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Introdução

Finalizando um percurso com vista à promoção


da autonomia e da responsabilidade do aluno
do 3.º ciclo do ensino básico, Ponto e Vírgula 9
mantém a aposta numa apresentação e numa
organização conducentes ao desenvolvimento
das competências do modo oral e escrito e do
conhecimento explícito da língua portuguesa.

Para tal concorrem também as actividades


propostas ao longo do manual, as quais,
em consonância com os textos seleccionados,
procuram favorecer a reflexão e a intervenção
personalizada e crítica por parte do aluno face
às questões que lhe são colocadas.

Deste projecto fazem igualmente parte o cd áudio,


as transparências, o Guião do Professor e o Caderno
de Actividades.

Desejamos a todos um bom trabalho.

As autoras,
Constança Palma
Sofia Paixão
Índice geral
Unidade 0 – Estratégias
12 À descoberta do manual 13 O estudo acompanhado

Unidade 1 – A História da Língua Portuguesa


Títulos Texto Oralidade Funcionamento Actividades
Autores Leitura da Língua – Análise
Imagem Escrita e Reflexão
22 Expressão oral Observação de transparência
Um tronco comum: Texto informativo Leitura para informação Indo-europeu: ramificações Observação de mapa;
o indo-europeu e estudo crucigrama
Henriette Walter
24 A actualidade da língua grega Texto e quadro Leitura para informação Importância do grego: raízes Guião de leitura
Henriette Walter informativos e estudo etimológicas e seu significado
26 A origem das línguas Texto informativo Leitura para informação Línguas românicas: origem Observação de transparência;
românicas e estudo e evolução preenchimento de esquema
lacunar
O latim na sua origem: Texto informativo Leitura para informação Importância do latim: raízes Passatempo
uma língua de agricultores e estudo etimológicas e seu significado
Henriette Walter
28 O português: «onde a terra Texto e quadro Leitura para informação Origem e evolução Observação de mapa;
acaba e o mar começa» informativos e estudo do português: superstrato passatempo
Traços germânicos
algo modestos
29 O peso lexical do árabe
Henriette Walter
31 As noções de estrato, Texto informativo Leitura para informação Origem e evolução do português: Preenchimento de espaços
substrato, superstrato e estudo estrato, substrato, superstrato
e adstrato e adstrato
António Borregana
33 Uma língua literária Texto informativo Leitura para informação Origem e evolução do português: Observação de mapa; leitura
de prestígio e estudo galaico-português, fixação na pista do pormenor
O nascimento de Portugal da norma do português
Henriette Walter
34 A independência de um reino
e de uma língua
Paul Teyssier
O nascimento do português
Henriette Walter
35 Arcaísmo Texto informativo Leitura para informação Evolução do português: Guião de leitura
Jacinto do Prado Coelho e estudo arcaísmo
A formação do português Texto informativo Leitura para informação Evolução do português: Leitura na pista do pormenor
clássico e estudo português clássico, latinismo,
Paul Teyssier cultismo
36 As noções de étimo, Texto informativo Leitura para informação Origem e evolução do português: Escolha múltipla, preenchimento
via popular e via erudita, e estudo étimo, vias popular/erudita, de quadro lacunar;
palavras divergentes palavras divergentes/conver- guião de leitura
e palavras convergentes gentes
António Borregana
38 Quadro informativo Leitura para informação Origem e evolução do português: Preenchimento de espaços
e estudo radicais latinos e seu significado
40 A evolução fonética Texto e quadro Leitura para informação Evolução do português: Guião de leitura
António Borregana informativos e estudo processos fonéticos de queda,
adição e alteração
41 A evolução semântica Texto informativo Leitura para informação Evolução do português: Preenchimento de quadro
António Borregana e estudo evolução semântica lacunar
42 O século xv: a época dos Texto e quadro Leitura para informação Evolução do português: Passatempo
grandes descobrimentos informativos e estudo neologismo e estrangeirismo
Palavras vindas de longe
Henriette Walter
43 A introdução de neologismos
a partir do Renascimento
e dos descobrimentos
44 O mundo lusófono Texto informativo Leitura para informação Evolução do português: Observação de mapa
Celso Cunha e Lindley Cintra e estudo lusofonia
Unidade 2 – O Texto Dramático
Textos introdutórios
Textos informativos – Leitura para informação e estudo
46 Breve história do teatro 47 Entre a Idade Média 48 Vida de Gil Vicente 52 A «Barca do Inferno»
Maria Leonor Buescu e o Renascimento Paul Teyssier Paul Teyssier
Fidelino de Figueiredo

47 Influências do teatro 48 A «Copilação» de 1562 50 Quem era Gil Vicente? 52 Estrutura e personagens
vicentino Paul Teyssier António José Saraiva do Auto da Barca do Inferno
António José Saraiva Mário Fiúza

Auto da Barca do Inferno – texto dramático integral


Títulos Texto Oralidade Funcionamento Actividades
Autores Leitura da Língua – Análise
Imagem Escrita e Reflexão
46 Expressão oral Observação de transparência
54 Auto da Barca Texto
do Inferno dramático
Gil Vicente integral
Argumento e Cena Leitura orientada: comportamento Evolução da Língua Portuguesa: Leitura na pista do pormenor;
de Introdução das personagens, didascália arcaísmos; palavras divergentes; guião de leitura
vias erudita e popular
Imagem Expressão oral Leitura iconográfica
56 Cena do Fidalgo Leitura orientada: caracterização Registo de língua; formação Crucigrama; guião de leitura;
e comportamento das persona- de palavras; evolução fonética; preenchimento de quadro;
gens, argumentos de acusação/ vias erudita e popular criação de texto – entrevista
defesa, destino, personagens-
-tipo, personagens alegóricas,
símbolo cénico, processos de
cómico, figura de estilo; escrita
para apropriação de técnicas
e modelos
63 O Fidalgo Texto Leitura para informação e estudo
Ana Paula Dias informativo
A nobreza no tempo
de Gil Vicente
A.H. de Oliveira Marques

64 Cena do Onzeneiro Leitura orientada: caracterização Arcaísmos; evolução fonética; Sopa de letras; verdadeiro/falso;
e comportamento das persona- tipos e formas de frase; elemen- guião de leitura
gens, argumentos de acusação/ tos da oração; classe morfológica
defesa, destino, percurso cénico,
processos de cómico, figura
de estilo
67 O Onzeneiro Texto Leitura para informação e estudo
Ana Paula Dias informativo
Velho Avarento Poema Leitura recreativa
Bocage
68 Cena do Parvo Leitura orientada: caracterização Classe morfológica; evolução Escolha múltipla; palavras
e comportamento das persona- semântica; evolução fonética; cruzadas; guião de leitura
gens, percurso cénico, processos pronome; nome; elementos
de cómico da oração
71 A função do Parvo Texto Leitura para informação e estudo
António José Saraiva informativo
Características
do Parvo
Paul Teyssier

72 Cena do Sapateiro Leitura orientada: caracterização Campo semântico; duplo sentido Estabelecimento de correspon-
e comportamento das persona- da linguagem; vias erudita e dências; preenchimento
gens, argumentos de acusação/ popular; evolução fonética; de espaços; guião de leitura;
defesa, destino, símbolo cénico, formação de palavras preenchimento de quadro
figura de estilo; escrita para lacunar; criação de texto –
apropriação de técnicas carta de reclamação
e modelos
Índice geral
Unidade 2 – O Texto Dramático
Auto da Barca do Inferno – texto dramático integral
Títulos Texto Oralidade Funcionamento Actividades
Autores Leitura da Língua – Análise
Imagem Escrita e Reflexão
76 Cena do Frade Leitura orientada: caracterização Evolução fonética; nome; Palavras cruzadas; escolha
e comportamento das persona- elementos da oração; conjunção múltipla; guião de leitura;
gens, argumentos de acusação/ e locução conjuncional criação de texto – texto
defesa, destino, símbolo cénico, de opinião
processos de cómico, didascália;
escrita para apropriação
de técnicas e modelos
80 A vela da fé que Texto Leitura para informação e estudo
o mundo recusa informativo
M.a Leonor García da Cruz

82 Cena da Alcoviteira Leitura orientada: caracterização Campo semântico, evolução Estabelecimento de correspon-
e comportamento das persona- semântica; classe morfológica; dências; preenchimento
gens, argumentos de acusação/ elementos da oração; de frases; guião de leitura
defesa, destino, símbolo cénico, conjugação verbal
figura de estilo
86 O julgamento Texto Leitura para informação e estudo
da alcoviteira informativo
M.a Leonor García da Cruz

88 Cena do Judeu Leitura orientada: caracterização Registo de língua; formação Preenchimento de texto
e comportamento das persona- de palavras lacunar
gens, argumentos de acusação/
defesa, destino, símbolo cénico
90 A «cegueira judaica» Texto informativo Leitura para informação
M.a Leonor García da Cruz e estudo
92 A questão judaica
José Hermano Saraiva
93 Judeus
A.H. de Oliveira Marques
94 Cena do Corregedor Leitura orientada: caracterização Origem e evolução do português: Guião de leitura; crucigrama;
e do Procurador e comportamento das persona- étimo; relação fonética e gráfica ordenação de sequências;
gens, argumentos de acusação/ entre palavras preenchimento de quadro
defesa, destino, símbolo cénico, lacunar
tipos de cómico, figura de estilo
100 O julgamento Texto Leitura para informação e estudo
dos magistrados informativo
e dos homens de leis
M.a Leonor García da Cruz
101 Juízes e corregedores
A.H. de Oliveira Marques

102 Cena do Enforcado Leitura orientada: caracterização Campo semântico; formação Preenchimento de quadro
e comportamento das persona- de palavras; evolução semântica lacunar; guião de leitura;
gens, argumentos de acusação/ pesquisa histórico-social
defesa, destino, símbolo cénico,
figura de estilo; leitura para
informação e estudo
105 O Enforcado Texto Leitura para informação e estudo
Ana Paula Dias informativo
106 Cena dos Quatro Leitura orientada: caracterização Processos fonéticos; elementos Crucigrama; guião de leitura
Cavaleiros e comportamento das persona- da oração
gens, destino, símbolo cénico,
percurso cénico
107 Cavalaria e bula Texto Leitura para informação e estudo
de cruzada informativo
Joel Serrão
108 As cruzadas
Michel Balard

Trabalho de Projecto (cidadania)


109 O Texto Dramático: sistematiza- Ficha de análise global
ção de conhecimentos (ficha de Auto da Barca do Inferno
de conceitos literários, p. 112)
Unidade 3 – O Texto Épico
Textos introdutórios
Textos informativos – Leitura para informação e estudo
114 Renascimento, Humanismo 116 As ideias do Renascimento, 117 Os Lusíadas e o ideal 119 O desejo de um poema épico
e Classicismo do Classicismo renascentista da epopeia nacional
Maria Leonor Buescu e do Humanismo António José Saraiva Bol. Fund. Calouste Gulbenkian
em Os Lusíadas
115 Os Lusíadas: tipos Maria Alda Soares da Silva 118 O projecto de Camões 120 Camões e os
de inspiração e fontes e as epopeias clássicas descobrimentos
Maria Leonor Buescu António José Saraiva Vasco Graça Moura

Poemas dedicados a Luís Vaz de Camões


Poemas – Leitura recreativa
122 Luís, o Poeta, Salva a Nado o Poema 124 Camões e a Tença 125 Fala Apócrifa de Camões
Almada Negreiros Sophia de Mello Breyner Andresen David Mourão-Ferreira

124 Camões 125 A Luís de Camões 125 Camões, Grande Camões


Miguel Torga Jorge Luís Borges Bocage

Os Lusíadas – texto épico


Títulos Texto Oralidade Funcionamento Actividades
Autores Leitura da Língua – Análise
Imagem Escrita e Reflexão
114 Expressão oral Observação de transparência
126 Os Lusíadas Texto épico
Luís de Camões
127 Proposição Leitura orientada: caracterização Neologismo; conjunção subordi- Preenchimento de quadro
do herói épico, finalidade da obra, nativa; pronome; oração subor- lacunar; guião de leitura;
figura de estilo, planos da obra dinada; função da linguagem; estabelecimento de corres-
modo verbal pondências
130 Proposição e Invocação Excerto Leitura recreativa
da Ilíada de epopeia
Proposição e Invocação
da Odisseia
Homero
Proposição da Eneida
Virgílio
131 O Infante Poema Leitura orientada: intencionalidade Leitura na pista do pormenor;
Fernando Pessoa comunicativa guião de leitura
132 Invocação Leitura orientada: partes do poema, Modo verbal; adjectivo Sopa de letras; criação de texto
intencionalidade comunicativa;
escrita expressiva e lúdica
133 Dedicatória Leitura orientada: intencionalidade Guião de leitura;
comunicativa; leitura para informação pesquisa histórica
e estudo
134 Episódio do Consílio Leitura orientada: sequências narrativas, Origem etimológica e evolução Leitura na pista do pormenor;
dos Deuses partes do poema, planos narrativos, de vocábulos; oração subordi- numeração de sequências
descrição do espaço, caracterização nada; locução conjuncional narrativas; guião de leitura;
e comportamento de personagens, subordinativa; elementos criação de texto – texto argu-
argumentos de personagem, enalteci- da oração mentativo; pesquisa mitológi-
mento do herói, figura de estilo; ca; observação de mapa;
escrita para apropriação de técnicas observação de esquema
e modelos; leitura para informação
e estudo
142 Episódio de Inês Expressão oral; leitura orientada: Formas de frase; locução Observação de transparência ;
de Castro elementos da narrativa, sequências conjuncional subordinativa leitura na pista do pormenor;
narrativas, intencionalidade comunica- sopa de letras; estabelecimen-
tiva, caracterização e comportamento to de correspondências; nume-
de personagens, argumentos de per- ração de sequências narrati-
sonagem, narrador, tragédia e lirismo, vas; preenchimento de quadro
figura de estilo; leitura para informação lacunar; guião de leitura; esco-
e estudo lha múltipla; pesquisa biblio-
gráfica e iconográfica
Índice geral
Unidade 3 – O Texto Épico
Os Lusíadas – texto épico
Títulos Texto Oralidade Funcionamento Actividades
Autores Leitura da Língua – Análise
Imagem Escrita e Reflexão
149 Texto sem título Prosa Leitura recreativa Leitura na pista do pormenor
Herberto Helder poética
150 A narração – descrição Texto Leitura para informação e estudo
no episódio de Inês informativo
de Castro
Silvério Benedito
O drama de Inês
de Castro
José Hermano Saraiva
152 Inês de Castro: história
e literatura
M.a Leonor M. de Sousa
153 Os túmulos
de Alcobaça
António José Saraiva

154 Episódio da Batalha Leitura orientada: sequências narrati- Adjectivo; forma verbal; Crucigrama; guião de leitura;
de Aljubarrota vas, caracterização e comportamento advérbio; superstrato; latinismo; criação de texto – banda
de personagens, herói épico, modo de origem etimológica de vocábulos desenhada
representação do discurso, narrador, e seu significado; conjugação
intencionalidade comunicativa, figura verbal
de estilo; escrita expressiva e lúdica
159 A batalha Texto Leitura para informação e estudo
de Aljubarrota informativo
A.H. de Oliveira Marques
160 O triunfo militar
dos portugueses
José Hermano Saraiva
161 Nuno Álvares Pereira:
o homem e a lenda
António José Saraiva

162 Despedida em Belém Compreensão de enunciados orais; Origem etimológica de vocábu- Audição de canção; escolha
leitura orientada: descrição do espaço, los e sua evolução; família múltipla; leitura na pista do
caracterização e comportamento de de palavras; adjectivo; nome; pormenor; guião de leitura;
personagens, narrador, enaltecimento advérbio; latinismo; oração criação de texto – notícia
do herói, figura de estilo; escrita para subordinada; elementos
apropriação de técnicas e modelos da oração
165 Mar Português Poema Compreensão de enunciados orais; Nome; forma verbal Audição de leitura expressiva;
Fernando Pessoa leitura orientada: estrofe, verso, rima, palavras cruzadas; guião de
intencionalidade comunicativa, figura leitura
de estilo
166 Episódio do Gigante Leitura orientada: caracterização Evolução semântica e fonética; Leitura na pista do pormenor;
Adamastor e comportamento de personagens, vias popular e erudita; oração guião de leitura; preenchimento
enaltecimento do herói, intencionali- subordinada; tempo verbal de espaços; escolha múltipla;
dade comunicativa, simbologia, tom criação de texto – autobiografia
épico e tom lírico, figura de estilo;
escrita para apropriação de técnicas
e modelos
171 O Mostrengo Poema Compreensão de enunciados orais; Tempo verbal; tipos de frase Audição de leitura expressiva;
Fernando Pessoa expressão oral; leitura orientada: leitura expressiva; leitura
localização geográfica e temporal, comparativa
caracterização e comportamento de
personagens, enaltecimento do herói,
sequências narrativas, simbologia
172 Adamastor Texto Leitura para informação e estudo
António José Saraiva informativo
Cabo da Boa Esperança
Enciclopédia Portuguesa
e Brasileira
173 Naufrágios
Rodrigues Lapa
Os Lusíadas – texto épico
Títulos Texto Oralidade Funcionamento Actividades
Autores Leitura da Língua – Análise
Imagem Escrita e Reflexão
174 Episódio Leitura orientada: sequências narrativas, Adjectivo; tipos de frase; advérbio; Ordenação de imagens; preen-
da Tempestade figura de estilo, descrição do espaço, origem etimológica e evolução chimento de quadro lacunar;
caracterização e comportamento de vocábulos; prefixo; evolução guião de leitura; escolha múl-
de personagens, intencionalidade fonética; elementos da oração; tipla; criação de texto – diário
comunicativa, planos da obra; advérbio; locução conjuncional
escrita expressiva e lúdica coordenativa; oração subordinada
182 A personagem Vasco Texto Leitura para informação e estudo
da Gama no episódio informativo
da Tempestade
Silvério Benedito

183 Horizonte Poema Leitura orientada: intencionalidade Verdadeiro/falso;


Fernando Pessoa comunicativa guião de leitura
Trabalho de projecto (cidadania)
185 A Epopeia: sistematização de conheci- Ficha de Análise Global
mentos (Ficha de Conceitos Literários, de Os Lusíadas
p. 188)

Unidade 4 – O Texto Narrativo


Contos integrais
190 A Aia Narrativa Leitura orientada: texto narrativo; Diminutivo; adjectivo; advérbio; Guião de leitura de conto
Eça de Queirós integral escrita para apropriação de técnicas conjunção subordinativa; oração integral; criação de texto –
e modelos subordinada; elementos da ora- texto de opinião
ção; classe morfológica; tipos
de frase; modo de apresentação
do discurso
197 Mestre Finezas Narrativa Leitura orientada: texto narrativo; Advérbio e locução adverbial; Guião de leitura de conto
Manuel da Fonseca integral escrita para apropriação de técnicas tempo verbal; conjugação verbal; integral; criação de texto –
e modelos oração coordenada; elementos texto argumentativo
da oração
203 Assobiando à Vontade Narrativa Leitura orientada: texto narrativo; Classe morfológica; diminutivo; Guião de leitura de conto
Mário Dionísio integral comunicação oral regulada por técnicas conjugação verbal; forma verbal; integral; debate (cidadania)
modo de apresentação do discurso

Excerto narrativos
208 Uma Aventura Excerto Leitura orientada: espaço, personagem, Elementos da oração; Guião de leitura; proposta
Fernão Mendes Pinto narrativo narrador; escrita para apropriação classe morfológica; oração de leitura integral de Peregri-
de técnicas e modelos subordinada nação; criação de texto – texto
narrativo
211 O Duelo Excerto Leitura orientada: acção, espaço, tempo, Elementos da oração; classe Guião de leitura; proposta
Ernest Hemingway narrativo caracterização e comportamento morfológica; oração subordinada; de leitura integral de O Velho
de personagem, modo de representação tempo e modo verbal e o Mar; criação de texto –
do discurso, figura de estilo; desenlace
escrita expressiva e lúdica
213 Uma Experiência Excerto Leitura orientada: acontecimento, Origem etimológica de vocábulos; Guião de leitura; proposta
de Sonho narrativo espaço, caracterização, comportamento elementos da oração; tempo de leitura integral de Davam
José Régio e relevo de personagens, tempo, acção, verbal; pontuação Grandes Passeios aos Domin-
narrador, modo de representação gos; criação de texto – retrato
do discurso, figura de estilo; escrita
para apropriação de técnicas
e modelos
216 O Observador Excerto Expressão oral; leitura orientada: Tempo e modo verbal Guião de leitura; proposta
Vergílio Ferreira narrativo sequências narrativas, caracterização de leitura integral de Contos;
e comportamento de personagem, pesquisa biobibliográfica
modo de representação do discurso,
figura de estilo; leitura para informação
e estudo
217 O Texto Narrativo: sistematização
de conhecimentos (Ficha de Conceitos
Literários, pp. 217–218)
Índice geral
Unidade 5 – O Texto Poético
O trabalho poético
Títulos Texto Oralidade Funcionamento Actividades
Autores Leitura da Língua – Análise
Imagem Escrita e Reflexão
220 Imagem Expressão oral Leitura iconográfica
221 Texto sem título Prosa Compreensão de enunciados orais; Forma verbal Audição de leitura expressiva;
Miguel Torga poética leitura orientada: trabalho poético guião de leitura
Canção do Lavrador Poema Leitura orientada: trabalho poético; Leitura na pista do pormenor;
Ruy Belo expressão oral leitura comparativa; guião
222 Corpoema de leitura; leitura expressiva
David Mourão-Ferreira

Valor das Palavras Poema Leitura orientada: trabalho poético Leitura na pista do pormenor;
Almada Negreiros leitura comparativa;
223 Cinco Palavras Cinco Pedras guião de leitura
Ruy Belo
Aprendiz na Oficina da Poesia
Ruy Knopfli

Outros poemas em diálogo


224 Eros e Psique Poema Compreensão de enunciados orais; Audição de leitura expressiva,
Fernando Pessoa leitura orientada: campo semântico preenchimento de espaços;
guião de leitura
225 «Não posso amar» Poema Leitura orientada: esquema Leitura na pista do pormenor; guião
José Gomes Ferreira rimático; tipo de rima de leitura
Gato que Brincas na Rua Poema Leitura orientada; Leitura na pista do pormenor;
Fernando Pessoa escrita expressiva e lúdica leitura comparativa; guião de leitura;
226 Não Repararam Nunca? criação de texto – poema
António Nobre

227 São Belas – Bem o Sei, Poema Compreensão de enunciado orais; Audição de leitura expressiva; leitura
Essas Estrelas leitura orientada comparativa; preenchimento
Almeida Garrett de quadro lacunar; guião de leitura
Hai-Kai
David Mourão-Ferreira

228 Do Vale à Montanha Poema Expressão oral; leitura orientada: Leitura expressiva; guião de leitura
Fernando Pessoa ritmo, figura de estilo
229 Duna Poema Leitura orientada: simbologia; Leitura na pista do pormenor; leitura
David Mourão-Ferreira escrita expressiva e lúdica comparativa; preenchimento
O Valor do Vento de quadro lacunar; guião de leitura;
Ruy Belo criação de texto – acróstico
Intempérie
Matsuo Bashô

230 Tenho Tanto Sentimento Poema Compreensão de enunciados orais; Audição de leitura expressiva; leitura
Fernando Pessoa leitura orientada: tema, denotação/ comparativa; verdadeiro/falso; esta-
231 Escada sem Corrimão conotação; escrita expressiva belecimento de correspondências;
David Mourão-Ferreira e lúdica, figura de estilo criação de texto – poema
232 Barca Bela Poema Leitura orientada: tema; Leitura comparativa; leitura
Almeida Garrett expressão oral dramatizada
Heroísmos
Cesário Verde
233 Georges! Anda Ver o meu País
de Marinheiros!
António Nobre
234 E Se de Repente
José Gomes Ferreira
Caravela
David Mourão-Ferreira
235 O Texto Poético: sistematização de
conhecimentos (Ficha de Conceitos
Literários, pp. 235–236)

237 Caderno de Funcionamento da Língua


UNIDADE 0

Estratégias
À descoberta do manual
O estudo acompanhado
À descoberta do manual

Ilustração de Teresa Conceição


Para conheceres o teu manual de Língua Portuguesa, propomos-te o seguinte:
1 Consulta o índice e diz os nomes das unidades do teu manual.

