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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO

INSTITUTO DE LINGUAGENS

FACULDADE DE COMUNICAÇÃO E ARTES – FCA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE CULTURA


CONTEMPORÂNEA

Mestranda: Neusa Baptista Pinto

Orientador: Prof. Dr. Yuji Gushiken

Atividade: Produção de texto e apresentação sobre texto jornalístico para alunos do 1º semestre
de Comunicação Social/UFMT (2017/1)

O TEXTO JORNALÍSTICO NÃO FACTUAL

Este resumo traz algumas dicas e informações sobre a linguagem jornalística e o


texto jornalístico em geral e o não factual, em específico, refletindo sobre aspectos do
conteúdo e da estrutura e destacando sua presença na editoria de cultura do jornal
impresso e na revista. Estas escolhas foram feitas por considerar-se que o tipo de texto
exigido para uma revista, em geral uma reportagem, é o que mais se aproxima do texto
demandado na presente atividade da disciplina Teoria da Comunicação I, na qual é
necessário, dentro das limitações do aluno, pesquisar, ler e produzir um texto elaborado.
Os temas referentes a conteúdos e estrutura do texto têm como base as obras de LAGE
(2002; 2005; 2006); sobre jornalismo cultural, PIZA (2004) e sobre texto de revista,
SCALZO (2011).

Para compreender a linguagem do jornalismo, é necessário partir de um conceito


de linguagem que transcenda a língua, o idioma, a fala (LAGE, 2002). Este conceito
relaciona linguagem ao que é simbólico, seja ou não transmitido por meio de palavras,
ondas sonoras ou imagens. É a informação (bem simbólico) que leva o leitor a comprar o
jornal ou acessar o site (elemento concreto). Referindo-se ao texto impresso, Lage (2002,
p. 6) afirma que a informação distribui-se no jornal em níveis. Neste caso, a linguagem

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jornalística é metalinguística, pois reúne os sistemas gráfico, analógico e linguístico. O
texto escrito é um deles.

O projeto gráfico é definido por Lage (2002, p. 6) como um “(...) sistema simbólico
composto de manchas, traços, ilustrações e letras – pequenos desenhos abstratos que se
repetem e combinam caprichosamente (...)”, estabelecendo relações dentro do texto. Ele
transmite a imagem ou a cara do jornal e dialoga com seu público. Há também os sistemas
analógicos (ilustrações, charges, fotografias, ilustrações etc.) que, segundo o autor, apesar
de serem “unidades semânticas autônomas”, estão sujeitos às mais diversas
interpretações, dependendo da relação com o texto escrito, o que faz com que sua sintaxe
seja relativamente pobre. O texto escrito (organizado em títulos, matérias, manchetes,
chapéus etc.) integra o sistema linguístico, que é o componente digital da linguagem
jornalística. Segundo o autor, sua “(...) sintaxe lógica é rica e complexa, o que faz do
sistema linguístico o mais adequado à comunicação de conceitos” (LAGE, 2002, p. 7).
Mas ela precisa ser ampliada para suprir lacunas como a falta da linguagem corporal e da
interlocução imediata. “O texto terá de formalizar-se, enriquecer sua sintaxe, para suprir
a ausência de elementos analógicos que existem na conversa, desde a expressão do rosto
de quem fala até a entonação e as pausas” (LAGE, 2002, p. 7).

Lage conceitua a linguagem jornalística em geral a partir de três parâmetros:


registros de linguagem, processos de comunicação e compromissos ideológicos. Quanto
ao registro, o texto jornalístico utiliza palavras, expressões e regras aceitas tanto no formal
(usado, por exemplo, na escrita e nas situações cerimoniais) quanto no registro coloquial,
mais comum nas situações informais. Busca-se conciliar, por um lado, a necessidade de
uma comunicação eficiente e, por outro, a exigência do uso da linguagem formal1 (LAGE,
2002). Sendo assim, se escreve perto de em vez de próximo de; porque no lugar de pois,
complicado em vez de complexo. Porém, apesar de privilegiar a simplicidade, quando
necessário, pode-se abrir mão dela em nome da clareza: é preciso ficar atento para evitar
expressões que possam reproduzir preconceitos. No caso de qualificativos de
personagens, por exemplo, é preferível referir-se a uma pessoa que tem pouco dinheiro
como “pobre” do que usar o adjetivo “humilde”.

