit ual

de falar sobre os seus pro ces sos de criação, alert a que esse g ê n e r o

de e s p e t á c u l o teatral "tem um ap elo d u r a d o u r o para o p ú b lico de t o ­

das as esc alas e c o n ô m i c o - c u l t u r a i s e se rve efic a z m e n t e para t r a n s ­


2S 5

mi ssã o d i d á t i c a de idéias po líticas, sociais, literá ria s e p o é t i c a s

sem -Falar nas h u m a n í s t i c a s , que e n g l o b a m t o d a s " 2 8 .

Sob re a n a t u r e z a e as gran d e s dif i c u l d a d e s des se gênero,

que M i l l ô r c o n s i d e r a mais difícil do que escrever um text o origi­

nal, ele adverte. "Não b a sta reco l h e r text os ao acaso. Na h ora de

escrever as ligações entre os textos, é cl aro que o autor deve s a ­

ber f a z ê - l o com as p a l a v r a s exa t as e esse e x t r a o r d i n á r i o s e n s o de

ec o n o m i a que o teat ro impõe: jamai s u s ando dez p a l a v r a s onde se p o ­

de usar nove, jamais d i z e n d o uma coisa "mais ou menos" como se

quer. A c o is a tem que ser dita com abso l u t a precisão, engraçada

quando se a quer engraçada, dramática, poética, política, social na

justa m e d i d a do que se pretende. E, importa n t í s s i m o em arte d r a m á ­

tica - a b s o l u t a m e n t e imprecisa, vaga e fluida quando essa for a i n ­


tenção"*^?.

"Liberdade", "essa p a l a v r a que o sonho h uma n o a l i m e n t a " 3 ®

e que vem send o c o n q u i s t a d a p r o g r e s s i v a m e n t e ao longo da hist óri a,

apesar de perí o d o s de retrocesso, c o n f i g u r a - s e como tema centr al da

peça "L iberdade, Liberdade", de Fláv i o Rangel e Mi llôr Ferna nde s,

escrita num dos períodos mais d i f í c e i s da história p o l í t i c a dest e

país. Foi publicada em 1 9 6 5 e e s t r e o u no mesmo ano, aos 2 1 de

abril, no Rio de Janeiro, numa p r o d u ç ã o do Grupo O p i n i ã o e do. T e a ­

tro de A rena de Sio_Paulo, send o os pa péis r e p r e s enta dos por P a u l o

Autran, Nara Leão, Oduv a l d o Vi an na F i lho e com a p a r t i c i p a ç ã o e s p e ­

cial da T e reza Rachel A peça o r g a n i z a - s e através de uma p r o g r e s s ã o

cronológica desde o disc u r s o de S ó c r a t e s na Grécia Antiga até os

tempo s presentes. A aber tura se faz com o refrão do Hino da Repú­

blica "Liberdade, L i b e r d a d e ,/Abre as asas sobre nós /Das lutas, na


>c:•*>'"c.l òJ

t e m p e s t a d e , / D á que ouça m o s tua voz"31 e e n c e r r a - s e com uma mont a g e m

de textos que c o m p õ e m as pági n a s finais do liv ro "De la Tra dition

T héa t r a l e " , de Jean Vila r 3 2

A últi ma pala v r a de H a m l e t :

"0 resto é sil êncio"

A úl ti ma pa la vra de Júlio César:

"Até tu, Bru tu s?"

A ú l tima pala v r a de Jesus Cristo:

"Meu pai, meu pai

porqu e me a b a n d o n a s t e ? ”

A últ ima p a l a v r a de Goethe:

"Mais luz"

A ú l tima p a l a v r a de Booth, a s s a s s i n o de Lincoln

" Inút i 1, Inút i 1. . ."

E a ú l t i m a pala v r a de Prometeu.

"Resist o !"

0 texto foi o r g a n i z a d o a part ir de f r agmentos textuais de

autores d r a m á t i c o s como W i l l i a m Shakespeare, Büchner, Beaumarchais

e Berto lt B r e c h t ; de p o etas como Geir Campos, Cast ro Alves, Fede ri-

co G a r c i a Lorca, C a rlos Dru mmo nd de Andrade, C e c ília Meireles, M a ­

nuel Bandeira, Paul Eluard; letristas co mo Billy Blanco, Osór i o D u ­

que Estrada, Dorival Caymmi, Carlos Lyra, Viníc i u s de Morais, Ge­

raldo Vandré, Capitão Roget de Lisle; filós ofo s co mo P l atão e

Aris t ó t e l e s ; políticos como Abraão Lincoln, Thom as Jeff e r s o n e

W i n s t o n Churchill.

A estrutura n a r r a t i v a se con str ói at ravés de uma anti-

na rração, pois não há história, nem ação continu ada , ou ainda p e r ­


sona g e n s fixos; há ape nas a cond u ç ã o de um fio temático - a l i b e r ­

dade - que a g l u t i n a todos os textos. 0 ritmo é leve, explosivo, e

se mpre c o m a n d a d o p e l o s quatro atores que são, simultanea men te, nar­

r a d ores e intérpr ete s.

A m e s c l a c a r n a v a l i z a n t e se faz na ju nção de um texto d r a ­

m á t i c o séri o com o u t r o risível, é o caso do c ô mi co da peça de Beau-

marchais, "0 C a s a m e n t o de F í g a r o ”, que já p r e n u n c i a v a a Revolução,

a Tr echo s da "Mo r t e de Danton", de B ü c h n e r , que põe à luz alg u ns

aspe c t o s h u m anos da R e v o l u ç ã o Fran c e s a em c o n t r a p o n t o ao primeiro.

A d e n s i d a d e d r a m á t i c a da cena "0 Delator", da peça " T e r ­

ror e M i s éria no III Reich", de Bertolt B r e c h t , con t r a p õ e - s e à c o ­

move n t e cena de amor ent re Anne e Pet er da peça "0 Diário de Anne

Frank". Ambas têm como pano de fundo a S e g u n d a Guerra, mas a pri­

meira enfoca a t r a g é d i a de uma famíl ia alemã com um filho nazista,

e n q u a n t o a o ut ra m o s t r a o drama de uma fam ília judia, vi vendo c l a n ­

d e s t i n a m e n t e numa á g u a - f u r t a d a em vi r tude da p e r s e g u i ç ã o nazista.

é f r e q ü e n t e o e m p r e g o de d i s c u r s o s dra m a t i z a d o s como os

últi m o s momentos de Sócrates, cuja d e s c r i ç ã o feita por Plat ã o é

adap t a d a num d i á l o g o pelos autores, ou como o d i s c u r s o fúnebre de

M arc o Antônio na peça de S h a k e s p e a r e . 0 que une os dois d i s c u r s o s é

o fat-o de serem, ambos, pe ças r e t ó r i c a s de acusação. 0 primeiro v a ­

zado por uma iro nia p r e t e n s a m e n t e inocente, socrática, ao acu s ar os

ti ran os de Atenas; o s e g u n d o a t r a v e s s a d o por uma ironia satírica,

péla qual Marco A n t ô n i o a cusa o b l i q u a m e n t e os m atad ores de César.

Em o u t r o s trechos, os autores jogam, d i a l e t i c a m e n t e , com

os disc ursos s ério e risível Ao d i s c u r s o de Abraão Lincoln "The

Get ty sburg Address", que se ence r r a com a famosa d efiniçã o de d e m o ­


cracia (Governo do Povo, pelo Povo e par a o Povo), é c o n t r a p o s t o um

t r e c h o joc o so de Millô r F e r n a n d e s s o bre o regime militar, que p o d e ­

rá, s e g u n d o ele, acabar numa d e m o c r a c i a se forem p e r m i t i d a s cert as

libe rda des . Os dis cursos de e x a l t a ç ã o bé lica de Herná n Cortez, Ge­

neralíssimo Franc o e o General M ilan Astra y se c o n t r a p õ e m ao dis­

c u r s o a c u s a t ó r i o em defesa da paz do filóso fo e poet a Miguel Unam u -

nb. Duas cenas de j u l g a m e n t o são apr oveitadas: De um lado, o caso

do p o e t a Joseph Brodsky, a c u s a d o de não querer trabalhar; de outro,

a condenação por dese r ç ã o e e x e c u ç ã o do pracinha norte-americano

SIovik.

