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EMANCIPACIONISMO CATÓLICO EM MEADOS DO SÉCULO XIX: D.

VIÇOSO
E A SELECTA CATHOLICA

Ítalo Domingos Santirocchi


(Licenciatura em Ciências Humanas – UFMA/Pinheiro)

Palavras-chave: Emancipacionismo. Escravidão. Catolicismo.

O ultramontanismo no oitocentos sempre foi considerado de caráter


conservador, devido aos seus princípios de superioridade do poder espiritual sobre os
demais poderes. Identificado com os valores do Antigo Regime, é visto como um
promotor e defensor do status quo, apoiando as elites, a propriedade e a escravidão.
A historiografia sobre a participação da Igreja Católica no movimento
emancipacionista e abolicionista, produzida desde o século XIX, faz questão de frisar
que esta instituição religiosa se absteve da discussão até as vésperas da abolição, por
volta de 1887. Todavia, já nos anos de 1840, existiam propostas emancipacionistas
católicas na Diocese de Mariana, defendida por D. Antônio Ferreira Viçoso, uma das
principais lideranças do ultramontanismo no Brasil, e pelo jornal Selecta Catholica. Por
meio dos artigos dessa publicação católica, escritos e cartas do bispo mineiro, nos
propomos a discutir essa temática, com intuito de reabrir o debate sobre a Igreja e a
escravidão no Brasil Imperial.

1 – Historiografia da Igreja Católica e a abolição da Escravidão


Não deve ser novidade para o leitor a importante participação das ideias
religiosas católicas na justificativa da escravidão entre os séculos XVI e XIX, existe
uma vasta produção sobre a temática. Todavia, pouco se tem estudado sobre como as
transformações no pensamento católico oitocentista podem ter transformado o
posicionamento de parte da hierarquia perante a questão da mão de obra escrava.
Em 1823, José Bonifácio de Andrada tentou influenciar as discussões sobre a
questão servil na Assembleia Constituinte. Para isso escreveu uma Representação sobre
a escravatura, onde defendia o fim do comércio de escravos e a gradual abolição da
escravidão, como condição necessária para formação de uma nação brasileira. Nesse
documento, tentou tocar a consciência dos deputados e apresentar argumentos
econômicos e civilizatórios contra a escravidão. Condenava a omissão do clero
brasileiro e conclamava a sociedade brasileira, como um todo, a abolir o sistema
escravista (SILVA, 1840, p. 6).
Essas propostas de Bonifácio serão lembradas mais tarde por Joaquim Nabuco.
Na segunda metade do século XIX, as obras deste abolicionista e de Luís Anselmo da
Fonseca, consolidaram uma visão sobre uma quase total omissão da Igreja no processo
abolicionista, visão essa que irá se perdurar até o final do século XX.
No livro A Escravidão, o Clero e o Abolicionismo, publicado em 1887, pelo
médico baiano, abolicionista e anticlerical Anselmo da Fonseca – republicada em 1988
por ocasião da celebração do centenário da abolição da escravidão – o autor procura
demonstrar o comprometimento histórico da Igreja com o Estado – lusitano e brasileiro
– e com a escravidão. A sua principal preocupação era denunciar o que considerava uma
insuficiente participação da Igreja no processo abolicionista e cobrar da instituição uma
atuação mais incisiva na campanha que vinha sendo feita em prol do fim da escravidão
(FONSECA, 1887).
Pelo mesmo caminho vão as críticas de Joaquim Nabuco, que chegou até mesmo
a expressá-las ao Papa Leão XIII, em uma audiência que requereu para solicitar ao
pontífice um posicionamento da Igreja em relação à abolição da escravidão, realizada
em 10 de fevereiro de 1888 (BEOZZO, 2008, p. 284).
Em 1883 ele escreveu a obra O Abolucinista, onde apresenta o movimento
impulsionado pela ação política e não como “religioso ou filantrópico que envolvesse a
condenação moral e cristã dos horrores do cativeiro” (PEREIRA, 2011, p. 42-43).
Alguns anos depois da abolição, no seu livro, Minha Formação, lamenta-se ele:

A abolição teria sido uma obra de outro alcance moral se tivesse sido
feita do altar, pregada do púlpito, prosseguida de geração em geração
pelo clero e pelos educadores da consciência. Infelizmente o espírito
revolucionário teve de executar em poucos anos uma tarefa que havia
sido desprezada durante um século [...] O movimento contra a
escravidão no Brasil foi um movimento de caráter humanitário-social
antes que religioso (NABUCO, 1949, p. 207).

