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CULTURA LINGUISTICA INDO-EUROPEIA

Cristiano De Mari

Introdução

A afinidade entre as mais diversas línguas europeias já é de consenso comum. Todo estudante de
idiomas, literários, historiadores, pessoas que trabalham com o turismo; sem contar é claro com quem de
fato trabalha e pesquisa sobre isso; falo dos linguistas em geral; conseguem perceber as ligações similares
nas terminologias das palavras destes idiomas. Por exemplo ; no grupo de línguas românicas , que se
originaram apartir do latim vulgar falado na época do grandioso Império Romano; muitas de suas palavras
possuem valor fonético e estrutural muito parecido ou mesmo idênticas entre elas. Temos como variantes
modernas originadas do latim o português, o espanhol, o italiano , o francês e o romeno, línguas oficiais de
seus países e ainda em seus territórios encontram-se os mais diversos dialetos (vêneto, piemontês,
napolitano, catalão, aragonês, sículo, galego, extremenho, normando, auvernês, provençal, etc..., alguns
ainda sobrevivendo por causa dos regionalismos. O mesmo acontece no grupo germânico de línguas
derivadas dos povos bárbaros germânicos que habitavam a Europa Central e do Norte, do Rio Danúbio às
Ilhas Britânicas até a Escandinávia. São elas : o alemão , o inglês , o dinamarquês, gótico, escocês, sueco e
norueguês, por exemplo. E no grupo eslavo as línguas originadas das tribos eslavas da Eurásia e que
habitavam regiões setentrional e oriental da Europa ; ou seja; o russo, o polonês, o ucraniano , o tcheco, o
eslovaco, o búlgaro, o croata , o sérvio e o esloveno por exemplo. Todos estes idiomas modernos se
originaram apartir de outros falares mais antigos, das línguas indo-europeias, (subentende-se aqui não só o
linguajar mas também dos povos que compunham a ideia de indo-europeus , na sua totalidade caucasianos
de raça branca) e estas por sua vez originando-se do primitivo falar Protoindo-europeu. Afim de
esclarecimentos, termos utilizados pelos linguistas aparecerão no artigo, como por exemplo o prefixo Proto (
significando primeiro), Urvolk (em alemão significa povo primitivo) e Urheimat (pátria primitiva ou local de
origem).

2- Estudo Comparativo e Paleontologia Linguística

Pois bem, muitos linguistas acabaram indo mais fundo na questão por meio do estudo comparativo já
existente de idiomas e buscaram também informações pelo método denominado “ paleontologia linguística”.
Ela permitiu recolher dados como: cultura material, instituições sociais e as diferentes concepções religiosas
dos indo-europeus.
O método parte do seguinte princípio: palavra conhecida à realidade conhecida, sendo assim
considera-se o fato (palavra, idioma) aliado ao seu contexto; sem conhecer a realidade local, a realidade
temporal e sociocultural provavelmente muito menos se descobriria acerca das origens dos vocábulos.
Uma vez, ao se comparar as línguas europeias, descobre-se que elas se formaram apartir de variações
ao longo do tempo, ocasionadas pela dispersão dos povos que foram migrando para cada vez mais longe da
pátria primitiva , diversificando-se mas também mantendo alguns termos parecidos entre si. Ao constatarem
isso , os linguistas descobriram que a existência de uma língua comum entre todas elas, levantava a questão
da existência de uma população primitiva (Urvolk) que falava essa língua.E essa população, entretanto
também pressupõe a ideia de uma região de origem comum(Urheimat).

