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VICE-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO E CORPO DISCENTE

COORDENAÇÃO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

LINGUÍSTICA III

Conteudista
Gustavo Adolfo Pinheiro da Silva

Rio de Janeiro / 2008

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS À

UNIVERSIDADE CASTELO BRANCO


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Un3l Universidade Castelo Branco

Linguística III / Universidade Castelo Branco. – Rio de Janeiro: UCB, 2008.


- 28 p.: il.

ISBN 978-85-7880-020-8

1. Ensino a Distância. 2. Título.

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É com grande satisfação que o(a) recebemos como integrante do corpo discente de nossos cursos de gradu-
ação, na certeza de estarmos contribuindo para sua formação acadêmica e, consequentemente, propiciando
oportunidade para melhoria de seu desempenho profissional. Nossos funcionários e nosso corpo docente es-
peram retribuir a sua escolha, reafirmando o compromisso desta Instituição com a qualidade, por meio de uma
estrutura aberta e criativa, centrada nos princípios de melhoria contínua.

Esperamos que este instrucional seja-lhe de grande ajuda e contribua para ampliar o horizonte do seu conhe-
cimento teórico e para o aperfeiçoamento da sua prática pedagógica.

Seja bem-vindo(a)!
Paulo Alcantara Gomes
Reitor
Orientações para o Autoestudo

O presente instrucional está dividido em quatro unidades programáticas, cada uma com objetivos definidos e
conteúdos selecionados criteriosamente pelos Professores Conteudistas para que os referidos objetivos sejam
atingidos com êxito.

Os conteúdos programáticos das unidades são apresentados sob a forma de leituras, tarefas e atividades com-
plementares.

As Unidades 1 e 2 correspondem aos conteúdos que serão avaliados em A1.

Na A2 poderão ser objeto de avaliação os conteúdos das três unidades.

Havendo a necessidade de uma avaliação extra (A3 ou A4), esta obrigatoriamente será composta por todo o
conteúdo de todas as Unidades Programáticas.

A carga horária do material instrucional para o autoestudo que você está recebendo agora, juntamente com
os horários destinados aos encontros com o Professor Orientador da disciplina, equivale a 30 horas-aula, que
você administrará de acordo com a sua disponibilidade, respeitando-se, naturalmente, as datas dos encontros
presenciais programados pelo Professor Orientador e as datas das avaliações do seu curso.

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1 - Você terá total autonomia para escolher a melhor hora para estudar. Porém, seja
disciplinado. Procure reservar sempre os mesmos horários para o estudo.

2 - Organize seu ambiente de estudo. Reserve todo o material necessário. Evite


interrupções.

3 - Não deixe para estudar na última hora.

4 - Não acumule dúvidas. Anote-as e entre em contato com seu monitor.

5 - Não pule etapas.

6 - Faça todas as tarefas propostas.

7 - Não falte aos encontros presenciais. Eles são importantes para o melhor aproveitamento
da disciplina.

8 - Não relegue a um segundo plano as atividades complementares e a autoavaliação.

9 - Não hesite em começar de novo.


SUMÁRIO

Quadro-síntese do conteúdo programático ................................................................................................. 11


Contextualização da disciplina ................................................................................................................... 12

UNIDADE I

TEORIA DA INFORMAÇÃO .................................................................................................................... 13

UNIDADE II

PRAGMÁTICA
2.1. A dimensão sistemática e pragmática da linguagem ............................................................................ 15
2.2. As proformas e a mostração dêitica ..................................................................................................... 15

UNIDADE III

TEORIAS DA AQUISIÇÃO E A APRENDIZAGEM DA ESCRITA


3.1. A tese inatista ....................................................................................................................................... 18
3.2. A visão biológica de Lenneberg ........................................................................................................... 18
3.3. A teoria evolucionista de Bickerton ...................................................................................................... 19
3.4. A tese funcionalista .............................................................................................................................. 19
3.5. A tese cognitiva-funcionalista de Bever ............................................................................................... 19

UNIDADE IV

TEXTO DISCURSO ARGUMENTAÇÃO


4.1. O texto................................................................................................................................................... 21
4.2. Coerência: os núcleos textuais ............................................................................................................. 21
4.3. Teses. Hipóteses. Argumentos............................................................................................................... 21

Glossário ..................................................................................................................................................... 24
Gabarito ....................................................................................................................................................... 25
Referências bibliográficas ........................................................................................................................... 26
Quadro-síntese do conteúdo 11
programático

UNIDADES DO PROGRAMA OBJETIVOS

• Mostrar as relações entre comunicação e informação;


I. TEORIA DA INFORMAÇÃO • Ruído e redundância;
• As funções da linguagem.

II. PRAGMÁTICA • Mostrar as dimensões sintática e subjetiva do discurso;


2.1. A dimensão sistemática e pragmática da lingua- • Mostrar as relações textuais e situacionais;
gem • Mostrar as relações pessoais, temporais e espa-
2.2. As proformas e a mostração dêitica ciais da linguagem.

