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SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL E SUDESTE DO PARÁ


INSTITUTO DE ESTUDOS DO XINGU
CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS - LÍNGUA PORTUGUESA

Débora Correia
Paulo Ferreira Carvalho

ARTIGO: “O DIPLOMÁTICO”, DE MACHADO DE ASSIS

São Félix do Xingu- Pará


Janeiro 2018
SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL E SUDESTE DO PARÁ
INSTITUTO DE ESTUDOS DO XINGU
CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS - LÍNGUA PORTUGUESA

ARTIGO CIENTÍFICO: “O DIPLOMÁTICO”, DE MACHADO DE ASSIS

Trabalho apresentado á disciplina Teoria


Literária III, como requisito avaliativo do
curso Licenciatura em Letras- Língua
Portuguesa Instituto de Estudos do Xingu da
UNIFESSPA– Universidade Federal do Sul e
Sudeste do Pará / Campus de São Félix do
Xingu. Professor Paulo Antônio Vieira Junior.

São Félix do Xingu- Pará


Janeiro 2018
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ELEMENTOS DE ANÁLISE DO CONTO “O DIPLOMÁTICO”,
DE MACHADO DE ASSIS

Paulo Ferreira Carvalho1


Débora Correia2

RESUMO
Propõe-se neste artigo, abordar elementos para a análise do conto “O Diplomático”,
de Machado de Assis. Para tanto, fez-se breve contextualização acerca da vida e obra do autor,
considerando o período histórico em que foram confeccionados seus escritos. Após isso,
apresentou-se um resumo de “O Diplomático”, para em seguida, adentrar-se nos diversos
aspectos interpretativos. Com base nas análises de Paul Dixon (1992), Candido (1995) e
Zilberman (2009) foi debatido como os elementos centrais do discurso machadiano - tais com
a sátira ao pensamento enciclopédico, a desconstrução das hierarquias, a predominância da
linearidade e a exaltação do subjetivismo (Dixon, 1992, p. 14) – se apresentam no conto
estudado.

Palavras-Chave: Machado de Assis. Contos. O Diplomático.

ABSTRACT
It is proposed in this article, to address elements for the analysis of the short story
"The Diplomático", by Machado de Assis. For that, a brief contextualization was made about
the life and work of the author, considering the historical period in which his writings were
made. After this, a summary of "The Diplomat" was presented, and then, to enter into the
different interpretive aspects. Based on the analyzes of Paul Dixon (1992), Candido (1995)
and Zilberman (2009) were debated as the central elements of Machadian discourse - such as
satire on encyclopedic thought, deconstruction of hierarchies, predominance of linearity and
exaltation of subjectivism (Dixon, 1992, p.14) - are presented in the tale studied.

Keywords: Machado de Assis. Short Stories. The Diplomat.