2.1- O Protoindo-europeu

O estudo comparativo das línguas indo-europeias e os esforços dentro da paleontologia linguística


permitiram descobrir a existência de uma unidade linguística pré-histórica anterior à todas as divisões
linguísticas europeias ocasionadas desde suas remotas origens e épocas migratórias. Os linguistas
denominaram este primitivo falar, este primitivo idioma de Protoindo-europeu.
2.2 Subdivisões linguísticas do Indo-Europeu

A família linguística indo-europeia originada do Protoindo-Europeu divide-se em dez grupos


principais :

1. Línguas anatólicas: primeiro grupo descoberto e atestado. Termos isolados em fontes escritas
em assírio antigo do século XIX a.C. e em textos hititas do século XVI a.C.; extintas ainda
na Antiguidade .
2. Línguas helênicas: breves registros no grego falado em Micenas no fim do século XV a.C. até o
início do seguinte; as tradições homéricas (grego homérico) datam do século VIII a.C.
3. Línguas indo-iranianas: descendentes de um ancestral comum, o protoindo-iraniano (que data do fim
do terceiro milênio a.C.):

*Línguas indo-arianas, evidenciadas a partir do fim do século XV a.C. em textos dos povos
mitanni que mostram traços do indo-ariano. Presume-se que o Rig Veda tenha preservado
registros intactos da tradição oral (Patha) que datam de meados do segundo milênio a.C., na
forma do sânscrito védico.

*Línguas iranianas, atestadas desde aproximadamente 1000 a.C. na forma do avéstico.


Epigraficamente, desde 520 a.C., na forma do persa antigo (inscrição de Behistun).

*Línguas dárdicas

*Línguas nuristânicas

4. Línguas itálicas: incluindo os dialetos itálicos desde o I milênio a.C., como o sabino, osco ,volsco,
úmbrio, équo, falisco, samnita dentre outros e o latim e seus descendentes (línguas românicas ou
latinas), atestadas desde o século VII a.C.
5. Línguas celtas, descendentes do protocelta. Inscrições gaulesas chegam a remontar ao século VI a.C.;
a tradição de manuscritos do irlandês antigo data do século VIII d.C.
6. Línguas germânicas (do protogermânico: testemunhos mais antigos encontrados em
inscrições rúnicas de por volta do século II d.C., e os primeiros textos, feitos no gótico, do século IV.
A tradição de manuscritos do inglês antigo data do século VIII.
7. Língua armênia: escritos no alfabeto armênio existem desde o início do século V.
8. Línguas tocarianas: existem em dois dialetos, evidenciados desde o século VI ao IX; foram
marginalizados pelo Império Uigur, onde se falava o turcomano antigo, e provavelmente se
extinguiram no século X.
9. Línguas balto-eslavas: divididas em:

*Línguas derivadas do proto-eslavo, evidenciado desde o século IX, primeiros textos no antigo
eslavônico eclesiástico.

*Línguas bálticas, atestadas desde o século XIV; para idiomas cujas primeiras evidências são tão
tardias, conservam características arcaicas atípicas, atribuídas ao protoindo-europeu (PIE).

10.albanês, evidenciado a partir do século XV; o proto-albanês provavelmente surgiu de antecessores


"paleobalcânicos".[6][7]

3- A Pátria primitiva (Urheimat)


Várias hipóteses foram levantadas nestes dois últimos séculos afim de localizar a região original que
sediava a população primitiva protoindo-europeia. Devido vários argumentos, uma hipótese asiática foi
descartada. Por meio da aplicação da Paleontologia Linguística, os estudos convergem cada vez mais para a
afirmação de que a localização seria da região setentrional do Mar Negro, no sul da Rússia, onde hoje se
encontra o país da Ucrânia até áreas próximas ao Cáucaso. Esse teria sido o primeiro foco de cultura indo-
europeia.Enciclopédias e revistas recentes são unânimes em indicar essa região, chamada também de região
da “Cultura Kurgan”, como o habitat original dos indo-europeus no início do IV milênio a.C. As razões que
levaram a esse acordo se devem a questão de que a região já era estudada há mais de dois séculos e a Cultura
Kurgan (em russo, túmulo) encontrada lá, sepultava seus mortos em outeiros funerários, os quais constituem
grande parte dos achados nesses sítios arqueológicos. Foi possível identificar apartir destas descobertas uma
sociedade neolítica de agricultores. Essa primeira civilização de Kurgan desapareceu no II milênio dando
lugar a uma outra dedicada à criação e animais. Essa sociedade era mais hierarquizada que a primeira, onde
a quantidade dos rebanhos definiria o status social. Essa sociedade já utilizava o cobre, carroças,
instrumentos agrícolas e também já havia domesticado o cavalo. Alguns túmulos dessa época, revelam o
sacrifício de cavalos sepultados ao lado de seus donos. Existia o cotidiano pastoril local(sedentário) mas
também o nomadismo equestre; o aparecimento do cavaleiro de caráter guerreiro.