III. TEORIAS DA AQUISIÇÃO E A APRENDI-


ZAGEM DA ESCRITA
3.1. A tese inatista • Mostrar as convergências e divergências das
3.2. A visão biológica de Lenneberg teorias sobre a aquisição da linguagem.
3.3. A teoria evolucionista de Bickerton
3.4. A tese funcionalista
3.5. A tese cognitiva-funcionalista de Bever

IV. TEXTO. DISCURSO. ARGUMENTAÇÃO


• Produzir e compreender a estrutura do texto argumen-
4.1. O texto
tativo.
4.2. Coerência: os núcleos textuais
4.3. Teses. Hipóteses. Argumentos
12 Contextualização da Disciplina

A importância do estudo da Linguística para o estudioso que deseja enveredar-se pelos caminhos da com-
preensão do funcionamento da linguagem humana. Aqui se dialoga com a teoria da informação e comunicação.
As diversas teorias linguísticas, biológicas, funcionalistas que tentam compreender a aquisição e o desenvolvi-
mento da linguagem humana. Tal conteúdo é imprescindível ao estudante de Letras, Comunicação, Filosofia,
Antropologia e ciências afins.
UNIDADE I 13

TEORIA DA INFORMAÇÃO

Comunicação é um evento que depende de dois ter- físicos do mundo, legando-lhes valores semânticos.
mos polarizados: o transmissor e o receptor, além de Baseando-se no código, a fonte de Informação sele-
um código comum a ambos, sem o qual a informação ciona o substrato a ser manipulado pelo transmissor.
transmitida seria ininteligível; quando muito, um ruí- Este emite a Informação da fonte sob a forma de sinal
do percebido de valor semântico zero. É como se um que, deslocado através do canal, é absorvido por um
sujeito comunitário atuasse sobre alguns substratos elemento receptor capaz de reconvertê-lo ao destino.

Receptor Destino

Um sistema de comunicação pode ser reduzido a es- Numa comunicação telefônica, a taxa de redundância
ses elementos fundamentais. Na telefonia, o sinal é é bastante alta em comparação à de uma conferência
uma corrente elétrica variável e o canal é um fio. Na científica. Entretanto, cabe lembrar que, para ser co-
fala, o sinal é a pressão sonora variável e o canal é o municada, qualquer mensagem depende de elementos
ar. Frequentemente, coisas não pretendidas pela fonte redundantes. Uma mensagem com um teor altíssimo
de informação são impressas no sinal. A estática é um ou absoluto de informação será de difícil ou impossí-
exemplo; outro é a distorção em telefonia. Todos es- vel inteligibilidade: é preciso que nela sejam usados
ses acréscimos podem ser chamados de ruído. elementos de redundância. Há dois tipos de redun-
dância: um, ao nível do enunciado, que se vale de
O ruído perturba o sinal; fisicamente, altera a trans- elementos fáticos para verificar a recepção da men-
missão da mensagem. Trata-se de uma interferência sagem; outro, ao nível dos subcódigos, que permite
na ordem imposta pelo código. compreender as comunicações. Numa conversa tele-
fônica, abundam fórmulas fáticas de baixíssimo teor
Se for introduzido o ruído, a mensagem recebida informativo: servem para verificar a eficácia da inter-
passa a conter determinadas distorções, determinados locução. São mensagens do tipo “entendeu?”, “sim...”
erros, determinado material estranho que, certamente, No caso da conferência científica, a ação de um sub-
provoca maior incerteza. código cultural é o que permite a compreensão do que
for comunicado. Os dois tipos de redundância não se
Várias vezes batemos à porta de um apartamento, o dão isoladamente. Qualquer ato comunicativo depen-
telefone toca diversas vezes. Esse é um uso cotidiano de tanto de elementos fáticos como do conhecimento
do processo de redundância. A redundância se preo- de um código que una o transmissor ao receptor.
cupa com a recepção da mensagem. Para uma ideia
clara da noção de redundância, é preciso concebê-la Utilizamos a expressão Teoria da Informação no
como um procedimento que aumenta a despesa da seu significado abrangente, isto é, de modo a com-
transmissão. O objetivo é que o receptor compreenda preender também a comunicação, uma vez que não
a mensagem sem a distorção provocada pelo ruído. há informação fora de um sistema qualquer de sinais
Uma mensagem redundante se vale de elementos e fora de um veículo ou meio apto a transmitir esses
repetitivos codificados tanto pelo transmissor como sinais.
pelo receptor. A redundância é um tipo de organiza-
ção da mensagem que, ao reduzir a ambiguidade e a Informação e comunicação são conceitos que se
taxa de informação veiculada, aumenta os gastos na autodeterminam. A informação é uma presença a ser
transmissão e as possibilidades de recepção. Quanto medida pelo número de alternativas oferecidas na
maior a redundância, menor será a quantidade de in- fonte. Tal presença quantificável, a informação deve-
formação, menor o grau de surpresa da mensagem. rá ser comunicada, isto é, submeter-se-á a um pro-
cesso de representação, codificada pelo transmissor e vimos três funções da linguagem: emotiva, referen-
14 pelo receptor. O código determina as oposições e as cial e conativa.
regras de articulação dos sinais; ligará um significa-
do a um substrato físico, tornando indivisíveis uma O canal encaminha a mensagem, porém não está
materialidade física e uma correspondente inteligi- isento de distúrbios que deformam a comunicação. A
bilidade. Logo, quando se fala em Teoria da Infor- linguagem, por isso, possui um mecanismo para ve-
mação, pressupõe-se, imediatamente, uma teoria da rificar o trânsito correto do enunciado. A função fá-
comunicação: informação depende de comunicação. tica está centrada no fator da comunicação chamado
Informação e comunicação implicam convergência e contato.
complementaridade.
A linguagem pode falar tanto de um objeto como de
Para revelar a singularidade da construção poéti- si própria.
ca, Jakobson propõe o exame das várias funções da
linguagem. Após o cotejo, o discurso poético estará Neste último caso, o discurso está centrado no códi-
identificado. A análise de Jakobson usa o modelo da go. A comunicação teria o caráter metalinguístico.
Teoria da Informação; ele quer, com isso, mostrar que
cada um dos fatores do processo de comunicação de- A função metalinguística é nada mais que um des-
termina uma diferente função da linguagem. dobramento da função cognitiva, cujo referente é a
linguagem. Jakobson, entretanto, não as identifica;
Tanto a linguagem prosaica como a linguagem poé- insiste em dividi-las. Seis fatores do modelo de co-
tica são construções do material linguístico; porém municação, seis funções da linguagem: remetente
procedimentos construtivos separam a mensagem - função emotiva; contexto - função referencial; des-
corriqueira da obra-de-arte. tinatário - função conativa; canal - função fática;
código - função metalinguística; mensagem - função
No texto “Linguística e Poética”, Roman Jakobson poética. Agora, uma lembrança importante: a função
afirma que cada um dos seis fatores do ato de comuni- poética não define, nem se restringe às obras-de-arte;
cação verbal determina diferentes funções da lingua- trata-se de um procedimento que poderá até se dar na
gem. O modelo comunicacional se constitui a partir linguagem prosaica.
de um transmissor que, num determinado contexto,
emite uma mensagem ao receptor. Retirada do código A diferença funcional entre linguagem prosaica e
comum aos dois interlocutores, a mensagem transita linguagem poética, adquirida no período do grupo
pelo canal, ocasionando um contato, onde se situa a formalista, foi aprimorada ao contato com a Teoria
“conexão psicológica entre o remetente e o destina- da Informação. Nota-se que um slogan político pode
tário”. ser constituído por procedimentos da “função poéti-
ca”, sem que, com isso, se torne uma obra-de-arte.
A informação comunicada pela função emotiva é O produto artístico depende de “dois modos básicos
adicional e complementar ao aspecto referencial da de arranjo do comportamento verbal: seleção e com-
mensagem, cuja intenção primeira é cognitiva. En- binação”, fornecidos pela função poética. Em última
tretanto, como acréscimo informacional ao propósito instância, o que vai determinar o efeito estético da
cognitivo básico da mensagem, a função emotiva, fre- mensagem é sua ação no receptor. Quanto mais des-
quentemente, exerce o poder de mudar a significação viar-se das expectativas do receptor, maior o efeito da
do que for comunicado. obra. Para isso, o produto verbal deverá reduzir seus
elementos de redundância, adquirindo, assim, um
O destino de uma comunicação pode ser interpela- teor mais alto de originalidade, logo, de informação.
tivo ou imperativo; eis uma função da linguagem que A taxa de informação será a qualidade diferencial do
visa o destinatário: é a função conativa. Até agora discurso poético e da linguagem prosaica.