2 Procura, no índice, a indicação de uma ficha sobre o texto dramático, épico, narrativo e/ou poético.
Abre o manual nessa página e descobre o que contém.

3 Procura, no índice, a indicação de um conteúdo de funcionamento da língua. Abre o manual na


página indicada e descobre o que contém.

4 Procura, no índice, a primeira página de uma unidade, vai até essa página e diz o que observas.

5 Nas unidades 2, 3 e 4, descobre:


• uma referência bibliográfica;
• uma legenda de imagem;
• uma chamada de atenção para o caderno de funcionamento da língua / a unidade 1 / o estudo
acompanhado;
• uma caixa com indicação para a realização de um debate / um trabalho de projecto / uma
proposta de escrita / uma pesquisa histórica / uma pesquisa mitológica / uma pesquisa
bibliográfica e iconográfica;

• um ícone de cd;

• um ícone de transparência.

6 Nas unidades 2 e 3 descobre uma ficha de análise global da obra estudada.

7 Folheia a subunidade O estudo acompanhado e descobre três assuntos aí tratados. Deves consultar
essa subunidade, com mais atenção, ao longo do ano lectivo.

12 U N I DADE 0 – E STRATÉG IA S
O estudo acompanhado

Ilustração de Teresa Conceição


A organização do estudo
• manter o caderno diário actualizado e organizado;
• conhecer e descodificar bem o manual escolar;
• esclarecer sempre todas as dúvidas que surjam;
• estabelecer e cumprir um horário de trabalho, distribuindo
e planificando as tarefas a realizar;
• fazer esquemas e resumos pessoais da matéria, resolver
fichas e exercícios de treino, imaginar questões;
• dominar o significado habitual dos verbos utilizados nas
instruções das fichas de trabalho e de avaliação, tais como:

agrupar – formar grupos expandir – tornar maior


alterar – modificar, tornar diferente explicar – tornar claro, fazer compreender
apontar – dizer qual é fazer levantamento – indicar, discriminan-
assinalar – marcar do-os, os elementos com interesse para
atentar – prestar atenção uma descrição
identificar – dizer quem é ou qual é
atribuir – dar
interpretar – explicar, tornar claro
caracterizar – dar características
justificar – dizer porquê, explicar o motivo
citar – mencionar um texto ou um autor
em apoio de uma demonstração, localizar – dizer onde é, indicar o lugar
de um argumento ou de uma opinião ou o tempo
comentar – falar ou escrever sobre numerar – ordenar por números
um assunto observar – olhar com atenção
para descobrir
comparar – mostrar o que é igual
e o que é diferente ordenar – pôr por ordem
comprovar – mostrar que uma coisa recolher – reunir, juntar
é verdadeira recriar – criar de novo
criticar – dar uma opinião, indicando, reescrever – voltar a escrever
por exemplo, vantagens referir – indicar, dizer qual é
ou desvantagens relacionar – estabelecer uma comparação,
definir – explicar o que é, como é, comparar
de forma completa reparar – notar, ver
delimitar – dizer onde começa e onde resolver – encontrar a solução
acaba resumir – dizer, em poucas palavras,
distinguir – indicar as diferenças entre as ideias mais importantes
duas ou várias coisas; separar coisas seleccionar – escolher
diferentes sugerir – lembrar, fazer vir à ideia
elaborar – fazer, compor transcrever – copiar, isolando-a, para efei-
enumerar – dizer um a um tos de exemplificação, uma parte de um
exemplificar – dar exemplos texto, que deves colocar entre aspas

• estudar continuamente e com antecedência, ou seja, deixando para a véspera dos momentos
de avaliação apenas uma última revisão da matéria.

U N I DADE 0 – E STRATÉG IA S 13
O estudo acompanhado

Ilustração de Teresa Conceição


A consulta do dicionário
O dicionário é o livro (ou cd-rom) onde se encontram, por
ordem alfabética, as palavras de uma língua e o seu significado.
Deves conhecer bem o modo como está organizado, ou seja, as
partes que o compõem.
Na consulta do dicionário, deves ter em conta as seguintes
etapas:
• procura a primeira letra da palavra cujo significado desconheces. Depois, procura as primeiras
letras dessa palavra. Lembra-te que os substantivos e os adjectivos encontram-se sempre no
masculino e no singular e que os verbos estão sempre no modo infinitivo;
• quando tiveres encontrado a palavra, tem em atenção os seus significados e selecciona o que
melhor se adequa ao contexto em que a palavra está inserida. Caso não entendas alguma das
abreviaturas que acompanham a palavra no dicionário, consulta a lista de abreviaturas, no
início ou no final do mesmo;
• substitui, na frase, a palavra original pelo significado que seleccionaste no dicionário. Se a
frase fizer sentido, terás feito a escolha correcta. Caso contrário, terás de voltar a consultar o
dicionário.

A consulta da gramática
A gramática é o livro que expõe as regras do funcionamento da língua.
Na consulta de uma gramática, deves começar por observar o índice.
Ilustração de Teresa Conceição

É aí que deves procurar a referência ao tema ou assunto sobre o qual


queres obter informação. Assim que o tiveres encontrado no índice,
segue até à página ou ponto que te for indicado. Uma vez localizado
esse tema ou assunto na gramática, lê atentamente a informação que te
é dada.

A consulta da enciclopédia
Ilustração de Teresa Conceição
A enciclopédia é uma obra, em livro ou cd-rom, que
abrange todos os conhecimentos relativos a uma ciência ou a
um grupo de ciências. Deves conhecer o modo como está
organizada, ou seja, as partes que a compõem.
De acordo com a organização da enciclopédia, ao consul-
tá-la, deves procurar a primeira letra da palavra do tema ou
do assunto sobre o qual queres obter informação, procurando
depois as primeiras letras dessa palavra, ou observar o índice
e procurar aí a referência a esse tema ou assunto, seguindo
até à página que te for indicada. Uma vez localizado o tema ou assunto na enciclopédia, lê atenta-
mente a informação que te é dada.

14 U N I DADE 0 – E STRATÉG IA S
Ilustração de Teresa Conceição
A consulta da internet
A internet é uma rede informática ao nível mundial, onde podes obter e trocar
as mais variadas informações.
Para acederes a conteúdos na internet, poderás fazê-lo de duas formas:
• se souberes o endereço do site (sítio) onde obterás a informação desejada, digita-o;
• se não tens conhecimento de nenhum endereço a esse propósito, deverás aceder a um site
(sítio)/portal que possua um motor de pesquisa. Eis os endereços de alguns portais, sendo os
quatro primeiros em língua portuguesa e o último em inglês:

http://www.sapo.pt http://www.clix.pt http://www.yahoo.com


http://www.altavista.pt http://www.google.pt

Quando tiveres acedido a um desses sites (sítios)/portais, insere, no campo de pesquisa, o termo
ou uma palavra que tenha a ver com o que queres pesquisar e obterás uma lista de sites (sítios)
que contêm informação eventualmente útil.
Seguidamente, apresentamos-te uma lista de assuntos que talvez te possam interessar:

www.projectos.TE.pt/links
para saber mais sobre...

• Direitos humanos; • Ambiente;


• Amnistia Internacional; • Greenpeace; O Sapo explica…
• Unicef; • Jornais diários (informação on-line); Língua
Portuguesa
• DECO – Defesa do Consumidor • Literatura portuguesa;
9.o ano.
(Revista Proteste); • Escritores portugueses de literatura
• Infocid (informação ao cidadão); infanto-juvenil.

Como tirar apontamentos


Quando decides retirar informação de um texto escrito, é necessário ter em conta alguns proce-
dimentos:
• faz uma leitura atenta do texto;
Ilustração de Teresa Conceição

• consulta o dicionário, por forma a esclareceres todas as


dúvidas de vocabulário;
• sublinha as ideias principais;
• não deixes de reler o texto, sobretudo as partes que te
pareçam mais difíceis, até achares que o compreendeste bem;
• faz anotações na margem, colocando as palavras-chave1 ;
• podes utilizar cores diferentes para sublinhar, setas,
numerações, pontos de interrogação para dúvidas…;
• organiza num esquema ou regista, por palavras tuas, as
ideias principais do texto.
1
palavra que resume a ideia transmitida.

U N I DADE 0 – E STRATÉG IA S 15
O estudo acompanhado

Ilustração de Teresa Conceição


A participação num debate
O debate é a troca organizada de informações,
pretendendo-se aprofundar um tema, partilhar
opiniões e conhecimentos.
Na organização do debate, deves proceder à:
• definição de um tema;
• escolha de um moderador, com a função de:
– «abrir» a discussão;
– assegurar, de modo organizado e imparcial, a circulação de ideias;
– dar a palavra a todos;
– controlar a agressividade e o ataque pessoal.
• selecção de secretário(s) com a função de:
– controlar o tempo e a frequência de cada intervenção;
– registar, por escrito, os aspectos mais importantes apresentados/debatidos;
– preencher uma grelha, no final, de modo a reflectir sobre a forma como decorreu o debate.

Para exprimires as tuas opiniões, podes recorrer a diferentes expressões, tais como:
• dar opinião – acho, penso que, considero que, na minha opinião, segundo julgo;
• explicar – isto é, ou seja, isto significa;
• exemplificar – para dar um exemplo, para exemplificar;
• pedir esclarecimento – podias explicar melhor…? o que significa…? o que queres dizer com…?
• afirmar e/ou concordar – deste modo, sem dúvida, certamente, estou de acordo;
• protestar e/ou discordar – de modo algum, não se trata disso, não concordo;
• manter e/ou recuperar a palavra – gostaria de acrescentar, além disso, como dizia;
• concluir uma intervenção – para terminar, finalmente, em suma, resumindo.

O desenvolvimento do trabalho de projecto


Para procederes à construção de um trabalho de projecto, é necessário
Ilustração de Teresa Conceição

respeitares algumas etapas:


• escolha do tema ou assunto a desenvolver;
• escolha da metodologia de trabalho (individual ou em grupo);
• investigação e recolha das informações necessárias;
• planificação do trabalho:
– fazer um levantamento dos recursos necessários;
– identificar as dificuldades a ultrapassar;
– organizar e distribuir tarefas (quem faz, o que faz, como faz, onde
faz e quando faz);
• avaliação do trabalho e sua reformulação (caso esta última seja
necessária);
• apresentação e partilha dos resultados, que deve ser previamente
pensada, planificada e preparada por todos.

16 U N I DADE 0 – E STRATÉG IA S
Ilustração de Teresa Conceição
A autobiografia, a biografia e a biobibliografia
A autobiografia é um texto onde alguém conta a sua
própria vida.
A biografia é a descrição da vida de alguém feita por
outra pessoa.
A biobibliografia é a descrição simultânea da vida e da
obra de um autor.
Na descrição da vida de alguém, podemos referir datas
importantes, nacionalidade e naturalidade, actividades
desenvolvidas, projectos realizados. Na descrição da obra
de alguém, podemos indicar os títulos que a compõem (em
itálico ou sublinhado, se escritos à mão), as suas datas de
publicação, os prémios que eventualmente lhe foram atri-
buídos, os temas e as características dessa obra.

A criação do texto narrativo


Ao criares um texto narrativo, deves pensar nos seguintes aspectos:
• a acção – os acontecimentos a narrar e o modo como se desenrolam;
• as personagens – os intervenientes nesses acontecimentos;
• o espaço – o(s) lugar(es) onde decorrem os acontecimentos;
• o tempo – a altura em que decorrem os acontecimentos;
• o narrador – participante ou não participante (a pessoa que utiliza para narrar a história, ou
seja, a 1.a ou a 3.a), subjectivo ou objectivo (dá opiniões sobre a história que conta ou, pelo
contrário, não faz comentários).

Deves, ainda, decidir se os acontecimentos são narrados por ordem cronológica ou não, sabendo
que o pretérito perfeito do indicativo é um tempo verbal muito utilizado nos textos narrativos para
contar esses acontecimentos.
Podes optar por dar muitas ou só algumas indicações sobre as perso-
nagens, construindo o seu retrato de forma mais ou menos pormenoriza-
da, e se decidires incluir as suas falas, deves ter em atenção as regras do
discurso directo, bem como as da construção do diálogo.
Podes situar com maior ou menor precisão a tua história no tempo e
no espaço, intercalando a narração com momentos de descrição.
Deves articular as frases e os parágrafos, de modo a que a tua narra-
tiva evolua com coerência.
Procura utilizar uma linguagem expressiva, utilizando os recursos
expressivos que conheces.
Não te esqueças de atribuir um título atractivo ao teu texto narrativo,
que estimule a sua leitura.

Ilustração de Teresa Conceição

U N I DADE 0 – E STRATÉG IA S
17
O estudo acompanhado

Ilustração de Teresa Conceição


A construção do diálogo
Existe diálogo quando as personagens falam directamente
umas com as outras.
Ao reproduzires as palavras das personagens, tornas o teu
relato mais vivo e espontâneo. No entanto, é preciso ter em aten-
ção alguns aspectos:
• a fala das personagens é indicada por um travessão (—) ou
por aspas (« »), que se colocam no início de um parágrafo;
• para dar espontaneidade ao diálogo, podes utilizar: o ponto
final (.), para fazer uma afirmação ou declaração; o ponto de
exclamação (!), para expressar sentimentos e emoções; o ponto de interrogação (?), para
fazer uma pergunta; as reticências (…), para exprimir um pensamento inacabado; as interjei-
ções; o vocativo.

Na construção das falas das personagens, observamos, muitas vezes, que há uma excessiva
utilização do verbo dizer. Eis uma lista de outros verbos: acrescentar, afirmar, concluir, concordar,
declarar, discordar, exclamar, garantir, gritar, hesitar, interromper, murmurar, ordenar, pedir, per-
guntar, protestar, resmungar, responder, segredar (entre outros).

A construção do retrato
Ao fazeres o retrato de uma pessoa ou de uma personagem, podes descrever o seu aspecto físico
e/ou psicológico.
Na construção do retrato físico, observa a pessoa ou a personagem e regista, ordenadamente,
os aspectos mais significativos do rosto (olhos, nariz, boca, lábios, queixo, sobrancelhas, pestanas,
bigode, barba, tez, expressão facial, olhar, trejeitos), do cabelo (cor, tamanho, tipo), do corpo (esta-
tura, compleição, silhueta, modo de andar, roupa) e da voz. Utiliza adjectivos, pronomes pessoais e
possessivos e verbos como ser, ter e estar, no presente ou no pretérito imper-
feito do indicativo.
Na construção do retrato psicológico de uma pessoa ou de uma persona-
gem, refere alguns dos seus comportamentos (o que diz, o que mais e/ou
menos gosta de fazer, como é quando está com os amigos…), atitudes (se é
confiante, solidária, egoísta, responsável, generosa…) e emoções mais carac-
terísticas (se sente medo, alegria, tristeza, vergonha, ciúme…).
Tornarás o retrato mais expressivo, se transmitires as tuas sensações e
emoções sobre a pessoa ou personagem retratadas.
Podes, igualmente, ordenar as tuas observações da impressão do conjunto
para os pormenores ou dos pormenores para o aspecto global.
Ilustração de Teresa Conceição

18 U N I DADE 0 – E STRATÉG IA S
Ilustração de Teresa Conceição
A elaboração do texto descritivo
Descrever um lugar, uma paisagem ou um objecto é dizer como eles
são, pormenorizadamente e de forma organizada. Na elaboração de um
texto descritivo, deves ter em conta as seguintes etapas:
• escolhe um ponto de observação, isto é, um ponto a partir do qual descrevas o que observas;
• observa atentamente o que pretendes descrever e regista a impressão geral e a visão de con-
junto do lugar, da paisagem ou do objecto;
• na descrição de um lugar ou de uma paisagem, localiza os seus elementos por secções (à
direita, à esquerda, ao centro, em cima, em baixo) e por planos (primeiro, segundo, terceiro,
à frente, por detrás, ao fundo). Caracteriza esses elementos, usando adjectivos;
• na descrição de um objecto, refere os seus traços mais característicos (forma, tamanho, cor,
peso, cheiro, som). Depois, apresenta alguns dos seus pormenores. Utiliza adjectivos na apre-
sentação dos traços mais característicos e dos pormenores do objecto;
• segue a ordem das tuas observações, na construção dos parágrafos do texto, utilizando o pre-
sente ou o pretérito imperfeito do indicativo.

Ilustração de Teresa Conceição


A escrita do resumo
Num resumo, deves reduzir o texto ao seu essencial, omitindo
quaisquer opiniões ou juízos sobre os factos ou ideias apresen-
tados nesse texto. Não deves acrescentar nenhuma informação.
Não deves incluir citações ou diálogos.
Na escrita de um resumo, deves seguir as seguintes etapas:
• lê atentamente o texto a resumir;
• procura no dicionário o significado das palavras desconhecidas;
• sublinha as ideias principais de cada parágrafo ou parte do texto a resumir, tomando notas;
• organiza essas ideias de um modo lógico, elaborando um esquema;
• redige o resumo com uma linguagem simples e directa;
• relê o resumo redigido, certificando-te de que este não ultrapassa um terço do texto original.

A redacção da notícia
Para redigires uma notícia, deves ter em conta os seguintes aspectos:
• o título, o qual deve ser breve, atractivo e conter informação que oriente o leitor;
• o subtítulo (eventualmente), o qual deve acrescentar informação ao título;
• o primeiro parágrafo ou lead, no qual devem estar as respostas às questões quem?
(quem é o sujeito da notícia?), o quê? (o que é noticiado?); quando? (quando ocorreu
o que é noticiado?) e onde? (onde ocorreu o que é noticiado?);
• o(s) parágrafo(s) seguinte(s), no qual devem estar as respostas às questões como? (como
decorreu o que é noticiado?) e porquê? (por que razão ocorreu o que é noticiado?);
• a linguagem da notícia deve ser simples, clara e corrente, usando-se a terceira pessoa
e, essencialmente, os nomes e os verbos (os adjectivos qualificativos devem ser evi-
Ilustração de Teresa Conceição
tados), assim como deve permitir uma única interpretação.

U N I DADE 0 – E STRATÉG IA S 19
Ilustração de Teresa Conceição
O estudo acompanhado

A elaboração do guião de entrevista


Antes de elaborares o teu guião de entrevista, tens de seleccionar o
seu tema e objectivo assim como o entrevistado.
Ao elaborares o teu guião de entrevista, deves redigir as perguntas tendo em conta o tema e o
objectivo da mesma, mas deves fazê-lo também de acordo com o teu entrevistado e o interesse
dessas perguntas para o leitor. As tuas perguntas nunca devem influenciar as respostas do entre-
vistado. Deves estabelecer um número limite para as mesmas e ordená-las de modo a que seja
possível detectar a evolução da tua entrevista, com princípio, meio e fim.

A elaboração do texto expositivo


Ao elaborares um texto expositivo, deves respeitar a seguinte estrutura:
• introdução – deves referir o problema sobre o qual vais reflectir, mencionar a razão
de ser desse problema, ou seja, situá-lo no contexto, e indicar os vários pontos
que vais desenvolver ao longo da tua exposição;
• desenvolvimento – deves aprofundar cada um dos pontos que indicaste na introdução;
• conclusão – deves resumir o que disseste no desenvolvimento, de modo a mos-
trares ao leitor a resolução do problema e a convencê-lo a aderir às tuas ideias.
O teu texto deve cativar o interesse do leitor, de modo a que ele partilhe as tuas ideias.
Para isso terás de ser concreto, provando o que vais dizendo com vários exemplos.
Ilustração de Teresa Conceição

A construção do regulamento

Ilustração de Teresa Conceição


Antes de contruíres o regulamento, tens de colocar à discussão e à apro-
vação os direitos e os deveres do grupo que se vai reger pelo mesmo, bem
como prever ao máximo as várias situações que possam ocorrer.
Ao construíres o regulamento, define as regras com clareza, organiza-as
da mais geral para a mais particular, numera-as e separa-as por parágrafos.