A li ngu agem musical t a m b é m obse r v a p r o c e s s o s carnavali-

zantes, m i s t u r a n d o o sé rio ao risível e gêner os d i v e r s o s em to rno

do tema "liberdade". Desta forma, a p a r e c e m ? o "Hino da I n d e p e n d ê n ­

cia" e o "Es tat uto da G afi ei ra", de Billy Blanco; "Hymne de

L ' A m o u r " de Edith Piaf e M a r g u e r i t e Morreau, cujo tema se cont.rapõe

à "Le Ça Ira", ca nção r e v o l u c i o n á r i a francesa que pr ega a morte dos

aristocratas; "F reedom Song" ao lado de músic a po pular bra sil eir a;

m ú s i c a s ép icas como "Battle Hymn of Repu b l i c " e músi c a s c a r n a v a l e s ­

cas; as ca nç ões da Gue r ra Civil Esp an hola , de um lado, o hino fa-

l a n g i s t a "Cara al Sol", e, do outro, a "Marinera", canç ã o f o l c l ó r i ­

ca, c a n t a d a por ambos os lados.

Essa po lifo nia se a c e n t u a ainda mais com vozes de po etas

di vers os: Ce cília Meirel es (trechos do "Ro m a n c e i r o da Inconfidên­

cia"); Noel Rosa (trechos de " P o sitivism o"); Cas tro Al ve s ("Navio

N egr e i r o " ) ; Garcia Lorca (trecho do " R o m a n c e i r o Gitano"); Manuel

B a n d e i r a e outros. Isto tudo p e r m e a d o com textos de humor de Mi llôr

Fernandes.
££9

S egu indo a m esma linha, a da colagem, t e mos a peça "A

H i s t ó r i a é Uma His t ó r i a - e o h om em o úni co animal que r i ”, e s t r e a ­

da no dia 2 1 de outu b r o de 1 9 7 6 , no Tea t ro Interno do Centro de

Convivência Cultural, em Campinas, São Paulo, t endo sua primeira

edição em livro no v er ão de 1 9 7 8 . 0 texto se e s t r u t u r a na t r a j e t ó ­

ria do b e s t i a l ó g i c o humano, das cavernas à s e l v a g e r i a atual. 0 pon­

to de par tida é, segu n d o a "t radição" m i l l o r i a n a de lançar mão do

discurso bíblico, a s á t i r a à gêne se do mundo, já na sua i n a d e q u a d a

denominação ("como se c o m p r e e n d e chamar de Terra um p l a n e t a cuja

composição é dois te rços 1 í q u i d o s " )3 3 j à feitura do h o m e m ("ao f a ­

zer o ho mem ele fez Adão, um tipo bem natural, bem simpl óri o, quase

um c a m p o n ê s " > 3 4 M i s t u r a n d o falas ágeis e pequenos t r e c h o s de c a n ­

ções, aqui e ali, i n t e r c a l a d a s por monólogos, vai traçando, em r á ­

p i das pinceladas, a histór ia, atr avé s de refl exões sat íri cas . Da

pré-história ele s a t i r i z a a invenção da roda como s i m p l e s p r e t e x t o

para a e x p l o r a ç ã o do h o m e m por outro homem. Na m e s m a técnica ágil,

satiriza as c i v i l i z a ç õ e s antigas, sobr e t u d o a hebraica, principal­

m ent e na figura de Moisés. Da cu ltura grega s a t i r i z a os heróis, os

mitos, os há bitos b é l i c o s ("Os gregos p a ssa m o t e m p o todo na g u e r ­

ra, p r i n c i p a l m e n t e a de T r ó i a " ) 3 5 , a p r ó pria h i s t ó r i a ("Um povo com

m u i t a hi st ó r i a e pou co person age m. Pa re ce que, por m e d i d a de e c o n o ­

mia, uma só pes s oa fazia mui tos p a p é i s " ) 3 6 q os romanos, por e x e m ­

plo, o circo, os escânda los, até.Ne ro e a decadência. A inv asã o dos

bárbaros e sua ins t a l a ç ã o no mundo romano ("Se i n s t a l a d o é modo de

d ize r por que os b á r b a r o s não se inst alav am em lugar nenhum. V i v i a m

galopando de lá para cá e de cá para lá impedi ndo a g rama de cres-

cer")37 £ a narr a t i v a a v ança na fala dos dois a t o r e s e da atriz,


830

chegando à Idade Média, um per íod o h i s t ó r i c o mui to devagar, pois

"não inven t o u nem seque r a classe m é d i a ”3 8 S a t i r i z a o ideal da c a ­

v a l a r i a andante. "Passa va a vida pelas e s t r a d a s indican do o c a m i n h o

on de é que era a guerra, onde é que era a festa, onde é que esta v a

a luta do d r a g ã o com a donzela. Em suma, se o cara não era no bre

nem plebeu só tinh a uma saída - ser p e r s o n a g e m de conto de fa-

d a s " 3 9 . Dessev m e s m o período, s a t i r i z a t a m b é m v á rios aspectos da

cultura á ra be - a goma arábica, o inven to do tra n s p o r t e aéreo (ta­

pete voador) e "as mara v i l h o s a s e s c r a v a s v í d e o - t a p e que contavam

histórias durante mil e uma noites, sem interrupção. As melh o r e s

er am da marca S h e r a z a d e " ^ ® . Na se qüência, sa ti r i z a a época dos

Grandes D e s c o b r i m e n t o s . "Como a g e o g r a f i a a n t i g a depen dia mui to da

simpatia do ca rtóg raf o, os n a v e g a d o r e s v i v i a m em eternas dúvi­

das"^*. C hega aos tempos moder nos com a R e v o l u ç ã o A merican a e a D e ­

claração dos D i r e i t o s do Homem e "com ela na mão foi facílimo ex­

t e r m i n a r os índios"42, a R evolução Industrial ou "revela ção " i n d u s ­

trial, pois "a i ndústria vito riana p e r c e b e u que mulheres e criança s

c o n s e g u i a m t r a b a l h a r 28 horas por dia sem m o rrer e sem ficar e x c e s ­

sivamente d e f o r m a d a s ”4 3 ; as gra nde s i nvenções como a do avião

"uma m á q u i n a v o a d o r a que, entre uma g u e r r a e outra, tr ansporta a l ­

gu ns passage i r o s " ^ ^ ; a r evol ução sexual, que “foi a mil agrosa re-

d e s c o b e r t a do s e x o " 4 5 E finalmente, a p ó s a s e g u n d a guerra mundial,

o home m d e s c o b r e o humor: "uma es pécie de iluminação, de uma v e r d a ­

de que todo m undo s a b i a " ^ . E quando a h u m a n i d a d e se "apr oxima r a ­

pidamente do dia da Falt a de Juízo Final", o "espetáculo his tór i-

c o - h i s t é r i c o " te rm i n a com os atores dizendo: "A História è Uma H i s ­

tória!", "0 H o mem é o únic o animal que ri!" e “e é rindo que ele
S 3Í

m o s t r a o animal que é!"*^.

Vamos d e m o n s t r a r pela leit u r a a pa rticu lar idade da c o n s ­

t r u ç ã o intratextual em “A H i s t ó r i a é Uma H i s t ó r i a ” e o seu pape 1 de

e l e m e n t o de rupt ura com a v i s ã o c l á s s i c a da obra de arte una e o r i ­

ginal. A intratextuai idade é aqui a s s u m i d a como um resgate de f r a g ­

mentos de outro s te xtos do p r ó p r i o escrit or que vão se ndo r e c ò l h i -

dos p a r a o r g a n i z a r e m um novo texto. Essa am pl iaçã o p o l i f ô n i c a a c e n ­

tua o cará t e r h í b r i d o dos t e x t o s de co lag em que, não o b s t a n t e fo»—

m a r e m uma nova na rrativa, a inda se a r t i c u l a m com as mesma s t é c n i c a s

de inversão, ironia e paródia, a d o t a d a s em todos os modos do r i s í ­

vel. Da i n t r a t e x t u a l i d a d e fi zemos uma leitura que nos p o s s i b i l i t o u

e f e t u a r algu mas o b s e r v a ç õ e s s obre o car áter de cons t r u ç ã o dos n ovos

textos. A pri m e i r a dela s diz r e s p i t o à co nstat ação de que seus tex-

tos-colagem são frutos da re colha, ou seja, que são aproveitados

f r a g m e n t o s de textos de liv ros que, por sua vez, já t i nham sido r e ­

tirados da sua p r o d u ç ã o j o r n a l í s t i c a . Esses p r o c e d imentos o b e d e c e m

a t é c n i c a s diversas. No cômico, elas c onsistem na rec olha de m o n ó ­

logos, diálogos, frag m e n t o s de c e n a s das peças, ou ainda de n a r r a ­

tivas c u rtas e x t r a í d a s de “C o n p o z i s s Õ i s Imfãtis" e "Lições de um