Exercícios
Com base na leitura do texto acima, responda:

1. Que entende por comunicação e informação?


2. Que entende por ruído?
3. Que entende por redundância?
4. Quais os elementos da comunicação?
5. Quais as funções da linguagem propostas por Jakobson?
6. Relacione as funções da linguagem com os elementos da comunicação.
7. Escreva pequenos textos que exemplifiquem as funções da linguagem propostas por Jakobson.
UNIDADE II 15

PRAGMÁTICA

2.1 A Dimensão Sistemática e Pragmática da Lingua-


2.1–
gem
A relação signo/usuários define a relação do signo gem. Exemplos claros desses signos são os adjetivos
com a situação de uso; vale dizer, com a situação de que indicam espacialidade (GREIMAS, 1975:33-35)
discurso, que implica não só os componentes-bases e os verbos indicadores de deslocamento no espaço.
do processo da comunicação – a pessoa que codifica a A título de ilustração, poderia ser lembrado aqui o
mensagem, o emissor, e a pessoa a quem a mensagem trabalho de Fillmore (1999: 219-227) sobre as cate-
é dirigida, o receptor, – mas também os componentes gorias dêiticas que definem o significado de vir.
espaço-temporais que situam no tempo e no espaço
o ato de comunicação. A dimensão dada pela relação Como signos, os dêiticos se definem também pela
signo/usuários, pela relação signo/situação do discur- dimensão sistemática da linguagem como feixes de
so, denominamos, seguindo Charles Morris (1946: relações opositivas que os diferenciam de outros sig-
217), dimensão pragmática do signo. nos da língua e os diferenciam entre si. Como ele-
mentos sistemáticos, são produtos da formalização,
Pertencer à dimensão pragmática da linguagem num código, de experiências vividas no mundo dos
constitui a característica fundamental de um número objetos. É nesse sentido que Roman Jakobson (1974:
relativamente pequeno de signos existentes em todas 179) diz que os dêiticos – shifters para ele – são, pela
as línguas, aos quais reservamos o nome de dêiticos. sua natureza e função, símbolos-índices. Como sím-
Benveniste (1971: 251-257) chama-os de indicadores bolos, os dêiticos são convencionais, pois resultam
de instância do discurso, Jakobson, retomando a ter- de convenções tacitamente desenvolvidas ao longo
minologia de Jespersem, denomina-os shifters, tradu- da formação de uma língua; como índices, definem-
zido por Ruwet por embrayeurs. se como signos que instituem uma relação existencial
com a coisa significada, ou entre o signo e a própria
Encontra-se nas línguas naturais uma elevada por- situação de discurso onde aparecem. E, como tais,
centagem de signos que contêm componentes tam- eles não apenas se definem pela situação de discurso
bém definíveis pela dimensão pragmática da lingua- como também a definem.