1 Graduando em Letras–Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará,


Campus de São Félix do Xingu. E-mail: paulofc@gmail.com
2 Graduanda em Letras–Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará,
Campus de São Félix do Xingu. E-mail: correiadebora1912@gmail.com
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ASPECTOS DA VIDA E OBRA DE MACHADO DE ASSIS
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu dia 21 de junho de 1839 sua nacionalidade
Brasileira, da cidade de Rio Janeiro “Morro do Livramento” seus pais: Francisco José de As-
sis era pintor de parede de família escravos alforriados e Maria Leopoldina Machado de Assis
era lavandeira e filha mulher branca em portuguesa, quando Machado tinha apenas seis anos
de idade perde sua irmã e quarto ano depois sua mãe, foram morar com seu pai em São Cris-
tóvão, e logo que Francisco casou-se com a madrasta “Maria Inês da Silva” que viveu ao seu
lado até a morte, e depois da morte seu pai, a madrasta vai trabalhar em uma escola confeccio-
nando doces, aonde Machado vendia doces na escola, Em suas folgas aprendia Francesa à
noite.
Machado viveu uma vida muito difícil com preconceito, de gago, epilético e mulato e
de uma família de baixa renda, mas mesma assim com todas essas dificuldades ele não desis-
tiu de dedicar a leitura, com essas profissões adquiridas ajudou bastante Machado perfeiçoar-
se, obtendo conhecimentos e probabilidades, de conhecer várias pessoas e conseguir o que
queria, Machado de Assis é considerado um grande gênio da história da literatura, com todo o
seu intelectual que passou a ler muito livros de autores nacionais e estrangeiros e de tanto ler e
escrever com o seu 16 anos de idade no ano de 1855 dias 12 de janeiro. Publicou seu primeiro
trabalho literário “Ela”, um poema, que foi lançado na revista Marmota Fluminense, que da-
quele tempo o Francisco de Paula Brito colhia talento, Machado conseguiu um emprego como
aprendiz de tipógrafo, e desse momento surgi diversas oportunidades de conhece os escritores
e diretores. Conseguiu ter aulas de Francês e Latim com Padre Antônio Jose da Silveira Sar-
mento. Fazendo círculo de amizade com “Joaquim Manoel de Macedo, José de Alencar, Ma-
nuel Antônio de Almeida e Gonçalves Dias”.
No ano 1859 publica obras romanescas que é revista por Quintino, no qual Machado
trabalhava como revisor e colaborador do jornal Correio Mercantil, um ano depois o Quintino
Bocaiúva convida para fazer parte do Diário do Rio de Janeiro que também escreveu para re-
vista O Espelho, A Semana Ilustrada e jornal da família. E depois dois anos o seu primeiro li-
vro fica impresso com título: “Queda que as mulheres têm para os tolos”, que Machado de As-
sis funda uma sociedade artístico-literário, que tem a oportunidade de fazer um sarau de leitu-
ra de poesias com grandes intelectuais entre: “José Zapata y Amat’, que tem hino “Cantada da
Arcádia” que desse ano Machado escrevia teatral critico, que 1864 foi publicado o seu primei-
ro livro de poesias “Crisálidas”, que nomeado como diretor público Diário Oficial.
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Machado de Assis encontra com o seu amigo Faustino Xavier de Novaes, que se en-
contrava muito doente enfermo sua irmã Caroline Augusto Xavier de Novais vem para cuida
dele, ela conhece Machado e os dois se apaixonam longo após a morte de Faustino, ela era
mais velha que ele cinco anos, três meses depois no dia 12 de novembro de1869 casaram-se.
Ele mesmo fala que não é tão bonito perante a elegância de Carola, apelido que nomeou a seu
grande amor, por acha-la muito elegante. Durante o seu noivado Machado escreve uma carta
intima que dizia: “depois, querida, ganharemos o mundo, porque só é verdadeiramente senhor
do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis.”
Machado de Assis daquele tempo homem de letras brasileiro bem-sucedido, que traba-
lhava cargo público, seu casamento durou 35 anos, viveram muito felizes, não tiveram filhos,
com falecimento da sua esposa em 1904 que viveu 70 anos de idade, ele fazem um soneto
nome de Carolina. Manuel Bandeira afirmava que foi uma lembrança dos seus momentos jun-
tos e do romance “Memorial de Aires” que foi a forma tranquila a saudade. Sobre o casamento
de Machado uns amigos dele achava que ele traia sua esposa, que eles seguiram e descobriu
que todas as tardes avistavam a moça A Dama do Livro (1882). Machado publica um roman-
ce, “Ressurreição”, com o cargo Ministério da Agricultura, o segundo romance “A mão e a
luva”, o terceiro livro de poesias Americanas, dos anos 1876 o romance “Helena”, que é lan-
çado no jornal O Globo, que começou suas publicações de folhetins e escreveram crônicas,
contos, poesias e romances para as revistas O Cruzeiro, A Estação e Revista Brasileira, o ro-
mance Iaiá Garcia e uma das outras publicação que a um artigo que fazer uma críticas ao ro-
mance O Primo Basílio e Eça de Queirós. E a revista “Memórias póstumas de Brás Cubas”
que foi considerado juntamente como mulato, de Aluísio de Azevedo que o marco do realismo
na literatura e Brás Cubas, Quincas Borba considerado nova geração.
Machado de Assis publica um livro “O alienista” o seu terceiro conto, da cidade de
Rio de Janeiro, e os contos de “Histórias sem data”. Mudasse para a rua Cosme Velho que re-
sidi até seu falecimento, 1891 que gerou o romance Quincas Borba é promovido diretor-geral
da viação de obras públicas, Machado muito querido aos escritores e foi eleito diretor da Aca-
demia Brasileira de Letras – ABL da qual foi fundadores cargo até ocorreu sua morte 10 anos
como presidência, o que ocorre da cidade “Rio de Janeiro” dia 29 de setembro de 1908, de-
pois seu falecimento o fundador que foi escolhido o José de Alencar, que era um dos seu gran-
de amigo, que depois academia ficou sendo chamado a Casa de Machado de Assis, pois ele
era muito crítico sobre urbano, aristocrata, cosmopolita e sobre a escravatura da abolição, que
os personagens revela o autor como mestre psicológico sua obra é dividida em duas fases uma
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romântica e outra realista atribuindo um estilo desiludido, sarcástico e amargo em razão e sen-
tido cartesiano, iluminista e se afastando de seus que contemporâneos.
Segundo a crítica clássica, sua obra pode ser dividida em duas fases: a primeira, ro-
mântica, englobando Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia
(1874). E a segunda fase, realista, dentro da qual está Memórias Póstumas de Brás Cubas
(1881), Quincas Borba ( 1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Ai-
res (1908)