1
A adesão à norma formal sore variações. Em alguns casos, regras gramaticais são quebradas, como na
frase “Dez pessoas morreram quando um caminhão de retirantes que vinha do Nordeste para o Sul pela
Rio-Bahia...” (LAGE, 2006, p. 36), em que uma relação causal é representada por uma expressão referente
a tempo (quando).

2
Quanto ao processo de comunicação, o autor observa que a linguagem jornalística
é referencial, isto é, fala de algo que é externo aos participantes deste processo. Isso torna
obrigatório, no texto, o uso da terceira pessoa (ele/ela) em quase todas as situações, com
algumas exceções, como no caso das reportagens-testemunho. Esta característica a
diferencia da linguagem didática, ainda que as duas tenham como objetivo a divulgação
do conhecimento. A linguagem didática é metalinguística, isto é, usa um termo léxico
para definir outro. Na jornalística, “(...) as proposições principais dão conta de
transformações, deslocamentos ou enunciações (notícia); ou se formulam a partir de
acontecimentos (a reportagem interpretativa, o artigo)” (LAGE, 2002, p. 39). A
explicação de um termo é algo acessório, usado para melhorar a compreensão do
conteúdo.

Tendo em vista que o texto pretende atingir um público heterogêneo, convém não
utilizar adjetivos testemunhais e aferições subjetivas, que expressam posições pessoais,
pois elas têm a ver com a realidade de quem e não de quem lê. O melhor, segundo o Lage,
é substituí-los por informações concretas relevantes, que ajudem o leitor a perceber a
impressão que se quer transmitir e chegar às suas próprias conclusões. Assim, em vez de
dizer que alguém recebe um alto salário, é melhor mencionar valores, compará-lo com
outros salários ou remunerações de outros países, outras classes sociais, dizer o que seria
possível comprar com ele etc.. Dai a importância de uma boa apuração.

A busca de enunciados mais referenciais, concretos, justifica muito do trabalho


na apuração de notícias: a hora exata do atropelamento, a placa do carro, o
nome inteiro das pessoas, o número do túmulo vão ter, no texto, efeito de
realidade, isto é, contribuir para a verossimilhança da história (LAGE, 2002,
p. 43).

Além da técnica, é importante lembrar que o texto jornalístico é produzido em um


contexto histórico e a partir de relações sociais e, portanto, carrega conteúdos que
transmitem compromissos ideológicos. A escolha dos termos reflete relações de poder.
É necessário que ela seja feita conscientemente pelo jornalista, ou então o texto estará
apenas reproduzindo um discurso, ponto de vista, preconceito etc.. “(...) O poder gera
conceitos” (LAGE, 2002, p. 44) e, portanto, é preciso estar atento aos significados e usos
dos termos e ao conteúdo ideológico neles presente. O uso da expressão mundo livre (free
world) para referir-se a um território, por exemplo, dá a entender que existe um outro
mundo escravizado. Seria esta a intenção do redator? É necessário, então, buscar o termo
mais concreto, isto é, que tenha mais relação com a realidade.

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O texto jornalístico

Em sua origem, o termo texto tem relação com o termo tecido. O texto é um tecido
de palavras combinadas a fim de transmitir algo de uma determinada forma. No caso do
jornalismo, algo que se vivenciou, apurou, percebeu sobre fenômenos que dizem respeito
tanto a quem escreve quanto a quem lê. Caracterizado pelo grande volume de informações
factuais, o texto jornalístico tem como objetivo principal informar e não persuadir,
partindo-se do pressuposto de que o que a notícia relata o acontecimento em si, “(...)
expõe um fato novo ou desconhecido, ou uma série de fatos novos ou desconhecidos do
mesmo evento, com suas circunstâncias” (LAGE, 2005, p. 73).

A objetividade e a clareza são características do texto jornalístico. Entre os


conselhos de Lage (2005) para o desenvolvimento de uma matéria, estão as regras
estabelecidas pelo filósofo inglês Paul Grice para a conversação: em relação à quantidade,
a informação deve ser suficiente, nem mais, nem menos do que o necessário. Quanto à
qualidade, deve ser verdadeira ou, então, ao menos uma hipótese verossímil. Quanto à
relação, deve ser de relevância social e, quanto à maneira, ser concisa, ordenada e não
deixar espaços para ambiguidade.