Ignorant e". No satírico, a r e c o l h a se faz de textos cu rtos (notas

epi g r a m á t i c a s , e p i g r a m a s e a f o r i s m o s ) e outros mais longos, c o m o e

as fábulas. E, por último, no humor, ocorre sob ret udo a repetição

de t é c n i c a s verbais, p r i n c i p a l m e n t e as re la cionadas com i n v e r s õ e s e

cruzamentos temporais: meio de c o m u n i c a ç ã o do prese nte para v e i c u ­

lar n o t í c i a s do passado; a c o n t e c i m e n t o pa ssado com c o m e n t á r i o c r i ­

tico do presente; p e r s o n a g e n s do p r e s e n t e atuando no passado, e vi­

ce -versa. Esses p r o c e d i m e n t o s de inve r s ã o temporal, surgid os a par-


gse

tir da seção “Hem, como Foi mesmo a Hist ória" na r e v i s t a "Veja" em

1968, são o r i g i n a d o s de uma rev ist a h u m o r í s t i c a itali ana e também

utilizados no s e m a n á r i o h u m o r í s t i c o paul i s t a " G o v e r n a d o r “^® c o m o o

autor e s c l a r e c e no g l o s s á r i o de "Tr int a Anos de Mim Mesmo". Da ú l ­

tima téc nic a temos o exemplo: "Manc het e e s p o r t i v a da G a z e t a de Es-

parta: Na ú l tima e v i o l e n t a di sputa de domingo o s u p e r - c r a q u e PE-

Lé a n d r o liqu ido u mais do is gene r a i s na pa rtida e n t r e H o r á c i o s e Cu-

riácios"^?, Há ai nda com r e l a ç ã o ao h u m o r i s m o duas outras técnicas

reco rre nte s. Primeiro, a -Frase h i s t ó r i c a com li geira m o d i f i c a ç ã o e,

segundo, a não dita mas que poderia ter sido dita: “Jean J a c ques

Rousseau: 'Precisamos v o l t a r à natureza "'^ ®. P o r é m a técn i c a mais

u s a d a nesta peça é a de c r u z a r um v e í culo de c o m u n i c a ç ã o do p r e s e n ­

te v e i c u l a n d o notí c i a s do passado, q u e p e r c o r r e todo o texto “Out-

doo r no Mon te das Olivei ras : 'Pilatos lava as mãos com. s a b o n e t e Ca-

racala'"5 1 .

0 principal o b j e t i v o da peça é c r i t i c a r e, critica ndo ,

leva o leitor (es pectador) a ver que a história p ode ser a p enas uma

história e que cada é poca da história do home m p e r m i t e uma outra

lei tur a dela. é o que faz o autor, s a t i r i z a n d o em c a d a época aq ui lo

que a hist ó r i a c o n s a g r o u c o m o sua me lhor produção.

"0 Home m do P c i n c í p i o ao Fim" e s t reou em junh o de 1967 no

T e a t r o San ta Rosa, no Rio de Janeiro, com os a t ores F e r n a n d a Mon te-

negro, C l á u d i o Co rrêa e C a s t r o e Sérg i o Brito, c o n t a n d o com a p a r ­

ticipação especial do Q u a r t e t o 004 e direção de F e r n a n d o Torres,

send o o te xto publ i c a d o em prim e i r a ediç ã o em jul ho de 1978. E n c o n ­

tra mo s neste texto a ilus t r a ç ã o da técnica c a r n a v a l i z a n t e da inter-

textualidade, aqui a c e n t u a d a na sua vert e n t e de c o l a g e m de gê n eros


OFSC

di fere nte s, o épico, o lírico e o dram áti co, al ém de várias é spé-

c ies de narrativa.

Recorrendo-se a inf o r m a ç õ e s do p r ó p r i o escritor, c o n f i r ­

m amos a i n t e n c i o n a l i d a d e do texto: "é fu ndam ent al também ter em

m e nte uma idéia geral exata para e n c a m i n h a r o espetáculo. A escolha

e s e q ü ê n c i a dos text os são uma h i s t ó r i a que se conta, o pú blico nã o

pode se p e r d e r ”5 2 Mais ad iante esc larece. "Nos sa idéia era a a p r e ­

sentação do h o m e m do ponto de vista, justamen te, humanísti c o “5 3 .

Ou, como diz um dos narradores: "este e s p e t á c u l o é uma es colha de

textos, p r o c u r a n d o dar uma idéia do homem, esse ser h u m a n o " ^ . M u ­

niciado dessa idéia e intenção es cr e v e um t exto com "46% de mate­

rial orig i n a l " e o re sta nte formado de c o l a g e n s de fragmentos t e x ­

tuais de autores diversos.

No p r ó l o g o se cont r a p õ e m duas vozes: uma poética, de uma

crônica de Rubem Braga, sobre um hom em n a d a n d o sozinho no mar, e,

outra, farsesca, de um fragment o de texto do p r ó prio Millôr, o m o ­

nólogo de um m e n d i g o que inicia a peça "Flávia, Cabeça, Tr onco e

Membros". Os dois tex tos se c o n t r a p õ e m d i a l e t i c a m e n t e à med id a que

um t e m a t i z a a heroi cida de, e o o utro a m i s é r i a humana.

A seqüência textual é c o n s t i t u í d a de onze quadros, um a

int r o d u ç ã o e um epílogo. 0 primeiro quadr o e n f o c a o homem e o seu

início,^ em que o autor lança mão da t é c nica da intratextua1i d a d e ,

i nse rindo f r agmentos de seu te xto satírico: "Esta é a Verdadeira

H i s t ó r i a do Paraíso".

Em tor no do tema do amor, mes clam -s e, no segundo quadro,

dive r s o s gêneros, num "coquetel de alto p o d e r p o é t i c o " 5 5 o lí rico

de Camõ es e V i n í c i u s de Morais ao lado do poem a eró tico "0 C â n t i c o


234

dos Cântico s", a que o escritor empr e s t a um t r a t a m e n t o dramático

a t r a v é s do diálogo, e, sobretudo, o es tra nh o d i á l o g o , d e P e t r u q u i o e

Catarina da peça "A M e gera Domada" de S h a k e s p e a r e , t r a d u z i d a pelo

próprio Millôr. E n c e r r a o quad ro o sol ilóquio de Molly Bloom do

" Ulisses" de James Joyce.

No t e r c e i r o quadro, “0 Homem: Lobo do Homem", os textos,

de o r i g e m e g ê n eros diversos, ilustram essa c o n t r a d i ç ã o - o ó d i o -

a p a r t i r de tre cho s p o l í t i c o s como o decálogo do senador G o l dwater,

que se c o n t r a p õ e ao d r a m á t i c o m o n ó l o g o da rainha M a r g a r e t , uma m a l ­

dição sem igual, em Rica r d o II de Shakespeare, ta mbém t r a d u ç ã o de

Millôr.

No quadro seguinte, "0 Homem: A Sua Saudade", a carnava-

l izaç ão se e v i d e n c i a na j u s t a p o s i ç ã o de trechos líricos com "-Fra­

ses, dísticos, r ó t ulos e l a b é u s ”^ , expr essões da c u l t u r a popular

que se e n c o n t r a m em p á r a - c h o q u e s de caminhões.

0 quinto quadro, "0 Homem. 0 Seu Medo", m i s t u r a e l e m e n t o s

do p o é t i c o com o documental. A s sim vemos' um afo rismo de Guimarães

Ro sa s obr e o c o t i d i a n o da a p r e n d i z a g e m do medo, uma r e p o r t a g e m da

revista Life sobre um a t e n t a d o à emba i x a d a a m eri cana em Sa igon, um

d i t a d o de R e y n a l d o J a rdim so bre o medo e suas causas, e, e n c e r r a n ­

do, o poema de Bertolt Brecht "A Infa nti cid a Ma ria Ferrar", que

p e r s o n i f i c a a vít ima ino cen te do. medo.