3.1- A Fauna selvagem de Kurgan

Um dos principais argumentos para identificar a pátria primitiva indo-europeia é a comparação das
palavras utilizadas na flora e nos nomes de animais domésticos encontrados nas regiões dos sítios
arqueológicos primitivos dos indo-europeus.
J.P. Mallory foi um estudioso que se especializou nessa questão, procurou comparar dados
linguísticos à fauna indo-europeia com restos linguísticos da cultura Kurgan. Quando as palavras de nomes
de animais ou da flora ocorrem nos mais diversos ramos do indo-europeu é porque estes mesmos animais e
variedades de plantas viviam neste clima temperado nas proximidades da pátria primitiva. E quando estas
palavras que designam o mesmo objeto, ideias ou coisas são muito parecidas entre si é porque as línguas
filhas do indo-europeu tiveram a mesma origem e eram de linguajar comum, foram criadas provavelmente
no vocabulário Protoindo-europeu. O local de origem , a área de abrangência menor, e a população formada
por poucos indivíduos favorecia essa peculiaridade linguística única, que só se tornou maior após o início
das migrações para o Irã, Índia, Anatólia, centro e sul da Europa.

3.2- Alguns exemplos de termos

*Canídeos: Tomamos como exemplo o Lobo , no Protoindo-europeu se escrevia aproximadamente como


“wlkwosi”.O lobo era encontrado em toda a Eurásia, apresenta similaridades em diferentes línguas.
No latim – lupus; no grego- lúkos ; no gótico – wulfs; no antigo alemão – Wolf ; no inglês – Wolf; em
islandês – vlikus; em sânscrito – v´rkas; em albanês ulk; em hitita- Ultippan ; etc...
*Raposa: no Protoindo-europeu- wlp-loupék; em latim – vulpes; armênio – alues; inglês- red fox; em
alemão – Rotfuchs; em grego – alópeks, etc...
* Cavalo: no Protoindo-europeu – ekwos; no latim – equus; no grego – hippos ; gaulês – epo ; luvita- asuwa;
trácio- ezbo; no inglês- horse; no sânscrito – ásvan, etc....

Aqui utilizamos exemplos de animais, e embora o assunto esteja bastante mergulhado no campo da
pesquisa ainda , o mesmo pode ser encontrado em palavras que remetem à flora, objetos domésticos
comuns, instrumentos de trabalho, construções, formas de tratamento familiar como pai, mãe, irmão e ainda
partes do corpo humano. Alguns exemplos : termos utilizados para homem ( wiros) , mulher (gwena), filha
(dhugater), genro (gémeros), népots (neto), sobrinho (swesrinos), viúva (widewa), partes do corpo humano ,
cabeça (kaput), garganta (gutr), pulmão( pleumón), olho (ókw) , nariz (nás), joelho (gónu), corpo (k´rp),
unha (óngh), lágrima (dakru), inverno (gheimóm), primavera (esr), noite (nekut), gado bovino (gwous), boi
(bós), touro ( taurus), vaca (waca), bezerro/terneiro (wetelos), ovelha (owis), bode (kapros), peixe (gzhu) no
grego ikkthus, cereal (greno), maçã (abel) , neve (sneigwh),etc.....
Abaixo os termos mãe , pai e irmão em Protoindo-europeu e suas variantes no indo-europeu:
*Máthér: em latin – mater; irlandês- máthir; sânscrito- mátá; velho alemão-muoter; albanês- motre ;
armênio-mayr, etc.....
*Patér: em latim- pater; gótico- fadar; sânscrito- pitar; islandês-fadhir; velho alemão-fater, em osco –
patir,etc...
*Bhráter: em latim-frater; em sânscrito- bhrátar; arm~enio -elbram; bretão-breur; velho eslavo-bratu, velho
alemão-bruader,etc....

