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Ciência da Administração – e-fólio A – 2009-10

GRUPO I
RESPONDA SUCINTAMENTE ÀS SEGUINTES QUESTÕES:
1. DISTINGA DESCONCENTRAÇÃO, DESCENTRALIZAÇÃO E DEVOLUÇÃO DE
PODERES.
2. DISTINGA INTERESSE NACIONAL, PÚBLICO E GERAL.
GRUPO II
DESENVOLVA AS SEGUINTES QUESTÕES:
1. APRESENTE A DISCUSSÃO EM TORNO DA DEfiNIÇÃO DE CIÊNCIA DA
ADMINISTRAÇÃO EM SENTIDO LATO E EM SENTIDO RESTRITO.
2. ENUNCIE OS PRINCÍPIOS GERAIS DE ORGANIZAÇÃO E DEMONSTRE A SUA
IMPORTÂNCIA.

I GRUPO
1 - A desconcentração (consagrada no artigo 267º, nº 2 da CRP) ocorre quando o estado transfere as
atribuições decorrentes das suas competências para um dos diversos órgãos da sua própria estrutura.
Pressupõe a existência de uma só pessoa jurídica, ou seja, opera ao nível interno da mesma pessoa
jurídica. Convém referir que há vários níveis, graus e formas de desconcentração. Relativamente
aos níveis podemos distinguir a desconcentração central e local, consoante ocorra no âmbito da
administração central ou local. Quanto aos graus pode ser absoluta ou relativa: absoluta quando os
órgãos atingidos pela desconcentração deixam de ser órgãos subalternos e passam a ser órgãos
independentes; relativa quando a desconcentração é menos intensa e os órgãos subalternos, mantém
a subordinação destes ao poder do superior. Finalmente, quanto às formas temos a desconcentração
originária e derivada: originária quando decorre imediatamente da lei, que desde logo reparte a
competência entre o superior e os subalternos; derivada, quando apesar de carecer de permissão
legal expressa, só se efectivar mediante um acto de delegação de poderes [1].
A descentralização (consignada no artigo 267º, nº 1 da CRP) é a transferência de poderes e/ou
competências entre pessoas colectivas de direito público diferentes, ou seja, quando o estado
desempenha algumas das suas funções por meio de outras pessoas jurídicas, o que pressupõe a
existência de duas pessoas jurídicas: o estado e a entidade que recebe a atribuição. Normalmente,
distingue-se a descentralização administrativa (que incide, apenas, sobre a função administrativa) da
descentralização política (que engloba mais do que a função administrativa). Importa, também,
referir que o Prof. Freitas do Amaral [2] faz a distinção das formas e graus da descentralização.

1
Freitas do Amaral (2ª Edição) – Curso de Direito Administrativo, vol.I Coimbra: Almedina, 1994, pp. 660-661
2
Idem: pp. 697-698
1
Quanto às formas pode ser territorial (quando dá origem à existência das autarquias locais),
institucional (quando origina os institutos públicos e as empresas públicas) e a associativa (quando
origina as associações públicas).
A devolução de poderes é o sistema em que a transferência de “alguns interesses públicos do
estado, ou de pessoas colectivas de população e território, são postos por lei, a cargo de pessoas
colectivas públicas de fins singulares” (ex: institutos e associações públicas). (Freitas do Amaral;
1994: pp. 713). A devolução de poderes assume três modalidades: perspectiva administrativa
(transferência da administração central do estado para a administração periférica do estado como é o
caso das CCDR - comissões de coordenação e desenvolvimento regional), perspectiva executiva
(deslocação de competências e atribuições em determinadas áreas, do governo da república para os
governos regionais) e, finalmente, a perspectiva legislativa que abarca a transferência de
competências legislativas nacionais (AR) para as assembleias regionais.
2 – O conceito de “interesse nacional” decorre, em primeira instância, do estabelecido na
constituição portuguesa. Numa primeira abordagem, podemos referir o estipulado nos “princípios
fundamentais” (artigos 1º a 11º da crp), no entanto, também se configuram como de interesse
nacional os discursos programáticos do Presidente da República, Primeiro-ministro e leis
fundamentais aprovadas pela Assembleia da República. Por outro lado são, também, de interesse
nacional os programas dos governos e as grandes opções do plano. Para finalizar, convém referir
alguns objectivos considerados de interesse nacional tais como a celebração da primeira
constituição da república portuguesa, após o 25 de abril de 1974 e as inovações introduzidas pelas
revisões constitucionais que operaram pela democratização plena, opção pela economia de
mercado, voto presidencial extensivo aos portugueses emigrantes, alterações institucionais para que
Portugal pudesse fazer parte da união europeia e candidatura de Portugal à adesão às comunidades
europeias, para citar algumas (BILHIM; 2008: p. 90).
O conceito de “interesse público” menos amplo, mas utilizado de forma mais extensiva que o
interesse nacional, consagra realidades expressamente previstas na lei, a acção do governo e outros
órgãos de soberania, de outras entidades de natureza institucional inseridas na acepção lata do
estado e no exercício de atribuições que a CRP ou lei ordinária lhes confiou, bem como outras
entidades (que podem ser privadas) com atribuições de serviço público conferidas por lei.
Finalmente, o conceito de “interesse geral” “decorre de imperativos de cidadania em sociedades
democráticas” (BILHIM; 2008; p.92) uma vez que o estado tem obrigação de assegurar bens
colectivos a todos os cidadãos, sem distinção alguma.