Mi llôr e m p r e s t a ao tema do ciúme, no quadro seg uint e, em

c o n t r a p o n t o com o tr ágic o anterior, um trata men to cômico, utilizan­

do um longo trec ho da peça de M o l i è r e "Escola de Mulheres", também

t r a d u z i d a pelo escritor.
£35

0 séti mo quad r o e n f o c a o homem na d i m e n s ã o trág i c a de su a

solidão, misturando o s o l i l ó q u i o de Ricardo II com a crônica de

ton s s a t í r i c o s "Ser Gagá", e x t r a í d a do livro "Lições de um I g n o r a n ­

te", encerrando com a d r a m á t i c a fala de Huw Morga n do rom anc e de

Rich a r d Lewellyn, "C omo Era V e rde o Meu Vale".

0 hom em d i ante da a f i r m a ç ã o ou negação da d i v i n d a d e é t e ­

ma do oita v o quadro “0 Homem: 0 Seu Deus". 0 p oema da pa ixão de

Santa T e rez a d i r i g i d a a J e s u s e os Sal mos do Rei Davi diri g i d o s ao

seu Deus se c o n t r a p õ e m a um a f o r i s m o profano de V o l t a i r e e à fala

a g n ó s t i c a do art ista de "Dil e m a de Um Médico" de Ber nar d Shaw.

0 humor m i l l o r i a n o c o m p õ e o "Homem: 0 Seu Riso", o nono

quadro, em que se d e s t a c a a r e p r o d u ç ã o de um poema, "A C o i s a ”, todo

c o n s t r u í d o na a p r o p r i a ç ã o de e x p r e s s õ e s p opular es e lugares comuns,

cuja c o l a g e m res ulta na i m agem do corp o humano. Poema este p u b l i c a ­

do pe la primeira vez em "0 Cruzeiro", em 1954, e inse r i d o no livro

"Te mp o e Con tratempo".

0 "Fim" do homem, tema que orga n i z a o déc imo quadro, gira

em t orno de s uicí dios célebre s: n o t í c i a s e opini ões de gente famosa

s o b r e a mort e de Mar ily n Monroe; tr echos da c a r t a - t e s t a m e n t o de Ge-

túlio Vargas; pe qu e n o t r e c h o de Macbeth, de U i l l i a m Shakespeare,

t a m b é m tra d u z i d o pelo escrito r; e fra gme nto do m o n ó l o g o que e n c e r r a

a peça "A Boa Mulher de Setsuan", que funciona aqui como se fosse

uma parábase. E o e p í l o g o é uma a d a p t a ç ã o da clás s i c a hist ó r i a de

James Thu rbe r sobre o e t e r n o retorno, que d e m o n s t r a o ciclo de

c o n s t r u ç ã o e d e s t r u i ç ã o do mundo.

Apresentando c a r a cteríst icas de c a r n a v a l i z a ç ã o um pouco

d i f e rentes, na me dida em que é mais um show m u s i c a l ® 7 , e Millôr


cont r i b u i a p enas com a parte fal ada do espet ácu lo, t emos a peça

"Bons Tempos, Hein?!", e s c rita e s p e c i a l m e n t e para o c o n j u n t o M P B 4 .

0 show e s t r e o u em São Paulo, no t e atro TAIB, no dia 19 de m arço de

1979 e a p e ç a p u b l i c a d a no mes mo ano. 0 r o t eiro mu sical conj u g a m ú ­

sica de a u t o r e s diversos, n a c i o n a i s e e s t r a n g e i r o s , com text os de

Millôr, numa " d o s a g e m sim ple s de h umor e drama, do c o m e n t á r i o leve

e quase i n c o n s e q ü e n t e à c r í t i c a n e c e s s a r i a m e n t e r a i v o s a d a q u i l o que

a nós tod os - p l a t é i a e palco - a m a r g u r o u e h u m i l h o u n e sses c o m p r i ­

dos 5 . 4 7 5 d i a s " 5 8 .

Aqui a c a r n a v a l i z a ç ã o se processa, primeiro, na i n t e g r a ­

ção dos d i s c u r s o s musical e verbal, e, segundo, na m e s c l a dos modo s

s a t í r i c o e " h u m o r ”. Ao c o n t r á r i o dos out ros textos do tea tro de c o ­

lagem, es te não a p r e s e n t a texto s de o u tros autores. Millôr trabalha

principalmente a t r a v é s de uma intra tex tua i i d a d e , a p r o v e i t a n d o t e x ­

tos, na m a i o r p a rte curtos, alg uns e p i g r a m á t i c o s , r e c o l h i d o s de sua

produção.

Mas a in tertextuai idade p r e s e n t e em "Bons Tempos, Hein ? "

não se c o n s t r ó i pelo a p r o v e i t a m e n t o de ou tros t e xtos literários,

mas sim pelo uso do regi s t r o de a c o n t e c i m e n t o s p o l í t i c o s e c o t i d i a ­

nos da vida nacional.

Q_ e s p e t á c u l o se o r g a n i z a em dois atos, s endo que o pri­

meiro gira em to rn o da déca da de sessenta, e o s e g u n d o em torno da

dé cad a de setenta. Os anos são p e r c o r r i d o s crono lo g i c a m e n t e , e o

texto tem uma n í t i d a mar ca de r e f e r e n c i a l i d a d e , à medi d a que a b or da

momentos i m p o r t a n t e s da p o l í t i c a nacional. U t i l i z a - s e de referên­

cias d o c u m e n t a i s que se int egra m ao texto, c ompo n d o um espetáculo

uno. A c ima de tudo, essa a g r e g a ç ã o de e le mentos (texto, música.


n a r r a d o r e es ti lização) o b j e t i v a uma sín t e s e des ses 15 anos da h i s ­

t ória do Brasil .Em c o n s e q u ê n c i a d e ssa forte referen cia l i d a d e , o

texto tende mais para o documen tal, agindo, s e g und o as p a l a v r a s de

Benjamim Santos, o D i r e t o r Geral do Espet ácu lo, "com o um espelho

r e t r o v i s o r da memória nac ional nos seus últi m o s quinz e a n o s " 5 9

A peça "Computa, Computador, Computa", p u b l i c a d a em 1972,

estreou a 3 de março do m e s m o ano, ten do o casal F e r n a n d a M o n t e n e -

gro e F e r n a n d o Torres nos p a p é i s de narradores, é d e f i n i d a pelo a u ­

tor, no prólogo, como "uma arle quin ada , uma fantochada, uma p a l h a ­

çada", c o n c l u i n d o com uma t i rada c a r n a v a l i z a n t e : "No m e z z a n i n o do

urdimento o fr an ca-tripa f u n a m b u l e s c o b u f o n e i a um impá vido e des­

b u n d a solerte"^®.

No vamente vemos um texto escr i t o por encomenda, ou com o

diz o autor: "escrito sob c o a ç ã o de F e r n a n d a M o n t e n e g r o " 6 1

Di ferent ement e dos o u tros de colagem, que se estruturam

em torn o de te mát icas históricas, este é um texto de n a r r a t i v a f i c ­

cional, efetuado por dois n a r r a d o r e s pe rsonagens. A p r e s e n t a - s e como

uma p a r ódia da t r a jet ória humana, já no final dos tempos, num clima

de ficçã o científica.

Esta c o l agem r e p e t e os p r o c e d i m e n t o s das p eças a n t e r i o r e s

como a detu r p a ç ã o de c l i c h ê s ("0 s i l ê n c i o é de prata, te mpo é di­

nheiro, mas nem tudo que r eluz é o u r o " ) ^ . Mas o que p r e d o m i n a é a

int rate xtu ai i d a d e . Para não nos a l o n g a r m o s citamos um fr agm ento e x ­

t r a í d o da peça "Pigmaleoa". "é, neste mundo não há felicidade. Por­

t a n t o a gente tem que ser feliz assim m e s m o " ^ . A int ert ext uai idade

se limita a um mosaico de c i t a ç õ e s e de t r a n s f o r m a ç õ e s de luga res

comuns, como vimos acima. Na mecl a de e lem entos dos três m odos pre-
pond era o s a t í r i c o no a t a q u e direto e a g r e s s i v o a p e s s o a s como Flá-

vio Ca valcanti e R o b e r t o Ma rinho e a i n s t i t u i ç õ e s como a rev ista

Ma nchete e a E d i t o r a Bloch ("a medi o c r i d a d e ma is c o l o r i d a do Bra­

sil").

As p e ças "é ..." (1977), ”0s ór fãos de Jânio" (1979) e

"Vidigal - M e m ó r i a s de Um Sargento de M i líc ias" (1981) não se in­

c l u e m no u n i v e r s o d e s s a pesquisa.