Essa visão sobre o posicionamento da Igreja perante a escravidão continua pelo


século XX. Riolando Azzi, num artigo de 1988, no qual se propõe a comentar a obra
Escravidão, o Clero e o Abolicionismo, diz o seguinte:
Em que pese o caráter polêmico da obra, concordo em seus aspectos
principiais com a tese do autor. É claro que diversas afirmações
deveriam ser melhor matizadas, muitas imprecisões corrigidas, e
algumas lacunas completadas. Creio, porém, que, mesmo com essas
oportunas e necessárias correções, caso se tratasse de uma edição
crítica, não haveria alteração profunda com relação à posição básica
assumida por Anselmo da Fonseca. Inquestionavelmente, a atuação da
Igreja Católica não foi muito expressiva no movimento em prol da
libertação dos escravos (AZZI, 1988, p. 1).

Segundo Azzi, porém, o autor não percebeu os “diversos condicionamentos


históricos que impediam aos membros da instituição eclesiástica tornarem-se
efetivamente solidários com essa causa tão humana e tão cristã” (AZZI, 1988, p. 9).
Esses “condicionamentos históricos” eram: o enfraquecimento do liberalismo
eclesiástico (que segundo o autor reunia melhores condições de abraçar o
abolicionismo), e o fortalecimento da reforma ultramontana (ou como prefere Azzi, a
romanização da Igreja brasileira). Para o autor, apesar das elites eclesiásticas serem

Sensíveis à situação degradante dos escravos, não viam com muita


simpatia que a bandeira da abolição fosse levantada por maçons e
liberais, por eles considerados como subversivos da ordem social
tradicional. Por isso, passaram geralmente a olhar o movimento não só
com cautela, mas até com certa apreensão, procurando na medida do
possível manter-se alheios a ele (AZZI, 1988, p. 8).

O livro A História da Igreja no Brasil, ensaio de interpretação a partir do povo


– Segunda época – Igreja no Brasil no século XIX, já mostrava um quadro muito mais
amplo sobre a Igreja e a Escravidão no Período Imperial. Sem mudar a interpretação
precedente, o autor analisa a participação da Igreja no processo de abolição da
escravidão entre 1875 e 1888. Inicia seu texto demonstrando o comprometimento da
Igreja com o Estado, devido ao padroado e ao regalismo, sendo o catolicismo
comprometido com a manutenção da ordem, fazendo um tripé de apoio com os
proprietários rurais e a escravidão.
O autor ressalta que as irmandades negras podem ter exercido importante papel
no movimento abolicionista e relata como as ordens religiosas – franciscanos e
beneditinos – começam a libertar gradualmente seus escravos a partir dos anos sessenta,
antes mesmo da Lei do Ventre Livre (BEOZZO, 2008, p. 276-279). Todavia não
percebe como estas iniciativas estavam ligadas a tentativa do Estado Imperial de
apossar-se dos bens das ordens religiosas, propondo, no parlamento, a conversão dos
seus bens em apólice do tesouro público (SANTIROCCHI, 2015, p. 289-324).
Sobre o papel do episcopado no processo de emancipação dos escravos, o texto
começa falando da pastoral de D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro,
anunciando a lei de 28 de setembro de 1871, que, segundo Beozzo, era tímida e
defendia um abolicionismo gradativo, que não comprometesse a ordem. Sobre D.
Macedo Costa, bispo do Pará, o autor diz que ele não deu importância à publicação da
lei dos nascituros, estando mais preocupado com a sua luta por maior autonomia da
Igreja perante o Estado (BEOZZO, 2008, p. 276-279).
Na concepção de Beozzo a Igreja só iria tomar uma posição mais ativa no
processo abolicionista a partir de 1887, quando grande parte da sociedade já tinha
abraçado o movimento. Nesse momento foram publicadas pastorais condenando a
escravidão pelos seguintes bispos: D. Luís Antônio dos Santos (BA), D. Lino Rodrigues
de Carvalho (SP), D. Antônio Alvarenga (MA), D. Carlos D’Amour (Cuiabá),
Monsenhor José da Silva Barro (Governador do bispado de Pernambuco), D. Pedro
Maria de Lacerda (RJ), D. Antônio Benevides (Mariana). Este último já havia fundado,
em 1885, a Associação Marianense Redentora dos Cativos, e pronunciava discurso em
defesa da abolição para as elites de fazendeiro (BEOZZO, 2008, p. 278-280).
Apesar de defender que somente a partir de 1887 o episcopado tivesse aderido
ao movimento, ele não deixa de notar que bispos ultramontanos já vinham defendendo a
abolição desde, pelo menos, os anos de 1840. Segundo Beozzo:

Assim o bispo de Diamantina (1863-1905) Dom João Antônio dos


Santos, que em 1846 na Selecta Católica de Mariana, e em 1862 no
Jequitinhonha de Diamantina, pugnava pela libertação, chegou a
percorrer sua cidade episcopal, suplicando a manumissão dos
escravos, e na pastoral que publicou a 28 de setembro de 1887
lembrou ao Governo “oferecesse a leão XIII, a cujos olhos nenhuma
prenda seria de maior valor, o decreto ou golpe de Estado em letras de
ouro, extinguindo a escravidão no Brasil desde 31 de dezembro de
1887” (BEOZZO, 2008, p. 279-280).

Então, podemos concluir, pelo que nos diz Beozzo, que desde os anos quarenta,
quando o ultramotanismo começava a ganhar força, alguns dos bispos dessa tendência
já se posicionam contra a escravidão.
A historiografia acadêmica também seguiu a tendência anteriormente
apresentada, na qual a hierarquia católica é vista como pouco ativa ou ausente do
movimento abolicionista até 1887. Entre os autores que assim se posicionaram podemos
citar Emília Viotti da Costa, Sérgio Buarque de Holanda, José Murilo de Carvalho, Luiz
Gustavo Santos Cota, Robert Conrad entre outros1.
No século XXI, novas pesquisas vêm atraindo novamente a atenção para o papel
da Igreja Católica no movimento abolicionista. Além de trazerem ainda mais elementos
sobre a participação das elites eclesiástica na luta contra a escravidão, a partir de 1887,
elas também vêm demonstrando intensa atividade em prol da Lei do Ventre Livre,
chegando retroagir ainda mais a ação antiescravistas católica para os anos quarenta do
século XIX.
Em 2004, uma interessantíssima tese multidisciplinar, defendida na área da
educação, veio ampliar o horizonte de ação da Igreja Católica em prol da abolição da
escravidão. Foi o trabalho de Raquel Martins de Assis, intitulado Psicologia, educação
e reforma dos costumes: lições da Selecta Catholica (1846-1847). Em 2010, temos a
dissertação de Tatiana Costa Coelho A reforma católica em Mariana e o discurso
ultramontano de Dom Viçoso (1844-1875). Já em 2011 temos outros dois trabalhos
interessantíssimos, a dissertação de Camila Mendonça Pereira, Abolição e Catolicismo:
a participação da Igreja Católica na extinção da escravidão no Brasil, e o texto de
Alceste Pinheiro, O ventre livre em um jornal Católico do século XIX.
Em sua dissertação, Camila Mendonça Pereira, ao se deparar, nas suas
pesquisas, com os intensos festejos católicos após a abolição de escravidão, se
questionou sobre a historiografia que colocava a Igreja num papel secundário no
movimento abolicionista. Após fazer um minucioso levantamento historiográfico sobre
a temática, a autora nos mostra como foi intensa a participação da hierarquia católica
nos debates a favor da abolição da escravidão nas páginas do jornal O Apóstolo, desde
finais dos anos 60 até as vésperas da abolição. Se intensificando ainda mais a partir de
1887, quando passa do gradualismo para defesa da abolição imediata. Entre suas
conclusões salienta:

1
COSTA (1985 e 2008); HOLANDA (1985); CARVALHO (1999, 2008, 2010); COTA (2010);
CONRAD (1978).
O resultado da pesquisa aqui apresentado, no entanto, revelou que já
havia discursos antiescravistas antes de 1887, porém, foi a partir desse
ano que a atividade libertadora do clero tornou-se mais recorrente e
afastada da proposta de uma abolição gradual. Além disso, ela foi
fundamental para o despertar de um sentimento religioso pró-abolição
que contribuiu para aumentar as fileiras do emancipacionismo e para
formular uma alternativa às destinações propostas para os libertos
(PEREIRA, 2011, p. 132).

O texto do professor Alceste Pinheiro dá maior realce a adesão do jornal O


Apostolo ao movimento que apoiou a Lei do Ventre Livre em 1871. Segundo o autor:

As discussões sobre o projeto apresentado pelo ministério Rio Branco


com aprovação do Imperador mobilizou a elite brasileira. Foram
quatro meses de intenso debate aos quais o semanário católico O
Apóstolo deu destaque singular e posicionou-se claramente em favor
da emancipação do ventre (PINHEIRO, 2011, p. 2).

Antes de continuar com os demais textos é importante ressaltar que esses


trabalhos fazem uma atenta análise do discurso e dos projetos católicos para a abolição
da escravidão, projetos que se diferenciavam daqueles conservadores e liberais. É
importante frisar isso, dentro da Igreja Católica existiam projetos abolicionistas de base
religiosa, sendo necessário ampliar as pesquisas sobre essa questão.

2 - Um bispo emancipacionista em um Brasil escravista.


No livro Dom Viçoso: Apóstolo de Minas (1965), D. Belchior apresenta o
seguinte subtítulo: Dom Viçoso, Defensor dos Escravos. Nele é apresentado o empenho
do bispo de Mariana na defesa dos escravos, suas críticas ao tráfico de africanos cativos
e em favor da abolição, tudo isso por meio de cartas, visitas pastorais e publicações. O
autor dá atenção a dois manuscritos, que infelizmente ainda hoje não tive oportunidade
de ter em mãos.
O primeiro, provavelmente, escrito pelo Pe. Leandro Rabello Peixoto e Castro,
segundo D. Silvério (PIMENTA, 1920, p. 47-50), contém 65 páginas, nas quais o autor
defende, com argumentos teológicos, que “a escravatura é, não só legítima, mas até um
bem social” (NETO, 1965, p. 142).
O segundo manuscrito foi redigido por D. Viçoso, em 1840, e é intitulado:
Escravatura ofendida e defendida. Esse texto começa com a transcrição do texto
precedente, para logo em seguida apresentar uma condenação à escravidão, passaremos
a citar Dom Belchior:

Consta de um prefácio, de 15 capítulos e do respectivo índice. 48


páginas. Traz a data de 29 de dezembro de 1840 [...] Nos capítulos 1 a
7, são estudados os sentimentos dos Filósofos, Jurisconsultos e
Teólogos sobre a escravidão. Nos capítulos 7 e 8, explicam-se as leis
do Brasil contrárias à escravatura e suas razões. O capítulo 9 comenta
da Bula do Papa Gregório XVI que condena o tráfico de escravos.
Nos capítulos 10, 11, 12 e 13, com admirável argúcia defazem-se os
argumentos do adversário. O capítulo 14 mostra qual deve ser o
procedimento de quem até então tinha tomado parte no comércio de
escravos. E finalmente o capítulo 15 contém uma belíssima exortação
ao adversário sob o título: “Um palavra amigável ao Autor do
Diálogo” (NETO, 1965, p. 143-144).