4- Migrações
A cultura pré-histórica de Kurgan foi dividida em quatro fases ou em 3 períodos, cujos marcos
cronológicos coincidem com as transformações culturais na Ásia Menor.
*Período Antigo: (fase I) entre 3600 a 2800 a.C.;
*Período Médio (fases II e III) entre 2800 a 2200 a.C. e
*Período Recente (fase IV) de 2200 até os princípios do II milênio a.C.

As migrações da cultura Kurgan de sua pátria original da região do Cáucaso para as regiões do Irã,
Anatólia e mesmo para a Europa Central, teria ocorrido em meados do III milênio a.C.
Um outro deslocamento populacional se deu em meados do II milênio, partindo do Irã alguns
arianos. A invasão ariana na Índia destroi as cidades de Mohenjo-Daro e Harappa misturam-se a população
local (dravídica) original, dando origem a uma sociedade hierarquizada e sobretudo religiosa de tradição
védica, tendo como língua o sânscrito.Nessa mesma época , no outro lado , ocorriam as invasões dos
Hititas , seu estabelecimento na Anatólia e dos gregos das tribos de Aqueus na Grécia , fundadores de
Micenas, que destruíram a civilização cretense incorporando vários elementos culturais aos seus e
dominando a parte insular e continental da Grécia.
Já por volta de 1500 a 1200 a.C. uma nova onda de migrações de povos da região do Danúbio,
também de indo-europeus, deslocou as antigas civilizações da Idade Do Bronze nos Bálcãs e Anatólia. Na
Grécia ocorreram as invasões dos dórios.No Mediterrâneo oeste , os povos migrados , introduziram as
línguas célticas (Península Ibérica e França) e as línguas itálicas e osco-úmbricas na Península Italiana.
Posteriores a essa época , as migrações se completam para o norte da Europa, norte e centro da Rússia,
regiões Bálticas e Escandinavas.
Flávio Josefo, historiador judeu-romano fala no seu livro “Antiguidades Judaicas” algo que
corrobora com a própria bíblia cristã e que citamos aqui como colaboradora na tese das migrações.Mesmo
não citando datas é válido analisar :
“ Os filhos dos filhos de Noé, para honrar-lhe a memória, deram os próprios nomes aos países onde
se estabeleceram. Assim, os sete filhos de Jafet, que se estabeleceram pela Ásia desde o monte Tauro e o
Amã até o rio de Tanais e na Europa até Gades (Cádiz), deram os seus nomes às terras que ocuparam e que
não eram ainda povoadas. Gomer fundou a colônia dos gôrneres (gomeritas - antigos germânicos), que os
gregos chamam gálatas. Magog fundou a dos magoghianos, a que chamam citas ou russos. Javã deu o nome
à Jônia e a toda a nação dos gregos. Madai foi o fundador dos madianos e persas, que os gregos chamam
medas. Tubal deu o seu nome aos tubalinos, que agora se chamam iberos.* Mosoc deu o próprio nome aos
mescinianos (o de capadócios, que eles têm agora, é novo), e ainda hoje uma de suas cidades tem o nome de
Malaca, o que nos mostra que essa cidade antigamente se chamava assim. Tiras deu o seu nome aos tírios,
dos quais foi o príncipe e que os gregos chamam trácios. Assim, todas essas nações foram fundadas pelos
filhos de Jafet.
Gomer, que era o mais velho dos filhos de Jafé, teve três filhos: Asquenaz, que deu o seu nome aos
asquenázios, aos quais os gregos chamam reginianos; Rifate, que deu o seu nome aos rifanianos, aos quais
os gregos chamam paflagonianos; Togarma, que deu o seu nome aos togarmanianos, aos quais os gregos
chamam frígios.
Javã, outro filho de Jafet, teve quatro filhos: Elisa, Társis, Quitim e Dodanim.Estes deram origem aos
itálicos em geral. Elisa deu o seu nome aos elisamos, que hoje se chamam ecolianos. Társis deu o seu nome
aos tarsianos, que hoje são os silicianos, cuja principal cidade ainda hoje se chama Tarso. Quitim ocupou a
ilha que agora se chama Chipre, à qual deu o seu nome, razão por que os hebreus chamam de Quitim todas
as ilhas e todos os lugares marítimos. Ainda hoje, uma das cidades da ilha de Chipre é chamada Citium por
aqueles que dão nomes gregos a todas as coisas, que pouco difere do nome Quitim. Eis as nações de que os
filhos de Jafet se tornaram senhores. Antes de retomar o fio de minha narração acrescentarei uma coisa que
talvez os gregos ignorem: esses nomes foram mudados segundo a maneira de falar, para tornar a pronúncia
mais agradável, pois entre nós não serão jamais mudados.”
Segundo a visão bíblica , Jafet , terceiro filho de Noé teria sido o patriarca , progenitor de todos os
povos de origem indo-europeia, caucasiana.