Colocações Finais

Para e v i t a r m o s ex cesso dis c u r s i v o e s o b r e c a r g a de exem­

plos vamos nos r e f e r i r à litera tura doc um enta l de Mill ôr de m a n eira

linear, e s b o ç a n d o o perfil estrutural d_os s e g u i n t e s livros: "Tr int a

Anos de Mim Mesm o" (1972) e "Millôr no Pasquim " (1977). Nos tex to s

que com põe m e stes 1 ivros dete c t a m o s os p r o c e d i m e n t o s da técnica de

r e c olha no a p r o v e i t a m e n t o de um texto em outro, e que se processa

ora pelo palimp sesto, ora na re-escritura, ou na si mples seleção.

Ambos os livros aqui c i t a d o s apre s e n t a m duas manei r a s diversas de

executar essa técnica. A primeira consist e na o r g a n i z a ç ã o em t orno

das a t ividades do e s c r i t o r em um lugar det er mina do, "Millôr no P a s ­

quim". Na se gunda maneira, a ativ ida de de r e c o l h a ob edece a um c o r ­

te temporal de sua produção.

Em "T rinta Anos de Mim Mesmo", além da rec olh a dos tex­

tos, aqui e ali a p a r e c e m textos novos, p r i n c i p a l m e n t e nas notas de


239

rodapé, em dois encartes, um d e d i c a d o ao "m inist éri o de perguntas

cretinas", e o outro às " p a l a v r a s que preci sam ser in vent adas"

(" D i c i o n o v á r i o " ). Mas o e l e m e n t o n o v o cons i s t e no pequ eno g l o s s á r i o

ao -Final do livro, em que o a u t o r e s c l a r e c e a gê nese de a l g u m a s de

s u a s s e ç õ e s hum o r í s t i c a s como " P o s t e - E s c r i t o " , da revista "A C i g a r ­

ra" , " T e a t r o Corisco", “C o n f ú c i o disse"; -Fornece pre cios as i n f o r m a ­

ções, po r exemplo, a res peito do se u p s e u d ô n i m o u s ado durante muit o

tempo, "Vão Gogo (Emmanuel)", h o m e n a g e a n d o Kant e Van G o g h . Val e

r e s s a l t a r que este volume de mais de d u z e n t a s páginas, que d o c u m e n ­

ta as v á r i a s seç ões h u m o r í s t i c a s de Millôr, não repete n e n h u m a d e ­

las, o que regis t r a a f e r t i l i d a d e do seu poder criativo. S a r c a s t i ­

cament e, o autor dedica o g l o s s á r i o aos pro f e s s o r e s e alunos de c o ­

muni c a ç ã o , que hoje estão mais i n t e r e s s a d o s nos pro ces sos de c r i a ­

t i v i d a d e do que na própria obra do escritor.

Em "Millôr no Pasq u i m " t e m - s e uma m isc e l â n e a de textos,

r epr esent at i vos de sua p r o d u ç ã o no n a q u e l e semanário. Talvez _o mais

i m p o r t a n t e a r essaltar seja o t a m a n h o dos textos, grande para o p a ­

d r ã o de t ext o humorístico, o que c o n f i r m a o carát er especial do h u ­

mor milloriano, que não se limita a p e n a s ao texto das c h a r g e s e a

outros te xtos curtos, é i n t e r e s s a n t e ainda obser var que a sua a t i ­

vidade no "Pasq uim " fez surgir um n o v o pseudônimo, " V o l k sMillôr

um h u m o r i s t a do povo, para o povo e p e l o - p o v o ”, que tem uma e x p l í ­

c ita c o n o t a ç ã o satírica, c o n t r a p o n d o - s e ao cômi co "Vão Gogo" que se

r e l a c i o n a aos rison hos tempos de "A Ci garra"

Essa lit era tura do cumental, que nos limitamos a p e n a s a

situar, insc r e v e - s e no leque a m p l o das p o s s i b i l i d a d e s c a r n a v a l i z a n -

tes do h u m o r i s m o milloriano.
240

Aqui c o n s i d e r a m o s o "humori smo" de M i l l ô r em sua dime n s ã o

ambígua, no seu c a r á t e r de "festa", na p o s s i b i l i d a d e de c o n v e r g ê n ­

cia, de s i m u l t a n e i d a d e dò cômico, do s a t í r i c o e do "humor", como um

retorno sobre si mesmo, no qual os mo dos do risível estão cada um

d e ntro dos outros.

A carnavalização, que funda o " h u m o r i s m o ” de Millôr F e r ­

nandes, t r a n s f o r m a - o na mais a m b ivalente m a n i f e s t a ç ã o do risível, à

m e dida que a b s o r v e e l e m e n t o s de certa forma an tagô nicos, como, por

exemplo, o ataq ue d i r e t o e a referencial idade do t e x t o sat írico com

a i n t r o s p e c ç ã o do "humor".

Assim, o c a r á t e r de fusão de e l e m e n t o s às vezes d i f e r e n ­

ci ado s imprime ao h u m o r i s m o uma dimen são complexa, pois instaura um

universo de " a t r a ç ã o e repulsa" que todo s a t í r i c o apre s e n t a em r e ­

lação ao ob jeto s a t irizad o, a a lado do r it mo a l e g r e do cômic o e da

r e f l e x ã o crítica do " h u m o r ”, conciliando, desta maneira, o cotidia­

no do cômico, o p e r s o n a l i z a d o do satí r i c o e o univ e r s a l do "humor".

Esse a l a r g a m e n t o de espa ço na a t u a l i d a d e perm i t e ao h u m o ­

rismo assumir um e s p a ç o p r i v i l e g i a d o no campo do risível, ao a b s o r ­

ver e l e m e n t o s d o c ô m i c o e do satírico.

Contudo, a p e s a r de o cômi co ter d i m i n u í d o um pouc o a sua

sedução, mesmo a s sim conti nua , através do seu riso al egre e c o m u n i ­

cativo, a d e n u n c i a r e c r i t i c a r o rid ículo do h o m e m e da s ociedade

por ele constru ída, nada e sca p a n d o às suas m a l h a s c á u s t i c a s e a sua

visão do mun do às avessas.

Ap esa r de g r a d a t i v a m e n t e abs o r v i d o pelo humor, o satírico

ai nda se impõe em M i l l ô r F ernandes pelo riso s a r c á s t i c o e demo l i d o r

consubstanciado no a t aque frontal, ao c i r c u n s c r e v e r - s e ao domínio


24 í

p o l í t i c o e aos d e t e n t o r e s do poder.

E ssa m u l t i p l i c i d a d e faz do " h u m o r i s m o " o e m b lema da f r a g ­

mentação dos g r a n d e s gêneros l i terários e, igualmente, das g r a n d e s

ideologias. D e s t a maneira, a mescla, o hibridis mo, p a rece ser a t ô ­

nica da mode r n i d a d e , tanto no campo l i t e r á r i o quanto no político.

Não está na dimens ão deste t r a b a l h o uma análise p o r m e n o ­

rizada de t o das as c o l o c a ç õ e s aqui feitas, pois o nos so ponto de

part i d a foi e s t a b e l e c e r em traço s larg o s as três máscaras do r i s í ­

vel em M i l l ô r Fernandes. Assim, nos l i m i t a m o s a tra çar o perfil de

cada um dos m o dos do risível, a r e f l e t i r so bre os te xtos à luz da

te oria s i t u a n d o - o s nas cate g o r i a s modais, e a ab rir um esp aço pa ra

a c o n v e r g ê n c i a das man i f e s t a ç õ e s do risível no h u m o r i s m o c a r n a v a l i -

zante de M i l l ô r Fernandes. Aqui e ali, as a n á l i s e s tend e r a m a m a t i ­

zar as cla s s i f i c a ç õ e s . Daí resu l t a m a l g u m a s cons eqü ênc ias . A pri­

meira, diz r e s p e i t o à c i r c u l a r i d a d e da p e s q u i s a que parti u da m e s ­

cla,- s e p a r o u os modos para d e pois f u n d i - l o s no "humorismo". Segun­

do, a não a d o ç ã o de uma linha t e ó r i c a já consagr ada , nos o b r i g o u a

ampliar a p a rte da teor ia para nela r e g i s t r a r m o s os es tudos ma is

s i g n i f i c a t i v o s na área do risível e do riso. Por último, ao d e l i m i ­

tarmos as três v e r t e n t e s do risível em Millôr, de cert a forma f r á ­

gil izamos a n ossa abordagem. E s q u e c e m o s - foi o n o s s o erro - a v e ­

lha máxi m a de e s t a b e l e c e r a me dida exata, pois em tudo d e v e-se o b ­

servar os lim ites do possível de a c o r d o com as n o s s a s circunstân­

cias e p o s sibil idades.