A elaboração da carta de reclamação


Quando escreveres uma carta de reclamação, inclui os seguintes elementos:
• o nome e o endereço do remetente;
Ilustração de Teresa Conceição

• o nome e o endereço do destinatário;


• o local e a data;
• uma exposição breve do problema que te levou a escrever a carta;
• o prazo que propões para a resolução desse problema;
• o que pensas fazer se o teu pedido não for satisfeito (deves evitar as ameaças);
• um pedido de resposta;
• uma referência aos eventuais documentos que anexas à carta, ou seja, facturas,
recibos, contratos, etc. (guarda os originais e envia cópias);
• a tua assinatura.
A tua carta de reclamação deve ser registada e enviada com aviso de recepção.

20 U N I DADE 0 – E STRATÉG IA S
UNIDADE 1

A História da Língua
Portuguesa
A história da língua portuguesa

Observa a transparência 1, na qual se reproduz o quadro «A Torre de Babel», do pintor flamengo


Pieter Brueghel (1525/1530–1569), e aponta alguns aspectos da lenda que lhe está associada.
Depois, observa a transparência 2, onde encontras a reprodução de um dos mais antigos docu-
mentos escritos em português.

Lê atentamente o seguinte texto sobre a origem comum das várias línguas.

Um tronco comum: o indo-europeu

Há mais de 7000 anos, houve uns invasores, A par destas quatro línguas que partiram à con-
provenientes das zonas mais recônditas da quista do mundo, não devemos esquecer a exis-
região do Mar Negro, que ao longo de vários tência de outras frequentemente ignoradas mas
milénios atravessaram a cavalo todo o conti- que formam uma longa lista, de entre as quais se
nente europeu, das estepes ao Oceano Atlânti- conta o grego, a que se juntam as línguas prove-
co. Através do contacto com os povos com que nientes do latim, bem como as línguas germâni-
depararam no caminho, as suas línguas foram- cas e as eslavas, ou ainda as célticas, sem esque-
-se diversificando de uma forma tal, que hoje cer uma língua bem antiga, o basco, de entre
em dia o panorama linguístico do Ocidente todas a língua resistente por excelência.
apresenta uma diversidade dificilmente per- De onde se conclui que o panorama actual das
ceptível através das fronteiras políticas. A maior línguas é de alguma forma o reflexo da história
parte das línguas da Europa pertence contudo a dos povos que as modelaram. Contudo, esse
uma mesma família, a família indo-europeia, panorama não é estático e é difícil precisar os
que nunca deixou de se propagar mais para seus contornos.
oeste, tendo chegado a galgar o Atlântico quan- Os linguistas têm boas razões para sustentar
do o castelhano, o português, o inglês e o fran- o postulado de que um grande número das lín-
cês se tornaram as línguas dominantes das guas da Europa e da Ásia — do inglês ao russo,
Américas. do albanês ao grego, do hindu ao persa, do

g e r
m â n i c a s

As Grandes Zonas Linguísticas


s

As línguas mais representativas


a

da Europa actual pertencem a três


e s l a v

ramos das línguas indo-europeias:


o românico, o germânico e o eslavo.
As línguas menos faladas (as de
n i c a s
m â origem céltica, o grego, o basco…)
o
r não figuram neste mapa, por se
pretender aqui dar conta apenas
das grandes zonas linguísticas.

22 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


arménio ao curdo — provêm de uma mesma lín- Após um aturado estudo de correspondências
gua de origem, designada pelo termo indo-euro- deste tipo, estabelecido quer no domínio dos
peu. Não se trata, todavia, de uma língua atesta- sons, quer no da gramática e do léxico, chega-
da em termos históricos, devido à inexistência ram os linguistas à conclusão de que línguas
de documentos escritos em indo-europeu — como o italiano, o alemão, o irlandês e o hindi
esta mesma língua originária remonta a uma podiam ser provenientes de um antepassado
época em que a escrita não tinha sido ainda comum, o qual passaram a designar por indo-
inventada. -europeu.
O indo-europeu é pois uma língua reconstruí- Se considerarmos agora a situação linguística
da teoricamente pelos linguistas a partir da da Europa tal como se nos apresenta na actuali-
comparação das línguas cuja existência pôde dade, podemos inferir que ela é resultante de
ser certificada. Através do método da compara- grandes movimentos populacionais ocorridos
ção, puderam constatar a existência efectiva de durante o III milénio a.C.. Os povos provenientes
semelhanças palpáveis, entre as diversas lín- das estepes acabaram por impor na «velha Euro-
guas, tão numerosas que dificilmente se admiti- pa», salvo raras excepções, as línguas indo-
ria serem fruto do acaso: só para dar um exem- -europeias: as helénicas (o grego), as itálicas (as
plo, «mãe» dizia-se mater em latim (língua de línguas românicas, provenientes do latim), as
que derivavam as línguas românicas), mothar célticas, as germânicas, as eslavas…
em gótico (a mais antiga língua germânica de Os povos itálicos, por seu lado, tinham-se des-
existência comprovada), mathir em irlandês tacado do grupo principal para se dirigirem para
arcaico (língua céltica), matar na antiga língua a península que constitui hoje a Itália, também
da Índia. em duas vagas que se sucederam uma à outra.
Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar (texto com supressões)

1 Resolve o seguinte crucigrama e descobre na palavra escondida outro nome dado às línguas
românicas, entre as quais se inclui o português.

1. Região de onde vieram os invasores,


há mais de 7000 anos. 11
2. Família à qual pertencem as línguas 4
europeias na sua maioria.
7
3. Um dos continentes por onde se
espalhou o indo-europeu. 2
4. Uma das línguas que derivaram 8
do indo-europeu.
3
5. Uma das línguas que derivaram
do indo-europeu. 5
6. Conjunto de línguas que derivaram 10
do indo-europeu.
1
7. Conjunto de línguas que derivaram
do indo-europeu. 9
8. Conjunto de línguas que derivaram 6
do indo-europeu.
9. Uma das línguas que derivaram
do indo-europeu.
10. Um dos continentes por onde se 11. Nome das línguas que derivaram
espalhou o indo-europeu. do latim.

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 23


A história da língua portuguesa

Lê atentamente o seguinte texto e o quadro apresentado.

A actualidade da língua grega

Da filosofia à arte poética e ao teatro, da mito- vra que, de resto, testemunha bem a sua origem
logia à história, das artes plásticas à arquitectu- grega (alfa-beta)1 na estrutura etimológica que
ra, a antiga Grécia constitui para os euro- possui.
Fragmento de fresco
do palácio de
peus a única referência verdadeira- Ao proceder à passagem do silabário para o
Cnossos mente fundamental. Ora, o âmbi- alfabeto, o grego desempenhou um papel essen-
to da história de todas as lín- cial na história da escrita.
guas europeias é mais um Toda a civilização grega, que na altura do
dos campos onde a Grécia Império romano estava disseminada por vastos
tem um lugar de destaque, espaços, foi veiculada, como modelo privilegia-
vindo-nos de imediato à do, juntamente com a língua grega, pelos escri-
memória, termos como bio- tores e oradores latinos. Na Antiguidade, a lín-
logia ou democracia, pedia- gua grega desfrutava de um prestígio tão grande
tria ou nevralgia, estereofonia, na Grécia, que um estrangeiro que a não soubes-
poliglota ou talassoterapia, as se falar era considerado um bárbaro, por se
quais evocam em nós, centenas de entender apenas do que dizia o ruído [brbrbr…],
outros termos. Este fenómeno patenteia-se ao qual nenhum significado se podia atribuir.
de uma forma tal, que conseguimos identificar, Terá sido apenas por não quererem ser enca-
nas mais diversas línguas europeias, vários ter- rados como bárbaros que os Romanos, sucesso-
mos gregos cuja forma escrita é praticamente res dos Gregos no domínio político, mantiveram
idêntica de língua para língua. De facto, palavras o hábito de recorrer ao grego para enriquecer o
como biologia ou democracia, alergia ou higiene, seu vocabulário erudito? Apesar da simplicida-
sem dificuldade se detectam em qualquer língua de deste raciocínio, a verdade é que constata-
da Europa. mos que as formas gregas ou greco-latinas pro-
Mas há mais: a Grécia, que foi o berço da civili- liferaram precisamente nos estratos mais pres-
zação ocidental, desempenhou um papel essen- tigiados do vocabulário das línguas contempo-
cial na implantação e difusão do alfabeto, pala- râneas.
1
Nomes das duas primeiras letras do alfabeto grego: α e β.

Todos somos de alguma forma helenistas


Sem chegarmos ao limite de imitarmos os médicos, que tratam a nossa coriza quando temos uma simples
constipação, curam a nossa cefaleia quando temos dores de cabeça e nos prescrevem um catéter quando
necessitamos de uma sonda, com eles nos parecemos ao utilizarmos na nossa vida corrente, sem o sabermos,
uma variedade enorme de termos gregos.

Vegetais Animais Corpo Humano Vida prática


amêndoa nardo baleia moreia artéria órgão adega igreja
esteva ópio camaleão ostra braço plasma anedota papel
miosótis pepino camelo pirilampo brônquio poro catálogo polícia
narciso pétala medusa polvo estômago próstata corda sandália

Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar (texto com supressões)

24 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


Observa o seguinte quadro.

Na maior parte das línguas da Europa, podemos identificar várias raízes etimológicas de origem grega, as
quais constituem elementos de base que se utilizam na formação de palavras eruditas.

Raízes etimológicas de origem grega


ana- («de baixo para cima») pseudo- («falso») micro- («pequeno»)
cata- («de cima para baixo») estrepto- («torcido») nano- («anão»)
palino- («ao invés») dino- («aterrador») braqui- («curto»)
tanato- («morte») lepto- («magro»)
-tropo («que se vira para»)
-fobo («que tem medo») dolico- («longo»)
-filo («amigo»)
-maquia («combate») paqui- («espesso»)
-latra («que venera»)
taqui- («rápido»)
cloro- («verde»)
teo- («deus») idio- («próprio de»)
ciano- («azul»)
pan- («todo») calo- («belo»)
leuco- («branco»)
crono- («tempo»)
-morfo («forma de»)
mios- («rato»)
piro- («fogo») -fono («que emite sons»)
-sauro («lagarto»)
hidro- («água») -fago («que come»)
-piteco («macaco»)
termo- («calor») -norma («que rege»)
crio- («frio») -derme («pele») -crata («que governa»)
helio- («sol») -céfalo («cabeça») -scópio («que observa»)
seleno- («lua») -rino («nariz») -bolo («que lança»)
astero- («estrela») gloto- («língua»)
-grafia («escrita»)
talasso- («mar») esterno- («peito»)
-glifo («inscrição gravada»)
-podo («pé»)
pótamo- («curso de água») logo- («discurso»)
dáctilo- («dedo»)
oro- («montanha») -logia («ciência»)
lito- («pedra») narco- («paralisação») macro- («grande»)
oniro- («sonho») -pole («cidade»)
criso- («ouro»)
-iatra («médico») tribo- («esfrega»)
xilo- («madeira»)
hipno- («sono») -tomia («corte»)
dendro- («árvore»)
demo- («povo») -teca («depósito»)
filo- («folha»)
xeno- («estrangeiro») -terato («monstro»)
-coco («grão»)
caco- («mau») -foro («que leva»)

Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar

1 Com base no quadro apresentado, explica o significado das seguintes palavras. Consulta o dicio-
nário para confirmares as tuas opções.

• cronologia; • dinossauro; • helioscópio; • microscópio; • teologia;


• dactilografia; • filocrata; • idiolatra; • paquiderme; • xenófobo;
• democrata; • fonoteca; • litografia; • pirófobo; • xilofone.

2 A partir das raízes etimológicas de origem grega, cria palavras imaginárias em português e par-
tilha-as com a turma.
e xe m plo : Cacoteu («deus do mal»); astericoco («grão em forma de estrela»);
hipnoglota («que fala a dormir»); taquidáctilo («com os dedos ágeis»).
(Adaptado de A Aventura das Línguas do Ocidente, Terramar)

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 25


A história da língua portuguesa

Observa as transparências 3 e 4. Depois, relaciona a informação contida nessas transparências com


o conteúdo do texto que se segue.

A origem das línguas românicas

O indo-europeu deu origem, entre outras lín- nos conquistaram o seu vasto império, o latim,
guas, ao grego, ao germânico, ao céltico e ao que passou a ser falado pelos povos vencidos,
latim. Este era inicialmente falado na região do veio a dar origem às chamadas línguas români-
Lácio, cuja capital era Roma. Quando os roma- cas ou novilatinas.

1 Completa o esquema com as palavras indicadas.

português / línguas românicas / indo-europeu / línguas novilatinas / francês

........................ › latim vulgar › ........................ ou ........................ › ........................


espanhol
romeno
italiano

........................

Lê atentamente o seguinte texto sobre o latim na sua origem e resolve o passatempo apresentado.

O latim na sua origem: uma língua de agricultores

A história de Roma começou como um conto – revolução a partir da qual ficou instituída a
de fadas, com um príncipe e com uma deusa, Repúbica (509 a.C.).
prosseguindo num emaranhado de factos len- É a partir do séc. VI a.C., contudo, que se consi-
dários, por um lado e, por outro lado, de factos dera que começou verdadeiramente a ascensão
historicamente comprovados: de Roma, cuja língua se veio a expandir depois
– Eneias, filho de um príncipe de Tróia e de na maior parte das terras conquistadas.
Vénus, deusa do amor, depois de fugir dos A República durou cinco séculos (do séc. VI a.C.
Gregos, veio instalar-se em Itália; ao séc. I a.C.), sucedendo-lhe o Império, que durou
– dois recém-nascidos, abandonados no leito outros cinco séculos, até 476 d.C., data da queda
do Tibre (Rómulo e Remo), foram miraculo- da parte do Ocidente. O Império do Oriente prolon-
samente salvos por uma loba que os passou gou-se por mais um milénio, sendo a data da sua
a amamentar; queda (1450 d.C.) a marca do fim da Idade Média.
– um episódio fraticida (Rómulo mata Remo); Hoje em dia, depois de tantos séculos de con-
– a fundação de Roma (Rómulo, primeiro rei de vívio com um latim que se tornou o verdadeiro
Roma no ano 753 a.C.); protótipo de uma língua erudita, com dificulda-
– rapto das Sabinas para povoar a cidade; de aceitamos que, ainda no século III a.C., se tra-
– grandes obras de drenagem (a cloaca maxi- tasse de uma língua de agricultores, de merca-
ma, «o grande esgoto») que vieram a permi- dores e de soldados, tendo servido até essa
tir que a planície pantanosa do Forum, cen- época apenas para registar por escrito algumas
tro da vida pública de Roma, secasse; fórmulas jurídicas ou práticas.

26 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


Contudo, basta porém examinar com alguma
detenção a língua latina para nela descortinar
facilmente abundantes traços que reflectem, com
as suas imagens, a omnipresença da vida rural
nesta língua.
É para o domínio agrário que somos remetidos
quando pensamos no vocabulário dos livros e da Dido Sacrifica-se a Juno, ilustração da Eneida de Virgílio
poesia, porquanto era ao mundo rural que se apli-
cavam de início expressões como página, verso, Mais dificilmente imaginamos como se pôde
rúbrica ou o próprio termo livro. A palavra pagina passar do verbo legere, cujo sentido inicial era
(em português: página) começou por ser um «colher» para «ler». Talvez seja necessário admi-
termo agrícola que designava uma vinha que tirmos a expressão compósita legere oculis, ou
cobria um rectângulo, depois passou a designar a seja, «colher com os olhos», para compreender
folha de papiro, mais propriamente a página con- que se tenha chegado a «ler».
tendo uma só coluna de escrita por folha. O termo Quanto à palavra rubrica, que evoluiu para
verso descrevia de início, muito prosaicamente, português ganhando apenas um acento agudo
o acto de «virar a charrua ao fim do campo», a fim na sua forma escrita – rúbrica –, mantém-nos ao
de se passar a sulcar a terra no outro sentido. Com nível do próprio chão, pois tratava-se da terra
facilidade nos apercebemos que, de uma forma vermelha de que os Romanos se serviam para
metafórica, o termo tenha passado a designar escrever os títulos ou os artigos das leis do Esta-
cada linha de escrita, paralela a outras tantas do, facto que permitiu distingui-los das deci-
linhas numa página, à semelhança da forma sões dos tribunais, que eram inscritas sobre um
como no campo se alinham, ao lado uns dos quadro pintado de branco (um album). Por fim,
outros, os sulcos — e se o termo passou a desig- em latim, a palavra liber designava à partida
nar muito especificamente o verso poético, isso não o «livro», mas sim o tecido vegetal que se
dever-se-á à específica origem rústica deste, a encontra entre a madeira e a casca exterior do
qual hoje em dia está esquecida mas que era tronco da árvore.
ainda transparente no tempo dos Romanos.
Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar (texto com supressões)

pa s s at e m p o

Que significariam as palavras delirare (delirar), rivalis (rival), pauper (pobre) e luxus (luxo) para
um falante do latim no século III a.C.:

a) «aquele que tinha direito ao mesmo rivus, ou seja, ao mesmo curso de água para irrigar o seu campo»;

b) «provisão pouco abundante de produtos da terra»;

c) «vegetação que crescia em excesso, de uma forma luxuriante, o que comprometia a colheita»;

d) «sair da lira, que significava “sulco”, portanto, sair do sulco»?

solução: a) rivalis; b) pauper; c) luxus; d) delirare.

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 27


A história da língua portuguesa

Lê atentamente os dois textos que se seguem e resolve o passatempo proposto. Depois, lê tam-
bém com atenção o texto da página 29, bem como a informação dos quadros que se lhe seguem.

O português: «onde a terra acaba e o mar começa»

O português nasceu no extremo sudoeste da mânicas (a partir do séc. v), depois da ocupação
Europa, num território que constituía grande árabe (a partir do séc. viii), de que subsistem
parte da antiga província romana da lusitania e marcas inconfundíveis na língua portuguesa.
que Camões designou como o lugar «onde a
A Lusitania no tempo dos romanos
terra acaba e o mar começa». O mapa da lusita-
nia mostra as diferenças entre os limites desta
província romana e o mapa actual de Portugal: o
território da lusitania não compreendia a
ta r r aco n e n s i s
região a norte do Douro (durius) e estendia-se
bem mais para leste do que o actual território de
Durius
Portugal. Englobava as cidades de Salamanca
(salamantica) e de Mérida (a antiga capital, •
salamantica
emerita augusta), sendo Lisboa (olisipo) a deg
o
n
Mo
segunda cidade da província romana. lu s i ta n i a
A palavra Portugal é relativamente posterior à
Tagus
queda do Império Romano, datando do séc. v o
emerita augusta
primeiro registo da antiga forma Portucale, a • olisipo •

qual designava de início os dois burgos situados

as
na Foz do Douro: portu (actualmente, Porto) e An
baetica
cale (que agora é Vila Nova de Gaia).
Entre a lusitania do tempo do Império Roma-
tis
Bae
no e o nascimento do reino de Portugal, sete
séculos se passaram, durante os quais o actual
território foi palco, primeiro das invasões ger-
Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar (texto com supressões)

Traços germânicos algo modestos

Após o período de ocupação romana, o territó- e exerceram o seu domínio até à chegada dos
rio que veio a tornar-se Portugal sofreu, como o Árabes, em 711. Os contactos com os povos ger-
resto da Península Ibérica, a invasão dos povos mânicos duraram três séculos, tendo sido pou-
germânicos, constituídos neste caso pelos Sue- cas, todavia, as marcas que deixaram no vocabu-
vos e pelos Visigodos. Os primeiros ocuparam o lário do português — como o podem demonstrar
noroeste da Península a partir do ano 411 d.C., as seguintes palavras: aio, luva, espora, estaca,
onde organizaram um Estado pacífico, com Bra- ganso, gana, fato, por exemplo, ou ainda roubar
cara Augusta (hoje, Braga) como capital e Portu- (termo proveniente de uma palavra germânica
cale (Porto) como primeira praça forte. Os Visigo- que significava «pôr a saque»).1
dos sucederam-se aos Suevos a partir do ano 585
1
Também a palavra «guerra» é de origem germânica.

28 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


pa s s at e m p o

Patronímicos
Considera-se uma herança germânica do português a antiga forma de constituição dos apelidos dos
filhos a partir dos nomes próprios dos pais. Assim, Fernandes, por exemplo, começou por significar «filho
de Fernando», tal como Henriques «filho de Henrique» ou Rodrigues «filho de Rodrigo».
Qual o nome do pai dos primeiros Alves? e dos Antunes? e dos Bernardes? e dos Geraldes? e dos
Gonçalves? e dos Martins? e dos Mendes? e dos Nunes? e dos Paes? e dos Pires? e dos Ramires? e dos
Sanches? e dos Vasques?

solução: Alvo (ou Álvaro), António, Bernardo, Geraldo, Gonçalo, Martim, Mendo, Nuno, Paio, Pero (ou Pedro), Ramiro, Sancho, Vasco.

Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar (texto com supressões)

O peso lexical do árabe

As influências árabes são muito mais conside- árabe acabou por só ter um peso real no sul do
ráveis. Em dois anos (711-713), a antiga lusitania país, onde as gentes durante mais tempo a ele
e a antiga galaecia foram conquistadas pelos estiveram, de facto, submetidas. A preponde-
Árabes mas, devido à rápida resposta do movi- rância árabe veio a terminar com a tomada pelos
mento da Reconquista Cristã – Coimbra veio a ser cristãos da cidade.
recuperada definitivamente em 1064 –, o domínio

Algumas palavras de origem árabe


Em português, tal como em castelhano, a maior parte das palavras de origem árabe têm em si inte-
grados o artigo al. Note-se ainda que a maior parte dos termos colhidos do árabe são sobretudo subs-
tantivos.

achaque alcofa algazarra azar


acepipes álcool algodão azeite
acelga aldeia alicate azeitona
açougue alface almofada azêmola
açoteia alfaias alquimia azenha
açúcar alfaiate anil azimute
açucena alfarrábio armazém azulejo
açude alfarrabista arrabalde baldio (adj.)
adobe alfarroba arrais javali
alambique alferes arroba mesquinho (adj.)
alazão alfinete arroz oxalá (interj.)
albarda Algarve atalaia (inch’Alá [«Deus queira»])
alcachofra («o Ocidente») atum refém1

1
Também a palavra «zero» é de origem árabe.

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 29


A história da língua portuguesa

Topónimos de origem Árabe


Tal como em Espanha, encontramos em Portugal uma série quase interminável de topónimos de ori-
gem árabe e de outros que, sendo de origem românica, sofreram alterações fonéticas ou, simplesmente,
aceitaram o artigo árabe al antes do nome românico. Eis alguns exemplos:

Albufeira («a represa») Almada («a mina») Alverca («a lagoa»)


Alcântara («a ponte») Almádena («o martelo») Alvor («o sargo»)
Alcantarilha («o esgoto») Almargem («o prado») Enxara («a charneca»)

e também:

Alcácer (de «o castelo») Algés (de «o gesso») Guadiana (de «‘‘rio’’ Ana»)
Alcoutim (de «o couto») Almoster (de «o mosteiro») Odemira (de «‘‘rio’’ Mira»)

e ainda:

Beja (de «Pax Julia») Cacela (de «Castela»)…

Palavras de sentido próximo


A sucessão de variados povos no território onde hoje se situa Portugal, portadores de línguas bem
diferentes, justifica a existência de pares de palavras de sentido muito próximo e provenientes de ori-
gens distintas. Eis alguns exemplos em que uma das palavras é de origem árabe:

Palavra arábica Palavra não arábica Palavra arábica Palavra não arábica
açafate, alcofa cesto, cabaz bátega chuvada, pancada-de-água
açoite palmada chafariz fonte
açorda migas, sopa-de-pão enxaqueca dor-de-cabeça
alarido, algazarra gritaria, chinfrim enxovia, masmorra calabouço
alcáçova castelo façanha feito
alcatifa, alfombra tapete lacrau escorpião
alcunha sobrenome macio liso, brando
aldeia povo, lugar madraço mandrião, preguiçoso
algibeira bolso rabeca violino
almanaque folhinha safra apanha, colheita
almofada travesseira tabefe bofetada
almofariz gral, pilão tareco bichano
azáfama pressa, roda-viva tarefa empreitada
azenha moinho-de-água

Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar (texto com supressões)

30 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


Lê atentamente o seguinte texto e nomeia as línguas que contribuíram para a formação do português.

As noções de estrato, substrato, superstrato e adstrato

hoje perduram no português moderno. A esses


elementos linguísticos dos povos autóctones dá-
se o nome de substrato. A grande maioria dessas
palavras entraram ainda na fase do latim vulgar,
sofrendo posteriormente transformações até
chegarem à forma actual. Os mais importantes
são os vocábulos célticos, como, por exemplo:
– camisa, cerveja, bezerro, coelho, légua.

Contribuíram também para esse substrato as


línguas de outros povos que precederam os
Romanos na Península, como, por exemplo, os
Iberos, os Fenícios, etc.

Superstrato
Expedição Viking, pormenor de iluminura inglesa
É constituído pelos elementos linguísticos
daqueles povos que vieram depois de consoli-
Estrato dado o romance, isto é, o estrato. São línguas
É constituído pela língua portuguesa no seu que coexistiram durante algum tempo com a lín-
estado primitivo, após ter emergido do latim gua local (o português primitivo) desaparecen-
vulgar. Deu-se a esta língua o nome de romance do depois, não, porém, sem deixarem a sua con-
por se considerar que era a língua romana falada tribuição linguística. As mais importantes foram
nesta região correspondente a Portugal. Os lin- o germânico (séc. v) e o árabe (séc. viii), que
guistas consideram-na estrato por se ter consti- contribuíram com muitos vocábulos, como, por
tuído sobre os elementos linguísticos dos povos exemplo:
pré-existentes, sobrepondo-se também às lín- – arrear, baluarte, guardar, guerra, roubar…
guas dos povos futuramente invasores. (germânicos);
A fusão do latim vulgar com os falares dos – algodão, alfavaca, azeite, adaíl, almôndega,
povos locais (autóctones) tomou o nome de azémola, aldeia, Alcains, alcaide, cáfila,
romance não só no caso do português, mas tam- gibão, masmorra, taful… (árabes).
bém do castelhano, francês e italiano, etc. (lín-
guas românicas), durante os primeiros tempos Adstrato
do seu longo caminho, rumo à completa indivi- É constituído pelas influências mútuas de
dualização e emancipação. duas línguas coexistentes no mesmo espaço, ou
em espaços vizinhos, mas mantendo, cada uma,
Substrato a sua individualidade própria. O português e
As línguas dos povos que precederam os o galego, por exemplo, interinfluenciaram-se
Romanos deixaram muitas palavras encorpora- durante muito tempo como adstratos, manten-
das na língua romance, algumas das quais ainda do, porém, a individualidade.
António Borregana, Gramática Universal da Língua Portuguesa, Texto Editora

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 31


A história da língua portuguesa

1 De acordo com o texto lido e as indicações dadas, completa os espaços em branco.

• Língua trazida pelo povo romano.

• Designação dada ao latim falado pelos cidadãos romanos que se espalharam pelos territórios
conquistados.

• Língua que resulta da fusão do latim vulgar com os falares autóctones.

• Designação dada às línguas derivadas dos diferentes romances, nas quais se inclui o português.

• Designação dada à língua antiga de uma dada região, a qual foi abandonada a favor de outra,
deixando porém as suas marcas.

• Designação dada à língua formada em determinada região, a qual se impôs às que já lá existiam,
sobrepondo-se também às dos invasores que surgiram depois.

• Designação dada à língua de um povo conquistador que acabou por adoptar a língua do povo
vencido, mas que lhe introduziu as suas marcas.

• Designação dada a duas línguas que ao coexistirem no mesmo espaço ou em espaços vizinhos
se influenciaram mutuamente, mas que mantiveram a sua individualidade.

• Língua que constitui o substrato mais importante do português.

• Língua que emergiu do latim vulgar e que era a língua romana na região correspondente a Por-
tugal, considerada pelos linguistas como o estrato do português.

• Línguas que constituem os superstratos mais importantes do português.

• Língua que mantém uma relação de adstrato com o português.

32 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


Lê atentamente os quatro textos que se seguem e aponta os factores históricos que permitiram a
evolução do galaico-português para o português independente.

Uma língua literária de prestígio

O português começou a tomar forma, contu- Mapa da reconquista cristã na zona


do, na parte menos arabizada do seu actual ter- do território de Portugal
Zona inicial À medida que os antigos domínios foram
ritório – a noroeste da Península Ibérica – depois do galaico-português
sendo recuperados pelos cristãos, os grupos
de o latim aí ter adquirido uma fisionomia bem populacionais do norte foram-se instalando
1000
distinta, tanto da dos seus vizinhos de Leão e de porto •
mais a sul, dando assim origem ao território
1064 português, da mesma forma que, mais
Castela, por um lado, como, por outro lado, da a leste na Península, os leoneses e os

dos grupos populacionais moçárabes do sul. Foi coimbra
1147 castelhanos também foram progredindo
nesta região onde hoje se situa a Galiza e o norte para sul e ocupando as terras que, muito
• lisboa mais tarde, se viriam a tornar no território
de Portugal que se desenvolveu desde bem 1168
do Estado espanhol.
cedo uma língua literária de prestígio – o galai-
co-português –, da qual, a partir do séc. xiv, pas- 1249

saram a derivar o português e o galego como faro

dois falares bem distintos.


O galaico-português adquiriu um tal requinte,
sob a sua forma escrita, que se tornou, no con- no um impulso decisivo na prosa, mas preferiu
junto global da Península Ibérica, uma língua escrever em galaico-português os seus versos.
poética de predilecção. O próprio rei de Castela Em Portugal, entretanto, foi D. Dinis, também
Afonso X, o Sábio (1252-1284), que tanto se ilus- ele monarca e poeta, que em 1279 determinou
trou com os seus poemas, se tornou enquanto que todos os actos jurídicos passassem a ser
poeta num dos arautos mais apreciados do redigidos em português, depois de até aí só o
galaico-português. Rei escritor, deu ao castelha- latim ter sido utilizado para o efeito.
Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar

O nascimento de Portugal

No início do séc. xiii, período em que aparece- buiu como dote a Galiza; ao mais novo, D. Henri-
ram os primeiros textos escritos em galaico-por- que, cedeu a mão de D. Teresa, juntamente com o
tuguês, já o reino de Portugal existia desde o dote que lhe atribuiu e que consistiu nas terras
século anterior, fruto do espírito da Reconquista de aquém-Minho (o rio que constitui a fronteira
e devido à doação feita pelo rei de Leão e Castela secular que separa a Galiza de Portugal). Em
ao Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henri- 1139, D. Afonso Henriques, filho do Conde D. Hen-
ques, das terras situadas a sul da Galiza. No rique e de D. Teresa, tornou-se o primeiro rei de
seguimento da conquista de Toledo em 1085 por Portugal, depois de ter feito progredir o território
D. Afonso VI, este decidiu dar as suas filhas em bem para sul, conquistando-o aos mouros, e de
casamento a dois valentes nobres provenientes ter declarado a independência face ao seu primo,
da Borgonha que o ajudaram na tomada da praça Afonso VII, rei de Leão e de Castela. O Estado por-
toledana: cedeu a Raimundo, o mais velho, a mão tuguês veio a ser reconhecido de seguida, em
da sua filha mais velha, D. Urraca, a quem atri- 1143, por bula papal.
Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 33


A história da língua portuguesa

A independência de um reino e de uma língua

Portugal constituiu-se no século xii, quando limites que, com algumas pequenas modifica-
Afonso I (Afonso Henriques), filho do conde ções, correspondem às fronteiras de hoje. Den-
Henrique de Borgonha, se tornou independente tre todas as nações europeias, Portugal é uma
do seu primo Afonso VII, rei de Castela e de Leão. daquelas cujas fronteiras variaram menos.
A residência principal do primeiro rei era Gui-
marães, no extremo norte. Os seus sucessores
começaram a frequentar de preferência Coimbra
(libertada desde 1064). E, finalmente, Afonso III,
em 1255, instala-se em Lisboa, que não mais
deixaria de ser a capital do País. Durante todo
esse período, a língua galego-portuguesa, nas-
cida no Norte, vai-se espalhar pelas regiões
Afonso Henriques meridionais, que até então falavam dialectos
e Afonso VII assinam
o Tratado de Zamora moçárabes. Lisboa, a capital definitiva, situava-
-se em plena zona moçárabe.
Tal como o castelhano, o português originou-
É à batalha de São Mamede (1128) que, tradicio- -se de uma língua nascida no Norte (o galego-
nalmente, se faz remontar esta independência, -português medieval) que foi levada ao sul pela
ainda que Afonso Henriques só se tenha feito Reconquista. Quanto à norma, porém, o portu-
reconhecer como rei nos anos seguintes. guês moderno diverge do castelhano, pois vai
Separando-se de Leão para se tornar reino buscá-la não no Norte, mas sim na região cen-
independente, Portugal separava-se também da tro-sul, onde se localiza Lisboa.
Galiza, que não mais deixaria de ficar anexada E o eixo Lisboa-Coimbra passa a formar desde
ao país vizinho – reino de Leão, reino de Castela então o centro do domínio da língua portuguesa.
e, finalmente, reino de Espanha. É, pois, a partir dessa região, antes moçárabe,
Ao mesmo tempo que se separava ao norte da que o português moderno vai constituir-se,
Galiza, o novo reino independente de Portugal longe da Galiza e das províncias setentrionais
estendia-se para o sul, anexando as regiões em que deitava raízes. É daí que partirão as ino-
reconquistadas aos «Mouros». Com a tomada vações destinadas a permanecer, é aí onde se
de Faro (1249), o território nacional atingiu os situará a norma.
Paul Teyssier, História da Língua Portuguesa, Livraria Sá da Costa (texto com supressões)

O nascimento do português

De facto, apesar de os falares do norte terem entre o galaico-português primitivo e os falares


de início absorvido e de terem praticamente das zonas de Coimbra e de Lisboa. Nesta região
substituído os falares das zonas conquistadas a surgiram depois as inovações da língua, passan-
sul, o português apresenta-se muito rico de par- do as mesmas a constituir nitidamente a partir
ticularidades desconhecidas dos dialectos do do séc. xiv o núcleo da norma do português, uma
norte do país. O português literário veio a ser o língua fortemente aberta, desde o séc. xv, a ino-
resultado de uma amálgama bem conseguida vações provenientes do ultramar.
Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar

34 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


Lê atentamente a seguinte definição.

Arcaísmo Palavra ou expressão caída em desuso e duma fase já recuada da língua. Por vezes,
os escritores dão nova vida aos arcaísmos, no propósito de evocar a atmosfera duma época
ou ainda para tirar partido da sugestividade, da beleza fónica dum vocábulo antigo.

Jacinto do Prado Coelho (dir.), Dicionário de Literatura, Figueirinhas

1 Descobre os arcaísmos nos seguintes versos retirados de cantigas galaico-portuguesas, da autoria


dos poetas medievais.

• «Bailava corpo velido:» • «Ai Deus, e u é?»


Martim Codax (século xiii) D. Dinis (séculos xiii–xiv)

• «ca os que aqui chegarem,» • «a quem me sempre coita deu.»


Joam Airas de Santiago (século xiii) Pêro da Ponte (século xiii)

1.1 Substitui os arcaísmos pelas seguintes palavras ou expressões do português actual:


«desgosto»; «belo»; «porque»; «onde está».

Lê atentamente o texto que se segue e identifica o movimento histórico-cultural que contribuiu,


no século xvi, para o enriquecimento do português.

A formação do português clássico (até ao fim do século xvi)

Na leitura de um texto de fins do século xvi, a compreender como se constituiu a língua «clás-
penosa impressão de arcaísmo dos textos anti- sica». Uma série de formas e giros que a língua
gos cede lugar a um agradável sentimento de normal do tempo já havia eliminado aparecem
modernidade. Se necessidade houvesse de fixar nas suas peças como arcaísmos característicos
uma data ou um acontecimento para marcar de certos tipos de personagens, particularmen-
essa mudança, uma e outro coincidiriam com a te de camponeses e de mulheres do povo.
publicação, em 1572, de Os Lusíadas, de Luís de É a prova de que todos esses traços eram então
Camões. A língua de Camões e de outros escrito- marcados, anormais para o público da Corte
res, como ele marcados pelo Renascimento diante do qual essas peças eram representadas.
humanista e italianizante, constitui, verdadeira- Para as formas não marcadas, ou seja, as que
mente, o português «clássico». pertenciam à língua padrão, a obra de Gil Vicente
Para chegar a essa fase, o português sofre, do constitui uma baliza preciosa, pois caracteriza a
século xiv ao xvi, uma série de transformações língua de uma sociedade que ainda não havia
que tiveram como efeito fixar a morfologia e a incorporado de todo as inovações do Renasci-
sintaxe de tal maneira que, daí por diante, pouco mento humanista e italianizante.
variarão. As formas eruditas e semieruditas, calcadas no
A obra do dramaturgo Gil Vicente, representa- latim, penetraram na língua desde as suas ori-
da de 1502 a 1536 nas cortes de D. Manuel e de gens. Este processo de enriquecimento do voca-
D. João III, é um documento importante para bulário jamais cessou. Tornou-se, porém, parti-

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 35


A história da língua portuguesa

cularmente intenso no século xv, com a prosa


didáctica e histórica, e no século xvi, em conse-
quência das tendências gerais do Renascimento
humanista. No século xv os latinismos alimen-
tam a prosa de D. Pedro (Virtuosa Benfeitoria) e a
de D. Duarte, o autor do Leal Conselheiro.
Com o Renascimento humanista e o prestígio
dos estudos latinos, este fenómeno só irá ampli-
ficar-se. O latinismo vai consistir muitas vezes
em adoptar uma ortografia etimológica para tor-
nar a forma escrita das palavras mais próxima
do latim; ex.: doctor por doutor. Entre os huma-
nistas eruditos como Damião de Góis (1502-
1574) e André de Resende (1500-1573), cujas
obras são escritas sobretudo em latim, esse pro-
cesso atinge limites extremos e chega a desfigu-
rar os termos mais usuais.
André de Resende, por exemplo, escreve hacte
em vez de «até», por imaginar que tal palavra
provenha do latim hac tenus, quando, na verda-
Iluminura da Leitura Nova de D. Manuel de, é de origem árabe.
Paul Teyssier, História da Língua Portuguesa, Livraria Sá da Costa (texto com supressões)

Lê atentamente o seguinte texto.

As noções de étimo, via popular e via erudita, palavras divergentes


e palavras convergentes

Étimo ainda transformando através do tempo. Diz-se


O étimo é o vocábulo (ou, por vezes, apenas o que essas palavras vieram para o Português por
radical), geralmente latino, donde cada uma das via popular, sendo assim vocábulos populares.
palavras portuguesas proveio. O étimo, por Via Erudita – Vocábulos Eruditos
exemplo de pai é patre e o de rio é rivu. Do séc. xiv até ao séc. xvi, com o interesse
Via Popular – Vocábulos Populares renascentista pela literatura latina e pelo latim
Grande parte das palavras portuguesas vie- clássico, os eruditos e tradutores das grandes
ram do latim por via popular, isto é, transforma- obras dos autores romanos introduziram na
das espontânea e gradualmente pelo povo, nossa língua vocábulos latinos sem os sujeita-
desde o momento em que começou a apropriar- rem a transformações, dando-lhes apenas ter-
-se do latim vulgar. Assim, as palavras agulha minação portuguesa. Chamam-se eruditos ou
(lat. acucula), chuva (lat. pluvia), e pulga (lat. cultos os vocábulos assim formados, porque
pulica), por exemplo, são vocábulos populares vieram por via erudita, como estes, por exem-
porque foi o povo que, captando-se do latim vul- plo: óculo (lat. oculu), mácula (lat. macula),
gar (talvez já com imperfeições fónicas), os foi cogitar (lat. cogitare).

36 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


Vocábulos Divergentes assumindo a mesma forma, mas tendo significa-
e Vocábulos Convergentes dos diferentes:
Chamam-se divergentes dois ou mais vocábu- rideo (forma verbal) › rio (forma verbal)
los que provieram do mesmo étimo latino: rivu (substantivo) › rio (substantivo)
vadunt (forma verbal) › vão (forma verbal)
chaga vanu (adjectivo) › vão ( adjectivo)
>
plaga > praga
>
plaga As palavras convergentes tomam também o
nome de homónimas, pelo facto de assumirem a
Dá-se, ao contrário, o nome de convergentes mesma forma: são (do verbo ser) e são (adjectivo:
aos vocábulos que vêm de étimos diferentes, saudável).
António Borregana, Gramática Universal da Língua Portuguesa, Texto Editora (texto com supressões)

1 De acordo com os conhecimentos que tens vindo a adquirir sobre a história da língua portuguesa,
assinala a opção correcta.

• O latim que originou as línguas românicas • Os cultismos/latinismos são…


foi o latim falado pelas classes humildes, as palavras latinas vindas por via popular.
ou seja,… as palavras latinas vindas por via erudita.
o latim erudito.
• A existência de duas vias, através das quais
o latim vulgar.
o latim influenciou a nossa língua, justifica
• A maioria das palavras do latim entraram que…
no português por… um étimo latino possa dar origem a mais
via erudita. do que uma palavra portuguesa.
via popular. um étimo latino só possa dar origem
a uma palavra portuguesa.
• Com o Renascimento, os humanistas
dedicam-se ao estudo das línguas antigas e, • Por sua vez, há palavras que provêm
muitas vezes, criam novas palavras de étimos diferentes e convergem para
portuguesas, que vão buscar a mesma forma vocabular, escrevendo-se…
directamente ao… de maneiras diferentes.
latim clássico. da mesma maneira.
árabe.
• As palavras divergentes são as palavras
• Essas novas palavras, criadas na época que…
renascentista e vindas por via erudita,… provêm do mesmo étimo latino.
não sofreram uma transformação tão provêm de étimos latinos diferentes.
grande como as que vieram por via
• As palavras convergentes são as palavras
popular, e que estão na origem
que…
do português.
provêm do mesmo étimo latino.
sofreram enormes alterações.
provêm de étimos latinos diferentes.

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 37


A história da língua portuguesa

2 Coloca cada palavra divergente no respectivo espaço.

madre/mãe | chave/clave | cadeira/cátedra | cuidar/cogitar | óculo/olho | pai/padre


pleno/cheio | inteiro/íntegro | solitário/solteiro | adro/átrio | arena/areia | leal/legal
sobrar/superar | facto/feito | palavra/parábola

L AT I M VIA POPULAR V I A E R U D I TA

arena
atriu
catedra
clave
cogitare
factu
integru
legale
matre
oculu
parabola
patre
plenu
solitariu
superare

3 Classifica as palavras destacadas tendo em conta a sua evolução. Justifica a tua resposta.

• valle (nome) › vale


• valet (forma verbal) › vale

O uso de radicais de origem latina e grega tornou-se habitual na linguagem técnico-científica. Esses
radicais são, muitas vezes, sentidos pelos falantes como prefixos ou sufixos. Observa os seguintes
quadros onde encontras alguns radicais latinos e o sentido para que apontam.

R A D I C A L CO M O R A D I C A L CO M O
P R I M E I RO E LE M E N TO P R I M E I RO E LE M E N TO
DA PA L AV R A SENTIDO DA PA L AV R A SENTIDO

aero ar omni todo, tudo


ambi ambos pisci peixe
arbori árvore pluri vários
bi duas vezes, dois quadri quatro
equi igual retro para trás
igni fogo semi metade, meio,
mini pequeno aproximação
multi muito, muitas vezes tri três
octo oito uni um só

38 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


R A D I C A L CO M O R A D I C A L CO M O
S E G U N D O E LE M E N TO S E G U N D O E LE M E N TO
DA PA L AV R A SENTIDO DA PA L AV R A SENTIDO

cida que mata forme forma


cola relativo a, que cultiva, gero que contém
cria ou habita ou produz
eo qualidade, referência, ício referência, relação
matéria látero lado
fero que contém pede pé
ou produz voro que come

1 Descobre as palavras que correspondem às indicações dadas, sabendo que todas são formadas
pela junção de dois radicais indicados nos quadros anteriores.

• Relativo à criação de peixes. • Animal que se desloca sobre dois pés.


P Í L Í E E

• Aparelho que produz ar, ventilador. • Que engole fogo.


