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Aletheia

ISSN: 1413-0394
mscarlotto@ulbra.br
Universidade Luterana do Brasil
Brasil

Fisch Boizonave, Luciane; Martins de Barros, Tânia


Ansiedade e depressão: reações psicológicas em pacientes hospitalizados
Aletheia, núm. 17-18, enero-diciembre, 2003, pp. 135-143
Universidade Luterana do Brasil
Canoas, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=115013455013

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Luciane Fisch Boizonave
Tânia Martins de Barros

Ansiedade e depressão:
reações psicológicas
em pacientes hospitalizados
Anxiety and Depression: Psychological Reactions
In General Hospital Patients

RESUMO
Trata-se de um estudo das reações psicológicas de ansiedade e depressão em pacientes hospita-
lizados em Hospital Geral. Esta pesquisa visou comparar a prevalência destas sintomatologias em
dois grupos de pacientes. O primeiro grupo com vivência de Unidade de Terapia Intensiva (UTI)
e o segundo sem vivência de UTI. Para tanto, fez-se uso da Escala IDATE (Spielberger e cols,
1970) na versão brasileira de Biaggio (1979) e, de uma entrevista estruturada especialmente para
esta pesquisa segundo os critérios de Episódio Depressivo Maior (DSM IV,1994). O tratamento
estatístico verificou não haver diferenças significativas entre os dois grupos.
Palavras-chave: Hospital Geral, Unidade de Tratamento Intensivo, Ansiedade.

ABSTRACT
It is a study on the rising of psychological reactions of anxiety and depression in hospitalized
patients in General Hospital. This research sought to compare the prevalence of these symptoms
among two groups of patient. The first group with experience of Intensive Therapy Unit and
the second without it. For that, subjects answered the IDATE Scale (Spielberger and cols,
1970) in the Brazilian version of Biaggio (1979) and an interview especially structured for
this research according to the criteria for Episode Depressive (DSM-IV TR,1996). The statistical

____
Luciane Fisch Boizonave é psicóloga, formada pela Universidade Luterana do Brasil./Canoas RS.
Tânia Martins de Barros é professora, orientadora deste trabalho, mestre em Psicologia Clínica. Doutoran-
da em Psicologia/PUCRS.
____
Endereço para correspondência: taniamdb@terra.com.br
treatment verified there were not significant differences among the two groups.
Key words: General Hospital, Intensive Treatment Unit, Anxiety.