Pelas palavras de D. Belchior não é possível saber se D. Viçoso já defendia


abertamente a abolição da escravidão, todavia condenava sua prática e o tráfico de
escravos.
No entanto, nos primeiros anos de seu bispado, no jornal que criou e que era
dirigido pelo então Padre João Antônio dos Santos, reitor do Seminário de Mariana e
futuro bispo de Diamantina, essa defesa do fim da escravidão fica mais evidente.
A partir daqui vamos seguir as pesquisas de Raquel Martins de Assis, que
trabalhou com o jornal Selecta Catholica, entre 1846 e 1847. Segundo a autora (2006, p.
59-60). Os editores do jornal pregavam o “progresso de uma sociedade cuja base seria
um ser humano renovado”, para isso o bispo de Mariana chama atenção sobre o
movimento da Igreja Católica que passou a valorizar a “imprensa e o bom uso que se
poderia fazer dela”. Partindo desses princípios, “D. Viçoso montou um parque gráfico
cujo objetivo era a publicação de impressos capazes de contribuir para a reforma da
sociedade”.
O Jornal Selecta Catholica, segundo Assis, defendia concepções próximas ao
movimento filosófico tradicionalista ocorrido na França no XIX, para o qual a
sociedade era como uma inteligência servida por órgãos, derivando daí o conceito de
corpo social Cristão,

Segundo essas tradições, o homem é o microcosmo, mundo pequeno


que tem suas leis e seu modo de funcionar, e a sociedade e a natureza
são macrocosmos, expressão mais ampla do microcosmo, funcionando
através das mesmas leis.
Assim, encontramos na Selecta Catholica uma tradição de
pensamento muito antiga, segundo a qual a pessoa é entendida como
corpo, ao mesmo tempo individual, social e cósmico (ASSIS, 2006, p.
61-62).

Daí também deriva a concepção tradicional cristã de Corpo Místico, “a ideia de


que o homem, a sociedade e a Igreja são um só corpo”. Isso pressupõe a presença de
Cristo, principalmente pelo sacramento da eucaristia, que é reevocado nos rituais diários
da Igreja. A partir dos sacramentos “o corpo coletivo reúne as vontades individuais em
uma vontade pública única, realizando vontade que é maior que a razão e o sentimento
individuais e que fornece o fundamento ontológico da sociedade” (ASSIS, 2006, p. 62).
Tais concepções estão presentes na concepção de pessoa da Selecta Catholica,
que segundo Assis,

é essencialmente política, já que todo o significado do que o homem é


está jogado nesta reunião de seres cujo fundamento é a Vontade
divina. O Espírito de Deus anima o corpo social, ou seja, dá vida, dá
alma ao corpo social, tornando-a uma pessoa moral do mesmo modo
que animou o homem com o sopro divino, segundo a descrição do
Gênesis. É impossível entender o que é homem, a sociedade e a
educação para o grupo ligado a D. Viçoso sem levar em consideração
a ideia do Ser como fundamento ontológico (ASSIS, 2006, 62).

Essas visões do homem e da sociedade também se manifestam em um ideal de


justiça, que podemos encontrar nessa citação da Selecta Catholica:

Desde que há história, nela deparamos com a escravidão das mulheres,


com a escravidão das raças, opressão dos pobres, abatimento por
clientes, e certa desigualdade de condições que parece estabelecer
entre as castas, naturezas diferentes, e criações distintas. Jesus Cristo
se mostra, e a liberdade, a fraternidade, a caridade descem à terra e
nela se aclimatam. Ele emancipa a mulher, dá alforria ao escravo,
alivia o indigente do peso da riqueza, protege o ignorante e o livra do
jugo da ciência orgulhosa. Ele iguala as distancias que separavam os
homens, levanta o proletariado a dignidade d’homem, ele funda em
fim a igualdade que até então não tinha sido compreendida (Selecta
Catholica, 1 dezembro de 1846, p. 328, apud ASSIS, 2006, p. 64).