Agora, sem receio de errar novamente, afir m a m o s que du­

rante toda a jornada ficamos em d i á l o g o p e r m a n e n t e com a dú vi da e,

cremos, pron t o s para ac eitar as crít ica s, algumas já pr essentidas,


e outr a s que cert a m e n t e nos hão de auxi lia r na t a re fa de corrigir.

0 c o n f r o n t o com a cr í tica é s e m p r e fecundo, ela nos leva a uma a t i ­

tude de revisão, salutar a qualquer pesquisador. Mas no seu todo,

um t r a b a l h o devé ter a força n e c e s s á r i a para r e s p o n d e r por si só,

às o b j e ç õ e s que lhe fazem, sem justificaç ões , sem d e f e s a s ou q u a i s ­

quer ajus t e s à margem. Ele é o que pôde ser.


£43

N O T A S DIVE R S A S

*Cf . Quin tili ano . I n s t i t u i ç õ e s Oratórias, na t r a d u ç ã o de J erô n i m o

S o ares Barbosa, To mo i, São Paulo: E d i ções Cultura, 1944. p . 148.

2 a qui a pala v r a " int ertextuai idade" está s endo u s a d a com certa s i m ­

plificaç ão, fruto de uma nec e s s i d a d e didática, à medida que a n o s ­

sa vi são te óric a dos modos pr ovém de uma o r g a n i z a ç ã o feita a par—

tir de e l e m e n t o s o r i u n d o s de linhas teó ri c a s diversas.

^Como afir m a m o s no início do trabalho, a n ossa "teoria" parte da

noção de modo como uma esp écie de pré -gin ero , que se inspira nas

- c a t e g o r i a s n a r r a t i v a s - os "mythos" - de Frye, a d a p t a n d o as quatro

categorias em três (cômico, satí r i c o e o "humor"). Todas estão

fundadas na o p o s i ç ã o e na interaç ão de um m u n d o "ideal" com o m u n ­

do real, sendo, portanto, os três modos rei a c ionados ao m u ndo da

experiência, daí seu ca rát er de r e f e r e n c i a l idade no acen t u a d o c o n ­

teúdo social de ca da um deles. Cf. FRYE, Northrop . Ana tomia da

Critica. Trad. de P é r i c l e s Eugênio da S ilva Ramos. São Paulo: Cul-

t r i x , s/d .

«A e x p r e s s ã o " h u morismo" parece ser o termo a d e q u a d o ,p e 1o men os o

mai s usado, para reco b r i r a fusão das três v e r t e n t e s do risível em

Millôr Fe rnandes, m i s t u r a n d o e a l t e r n a n d o e l e m e n t o s do cômico, do

s a t í r i c o e do "h umor" 0 h umorismo pas sa a ser usad o nesta un idad e

pela sua p o s s i b i l i d a d e de coalescência, ou a inda pelo seu pode r de


m e scla e de fusão. Essa t e n d ê n c i a de fazer c onvergir gên ero s é uma

característica da m o d e r n i d a d e que A d o r n o as sinala no seu livro já

citado. Cf. Adorno, op.cit., p p .225 a 229.

^ S obre os p r o b l e m a s de juízos de valor, c o n f e r i r as idéias e a c i ­

tação da P r o f e s s o r a Leyla P e r r o n e - M o i s é s . "Es colher e/é julgar" in

C o l ó q u i o / C r í t i c a n9 25, Lisboa, j a n e i r o 1982.

^Contudo, a p o n t a m o s aindá al guns t e x t o s e e n t r e v i s t a s em que a p a r e ­

cem d ados b i o g r á f i c o s importantes. E n t r e v i s t a a José Maria C a n ç a d o

no Jornal "Leia", núme ro 115, de ma io de 1968; e n trevista a G e ne-

ton M o r a e s Neto, no s u p l e m e n t o "Idéias " do "Jornal do Brasil", de

07/09/87;' e n t r e v i s t a ao Jornal do Brasil, ed ição de 24/06/89; al­

gumas i n f o r m a ç õ e s em "Refle xõe s Sem Dor"; "Notas de um Ignorante",

em "Liç õ e s de um Ignorante"; "Como um Pref á c i o " em "Esta é a V e r ­

dadeira H i s t ó r i a do Paraíso"; N otas b i o g r á f i c a s na seâun da e d i ç ã o

de "Computa, Computa dor , Computa"; N otas b i o g r á f i c a s na primeira'

e d ição de ”0 H omem do P r i n c í p i o ao Fim"; e n t r e v i s t a ao s u p l e m e n t o

Folhetim, da F òlha de São Paulo, de 30/12/79; no tas b i o g r á f i c a s em

Literatura Co men ta da, o r g a n i z a d a por M aria Célia Rua de Alme i d a

P a u l i 11 o , p p .3-8.

?Na verdade, M i l lôr já p u b l i c a r a em 1984, os 10 anos de idade, um

desenho em "0 Jornal". Ganhou, pela pub lic açã o, 10 mil réis que,

se g undo o autor, foi "o p r e n ú n c i o de uma m e n t a l i d a d e profis sio nal

que continuaria a vida inteira". Cf FERNANDES, Millôr. T r inta

Anos de Mim M e s m o São Paulo: C í r c u l o do Livro, 1976 p . 231


S45

8cf. FERNANDES, Millôr. T r inta Anos de Mim Mesmo, p .161.

^D e v e m o s a e x p r e s s ã o ao P r o f e s s o r João A l e x a n d r e Barb o s a e, igual­

mente, à r e f l e x ã o s o bre o tema da fuga do a r t i s t a para uma exis­

t ê ncia privada. Cf. BARBOSA, João Alexandre. A T r a d i ç ã o do Impas­

se. São Paulo:ática, p . 117.

1®A l i t eratu ra docu m e n t a l i m brica-se com a testemunhal, procedimen­

to com um a p a r t i r da moder nida de, cuja tôni c a é o e n t r e l a ç a m e n t o

dos gêne r o s li terários, como es tamo s c o m p r o v a n d o em Mil lôr Fer­

nandes. Não cabe e s t a b e l e c e r os traços d i s t i n t i v o s de ambas como

gêne r o s literários, ap enas situa r o docum ent al nos textos de M i l ­

lôr. Isto ocorre, pri meiro, na c a p a c i d a d e de r e g i s t r a r sua a t i v i ­

dade j o r n a l í s t i c a no livro "Tr in ta Anos de Mim Mesmo". E, s e g u n ­

do, na d o c u m e n t a ç ã o c r o n o l ó g i c a dos a c o n t e c i m e n t o s p olíti cos r e ­

lacion ado s à N ova R e p ú b l i c a em "Diário da Nova República".

l^Cf. entrevista a Gene t o n M o r a e s Neto no s u p l e m e n t o " I d é i a s ” do


"Jornal do Bra sil " de 07/11/87.

i^cf. entrevista a G e n e t o n M o raes Neto no s u p l e m e n t o "Idéias" do

"Jornal do Brasil" de 07/11/87.

l^Cf. e n t r e v i s t a ao "Jornal do Brasil" de 24/06/89.

*4 Cf. ent r e v i s t a ao "Jornal do Brasil" de 24/06 / 8 9


£46

l^Cf. entrevista a Gen eto n Mora es Neto no s u p l e m e n t o "Idéias" do

"Jornal do Bras il" de 07/11/87.

*^Cf. T r inta anos de mim mesmo.

*7 Es tamos nos r e f e r i n d o ao conc e i t o de ca rnaval izaç ão expre sso por

Bakhtin no livro citado, A C u l t u r a P o p u l a r na Idade Média, ao

d e s c r e v e r e s i t uar h i s t o r i c a m e n t e a obra de F r a n c o i s Rabelais, na

qual Bakht in o b s e r v a a gran de festa p o p u l a r do carnaval.

18Esta r e f e r ê n c i a inscreve- se numa longa t r a d i ç ã o que vem da l i t e ­

ratura g rega até Mo ntaigne, e que dá t í tulo ao Livr o 1, Cap.L, de

seus Ensaios. Cf. MONTAIGNE, Michel. S e l e t a dos Ensaios. Trad._

J.M. de T o ledo M alta Rio de Janeiro: José Olympio, 1961, p p . 2 0 8

a 209.

l ^ F E R N A N D E S , Millôr. L i v r o Verm e l h o dos P e n s a m e n t o s de Millôr. Rio

de Janeiro: Editori al Nó rd i c a Ltda., s/d, p .42 .