INTRODUÇÃO traçar comparações entre reações psicoló-


gicas de ansiedade e depressão no que diz
Ao ser hospitalizada, a pessoa encon- respeito aos dois grupos de pacientes hos-
tra um ambiente impessoal, ameaçador e pitalizados em unidade de enfermaria ge-
na maioria das vezes, invasivo, tendo seu ral, que se diferenciam pela vivência ante-
ritmo de vida interrompido sob um clima rior em UTI, mas que igualmente experi-
de medos e expectativas. Decorrente dessa mentam um momento de crise: a interna-
experiência ameaçadora, acaba por apresen- ção e o adoecimento. Assim verificar rele-
tar reações emocionais adversas e, frente a vâncias entre as duas unidades hospitala-
um manejo muitas vezes inadequado des- res e os sentimentos dos que lá se encon-
ses sintomas, pode evoluir para a não ade- tram, na tentativa de contribuir para a cons-
são ao tratamento médico indicado. Cres- trução de um tratamento mais humaniza-
cendo assim, cada vez mais, a necessidade do e integrado, no que diz respeito a pes-
de que os profissionais de saúde atentem soa do paciente e sua família.
para a compreensão dos processos sociais e Para o estudo, foi utilizado o método
psicológicos do seu paciente, reconhecen- quantitativo, tendo como instrumentos, a
do os fatores psíquicos que interferem nos Escala IDATE, criada por Spielberger e cols
quadros clínicos. (1970), já conhecida e validada para nossa
Dentre as reações psicológicas obser- realidade por Biaggio (1979) e, no levanta-
vadas durante a hospitalização, duas mais mento das reações de depressão, utilizou-se
se destacam, a ansiedade e a depressão, sin- como norteador uma entrevista semidirigida
tomatologias detectadas com freqüência desenvolvida especialmente para esta pesqui-
pela pesquisadora durante prática clínica sa, segundo os Critérios Diagnósticos de Epi-
em um Hospital Geral, evidenciada tam- sódio Depressivo Maior (DSM IV, 1994).
bém pelo crescente número de encaminha- Os resultados desta pesquisa, apontam
mentos médicos. para a inexistência de diferenças estatísti-
Esta realidade incitou ao questiona- cas significativas entre os grupos estuda-
mento frente aos motivos destas constata- dos, sendo a média descritiva maior para o
ções, assim buscou-se verificar quais são as grupo de pacientes sem vivência de UTI.
variáveis que interferem no curso das rea-
ções emocionais durante o processo de hos-
pitalização da pessoa e, se há diferenças no MATERIAL E MÉTODO
despertar destas, durante a internação em
unidades hospitalares distintas. Amostra
A partir disto, esta pesquisa toma como A amostra, de tipo intencional, foi de
foco, pacientes com recente vivência em quarenta pacientes hospitalizados em Hos-
UTI, fato esse, decorrente da constatação pital Geral particular, localizado na cidade
de um número crescente de internações de Porto Alegre/RS, que se encontravam
nesta unidade, o que na maioria dos casos, num período máximo de vinte e quatro
geram desordens de origem emocional, por horas internados em Enfermaria Geral, sub-
se tratar de um ambiente estigmatizado, divididos em dois grupos. O G1, foi com-
que carrega consigo uma bagagem de su- posto por vinte pacientes com recente vi-
pertições e fantasias, por todo o referencial vência em uma UTI e vinte pacientes (G2),
que concerne à morte. hospitalizados, sem vivência de UTI. As
Então, buscou-se através deste estudo, idades foram superiores a 18 anos, inde-
pendente de raça, sexo e diagnóstico mé- de forma individual, junto ao leito do pa-
dico, sem outros comprometimentos, que ciente, pela própria pesquisadora. Os
impedisse a participação na pesquisa, des- cuidados éticos apropriados ao tipo de po-
de a assinatura do Termo de Consentimen- pulação foram obedecidos, conforme a re-
to, até a responsividade dos instrumentos. solução 196 do Conselho Nacional de Saú-
de (CNS), no que diz respeito à pesquisa
Instrumentos com Seres Humanos (Hutz & Spink,1996).
As reações de ansiedade foram levan-
tadas através da aplicação da escala IDATE Análise dos dados
de Spielberger e cols (1970) conforme as O IDATE apresentou índice de con-
normas estabelecidas. O instrumento indi- sistência interna, alpha de Cronbach, satis-
ca tanto o estado momentâneo de apreen- fatórios (Ansiedade-Estado: 0,92 e Ansie-
são, ansiedade-estado (A-E), como a ten- dade-Traço: 0,84). O tratamento estatístico
dência individual de cada pessoa ao reagir (Mann-Whitney; Spearman & Kruskal-
a tensões, ansiedade-traço (A-T). Cada sub- Wallis) verificou as diferenças entre as rea-
escala apresenta vinte frases que devem ser ções de ansiedade e depressão nos dois gru-
classificadas por intensidade através de pos estudados, sendo também considera-
uma escala Likert de quatro pontos. da a relação com as seguintes variáveis bi-
A avaliação das reações de depressão foi opsicossociais: idade (18 a 80 anos), sexo,
desenvolvida especialmente para o presente número de internações anteriores (0 ou
estudo, segundo os Critérios Diagnósticos mais) e, o motivo da hospitalização (pato-
de Episódio Depressivo Maior (DSM IV, logia orgânica, acidente ou traumatismo,
1994). O questionário, composto de de nove sintomas físicos sem diagnóstico médico e
questões, interrogou sobre a presença e in- paciente cirúrgico).
tensidade de sintomas de depressão: humor
deprimido; interesse ou prazer diminuídos;
distúrbio do apetite/alimentação; insônia ou RESULTADOS
hipersonia; agitação ou lentificação psico-
motora; fadiga ou perda de energia; senti- Tabela 1 – Distribuição da amostra por grupo e por sexo

mento de desvalia ou culpa; diminuição da Grupo


capacidade de pensar e concentrar-se; pen- Sexo Pós – UTI Sem vivência de UTI Total
samento recorrente de morte (DSM IV,c= Feminino 13 13 26
1994). Foi utilizada também uma ficha de 65,0% 65,0% 65,0%
identificação de dados biopsicossociais para
Masculino 7 7 14
o cadastramento de variáveis que caracteri-
35,0% 35,0% 35,0%
zavam o grupo estudado.
Total 20 20 40