Como um tecido, ele precisa ser bem amarrado. Sua estrutura dependerá de fatores
como o meio (Internet, Impresso, Rádio, TV), a periodicidade (jornalismo factual ou não
factual), o público ao qual se destina (geral ou específico) etc.. No jornalismo diário, em
que há compromisso com o factual, com a velocidade da noticia tanto para quem escreve
quanto para quem lê, o texto tende a ser mais superficial do que numa revista, por
exemplo, em que predomina a “pauta fria”, isto é, a notícia não inédita. O texto do
jornalismo diário, em geral, é construído a partir de pautas quentes, isto é, fatos recentes
ou que ainda estão em curso. Com estrutura de pirâmide invertida, encadeia frases curtas
e orações em ordem direta (sujeito, verbo, objeto). Há predominância do lead clássico e
uso moderado de recursos linguísticos como intercalações, travessões, parênteses e
locuções verbais com mais de dois verbos (estava fazendo) (LAGE, 2005).

Por sua vez, no jornalismo não factual, feito a partir de “pautas frias”, que é o que
nos interessa no presente trabalho, busca-se profundidade mais do que atualidade ou
ineditismo. Há mais tempo para a apuração e a escrita, mas exige-se que conteúdo do
texto seja mais detalhado do que o da notícia diária e sua forma, criativa (SCALZO,

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2011). Em geral, pautas frias dão origem a reportagens, que se diferenciam da notícia pela
profundidade da investigação e pelo relato mais detalhado.

Por tratar-se de texto de profundidade, o não factual permite mais liberdade na


escrita e mais flexibilidade no uso de técnicas como a da pirâmide invertida, técnica em
que se inicia pelo fato mais importante, seguindo em ordem decrescente, ao longo do
texto.

Como não segue necessariamente a pirâmide invertida, a pauta fria concede ao


jornalista uma maior liberdade para a construção do texto – algo que, por sua
vez, desafia a sua criatividade e capacidade de inovar e sair do lugar comum 2.

A abertura da matéria

Em jornalismo diário, lead (ou lide) é a abertura da notícia, o primeiro parágrafo. Traz as
principais informações e, em geral, responde às perguntas básicas o quê, quem, quando, onde,
como e por quê, ordenadas a partir do item considerado mais importante. É uma proposição
completa, com sujeito, predicado e circunstâncias, escrita no pretérito perfeito, no futuro ou, mais
raramente, no presente (LAGE, 2006). Em geral, um lead não se inicia com um verbo. Além
desta forma clássica, pode assumir alguns formatos diferenciados, dependendo do meio
de divulgação, do público, da periodicidade etc.. LAGE (2005) elenca tipos de leads de
jornais diários. O lead resumo, geralmente utilizado em matérias de continuação (suítes),
em que se pretende atualizar o leitor sobre o tema.

Dois dias depois do terremoto que atingiu 20 cidades turcas, o número de


mortos elevou-se a sete mil, o de feridos a 30 mil, uma grande refinaria estava
ainda em chamas e crescia o temor de que o caos dos transportes e serviços
públicos cause fome e epidemias. Há dez mil desaparecidos e cem mil
desabrigados LAGE (2005, p. 76).

Outro exemplo é o lead flash, caracterizado por uma frase curta que abre o texto.

Um homem foi crucificado na Arábia Saudita. Acusado de matar a mãe,


Ahmed Mustafá sofreu a pena imposta a Cristo em algum lugar do moderno
reino dos Saud, sem testemunhas. A pena foi aplicada há oito dias e não se
informou qual a duração do suplício LAGE (2005).

2
BETTI, Luiz. Pauta quente e pauta fria. Disponível em: <http://brasil.estadao.com.br/blogs/em-
foca/pauta-fria-e-pauta-quente/

5
Segundo o autor, há mais de dez tipos diferentes de lead, todos baseados no
clássico. No jornalismo de “pauta fria”, em que se permite uma maior liberdade de
escrita, é possível utilizar, por exemplo, o lead narrativo, no qual as informações vão
sendo acrescentadas até que se atinja o clímax, de forma parecida com o texto literário.

Lucas Malasuerte, 47 anos, era, a despeito do nome, um sujeito feliz: casado,


com dois filhos, casa própria e um bom emprego como ferramenteiro em São
José dos Campos, São Paulo. Em janeiro passado, perdeu o emprego; em
março, a mulher o deixou, levando os filhos, vendeu a casa em maio, para pagar
dívidas. Ontem, Lucas escreveu um bilhete de despedida, enfiou um revólver
na boca e se matou, em frente ao guichê do Sine, a agência de empregos do
Ministério do Trabalho (LAGE, 2005, p. 77).