E Í F O N Í O R

• Que possui quatro formas. • Que tem os lados iguais entre si.
U R F M Q Á E R

2 Tendo em conta as indicações dadas, completa as seguintes palavras com o radical latino que
consideres mais adequado.

• Relativo à alimentação. • Figura geométrica com oito lados.

aliment.................. ..................gono

• Que utiliza indiferentemente a mão direita • Que pode tudo, que tem um poder ilimitado.
e a mão esquerda.
..................potente
..................destro
• Pequeno espelho colocado no interior ou
• Estudo e prática da cultura das árvores. no exterior dos veículos automóveis para
permitir ao condutor ver o que se passa
..................cultura
atrás, na estrada.
• Que é constituído por várias células.
..................visor
..................celular
• Que tem apenas um ângulo.
• Que é feito com ferro.
..................angular
férr..................

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 39


A história da língua portuguesa

Lê atentamente o seguinte texto e observa o quadro que se lhe segue.

A evolução fonética
Processos que explicam a evolução fonética das palavras que vieram por origem popular

Os fenómenos ou transformações fonéticas menor esforço, transformando os de pronúncia


operaram-se não apenas no início da formação da mais difícil.
língua, mas também através do tempo, e ainda • Princípio da lenta evolução: as transforma-
hoje, a nível da linguagem popular. ções fonéticas operam-se lenta e insensivel-
Como se explicam as transformações fonéti- mente através de séculos.
cas da língua a nível popular? • Princípio da inconsciência: dada a lenta evo-
• Princípio do menor esforço: o povo é natural- lução, os falantes não dão conta das transforma-
mente levado a pronunciar os fonemas com o ções fónicas que se vão operando.
António Borregana, Gramática Universal da Língua Portuguesa,Texto Editora

Alguns Processos Fonéticos

Queda Alteração
Aférese Supressão de um fonema no início Assimilação Dois fonemas contíguos tornam-
da palavra: -se iguais:
episcopu › bispo persicu › pêssego
Síncope Supressão de um fonema no meio Dissimilação Consiste em evitar dois sons
da palavra: semelhantes na mesma palavra,
calidu › caldo por isso um deles torna-se
Apócope Supressão de um fonema no final diferente:
da palavra: liliu › lírio
dat › dá Nasalação Um fonema oral torna-se nasal
por influência de outro fonema
Adição nasal:
Prótese Acrescentamento de um fonema canes › cães
no início da palavra: Desnasalação Consiste na perda da ressonância
thunu › atum nasal de algumas vogais:
Epêntese Acrescentamento de um fonema luna › l~
ua › lua
no interior da palavra: Vocalização As consoantes passam a vogais:
humile › humilde multo › muito
Paragoge Acrescentamento de um fonema Contracção Duas vogais aglutinam-se numa
no final da palavra: só (crase) ou num ditongo
ante › antes (sinérese):
legere › leer › ler
animales › animaes › animais
Metátese Consiste na mudança, de lugar,
de fonemas dentro da palavra:
merulu › mer’lo › melro

40 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


1 Identifica os processos fonéticos assinalados nas seguintes palavras.

• absente › ausente • bona › bõa › boa • lege › lee › lei


• pede › pee › pé • super › sobre • opera › obra
• ipse › esse • lana › lã • flore (linguagem popular)
• creo › creio • amore › amor em vez de flor
• rotundu › rodondo › redondo • atonitu › tonto

Lê atentamente o seguinte texto.

A evolução semântica

Além da evolução fonética, que as palavras Gesto


sofreram na passagem do latim para o portu- Significava, na época Quinhentista, rosto,
guês, algumas delas sofreram também altera- fisionomia, semblante (um doce e humilde gesto
ções de sentido, determinadas por circunstân- – Camões). A mesma significa agora um movi-
cias temporais, ou espaciais. mento especial de cabeça, de braços, de olhos,
Para melhor compreensão e ilustração deste de postura corporal e até, em sentido mais geral,
fenómeno, verifique-se o que se passou com uma atitude.
algumas palavras: Estilo
Calamidade Stilum, em latim, era um estilete (de ferro ou
Do latim calamitate(m), que por sua vez, veio de bronze) com que os Romanos escreviam nas
de calamus (cana ou caule de cereais). Calami- tábuas enceradas. Posteriormente passou a
tate(m) significava, para os Romanos, qualquer designar a própria escrita feita com o estilete.
temporal que destruísse as colheitas. Este sen- Actualmente, tendo-se perdido esse significado
tido, embora se conservasse relativamente ao primitivo, estilo significa cunho especial que
campo, evolucionou com o tempo, passando a cada artista imprime à sua obra, seja ele escri-
designar qualquer desgraça ou infelicidade: uma tor, pintor ou escultor, etc. Até já se diz o estilo
calamidade! de um desportista.
António Borregana, Gramática Universal da Língua Portuguesa,Texto Editora

1 Completa o quadro, descobrindo as palavras que faltam.

PA L AV R A PA L AV R A SENTIDO SENTIDO
L AT I N A P O RT U G U E S A ORIGI NAL AC T U A L

solitariu Solitário, que vive só Homem que ainda não


casou
ministru O que serve, o que ajuda, o escravo Função elevada daquele
que serve o estado
seniore(m) Mais velho Associa-se à ideia de respeito
e utiliza-se como forma
de tratamento
salarium Importância concedida aos soldados Ordenado, vencimento
para comprarem a sua ração de sal

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 41


A história da língua portuguesa

Lê atentamente os textos que se seguem e resolve o passatempo proposto na página 43.

O século xv: a época dos grandes descobrimentos

O século xv foi, de uma forma muito específi-


ca, o século dos Grandes Descobrimentos, leva-
dos a cabo antes de qualquer outro povo pelos
Portugueses. O nome que melhor simbolizará
toda esta epopeia é o do Infante D. Henrique
(1394-1460), o terceiro filho de D. João I, que foi
quem impulsionou, facilitou e dirigiu as grandes
viagens dos Descobrimentos, sem contudo ter
sido navegador. A partir de tais viagens se ficou
a conhecer melhor a geografia de todo o globo
terrestre e se conseguiram estabelecer mapas
bem precisos, tendo o comércio passado a pro-
Nau Portuguesa
do Fim do Século XV, cessar-se de forma mais fácil, enquanto a econo-
pintura de Roque mia de Portugal se estendeu, a partir de então,
Gameiro
muito para além das suas fronteiras naturais.
Em todas estas terras, o português deixou as
suas marcas, tendo-se tornado, na maior parte
delas, a língua dos seus habitantes.

A expansão marítima
O século xv foi todo ele marcado pela expansão marítima portuguesa, devido às grandes descobertas dos
seus navegadores:
• Bartolomeu Dias (1450–1500) dobrou o Cabo da Boa Esperança;
• Pedro Álvares Cabral (1460–1526) descobriu o Brasil;
• Vasco da Gama (1469–1524) descobriu o caminho marítimo para a Índia;
• Fernão de Magalhães (1480–1521) realizou a primeira viagem de circum-navegação à volta da Terra e cru-
zou pela primeira vez o Oceano Pacífico.

Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar

Palavras vindas de longe

Os séculos xv e xvi foram por excelência os ciosas, plantas medicinais, animais nunca vis-
séculos dos navegadores portugueses, tendo tos… As próprias gramáticas, os manuais, mesmo
esse período deixado na sua língua marcas os tratados de matemática, tomavam exemplos
importantes devido ao facto de toda a população, do mundo ultramarino, propondo problemas de
pouco numerosa na época, ter participado na compra e venda de açúcar, pimenta ou chá. Não é
aventura ultramarina. Todas as famílias tinham pois de surpreender que uma parte de termos
parentes algures além-mar e Lisboa tornou-se provenientes do ultramar se tenham então intro-
num mercado exótico, onde todos os dias chega- duzido no português, nele existindo ainda nos
vam especiarias, marfim, pérolas, madeiras pre- dias de hoje.

42 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


Termos provenientes do Oriente
banzé bule catre lacre pagode pires
bengala canja chá leque paxá tufão
biombo caril chávena mandarim pária xaile

A palavra chávena formou-se a partir de chá, termo colhido do chinês. De início, a chávena destinava-se
apenas ao chá, mas com o tempo passou a designar qualquer xícara (palavra também existente em por-
tuguês, de origem italiana, mas menos usual).

Termos provenientes de África


banana cacimba macaco
cachaça candonga mandioca
cachimbo girafa zebra

Henriette Walter, A Aventura das Línguas do Ocidente – a sua origem , a sua história e a sua geografia, Terramar (adaptado)

A introdução de neologismos a partir do Renascimento e dos descobrimentos

O mundo ganhou uma nova dimensão a partir guês muitas palavras de diferentes origens, os
do Renascimento e dos descobrimentos, tendo chamados estrangeirismos. Essas palavras, que
os portugueses estabelecido novas relações com designavam novas realidades, constituíam ver-
a África, a Ásia e o Brasil. Por outro lado, também dadeiros neologismos para a época em que eram
os grandes países europeus, tais como a França, a introduzidas.
Itália, a Espanha e a Inglaterra, se tornaram cada Porém, actualmente, utilizamo-las no nosso
vez mais influentes ao longo dos tempos. Conse- quotidiano, a maior parte das vezes, sem nos
quentemente, entraram no vocabulário portu- lembrarmos que provieram de outras línguas.

pa s s at e m p o

De onde nos terão vindo as seguinte palavras?


Do brasileiro ou do alemão? Do inglês ou do espanhol? Do francês ou do italiano?
• jacaré • bar • avenida
• valsa • bife • carnaval
• cipó • tejadilho • máscara
• zinco • hóquei • chefe
• piroga • filme • maestro
• zepelim • sapatilha • chapéu
francês – avenida, chefe e chapéu; italiano – carnaval, máscara e maestro;
solução: brasileiro – jacaré, cipó e piroga; alemão – valsa, zinco e zepelim; inglês – bar, bife hóquei e filme; espanhol – tejadilho e sapatilha;

U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA 43


A história da língua portuguesa

Lê atentamente o seguinte texto e observa o mapa que o acompanha.

O Mundo Lusófono

No estudo das formas que veio a assumir a lín- Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique e
gua portuguesa em África, na Ásia e na Oceânia, é de São Tomé e Princípe e Timor Loro Sae, mas as
necessário distinguir, preliminarmente, dois tipos variedades faladas por uma parte da população
de variedades: as crioulas e as não-crioulas. destes Estados e, também, de Goa, Damão, Diu
As variedades crioulas resultam do contacto e Macau, na Ásia. Trata-se de um português com
que o sistema linguístico português estabeleceu, base na variedade europeia, porém mais ou
a partir do século xv, com sistemas linguísticos menos modificado, sobretudo pelo emprego de
indígenas. um vocabulário proveniente das línguas nativas,
Quanto às variedades não-crioulas, há que e a que não faltam algumas características pró-
considerar não só a presença do português que prias no aspecto fonológico e gramatical.
é a língua oficial das repúblicas de Angola, de
Celso Cunha e Lindley Cintra, Breve Gramática do Português Contemporâneo, Edições Sá da Costa (adaptado)

açores portugal
madeira
macau

goa
cabo verde guiné-bissau

são tomé
e príncipe
timor
brasil loro
angola sae

moçambique

Mapa do Mundo Lusófono


As regiões destacadas são aquelas em que se
fala o português. O Tratado de Tordesilhas
permitiu, nomeadamente, o alargamento
da zona de língua portuguesa ao Brasil, vindo
esta a ocupar assim mais de metade do sul
do continente americano.

44 U N I DADE 1 – A H ISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUE SA


UNIDADE 2

O Texto Dramático
Auto da Barca do Inferno: textos introdutórios

Observa a imagem da transparência 5, intitulada «O Juízo Final» do pintor flamengo Hieronymus


Bosch (1450-1516), e indica:
• os espaços que representam o Inferno e o Paraíso;
• o modo como esses espaços se organizam e as suas dimensões;
• a quantidade de figuras que povoam os dois espaços;
• a forma como as figuras estão dispostas;
• pormenores vários sobre essas figuras;
• as cores dominantes e o contraste entre a luz e a escuridão;
• o espaço que transmite a ideia de paz/tranquilidade e o que transmite a ideia de sofrimento/dor;
• a visão do mundo (optimista/pessimista) transmitida pelo pintor.

Breve história do teatro

Na Grécia, porém, e, mais tarde, em Roma, o


teatro atingiu uma grande perfeição e nobreza.
Grandes trágicos, como Ésquilo, Eurípedes e
Sófocles (na Grécia) e autores cómicos como
Aristófanes (na Grécia) Plauto e Terêncio (em
Roma) deixaram obras imortais que ainda hoje
proporcionam prazer e emoção.
Na Idade Média, porém, os grandes autores
clássicos (da Grécia e de Roma) viram-se momen-
taneamente esquecidos e representavam-se
sobretudo cenas tiradas da Bíblia ou da Vida dos
Alegoria das Artes, pintura de Tiepolo Santos, para ensinamento e meditação do povo.
Eram representadas geralmente junto das igrejas
A história da arte dramática, isto é, do teatro, ou catedrais, na praça ou adro, num estrado
é tão velha como a dos Homens na Terra. Supõe- armado para esse fim. Às vezes episódios quoti-
-se que já na Pré-História eles faziam teatro sob dianos de efeitos cómicos eram também apresen-
a forma de danças guerreiras ou mágicas, com tados ao público. Daí surgiria a farsa.
que tentavam atrair a boa vontade dos deuses e Nos palácios dos reis e dos grandes senhores
favorecer a vitória. apresentavam-se momos, alguns de grande apa-
Ainda hoje, em tribos primitivas na Guiné, em rato cénico, como se conta das festas do casa-
Angola e em Moçambique, por exemplo, se mento do príncipe D. Afonso, filho de D. João II.
encontram essas representações rudimentares. O Renascimento herdou da Idade Média o tea-
Algumas exigem até indumentária especial e pró- tro tradicional e da Antiguidade o teatro clássi-
pria, em que um dos protagonistas desempenha co. Surgem, pois, as grandes tragédias à manei-
o papel de tigre, por exemplo, e para isso se cobre ra antiga, como a Castro, de António Ferreira, em
com a respectiva pele e usa uma espécie de más- que se conta a morte de Inês de Castro. Mas con-
cara, imitando a cabeça do animal. A acção dra- tinuam também a escrever-se autos e farsas à
mática, que pode representar a luta entre a fera e maneira medieval.
o homem, é geralmente acompanhada de cantos Gil Vicente foi o criador desse teatro tipicamente
e sons de vários instrumentos primitivos. português, e escreveu muitas peças de carácter

46 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


religioso (autos), burguês e popular (farsas) e Tornam-se variados os assuntos tratados e
palaciano (comédias e tragicomédias), represen- generaliza-se o gosto por essa mani-
tadas na corte de D. Manuel e D. João III. A seu festação artística. Aperfeiçoam-se os
exemplo muitos outros poetas continuaram o recursos técnicos, a mudança dos
caminho aberto. cenários, etc., e aparecem numero-
Começam pouco a pouco a aparecer os pátios sas companhias ambulantes que per-
ou teatros públicos, a que aflui gente de todas correm as regiões levando uma men-
as camadas sociais. sagem de arte e de prazer. La Celestina, gravura de 1514

Da Itália vem o teatro do tipo da Comedia O teatro é, pois, uma arte de sempre, um motivo
dell’Arte, que apresenta um palco e tablado de encanto e um meio de cultura e disciplina espi-
semelhante ao que se usa ainda hoje. ritual.
Maria Leonor Buescu, Dizer e Representar, Porto Editora (texto com supressões)

Influências do teatro vicentino

O teatro vicentino teve origem nas duas natu- esteira do seu primeiro mestre: desta maneira
rezas de representações que a Idade Média se gerou nova forma de arte que tem a sua mais
conheceu: por um lado, os momos, as represen- alta agulha no Auto da Alma.
tações plásticas que alegravam os serões de Dos momos conservou Gil Vicente a sumptuo-
D. João II e de D. Manuel, a que se refere Garcia sidade cénica, a riqueza de cores e de formas
de Resende com vaidade e dos quais Sá de plásticas, certos motivos como a alegoria náuti-
Miranda levou saudades para o túmulo; por ca e a metamorfose de homens em animais (que
outro lado, as representações religiosas que se verifica, por exemplo, nas Cortes de Júpiter) e
viviam à sombra dos portais das igrejas e que, ainda uma característica externa de quase todas
na França e na Espanha pelo menos, subiram à as obras: o ter a representação por finalidade
categoria de género literário. imediata ilustrar e colorir festas da sociedade
Podemos acreditar que dos «momos e serões cortesã. Das representações religiosas, além dos
de Portugal» tirou Gil Vicente a primeira suges- temas, o lirismo místico, certas personagens
tão do seu teatro, ao qual as éclogas de Juan del típicas como o Diabo, os Judeus, os Médicos e as
Encina acabaram por dar movimento; e só mais figuras de Cristo, da Virgem, dos Anjos, dos Reis
tarde o comediógrafo estabeleceu contacto Magos, dos Santos, etc. – e, mais importante que
definitivo com o teatro religioso e abandonou a tudo, a orientação edificativa.
António José Saraiva, Poesia e Drama, Gradiva (texto com supressões)

Entre a Idade Média e o Renascimento

Na época quinhentista portuguesa, Gil Vicente e a métrica seja ainda medieval ou velha, o teor da
representa a sobrevivência do medievalismo e a vida que o seu teatro representa, a sua sátira irre-
sua aliança com os aspectos sociais e populares verente com aspirações de reformação moral, o
do Renascimento, verdadeiramente uma conti- seu entusiasmo patriótico, a protecção que rece-
nuidade que se enriquece com as experiências beu da rainha D. Leonor, viúva de D. João II, e dos
novas do século xvi. Ainda quando a forma esté- reis D. Manuel e D. João III, são índices da menta-
tica do auto seja de origem puramente peninsular lidade renascentista.
Fidelino de Figueiredo, História Literária de Portugal, Editora Fundo de Cultura

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 47


Auto da Barca do Inferno: textos introdutórios

A «Copilação» de 1562

Só em 1562 veio a público pela primeira vez num páginas) impresso em Lisboa por João Álvares e
volume único a colectânea das obras completas datada de 22 de Setembro de 1562 (cólofon). As
de Gil Vicente sob o título Copilação de todalas obras de Gil Vicente são aí repartidas em cinco
obras de Gil Vicente. Trata-se duma publicação «livros»: 1 – Obras de devação (= devoção); 2 –
cuidada, a que poderíamos chamar hoje uma edi- Comédias; 3 – Tragicomédias; 4 – Farsas; 5 – Obras
ção de luxo, em grosso volume de 266 folhas (532 miúdas.
Paul Teyssier, Gil Vicente – o autor e a obra, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa

Vida de Gil Vicente

A primeira obra de Gil Vicente data de 1502, a seu nascimento tem-se recorrido várias vezes ao
última de 1536. A carreira activa do autor desen- perigoso método que consiste em dar-lhe a
rola-se, por conseguinte, sob os reinados de idade que a si próprias atribuem certas persona-
D. Manuel I (1495-1521) e D. João III (1521-1557). gens nas suas peças teatrais. Mais séria, embora
A obra, no seu conjunto, caracteriza o Portugal vaga, é a menção contida na carta que Gil Vicente
anterior à Inquisição, pois termina precisamen- dirigiu ao rei após o tremor de terra de Santarém,
te em 1536, quando esta foi introduzida no país. em 26 de Janeiro de 1531: «… assi vezinho da
Um dos problemas maiores que se apresentam morte como estou». De qualquer modo, temos
no estudo da biografia do autor de renunciar ao conhecimento
é o da identificação do poeta da data exacta do nascimento
Gil Vicente com um outro Gil do nosso autor e contentar-
Vicente, ourives muito conhe- -nos em fixá-la de modo apro-
cido na época e autor da céle- ximativo na década de 1460-
bre custódia de Belém. Trata- -1470. Quanto à sua morte,
se do mesmo homem ou de deve ter ocorrido em 1536 ou
dois homens diferentes? pouco depois.
O ourives Gil Vicente termi- Gil Vicente foi casado duas
nou a custódia em 1506, utili- vezes. Da sua primeira mulher,
zando no seu trabalho o ouro a quem se atribui, numa hipó-
das «páreas» entregues pelo tese pouco consistente, o
rei de Quíloa e trazidas por nome de Branca Bezerra, teve
Vasco da Gama em 1503, no Página da 1. edição do Auto da Barca
a dois filhos: Gaspar e Belchior
regresso da sua segunda via- do Inferno Vicente. Viúvo, Gil Vicente vol-
gem à Índia. Nos anos seguin- tou a casar-se com Melícia
tes o mesmo ourives figura em documentos Rodrigues, de quem teve três filhos: Paula Vi-
como protegido da «Rainha Velha», Dona Leonor, cente, Luís Vicente e Valéria Borges. A partir de
irmã de D. Manuel e viúva de D. João II. 1537 Paula Vicente foi «moça de câmara» da
Perante o autor dramático Gil Vicente encon- infanta Dona Maria. Juntamente com o seu
tramo-nos em terreno mais sólido, embora irmão Luís teve papel importante na publicação,
envolvendo muitas incertezas. Segundo o em 1562, da Copilação das obras paternas.
genealogista D. António de Lima, o escritor seria O autor dos autos esteve por muito tempo –
natural de Guimarães. Para determinar a data do como esteve Gil Vicente ourives, sendo essa

48 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


coincidência um dos argumentos a favor da
identificação – ao serviço da «Rainha Velha»
Dona Leonor. Esta encontrava-se presente na
câmara da rainha Dona Maria, na terça-feira, 7
de Junho de 1502, quando foi ali recitado o
Monólogo do Vaqueiro, primeira obra conhecida
do autor. Para ela foram escritos o Auto em Pas-
toril Castelhano e o Auto dos Reis Magos. Foi
perante ela que se representou em 1504, na igre-
ja das Caldas, o pequeno Auto de S. Martinho.
Para ela foi feito em 1506 o «sermão» de Abran-
tes. E foi ainda na sua presença que se represen-
tou em Almada, em 1509, o Auto da Índia. Se o
nome da rainha Dona Leonor já não é citado a
propósito do Auto da Fé (1510) e de Velho da Representação do Auto da Índia de Gil Vicente, em Almada,
na presença da rainha D. Leonor
Horta (1512), reaparece no Auto da Sibila Cas-
sandra, que foi à cena na sua presença em 1513.
Sabe-se também, pela rubrica da edição de Muitas das peças que escreveu foram encomen-
Madrid, que a Barca do Inferno (1517) foi escrita dadas para celebrar determinados aconteci-
«por contemplação da sereníssima e muito cató- mentos importantes – nascimentos, casamen-
lica rainha Dona Lianor». Ainda para Dona Leo- tos, entradas solenes – ou para acompanhar cer-
nor foram representados o Auto da Alma (1 de tas festas religiosas. O teatro de Gil Vicente é,
Abril de 1518), a Barca do Purgatório (Natal do por conseguinte, um teatro de corte, subordinado
mesmo ano) e o Auto dos Quatro Tempos (data às exigências e ao cerimonial da vida cortesã.
incerta, mas anterior a 1521). Assim, até cerca de Considera-se geralmente que Gil Vicente era
1518 ou talvez mesmo para além dessa data, a ao mesmo tempo organizador de espectáculos,
obra de Gil Vicente desenrola-se sob a protecção autor, músico e actor.
e na presença da Rainha Velha. Tendo o encargo da organização dos espectá-
Gil Vicente passou em seguida directamente culos da corte, Gil Vicente era decerto um
para o serviço do rei. Foi encarregado de organi- homem muito ocupado. Cumulado de encomen-
zar as festas que se realizaram em 20 e 21 de das, responsável pelo texto, pela encenação e
Janeiro de 1521, quando da entrada em Lisboa pela preparação dos actores, sempre na obriga-
da terceira mulher de D. Manuel. Continuou a ção de encontrar ideias novas, o nosso poeta
gozar da mesma confiança sob o reinado de devia estar constantemente sobrecarregado. Era
D. João III, que lhe concedeu diversas «mercês» forçado, por isso, a trabalhar depressa – e esta
financeiras. circunstância explica, talvez, algumas caracterís-
Deste modo, Gil Vicente fez toda a sua carreira ticas específicas da arte vicentina: a repetição
como personagem oficial da corte, na roda ime- de certos processos duma peça para outra, uma
diata da rainha Dona Leonor, de D. Manuel I e de atitude livre e desembaraçada relativamente às
D. João III. Para a corte fora concebida a sua regras de versificação e, em suma, um andamen-
obra; perante a corte, no essencial, foi ela repre- to criativo de relativa improvisação. A sua apti-
sentada, quer em Lisboa quer nas várias residên- dão para inventar, para progredir e renovar-se é,
cias reais de Évora, Almeirim, Tomar e Coimbra. consequentemente, ainda mais notável.
Paul Teyssier, Gil Vicente – o autor e a obra, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (texto com supressões)

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 49


Auto da Barca do Inferno: textos introdutórios

Quem era Gil Vicente?