100,0% 100,0% 100,0%

PROCEDIMENTOS

Coleta de dados Observa-se que na maior média encon-


A aplicação dos instrumentos ocorreu tram-se mulheres, em ambos os grupos.
Tabela 2- Distribuição da amostra por grupo e por motivo de hospitalização
Grupo
Motivo Pós – UTI Sem vivência de UTI Total
Patologia orgânica c/ diagnóstico médico 12 12 24
66,7% 60,0% 63,2%
Acidente ou traumatismo 3 1 4
16,7% 5,0% 10,5%
Sintomas físicos sem diagnóstico médico. 3 4 7
16,7% 20,0% 18,4%
Paciente cirúrgico 3 3
15,0% 7,9%
Total 18 20 38
100,0% 100,0% 100,0%

Observa-se que, referente ao motivo de pacientes com patologia orgânica já diag-


hospitalização, a maior porcentagem é de nosticada.
Tabela 3 – Teste de Mann-Whitney para comparação por Faixa etária

Escala Faixa etária n M Dp Z p


Escore de Depressão Até 47 anos 22 2,91 2,18 2,68 0,007
48 anos ou mais 18 4,72 1,84
Ansiedade-Estado Até 47 anos 22 41,73 10,83 1,03 0,312
48 anos ou mais 18 46,06 11,49
Ansiedade-Traço Até 47 anos 22 39,41 9,52 2,57 0,009
48 anos ou mais 18 47,72 9,58

No grupo com 48 anos ou mais os es- média também é mais elevada nesse gru-
cores de Depressão e Ansiedade-Traço fo- po, entretanto a diferença não foi significa-
ram mais elevados. Na Ansiedade-Estado a tiva.
Tabela 4 – Teste de Mann-Whitney para comparação por sexo

Escala Sexo n Média Desvio-padrão Z Valor de p


Escore de Depressão Feminino 26 3,69 2,22 0,13 0,900
Masculino 14 3,79 2,26
Ansiedade-Estado Feminino 26 43,15 10,18 0,37 0,726
Masculino 14 44,64 13,25
Ansiedade-Traço Feminino 26 43,00 11,44 0,13 0,900
Masculino 14 43,43 8,20

As médias apresentam-se maiores para o sexo masculino.


Tabela 5 - Teste de Mann-Whitney para comparação por número de internações

Escala 1ª Internação n Média Desvio-padrão Z Valor de p


Escore de Depressão Sim 21 3,76 2,41 0,03 0,979
Não 19 3,68 2,03
Ansiedade-Estado Sim 21 45,33 12,89 0,90 0,376
Não 19 41,84 8,98

Ansiedade-Traço Sim 21 41,67 11,99 1,15 0,258

Não 19 44,79 8,08

Não há significância estatística.


Como o teste de Mann-Whitney só interpretação segue a mesma linha: valores
permite a comparação entre dois grupos, de p inferiores a 0,05, indicam diferenças
foi utilizado outro método para compara- significativas.
ção entre os motivos de hospitalização. A
Tabela 6 - Teste de Kruskal-Wallis para comparação por Motivo de Internação

Motivo n M Dp p
Escore de Depressão Patologia orgânica com diagnóstico médico 24 3,96 2,24 0,468
Acidente ou traumatismo 4 2,25 1,89
Sintomas físicos sem diagnóstico médico 7 4,00 2,58
Paciente cirúrgico 3 4,33 1,53
Ansiedade-Estado Patologia orgânica com diagnóstico médico 24 46,67 10,73 0,250
Acidente ou traumatismo 4 38,00 1,83
Sintomas físicos sem diagnóstico médico 7 39,86 14,19
Paciente cirúrgico 3 45,67 3,21
Ansiedade-Traço Patologia orgânica com diagnóstico médico 24 45,83 11,00 0,222
Acidente ou traumatismo 4 39,00 10,23
Sintomas físicos sem diagnóstico médico 7 38,14 5,98
Paciente cirúrgico 3 42,33 13,50

Na descrição do instrumento, a mé- edade-Estado e Ansiedade-Traço é maior


dia para escores de depressão relacionada para o grupo de pacientes com diagnósti-
ao motivo de hospitalização, é maior para co de patologia orgânica.
os pacientes cirúrgicos, a media para Ansi-
Tabela 7 - Teste de Mann-Whitney para comparação entre grupos

