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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia – Processos psicossociais

Joel Cardoso Azevedo Amaral

CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA DO TRABALHO PARA A INVESTIGAÇÃO


DE ACIDENTES EM UMA EMPRESA DE MINERAÇÃO DO MUNICÍPIO DE BELO
HORIZONTE

Belo Horizonte
2017
Joel Cardoso Azevedo Amaral

CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA DO TRABALHO PARA A INVESTIGAÇÃO


DE ACIDENTES EM UMA EMPRESA DE MINERAÇÃO DO MUNICÍPIO DE BELO
HORIZONTE.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação Stricto Sensu em Psicologia – Processos
Psicossociais da Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção
de título de Mestre em Psicologia.

Orientador: Prof. Dr. José Newton Garcia Araújo


Área de concentração: Processos Psicossociais

Belo Horizonte
2017
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Amaral, Joel Cardoso Azevedo


A485c Contribuições da psicologia do trabalho para a investigação de acidentes em
uma empresa de mineração do município de Belo Horizonte / Joel Cardoso
Azevedo Amaral. Belo Horizonte, 2016.
198 f. : il.

Orientador: José Newton Garcia de Araújo


Dissertação (Mestrado) - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Programa de Pós-Graduação em Psicologia.

1. Trabalho e trabalhadores - Aspectos psicológicos. 2. Acidentes do trabalho.


3. Segurança do trabalho - Legislação. 4. Prevenção de Acidentes. 5. Saúde
ocupacional. I. Araújo, José Newton Garcia de. II. Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. III. Título.

CDU: 613.62
14

Joel Cardoso Azevedo Amaral

CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA DO TRABALHO PARA A INVESTIGAÇÃO


DE ACIDENTES EM UMA EMPRESA DE MINERAÇÃO DO MUNICÍPIO DE BELO
HORIZONTE.

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação Stricto Sensu em Psicologia – Processos
Psicossociais da Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção
de título de Mestre em Psicologia.

___________________________________________________________________________
Prof. Dr. José Newton Garcia de Araújo – PUC Minas (Orientador)

___________________________________________________________________________
Prof. Dr. Luiz Gonzaga Chiavegato Filho – UFSJ (Banca Examinadora)

___________________________________________________________________________
Prof. Dr. Manoel Deusdedit Júnior – PUC Minas (Banca Examinadora)

Belo Horizonte, 10 de Março de 2017


AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, Antenor e Maria Lúcia, por sempre me apoiarem e incentivarem nos
meus estudos.

A minha esposa Petra, por todo apoio, paciência e compreensão durante todo o
período de realização desse trabalho.

Ao Prof. Dr. José Newton Garcia Araújo, meu orientador, pela sua paciência e respeito
aos meus limites de produção desse material, mas acima de tudo pela inspiração como
profissional preocupado e engajado com as questões relativas ao trabalho humano.

Aos meus gestores e colegas de trabalho que de alguma forma contribuíram para
conclusão desse trabalho. Principalmente, por acreditarem no potencial da Psicologia do
Trabalho nas práticas de prevenção de acidentes.

Aos meus irmãos Rafael e Gabriel, por compreenderem os períodos de ausência e por
serem inspirações na construção de um mundo melhor.

À PUC Minas por ter aberto suas portas mais uma vez e ter proporcionado um
crescimento pessoal e profissional.

Aos funcionários do programa representados pelo Marcelo, Diego e Cláudia.

Aos professores do mestrado por todos os ensinamentos, deslocamentos e construção


de novas linhas de entendimento da pesquisa em Psicologia.

A CAPES pelo apoio e financiamento para realização dessa pesquisa.

A Deus e ao Padre Libério, por me iluminarem nessa caminhada.


RESUMO

A presente pesquisa insere-se no campo da Psicologia do Trabalho e teve inspiração em


algumas contribuições metodológicas da Clínica da Atividade para analisar situações de
trabalho do setor da mineração. O campo escolhido para a investigação foi uma mineradora de
grande porte, localizada na região metropolitana de Belo Horizonte. A indústria da mineração
é considerada um segmento de trabalho altamente periculoso, com altos índices de acidentes,
inclusive fatais, em quase todos os seus processos. Como método para recolhimento de dados,
foram utilizados elementos das autoconfrontações simples e cruzadas, instrução ao sósia e
oficina de imagens, visando conhecer de forma mais ampla o trabalho real dos profissionais,
assim como as possíveis contribuições desses métodos na prevenção de acidentes
ocupacionais. Foi também realizada uma pesquisa documental, principalmente sobre o
histórico de acidentes ocupacionais na empresa, além de entrevistas com os participantes. Esta
pode ser também considerada uma pesquisa-intervenção na medida em que ela resultou em
propostas e na efetivação de ações, levantadas pelos trabalhadores, visando o aumento da
segurança. Foi realizada a filmagem de uma situação de trabalho no setor de implantação de
projetos de infraestrutura da mineradora. Na utilização do método, percebeu-se que o saber
dos trabalhadores, muitas vezes essencial para a prevenção de acidentes de trabalho, acaba
não sendo valorizado pela organização nem incorporado formalmente. Esses trabalhadores
constroem seu saber no exercício cotidiano de suas atividades, de onde eles extraem ações
importantes para a prevenção de acidentes. Alguns conflitos entre o saber investido dos
executantes e o saber constituído dos técnicos de segurança ocupacional e de gestão ficam
evidentes nas discussões. Esta investigação demostra que a prevenção de acidentes
ocupacionais é um campo de estudo complexo, que necessita ser ainda mais amplamente
investigado.

Palavras-chaves: Acidentes de Trabalho. Prevenção de Acidentes. Psicologia do Trabalho.


Clínica da Atividade.
ABSTRACT

The present research is part of the Occupational Psychology field and it was inspired by some
methodological contributions from the Clinic of Activity in order to analyze work situations
in the mining sector. The field chosen for the investigation was a large mining company
located in the metropolitan area of Belo Horizonte. The mining industry is considered a highly
perilous line of work with high accident rates, including fatal ones, in almost all its processes.
As a method for data collection, the study used elements of simple and crossed auto-
confrontations, instruction to a double, and image workshop, in order to learn more about the
actual work done by professionals, as well as the possible contributions of these methods in
the prevention of occupational accidents. A documentary research was also carried out,
mainly on the history of occupational accidents in the company, in addition to interviews with
the participants. This can also be considered an intervention-research insofar as it resulted in
proposals and enforcement of actions, raised by workers, aiming to increase the safety. The
filming of a work situation in the implementation sector of infrastructure projects of the
mining company was carried out. In the method usage, it was perceived that the knowledge of
workers, often essential for the prevention of work accidents, ends up not being valued by the
organization nor formally incorporated. These workers obtain their knowledge in the daily
exercise of their activities, from where they extract important actions for the prevention of
accidents. Some conflicts between the invested knowledge of the executants and the
constituted knowledge of the technicians of occupational safety and management are evident
in the discussions. This investigation shows that the prevention of occupational accidents is a
complex field of study, which still needs to be widely investigated.

Keywords: Work Accidents. Accident Prevention. Occupational Psychology. Clinic of


Activity.
LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1 - Localização da frente de obra..............................................................................98


FIGURA 2 - Equipamento de Proteção Individual.................................................................103
FIGURA 3 - Equipamento de Proteção Individual.................................................................103
FIGURA 4 - Equipamento de Proteção Individual.................................................................104
FIGURA 5 - Equipamento de Proteção Individual.................................................................104
FIGURA 6 – Amarração do cabo de aço................................................................................136
FIGURA 7 – Acionamento da talha........................................................................................137
FIGURA 8 – Posicionamento do profissional........................................................................139
FIGURA 9 – Aperto dos clipes do cabo de aço......................................................................140
FIGURA 10 – Medição do espaço entre clipes.......................................................................144
FIGURA 11 – Linha morta do cabo de aço............................................................................145
FIGURA 12 – Entrega da ferramenta.....................................................................................147
FIGURA 13 – Subido na tela de aço.......................................................................................147
LISTA DE GRÁFICOS

GRÁFICO 1 - Valores de produção da mineração (1978–2011, bilhões de US$)...................69


GRÁFICO 2 - Empresas mineradoras no Brasil por Região....................................................69
GRÁFICO 3 - Brasil por Estado – 2011 (em %)......................................................................73
GRÁFICO 4 - Fatalidades na Mineração por Ano...................................................................78
GRÁFICO 5 - Causa de Fatalidades (2015).............................................................................79
GRÁFICO 6 - Fatalidades por Países (2015)...........................................................................79
GRÁFICO 7 - Total de efetivo do projeto por mês (2014-2015)...........................................100
GRÁFICO 8 - Número de Acidentes por ano (2014-2015)....................................................111
GRÁFICO 9 - Total de ações levantadas nas investigações e análises de acidentes..............112
GRÁFICO 10 - Registro de Condição Insegura (2014-2016)................................................113
GRÁFICO 11 - Registro de Condição Insegura Mensal (2015-2016)....................................113
GRÁFICO 12 - Registro de Diálogos de Segurança Anual....................................................114
GRÁFICO 13 - Registro de Diálogos de Segurança (2015-2016)..........................................114
LISTA DE QUADROS

QUADRO 1 - Classificação da Indústria Extrativa..................................................................70


QUADRO 2 - Participantes da pesquisa...................................................................................88
LISTA DE SIGLAS

ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas

AET Análise Ergonômica do Trabalho

ANAC Agência Nacional de Aviação Civil

ART Análise de Risco da Tarefa

AT Acidente de Trabalho

CGT Comando Geral dos Trabalhadores

CIPA Comissão Interna de Prevenção de Acidentes

CISAT Comissão Intersindical de Saúde e Trabalho

CLT Consolidação das leis do trabalho

CNC Confederação Nacional do Comércio de Bens

CNF Confederação Nacional das Instituições Financeiras

CNI Confederação Nacional da Industria

CNT Confederação Nacional do Transporte

CPMN Comissão Permanente Nacional do setor Mineral

CUT Central Única dos Trabalhadores

DIESAT Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos


Ambientes de Trabalho

DNPM Departamento Nacional de Produção Mineral

EPI Equipamento de Proteção Individual

EUA Estados Unidos da América

FHOS Fatores Humanos Organizacionais de Segurança Industrial

FS Força Sindical

FUNDACENTRO Fundação Centro Nacional de Segurança, Higiene e Medicina do


Trabalho

GRI Global Reporting Initiative

GRT’s Grupos de Encontro de Trabalho


ICMM International Council on Mining and Metals

IFC International Finance Corporation

IRATA Industrial Rope Access Trade Association

ISO International Organization for Standardization

MTE Ministério do Trabalho e Emprego

NBR Norma Brasileira

NR Norma Regulamentadora

NRM Normas Reguladoras da Mineração

OHSAS Occupational Health and Safety Assessment Services

OIT Organização Internacional do Trabalho

OMS Organização Mundial de Saúde

ONU Organização das Nações Unidas

OSHA Occupational Safety and Health Administration

PEL Permissible Exposure Limit

PIB Produto Interno Bruto

SCAT Systematic Cause Analysis Technique

MT Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do


Trabalho

SST Saúde e Segurança no Trabalho

SUS Sistema Único de Saúde

TCLE Termo de Consentimento Livre Esclarecido

UNCTAD Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................23
2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA SEGURANÇA DO TRABALHO.................................27
2.1 Evolução da noção de Acidentes no Brasil, um pouco de legislação............................27
2.2 Concepção de Acidentes...................................................................................................29
2.2.1 Os Acidentes Maiores e Menores....................................................................................29
2.2.2 Teoria da Pré-disposição Individual para os acidentes....................................................31
2.2.3 Modelo Sequencial de Acidentes.....................................................................................32
2.2.4 Epidemiologia dos Acidentes...........................................................................................34
2.2.5 Modelo de Energia e das Barreiras..................................................................................35
2.2.6 Modelo dos Acidentes Organizacionais...........................................................................39
2.2.7 Teoria Sociológica dos Acidentes....................................................................................41

3 PSICOLOGIA DO TRABALHO E SUAS CLÍNICAS....................................................45


3.1 Delimitando a centralidade do trabalho.........................................................................45
3.2 Os caminhos da Psicologia Organizacional e do Trabalho...........................................46
3.3 O Crescimento da Análise do Trabalho Francofônica..................................................49
3.4 Psicodinâmica do Trabalho..............................................................................................53
3.5 Psicossociologia..................................................................................................................54
3.6 Ergologia............................................................................................................................55
3.7 Clínica da Atividade..........................................................................................................58
3.8 Convergência e Divergências entre as Clínicas do Trabalho........................................61

4 O SETOR DE MINERAÇÃO.............................................................................................67
4.1 Mineração no Brasil..........................................................................................................67
4.2 Mineração em Minas Gerais............................................................................................71
4.3 Vida Útil da Mina..............................................................................................................73
4.4 Mineração e Segurança do Trabalho..............................................................................75

5 PERCURSO METODOLÓGICO......................................................................................81
5.1 Contextualização e Metodologia......................................................................................81
5.2 Análise de Implicação.......................................................................................................89

6 CONTEXTUALIZAÇÃO E DISCUSSÕES......................................................................91
6.1 A mineradora.....................................................................................................................91
6.2 O projeto de manutenção da Cava..................................................................................94
6.3 Investigação de Acidentes...............................................................................................109
6.4 Conhecendo alguns acidentes no projeto......................................................................116
6.4.1 Acidente 1 – Desplacamento de material.......................................................................117
6.4.2 Acidente 2 – Queda de Altura........................................................................................118
6.4.3 Acidente 3 – Esticamento de Cabo de Aço....................................................................120
6.5 Contexto e primeiros aprendizados...............................................................................122
6.6 Conhecendo a atividade..................................................................................................123
6.7 Iniciando o Grupo de Discussão....................................................................................125

7 ANÁLISE DE DADOS......................................................................................................151
7.1 Conhecimento dos trabalhadores..................................................................................151
7.2 A conexão entre os acidentes..........................................................................................157
7.3 Práticas de Saúde e Des(saúde) Ocupacional...............................................................162
7.4 Práticas de reconhecimento e punição..........................................................................164
7.5 Organização do Trabalho...............................................................................................169
7.6 Culpabilização.................................................................................................................173
7.7 Terceirização...................................................................................................................176
7.8 Adaptação........................................................................................................................178
7.9 Participação dos trabalhadores na análise...................................................................180

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................185

REFERÊNCIAS....................................................................................................................189
23

1 INTRODUÇÃO

A ideia para realizar esta pesquisa, teve como fundamento, o desejo de aumentar a
minha compressão das possíveis contribuições da Psicologia do Trabalho para os processos de
investigação e análise de acidentes em uma mineradora, na região de Belo Horizonte.

Em minha experiência profissional, venho atuando em uma mineradora da região de


Belo Horizonte há cinco anos, e tenho como uma das minhas principais atividades participar
de investigações e análises dos acidentes ocupacionais dessa empresa. Nessas experiências,
tem sido possível conhecer mais um pouco das circunstâncias que levam a um acidente
ocupacional e da dificuldade em encontrar ações para eliminar esses acidentes no futuro.

Dados da Previdência Social nos mostram que, nos anos de 2004 até 2008, ocorreram
no Brasil mais de 2.884.798 acidentes de trabalho. Segundo o Guia de Análise de Acidentes
do Trabalho (2010), estima-se que esses acidentes possam custar mais de 4% do PIB (Produto
Interno Bruto) brasileiro por ano.

De acordo com o Anuário de Acidentes de 2015, da revista Proteção, a mineração está


entre as áreas que possuem as mais altas taxas de acidentes entre setores de atividade
econômica no país. Somente no ano de 2014, segundo as taxas de incidentes divulgadas pelas
empresas e reportadas ao Ministério do Trabalho, foram 2.597 acidentes a cada 100 mil
trabalhadores.

A indústria no Brasil, e aqui se inclui a mineração, empregava cerca de 25% dos


trabalhadores com carteira assinada em nosso país, no ano de 2014, e foi responsável por mais
de 43% do total de acidentes que ocorreram em todo o território nacional. Somente na
indústria extrativa (mineração), tivemos 7.139 acidentes ocupacionais no ano de 2014. Em um
cálculo rápido, estamos falando que a cada 90 minutos tivemos um acidente de trabalho com
um profissional do segmento de mineração em nosso país.

Diante disso, pensar no cenário de acidentes ocupacionais no Brasil faz-se importante


e urgente, tanto pelo impacto econômico que isso representa quanto pelos danos pessoais,
incluindo perda de vidas dos trabalhadores no território nacional.

O acidente de trabalho costuma ser um sintoma de determinado setor e mostra alguns


tipos de disfunções organizacionais. Seguindo as recomendações da Norma Reguladora n. 4,
de 8 de junho de 1978, a mineradora costuma analisar e registrar o ocorrido em documentos
específicos, com suas histórias e características. Mas, durante esse tempo participando dessas
24

investigações e análises, foi possível perceber que existem elementos que ainda escapam aos
investigadores, gestores e os próprios acidentados.

Um acidente acaba gerando muitos documentos e ações para as empresas, que se


preocupam em reconstruir informações que possam explicar o que ocorreu e, para isso, fazem
uso de entrevistas, fotos, imagens de câmeras de monitoramento, procedimentos e tudo mais
que possa estar disponível.

No entanto, apesar do esforço em reconstruir todos os fatos que levaram ao acidente,


tenho verificado que as ações que são propostas para eliminar essas situações são de difícil
implementação, ou não têm eficácia, e acabam não sendo efetivas na prevenção de acidentes
com características semelhantes.

Segundo indicação do Guia de Análise de Acidentes do Trabalho (2010), documento


elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, que orienta sobre como conduzir a
investigação/análise de acidentes, em uma análise é importante que se verifique o
envolvimento dos vários níveis hierárquicos da empresa e que seja valorizada a participação
dos trabalhadores.

As empresas, apesar de gastarem energia e dinheiro para promoverem a prevenção de


acidentes, encontram dificuldade em fazer com que os trabalhadores possam participar e
serem ouvidos nas investigações e análises. Normalmente, o foco é voltado apenas para os
profissionais que estavam diretamente envolvidos no acidente.

Apesar de possuir diversas informações sobre os acidentes, as companhias acabam não


tendo acesso e não se aprofundando no trabalho real, que é realizado pelos seus funcionários.
Como essas possuem dificuldades em conhecer o trabalho real, consequentemente encontram
obstáculos para compreender o que aconteceu nos acidentes e quais seriam as ações mais
eficazes para a prevenção.

Em sua maioria, os resultados dessas investigações que não conhecem o trabalho real,
e os conhecimentos práticos dos trabalhadores, acabam por culpabilizar os acidentados,
apontando para eles as principais causas dos erros/desvios no acidente.

Esse estudo foi baseado nas contribuições da Psicologia do Trabalho, principalmente


aquela alinhada com as correntes críticas francesas que priorizam o estudo da construção do
saber dos trabalhadores, as diferenças entre trabalho real e prescrito e os possíveis
adoecimentos psíquicos no trabalho.
25

Como é premissa da Psicologia do Trabalho, sabemos que o mundo do trabalho é


complexo. A prevenção de acidentes ocupacionais, assim como as ciências que estudam o
mundo do trabalho, necessitam da interlocução de todos os saberes para que possa evoluir.

O que é esperado dos resultados desse estudo é que possam ajudar os trabalhadores,
gestores, pesquisadores, investigadores e outros envolvidos no mundo do trabalho a conhecer
um pouco mais das controvérsias, renormalizações e riscos presentes no cotidiano do trabalho
na mineração e como as suas práticas de investigação e análise de acidentes podem ser
ampliadas no sentido da prevenção.

O objetivo desse trabalho foi conhecer como a Psicologia do Trabalho pode contribuir
na ampliação dos processos de investigação e análise de acidentes, em uma empresa de
mineração localizada na região de Belo Horizonte. Uma das tarefas consistia em delimitar
como se desenvolvem as práticas de investigação e análise de acidentes, as políticas de
segurança e sua organização.

Esse trabalho apresenta uma parte inicial, que delimita a evolução da história da
segurança do trabalho no mundo e no Brasil, as principais concepções de acidentes e uma
delimitação da Psicologia do Trabalho e suas clínicas.

Posteriormente, fazemos uma apresentação do segmento da indústria da mineração,


passando por um panorama dessa área no Brasil e sua interlocução com a segurança do
trabalho.

Apresentamos os procedimentos metodológicos que orientaram essa investigação, sua


contextualização e andamento, passando para uma análise de implicação do pesquisador com
esse estudo.

Em seguida, fazemos uma apresentação da mineradora estudada e sua estruturação e


passamos para a explicação de um projeto específico dessa mineradora, durante o processo de
fechamento de uma mina, voltado para a manutenção de uma de suas cavas.

A parte final do trabalho consiste na apresentação de uma discussão coletiva da


atividade de esticamento de cabo de aço, atividade em que um profissional teve um acidente
ocupacional na empresa contratada pela mineradora e que foi o gatilho iniciador de todas as
nossas discussões e caminhos dessa investigação.

Para fecharmos esse estudo, buscamos fazer uma análise crítica das principais
informações encontradas, usando como embasamento as teorias de concepções de acidentes e
26

as clínicas do trabalho. Por último, apresentamos uma conclusão, apontando as limitações e


possibilidades dessa investigação.
27

2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA SEGURANÇA DO TRABALHO

2.1 Evolução da noção de acidentes no Brasil, um pouco de legislação

Uma pergunta inquietante que vem fazendo parte das minhas discussões diárias com
profissionais da área de segurança, principalmente após participar de algumas análises de
acidentes, é: os acidentes ocupacionais podem ser previsíveis? Esse acidente é um
acontecimento casual, imprevisível e que não poderia ser imaginado por ninguém, nem
mesmo na pior das hipóteses? A noção, definição e concepção de acidentes não é algo
simples, principalmente quando pensamos nos acidentes dentro das empresas, mas não
impede que devamos pensar e retomar uma pergunta inicial: afinal, o que é um acidente?

A noção de acidente já foi amplamente discutida no mundo do trabalho,


principalmente na Europa, em torno da responsabilidade dos patrões. Após a Revolução
Industrial e os avanços da indústria, já foram estabelecidas leis que explanavam sobre o que
seria a definição de acidentes de trabalho. No entanto, no Brasil, o primeiro decreto
legislativo, de 1919, define o acidente como:

Art. 1° Consideram-se accidentes no trabalho, para os fins da presente lei: Ia) o


produzido por uma causa subita, violenta, externa e involuntaria no exercicio do
trabalho, determinado lesões corporaes ou perturbações funccionaes, que constituam
a causa unica da morte ou perda total, ou parcial, permanente ou temporaria, da
capacidade para o trabalho (BRASIL, 1919).

No parágrafo da referida lei, será explicado o papel dos empregadores em relação aos
acidentes, e é possível perceber que o texto é bastante claro e diretivo em seu conteúdo:

Art. 2º O accidente, nas condições do artigo anterior, quando occorrido pelo facto do
trabalho ou durante este, obriga o patrão a pagar uma indemnização ao operario ou á
sua familia, exceptuados apenas os casos de força maior ou dolo da propria victima
ou de estranhos. (BRASIL, 1919).

É possível observar que essa primeira lei acidentária, apesar de responsabilizar ao


empregador, não previa nenhum tipo de ressarcimento ou indefinição para os profissionais
acidentados. Essa fazia com que os trabalhadores que se acidentavam no exercício de seu
trabalho fossem os responsáveis por documentar e provar a culpa dos empregadores; a
responsabilidade do acidente era direcionada para os trabalhadores, a não ser que esses
conseguissem provar que existia a responsabilidade do patrão (COHN et al.1985).
28

Em 1934, é publicada a segunda lei acidentária, e nessa existe uma mudança


significativa sobre a definição do direito do trabalho como um ramo independente
juridicamente, ressaltando que o trabalhador está sujeito a riscos diferentes no mundo do
trabalho. Assim, alinhado a uma linha de pensamento sobre acidentes já em vigor em alguns
países da Europa, fica determinando que os patrões deveriam indenizar os empregados
acidentados no trabalho, sem a necessidade de demostrar a culpa. Os montantes de
indenização passaram a ser determinados de acordo com a gravidade da lesão que o
trabalhador sofreu. Nesse contexto, segundo COHN e outros (1985), surge o que esses autores
chamam de a “doutrina do risco profissional” que, ao contrário de países como França,
Espanha, Alemanha, entre outros, perde sua importância ao ser implantada no Brasil. O
acidente de trabalho é visto como inerente a qualquer atividade; isso acaba sendo um subsídio
dos empregadores e a forma de sua não responsabilização em relação ao ocorrido. Assim, é o
executante que estava desatento, fadigado ou foi descuidado.

Com o Decreto-lei 7.036 acontecem duas mudanças importantes em torno da


legislação: uma relativa ao conceito de acidente de trabalho e outra em relação à inserção do
seguro-acidente em caráter obrigatório. Em relação ao conceito de acidente, a mudança é
simples, mas diz muito do lugar que o acidente passa a ocupar no ambiente de trabalho.
Assim, altera-se a noção de acidente no trabalho, dentro da legislação, passando para acidente
do trabalho, ou seja, esse advém, é fruto do trabalho.

Art. 1° Considera-se acidente do trabalho, para os fins da presente lei, todo aquele
que se verifique pelo exercício do trabalho, provocando, direta ou indiretamente,
lesão corporal, perturbação funcional, ou doença, que determine a morte, a perda
total ou parcial, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho (BRASIL,
1944).

A segunda mudança visa solidificar o papel do Estado como mediador dos conflitos
entre os empregadores e os trabalhadores e se consolidar como o distribuidor dos benefícios
sociais. Assim, essa referida legislação divide “a responsabilidade pelo acidente entre o
empregador – obrigado a proporcionar a seus empregados a máxima segurança e higiene no
trabalho – e o empregado – que pode incorrer em imprudências” (COHN et al. 1985, p. 142).

Em setembro de 1967, com o Decreto-lei 5.361, é definida a transferência do seguro-


acidente das seguradoras particulares para a previdência social. Assim, o Estado passa a ter
um papel de assegurar temporariamente e/ou permanentemente o trabalhador em caso de
acidentes e a fornecer a pensão para a família da vítima de acidente de trabalho. Essa nova
29

legislação, mais uma vez, auxilia que os empregadores sejam retirados do papel de
responsabilidade nos casos de acidentes.

Com o Decreto de lei n. 6.367, existe uma mudança na qual o pagamento das
prestações de acidente passa a ser responsabilidade do estado e dos trabalhadores e os
empregadores passam a fornecer apenas contribuições. O empregado passa a ter um auxílio
mensal fornecido pelo Estado em caso de acidentes e, assim, mais uma vez, o empregador
acaba saindo do papel de responsável na geração de acidentes ocupacionais, ocupando-se
apenas de um papel de auxílio ao Estado nesse processo.

2.2 Concepção de Acidentes

2.2.1 Os Acidentes Maiores e Menores

Ao longo dos últimos anos, surgiram diversos estudos e publicações dos mais variados
tipos sobre o que seriam os acidentes e, em particular, sobre suas origens (ALMEIDA, 2001,
2003, 2006; DWYER, 2006; HOLLNAGEL 1996; LLORY, 2001; REASON 1999;
RASMUSSEN, 2007).

Fazer um recorte das concepções de acidentes evidentemente não é uma tarefa fácil,
isso devido a alguns fatores, principalmente à falta de bibliografia acessível no país e também
à baixa produção sobre esse tema. Não espero, nesse momento, conseguir fazer um recorte de
todas as concepções, o que notadamente demandaria muito mais do que uma dissertação.
Sendo assim, a intenção, nesse primeiro momento, é fazer um recorte rápido e superficial
sobre as principais concepções de acidentes de trabalho, principalmente aqueles acidentes que
podem ser considerados acidentes menores.

Os acidentes maiores são aqueles que têm sido denominados pela literatura, de
acidentes organizacionais; esses em sua maioria envolvem eventos de grandes proporções e
com grande impacto/visibilidade para toda a sociedade, como exemplo temos o acidente
nuclear de Chernobyl, a explosão da nave espacial Challenger, o acidente nuclear de
Fukushima no Japão e a Explosão da Refinaria da British Petroleum no estado do Texas
(EUA). Os acidentes menores, ou pequenos acidentes, seriam aqueles de caráter individual
que em sua maioria acontecem nas empresas, envolvendo poucos trabalhadores e que acabam
30

não tendo muita visibilidade ou divulgação, esses são fatalidades, amputações, cortes e
torsões que acontecem cotidianamente em diversos segmentos e diferentes negócios.

Apesar de, na maioria das vezes, serem colocados em posições de dualidade, acredito
que exista uma conexão entre os dois tipos de acidentes (maiores/menores) e que alguns
assuntos podem perpassar as discussões tanto de um quanto do outro. O ponto de
convergência, nesses tipos de acidentes, acredito que esteja nos aspectos não explícitos,
aqueles que estão na ordem do invisível e que não necessariamente estão vinculados com as
causas imediatas, estando em conexão com as chamadas causas-raízes, por exemplo nos
fatores denominados de organizacionais. O foco desse trabalho está voltado para a discussão
das concepções de acidentes menores, no entanto, uma das teorias que abordam os acidentes
maiores também será brevemente discutida, visto que, em relação com as outras, essa
apresenta algumas definições e conceituações que vão de encontro com a temática desse
trabalho, principalmente nos trabalhos desenvolvidos no Brasil por Almeida et al. (2014).

Em relação às concepções de acidentes menores serão apresentadas as abordagens das


teorias da propensão de acidentes, a teoria do dominó, o modelo epidemiológico dos
acidentes, a perspectiva de transferência de energia e barreiras e a teoria sociológica dos
acidentes do trabalho. Alinhado a teoria dos acidentes maiores incluiremos á teoria dos
acidentes organizacionais. Naturalmente, os autores que serão abordados não se referem a
todos que explicitam e trabalham com a temática, no entanto são representantes que podem de
alguma forma apresentar pequenas facetas do que essas concepções explicitam.

Falar sobre o assunto “acidentes” nunca é uma tarefa fácil ou simples, afinal, esses
fazem parte de situações que ocorrem em nossa sociedade há muitos anos, senão milhares.
Um acidente acontece em vários locais de nosso cotidiano, ao assistir a um simples jornal
somos constantemente bombardeados de informações de acidentes que acontecem nas mais
diversas esferas. Atualmente, as pessoas se acidentam se divertindo com suas famílias,
praticando esportes, viajando e nos mais diversos ambientes possíveis, o motivo e
consequências desses eventos são diversos e suas causas difíceis de serem diagnosticadas.

Estamos correndo riscos e sujeitos a perigos durante toda nossa existência, no entanto
o que nos interessa nessa discussão e revisão são aqueles acidentes que estão relacionados ao
trabalho, aqueles que acontecem no exercício do trabalho ou no deslocamento que os
profissionais necessitam de fazer para chegar até esse.
31

Nesse momento, optamos por utilizar a expressão “concepção de acidentes”, pois essa
é usada por Almeida (2003) buscando referir-se aos fundamentos dos mais variados
entendimentos do que poderíamos considerar um acidente. Naturalmente, o principal marco
para a discussão sobre acidentes está refletido no capítulo anterior e possui relação direta com
a Revolução Industrial e seu desenvolvimento, e as consequências que essa levantou no
mundo do trabalho.

2.2.2 Teoria da Pré-disposição Individual para os acidentes

Essa talvez tenha se posicionado como a primeira teoria científica sobre acidentes de
trabalho. O modelo estabelecia que características individuais, tanto no nível biológico quanto
psicológico, seriam as causas fundamentais para que os empregados se acidentassem em seu
trabalho. A teoria, de forma geral, irá defender que existem diferenças individuais que podem
levar alguns sujeitos a se acidentarem mais do que outros, assim, para prevenir acidentes seria
necessário ter o trabalhador certo no local correto.

Em uma revisão da literatura, os que podem ser considerados como os principais


influenciadores da construção dessa teoria foram Greenwood e Woods (1919). Os autores
apresentam um trabalho que foi iniciado em 1917, e encomendado pela Secretary of State for
Home Affairs (Secretária de Estado para Assuntos Internos) do Governo Britânico para o
Department of Scientific and Industrial Research (Departamento de Investigação Cientifica e
Industrial), com o objetivo de realizar um estudo sobre a Fadiga Industrial, a fim de conhecer
seu funcionamento. Dentre os diversos resultados apontados no estudo, esses autores irão
sinalizar que existiria uma certa pré-disposição individual, de acordo com cada sujeito, para se
acidentar. Assim, alguns perfis de profissionais estariam mais “dispostos” a terem acidentes
no trabalho. Esse é um dos apontamentos dos autores sobre uma análise de uma tabela que
correlacionava o perfil de mulheres estudadas com acidentes de trabalho na época. Assim,
essa é a conclusão desses autores:

Esses resultados indicam que a variação da suscetibilidade individual ao "acidente" é


um fator extremamente importante na determinação da distribuição, tão importante
que, dada a experiência de um período, pode ser praticável prever com razoável
32

precisão a média dos acidentes entre os indivíduos em um período (GREENWOOD;


WOODS, 1919, p. 9, tradução nossa).1

Nesse estudo, a perspectiva dos ingleses teve o foco no estudo dos erros humanos e
dos consequentes comportamentos que podem ter levado a esses acidentes. Esse pode ser
entendido como um dos principais estudos iniciais que inseriam os indivíduos como sendo as
principais causas dos acidentes; eles tinham como causa as falhas técnicas e humanas. Esses
serviram de base para diversos debates, principalmente da recém-inaugurada psicologia
industrial da época, e também para a busca das características individuais dos trabalhadores
que podem ter relação com os acidentes de trabalho.

2.2.3 Modelo Sequencial de Acidentes

A teoria do dominó explicita que os acidentes estariam diretamente relacionados a


fatores humanos no trabalho, esses seriam o elo fraco da corrente do sistema produtivo que
levaria aos acidentes. Nessa teoria, os comportamentos, que se manifestariam em atos
inseguros, deveriam ser controlados para que se viabilizasse a prevenção de acidentes. Aqui,
temos a admissão da engenharia como importante ramo de conhecimento para conseguir
legitimar a prevenção.

Em 1931, é feita a publicação do livro denominado de Industrial Accident Prevention:


A Scientific Approach, de autoria de Herbert Heinrich. O autor era empregado de uma
companhia de seguros e desenvolveu uma teoria sobre as causas dos acidentes. Um dos
principais pontos de seu estudo era o fato de que 88% dos acidentes estariam relacionados
com questões referentes aos seres humanos. A teoria agradou muito aos empresários da época,
pois colocava-os em uma posição em que não estavam mais responsáveis pelos acidentes com
os seus profissionais, deixando-os numa posição de isenção em relação aos acidentes de
trabalho (DWYER, 2006).

A teoria de Heinrich, que ficou conhecida como “teoria do dominó”, foi a base da
construção do modelo sequencial de acidentes: o evento indesejado, ou acidente, seria a

1
These results indicate that varying individual susceptibility to “accident” is an extremely important factor in
determining the distribution, so important that given the experience of one period it might be practicable to
foretell with reasonable accuracy the average allotment of accidents amongst the individuals in a subsequent
period.
33

última parte de uma sequência de eventos. O nome de teoria do dominó advém da


comparação do autor entre a sua teoria, a queda dos dominós e de como um ato inseguro
terminaria em um acidente; nesse caso a comparação é com a queda de um último dominó.

A teoria teria sido importante, pois possibilitava a justificativa para as empresas da


contratação de serviços e profissionais da área de engenharia de segurança. Caso o acidente
fosse a última parte da sequência de eventos, era importante atuar para que não existissem
atos perigosos dos trabalhadores e também que não tivessem falhas mecânicas nos processos.
Os acidentes são comparados com situações de produção, assim como as falhas de produção
produzem perdas e necessitam de estudos da engenharia para eliminação, assim também
seriam com os acidentes. A teoria do dominó serviria de base para a criação dos padrões e
procedimentos para o trabalho; se a causa estava na sequência de eventos, seria necessário que
fossem criados dispositivos e situações que evitassem que alguns eventos acontecessem. Essa
será a base para a criação dos conceitos de ato inseguro (relacionado ao comportamento
humano) e condições inseguras (relacionadas ao ambiente, máquinas, etc.). Dessa forma, as
formulações de Heinrich se infiltrarão nos governos, associações com fins de padronização e
também na Organização Internacional do Trabalho e se tornarão algumas das bases para os
conhecimentos sobre acidentes e sua prevenção no trabalho (ALMEIDA, 2001; DWYER,
2006; HOLLNAGEL 1996).

Até agora, a visão tradicional a respeito dos acidentes é que tem prevalecido, essa
refere-se à concepção unicausal, que é construída por correntes científicas consideradas como
deterministas e cujas pesquisas buscam construir e demostrar relações de causa e efeito nos
acidentes. Esse tipo de teoria costuma apresentar como resposta para a causa dos acidentes, na
maioria das vezes, os erros humanos ou atos inseguros e esteve e continua presente na
mentalidade dos profissionais de segurança, inclusive no Brasil. Neste ponto de vista, o ser
humano deve ser controlado, com a utilização de benefícios e punições, com o objetivo
principal de construir a uniformização, construção de padrões, etc. Assim, “as análises
recomendam punir comportamentos não-desejados e premiar aqueles desejados. É a estratégia
do chicote e da cenoura” (ALMEIDA, 2006, p.187).

Esse modelo de entendimento dos acidentes é alvo de críticas por diversos autores,
principalmente em relação à eficácia limitada dessa concepção para lidar com a complexidade
dos acidentes atuais (ALMEIDA; FILHO 2007; ASSUNÇÃO; LIMA, 2003; DWYER, 2006;
LLORY, 2001).
34

2.2.4 Epidemiologia dos Acidentes

Os períodos de depressão, logo após a quebra da bolsa de 1929 e depois dos conflitos
armados mundiais, que envolveram as duas grandes guerras, fizeram com que os acidentes no
trabalho tivessem uma redução, pelo menos em termos de registros, assim como a
preocupação dos governos e empresas com o tema. Os modelos utilizados até então bastavam
para contribuir na redução do número de acidentes, no entanto, no período pós-guerra, esses
números de acidentes voltaram a crescer significativamente. As economias em recuperação
necessitam de mão de obra o mais disponível possível, e de maneira produtiva, assim, a
preocupação com a construção de novos modelos de prevenção de acidentes retorna e
favorece a criação e desenvolvimento de novos modelos (DWYER, 2006).

Em 1949, John Gordan preconiza os princípios do que ficou conhecido como modelo
epidemiológico dos acidentes, no material intitulado The Epidemiology of Accidents (A
epidemiologia dos Acidentes), que tinha como princípio e base o recolhimento e uso de dados
estatísticos para a construção de um modelo de explicação dos acidentes de trabalho.

Não é tão apreciado que os acidentes, que são distinguidos de doenças, são
igualmente suscetíveis a esta abordagem, esses acidentes são um problema de saúde
das mesmas populações e estão em conformidade com as mesmas leis biológicas dos
processos das doenças e evidenciam um comportamento comparável. Isto é
facilmente indicado por uma comparação inicial de doenças e acidentes de acordo
com a frequência distribuída no tempo, uma característica epidemiológica estabelece
valor em relação a outras, e estabelece um tipo diferente de comportamento
(GORDON, 1949, p. 504, tradução nossa).2

Gordon (1949) propõe um modelo em que realiza uma analogia entre as ocorrências
de acidentes e a forma como as doenças acometem determinadas populações. O autor defende
um ponto de vista de que os acidentes, assim como os problemas de saúde das populações
como câncer, diabetes e anomalias genéticas, são problemas de saúde pública e, por isso,
deveriam receber um tratamento epidemiológico com características parecidas, através de
dados recolhidos de base estatística e realização de análises dos comportamentos dessas
populações. O autor utiliza-se de alguns fatores para fundamentar a abordagem

2
It is not so generally appreciated that injuries, as distinguished from disease, are equally susceptible to this
approach, that accidents as a health problem of populations conform to the same biologic laws as do disease
processes and regularly evidence a comparable behavior. This is readily indicated by an initial comparison of
representative diseases and injuries according to frequency distributions in time, an epidemiologic characteristic
of established value in separating one mass disease from another, and in distinguishing kinds of behavior.
35

epidemiológica dos acidentes, esses seriam: o Agente - Agent (informações dos acidentes),
Ambiente - Environment (condições físicas, biológicas e socioeconômicas) e Ambiente Físico
– Physical Environment (características físicas e regionais do local que possibilitam a
ocorrência do acidente).

A abordagem epidemiológica permitiria checar alguns tipos de semelhanças entre as


doenças ao longo do tempo e essa verificação seria importante e poderia melhorar a
compreensão e análise dos acidentes, possibilitando medidas de prevenção adequadas. As
medidas de prevenção adequadas poderiam ser desdobradas em programas públicos para a
prevenção de acidentes e contaria com a colaboração de especialistas de diversas áreas.

Outros pesquisadores continuaram a desenvolver os estudos de Gordon. Esse modelo,


apesar de menos conhecido nas empresas atualmente, em algumas circunstâncias volta a ser
discutido nas organizações, principalmente no contexto contemporâneo no uso do que
chamam de metadados3 e da previsibilidade de acidentes.

Dessa forma, conhecer as formas de se comportar de uma determinada população, por


exemplo, os trabalhadores, com foco nos aspectos de repetição de doenças, acidentes e
afastamentos serão a base para a construção de estratégias que possam contribuir na
prevenção de acidentes, segundo essa abordagem.

2.2.5 Modelo de Energia e das Barreiras

A partir dos anos de 1960 em diante, começaram a surgir muitas teorias e modelos
explicativos dos acidentes, cada vez mais elaborados que os modelos anteriores. Um dos
modelos que se tornaram mais conhecidos é o de Energias e das Barreiras, que foi introduzido
por Gibson, em 1961. Esse modelo considera que os acidentes devem ser vistos como
resultados de uma transferência de energia do sistema. Desse posicionamento teórico, surge
na teoria a proposta de que, para evitar que se tenha acidentes, é preciso atuar com barreiras
de proteção. Assim, conhecendo e atuando nas barreiras é possível evitar o acidente. As falhas

3
Metadados, ou Metainformação, são dados sobre outros dados. Um item de um metadado pode dizer do que se
trata aquele dado, geralmente uma informação inteligível por um computador. Os metadados facilitam o
entendimento dos relacionamentos e a utilidade das informações dos dados. Em algumas empresas, atualmente,
são utilizadas informações de metadados com fins de determinação de acidentes de trabalho.
36

nas barreiras podem ser interpretadas como falhas nos sistemas e merecem atenção
(ALMEIDA, 2006).

Com a finalidade de contraporem as teorias de unicausalidade, outras correntes


buscaram entender quais outros fatores podem estar presentes na origem dos acidentes,
criando, assim, o que podemos chamar de uma concepção multicausal. Nessa concepção, a
ênfase está nas interações que o trabalhador mantém com todos os outros componentes da
situação de trabalho em que está exposto. Essa concepção de entendimento do acidente foi a
principal responsável pelo surgimento dos chamados modelos sequenciais. Assim, os
acidentes passaram a ser investigados com a premissa de se realizar uma reconstrução da
sequência de fatos ocorridos que culminaram na situação indesejada.

Apesar de termos uma significativa evolução dos estudos sobre os acidentes, ainda
assim, nessa proposta de modelo, o aspecto humano, ou seja, o trabalhador, acabava ainda
enfatizado como o principal responsável pela ocorrência; nessa maneira de enxergar os
acidentes, o principal culpado ainda era apenas o trabalhador acidentado (LLORY, 2001;
NEBOIT, 2003).

Não é possível deixar de ressaltar a contribuição dessa concepção para uma mudança
em uma relação determinística, que considerava tudo como causa-efeito, nos estudos sobre
acidentes. Assim, foi possível uma ampliação do entendimento sobre acidentes,
principalmente na abertura para alguns focos diferentes como: a multiplicidade de fatores
existente em um acidente e as relações dinâmicas que acontecem entre esses.

Essa concepção contribuiu para o entendimento de que o fenômeno dos acidentes


possui origem em causas múltiplas. Assim, um único evento poderia, afinal, ter diversas
causas. No entanto, nessa visão o acidente ainda é percebido como algo que está fora do
processo produtivo; ele não é percebido como algo resultante do próprio trabalho e de sua
organização.

Segundo Almeida (2006), o modelo de acidentes e erro humano desenvolvido por


James Reason é baseado no modelo de barreiras e placas de proteção, assim o acidente advém
do momento em que as brechas nas placas se encontram, ou se posicionam de tal forma que o
evento poderia atravessar todas essas barreiras e terminar no sistema, que seria efetivamente o
acidente.

Esse modelo de entendimento dos acidentes, apresentado por Reason (1990; 1997;
2006), ficou conhecido como Modelo de Acidentes do Queijo Suíço (The Swiss cheese model
37

of system acidentes). O modelo usa a analogia do queijo suíço e das barreiras de proteção para
explicar a ocorrência dos acidentes.

Defesas, barreiras, e salvaguardas ocupam uma posição chave no sistema abordado.