Desta forma os redatores do jornal, tendo a frente o bispo de Mariana, defendiam


um ideal de justiça que pressupunha “igualdade entre todos os homens”, assim se
posicionavam “abertamente contra a escravidão”. Dessa forma, para D. Viçoso, “se
Cristo instituiu a igualdade entre os homens, amando do mesmo modo os pecadores, os
ricos, as crianças, as prostitutas e os cobradores de impostos, então a escravidão não
deveria existir” (ASSIS, 2006, p. 64 e 2004, p. 131).
Em outro trecho do jornal, citando os filósofos da ilustração francesa, os editores
tentam usar do racionalismo para trazer os leitores à razão de que a escravidão era um
mal. Assim, como era condenado pela religião, também era condenado pela filosofia,

Será um mal a escravidão, considerada em si mesma? Perguntai, diz


Voltaire, a um homem livre qualquer se ele quer ser escravo? E
pronto, como por instinto recuará horrorizado da proposta. [...]
Ninguém nega que a escravidão seja agradável aos senhores de
escravos, e mesmo útil a parte rica e mais poderosa da nação: mas os
ricos e poderosos, para cujo bem-estar e comodidades concorrem
grandemente os escravos, e os mesmos escritores, que defendem a
escravidão, por nenhum feito consentiriam, segundo o belo
pensamento de Montesquieu, que se tirassem por sorte os indivíduos,
que devessem formar a parte livre da nação, e quais aquele, que
ficariam sendo escravos (Selecta Catholica, 15 de maio de 1847, p.
314, apud ASSIS, 2004, p. 132).

Apoiam-se também no naturalismo, colocando a escravidão como anti-natural, a


qual o homem pode ser forçado a se acostumar, mas que nunca abraçaria por sua própria
escolha, “assim como ninguém ama esse estado, e antes o tem aversão” (Selecta
Catholica, 15 de maio de 1847, p. 314, apud ASSIS, 2004, p. 132).
Na sociedade cristã pregada pelos editores da Selecta Católica, para quem Jesus
veio à terra para trazer a liberdade, a fraternidade e a caridade, emancipando mulheres,
alforriando escravos e igualando as distancias que separam os homens, só existia um
caminho para regeneração da “nação” brasileira, abraçar os princípios católicos e abolir
a escravidão.
Nas cartas que enviava, D. Viçoso não deixava de condenar a escravidão,
exemplos delas podem ser encontradas em vários estudos sobre esse prelado, como nos
de D. Belchior e de Tatiana Coelho. Outras correspondências ainda podem ser
encontradas na inédita obra de Maurílio Camello, a mim gentilmente cedida pelo autor
alguns anos atrás. Esta obra, infelizmente ainda não publicada, intitulada D. Antônio
Ferreira Viçoso: Correspondência (1823-1875), o autor organizou e transcreveu
integralmente a correspondência do bispo de Mariana a que ele teve acesso.
Conclusão
As interpretações que apresentam os conceitos de conservadorismo católico e
conservadorismo político, ou liberalismo eclesiástico e liberalismo político, quase como
correlatos no Brasil, são no mínimo problemáticas. As evidências apresentadas nesse
texto demonstram isso. Definir os ultramontanos como conservadores e dizer que o
liberalismo católico teria tido a oportunidade de avançar muito mais no ativismo
abolicionista é no mínimo apressado, ou uma simplificação dos movimentos internos da
instituição eclesiástica católica.
Uma rápida leitura das biografias das lideranças do liberalismo eclesiástico nos
permite perceber que praticamente nenhum deles se posicionou como defensor do
abolicionismo e muitos deles eram proprietários de terras e de escravos. Em relação aos
ultramontanos, no momento em que começaram a assumir o controle da Igreja nacional,
um dos seus bispos mais influentes, antes mesmo de subir a cadeira episcopal, já
defendia abertamente o fim do tráfico de escravos e condenava a escravidão. Vários
bispos foram pupilos de D. Viçoso, outros se inspiraram ou se espelharam nele. Toda
essa discussão é demonstrar a necessidade de revistar o tema do emancipacionismo
católico.

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