Outro tipo de lead é o interpretativo, em geral mais usado em jornalismo


especializado, cuja característica é fazer uma análise do fato. No caso abaixo, citado por
Lage (2006, p. 39), além de informar que o astrônomo T. Stormsky havia comunicado
que certas partículas não obedecem à lei da gravitação universal, a notícia também dá a
dimensão da importância da descoberta: a transformação desta lei em uma qualquer.

A Lei da Gravitação Universal, um dos mais sólidos princípios da Física,


tornou-se uma teoria como outra qualquer, sujeita a ser considerada caso
particular de outra teoria mais abrangente.

O astrônomo inglês T. Stormsky demonstrou ontem, em São Paulo, ao atento


auditório do IV Congresso Mundial de Astronomia, que certas partículas, em
regiões remotas do Universo, simplesmente desobedecem à Lei.

O uso de leads que fujam do convencional é uma forma de atrair o leitor para o
texto não factual. O elemento a ser destacado depende do enfoque que se quer se dar ao
tema, trazendo, além da informação, a interpretação, a análise e o comentário. É o que
ilustra o exemplo acima. SCALZO (2011) chama a atenção para a importância de se
encontrar novos focos para abordar os temas quando se trata de um texto de revista, o que
demanda originalidade. Este texto precisa ter “(...) um tempero a mais” (SCALZO, 2011),
que leve a uma leitura prazerosa, o que não é exigido do diário. Além da informação,
também busca suprir as necessidades de lazer e entretenimento.

O desenvolvimento da matéria

Sublead

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Escrever um bom texto é também uma habilidade e, como tal, pode ser
desenvolvida. A primeira regra, segundo Scalzo (2011) é conhecer o leitor, pois as
notícias não factuais em geral estão nos veículos como as revistas e os semanários,
direcionados a públicos específicos. A partir desta informação, se encontrará a forma
mais adequada de se dirigir a ele, as informações mais relevantes e a linguagem a usar.

O bom texto depende também de uma visão ampla do veículo. Em impressos como
jornais e revistas (ou mesmo em sites), em que se faz uso de elementos gráficos, leva
vantagem o redator que já visualiza o texto editado, pensando que tipos de dados
poderiam ser expressos por meio de recursos gráficos como mapas ou por fotografias etc.

Como na “pauta fria”, o diferencial está mais no enfoque dado ao tema do que em
sua novidade ou atualidade, a apuração é um momento importante. Tanto que, apesar de
recomendar a prática da leitura e da escrita constantes e o estudo da língua como dicas
para escrever bem, Scalzo (2011) ressalta que um bom texto depende menos da boa escrita
do que da investigação exaustiva. A seleção das informações e os cruzamentos feitos entre
elas será o diferencial e, para isso, além de estilo, é preciso conteúdo.

Quem tem o maior número de informações qualificadas na mão tem muito


mais chances de escrever uma boa reportagem, um bom artigo ou mesmo uma
boa notícia do que aquele que simplesmente escreve bonito. Não adianta querer
ficar bordando um texto vazio de informação. Jornalismo não é literatura.
Quando tenta ser, arrisca-se a soar como literatice (SCALZO, 2011, p. 57).

Com tal volume de informações, será mais fácil alcançar o encadeamento de ideias
necessário para que o texto seja compreensível (SCALZO, 2011). De acordo com a
autora, há uma alta taxa de leitores que abandonam a notícia no meio da leitura. Entre as
causas estão os textos “truncados”, isto é, sem sequência. Na estrutura, esta sequência é
dada com o uso do sublead, um lead secundário, que complementa as informações do
primeiro ou traz novos fatos. No exemplo abaixo, o sublead está em negrito:

O Google celebra neste domingo, com um doodle, o 128º aniversário da poeta


brasileira Cora Coralina (1889 - 1985), uma das mais importantes escritoras
brasileiras. Contista do cerrado, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas,
que utilizava o pseudônimo Cora Coralina, nasceu em Cidade de Goiás e
começou a escrever e publicar em jornais locais seus primeiros textos aos
14 anos. Apesar disso, seu primeiro livro foi publicado somente em 1965,
aos 76 anos: Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais3.

3
“Cora Coralina, a poeta do cerrado, é homenageada pelo Google”. Fonte: Jornal El País on line.