Sistema de alta tecnologia possuem muitas camadas defensivas: alguns são de
engenharia (alarmes, barreiras físicas, desligamentos automáticos, etc.), outros
dependem das pessoas (cirurgiões, anestesistas, pilotos, operadores da sala de
controle, etc.), e ainda outros dependem de procedimentos e controles
administrativos. Sua função é proteger as vítimas potenciais e ativos dos perigos
locais. A maioria desses controles é muito efetiva, mas sempre existem alguns
pontos fracos. Em um mundo ideal cada camada defensiva permanece intacta. No
mundo real, no entanto, elas (barreiras) são mais parecidas com fatias de um Queijo
Suíço, tendo muitos buracos, embora ao contrário do queijo, estes buracos estão
continuamente abrindo, fechando e mudando sua localização. A presença de buracos
em qualquer uma "fatia" normalmente não causa um resultado ruim. Usualmente,
isso só acontece quando os buracos das várias barreiras momentaneamente se
alinham e permitem uma oportunidade para trajetória do acidente, colocando em
risco as vítimas em contato (REASON, 2006, p. 769, tradução nossa).4

Sobre errar, James Reason (1997) sinalizará que faz parte da própria natureza da
condição humana, e que isso não é possível de alterar. Os profissionais e trabalhadores podem
melhorar seu desempenho e conseguirem de alguma forma diminuir essa quantidade de erros,
mas dificilmente conseguirão eliminá-los de forma total. Nessa perspectiva do autor, até
mesmo os melhores profissionais em suas áreas podem cometer algum tipo de erro. Essa é
uma condição que todos deveríamos aceitar quando refletimos sobre os indivíduos em seu
ambiente de trabalho.

O autor possibilitará uma mudança significativa nas concepções de acidentes que


permeavam o mundo do trabalho, principalmente com o conceito de que se queremos
aumentar a segurança nos ambientes profissionais, não devemos investir apenas em níveis
psicológicos e/ou individuais dos trabalhadores, mas sim em uma melhor concepção dos
locais de trabalho, das condições dos equipamentos, daquilo que pode ser entendido como de
origem técnica.

4
Defences, barriers, and safeguards occupy a key position in the system approach. High technology systems
have many defensive layers: some are engineered (alarms, physical barriers, automatic shutdowns, etc.), others
rely on people (surgeons, anaesthetists, pilots, control room operators, etc.), and yet others depend on procedures
and administrative controls. Their function is to protect potential victims and assets from local hazards. Mostly
they do this very effectively, but there are always weaknesses. In an ideal world each defensive layer would be
intact. In reality, however, they are more like slices of Swiss cheese, having many holes—though unlike in the
cheese, these holes are continually opening, shutting, and shifting their location. The presence of holes in any
one “slice” does not normally cause a bad outcome. Usually, this can happen only when the holes in many layers
momentarily line up to permit a trajectory of accident opportunity—bringing hazards into damaging contact with
victims.
38

Reason, em sua teoria, ainda fará uma significativa diferenciação entre os Erros Ativos
e Erros Latentes. Os erros ativos estariam relacionados com os trabalhadores que atuam nas
linhas de frente das empresas, que estão executando as atividades empiricamente, naqueles
erros que são aparentes. Os erros latentes estão relacionados com os erros que ficam
adormecidos ou em espera; esses são cometidos na maioria das vezes pelos elaboradores do
sistema (engenheiros, projetistas, planejadores), profissionais da manutenção (quando
efetivamente não fazem a manutenção preventiva adequada), diretores (quando tomam
decisões que impactam no trabalho, revisão de mão de obra, orçamentos, dentre outros)
(ALMEIDA, 2006).

Assim, na teoria do Erro Humano, proposta e desenvolvida por Reason, não é possível
prever e atuar nas interações realizadas entre os erros ativos e erros latentes, fazendo com que
alguns tipos de acidentes sejam impossíveis de serem previstos ou antecipados. O
entendimento do autor é que os erros ou violações dos trabalhadores são inevitáveis e
inerentes à própria condição humana e, portanto, não são as principais causas dos acidentes.
Nesse balizamento teórico, as investigações de acidentes não podem se limitar à
culpabilização dos trabalhadores pelos seus erros, falhas ou violações, pelo contrário, o
mesmo esforço que existe nas empresas na identificação dos erros ativos deve ser direcionado
pelas organizações para a identificação e verificação de ações/medidas corretivas nos erros
chamados latentes (REASON, 2009).

As propostas de Reason quanto ao erro humano já apresenta uma guinada nas teorias
sobre os acidentes, principalmente no sentido de diminuir a responsabilidade dos profissionais
que se acidentam. No entanto, foram construídas críticas quanto ao modelo, críticas essas que
apontam algumas limitações no entendimento sobre o erro humano (RASMUSSEN, 1997).

Na proposta de Rasmussem (1997), intitulada como Risk Management in a dynamic


society (Gestão de Risco em uma Sociedade Dinâmica), seria necessário que a abordagem dos
acidentes não estivesse focada nos comportamentos que podem levar os trabalhadores a
errarem ou a violarem situações em seu contexto de trabalho. Principalmente em nosso atual
contexto, onde mudanças cada vez mais rápidas tornam o cenário mais dinâmico e complexo,
mudanças principalmente de base tecnológica, que têm impactado nas características dos
ambientes de trabalho. Momento onde existe um crescimento das escalas das indústrias, as
plantas estão cada vez maiores, com um rápido crescimento dos meios de informação e
comunicação que fazem com que pequenas decisões possam ter escalas globais, em um
39

ambiente de competição e agressividade existente entre as empresas na disputa por aumento


de suas partes no mercado.

O problema é que essas situações de trabalho levam a muitos graus de liberdade aos
atores para a escolha de meios e o tempo para a ação, mesmo quando os objetivos do
trabalho são brilhantes e a instrução da tarefa ou procedimento são padronizados, em
termos de uma sequência de atos, não podem ser usados como um de referência de
ação (RASMUSSEM, 1997 p. 187, tradução nossa).5

Isto significa que o problema do erro humano tem de ser entendido em suas causas e
não apenas nos erros dos profissionais, ou nos lapsos e violações. Em um contexto complexo
como o atual, às vezes os melhores padrões podem não ser suficientes para que os
trabalhadores consigam realizar suas tarefas. Para o autor, uma mudança no quadro de
prevenção de acidentes deve passar por uma mudança na forma de perceber o ambiente
organizacional.

2.2.6 Modelo dos Acidentes Organizacionais

Existem discussões em estudos recentes que apontam que os acidentes, acidentes que
podem ser considerados maiores e os que se enquadram nos níveis individuais, estariam
relacionados ao contexto histórico das organizações, principalmente ao que se refere às
decisões e estratégias que são definidas pelas empresas nos mais altos níveis hierárquicos
(ALMEIDA, 2006, LLORY, 2001, RASMUSSEN, 1997; REASON, 1997).

O modelo dos acidentes organizacionais vai entender que os erros serão inevitáveis no
sistema, e isso será base para a construção da teoria dos acidentes organizacionais, partindo-se
dessa premissa é importante mudar o foco do fator humano nas análises dos acidentes.
(ALMEIDA, 2006).

Atribuir aos seres humanos a principal causa dos acidentes continua sendo uma visão
redutora e que não colabora para o aprofundamento de um tema que é muito complexo.
Afinal, se assumirmos que os seres humanos são falhos e que podem errar, estabelecer
estratégias que visem acabar com o erro dos seres humanos parece contraditório. Essa

5
The problem is that all work situations leave many degrees of freedom to the actors for choice of means and
time for action even when objectives of work are fulfilled and a task instruction or standard operation procedure
in terms of a sequence of acts cannot be used as a reference of judging behavior.
40

maneira de conceber o acidente, como um fenômeno da ordem da simplicidade, foi


denominada de abordagem ou paradigma tradicional (ALMEIDA & FILHO, 2007).

Segundo Michel Llory (2001), existe um conceito geral enraizado no mundo do


trabalho de que os seres humanos seriam a parte frágil do sistema justamente por poderem
errar. No entanto, da mesma forma que se afirma esse ponto com muita certeza, existiria uma
confiança exacerbada de que o fator técnico, ou que se refere às máquinas, poderia ser
confiável. Assim, para o autor, acontece uma evolução desse conceito quando:

A evolução ocorreu a partir de uma dupla constatação irrefutável: a insuficiência de


um tal modo de explicação e o fato de que os sistemas técnicos, as máquinas, não
eram tão confiáveis quanto se desejava crer. As panes, as rupturas, os desgastes
precoces obrigaram a criar um neologismo neutro, asséptico, mas inapelável: o de
“fora de especificação”, para significar que o incidente que ocorreu não fora previsto
no momento de concepção (LLORY, 2006, p. 14).

Os acidentes, com base na abordagem organizacional, podem ser entendidos como o


resultado final da forma de funcionamento de uma organização. A degradação do sistema de
segurança de uma determinada empresa irá se escancarar e vir à tona na medida em que
acontece o acidente organizacional. Esse será um possível desvelador dos desgastes que estão
encobertos (LLORY; MONTMAYEUL, 2014).

Para os autores, conhecer os acidentes em profundidade é o que pode contribuir para


um desenvolvimento das empresas.

Analisar os acidentes em profundidade constitui a via real para compreender o


funcionamento das organizações e repensar não a interrupção de toda produção
industrial ou seu banimento para regiões longínquas do globo, mas os fundamentos
de uma organização industrial mais segura, melhorando as condições de trabalho de
todo o seu pessoal e preservando o meio ambiente (LLORY; MONTMAYEUL,
2014, p. 32).

Partindo desse pressuposto, a teoria organizacional dos acidentes vem buscando


analisar grandes acidentes industriais e a construção dos fatores organizacionais que levaram
a ele. Existe um esforço dessa teoria em retirar a demasiada ênfase que passou a ser colocada
no erro humano como o principal causador dos acidentes. Para tanto, recorrendo a
documentos das investigações, tenta demostrar os fatores relacionados à cooperação,
coordenação, comunicação, dentre outros que precisam ser considerados nas análises de
acidentes.
41

Assim, nas próprias palavras dos autores, quais os caminhos devemos seguir e qual é o
esforço da teoria organizacional dos acidentes, principalmente dos esquecimentos dos outros
fatores envolvidos em um sinistro industrial.

Esse “esquecimento” decorre, além disso, de uma concepção demasiado


regulamentar e normativa do trabalho, fundamentada no respeito aos procedimentos,
que ignora as especificidades, as dificuldades do trabalho, as restrições que são
impostas aos operadores e suas condições de trabalho, das quais podem emergir,
mais facilmente, os erros (LLORY; MONTMAYEUL, 2014, p. 16).

Essa forma de conceber o acidente como fenômeno simples foi chamada de


abordagem, ou paradigma tradicional, por diversos autores (ALMEIDA; FILHO, 2007).

A teoria dos acidentes organizacionais considera que as causas são múltiplas, além do
envolvimento dos trabalhadores, também devemos pensar nas dinâmicas das operações,
crescimentos das tecnologias e diversificação das tarefas.

2.2.7 Teoria Sociológica dos Acidentes

Por último, como principal representante dessa teoria, temos Tom Dwyer (1989,
2006). Na concepção desse autor, os acidentes de trabalho são resultados das relações sociais,
que estariam em desajuste, fora de seu funcionamento padrão, além das diferenças de poder
que podem existir dentro de um ambiente organizacional. Sendo assim, segundo a
conceituação teórica do autor, as causas dos acidentes estariam depositadas nas relações dos
empregadores e trabalhadores. Para tanto, ele aponta que “as relações das pessoas com seu
trabalho se dão por meio de relações sociais de trabalho e que essas existem em três níveis na
empresa – de recompensa, de comando e organizacional – assim como por um meio não-
social do indivíduo-membro” (DWYER, 2006 p. 131).

Na teoria sociológica dos acidentes, através de uma melhoria no gerenciamento das


relações sociais que acontecem no trabalho, poderia se iniciar uma efetiva prevenção de
acidentes. Assim, os acidentes são considerados situações de erro pontuais, produzidas em
nível organizacional, como resultado das interações positivas e negativas das quatros
dimensões apresentadas.

Para facilitar o entendimento, será feita uma explanação rápida desses quatro níveis,
baseado em Dwyer (2006).
42

O nível de recompensa: assinala que os empregadores procuram mobilizar os


trabalhadores, fazendo uso das recompensas, assim podem existir conflitos entre os
empregados e seus gestores, de acordo com a maneira como os profissionais percebem essas
recompensas. Esses podem ser categorizados em três diferentes formas: 1) Incentivos
Financeiros; 2) Aumento ou ampliação das cargas de trabalho, por exemplo, uso de horas
extras ou participação em resultados; 3) Recompensas Simbólicas. O terceiro nível está
relacionado com itens como prestígio, status, situações que não estão no nível material e nem
financeiro.

O nível do comando está relacionado com a forma como os empregadores se


relacionam com os trabalhadores, como esses fazem para gerenciar a execução das tarefas nas
equipes. Essa é, também, produzida por três tipos de relações sociais: 1) o autoritarismo
(restrição da autonomia dos trabalhadores, uso de violência como demissão); 2) a
desintegração dos grupos de trabalho (rotatividade das equipes) e 3) a servidão voluntária
(falta de crítica dos trabalhadores aos patrões e situações de risco no trabalho).

O nível organizacional, na teoria sociológica de acidentes, está relacionado com as


formas como os empregadores fazem a coordenação e divisão das atividades de trabalho,
principalmente no item que se refere à concepção do trabalho, da divisão e posição em que
são colocados os trabalhadores de redução intelectual. As divisões desse nível são: 1)
subqualificação (falta de qualificação adequada para o trabalho); 2) rotina (repetição de
atividades); 3) desorganização (preparação e planejamento para atividade)

Por último, o nível indivíduo-membro, que é considerado pelo autor como um nível
não social. Existem três dimensões que compõem a autonomia dos indivíduos em relação aos
aspectos sociais, essas seriam o nível fisiológico, psicológico e cognitivo. Nesse contexto, é
apontado que o indivíduo possui uma autonomia de ação que não necessariamente está
vinculada ao nível social. Esse talvez seja o nível em que o autor apresenta uma maior
dificuldade em definir e explicitar ao que realmente se refere; o pano de fundo parece ser a
existência de itens individuais que possam estar na construção básica dos acidentes, que não
se apresentam nos níveis sociais. De forma mais genérica, o que o autor tenta delimitar nesse
item é que existe uma autonomia do ser humano que escapa ao aspecto social. Existe uma
autonomia do trabalhador, um poder de agir que é somente dele e escapa do nível social.

O posicionamento e influência das quatro dimensões apontadas podem ter variações


mediante os locais e contexto que os trabalhadores estariam expostos; essa variação é
derivada diretamente das relações estabelecidas entre os profissionais e seus patrões. O
43

principal ponto da teoria está em compreender que quanto maior for o desbalanceamento de
um desses níveis em relação aos outros, maior será a quantidade de acidentes que possuem
como causas-raízes aspectos dessa temática.
45

3 PSICOLOGIA DO TRABALHO E SUAS CLÍNICAS

3.1 Delimitando a centralidade do trabalho

Um ponto importante na apresentação dessa dissertação refere-se a situar onde se


localiza o campo teórico da pesquisa, esclarecendo alguns pontos conceituais sobre o
trabalho.

O trabalho é uma atividade essencialmente humana e sua valorização pela sociedade é


um fenômeno moderno, que advém principalmente da instalação e crescimento do
capitalismo. É através dos estudos de autores como Adam Smith que o trabalho passa a
ocupar um lugar de destaque na teoria econômica clássica, principalmente na consolidação da
teoria do valor-trabalho, que passará a ter notoriedade nas obras de Karl Marx
(YAMAMOTO, 2015).

Assim, em Marx, o trabalho é considerado uma atividade característica da espécie


humana e com capacidade de transformação da realidade. O trabalho é uma atividade central
de nossa existência e possibilita o reconhecimento e afirmação do que pode ser considerado a
condição humana. Assim, o autor vai defender o trabalho em O Capital:

Antes de tudo, trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza,


processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla
seu intercâmbio material com a natureza (...). Atuando, assim, sobre a natureza
externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica a sua própria natureza (MARX,
1970 p. 202).

O trabalho, ao longo da história, irá adquirir as mais diferentes configurações,


conforme o tempo e lugar em que está sendo visualizado. O pensamento marxiano irá
construir a perspectiva da centralidade do trabalho, esse nos parece importante na demarcação
das reflexões sobre as investigações de acidentes de trabalho. Assim, o trabalho “refere-se a
toda a atividade humana que transforma tanto o mundo quanto o sujeito que trabalha, esse
conceito não se aplica somente nos espaços das organizações (fábricas, escolas, igrejas,
hospitais, empresas ferroviárias...)” (ARAÚJO, 2014, p. 35).

Existem questionamentos sobre a centralidade do trabalho em nosso contexto atual.


Alguns autores acreditam que alguns fatores particulares apontam para uma saída de cena do
trabalho na vida dos seres humanos, o que entraria em contradição aos posicionamentos
reforçados anteriormente por Marx. No entanto, existem pesquisadores que contrapõem essa
46

visão de perda da centralidade. Antunes (2002) irá argumentar sobre a centralidade do


trabalho, utilizando dos conceitos marxianos de trabalho concreto (qualidades de utilidade e
necessidade do trabalho – mais especificamente o valor de uso) e trabalho abstrato (trabalho
enquanto atividade socialmente determinada - valor de troca). Nesse sentido é importante, no
debate sobre a perda da centralidade, se ater a qual tipo de trabalho essa perda é creditada. O
autor defende que a emancipação humana em relação ao trabalho poderia acontecer somente
pela resistência da “classe-que-vive-do-trabalho”, assim ainda estaríamos longe da perda da
centralidade do trabalho na condição humana.

A centralidade do trabalho ganha contribuições significativas com o campo da Saúde


do Trabalhador, principalmente na interface ou conexão dos temas saúde e doença relacionada
ao trabalho. A interdisciplinaridade é uma das marcas de nascença e constituição dessa
disciplina, trazendo à tona os impactos e complexidade da relação que existe entre o capital e
o trabalho e seu posicionamento nos processos de promoção de saúde e adoecimento no
mundo do trabalho. O campo da saúde do trabalhador apresenta algumas discussões
paradigmáticas, principalmente quando utilizados os conhecimentos das Ciências Sociais,
Economia, Ciências Políticas, Biologia e outros campos. Assim, o campo de saúde do
trabalhador é baseado nos pensamentos e pressupostos de Marx como referência para o estudo
da saúde-doença no processo de trabalho. A análise está na relação do trabalho com as noções
de saúde e doença (MINAYO-GOMEZ; THEDIM-COSTA, 1997).

Nesse contexto, ao se considerar o trabalho como tema central na vida, como formador
e transformador de nossa subjetividade, podemos inseri-lo em um crivo crítico, pensando
sobre o seu papel na responsabilidade pelos adoecimentos, e aqui podemos entender que
adoecimento pode ser também o acidente de trabalho; há também um papel importante do
trabalho que é a promoção de saúde na vida dos sujeitos, o papel de dar vida.

3.2 Os caminhos da Psicologia Organizacional e do Trabalho

Na psicologia, o trabalho vem sendo entendido de diferentes formas e concepções. Em


diferentes correntes de entendimento da psicologia, o trabalho é considerado em termos de
participação na construção dos sujeitos, no desenvolvimento das relações sociais e na
construção de suas sociabilidades. Para algumas linhas de entendimento da psicologia, o
trabalho ocupa um lugar de coadjuvante, não sendo determinante do entendimento da
condição psíquica do homem. No entanto, existem algumas abordagens da psicologia que
47

entendem que o trabalho ocupa um lugar central na construção da experiência humana, que
compõe o mais básico de nossa existência, dos nossos aprendizados. O trabalho torna-se tema
central do que é ser humano (BARROS; VIEIRA; LIMA, 2007).

O campo que se ocupa do estudo do trabalho e sua interação com a psicologia é a


Psicologia Organizacional e do Trabalho. A psicologia organizacional e do trabalho de forma
superficial, ao longo de seu desenvolvimento, apresenta três momentos distintos, uma
relacionada ao seu nascimento como Psicologia Industrial, posteriormente como Psicologia
Organizacional e como Psicologia do Trabalho.

A psicologia organizacional e do trabalho é um ramo de produção de conhecimento


que já nasce e se desenvolve em conjunto com as transformações que acontecem no mundo do
trabalho, principalmente com o processo de industrialização e o surgimento das teorias que
impactaram diretamente na forma de organização do trabalho (Taylorismo e Fordismo) no
início do Século XX. A denominada Psicologia Industrial surge, em determinada medida,
voltada para o estabelecimento dos controles individuais nas empresas, focando em
treinamentos, seleção de pessoas e descrição das atividades de trabalho. Nesse momento, a
Psicologia Industrial surge como instrumento para auxiliar as empresas para que aumentem
sua produção através de um melhor desempenho de seus profissionais (SAMPAIO, 2013).

Ainda na visão de Sampaio (2013), no entanto, ao longo das mudanças no mundo do


trabalho, principalmente as alterações dos polos industriais de países desenvolvidos para os
países em desenvolvimento, fizeram com que os modos de produção precisassem serem
revistos, o que contribuiu para o crescimento do que foi denominado de Psicologia
Organizacional. Essa mudança no mundo do trabalho, fez com que os psicólogos fossem
chamados para contribuírem nas discussões sobre o formato das estruturas hierárquicas das
organizações, afinal, nesse período iniciam-se algumas flexibilizações nas empresas,
principalmente nas formas de organização do trabalho. Essa Psicologia Organizacional, em
algumas situações, era comparada com uma Engenharia dos Comportamentos, justamente por
privilegiar estudos e atuações para a mudança dos comportamentos dos sujeitos em seu
ambiente de trabalho. O surgimento da Psicologia do Trabalho advém de um interesse de
aprofundamento dos significados do trabalho humano, com uma visão do sujeito que trabalha,
que está inserido no contexto do trabalho. A Psicologia do Trabalho, que surge
posteriormente, possibilita um espaço para a discussão do homem em seu trabalho no sentido
de melhoria de sua saúde, segurança, bem-estar, mesmo que para alcançar esses resultados
signifique entrar em embate com os sistemas produtivos e com a lógica lucrativa do capital. A
48

Psicologia do Trabalho também começa a se dividir, principalmente em um campo que


começa a fazer interlocuções com a Psicanálise, Psicossociologia e Psicopatologia do
trabalho. Essa área de conhecimento começa a ter uma interação mais próxima com outros
campos, como a Ergonomia.

A Psicologia do Trabalho vem crescendo e sua interseção com as empresas, órgãos


públicos e ambientes onde possa atuar aumenta a cada vez. Naturalmente, de acordo com as
suas interseções, aproximações foram gerando conhecimentos, pesquisas e intervenções que
contribuíram para o estabelecimento desse campo de atuação no mundo. A Psicologia
Organizacional e do Trabalho, no fim da década de 80, já era a segunda maior ocupação dos
psicólogos brasileiros (BASTO; GOMIDE,1989).

Em nosso contexto atual, podemos pensar que a atuação da Psicologia do Trabalho


cresceu ainda mais e que a Psicologia, em sua prática, ocupa cada vez mais alguns espaços.
De forma geral, a Psicologia do Trabalho acaba por se filiar a três perspectivas de produção
de conhecimento: a escola cognitivo-comportamental, social e clínica. A escola cognitivo-
comportamental é focada na forma como os sujeitos se inserem no trabalho e busca um
entendimento dos comportamentos humanos nesse; a social traz fortes referências da
Psicologia Social e é centrada na construção de identidades e de representações no contexto
do trabalho; por último, as chamadas abordagens clínicas preocupam-se, em sua maioria, com
estudos e intervenções voltados para o impacto na subjetividade dos trabalhadores das
práticas de gerenciamento, com fins de transformação e mudança da realidade vigente. No
contexto das clínicas do trabalho, o profissional ocupa dois papéis: o de clínico social e o de
pesquisador-clínico, na medida em que se ocupa em construir estratégias de redução do
adoecimento e sofrimento advindo do trabalho e também se preocupa com o desenvolvimento
e evolução do conhecimento científico nessa temática (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011).

Ainda na perspectiva da Clínica da Psicologia do Trabalho, essa terá forte influência


da Psicopatologia do Trabalho, que tem suas origens na França, no contexto do pós-guerra.
Uma das várias figuras significativas no estabelecimento desse campo de atuação foi Louis Le
Guillant, que considera que o trabalho, dependendo de suas condições, pode influenciar no
adoecimento dos indivíduos. Assim, nas palavras do próprio autor, “parece que ninguém pode
sequer proceder a uma séria análise para saber se certas condições de trabalho seriam
patogênicas – e, nesse caso afirmativo, tentar, no mínimo, seu aperfeiçoamento” (LE
GUILLANT, 2006, p.72).
49

Em certa medida, o pedido de Le Guillant parece ter sido ouvido, e uma série de
pesquisas e intervenções em diversas temáticas construíram o que foi denominado
posteriormente como as Clínicas do Trabalho. Essas clínicas, de forma geral, utilizam das
situações concretas vividas pelos trabalhadores para encontrar possíveis situações de
adoecimento, de promoção de saúde, geração de acidentes e diversas outras temáticas de
conhecimento e debate que essas absorvem. As mais diversas formas de adoecimento podem
advir de diferentes aspectos como: a forma de organização do trabalho, bloqueio da realização
das atividades (processos subjetivação/personalização), segmentação dos coletivos e
individualização, rupturas profissionais (desemprego) (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011).

Como sinalizado anteriormente, essas clínicas buscam, através das situações concretas,
ou seja, que estejam o mais próximo da realidade, conhecer as situações às quais os
trabalhadores estão submetidos, o que vivenciam na prática, naturalmente essa concepção e
opção de ver o mundo fez com que as clínicas do trabalho tivessem uma aproximação com
teorias e campos de produção de saber que lidassem com temáticas parecidas. Uma dessas
interlocuções, que nos interessa nesse trabalho, está relacionada à Ergonomia, mas
principalmente aquela Ergonomia de fundamentação francesa, que busca conhecer e
destrinchar o que é conhecido como trabalho real. Assim, na explanação dos fundadores da
Ergonomia sobre a psicologia do trabalho e seu desenvolvimento, é reforçado que “ao
precisar as relações entre a situação real, melhor conhecida pela análise do trabalho, e a
situação experimental, esta última viu sua problemática renovada e sua validade mais
garantida” (WISNER, 1994, p 38).

3.3 O Crescimento da Análise do Trabalho Francofônica

A França, historicamente, tem construído uma tradição em pesquisa e intervenção no


trabalho. Naturalmente, outros países também tiveram o desenvolvimento de suas ciências do
trabalho, cada uma com o seu foco. Por exemplo, na Inglaterra a Psicologia do Trabalho
historicamente adota uma relação maior com a chamada escola cognitivo-comportamental
(SAMPAIO, 2013).

A escola do trabalho francesa vem estabelecendo, desde o início do século XX, após a
Revolução Industrial, uma tradição de gerar importantes analistas do trabalho. Os analistas do
trabalho seriam profissionais que, independente de sua formação, estão interessados em
compreender e intervir sobre o mundo do trabalho. Assim, o crescimento e desenvolvimento
50

da Psicologia do Trabalho também passa por uma discussão sobre o desenvolvimento das
concepções desses analistas.

Em um contexto histórico, a evolução da percepção do mundo do trabalho faz parte do


que é chamado por alguns de “três gerações de analistas do trabalho na França e no mundo
francofônico” (CLOT, 2010, p.208).

Para Clot (2010), a análise francesa do trabalho surge no início do século XX, por
volta do ano 1900. Os principais representantes, que introduzem a psicologia do trabalho na
França, antecedem a chegada dos princípios do Taylorismo, com a Organização Científica do
Trabalho, e remontam à Suzanne Pacaud e Jean Maurice Lahy.

Esses autores inventaram o que foi chamado de Psicotécnica do Trabalho. Na época,


esses eram pesquisadores que estavam trabalhando em laboratórios, mas estavam interessados
em conhecer os sujeitos fora desse ambiente. Assim, o melhor laboratório que encontraram foi
a própria indústria. A indústria, na França, estava em transformação com a Revolução
Industrial e a saída das pessoas do campo para as cidades, e passava por crescimento no
número de acidentes, surgiam os mais diversos problemas de saúde e os problemas de
qualificação dos profissionais eram evidentes.

Diante desse cenário, Pacaud e Lahy estavam interessados em entender o que


chamariam de aptidões dos trabalhadores. Para tanto, decidiram utilizar um método muito
particular em que eles assumiriam o local de trabalho do trabalhador e fariam um estágio
naquela função durante um período de seis meses. Assim, “a ideia era tentar apreender o que
se denominava “aptidões” dos trabalhadores, ou o que nos dias atuais poderia ser denominado
de “competências” (CLOT, 2010, p.210). Através da observação e da ocupação do lugar de
trabalhador, eles tentavam descrever e entender o que seria o trabalho.

Com o passar dos anos, essa psicotécnica, iniciada por Pacaud e Lahy, acabou
assumindo outro caminho e terminando no que podemos chamar de a psicotécnica da
testagem. Esse modelo de psicotécnica no pós-guerra, na França, passou a ser usado como um
instrumento de gestão das pessoas, tentando determinar quais eram os melhores indivíduos ou
os que tinham as melhores “aptidões” para ocupar determinadas posições no trabalho (CLOT,
2010).

Em contraposição a essa forma de trabalho, surge o que Clot (2010) vai chamar de a
segunda geração de analistas do trabalho, que estavam em clara oposição à psicotécnica,
principalmente essa que estava preocupada com a testagem dos sujeitos, para sua seleção.
51

Desse movimento de crítica, surgem três correntes que farão oposição à forma como a
testagem estava vendo os sujeitos no trabalho. A primeira corrente é chamada de psicologia
cognitiva, na qual aparecem como representantes Faverge e Leplat. Basicamente, a crítica
desses autores é quanto às chamadas “aptidões”; esses argumentam que essas não estariam na
cabeça das pessoas como se propunham a encontrar os testes psicológicos, mas sim nas
situações de trabalho. Somente retornando às situações de trabalho e entendendo sua
complexidade é que poderíamos encontrar as chamadas “aptidões” que os testes psicológicos
da época estavam a buscar. Nesse momento, começa a surgir a distinção entre a “tarefa” e a
“atividade”. A tarefa seria o que se está por fazer e a atividade o que as pessoas realmente
fazem.

Nas palavras do próprio autor:

[...] o interesse deixou de se centrar apenas na adaptação do homem ao seu trabalho,


orientando-se para a questão da adaptação do trabalho ao homem e, finalmente, para
a concepção de situações de trabalho geradoras de uma melhor articulação das
condições humanas, organizacionais, técnicas e sociais adequadas à criação de um
ambiente de trabalho mais seguro (LEPLAT, 2015, p. 107).

Uma segunda corrente, chamada de Ergonomia Francófona, surge no mesmo período


com o médico Alan Wisner, que estava preocupado com a situação precária dos trabalhadores
em seu ambiente de trabalho. Com um histórico de forte engajamento social, Wisner vai
trazer para a discussão laborativa a presença de um corpo nos locais de trabalho. Essa recém
estabelecida ciência entendia que é no trabalho que se mobilizariam as aptidões, pois é na
forma como o trabalhador executa suas funções que surgem as aptidões. Nessa linha de
raciocínio, o autor irá implantar ou trazer à tona os conceitos de trabalho prescrito e trabalho
real, que até hoje orientam várias discussões teóricas e metodológicas na Psicologia do
Trabalho e Ergonomia. Esse conceito é importante, pois será a base de criação de várias
escolas de conhecimento interessadas em estudar o homem em seu trabalho. Assim, o próprio
Wisner reforça esse papel:

O inventário das diferenças entre atividades reais e atividades prescritas é


extremamente útil para descobrir tudo o que é difícil, ou até impossível de realizar
no trabalho prescrito ou o que foi mal compreendido. Este inventário exige. Em todo
caso, formas diversas de melhoramento do trabalho (WISNER, 1994, p.111).

Existe, na Ergonomia, uma preocupação com o campo, um interesse por observar as


ações no mundo do trabalho na prática. E uma das contribuições para a psicologia do trabalho
52

está em deixar uma visão mais positiva a respeito do lugar do trabalho, o trabalho seria o
lugar da “engenhosidade, de invenção, de criação” (CLOT, 2010, p. 215).

A terceira corrente é a chamada Psicopatologia do Trabalho, segundo Clot (2010),


teria em Louis Le Guillant seu inventor. Le Guillant era um psiquiatra francês que, no período
da Segunda Guerra, na época em que estavam acontecendo os bombardeios alemães em Paris,
decidiu abrir os hospitais psiquiátricos, para que os internos pudessem se salvar. Depois de
liberados, Le Guillant ficou especialmente interessado no que vinha acontecendo com os seus
ex-internos e se deteve especialmente sobre a função psíquica ou psicológica que ocupava o
trabalho na vida das pessoas. Assim, surgem as primeiras iniciativas do que viria a ser
chamado posteriormente de Psicopatologia do Trabalho, que teria um olhar para o trabalho
como algo dramático e de sofrimento para os sujeitos, um lugar onde os sujeitos adoeciam.
Assim, “qualquer trabalho insere-se em um conjunto muito mais amplo de condições de vida,
mais ou menos satisfatórias ou penosas, que podem ou não aumentar a fadiga que ele
acarreta” (LE GUILLANT, 2006, p. 72).

A principal contribuição da psicopatologia do trabalho para as chamadas Clínicas do


Trabalho estaria na discussão sobre as perturbações do espírito, a inserção da noção de
subjetividade no contexto do trabalho. Assim, na proposta do fundador da Psicopatologia do
Trabalho, sua proposta de entendimento de adoecimento “pretende, pelo menos, deixar
entrever uma nova clínica, baseada em situações concretas, descobertas na origem das
diferentes manifestações psicopatológicas. (LE GUILLANT, 2006, p. 72)

Na análise do trabalho, já temos delimitadas duas escolas com contribuições


significativas, mas contrárias. De um lado, a Ergonomia, que estaria preocupada com as
observações em campo, em analisar a realidade, mas que está observando apenas o corpo
empírico. De outro lado, a Psicopatologia do Trabalho, que está centrada na subjetividade e
que tem a escuta como o principal instrumento para recolhimento de dados. (CLOT, 2010)

Na terceira geração, para Clot (2010), encontramos diversos profissionais que seguem
linhas diferentes e vêm constituindo uma série de teorias e métodos que buscam dar conta da
multiplicidade que envolve o sujeito no trabalho. Dentre esses, o autor se refere a Cristophe
Dejours, com a criação da Psicodinâmica do Trabalho, por uma linha diferente, Yves
Schwartz, com a proposta da Ergologia, buscando a pluridisciplinariedade na construção do
entendimento do que é a categoria “trabalho”, a chamada Clínica da Atividade, que tem o
próprio Yves Clot como um de seus criadores, e que busca compreender a situação de
trabalho real como base da construção de formas de agir.
53

O autor não cita em seu trabalho uma terceira abordagem francesa sobre o trabalho
que gostaríamos de citar, pois entendemos que essa também é importante e se enquadra como
mais uma das clínicas do trabalho contemporâneas, que é a Psicossociologia ou Sociologia
Clínica. Essa, naturalmente, não tem o trabalho como o seu único foco, mas sempre produziu
estudos importantes sobre as instituições e organizações que são essenciais no entendimento e
intervenção no mundo do trabalho. Essa abordagem não tem um fundador, mas sim
representantes significativos, que fizeram e fazem com que ela pudesse se desenvolver, como
Gilles Amado, Eugené Enriquez, dentre outros.

Nesse sentido, é intenção apresentar nesse trabalho, de forma breve, como se


estruturam essas principais clínicas. Conhecer suas matrizes, o que entendem da constituição
dos sujeitos e suas relações com o trabalho. Naturalmente, não se pretende apresentar em sua
totalidade o que cada uma representa e explicita sobre o homem em seu trabalho, essa tarefa,
pela complexidade e grandeza, seria maior do que essa dissertação. Assim, pretende-se passar
por alguns aspectos que fundamentam essas teorias e pincelar práticas de intervenção.

3.4 Psicodinâmica do Trabalho

A Psicodinâmica do Trabalho é representada principalmente por Christophe Dejours,


psicanalista francês que desenvolveu seu trabalho sobre a temática desde a década de 80.
Utilizando-se da teoria do sujeito de origem psicanalítica, o autor propõe avançar na análise
das relações entre o trabalho e a subjetividade. Para tanto, ainda faz o uso de outros campos
de conhecimento como a sociologia do trabalho e a ergonomia. A origem de sua teoria
remonta as discussões iniciais sobre a Psicopatologia do Trabalho, principalmente de autores
franceses, como Le Guillant.

Para Le Guillant (2006), a compressão do psiquismo e dos distúrbios é necessária para


que possamos conhecer as situações reais de existência dos indivíduos, mas sua existência
deve ser conhecida através de formas concretas e uma forma concreta de conhecer o sujeito
está no seu trabalho e no sentido que esse possui.

O objeto de estudo da Psicodinâmica do Trabalho estaria na capacidade de as relações


de reconhecimento transformarem o sofrimento em prazer no ambiente de trabalho. A base de
compreensão dessa clínica do trabalho retoma a constante movimentação entre a organização
do trabalho e o sujeito.
54

A Teoria da Psicodinâmica do Trabalho seria clínica pelo foco em conhecer as


relações entre o trabalho e saúde mental e teórica, já que faz uso da Psicanálise para a
construção de uma teoria do sujeito. Essa se propõe a fazer um rearranjo das relações
subjetivas no contexto do trabalho e mobilizar os trabalhadores para que consigam promover
mudanças em seu ambiente de trabalho. (DEJOURS, 2004)

O método de intervenção na Psicodinâmica do trabalho, imaginado por Dejours, foi


denominado de Clínica do Trabalho, e pressupõe o engajamento de todas as partes envolvidas
(empregador, empregado e pesquisador) em nível subjetivo, em que todos se portam como
participantes de uma pesquisa-ação (a pesquisa é uma possível prática de intervenção), em
que a potencialidade de mobilização de aspectos coletivos auxiliem para que se tenha um
amadurecimento e observação da organização do trabalho. Essa é, então, a realidade através
de sessões coletivas, com a participação de trabalhadores, com o uso de regras e respeitando
princípios da ética (MENDES et al., 2014).

Essa clínica do trabalho vai além da psicanálise e propõe uma forma de abordagem do
sujeito que passa pela sua relação de trabalho e a subjetividade.

3.5 Psicossociologia

A psicossociologia está voltada para entender e problematizar os sistemas que mediam


o indivíduo e a sociedade, direcionando seu foco de trabalho para as instituições, organizações
e os grupos. Naturalmente, sua criação e discussões não são recentes e remontam a década de
50, quando surgem os primeiros profissionais interessados nesses estudos. O trabalho da
psicossociologia está direcionado para a construção e desenvolvimento da relação existente
entre o que é social, as condutas dos seres humanos e a vida psíquica do sujeito
(CARRETEIRO; BARROS, 2014; ARAÚJO; CARRETEIRO, 2001).

A psicossociologia, que em alguns momentos também é denominada de Sociologia


Clínica (GAULÉJAC, 2001), possui uma visão em torno da busca pela compreensão dos
comportamentos dos grupos, quando estão dentro ou fora das organizações e instituições que
compõem nossa realidade, oferecendo instrumentos para a tentativa de uma mudança social.
A teoria faz uma contribuição significativa no entendimento do que seriam as organizações
(compostas por elementos técnicos, normativos, simbólico e imaginário) e na elucidação das
instituições (produto das práticas humanas) (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011).
55

No entendimento dessa clínica, os problemas não acometem os sujeitos, mas também


as organizações, empresas e instituições. Para que se consiga uma compreensão dessas
realidades, e se atue em direção à sua prevenção e efetiva mudança,

(...) o clínico em ciências humanas se coloca também “junto ao leito”: ele trabalha
principalmente em campo, e não em laboratório, ela não tenta somente compreender
a doença (os problemas), mas compreender o doente 9nesse caso, os grupos junto
aos quais intervém) (SÉVIGNY, 2001 p. 15).

O trabalho nem sempre foi o foco dessa clínica. Essa mudança advém dos processos
que o mundo passou de precarização do trabalho e da desqualificação da mão de obra, assim,
essa irá fornecer conteúdo para entender qual a relação que os trabalhadores estabelecem com
as instituições e organizações. Seria nas interações do mundo do trabalho que poderíamos
vislumbrar as interseções do que é singular e individual dos trabalhadores com a realidade ou
o que é real no trabalho (CARRETEIRO; BARROS, 2014).

As intervenções nessa clínica do trabalho, ainda com Carreteiro e Barros (2014),


buscam ajudar na transformação das relações sociais, para que os coletivos e as
individualidades possam caminhar no sentido de uma emancipação. A denominada
intervenção psicossociológica surge na França, inspirada em trabalhos clínicos da psicanálise,
e tem características que a distingue de modelos experimentais de intervenção. O saber é
produzido na interlocução entre o trabalhador e o psicossociólogo, sendo que nenhum desses
níveis de conhecimento se sobrepõe ao outro, pois as habilidades no mundo do trabalho
advêm dos contextos sócio-históricos vivenciados anteriormente e que são importantes para
todos (pesquisador-trabalhador). A centralidade da atividade e o trabalho real são importantes
e constituem categorias de análises e intervenções nesse campo de atuação. O foco está em
conhecer aspectos da atividade “realizada, definida, representada, imaginada, questionada,
criticada, refletida e analisada pelos trabalhadores – é o ponto de partida e o objetivo da
intervenção - é o que nos interpela na busca de sentido” (CARRETEIRO; BARROS, 2014, p.
118).

3.6 Ergologia

A Ergologia tem como o seu principal representante Yves Schwartz e vem sendo
construída desde o começo dos anos 80. Essa não tem sido percebida com uma nova
disciplina científica ou uma forma de abordagem ao trabalho, e é caracterizada pelos autores
56

como uma abordagem ou démarche6 em relação ao trabalho (ATHAYDE; SOUZA; BRITO,


2014).

Essa estaria, assim como a Psicologia do Trabalho de forma geral, voltada para
compreender e transformar o trabalho e pretende atuar na transformação da atividade de
trabalho humana, nos mais diversos meios possíveis, seja nas formações de pessoas, na forma
de se prevenir e atuar nos riscos do trabalho, no gerenciamento das organizações e até mesmo
nas pesquisas. Assim, entendendo que o trabalho é muito complexo, necessita do
conhecimento de todas as áreas e disciplinas, sem que nenhuma dessas se sobreponha a outra,
pois nenhuma ainda consegue dar conta da realidade que envolve o trabalho. A especialização
faz com que saia do foco o global, uma visão mais generalizada. Assim, olhar o trabalho com
uma lupa acaba fazendo com que se perca a totalidade e globalidade do sujeito. O objetivo da
Ergologia consiste em conhecer melhor a realidade de trabalho e analisar as condições em que
esse é realizado e o que o torna mais efetivo (humana, econômica e social) (TRINQUET,
2010)

A Ergologia surge da interseção entre a Ergonomia, uma das contribuições dessa


advém da percepção de que o mundo é instável e de que nossas vidas se passam nesse
ambiente de instabilidade. Os trabalhadores respeitarem as prescrições de uma tarefa não é
produtivo, pois a realidade está no mundo das instabilidades, diferenças e mudanças
constantes. A base de influência da Ergologia são os pensamentos da filosofia da vida de
Canguilhem (2016), que foi importante na determinação do conceito de renormatizações. O
ser humano, em sua atividade, não para de se atualizar, de exercer a sua capacidade de ser
normativo, ao exercer sua atividade normativa de forma constante, está se renormatizando
(ATHAYDE; SOUZA; BRITO, 2014).

Sendo assim,

Quaisquer que sejam as formas inaparentes de trabalho, todas elas são formas
renormalizantes do meio humano e têm como ponto de fusão as atividades
industriosas; elas contaminam o econômico, o social, o político, os modos de
sociabilidade, de ligações ou de ‘desligamentos’ sociais. Assim, pode-se, por
exemplo, compreender por que as grandes concentrações fabris, e não apesar delas,
impunham um estrito isolamento dos trabalhadores em seus ‘postos de trabalho’,

6
Démarche é considerado uma postura e, assim como a palavra feedback, é de difícil tradução para a língua
portuguesa, uma palavra que chega mais próxima do significado, e foi utilizada por Schwartz, foi a expressão
approche. De toda forma, a ideia é que a Ergologia não seria uma teoria, mas sim uma postura do profissional
que se utiliza dessa abordagem. (Athayde; Souza; Brito, 2014)
57

produziram, através de milhares de renormalizações industriosas sempre


amplamente coletivas, o viver em mais ou menos subversivo, as formas de
solidariedades operárias e suburbanas tão características dos anos 1920 a 1970
(SCHWARTZ, 2011, p. 34-35).

As formas de intervenção e pesquisa da Ergologia vão passar principalmente pelo


modelo do Dispositivo Dinâmico de Três Polos (DD3P), o que apresenta como uma de suas
práticas os Encontros Sobre o Trabalho.

Utilizando-se dos processos socráticos em duplo sentido, o Dispositivo Dinâmico de


Três Polos (DD3P) seriam encontros que possibilitariam o diálogo do Polo dos Saberes
Constituídos, que têm relação com os conhecimentos acadêmicos e profissionais de forma
geral, mas que já estão de alguma forma estabelecidos, como o Polo dos Saberes Investidos,
que estaria relacionado às experiências práticas e que não podem ou ainda não foram
aprendidas pelo saber constituído. O terceiro Polo surge da interseção dos dois apresentados
anteriormente, que surge o Polo de Exigências Ergológicas (TRINQUET, 2010).

Os Encontros sobre o Trabalho são momentos de interlocução entre os profissionais


conceituais, que estão na ordem dos saberes, com os trabalhadores, os que estão a executar as
atividades. Os encontros permitem que cada um, com suas competências e conhecimentos,
possa provocar o encontro dos saberes sobre a atividade. Nesses encontros de espaços
coletivos, possibilita-se a construção de novos olhares que possam passar por modificações.
Nesses encontros, são abertas pontes que permitem que a informação flua em dois sentidos e
atue na modificação de todos (ATHAYDE; SOUZA; BRITO, 2014).