2 0 a qui registramos os dois pólos, o_él an vital representado por

Eros e o impul so de d e s t r u i ç ã o r e p r e s e n t a d o por " T â n a t o s " . A mbos

convivem no h u m o r i s m o de Millôr, em especial nos textos da s e g u n ­

da fase do seu teatro.

SlßERMAN, Marshall. Tudo que é S ó lido D e s m a n c h a no Ar. Trad. Car—

los F e lipe M o isés e Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo: C o m p a n h i a


c!4'

das Letras, 1986, p . 155.

2 ? Cf. BENJAMIN, Walter. "A ob ra de arte na era de sua r e p r o d u t i b i -

li dade técnica" in Magia e Técnica, arte e política. O bras e s c o ­

lhidas, v o l .1. 'Trad. S é rgio P aulo Rouanet . 4. ed . São Paulo.

B r a s i liens e, p p .165 a 196.

23Remetemos o leitor às e x p l i c a ç õ e s dess e s dois termos t r i b u t á r i o s

de B a u d e l a i r e e l aboradas na nota 3 do c a p í t u l o sobre o cômico.

2 4 f e r n a n d ES, Millôr. Duas T á buas E Uma Paixão. P ort o Alegre-.

L & P M , 1982, p .11 .

Saldem, ibidem, p .111 .

2^ A e x p r e s s ã o “absurdo" está sendo u sada aqui para d e s i g n a r o text o

"Flávia, Cabeça, Tronco e~ Membros", cuja me scla de e l e m e n t o s e o

cruzamento de linhas t emáticas d i v e r s a s apro x i m a m este texto do

nonse nse , ao mesm o tempo que ele p a r o d i a o absu i r d o da c o n d i ç ã o

h u m a n a e o caos da sociedade.

f. BAKHTIN, Mikhail. A C u l t u r a P o p u l a r na Idade Média. Trad.

Yara Frat e s c h i Vieira. São Paulo. Hucitec, 1987.

28cf. FERN ANDE S, Millôr. 0 H o m e m do P r i n c í p i o ao Fim. Porto A l e ­

gre: L&PM Editores, 1982, p . 5.


£48

29 Idem, ibidem, p . 6

3®Cf. MEIRELES, Cecília. R o m a n c e i r o da Incon fid ênci a. Rio de J a ­

neiro: E d i tora L e t r a s e Artes, 1965, p . 73.

3*0 trec ho c i t a d o é o r e f r ã o do Hino da P r o c l a m a ç ã o da República,

de Leop o l d o M i g u e z e O s ó r i o Duque Estrada.

32C f Nota de roda p é do te xto "Liberdade, L i b e r d a d e ”, p . 126.

^FERNANDES, Millôr. A H i s t ó r i a é Uma H i s t ó r i a - e o hom em o únic o

animal que ri. P orto Alegre: L&PM Editores, 1978, p .20.

34jdem, ibidem, p .20.

35ldem, ibidem, p . 31.

3^Idem, ibidem, p .37

37jdem, ibidem, p . 51.

38ldem, ibidem, p .55.

39idem, ibidem, p .55

4®Idem, ibidem, p .60


Widern, ibidem, p .62 .

^Sjdem, ibidem, p.81.

43ldem, ibidem, p .83.

^Idem, ibidem, p .87 .

45'ldem, ibidem, p.91.

^Idern, ibidem, p .95.

^Idem, ibidem, p .104 e 105.

48id em. T r i n t a Anos de Mim Mesmo, p 235.

4 9 Idem. A H i s t ó r i a é Uma História, p .33

5 ® Idem, ibidem,_ p .75 .

31-ldem, ibidem, p .49 .

32idem. 0 H o m e m do P r i n c í p i o ao Fim, p 6

53idem, ibidem, p . 6.

Saldem, iobidem, p . 7.
£50

®®Idem, ibidem, p .26.

®^Expressão que; tamb é m se e n c o n t r a em "Lições de Um Ignorante", na

c r ô n i c a "Frases que -Ficam ou não", p .35.

expe r i ê n c i a de Mil l ô r em s hows musica is não se limi ta a p enas a

"Bons Tempos Hein?!". Ele escreve, em 1967, o t e x t o do Show da

Rhodia "Mulher, esse s u p e r - h o m e m " , e, em 1968, e s c r e v e para E l i ­

zabeth e Zimbro Trio.

®®FER NAN DES , Millôr. Bons T e m p o s Hein?! Porto Alegre. L&PM E d i t o ­

res L t d a ., 1979, P P .7 e 8.

®?Idem, ibidem, p . 22.

^®Idem. Computa, Computador, Computa. Rio de Janeiro: Edit oria l

Nárdica, 2 .ed . s/d, p p . 9 e 10.

^*Idem, ibidem, p . 11.

^Idem, ibidem, p . 16. _

^3jdem, ibidem, p .62


APÓS

AS ÚLTIMAS PALAVRAS
"Tudo o que -Faço e med ito
Rica sempre na met ade
Querendo quero o in-finito
fazendo, nada é verdade. "

FERNANDO RESSOA
Todo t r a b a l h o - que se quer in t eiro - deve começ ar pelo

co meço e c o n c l u i r com o fim. Mas se é difícil sab er começar, mais

difícil ainda é a c e r t e z a de se ter c o m p l e t a d o al guma coisa ao se

colocar o p on to final

V isto d e s t e outro lado, tudo ficou p e q u e n o e diferente.

Não é aq uilo que foi sonhado, nem mesmo o que foi aceito fazer. 0

trabalho tinha uma rota, cujo traça do as s u c e s s i v a s escalas a l t e r a ­

ram e ampliaram. A ssim as velas foram p a s s a n d o num sen tid o m u ito

além do desejado. Por que a r e alização é d i f e r e n t e do desejo? E por

qe é sempr e m e l h o r õ- que não cheg a m o s a faz er? Ta lvez porque foram

sempre ambiciosos os sonhos e pobre a pena. No final da jornada,

restou a mág oa de b u s c a r além dos limites, por d e s c o n h e c e r as l i m i ­

tações, o que é em sí uma razoável d o s e de ousadia, sem n e c e s s i d a d e

de lhe serem a c r e s c i d a s outras

C o n t u d o as ousadi as se mu lti pli caram.

Uma delas diz res pei to à c o n s t r u ç ã o do m o delo capaz de

instrumentalizar a leitura. Tarefa p e r i g o s a e difícil de explicar,

que nos jogou num e s p a ç o de amplos ho riz ont es. Buscamo s co ns t r u i r

um texto, p a r t i n d o da fr agm enta ção dos t e x t o s - 1 e i t ura nas u n i d a d e s

do riso e do risível. 0 que nos preo c u p o u d u r a n t e a jornada não foi

tanto o c o n h e c i m e n t o da matéria, da quilo que to mamos emprestado


aqui e ali para dar realce ao que i n t u í m o s na pr im eira leitura, mas

o dar form a e co esão às três m á s c a r a s do risível em Millôr F e r n a n ­

des. M o v e u - n o s não o gosto pela desc o b e r t a , ou a paix ão pelo o r i g i ­

nal, mas a t e n d ê n c i a didática de m a r c a r os limites, falar sobre e s ­

sa z ona de s o m b r a s e luzes que s e p a r a e, ao mesm o tempo, mistura

coisas já c l a s s i f i c a d a s na ant igüidade, como o cô mico e o s a t í r i c o

e que a m o d e r n i d a d e me s clou no humo ris mo.

Numa primeira revisão, d i r - s e - i a que a questão mais c o n ­

t r o v e r s a e c o m p l e x a entre aq uelas que i n t e g r a r a m - e ousam os dizer,

afligiram - a p e s q u i s a foi e x a t a m e n t e a perfil partic ula r de cada

um desses métodos. E a c o m p l e x i d a d e a u m e n t o u à medida que tais

qu es t õ e s se inter- rel acio nar am, t anto no nível teóri co quanto na

m esc l a c a r n a v a l i z a n t e do humo r i s m o be m b r a s i l e i r o de Millôr F e r n a n ­

des. A i n d a sob o aspecto te órico dos modos, segui mos a trad i ç ã o p e ­

la qual q u a l q u e r d i s c u s s ã o cr ítica s o bre um tema deve recuar e d e ­

s e n v o l v e r - s e a p a rtir do quadro h i s t ó r i c o em que se originou. A c o m ­

pa nhamos, em linhas gerais, a d i s c u s s ã o s o bre o riso e~ o risível,

fazendo r e c u a r as r eflexões sobre o c ô m i c o e o satírico, o p r i m e i r o

a Platão, p a s s a n d o pela coméd ia em A r i s t ót eles; e o seg und o a A r i s -

tófanes, p a s s a n d o pela sá tira em Horácio.