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De acordo com o autor, o desenvolvimento da notícia se dá com base nos papéis
temáticos que estão contidos no lead, isto é, nos temas que ele aborda. A divisão do texto
se dará de acordo com alguns subtemas previamente definidos de acordo com o conteúdo
obtido na apuração. Na notícia acima, temos quem celebra (a empresa Google), a
homenageada (Cora Coralina), o local/espaço onde se dá a homenagem (a Internet) e
motivo da homenagem (o fato de ela ser uma das principais poetisas brasileiras). Quem
celebra, homenageada, local/espaço da homenagem e motivo da homenagem são papéis
temáticos segundo os quais o texto pode ser dividido. Ou seja, no caso da notícia citada,
o segundo parágrafo pode abordar aspectos da homenageada, como no trecho abaixo:

Depois disso, Cora Coralina ainda publicou mais três livros: Meu livro de
cordel (1976) e Vintém de cobre - Meias confissões de Aninha(1983), ambos
de poesia, e um de contos: Estórias da Casa velha da ponte (1985). Após a sua
morte, outros cinco livros foram publicados, dois deles para o público infantil.

Mas, se poderia, também, tratar do local onde a homenagem é feita, a Internet, onde
poderia destacar o contraste entre o ambiente natural do cerrado e o espaço de alta
tecnologia da Internet. Ou poderia falar sobre quem celebra, a empresa Google,
destacando os diferentes tipos de homenagens feitas por meio do doodle e o significado
desta ferramenta para a linguagem da empresa etc. O enfoque dependerá dos objetivos do
texto.

Documentação

Um texto compõe-se de vários leads, sendo o primeiro o mais importante. Cada um


deles possui a sua documentação, isto é, os dados comprobatórios da afirmação ou
questão colocada, em geral reunidos em entrevistas, documentos, fotos etc., que serão
ordenados de acordo com a argumentação. A distribuição da documentação pelo texto irá
depender dos objetivos. Segundo Lage, ela pode ser organizada de acordo com a sucessão
dos fatos, com sua ordem lógica, em ordem crescente ou decrescente com relação a algum
fator definido etc.. A distribuição dos parágrafos no texto expositivo obedecerá a uma
série de tópicos levantados durante a apuração. Em uma matéria sobre o lambadão,
poderiam ser feitas, por exemplo, as seguintes formulações:

a) Existe um circuito de shows e festas que envolvem o lambadão que mobilizam


um público maior do que o que atrai, atualmente, o público de música sertaneja.

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b) Práticas populares como o lambadão em geral têm pouco apoio do governo do
poder público.
c) Existe uma demanda por formação entre os produtores culturais deste segmento,
o que dificulta seu acesso a recursos disponibilizados via editais.

No caso da proposição a, a documentação serão as informações sobre este circuito


de shows de lambadão, como faturamento de bilheteria, quantidade de shows mensais,
público estimado do lambadão e da música sertaneja. A proposição b poderia ser
comprovada com o levantamento dos recursos investidos pelos diferentes governos, áreas
contempladas, sobre investimentos feitos em outras partes do país e do mundo ou em
outros períodos históricos. A proposição c pode ser documentada pelo levantamento,
junto a produtores culturais do segmento, sobre as áreas em que necessitam de mais
capacitação; por meio de números sobre as capacitações já ofertadas etc..
Encadear ideias também é não ser contraditório e construir um discurso coerente.
Para isso, é preciso estabelecer relações coesivas entre os itens do discurso, o que
acontece quando “(...) a interpretação de um item do discurso depende de outro, ou de
outros itens, estabelecendo vínculos de referência, substituição, elipse, conjunção e
coesão léxica” (LAGE, 2005, p. 48).
Para SCALZO (2011), o encadeamento de um texto é importante especialmente
para matérias longas, em que há maior risco de perda de interesse por parte do leitor. Ela
aconselha a planejar a matéria e a reescrevê-la quantas vezes forem necessárias. Fugir de
lugares comuns e fórmulas fáceis é outra dica, uma maneira de renovar o texto, tornando-
o atrativo. Pronto do texto, é aconselhável lê-lo em voz alta, o que auxilia a “(...) eliminar
os cacófatos4 e os problemas de períodos muito longos, que farão o leitor perder o fôlego”
(SCALZO, 2011, p. 77) e pedir a alguém que o leia e critique.

O texto no jornalismo cultural

Além de atender às demandas do jornalismo em geral no caráter informativo e de


prestação de serviço, as matérias jornalísticas da editoria de cultura exigem abordagens
interpretativas mais próximas das reportagens de revistas semanais e da crítica cultural.
Porém, PIZA (2004) enfatiza a tendência, nas redações contemporâneas, de querer igualá-

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Conjunto ou junção de palavras cuja proximidade pode levar a uma pronúncia que provoca ambiguidade
ou seja inconveniente.