Os encontros sobre o trabalho, que para Trinquet (2010) possuem o nome de Grupos
de Encontro de Trabalho (GRT’s), são grupos que possuem o foco em soluções para algo. A
busca da solução deve ser em torno de algo de difícil resolução, que necessita da colaboração
de todos os envolvidos, quando se chega a alguma solução essa deve ser realizável para todos
os interessados. Essa prática busca, assim, colocar todos os protagonistas de um problema em
consonância e de acordo com uma solução proposta. Não necessariamente todos os
participantes necessitam de concordar com a solução/soluções que forem estabelecidas por
esse grupo. Assim, esses grupos podem ser usados para encontrar soluções para uma tarefa ou
várias tarefas, inclusive algo que seja interesse de grupos e coletivos. Algumas coisas que se
enquadram como temáticas para soluções nesses grupos são problemáticas de pesquisa,
soluções para prevenção ou diminuição de riscos do trabalho, melhoria de eficácia no
trabalho, melhoria da organização do trabalho, dentre outros.
58

3.7 Clínica da Atividade

A Clínica da Atividade nasce fundamentada nas teorias de Vygotsky, Leontiev e


Bakhtin, no início dos anos 90. Os principais fundadores podem ser considerados Yves Clot e
Daniel Faïta. A Clínica é caracterizada por considerar o trabalho fonte de recriação e
catalizador de novas formas de vida. A mobilização que as atividades nos provocam, através
dos diálogos, divergências, convergências e intercâmbios, fazem com que os trabalhadores
tenham a possibilidade de mudar o seu poder de agir (BARROS; LOUZADA; OSORIO,
2011).

Nossa subjetividade é construída nas atividades e o coletivo tem o poder de regular


ações, inclusive nos níveis individuais, permeado pela história do oficio que se realiza e da
própria história singular do sujeito que estará na construção coletiva de um gênero. Na Clínica
da Atividade, o reconhecimento irá perpassar pela capacidade do sujeito em reconhecer-se na
sua própria atividade. A capacidade de se reconhecer em sua própria atividade é o que pode
gerar a possibilidade de se apropriar e aumentar o seu poder de agir sobre o mundo (CLOT,
2010).

Para Clot (2007), na Clínica da Atividade existe uma clássica distinção entre a tarefa e
a atividade: a tarefa é o que está prescrito pela organização do trabalho, aquilo que os
trabalhadores devem fazer; já a atividade seria o que os trabalhadores, dentro de seu
conhecimento, precisam fazer para realizar aquele prescrito.

A contribuição da Clínica da Atividade na discussão sobre o Trabalho Prescrito e


Trabalho Real passa por uma mudança de significado, que foi nomeado de Atividade
Realizada e o Real da Atividade. A atividade observada é uma atualização de uma das muitas
outras possibilidades que os trabalhadores devem conseguir cumprir dentro do que foi
prescrito. Assim, podemos dizer que a atividade realizada é a que foi escolhida pelo
trabalhador, dentre as várias outras que ele tinha à sua disposição. De todas as formas
possíveis de fazer uma atividade, dentro do seu contexto histórico, a que ele faz opção de
utilizar é a atividade realizada. Nos conflitos entre todas as atividades possíveis, tudo o que o
trabalhador pode fazer ao realizar uma tarefa será o que vai determinar o desenvolvimento da
atividade vencedora, ou que foi escolhida para ser feita. Assim, a atividade que o profissional
realiza é apenas uma parte da atividade real, ou seja, o que não se faz, aquilo que ele deixa de
escolher, o motivo de renunciar e de fazer A e não decidir fazer B, ou até mesmo de não
conseguir fazer, também faz parte da atividade (CLOT, 2007).
59

Clot (2006) tem uma clara inspiração nos estudos da psicologia sócio-histórica de Lev
Vygotsky, assumida quando afirma que o “trabalho não é uma atividade entre outras. Exerce
na vida pessoal uma função psicológica específica que se deve chegar a definir” (CLOT,
2006, p. 12).

A proposta de trabalho de Yves Clot sustenta que a análise do trabalho possui um forte
efeito para a transformação do trabalho.

A análise do trabalho revela-se um bom instrumento de formação para o sujeito na


condição de se tornar um instrumento de transformação da experiência. O que é
formador para o sujeito, quer dizer, o que aumenta o seu raio de ação e o seu poder
de agir, é conseguir mudar o estatuto do vivido: de objeto de análise o vivido deve
tornar-se meio para viver outras vidas (SANTOS apud CLOT, 2006, p. 38).

Os conceitos que sustentam a pesquisa e intervenção na Clínica da Atividade estão em


constante elaboração e reelaboração, e são desenvolvidos no decorrer da ação. A pesquisa e
intervenção no contexto da Clínica da Atividade são difíceis de serem separadas, essas
caminham juntas (OSORIO, 2014)

Dessa forma, seguindo os pressupostos da Clínica do Trabalho, seria papel dos


psicólogos da área do trabalho propor métodos de pesquisa e intervenção em que os
trabalhadores sejam os protagonistas da análise e os autores da transformação no seu próprio
trabalho.

De modo que cuidar do trabalho é transformar a organização do trabalho. Essa é


uma forma de abordagem de ação. Criar situações e encontrar técnicas nas quais se
transformem os trabalhadores em sujeitos da situação, fazendo-os protagonistas da
transformação e não os especialistas (CLOT, 2007, p. 222).

Um dos métodos desenvolvidos pela Clínica da Atividade são as chamadas


autoconfrontações simples e cruzada. Assim, o foco da Clínica da Atividade está direcionado
para a aplicação de métodos que deem visibilidade e uma melhor compreensão a respeito do
trabalho real e possibilite ao(s) trabalhador (es) aumentar (em) “o poder de agir sobre o
mundo e sobre si mesmo(s), coletivamente e individualmente” (CLOT, 2011, p. 194).

Este instrumento, descrito abaixo, permite aos trabalhadores visualizar melhor e


compreender a complexidade de suas atividades. Isto lhes permitirá, juntamente com os
demais atores, conhecer o trabalho real. Os pré-requisitos para que as autoconfrontações
possam acontecer refere-se à instalação de diferentes linguagens no ambiente de trabalho e a
definição de uma conversação com ida e retorno de informações (dialógica). Essa será um
60

diálogo entre trabalhadores que executam as mesmas funções, através de uma escolha
coletiva, construída em uma interação do pesquisador com os trabalhadores. A base para o
diálogo é a utilização de um vídeo dos dois profissionais executando a atividade, e o objetivo
do trabalho é recuperar discordâncias e convergências da atividade e estimular o surgimento
de um novo conhecimento (CLOT, 2010).

Segundo Clot (2010), o método consiste em uma técnica de filmar o trabalhador, no


exercício de sua atividade, durante determinado período de tempo, podendo esse período
variar de horas até alguns dias, dependendo da complexidade da atividade. É importante
ressaltar que os trabalhadores envolvidos devem fazer a mesma atividade.

Em um primeiro momento, depois de realizar a escolha da atividade, serão produzidos


documentos videografados, que serão utilizados para a autoconfrontação simples
(trabalhador/pesquisador/imagens) e em outro momento os documentos de autoconfrontação
cruzada (dois trabalhadores/pesquisador/imagens). Esta última filmagem será exibida,
posteriormente, aos trabalhadores que executaram a atividade na presença do pesquisador.
Assim, o primeiro trabalhador vê o vídeo da atividade do colega e aponta as diferenças em sua
forma de fazer, em seguida o outro profissional fará o apontamento dessa situação no vídeo
do outro colega. Depois de coletadas essas informações, o pesquisador fará perguntas sobre as
duas atividades e de alguns pontos que possam ter chamado a atenção. A intenção, ao
apresentar as imagens, está em compreender como o trabalhador executa aquela atividade,
como ele a modifica, quais os recursos ou improvisos aos quais recorre, a fim de obter melhor
desempenho e suprir carências dos instrumentos de trabalho (CLOT, 2010).

A proposta do método se baseia na hipótese de que os trabalhadores, ao observarem


suas atividades filmadas, poderiam recuperar as controvérsias ou pontos de diferenças na sua
forma de fazer a atividade e, assim, construírem juntos aprendizados diferentes sobre o seu
trabalho.

Outro método utilizado pela Clínica da Atividade é a Instrução ao Sósia. Esse método
foi proposto por Ivar Odonne, na década de 70, em uma das formações operárias que
aconteciam na época na Universidade de Turim. Esse era um trabalho da classe em que um
dos representantes recebia a instrução de uma pessoa que iria trabalhar no dia seguinte,
ocupando a mesma posição que ele, esse seria o seu sósia. Oddone enfrentava uma questão
advinda dos empregados da empresa em que trabalhava na época, esses operários tinham o
desejo de conhecer e entender quais os riscos que estavam expostos em seu ambiente de
trabalho e danos que poderiam ocasionar à saúde. Diante dessa dificuldade, Oddone possuía
61

um desafio na época de tornar sua linguagem técnica mais acessível aos trabalhadores,
principalmente sobre os prejuízos à saúde. Depois da tentativa de diferentes métodos, ele
chegou no que chamou de Método da Instrução ao Sósia, assim era solicitado aos
trabalhadores que dessem instruções para um outro operário que seria o seu eu-auxiliar, ou
seja, o seu sósia (VASCONCELOS; LACOMBLEZ, 2005).

Na Clínica da Atividade, o método passará por algumas alterações, mas ainda com a
base inicial da ideia de Odonne. A instrução ao Sósia se propõe a fazer um deslocamento do
sujeito mediante a discussão de suas atividades. Essa deve ser realizada em dois momentos:
na primeira a gravação é registrada em voz, em um segundo momento o trabalhador escuta a
sua gravação, a transcreve, e faz comentários por escrito. Esse é um método de formação e
desenvolvimento focado na elaboração de sua experiência pessoal e que busca formalizar sua
experiência profissional que será subsídio para uma transformação do trabalho (CLOT, 2010;
OSORIO, 2014).

Os métodos da Clínica da Atividade devem adotar a premissa de possibilitarem o


deslocamento do trabalhador para o lugar de um analista de seu trabalho. Que ele saia de uma
posição comum, e passe a ser um observador de sua ação. Outro ponto importante, dentro do
método, refere-se à realização de uma coanálise entre o trabalhador e o clínico (pesquisador).
Um terceiro método utilizado pela Clínica da Atividade vem sendo desenvolvido por Cláudia
Osório Silva (2010; 2013), e é denominado de Oficina de Fotos. Tem como lógica solicitar
aos trabalhadores que façam fotografias de seu trabalho; posteriormente essas fotos são
discutidas entre profissionais que executam as mesmas atividades e discutidas juntamente
com os pesquisadores. A intenção de fazer com que os próprios trabalhadores façam as suas
imagens está baseada na ideia de que assim eles podem ampliar a sua participação. Nos
trabalhos da pesquisadora, as oficinas de fotos possuem uma utilização mais frequente,
envolvendo a temática de saúde e segurança do trabalhador, apesar de não ser o único foco da
oficina (OSORIO, 2014).

3.8 Convergência e Divergências entre as Clínicas do Trabalho

As Clínicas do Trabalho não podem ser enquadradas como escolas do pensamento e,


apesar de estarem situadas no que chamamos de Psicologia do Trabalho, possuem as suas
divergências epistemológicas, teóricas e metodológicas (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011).
62

No entanto, existem discussões que perpassam as Clínicas que merecem determinada


atenção. Nas Clínicas do Trabalho o conceito de real perpassa por todas, principalmente com
a contribuição da Ergonomia. Para a Ergonomia, o Trabalho Prescrito pode ser entendido
como aquele que advém da técnica, do antes da atividade, que é concebido pela gestão ou
administração da empresa, já o Trabalho Real é a atividade efetivamente executada pelos
trabalhadores ou grupos de trabalhadores (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011).

Aprofundando mais na discussão, o trabalho da linha de frente, ou dos operários, é


separado pela divisão do trabalho, principalmente no que tange ao seu planejamento
(Concepção) e à sua efetiva realização (execução).

Assim, a descrição do prescrito e do real não é simples:

A um posto de trabalho, a um trabalhador, a um grupo de trabalhadores, serão


designadas tarefas, isto é, o tipo, a quantidade e a qualidade da produção por
unidade de tempo, e meios para realizá-las (ferramentas, máquinas, espaços ...).
Deste concerto teórico do trabalho e dos meios de trabalho provém o que chamamos
de trabalho prescrito, isto é, a maneira como o trabalho deve ser executado: o modo
de utilizar as ferramentas e as máquinas, o tempo concedido para cada operação, os
modos operatórios e as regras a respeitar (DANIELLOU; LAVILLE; TEIGER, 1989
p. 1).

É justamente na abertura entre o que está prescrito e entre a realidade do trabalho,


onde teremos as ações dos imprevistos, é que podemos perceber a subjetividade, o que é do
sujeito.

Para Wisner, um dos fundadores da Ergonomia de base francesa, a forma de alcançar a


realidade passa a conhecer essas distâncias, principalmente para situações de difícil solução.
Para tanto, uma ferramenta à disposição é a Análise Ergonômica do Trabalho (AET), que
seria importante para melhorar a organização do trabalho e melhorar os treinamentos nas
empresas. Assim, sobre AET,

O inventário das diferenças entre atividades reais e atividades prescritas é


extremamente útil para descobrir tudo o que é difícil, ou até impossível de realizar
no trabalho prescrito ou o que foi mal compreendido. Este inventário exige, em todo
caso, formas diversas de melhoramento no trabalho (WISNER, 1994, p. 111).

No entanto, a noção de real pode ser encontrada na Psicodinâmica do Trabalho, o


reconhecimento do real acontece no sujeito através do sofrimento que advém do fracasso. Os
sentimentos de irritação, impotência e decepção surgem da relação com o real, mas esses
sentimentos são o ponto de partida.
63

Sendo assim,

O sofrimento não é apenas uma consequência última da relação com o real; ele é ao
mesmo tempo proteção da subjetividade com relação ao mundo, na busca de meios
para agir sobre o mundo, visando transformar este sofrimento e encontrar a via que
permita superar a resistência do real (DEJOURS, 2004, p. 27).

O sofrimento, nesse aspecto, é o que vai fazer o trabalhador se movimentar em busca


de transformação, que seria a inteligência. Ao conseguir a transformação, o próprio
trabalhador se transforma, ou seja, sua subjetividade se altera no movimento de transformação
do sofrimento. Na psicodinâmica, o trabalho estaria na capacidade de preencher a lacuna
existente entre o prescrito e o real. Para superar as prescrições, o trabalhador necessita de
acrescentar algo e atingir os objetivos propostos ou a tarefa, ou seja, ele insere algo de si
mesmo para lutar contra o que não funciona quando ele precisa realizar o que foi prescrito
(DEJOURS, 2004).

Na perspectiva da Ergologia, existe uma capacidade humana que foi denominada por
Schwartz como uso de si, e essa capacidade faz com o ser humano tenha um poder de escolha
sobre ele mesmo, por mais simples que possam ser, sempre existem escolhas possíveis de
serem feitas, por mais simples e pequenas que essas possam ser feitas, a liberdade de fazer
essa escolha encontra-se no uso de si (TRINQUET, 2010; SCHWARTZ, 2005).

De acordo com Yves Schwartz (2005), a Ergologia visa auxiliar nas discussões entre o
trabalho real e prescrito e contribuir em uma atualização do conceito de atividade de trabalho,
indo além da noção de trabalho real. A atividade de trabalho é o lugar da dialética entre onde
o que é próprio do sujeito está em interação com as normas construídas histórica e
socialmente. O ‘trabalho real’ se dá neste encontro, e cabe ao sujeito ou ao trabalhador, de
maneira coletiva ou individual, buscar fazer a gestão desse encontro em seu cotidiano. Assim,
trabalhar é estar em constante gestão, gestão que termina em criação. Na perspectiva
ergológica, o trabalho real é o lugar onde se dão os debates entre as normas e os valores,
assim, os seres humanos, em seu trabalho, tendem a criar novas normas diante da realidade de
trabalho, que serão denominadas de “renormalizações”; a criação de novas normas advém das
antigas normas que até então estavam enraizadas no trabalho (SCHWARTZ, 2005; 2011).

As normas que são inventadas pelo trabalhador não são as mesmas que existiam
previamente em seu trabalho, cada sujeito busca construir suas próprias normas, através do
reposicionamento da atividade de trabalho. Essas normas “reinventadas” são de uma natureza
64

diferente. Diante da realidade, nas situações reais de trabalho, as estratégias utilizadas pelo
sujeito são recriadas em um movimento de renormalizações que se dá de forma contínua
(CANGUILHEM, 2001).

Dessa forma, no que se refere à formação da subjetividade no trabalho,

É esta gestão da distância entre o trabalho prescrito e o real que cria, que está na
origem do que os psicólogos e os psiquiatras do trabalho chama: a subjetividade
do\no trabalho. É nesse momento que se expressa a personalidade, a
individualidade, a história sempre singular, tanto individual quanto coletiva daqueles
que participam, em tempo real (TRINQUET, 2010, p. 98).

Na perspectiva da Clínica da Atividade, o conceito de trabalho prescrito e de trabalho


real passa por uma problematização e tentativa de reconstrução da noção de atividade. Para
tanto, é proposta uma atualização utilizando-se das noções de “Atividade Realizada” e o
“Real da Atividade”. Nessa perspectiva, a Atividade Realizada é aquela que conseguimos
observar, que está no campo do visível, a que foi escolhida pelo trabalhador, já o Real da
Atividade está na ordem do que o sujeito não consegue fazer ou deixa de realizar. O “não
realizado” pode estar determinado por situações em que ele deixa de fazer por não entender
que seja importante, e em outras possibilidades, por existir algo que o impeça de realizar. A
dimensão do coletivo é importante, pois a atividade também é dirigida para a coletividade, é
na atividade que o individual entrará em contato com o coletivo (CLOT, 2006; 2010).

Em uma aproximação da temática do trabalho real e do trabalho prescrito, é possível


perceber que essa é uma das temáticas de importante aprofundamento, principalmente
baseando-se nas apropriações que as Clínicas do Trabalho fazem dessa temática.

Uma análise a respeito do trabalho real possibilita demostrar a variedade de situações


vivenciadas pelos trabalhadores, que não estão inseridas nas regras/normas/padrões de
segurança ocupacional (RASMUSSEN, 1997).

Diante das formulações e da evolução da discussão das Clínicas do Trabalho, resta-nos


questionar se em algum momento poderão existir normatizações que possam abranger toda a
totalidade do trabalho real. Acreditar que o trabalhador realiza suas atividades usando-se
somente de regras prescritas, tende a respaldar ações e instrumentos que acham que a
responsabilidade pelos acidentes é apenas dos executantes das tarefas. Acreditar que o ser
humano não está passível de algum tipo de erro, desatenção, fadiga, adoecimentos,
dificuldades de relacionamentos com colegas e liderança, mudanças de humor, problemas
65

financeiros, medo do desemprego é colocar o trabalhador em uma posição de perfeição que,


“talvez”, coubesse apenas às máquinas.
67

4 O SETOR DE MINERAÇÃO

4.1 Mineração no Brasil

Falar sobre a história da mineração no Brasil, de alguma forma, nos faz retornar pelo
menos 500 anos, logo após o descobrimento do país. A Coroa Portuguesa foi responsável por
incentivar inúmeras expedições para a busca de ouro no interior no país, cada vez mais longe
dos litorais. Depois de diversas tentativas, frustradas em sua maior parte, foi no século XVII
que foram descobertas jazidas de ouro na região onde se encontra atualmente o estado de
Minas Gerais. Mais exatamente em 1680, foi realizada a descoberta de ouro atribuída a
Manuel Borba Gato, nas margens do Rio das Velhas. Essas jazidas esgotaram-se em meados
do XIX e, sem tecnologias na época, a exploração mineral teve uma significativa redução.
(TRINER, 2011).

Posteriormente, durante o governo Getúlio Vargas, principalmente no período da


segunda guerra mundial, aproveitando-se de uma demanda internacional dos aliados, com
uma necessidade extrema de minerais para fabricação de armamentos, esse governo aproveita
para adotar uma política intervencionista em relação aos minerais, que irá se estender por
muitos anos no país. Assim, foram nacionalizados os principais ativos relacionados à
mineração em todo o país. Dessa forma, a mineração de larga escala no Brasil foi gerida pelo
governo até por volta da década de 80, o que limitava investimentos e aberturas de novas
minas no território nacional, a inserção de novas tecnologias e exploração de todo o potencial
produtivo do país nesse setor. Em 1950, a estimativa da contribuição da mineração para o país
era em torno de 0,4% do PIB (Produto Interno Bruto), já em 1980 esse número passou para
1%. No decorrer da década de 90, aconteceram movimentos de eliminação do protecionismo e
dos privilégios concedidos para as empresas nacionais, assim empresas estrangeiras iniciaram
a sua entrada para a exploração de minerais no país. O território brasileiro possui, em uma
estimativa, cerca de 6,5 % das reservas globais de minério de ferro, significativas amostras de
bauxita e magnésio, e a presença de importantes minerais raros, no caso 90 % da reserva
mundial de Nióbio7 e 45% de Tântalo8 (TRINER, 2011).

7
Metal com propriedades super condutoras.
68

No Brasil, nos últimos anos os investimentos em novos projetos de mineração giraram


em torno de US$ 10 bilhões de dólares e a participação do setor de mineração na economia
brasileira passou de 22% em 1995 para 33% em 2015. No ano de 2015, os dados do
Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram que a quantidade de empregos
contabilizou cerca de 214.070 mil empregos diretos; o setor é um empregador direto
relativamente pequeno em níveis nacionais, essa é uma das características da mineração
moderna no mundo atual. No entanto, ainda não são bem contabilizados os postos de trabalho
indiretos, a atividade de mineração gera efeitos econômicos indiretos, principalmente em
outros setores como construção, comércio, serviços nas comunidades em torno das
minerações, e uma consequente movimentação no mercado de trabalho. Segundo informações
do Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM), o setor extrativo mineral possui a
capacidade de gerar um efeito multiplicador de 3,6 postos de trabalho, dessa forma seriam
770.652 empregos na cadeia produtiva relacionados à mineração no país. Segundo cálculos de
efeito multiplicador na cadeia produtiva, o efeito multiplicador seria de até 13 empregos
indiretos ou induzidos relacionados à mineração do país, esse multiplicador levaria o total de
trabalhadores envolvidos para cerca de 2,7 milhões (IBRAM, 2015; ICMM, 2013).

O país, assim como acontece em outros locais do mundo, passa por uma discussão em
torno de uma reforma das políticas de mineração, focadas em questões de tributação e
mitigação de impactos ambientais. Foi percebido um significativo crescimento da produção
de mineração no Brasil, principalmente após o ano 2000, saindo de US$ 10 bilhões nesse ano
para US$ 50 milhões em 2011 (ICMM, 2013).

No ano de 2013, as contribuições da mineração para com as exportações no Brasil


eram em torno de 23 %, um número abaixo de economias com um grau de desenvolvimento
menor do que no Brasil, como Laos e Tanzânia.

8
Metal utilizado para construção de tubulações de gases.
69

Gráfico 1 - Valores de produção da mineração (1978–2011, bilhões de US$)

Fonte: International Council on Mining and Metals (ICMM), (2013).

As minas em atividade no Brasil envolvem a exploração de 72 substâncias minerais,


sendo 23 dessas metálicas, 45 não metálicas e 4 energéticas. No total, em nosso país, no ano
de 2015, existiam 8.400 minas de exploração. Dessas, 236 produzem mais de 1 milhão de
toneladas no ano e são consideradas de grande porte, o que representa cerca de 2,9% do total
de minas, o montante maior de explorações são as consideradas de nível micro, que
correspondem a 4.116 minas, cerca de 48,9% do total no Brasil (IBRAM, 2015).

Gráfico 2 - Empresas mineradoras no Brasil por Região

Fonte: Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), (2012).


70

No Brasil, existem basicamente dois tipos de estruturas geológicas, uma denominada


de maciços antigos9 e outra de bacias sedimentares10. Os maciços antigos, também
denominados de escudos cristalinos, representam 36% de toda a extensão territorial brasileira,
e seriam o que representa a riqueza mineral no território nacional, onde estão localizados os
minerais metálicos e não metálicos brasileiros. Representando 64% do território estão as
bacias sedimentares, que são constituídas por sedimentos de origem orgânica e por rochas que
passaram por algum tipo de erosão (IBRAM, 2016).

A indústria extrativa, no Brasil, apresenta basicamente 5 divisões que se subdividem


em 8 grupos e compõem o que seria considerado um mapa ou sessão da Indústria Mineral no
Brasil. As cinco principais divisões são: Extração de Carvão Mineral, Petróleo e Gás Natural,
Minerais Metálicos, Minerais Não Metálicos e Atividades de Apoio à Extração.

Quadro 1 - Classificação da Indústria Extrativa

Fonte: IBRAM (2016).

9
Maciços Antigos: estruturas geológicas antigas da crosta terrestre, formadas na Era Pré-Cambriana e início da
Era Paleozoica, constituídos de rochas magmáticas e metamórficas com baixa incidência de atividades sísmicas.
Os minerais metálicos podem ser encontrados abundantemente nas áreas mais antigas dos maciços, os não
metálicos aparecem em áreas mais recentes. (IBRAM, 2016)
10
Bacias Sedimentares: A decomposição, soterramento e sedimentação de materiais orgânicos, como algas
marinhas e florestas, ao longo de milhões de anos foram as responsáveis por dar origem ao petróleo e gás natural
há milhões de anos e formaram as chamadas rochas sedimentares com origem fóssil, um exemplo é o carvão
mineral. (IBRAM, 2016)
71

A maior produção de um mineral no Brasil é de Minério de Ferro, produção que


dobrou de 157 milhões de toneladas, no ano 2000, para 310 milhões em 2010; esse aumento
dos valores de produção estão relacionados com um período de alta no preço desse mineral,
principalmente a partir do ano de 2004 (IBRAM, 2015).

Segundo o informe U.S Geological Survey e a Conferência das Nações Unidas para o
Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), o Brasil é considerado o segundo maior
produtor de Minério de Ferro no mundo. Segundo esses dados informam, no ano de 2011, os
três maiores produtores de material bruto foram China (1,33 bilhão de toneladas), Austrália
(480 milhões de toneladas) e Brasil (390 milhões de toneladas). Porém, quando se considera
a qualidade do minério ou o teor/qualidade do material chinês, a quantidade passa a ser
ajustada para 380 milhões de toneladas, um número menor do que o Brasileiro (IBRAM,
2012).

O principal produto de exportações de minérios no país é o minério de ferro. No ano


de 2013, foram exportados cerca de 35 bilhões em minérios, sendo que 1,8 bilhão estão
relacionadas com o cobre, 750 milhões a outros tipos de minérios e 32,5 bilhões relacionado
ao minério de ferro e seus contratados. O mineral mais importado no Brasil é o cobre, esse
respondeu por 1,4 bilhões de dólares no ano de 2013, o que representou 80% das importações
de minérios. A principal aplicação do minério de ferro está relacionada à produção de aço,
que é direcionado para a construção civil, na formulação de concreto armado e estruturas
metálicas, indústrias de transporte, automobilísticas, aéreas e naval, para fábrica de máquinas
e equipamentos (IBRAM, 2016).

4.2 Mineração em Minas Gerais

A história do estado de Minas Gerais nasce justamente com a mineração,


principalmente com a mineração do ouro e posteriormente com outros minerais.

A primeira mineração vai surgir no estado no ano de 1727, com a mineração de ouro
no vale do Rio Araçuai. Posteriormente, em 1811, em Congonhas do Campo, é instalada a
primeira fábrica de ferro chamada de “Patriótica”, essa era uma empresa privada que foi
implantada por Barão Wilhelm Ludwig von Eschwege. Em 1808, a coroa portuguesa se
transferiu para o Brasil devido à invasão francesa, e o Barão havia sido contratado na época
pela Coroa para fazer um estudo do subsolo no país. Já em 1812, na cidade de Itabira do Mato
72

Dentro, atualmente cidade de Itabira, foi extraído pela primeira vez ferro, através de um
malho hidráulico, o que fez evoluir a mineração no estado de Minas. O progresso marcou o
fim do século XIX. Nesse período foram descobertos os novos processos de transformação do
ferro em aço, assim, o aço, como produto mais maleável que o ferro fundido, permitiu que se
tivessem avanços na produção de máquinas, fábricas e da construção civil; nesse período o
minério de ferro em abundância em Minas, até então desvalorizado, começou a se valorizar
no mundo. Nesse contexto, em 1910, em um estudo realizado pelos alunos da escola de
Engenharia de Ouro Preto, é confirmada a existência de grandes reservas de minério de ferro
no Brasil, e é quando é descoberto o Quadrilátero Ferrífero (IBRAM, 2016).

O Quadrilátero Ferrífero está localizado em uma área central do estado de Minas


Gerais, abrangendo municípios como Belo Horizonte, Betim, Brumadinho, Nova Lima, Ouro
Preto, Sabará, Santa Bárbara e outros, e é a região onde se localiza uma das principais jazidas
de ferro, manganês e ouro do Brasil. Ele ocupa as áreas entre o rio das Velhas e Paraopeba, do
lado oeste, seguindo para o rio Santo Antônio e Piracicaba, até chegar às margens do Rio
Doce. Já no ano de 1939, todo o minério de ferro que era exportado do país era extraído do
Quadrilátero Ferrífero, na época escoado pela estrada de ferro (IBRAM, 2016).

O estado de Minas Gerais atualmente é considerado o mais importante estado


minerador do país, e extrai mais de 180 milhões de toneladas por ano somente de minério de
ferro, respondendo por cerca de 53% da produção no Brasil de minerais metálicos e 29% de
minerais não metálicos. A mineração é uma atividade que está presente em mais de 400
Municípios de todo o Estado. No ano de 2015, eram registradas mais de 300 minas em
operação, sendo que 100 das maiores no país estão no estado (IBRAM, 2015).

A Industria Extrativa Mineral ocupa um lugar significativo no Estado, sendo que um


em cada quatro trabalhadores está empregado em Minas Gerais. Mais de 90% das empresas
mineradoras são classificadas como microempresas e respondem por cerca de 17% dos
empregos e remuneração no setor. Das empresas do estado, cadastradas com atividades
extrativas, 0,4 % são classificadas como grandes empresas, no entanto essas são responsáveis
por empregar mais de 50% dos trabalhadores do setor e representam 69,5% da remuneração
do segmento (IBRAM, 2016).

O gráfico abaixo apresenta o percentual de pessoas empregadas na indústria extrativa,


por estado. Nota-se que Minas Gerais, com 24, 5%, é o estado com maior percentual de
pessoas empregadas, no setor, no país.
73

Gráfico 3 - População Ocupada na Indústria Extrativa Mineral (com Petróleo e Gás Natural) no Brasil,
por Estado – 2011 (em %)

Fonte: Extraído IBRAM (2016).

Na região metropolitana de Belo Horizonte, os principais minerais extraídos são: ferro,


ouro, manganês, calcário, areia e grafita. Em dados de 2011, em relação ao PIB na região
metropolitana de Belo Horizonte, 44, 59% advém da extração de minérios e a extração
mineral é responsável por empregar 31, 76% na região da cidade (IBRAM, 2016).

4.3 Vida Útil da Mina

Uma das primeiras denominações importantes, ao pensarmos no contexto da


mineração, é a diferenciação entre Recursos Naturais e os Minérios. Recursos Naturais refere-
se a tudo que possui uma concentração natural que possa ser sólida, liquida ou gasosa. Os
minérios são as substâncias que são retiradas da mina e que têm um valor econômico
agregado. Nesse sentido, o que uma mineração produz ou extrai são os minérios, esses é que
trarão retorno financeiro para uma mineradora. Assim, os minérios possuem diversas
aplicações em nosso mundo contemporâneo, que vão desde a construção civil, passando pela
indústria siderúrgica, entre outras (TANNO & SINTONI, 2003).

Segundo Hartman e Mutmansky (2002), um empreendimento para a extração de


minérios normalmente pode ser dividido em cinco fases, que seriam o estágio da vida útil de
uma mina (Stages in the life of a mine), e são: Prospecting (Prospecção), Exploration
74

(Investigação11), Devolupment (Desenvolvimento), Exploitation (Exploração) and


Reclamation (Recuperação).

A Prospecção consiste no primeiro estágio de utilização do depósito mineral, e está


relacionada à busca de materiais metálicos ou não metálicos de valor. Para tanto, são
utilizadas técnicas de análise da superfície, dos materiais na superfície, e é o momento em que
se busca conhecer o terreno e suas variações. Depois desse estudo prévio e uma análise
preliminar, se parte para um estudo mais aprofundando de toda a complexidade do depósito, e
assim segue-se para a Investigação. Na fase de Investigação, são empregadas técnicas mais
especificas para a verificação dos minérios presentes no terreno, assim são feitas sondagens,
onde são retiradas amostras do solo para análise; são feitas análises por raio X e toda a
tecnologia que possa ajudar na formação de uma imagem dos materiais presentes naquele
depósito, qual a sua quantidade, por onde está distribuído, etc. Nesse momento será possível
avaliar o impacto ambiental, custos para a montagem da estrutura de retirada do material,
logística de transporte, assim chega-se à verificação de viabilidade do depósito para seguir
para a etapa seguinte. A fase de Desenvolvimento está relacionada com começar a expor o
corpo rochoso, retirar vegetação e outras coisas para que fique disponível o mineral para
retirada. Nesse momento são conseguidos os licenciamentos, analisados os impactos
ambientais, também são feitas as estradas, instalação de energia elétrica, estruturação dos
equipamentos de transporte e processamento, estabelecimentos dos escritórios e outras áreas
de suporte (HARTMAN; MUTMANSKY, 2002).

Ainda segundo Hartman e Mutmansky (2002), a etapa seguinte é a de Exploração,


nesse momento se terá a efetiva retirada do minério de seu depósito. O método de retirada
será determinado pelas características do minério a ser explorado de acordo com os limites de
custos, segurança, tecnologia e impacto ambiental, assim será escolhido o tipo de exploração,
se seguirá por exploração de superfície (mina a céu aberto, modelo mais tradicional) ou se
será através de uma exploração subterrânea (mina subterrânea). Durante a exploração,
acontece o desmonte das rochas (perfuração e detonação) e transporte do material (escavação
e processamento). A etapa final de vida útil de uma mina é a Recuperação, nesse momento
será fechada a mina, será feita a restauração da vegetação, recuperação do valor do terreno e

11
Os autores Hartman e Mutmansky, (2002) utilizam a palavra Exploration e Exploitation. Em uma tradução
melhor a primeira fase de exploration, estaria mais relacionada com investigação. Normalmente, na língua
inglesa a palavra exploration é utilizada mais no sentido de conhecer a respeito de um local.
75

da água. Durante o fechamento da mina, devem ser consideradas questões importantes como
se essa área será aberta ao público em geral, a remoção dos escritórios e estruturas físicas
deve ser completa, a empresa deve se preocupar em eliminar todos os perigos físicos,
inclusive de queda de estruturas geológicas, deve ser feita a restauração das plantas nativas e
recuperação do solo através da revegetação, posteriormente esse deve ser devolvido para a
sociedade para construção de condomínios, shoppings, aeroportos, dentre outros. A
recuperação é a parte mais difícil da vida de uma mina e deve ser iniciada a partir da primeira
retirada de material. Essa é uma parte importante que deve entrar nos custos de início de
exploração das minas.

4.4 Mineração e Segurança do Trabalho

Ao longo da história da humanidade, a atividade de mineração sempre esteve


intimamente relacionada com questões de segurança no trabalho. Os acidentes envolvendo
minerações ao longo do mundo são diversos. O surgimento da Engenharia de Segurança,
inclusive, estaria relacionado com a atividade de mineração, pois, em 1815, a Sociedade de
Prevenção contra Acidentes nas Minas de Carvão da Inglaterra solicitou a Humphrey Davy
para diminuir o número de explosões dentro das minas, essas aconteciam com muita
frequência devido à liberação do Gás Metano. O gás entrava em contato com as lamparinas
dos mineiros e aconteciam as explosões. Dessa forma, Davy desenvolveu o que ficou
conhecido como “Lâmpada de Davy”, que era um dispositivo que fazia com que as lâmpadas
tivessem a temperatura abaixada e que diminuía os riscos de ignição (DWYER, 2006).

Já na obra A Doenças dos Trabalhadores, de Bernardino Ramazzini (2000),


considerado um dos pioneiros nas questões da Saúde e Segurança no Trabalho, aparecem o
que ele denomina de as “Doenças dos Mineiros”. Segundo relatos do autor, trabalhar nas
minas era considerado um castigo, sendo que os condenados a trabalharem com os metais
eram os piores criminosos. Sobre as doenças dos mineiros,

Surgem, pois, sérias doenças provocadas pelas propriedades nocivas do material que
afligem os mineiros, assim como todos os outros operários que trabalham com
minerais: ourives, alquimistas, destiladores de aguardente, oleiros, espelheiros,
fundidores, estanhadores, pintores e outros. Aqueles que mais padecem dos danos
pestíferos escondidos nos veios metálicos subterrâneos são os cavouqueiros, que
passam grande parte de sua vida nas profundas entranhas da terra, como se
entrassem diariamente no inferno (RAMAZZINI, 2000, p. 29).
76

Os acidentes envolvendo trabalhadores da mineração, já no século XVIII, também


eram comuns no Brasil. Os relatos envolvendo desabamentos de rochas e vidas perdidas,
principalmente de escravos, já eram relacionadas com imperícia e negligência dos
administradores e proprietários da época. Um dos primeiros desastres da mineração no Brasil
é relatado no séc. XIX, onde nas localidades de São João Del Rei foram soterradas mais de
200 pessoas, nessas inclusas escravos e feitores. Outros acidentes significativos foram
relatados na região de Itabira do Campo, envolvendo soterramento de mineiros, inclusive um
caso em que uma pedra bloqueou a saída dos mineiros e, para que eles não morressem de
inanição, foi decido inundar a mina para que morressem afogados, evitando as dificuldades da
uma morte lenta. Na Mina da Passagem, localizada na região de Ouro Preto, era comum os
acidentes e mortes pela queda dos chocos12. Na região de Nova Lima, na Mina do Morro
Velho, em 1867 e 1886, aconteceram também acidentes graves, o primeiro em que 18 pessoas
faleceram após um desabamento nas minas e o segundo em que mataram mais de 30 operários
(SOUZA, 2009).

Ainda de acordo com Souza (2005), a primeira discussão sobre segurança nas minas
do Brasil surge apenas em 1890, em trabalhos que foram realizados na The Ouro Preto Gold
Mines, onde eliminaram os pilares utilizados de madeira e passaram a utilizar apenas
alvenaria nos pilares da mina. Em 1904, são relatadas as primeiras preocupações de origem
sanitária nas minas, que estavam relacionadas ao adoecimento dos operadores de perfuratrizes
que estavam adoecendo de silicose. Assim, foi iniciado um trabalho de fornecer água potável
no interior da mina para os profissionais e de fornecer um sistema de águas nas perfuratrizes
para que se diminuísse a quantidade de poeira no interior da mina.

No início do séc. XX, foram introduzidas nas minas algumas tecnologias como energia
elétrica, a dinamite e alguns maquinários movidos à água, assim, em conjunto com esse
avanço das tecnologias, os trabalhadores necessários nas minas também tiveram seus
contingentes aumentados, o que culminou no aumento do número de acidentes. Com os
avanços, um novo tipo de acidente, relacionado ao uso de dinamite, aumentou
significativamente, principalmente nos processos de detonação nas minas. Em 1833, se tem
referências das primeiras regras relacionadas à segurança, que foram estabelecidas na

12
Choco se refere a pedras e placas em minas subterrâneas que podem se desprender e vir a cair. Nas minerações
atuais ainda existe a função do Batedores de Choco, que são os profissionais responsáveis por eliminar essas
condições de risco, antes do início das atividades na frente de lavra.
77

Sociedade de Cocais. A regra explanava sobre ouvir gritos dentro da mina e que todos eram
obrigados a ajudar, fornecendo socorro. Quem não agisse de tal forma estava sujeito a
penalidades e os que atuavam com presteza, poderiam ser reconhecidos (SOUZA, 2009).

No Brasil, a legislação que regulamenta a indústria minerária é a Norma


Regulamentadora n. 22 – Segurança e Saúde Ocupacional, Normas Reguladoras da Mineração
(NRM), vinculada ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

O Brasil, desde 2001, está vinculado à Convenção de n. 176, da Organização


Internacional do Trabalho, que explicita sobre à segurança e saúde nas minas. Essa entende
que a mina seria qualquer lugar a céu aberto ou subterrâneo que realize atividades de
exploração de minerais, com exceção do petróleo e do gás. Essa OIT versa sobre a
responsabilidade das mineradoras em garantir que a mina funcione de modo que os seus
trabalhadores não sofram perigos relativos à segurança e saúde. E explicita, ainda, sobre os
acidentes de trabalho, dizendo que todos os acidentes devem ser objeto de inquérito, com o
objetivo de tomar ações para evitar essa situação no futuro, devendo ser elaborado um
relatório desse acidente que seja encaminhado para as autoridades nacionais.

No Brasil, ainda, deste 1999, foi criada a Comissão Permanente Nacional do setor
Mineral (CPMN), com a coordenação do Ministério do Trabalho e Emprego, com o objetivo
de propor melhorias das condições de trabalho no setor, acompanhar e traduzir de uma forma
mais acessível a Norma Regulamentadora n. 22 e buscar alternativas para situações de maior
risco no setor. A Comissão é composta por representantes do governo dos Departamento de
Segurança e Saúde no Trabalho, Departamento Nacional de Produção Mineral, Fundação
Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Saúde no Trabalho, Ministério da Previdência e
Assistência Social e Ministério da Saúde, além de representante de empregadores do setor
representados por (CNC - Confederação Nacional do Comércio de Bens, CNI - Confederação
Nacional da Industria, CNT - Confederação Nacional do Transporte e CNF - Confederação
Nacional das Instituições Financeiras) e representantes dos trabalhadores (FS – Força
Sindical, CUT – Central Única dos Trabalhadores e CGT – Comando Geral dos
Trabalhadores). A coordenação fica ao cargo de Mário Parreira de Faria, do Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE).

Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (2002), até o ano de 2001, no


Brasil, o setor em que mais aconteciam acidentes e mortes no trabalho era o setor de
mineração.
78

Um dos importantes fóruns que atualmente controlam informações sobre Segurança


Ocupacional no mundo, relacionada à mineração, é o Conselho Internacional de Mineração e
Metais (International Council on Mining and Metals - ICMM), criado em 2001, sediado em
Londres, na Inglaterra, e que reúne 23 empresas de mineração de diferentes localidades do
mundo. Seu objetivo é melhorar o desenvolvimento e desempenho sustentável da indústria de
mineração no mundo. O foco das discussões do órgão é relacionado a assuntos como mudança
climática, a saúde e segurança, biodiversidade e povos indígenas (ICMM, 2015).

Esse fórum anualmente disponibiliza algumas informações sobre segurança no


mercado da mineração. Uma das informações que nos interessa são as fatalidades acontecidas
nos últimos anos relacionadas à mineração. No período de 2012 até 2015, em todo o mundo,
foram mais de 297 mortes relacionadas à mineração.

Gráfico 4 - Fatalidades na Mineração por Ano

Fonte: ICMM (2015).

As três principais causas dessas fatalidades foram queda de altura, seguida de contato
com máquinas e transporte de forma geral. Somente essas três causas representam cerca de
70% de todas as fatalidades nas empresas de mineração por todo o mundo.
79

Gráfico 5 - Causa de Fatalidades (2015)

Fonte: ICMM (2015).

Ao analisar as fatalidades por países, o Brasil está na quarta posição, atrás apenas de
África do Sul, Zâmbia e Austrália. No material, podemos perceber que 60% das fatalidades na
mineração em 2015, no mundo, aconteceram na África, em seguida temos a América Latina
com 13,3%, América do Norte com 8,3%, 6,7% na Oceania e a Europa com os menores
números, 5%.

Gráfico 6 - Fatalidades por Países (2015)

Fonte: ICMM (2015).

Os números representados nas informações do ICMM são importantes e nos auxiliam


na construção de um quadro geral dos acidentes relacionados à mineração no mundo. No
80

entanto, um ponto crítico dessas informações é que algumas empresas brasileiras não fazem
parte do ICMM e, portanto, não fornecem suas estatísticas de acidentes. Dessa forma, a
posição da América Latina e do Brasil, nessas estatísticas, pode estar desatualizada.

No Brasil, segundo dados do Anuário de Acidentes (2015), o setor de extração teve


6.909 acidentes no ano de 2013. As informações estatísticas, brasileiras, em mineração, ainda
não são as mais fáceis de serem encontradas e existem poucos órgãos que procuram fazer
consolidações e análise sobre esse material.
81

5 PERCURSO METODOLÓGICO

5.1 Contextualização e Metodologia

A escolha desse tema de pesquisa aconteceu pela necessidade de aprofundar os meus


conhecimentos sobre uma parte de minha atividade profissional, visto que atuo como Analista
de Segurança do Trabalho em uma empresa de mineração. Tenho formação em Psicologia e,
desde a graduação, atuo na área de Psicologia Organizacional e do Trabalho. Há cerca de
cinco anos venho atuando em uma empresa de mineração no departamento de Saúde,
Segurança e Meio Ambiente, em processos voltados para a prevenção de acidentes. Dentre as
minhas atividades profissionais, faz parte acompanhar investigações e análises de acidentes de
trabalho. Assim, é meu papel, em determinadas situações, conversar com os empregados
acidentados e com equipes envolvidas em determinados tipos de acidentes. É devido a essa
experiência no acompanhamento de diversos tipos de acidentes, envolvendo fatalidades,
perdas de membros, dentre outras lesões, que a temática das investigações de acidentes está
no centro de minhas preocupações.