No t e r c e i r o modo o "humor", g r i f a d o no deco r r e r do t r a b a ­

lho em v i r t u d e da dime n s ã o "br asileira" do termo, mesmo c o n s i d e r a n ­

do a sua a u s ê n c i a na retó ric a clássica, m a n t i v e m o s a tradição, fa­

ze ndo r e c u a r as r eflexões aos quad ros teór i c o s p r é - r o m â n t i c o s . Na

p o n t u a ç ã o do riso tenta mos realiz ar não o res gat e do seu d e s e m p e n h o

his tóri co, c o n f o r m e o fez Bakhtin no seu horo sobre Rabelais, mas

op tamos pel a d i a c r o n i a de sua c o n c e i t u a ç ã o . Preocupo u-n os, mais o


papel e as -funções do riso na literatura. Todo esse alargamento

teórico expre s s a o d e s e j o m aior de servir ao c o t i d i a n o do profes­

sor .

A inc l i n a ç ã o t e ó r i c a foi sempre um e s f o r ç o pa ra c o m p r e e n ­

der o c o r p u s . E a p r e o c u p a ç ã o de s i g n i f i c a r um e outr o termo por

nós u t i l i z a d o na p e s q u i s a foi um rec urs o d i d á t i c o que se h a r m o n i z o u

com o das citações, v á l i d o s amb os pela força e x p l i c a t i v a e t e s t e m u ­

nhal. Como reza o d i t a d o popular-. "é bom ir a pé, quando se leva um

c a v a l o pela rédea".

Outra q u e stão perigo sa, que nos o b r i g o u a fazer um r e c o r ­

te, ainda que p ouco profu ndo , foi a função do risível na m o l d u r a de

seus p r i m e i r o s teóricos, é t i c a entre os gr egos e m o r a l i z a n t e entr e

os r o m a n o s '

Foi s emp r e um c a m i n h a r sobre um fio de uma navalha, até

p o r q u e a m o d e r n i d a d e tende a o b s c u r e c e r es sa função. E Mi llôr afir—

ma que "ja mais e s c r e v e u uma moral mora liz ante ". B u s c a m o s não nos

e n v o l v e r muito com a funçã o m o r a l i z a d o r a , mas ela s u b s i s t e i n s i d i o ­

sa ap esar de suas m ú l t i p l a s metamorf ose s. 0 d e sejo mode r n o de dis-

t rui r c o ntém ainda os g é r m e u s do modi f i c a r e até m e s m o e do c o r r i ­

gir.

— Desta forma, o largo espectro do risível nos c o n d u z i u a

abordar tóp ico s compl exo s, e nos levou a proceder, aqui e acolá, a

a l g u n s "mise au point" para c o m p l e m e n t a r a e s c r i t a textual.

Invo cam os autores e textos para a lei tur a do riso e do

risível em Millôr. Mas essa poli f o n i a não inte nto u ser um e s c u d o à

te ori a ou uma p rova test e m u n h a l de mestres. M o v e u - n o s a von tade de

r e f erir o e n c o n t r o e o d e s e n c o n t r o de idéias e pesq u i s a s


£56

Cumpre, porém, e sempre, lemb rar a c a t e g o r i a de adágio,

ou mesmo de prov érbio, ou ainda de l u g a r - c o m u m inseri da na a f i r m a ­

tiva de que todo t exto é t r i butário de outros, o que confir ma ser

cada texto um novo t e s t e m u n h o de sse l o n g í n q u o p e r c u r s o de int ertex-

tualidade. E, assim, num tr ibuto a essa tradição, re gis tramos,

aqui, os nos s os a g r a d e c i m e n t o s aos a u t o r e s e seus text os que e m b a -

saram o c a p í t u l o t e ó ri co do riso ê do risível e a j u d a r a m a cons­

truir a le itura em Millôr. E, ainda, a tod os a q u e l e s que, de forma

d i reta ou oblíqua, se in corporaram ao n o s s o discurso. Uma dúvida

nos angustia: Após anos de leitura a i nda que p o u c o sis tem atizada,

fa l tou-nos a p o n t u a ç ã o percentual de G u i m a r ã e s Rosa. Não s a b e r í a m o s

dizer agora, com real certeza, o que é a u t e n t i c a m e n t e nosso. Tudo é

incerto no e s p a ç o d essa memó ria ou como diz Pessoa. "Porque e n g a n a ­

do / Julguei sér meu o que era meu? / Que o utro mo deu? /.

A admiração que sentimos por um a r t i s t a nem sempre nos

leva ao ^desejo de conhecê-lo. Essa a t i t u d e de r e cusa depende da

idea l i z a ç ã o e da c a u t e l a de cada um de nós. Há o receio, natural,

de junta r a d m i r a ç ã o e convívio. Cremos, en tre tanto, que Millôr p e r ­

tence ao grupo d a q u e l e s que é po ssível a d m i r a r e freqüentar. As

t e n t a t i v a s efe tu adas , uma dire ta e v á r i a s indiretas, não p o s s i b i l i ­

ta ram o encontro. _

Como é a p a l avra o respeit ado, nos s a b e m o s da recolha d e ­

las, d i s p e n s a s nos te xtos d o c u m e n t a i s de Millôr, s o b r e t u d o tr in t a

anos de mim mesmo, Mill ôr no P a s quim e os a b u n d a n t e s para t e x t o s de

seus livros.

A finalizar, só mais duas o b s e r vações. 0 que primeiro foi

uma idéia vaga, uma intuição e, um sonho, um d e s e j o e, mais tarde,


857

uma paixao: jamais foi uma a t i v i d a d e de prazer ou de fruição. Foi,

sem dúvida, uma árdua tarefa c u jos r e sultados são a m b ivalentes.

Poi s se p e s q u i s a r é, sobretudo, " d e s c o b r i r ”, ao c o n c l u í - l a d e v e m o s

fazê-lo, m o s t r a n d o ao lado dos p o s s í v e i s sucessos os p r o v á v e i s r e ­

veses, pois os erros e os s o f r i m e n t o s são sempre útei s para e v i t a r

incorrer neles novamente, ainda que, com toda a pro babilidade, ire­

mos incorrer em outros. Daí a c o n s t a n t e ind aga ção crít i c a que s e m ­

pre a c o m p a n h o u o trabalho. Segundo, há ainda que se insistir: o que

agor a está feito, ou seja, a o r g a n i z a ç ã o teórica, a seleção dos

textos, a le itura dos mesmos, diz r e s p e i t o à p o s s i b i 1 idade da d i v i ­

são t r i p a r t i d a da obra p u b l i c a d a em livros de M i llôr Fernandes, é a

leit ura que se fez esc r i t u r a ao p a s s a r pará o r g a n i z a ç ã o teórica.

Du rante todo o cam inho p r o c u r a m o s não nos e m b a r a ç a r d e m a ­

s iado com as pos s í v e i s a cusaçõe s de contra di ções , ou com q u a i s q u e r

formas de temor penal. Estamos aqui pa ra assum ir os erros e as "er-

râncias" de bus car um p e r c u r s o m a i s fora do comum. Assim, por n ã o

querer "r epetir" la nçamo-nos em t r a i ç o e i r a s águas da e s c r i t u r a sem

um s e g u r o resp a l d o teór ico do já consa gra do. Não foi, seguramente,

um t exto de d i s s e r t a ç ã o tradi cion al, impreg nad o de convi cçõ es; mas

é um t e x t o que cont é m mais dúvi d a s do que e x p l i c a ç õ e s e, sem d ú v i ­

da, mais e rros do que acertos. _

A o _ reler tr echo a trecho tudo quanto foi escrito, assal­

ta- nos a d ú v i d a se va leu a pena o t r a b a l h o e a d e s o l a ç ã o de c o n s t a ­

tar a d i s t â n c i a entre o que p e n s a m o s fazer e a sua cópi a i m p e r f e i ­

ta.

P a r a f r a s e a n d o Fern a n d o Pessoa, ousam os af irmar que o " s o ­

nho é grande" e a “obra imperfeita". As sim do que aqui foi feito é


nossa a t a r e f a "ousada", a "por-fazer" fica, no d izer de Brecht,

"para quem a t o r n a r melhor".


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