2.2 – As Proformas e a Mostração Dêitica

Como os autores, na sua maioria, não fazem distin- anáfora é a remissão a um elemento anterior. Dá-se
ção explícita entre dêiticos e proformas, denominando por meio de recurso de ordem “gramatical”: prono-
tudo pelos termos genéricos substitutos ou pronomes, mes pessoais de terceira pessoa (retos e oblíquos) e os
podem-se reduzir a apenas duas as características es- demais pronomes (possessivos, demonstrativos, inde-
senciais dos mostrativos: finidos, interrogativos, relativos), os diversos tipos de
numerais, advérbios pronominais (aqui, ali, aí, lá) e
1. os mostrativos instituem uma relação de mostração, artigos definidos; ou por intermédio de recursos de
que pode dar-se do discurso para a situação de discurso natureza lexical, como sinônimos, hiperônimos; ou
(mostração dêitica) ou de um ponto do discurso para ou- ainda por reiteração de um mesmo grupo nominal ou
tro ponto no interior do discurso, para trás ou para diante parte dele; e, finalmente, por meio da elipse. Vejamos
(mostração anafórico-catafórica). alguns exemplos:
O jovem levantou cedo, ele não queria chegar atra-
2. os mostrativos não denominam como os nomes, sado ao trabalho.
apenas remetem. Os pessoais, por exemplo, eu e tu, re- Márcia olhou em torno de si. Seus pais e seus ir-
metem ao narrador e ao narratário da mensagem linguís- mãos observavam-na com carinho.
tica, pelo menos no que toca à sua função principal.
A remissão prospectiva – catáfora – realiza-se prefe-
As proformas definem-se pela dimensão sintática rencialmente através de pronomes demonstrativos in-
da linguagem. Instituem uma relação de mostração definidos neutros (isto, isso, aquilo, tudo, nada). São
de lugares na estrutura do discurso, ou mais expli- exemplos de remissão catafórica:
citamente, têm componentes anafórico-catafóricos. A Só espero isto: que me deixem em paz.
Resolveu renunciar a tudo: riqueza, honrarias e po- Inicialmente, a dêixis foi objeto de estudo da Filoso-
16 sição social. fia, em que corresponde ao termo ostensivo. Assim
como a palavra dêixis (ou demonstrativo), ostensivo
O uso das proformas decorre da necessidade de significa que o locutor aponta ou destaca algo sobre o
economia sintagmática: não se trata principalmente qual quer despertar o interesse do seu interlocutor. De
de escolher, mas de não repetir. Não são suporte do acordo com Lyons (1983: 245): “ostensivo, dêitico e
texto, mas exigem o texto para que se estabeleça o demonstrativo, todos baseiam-se na idéia da identifi-
liame referencial. Conservam as marcas do elemento cação ou de dirigir a atenção através da indicação.”
substituído (aplicam-se apenas às proformas que ad-
mitem flexão).
No discurso, a dêixis caracteriza-se como um dos
elementos mais importantes de que dispomos para
Já os dêiticos, definem-se pela dimensão pragmática
introduzir dados aos quais podemos nos referir pos-
da linguagem. Instituem uma relação de mostração do
discurso para a situação de discurso: apontam para teriormente. Atualmente, ela é objeto de estudo da
os elementos essenciais do processo da comunicação, semântica e da pragmática.
ou seja, para os participantes do discurso e os compo-
nentes espaço-temporais configuradores da situação O fato de a dêixis ser descrita ora pela semântica,
de discurso. ora pela pragmática decorre do fato de que o limi-
te entre as duas teorias é muito estreito, permitindo,
O uso dos dêiticos decorre primordialmente da ne- como consequência, a sobreposição dos seus campos
cessidade de converter a língua em discurso. Já se de atuação.
observou que, a rigor, o único conversor é o eu, mas
nenhum eu pode colocar-se como tal sem projetar um Bühler (1982: 102) define a dêixis como “eu-aqui-
tu; ao mesmo tempo em que o eu, assumindo o dis- agora”, um sistema de coordenadas entre a dêixis de
curso, projeta imediatamente um tu, associa a si e, pessoa, lugar e tempo. Através do núcleo – eu, aqui e
consequentemente, ao tu, toda uma série de indicado- agora – estabelece-se uma relação entre o indivíduo e
res espaço-temporais indispensáveis à configuração a sua posição no espaço e no tempo.
da situação de discurso. O uso dos dêiticos, principal-
mente no que toca aos definidos mediante referência O “eu” é a marca da individualidade que pode ser
ao eixo eu-tu, responde basicamente à necessidade de ilustrado, conforme Bühler (1982), da seguinte ma-
economia paradigmática, porque é muito mais ágil
neira:
apontar para um objeto do que nomeá-lo; e é mais
fácil ainda apontá-lo recorrendo-se a uma forma lin-
Alguém toca a campainha e eu pergunto quem é. A
guística em que as oposições paradigmáticas se en-
contram reduzidas ao mínimo, isto é, neutralizadas pessoa responde eu. Eu só posso identificá-la se eu a
ao máximo e que exigem, por isso mesmo, menor conhecer e reconhecê-la de fato pela voz, traço que a
esforço seletivo. Quantas vezes não nos valemos de distingue de outros eus. É como um traço diacrítico,
um simples isso para evitar o esforço de se escolher uma marca acrescentada a um símbolo para alterar seu
entre as formas diferenciadas esse, essa, esses, essas, valor, como os vários acentos (CRYSTAL, 1988).
apesar do baixíssimo rendimento informativo da for-
ma neutra. O advérbio de lugar aqui marca a posição momentâ-
nea do falante em oposição a lá, ali, que pode ser alte-
Enquanto as proformas exigem um texto para que rada a cada turno pelo falante (BÜHLER, 1962: 105).
se estabeleça o liame anafórico-catafórico, os dêiti- Aqui não é definido como um espaço fixo, definido,
cos são os suportes do texto: sendo este produto da pois cada vez em que é usado proporciona contextos
conversão da língua em discurso, define-se pelos con- novos, maiores ou menores, mais concretos ou mais
versores eu-tu e pelo sistema espaço-temporal corres- abstratos.
pondente.
O advérbio de tempo agora define o momento da
A Dêixis comunicação, o presente do falante, servindo de parâ-
metro para todas as demais referências temporais.
Dêixis é uma palavra de origem grega que significa
demonstrar, apontar, indicar e, em geral, é expres- Kerbrat-Oreccchioni (1980: 36), por sua vez, propõe
sa por pronomes pessoais, demonstrativos, tempos a seguinte definição para os dêiticos: “unidades lin-
verbais e advérbios de tempo e lugar, entre outros. guísticas cujo funcionamento semântico referencial
Os elementos dêiticos têm a função de determinar a (seleção na codificação, interpretação na decodifica-
relação espaço-temporal na qual o homem se locali- ção) implica levar em consideração certos elementos
za, movimenta-se e define o centro da comunicação. constitutivos da situação de comunicação, a saber:
• papel que tem no processo da enunciação os actan- No mecanismo de deitização, três componentes
tes do enunciado; básicos se destacam, portanto: pessoa, tempo e 17
• a situação espaço-temporal do enunciador e, espaço, formando o que Parret (1988) chama de
eventualmente, do enunciatário.” triângulo dêitico:

Nesse sistema, os pronomes pessoais constituem rais em torno do sujeito tomado como ponto de re-
o primeiro ponto de ancoragem para a inscrição da ferência. Todos eles apresentam como denominador
subjetividade na linguagem. Em torno deles e a partir comum o fato de se definirem pela contemporaneida-
deles, a linguagem organiza os outros indicadores da de com a instância da enunciação em que o discurso
dêixis. Os advérbios e as expressões adverbiais, por é produzido.
exemplo, estabelecem as relações espaciais e tempo-

Exercícios

Com base na leitura do texto acima, responda:

1. Que entende por Semântica e Pragmática?


2. Estabeleça oposições entre proforma e dêixis.
3. Dê exemplos de anáforas e catáforas.
4. Que elementos gramaticais podem exercer papel dêitico?
5. Dê exemplos de dêixis de pessoa, tempo e espaço.
18 UNIDADE III

TEORIAS DA AQUISIÇÃO E A APRENDIZAGEM DA ESCRITA

A preocupação do homem com a língua humana cebida como natural, determinada biologicamente;
vem desde a Grécia antiga, e as hipóteses sobre se regida por convenção, deveria ser culturalmente
sua aquisição estão vinculadas, desde o início, às adquirida.
concepções sobre sua natureza. Assim, a indaga-
ção principal era, a princípio, se a língua seria re- Na linguística moderna, pergunta-se igualmente
gida pela natureza ou pela convenção social. Para se a língua é inata no homem ou se ela é adquirida
a primeira concepção, existiria uma relação natural culturalmente. Se é aprendida, pergunta-se: “Qual
entre a palavra e a coisa por ela denotada e, para é a natureza dessa aprendizagem?”; se é parcial-
a segunda, essa relação seria meramente arbitrá- mente inata, “O que e quanto do que hoje sabemos
ria, convencional. Ora, se a língua era regida pela já está biologicamente programado, e quanto é ad-
natureza, sua aquisição também deveria ser con- quirido em contato com o ambiente?”.

3.1– A Tese Inatista


3.1
Na posição inatista radical de Chomsky, acredita-se que criança atingir gramáticas perfeitas quando, segundo ele,
uma faculdade de linguagem geneticamente determina- o estímulo ambiental é falho e fragmentado.
da especifique uma certa classe de “gramáticas huma-
namente acessíveis”. Em outras palavras, o ser humano Chomsky usa o termo COMPETÊNCIA para designar
vem programado biologicamente para desenvolver de- o conhecimento que o falante tem da gramática de sua
terminados tipos de gramática. língua, e o termo DESEMPENHO para designar o uso
que o falante faz desse conhecimento.
A faculdade de linguagem pode ser aqui entendida
como um esquema formal abstrato – ou gramática uni-
Segundo esse autor, a criança, ao adquirir sua língua,
versal –, que subjaz a qualquer gramática particular.
desenvolve também “sistemas de desempenho” cuja
Cada língua seria apenas uma realização concreta desse
esquema, constituída de regras preditivas que possibili- natureza e forma também seriam determinadas geneti-
tariam ao falante compreender e produzir frases nunca camente.
antes ouvidas ou produzidas.
Em resumo, para Chomsky, tanto o conhecimento
Uma das evidências mais fortes levantadas por quanto o comportamento linguístico seriam genetica-
Chomsky para sustentar a hipótese inatista é o fato de a mente determinados.