5- Estrutura Social Tripartida


Na estrutura social protoindo-europeia existem evidências de realeza sagrada, sugerindo que o chefe
tribal ao mesmo tempo assumia o papel de sumo sacerdote. Muitas sociedades indo-europeias ainda
mostram sinais de uma antiga divisão tríplice de classes: o clero, os guerreiros e os fazendeiros ou
lavradores. Tal divisão foi sugerida para o protoindo-europeu pelo filólogo comparativo e mitólogo francês
Georges Dumézil.
Segundo Martins Terra, 2001: “A religião teve função capital nas formas arcaicas das civilizações.
Foi a religião que determinou a estrutura trifuncional da sociedade hierárquica indo-europeia.”
Divisão trifuncional da sociedade indo-europeia:

* 1ª Função: Função dividida em dois conjuntos. De um lado o aspecto jurídico, e do outro, o aspecto
mágico e religioso. Agrupa-se aqui os seguintes valores: o direito, a sapiência, as ciências, o poder espiritual
e religioso. Esta função é exercida quase sempre por um Rei-Sacerdote ou por um Rei e um Sacerdote. O rei
podia ser um chefe de um clã ou o rei de uma confederação de vários povos. Entre os celtas o termo para
designar o rei era rig ou rix, entre os latinos rex, entre os arianos da época védica râjan, entre os
trácios rhêsas, etc… O significado da palavra rei quer dizer retidão, aquele que se rege pelas normas. O rei
era o mantenedor de um sistema íntegro e representava o direito e a justiça no sentido mais nobre dos
termos. O outro aspecto da 1ª função era religioso. Parece que na sua origem, os Indo-europeus não teriam
senão um Rei-sacerdote, logo uma mesma pessoa que assumia as funções de rei e de grande sacerdote.
Entre os celtas o sacerdote era o druída, entre os arianos da época védica era e é o Brâmane
(*bhelgh-men), entre os romanos o flamine (Flamen Dialis), entre os ario-iranianos o mage ou atharvan,
entre os vikings (tardiamente) o godi. O sacerdote assumia também outras funções como as de filosófo, de
sábio, de educador, de médico, e de guardião das tradições. Entre os romanos existia um sacerdote por cada
função divina, sendo o conjunto denomindo flamines maiores. Um sacerdote para Júpiter (o dialis), um para
Marte (o martialis), e um para Quirinus (o quirinalis).