2
II GRUPO
3 – Em sentido lato, a ciência da administração tem como objecto de estudo quer a administração
pública quer a privada. Interessante verificar que num e noutro caso, a ciência da administração se
confunde com a teoria organizacional. Normalmente utiliza-se o termo “gerir” para organizações
privadas e “administrar” para organizações públicas. As correntes de pensamento dividem-se e
surgem explicações mais ou menos lógicas. Assim, nas organizações privadas os gestores são vistos
como agentes que trabalham para alcançar os objectivos e o crescimento da organização, recorrendo
à utilização mais eficiente dos recursos. No caso das organizações do sector público, cabe aos
funcionários públicos implementar e executar as políticas do governo pelo que, a utilização
eficiente dos recursos, se torna secundária [3]. No entanto, para os generics theorists [4] no qual
Herbert Simon se integra, os métodos e as práticas de “gestão” podem ser aplicados a organizações
públicas, e os de “administração” a organizações privadas. Resumindo, em sentido lato, a ciência da
administração não valoriza o contexto político da actividade administrativa.
Em sentido estrito a Ciência da Administração trata do estudo científico da administração pública,
cujas actividades se destinam à satisfação das necessidades colectivas, pelo que se encontra imbuída
de dependência instrumental do poder político. Como dissemos anteriormente, cabe aos
funcionários públicos implementar e executar as políticas do governo. O Prof. Freitas do Amaral, a
administração pública e a privada distinguem-se “pelo objecto em que incidem, pelo fim que visam
prosseguir e pelos meios que utilizam” (AMARAL; 1994: pp.42-43).
4 – Os princípios gerais da organização são dez:  O princípio dos objectivos preconiza a
necessidade da classificação dos objectivos por prioridade. Isto deve-se à necessidade de serem
atribuídos os recursos (humanos, materiais, financeiros e equipamentos);  O princípio da
separação diz-nos que os serviços devem ser definidos, sempre que possível, de acordo com a sua
função dominante (serviços executivos; controlo, auditoria e fiscalização e coordenação). Por outro
lado, o trabalho de gestão, de apoio do trabalho e execução operacional devem ser separados;  O
princípio da autoridade e responsabilidade é, na verdade, um conjunto de vários princípios onde
cabem pressupostos como a clareza das linhas de autoridade, direito de exigir actos dos outros,
corrigir, coordenar e decidir, bem como outras tantas;  O princípio da unicidade do comando diz-
nos que “ninguém deve reportar a mais do que um chefe”;  O princípio da especialização
preconiza que cada pessoa deve limitar-se a uma única tarefa, sempre que possível;  O princípio
da coordenação diz-nos que esta, para ser eficaz, deve ser exercida sobre um número limite de
indivíduos;  O princípio da flexibilidade compõe-se de dois outros que se complementam: a

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http://www.slideshare.net/anamsantos74/c-adm-i-1-a-ap-como-objecto-de-estudo-09-10
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Grupo de teóricos que defende a concepção unitária e homogeneizada da Ciência da Administração, dando pouco valor às particularidades da
administração pública face à privada.
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estrutura deve ser flexível e deve ser o mais simples possível para tornar a comunicação mais fácil:
 O princípio da funcionalidade assenta no pressuposto de que uma função não pode ser atribuída a
mais do que um órgão criado para o efeito;  O princípio do controlo diz-nos que não podem ser
atribuídas à mesma pessoa, responsabilidades que impliquem um controlo recíproco;  Finalmente
o princípio da desconfiança diz-nos que devemos desconfiar da tendência das pessoas que fazem
depender o seu serviço da gestão de topo, como sejam os directores, administradores, etc.
Cabe, aqui, referir a Lei nº 4/2004 de 15.01 – PRACE (programa de reestruturação da administração
central do estado) que estabeleceu a diferença entre as missões operacionais (principais políticas e
acções públicas) de cada ministério e funções de suporte (traduzem-se nas actividades
complementares às missões operacionais).