Grupo n M Dp Z p
Escore de Depressão Pós - UTI 20 3,45 2,11 0,72 0,478
Sem vivência de UTI 20 4,00 2,32
Ansiedade-Estado Pós - UTI 20 42,25 12,06 1,06 0,301
Sem vivência de UTI 20 45,10 10,38
Ansiedade-Traço Pós - UTI 20 41,30 9,64 1,06 0,301
Sem vivência de UTI 20 45,00 10,88

Os resultados de depressão e ansieda- pacientes sem vivência de UTI, foi ainda


de foram comparados por grupo, com base mais alta: 0,624 (p £ 0,01). O valor máximo
no teste de Mann-Whitney. Como todos os do coeficiente de correlação de Spearman é
valores de p foram superiores a 0,05 (nível +1, sendo que valores próximos desse li-
de significância adotado), podemos dizer mite, indicam forte associação direta.
que os grupos não diferem significativa-
mente. Observa-se que as médias descriti-
vas para a Depressão assim como para a DISCUSSÃO
Ansiedade-Traço e Ansiedade-Estado apre-
sentam-se maiores para o grupo de pacien- O estudo aqui apresentado foi realiza-
tes sem vivência de UTI. A correlação de do a partir de uma amostra de 40 pacien-
Spearman entre Ansiedade-Estado e De- tes que se encontravam até 24hs hospitali-
pressão foi bastante alta nos dois grupos. zados em Enfermaria Geral, divididos em
No grupo do Pós-UTI a correlação foi de dois grupos, sendo G1 (50%) composto de
0,573 (p £ 0,01), enquanto no grupo de pacientes com recente vivência de UTI e
G2 (50%), sem essa vivência. Quanto à fai- tes que se internou pela primeira vez (Ta-
xa etária, 55% do total está entre 18 e 47 bela 6), tanto na correlação com a Depres-
anos e 45% entre 48 e 80 anos. Correlacio- são como com a Ansiedade-Estado. Isto
nando este dado com as reações de ansie- decorre do fato de o ambiente hospitalar
dade e depressão, é possível encontrar uma se apresentar deveras assustador num pri-
média descritiva maior no grupo de paci- meiro contato, levando em conta que esta
entes com 48 anos ou mais (Tabela 4). pesquisa se deu num período limite de
Novaes, Romano e Lage (1996) no ar- 24hs de hospitalização. Este é um dado
tigo intitulado “Internação em UTI: vari- significativo, visto que pesquisa na área
áveis que interferem na resposta emocio- (Novaes, Romano & Lage, 1996) consi-
nal”, onde utilizam a escala IDATE como dera que a internação hospitalar subme-
instrumento, apresentam resultados seme- te o paciente a grandes pressões psicoló-
lhantes, apontando escores mais elevados gicas nos primeiros dias, e que sua capa-
em pacientes idosos, relacionando este cidade adaptativa é observada no decor-
dado ao fato de que pacientes com idade rer de internações mais prolongadas. As
mais avançada, se encontram mais próxi- idéias de Campos (1995) contribuem con-
mos da morte, sendo o adoecimento e a siderando que quanto mais familiarizado
hospitalização adversidades colaboradoras com o ambiente hospitalar e com as pes-
no despertar das reações de ansiedade e soas que fazem parte da equipe de cuida-
depressão, entendidas como uma ameaça dos, maior será a adaptação do paciente
à integridade física e um desprendimento e menor serão as intercorrências emocio-
de laços com a vida. nais que sofrem.
No que se refere ao sexo, o presente A presente pesquisa demonstra que
estudo mostra um percentual maior de não há nos grupos estudados, relação en-
pacientes do sexo feminino (65%) (Tabe- tre motivo de internação, ansiedade e de-
la 1), em contra partida, a média descri- pressão. No escore de depressão, a média
tiva desta variável, associada às reações de descritiva foi maior para pacientes inter-
ansiedade e depressão, apresenta-se mai- nados por cirurgia (Tabela 7) representa-
or para o sexo masculino (Tabela 5), tan- dos por 79% do total de pacientes (Tabela
to no escore de depressão como de ansie- 2). Uma intervenção cirúrgica é um pro-
dade, mesmo não diferindo significante- cedimento bastante invasivo, direto no cor-
mente. Este resultado é contrário ao que po do indivíduo, sendo esta intervenção
sugere a literatura (Rosa,1998; Machado geradora de muitas fantasias, medos e dú-
& cols,1988), onde se constata uma mai- vidas. Assim, é natural que o paciente possa