Um dos meus incômodos em minhas experiências no acompanhamento das


investigações e análises de acidentes é que as análises usavam apenas métodos tradicionais
para recolher as percepções dos trabalhadores e acabavam tendo como resultado a formulação
de planos de ação que não eram aderentes à situação do acidente. Além disso, em muitos
casos o trabalhador acidentado acabava por ser nomeado como o “único” culpado por ter se
acidentado. Diante desse cenário, existia uma pergunta frequente, que advém da minha prática
de atuação profissional: como a Psicologia do Trabalho poderia contribuir para a melhoria e
ampliação das investigações e análises de acidentes ocupacionais?

Dessa forma, a escolha do objeto desse trabalho aborda como os pressupostos e


métodos da Psicologia do Trabalho, principalmente aquelas denominadas de abordagens
clínicas do trabalho, podem contribuir nas investigações e análises de acidentes ocupacionais.
Depois de delimitada a temática do trabalho, faltava ainda decidir onde poderia ser realizada a
pesquisa. Devido a questões profissionais e pessoais, optou-se por realizar essa investigação,
baseada no formato de estudo de caso, na mineradora onde exerço minhas atividades
profissionais.

A escolha pelo balizamento do método de estudo de caso está relacionada com a


possibilidade de fazer um estudo de um objeto de forma a construir conhecimentos mais
82

detalhados e, em certa medida, amplos sobre o mesmo, tendo a oportunidade de fazer uma
compreensão do fenômeno pautada em aspectos individuais, organizacionais e sociais,
entendendo que a análise de uma unidade pode contribuir nas possibilidades de generalização
do estudo ou no encaminhamento de novas questões de investigação (GIL, 1989; YIN, 2001).

A temática de Acidentes de Trabalho e a Psicologia do Trabalho é um assunto que


ainda não se encontra consolidado ou encerrado, e merece estudos na tentativa de
aprofundamento dessas correlações. Na bibliografia sobre a temática de acidentes, podemos
ver que o assunto ainda está amparado na divisão entre duas grandes temáticas: as abordagens
com cunho técnico ou material, que focam em condições, e a abordagem dos fatores humanos,
principalmente aquela que explica sobre o erro humano. No entanto, como nos demostram
(CLOT, 2006; LIMA, 2007; OSORIO, 2014; TRINQUET, 2010), existem interfaces e
conhecimentos próprios das clínicas do trabalho que podem contribuir na evolução da
explicação sobre o erro humano, demostrando que a complexidade de cada acidente merece a
sua devida atenção.

Sendo assim, para esse estudo de caso, nossa atenção está voltada para o processo
dialético entre o acidente e as concepções da psicologia do trabalho, buscando conhecer onde
esses dois pontos fazem convergência. Para tanto, a abordagem teórica do objeto desse
trabalho busca produzir uma articulação entre a Psicologia do Trabalho, principalmente
aquela com origens francofônicas, e teorias/concepções mais relevantes no contexto atual
sobre acidentes.

A pesquisa foi desenvolvida em uma mineradora de grande porte na região de Belo


Horizonte, mais especificamente em uma de suas empresas contratadas para realização de um
projeto de infraestrutura. O objetivo da pesquisa foi verificar como a Psicologia do Trabalho
poderia contribuir nos processos de investigação e análise de acidentes de trabalho nessa
empresa contratada. A Psicologia do Trabalho tem, como já sinalizado, buscado construir
métodos que privilegiam conhecer situações concretas de trabalho, para encontrar possíveis
situações de adoecimento, de promoção de saúde, geração de acidentes, visando construir
explicações e propor ações para mudança desse cenário (BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011;
CLOT, 2010; OSORIO 2013; TRINQUET, 2010).
83

A mineradora trabalha com a extração e o beneficiamento de minério de ferro e possui


grau de risco 413. A área escolhida para a realização da pesquisa foi criada na empresa no final
do ano de 2010 e trabalhava exclusivamente com a implantação de projetos de investimentos
com o intuito de manter a capacidade produtiva das unidades industriais, realizar obras de
melhorias, ampliação e correção de acordo com as necessidades e planejamento. Essa área é
denominada, pela companhia, de “Sustaining”, por ser responsável pela sustentabilidade das
operações.

O setor possui equipes multidisciplinares, com a presença de áreas de Planejamento,


Administrativas, de Gestão de Contratos e de Implantação de Obras. A equipe era composta
de 53 (cinquenta e três) funcionários próprios. Sob a gestão desta equipe existiam
aproximadamente 40 obras em execução e em processo de mobilização14, totalizando um
efetivo de 2.500 (dois mil quinhentos) empregados contratados. Especificamente no contrato
de obras civis para manutenção do talude da cava, onde foi realizado o trabalho com a
empresa contratada, existiam aproximadamente 246 (duzentos e quarenta e seis) empregados
contratados.

Para suporte, na empresa contratada em assuntos relacionados à Saúde e Segurança


Ocupacional, existiam funcionários próprios da mineradora, compostos por um gerente de
segurança, um supervisor, três engenheiros, um analista e sete técnicos de segurança do
trabalho. Esta equipe era subdividida por locais, onde cada localidade possuía disponível em
tempo integral um engenheiro e dois técnicos de segurança do trabalho. O SESMT da
empresa contratada para atendimento e suporte à obra de manutenção do talude da cava era
composto por um engenheiro e quatro técnicos de segurança, um enfermeiro e um médico do
trabalho, e a CIPA era composta por 14 membros, sendo 08 titulares e 06 suplentes, todos
funcionários da empresa contratada. O quadro de gestão da empresa possuía 1 (um) diretor
operacional, 1 (um) gerente técnico, 1 (um) gerente operacional, 18 (dezoito) encarregados, 4
(quatro) Engenheiros e 2 (dois) administradores.

13
Definido pela Norma Regulamentado N° 4 o Grau de Risco serve para mensurar o risco de cada atividade.
Essa medida é feita considerando a ramo de atividade da empresa. As minerações, se enquadram no grau de risco
4.
14
Mobilização é a parte inicial da entrada da empresa no projeto. É o momento onde serão treinados os
funcionários, instalação das estruturas de escritórios e preparação para início da execução da obra. As fases que
compõe o projeto na empresa eram: contratação, mobilização, execução e desmobilização.
84

Além disso, uma empresa contratada fazia o gerenciamento da empresa que executava
o projeto no talude da cava. Essa empresa possuía 1 (um) engenheiro civil, 2 (dois)
topógrafos, até determinado momento do projeto 2 (dois) técnicos de segurança e 1 (um)
enfermeiro do trabalho, que ficavam em tempo integral acompanhando a execução do projeto,
fazendo medições, verificações de qualidade de serviço e de materiais utilizados. Essa
empresa tinha como objetivo fazer a gestão da empresa que fazia a execução da obra,
representando a empresa contratante, no caso, a mineradora.

Em relação aos métodos de recolhimento de dados, concordamos aqui com Lima


(2002), no sentido que seja feita uma aproximação do que se pretende investigar sem qualquer
tipo de barreira metodológica construída previamente, “ou seja, sem um caminho pré-
configurado nem a pretensão de ter acesso a uma chave de ouro que nos abriria as portas para
o nosso objeto” (LIMA, 2002, p. 124).

O objeto de pesquisa e o campo de estudo são também, em certa medida, o que


contribui para o desenvolvimento do trabalho. Naturalmente tínhamos uma proposta inicial
que envolvia uma aplicação mais completa de alguns métodos das clínicas do trabalho, no
entanto, em contato com o campo, foram surgindo caminhos diferentes, que fizeram com que
o trabalho fosse se delineando e assumindo contornos um pouco diferentes da proposta inicial,
mas que não fizeram com que o foco inicial do objeto de estudo, sobre a contribuição da
Psicologia do Trabalho para a prevenção de acidentes, se perdesse.

No decorrer desta pesquisa, nos inspiramos em alguns métodos que poderiam


contribuir no recolhimento de dados para esse estudo. Para tanto, utilizamos o recurso de
gravação de vídeo da execução das atividades, das discussões em grupo sobre a atividade de
trabalho com foco em soluções de problemas e no envolvimento dos trabalhadores na
construção de uma análise coletiva dos acidentes. Existe um grifo nosso na palavra inspiração,
pois, naturalmente, não aplicamos esses métodos na íntegra, mas sim nos inspiramos em
alguns elementos para o recolhimento de informações. A pesquisa buscou caminhos
sinalizados por esses métodos, sem devoção a nenhum em específico.

A utilização do recurso de gravação de imagens para a análise da atividade de trabalho


tinha como objetivo recolher elementos sobre a atividade real dos trabalhadores. A utilização
de imagens para análise e conhecimento do trabalho real é relativamente recente e remonta as
primeiras utilizações a Ombredame e Faverge, no ano de 1955 (CUNHA; MATA; CORREIA,
2006).
85

Posteriormente, esses métodos de utilização de imagens irão evoluir “enquanto ponto


de partida de alguns métodos de investigação/intervenção e, mais recentemente, de formação.
Por exemplo, através do método de autoconfrontação (...)” (CUNHA; MATA; CORREIA,
2006, p. 25). Dessa forma, alguns pesquisadores contemporâneos aprimoraram esses métodos,
principalmente no papel de envolvimento e confrontação dos trabalhadores com as imagens
(CLOT, 2006, 2010).

Os grupos de encontro de trabalho têm origem na Ergologia e são formados para


alcançar soluções em relação a alguma temática específica do trabalho. Dessa forma, busca
soluções tentando envolver os interessados na temática e propõe que sejam construídas
soluções práticas e viáveis de execução (TRINQUET, 2010).

O método de Análise Coletiva de Acidentes busca, através do grupo de profissionais


que executam a mesma atividade, reconstruir os acontecimentos mais importantes que tiveram
como resultado o acidente de trabalho e elucidar, para o outro e para si mesmo, as situações
que tiveram como resultado final o acidente. O descortinamento visa auxiliar na construção e
estruturação de coletivos de trabalho e em processos de mudança mais duradouros,
entendendo que esses são importantes nos processos de prevenção de acidentes (OSORIO;
MACHADO; GOMES, 2005).

O primeiro passo da pesquisa foi conseguir a aprovação do projeto de trabalho no


Comitê de Ética em Pesquisa. Assim, a pesquisa recebeu aprovação do Comitê de Ética em
Pesquisa da Pontifica Universidade Católica de Minas Gerais e seguiu as normas da
Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde.

Posteriormente, o pesquisador procurou pelo departamento na empresa responsável


para liberação do início da pesquisa. Após vários desencontros e conflito de informações, foi
identificado que a primeira área a ser envolvida era a de comunicação institucional. Assim,
após algumas conversas com esse setor, e de acordo com as suas orientações, foi agendado
um primeiro encontro.

Nesse primeiro encontro, o projeto foi apresentado para os representantes das áreas de
Comunicação Institucional, Segurança Ocupacional e Segurança Empresarial. As principais
dúvidas e discussões foram relacionadas aos cuidados com o uso das imagens, principalmente
de alguns equipamentos/tecnologias específicas da empresa e dos funcionários.

Em um segundo encontro, já assinadas e entregues as liberações necessárias para que


iniciássemos a pesquisa, a área de Segurança Ocupacional indicou que o trabalho poderia ser
86

realizado em uma diretoria que trabalha com projetos de infraestrutura e também em algumas
áreas de Operação de Mina. O primeiro ponto levado em consideração foi buscar localidades
que estivessem na região de Belo Horizonte para facilitar o deslocamento do pesquisador.

Depois de mapeadas as áreas, foi solicitado pela empresa que fizéssemos uma
apresentação da pesquisa para os gerentes das áreas mapeadas. Assim, fizemos a apresentação
para a área de projetos, mais especificamente para o Gerente e o profissional responsável pela
execução de obras de infraestrutura na região da grande Belo Horizonte.

Uma das condições importantes para a realização do estudo estava relacionada ao


acontecimento de algum acidente ocupacional recente que necessitasse passar por um
processo formal de investigação e análise de acidentes mais aprofundado e que se beneficiasse
das abordagens propostas. Além disso, foi combinado o acesso às informações de
procedimentos, acidentes e demais fatores pertinentes que pudessem contribuir para o
andamento da pesquisa.

Assim, na mesma semana em que tínhamos apresentado o projeto, aconteceu um


acidente ocupacional, envolvendo um profissional que exercia a função de Alpinista, na
execução da atividade de Esticamento de Cabo de Aço, no projeto de obras civis para a
manutenção do talude da cava.

O presente estudo contou com algumas etapas, que serão descritas a seguir, todas as
etapas do estudo foram realizadas dentro das dependências da mineradora.

O marco do início do recolhimento de dados desse estudo partiu da ocorrência do


acidente ocupacional. O estudo contou com uma etapa inicial de produção de imagens da
atividade pelos trabalhadores, discussão em grupo sobre o acidente de trabalho e a construção
de propostas para a eliminação das condições inseguras dessa atividade no futuro.

Durante a discussão em grupo, foi nosso foco conhecer melhor elementos da atividade
dos alpinistas, principalmente no que se refere à organização do trabalho, os seus gestos,
formas de comportamento, mensagens e informações que eles trocam entre si, dialetos
específicos, máquinas, ferramentas e materiais mais utilizados, etc. Em certa medida,
buscamos conhecer a maior quantidade de elementos que auxiliassem na identificação das
situações de risco e explicassem as causas do acidente, principalmente fugindo da
representação do erro humano. Além de buscar construir, com o coletivo de trabalhadores,
ações voltadas para a prevenção de acidentes similares. A discussão em grupo durou em torno
87

de 1 hora e 30 minutos e o vídeo da atividade de esticamento de cabo de aço tem uma duração
de 7 minutos.

Posteriormente, foram realizadas 4 (quatro) entrevistas, sendo (1) uma com o


engenheiro de segurança e (1) uma com o técnico de segurança da empresa contratada, (1)
uma com o técnico de segurança da mineradora e também (1) uma com o engenheiro civil da
empresa de gerenciamento, responsável por acompanhar a empresa contratada. As entrevistas
duraram, em média, cerca de 2 horas.

As documentações e informações estatísticas abrangeram a execução de todo o


projeto, mais especificamente entre os anos de 2014 até o final de 2016. As considerações
sobre as informações contidas nas documentações, como relatórios, procedimentos e
instruções de segurança, além das estatísticas, não serão alvo de grandes análises, pois foram
apenas recolhidas na empresa e não contaram com nossa participação na elaboração, portanto
não podemos certificar sua acurácia.

As entrevistas e discussão em grupo foram gravadas em dispositivo específico, sempre


com a autorização prévia dos participantes, e posteriormente transcritas para texto. Durante o
processo de transcrição das informações coletadas, foram checadas algumas vezes, através de
várias audições, a fim de traduzir o material de forma mais fidedigna à realidade,
principalmente na discussão em grupo que torna o processo de transcrição mais moroso e
difícil. As entrevistas foram realizadas no formato de semiestruturada, no qual existia um
roteiro previamente estabelecido, mas que, no decorrer do diálogo, no surgimento de novas
questões, possibilitava que essas fossem aprofundadas. Assim, as entrevistas continham
assuntos previamente elaborados e transformados em perguntas, com fins concretos de
entender melhor determinada realidade.

Foi realizado um Diário da Pesquisa, contendo anotações das principais informações


recolhidas, impressões e novos caminhos que poderiam ser seguidos. O diário continha
informações que não eram registradas em meios formais, como gravações. Nele, estavam
relatados, também, as principais discussões com o orientador e com os colegas que conheciam
a pesquisa, as reflexões do pesquisador sobre sua pesquisa, dificuldades de início do trabalho
em campo, das indicações bibliográficas, que provinham, inclusive, de profissionais
envolvidos na pesquisa (FLICK, 2009).

Para análise dos dados, buscamos seguir uma sequência lógica de ordenação dos dados
provenientes do processo de organização de todos os documentos recolhidos, das transcrições
88

da discussão em grupo e entrevistas. Assim, essa foi dividida em duas fases, uma de
apresentação de informações sobre o projeto e a atividade dos Alpinistas e, posteriormente, o
relato da experiência em grupo na discussão sobre a atividade de esticamento de cabo de aço.
Nesse momento, se pretende fazer uma análise das principais informações recolhidas na
discussão em grupo, onde se almejou construir uma articulação entre as informações
empíricas levantadas e os referenciais teóricos utilizados nesse trabalho e, assim, construir um
trânsito entre informações que passam do nível particular para o coletivo, em um exercício
dialético que visa construir uma reflexão sobre o trabalho.

O primeiro movimento de análise foi iniciado através da classificação das


informações, separando os conteúdos que se mostravam relevantes. A partir disso, buscou-se
criar um recorte temporal relacionado ao início do projeto de execução da manutenção da
cava, qual a sua finalidade e objetivo. O passo seguinte foi contextualizar as informações de
segurança ocupacional recolhidas da empresa durante a realização do projeto, relatar alguns
acidentes ocupacionais relevantes durante a execução do projeto, como era o formato das
investigações e análises de acidentes e suas prescrições.

O segundo movimento analítico será apresentar as principais discussões e elementos


que se apresentaram na discussão em grupo com os alpinistas, quais as possíveis articulações
com as concepções de acidentes de trabalho, além de uma articulação com alguns conceitos e
direcionadores das clínicas do trabalho. Em um momento final, iremos apresentar os
desdobramentos posteriores do acidente em questão e os desdobramentos desse estudo.

Dessa forma, sem pretensão de elaborar um conhecimento acabado do assunto, esse


trabalho buscou contribuir com uma reflexão sobre a segurança dos alpinistas contratados,
dentro de uma empresa de mineração, para execução de uma obra civil.

Em um quadro geral (Quadro 2), esses foram os profissionais que participaram de


todas as etapas de recolhimento de dados durante a pesquisa.

Quadro 2 – Participantes da pesquisa

Fonte: Elaborado pelo autor.


89

5.2 Análise de Implicação

A presença do pesquisador em seu ambiente de estudo, por si só, produz alterações nas
formas tradicionais de funcionamento. Assim, a presença do pesquisador no campo de
pesquisa e seu contexto são itens importantes de serem abordados em um estudo. Explanar
sobre uma absoluta neutralidade em ciências humanas é sempre um assunto difícil e muitas
vezes controverso. Seja do ponto de visto de observador ou das opções metodológicas que são
utilizadas, dificilmente podemos desconsiderar os fatores de interferência que podem ter um
pesquisador diante de seu objeto. O local de passividade do pesquisador tradicional, aquele
que se mantém distante de seu objeto, com um tipo de afastamento, é questionado nas
pesquisas das ciências humanas, com isso existe uma flexibilização nas exigências de
neutralidade, e no uso dos instrumentos que buscam a objetividade em pesquisa (PAULON,
2005).

Dessa forma, existe uma necessidade de superar a suposta neutralidade em pesquisa,

O problema relativo à participação ativa das pessoas implicadas com uma pesquisa e
da interferência dos dispositivos de investigação nos processos observados só pôde
ser concebido como um problema de pesquisa com a superação das pretensões de
neutralidade e objetividade tão promulgadas pelo paradigma positivista nas ciências.
As contribuições da fenomenologia e da Psicologia Social de Kurt Lewin foram
fundamentais para isto. Ao afirmar a inviabilidade do pesquisador colocar-se “fora”
do campo de investigação, mostrando as zonas de interferência entre ambos, estas
abordagens dos fenômenos sociais produziram rupturas significativas no que se
instituíra como lógica científica até então (PAULON, 2005, p. 19).

Nesse sentido, o pesquisador ao fazer parte do campo em que se pesquisa, pode trazer
eventuais vantagens e também desvantagens, nesses casos, afim de evitar prejuízos nos
estudos faz se importante partir-se da premissa de que os participantes se manifestem
livremente, que tenham oportunidade de desistirem em qualquer momento e foi seguindo
essas diretrizes que o trabalho decorreu. No entanto, a presença do investigador como um
funcionário da mineradora estudada não pode ser desconsiderada, principalmente na interação
com os profissionais que atuavam nas empresas contratadas por essa. Na mesma medida em
que o fato pode trazer algum tipo de barreira, no sentido de que esse pertence a outra
companhia e não faz parte de nosso grupo (empresa contratada), ou até no sentido de que não
existe isenção na escuta; pode também, trazer uma abertura para os profissionais
(participantes das discussões), visto que quem escuta (pesquisador) não está diretamente
implicado na estrutura organizacional que faz parte os participantes, no caso, os funcionários
90

da empresa contratada. Em relação aos funcionários da mineradora, os pontos de vista são


parecidos, com exceção de que pode existir uma dificuldade em colocar o profissional no
papel de pesquisador, e acreditar que esse já faz parte de seu grupo, fazendo com se tenha um
tom de informalidade nas colocações, sem preocupação com o papel de um pesquisador.

Uma das estratégias utilizadas nesse trabalho, para tentar diminuir esse impacto, foi
investir na exaustiva explicação dos objetivos do trabalho, do papel que estava sendo
desempenhado pelo pesquisador, da explicação dos possíveis impactos para os participantes.
Um dos fatores que contribuíram nesse sentido é que o pesquisador, apesar de fazer parte do
quadro de pessoal da mineradora, não atuava diretamente nessa área, portanto não possuía
nenhum tipo de relacionamento, até então, com os profissionais das empresas contratadas e da
mineradora.

Durante o processo de discussão em grupo e na realização das entrevistas, o


pesquisador procurou adequar sua linguagem aos participantes para que eles se sentissem
mais confortáveis com a participação na pesquisa.

O processo de pesquisar naturalmente acaba por intervir na realidade, faz participar da


produção de uma nova realidade, que em nenhuma situação encontra-se congelada ou estática.
A participação do pesquisador na realidade em que se pesquisa deve ser sempre objeto de
análise. Na metodologia da pesquisa-intervenção, a implicação do pesquisador é quase sempre
um objeto de análise, principalmente dos lugares em que os atores passam a ocupar, aqui
inclua-se como um dos atores, o próprio pesquisador. Assim, para a pesquisa-intervenção, faz
parte do trabalho analisar as implicações do próprio pesquisador, em todas as relações da
pesquisa, pois esse pesquisador também, por mais que busque neutralidade, está implicado
(PAULON, 2005).
91

6 CONTEXTUALIZAÇÃO E DISCUSSÕES

6.1 A mineradora

A empresa mineradora escolhida atua na extração e beneficiamento de minério de


ferro, cobre, manganês e carvão, sendo composta por uma complexa rede de setores. Dentre
os diversos setores, citamos as áreas corporativas de Recursos Humanos, Saúde e Segurança
Ocupacional, Meio Ambiente, Comunicação, Relacionamento Institucional, Melhoria
Operacional, Auditoria, dentre outros. Além das áreas corporativas, temos as áreas
operacionais de negócio com uma área voltada para a Logística, incluindo os portos e
ferrovias e todo o processo de escoamento de produtos. Além disso, temos as unidades
operacionais dos negócios voltadas para a exploração de seus respectivos produtos.

A área de negócio escolhida para fazermos este estudo foi o minério de ferro. No
negócio de minério de ferro os processos envolvidos são basicamente a extração,
carregamento, transporte, beneficiamento, estocagem, embarque e entrega do produto para o
cliente.

Existem áreas responsáveis por realizar a extração, carregamento e transporte do


minério para as usinas, essas são denominadas de Operação de Mina. Para fazer o
carregamento e transporte basicamente são utilizados escavadeiras e caminhões de grande
porte, conhecidos como Fora de Estrada.

Os locais onde o minério é beneficiado são denominados de Usinas de


Beneficiamento; nessas os minérios são britados para atingirem as granulometrias necessárias
e tratados para chegar na concentração necessária de acordo com as especificações solicitadas
pelo cliente. Na sua maioria, os clientes são empresas siderúrgicas.

Nos processos de beneficiamento, basicamente quase todo o material é transportado


fazendo a utilização de correias transportadoras, que são responsáveis por fazerem o
deslocamento de todos os produtos ao longo de toda a planta da usina, construindo, assim,
uma complexa malha de transporte de minérios. A correia é composta basicamente por
borracha e fica alocada em cima de rolos de metais, que giram fazendo com que a correia siga
para o seu destino final. As correias costumam trabalhar em uma velocidade constante e por
muitos dias seguidos.
92

Além da Operação de Mina e da Usina de Beneficiamento, um complexo minerário


possui áreas específicas para as manutenções, que são divididas em Manutenção Industrial e
de Equipamentos.

Na Manutenção Industrial temos profissionais como Gerentes, Supervisores, Técnicos


Mecânicos e Mecânicos Industriais. A área é responsável por realizar manutenções preditivas,
corretivas e preventivas em todas as estruturas das usinas de beneficiamento. Principalmente
nas estruturas físicas como correias transportadoras, motores, painéis, dentre outros.

O setor de Manutenção de Equipamentos é responsável por realizar as manutenções


preditivas, corretivas e preventivas nos equipamentos de transporte e carregamento da
operação de mina. Nesse setor, os profissionais, em sua maioria, são gerentes, supervisores,
técnicos mecânicos e mecânicos de equipamentos.

As duas áreas trabalham com diversas empresas terceirizadas, algumas muito


especializadas nos equipamentos e estruturas que fazem parte da Operação de Mina e da
Usina.

Além desses setores, existem as áreas matriciais que atendem a todos os complexos
minerários, e cujos profissionais são de Recursos Humanos, Saúde e Segurança Ocupacional,
Meio Ambiente, Transporte de Pessoal, Alimentação, Segurança Empresarial, dentre outros.

A área de Segurança Ocupacional possuí gerente, supervisores, engenheiros de


segurança do trabalho, analistas e técnicos de segurança. Esses profissionais atendem e
suportam todas as áreas operacionais e matriciais da empresa. A área de segurança costuma
ter técnicos que são deslocados para atenderem determinadas áreas de acordo com o seu grau
de especialização em cada processo.

Nas áreas de negócios temos também as áreas de projetos. Essas são estruturas
responsáveis por desenvolverem projetos de infraestrutura, novas tecnologias e de adequação
de estruturas antigas, voltadas para a manutenção da sustentabilidade do negócio. Assim, as
áreas de projetos possuem estruturas diferentes das operações, pois normalmente essas
trabalham com empresas terceirizadas que são muito especializadas. A área de projeto é
dividida em processos, como de avaliação de viabilidade, que é composta por profissionais de
Engenharia Civil, Mecânica e Elétrica.

As áreas de projetos têm profissionais que ocupam a posição de fiscais de contratos.


Esses são responsáveis por acompanhar as empresas na execução dos serviços contratados,
fazer medições, iniciar os processos de compra de serviços, verificar a qualidade da execução
93

do trabalho. Além disso, existem setores de compra e estocagem de materiais, como


equipamentos, estruturas, dentre outros necessários para a execução das obras. Essas áreas
possuem profissionais próprios de Saúde e Segurança ocupacional diferentes das estruturas
operacionais. O Sistema de Gestão de Segurança Ocupacional de projetos também é diferente
do Sistema de Gestão das áreas operacionais, possuindo, assim regras e procedimentos
diferentes.

Os profissionais de segurança em projetos são responsáveis por acompanharem as


empresas, darem suporte aos profissionais de Segurança Ocupacional das empresas
terceirizadas e fazer gestão de informações de segurança em suas localidades. Nos setores de
projetos, também existem empresas que são contratadas para fazer o gerenciamento da
empresa que executa determinada atividade. Esses são profissionais responsáveis por verificar
a qualidade do serviço da empresa, adequação às prescrições do projeto de construção,
estruturas metálicas, dentre outras. As empresas contratadas para o gerenciamento assumem o
papel da empresa mineradora no acompanhamento e fiscalização das atividades da contratada.
Em algumas localidades, a empresa de gerenciamento possui profissionais de segurança
ocupacional e enfermagem para acompanhamento da empresa em relação ao cumprimento de
normas regulamentadoras e normas internas da mineradora.

A mineradora possui uma Política Global que versa sobre sustentabilidade em seus
negócios. Dentro de sua política, versa sobre diretrizes e princípios para sustentabilidade nos
projetos e nas operações da empresa. O documento tem foco na prevenção de acidentes, em
responsabilidade social, ambiental e econômica. A política é aplicada a todas as empresas que
fazem parte da mineradora e também no que se chama de sua cadeia de valor, aqui incluindo
as empresas que são contratadas para a execução de atividades dentro da localidade da
empresa. O documento versa sobre o seu objetivo em alcançar o zero dano aos empregados,
contratados e comunidades. O Zero dano pode ser entendido como a busca, de forma
permanente, da prevenção de perdas relacionadas aos riscos à saúde, à integridade física e
mental, voltada principalmente para a ausência de acidentes e eventos que gerem impactos
negativos nas pessoas, meio ambiente e à comunidade. Sua política é baseada em algumas
referências internacionais, tais como: ISO 9001 Sistema de Gestão da Qualidade, ISO
14001:2015 Sistema de Gestão Ambiental, ISO 26000 - Responsabilidade Social, OHSAS
18001:2007 - Sistema de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho, OIT - Convenções
Fundamentais da Organização Internacional do Trabalho (Convenções 29, 87, 98, 100, 105,
111, 138, 169 e 182), Padrões de Desempenho da IFC (International Finance Corporation),
94

GRI - Global Reporting Initiative, Carta Internacional de Direitos Humanos da ONU, Pacto
Global das Organizações das Nações Unidas (ONU), Voluntary Principles on Security and
Human Rights e ICMM - International Council on Mining and Metals.

Devido à localização geográfica, escolhemos atuar com as unidades e projetos na


região de Belo Horizonte.

6.2 O projeto de manutenção da cava

Como já sinalizado, o tempo de vida de uma mina normalmente é dividido em fases


de: Prospecção, Investigação, Desenvolvimento, Exploração e Recuperação. A última fase de
uma vida útil de uma mina, de recuperação, no Brasil também é comumente denominada de
fechamento de mina, essa refere-se, então, ao momento em que se está encerrando as
atividades de uma jazida mineral (IBRAM, 2013).

O fechamento da mina é entendido como o momento, após o final da produção, que


faz parte da remoção das instalações físicas que não serão necessárias e implantação de
medidas que visem a garantia da segurança e a estabilidade da área, incluso aspectos de
recuperação ambiental, além de programas sociais. Existem duas modalidades de fechamento
de mina: a programada, quando o encerramento já se encontrava previsto no plano de
exploração, e o fechamento prematuro, relacionado a algum tipo de suspensão na exploração
da localidade. Na fase de fechamento são consideradas duas situações distintas, uma em que
será necessário que a empresa execute ações para atingir os objetivos de fechamento,
denominada de cuidado permanente e que pode durar por muitos anos, e a segunda em que o
cuidado é temporário, assim a empresa fará apenas inspeções e monitoramentos periódicos da
área. O está devidamente considerada fechada quando ocorre o processo de transferência de
custódia a um terceiro ou o próprio estado (IBRAM, 2013).

O assunto de fechamento de mina já é discutido há muitos anos nas empresas de


mineração, no entanto são identificadas poucas minas que realizaram um processo formal de
fechamento seguindo um plano estabelecido. Em algumas situações, o fechamento é
confundido com apenas a recuperação de algumas áreas degradas. Na prática, as empresas de
mineração desenvolveram de forma significativa a sua expertise durante muitos anos na
abertura de novas minas, até mesmo em manuais de engenharia de minas, mas existem poucas
95

referências sobre a forma de realização desse processo, o processo de fechamento foi pouco
desenvolvido (IBRAM, 2013).

O termo de referência para a elaboração do plano de fechamento, elaborado pela


mineradora em estudo, sinaliza algumas informações que devem fazer parte do processo de
fechamento de uma mina. Esse deve conter informações sobre: a) caracterização do
empreendimento; b) caracterização ambiental e socioeconômica da área de influência; c)
avaliação dos impactos do fechamento da mina (diminuição na participação da receita
municipal e alterações da dinâmica econômica devido a recolhimento de tributos, redução no
nível de emprego e renda, reflexo em condições de saúde e educação, dentre outros) e d)
objetivos e atividades de fechamento (ações de demolição, estabilização física dos solos,
recuperação ambiental, monitoramento posterior ao fechamento, cronograma e custos físico-
financeiros.

A mina onde foi realizado o estudo encontra-se atualmente no processo de fechamento


de mina, já iniciado pela empresa, que se enquadra no que foi denominado de fechamento
prematuro, visto que não existia um planejamento de fechamento da mina e ainda existem
algumas reservas inexploradas, mas que, na avaliação da empresa, não seriam viáveis
economicamente. A proposta de fechamento, elaborada pela empresa, enquadra-se no tipo de
fechamento permanente, visto que essa possui interesse em devolver as áreas exploradas no
passado para a comunidade.

O fim da extração de minério da referida mina aconteceu no ano de 1994. No entanto,


somente por volta do ano 2005 é que foi iniciado o processo de fechamento dessa mina. O
fechamento incluía, inicialmente, várias obras, desmontagens de estruturas, aberturas de
acessos, eliminação de pontos de fragilidade dos terrenos, dentre outros.

Aqui, podemos contextualizar o projeto em que realizamos o referido estudo. No ano


de 1992 surgiu a necessidade de realizar uma atividade de recuperação do talude 15 da cava16.
Este talude sofreu, no referido ano, uma ruptura global de sua estrutura, que é considerada
como uma das maiores ocorridas no mundo dentro de uma mina a céu aberto. Com o passar
dos anos, e a prevalência de períodos chuvosos, este talude iniciou um processo erosivo de

15
Pode ser considerado uma inclinação na superfície lateral de um aterro ou de um muro relativo a qualquer
obra. É entendido como um terreno em declive, composto por materiais, como terra, rocha, etc.
16
É o local de onde acontece a extração de material em uma mina, uma escavação ou cavidade em terra, buraco
ou cova.
96

proporção significativa. Segundo documentos da empresa, a área da erosão estendeu-se


progressivamente até atingir uma superfície de 100.000m², com a consequente formação de
ravinas17, que em torno de 50 metros de alturas se formaram.

A obra de recuperação iniciou-se no ano de 2014 e foi entregue no final de 2016, e


teve como objetivo evitar um aumento da superfície atingida, vindo a prejudicar toda a
estrutura do talude no futuro. O projeto de execução da obra consistiu em realizar um
faceamento com telas metálicas de alta resistência, com o propósito de funcionar como uma
manta antierosiva, que posteriormente foi reforçada por um sistema de drenagem. Esse
sistema consiste em uma estrutura de concreto voltada para facilitar as descidas d’água,
prevenindo surgimento de novas erosões. O projeto estava previsto para ser executado em 2
anos, no entanto, devido ao período de chuvas, e aumento da realização do escopo com a
inclusão de uma nova parte de terreno, a execução total do projeto foi de 3 anos.

As informações gerais de execução do projeto podem ajudar a contextualizar como foi


a execução e quais eram os desafios dos profissionais que estavam na obra. De forma geral,
foram abatidos cerca de 90.000m² de choco, em torno de 10.000m³ de desmonte de rocha com
utilização de explosivos, 90.000 metros de perfuração na estrutura, instalação de 110.000m²
de tela e construção de 3.000 metros de canais de drenagem. As dificuldades impostas pela
geografia do local também são importantes para contextualizarmos esse cenário. Na
realização das atividades os profissionais tinham que trabalhar em um terreno com cerca de
300 metros de desnível, 250m de largura, em um talude seriamente acidentado, com
dificuldade de acesso e uma inclinação, em alguns locais, com cerca de até 70 º graus. Esse
cenário fez com que toda a obra fosse realizada com a utilização de técnicas de ascensão em
cordas, mais especificamente de rapel. Segundo especialistas da empresa, o conjunto desse
cenário fez com que essa fosse considerada uma das maiores obras de acesso em corda já
realizadas no mundo, pelo menos dentre as documentadas.

Obras utilizando técnicas de alpinismo não são comuns e não existem disponíveis,
regulamentos, normas ou padrões de regras para sua realização. A realização do projeto foi
possível somente com a importação de algumas técnicas de montagem, em que foi necessário
a utilização de um helicóptero para o transporte dos materiais, um modelo de perfuratriz

17
Ravina é um fenômeno geológico que consiste na formação de grandes buracos de erosão, causados pelas
chuvas nos solos. As ravinas são normalmente classificadas como de menor escala do que as voçorocas, vales e
cânions.
97

modificada, a fim de atender às condições específicas do terreno, além de uma escavadeira,


também específica para a retirada e limpeza das áreas do talude, ambos equipamentos
precisavam ficar pendurados devido à inclinação de até 70° graus.

Como era um projeto diferente, que envolvia uma quantidade de riscos diferentes do
que a mineradora e a empresa contratada estavam acostumadas a trabalhar, sem histórico de
realização no Brasil, foi necessário que fossem contratados profissionais de outras
nacionalidades, com experiência em projetos similares, que foram os responsáveis pela
qualificação da equipe e implantação de ajustes nas tecnologias e metodologias utilizadas no
projeto.

As etapas que fizeram parte do processo de construção do projeto foram: mobilização


da empresa, montagem de canteiro, mobilização de equipamentos, perfuração, instalação de
telas, torqueamento, construção dos canais e desmobilização.

A mobilização da empresa é o momento em que os profissionais foram treinados e


ambientados nos processos da mineradora; a ambientação é um treinamento de 24 horas que
deve ser realizado pela mineradora, de acordo com a NR 22. Nesse momento, também foram
entregues os documentos formais dos funcionários, qualificação no acesso por corda, de
acordo com a Norma Regulamentado n. 35, que versa sobre trabalho em altura, e a realização
de treinamentos específicos exigidos pela mineradora relacionados à estabilização de taludes
(devido à estrutura do terreno) e de movimentação de cargas (devido à utilização de
helicóptero para movimentar cargas). Os treinamentos eram necessários devido às
características de suas atividades.

Em seguida, é iniciada a montagem do canteiro. Na montagem são construídas e


instaladas as estruturas físicas, como escritórios, vestiários, locais para interação entre os
profissionais, refeitório, armazéns e ferramentaria. Em conjunto, com o início da estruturação
do canteiro, é iniciada a mobilização dos equipamentos. Existem exigências para a entrada
dos equipamentos nas instalações da mineradora; são feitas inspeções desses e eles recebem
números de identificação.
98

Figura 1 - Localização da frente de obra

Fonte: Procedimentos Internos, (2015).

A limpeza do talude era referente a retirar grandes blocos de pedras que estavam no
talude. Eles eram retirados da estrutura com a utilização da escavadeira; essa etapa era
importante para o início da etapa seguinte de instalação de telas. As duas etapas aconteciam
concomitantemente, enquanto a limpeza avançava e já liberava alguns locais. Em seguida, era
iniciada a etapa de perfuração, com a utilização da perfuratriz e posterior instalação de
vergalhões de aço.

As atividades de limpeza do talude, escavação de cavas ou valas e enroncamento18


foram realizadas com uma escavadeira especial. A escavadeira pesava em média 8800 Kg e
era capaz de operar em taludes com inclinações até 70°. Para tanto, possuía um guincho com
o objetivo de garantir a estabilidade da máquina nos trabalhos em taludes com inclinações
superiores a 45° graus. Além deste guincho, a empresa optou, devido a uma insegurança na
utilização do equipamento, por instalar outros dois pontos adicionais para a instalação de
cabos de aço para o aumento da ancoragem. Em todas as movimentações, a escavadeira
permanecia presa em pelo menos dois pontos de fixação que, adicionados, segundo estudos da
empresa, teriam sempre uma resistência maior do que o peso do equipamento. O equipamento
somente poderia se movimentar sem os cabos se a máquina estivesse totalmente estabilizada
no talude.

18
Conjunto de blocos de pedras, que necessitavam de ser quebrados.
99

Durante a operação da escavadeira era proibido o acesso a pessoas em um raio de 10m


do centro da máquina. Qualquer operação que fosse necessária a menos de 10m, somente
poderia ser feita através de uma autorização verbal ou com a utilização do rádio junto ao
operador.

A perfuratriz utilizada no projeto também possuía algumas especificidades na sua


estrutura para poder trabalhar na inclinação dos taludes. A perfuratriz era utilizada para
realizar o furo, no talude, para posteriormente ser encaixado os vergalhões de aço. Essa
máquina possuía quatro rodas, o que permitia um deslocamento pelo talude, e as suas rodas
possuíam freios estabilizadores, que visavam garantir a sua estabilidade e possibilitava a
utilização de brocas19, entre 45 até 170 kg, que possibilita que a máquina atingisse uma
profundidade maior. Era móvel e leve, adequada para a perfuração de acordo com a litologia20
local, apresentava um alto torque, o que permitia a perfuração de grandes diâmetros. Segundo
a empresa, a escolha desse equipamento teve relação com itens de segurança, pois
possibilitava as perfurações sem que os funcionários estivessem expostos a vibrações
excessivas. Os equipamentos sempre trabalhavam fixados em dois pontos de ancoragem, com
a ajuda de um tifor.

A etapa seguinte do projeto foi a instalação das telas fixas. Essa etapa consistia em
receber as telas de grande porte através de um helicóptero específico para carga, alocar as
telas na destinação correta e iniciar as atividades de toqueamento, o que se refere a fechar o
sistema, fechar uma tela na outra, e posterior fixação do sistema no terreno, formando, assim,
uma malha protetora. As etapas de limpeza da área do talude, perfuração e instalação das telas
eram realizadas pelos profissionais alpinistas.

A penúltima etapa estava relacionada com construir o sistema de drenagem composto


por descidas d’água, que eram estruturas de concreto instaladas nas ravinas, que seriam
responsáveis por fazer o direcionamento da água da chuva; a estrutura foi feita utilizando
concreto. A última etapa consistiu em desmobilizar a empresa; para tanto, as estruturas de
canteiro são desmontadas, e é iniciada a retirada dos profissionais e equipamentos do projeto,
etapa essa que acontece após a entrega oficial da obra.

19
A broca é a estrutura localizada no ponto da perfuratriz que é utilizada para perfurar o terreno, nesses pontos
existem estruturas diamantadas, com a presença de diamantes, que conseguem romper esse tipo de terreno.
20
A palavra litologia está relacionada com o tipo de rocha que irá formar o solo.
100

Com relação ao efetivo total do projeto, o seu pico aconteceu no mês de maio de 2015,
quando a empresa tinha mobilizado, nesse contrato, um número de 246 empregados.

Gráfico 7 - Total de efetivo do projeto por mês (2014-2015)

Fonte: Elaborado pelo autor.

Nota-se que o período de fevereiro foi um momento de pico do efetivo mobilizado,


com exceção do ano de 2015. Isso se devia ao fato de muitos dos funcionários serem de uma
mesma região, no nordeste do país, e aproveitarem o período de fim do ano para tirarem
férias.

Pesquisador: De onde são os profissionais?


Paula21: Cerca de 80% da nossa mão de obra é da Paraíba, é uma turma que já vem
acompanhando a empresa, possuem uma estrutura diferente de outras empresa, é que
a maioria é parente, primo, irmão, cunhado, é uma empresa que busca trazer
pessoas, é uma empresa familiar, traz sempre gente da família, todos eles, se
conhecem a maioria é de uma cidade que se chama a Afogados da Ingazeira, que
fica no sertão da paraíba, é uma cidade pequinininha, então a empresa é muito
conhecida lá, no dia das mães vincularam as mensagens dos funcionários para na
rádio de lá, da cidade, os meninos estavam aqui, a gente liberou elas na rádio da
cidade, a cidade toda ficou em festa.

Os profissionais que eram de cidades de fora de Belo Horizonte ficavam em


alojamentos fornecidos pela empresa. Cada um desses ficava em uma localização diferente na
cidade. A contratada tinha estabelecido um processo de checagem da qualidade e arrumação
desses alojamentos e fornecia alimentação e limpeza dos locais.

A empresa possuía, no contrato, um Diretor Operacional que, apesar de estar


mobilizado, frequentava a obra apenas em casos eventuais, principalmente em casos de
acidentes; um Gerente Técnico, com formação em Engenharia Civil, que era o responsável
técnico pela execução da obra; um Gerente operacional, que tinha como função acompanhar o
desempenho dos empregados, designar profissionais para algumas frentes e atuar em questões

21
Todos os nomes utilizados são fictícios com o objetivo de preservar a identidade dos profissionais.
101

administrativas. No total, durante o pico de efetivo, na obra existiam 18 encarregados de


diversas frentes de atuação, quatro engenheiros, que atuavam principalmente no planejamento
da obra, e dois administradores, que ficavam focados em questões administrativas e de
recursos humanos.

O SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do


Trabalho) possuía uma Engenheira de Segurança, que ocupava um lugar de coordenação da
equipe dos profissionais do SESMT, composto por quatro técnicos de segurança, um
enfermeiro e um médico do trabalho. Posteriormente, na dissertação, será feita uma discussão
sobre a mudança do efetivo do SESMT que ocorreu no decorrer da obra.

O restante dos profissionais, eram alpinistas, carpinteiros, pedreiros, profissionais de


suporte, um Blaster22, dois pilotos de helicópteros e profissionais de suporte e administrativo.