CONSIDERAÇÕES ACERCA DE MACHADO

Machado de Assis, é um grande homem das letras escreveu muito poemas, contos,
cronista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, e sua obra
constituiu nove romances e peças teatrais, 200 contos, cinco coletâneas e sonetos e poemas
mais de 600 crônicas, mesmo sua vida foi muito complicado por ser mulato, os preconceitos
que ocorreu, mas nunca desistiu de ler, sempre esforçado e cheio de sonho, correr atrás da
descoberta das letras e Machado origina as modas literários que atuavam seu tempo, como
uma obra que inicia do Romantismo, relaciona homem meio sociedade e sobre o personagem,
em seguinte obra do realismo, narrar a forma naturalistas que o presente do mundo e a visão
do objetivo da vida de origem literatura, o estilo dele enxuto, ironia e as prosas que o
Machado escrever que trais expiração, e estilo de arquétipos também a caráteres, e as ficções
que a notam pessimismo.
Machado de Assis trata das fraquezas humanas. Em O Diplomático conta a história de
Rangel, que ele tinha sonho muito grande, mas não tomava mão seu objetivo, mas
personagem machadiana que preocupada com status, prestigio social mesmo ser observa os
prejuízos que ocorria a si mesmo, seu ponto de vista é a espera de um casamento excelente,
para muda o perfil do status e fortuna, e corre no atrás seu sonho de uma mulher perfeita,
passa por muita coisa e fica solteiro. Que relacionado pouco a história de Machado sobre esse
personagem.
Ele frequentava a casa de um amigo João Viegas, que era pai de Joaninha, que Rangel
era conhecido como o diplomático, com seu jeito elegante e fino, e Joaninha despertou
interesse por Rangel, era difícil demonstra o amor, pois considerado como melhor amigo, mas
ele a amava, ao ocorre tinha outro pretendente que Joaninha o Queiroz, e Rangel choram
como criança e criar inveja, e ainda depois serviu como testemunha por casamento de sua

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amada. Com o machadiano tira suas conclusões desse conto que o ser humano tem franquezas
e ações que impedir o comportamento para toda uma vida.