O nome Gil Vicente aparece listas, porque um documento


em vários documentos entre fala dos «oficiais» que traba-
1509 e 1522; e se parte deles, lhavam sob a suas ordens.
de 1517 para trás, se refere Pergunta-se agora: aquilo
explícita ou implicitamente a que sabemos do modo de vida
certo Gil Vicente «ourives» que do poeta ajusta-se ao que aca-
foi também «mestre da balan- bamos de conhecer do modo
ça», a outra parte, de 1520 para de vida do ourives-capitalista?
diante, nada diz por onde pos- Através dos factos conheci-
samos identificar a profissão dos e de alusões feitas nas
ou o cargo do indivíduo men- próprias obras, sabemos que o
cionado com o mesmo nome poeta Gil Vicente vivia do seu
Gil Vicente. trabalho de escritor e dos seus
Até 1517, todos os documen- serviços na corte. Sabemos
tos se referem ao ourives Gil que ele imprimiu em vida uma
Vicente de maneira expressa Gil Vicente Representando na Corte edição avulsa do Auto da Barca
ou implícita. Depois de 1517, Portuguesa, pintura de Roque Gameiro do Inferno e outra do Dom
nenhum documento contém Duardos, esta última destina-
qualquer alusão à profissão de ourives, nem da não à representação, mas à leitura, segundo o
matéria relacionada com ourivesaria. O Gil Vicen- Prof. Révah. É de crer que estas pequenas edições
te mencionado nos documentos de 1520 para (e outras que provavelmente se perderam) fos-
diante ou era ourives, ou não: não temos maneira sem remuneradoras, porque elas entraram na
de o saber. Nada nos impede de imaginar que o literatura chamada de «cordel», que durante
ourives Gil Vicente desapareceu pouco depois de séculos os editores portugueses exploraram com
1517 e que todos os documentos posteriores a grande êxito; e porque, ainda em vida de Gil
esta data se referem a outro indivíduo com o Vicente, o cego Baltasar Dias declarava, em docu-
mesmo nome. mento oficial, ser este género de publicações a
O problema não tem solução com base unica- sua própria «indústria» e modo de vida.
mente nos documentos arquivísticos. Sabemos, por outro lado, que Gil Vicente
É noutro campo que a solução deve ser procu- requeria mercês régias habilitando-se para elas
rada. A própria obra de Gil Vicente é um docu- com o seu trabalho de escritor. Em uma repre-
mento que devemos interpretar conveniente- sentação em verso dirigida ao vedor da Fazenda,
mente, situando-a no meio histórico-social a queixando-se de estar muito pobre e pedindo o
que pertence. despacho de uma mercê requerida, promete,
Dentro da classe dos ourives há que distinguir como expressão do seu merecimento e do seu
duas categorias: os simples oficiais e aprendi- trabalho, uma farsa a que chama A Caça dos
zes, trabalhando por conta de outrem, e os mes- Segredos, «de que ficareis mui ledos». Noutros
tres, proprietários das oficinas, senhores dos passos se refere o poeta à sua penúria (Carta a
meios de produção e da matéria-prima, com D. João III, Auto Pastoril Português). Num deles,
pessoal a trabalhar por sua conta. falando de si próprio como «[…] um Gil, que não
Ora, o ourives Gil Vicente pertencia precisamen- tem nem ceitil», identifica-o como sendo «o que
te a esta segunda categoria, a dos mestres-capita- faz os aitos [autos] a el-rei».

50 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


Aliás, a quantidade relativamente considerá- Provam também a formação escolar do poeta
vel de peças, o facto de elas constituírem núme- Gil Vicente as listas de autores que exibe, satiri-
ro quase obrigatório das festas palacianas, o camente, em mais de um auto.
facto de aceitar encomendas para fora da corte Em 1531, após um violento tremor de terra, os
(Auto da Festa, Auto da Cananeia), mostram que frades de Santarém alarmaram o povo pregando
elas constituíam um modo de vida e uma activi- que se tratava de um castigo divino, a repetir-se
dade permamente. dentro de poucos dias. Gil Vicente, pensando
Ora, é de crer que o poderoso ourives-capita- que «estava neles mais soma de ignorância que
lista de Lisboa trocasse a sua actividade comer- de graça do Espírito Santo», fez reunir os frades
cial e industrial pela de poeta de corte depen- no claustro de S. Francisco; e aí deci-
dente de recompensas aleatórias? Não. É de diu pregar-lhes, ele, a verdadeira dou-
crer, na hipótese, inverosímil, de acumular as trina teológica e evangélica, acerca
duas actividades, ambas absorventes, que ele dos terramotos e das profecias.
invocasse como único merecimento e habilita- Esta demonstração, pelo seu rigor,
ção ao favor régio a sua actividade subsidiária – pela sua precisão, pela arte e seguran-
a de escritor teatral? Também não. ça com que é conduzida traz a marca ini-
O tipo de vida e a posição económica do ouri- ludível da formação escolar e o savoir
ves Gil Vicente são inconciliáveis com os do seu faire do letrado medieval.
homónimo poeta da corte. O mesmo sucede É evidente que o poeta Gil Vicente se
com o tipo de mentalidade e cultura que encon- encontrava dentro, e não fora, da cultu-
tramos expresso na obra de um e o que temos, ra clerical, e que é de dentro dessa cul-
inevitavelmente, de presumir no outro. tura clerical que ele combate o que Frontispício
da Compilaçam
Não podemos fazer ideia da quantidade de entende serem os erros do clero do seu tempo. É de Todalas Obras
coisas que sabia ou deixava de saber o ourives evidente que ele tem uma formação escolar de Gil Vicente
Gil Vicente; mas podemos estar certos de que a (medieval, e não humanista, note-se), e não uma
sua educação se fez desde a infância nas ofici- formação artesanal, como necessariamente a
nas de ourivesaria. tinha o seu homónimo ourives.
O ourives Gil Vicente pode ter aprendido ao Em resumo:
longo da vida e assimilado muita experiência, Primeiramente, a identificação do poeta Gil
mas não pode ter sido um «escolar». A sua cultu- Vicente com o ourives do mesmo nome não está
ra é necessariamente artesanal. Ora, a cultura atestada documentalmente.
do poeta Gil Vicente (deixando de fora o caudal Em segundo lugar, o ourives Gil Vicente era o
de experiência humana que assimilou) é uma proprietário de uma grande casa, dispondo de
cultura escolar. capitais importantes. O poeta Gil Vicente vivia
Mostra-no-lo, em primeiro lugar, o frequente de remunerações régias pelo seu trabalho literá-
emprego do latim nas suas peças. Latim estro- rio e cénico.
piado, feito quase todo de frases do breviário, Em terceiro lugar, o poeta Gil Vicente tem uma
como tem sido notado; porque Gil Vicente não formação escolar-clerical, ao passo que o ouri-
escrevia prosa latina, mas estrofes portugue- ves Gil Vicente só poderia ter uma formação
sas, onde julgava a propósito, para alcançar artesanal.
efeitos cómicos, ou para dar solenidade litúrgi- Até prova em contrário, a hipótese de que o
ca à poesia religiosa, fazer soar frases latinas ou ourives e o poeta são a mesma pessoa é um
alatinadas, acessíveis ao público. absurdo.
António José Saraiva, Para a História da Cultura em Portugal, Gradiva (texto com supressões)

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 51


Auto da Barca do Inferno: textos introdutórios

A «Barca do Inferno»

Chegamos assim aos anos de 1517-18-19, que Vicente per sua mão, corregido e empremido per
marcam o apogeu da «moralidade» religiosa em seu mandado.» A peça é designada, por conse-
Gil Vicente com as obras-primas que são a série guinte, como «auto de moralidade» e o único títu-
das três Barcas e o Auto da Alma. Fala-se muitas lo fixado no final é o de Auto das Barcas (note-se
vezes da «trilogia das Barcas». A designação bem: no plural).
é imprópria. Quando Gil Vicente compôs a primei- A composição por cenas sucessivas poderia
ra destas três peças não dar uma impressão de repetição e de monoto-
previa que duas outras se nia. Mas Gil Vicente supre esse inconveniente
seguiriam, que depois do pela diversidade das personagens, pela inter-
Inferno viriam o Purgató- venção progressiva na conversa dos condena-
rio e o Paraíso. Graças à dos que já embarcaram e pelo papel do Parvo.
«folha volante» da Biblio- A Barca do Inferno é uma peça de riqueza
teca Nacional de Madrid excepcional, desenrolando-se em vários planos
dispomos do texto autên- e dilatando-se em várias dimensões. É uma evo-
tico desta obra, represen- cação de certos tipos sociais do Portugal qui-
tada sem dúvida em 1517. nhentista. É também uma sátira feroz contra os
O Último
Julgamento, Este folheto, foi provavelmente publicado no grandes e os poderosos – o aristocrata orgulho-
pormenor decurso de 1518, ou seja, em data anterior à Barca so, o frade dissoluto, o juiz corrupto – mas não
de fresco
de Giotto do Purgatório (Natal de 1518) e à Barca da Glória poupa os pecadores de condição mais modesta.
(Sexta-feira Santa de 1519). Ora a rubrica da folha Ao mesmo tempo que uma meditação terrifican-
volante começa com as seguintes palavras: «Auto te sobre os mistérios do «Além», é uma peça de
de moralidade composto per Gil Vicente.» E o franca comicidade. Globalmente, a Barca do
cólofon inscreve: «Auto das Barcas que fez Gil Inferno é uma obra-prima incontestável.
Paul Teyssier, Gil Vicente – o autor e a obra, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (texto com supressões)

Estrutura e personagens do Auto da Barca do Inferno

A estrutura externa sujeitam-se às críticas do Diabo e do Anjo e, por


O Auto da Barca do Inferno foi composto por fim, acabam por embarcar na barca que lhes está
Gil Vicente sem qualquer divisão externa, como destinada. De início, estão no estrado apenas três
aliás era próprio do teatro medieval. Mas pare- personagens: o Anjo, o Diabo e o Companheiro. O
ce-nos que, no ponto de vista pedagógico, há seu número vai aumentando progressivamente
toda a vantagem em dividir o auto em cenas à de maneira que, quando o auto finda, devem
maneira clássica, isto é, mudando de cena quan- estar dezoito personagens em cena. Ao fazer a
do entra ou sai uma personagem do palco. Esta contagem, convém recordar que o pajem que
divisão facilita a leitura da obra e igualmente a acompanha o Fidalgo, bem como as moças que
sua interpretação, análise e estudo. seguem a Alcoviteira, uma vez que não entram em
Nesta obra, não há propriamente uma acção qualquer batel, se retirariam do estrado ao fim
encadeada, evolutiva e dinâmica que obrigue as das respectivas cenas.
personagens a entrar e a sair do palco amiudadas A estrutura interna
vezes. Mais que a uma acção dramática, assisti- O Auto da Barca do Inferno não é composto por
mos a um desfile de tipos que se sucedem no cais, uma acção única mas por um conjunto de mini-

52 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


Fresco de Giotto

-acções paralelas, cada uma Judeu sobrevém com um


delas girando em torno bode às costas, animal liga-
dum ou mais protagonistas. do aos sacrifícios da religião
Oito destas mini-acções são judaica; o Corregedor, apoia-
formadas pelas três partes do a uma vara, transporta uma
clássicas: a exposição, o conflito resma de processos; o Procura-
e o desenlace. A maior parte das dor não abandona os seus livros
vezes, a exposição e o conflito apresen- jurídicos e o Enforcado pisa o estrado com
tam-se interligados: a primeira consta de uma um baraço ao pescoço. Os Cavaleiros da Ordem
breve apresentação da personagem e o segundo de Cristo trazem o hábito que distintamente os
de um duplo interrogatório, feito pelo Diabo e identifica.
pelo Anjo. O desenlace é constituído pela senten- Na Barca do Inferno, temos alguns figurantes
ça proferida pelo Anjo ou pelo Diabo, que conde- que funcionam como elementos distintivos e
na as almas recém-falecidas a entrarem na barca caracterizadores: o pajem que acaudata o Fidalgo,
do Inferno, prelúdio da sua condenação eterna. a moça Florença que o frade dominicano traz pela
Cada mini-acção funciona semelhantemente a mão e o grupo de moças que escolta a Alcoviteira.
um tribunal: temos, todavia, de reconhecer que A linguagem também funciona como elemen-
há um (Diabo), dois (Diabo e Anjo) ou três (Diabo, to distintivo e caracterizador de certos tipos.
Anjo e Parvo) advogados de acusação mas Notemos como a linguagem do Parvo é desbra-
nenhum de defesa: é o réu, que tem de defender gada, desarticulada e ilógica, com certa propen-
a sua causa. Trata-se, pois, dum tribunal rigoroso são para o emprego de símbolos fálicos e de
em que os réus têm poucas ou nenhumas possi- expressões ou vocábulos escatológicos. O Cor-
bilidades de defesa. regedor e o Procurador expressam-se num latim
Os tipos vicentinos jurídico tão adulterado que, por vezes, se con-
O teatro gil-vicentino é, essencialmente, um funde com o latim macarrónico. O Diabo imita-
teatro de tipos. O tipo não é uma personagem -os, exprimindo-se, quando com eles fala, num
individual e bem caracterizada mas uma figura latinório semelhante.
colectiva que sintetiza as qualidades e os defei- Algumas vezes, o tipo é rotulado por um nome
tos da classe, da profissão ou até do estrato social próprio que não o individualiza mas apenas o
a que pertence. Para que o espectador o pudesse nomeia. É o caso, neste auto, do fidalgo D. Henri-
identificar facilmente, apresentava-se no estrado que; do parvo Joane; do Sapateiro João Antão; de
com elementos distintivos, que tanto podiam ser Fr. Babriel e da sua amante Florença; do Judeu
um objecto, um animal como até uma ou mais que, possivelmente, se chamava Semah Fará e da
pessoas. Assim, o Fidalgo vem seguido de um alcoviteira Brízida Vaz. Não devemos confundir
criado que lhe segura a cauda do manto e lhe estes nomes, puramente arbitrários, com as alu-
transporta uma cadeira; o Onzeneiro traz pen- sões a pessoas do tempo, historicamente identi-
dente da cinta uma enorme bolsa, que ocupa ficáveis, como é o caso, neste auto, do carcereiro
quase todo o navio; o Sapateiro aparece-nos car- Afonso Valente, do ex-tesoureiro Garcia Moniz e
regado de formas; o Frade surge-nos com uma do escrivão Pêro de Lisboa. O nome do Parvo é
moça pela mão, cantarolando e bailando, enver- incaracterístico, pois, como se infere duma canti-
gando, sob o hábito, a armadura de esgrimista; a ga de Camões («Coifa de beirame…»), Joane era o
Alcoviteira vem seguida de um grupo de moças nome que costumava dar-se, no século xvi, aos
que ela explorou, entregando-as à prostituição; o pobres de espírito.
Auto da Barca do Inferno, edição anotada e comentada por Mário Fiúza, Porto Editora (texto com supressões)

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 53


Auto da Barca do Inferno: argumento e cena de introdução

Lê o argumento do Auto da Barca do Inferno e descobre: o género teatral a que pertence o auto;
!
CO N C E I TO S quem compôs o auto; o nome da rainha que autoriza a representação do auto; a localização tem-
L I TE R Á R I O S
poral da acção; o espaço cénico em que a acção decorre; os elementos que constituem o espaço
Consulta a ficha sobre
o texto dramático, cénico; os destinos de cada uma das barcas; o nome e a simbologia de cada barqueiro; o nome da
p. 112.
primeira personagem a entrar em cena.

A presente versão Auto de Moralidade composto per Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito
do Auto da Barca
do Inferno católica rainha dona Lianor, nossa senhora, e representado per seu mandado ao poderoso
é o resultado
da consulta
príncipe e mui alto rei dom Manuel, primeiro de Portugal deste nome.
de várias edições Comença a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegu-
por parte
das autoras. ra que, no ponto que acabamos de espirar,1 chegamos supitamente a um rio, o qual per força
havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet,2 um deles passa
pera o Paraíso, e o outro pera o Inferno; os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do
Paraíso um Anjo, e o do Inferno um Arrais infernal e um Companheiro.

O primeiro entrelocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um rabo 3 mui
comprido e ũa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha.

DIABO À barca, à barca, houlá! Faze aquela poja13 lesta14


que temos gentil maré! e alija15 aquela driça.16
—Ora venha o caro4 a ré! 5 COMP. Ô-ô, caça! Ô-ô, iça! iça!
COMP. Feito, feito! 20 DIABO Oh, que caravela esta!
DIABO Bem está! Põe bandeiras, que é festa.
5 Vai tu muitieramá,6 Verga17 alta! Âncora a pique!
atesa7 aquele palanco8 —Ó poderoso dom Anrique,
e despeja aquele banco cá vindes vós? Que cousa é esta?
pera a gente que vinrá.

À barca, à barca, hu-u!


10 Asinha,9 que se quer ir!
Oh! que tempo de partir,
louvores a Berzebu!10
—Ora, sus!,11 que fazes tu?
Despeja todo esse leito!12
15 COMP. Em boa hora! Feito, feito!
DIABO Abaxa má-hora esse cu! O Inferno, Canto XXXIV, ilustração de Sandro Botticelli
para Divina Comédia

1
morrer; 2 isto é, a saber; 3 cauda do manto; 4 parte inferior das vergas das velas; 5 no sentido da popa;
6
em muito má hora; 7 estica; 8 corda da vela; 9 depressa; 10 Diabo, Demónio; 11 Eia! Olha lá! 12 espaço entre o
mastro grande e a popa; 13 corda para esticar ou afrouxar a vela; 14 frouxa; 15 alivia; 16 cabo para içar as velas;
17
pau onde se amarra a vela;

54 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


1 Faz corresponder cada vocábulo do texto ao seu significado.

«rabo» • • no sentido da popa


«caro» • • estica
«ré» • • corda da vela
«atesa» • • cauda do manto
«palanco» • • parte inferior das vergas das velas
«poja» • • espaço entre o mastro grande e a popa
«sus» • • corda para virar a vela
«leito» • • Olha lá!
«lesta» • • alivia
«alija» • • nome do Diabo
«Berzebu» • • cabo para içar as velas
«driça» • • frouxa

2 Relê atentamente o diálogo entre o Diabo e o Companheiro, e diz que relação existe entre essas
personagens.

3 Para o Diabo é dia de festa. Porquê?

4 O Diabo mostra ser um barqueiro experiente ou inexperiente? Justifica a tua resposta com
expressões do texto.

5 Transcreve do texto a fala do Diabo que anuncia a chegada de uma nova personagem.

6 Logo no início da cena, verifica-se a presença de uma indicação que não surge em forma de diá-
logo. Qual é a sua função?

6.1 Como designamos esse tipo de indicações?


!
7 Classifica os seguintes vocábulos do texto, tendo em conta o facto de terem caído em desuso na HISTÓRIA
DA L Í N G UA
língua portuguesa: «ũa»; «multiremá» e «Asinha». Consulta a Unidade 1,
pp. 35-38.
8 Também a palavra «auto», que significava representação teatral, na Idade Média, caiu em desu-
so na língua portuguesa. Atenta no seguinte esquema e indica: o étimo latino que lhe deu ori-
gem; outra palavra que derivou desse étimo latino.

auto
actu(m) >
>
acto

8.1 Qual das palavras se encontra mais próxima do étimo? Qual sofreu mais alterações?

8.1.1 Justifica esse facto, relembrando as duas vias pelas quais entraram as palavras latinas
no português.

8.2 Classifica as palavras «auto» e «acto» quanto à sua evolução.

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 55


Auto da Barca do Inferno: cena do Fidalgo

Observa a imagem e indica: a personagem que representa o Bem e a personagem que representa
!
CO N C E I TO S o Mal (personagens alegóricas); a personagem que será julgada e que representa uma classe
L I TE R Á R I O S
social (personagem-tipo); a personagem que a acompanha; os elementos indicadores da sua classe
Consulta a ficha sobre
o texto dramático, social (símbolos); o modo como viajará até ao seu destino.
p. 112.