Uma das dificuldades do projeto era o acesso por cordas, assim, após estudos, a
empresa passou a seguir recomendações e a realizar o treinamento dos profissionais de acordo
com a Organização IRATA (Industrial Rope Access Trade Association), que é formada no
Reino Unido em 1980.

Todos os profissionais do projeto que acessavam os taludes tiveram de ser capacitados


em treinamentos para acesso por cordas. De acordo com a NR n. 35, considera-se acesso por
corda a técnica de progressão, subida e descida, com a utilização de cordas, com outros
equipamentos para ascender, descender ou se deslocar horizontalmente, assim como para
posicionamento no local de trabalho. Eram utilizados sempre dois sistemas de segurança
fixados de forma independente, um sistema como forma de acesso e o outro como corda de
segurança, denominado de backup, esse servia para o caso de falha do primeiro dispositivo.
Os treinamentos dos profissionais possuíam uma carga horária total de 40 horas, nos quais
eram realizadas atividades teóricas e práticas, conforme requisitos da NBR 15475 – Acesso
por corda – Qualificação e certificação de pessoas. Essas qualificações eram divididas em três
níveis: Profissional de Acesso por Corda Nível 1 - N1; Profissional de Acesso por Corda
Nível 2 - N2; Profissionais de Acesso por Corda Nível 3 - N3. Para obter a certificação, os
profissionais deveriam alcançar as pontuações mínimas de 70 % de aproveitamento no exame

22
Profissional devidamente autorizado para organizar e conectar a distribuição e disposição dos explosivos e
acessórios empregados no desmonte de rochas.
102

teórico e 80 % de aproveitamento no exame prático, atendendo aos requisitos estabelecidos


pela ABNT NBR-15475.

A maioria dos profissionais, na obra, possuíam a qualificação de nível 1, cerca de


quinze profissionais tinham a qualificação no nível 2 e apenas 1 profissional possuía a
qualificação em nível 3. Os profissionais que executavam as atividades no talude e que tinham
o nível 1, depois de uma carga horária de trabalho e aquisição de experiência, poderiam fazer
o curso para adquirirem o nível 2. Em sua maioria, os profissionais de nível 2 eram os
encarregados das equipes de execução de atividades no talude. A diferença entre um
profissional nível 2, para o de nível 1, era relacionada com a aprendizagem de técnicas e
conceitos para a realização de resgate em altura; eles possuíam a habilitação para coordenar
uma equipe para resgate. Além dos encarregados, alguns profissionais do SESMT possuíam a
qualificação em nível 2. Existia apenas um profissional de nível 3, que era um profissional
capacitado e com expertise em técnicas de resgate avançadas. O profissional de nível 3 era
responsável por fazer inspeções na área, verificar condições de acesso para os alpinistas,
qualidade das cordas, fazer reciclagem sobre técnicas de acesso por corda com os
profissionais, além de ser o líder de resgate da empresa. Esse profissional ficava ligado à
estrutura do SESMT da empresa e atuava de acordo com diretrizes da gestora dessa área.

Segundo a Engenheira de Segurança, esse profissional teve de atuar em resgate apenas


uma vez durante toda a obra, em um acidente que iremos comentar um pouco mais para frente
nesse trabalho.

No decorrer da execução do projeto, a empresa relata que adotaram uma medida


complementar que tinha como alvo aumentar a segurança das atividades em acesso por corda,
sendo assim, além da utilização de no mínimo dois pontos de ancoragem, que era a
determinação anterior, os funcionários passaram a portar três Cowstails com mosquetões
automáticos. Essa ação visou atender a um item da NR 35, sobre trabalho em altura, relativo a
não considerar mais o pé dos profissionais como um ponto de ancoragem em plano inclinado.
103

Figura 2 - Equipamento de Proteção Individual

Fonte: Documentos Internos, (2015).

Figura 3 - Equipamento de Proteção Individual

Fonte: Documentos Internos, (2015).


104

Figura 4 - Equipamento de Proteção Individual

Fonte: Documentos Internos, (2015).

Figura 5 - Equipamento de Proteção Individual

Fonte: Documentos Internos, (2015).

As rochas que estavam no talude e não poderiam ser removidas utilizando a


escavadeira eram detonadas. Para a detonação dessas rochas, a empresa subcontratou uma
outra empresa especializada nesse tipo de atividade, assim ficava disponível, na obra, um
profissional Blaster. A detonação acontecia com uma metodologia diferente, denominada de
105

Pyroblaster23, que era específica para desmonte de rochas e estava entre as categorias de
fogos de artifício. A sua diferença era a menor projeção de materiais ao longo do talude. Para
realizar a detonação, a perfuração era feita pelos alpinistas de nível 1 e a detonação pelo
Blaster. Essa fase de detonação de materiais durou, no projeto, um ano e meio. Os desmontes
só podiam ser feitos no horário de almoço e depois de seguir procedimentos específicos para
retirada de todos os profissionais do talude.

Todos os materiais, ferramentas, equipamentos e insumos utilizados na obra


precisaram ser transportados em operações especiais com aeronaves certificadas para a
condução de operações de Carga Externa, nesse caso, helicópteros. Os helicópteros e pilotos
das aeronaves eram de uma empresa subcontratada e eram dois no total. De acordo com um
cronograma da obra, durante o pico de movimentação de materiais, essas aeronaves vinham a
cada quinze dias.

Estas operações de carga externa só poderiam ser realizadas mediante a autorização da


ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), através de uma Análise de Risco especial para
esse tipo de operação. A análise de risco previa o local de operação, análise do local de pouso
em caso de emergência, local de pouso para carregamento de materiais, decolagem e zona de
trabalho do equipamento, ações para mitigação e diminuição de riscos em segurança, como o
isolamento de áreas e qualificação de profissionais envolvidos na atividade de carregamento
de cargas.

As operações com carga externa eram realizadas nas modalidades linha curta (short
line), linha longa (long line), em que a carga fica presa a um gancho de carga elétrico, com
um dispositivo de funcionamento que previne que a carga pudesse escorregar do gancho. Este
dispositivo era de verificação obrigatória nos dias em que havia movimentação de cargas ou
em situações em que era solicitado pelo comandante da aeronave.

Os materiais usados para içar a carga, como cintas e manilhas, eram checados pelos
mestres de carga no processo de preparação para as atividades. Existia uma preparação para a
operação, levando-se em consideração as tabelas de cargas admissíveis específicas para esses
materiais de içamento. O mestre de carga era devidamente treinado para executar os

23
Pyroblast não é considerado um explosivo, é baseada em uma composição propelente integrado em um
dispositivo que, acionado, reage gerando grandes volumes de gases inofensivos responsáveis pela fragmentação
instantânea, seria como um fogo de artificio com uma concentração maior. A utilização se dá através de um
iniciador elétrico que é ativado por um equipamento eletrônico, que iniciara o desmonte do local. No entanto,
sua utilização pode feita apenas por profissionais habilitados, os blasters.
106

procedimentos de conferência das cargas externas, o enganchamento e desenganchamento da


carga e, também, a sinalização e comunicação com os pilotos. Esses utilizavam um capacete
específico, que fazia contato direto com os pilotos nas aeronaves. Os mestres de carga
trabalhavam no embarque dos materiais na área chamada de Zona de Pouso (Drop Zone) e no
recebimento dos materiais no alto do talude.

O piloto definia as melhores rotas no transporte, considerando alguns itens como a


proibição de passar com a carga por áreas povoadas, em cima de estruturas físicas ou
veículos. Já o mestre de carga definia e sinalizava aos envolvidos nas demais atividades as
áreas que deveriam ser evacuadas durante o transporte de carga externa. Apenas os mestres de
carga poderiam permanecer nos locais de embarque e desembarque de material. A
comunicação no local para posicionamento da carga era realizada entre o piloto e mestre de
carga, através de um sistema de comunicação via rádio, com apoio de sinais manuais
convencionais estabelecidos antes do início de qualquer trabalho de carga, que eram
aprendidos em treinamentos específicos. O mestre de carga deveria atender algumas
diretrizes, como sempre estar em posição visível para o piloto e manter o sinal até ter a
confirmação de entendimento pelo piloto.

A jornada de trabalho na obra iniciava-se às 7 horas da manhã. Os profissionais


chegavam em ônibus da própria empresa, tomavam café da manhã e iniciavam a realização de
um Diálogo Diário de Segurança, cada equipe realizava o seu diálogo com o seu respectivo
encarregado, eram formados pequenos grupos nas proximidades das frentes de trabalho, onde
os profissionais comentavam das atividades do dia, dos riscos de execução e também de
situações importantes ocorridas no dia anterior. Os profissionais de segurança da empresa
participavam de algumas dessas conversas em grupo, cuja média de duração era de cerca de
15 minutos. Em seguida, eles marcavam uma ferramenta que deveria apontar o seu estado de
humor no dia. Após esse momento, as equipes se separavam, e os profissionais iniciavam o
preenchimento de documentos, como a Análise de Risco da Tarefa (ART), que existia no
formato semanal e mensal. Posteriormente, iniciavam a verificação de seus equipamentos de
segurança, verificavam os equipamentos de acesso por corda, o estado do cinto de segurança,
o causteio e trava quedas.

Em seguida, os profissionais se direcionavam para as frentes de atividades, de acordo


com o planejamento indicado pelos encarregados. Por volta de 11 e 30 da manhã, os
profissionais iniciavam o seu horário de almoço, pegavam os ônibus próximos das frentes de
serviço e se dirigiam para a área do canteiro onde estava localizado o refeitório. O período de
107

almoço durava até por volta das 13 e 30, devido ao revezamento dos profissionais, com
exceção de dias de detonação. No final da tarde, por volta das 16 horas, eles retornavam dos
ônibus para o canteiro, batiam o cartão de ponto e se direcionavam para fora da mineradora,
às 16 e 30.

Segundo informações internas da empresa, ela sempre fazia campanhas com os


funcionários voltadas para o que chama de “valorização humana”. Eram, em sua maioria,
atividades realizadas nos finais de semana e feriados, envolvendo funcionários e seus
familiares. Alguns exemplos são: festas de confraternização no dia do trabalhador, festa de
final de ano, distribuição de ingressos para apresentações teatrais, organização de
campeonatos de futebol e premiação mensal dos destaques de segurança.

Devido ao fato da inclinação do talude facilitar a queda de materiais de forma geral, e


da existência de atividades sobrepostas trabalhando na linha inferior de outros trabalhadores, a
empresa trabalhava fazendo a utilização de enormes barreiras provisórias e tinha como
objetivo, com essa medida, diminuir o risco de projeção de ferramentas, materiais ou resíduos
que poderiam se soltar do talude, ficando presos nessa tela caso acontecesse algo. Essas
barreiras eram constantemente inspecionadas para a verificação de itens como a sua
montagem, a existência de materiais depositados e as condições estruturais da tela.

O método de gerenciamento dos riscos ocupacionais era realizado pela empresa


através de uma técnica denominada de Workplace Risk Assessement and Control (Análise de
Risco e Controle do Ambiente de Trabalho). Essa técnica é explorada por Sam Mannam e tem
como objetivo diminuir a subjetividade na definição do nível de risco ao qual os profissionais
estão expostos, com base em um cálculo matemático e no levantamento das condições
perigosas (situações que podem causar acidentes) e perigos (interação dos sujeitos com a
condição perigosa) (MANNAM, 2012).

Um dos acompanhamentos que eram realizados de forma constante pela empresa, no


projeto, era em relação ao clima, devido aos grandes deslocamentos no talude e a
impossibilidade de instalação de abrigos seguros para a proteção contra a incidência de raios e
chuvas. Os acompanhamentos eram feitos para evitar a exposição dos empregados nos
momentos de incidência de raios, através de um equipamento que fazia a medição climática e
sinalizava a probabilidade de início de chuvas e também da incidência de raios. Existiam
alguns critérios que faziam com que as atividades fossem interrompidas na frente de obra e
acontecesse a retirada dos profissionais. Tais critérios eram: o sistema apontando formação de
nuvens e incidência de raios entre 13 a 32 km, permaneciam somente as pessoas e
108

equipamentos diretamente envolvidos nas atividades, entre 5 a 13 km, iniciava a retirada dos
funcionários do talude, de 0 a 5 km era iniciada a evacuação total. Também era necessário um
monitoramento das condições do vento. Quando eles eram superiores a quarenta quilômetros
por hora, as atividades de acesso por corda eram paralisadas imediatamente. Esse
monitoramento era realizado com a utilização de anemômetro 24, a empresa sempre
considerava a medição mais próxima do limite mínimo, como um critério de segurança, visto
que a medição não era rigorosa.

Após o início da limpeza da área de talude, no projeto, a empresa teve um primeiro


acidente de maior gravidade, em que aconteceu um desplacamento25 de material, fazendo com
que viesse abaixo uma grande quantidade de rochas, que acabou por atingir dois
trabalhadores, levando a ferimentos em suas pernas. Esse acidente será melhor apresentado,
posteriormente, nesse trabalho. Após o ocorrido, a empresa passou a adotar um “novo
procedimento”, visando a diminuição do risco de desmoronamento, queda de blocos ou
desplacamentos devido à vibração emitida ao talude pelos equipamentos de perfuração.
Assim, as atividades no talude passaram a ser realizadas obrigatoriamente sobre a tela
previamente instalada, não podendo passar no máximo 02 linhas sem injetar e executar o
torqueamento.

O talude foi dividido pela empresa em grandes áreas, sendo que em cada uma delas
um encarregado, com qualificação em acesso por corda de nível 2, era responsável pela
construção e manutenção dos acessos (entrada e saída das frentes de trabalho, cordas para
deslocamento dos profissionais) e pela supervisão do atendimento aos procedimentos de
acesso por corda.

Os alpinistas eram os profissionais que faziam o sistema de contenção e estavam


envolvidos basicamente na primeira parte do projeto, de limpeza da área, perfuração,
instalação de vergalhões, instalação de telas e fechamento do sistema.

24
Aparelho realizado para medição da velocidade dos ventos e sua direção.
25
Esse está relacionado com o desprendimento de fragmentos ou placas de rochas, ao longo da superfície de
estruturas geológicas
109

6.3 Investigação de Acidentes

A prática de investigação de acidentes da empresa contratada para execução do projeto


seguia o mesmo procedimento da mineradora. Nesse procedimento, relata que o processo de
investigação basicamente está dividido em quatro etapas. Essas etapas são: realizar ações
imediatas, analisar os incidentes, tratar os incidentes e preparar relatório e análise crítica do
ocorrido.

Um primeiro entendimento refere-se à noção de incidente. Para a empresa, o incidente


é um evento não planejado que resultou, ou poderia ter resultado, em uma perda, podendo ser
diferenciado entre acidente pessoal, que tenha resultado em um tipo de perda real à pessoa,
por exemplo, uma lesão, doença ou outra perturbação das funções naturais de seu sistema.
Esse pode ser dividido, ainda, em acidente material, que resulta em alguma perda apenas de
ordem material, e o quase acidente, que não resultou em um acidente pessoal ou material, mas
em pequenas alterações na posição ou forma de atuação dos controles para aquela atividade.

A primeira ação em caso de uma ocorrência, segundo a norma interna, é realizar ações
imediatas e o registro de incidentes. O primeiro passo após um incidente seria preservar a
cena do incidente e garantir que o local esteja seguro, deve-se incluir também algum
equipamento envolvido. Em seguida, realizar uma classificação preliminar da severidade real
e do potencial26, isto é, uma classificação com base nas primeiras observações do acidente; a
classificação final da severidade real e potencial é analisada pelo SESMT da empresa de
acordo com as normas internas da mineradora, principalmente pelos médicos do trabalho. A
classificação da severidade divide-se em leve, moderada, grave, crítica e catastrófica. A
Severidade catastrófica está relacionada com a possibilidade de mais de uma fatalidade
naquela situação, crítica seria de apenas uma pessoa, a severidade grave enquadra alguma
perda de membros ou partes do corpo, moderada em situações que tenham levado a
afastamento do profissional, e leve em que foi necessário apenas os primeiros atendimentos
médicos e o profissional já pode retornar para a atividade. Existe um sistema de comunicação
dessas ocorrências que, de acordo com a severidade real, são comunicadas a uma série de
profissionais envolvidos, e nas situações mais graves é acionado o diretor da localidade.

26
Severidade: refere-se à magnitude das consequências de um incidente e é dividida pela mineradora em Real,
seria que realmente aconteceu o incidente, e Potencial, como a consequência máxima que poderia ser gerada, em
um momento diferente, em que os controles de alguns dos riscos não poderiam ser controlados.
110

A segunda etapa refere-se a analisar os acidentes. A equipe que deverá analisar o


incidente deve ser constituída de acordo com a severidade do acidente. Nos casos de lesões
leves e moderadas, há a Supervisão direta do empregado ou equipamento, com representantes
do SESMT; sendo a classificação do tipo grave a coordenação da análise passa a ser realizada
pelo Gerente e conta com a presença dos mesmos profissionais indicados anteriormente e o
Gerente de Segurança local; em ocorrências críticas e catastróficas a coordenação é realizada
pelo Diretor responsável da área e conta com a presença de todos os profissionais citados
anteriormente, além da inclusão de representantes corporativos de segurança ocupacional.
Essa equipe de análise é responsável por coletar evidências e dados preliminares do ocorrido.
Nesse momento, serão identificados os fatores contribuintes, que ocasionaram a ocorrência,
utilizando de técnicas reconhecidas ou previstas na legislação da localidade. Posteriormente, a
equipe realiza uma categorização desses fatores e estabelece um plano de ação com foco na
eliminação ou mitigação das probabilidades de recorrência das causas indicadas.

A técnica escolhida pela mineradora para realizar a identificação dos fatores


contribuintes pela área consiste na utilização de uma metodologia denominada de Systematic
Cause Analysis Technique (SCAT), que é um método de check list que busca identificar o tipo
de contato que levou à lesão, as causas imediatas ou diretas, as causas-raízes e a proposição
de ações para o controle. Este método baseia-se nos modelos causais de perdas. Para a análise
da causalidade, é investigada a sequência lógica e cronológica que constitui a cadeia causal
(ALMEIDA, 2003).

A fase de tratamento dos incidentes versa que os profissionais devem garantir uma
análise crítica das análises de risco e a inclusão de situações encontradas, as áreas de
segurança locais têm o papel de monitorar o cumprimento dos prazos definidos nos planos de
ação e de atualizar os registros no sistema de controle. Ações que necessitem de mudança de
prazo são submetidas à aprovação de um nível hierárquico superior ao do responsável pela
ocorrência.

Por último, a fase de preparação do relatório está relacionada ao encaminhamento das


informações para a área corporativa da empresa. Elas são divulgadas para outras áreas, para
que possam conhecer e realizar abrangência, evitando, assim, ocorrências com as mesmas
características.

No total, no projeto, a empresa teve sete acidentes envolvendo pessoas. Esses sete
acidentes resultaram em oito profissionais lesionados, pois o primeiro acidente, no ano de
2014, relacionado a um desplacamento, provocou lesões em dois empregados. Foram
111

registrados apenas 2 acidentes materiais, ambos envolvendo desprendimento de pedras que


vieram a colidir no vidro dos equipamentos utilizados. Também houve um quase-acidente; os
quase-acidentes são considerados pela empresa situações que não geraram lesões no
profissional devido apenas à sorte. Normalmente, os quase-acidentes são tratados como
acidentes e investigados da mesma forma, o que diferencia essa situação é que o trabalhador
não teve nenhuma lesão. Durante toda a obra, não foram registradas doenças ocupacionais nos
dados oficiais de controle da empresa.

Gráfico 8 - Número de Acidentes por ano (2014-2015)

Fonte: Elaborado pelo autor.

Outro ponto importante tem relação direta com as soluções encontradas para tratar
esses acidentes. Como decorrência dos acidentes, e após as investigações e análises, eram
elaborados relatórios sobre as ações encontradas para tratamento dos acidentes. Nos registros
da empresa não são apresentadas informações referentes ao ano de 2014, apesar de ter
acontecido acidentes nesse período. Podemos ver, no gráfico abaixo, que no total de ações
levantadas para resolução, apenas metade dessas foram consideradas concluídas. Quem
sinalizava que a ação estava concluída eram os profissionais da empresa gerenciadora e da
mineradora. Se pensarmos que essas ações foram elaboradas em atendimento ao plano de
algum acidente, esse dado pode ser alarmante.
112

Gráfico 9 - Total de ações levantadas nas investigações e análises de acidentes

Fonte: Elaborado pelo autor

Existe, no sistema de gestão da mineradora, uma ferramenta que é de utilização de


todos os profissionais da empresa, desde os alpinistas, encarregados, engenheiros e gestores, e
é voltada para registrar condições inseguras nas localidades da obra, possuindo uma proposta
preventiva. Com um formulário específico, os profissionais anotam a condição insegura
encontrada na área e a depositam em caixas de madeiras específicas espalhadas por toda a
obra. As condições inseguras, são situações que podem vir a causar acidentes no futuro.

Os profissionais de segurança, posteriormente, recolhem essas informações, inserem


um sistema de gestão específico e encaminham para os responsáveis da área identificada. Esse
responsável possui um prazo para responder e deve anexar no sistema a evidência de que a
situação foi resolvida.
113

Gráfico 10 - Registro de Condição Insegura (2014 -2016)

Fonte: Elaborado pelo autor.

Podemos notar que as informações recebidas eram tratadas pela empresa, pois todas as
apontadas foram resolvidas ao longo do projeto. O que chama a atenção é o aumento desses
registros no ano de 2016, já que o principal pico de obra aconteceu no período de 2015,
quando a empresa tinha mais profissionais mobilizados e atividades de risco acontecendo com
maior frequência. Outro dado interessante refere-se a um pico desse número nos meses de
junho e julho de 2015. Como veremos, no mês de maio aconteceu um dos acidentes que
discutiremos nesse material, relacionado aos alpinistas. Aqui nos surge uma indagação sobre
o que aconteceu na empresa nesse período que fez com que o número dos registros dessas
condições aumentasse de forma tão significativa. Infelizmente não foi possível checar essa
informação com os profissionais da empresa. Fato importante é que esse fenômeno não
acontece em apenas uma ferramenta de segurança da empresa.

Gráfico 11 - Registro de Condição Insegura Mensal (2015- 2016)

Fonte: Elaborado pelo autor


114

A empresa possui uma outra ferramenta de segurança, chamada de diálogo de


segurança, assim como o registro de condição insegura, essa pode ser utilizada por qualquer
funcionário da empresa. Ela consiste em realizar uma conversa com o colega de trabalho,
quando o funcionário visualiza que esse está se colocando em perigo ao realizar alguma
atividade. Portanto, a ferramenta consiste em conversar com o colega de trabalho, explicar o
que está vendo que pode levar a um acidente e encaminhar para as caixas de registro, onde
são inseridas as condições inseguras. No mesmo sistema, elas são registradas e as tratativas
são feitas apenas no momento da conversa entre os profissionais. A implantação dessa
ferramenta somente foi realizada em meados do ano de 2015, assim os dados não são
inteiramente completos.

Gráfico 12 - Registro de Diálogos de Segurança Anual

Fonte: Elaborado pelo autor.

Naturalmente, nos dados do ano de 2015, devemos considerar que são relativos apenas
a cerca de 6 meses. No entanto, o que mais chama a atenção nessa discussão é quando
estratificamos esses registros de acordo com os meses do ano.

Gráfico 13 - Registro de Diálogos de Segurança (2015 – 2016)

Fonte: Elaborado pelo autor.


115

É possível notar que, como no registro de condições inseguras, no mês de julho


aconteceu um significativo aumento dos registros desses diálogos. Também não foi possível
checar com a empresa se ela possui alguma explicação para esse aumento.

O que mais chama atenção nessas informações é a relação entre o aumento dos
registros e o acidente mais grave que aconteceu no referido projeto. Assim, apresentaremos
um relato dos três principais acidentes que aconteceram durante o projeto e que,
posteriormente, servirão de base para uma reflexão.

A empresa tinha um programa de controle de álcool. Toda semana, antes do início das
atividades, era realizado um sorteio e alguns profissionais deveriam passar no serviço de
saúde do projeto para realizar um etiloteste; era utilizado um bafômetro. Existia uma exceção
aos motoristas, que faziam o teste diariamente.

Os testes iniciaram somente no ano de 2015. Até o fim de 2016 foram realizados 976
testes; em 5 situações foram encontrados desvios. Nesses casos, durante a realização do teste,
foi identificada alguma presença de álcool maior do que 0,0%. Um dos casos de desvio
aconteceu com um motorista de ônibus, um outro com um motorista de uma van, com o
motorista do caminhão munck27 e o último com um carpinteiro, com o qual, segundo a
empresa, foi identificada a presença de álcool em dois testes, em dias diferentes. Todos os
profissionais da empresa que passaram pelas testagens e que apresentaram desvios foram
desligados pela empresa.

A mineradora possui uma política de segurança com algumas regras que considera
invioláveis. São regras relacionadas à identificação de riscos em sua atividade de trabalho, uso
de equipamento individual de proteção (EPI), violação e não realização de testes de
efetividade em bloqueios, realização de atividades sem a devida autorização formal, sobre
trabalho sob efeito de álcool e drogas, trabalho em altura sem a utilização de cinto de
segurança adequado, o uso de máquinas, ferramentas e equipamentos de forma improvisada,
não transitar embaixo de carga suspensa e não conduzir veículos acima da velocidade limite
da via. No caso de identificação do não respeito a alguma dessas regras, o gestor pode utiliza-
la para desligar os profissionais.

27
O caminhão guindauto, ou Munck, é utilizado para movimentar e carregar grandes cargas, possui uma lança
para pegar a carga e colocar na caçamba do caminhão.
116

A empresa contratada relatou duas situações que resolveram aplicar punições


utilizando-se dessa política e que levaram ao desligamento de dois profissionais. Uma delas,
quando um profissional andou por 2 metros no talude para pegar uma ferramenta que havia
caído sem a utilização de cinto de segurança, e um segundo foi o profissional que se
acidentou, vindo a rolar 27 metros no talude, que também não estava com o cinto de
segurança atracado no momento.

Em termos de políticas de saúde, o que foi verificado é que a empresa realizava


campanhas de saúde de forma geral, e que organizou durante a obra três campanhas de
vacinação contra a gripe. O motivo das campanhas estaria relacionado ao fato de que os
profissionais viriam de uma região mais quente do país e que a localidade da obra era em uma
região de temperaturas mais baixas. As campanhas de vacinação tinham como objetivo evitar
que os profissionais adoecessem, diminuindo o absenteísmo.

No projeto, tiveram pessoas que desenvolveram problemas de joelho, tornozelo e


punhos. Foi relatado um caso de um funcionário que, durante o período do projeto, necessitou
de realizar uma cirurgia de joelho, dois que necessitaram de fazer cirurgias no tornozelo e
também mais três profissionais que fizeram cirurgia no punho, devido a problemas no osso
rádio28. Devido a essas situações a empresa realizou um estudo médico, no qual identificaram
que, devido às irregularidades do terreno e à constante necessidade de arrumar o corpo no
trabalho em altura, o uso da mão se fazia muito frequente. Em situações de desequilíbrio ou
escorregões, a primeira coisa que o profissional utilizava para se apoiar eram as mãos. Os
profissionais executavam suas atividades com um ângulo de inclinação muito alto. Dessa
forma, eles permaneciam com os pés em uma inclinação constante entre 75 a 90° graus, o
local das atividades era muito irregular e fazia com que os profissionais forçassem os joelhos
e tornozelos.

6.4 Conhecendo alguns acidentes no projeto

Durante o período de projeto aconteceram dez incidentes, divididos em acidentes


pessoais, materiais e em quase acidentes. No entanto, três acidentes pessoais nos chamaram a
atenção e nos possibilitam conhecer um pouco mais do funcionamento da obra e do seu

28
O rádio é o osso do antebraço, indo do cotovelo até ao lado do punho onde se encontra o polegar.
117

desenvolvimento. Dessa forma, é nosso objetivo nesse momento, fazer uma breve descrição
do que aconteceu nessas três situações e, em um momento posterior, fazer uma análise das
ligações entre esses três acontecimentos.

6.4.1 Acidente 1 – Desplacamento de material

A empresa tinha terminado a fase inicial de mobilização de seus funcionários e a


montagem do canteiro, e iniciava as primeiras fases de limpeza do local, perfuração e
instalação de telas. Nesse contexto, dois empregados estavam executando a atividade de
perfuração no talude, abaixo de uma tela já instalada, quando uma placa de material de
itabirito29 compacto30 que estava num nível superior, e abaixo da tela, sofreu uma ruptura,
soltando-se e atingindo os empregados. A placa tinha cerca de 10m² aproximadamente e uma
espessura variável entre 0,4m e 1m. No local de trabalho, e onde houve o rompimento do
material, já havia sido executada a limpeza do talude e os locais estavam liberados para as
atividades de perfuração. Acima do local do desplacamento, em alguns pontos, o serviço não
havia sido totalmente concluído (instalação de tirante; injeção de calda de cimento e
torqueamento da tela).

Ambos acidentados exerciam a função de alpinistas, um tinha 24 e trabalhava na


função há 6 meses, o outro profissional possuía 35 anos e atuava na função há 1 ano e 7
meses. Eles foram classificados pela empresa com severidade real moderada e severidade em
potencial como catastrófica.

No dia do acidente, os profissionais tinham chegado na empresa, junto com todos os


profissionais, às 06 e 45 da manhã. Depois de fazerem procedimentos de aferição de pressão,
tomaram café, participaram do Diálogo Diário de Segurança, realizaram o preenchimento da
ART e o check list dos cintos e acessórios. Por volta das 07 e 35 da manhã, subiram para a
frente de trabalho, no talude, e iniciaram o trabalho de perfuração do talude sob as telas. Às
11 e 30 retornaram para o canteiro e almoçaram junto com todos os colegas no refeitório da
própria empresa, retornando para o trabalho às 13:00 horas. Iniciaram o procedimento de
realocamento da perfuratriz para reiniciar a perfuração abaixo da tela. Às 14 e 15 da tarde,

29
Rocha metamórfica finamente estratificada, considerado um importante minério de ferro (tem seu teor de ferro
entre 50% e 55%).
30
O compacto refere-se a uma rocha única, um grande bloco de rocha.
118

estavam preparando a colocação de uma nova haste, após uma perfuração de cerca de 1,60 de
profundidade, quando uma avalanche de pedras rolou em direção aos profissionais, causando
lesões. Às 14 e 25 foi iniciado o procedimento de resgate dos profissionais, com o
acionamento da ambulância e início da preparação para resgate em altura. Por volta de 14 e 40
ambos profissionais davam entrada em hospital próximo ao local do projeto. Os profissionais
tiveram perfurações em suas pernas, ficando afastados das atividades por alguns dias.

Desse acidente, foram identificadas algumas causas imediatas e que precisavam ser
alteradas na atividade a partir daquele dia, por exemplo, a atividade de perfuração só poderia
acontecer com alguma tela já instalada. Nesse caso, em caso de desplacamento, os
profissionais não estariam na linha de frente do acidente.

Outras mudanças foram:

• Inclusão do condicionamento de fixação de uma tela em outra já instalada, em que o


último ponto de fixação estivesse torqueado;
• Inclusão da orientação para que os panos de tela (material que cobre as telas) sejam
ajustados e costurados integralmente logo após o lançamento da tela, antes de iniciar a
perfuração ou qualquer outra atividade no local;
• Inclusão da condicionante de que, para iniciar o trabalho abaixo da tela, o sistema
completo de fixação deveria estar concluído no nível superior. O terreno deveria estar
limpo, a tela instalada, o local perfurado, com a colocação das barras de fixação da
tela, injeção de calda de cimento, devidamente costuradas e com as placas e porcas
instaladas nos vergalhões e torqueadas.

6.4.2 Acidente 2 – Queda de Altura

O empregado com 26 anos, que exercia a função de alpinista, com experiência na


função de 2 anos e 4 meses, sofreu um corte contuso no rosto da face após cair de uma altura
de 27 metros. Às 13 e 50 daquele dia o profissional se deslocava na crista 31 da região oeste do
projeto, para chegar na frente de trabalho, onde iria executar a atividade de costura de tela,
usando uma torqueadeira. Durante a transferência da corda de acesso, o profissional
desprendeu os dois pontos de ancoragem das cordas de proteção, para continuar o seu

31
Crista é a parte mais alta do talude.
119

deslocamento utilizando uma outra corda instalada em uma região um pouco mais à frente,
enquanto se deslocava, o alpinista se desequilibrou, vindo a rolar por 27 metros num plano de
45 graus, descendo em direção à parte mais baixa do talude. A severidade real foi considerada
como moderada e a severidade potencial foi considerada como crítica.

No dia do evento, o empregado havia chegado ao canteiro de obras às 6 e 50 da


manhã, participou do diálogo de segurança, preencheu sua análise de risco da tarefa e subiu
para a frente de trabalho; chegou nela por volta das 7 e 20. Iniciou a sua atividade de
torqueamento com uma ferramenta pneumática, que fazia o toque necessário para prender as
telas. Por volta das 11 e 40, desceu para o refeitório, onde ficou até às 13:00 horas. Já às 13 e
15, estava de volta ao talude e transportando em seu cinto a parafusadeira pneumática ao
longo do talude. Em seu caminho para a frente de trabalho, enquanto carregava a torqueadeira
presa ao cinto, necessitou de utilizar um dos cowstails, no entanto esse estava preso pela
parafusadeira, fazendo com que fosse necessário que o profissional a tirasse para ter acesso ao
equipamento de fixação na tela. Assim, o alpinista foi a caminho do local onde já estava
disponível uma corda, na qual ele poderia se amarrar com a utilização de seu jumar. Nesse
pequeno trajeto, ele se desequilibrou e veio a cair do alto do talude, sendo seguro pela
vegetação que estava maior no local. Em seguida, foi resgatado por colegas e encaminhado
para a área de saúde da empresa. Posteriormente, às 14 e 30, foi levado para atendimento
externo.

Durante o processo de análise do acidente, os principais pontos identificados foram:

• O alpinista não se prendeu ao ponto de ancoragem antes de realizar a transferência


entre as cordas e não utilizou adequadamente o ponto de ancoragem antes de realizar a
transferência entre as cordas, ficando sem nenhum ponto de fixação durante a
transferência;
• Ele deixou os cowstails instalados atrás da torqueadeira que estava sendo transportada
dependurada no cinto de segurança, impedindo que ele fosse utilizado adequadamente
durante a transferência entre as cordas. A maneira adequada de colocar os cowstails
seria posicionando um de cada lado, de forma que pelo menos um se mantivesse livre
durante o deslocamento. Ele deixou os cowstails presos em seu cinto, atrás da
torqueadeira, dificultando o acesso para prendê-los na tela. O profissional poderia
desconectar a torqueadeira e afixá-la na tela para, posteriormente, transferi-la por
corda ao seu ponto de utilização.
120

• Foi verificado que, durante o treinamento de qualificação de acesso por cordas, não há
um detalhamento sobre o transporte de materiais nos cintos. No treinamento de acesso
por corda há apenas detalhamento sobre a carga de ruptura dos cintos;
• O alpinista foi certificado por organização terceira habilitada (IRATA), sobre a forma
correta de se deslocar no talude, porém optou por descumprir os procedimentos;
• O encarregado, em outro momento, orientou de forma verbal sobre o descumprimento,
de menor gravidade, de procedimento e não reportou ao seu superior imediato para
tratativa.;
• O procedimento de trabalho não contempla a descrição da atividade de transporte de
equipamentos presos ao cinto de segurança.

As principais ações implementadas em virtude desse acidente foram:

• Utilizar o mínimo de 3 cowstails por funcionário;


• Utilizar 3 mosquetões automáticos por funcionário;
• Aquisição de cabos de aço (1000m) para construção de novas linhas de vida e
manutenção das existentes;
• Realizar treinamentos de reciclagem nos procedimentos de acesso por corda;
• Treinar as equipes sobre a proibição de transportar equipamentos pelo cinto acima de
10 kg (além dos equipamentos de acesso por corda);
• Incluir no treinamento a proibição de transporte de equipamentos acima de 10 kg
(além dos equipamentos de acesso por corda);
• Estabelecer divisão de áreas para os líderes para aumentar a fiscalização e
acompanhamento visual das atividades;
• Alterar a métrica de avaliação de bonificação de produtividade para bonificação de
Segurança e Qualidade;
• Divulgar regra sobre a métrica de avaliação para bonificação de Segurança e
Qualidade.

6.4.3 Acidente 3 – Esticamento de Cabo de Aço

O alpinista realizava atividade de instalação de cabo de junção das telas na área


quando, na fase de “esticamento” (com talha de 1,5 ton.), houve desprendimento do gancho,
121

vindo a atingir sua face na parte superior direita (supercílio). O tipo de lesão que o
profissional teve foi um corte do tipo contundente. Tinha 41 anos de idade e estava atuando na
empresa há 1 ano e 2 meses, porém havia poucos dias que estava trabalhando nesse projeto,
vindo de transferência de outra localidade. O ocorrido foi às 15 e 50, próximo ao horário em
que os profissionais começam a se organizar para deixar a empresa. Enquanto o profissional
realizava a atividade de “esticamento/tencionamento” do cabo de aço houve o desprendimento
do gancho da talha que se encontrava instalado em uma ancoragem do sistema, um vergalhão
de aço, vindo a atingir a parte superior direita da sua face (supercílio). Os óculos de segurança
ficaram completamente danificados.

Aqueles eram os primeiros dias do Alpinista na obra. No dia do acidente, chegou ao


canteiro de obras por volta das 6 e 45, participou do diálogo de segurança e subiu para acesso
ao talude, chegando nesse por volta das 7 e 10. Assim, às 7 e 25 iniciou a atividade de emenda
da tela, a atividade estava sendo feita em dupla e o profissional que o acompanhava era um
dos mais experientes nessa atividade. Desceu para o almoço às 11 e 30 e retornou para o
talude, sozinho, no horário de 12 e 35. O profissional que estava com ele foi designado para
outras atividades, pelo encarregado da empresa. Às 15 e 50 o gancho se soltou, vindo a atingir
a face do alpinista. Ele foi ajudado por colegas e levado ao ambulatório. Depois de avaliação
médica, foi encaminho para atendimento externo. O Alpinista havia chegado a poucos dias de
uma outra obra da empresa e foi inicialmente designado para realizar atividade de construção
de formas civis, tarefa em que tinha experiência em outros contratos da empresa. Ele tinha
sido contratado para realizar atividades de construção de formas civis no canal de drenagem,
no entanto, quando chegou na frente de trabalho, se recusou a trabalhar no local, devido aos
riscos da atividade. Assim, foi deslocado para as atividades do sistema de contenção, onde
ocorreu o acidente.

O profissional relatou já ter experiência em atividades envolvendo talha, essa atividade


até então era considerada pela liderança como muito “simples”, uma das mais básicas no
projeto.

A severidade real desse acidente foi considerada leve e o potencial foi qualificado
como crítico.

Quais foram os fatores contribuintes identificados na análise:


122

• O procedimento operacional para instalação de tela foi considerado muito generalista,


não havendo detalhamento do passo a passo das etapas das atividades de forma clara e
objetiva.
• Como não há descrição desta atividade em um procedimento, não houve um
treinamento formal sobre esta atividade.
• Não há uma definição de responsáveis para orientar e treinar os novatos desde a
entrada na obra até na execução de atividades.

As principais ações propostas em relação ao acidente foram:

• Revisão do procedimento operacional de instalação de tela da obra, detalhando o passo


a passo das etapas desta atividade de forma clara e objetiva.
• Realização de treinamento operacional detalhado e didático sobre a atividade de
"esticamento" de cabo de aço.
• Realização de um organograma operacional, dos supervisores até os líderes, a fim de
identificar os responsáveis para cada atividade.
• Definição dos responsáveis e atividade com antecedência para orientar os novatos
desde a entrada no projeto. Entrevista inicial para conhecimento da experiência do
funcionário e confirmação da atividade que ele irá realizar e sua sequência.
• Definição de equipe especializada para as atividades pontuais e críticas.

6.5 Contexto e primeiros aprendizados

Estávamos em uma fase inicial de realização das reuniões com os gestores e equipes
responsáveis pelas áreas, a fim, de conseguirmos estabelecer os possíveis locais para
realização da pesquisa. Na mesma semana, que tínhamos apresentado a proposta do projeto
para a gerências de projetos de infraestrutura (Sustaining) aconteceu o acidente ocupacional
do alpinista na atividade de esticamento de cabo de aço, relatado anteriormente.

Diante desse acidente, a área de segurança ocupacional da gerência de Sustaining


entrou em contato com o pesquisador informando que havia tido um acidente ocupacional e
que, segundo informações preliminares, o trabalhador estava executando uma atividade de
instalação de cabo de aço em telas. No momento de realização do esticamento, ocorreu o
123

desprendimento do gancho da talha (equipamento de tração), vindo a atingir a parte superior


direita da face (supercílio) do profissional. O empregado, em decorrência desse acidente, foi
encaminhado para atendimento médico e teve que fazer uma sutura no supercílio.

Após esse acidente, o pesquisador sugeriu ao gestor de segurança que aproveitássemos


a situação para apoiar a área na análise desse acidente. A análise formal foi realizada seguindo
os procedimentos da mineradora e já estava concluída, no entanto existiam ainda algumas
dúvidas sobre alguns aspectos causadores do acidente. A área de projetos não possuía
expertise em relação à atividade de junção das telas que estava sendo realizada.

6.6. Conhecendo a atividade

Uma dentre as várias atividades executadas pelos alpinistas no projeto de manutenção


da cava era a de instalação de telas de alta resistência em torno do talude. A atividade consiste
na instalação de grandes telas de malha de aço de alta resistência e na instalação de placas de
ancoragem. As placas fazem com que a tela não se expanda com a eventual descida de
material (rochas, cascalho, etc.). A junção de uma tela em outra é feita com a utilização de
cabos de aço de contorno, que fechavam o sistema e garantiam a conexão. A instalação das
telas tem o objetivo de melhorar a estabilidade do solo, evitando um aumento da erosão e
auxiliando o crescimento da vegetação no local.

Os materiais que são envolvidos nessa atividade são o caminhão munck (transporte do
material até a área de carregamento do helicóptero, drop zone), o helicóptero (para fazer o
transporte dos materiais até a frente de trabalho), chave de impacto, compressor 850pcm 32 e
10 bar33, materiais de perfuração (Perfuratriz - Wagon Drill), materiais para injeção de
concreto e bomba de hidrossemeadura34.

A atividade inicia-se com a limpeza da área (retirada de grandes blocos de rocha),


perfuração (com uso da perfuratriz) e injeção das ancoragens (vergalhões de aço) com a
utilização de concreto para fixação. Após essas primeiras etapas, é iniciada a hidrossemeadura
do terreno, com o lançamento de sementes no local.

32
O compressor de 850 pcm tem cerca de 1 metro por 1 metro e sua estrutura fica acoplada em um carrinho.
33
O bar é uma unidade de pressão.
34
Um misturador e um conjunto moto-bomba, as sementes são misturadas em água, fertilizantes, corretivos e
fixadores para posteriormente serem lançadas no solo, principalmente em taludes.
124

A etapa de instalação das telas é iniciada com o helicóptero, trazendo as telas Tecmat35
enroladas para o talude. Após depositada na área indicada, elas são desenroladas pelos
alpinistas e instaladas. Em seguida, o helicóptero transporta a tela Tecco 36, que é inserida no
guincho de carga da aeronave, já desenrolada na área de drop zone, e de acordo com croquis
de programação o piloto se dirige para o talude. Chegando na área do talude, o piloto se
comunica, por rádio e sinais, com o mestre de carga que direciona a liberação do material.
Assim que a parte inicial da tela toca o talude, os escaladores fazem a fixação provisória da
tela. A partir disso o piloto, progressivamente, desce o restante dessa até a instalação de todo
o seu comprimento e, por último, o piloto aciona um dispositivo de alijamento de carga
eletrônico que libera a tela totalmente, depositando-a ao longo do talude. O helicóptero
retorna ao drop zone, para o transporte de placas, cabos, porcas e ancoragens, que serão
necessários. Isso é feito através de um big bag37. Nos taludes são instaladas estruturas de
contenção de madeira, para um devido acondicionamento desses big bags.

Depois de colocadas as telas, é iniciado o tensionamento do sistema. São instaladas


placas nos vergalhões de aço, utilizando uma chave de impacto manual, e porcas são
colocadas por cima das placas para fixação. Nesse momento, é utilizado um torquimetro nas
porcas para calibragem correta e fechamento do sistema, depois é aplicado um produto anti-
corrosivo nas ancoragens.

A etapa seguinte consiste em costurar as telas já instaladas para fechamento de todo o


sistema de proteção do talude. Assim, o cabo de contorno (cabo de aço) é fixado nas telas por
meio de garras de compressão e tensionado utilizando as ancoragens (vergalhões de aço). A
costura das telas é feita pelo tensionamento do cabo de aço, que produz um efeito de
amarração e fixação dessas estruturas. Para realizar o tensionamento do cabo, os alpinistas
utilizam uma talha38 do tipo catraca. A catraca possui um gancho que é colocado na
ancoragem, posteriormente o profissional inicia a movimentação da alavanca da catraca. Com
o movimento da alavanca, o cabo de aço vai sendo aos poucos tencionado. Quando chega na

35
TECMAT é uma geomalha para o controle da erosão, com uma estrutura irregular, fabricada com
polipropileno.
36
A malha TECCO de arame de aço de alta resistência, é utilizada para estabilizar o talude, seja de rocha ou
material solto.
37
Saco grande feito de material resistente, flexível e dobrável, para transporte de grandes cargas (média de 1
tonelada) a granel e com alças para içamento.
38
As talhas são ferramentas utilizadas, para facilitar o levantamento de alguma carga. É feita de aço, com peças
como: correntes, polias (roldanas) e ganchos. A tala permite levantar grandes pesos com força mínima, puxando
grandes metragens de correntes que correm através das polias e realizam toda tarefa.
125

tensão esperada, o alpinista faz uma amarração do cabo de aço, usando uma presilha. Depois
de prender o cabo, o profissional gira a catraca no sentido contrário ao anterior, que produz
um efeito de destensionamento do sistema, depois disso a catraca é retirada, e a costura da tela
está concluída. Assim, chega-se ao fim de atividade de instalação da tela no talude.