or incidência de sintomas ansiosos e de- vir a manifestar reações psicológicas ne-
pressivos em mulheres. Isso nos leva a gativas, como ansiedade e depressão (Bra-
considerar, que os participantes do sexo sil, 2002).
masculino tendem a enfrentar o momen- A ansiedade pode ser a representa-
to de hospitalização de forma diferencia- ção permeada pela dúvida, há um senti-
da das participantes femininas, onde, sen- mento de ameaça e perigo em toda inter-
timentos onipotentes apresentam-se aba- venção cirúrgica. Sintomas depressivos
lados, devido a imposições do ambiente como insônia, perda ou aumento de ape-
hospitalar, como dependência e falta de tite, dificuldades de concentração, senti-
privacidade. mentos de tristeza e desesperança podem
Na relação entre reações de ansieda- coexistir, resultado este, de múltiplos es-
de, depressão e números de internações, tressores biológicos e psicológicos que
não se verificou significância estatística. estão sendo vivenciados: o encontro com
A média descritiva no que concerne a esta uma situação de extrema dependência,
variável, é maior para o grupo de pacien- dores, perda de controle sobre a própria
vida além da vivência do sofrimento problema que neste estudo foi apresenta-
alheio (Sinisgalli, 1997). do, no que se refere à incidência de rea-
A média para Ansiedade-Estado e An- ções de ansiedade e depressão entre paci-
siedade-Traço, é maior para o grupo hospi- entes hospitalizados, considerando a vi-
talizado por patologia orgânica já diagnos- vência ou não em UTI, entendemos, a
ticada (Tabela 7), que representa um per- partir do presente estudo não haver dife-
centual de 63,2% do total de pacientes ana- renças estatísticas significativas entre os
lisados (Tabela 2). No estudo de Brasil dois grupos estudados. A média descriti-
(2002), esse entendimento é relatado no va em relação a ansiedade e a depressão
que diz respeito à pacientes com diagnósti- foi maior para os pacientes internados em
co clínico já definidos, que no geral, estão enfermaria geral sem vivência de UTI (Ta-
hospitalizados para a realização de trata- bela 8).
mentos específicos para o controle da do- A UTI é vista como um ambiente as-
ença, e apresentam repercussões psicológi- sustador e incitador de medos e fantasias.
cas associadas ao próprio tratamento. A É uma unidade estigmatizada pela socie-
ansiedade para Geada (1996) também pode dade por lidar com o que ninguém quer
ser oriunda da falta de esclarecimentos so- enfrentar, a morte. A internação nesta uni-
bre a própria doença, impossibilitando que dade é, sem dúvida, uma experiência difí-
o paciente se aproprie da enfermidade e a cil, considerando que seus pacientes são
enfrente. afetados potencialmente em suas necessi-
O entendimento da doença não su- dades básicas.A alta desta unidade, mui-
prime a dor, nem física nem emocional, tas vezes é o óbito, e isto é um dado real.
mas faz com que o doente seja mais ativo Desta forma, o resultado nesta pesquisa
e se comprometa com o tratamento. Ou- aponta que, para os pacientes estudados
tro dado significativo quanto a este aspec- internados no Hospital, pós-UTI, a saída
to é o fato de que pacientes que estão hos- desta Unidade para um leito de Enferma-
pitalizados para o tratamento de uma de- ria Geral, é tida como salvação a todas es-
terminada patologia estão mais suscetí- tas particularidades (Boemer & cols, 1998;
veis ao processo de despersonalização, Novaes & Karam, 1998).
pois, enquanto hospitalizado, o que ten- Entende-se com esta constatação,
de a ser observado no paciente é a doen- que para o paciente que sai da UTI, o
ça ou o sintoma que desencadeou sua vin- estar vivo e distante daquela Unidade é
da ao hospital, pois isto é o foco de estu- sentido como imunidade, representando
do das instituições hospitalares, é um ini- um aspecto positivo, uma sobrevida, blo-
migo que deve ser estudado, localizado e queando o sentido negativo de estar do-
combatido. Para isso, são utilizados me- ente e permanecer hospitalizado. Esta
