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A irresponsabilidade do Estado

Por Mauro Nadruz

O Estado brasileiro, em todas as suas esferas, tornou-se impessoal e irresponsável. Arrisca-se a dizer que se tornou:

– Onisciente: Aquele que possui todo o conhecimento, toda a ciência.


– Onipresente: Aquele que está presente em toda parte.
– Onipotente: Aquele que pode todas as coisas.

Acostumou-se com o inconcebível e dele fez sua regra. Basta que ele controle seus cidadãos sem a possibilidade de
contrapartida de benefícios e direito de defesa, tornando-se impositor de leis e intromissões com o objetivo de
arrecadar, muitas vezes em setores onde o próprio mercado seria o melhor regulador.

Ele nos coloca na posição de incapazes e como o tal assume o papel de "pai" educador por doutrinação e sanção.
Contudo, na hora em que necessitamos indagar sobre uma de suas decisões, contestar ou pior, sair em defesa de
algo injusto, não há a quem recorrer.

Não existe "o" responsável! Um funcionário segue a ordem, independente da decisão absurda que foi estabelecida
pelo gestor ou comissão. No final, os que lhe dão a decisão autocrática escondem-se atrás da instituição. Sendo
assim, um ente jurídico público torna-se responsável pelos mandos e desmandos de seus funcionários.

A não ser que estas pessoas cometam crimes graves elas estão protegidas por este ente público que os acoberta e os
isola através de um papel, um carimbo e uma assinatura ilegível. Muitas vezes, somente um documento oficial já
basta. Basta o timbre, o selo oficial e já estamos devidamente comunicados sobre seus atos e decisões, mesmo que
sejam incoerentes ou até inconstitucionais. Até a instância mais alta, a única em que podemos nomear os autores
das decisões, não segue mais os preceitos jurídicos e constitucionais, mas gozam de um status de deuses do Olimpo.
Se recorremos, encontramos burocracia nos processos, muito tempo gasto, informações imprecisas e a má vontade
do servidor. Como se aquela indagação fosse uma afronta ao todo poderoso e incorrigível poder. Por isso vemos
infrações de trânsito inconcebíveis sendo indeferidas, impostos sendo cobrados inconstitucionalmente, decisões
sendo tomadas em favor dos "amigos" e uma justiça acobertando e inocentando baseada em interpretações pessoais
e não na lei. E pior: a lei sendo dilacerada por decisões como estas. Nem a cláusula pétrea da Constituição é
aplicável. O direito à ampla defesa está previsto na Constituição Federal de 1988 no seu artigo 5º, inciso LV: “aos
litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla
defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”

Todavia, os estatutos e regulamentos, mais especificamente no âmbito do processo administrativo disciplinar, vêm
contrariando o disposto na Constituição, “suprimindo ou cerceando a defesa” (ROZA, 2001, p.166).
Cláudio Roza, ao falar sobre a importância do processo administrativo disciplinar indica que “o ilícito administrativo
não apenas ofende a disciplina e a ordem hierárquica, mas sobretudo manifesta falta de lealdade para com o espírito
público relativo à finalidade que inspirou a própria formação do Estado, e também falta de lealdade para com a
instituição a que, por seu cargo, estiver vinculado.” (ROZA, p. 166)

Esta impessoalidade nos separa, nos divide entre aqueles que "pagam" por imposição e aqueles que "cobram" por
poder. Viramos reféns de um sistema que se auto alimenta de nosso trabalho e riquezas sem a possibilidade de
contestação. Cerceam nosso direito de defesa, de integridade, de justiça e de liberdade. Este é o Estado brasileiro, do
pequeno órgão municipal até as mais altas cortes. Simples assim...

Mauro Nadruz - Gestor em Segurança da Activeguard, pós-graduado em gestão estratégica da segurança, analista e professor.