Na análise preliminar de risco dessa tarefa, de esticamento de cabo de aço, foram


mapeados alguns riscos, que foram esses: a batida contra equipamento e materiais parados nos
acessos, queda ou tropeção, devido aos acessos irregulares e características do terreno, corte
ou perfuração devido a materiais cortantes, particulado nos olhos, devido à presença de
poeira, chicoteamento do cabo de aço, que poderia se soltar da catraca e vir a chicotear,
radiação não ionizante, relacionado ao sol e, por último, queda de materiais e dos
profissionais que trabalhavam na parte superior do talude. Podemos perceber que não estava
mapeado o risco de soltura da catraca, que foi a causa da lesão no alpinista.

Essa descrição das etapas da atividade e dos riscos mapeados são baseadas nos
documentos internos da empresa. Em uma discussão posterior, vamos identificar que alguns
itens da execução merecem mais atenção. A atividade que será foco desse estudo é a de
esticamento do cabo de aço, realizada no momento de costura da tela, quando ocorreu
acidente ocupacional relatado anteriormente.

Diante do cenário apresentado, podemos imaginar que o contexto dessa atividade não
é simples, o alpinista está no alto de um talude, preso por diversos equipamentos de
segurança, com uma intensa movimentação de profissionais e de helicópteros, o que,
naturalmente, produz altos ruídos, além da liberação de uma grande quantidade de poeira. Ao
mesmo tempo o profissional está portando um rádio de comunicação, no qual constantemente
profissionais do projeto estão se comunicando sobre diversos assuntos. Diante de todo esse
contexto, os profissionais executam suas atividades tendo que se lembrar de diversos
procedimentos técnicos, seguindo normas regulamentadoras de segurança e outras diretrizes.

6.7 Iniciando o Grupo de Discussão

A fim de entender melhor as circunstâncias que ocasionaram o acidente e como a


Psicologia do Trabalho poderia contribuir para a investigação e análise dessa ocorrência,
inspiramo-nos em alguns métodos utilizados nas clínicas do trabalho. O objetivo não consistia
em aplicar nenhum método em sua integra, mas sim em usar elementos que ajudassem para
126

um melhor conhecimento do trabalho real dos alpinistas e propiciasse a circulação de saberes


e o fortalecimento do coletivo desses profissionais.

Uma das primeiras inspirações proveio da Clínica da Atividade e se relaciona com a


filmagem do trabalho. (CLOT, 2006, 2010; CUNHA; MATA; CORREIA, 2006). Assim, foi
proposto que fizéssemos uma filmagem da atividade de esticamento de cabo de aço. O
objetivo de filmarmos a atividade está relacionado com a possibilidade de conhecermos um
pouco mais do trabalho real dos alpinistas. Também nos inspiramos na proposta de métodos
de análise coletiva dos acidentes de trabalho (OSORIO; MACHADO; GOMES, 2005).
Entendemos que teríamos a oportunidade de fazer uma discussão desse acidente com o grupo
de alpinistas, assim esperávamos que esse momento contribuísse de alguma forma para a
análise do acidente, principalmente com ações tangíveis, focadas na melhoria das condições
de trabalho desses profissionais. Nesse sentido, inspiramo-nos também em elementos da
Ergologia e na sua proposta de grupos de encontro de trabalho, que tem como objetivo
construir soluções e não apenas gerar debates sobre um assunto no trabalho (TRINQUET,
2010).

Assim, um profissional de segurança da mineradora foi designado para dar suporte ao


pesquisador e ajudar a viabilizar a discussão do acidente com os alpinistas. Nesse momento
iniciamos um estudo do evento ocorrido, do projeto da empresa, da sua metodologia
construtiva, dos desafios e das principais atividades dos alpinistas, procedendo com uma
análise dos riscos dessa tarefa. Foi possível estudar os procedimentos, analisar as
documentações da obra e conversar com o profissional de segurança da mineradora para
delimitação da linha de ação.

Depois desses estudos e discussões prévias, optamos por seguir em duas frentes de
trabalho. Uma delas estaria relacionada com a filmagem dos profissionais executando a
atividade de esticamento de cabo de aço. A intenção era filmar mais de um profissional.

Em um segundo momento faríamos uma discussão sobre o acidente e os riscos da


atividade em grupo. Com a presença de alguns alpinistas, faríamos a apresentação dos vídeos
e por último tentaríamos construir coletivamente soluções que pudessem ser integradas à essa
atividade de esticamento de cabo de aço, com foco na diminuição de seus riscos de acidente.

Um dos primeiros pontos que nos chamaram a atenção era que o local onde ocorreu o
acidente era restrito e exigia treinamentos específicos de trabalho em altura, inviabilizando a
ida do pesquisador. Esse treinamento, além de um custo elevado, também demandaria muito
127

tempo para ser realizado. Dessa forma, foi necessário que outro profissional fizesse a captação
das imagens. A solução foi encontrada em conjunto com a área de segurança local da empresa
contratada, e esta disponibilizou um dos seus funcionários para realizar a gravação da
atividade. O profissional de segurança da mineradora que possui as habilitações necessárias
para acessar o local se prontificou para acompanhar a atividade de gravação.

Seguindo esse caminho, fizemos uma reunião com os profissionais (da mineradora e
da contratada) para explicar como deveria ser feita a filmagem da atividade. Especificamos
que era importante os profissionais realizarem a atividade da forma como ela é feita
rotineiramente, gravarem o passo-a-passo de execução e tudo o que eles julgassem importante
e que talvez não estivesse vinculado diretamente à atividade, como outras pessoas próximas,
dentro outras coisas.

O profissional da empresa contratada encarregado de realizar o vídeo acabou tendo


dificuldade de filmar toda a atividade e focou apenas em mostrar a situação em que o
profissional se encontrava quando aconteceu o acidente. A empresa contratada encarregou um
profissional mais experiente para realização da atividade. O vídeo acabou se transformando
em um tipo de treinamento de como realizar a atividade de esticamento de cabo de aço.

Ele ia fazendo as etapas da atividade, o seu passo-a-passo e explicando para a câmera


o que era importante observar. O profissional narrava para a câmera qual era o processo
correto e o que deveria ser feito para atendimento de alguns procedimentos da empresa,
sinalizando os detalhes em que deveriam prestar mais atenção durante a sua execução e que
evitassem o acidente ocorrido anteriormente. Segundo o profissional da empresa contratada,
na data da filmagem não estava planejada a execução dessa atividade, visto que o helicóptero
não estava mobilizado. Tiveram de fazer um tipo de simulação com uma tela que já estava
instalada anteriormente.

Depois que os profissionais fizeram o vídeo, marcamos para o dia seguinte o momento
de discussão da atividade com o grupo de alpinistas. Tivemos acesso ao vídeo apenas algumas
horas antes de fazermos a discussão com os profissionais, o que não possibilitou uma análise
maior do material antes da apresentação para o grupo e nem permitiu planejar muitas
perguntas sobre a atividade em foco.

A filmagem que foi entregue pela empresa estava sem nenhuma edição e foi gravada
com um bom equipamento de vídeo.
128

No dia marcado para realização da discussão, a empresa encaminhou quatro alpinistas


que realizavam que também realizavam rotineiramente a atividade de esticamento de cabo de
aço. O profissional que havia se acidentado recentemente e o Alpinista mais experiente que
estava ensinando a atividade durante o vídeo não estavam presentes.

Além dos quatro empregados, a empresa encaminhou uma profissional com a função
de Técnica de Segurança Ocupacional para discussão em grupo. Nesse sentido, existem
benefícios em envolver profissionais com conhecimentos diferentes em um grupo de
discussão sobre as atividades. A Ergologia explicita a importância da soma de diferentes
conhecimentos para se chegar à solução de problemas complexos (TRINQUET, 2010).

O grupo de discussão, então, foi composto por quatro alpinistas, dois técnicos de
segurança (um técnico de segurança mineradora também participou) e o pesquisador. O
trabalho foi realizado em uma sala de reunião das instalações da mineradora, uma área de
escritórios onde ficam alocados profissionais administrativos. Não era um local de comum
acesso dos Alpinistas. Esses chegaram devidamente no horário marcado para iniciarmos.

O roteiro inicial para discussão com o grupo envolvia a apresentação dos objetivos da
pesquisa, explicação sobre a formação do grupo e uma apresentação dos profissionais que
estavam na sala.

Os profissionais não foram informados pela empresa sobre o objetivo do trabalho.


Achavam que seria algum treinamento sobre a atividade em que ocorreu o acidente. Passamos
as documentações necessárias, apresentamos a pesquisa e seus objetivos e disponibilizamos
os TCLEs para assinatura. Em seguida os profissionais se apresentaram, dizendo os seus
nomes, informando o tempo que estão na empresa e a função que ocupavam no momento, a
maioria dos profissionais era recém-admitida.

A conversa iniciou-se com uma discussão sobre os principais riscos e das condições de
trabalho para execução dessa atividade. O vídeo foi apresentado em seguida por duas vezes.
Na primeira passarmos sem pausas e na segunda fomos parando em alguns pontos que o
grupo ou o pesquisador julgaram importantes para serem melhor esclarecidos ou detalhados.

Assim o diálogo, iniciou-se com uma primeira pergunta realizada para os profissionais
em relação aos riscos de sua atividade:

Pesquisador: Quais são os principais riscos dessa atividade? Assim, o quê que, pode
acontecer lá.
129

Felipe Souza39: o principal risco que pode acontecer, é cê ocê não fizé o... as coisas
bem feita, pode acontecer algum erro né? Aí cê tem que ficar atento, a cada
momento, a cada, detalhe, e perigo, ocê tem que fazer com o máximo de segurança.
Pra num acontecer... Não ficar muito na frente da da... do do diâmetro da catraca que
pode escapar, a corrente, então, e... e fazer né, com segurança, com calma, não
precisa correr, tem que trabalhar com calma e... com muita segurança né.

Em seguida foi conversado com os profissionais sobre o que eles achavam de trabalhar
em altura e com risco de queda.

Os alpinistas trouxeram as seguintes respostas:

Pesquisador: Como é que vocês se sentem, trabalhando nesses taludes? É alto pra
caramba?
José Maurício: costuma né.
Paulo César: costume né. A gente gosta também, do que faz. Se não gostar não tem
como né.
José Maurício: quem não gosta... quem não se adapta na altura mesmo, quando
chega já... já pede pra ir embora, pra mudar para outro serviço [risos].
Paulo César: você vê... tem esse paredão aqui, do lado de cá? você vê é uma coisa,
mas se você tá lá em cima, você vê outra.
Pesquisador: é diferente né.
E2: desse lado, é desse tamanho aqui embaixo [risos] tem que ter coragem... [risos]
P: é diferente né.
E2: muito diferente.

A resposta de José Maurício é importante no sentido de que demonstra como os


profissionais entendem o seu trabalho. Quando Paulo César exemplifica que gostamos do que
fazemos, existe uma mensagem importante de que os que não gostam do trabalho rapidamente
acaba por deixá-lo.

Posteriormente foi solicitado pelo pesquisador um voluntário dentre os profissionais.


Depois de um breve momento de silêncio, o alpinista Ayrton Costa se voluntariou. O
pesquisador lhe solicitou que contasse como é a realização dessa atividade.

O profissional começou a relatar o que faria:

Ayrton Costa: primeiramente, é, vamos supor, tipo assim, eu já expert, eu já sei


fazer aquela atividade né? Primeiro, eu ia fazer, eu, ia fazer, pra pessoa vê, todo
procedimento certinho, depois, pedia pra pessoa fazer...

39
Todos os nomes citados são fictícios, com o objetivo de preservar a identidade dos profissionais.
130

Em seguida lhe foi solicitado que falasse de sua atividade desde o início, quando
chegam ao canteiro:

Ayrton Costa: Beleza. Aí o encarregado vai passar a atividade pra mim, vai falar ó.
O menino aqui vai trabalhar com você, porque você é mais experiente né. Beleza...
Assinou os papel, pergunta a você se ele assinou os papel logo, assinou? Então vamo
subir, vamo comigo.

Esse era um grupo relativamente novo na função que exerciam e estavam aprendendo
ainda sobre a atividade. A empresa passava por um momento de contratação de novos
funcionários para integrar ao projeto.

Na continuidade da resposta do profissional, podemos perceber que apesar da


explicação do objetivo do trabalho, o assunto do profissional que havia se acidentado ainda
estava muito vivo e acabou vindo à tona, pelo próprio Alpinista. Na sequência do relato o
profissional trouxe a seguinte fala:

Ayrton Costa: Aí, no caso né? Se precisar de algum equipamento, pra gente pegar
logo... pra levar. Porque nada é improviso, porque chega lá na hora, não tiver o... a
ferramenta né, pra trabalhar, porque né, no caso lá, o rapaz ele se esqueceu, às vezes
ele pode até ter se esquecido, ou então não tinha a porca perto, também, entendeu?

Quando o alpinista se refere ao caso lá, o rapaz se esqueceu, essa referência está sendo
feita ao profissional que acabou tendo um acidente na atividade. Uma das informações iniciais
da análise do acidente foi justamente que o profissional não tinha colocado uma porca que era
necessária para tornar a atividade mais segura.

Assim, passamos a conversar mais sobre a atividade e começamos também a ter a


intervenção da Técnica de Segurança da empresa de projetos, que começou a sentir a
necessidade de complementar as informações que eram discutidas.

A conversa se voltou mais para o modo como eles fazem a atividade, que tipo de nós
eles fazem, que tipos de equipamento são necessários, quais documentações devem ser
preenchidas.

Nesse momento os profissionais comentam sobre a lista de checagem que eles fazem
antes das atividades e da preparação para as atividades, já que eles devem ir preparados para
várias atividades, pois mudanças podem acontecer no alto do talude:
131

Paulo César: Porque na realidade, é... é que nem ele acabou de falar. Nóis não tem
só uma atividade. Nós pode tá numa atividade do... dia que o encarregado chegar e
falar "ó, eu quero que você vá para outra atividade". Nóis não tem uma atividade só.
Por isso que... tem que... fazer o check. As veses passa o final de semana em casa,
ninguém sabe como que alguém vai chegar, vai mexer nas coisas de nós né... pode
tirar algo, alguma coisa... aí nóis... faz o check-list do cinto, pra ver se tá tudo, não tá
faltando nada...

Estávamos conversando principalmente sobre os principais riscos que fazem parte da


atividade. Nesse momento os profissionais estavam sinalizando alguns itens que deveriam
receber a atenção dos profissionais que estão envolvidos nessa atividade.

Um dos profissionais sinalizou um item que deveria receber a atenção de todos os


profissionais, relacionado com o rompimento do cabo de aço, mas na sequência a Técnica de
Segurança interveio apresentando um outro ponto de vista:

Pesquisador: O que mais pode dar errado lá? Por exemplo, que vocês imaginam?
Paulo Cesar: acho que, tipo, o cabo de aço quebrar né, mas eu acho que esse aí...
Pesquisador: quando você fala o cabo de aço quebrar, seria o que, no caso?
Paulo Cesar: Ele romper, com o tempo. Mas sei lá, só se ele estiver muito velho
Fernanda Alves: o cabo que a gente usa é de 14 milímetros, então assim, é muito
pouco provável, porque a gente não tem nenhum equipamento, que dê a tensão de
ruptura de um cabo desse. [risos entre os participantes]
Felipe Souza: pode ter, igual ontem o cabo do Wagon Drill começou a romper, só
que ele não vai estourar de uma vez, ele vai... partindo né, porque aquilo é grosso,
você vê, aí você já vai imediatamente e troca. Eu vi lá, e troquei na hora já, o tifão.
Não vou esperar acontecer né.

Nesse diálogo podemos perceber a diferença entre o conhecimento técnico que


aparece na fala de Fernanda Alves, que é a Técnica de Segurança, e o saber prático de Felipe
Souza. Pensando na prevenção de acidentes, temos aqui um elemento do trabalho real que
deve ser considerado para prevenção. A própria profissional de Segurança Ocupacional não
tinha esse conhecimento do que vinha acontecendo, principalmente na danificação dos cabos
de aço.

Nesse momento Felipe nos apresenta elementos do trabalho real dos Alpinistas:

Felipe Souza: você vê que ele tá desgastando, ele vai desgastando e vai rompendo
aos poucos. É igual uma corda. Tipo, ela vai gastando aos poucos. Vamos supor que
uma corda ela vai aqui. Ela via cortando aos poucos, aí você vai vendo que ela vai
gastando. A mesma coisa é o cabo. Você vê ele saindo aqueles fiapos, arame com
arame, aí você vai e troca logo né?
132

Dando sequência, continuamos a conversar com os profissionais sobre alguns aspectos


e riscos da atividade. Em um dado momento, Paulo César se mostrou incomodado com as
discussões. Enquanto Ayrton Costa estava comentando sobre o momento de esticar o cabo,
Paulo acabou interrompendo e questionando diretamente ao pesquisador:

Pesquisador: O que mais que pode dar errado, lá naquela atividade? quando vocês
estão fazendo ela?
Ayrton Costa: O que mais pode dar errado lá, na esticação do cabo? Apertar os
parafusos também.
Paulo César: Você é entendista lá? você é especialista lá né? Tem mais coisas, pra
dar errado? [risos entre os entrevistados].

O alpinista fez um questionamento direto ao pesquisador. Cabe aqui uma importante


reflexão: o pesquisador era funcionário da empresa mineradora, estava vestindo o uniforme da
empresa, e isso de alguma forma pode ser o agente causador da pergunta, principalmente
porque talvez o pesquisador estivesse exercendo outro papel, um papel de checagem ou de
fiscalização do conhecimento deles em relação aos riscos da atividade, sobretudo porque o
acidente ocupacional aconteceu recentemente.

Ele estava achando que eu era um profissional da área e me questionou se eu conhecia


a atividade. A profissional de segurança ocupacional responde rapidamente ao alpinista:

Fernanda Alves: Ele é psicólogo. Ele não conhece da nossa atividade.


Paulo César: Ah, achei que ele era profissional na área.

Depois desse momento, os profissionais ficaram mais amistosos e contribuíram mais


para as discussões sobre a atividade. As perguntas que até então vinham sendo feitas estavam
mais relacionadas com aspectos técnicos da atividade; depois que a profissional de segurança
Fernanda Alves esclareceu dizendo que eu não conhecia a atividade, o grupo ficou mais
relaxado.

Durante a conversa sobre os riscos surgiu uma informação importante sobre como o
profissional começa a lidar com o medo de trabalhar em altura:

José Maurício: Eu acho assim, na minha opinião. Que nem eu falo, eles falam, quem
usar dois clipes ali, e duas cordas, não tem risco de cair de jeito nenhum, eu acho
que tá mais seguro do que quem tá no chão. Com os dois clipes. Ou dois clipes ou
nas duas cordas, não tem jeito de cair de jeito nenhum. É a mesma coisa do que estar
133

no chão. Por isso que você vai perdendo o medo. A cada dia que passa, perder mais
o medo.

Segundo o relato de José Maurício, o medo vai acabando conforme a experiência na


execução da atividade parece ir aumentando. No início da discussão com o grupo, quando
falamos sobre altura, os profissionais haviam sinalizado que quem não consegue lidar com
altura acaba saindo do trabalho.

Outro elemento que aparece na discussão são os escorregões. O grupo comenta que,
pelo fato de a tela ser lisa, eles são muito comuns. Além disso, o profissional sinaliza um dos
desligamentos, relacionado com as políticas de segurança da mineradora:

Felipe Souza: É, dá um... né, você vai... você escorrega né, que a tela é lisa né...
José Maurício: Isso é normal do dia-a-dia, você escorregar. Mas você tá clipado,
entendeu.
Felipe Souza: Aconteceu então, um caso que... um... era colega, a pouco tempo que
chegou, ele foi andar desclipado e foi mandado embora, por causa que... tava
botando a vida dele em risco, não só dele, mas as dos colegas, debaixo. Ele tava
andando sem nada, ele não tava clipando, solto, como se estivesse no chão.

A técnica de segurança se prontificou a responder, tentando explicar o que tinha


acontecido:

Fernanda Alves: porque o talude, a impressão que a gente tem daqui, é que ele é
muito inclinado. Mas quando a gente tá lá, tem alguns locais, que ele é 90 graus.
Então, é plano... a pessoa tem a falsa sensação que dá para ele andar tranquilamente.
Mas se ele tropeçar, a gente... é aquele precipício. Então, eles tão falando que o
rapaz que foi desligado, porque ele estava em um local plano, a ferramenta dele
escorregou, ele se soltou pra ir buscar a ferramenta. Então, ele se soltou, foi pegar a
ferramenta e voltou sem nada.

A conversa sobre os riscos da atividade continua. O profissional relata que em toda a


extensão da área existem riscos, mas aponta para os profissionais que precisam trabalhar nos
locais onde ainda não foram instaladas as telas, o que seria o local com os maiores riscos de
sua atividade.

Os Alpinistas começam a delimitar algumas especificidades do trabalho com corda no


terreno do talude. Em sua maioria, as rochas que compõem o talude são de itabiritos, que têm
a característica de ser muito cortante, principalmente pela grande proporção de ferro que entra
em sua composição, fazendo com que eles fiquem mais rígidos. Assim, o profissional
apresenta uma solução que ele usa para evitar que as cordas sejam cortadas:
134

Ayrton Costa: A área. Mas nesse caso aí, a área é todinha arriscada. Mas o que corre
mais risco, é o pessoal que trabalha embaixo da tela, no desmonte. Que ali é onde
pode cair uma pedra, uma corda, pode cortar, você tem que estar sempre atento ali
onde está as corda, pra ver se não tem como cair pedra em cima, se puder muito,
deixar a corda mais alta um pouco, é melhor, do que você deixar ela mais encostada
na tela. Porque vem alguma pedra, escorregar um pouco por baixo, não pega as
corda. Porque é um pouco alto né? Aï você tem que ficar sempre atento...
Felipe Souza: se você andar naquele talude você vê pedras que é mesmo que uma
faca. É minério né? Você sabe, é ferro. Você... chega até, tipo, cortar uma coisa lá,
pode usar um pedaço dele que ele corta uma corda. Fácil fácil.
Ayrton Costa: quer, ver. Tem que ficar sempre em duas cordas, diariamente. Porque
vem, acaso, acontece de de cortar uma corda, e você estar na outra. Entendeu? Aí...
tem muita gente que às vezes, é o caso de foi mandado embora. Sem nenhuma. Vai
que está só numa corda só. Aí desce uma pedra corta a corda, você já desceu junto
com ela. Já desceu.

Esse não era um dos riscos previsto em nenhuma análise de risco do projeto, mas os
trabalhadores tomam medidas para preservar a sua saúde. Explicam ainda algumas medidas
que eles tomam no cotidiano para a gestão desse risco:

Paulo Cesar: Para descer, você tem que verificar a corda, que vai descer nela, que
vai subir, ver se tá normal, se tem uma...
Pesquisador: vocês passam a corda?
Paulo Cesar: Vai passando ela, de vez em quando, para ver se não tem, se não tá
quebrada...
Felipe Souza: Quando tá, pouco... quando tá, é... desgasta um pouquinho, já fala
com a segurança e eles vão e troca.
José Maurício: as cordas de descida, que é mais longa, 100 metro, 200 metros de
corda, todo mundo desce nelas. Desce e sobe.

As cordas eram compartilhadas por todos os profissionais da obra e ficavam


espalhadas por todo o projeto. Quando o alpinista necessitava delas, ele as utilizava. Sobre
essa situação, o alpinista Felipe Souza explica o que pode acontecer quando esses
profissionais estão trabalhando em altura e fala sobre a comunicação entre os trabalhadores.
Novamente, esse item não se encontra nos procedimentos da empresa e não está incluso nos
treinamentos para entrada no projeto:

Felipe Souza: Na realidade, é, já tem as cordas já, de acesso, de descida e subida.


E... um exemplo, se eu for... tô numa corda, e quero passar para outra que está do
outro lado, eu me comunico com alguém lá de cima, e pergunto, "essa corda tá
ancorada?", mas com a minha, eu pergunto e ele me responde "tá, pode subir", aí a
gente sobe. Porque a gente não pode pegar uma corda e botar os equipamentos e
subir sem saber se tá... ancorada lá em cima. Por isso que nós pergunta. Se for passar
de uma corda para a outra nós pergunta.
135

Ayrton Costa: Também ela pode tá até solta, pode tá com um nó na ponta, tá
enganchada na tela, e se vai forçar, aí ela solta, cê.. ela desce de uma vez.

O que é sinalizado refere-se a elementos do trabalho real dos alpinistas e o modo como
eles utilizam ações simples para a prevenção de acidentes. Essas ações, apesar de simples,
acabam não sendo incorporadas às capacitações de novos profissionais. É um saber aprendido
na rotina do trabalho, porém é um saber essencial para a prevenção de acidentes. O que
Ayrton relata é que existem situações que não estão nos procedimentos. Checar a corda não é
procedimento indicado pela empresa, mas, pela sua experiência, a corda aparentemente pode
enganar ao parecer estar em condições de sustentar o peso do profissional, e isso pode
ocasionar acidentes. Essas cordas são de uso compartilhado e não ficam necessariamente à
disposição de apenas um dos profissionais.

Sobre o diálogo entre os profissionais, um dos alpinistas reforça:

Paulo César: o importante é sempre ter diálogo aí, um com o outro, porque aí, cada
um ajuda o outro, cada um cuida do outro ali.

Na etapa posterior, iniciamos a apresentação do vídeo. No total o vídeo tinha cerca de


sete minutos. No primeiro momento foi combinado com os profissionais que veríamos todo o
vídeo e que depois conversaríamos sobre o que estávamos vendo na tela. Todos os
profissionais concordaram que poderíamos seguir com o trabalho dessa forma.

Logo depois de apresentar o vídeo, o pesquisador perguntou ao grupo: “O que vocês


percebem, o que poderiam fazer para deixar essa atividade mais segura? Existe algo que vocês
fariam diferente?” Para facilitar e organizar as ideias, o pesquisador foi escrevendo em um
quadro que estava disponível na sala, todos os principais pontos levantados pelos
profissionais durante a visualização do vídeo.

O primeiro ponto foi levantado pelo profissional Paulo César no momento em que a
imagem abaixo (Fig. 6) aparecia no vídeo.
136

Figura 6 – Amarração do cabo de aço

Fonte: Banco de dados do autor.

Paulo Cesar: na realidade é o... encarregado Roberto falou que, para melhorar um
pouco é, naquela hora ali, colocar ali uma corda.

Um aspecto importante é que os profissionais que estavam na discussão possuem


diferentes encarregados, apesar de fazerem a mesma atividade. Quando Paulo se refere ao
encarregado Roberto, ele parece sinalizar que existe uma prática que é feita por uma
supervisão que é diferente do que foi mostrado pelo profissional do vídeo. No que podemos
perceber essa indicação foi feita apenas para a equipe que trabalha com esse encarregado. O
conhecimento e as melhorias identificadas em uma atividade demoram para serem repassados
para outras equipes, apesar de serem da mesma empresa. Esse conhecimento para a prevenção
de acidentes não foi divulgado entre os colegas.

No decorrer do diálogo surge uma outra sugestão de melhoria:

Felipe Souza: ou então um mosquetão, clipado na tela né? Se escapar, ele segura né.
Vamos supor, que não apertou lá, e vai soltar.

A sugestão do profissional seguinte já foi diferente da indicada inicialmente pelo


encarregado, mas foi uma sugestão que surgiu no momento, ainda não era uma prática de
trabalho. Nesse momento, todos concordaram com a sugestão de Felipe Souza. Enquanto ele
estava anotando a observação no quadro, outro profissional levantou mais uma sugestão:
137

José Maurício: o mosquetão, você pode, outra melhor. Colocar o mosquetão


passando na corrente da talha com a tela. Pra ela correr, e puxar o cabo por dentro do
mosquetão. E travado.

Enquanto José Maurício concluía sua fala o Alpinista, Felipe Souza, que anteriormente
havia sugerido outra ideia, acaba complementando junto o final da frase: “na tela”.
Aparentemente, a solução estava sendo construída através do conhecimento dos
trabalhadores, de suas experiências. Quando José Maurício está concluindo sua ideia, Felipe
também a entende e de alguma forma valida essa ideia como a melhor.

Quando José Maurício termina de expor sua sugestão, os trabalhadores todos


concordam com ele ao mesmo tempo. A validação da ideia não é falada. Ela é validada por
todos os profissionais, que balançam a cabeça em sinal de positivo, como se tivessem
conseguido visualizar a ideia que o profissional estava sugerindo e concordassem em que essa
seria uma melhoria para realização da atividade.

Ao retomar a apresentação do vídeo, reiniciarmos a discussão. O profissional José


Maurício contribuiu com mais um ponto.

Figura 7 – Acionamento da talha

Fonte: Banco de dados do autor.


138

José Maurício: Eu acho que seria o caso também, de colocar uma praca [placa]. É,
ali, depois colocava a porca. Coloca o olhal, colocava uma praca, e depois uma
porca.
José Maurício: pra num... pra não soltar. Com uma porca não saía, mas... para
prevenir né?
Fernanda Alves: o que eles chamam de placa, é como se fosse, que a gente usa no
parafuso, a gente não usa uma ruela? Então, essa placa seria como se fosse uma
ruela.

A sugestão parece simples, mas é uma medida significativa para evitar que aconteçam
acidentes semelhantes ao que tinha acontecido com o alpinista. A ideia que foi sugerida é que
se tenha uma placa entre o gancho da catraca (assinalado em vermelho na figura acima) e que
essa placa possa servir para evitar que a catraca venha a se projetar para cima, evitando
acidentes como o relatado nessa atividade. Essa placa funcionaria como uma espécie de ruela
no momento de utilização da catraca.

A técnica de segurança reagiu nesse momento. A profissional não parecia concordar


com o que os profissionais estavam sugerindo. O incômodo era real, e depois que terminamos
a discussão, enquanto conversávamos com a profissional sobre nossas discussões, os outros
profissionais já tinham saído da sala e questão acabou sendo retomada enquanto falávamos de
outro assunto:

Fernanda: Assim, algumas coisas que a gente levantou aqui, já é coisa que a gente já
tinha levantado, por exemplo, a questão da porca, da placa, isso tudo a gente já tinha
falado lá né, não, tem que colocar a porca, tem que colocar a placa.

O contexto é importante, pois esse tinha sido um item discutido durante a análise do
acidente e apontado como uma solução.

Na sequência da apresentação do vídeo surgiu mais uma sugestão do profissional


Ayrton Costa. Nesse momento, a impressão que se passava para o pesquisador é que os
alpinistas, aparentemente estavam interagindo melhor com o vídeo e começaram a pensar em
sua atividade de forma mais ampliada:

Ayrton Costa: outra coisa ali que tinha que melhorar um pouco, ali, esse... o cabo da
talha, ele é muito curto. De qualquer maneira, você vai estar sempre próximo, aí,
com o rosto, com alguma coisa, muito próximo. Eu acho que se tivesse como
alongar mais o cabo, se ficasse um pouco mais afastado, seria melhor.
139

Figura 8 – Posicionamento do profissional

Fonte: Banco de dados do autor.

Conforme a figura acima, o profissional estava muito próximo da talha enquanto fazia
a atividade. Ayrton identificou a situação de risco; em seguida os profissionais
complementaram com uma solução prática. A sugestão era simples: instalar um extensor no
cabo da catraca para evitar que o profissional fique tão próximo:

Paulo Cesar: se instalasse um extensor né? O extensor, na catraca.


Felipe Souza: na catraca. Para você ficar mais um pouco afastado, não ficar muito...
Ayrton Costa: você sair do raio de ação.
Paulo Cesar: isso, sair do raio de ação. Porque é muito curto, esse cabo.

Depois dessa discussão, sugestões começaram a surgir com mais naturalidade e


rapidez. De alguma forma, os trabalhadores perceberam o benefício da discussão.
140

Figura 9 – Aperto dos clipes do cabo de aço

Fonte: Banco de dados do autor.

Na sequência, enquanto víamos a cena acima, foi feita uma sugestão que chamou a
atenção de todos, principalmente do profissional de segurança da mineradora. O alpinista
Ayrton Costa sugeriu que dois profissionais deveriam fazer a atividade que estava
demonstrada. Para o profissional, era importante haver um profissional para apoiar o outro
enquanto estivessem fazendo essa parte da atividade:

Ayrton Costa: É, porque na realidade tem... tem que ser duas pessoas, né? Porque
um segura, e o outro aperta. Porque não tem como fazer só.
Pesquisador: E essa atividade são duas pessoas?
Todos: duas pessoas.
Paulo Cesar: Tem que ser duas pessoas. Pode ver que depois, aí um fica ali, e o
outro vai lá apertar, entendeu?
Robson Souza: só pra comparar porque no dia, no momento da ocorrência só tinha
uma pessoa. Né, então...
Fernanda Alves: ele tava fazendo sozinho.

Aqui tivemos um ponto significativo da discussão. Podemos notar aspectos do


trabalho prescrito em contradição com o real aparecendo na conversa dos trabalhadores. A
empresa sinaliza isso em documentos e treinamentos: os profissionais deveriam fazer a
atividade em dupla, ou seja, é importante que estejam sempre acompanhados.

Durante a discussão, todos concordaram em que essa deve ser a melhor medida,
inclusive por ter sido sugerida por um dos alpinistas. No entanto, durante o diálogo, Robson
141

Souza, técnico de segurança da mineradora, acha estranho o que estão dizendo e pergunta se o
profissional estava acompanhado no dia do acidente. O técnico de segurança da mineradora
não sabia que essa atividade deveria ser realizada em dupla, apesar de ter acompanhado a
análise dessa ocorrência. Assim, a técnica de segurança da contratada complementa
rapidamente. A intervenção do técnico advém do fato de ele não saber que atividade deveria
ser realidade em dupla e chamou a atenção o fato de esse item não ter sido discutido durante a
análise. No dia do acidente com o Alpinista, ele passou a parte da manhã trabalhando em
dupla, porém no período da tarde o seu colega foi deslocado para outra atividade e ele passou
a fazer a tarefa sozinho.

Esse assunto foi importante para Robson Souza. Depois, em entrevista individual, a
fala dele sobre as discussões parece retornar de alguma forma a esse ponto da discussão:

Robson Souza: É muito, pra mim, despertou, a condição geral do campo (...).

A fala sobre as condições gerais do campo remete a alguns fatores que não estavam
sendo percebidos em relação à forma de trabalho da empresa. É importante esclarecer o papel
dos técnicos da mineradora em relação à empresa contratada. Eles são cobrados para fiscalizar
as empresas, devem estar constantemente em campo, verificando itens que não estão
funcionando na gestão de segurança. Realizam auditorias, acompanham as investigações e
análises para que possam levantar algum item que a empresa possa estar deixando escapar ou
negligenciando.

Logo em seguida o profissional Ayrton Costa levanta mais um ponto importante sobre
a atividade. Essa é uma sugestão que nenhum dos profissionais praticava em sua rotina:

Ayrton Costa: é importante dizer que toda vez que for executar essa tarefa aí, esse
trabalho, aí, normalmente as porca já tá todas arrochadas, com chave. Não tem mais
como você folgar. Isso, então, na hora que for subir pro canteiro, levar logo uma
porca, ou duas, dependendo do que você vai fazer. Já com você junto do lado,
porque na hora lá, você não acha a porca folgada. Tem que levar uma, já de reserva,
ou duas, ou... o que for usar, pra você colocar lá, porque lá você não vai encontrar.

Esse foi uma das discussões centrais, pois o que aconteceu no acidente que deu início
ao trabalho foi que aparentemente o alpinista não tinha seguido a instrução de colocar a porca
depois do gancho da talha, o que evitaria que ela deslizasse no tirante (barra de ferro) e fosse
em sua direção:
142

Felipe Souza: É porque nessa área aí, já tá tudo torqueada, não tem como soltar
José Maurício: tudo torqueada, não tem como você soltar. Só se pegar a torqueadeira
né, mas como é que você vai buscar a torqueadeira? Não sabe nem aonde tá às
vezes.
Fernanda Alves: porque se o sistema já estiver pronto, ele já vê com o torquinho, e
fechou a porca. Você consegue tirar na mão. Aí ele tem que levar a porca dele para
colocar...

As porcas ficam disponíveis dentro do armazém. A distância entre as frentes de


trabalho e o local onde está o armazém é de cerca de três quilômetros; a área é de difícil
acesso, com muitas pedras e materiais de obra; o armazém está instalado na parte mais baixa,
fazendo com que os profissionais precisem subir por todo esse caminho para retornar às
frentes de trabalho. Os alpinistas sobem para as frentes de trabalho no início da jornada e
retornam para a área administrativa, onde está localizado o armazém, apenas no horário do
almoço e no final da jornada de trabalho. Todo esse cenário contribui para que os alpinistas
evitem voltar para a área administrativa, e esse pode ser um dos pontos que levaram o
profissional a não utilizar porcas na atividade.

Na fala seguinte de Ayrton podemos ver a conclusão a que ele chega sobre o
profissional estar no local da atividade sem levar a porca:

Ayrton Costa: aí onde tá o... ponto cego. Aí quando o cara vai assim, não é
experiente, assim, é, essa peça aí, lá, não leva uma porca, chegou lá não tem a porca,
ele vai fazer isso e coloca a porca. Quem já tem experiência, já vai levar normal. Já
sabe que tem que usar, já vai levar de reserva né.

Em seguida José Maurício complementa com uma informação relacionada com o


trabalho real.

José Maurício: quem já tem experiência já vai levar normal, já sabe que tem que
usar, vai ter que levar de reserva né.

Essa informação não é passada em nenhuma instrução de trabalho formal na empresa,


os trabalhadores aprendem isso somente no cotidiano da obra.

Vejamos a fala da Fernanda Souza no final, enquanto conversávamos a sós. Ela relata
um pouco do que aconteceu com o profissional que se acidentou:

Fernanda Souza: Porque o risco tá lá, mesmo que eu não tenho um procedimento
que é o que, pegou também, a gente não tinha um procedimento, detalhado, escrito,
um treinamento formal, eu acho que a percepção de risco é onde que a gente tem que
143

trabalhar mais, porque, eu preciso equalizar a percepção, eu não posso depender da


percepção de um ou de outro. Então quer dizer. O cara faz 10 vezes, ele tinha 3 dias
que tava fazendo a mesma coisa, e ele não percebeu que, correu o risco. Os três dias.
O quarto dia, é que ele machucou. Porque aí, ele mudou a posição do tirante. Na
hora que, tipo, ele viu.

A fala é significativa, principalmente quando ela reforça que não possuíam


procedimentos, pois isso ainda não estava na ordem do prescrito. Essa reflexão da técnica
parece nos direcionar para o início da construção de uma culpa, em relação ao acidente, do
trabalhador.

Sobre o profissional não estar utilizando a porca, um dos alpinistas tem uma opinião
diferente, mas que parece caminhar na mesma direção:

Paulo César: no caso do acidente aí, é porque foi um imprevisto... foi uma coisa que
ele fez lá, o cara foi mostrar serviço, alguma coisa, porque... devia ter
esperado...devia ter pegado a porca e usado[incompreensível] [várias pessoas
falando ao mesmo tempo].

Nota-se que o início de uma culpabilização do trabalhador também acontece com os


alpinistas. Um contexto importante é que os profissionais perdem um bônus quando acontece
um acidente na área. Esse item será mais bem explorado no final da discussão com os
alpinistas.

Outro ponto abordado refere-se à distância dos grampos que são inseridos no cabo de
aço para a formação do nó de fixação do cabo. O instrutor revela no vídeo que é importante
manter a distância de dez a quinze centímetros nos grampos. Um dos trabalhadores se
manifesta.
144

Figura 10 – Medição do espaço entre clipes

Fonte: Banco de dados do autor

José Maurício: eu acho que... colocar, colocar esses, [friso...] mais, mais junto um
pouco, e bem alinhado, eu acho. Na minha opinião.
Paulo César: e o cabo de aço mais alto um pouco, eu acho. Óia a ponta dele.
Pesquisador: por que você acha que é mais importante?
José Mauricio: mais segurança, né?
Ayrton Costa: do jeito que dobrou ali, tá certo, já tem quatro clipe, mas já que tá
falando em segurança, se aumentar essa ponta dele...
Paulo Cesar: a ponta de baixo, que tá morta, ela tinha que ser mais longa, um pouco.
Pesquisador: Ok. E, você falou aproximar esses...
José Maurício: isso, os clipes um do outro mais, então, mais ou menos uns 5 cm um
do outro, seria, correto, mais seguro.
Pesquisador: por quê que seria importante aproximar?
José Maurício: mais segurança né? Mais segurança. Se... pode tensionar o cabo até
mais que ele não vai romper, não vai soltar.
Pesquisador: eu tô com uma dúvida. Dúvida mesmo tá? Quanto mais próximo, mais
fixado o cabo fica?
José Maurício: Fica. Quanto mais próximo, fica mais fixado. Mais próximo.

No diálogo surgem duas sugestões que, segundo eles, estariam relacionadas com a
melhoria da atividade. Uma delas se refere à ponta morta do cabo de aço: quanto maior a
ponta, mais espaço se tem no cabo de aço caso aconteça algum tipo de deslizamento, como
assinalado na Figura 11:
145

Figura 11 – Linha morta do cabo de aço

Fonte: Banco de dados do autor.

Na imagem (Fig. 11) podemos perceber como está a ponta do cabo de aço; segundo os
profissionais de segurança do trabalho, realmente deveria ser maior. Apesar de ser o instrutor
que está falando no vídeo, o trabalhador tem uma percepção diferente da dele, principalmente
em termos de segurança ocupacional. A separação dos clipes que são fixados no cabo de aço é
direcionada segundo uma especificação da ABNT (Associação Brasileira de Normas
Técnicas). O conhecimento dos trabalhadores sobre a atividade diverge do que está sendo
apontado durante a exibição do vídeo:

Robson Souza: só que, a existe uma recomendação da..


Fernanda: ABNT.
Felipe Souza: é. Tem uma... tem um espançamento, ele tem...
Felipe Souza: o menino sabe lá ó, acho que é 10 ou 15 cm no máximo. [várias
pessoas falando ao mesmo tempo]
Pesquisador: por quê que vocês acham que tem esse espaçamento? Essa história de
espaçamento ali?
José Maurício: acho que é bem mais curtindo ali.
Felipe Souza: mais seguro.

Nesse momento surge uma discussão, e podemos perceber que existem divergências
entre os técnicos de segurança e os alpinistas. Os profissionais de segurança tentam remeter
ao que está sendo discutido utilizando indicações técnicas e normativas. Felipe, que é o
profissional mais experiente nessa atividade, reafirma que existe uma indicação correta e que
no vídeo já estaria sinalizando essa indicação. Mesmo assim, José Mauricio, que tem um
146

tempo de experiência menor na função, continua afirmando que seria melhor fazer a clipagem
mais próxima.

A profissional de segurança na entrevista explica esse assunto e sinaliza que a


indicação do profissional faz sentido:

Fernanda Souza: isso mais é um procedimento, igual por exemplo, a GeoBrugg 40,
ele fala, que o espaçamento tem que ser a cada 5, e o torque, aquela, aquilo que ele
fez com a chave, ele, ele não pode fazer com a chave, ele tem uma torqueadeira, e a
torqueadeira vai dar o torque aí, porque, ele pode apertar tanto, que ele chega a
danificar o cabo, que aí ele falou, que o cabo começa a soltar, então é porque ele
apertou tanto, tanto, que o cabo começa a romper.

Outro assunto que foi conversado foi a respeito do uso dos EPIs (Equipamentos de
Proteção Individual); durante os diálogos conversamos sobre a sua utilização. Os profissionais
mostraram grande familiaridade com os equipamentos e não relataram sentirem falta de
nenhum outro para a sua proteção.

Enquanto o vídeo caminhava, todos estavam calados, quando um dos profissionais fez
uma observação. Para esses alpinistas, era comum exercer atividades desse tipo, fazia parte da
rotina de trabalho deles. Ao ver a atividade no vídeo, ele parece reconhecer que o seu trabalho
apresenta muitos riscos. Essa era considerada uma das atividades mais simples dentre as que
os alpinistas executam no projeto. Inclusive, o profissional que se acidentou, não tinha sido
contratado para realizar essa atividade, pois inicialmente iria trabalhar na construção dos
canais de drenagens, mas pediu para trabalhar em outro local e assim o encarregado o
direcionou para o que seria a atividade mais simples, já que ele havia acabado de chegar no
projeto. Diante da atividade mais simples que costumam executar, Felipe Souza faz esta
colocação que quase escapa e que não é explorada, pois o pesquisador só percebeu essa fala
durante as transcrições.