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lo aos das demais editorias5. Nos cadernos diários, devido à velocidade e à
superficialidade, a crítica fundamentada tem pouco destaque e o foco são temas referentes
às celebridades, cinema norte-americano, TV e música pop e as reportagens são, na
verdade, textos de divulgação de eventos. Pouca diferença é vista pelo autor nos cadernos
semanais, onde observa a ausência de um tratamento mais reflexivo às temáticas, por um
lado, e uma tendência à erudição excessiva, por outro. Esta situação, segundo o autor, se
deve a uma inferiorização desta editoria, considerada irrelevante ou “mais fácil” que as
que lidam com notícias mais “complexas”, como as de política e polícia.

Outro conflito apontado pelo autor é o direcionamento do jornalismo cultural à


indústria do entretenimento, que ele observa pela retração de matérias sobre as linguagens
artísticas ou intelectuais e pela expansão de temas como moda e gastronomia, cujo apelo
de marketing é maior. Ele critica também a submissão da pauta ao calendário dos eventos,
a tendência das matérias e reportagens promocionais, que anunciam estreias de filmes,
peças teatrais etc., mas que não acompanham o desenvolvimento destas ações culturais
para saber seu impacto e significado para o público. E ressalta a importância da
abordagem na construção do texto, já que um tema de entretenimento pode ser tratado
com seriedade e um tema erudito, com leveza.

Por ter um peso na construção do texto, a opinião do jornalista cultural deve ser
muito bem fundamentada e não pode ser confundida com a avaliação estética sobre uma
obra ou artista. A relação de afetividade com as fontes não pode interferir negativamente
na execução da matéria, enfraquecendo ou impedindo uma crítica, por exemplo. Seguem
abaixo algumas dicas do autor para a composição de uma boa matéria de cultura:

a) Evitar clichês ou chavões, como “separar o joio do trigo” e “procurar agulha em


um palheiro”;
b) Pensar em fotos, títulos, chapéus, isto é, interagir com a diagramação;
c) Traduzir os jargões do segmento, dando preferência a termos mais populares, a
fim de não afastar o leitor menos familiarizado com o tema;
d) Ser criativo, sem descuidar da objetividade jornalística, utilizando-se de
recursos como a metáfora e o humor;
e) Dar um fechamento ao texto.

5
O autor foi repórter e editor de cadernos de Cultura como a Ilustrada, da Folha de São Paulo, o Caderno
2 de O Estado de São Paulo e a Gazeta Mercantil.

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Referências bibliográficas

BETTI, Luiz. Pauta fria e pauta quente. Disponível em:


http://brasil.estadao.com.br/blogs/em-foca/pauta-fria-e-pauta-quente/.
LAGE, Nilson. Linguagem jornalística. São Paulo: Ática, 2002.
____________. “O texto moderno”, “O texto das notícias impressas” e “O texto da
reportagem”. In: Teoria e técnica do jornalismo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
____________. A estrutura da notícia. São Paulo: Ática, 2006.
SCALZO, Marília. “O que é um bom jornalista de revistas?” e “O que é uma boa
revista?”. In: Jornalismo de revista. São Paulo: Contexto, 2011.
PACHECO, Ronaldo. Aos 112 anos, Antônio Mulato terá ajuda de MT para ser
reconhecido como “o mais velho do mundo”. Disponível em:
http://www.olhardireto.com.br/conceito/noticias/exibir.asp?id=13870&noticia=aos-112-
anos-antonio-mulato-tera-ajuda-de-mt-para-ser-reconhecido-como-o-mais-velho-do-
mundo

PIZA, Daniel. “Introdução” e “Contraclichê”. In: Jornalismo cultural. São Paulo:


Contexto, 2004.

Exercício

Trata-se de um exercício para ajudar a definir quais serão os ganchos do texto. Com
base na sugestão de pauta realizada para a disciplina e nos dados já levantados, construir
uma lista de tópicos a serem abordados no texto. Veja o seguinte exemplo, proposto por
Lage (2005, p. 45) a respeito de uma matéria sobre o mercado de microcomputadores,
voltada para os consumidores:

“Pesquisando o assunto ou entrevistando entendidos [...], selecionam-se essas


quatro versões de fatos ou juízos de valor com os quais todos concordam ou que, por
alguma razão, admitem:

a) O mercado caracteriza-se pela rápida obsolência dos produtos.

b) O diferencial de preço é muito grande entre os novos lançamentos e os aparelhos


de modelos mais antigos.

c) A escolha depende do uso que se pretenda dar ao microcomputador”.

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