* 2ª Função: Dois conjuntos formam aqui também essa função: um mais individual e brutal, o outro mais
refinado e coletivo. As virtudes desta 2ª função indo-europeia são os valores guerreiros, a força física, a
energia, a coragem, o heroísmo, a defesa e a segurança. Para os Indo-Europeus, a guerra é uma atividade
relevante do sagrado. Ela deu lugar a numerosos mitos e a muitos herois solares como Siegfried (Sigurd),
Aquiles ou Cuchulainn. A vitória garante aos guerreiros a glória eterna, aquela que não morre na memória
coletiva dos descendentes. Trata-se frequentemente de uma guerra defensiva, aquela que mantem a ordem
(cósmica ou terrestre), a guerra contra os representantes do caos. A guerra protege a ordem e os seus. O
aspecto sagrado da guerra encontra-se em inúmeros rituais e festas militares. Um dos mais célebres rituais
era o equus october entre os romanos. Os espartanos, os celtas, os aqueus, os germanos, os hititas, os
romanos,…todos os povos indo-europeus nutriam um forte respeito por esta 2ª função guerreira.

* 3ª função: As noções vitais estão cobertas por esta função: a produtividade, a fecundidade, a abundância
de homens e mulheres, do gado e dos vegetais, a riqueza, a saúde, a paz, a estética,…
Esta função se bem que menos nobre que as duas precedentes, era considerada como merecedora
de um profundo respeito. Os Deuses e as Deusas tornaram ainda mais importante a 3ª função ao longo das
numerosas conquistas dos Indo-Europeus. Todas são divindades ligadas às funções “produção, reprodução e
abundância”.
O povo era organizado em povoados (weiḱs; "vilas"), provavelmente cada uma com seu chefe
(Hrēǵs). Estes assentamentos ou vilas eram então divididos em grupos familiares (domos), cada um
encabeçado por um patriarca-chefe (dems-potis; grego despotes, sânscrito dampati).

6- Teologia natural dos gregos

Martins Terra em seu livro destaca que:


“ Quase todos os indo-europeístas que se interessaram pelo problema religioso abordaram seriamente
a questão de um monoteísmo primitivo do indo-europeu. No Deus do céu, que em muitos povos indo-
europeus se tornou o Deus Supremo, foi quase sempre associado com o nome “ Pater” pai, parece sobreviver
a fé dos primitivos num único Deus. No próprio culto a Zeus dos antigos gregos se manifesta uma tendência
monoteísta”.
Os atributos concedidos a ele nas teogonias , textos e odes gregos são muito parecidos com os
atributos lidos nos textos hebraicos, como criador , onipotente, onisciente, mantenedor da ordem cósmica,
ordem jurídica, ética, juiz vingador supremo e absoluto, etc...remetem para uma crença mais antiga
enraizada na religião protoindo-europeia que era de fato o culto ao Deus Pai celeste. O fato de ele estar
presente dentro de uma religião que cultuava vários deuses se deve à mistura de ritos politeístas
incorporados das antigas civilizações do bronze autóctones , de origem semita e camita, que viviam no
Mediterrâneo antes que os povos indo-europeus conquistassem estes territórios nas ondas de invasões
migratórias. O politeísmo da mesma maneira que o monoteísmo é uma crença religiosa muito antiga, assim
como haviam povos semitas monoteístas como os hebreus , haviam também povos semitas como os assírios
que eram politeístas. Mesmo assim com toda esta mistura, Zeus ainda passou a ocupar lugar de destaque na
religião mitológica grega. Não se trata de igualar o politeísmo grego à crença judaico-cristã , mas se percebe
resquícios de monoteísmo dentro da teologia natural dos antigos gregos.