Felipe Souza: é uma coisa tão simples, mas que ao mesmo tempo se você não tiver
cuidado... [vídeo passando].

Outra discussão significativa ocorre em determinado momento, quando o trabalhador


que está acompanhando o instrutor é orientado para subir até a parte posterior do cabo e fazer
a amarração do cabo de aço. Enquanto ele se desloca leva consigo as ferramentas na mão.

40
GeoBrugg é uma empresa especializada no trabalho de fornecimento de sistemas de segurança compostos por
redes e malhas de arame de aço de alta resistência.
147

Figura 12 – Entrega da ferramenta

Fonte: Banco de dados do autor.

Figura 13 – Subido na tela de aço

Fonte: Banco de dados do autor.

Nesse momento há um diálogo do pesquisador com os alpinistas:


148

Pesquisador: deixa eu fazer uma pergunta. Eu tava reparando ali, quer ver, dá um
play aí. [vídeo passando] a lá ó. Ele pegou a ferramenta, e tá subindo. É, levar essa
ferramenta com a mão aí, atrapalha?
Ayrton Costa: É. Ele não tá na maneira mais correta, aí não né? O certo era levar ela
pendurada no mosquetão, né?
Paulo Cesar: é uma chavinha pequena, e ruela pequena, né? Se fosse uma coisa
maiorzinha, que pesa mais, aí tem que ser tudo ancorado no cinto, e levar.
Ayrton Costa: É porque tava perto ali, mas... é... essas ferramentas andam tudo aqui,
ó. Ando com ela na mão não. É tudo... tudo...
Pesquisador: tem local pra prender elas?
Geral: tem, mosquetão...

Existem divergências entre os profissionais sobre o que fazer com a ferramenta. Um


deles que segue um procedimento indicado pela empresa explicita que eles sempre devem
caminhar com as ferramentas em seus cintos; essa instrução tem como objetivo facilitar o
transporte das ferramentas e também fazer com que os trabalhadores fiquem sempre com as
duas mãos livres; em caso de emergência ou queda, isso poderia ajudá-los a não se
machucarem.

Além de estarem no cinto, algumas ferramentas ficam presas a ele por meio de um tipo
de cordelete (corda) a fim evitar que elas possam cair; nesse tipo de trabalho existem
atividades que são feitas de forma sobreposta: ferramentas que venham a cair podem acabar
machucando outros profissionais que estejam na parte inferior.

Já do ponto de vista de um dos alpinistas, é uma ferramenta pequena e não merece a


mesma atenção, por isso não necessitaria ficar presa ao cinto. A resposta de Ayrton vem de
maneira mais veemente; ele indica a cintura como se estivesse de cinto e fala “essas
ferramentas andam tudo aqui, ó”. A resposta parece apontar para algo de que não se deve
abrir mão, algo que é importante para ele. Ayrton é um profissional novo na empresa (dois
meses), mas sinaliza esse item com muita veemência; existe algo na sua experiência que não
foi explorado durante a discussão que faz com que ele lhe dê tanta importância a essa ação.

Essas foram as principais discussões durante a observação do vídeo. Depois disso


fizemos o fechamento de todas as ações em um quadro.

As principais ações levantadas como oportunidade de melhoria na atividade foram


apenas quatro:

1) inserir um mosquetão no olhal;

2) inserir placa entre a catraca e a porca no tirante;


149

3) fazer uma extensão da alavanca da catraca;

4) adicionar uma porca à catraca, fazendo uma espécie de kit para que sempre se
tenha a porca quando necessário.

Em seguida, fizemos um agradecimento e conversamos sobre o que eles acharam da


nossa conversa. Um dos alpinistas concluiu focando-se nas ações que foram levantadas; no
entendimento desse profissional, existe uma sinalização de que as melhorias poderiam ajudar
na atividade:

José Mauricio: ah, eu acho que a atividade toda, o negócio, é só... acho que se
acertar essas coisas que a gente colocou aí, eu acho que vai ficar, melhorar mais,
100%.

Despedimo-nos e quando estavam saindo um deles formulou uma frase que acabou
chamando a atenção, mas ela também só foi notada no momento de transcrição da entrevista:
Felipe Souza: desculpa aí, se a gente falou demais, tá? [risos].

A frase é simples e pode ser usada em diversos contextos, no entanto deixou algo para
o pesquisador pensar: os profissionais, apesar de terem iniciado mais acanhados nas
discussões, no decorrer do diálogo foram ficando mais à vontade para participarem.

Se formos pensar em termos de tempo, todos, com exceção do profissional de


segurança da mineradora, falaram na mesma proporção.

Depois eles foram dispensados da sala, ficando apenas o técnico de segurança do


projeto e da mineradora. Foi um momento importante, em que conversamos sobre suas
principais percepções em relação às nossas discussões.

Fernanda forneceu duas informações importantes:

Fernanda Souza: (...) Então, às vezes a gente não ouve essas pessoas. Que sabem
como é que faz, sabe o quê que faz, né. Percebe algo que a gente não percebe.

O que o trabalho buscou foi conhecer melhor, de alguma forma, a atividade de


esticamento de cabo de aço e ter acesso a algumas informações que estão no trabalho real,
contribuindo assim para essa investigação e análise do acidente:

Fernanda Souza: (...) E aí a gente pode ter uma visão diferente do que a gente tá
acostumado. Porque em uma investigação de acidentes, a gente acaba ficando
150

muito... fechado. Eu só ouço o acidentado, o encarregado, talvez o companheiro, o...


supervisor, só. Então, essas pessoas, às vezes não são ouvidas e a opinião delas, ou
as ideias delas.

As investigações de acidentes são momentos de muito desconforto para todos os


participantes, principalmente o profissional que acaba se acidentando.

Em sua fala, Fernanda sinaliza elementos da construção da culpa do trabalhador no


acidente:

Fernanda Souza: (...) quando ele voltar, que eles deram uma folga pra ele, porque ele
tá, emocionalmente abalado, ele, reclamou, que os meninos ficaram chateados,
porque, quando tem um acidente, ou uma ocorrência dessa, eles perdem o prêmio
deles, de segurança. E aí, eles são punidos. E aí, ele tá chateado com isso, aí o
Anthony deu uma folga pra ele.

Quando Fernanda está se referindo a “emocionalmente abalado”, está apontando


elementos de um trabalhador que está sofrendo. Ele sofre pela punição a que seus colegas
estão expostos; o prêmio, no caso, é dado em dinheiro.

Numa conversa em particular com Robson depois das discussões, ele fala um pouco
das possibilidades do que foi conversado e já começa a pensar no sentido da prevenção:

Robson Souza: (...) Eu tenho uma atividade que eu tenho uma dúvida, eu vou ali,
pego a minha maquininha, filmo, e aí a gente pode bater um papo, futuramente, e
filmar uma outra atividade, não esperar chegar uma ocorrência, porque eu acho que
nós temos outros erros aí.

A discussão em grupo com os trabalhadores foi importante e sinalizou alguns novos


caminhos que deveriam ser trilhados na pesquisa. Assim, depois retornamos a área de projeto
para buscar mais informações, mais documentos e realizar entrevistas com outros
profissionais. Nesse momento, já com uma análise das atividades dos alpinistas, as entrevistas
foram mais direcionadas.
151

7 ANÁLISE DE DADOS

Para o tratamento dos dados, inspiramo-nos nos princípios que fundamentam a análise
de conteúdo (BARDIN, 1977). Para tanto, foi nossa intenção realizar um processo mais
básico de categorização, depois de efetuar a transcrição das entrevistas e a digitação das
informações do diário de campo. A semântica foi o critério que escolhemos para
categorização, com o objetivo de realizar uma codificação por macrotemas.

O segundo movimento analítico apresenta as principais discussões e elementos


emergentes na discussão em grupo com os alpinistas, mostrando as possíveis articulações com
as concepções de acidentes de trabalho e com alguns conceitos e direcionadores das clínicas
do trabalho.

7.1 Conhecimento dos trabalhadores

Um dos pontos importantes identificados na discussão em grupo refere-se ao


conhecimento dos trabalhadores. Podemos ver em alguns trechos que os alpinistas explicitam
o conhecimento de sua atividade, que não está na ordem da prescrição. Na Ergologia se
comenta a prevenção prescrita, que pode ser entendida como o estabelecimento de normas,
regras e procedimentos visando construir a prevenção de acidentes para os trabalhadores, mas
essa prevenção está construída apenas no polo do saber constituído, aquele que pertence as
normas (SCHWARTZ, 1999; TRINQUET, 2010).

O que aparece na fala dos trabalhadores são elementos que estão no nível dos saberes
investidos, o que está relacionado com a experiência prática, que recria os conhecimentos
naquilo que o trabalhador aprende e reaprende:

Felipe Souza: Na realidade, é, já tem as cordas já, de acesso, de descida e subida.


E... um exemplo, se eu for... tô numa corda, e quero passar para outra que está do
outro lado, eu me comunico com alguém lá de cima, e pergunto, "essa corda tá
ancorada?", mas com a minha, eu pergunto e ele me responde "tá, pode subir", aí a
gente sobe. Porque a gente não pode pegar uma corda e botar os equipamentos e
subir sem saber se tá... ancorada lá em cima. Por isso que nós pergunta (Grifo
nosso).
Ayrton Costa: A área. Mas nesse caso aí, a área é todinha arriscada. Mas o que corre
mais risco, é o pessoal que trabalha embaixo da tela, no desmonte. Que ali é onde
pode cair uma pedra, uma corda, pode cortar, você tem que estar sempre atento ali
onde está as corda, pra ver se não tem como cair pedra em cima, se puder muito,
deixar a corda mais alta um pouco, é melhor, do que você deixar ela mais
encostada na tela . Porque vem alguma pedra, escorregar um pouco por baixo, não
152

pega as corda. Porque é um pouco alto né? Aï você tem que ficar sempre atento...
(Grifo nosso).

Os alpinistas desenvolveram, em sua prática de trabalho, situações específicas para a


prevenção de acidentes. A corda é o que mantém esses trabalhadores seguros, é sua linha de
vida, o que os mantém de alguma forma em segurança durante a sua atividade, mas as cordas
são compartilhadas: vários trabalhadores, ao longo do dia, usam essas cordas. O ato de checar
se está presa não está no nível de prevenção prescrita, não é formalizado pela empresa.

Ayrton também relata a prática de deixar a corda mais alta para evitar que seja cortada
pelo tipo de rocha existente no local. No início das atividades, essa situação não foi prevista
no projeto, embora o itabirito, que é a principal rocha encontrada no talude, seja altamente
cortante devido à sua concentração de minério de ferro.

A prevenção para a Ergologia passa por uma gestão desses dois tipos de
conhecimento: “Se quisermos gerir inteligentemente a segurança, é preciso fazer dialogar
esses dois registros” (SCHWARTZ, 1999, p. 45). Dessas conversas é que podem surgir novas
apropriações, pois afinal o trabalho está sempre no campo da produção de novas normas, de
renormalizações (TRINQUET, 2010).

A discussão em grupo sobre o acidente possibilita que esse diálogo possa fluir e que
esses elementos possam ser incorporados à atividade em que ele aconteceu, ou mesmo, em
certa medida, na atividade de todos os alpinistas.

Em uma linha de trabalho abordada pela FHOS (Fatores Humanos Organizacionais de


Segurança Industrial), é demonstrado que a segurança industrial e a segurança do trabalho são
complementares, tendo interlocuções importantes uma com a outra. A FHOS irá abordar o
fato de que devemos reconhecer o papel humano na prevenção de acidentes, saindo do
paradigma clássico do “erro humano”. A segurança industrial busca sair desse paradigma
baseando-se em uma articulação de dois polos, um com uma característica descendente (Top
Down), voltada para definição de objetivos da gestão para os empregados, outra ascendente
(Botton Up), onde se tem um retorno das informações da realidade prática do trabalho real
para alimentar as formações de políticas de segurança e prevenção de acidentes entre os
executantes das atividades. Esse retorno viria também para a organização, através de uma
análise dos incidentes e acidentes. É o momento de alimentar a organização com novas
informações sobre as atividades (DANIELLOU; SIMARD; BOISSIÈRES, 2013).
153

Um ponto que aparece na discussão com os alpinistas, de forma mais explicita, na


pergunta de um deles ao pesquisador, está relacionado com uma verificação de seu
conhecimento técnico ou do lugar em que se encontra, nos polos ascendente/descendente:

Pesquisador: O que mais que pode dar errado, lá naquela atividade? quando vocês
estão fazendo ela?
Ayrton Costa: O que mais pode dar errado lá, na esticação do cabo? Apertar os
parafusos também.
Paulo César: Você é entendista lá? Você é especialista lá, né? Tem mais coisas, pra
dar errado? [risos entre os entrevistados]. (Grifo nosso).

Essa pergunta é feita pelo profissional enquanto um colega dele falava. O “entendista”
estaria relacionado com o conhecimento técnico - ele complementa: “Você é especialista?”. O
papel que o trabalho da pesquisa ocupa, nesse momento, é o de conhecer as informações que
estão na prática. Isso não é comum, não é normal esse tipo de trabalho nas empresas. Na
maioria das vezes as informações da segurança no trabalho surgem apenas no formato
descendente (Top Down), especialmente na relação da empresa contratada com a mineradora.
A prática comum da mineradora é que ela possui o seu sistema de gestão de segurança, com
suas ferramentas e formas de fazer prevenção, inclusive de investigar os acidentes, porém não
existe um exercício comum de trazer as informações ascendente (Botton Up). O sentido
ascendente está relacionado também com a empresa que faz a contratação para execução do
projeto. O papel do pesquisador nesse momento é o de facilitar essa troca de informações,
mas para isso o trabalhador parece querer checar se será um especialista, alguém que trará
esse conhecimento descendente, principalmente por ser também um empregado da empresa
mineradora. Quando se tem a resposta de que ele não é especialista é que os profissionais
começam a se envolver mais nas discussões:

Fernanda Alves: Ele é psicólogo. Ele não conhece da nossa atividade.


Paulo César: Ah, achei que ele era profissional na área. (Grifo nosso).

Eles parecem perceber que o pesquisador não é um técnico que vai representar o
conhecimento descendente e reproduzir o padrão de lhes ensinar algo, mas sim alguém que
está tentando ocupar um papel intermediário entre esses dois polos. Depois desse momento, a
discussão com os profissionais passa a ser mais produtiva e participativa, começam a surgir
sugestões de medidas para eliminação e controle dos riscos envolvidos nessa atividade.
154

O surgimento do conhecimento dentro das organizações passa por um processo


histórico que, através das interações do conhecimento tácito e do conhecimento explícito,
passa a se estruturar nos coletivos de trabalho. O conhecimento tácito está na ordem das
experiências, dos conhecimentos específicos, das habilidades pessoais e de algum tipo de
particularidade individual; já o conhecimento explícito pode ser entendido como aquelas
informações formais e sistemáticas, como os manuais e os procedimentos, que estão na ordem
da formalização (POPADIUK; SANTOS, 2010).

A chave para a construção do conhecimento nas organizações está na conversão do


conhecimento tácito em conhecimento explícito. Dessa forma, na teoria elaborada por Nonaka
& Takeuchi (2008), denominada Teoria da Criação do Conhecimento Organizacional, o
conhecimento é criado e potencializado por quatro dimensões: socialização, externalização,
combinação e internalização. Esse, na teoria, é o caminho de ampliação do conhecimento, em
que se sai do nível do indivíduo e se consegue caminhar para o nível coletivo.

O modo de criação de conhecimento inicia-se com a socialização, que é aquele que


surge do conhecimento individual, da prática e passa para o individual do outro (são os
encontros informais), o do individual passa para o conhecimento formal, que é o processo de
externalização (criação de conceitos, hipóteses), o conhecimento formal em debate com outro
conhecimento formal (estruturação do conhecimento final), que seria a combinação para o
surgimento de algo novo, e por último o conhecimento formal para o individual, que é
denominado internalização, que marcaria o surgimento do conhecimento operacional. A
estruturação do conhecimento nas organizações inicia-se com a socialização - nas reuniões
informais, em momentos não programados, nos cafés, em discussões amistosas - e passa para
a dimensão da externalização após a de combinação e por último para a da internalização.
Esse processo formaria a espiral da criação do conhecimento (NONAKA; TAKEUCHI,
2008).

O que podemos perceber é que em relação aos alpinistas, principalmente na discussão


sobre a utilização da porca, ela estava em um nível de conhecimento individual (tácito), mas
ainda não tinha passado para um conhecimento formal (explícito). Esse foi um aprendizado
que surgiu no decorrer das atividades do projeto e foi saindo do nível individual e sendo
passado para outros colegas e encarregados, mas não chegou a atingir uma dimensão formal
ou explícita da organização:
155

Ayrton Costa: é importante dizer que toda vez que for executar essa tarefa aí, esse
trabalho, aí, normalmente as porca já tá todas arrochadas, com chave. Não tem mais
como você folgar. Isso, então, na hora que for subir pro canteiro, levar logo uma
porca, ou duas, dependendo do que você vai fazer. Já com você junto do lado,
porque na hora lá, você não acha a porca folgada. Tem que levar uma, já de
reserva, ou duas, ou... o que for usar, pra você colocar lá, porque lá você não vai
encontrar. (Grifo nosso).

O que o trabalhador Ayrton comenta está na ordem do conhecimento individual, é


fruto de seu trabalho real, da experiência com a atividade, mas ainda é um conhecimento
somente dele. A discussão sobre o acidente em grupo facilita que aconteça esse fluxo de
transformação do que está tácito em explicito. Através da socialização do conhecimento na
discussão (individual-individual) se inicia o processo de passagem do individual para o
formal. É o começo da externalização e da formalização desses conhecimentos dos alpinistas.

O trabalho de fazer uma discussão coletiva sobre a atividade na qual tiveram o


acidente possibilitou que surgissem – e a eles tivéssemos acesso – esses conhecimentos
tácitos da atividade desses profissionais, aqueles que são individuais, que estão em níveis
particulares e foram desenvolvidos ao longo da execução de seu trabalho.

Na teoria sociológica dos acidentes existe um campo que deve ser analisado como
causa dos acidentes e que se refere ao âmbito organizacional, mais especificamente em um
item denominado subqualificação. Ela explicita o conhecimento dos trabalhadores sobre as
suas tarefas, visto que a falta dele pode ser uma das causas de acidentes (DWYER, 2006).

No caso do trabalhador que executava a atividade de esticamento do cabo de aço, ele


tinha sido direcionado para a tarefa poucos dias antes e não tinha sido instruído sobre como
executar essa atividade, que deveria ser feita em dupla e estava sendo feita apenas por ele, as
questões em torno da atividade são muitas. A empresa não conseguiu desenvolver estratégias
para transformar o conhecimento dos alpinistas, fazer com que os conhecimentos práticos
deles passassem para conhecimento formal, nos moldes demonstrados por Dwyer (2006),
quando explica sobre a qualificação. Nesse caso, podemos ver que o acidente tem uma relação
com a subqualificação, que o trabalhador não estava devidamente treinado para a tarefa – na
realidade mais do que isso: ele ainda não tivera tempo de ter acesso ao conhecimento tácito da
atividade. Na fala do engenheiro, podemos ver que isso não era incomum:

Ricardo Costa: A gente apreendeu muito junto... a gente não sabia o que estava
fazendo, a gente foi aos poucos aprendendo o que estava fazendo... aqui nunca
teve nada parecido, pra fazer certo a gente trouxe muita gente, foram contratadas
pessoas de fora do país, um dos especialistas veio da França, pra ensinar a operar os
156

equipamentos...tudo que a empresa pode colocar, pra fazer o processo melhor e mais
seguro foi colocado! (Grifo nosso).

Os profissionais da empresa foram conhecendo alguns riscos e particularidades do


projeto somente com a execução. No nível organizacional da teoria sociológica dos acidentes,
Dwyer (2006) aponta ainda um nível denominado desorganização, que pode ser pensado no
sentido de que um empregador não faz uma concepção adequada da tarefa que está para ser
executada. No caso, a atividade de esticamento do cabo de aço foi prevista e para tanto seriam
utilizados os tirantes, mas em sua concepção não foi colocado o risco do escorregamento da
catraca. Isso fica evidente na estruturação da Análise de Risco dessa Tarefa (ART) elaborada
pela empresa. Afinal, como apontado na fala acima, existiam várias coisas que os
profissionais ainda estavam aprendendo.

Em relação ao conhecimento, durante o trabalho com os alpinistas foi possível ter


acesso a outro paradigma. Ele está relacionado com uma relação causal entre segurança e
escolaridade:

Cláudia Santos: Pra gente, é um vitória de ter conseguido transformar pessoas, que
não sabem o que é segurança... que as vezes, tem um nível de instrução muito
baixo...a gente trabalha com pessoas que só tem o primeiro grau, a maioria tem
escolaridade muito baixa, e pra gente transformar, fazer com que essas pessoas
entendam que a segurança é o primordial, não é? Pessoa tem família, sai do
nordeste para ganhar um dinheiro aqui e voltar com uma lesão... voltar com uma
doença, a gente faz ele entender que isso é importante, é muito mais importante que
eles imaginam... (Grifo nosso).

Na fala da profissional parece existir uma concepção de prevenção de acidentes em


que as pessoas que têm menor grau de escolaridade possuem menos conhecimentos sobre a
prevenção de acidentes em seu trabalho. Ela parece apontar que existiria uma correlação entre
escolaridade e capacidade de prevenção de acidentes de trabalho.

A falta ou não de prevenção não está relacionada com a escolaridade, mas com outros
aspectos que vão construir a complexa teia que envolve a prevenção de acidentes. Afinal, ter
estudado menos quer dizer que tenho mais comportamentos inseguros, que me arrisco mais no
trabalho? Ou que os profissionais com menor nível de escolaridade são aqueles que executam
as atividades de risco nas organizações? Um engenheiro, que passa o dia no escritório não
executa as mesmas atividades de risco que um profissional operacional, que passa o dia
trabalhando em altura.
157

7.2 A conexão entre os acidentes

Na teoria dos acidentes organizacionais há uma linha de reflexão que está pautada na
existência de ecos de um acidente em outro. Ao fazer um estudo do acidente que aconteceu
com as naves espaciais Challenger (1986) e Columbia (2003), principalmente com
informações de uma funcionária, que participou dos dois projetos, a teoria organizacional dos
acidentes aponta que houve “ecos” do acidente de 1986 no de 2003. Assim, houve pontos em
comum, situações parecidas ou repetidas e até mesmo decisões que foram tomadas de um
acidente que vão impactar no surgimento de outro no futuro (LLORY, 2013).

No projeto estudado, relatamos os três acidentes mais significativos que aconteceram.


Esses acidentes também apresentam alguns “ecos” entre si. Em mineração, o processo de
fechamento de mina é algo ainda recente; as empresas estão aprendendo como fazer, quais
metodologias utilizar, e essa situação não é diferente para a mineradora onde realizamos o
estudo. Desde o seu início, o projeto era um desafio para todos envolvidos desde a sua
concepção, como enfatiza um dos engenheiros:

Ricardo Costa: Essa obra é única no Brasil, nós fomos aprendemos com a
execução, era no dia-a-dia, apesar de termos investido em todos equipamentos e
técnicas, tinha coisas que não dava pra prever... (Grifo nosso).

O primeiro acidente que aconteceu foi o do desplacamento do talude, vindo a


machucar dois profissionais, por isso a empresa teve de alterar a sua metodologia construtiva.
Assim, passou a ser necessário inserir mais uma tela, que anteriormente não estava prevista
nos projetos. A inserção da tela visava diminuir o risco de que acidentes parecidos voltassem
a ocorrer. Além dessa mudança, surgiu uma nova regra sobre o trabalho: os profissionais não
mais poderiam trabalhar em locais abaixo da tela. O objetivo era eliminar situações parecidas
com a do acidente, que pudessem expor os profissionais ao deslocamento de massas de
rochas. Com a inserção das novas telas e a mudança nos procedimentos de trabalho, o tempo
de execução de instalação das telas foi dilatado, os profissionais passavam mais tempo
entregues a essa atividade e naturalmente tal situação causou um atraso no cronograma da
obra. A instalação de telas virou um dos “gargalos” do projeto, uma das situações críticas. A
obra estava prevista inicialmente para ser feita em dois anos e acabou sendo executada em
três.
158

Com o atraso da obra, a empresa estava sendo cobrada, principalmente em relação ao


prazo de execução, e por isso precisou aumentar a quantidade de profissionais. Esse aumento
visava diminuir o atraso, e assim se iniciou o processo de retirada de alguns profissionais de
outros contratos para aumento do efetivo.

O aumento do tempo na execução da atividade fez com que a empresa precisasse de


mais funcionários nessa atividade, e assim o efetivo foi sendo cada vez mais direcionado para
essa frente de atuação.

Se pensarmos na proposta da Análise Organizacional de Acidentes, o acidente não


nasce de um deslizamento da catraca em direção ao profissional, ele tem “ecos” do acidente
anterior. Se investigarmos mais um pouco, veremos que esse acidente tem “ecos” mais
anteriores. O projeto era novo, ninguém sabia dos riscos que os profissionais podiam correr,
tinham que aprender com o passar do tempo. As empresas de mineração que, ao longo de
muitos anos, desenvolveram sua expertise na abertura de novas minas aprenderam a abrir as
minas e a produzir minérios aproveitando-se de toda a sua expertise, diminuindo custos e
melhorando seus processos. No entanto, no que se refere ao fechamento das minas, esse
assunto foi e ainda é pouco explorado. Até mesmo em manuais de engenharia de minas há
poucas referências a esse assunto (IBRAM, 2013).

Em seu trabalho sobre os acidentes industriais, Llory (2001), comentando o trabalho


dos engenheiros ou gerentes, afirma que “os executivos (gerentes, especialistas, engenheiros,
responsáveis pela concepção dos projetos) têm um papel determinante na segurança e na
gênese dos acidentes” (LLORY, 2001, p. 300). Segundo o autor, o trabalho dos operários já
vem sendo estudado e dissecado há muitos anos, mas ainda temos poucos estudos sobre o
trabalho dos executivos e dos projetistas, o que os leva a tomar determinadas decisões que os
influenciam o no sentido de tomar o caminho A em detrimento de B. Para o autor, entender o
trabalho desses profissionais é algo que vai possibilitar uma diminuição significativa dos
acidentes. Um ponto importante é que a abordagem dos acidentes organizacionais está voltada
para o que se chama de grandes acidentes. Entendemos que essas reflexões podem contribuir
também para o estudo dos pequenos acidentes.

As decisões dos executivos da mineradora, sua falta de expertise em relação ao


processo de fechamento de mina, a concepção do projeto, a forma de execução e as pressões
para entrega “ecoam” de certa forma pelo tempo e terminam naquele profissional que exercia
a atividade de esticamento de cabo de aço sem o devido treinamento, sendo deixado sozinho
159

pelo encarregado, pois ele precisava de mais gente em outras frentes. Mas essa era uma
atividade para ser exercida em dupla.

Ao executar essa atividade sozinho, o encarregado conseguiria instalar mais telas e


assim mais áreas seriam liberadas para outras atividades. Esse era um dos “gargalos”
causadores de atraso no projeto.

Em nossa sociedade moderna existem tecnologias de alto risco. À medida que essas
tecnologias se expandem, elas acabam por ser introduzidas nas organizações e fazem com que
surjam mais risco para os operadores, os usuários e até as comunidades. À medida que essas
novas tecnologias nascem, não estão necessariamente preocupadas com itens relacionados
com segurança; esse aspecto surge somente depois de sua utilização (PERROW, 1999).

No caso desse projeto, as evoluções também foram significativas. Existiam situações e


novas tecnologias que os profissionais ainda não sabiam como conduzir:

Ricardo Costa: Muita coisa, com o andar da obra que a gente foi descobrindo, por
exemplo a escavadeira... ela é um equipamento que veio da Suíça, tem um guincho
de segurança, tem capacidade de trabalhar em uma inclinação de 70° graus... isso
previsto no manual do equipamento... quando ela chegou aqui, a gente viu a
necessidade de instalar, outros pontos de segurança, então foi instalado no
equipamentos mais outros dois pontos, ela trabalhava sempre com três pontos de
ancoragem, então isso foi desenvolvido pela obra, o fabricante não via necessidade...
mas aqui, pela obra, a gente viu a necessidade... então foi instalado (grifo nosso).

As tecnologias e suas evoluções também acabam por gerar mais riscos. Nesse caso,
temos um equipamento que é uma escavadeira que consegue trabalhar em um plano inclinado,
coisa que em um passado recente era impensável. No entanto, a tecnologia evoluiu no sentido
de aumentar a produção, e a escavadeira consegue retirar o material em um local impensável
no passado, em um terreno muito acidentado e inclinado. Mas essa evolução não caminha da
mesma forma ou no mesmo ritmo em termos de segurança para os trabalhadores.

As próprias equipes do projeto desenvolveram mais dois guinchos. Segundo eles,


quando viram a operação do equipamento não entenderam que ela teria a segurança adequada,
como afirmava o fabricante.

A Abordagem Organizacional dos Acidentes demonstra o que ela vai chamar de


Degradação do Sistema de Segurança. Ao mesmo tempo que temos um sistema de prevenção
de acidentes sólido, essa situação pode acabar mudando rapidamente nas empresas, e isso
pode acontecer por questões de mercado, de mudanças organizacionais, de gestão, de
160

processos de produção, de cortes em orçamentos e de pessoal, entre outras (LLORY;


MONTMAYEUL, 2014).

Assim, o pessoal do campo, em última análise, “coloca o dedo” no estado de


degradação do sistema, porque esta marca fortemente a sua vivência no trabalho (LLORY;
MONTMAYEUL, 2014, p. 53).

E pressões de diversos tipos vão degradando o sistema de segurança. No caso do


projeto, podemos ver alguns sinais dessa degradação do sistema de segurança, e essa
discussão nos remete a uma crise no mercado de mineração.

As mineradoras, desde o ano 2000 até por volta do ano de 2015, viveram o que é
denominado um período de superciclo das commodities. Entre os anos de 2003 até 2008 as
commodities tiveram um aumento real de 75%. A China, a Índia e economias emergentes
tiveram um rápido desenvolvimento e urbanização durante esse período, fazendo com que se
tivesse esse aumento da demanda de forma tão significativa, principalmente nos metais
(ERTEN; OCAMPO, 2012).

No entanto, no final de 2014 e início de 2015 se começou a perceber uma queda


significativa dessa demanda, com a consequente queda nos preços dos minerais, o que levou
as empresas de mineração a passar por grandes reajustes, focando-se na redução de custos. No
caso da mineradora em que foi realizado o estudo não foi diferente, e uma das primeiras
medidas de redução de custos foi direcionada para área de projetos, principalmente os
projetos de Sustaining.

A crise das commodities encontra-se com o projeto de manutenção da cava, pois a


obra não um projeto de aumento de capacidade ou de melhoria de produção para a empresa, e
assim não é considerado prioritário. Uma das primeiras medidas que impactaram o projeto foi
uma diminuição acentuada dos profissionais que faziam o gerenciamento da empresa
contratada.

Essa empresa foi contratada para auxiliar a mineradora na gestão do projeto em termos
construtivos e inclusive de segurança ocupacional. A empresa de gerenciamento passou por
uma intensa restruturação, principalmente dos profissionais de segurança no gerenciamento.
O gerenciamento anteriormente contava com três profissionais de segurança ocupacional
designados para o projeto; porém, devido à redução, eles foram todos retirados do contrato e a
mineradora passou a fazer o gerenciamento de segurança apenas com profissionais próprios.
161

No entanto, eles tinham de acompanhar no mínimo mais dez obras cada um, ao contrário da
prática anterior, que tinha alguns profissionais alocados apenas nesse projeto.

Além disso, a própria empresa do projeto também passou por uma restruturação do
seu corpo de segurança, devido a uma demanda da contratante para redução dos custos do
projeto:

Cláudia Santos: No início do contrato foram 5 técnicos, 1 médico e 1 enfermeiro..., e


o técnico de enfermagem, depois passou por uma redução e ficou com 4 técnicos o
médico e o enfermeiro...no período final, foram 2 técnicos de segurança, e uma
enfermeira, 1 engenheiro de planejamento... (Grifo nosso).

Ao longo do projeto os profissionais de segurança foram diminuindo, principalmente


porque, à medida que a complexidade da execução aumentava, o número de atividades
simultâneas e de profissionais aumentava significativamente com o decorrer do projeto, o
mesmo acontecendo, consequentemente, com os riscos. Nesse contexto se inicia um
movimento de diminuição da quantidade de profissionais de segurança. Não cabe aqui a
discussão sobre se a presença de profissionais de segurança tem necessariamente relação
direta com a prevenção de acidentes. Nessa linha poderíamos seguir por discussões mais
profundas, principalmente a temática de cultura de segurança (vigilância e controle) (MELIÁ,
1999). O que podemos constatar é que o maior número de acidentes registrados no projeto
aconteceu no ano de 2015, quando se evidencia esse movimento de saída dos profissionais de
segurança ocupacional.

Llory & Montmayeul (2014) irão apresentar o conceito de Fator Organizacional


Patogênico, conceito que sintetiza algumas informações referentes à cultura de segurança.
Insuficiência do retorno da experiência dos trabalhadores, fragilidade dos organismos de
controle e ausência de atualizações e estudos dos riscos são alguns dos indicadores
encontrados na maioria dos acidentes estudados pelos pesquisadores. Isso demostra que,
devido a pressões por produção ou redução de custos e à complexidade organizacional,
podem haver perda na organização de informações importantes para a prevenção de acidentes.

A que poderia ser colocada no tirante pode ser um desses casos de informação perdida
pela empresa. Em um cenário de pressão para acertar o cronograma do projeto, de diminuição
de efetivos, de corte de custos com a equipe de segurança ocupacional, a prevenção poderia
estar passando por um processo de deterioração.
162

Aqui podemos fazer uma reflexão, ainda com Llory, sobre aquilo que alguns chamam
de reengenharia:

Todos nós poderíamos nos felicitar com esses ganhos de produtividade, de tempo,
com essas economias orçamentárias e com essa otimização dos efetivos que os
anglo-saxões batizaram – com seu senso da fórmula – “reengenharia” e que
corresponde sempre a uma redução mais ou menos drástica dos postos de trabalho e
de empregados disponíveis para efetuar o trabalho (LLORY; MONTMAYEUL,
2014, p. 47).

7.3 Práticas de Saúde e Des(saúde) Ocupacional

Um ponto que chamou a atenção na pesquisa sobre a atividade dos alpinistas está
relacionado com algumas informações da área de saúde do projeto. No registro oficial
realizado consta que foram apenas seis acidentes durante todo o período de execução do
projeto. Mas uma situação específica chama a atenção: a profissional responsável pelo setor,
quando relata que houve casos de profissionais que precisaram realizar cirurgia nos punhos e
nos joelhos. Ela relata ainda que fizeram um estudo para verificação da correlação com o
trabalho. Os próprios trabalhadores relatam esse item:

Felipe Souza: É, dá um... né, você vai... você escorrega né? que a tela é lisa né...
José Maurício: Isso é normal do dia-a-dia, você escorregar. Mas você tá clipado,
entendeu (grifo nosso)..

Esse ponto chama a atenção porque o terreno no qual os profissionais trabalhavam era
muito irregular. Percebe-se que a empresa e os profissionais conheciam os possíveis riscos de
lesões ocasionados por escorregões no talude, além de possíveis torções, fraturas, etc.

No entanto, essas não são lesões que aparecem necessariamente após um dia de
trabalho. Em algumas situações elas se acumulam ao longo de meses e é a sua repetição que
causa os danos finais:

Cláudia Santos: A gente teve um número, pra gente, considerável de pessoas que
tiveram problemas de tornozelo, joelho, então tivemos gente que operou o joelho,
operou o tornozelo, tivemos três pessoas com um problema no osso aqui da mão,ó...
teve que fazer cirurgia no punho, e ai a gente fez um estudo com o médico. Igual
essas pessoas que tiveram lesão no punho, eles relataram pra gente, que as vezes, tá
no talude e escorrega e apoia a mão... então isso provocava uma lesão, nesse osso
aqui que chama de rádio, três pessoas tiveram o mesmo tipo de lesão, e ai pelo
report deles e que as vezes agente apoia a mão... escorrega e eu vou arrumar o corpo,
estou desequilibrado, então o primeiro apoio é a mão (grifo nosso).
163

Como podemos ver, houve um esforço da empresa para identificar a situação. De certo
modo a empresa percebe que essas ocorrências estão relacionadas com o trabalho, porém nos
registros oficias essas informações não são relatadas.

O fato de os profissionais, ao longo do tempo, trabalharem no talude e apresentarem


problemas nos punhos e nos pés também não pode ser considerado um acidente de trabalho?
Afinal, eles não se configuram como lesões?

Se pensarmos na definição de acidentes, comumente explicitada como um evento


inesperado e quase sempre indesejável que causa danos pessoais, materiais, os danos causados
nos Alpinistas não se encaixam nessa descrição. Não temos evidência sobre como foi
realizado o estudo de nexo entre essa necessidade de cirurgia e o trabalho, mas a um primeiro
olhar parece que a empresa, apesar do esforço para identificar a situação, não apresenta a
mesma energia na sua solução e na construção do nexo.

As práticas de saúde da empresa não estão voltadas para a manutenção da saúde dos
trabalhadores, mas sim para tornar os profissionais mais produtivos. Podemos ver como
exemplo dessa situação as campanhas de vacinação contra a gripe, que a profissional
responsável pelo setor de saúde comenta. O objetivo era diminuir ou evitar o absenteísmo dos
trabalhadores. A prática não é voltada para a melhoria das condições de saúde:

Cláudia Santos: Durante a obra fizemos três campanhas de vacinação de gripe, essa
turma nossa vem de um lugar quente, né? E aqui é muito frio... então a gente fez três
campanhas, de vacinação, então não tinha essa questão de adoecer por causa
disso, o pessoal ficou mais produtivo... (Grifo nosso).

A prática de saúde está direcionada para atender a empresa e tornar os profissionais


mais “produtivos”. Não existe uma preocupação com a saúde integral desses profissionais.

Uma ação da área de saúde que merece atenção refere-se ao uso do etilômetro para
testagem dos profissionais. Essa é uma prática da mineradora a que as empresas prestadoras
de serviço costumam aderir, principalmente nos setores de projetos. A proposta do programa
de prevenção do uso de álcool da contratada é criar alternativas para identificação dessa
doença e atuar de forma assistencial com os empregados. Mas não é isso que acontece na
prática, como podemos ver no posicionamento abaixo.

Percebe-se que o modelo adotado é punitivo para os profissionais que apresentam


“desvios”. Todos os que tiveram desvios durante o período do projeto foram desligados da
164

empresa, os motoristas devido à sua atividade: a empresa entendia que não se poderia ter
tolerância com esses profissionais e com o profissional reincidente. Nota-se que a estratégia é
de exclusão, e não de tratamento para os profissionais:

Moacir Junior: (...) fazia etiloteste toda semana, não tem feito devido estar
estragado, todos os motoristas faziam diariamente... dois casos de motorista... de
ônibus... e um caso no início da obra do motorista do munck, um carpinteiro, era
reincidente, por causa de bebida (grifo nosso).

Novamente, a prática de saúde não parece ser direcionada para manutenção da saúde
dos profissionais, mas sim uma prática de exclusão. Um dos pontos abordados sobre os
motoristas é que eles teriam uma atividade de risco alto por transportarem pessoas, e por isso
a empresa não poderia se arriscar a mantê-los no projeto. A estratégia parece estar mais
voltada para se livrar do problema, do “mal”, do que efetivamente para construir alternativas
que possam contribuir para a saúde dos trabalhadores.

7.4 Práticas de reconhecimento e punição

A prática de reconhecimento pela empresa também chama a atenção, principalmente


pelo seu vínculo com os acidentes de trabalho. Nesse caso, os trabalhadores perdem o seu
prêmio, uma bonificação em dinheiro devido ao acidente. Esse tipo de prática tende a
enfraquecer o coletivo de trabalho, uma vez que a culpa da perda da quantia financeira fica
direcionada para o profissional que se acidenta: ele se torna o único responsável pelo fato:

Fernanda Souza: (...)quando ele voltar, que eles deram uma folga pra ele, porque ele
tá, emocionalmente abalado, ele, reclamou, que os meninos ficaram chateados,
porque, quando tem um acidente, ou uma ocorrência dessa, eles perdem o prêmio
deles, de segurança. E aí, eles são punidos. E aí, ele tá chateado com isso, aí o
Anthony deu uma folga pra ele (grifo nosso).

O reconhecimento pela empresa e essa prática de premiação por não ter acidentes
surgem justamente de um acidente. Em uma das investigações de acidentes surge uma ação
que é justamente incluir itens de segurança na avaliação dos profissionais, juntamente com
itens relacionados com a produtividade e a qualidade do trabalho. A produtividade está
relacionada, por exemplo, com a quantidade de furos que são feitos por dia ou com a
quantidade de esticamentos de cabos de aço. Em relação à qualidade está relacionada com
seguir o planejamento corretamente, seguir as marcações indicadas pelo planejamento. Em
165

segurança a empresa tem o hábito de indicar os destaques e também de retirar a bonificação


em casos de acidente:

Cláudia Santos: Todo o mês a gente tem os destaques em segurança, e não só a


segurança avalia, mas também o encarregado, durante o mês ele dá as notas, durante
o mês ele tem uma planilha com todo mundo da equipe dele, ai ele da nota pro
funcionário dele em segurança, qualidade e produtividade... ai no final do mês é
escolhido os destaques, recebem de todos os encarregados e tiram dentro daqueles
que os encarregados escolheram como destaque... quais são os destaques de
segurança. Todo mês tem, e ele recebe um bônus, no salário, teve época em que
comprava um tablet, presente roupa, sapato, mas agora ele recebe no salário, é uma
bonificação (Grifo nosso).

Com relação à prática de remunerar os trabalhadores utilizando incentivos financeiros,


existe na literatura indicação de que esse formato de remuneração pode contribuir para que os
profissionais adotem ações que evitem a perca do seu bônus. Em alguns casos, as vítimas
podem deixar de relatar acidentes com o intuito de não perder o incentivo financeiro
(DWYER, 2006).

Outro aspecto negativo desse tipo de premiação por resultados em segurança pode ser
o enfraquecimento dos coletivos de trabalho. A Clínica da Atividade tenta avançar nas
discussões entre o prescrito e o real. Para tanto, ela entende que não existe separação entre
esses dois aspectos – não existe uma dicotômica separando, por exemplo, a tarefa em uma
posição e a atividade em outra. Assim, existe entre o trabalhador e a organização do trabalho
um movimento de recriação; eles não estão em posições somente dicotômicas, mas sim em
posição de recriação, que é realizada pelo coletivo de trabalho (CLOT, 2010).

Fernanda Alves: (...)quando ele voltar, que eles deram uma folga pra ele, porque ele
tá, emocionalmente abalado, ele, reclamou, que os meninos ficaram chateados,
porque, quando tem um acidente, ou uma ocorrência dessa, eles perdem o
prêmio deles, de segurança. E aí, eles são punidos. E aí, ele tá chateado com isso,
aí o Anthony deu uma folga pra ele (grifo nosso).

Na fala da profissional podemos perceber que o profissional não está chateado por ter
se machucado, mas sim pelos colegas, pelo gênero ou coletivo de trabalhadores que são os
alpinistas. A sua ação individual impacta no coletivo. E de certa maneira existe uma
percepção do coletivo em relação ao profissional acidentado:

Paulo César: no caso do acidente aí, é porque foi um imprevisto... foi uma coisa que
ele fez lá, o cara foi mostrar serviço, alguma coisa, porque... devia ter
esperado...devia ter pegado a porca e usado[incompreensível] [várias pessoas
falando ao mesmo tempo]. (Grifo nosso).
166

O profissional sinaliza a culpa para o acidentado. Ele estava na obra há poucos dias,
naturalmente o profissional queria trabalhar, como o encarregado poderia interpretar se ele,
por exemplo, não estivesse trabalhando ou se tivesse recusando-se a realizar alguma
atividade, nesse caso por uma indisponibilidade de porcas, isso se ele realmente soubesse que
deveria utilizá-la na atividade. Como o trabalhador pode recusar a atividade se não existe um
coletivo forte para apoiá-lo? Assim, o gênero de alguma forma também culpa o profissional

Entre a prescrição e o real existe o gênero profissional. Sem o gênero profissional, ou


“obrigações do ofício”, há uma diminuição do poder de ação dos trabalhadores (CLOT,
2010).

Estratégias de premiação dos empregados por segurança e punição de profissionais em


caso de acidentes fazem com de certa forma a tensão para não ter acidentes acabe ficando
maior. Afinal, o profissional que se acidenta prejudica o coletivo. Nenhum profissional,
naturalmente, tem interesse em prejudicar o seu coletivo.

Esse tipo de prática pode levar a um isolamento do profissional, e aqui se torna


importante o que acontece com o profissional logo após o acidente:

Claudia Santos: logo que ele voltou foi transferido pro Rio... lá na região do rio, a
gente tinha algumas obras próximo e ai depois ele não quis ficar mais na
empresa...porque ele não queria sair do estado...e ai as obras foram acabando, tem
muitas obras mas na região aqui de minas...ai ele foi transferido, não quis voltar pra
minas e acabou sendo desligado (grifo nosso).

Essa fala de Claudia surge em um contexto no qual o pesquisador procurava


informações na empresa para entrar em contato com o acidentado. Um aspecto que chama
atenção é a transferência para o Rio na fala da profissional: ela sinaliza que a opção de ficar
por lá foi do alpinista, porém no final da frase o discurso é no sentido de que ele não quis
voltar e acabou sendo demitido.