Frontispício da primeira edição do Auto da Barca do Inferno

56 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


Lê atentamente a cena do Fidalgo e divide-a em três
grandes momentos, de acordo com o percurso cénico
dessa personagem, ou seja, os movimentos que faz em
cena, e os diálogos que trava com o Diabo e o Anjo.

Vem o Fidalgo e, chegando ao batel


Fidalgo português e pajens, na Índia, Biblioteca Casanatense
infernal, diz:

25 FIDAL. Esta barca onde vai ora, 50 Embarcai! Hou! Embarcai,


que assi está apercebida?18 que havês de ir à derradeira.27
DIABO Vai pera a ilha perdida19 Mandai meter a cadeira,
e há-de partir logo ess’ora.20 que assi passou vosso pai.
FIDAL. Pera lá vai a senhora?21 FIDAL. Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?
30 DIABO Senhor, a vosso serviço. 55 DIABO Vai ou vem, embarcai prestes!
FIDAL. Parece-me isso cortiço…22 Segundo lá escolhestes,
DIABO Porque a vedes lá de fora. assi cá vos contentai.

FIDAL. Porém, a que terra passais? Pois que já a morte passastes,


DIABO Pera o Inferno, senhor. havês de passar o rio.
35 FIDAL. Terra é bem sem-sabor. 60 FIDAL. Não há aqui outro navio?
DIABO Quê? E também cá zombais? DIABO Não, senhor, que este fretastes,
FIDAL. E passageiros achais e primeiro que espirastes
pera tal habitação? me destes logo sinal.
DIABO Vejo-vos eu em feição FIDAL. Que sinal foi esse tal?
40 pera ir ao nosso cais…23 65 DIABO Do que vós vos contentastes.28

FIDAL. Parece-te a ti assi. FIDAL. A estoutra barca me vou.


DIABO Em que esperas ter guarida?24 Hou da barca! Para onde is?
FIDAL. Que leixo na outra vida Ah, barqueiros! Não me ouvis?
quem reze sempre por mi. Respondei-me! Houlá! Hou!
45 DIABO Quem reze sempre por ti!?… 70 (Par Deos, aviado29 estou!
Hi hi hi hi hi hi hi hi!… Cant’a isto é já30 pior…
E tu viveste a teu prazer, Que giricocins,31 salvanor!32
cuidando cá guarecer25 Cuidam que são eu grou?)33
porque rezam lá26 por ti?

18
aparelhada, pronta para a partida; 19 Inferno; 20 imediatamente; 21 o Fidalgo confunde o Diabo com uma
senhora; 22 embarcação pobre; 23 Inferno; 24 protecção; 25 encontrar a salvação; 26 na Terra; 27 finalmente;
28
dos pecados de que gozaste; 29 bem arranjado; 30 quanto a isto; 31 asnos; 32 com sua licença; 33 ave palradora;

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 57


Auto da Barca do Inferno: cena do Fidalgo

ANJO Que querês? DIABO À barca, à barca, senhores!


FIDAL. Que me digais, Oh! que maré tão de prata!
75 pois parti tão sem aviso,34 Um ventezinho que mata
se a barca do Paraíso e valentes remadores!
é esta em que navegais.
ANJO Esta é; que demandais? Diz, cantando:
FIDAL. Que me leixês embarcar.
80 Sou fidalgo de solar,35 110 Vós me veniredes a la mano,
é bem que me recolhais. a la mano me veniredes.

ANJO Não se embarca tirania FIDAL. Ao Inferno todavia!


neste batel divinal. Inferno há i pera mi?
FIDAL. Não sei porque havês por mal Ó triste! Enquanto vivi
85 que entre a minha senhoria… 115 não cuidei que o i havia.
ANJO Pera vossa fantesia36 Tive que era fantesia;42
mui estreita é esta barca. folgava ser adorado;
FIDAL. Pera senhor de tal marca confiei em meu estado43
nom há aqui mais cortesia? e não vi que me perdia.

90 Venha prancha e atavio! 37 120 Venha essa prancha! Veremos


Levai-me desta ribeira! esta barca de tristura.
ANJO Não vindes vós de maneira DIABO Embarque a vossa doçura,
pera ir neste navio. que cá nos entenderemos…
Essoutro vai mais vazio: Tomarês um par de remos,
95 a cadeira entrará 125 veremos como remais,
e o rabo caberá e, chegando ao nosso cais,
e todo vosso senhorio. todos bem vos serviremos.

Vós irês mais espaçoso FIDAL. Esperar-me-ês vós aqui,


com fumosa38 senhoria, tornarei à outra vida
100 cuidando39 na tirania 130 ver minha dama querida
do pobre povo queixoso; que se quer matar por mi.
e porque, de generoso,40 DIABO Que se quer matar por ti?
desprezastes os pequenos, FIDAL. Isto bem certo o sei eu.
Achar-vos-eis tanto menos41 DIABO Ó namorado sandeu,44
105 quanto mais fostes fumoso. 135 o maior que nunca vi!

34
inesperadamente; 35 de linhagem nobre e antiga; 36 vaidade, presunção; 37 apetrechos; 38 presunçosa,
vaidosa; 39 pensando; 40 nobre; 41 menos digno do Paraíso; 42 invenção; 43 condição social; 44 tolo, ingénuo;

58 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


FIDAL. Como pod’rá isso ser,
que m’escrivia mil dias?
DIABO Quantas mentiras que lias
e tu… morto de prazer!
140 FIDAL. Pera que é escarnecer,
que nom havia mais no bem? 45
DIABO Assi vivas tu, amen,
como te tinha querer!

FIDAL. Isto quanto ao que eu conheço…


145 DIABO Pois estando tu espirando,
se estava ela requebrando
com outro de menos preço.46
FIDAL. Dá-me licença, te peço,
que vá ver minha mulher.
Os Sete Pecados Mortais e os Quatro Novíssimos do Homem,
150 DIABO E ela, por não te ver, (tampo de mesa), pintura de Hieronymus Bosch
despenhar-se-á dum cabeço.

Quanto ela hoje rezou,


antre seus gritos e gritas, Diz o Diabo ao Moço da cadeira:
foi dar graças infinitas
155 a quem a desassombrou.47 DIABO Nom entras cá! Vai-te d’i!
FIDAL. Quanto ela, bem chorou! A cadeira é cá sobeja:
DIABO Nom há i choro de alegria? 170 cousa que esteve na igreja
FIDAL. E as lástimas que dezia? nom se há-de embarcar aqui.
DIABO Sua mãe lhas ensinou. Cá lha darão de marfim,
marchetada48 de dolores,
160 Entrai! Entrai! Entrai! com tais modos de lavores,49
Ei-la prancha! Ponde o pé… 175 que estará fora de si…50
FIDAL. Entremos, pois que assi é.
DIABO Ora, senhor, descansai, À barca, à barca, boa gente,
passeai e suspirai. que queremos dar a vela!
165 Entanto vinrá mais gente. Chegar a ela! Chegar a ela!
FIDAL. Ó barca, como és ardente! Muitos e de boa mente!
Maldito quem em ti vai! 180 Oh! que barca tão valente!

45
maior amor; 46
valor; 47
aliviou, consolou; 48
com embutidos; 49
trabalhos, sofrimentos; 50
que ficará
transtornado;

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 59


Auto da Barca do Inferno: cena do Fidalgo

1 De acordo com o texto resolve o seguinte crucigrama e descobre um dos pecados do Fidalgo.
!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
1. Lugar onde o Fidalgo chega.
Consulta a ficha sobre
o texto dramático, 2. Peça de vestuário do Fidalgo.
p. 112, e a ficha sobre 3. Objecto pertencente ao Fidalgo.
o processo figurativo,
4. Personagem figurante que acompanha o Fidalgo.
pp. 271-272.
5. Classe social a que pertence o Fidalgo.
6. Personagem que recusa a entrada do Fidalgo
na sua barca.
7. Personagem em cuja barca o Fidalgo entra.

2 Atenta nas primeiras palavras trocadas entre o Fidalgo e o Diabo e explica o contexto em que sur-
gem as seguintes expressões: «ilha perdida» (verso 27); «senhora» (verso 29); «cortiço» (verso 31).

2.1 Partindo do contexto em que se inserem essas expressões, aponta, justificando, um exem-
plo de:
• eufemismo;
• ironia;
• cómico de situação.

3 Atentando ainda no primeiro diálogo entre o Fidalgo e o Diabo, completa o seguinte quadro com
as acusações dirigidas à personagem em julgamento e seus significados.
AC U S A Ç Õ E S SIG NIFICADOS

O Fidalgo desdenhara os outros, em vida, e julga poder


continuar a fazê-lo após a morte.

O Fidalgo tem o perfil dos que seguem para o Inferno, ou seja,


é um pecador.

O Fidalgo viveu sem ter em mente o castigo adequado ao seu


comportamento incorrecto, julgando salvar-se graças aos que
rezariam pela sua alma.

«Segundo lá escolhestes,
assi cá vos contentai.» (versos 56–57)

«Do que vós vos contentastes.»


(verso 65)

4 Faz o levantamento das passagens das falas do Diabo que, neste momento da cena, revelam a
irremediabilidade do destino do Fidalgo.

5 Aponta ainda uma passagem deste primeiro diálogo entre o Fidalgo e o Diabo que revele serem
as acusações ouvidas pelo «poderoso dom Anrique» dirigidas a toda a sua classe social.

60 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


5.1 Classifica a personagem do Fidalgo, tendo em conta essa crítica generalizada.

6 Concentra-te no momento em que o Fidalgo se dirige à barca divinal e refere o registo de língua
que utiliza no seu aparte.

6.1 Que tipo de cómico resulta desse aparte do Fidalgo?

7 Indica os argumentos de ordem social utilizados pelo Fidalgo para forçar a sua entrada na barca
do Anjo.

7.1 Que característica do Fidalgo podes referir a partir desses argumentos? Justifica a tua resposta.

8 Retira das réplicas do Anjo uma passagem que ilustre o facto de a sua barca ser a dos humildes.

9 «Não vindes vós de maneira / pera ir neste navio» (versos 92–93). Que objectos refere o Anjo
para comprovar esta sua afirmação?

9.1 Observando os restantes versos dessa réplica do Anjo, diz que pecados do Fidalgo são
representados por tais objectos.

9.2 Que designação atribuis a esses objectos que as personagens trazem para cena e que
representam determinados conceitos ou ideias?

10 Atenta no momento em que o Fidalgo regressa à barca infernal e explica de que modo a canção
do Diabo se adequa à sua situação.

11 O comportamento do Fidalgo altera-se. Concordas com esta afirmação? Porquê?

11.1 Os versos 112–119 funcionam então como um aviso. Quem é o destinatário desse aviso?
Porquê?

12 Observa os versos 128–147 e 148–159, onde são referidas duas mulheres com quem o Fidalgo
se relacionou em vida. Quem eram essas mulheres?

12.1 Que características as uniam, tendo em conta o que é dito nesses versos?

12.2 Será esta mais uma forma de Gil Vicente criticar a classe social representada na figura do
Fidalgo? Justifica a tua resposta.

13 A humilhação sofrida pelo Fidalgo revela-se não só nas informações que o Diabo lhe dá mas
também na forma como este se lhe dirige. Porquê?

14 Aponta razões para o Diabo dispensar o Pajem e a cadeira d’espaldas.

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 61


Auto da Barca do Inferno: cena do Fidalgo

15 Retira deste último momento da cena alguns exemplos da ironia do Diabo relativamente ao
destino do Fidalgo e explica-os por palavras tuas.
!
HISTÓRIA 16 Segundo a tradição, a palavra «fidalgo» provém da expressão «filho de algo». Qual é o signifi-
DA L Í N G UA
Consulta a Unidade 1,
cado actual dessa palavra?
pp. 35-38, 40-41.
16.1 Classifica a evolução sofrida por essa palavra, tendo em conta o seu sentido inicial e o actual.

16.2 Que processo de composição se deu nessa palavra?

17 Identifica os processos fonéticos ocorridos nas seguintes palavras:

í › aí
bona › bõa › boa
dolores › doores › dores

18 Classifica as palavras que se seguem, tendo em conta a sua evolução.

cadeira
catedra >
>
cátedra

18.1 Justifica essa evolução diferente das palavras.

! P R O P O S TA D E E S C R I TA
ESTUDO
ACO M PA N H A D O Imagina que tens a oportunidade de entrevistar o Pajem que acompanha o Fidalgo. Elabora
Informa-te sobre
as perguntas que lhe queres colocar (sobre os aspectos da sua vida ao serviço do «poderoso
a elaboração do
guião de entrevista: dom Anrique», sobre a opinião que tem do seu amo e do destino que lhe é atribuído) e imagi-
Unidade 0, p. 20.
na as suas respostas. A tua entrevista deverá ter uma introdução que dê informações sobre o
entrevistado. O nome do entrevistador e o nome do entrevistado deverão aparecer destacados,
antes das respectivas perguntas e respostas.

62 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


O Fidalgo
O primeiro alvo de crítica neste texto é a nobre- O «Page», o criado do Fidalgo, não entra em
za feudal, um estrato social que gozava origina- nenhuma das barcas, pois não encarna propria-
riamente de certos privilégios hereditários. A sua mente um tipo, nem tem o estatuto de persona-
riqueza provinha sobretudo da posse de terras. gem: a sua função é a de um simples elemento
Efectivamente, o representante da nobreza é distintivo, caracterizador, sendo tratado a nível
introduzido pela didascália como «um Fidalgo de objecto pelo dramaturgo; não obstante, sim-
que chega com um Page, que lhe leva um rabo bolicamente é relevante e note-se ainda que
mui comprido e ũa cadeira de espaldas». Os sím- representa de algum modo um elemento do povo,
bolos cénicos que o caracterizam – pajem, manto, a principal vítima da opressão da nobreza.
cadeira – apontam de imediato para o exercício de
ostentação.
Ana Paula Dias, Para Uma Leitura de Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, Editorial Presença (texto com supressões)

A nobreza no tempo de Gil Vicente

Se D. João II conseguiu esmagar o poderio de (meados do século xvi), embora tivesse baixado
algumas das mais importantes famílias nobres – consideravelmente entre um e outro.
nomeadamente os Braganças e seu primo Diogo Surgiu assim uma nova nobreza de corte, entre a
– e substancialmente alargar o património régio à qual o governo escolhia regularmente os mais
custa delas, os seus sucessores D. Manuel I e proeminentes funcionários para cargos metropoli-
D. João III tiveram de fazer marcha atrás e devol- tanos e ultramarinos, na diplomacia, no exército,
ver aos antigos proprietários a maioria dos bens na marinha, na descoberta e na
confiscados. Contudo, e esse fora, na realidade, o colonização. Ao mesmo tempo,
principal objectivo de D. João II, a nobreza de a maioria dos nobres dedicava-
começos do século xvi, conquanto intacta em -se a actividades comerciais de
seus privilégios e rendimentos, mostrava um todo o tipo, competindo com a
facies completamente alterado, muito mais em crescente burguesia e impedin-
concordância com a política de centralização real. do-lhe um desenvolvimento
Em primeiro lugar aceitou subordinar-se ao rei e à pleno. Seguindo o exemplo do
sua nova concepção de Estado absoluto; em rei, ele próprio mercador e mo-
segundo, tornou-se cada vez mais dependente de nopolista, os nobres não desde-
nomeações régias para cargos públicos e de sub- nhavam investir os seus rendi-
sídios temporários, que lhe garantiam a subsis- mentos em actividades de trans-
tência. Como resultado, grande parte da nobreza porte e de exploração económi-
(sobretudo nos escalões mais altos) emigrou das ca. É verdade que, na maioria
D. Manuel, ilustração de Pedro Proença
suas terras e cortes locais para a corte régia, onde dos casos, reinvestiam os lucros
habitualmente passou a residir. O próprio monar- em terra e em actividades não produtivas (constru-
ca encorajou essa tendência ao conceder a cha- ção, luxo, etc.), em vez de se tornarem autênticos
mada moradia (outra tença anual) a todos os homens de negócios. Ao contrário da Itália, onde o
nobres que, pelo menos teoricamente, vivessem burguês ascendeu à aristocracia, em Portugal foi o
na corte. O número de moradias aumentou de nobre que «desceu» e se meteu no comércio como
1092, com D. Afonso V, para 2493 com D. João III meio de alargamento do património.
A.H. de Oliveira Marques, História de Portugal, vol. I, Editorial Presença (texto com supressões)

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 63


Auto da Barca do Inferno: cena do Onzeneiro

Vem um Onzeneiro51, e pergunta


ao Arrais do Inferno, dizendo:

ONZE. Pera onde caminhais?


DIABO Oh! que má-hora venhais,
onzeneiro, meu parente!

Como tardastes vós tanto?


185 ONZE. Mais quisera eu lá tardar…
Na safra52 do apanhar
me deu Saturno quebranto.53
DIABO Ora mui muito m’espanto
nom vos livrar o dinheiro!
190 ONZE. Solamente pera o barqueiro
nom me leixaram nem tanto…54

DIABO Ora entrai, entrai aqui!


ONZE. Não hei eu i d’embarcar!
DIABO Oh! que gentil recear,
195 e que cousas pera mi!
ONZE. Ainda agora faleci,
leixa-me buscar batel!
Pesar de São Pimentel,
Nunca tanta pressa vi!

200 Pera onde é a viagem?


DIABO Pera onde tu hás-de ir.
ONZE. Havemos logo de partir?
DIABO Não cures de mais linguagem.55
ONZE. Pera onde é a passagem?
205 DIABO Pera a infernal comarca.
ONZE. Dix!56 Nom vou eu em tal barca.
Estoutra tem avantagem.
A Morte do Avarento, pintura da Hieronymus Bosch

51
o que empresta dinheiro a um juro excessivo, usurário; 52 colheita; 53 morri (Saturno era o deus romano
responsável pela duração das vidas humanas); 54 não me deixaram sequer uma moeda para dar ao barqueiro;
55
escusas de falar mais; 56 já disse;

64 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


Vai-se à barca do Anjo, e diz: DIABO Entra, entra! Remarás!
Nom percamos mais maré!
Hou da barca! Houlá! Hou! ONZE. Todavia…
Havês logo de partir? DIABO Per forç’é!
210 ANJO E onde queres tu ir? 235 Que te pês , cá entrarás!
60

ONZE. Eu pera o Paraíso vou. Irás servir Satanás


ANJO Pois cant’eu mui fora estou porque sempre te ajudou.
de te levar para lá. ONZE. Ó triste, quem me cegou?
Essa barca que lá está DIABO Cal’-te, que cá chorarás.
215 vai pera quem te enganou.
Entrando o Onzeneiro no batel,
ONZE. Porquê? que achou o Fidalgo embarcado,
ANJO Porque esse bolsão diz, tirando o barrete:
tomará todo o navio.
ONZE. Juro a Deos que vai vazio! 240 ONZE. Santa Joana de Valdês!
ANJO Não já no teu coração. Cá é vossa senhoria?
220 ONZE. Lá me fica de rodão57 FIDAL. Dá ò demo a cortesia!
minha fazenda e alhea. DIABO Ouvis? Falai vós cortês!
ANJO Ó onzena,58 como es fea Vós, fidalgo, cuidarês
e filha de maldição! 245 que estais na vossa pousada?
Dar-vos-ei tanta pancada
Torna o Onzeneiro à barca do Inferno com um remo, que reneguês!61
e diz:

ONZE. Houlá! Hou Demo barqueiro!


225 Sabês vós no que me fundo?
Quero lá tornar ao mundo
e trarei o meu dinheiro.
Aqueloutro marinheiro,
porque me vê vir sem nada,
230 dá-me tanta borregada59
como arrais lá do Barreiro.
Moedas de entre
finais do século xv
e 1538, iluminura
do Livro de Horas
de D. Manuel

57
em confusão; 58 juro de 11%, o que na época era excessivo; usura; 59 insulto, pancada; 60 ainda que te custe;
61
detesteis;

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 65


Auto da Barca do Inferno: cena do Onzeneiro

1 Descobre na sopa de letras os vocábulos da cena do Onzeneiro que correspondem às definições dadas.
!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
Consulta a ficha sobre • Colheita.
o texto dramático,
p. 112, e a ficha sobre • Divindade responsável pela duração das vidas humanas.
o processo figurativo, • Interjeição que significa «Já disse!».
pp. 271-272. • Juro de 11%.
• Pancada.

2 De acordo com esta cena, serão as seguintes afirmações verdadeiras ou falsas? Justifica as tuas
opções com passagens do texto.

• O Diabo trata o Onzeneiro como seu «parente», porque este praticara o mal.
• O Onzeneiro esperava falecer.
• O Onzeneiro recusa-se a entrar na barca do Diabo.
• Não há nenhum exemplo de ironia nesta cena.
• Nesta cena, o Diabo não usa o eufemismo.
• Diante do Anjo, o Onzeneiro não hesita quanto ao que acha ser o seu destino.
• O bolsão do Onzeneiro representa o pecado que lhe impede a passagem para o Paraíso.
• O pecado do Onzeneiro é de pequenas dimensões.
• Para o Anjo, o pecado do Onzeneiro pode ser remediado.
• O Onzeneiro não deixa de se preocupar com os seus bens materiais.
• O Onzeneiro não revela nenhum interesse em voltar ao mundo dos vivos.
• O Onzeneiro pensa que o dinheiro lhe permitirá a passagem para o Paraíso.
• O Onzeneiro não estranha absolutamente nada na barca do Diabo.

3 Identifica os recursos estilísticos presentes nos versos 186–187.

4 Explica, por palavras tuas, a seguinte apóstrofe do Anjo: «Ó onzena, como es fea / e filha de
maldição» (versos 222–223).

4.1 Identifica a classe social representada pelo Onzeneiro e aqui criticada pela voz do Anjo.

5 Refere o tipo de cómico presente nos versos 240–247, justificando a tua resposta.

6 Traça o percurso cénico do Onzeneiro.


Cais

Barca do Diabo Barca do Anjo

Entrada na Barca do Diabo


!
HISTÓRIA 7 Classifica as seguintes palavras da cena do Onzeneiro, justificando: «mui»; «nom»; «pera»;
DA L Í N G UA
«leixaram»; «Havês»; «alhea».
Consulta a Unidade 1,
pp. 35, 40-41.
7.1 Reescreve-as em português actual.