RESUMO DE “O DIPLOMÁTICO”
O conto “O Diplomático” nos apresenta Rangel, um homem maduro com mais de
quarenta anos de idade, ainda solteiro, o qual sonha em se casar com Joaninha, uma jovem
cheia de vida, a quem conhece desde criança filha de um escrivão de uma vara cível da Corte,
amigo seu. Rangel é conhecido por diplomático em seu círculo de amizade em razão de sua
postura formal e solene, mesmo nas situações cotidianas.
Rangel permanecera solteiro por buscar uma noiva da alta sociedade, que o incluísse
em um círculo de amizades superior ao que ele frequentava. Para isso, chegou a participar de
bailes promovidos por um advogado célebre para o qual trabalhou. Mas não obteve êxito na
busca por tal casamento.
Apresentado como um sonhador, Rangel é do tipo que se contenta com os sonhos. Sua
vida sem sobressaltos, sem desafios e sem conquistas era absolutamente o contrário dos
planos que levava a cabo em sua imaginação. Nesse campo imaginativo Rangel era um
homem positivo e ativo, grande político e notório realizador de façanhas.
Machado centra o conto em um evento festivo realizado na noite de São João de 1854,
durante o qual Rangel pretende entregar a Joaninha uma carta de amor, mas não concretiza a
ação em razão de sua insegurança e hesitação. Pior ainda: além de não conseguir reunir
coragem para a declaração de amor, vê aparecer um convidado desconhecido, o Queirós, um
bonito jovem que arrebata a todos – inclusive Joaninha - com seu carisma e atitude.
Rangel, ainda durante o jantar de São João, começa a perceber como Queirós
conquista todos os convidados, como os envolve em suas conversas e brincadeiras e se
destaca no Jogo das Prendas, tão considerado na residência onde ocorria a festividade. O
nosso diplomático começa a se incomodar com o Queirós, e essa implicância cresce a cada
momento em que o jovem é elogiado pelos presentes.
Queirós interage com os presentes, toca flauta, passa a dirigir as brincadeiras e atrai
forte atenção de Joaninha. Mesmo durante o que deveria ser o auge da intervenção de Rangel
no evento, o pronunciamento de um discurso, Joaninha só tem olhos para Queirós. Inclusive o
jovem convidado também domina a arte da oratória e recebe mais aplausos e aclamações que
o próprio Rangel.

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Vendo os sinais de que Joaninha e Queirós estão a caminho de se apaixonarem, Rangel
não consegue compreender como em apenas algumas horas daquela noite todos seus sonhos
de casamento com a jovem foram por água abaixo. Ele se sente péssimo, humilhado, e ao
retornar pra casa, chora o coração partido. Mas seu caráter diplomático fala mais alto, e
Rangel é testemunha do casamento entre Joaninha e Queirós, seis meses depois. Ele mantém
encoberta sua paixão e segue ocupando sua vida com sonhos e devaneios.

ELEMENTOS PARA A ANÁLISE DO CONTO


Paul Dixon (1994), em seu livro “Os Contos de Machado de Assis: Mais do Que
Sonha a Filosofia”, analisa o conjunto dos contos da obra machadiana, fazendo um exercício
de generalização para extrair as características gerais e os elementos que se fazem presentes
com maior frequência.
Segundo Dixon (1994, p. 16), na obra de um autor é perceptível padrões que se
repetem em vários níveis de significado, de maneira que o conjunto desses padrões
conformam a marca registrada do autor. Assim, buscando a “essência que informa e torna
coerente a obra escrita como um todo” (Dixon, 1994, p. 17), o trabalho de Dixon torna-se
praticamente uma Teoria Geral dos Contos de Machado.
O primeiro ponto abordado por Dixon é o debate sobre a caracterização literária de
Machado. Ao contrário do senso comum e mesmo dos livros didáticos, que o declaram
realista. Dixon (1994, p. 11) afirma que “se tivéssemos que identificar um sistema de
pensamentos como alvo das críticas de Machado de Assis, o mais óbvio seria a escola
realista”.
Não apenas o realismo, mas principalmente o Positivismo, filosofia dominante em sua
época, é alvo de uma pesada crítica. Segundo Dixon, Machado se fia mais à fenomenologia
do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty:
Ao examinarmos os contos, veremos uma refutação dos aspectos
identificados com o positivismo: o discurso machadiano satirizará o
pensamento enciclopédico, destruirá as hierarquias, glorificará a linearidade
e o subjetivismo, e proclamará as verdades relativas. Haverá uma
reivindicação do mistério, das “cousas no céu e na terra” com as quais a
filosofia vigente não era capaz de sonhar. (1992, p. 14).