O fato é que o profissional foi demitido pouco tempo depois do acidente. O que nos
chama atenção nesse momento é a discussão sobre o coletivo: se de alguma forma o
profissional impactou no coletivo, isso pode justificar o fato de ele realmente não querer
voltar para o projeto.
167

Para executar a minha atividade do ponto de vista individual, eu preciso de me ancorar


no gênero: “Sem dúvida, é necessário que o sujeito faça parte de uma comunidade
profissional para que haja ofício” (CLOT, 2010, p. 286).

De certo modo, se o gênero está contra o profissional quando ele é “maltratado”, os


trabalhadores podem deixar de se reconhecerem naquilo que fazem, há uma desestabilização
da atividade e o indivíduo perde a estabilidade para executar aquela atividade: precisa se
mudar, “ir para o Rio” (CLOT, 2010).

Outro ponto que merece atenção está relacionado com as práticas de punição da
empresa, principalmente as voltadas para a demissão dos profissionais. Na correlação com os
acidentes, um dos níveis sobre os quais a teoria sociológica dos acidentes vai se debruçar é
que ela chama de autoritarismo. Em ambientes onde a coletividade não tem expressão pode
aumentar o autoritarismo dos empregadores. Não existe força de expressão ou de
contraposição (DWYER, 2006).

O autoritarismo aparece não apenas no enfraquecimento do grupo mas também nas


formas de políticas de punição, principalmente dos acidentes. Em um acidente relatado, o
profissional acabou caindo de cerca de 27 metros de altura e como consequência foi desligado
pela empresa. O profissional que se acidentou no esticamento do cabo de aço não quis mais
“voltar” para o projeto, ficou alguns meses no Rio e foi desligado:

Claudia Santos: Dois profissionais desligados por trabalho em altura...um rapaz


andou 2 metros para pegar uma ferramenta que tinha caído, o pessoal da
gerenciadora viu e pediu a saída dele... e o menino que caiu e foi o último acidente
(grifo nosso).

Sobre o último acidente, aquele em que o profissional acabou caindo 27 metros do alto
do talude:

Claudia Santos: Ele tava andando aqui em direção a essa arvore...ele tava subindo
aqui...ai chegou um ponto, que ele faltava uns dois metros para ele pegar uma outra
corda...só que, era um pedacinho só de corda, não era uma corda de acesso...ai invés
dele prender na tela...um dos causteios dele, estava preso debaixo de uma
torqueadeira...ele ficou com preguiça de tirar o causteio, por que ele teria a
torqueadeira, ela pesa na faixa de uns 20 kilos. Ele teria que abaixar, ajoelhar, tirar
ela no chão para liberar o causteio...como faltava, então ele decidiu eu vou
andar...só que, no plano inclinado a torqueadeira é muito pesada, então
desequilibrou e rolou... a grande sorte desse menino, é que ele rolou daqui pra cá...
ele rolou onde tinha vegetação, se ele rolasse para cá, ia cair dentro dessa ravena
aqui... e aqui, tem tirantes, que ficam com uma ponta... então, ele teria ou morrido,
cortado bastante a face, a única lesão que teve foi uma fratura no nariz, ai ele foi
desligado pela política de consequência (grifo nosso).
168

O erro do profissional, se é que podemos considerar o fato um “erro”, acaba no


desligamento. A política de consequência é composta por algumas regras que foram relatadas
anteriormente, no entanto essas regras são utilizadas pela empresa apenas em seu benefício e
interesse, quando sente necessidade delas.

O coletivo não é estruturado para se opor à aplicação da política de consequência.


Voltamos ao ponto de Dwyer, sobre o autoritarismo e sua relação com o coletivo não
estruturado.

Os exemplos na discussão em grupo também aparecem. A profissional de segurança


ainda procura justificar o que tinha acontecido, o motivo do desligamento:

Felipe Souza: Aconteceu então um caso que... um... era colega, a pouco tempo que
chegou, ele foi andar desclipado e foi mandado embora, por causa que... tava
botando a vida dele em risco, não só dele, mas as dos colegas, debaixo. Ele tava
andando sem nada, ele não tava clipando, solto, como se estivesse no chão.
Fernanda Alves: porque o talude, a impressão que a gente tem daqui, é que ele é
muito inclinado. Mas quando a gente tá lá, tem alguns locais, que ele é 90 graus.
Então, é plano... a pessoa tem a falsa sensação que dá para ele andar tranquilamente.
Mas se ele tropeçar, a gente... é aquele precipício. Então, eles tão falando que o
rapaz que foi desligado, porque ele estava em um local plano, a ferramenta dele
escorregou, ele se soltou pra ir buscar a ferramenta. Então, ele se soltou, foi pegar a
ferramenta e voltou sem nada. (Grifos nossos).

A punição, em alguns momentos, deixa uma “entrelinha”, como se ela estivesse sendo
feita para a própria segurança dos profissionais que foram desligados do projeto. Sobre o
“álibi” de fazer o bem, acaba se justificando até mesmo pelos próprios colegas (novamente
um coletivo enfraquecido perante o autoritarismo da política de consequência), para quem
esses profissionais devem ser demitidos.

O uso da punição também aparece nos programas de saúde, como o de prevenção do


uso de álcool. No caso, os desvios esses eram punidos com o desligamento da empresa.
Também aqui se percebe a “entrelinha” da aplicação da política de consequência para
preservação da grande maioria dos profissionais e de sua segurança. Os motoristas que
mostrassem “alteração” eram desligados devido ao fato de conduzirem o veículo levando
outros profissionais e colocando a vida deles em risco. Não cabe aqui, do nosso ponto de
vista, uma discussão entre o certo e o errado no resultado do exame dos motoristas, mas sim
problematizar que a ferramenta está voltada para a identificação e punição do profissional,
não no auxilio ou tratamento, se identificada a necessidade.
169

7.5 Organização do Trabalho

As discussões sobre a organização do trabalho e as clínicas do trabalho não são


recentes e perpassam de alguma forma todas as concepções que buscam entender o homem
em seu trabalho. A organização do trabalho, segundo Fleury (1980), é a forma como é
especificado o conteúdo trabalho, os métodos para sua realização, as inter-relações entre os
cargos, de modo a dar suporte a questões organizacionais e tecnológicas, sem deixar de
ressaltar aspectos sociais e individuais.

A precarização do trabalho, a reengenharia e a restruturação produtiva têm como


resultado a exposição a risco dos trabalhadores, principalmente pelo tipo de gestão da
organização do trabalho realizada pelas empresas. Em cenários de precarização, onde não se
tem uma estruturação forte dos coletivos, os trabalhadores tendem a aceitar colocar a sua
segurança e saúde em risco, às vezes com estratégias de monetarização desse risco.

A organização do trabalho aparece em cada item, em cada decisão que a empresa toma
para conseguir produzir. Desde Taylor e a organização científica do trabalho, que pretende
dividir e cientificar o trabalho, organizá-lo, passando posteriormente pelos aspectos
psicológicos e seu impacto no trabalho que surgem com os experimentos em 1927 na Western
Electric, até chegarmos às experiências de grupos semiautônomos na Inglaterra e nos países
escandinavos, mais especificamente na fábrica da Volvo, eles buscam construir uma forma de
fazer com que o trabalhador “produza” mais. (FLEURY, 1980)

As discussões sobre organização do trabalho continuam a evoluir, e podemos recorrer


às concepções levantadas pela psicodinâmica do trabalho. Segundo Dejours, Dessors e
Desriaux (1993), a organização do trabalho está relacionada em certa medida com a divisão
das tarefas, com o seu conteúdo, com a forma como o trabalho é realizado, com os ritmos que
são impostos ao seu modo operatório. Uma segunda linha de ação da organização do trabalho
se direciona para as hierarquias, para as supervisões e as ordens que são dadas aos
trabalhadores. A organização do trabalho envolve o que é da tarefa e o que é das relações
humanas. A pauta de estudo da psicodinâmica se volta para a relação entre o processo de
subjetivação e a organização do trabalho, que desembocam na forma de agir, de pensar e de
sentir, assim como na estruturação dos coletivos.
170

O coletivo aparece não apenas na questão do gênero de CLOT (2010) mas também
quando pensamos na dependência entre os trabalhadores: cada atividade no projeto dependia
da atividade do outro. São trabalhos conectados para o fim, que era a manutenção na cava.

Cada etapa, como a limpeza da área, a perfuração, a instalação da tela, o fechamento


do sistema, era conectada, coletiva: era necessário que uma terminasse para que a outra se
iniciasse.

A comunicação, segundo Ferreira e Iguti (2004), é uma das bases de estruturação


desse coletivo no ambiente petroleiro. O trabalho dos petroleiros, o aspecto coletivo da
atividade, assume uma característica de malha, onde uma série de comunicações se
entrecruza. Na atividade dos alpinistas a comunicação não é diferente: você tem um cenário
com diversos profissionais exercendo diferentes atividades, profissionais a uma distância
razoável um do outro, que precisam de seus rádios para se comunicarem; além disso a
presença de helicópteros provoca um ruído significativo.

Assim, os profissionais possuem a sua linguagem, seus momentos de comunicação,


principalmente para manutenção de sua segurança:

Felipe Souza: Na realidade, é, já tem as cordas já, de acesso, de descida e subida.


E... um exemplo, se eu for... tô numa corda, e quero passar para outra que está
do outro lado, eu me comunico com alguém lá de cima, e pergunto, "essa corda
tá ancorada?", mas com a minha, eu pergunto e ele me responde "tá, pode
subir", aí a gente sobe. Porque a gente não pode pegar uma corda e botar os
equipamentos e subir sem saber se tá... ancorada lá em cima. Por isso que nós
pergunta. Se for passar de uma corda para a outra nós pergunta (grifo nosso).

As concepções de trabalho, diferentes em sua gênese, também aparecem na discussão


do grupo: de um lado a Técnica de Segurança balizando-se nos seus parâmetros técnicos; de
outro os alpinistas baseando-se no conhecimento tácito, no conhecimento real da atividade. A
incoerência e a complementariedade aparecem em uma discussão sobre a possibilidade de
rompimento do cabo de aço: os alpinistas entendem isso com um risco, baseados no
conhecimento tácito; já a profissional de segurança o entende do ponto de vista técnico –
desse ponto de vista, ele não poderia romper-se.

No final de sua fala, os profissionais riem; o riso pode ser no sentido de que o que está
sendo colocado do ponto de vista técnico nem sempre é o que acontece na prática. A conexão
dos saberes é importante, é o que a Ergologia denomina saber investido e saber constituído,
surgindo então o terceiro polo, o polo das exigências ergológicas, que nasce justamente desse
171

encontro. O encontro dos saberes faz com que os atores da discussão precisem, de alguma
forma, pensar sobre a sua concepção.

O final do diálogo é apenas o riso dos profissionais:

Fernanda Alves: o cabo que a gente usa é de 14 milímetros, então assim, é muito
pouco provável, porque a gente não tem nenhum equipamento, que dê a tensão de
ruptura de um cabo desse. [risos entre os participantes]. (Grifo nosso).

Durante o diálogo do grupo, a organização do trabalho vai se “descortinando”,


aparecendo em pequenas facetas ao longo da conversa, nas interações entre esses diferentes
entendimentos.

Por exemplo, na discussão sobre a atividade ser feita em dupla, os trabalhadores


reforçam esse ponto, que a atividade de esticamento é uma atividade em dupla, a técnica de
segurança no final afirma “é que estava sendo feita sozinho”. A decisão de deixar o
profissional sozinho veio do encarregado, que precisava do outro profissional em uma
atividade diferente. A divisão e a organização do trabalho têm uma de suas nuances aqui: se o
profissional estivesse acompanhado, talvez o acidente não tivesse se concretizado:

Paulo Cesar: Tem que ser duas pessoas. Pode ver que depois, aí um fica ali, e o
outro vai lá apertar, entendeu?
Robson Souza: só pra comparar porque no dia, no momento da ocorrência só tinha
uma pessoa. Né, então...
Fernanda Alves: ele tava fazendo sozinho. (Grifo nosso).

A organização do trabalho se desenha na falta de procedimentos e de treinamento para


a atividade do acidente: o profissional não tinha sido treinado para a sua execução, teve
apenas alguns momentos trabalhando com outro profissional. A lógica produtiva, de
conseguir que os profissionais rendam mais, aparece aqui:

Fernanda Alves: Porque o risco tá lá, mesmo que eu não tenho um procedimento
que é o que, pegou também, a gente não tinha um procedimento, detalhado,
escrito, um treinamento formal, eu acho que a percepção de risco é onde que a
gente tem que trabalhar mais, porque, eu preciso equalizar a percepção, eu não
posso depender da percepção de um ou de outro. Então quer dizer. O cara faz 10
vezes, ele tinha 3 dias que tava fazendo a mesma coisa, e ele não percebeu que,
correu o risco. Os três dias. O quarto dia, é que ele machucou. Porque aí, ele mudou
a posição do tirante. Na hora que, tipo, ele viu (grifo nosso).
172

O foco é direcionado para a percepção do trabalhador: na falta da presença da


organização do trabalho, quando esta falta, eu direciono os meus esforços e chamo o
trabalhador para se responsabilizar.

Em entrevista posterior com a profissional responsável, fica mais evidente a


organização do trabalho e o acidente:

Claudia Santos: O rapaz acidentado, veio transferido de outra obra, ele não tinha
começado aqui...ele é um funcionário que iria trabalhar no canal de drenagem, mas
na hora ele não quis trabalhar e foi colocado no sistema de contenção... ele falou que
tinha experiência e depois do acidente, a gente viu que não tinha experiência....a
atividade que ele estava fazendo era considerada pelo encarregado, um atividade
simples, por que a atividade de perfuração é realmente mais complicada, o que ele
tava fazendo era leve... mas, faz toda a diferença a gente checar experiência do
funcionário e não acreditar...na experiência que ele diz que tem...que é importante o
encarregado ficar do lado e saber e acompanhar... e ver até onde ele sabe fazer o
serviço. Às vezes o procedimento da obra, mesmo sendo a mesma atividade, cada
um faz de uma forma... então, ás vezes a gente checar a maneira como ele está
fazendo se é adequada, se é da maneira que a gente precisa que seja feita... então o
encarregado precisa ser presente na frente de serviço, né? (Grifo nosso).

Aqui podemos ver a relação que o encarregado estabelece com o profissional. Ele
parece não acompanhar o trabalho, para tanto existe a especificação da simplicidade da tarefa,
considerada uma atividade simples.

Se está na ordem da simplicidade não precisa ser acompanhada, o trabalhador não


precisa ser treinado. Outro fator importante da organização do trabalho é mudança do
profissional para outras frentes de trabalho, sem nenhum tipo de treinamento; é relatado que
ele não quis trabalhar no setor para o qual foi direcionado em um primeiro momento e assim
foi encaminhado para outro. A atividade da área de drenagem envolvia construção civil,
montagem de forma e trabalho com concreto entre grandes ravinas.

A forma de checagem da experiência também chama a atenção: você sabe,


naturalmente não podemos saber o que estava se passando com o profissional para não ter ido
trabalhar naquela área de drenagem, mas é importante entender que em um contexto de
precarização das relações de trabalho, com o medo do desemprego, é difícil o profissional não
dizer que não conhece a atividade. Lá na frente o colega alpinista vai reforçar: ele deveria ter
esperado. Aqui já podemos ver elementos da construção da culpa dele no acidente.
173

7.6 Culpabilização

Em uma análise rápida, podemos pensar que o acidente que aconteceu com o
profissional é mais um caso típico de “erro humano”. Principalmente se nos basearmos na
análise inicial do acidente, essa situação pode ficar mais bem caracterizada ainda: toda a
situação nos leva a crer que o profissional estava exercendo uma atividade e por infortúnio, ou
desatenção dele, o gancho da catraca veio atingir a sua face.

O que conseguimos com a aproximação das clínicas do trabalho e alguns de seus


princípios, com os trabalhadores sobre essa atividade, foi ter uma visão mais ampla das
circunstâncias causadoras do acidente, principalmente na mudança da saída de um paradigma
vigente em relação à culpabilização do acidentado.

Podemos ver que temáticas como capacitação, treinamento, organização do trabalho


ou políticas de gestão também merecem ser analisadas na estruturação das causas desse
acidente. As análises de acidente são realizadas, mas as suas soluções são construídas apenas
pelo nível de gestão descendente (Top Down) (DANIELLOU; SIMARD; BOISSIÈRES,
2013).

As informações dos trabalhadores, ascendentes (Botton Up), não costumam aparecer


nas análises e não passam por uma apreciação dos profissionais executantes.

Llory (2001) irá apontar o erro ou equívoco da construção do “fator humano” como
causa de acidentes. Originalmente essa diferenciação surgiu para sinalizar o que seria relativo
ao ser humano no sistema e o que estaria no âmbito técnico, principalmente das máquinas.
Essa diferenciação foi a base do que ficou conhecido como o paradigma do erro humano, em
que os sistemas técnicos seriam totalmente confiáveis e o ser humano seria a parte frágil do
processo. Essa construção fez com que durante muitos anos, nas análises dos acidentes, fosse
fácil encontrar o responsável por determinada situação: afinal, somente o humano é passível
de falha, assim a responsabilidade é dele. A evolução e quebra dessa dicotomia surge com a
constatação de que os sistemas técnicos, as máquinas, não eram totalmente seguros e
confiáveis, estando sujeitos a situações de falha e desgaste.

O ponto final dessa discussão:

Os operadores executantes, agentes de inconfiabilidade dos sistemas técnicos,


provocadores de erros, parte imprevisível desses sistemas...segundo os autores. E
segundo outros autores, 50%, 60%, 90% e mais das causas de incidentes graves e de
acidentes seriam de origem humana. Claro! (LLORY, 2001, p. 34).
174

A reflexão é que, independentemente da situação, o fator humano vai estar presente.


Mesmo que seja na concepção de uma máquina que pode ser defeituosa, ali reside o fator
humano, ele está em tudo, dessa forma é preciso superar essa discussão e entender que culpar
a parte humana em um acidente é como correr atrás do próprio rabo.

Atribuir a principal causa dos acidentes ao acidentado serve apenas para negar o papel
da organização do trabalho, das diferenças entre o prescrito e o real, dos fatores subjetivos que
compõem nossa relação de saúde e doença com o trabalho; serve para esconder ou “camuflar”
onde podem estar os erros reais, como uma gestão ruim ou a sua falta, a urgência pela
produção ou redução de custos a qualquer preço, entre outras coisas:

Claudia Santos: A primeira coisa que o encarregado falou é que ele deveria estar
usando a porca... já fazia parte do procedimento, só que ele, falou que não sabia, na
época do acidente, ele falou que não sabia que tinha que colocar a porca... então
vimos que era um déficit em nosso treinamento, no treinamento é que não tinha
ficado claro, que tinha que fazer aquela atividade usando uma porca para travar...
(Grifo nosso).

Note-se que a primeira reação do encarregado é reforçar que o profissional deveria


estar usando a porca – essa é a primeira reação. No entanto, somente com o passar do tempo,
depois de ele ter deixado a obra e já ter inclusive se desligado da empresa, é que se foi
verificar os treinamentos – em nenhum momento se falou sobre o uso da porca. O ponto é:
Como esse profissional iria saber dessa informação?

A concepção e a construção da culpa do trabalhador passam às vezes pela


simplicidade do acidente: a chamada simplicidade da tarefa faz com que o trabalhador seja o
culpado – afinal era uma atividade simples, a culpa foi dele:

Claudia Santos: O acidente foi muito simples na verdade... que era algo muito bobo,
que era só travar a catraca para ela não soltar... a conclusão foi simples e não teve
nada de diferente! (Grifo nosso).

O que quer sinalizar a fala da profissional como algo muito “bobo”: se a atividade é
muito simples, quase “boba”, a culpa foi do profissional. O profissional, como consequência
desse acidente, poderia ter perdido a visão, ter tido algum tipo de trauma craniano... o que
tornaria o acidente “bobo”?

Segundo a profissional, essa seria uma das atividades mais simples da obra; se era
simples, a culpa é de quem a executa, afinal ela era “boba”. A desculpa da simplicidade da
tarefa ajuda na construção da culpa pelo profissional.
175

A culpabilização não acontece apenas pela profissional gestora da área de segurança e


saúde, mas também pelos colegas: eles entendem que a responsabilidade do acidente também
parece dever ser depositada apenas nele:

Ayrton Costa: Aí, no caso né? Se precisar de algum equipamento, pra gente pegar
logo... pra levar. Porque nada é improviso, porque chega lá na hora, não tiver o... a
ferramenta né, pra trabalhar, porque né, no caso lá, o rapaz ele se esqueceu, às
vezes ele pode até ter se esquecido, ou então não tinha a porca perto, também,
entendeu?
Paulo César: no caso do acidente aí, é porque foi um imprevisto... foi uma coisa que
ele fez lá, o cara foi mostrar serviço, alguma coisa, porque... devia ter
esperado...devia ter pegado a porca e usado[incompreensível] [várias pessoas
falando ao mesmo tempo]. (Grifos nossos).

Aqui o profissional não tem a visão sobre o treinamento do profissional, temos a


presença do paradigma do “erro humano”: ele se esqueceu, ele errou, é isso que aparece no
diálogo do profissional, é isso que parece mobilizar.

Temos o ponto de vista de outro colega de trabalho, onde ele sinaliza: foi algo que “ele
fez lá”, como se tivesse sido apenas uma opinião do profissional, e ele ainda dá o diagnóstico
do motivo: “foi mostrar serviço”, ele queria fazer “mais” e por isso aconteceu o acidente.
Notemos que essa é a opinião dos colegas de trabalho.

O paradigma do “erro humano” e a culpabilização da vítima estão enraizados também


na percepção dos alpinistas: eles analisam o acidente do colega e o colocam esse como o
principal culpado.

Não tivemos oportunidade de conversar com o acidentado, mas esse paradigma vai tão
longe que em alguns estudos realizados sobre acidentes de trabalho tem sido sinalizado por
alguns autores que os próprios profissionais que se acidentam no trabalho costumam creditar a
“falha humana” deles próprios como uma das principais causas dos acidentes (GYEKYE,
2003; ACHCAR, 1990).

Mas a construção da culpa também passa pela área técnica, pela profissional de
segurança e sua visão do acidente. A profissional, que inclusive foi responsável pela
investigação: sinaliza sobre o acidente:

Fernanda Souza: Porque o risco tá lá, mesmo que eu não tenho um procedimento
que é o que, pegou também, a gente não tinha um procedimento, detalhado, escrito,
um treinamento formal, eu acho que a percepção de risco é onde que a gente tem
que trabalhar mais, porque, eu preciso equalizar a percepção, eu não posso
depender da percepção de um ou de outro. Então quer dizer. O cara faz 10 vezes,
176

ele tinha 3 dias que tava fazendo a mesma coisa, e ele não percebeu que, correu o
risco. Os três dias. O quarto dia, é que ele machucou. Porque aí, ele mudou a
posição do tirante. Na hora que, tipo, ele viu (grifo nosso).

A referência à percepção de risco, nesse caso, segue no sentido de que ela é do


profissional e que ele falhou: foi algo no profissional que levou à situação do acidente. Ela
parece delimitar a culpa desse alpinista. A profissional foi também a responsável pela
investigação e análise formal do acidente pela empresa.

Alguns estudos têm sinalizado a distância entre a percepção dos investigadores de


acidentes e a percepção dos sujeitos que se acidentaram. Os investigadores não têm uma visão
ampla da tarefa ou das pessoas envolvidas na atividade em que ocorre o acidente ocupacional.
Os investigadores tendem a realizar investigações sem relacionar as causas de acidentes com
aspectos organizacionais, da organização do trabalho, da relação com a hierarquia e formas de
gestão da empresa (LEHANE; STUBBS, 2001).

Normalmente as análises de acidentes, realizadas por profissionais de investigação,


apresentam uma visão diferente em relação aos fatores geradores do acidente. (LLORY, 2001;
ALMEIDA, 2003; VILELA; IGUTI; ALMEIDA, 2004). Principalmente, há um foco que
considera as possíveis diferenças individuais em relação aos trabalhadores:

Acredito que a maior dificuldade a ser superada para a substituição do velho


paradigma reside no fato de os gestores e profissionais da área desconsiderarem a
existência de diferenças individuais entre os operadores e dos operadores no tempo,
ou pior ainda, de tratarem essas diferenças como negligências ou falhas de
comportamento dos trabalhadores (ALMEIDA, 2003, p. 81).

7.7 Terceirização

As discussões sobre a relação entre terceirização e acidentes do trabalho foram


discutidas sobre algumas abordagens teóricas – por exemplo, sobre a percepção e os
apontamentos da clínica da atividade e da ergonomia (LIMA, 2007; FERREIRA; IGUTI,
2004)

Para a clínica da atividade, os prejuízos da terceirização estariam no enfraquecimento


do gênero e na perda de alguns conhecimentos que circulam perante os trabalhadores,
advindos principalmente de suas longas experiências nas atividades. O coletivo deixa de
amparar os trabalhadores e como resultado podem acontecer aumentos dos acidentes,
acidentes pessoais e industriais maiores (LIMA, 2007).
177

Ferreira & Iguti (2004) demonstram, em uma pesquisa realizada com os petroleiros,
como os processos de mudança do mundo do trabalho e a terceirização, principalmente nas
áreas de manutenções da empresa petroleira, acabaram por fazer com que diversos
conhecimentos se perdessem em relação ao mundo do trabalho. Além disso, o estudo remonta
às diferentes relações estabelecidas com a empresa, entre os funcionários próprios e os
terceirizados.

A contratação da empresa para execução do projeto assume contornos em que se


fazem necessárias algumas reflexões. A obra em questão não era uma expertise da
mineradora, mas o processo de mineração, o conhecimento de litologia, da estruturação e
funcionamento de assuntos geotécnicos41, principalmente de taludes, faz parte da expertise
dos profissionais de mineração.

Naturalmente, os profissionais que estão na área de Sustaining têm como característica


um elevado conhecimento técnico sobre alguns aspectos da mineração, mas não têm
conhecimentos práticos. O conhecimento das práticas geotécnicas da mineradora não aparece
na interação com a empresa do projeto, e durante vários momentos eles relatam que o que
aprenderam foi com o andamento da obra:

Ricardo Costa: Essa obra é única no Brasil, nós fomos aprendemos com a execução,
era no dia-a-dia, apesar de termos investido em todos equipamentos e técnicas, tinha
coisas que não dava pra prever... (Grifo nosso).

O conhecimento sobre a estrutura de um talude, seus riscos e possibilidade de


rompimento, faz parte das atividades cotidianas dos profissionais que estão nas operações de
minas, diretamente no processo produtivo da mineradora. Avaliar um talude e considerar a
sua condição e possibilidade de rompimento fazem parte da atividade cotidiana desses
profissionais. O tipo de rocha com que irão lidar, os principais conhecimentos sobre suas
características morfológicas, tudo isso faz parte do conhecimento dos profissionais que atuam
nas minas. Mas eles não são chamados para participarem do projeto, pois a empresa está
preocupada apenas com a execução da obra, sem recorrer ao conhecimento desses
profissionais para a concepção e execução do projeto.

41
A Geotecnia, está relacionada com o estudo da mecânica dos solos e das rochas.
178

Santos (2011) observa que existem algumas tendências na legislação envolvendo a


evolução das normas de saúde e segurança em nível nacional e global. Um aumento da
responsabilidade do empregador pela aplicação das normas de SST, dentro de uma lógica de
que quem contrata alguma empresa é responsável pela geração do risco, ou seja, quem gera o
risco é o responsável por gerenciá-lo. Assim, tem crescido um movimento de
responsabilidade solidário em relação aos acidentes, entre a contratante e a contratada.

Uma estratégia da mineradora para atuar nesse gerenciamento do risco parece ser a
contratação de mais uma empresa para realizar o gerenciamento do projeto. Em um cenário de
precarização do trabalho que vem sendo discutido, chama a atenção a posição da
gerenciadora. Durante a execução do projeto, essa empresa mudou por três vezes, isso advém
de uma estratégia da área de suprimentos, na tentativa de redução de custos dos contratos. Os
contratos têm duração de um ano; assim, quando está terminando o contrato é iniciada uma
nova licitação. A profissional da empresa de execução da obra fala um pouco sobre essa
mudança no gerenciamento:

Claudia Santos: Já teve três empresas acompanhando.... na realidade, muda a


empresa, mas não muda o profissional...os menino é que sofrem, ficam naquela
ansiedade de saber se vão ter trabalho, depois são demitidos de uma empresa e
contratado por outra...mudam só de uniforme. Pra gente aqui é bom, já sabe como
funciona... já conhece a gente...facilita bem...

No caso desse projeto, acontecia de os profissionais se manterem, mas essa não é


necessariamente uma realidade comum. Existem situações em que a empresa de
gerenciamento faz uma mudança de todo o quadro de profissionais, trazendo novas pessoas.
Além disso, as mudanças nas empresas são sucedidas por mudanças de salários dos
profissionais, mudanças de benefícios, que às vezes aumentam e em outras situações
diminuem.

7.8 Adaptação

Um importante ponto que surge no diálogo dos alpinistas tem relação com o trabalho
em altura e com o modo como esses profissionais lidam com essa sensação e risco. Logo no
início do diálogo com os profissionais, um dos primeiros temas abordados é justamente o
trabalho em altura:
179

Pesquisador: Como é que vocês se sentem, trabalhando nesses taludes? É alto pra
caramba?
José Maurício: costuma né.
Paulo César: costume né. A gente gosta também, do que faz. Se não gostar não tem
como né.
José Maurício: quem não gosta... quem não se adapta na altura mesmo, quando
chega já... já pede pra ir embora, pra mudar para outro serviço [risos]. (Grifos
nossos).

A resposta parte de dois dos profissionais, referindo-se ao fato de se acostumarem a


trabalharem com esse tipo de risco. Esse processo, que logo depois ele mesmo denomina
adaptação, nos faz pensar sobre o que é essa adaptação a uma condição de risco:

Ricardo Costa: É uma atividade muito agressiva, são poucas pessoas que são
capazes de fazer o que eles fazem... Se você ver de perto, não é fácil, o ruído é
muito alto, o helicóptero joga muita poeira, ficar o dia inteiro em altura incomoda...
(Grifo nosso).

Nesse sentido Daniellou & Simard & Boissiéres (2013) fazem uma discussão sobre a
mobilização subjetiva no trabalho. Segundo eles, em condições em que o trabalhador está
exposto a condições de risco altas e frequentes e não consegue modificar essa realidade, existe
um ajuste inconsciente que atua para reconstruir essa realidade.

Em situações de risco, um tipo de defesa consiste em se convencer de que a situação


não é tão perigosa assim. Na verdade, não se trata de uma defesa contra o perigo,
mas sim contra o medo: não é possível trabalhar todos os dias tendo medo, pois há
um risco de perda do próprio emprego. A sensação de medo, susceptível de produzir
efeitos imediatos, é erroneamente percebida como mais ameaçadora que o risco
estatístico e longínquo ligado ao perigo. O inconsciente vai, então, organizar-se para
afastar o medo pela redução da percepção do perigo (DANIELLOU; SIMARD;
BOISSIÈRES, 2013, p. 74).

Assim, o “acostumar-se” que aparece na fala dos profissionais parece referir-se a um


processo de afastamento da sensação de medo e ao desenvolvimento de uma sensação de
tranquilidade: aquela situação não representa mais risco para o trabalhador, ele se “adapta”, se
acostuma.

O coletivo é que vai ajudar na estruturação dessa adaptação. As defesas individuais


vão surgindo apoiadas no coletivo: desde que entra na empresa, o profissional passa pelo
processo de aceitação nesse coletivo. No entanto, apesar de ajudar o trabalhador, isso pode
levar a um aspecto negativo, que é o de diminuição da percepção dos riscos. Assim, se a
180

percepção dos riscos é diminuída, pode haver um aumento de exposição a situações que
tragam prejuízos à sua saúde (DANIELLOU; SIMARD; BOISSIÈRES, 2013).

Laurell & Noriega, apud Deusdedit-Júnior (2014), estabelecem o conceito de


adaptação no sentido de que o ser humano, na interação com o meio, estabelece uma reação
de modificação – ele se transforma. A transformação estaria relacionada com uma
plasticidade do corpo, que altera sua concepção biológica, e também teria uma base coletiva
na sua estruturação. No entanto, essa adaptação teria também um custo para o trabalhador. O
custo, que é gerado ao longo do tempo, leva a um desgaste e a uma perda para o trabalhador.

O “acostumar-se” dos alpinistas estaria relacionado, nesse contexto, com a


incorporação dos elementos dessa realidade em seu próprio modo de funcionamento, mas
estaria sujeito a um possível custo no futuro. Esse modo de observar o trabalho possibilita
uma interação entre o biológico e o psíquico, construindo uma relação de conexão cujo o
desajuste, principalmente mediado pelos coletivos de trabalho, pode manifestar-se em
situações diversas, entre elas acidentes e doenças no trabalho (SATO; LACAZ; BERNARDO,
2006).

7.9 Participação dos trabalhadores na análise

Um ponto que merece nossa atenção e explanação refere-se à participação dos


profissionais na investigação e análise dos acidentes. Como apontado pelos profissionais que
participaram das discussões em grupo, a possibilidade de conhecer as percepções dos
profissionais que executam a atividade são excelentes:

Fernanda Souza: (...) E aí a gente pode ter uma visão diferente do que a gente tá
acostumado. Porque em uma investigação de acidentes, a gente acaba ficando
muito... fechado. Eu só ouço o acidentado, o encarregado, talvez o companheiro,
o... supervisor, só. Então, essas pessoas, às vezes não são ouvidas e a opinião delas,
ou as ideias delas (grifo nosso).

Como podemos perceber, não faz parte das políticas da empresa envolver os
trabalhadores executantes na proposição ou validação de medidas corretivas para acidentes. A
informação chega a esses profissionais apenas da forma Top Down, sem movimentos de
retorno, principalmente porque esses profissionais têm uma visão sobre o trabalho real.
181

A OHSAS42 18001 (2007), que versa sobre sistemas de gestão de segurança e saúde no
trabalho, entre diversas recomendações traz uma temática específica que se refere à
participação dos trabalhadores nos processos de investigação e análise de acidentes.

Nota-se que nos procedimentos de investigação, praticados pela mineradora e


copiados pela contratada, ela não é uma exigência. Há um esforço para colocar os
profissionais de gestão nos processos de investigação envolvendo gerentes e diretores, mas
não existem premissas para envolver os profissionais que executam e conhecem a atividade.
Dessas investigações e análises saem diversas ações e prerrogativas que, quando chegam ao
conhecimento e apreciação dos profissionais, não geram abertura para o retorno da
informação.

Na década de 1940 foram criadas as Comissões Internas de Prevenção de Acidentes


(CIPA), que deveriam ser compostas por representantes dos empregados e do empregador,
com foco na prevenção de acidentes. Eles deveriam ser coletivos estruturados dentro das
empresas que, inseridos nos processos, pudessem representar a coletividade dos trabalhadores.
Os representantes dessas comissões também deveriam participar das investigações e análises
dos acidentes. O que se percebe é que, nas prescrições e práticas de investigações nas
empresas contratadas da mineradora, isso não acontece. A empresa contratada tem sua CIPA
estabelecida e seus trabalhadores nomeados, mas eles não são inseridos nos processos de
investigação:

Claudia Santos: Na verdade a gente seguia todos os procedimentos de investigação,


a gente tinha que convocar a analise e chamar todo mundo...ai, participava o
preposto, o responsável pelo contrato, equipe de segurança, engenheiro de segurança
ou técnico de segurança, o pessoal da medicina...no inicinho da obra quando tinha
gerenciadora, participava (grifo nosso).

Aqui podemos notar que os trabalhadores não são lembrados para participar desse
processo de análise:

Claudia Santos: (...) faço um convite...ai faz um levantamento de tudo que precisa
com a equipe do campo, com os técnicos, a informação de um, de outro, primeiro se
ouve, o acidentado quando é possível, né? Depois vai ouvir o encarregado, o colega
dele que trabalhava junto, faz uma reunião e convoca todos para a reunião, ai o
encarregado conta, o acidentado conta e o colega conta, e ai vai fazendo um

42
A OHSAS 18001 é um padrão internacional que estabelece requisitos relacionados com aà Gestão da
Segurança e Saúde Ocupacional.
182

levantamento das causas... utilizava o Tasc, gerava um plano de ação.. depois da um


andamento do plano, juntava todas as evidência e encaminhava. Os encarregados, o
mestre, o engenheiro participavam... tinha uma época que tinha o engenheiro
preposto e o engenheiro de campo, e todos os dois participavam.

Nota-se que não se estabelece nenhuma estratégia de desdobramento das informações,


de checagem da sua eficiência na prevenção. O processo de análise dos acidentes parece ser
direcionado para montar um plano de ação e não está necessariamente voltado para evitar o
acidente que levou ao mesmo.

Outra importante reflexão sobre as investigações e análises está relacionada com os


investigadores internos, ou seja, na maioria das vezes os profissionais alocados nos SESMTs
das empresas acabam se responsabilizando por recolher informações e realizar o processo de
análise.

Segundo Llory & Montmayeul (2014), esses profissionais estão muito próximos e
envolvidos com as situações que ocasionaram os acidentes; eles não podem acabar tendo uma
visão restrita dessas situações. As estruturas hierárquicas, as pressões das chefias, os
interesses de remuneração e progresso na carreira não podem se tornar fatores limitadores dos
potenciais das investigações e análises realizadas pelos próprios profissionais da empresa.
Esse cenário não pode facilitar também a continuidade do paradigma do erro humano e das
estratégias de culpabilização, pois esses não seriam caminhos mais fáceis do que apresentar as
disfunções das organizações, os problemas de relações e de enfraquecimento dos
trabalhadores.

Compreender melhor o papel e os desafios dos responsáveis por realizar as


investigações é um caminho a ser revelado:

Fernanda Alves: Porque quando a gente vai fazer a investigação do acidente, a


preocupação nossa é ouvir o acidentado...e às vezes quem tava na tarefa com ele,
diretamente. Encarregado, que são, interessados diretos. Então, por exemplo, o
encarregado quer defender o direito dele...o funcionário que se acidentou, o direito
dele. Então, às vezes, a gente não ouve essas pessoas. Que sabem como é que faz,
sabe o quê que faz, né. Percebe algo que a gente não percebe, é...
Fernanda Alves: Em uma investigação de acidentes, a gente acaba ficando
muito...fechado. Eu só ouço o acidentado, o encarregado, talvez o companheiro,
o...supervisor, só. Então, essas pessoas, às vezes não são ouvidas e a opinião delas,
ou as ideias delas...acrescentam no nosso dia-a-dia, né? Eles ficam muito assim... se
eu ouvir a experiência de um que, tem mais experiência que o outro... um gosta de
falar mais do que o outro né, percebe... (Grifos nossos).
183

Afinal, esses profissionais também estão sujeitos a pressões e adoecimentos,


justamente pela organização do trabalho e interfaces desses profissionais de segurança. Uma
das falas de Cláudia no final é significativa:

Claudia Santos: Você não sabe qual que é a minha ansiedade de entregar esse
contrato, por que eu já não aguento mais...é uma tensão, você vive uma tensão vinte
e quatro horas por dia... na hora que acaba o dia e que não aconteceu nada... você
fica...graças a deus hoje não aconteceu nada...
185

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho pretendemos conhecer o modo como a Psicologia do Trabalho, baseada


principalmente nas chamadas clínicas do trabalho, poderia contribuir nos processos de
investigação e análise de acidentes em uma empresa de mineração localizada na região de
Belo Horizonte.

Observamos que a Psicologia do Trabalho pode estabelecer uma interface com as


investigações, principalmente no sentido de trazer à tona os conhecimentos dos profissionais
em relação ao trabalho real. Trabalho real que às vezes, nas práticas de investigações de
acidentes, acaba não sendo contemplado.

Outro ponto importante está no fortalecimento dos coletivos e no gênero profissional,


que são importantes agentes nas práticas de prevenção de acidentes do trabalho. O coletivo é
que pode ajudar as empresas e estruturas de prevenção a prevenir acidentes efetivamente.

Podemos ver que o acidente é complexo e que temos de superar o paradigma do erro
humano. Buscamos nesta investigação discutir o acidente e trazer à luz toda a sua
complexidade e historicidade e acima de tudo construir soluções que ajudem a evitar que ele
volte a acontecer.

As medidas discutidas no grupo foram realmente implantadas pela empresa no sentido


de evitar algumas situações de risco. Isso mostra que o trabalho de pesquisa aqui acabou
contribuindo para a prática dos profissionais alpinistas.

Nesta investigação foi possível observar aspectos relativos à organização do trabalho e


seu impacto nos acidentes ocupacionais, como ela se entrelaça e não pode ser desqualificada
pelos investigadores de acidentes. Em minha experiência com as investigações de acidentes
surgem muitos aspectos técnicos como soluções para evitar acidentes, soluções de engenharia,
mas poucos aspectos da organização do trabalho são colocados em pauta para prevenção de
acidentes.

Espera-se que este trabalho possa contribuir para reforçar a importância de considerar
esses fatores em uma efetiva prevenção de acidentes.

Naturalmente, tivemos aqui oportunidade de explorar um processo específico da


indústria da mineração, que é o fechamento de mina. Exploramos ainda a relação de uma
empresa que foi contratada para a execução de um projeto da manutenção da cava.
186

As operações produtivas de uma mineradora, de efetiva extração de minério,


apresentam mais desafios ainda para as práticas de análise e investigação e do modo como a
Psicologia do Trabalho pode auxiliar nesses processos. Infelizmente, devido ao prazo do
estudo, não nos aprofundamos nessa relação, que é composta por uma teia, do ponto de vista
do pesquisador, ainda mais complexa do que a apresentada na empresa.

Um dos pontos que podemos constatar nesse trabalho é que as práticas de saúde no
trabalho também merecem atenção e mais investigações, principalmente no que se refere ao
adoecimento/saúde do trabalhador. Ainda existe um conjunto de relações e construção de
nexos que não puderam ser aprofundadas aqui, mas que merecem atenção.

Buscou-se descrever os processos de investigação e análise de acidentes da


mineradora, como eles são organizados, quais as suas exigências e oportunidades.
Naturalmente, na própria mineradora esses processos apresentarão outras características,
dependendo da localidade e da área de estudo. Se pensarmos no segmento de mineração, essas
características se expandem ainda mais.

Um dos agentes importantes para serem entrevistados para que tivéssemos uma
ampliação dos resultados desse trabalho se refere ao próprio acidentado, já que na data da
discussão em grupo ele não pode participar. Conhecer sua visão, seus sentimentos e sua
percepção de todos os fatos que culminaram no acidente poderia trazer importantes
significações e outros pontos de vistas para o estudo. Tentamos estabelecer contato com ele,
porém não tivemos retorno.

Na teoria sociológica dos acidentes, Dwyer (2006) observa que a psicologia ainda tem
um papel difuso nessas discussões. Espera-se, com esse trabalhado, incentivar o campo da
psicologia, preocupada principalmente com o estudo do mundo do trabalho, a contribuir para
a ampliação dessas discussões e a proposta de prevenção de acidentes do trabalho.

O papel dos profissionais de segurança se desenha durante toda a discussão,


principalmente na sua relação com os acidentes e no seu papel de investigadores. Esse é mais
um ponto que merece ser aprofundado, na medida em que são eles que conduzem as
investigações. Não podemos deixar de considerar também as pressões e exigências a que eles
são submetidos nas empresas no seu trabalho como profissionais de segurança. Acredito que
este seja também mais um caminho que mereça atenção em estudos futuros.

Naturalmente, não podemos deixar de pensar no uso do espaço em grupo para análise
do acidente, pelos trabalhadores, como momento de reivindicação para condições de melhoria
187

em seu trabalho. O ponto merece uma análise mais profunda, na medida em que o
pesquisador, como funcionário da empresa, pode levar a projeções para os profissionais.

O envolvimento dos trabalhadores que executam as atividades deve ser incentivado


nas investigações e análises dos acidentes. Principalmente se existe interesse em construir
medidas efetivas de prevenção de acidentes. Através de seus conhecimentos da realidade de
trabalho, eles podem ajudar na construção de um diagnóstico fidedigno sobre a real situação
de trabalho e o que leva a determinado acidente. Além de participar da análise, é importante
que eles possam verificar na prática se as medidas implantadas são eficazes para a prevenção.
Assim a análise de um acidente não para apenas na implantação do plano de ação, mas deve
caminhar no sentido de trazer um retorno dessa implantação.

Espera-se que este trabalho possa contribuir para a construção de políticas públicas
com foco na prevenção de acidentes que visem a uma participação maior dos trabalhadores
nos processos de investigação e prevenção dos acidentes de trabalho.

As clínicas do trabalho e todos os seus métodos, desenvolvidos e ainda em construção,


podem ser de grande auxílio nesse sentido. Recomenda-se que os estudos sobre as
investigações de acidentes e suas relações com as teorias e métodos da Psicologia do Trabalho
tenham continuidade e que possam caminhar em outros sentidos dessa investigação, ajudando
na composição de mais elementos de análise.

Esperamos, com esse trabalho, contribuir para o processo de prevenção de acidentes


em atividades relacionadas com mineração na região de Belo Horizonte. Mas que essas
contribuições possam caminhar para práticas de outras mineradoras.
189

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