3.2 – A Visão Biológica de Lenneberg


Lenneberg, em seu estudo clássico “The capacity comparação é feita de forma sistemática e lógica, é
for language acquisition”, argumenta também a favor importante verificar os critérios nos quais ele se ba-
da tese inatista. seia para tirar conclusões.

O interesse de seu trabalho está no fato de sua argu- Um desses critérios é a existência da história dentro
mentação se basear na comparação entre a aquisição da espécie.
da fala, de um lado, e a aquisição de duas outras ativi-
dades, de outro: o andar – que, segundo ele, é inques- Segundo Lenneberg, não é possível traçar uma his-
tionavelmente uma atividade geneticamente herda- tória do andar – desde uma forma mais primitiva até
da – e o escrever – que para ele é inequivocamente uma forma mais complexa – da mesma maneira que
uma atividade culturalmente aprendida. podemos recuperar a história da escrita – da sua au-
sência total até sua origem e sua difusão.
A preocupação de Lenneberg com a escrita é, por-
tanto, indireta. Sua natureza é postulada como uma Outro critério do autor é que o andar não apresenta
premissa, e não como uma conclusão. No entanto, variação intraespécie, enquanto a escrita, pelo contrá-
como esse é um dos primeiros estudos em que tal rio, apresenta vários sistemas diferentes.
O terceiro critério é a predisposição herdada. nicos específicos”. Por exemplo, o andar e o fa-
Não se ensina a andar: a criança aprende sozinha. lar desenvolvem-se em uma idade específica, mas 19
Quanto a ler e a escrever, é através do treinamen- não há uma idade definida para começar a ler e a
to formal que a criança adquire essas habilidades. escrever.
Mas a ausência delas não significa deficiência bio-
lógica.
Através desses critérios, Lenneberg conclui que
O quarto critério, muito parecido com o anterior, falar é uma capacidade inata e que escrever/ler não
é a existência do que ele chama “correlatos orgâ- o são.

3.3 – A Teoria Evolucionista de Bickerton


A teoria evolucionista de Bickerton apresenta-se A preocupação da gramática gerativa de Chomsky,
como uma variante da tese inatista de Chomsky. Seu ainda segundo esse autor, é definir as propriedades do
bioprograma linguístico especifica um limite inferior limite superior, através de seus universais formais; a
e outro superior para a capacidade linguística. dele, Bickerton, é estabelecer o trajeto inicial do bio-
programa linguístico, da gramática mínima.
O limite inferior é definido pelo trajeto natural ini-
cial de desenvolvimento linguístico, seja na aquisição Ao contrário de Lenneberg, Bickerton admite uma
linguística individual, seja no desenvolvimento de evolução da fala, atestada pelo desenvolvimento das
novas línguas ou mesmo no desenvolvimento original formas primitivas que emergem de línguas em conta-
das línguas. O limite superior é atingido com o desen- to (pidgins) em formas mais elaboradas (crioulos), até
volvimento cultural, mas, de qualquer forma, o que atingir gramáticas altamente complexas.
determina esse limite é, para Bickerton, a propriedade
de ser aprendível que a língua possui. Sua posição é ainda comprometida com a tese de
que a filogênese se reflete na ontogênese, isto é, de
Segundo ele, a língua culturalmente adquirida não que a mesma evolução verificada no desenvolvimen-
pode distanciar-se de forma imprevisível da língua to de uma dada língua observa-se na gramática da
primitiva, bioprogramada. criança.

3.4 – A Tese Funcionalista


Autoras como Laberge, Sankoff e Brown focalizam mo. Os inatistas não estão interessados em saber como
o papel dos fatores culturais funcionais no desenvol- e por que o ser humano desenvolve maximamente sua
vimento da linguagem, ao contrário de Bickerton, capacidade linguística, mas sim em caracterizar qual
que se concentra nos aspectos invariantes do desen- é essa capacidade.
volvimento das línguas. Essas autoras, estudando
pidgins e crioulos, como Bickerton, constatam que O interesse dessa visão funcionalista reside no fato
novas formas são acrescentadas quando aumentam de que as formas novas que aparecem são justificadas
as necessidades comunicativas. Halliday, estudando em função das necessidades comunicacionais, o que
a aquisição de uma criança, mostra igualmente que permite examinar a relação entre forma e função.
a ampliação de funções ocasiona mudanças formais.
Esses estudos pretendem mostrar que a forma da gra- Na verdade, segundo Vigotsky e Slobin, uma função
mática, no limite superior da capacidade linguística, nova é primeiro preenchida por uma forma velha e
não é geneticamente programada, mas culturalmente só depois é que se desfaz a multifuncionalidade atra-
determinada. vés da busca de uma forma nova. Segundo eles, uma
função nova se adquire através de uma forma velha
Parece-nos que a visão de Bickerton comporta essa e uma forma nova se adquire através de uma função
explicação, sem perder o compromisso com o inatis- conhecida.