6.1 Nomes de Deus nas línguas Indo-europeias

No indo-europeu, os nomes que designam a divindade mais difundidos repousam na forma, *deiwos,
significando a noção de "o celeste". Formado da raiz indo-européia *dei- "brilhar, fulgir, iluminar",
acrescida do sufixo adjetivo -wo-, tinha esse tema, primitivamente, o sentido de "brilhante, luminoso".
Posteriormente, na qualidade de epíteto, serviu para designar o "céu", noção da qual se desenvolveu, na
linguagem religiosa, a de "céu como divindade" e, portanto, a de Deus. Literalmente, Deus era "o celeste",
por oposição ao homem, concebido como "o terrestre". Essa oposição homem/deus, resultante da
oposição terrestre/celeste é, aliás, muito antiga, presente em várias línguas, nas quais a palavra denominativa
de "homem" significa, etimologicamente, "o terrestre".
Do tema indo-europeu *deiwos "o celeste" derivaram-se , através das mais variadas transformações
fonéticas, os nomes da divindade, nas seguintes línguas:
1- Sânscrito deváh, ao qual corresponde o avéstico daeva-. No avéstico, porém, passou a ter sentido
oposto de "deus do mal, demônio", anjo decaído, cuja história coincide com a expressão hebraica, bem-
xahar "filho da aurora", que S. Jerônimo traduziu por Lucifer, literalmente, "portador da luz". Aquele, o
mais resplandescente que se rebelou e invejou a Deus por seus atributos e quis sentar-se no seu trono.
2- Latim deus, de Iu pater, iovis pater donde o francês dieu, o italiano dio, o espanhol dios e o
português deus. Da evolução fonética normal de *deiwos tirou o latim o adjetivo divus, donde o feminino
substantivado diva "deusa", o adjetivo secundário divinus "divino" e, deste, o derivado
verbal divinare "advinhar".
3-Germânico-islândes: Tivar, Teiva, Tyzdagr, Zios.
4- Antigo nórdico ou escandinávio, tivar, nome pluralício, já que o simples singular é desusado.
5- Lituânio dievas. De idêntica origem e sentido são o letônio dìevs e o antigo prussiano deiwas, com
o qual concorre a variante deiws.
6-Etrusco: Tin, Tinia, Tríade – Tin-Uni-Minerva.
7-Paleo-vêneto: Deivo, Dieu.
8-Indiano: Dyaus-Pitah, Dyaus indra.
9-Hitita: Siuni, Sin, Siunili, Siuniyant.
10-Celta-irlandês-bretão: Dia, Duw, Dove, Divona.
7 - Conclusão

O presente artigo buscou mostrar as origens dos falares de origem caucasiana. A questão da pátria
primitiva, sua ancestralidade, sociedade e tradição religiosa permearam pelos assuntos dedicados à questão
linguística e estão interrelacionados. Os indo-europeus são responsáveis por algumas das línguas antigas
mais notáveis do mundo, incluindo o grego, o latim,, o persa e o sânscrito. Muitas das mais importantes
línguas modernas do mundo são indo-europeias, como bengali, inglês, francês, alemão, hindi, russo e
espanhol. Mais de metade da população mundial fala uma ou mais dessas línguas, seja como língua materna
ou linguagem comercial.

8- Referências:
O Proto-Indo-Europeu, 2006 disponível em: https://arqueofuturista.wordpress.com/2006/10/05/os-indo-
europeus-uma-sociedade-tri-funcional/ acesso em 13/10/2017.
Martins Terra, João Evangelista. O Deus dos Indo-Europeus. Zeus e a Proto-Religião dos Indo-
Europeus.Edições Loyola, São Paulo, 2001.
Língua e Religião Proto-Indo-europeia.Ciryl Babaev, tradução de F.M.S., disponível em:
<https://www.stormfront.org/forum/t592908/> acesso em 14/10/2017.

Os nomes de Deus no Indo-Europeu e no Semítico: disponível em:


http://www.rubensromanelli.net/nomesdeus.html, acesso em 14/10/2017.
Josefo , Flávio. Antiguidades Judaicas. História dos Hebreus. Editora CPAD, Rio de Janeiro, 2004.

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