Segundo Antonio Candido (1995, p. 26), “o que primeiro chama a atenção do crítico
na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente
arcaísmo da técnica”. O saudado professor caracterizava Machado de Assis como um autor
no qual “cultivou livremente o elíptico, o incompleto, o fragmentário, intervindo na narrativa
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com bisbilhotice saborosa, lembrando ao leitor que atrás dela estava a sua voz convencional”
(Candido, 1995, p. 26).
Acerca da técnica machadiana, Candido (1995, p. 27) diz o seguinte:
“A sua técnica consiste essencialmente em sugerir as coisas mais tremendas da
maneira mais cândida (…); ou em estabelecer um contraste entre a normalidade social dos
fatos e a sua anormalidade essencial; ou em sugerir, sob aparência do contrário, que o ato
excepcional é normal, e anormal seria o ato corriqueiros.”
Além disso, Machado de Assis possui um estilo de escrita em que “muitos dos seus
contos e alguns dos seus romances parecem abertos, sem conclusão necessária, ou permitindo
uma dupla leitura, como ocorre entre os nossos contemporâneos” (Candido, 1995, p. 26). Essa
característica, inclusive, é observada em O Diplomático, em que o desfecho do conto nada
mais é do que o fim da ação narrativa, mas não há uma conclusão dos fatos do enredo. É
como se a vida de Rangel prosseguisse, e inevitavelmente ocorreriam outros episódios
semelhantes aos apresentados no conto.
No conto ora analisado, é possível identificar outro aspecto ressaltado por
Candido, o problema da identidade, presente na obra machadiana em dois
níveis distintos: “sob a forma branda, é o problema da divisão do ser ou do
desdobramento da personalidade (…). Sob a forma extrema é o problema
dos limites da razão e da loucura (…)” (Candido, 1995, p. 28).

Por um lado, o Diplomático apresenta uma personalidade fluida, a qual se submete a


qualquer situação - como quando se porta como subalterno nos bailes do advogado célebre, e
no amor não correspondido por Joaninha - conquanto atinja seus objetivos em sonhos e
devaneios. Estendendo isso ao limite, pode-se debater mesmo a sanidade de Rangel, entre a
razão e a loucura. Até que ponto sua condição de viver em uma realidade paralela não
constitui um tipo de transtorno mental?
Justamente a relação entre o real e o imaginado é outro aspecto da originalidade de
Machado (Candido, 1995, p. 30). Essa dicotomia se expressa em uma incongruente relação
entre o real e o imaginado. Para Rangel, o personagem do conto, o fantasioso adquire
principalidade. Suas quimeras são um refúgio, onde se reconforta em um mundo moldado
conforme suas vontades, o que definitivamente não pode ser feito no mundo real.
Dentre os padrões observados por Dixon nos escritos de Machado de Assis,
chamado por ele de leis, para ironizar o “positivismo”, em O Diplomático é
particularmente clara a chamada Lei do Pequeno Saldo: “as próprias
desgraças levam em si um prêmio compensatório, que o sujeito frustrado
aproveitará” (Dixon, 1992, p. 93). Em O Diplomático, Rangel tem sua
compensação não no plano real, mas no imaginário, conforme explica Dixon
(1992, p. 93-94):
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Se as compensações não existem nas circunstâncias externas, podem ser criadas na
mente. No conto “O Diplomático”, Rangel, um quarentão solteiro, resolve propor casamento a
Joaninha. Justamente no momento em que cria coragem para entregar-lhe uma carta de amor,
aparece o jovem Queirós, por quem ela logo se apaixona. Rangel encontra seu consolo na
imaginação. Alista-se mentalmente como oficial de voluntários na guerra do Paraguai, e,
dentro de suas fantasias, chega a ganhar várias batalhas e o posto de brigadeiro.
Além disso, o desfecho em que Rangel obtém seu pequeno saldo quimérico serve
também a uma quebra de expectativa característica da obra machadiana, com correspondência
tanto no enredo quanto na estrutura do conto.
Dixon (1992, p. 94) destaca que “ao falarmos de expectativas, de frustrações e de
satisfações, não estamos tratando somente das preocupações dos personagens. É também uma
questão de estrutura narrativa, de reações por parte do leitor, e de uma visão de mundo”. Em
O Diplomático, ao perceber que o interesse de Queirós por Joaninha é correspondido, e que
toda sua expectativa de casamento com a jovem fora abruptamente quebrada, Rangel vê seu
mundo cair em pedaços. Talvez esse fosse seu último vínculo com o mundo real. O plano de
casar-se com Joaninha era a última aspiração realizável.
E essa quebra de expectativa também tem sua correspondência na própria estrutura
narrativa. Machado de Assis (1896, p. 211-212) escreve assim esse momento:
Sahiu tonto. Uma só noite, algumas horas apenas! Em casa, aonde chegou
tarde, deitou-se na cama, não para dormir, mas para romper em soluços. Só
comsigo, foi-se-lhe, o apparelho da affectação, e já não era o diplomático,
era o energúmeno, que rolava na cama, bradando, chorando como uma
criança, infeliz deveras, por esse triste amor do outono. O pobre diabo, feito
de devaneio, indolência e affectação, era, em substancia, tão desgraçado
como Othello, e teve um desfecho mais cruel.