3.5 – A Tese Cognitiva-funcionalista de Bever


Para Chomsky, o limite da capacidade linguís- ção. O termo “aprendível”, usado por Bicker-
tica superior é definido em termos estritamente ton, por outro lado, abre a possibilidade de se
estruturais, formais. Para Sankoff e outros, ele definir esse limite em termos de restrições de
é determinado por necessidades de comunica- desempenho.
É isso que faz Bever, quando procura definir o li- Assim como (iv) é malformada porque não podemos
20 mite superior da capacidade linguística em termos interpretar sintaticamente o que sobra, para a criança
cognitivos. Para ele, o limite da gramaticalidade é o (ii) e (iii) também o são. As variantes abaixo já não
limite da compreensibilidade e da produzibilidade. apresentariam essa mesma dificuldade:
Em outras palavras, o que não podemos compreender
ou produzir é inaprendível e, portanto, agramatical. (v) Me surpreende que João está aqui.
O que determina a agramaticalidade não são regras (vi) Me surpreende o João estar aqui.
autônomas da gramática, mas a nossa capacidade de
processamento e de produção. Veja, por exemplo, as Mais tarde, a criança já se mune de outra estraté-
seguintes formas: gia – a de prestar atenção aos sinalizadores de subor-
dinação. Estes, na verdade, são os elementos que per-
(i) O fato de que João está (esteja) aqui me surpreende. mitem ao interpretador usar uma operação de análise
pela síntese. Ao ouvir ou enxergar um quê, o recep-
(ii) Que o João está (esteja) aqui me surpreende. tor imediatamente antecipa uma oração subordinada,
parte de uma estrutura superordenada.
(iii) O João estar aqui me surpreende.
Além da tese de que fatores de desempenho deter-
(iv) O João está aqui me surpreende.
minam a forma da gramática, Bever adota a hipótese
cumulativa (ou de retenção) na aquisição da lingua-
As formas (i), (ii) e (iii) são possíveis porque há algo
gem. Segundo essa hipótese, as estratégias primitivas
na oração inicial que avisa ao ouvinte ou leitor que o
não são descartadas, podendo surgir de sua latência
que ele está recebendo é parte de uma sentença maior:
em situações de conflito e de dificuldade.
em (i) é o introdutor O fato de que, em (ii) é a con-
junção que, e em (iii) é o verbo no infinitivo. Em (iv),
Tal proposta explica por que nossos alunos, em suas
todavia, nada há que assinale para o leitor a necessi-
dade de suspender o fechamento sintático. Assim (O redações, fecham precipitadamente uma estrutura em
João está aqui) é interpretada como unidade sintática uma fase em que já dominam bem estruturas subordi-
completa sem o resto. Daí a sua agramaticalidade. nadas. Pode-se verificar que, quando isso acontece, o
fragmento resultante tem os componentes sentenciais
Apoiado nessa concepção de Bever, Slobin monta sujeito + predicado. Um caso hipotético desse fecha-
um conjunto de estratégias heurísticas que explicam mento precipitado seria algo como:
o desenvolvimento do desempenho linguístico da
criança. A princípio, ela é levada por uma estratégia (i) Os assuntos políticos que foram tratados durante
que a faz fechar qualquer sequência canônica sujeito a sessão da manhã de domingo.
+ predicado (ou so = sujeito + verbo + objeto) encon-
trada, sem prestar atenção a outros sinais que a advir- que, passando para a memória temporária, passa a
tam de que deve suspender esse fechamento sintático. ser retido sem o subordinador que:
As sentenças (ii) e (iii), que têm essa sequência ini-
cial, são fechadas prematuramente, da mesma forma (ii) Os assuntos políticos foram tratados durante a
que nós, adultos, fechamos a (iv) após a palavra aqui. sessão da manhã de domingo.

Exercícios
Com base na leitura do texto acima, responda:
1. Quais os pontos de divergência entre as teorias apresentadas?
2. Quais os pontos comuns entre as teorias apresentadas?
UNIDADE IV 21

TEXTO. DISCURSO. ARGUMENTAÇÃO


Sob o aspecto ambientaI, o planeta chegou ao ponto são os recursos naturais, como se eles fossem eter-
de não retorno. Se fosse uma empresa, o planeta esta- nos. O poder de autopurificação do meio ambiente
ria à beira da falência, pois dilapida seu capital, que está chegando ao limite. Temos que agir já.
(Entrevista de Maurice Strong, Secretário-Geral da ECO 92, à
Revista Veja, ed. 1184)

4.1– O Texto
A noção de texto pode ser aplicada tanto para Em sua entrevista, Maurice Strong pretende
as manifestações orais como para as escritas. mostrar à sociedade que o planeta Terra está so-
frendo os efeitos desastrosos da agressão conti-
Falamos ou escrevemos porque desejamos ela- nuada ao meio ambiente. Estamos, neste caso,
borar uma rede de significados com vistas a in- diante de um texto, uma ordem de sentidos que
surgiu graças ao cruzamento dos planos do fa-
formar, explicar, discordar, convencer, aconse-
lar, do dizer e do mostrar. E tudo isso signifi-
lhar, ordenar. cando coisas para o leitor.

4.2 – Coerência: Os Núcleos Textuais


Existe, na entrevista de Maurice Strong, uma pro- sura, conforme o gênero do trabalho a ser desenvolvi-
posição: do. Essa fase deve assegurar a fidelidade do ouvinte/
leitor. É o que aproximaríamos da introdução.
“Sob o aspecto ambiental, o planeta chegou ao pon-
to de não-retorno.” 2. Narração – É o assunto propriamente dito, onde
os fatos são arrolados. Aqui não deve existir rapidez,
Em seguida há uma sequência de narrativa e provas, tampouco concisão, mas sim a justa medida. Ora, a
que vai de Se fosse uma empresa até está chegando ao justa medida consiste em se dizer tudo quanto ilustra
limite. Trata-se, propriamente, do núcleo argumenta- o assunto, ou prove que o fato se deu, que constituiu
tivo. E a conclusão: um dano ou uma injustiça, numa palavra, que ele teve
a importância que lhe atribuímos. Este é o núcleo da
“Temos que agir já.” argumentação.