dicamentos, tecnologia específica, exa- manifestação psicológica, observada nos
mes, consultorias, avaliações em diversas pacientes é compreensível, visto que a per-
áreas médicas. Assim, a pessoa passa a sig- manência do paciente no ambiente de
nificar um diagnóstico. Decorrente dis- UTI gera intenso medo da morte, e este
to, os cuidados atentam apenas para o ór- gerar está associado a um dado concreto,
gão prejudicado, esquecendo o significa- uma convivência real, não descartando os
do do adoecer para o paciente. Este ma- quadros clínicos frágeis e, por outro lado
nejo acaba fazendo uma divisão corpo e imaginário por ser a UTI um ambiente
mente, esquecendo a história de vida do carregado de crenças negativas, uma idéia
sujeito, sua singularidade e sua maneira generalizada de sofrimento e morte emi-
de viver as experiências (Santos & Sebas- nente, contribuindo para a idéia de que
tiani, 1996; Fernandes, 2002). não há mais espaço para a vida (Oliveira,
Finalmente, em relação à definição do 2002).
Mesmo não se encontrando signifi- ser o indivíduo enfermo único, tanto na
cância estatística, infere-se que a diferen- sua constituição física como psíquica (Pe-
ça entre as médias do grupo de pacientes reira, 1995).
com recente vivência em UTI e as do gru- O estudo sugere que as reações psico-
po de pacientes sem vivência de UTI, lógicas de ansiedade e depressão em paci-
pode ser entendida pela razão de os pa- entes hospitalizados, variam de acordo com
cientes que correspondem ao G2, que re- a estrutura de cada personalidade e como
cém estão chegando ao Hospital (24hs), cada indivíduo se apropria de sua doença.
ainda se encontram bastante assustados, Assim, infere-se que a capacidade de ela-
amedrontados com a situação. Levando borar o adoecer depende do nível de ajus-
tal fato em consideração, voltamos nosso tamento emocional, do momento atual de
enfoque para o que relatou Jeammet e vida, de vivências anteriores, da presença
cols (2000), que consideram a situação de de parentes e amigos que apóiem emocio-
doença e hospitalização, um encontro nalmente e do motivo de hospitalização em
com as próprias limitações, evidencian- si – se os sintomas são incapacitantes, se há
do a fraqueza do sujeito, que é sentida dor ou desconforto, o tratamento requeri-
como um ataque corporal, ataque à inte- do e o prognóstico.
gridade e um impedimento ao exercício Entende-se através desta constatação,
normal de sua vida. que as intervenções psicológicas realizadas
Romano (1999), ao se referir às unida- em contextos médicos é de suma impor-
des de enfermaria geral, diz que elas são tância na melhora da saúde global do pa-
consideradas como a essência do atendi- ciente. Essa intervenção, entre outras, bus-
mento hospitalar, mas na sua grande maio- ca através da escuta e olhar acurado, pos-
ria, são ambientes desumanizados e pouco sibilidades maiores de enfrentamento e
individualizados, onde os pacientes ocu- adaptação por parte do indivíduo (Olivei-
pam involuntariamente seus papéis, tendo ra, 2002).
que compartilhar intimidades e emoções Assim, há de considerar o paciente
com pessoas que nem ao menos conhece, dentro de um modelo integrador, um mo-
além de estarem afastados de tarefas soci- delo biopsicossocial, que atente igualmen-
ais e pessoas significativas. te para aspectos físicos, psíquicos e soci-
Quando correlacionada Ansiedade- ais, o que não é tarefa fácil, embora a atu-
Estado e Depressão (Figura 1), os resulta- alidade nos remeta a conceitos revolucio-
dos apontam para uma forte associação di- nários na esfera médica, como humaniza-
reta indicando que os pacientes que apre- ção na relação profissional–paciente. O cer-
sentaram uma incidência maior de ansie- to é que a área das relações humanas fica a
dade, também foram aqueles que apresen- margem em situações de urgência, e a mu-
taram maiores reações psicológicas de de- dança demanda atitudes individuais con-
pressão. tra todo um sistema técnico dominante
Todas estas evidências aqui discuti- (Pereira, 1995).