A estrutura utilizada por Machado, a atmosfera por ele construída nessa noite,
incluindo a referência a Otelo, o qual mata Desdêmona, dá a entender que Rangel despertaria
de seu mundo de sonhos e voltaria suas ações para o mundo real. Mas, a sequência dos fatos
mostra que ele simplesmente manteve em segredo sua paixão, e ainda serviu de testemunha
no casamento de Queirós e Joaninha, dali a seis meses. Ou seja, a expectativa de uma
mudança na postura de nosso Diplomático não é correspondida, afinal, “nem os
acontecimentos, nem os anos lhe mudaram a índole.” (Assis, 1896, p. 212).
O desfecho da obra, apresenta ainda, o que Zilberman (2009) classifica de retrospecto.
O conto se inicia com um Rangel autoconfiante, com postura resoluta e discurso decidido. No
jantar da noite de São João, nosso Diplomático se movimenta com firmeza e interage com

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todos da casa. Após a chegada de Queirós, há uma completa modificação da situação. Rangel
passa a experimentar uma crescente sensação de incômodo.
Em seguida, essa perturbação atinge seu auge, com Rangel se sentindo humilhado e
rebaixado moralmente, caindo em prantos por não conseguir conquistar Joaninha, por não ser
capaz de concretizar aquele amor sonhado. Mas esse não é o fechamento do conto. Rangel
tem sua índole diplomática, e inclusive vem a ser testemunha no casamento de Queirós com
Joaninha.
O desfecho é um retorno ao começo, e o retrospecto se completa com Rangel
vencendo batalhas imaginárias na Guerra do Paraguai e alcançando a patente de Brigadeiro. E
aqui, inclusive, pode-se aproveitar a frase escrita acima para caracterizar o início da narrativa
de Machado, mas agora para descrever a conclusão: o conto se encerra com um Rangel
autoconfiante, com postura resoluta e discurso decidido.
Por outro lado, vale ainda ressaltar a possiblidade de interpretação de Rangel como
duplo de Queiroz, elemento muito utilizado por Machado de Assis. Em certo ponto, a entrada
em cena de Queirós e o incômodo causado por ele em Rangel revelam nos personagens algo
de duplicidade. O diplomático Rangel e o homem de ação Queirós são extremamente
parecidos, ainda que a diferença entre o sonhar e o realizar seja significativa e essencial.
Zilberman (2009, p. 82) apresenta ainda o elemento da aparência ou, mais
precisamente, o que ela denomina de “retórica da aparência, segundo a qual o narrador só
apresenta o mundo interior dos protagonistas para confirmar que as atitudes deles são
corretas, valor dizer, quando correspondem ao que gostariam de aparentar”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Fonte Primária

ASSIS, Machado de. Várias histórias. Rio de Janeiro: Laemmert C. Editores, 1896.
Disponível em <https://digital.bbm.usp.br/bitstream/bbm/5307/1/002141_COMPLETO.pdf>.
Acesso em 15 nov. 2017.

Fontes Secundárias

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1995

CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. 2ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995

11
DIXON, Paul B. Os contos de Machado de Assis: mais do que sonha a filosofia. Porto Alegre:
Movimento, 1992.

MOISES, Massaud. História da Literatura Brasileira, v. I. São Paulo: Cultrix, 1983

SCHWARZ, Roberto. O sentido histórico da crueldade em Machado de Assis. Novos Estudos


- CEBRAP, v. 1, n. 17, p-38-44, 1987.

ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 2009.

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