3. Provas – Se o discurso deseja convencer, é pre-


Esta é a forma mais clássica da coerência macroes-
ciso mostrar as evidências, comprovar o que se diz.
trutural.
Para se obter este efeito, é comum nos textos argu-
mentativos usar-se números, tabelas, depoimentos de
Afirma-se uma tese, demonstra-se e conclui-se.
especialistas no assunto, citações de pesquisas. En-
tram no núcleo argumentativo.
Na Arte retórica, Aristóteles demonstra que, para o
texto ser coerente, é necessária a existência de quatro 4. Peroração – É a conclusão, o epílogo, um lugar
núcleos ou fases. A saber: no texto que se revela extremamente importante por
ser a última oportunidade para se convencer o leitor/
1. Exórdio – É o início do texto. Pode ser uma indi- ouvinte acerca de alguma tese.
cação do assunto, um conselho, um elogio, uma cen-

4.3 – Teses. Hipóteses. Argumentos


Produzir textos dissertativos, de convencimento, A hipótese tem uma natureza afirmativa. São as pos-
persuasivos implica formular hipóteses sobre temas síveis respostas a serem dadas ao problema colocado.
a serem desenvolvidos, escolher teses e arrolar argu- A tese é aquela hipótese eleita como a mais adequa-
mentos defensáveis, capazes de conquistar a adesão da para ser desenvolvida, daí ter a necessidade de ser
de ouvintes ou leitores. justificada, comprovada, posta na situação de poder
sustentar-se como verdade enunciada. A argumen- d) A poluição será controlada se os cidadãos fizerem
22 tação é propriamente o procedimento que tornará a campanhas contra os agentes poluidores.
tese aceitável. A apresentação dos argumentos e suas
provas dará a força do convencimento e da persuasão, e) E assim por diante.
atingindo os interlocutores em seus objetivos, visões
de mundo, desejos, vontades. Destacamos a hipótese b e a transformamos em tese,
algo que poderia ficar assim:
Simulemos uma situação a fim de aclarar melhor
esta questão.
A poluição é provocada pelo fato de as fábricas de
Vamos admitir que nos solicitem uma dissertação automóveis, as indústrias químicas, os grandes pro-
sobre o tema da poluição ambiental; como podería- prietários rurais, os monopólios extrativistas possuí-
mos montar nosso esquema da hipótese aos argumen- rem interesses que não coincidem com os do resto da
tos? sociedade.

Fixada a tese, trata-se de arrolar argumentos e pro-


Hipóteses vas que demonstrem ser ela mais válida e defensável
do que a, c e d.
a) A poluição só será controlada quando a polícia
prender os agressores da natureza.
É claro que a sustentação do ponto de vista vai exi-
b) O controle da poluição acontecerá quando os in- gir a feitura de um plano de trabalho que decorra de
teresses econômicos privados deixarem de se colocar pesquisas realizadas sobre o tema.
acima dos interesses da sociedade.
Esses procedimentos ajudarão a tornar o texto mais
c) Só a educação do povo evitará o aumento da po- coerente, logo, em condições de influenciar os ouvin-
luição. tes ou leitores.

Exercícios
1. Tomemos um tema polêmico: O ABORTO. Escreva dois textos argumentativos. No primeiro, você levanta-
rá argumentos favoráveis à tese do aborto. No segundo, argumentos desfavoráveis (mínimo de quinze linhas).
23

Se você:
1) concluiu o estudo deste guia;
2) participou dos encontros;
3) fez contato com seu tutor;
4) realizou as atividades previstas;
Então, você está preparado para as
avaliações.

Parabéns!
Glossário
24
Argumento: é propriamente o processo que tornará a tese aceitável.

Discurso: conjunto de realizações de uma língua, de formas efetivamente produzidas.

Estruturalimo: escola linguística surgida na primeira metade do século XX.

Fática: é um mecanismo para verificar o trânsito correto do enunciado.

Funcionalismo: abordagem que enfatiza o uso mais do que a forma, ou que parte do uso para a forma.

Gerativismo: escola linguística surgida na segunda metade do século XX, cujo mentor principal é o americano
Noam Chomsky.

Hipótese: tem uma natureza afirmativa. São as possíveis respostas a serem dadas ao problema colocado.

Letramento: processo ou efeito da aprendizagem da leitura e da escrita.

Léxico: repertório mental de palavras ou inventário das palavras de uma língua.

Metalinguagem: é a linguagem que fala de si própria. É um desdobramento da função cognitiva, cujo referente
é a linguagem.

Performativo: verbo que, quando usado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, exprime um
ato verbal: Eu vos declaro marido e mulher.

Redundância: é um tipo de organização da mensagem que, ao reduzir a ambiguidade e a taxa de informação


veiculada, aumenta os gastos na transmissão e as possibilidades de recepção.

Ruído: Trata-se de uma interferência na ordem imposta pelo código.

Tese: é a hipótese eleita como a mais adequada para ser desenvolvida.


Gabarito
25
UNIDADE I
Respostas livres

UNIDADE II
Respostas livres

UNIDADE III
Respostas livres

UNIDADE IV
Respostas livres
Referências Bibliográficas
26
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