das, inclusive a ausência de diferença es- As unidades hospitalares, sem dúvida,
tatística entre os dois grupos estudados, incitam o sujeito ao despertar de reações
nos fazem considerar que cada pessoa irá negativas, como ansiedade e depressão e
reagir de modo particular ao momento de isso é evidência e continuará a ser, se a bar-
adoecimento e hospitalização, valendo-se reira desumanizada assim as perpetuar e
mais da subjetividade do que de sentimen- se os indivíduos em suas condições de en-
tos padronizados. Tal fato, nos faz concluir frentamento as permitir.
CONCLUSÃO Cassorla (coord). Da Morte: Estudos Brasi-
leiros. (2 ed). São Paulo: Editora Papirus.
No presente estudo, no que se refere Brasil, M.A.A. (2002). Depressão em clíni-
ao problema de pesquisa, não houve dife- ca médica. Residência Médica 1 (2). Em:
rença estatística significativa, que também Campos,T.C.P. (1995). Psicologia Hospitalar:
não apontou significância entre as variáveis A atuação do psicólogo em hospitais. São Pau-
biopsicossociais e suas correlações. Conclui- lo: EPU.
se que os sujeitos internados, avaliados para Fernandes, A. (2002). Dor crônica: Convivên-
esta pesquisa,diferem quanto às manifesta- cia possível. Viver Psicologia, 4 (111), 36-37.
ções psicológicas, que são ativadas no pro- Geada , M. (1996). Mecanismos de defesa
cesso de hospitalização, valendo-se do modo e de coping e níveis de saúde em adultos.
particular de cada um ao reagir frente às Análise Psicológica, 2-3 (XIV):191-201.
situações estressoras. Hutz,C.S.& Spink,M.J.(1996). Orientações
Entende-se, em vista disto, que cada éticas para psicólogos envolvidos em pesqui-
sujeito deve ser considerado como único e sas com seres humanos. Disponível em: http:/
independente, constituído pela soma das /www.psicologia.urgrs.etica_2.htm. 09/03/2002.
partes e não pela divisão delas. Na hospi- Jeammet, P., Reynaud,M. & Consoli,
talização o que tende a ser focalizado é o S.(2000). Psicologia Médica. (2 ed). Rio de
corpo, por razões óbvias, próprias das ne- Janeiro: Medin.
cessidades, contribuindo para a não visua- Machado, S.C.E.P & cols.(1988). Depres-
lização da pessoa integral. Assim, destituí- são em Hospital Geral: Dados Prelimina-
do da sua identidade, o sujeito tende a des- res. Rev.Psi 10, 57-62
concentrar esforços na adaptação ao ambi- American Psychiatric Associations (1996).
ente hospitalar, sendo isto uma contribui- Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtor-
ção no despertar de reações adversas, como nos Mentais: DSM IV- TR (4ª ed). Porto Ale-
ansiedade e depressão. gre: Artes Médicas.
Com isso, se evidencia a necessidade Novaes, M.A.F.P. & Karam, C.H.(1998).
de humanização dos contextos hospitala- Clínica e Pesquisa: Alicerces do psicólogo
res não como mudanças isoladas no ambi- em CTI.
ente, mas como integradas ao sujeito-pro- Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia
fissional que neste está instituído. Hospitalar, 1 (1), 6-9.
Sugere-se a partir dos achados desta Novaes, M.A.F.P., Romano, B.V. & Lage,S.G.
pesquisa que, há a necessidade de um novo (1996). Internação em UTI – Variáveis que
tipo de classificação psicológica, orientada interferem na Resposta Emocional. Insti-
para situações específicas de um hospital tuto do Coração do Hospital de Clínicas –
geral, que esteja permeada por questões FMUSP. São Paulo, SP. Arquivos Brasileiros
próprias de um ambiente hospitalar e de de Cardiologia 5, 67-72.
suas intercorrências. Oliveira, E.C.N.(2002). O Psicólogo na
UTI: reflexões sobre a saúde, vida e morte
nossa de cada dia. Psicologia Ciência e Pro-
REFERÊNCIAS fissão, 22 (2): 30-41.
Pereira, M.G.(1995). O Psicólogo no con-
Biaggio, A., Spielberger C.D.& Natalício, F. texto de saúde: Modelos de colaboração.
(1979). Manual do IDATE. Rio de Janeiro: Análise Psicológica, 2-3 (XIV), 357-361.
CEPA. Romano, B.W. (1999). Princípios para a prá-
Boemer MR & cols.(1998). A idéia de morte tica da psicologia clínica em hospitais. São Pau-
em unidade de terapia intensiva. Em: R.M.S. lo: Pioneira.

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