66 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


8 Identifica os processos fonéticos ocorridos nas seguintes palavras.

avantagem › vantagem fea › feia


!
F U N C I O N A M E N TO
9 Identifica o tipo e a forma de cada uma das seguintes frases. DA L Í N G UA
Consulta o Caderno
• «Ora entrai, entrai aqui!» (verso 192) de Funcionamento
• «Não hei eu i d’embarcar!» (verso 193) da Língua, pp. 240,
261–265.
• «Eu pera o Paraíso vou.» (verso 211)
• «Ó triste, quem me cegou?» (verso 238)
9.1 Tendo em conta o seu contexto, justifica a utilização de frases destes tipos.

9.2 Transforma as frases anteriores, modificando-lhes a forma (afirmativa/negativa), mas mantendo


o sentido original de cada uma.

10 Identifica os elementos da oração presentes na seguinte frase.

«Na safra do apanhar / me deu Saturno quebranto.» (versos 186–187)

10.1 Reescreve a frase, colocando esses elementos da oração na ordem mais frequente.

11 A palavra «Dix!» (verso 206) é usada pelo Onzeneiro para exprimir emotivamente a sua recusa
quanto ao destino proposto. Justificando as tuas opções, dá exemplos de palavras da mesma
classe morfológica que poderiam ser usadas ao longo desta cena.

O Onzeneiro
A Perfídia do Mundo,
Esta personagem, a quem o pintura de Pieter Brueghel
Diabo dá o epíteto de seu «paren-
te» representa a prática da cobran-
ça de juros (de 11%, o que dá ori-
gem às designações «onzeneiro»
e «onzena») sobre um empréstimo
VELHO AVARENTO
em dinheiro. Nos tempos medie-
vais a usura era considerada peca- Levando um velho avarento
do e os cristãos foram proibidos de Uma pedrada num olho,
emprestar a juros (embora não Pôs-se-lhe no mesmo instante
tenham sido proibidos de empres-
Tamanho como um repoulho.
tar sem juros). O usurário, portan-
to, mais do que um tipo social, Certo doutor, não das dúzias, «Dez moedas! (Diz o avaro)
encarna um vício intemporal, uma Mas sim médico perfeito, Meu sangue não desperdiço
constante da natureza humana.
Dez moedas lhe pedia Dez moedas por um olho
Ana Paula Dias, Para Uma Leitura
de Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente,
Para o livrar do defeito. O outro dou eu por isso.»
Editorial Presença
Bocage, Opera Omnia, Livraria Bertrand

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 67


Auto da Barca do Inferno: cena do Parvo

Vem Joane, o Parvo, e diz ao Arrais DIABO De que morreste?


do Inferno: JOANE De quê?
Samicas de caganeira.
65

JOANE Hou daquesta! DIABO De quê?


DIABO Quem é? JOANE De cagamerdeira,
JOANE Eu sô. má ravugem66 que te dê!
É esta a naviarra nossa?
62
260 DIABO Entra! Põe aqui o pé!
JOANE Houlá! Num tombe o zambuco!67
250 DIABO De quem? DIABO Entra, tolaço enuco,68
JOANE Dos tolos? que se nos vai a maré!
DIABO Vossa.
Entra! JOANE Aguardai, aguardai, houlá!
JOANE De pulo ou de vôo? 265 E onde havemos nós d’ir ter?
Hou! Pesar de meu avô!63 DIABO Ao porto de Lucifer.69
Soma:64 vim adoecer JOANE Ha-a-a…
e fui má-hora a morrer, DIABO Ó Inferno! Entra cá!
255 e nela pera mi só. JOANE Ó Inferno? Eramá!70
Hiu! Hiu! Barca do cornudo.
270 Pero Vinagre, beiçudo,
rachador d’Alverca, huhá!

Sapateiro da Candosa!
Antrecosto de carrapato!71
Hiu! Hiu! Caga no sapato,
275 filho da grande aleivosa!72
Tua mulher é tinhosa
e há-de parir um sapo
chentado73 no guardenapo!
Neto de cagarrinhosa!

A Extracção da Pedra
da Loucura, pintura
de Hieronymus Bosch

62
grande navio; barca reles; 63 com mil diabos!; 64 em suma, em conclusão; 65 talvez; 66 espécie de sarna;
67
pequena embarcação indiana de carga, nome depreciativo atribuído à barca do Diabo; 68 eunuco, homem
castrado; 69 Satanás; 70 em má hora; 71 espécie de piolho; 72 falsa, maldosa, adúltera; 73 colocado, posto;

68 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


280 Furta-cebolas! Hiu! Hiu!
Escomungado nas erguejas!
Burrela, cornudo sejas!
Toma o pão que te caiu!
A mulher que te fugiu
285 per’a Ilha da Madeira!
Cornudo atá mangueira,
toma o pão que te caiu!

Hiu! Hiu! Lanço-te ũa pulha!74


Dê-dê! Pica nàquela!
290 Hump! Hump! Caga na vela!
Hio, cabeça de grulha!
Perna de cigarra velha,
caganita de coelha,
pelourinho de Pampulha!
295 Mija n’agulha, mija n’agulha!

Chega o Parvo ao batel do Anjo, e diz:

JOANE Hou da barca!


ANJO Que me queres?
JOANE Queres-me passar além?
ANJO Quem és tu?
JOANE Samica75 alguém.
ANJO Tu passarás, se quiseres;
300 porque em todos teus fazeres76
per malícia77 nom erraste.
Tua simpreza78 t’abaste
pera gozar dos prazeres.
A Nave dos Loucos, pintura de Hieronymus Bosch

Espera entanto per i;


305 veremos se vem alguém
merecedor de tal bem
que deva de entrar aqui.

74
injúria, insulto; 75 talvez; 76 actos; 77 má índole; velhacaria; 78 simplicidade de espírito;

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 69


Auto da Barca do Inferno: cena do Parvo

1 Assinala a hipótese correcta e justifica a tua opção.


!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S • O cómico de carácter e o cómico de linguagem… • O Anjo concede o Paraíso ao Parvo…
Consulta a ficha sobre estão presentes nesta cena. pois sabe que ele nunca pecou.
o texto dramático,
p. 112. não estão presentes nesta cena. pois sabe que ele agiu sem maldade.
• O Parvo acusa o Diabo… • A humildade e a irresponsabilidade
porque, como louco que é, ofende do Parvo possibilitam-lhe a entrada…
qualquer um, indiferentemente. na Barca do Paraíso.
pois identifica-o como o símbolo do Mal. na Barca do Inferno.

2 Tendo em conta as características de Joane, o Parvo, resolve as palavras cruzadas com os adjec-
tivos correspondentes aos substantivos indicados.

1. Diversão
2. Frontalidade
3. Humildade
4. Ingenuidade
5. Ironia
6. Irresponsabilidade
7. Pureza
8. Simplicidade
9. Sinceridade
10. Tolice
11. Troça

2.1 Por que razão esta personagem não traz consigo nenhum símbolo cénico?

3 Indica o percurso cénico de Joane, o Parvo.

4 Imagina o motivo que levará o Anjo a pedir ao Parvo para permanecer no cais.
!
HISTÓRIA 5 O étimo latino parvulu(m) significava «muito pequeno». Que evolução semântica se deu nessa
DA L Í N G UA
palavra?
Consulta a Unidade 1,
pp. 40-41.
5.1 Atenta agora na sua evolução fonética, identificando os processos ocorridos.

parvulu(m) › parvoo › parvo


6 Identifica o processo fonético assinalado nas seguintes palavras.

erguejas › igrejas
!
F U N C I O N A M E N TO 7 Identifica a classe morfológica comum às seguintes palavras: «Eu» (verso 248); «esta» (verso
DA L Í N G UA
Consulta o Caderno 249); «Vossa» (verso 250); «mi(m)» (verso 255); «te» (verso 259); «nos» (verso 263); «me» (verso
de Funcionamento 296); «alguém» (verso 298). Justifica a tua resposta.
da Língua,
pp. 240-243,
245-246, 261-265. 7.1 Indica as subclasses a que pertencem.

7.2 Refere, sempre que possível, os nomes substituídos por essas palavras.

70 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


8 Reescreve as seguintes passagens, substituindo as palavras destacadas por pronomes.

• «Pesar de meu avô!» (verso 252) • «chentado no guardenapo!» (verso 278)


• «Põe aqui o pé!» (verso 260) • «Toma o pão que te caiu!» (verso 283)
• «e há-de parir um sapo» (verso 277) • «Lanço-te ũa pulha!» (verso 288)
9 Classifica o nome «furta-cebolas» quanto ao género e ao número, justificando.

10 Identifica os elementos da oração assinalados nas seguintes passagens.

• « Vem Joane, o Parvo, […]» • «e diz ao Arrais do Inferno: »

10.1 Classifica o sujeito de cada passagem.

A função do Parvo

O Parvo, a Alcoviteira, o Vilão, o Judeu, o Pas- se apresenta a si próprio, e nunca é observado


tor e o Clérigo são tipos indispensáveis do teatro pelo interesse que em si mesmo possa oferecer.
francês e espanhol e recursos fáceis de cómico. A sua função constante é obter efeitos cómicos,
O Parvo, que se convertera em uma espécie de a coberto da irresponsabilidade, de situações
comentador, independente da acção, punha à alheias a ele. Na Barca do Inferno comenta as
mostra, com os seus disparates, o ridículo das pretensões de alguns condenados que têm a
personagens convencidas do seu papel. Em Gil simplicidade de não se considerarem tais.
Vicente não é outra a sua função: o Parvo nunca
António José Saraiva, Gil Vicente e o fim do teatro medieval, Livraria Bertrand

Características do Parvo

Entre os mortos que chegam à margem tante: a sua linguagem


do rio de além-túmulo há um que se dis- é desbragada. Expri-
tingue de todos os outros: o Parvo. mindo-se de tal modo,
O Parvo Joane considera a barca do o Parvo é um desses
Diabo como sendo a Nave dos Loucos («a loucos que, nas festas
naviarra nossa… Dos tolos»). É uma alu- inspiradas pela cultura
são transparente à Nave dos Loucos que popular, transtornam a
constitui o tema do célebre quadro de ordem estabelecida. A
Jerónimo Bosch que tem o mesmo título. linguagem ao mesmo
O Parvo da peça de Gil Vicente é não só tempo injuriosa e opti-
um desses «pobres de espírito» a quem mista faz do Parvo con-
A Loucura, desenho de Odilon Redon
cabe o reino dos céus como um desses vertido em louco ritual
loucos do «mundo às avessas». um ser completamen-
O Parvo, efectivamente, intervém por diversas te à parte, liberto de regras e constrangimentos,
vezes no seguimento da peça. E as suas inter- em quem a Ordem não exerce qualquer poder. O
venções caracterizam-se por um aspecto cons- Diabo, com ele, sente-se impotente.
Paul Teyssier, Gil Vicente – o autor e a obra, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (texto com supressões)

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 71


Auto da Barca do Inferno: cena do Sapateiro

Vem um Sapateiro com seu avantal,


e carregado de formas, e chega ao batel
infernal, e diz:

SAPAT. Hou da barca!


DIABO Quem vem i?
Santo sapateiro honrado!
310 Como vens tão carregado?
SAPAT. Mandaram-me vir assi…

E pera onde é a viagem?


DIABO Pera o lago dos danados.79 O Sapateiro Bandarra (século xvi)
SAPAT. Os que morrem confessados,
315 onde têm sua passagem?
DIABO Nom cures de mais linguagem!
Esta é tua barca, esta!
SAPAT. Arrenegaria eu da festa
e da puta da barcagem! Embarca, eramá80 pera ti,
que há já muito que t’espero!
320 Como poderá isso ser, 330 SAPAT. Pois digo-te que nom quero!
confessado e comungado? DIABO Que te pês,81 hás-de ir, si, si!
DIABO E tu morreste escomungado: SAPAT. Quantas missas eu ouvi,
nom o quiseste dizer. nom me hão elas de prestar?
Esperavas de viver; DIABO Ouvir missa, então roubar –
325 calaste dous mil enganos. 335 é caminho per’aqui.
Tu roubaste bem trint’anos
o povo com teu mester. SAPAT. E as ofertas,82 que darão?
E as horas dos finados?83
DIABO E os dinheiros mal levados,
que foi da satisfação?84
340 SAPAT. Ah! Nom praza ò cordovão,85
nem à puta da badana,86
se é esta boa traquitana87
em que se vê Joanantão!88

Ora juro a Deus que é graça!

79
condenados; 80 em má hora; 81 ainda que te custe; 82 dádivas à Igreja; 83 orações pelos defuntos;
84
indemnização; 85 couro de cabra, curtido, para calçado; 86 pele de ovelha, curtida, para calçado; 87 veículo
ordinário; 88 nome do sapateiro, que fala dele próprio na 3.a pessoa;

72 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


O Juízo Final, pintura de Hieronymus Bosch

Vai-se à barca do Anjo, e diz: 360 SAPAT. Assi que determinais


que vá cozer ò Inferno?
345 Hou da santa caravela, ANJO Escrito estás no caderno
poderês levar-me nela? das ementas95 infernais.
ANJO A cárrega89 t’embaraça.
SAPAT. Nom há mercê que me Deos faça? Torna-se à barca dos danados, e diz:
Isto uxiquer irá.90
350 ANJO Essa barca que lá está SAPAT. Hou barqueiros! Que aguardais?
leva quem rouba de praça.91 365 Vamos, venha a prancha logo
e levai-me àquele fogo!
Oh, almas embaraçadas! Não nos detenhamos mais!
SAPAT. Ora eu me maravilho
haverdes por grão peguilho92
355 quatro forminhas cagadas
que podem bem ir i chantadas
num cantinho desse leito!93
ANJO Se tu viveras dereito,94
elas foram cá escusadas.

89
carga; 90 isto caberá em qualquer parte; 91 descaradamente; 92 estorvo, obstáculo; 93 espaço entre o mastro
grande e a popa; 94 honestamente; 95 relação, sumário;

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 73


Auto da Barca do Inferno: cena do Sapateiro

1 Faz corresponder as expressões retiradas da cena do Sapateiro ao seu significado.


!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S «mester» • • dinheiro dado à Igreja
Consulta a ficha sobre
o texto dramático, «ofertas» • • ofício, profissão
p. 112, e a ficha sobre
o processo figurativo, «horas dos finados» • • indemnização
pp. 271-272.
«satisfação» • • veículo ordinário
«traquitana» • • orações pelos defuntos
«uxiquer» • • honestamente
«peguilho» • • em qualquer parte
«dereito» • • obstáculo, estorvo

2 Preenche os espaços em branco, de modo a obteres vocábulos do texto relacionados com a pro-
fissão da personagem em julgamento.

V T

O A S

C V

D N

3 Identifica o grupo profissional a que pertence o réu desta cena.

3.1 De que forma a linguagem do Sapateiro e os elementos cénicos que transporta contribuem
para a sua caracterização?

4 De acordo com o texto vicentino, qual era o «crime» comum aos elementos desse grupo profis-
sional?

5 Sabendo que o Sapateiro Joanantão exemplifica o comportamento comum a todo o grupo pro-
fissional a que pertence, como classificas essa personagem?

6 Tendo em conta esse comportamento, como explicas a seguinte expressão do Diabo: «Santo
Sapateiro honrado» (verso 309)?

7 Retira do texto o eufemismo utilizado pelo Diabo relativamente ao destino da sua barca.

8 O Diabo afirma: «Esta é tua barca, esta!» (verso 317). Que argumentos apresenta o Sapateiro
como auto-defesa?

8.1 Como contrapõe o Diabo?

8.2 Que crítica é aqui dirigida aos católicos do tempo de Gil Vicente?

74 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


9 «Como vens tão carregado?» (verso 310); «A cárrega t’embaraça.» (verso 347). Que objectos asso-
cia o Sapateiro à «carga» apontada, respectivamente, pelo Diabo e pelo Anjo nestes versos?

9.1 Terão o Diabo e o Anjo apenas esses objectos em mente quando proferem tais palavras?
Justifica a tua resposta.

9.2 Entenderá o Sapateiro o duplo sentido da «cárrega» que transporta? Porquê?

10 Lembrando-te da profissão do réu, explica o trocadilho presente nesta fala: «Assi que deter-
minais / que vá cozer ò Inferno?».

11 Retira os versos que te pareçam corresponder à sentença final aplicada ao Sapateiro.


!
12 Das seguintes palavras, qual entrou no português por via erudita e qual entrou por via popular? HISTÓRIA
DA L Í N G UA
Porquê?
Consulta a Unidade 1,
pp. 35-38, 40-41.
direito
>
directu(m) >
directo

12.1 Identifica o processo fonético que ocorreu na passagem do étimo para a palavra «direito»
e que a distingue da palavra «directo».
!
13 O substantivo «sapateiro» formou-se a partir da palavra primitiva «sapato» e do sufixo «-eiro», F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
de origem latina. Pensando em exemplos semelhantes, refere o sentido de tal sufixo. Consulta o Caderno
de Funcionamento
da Língua, p. 260.
13.1 Faz corresponder as seguintes palavras primitivas aos sufixos de origem latina, de modo a
obteres substantivos indicadores de profissões.

palavra sufixo de
primitiva origem latina profissão

guitarra • • (d)or
cobrar • • ista
comédia • • ino
dançar • • ante
escritura • • eiro
vidraça • • (l)ão
tecer • • ário

!
P R O P O S TA D E E S C R I TA ESTUDO
ACO M PA N H A D O

Imagina que és um dos clientes enganados pelo Sapateiro. Redige a carta de reclamação que Informa-te sobre
a elaboração da
vais enviar ao desonesto Joanantão. carta de reclamação:
Unidade 0, p. 20.

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 75


Auto da Barca do Inferno: cena do Frade

Vem um Frade com ũa Moça pela mão, 385 Entrai, padre reverendo!
e um broquel 96 e ũa espada na outra, FRADE Para onde levais gente?
e um casco97 debaixo do capelo;98 DIABO Pera aquele fogo ardente
e, ele mesmo fazendo a baixa,99 que nom temestes vivendo.
começou de dançar, dizendo: FRADE Juro a Deos que nom t’entendo!
390 E este hábito no me val?103
FRADE Tai-rai-rai-ra-rã, ta-ri-ri-rá; DIABO Gentil padre mundanal,104
ta-rai-rai-rai-rã; tai-ri-ri-rã; a Berzabu105 vos encomendo!
370 tã-tã; ta-ri-rim-rim-rã. Huha!
DIABO Que é isso, padre? Que vai lá? FRADE Ah, Corpo de Deos consagrado!
FRADE Deo gratias! Som cortesão. Pela fé de Jesu Cristo,
DIABO Sabês também o tordião?100 395 que eu nom posso entender isto!
FRADE Porque não? Como ora sei! Eu hei-de ser condenado?
375 DIABO Pois, entrai! Eu tangerei101 Um padre tão namorado
e faremos um serão. e tanto dado a virtude?
Assi Deos me dê saúde,
Essa dama, é ela vossa? 400 que eu estou maravilhado!106
FRADE Por minha la tenho eu,
e sempre a tive de meu. DIABO Não curês de mais detença.107
380 DIABO Fezestes bem, que é fermosa! Embarcai e partiremos:
E não vos punham lá grosa102 tomareis um par de remos.
no vosso convento santo? FRADE Nom ficou isso n’avença.108
FRADE E eles fazem outro tanto! 405 DIABO Pois dada está já a sentença!
DIABO Que cousa tão preciosa… FRADE Par Deos! Essa seri’ela!109
Não vai em tal caravela
minha senhora Florença.

Como? Por ser namorado


410 e folgar com ũa mulher
se há um frade de perder,
com tanto salmo110 rezado?
DIABO Ora estás bem aviado!
FRADE Mais estás bem corregido!111
415 DIABO Devoto padre marido,
havês de ser cá pingado…112
96
pequeno escudo; 97 capacete; 98 capuz; 99 assobiar ou trautear a música
de uma dança baixa; 100 dança de uma ária a três tempos; 101tocarei;
102
pôr obstáculo, censurar; 103 não me salvará do Inferno?; 104 dado aos
prazeres do mundo; 105 Diabo; 106 espantado; 107 demora; 108 acordo,
contrato; 109 era o que faltava!; 110 orações cantadas; 111 mais bem aviado
Alegoria da Gula e da Luxúria, pintura de Hieronymus Bosch estás tu!; 112 torturado com pingos de azeite ou de gordura a ferver;

76 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


Descobrio o Frade a cabeça, tirando o
capelo, e apareceo o casco, e diz o Frade:

FRADE Mantenha Deos esta coroa!113


DIABO Ó padre Frei Capacete!
Cuidei que tínheis barrete! Inferno, pintor anónimo do século xvi, Museu Nacional da Arte Antiga

420 FRADE Sabê que fui da pessoa!114


Esta espada é roloa Saio com meia espada…
e este broquel rolão.115 Hou lá! Guardai as queixadas!
DIABO Dê Vossa Reverencia lição DIABO Ó que valentes levadas!
d’esgrima, que é cousa boa! FRADE Ainda isto nom é nada…
445 Dêmos outra vez caçada!
Começou o Frade a dar lição d’esgrima Contra sus e um fendente,
com a espada e broquel, que eram e cortando largamente,
d’esgrimir, e diz desta maneira: eis aqui seista feitada.

425 FRADE Deo gratias! Demos caçada!116 Daqui saio com ũa guia
Pera sempre contra sus! 450 e um revés da primeira:121
Um fendente! Ora sus! esta é quinta verdadeira,
Esta é a primeira levada. —Oh! quantos d’aqui feria!
Alto! Levantai a espada! Padre que tal aprendia
430 Talho largo, e um revés! no Inferno há-de haver pingos?
E logo colher os pés,117 455 Ah! nom praza122 a São Domingos
que todo o al118 no é nada. com tanta descortesia!

Quando o recolher se tarda Tornou a tomar a Moça pela mão,


o ferir nom é prudente. dizendo:
435 Ora, sus! Mui largamente,
cortai na segunda guarda!119 FRADE Vamos à barca da Glória!
—Guarde-me Deos d’espingarda
mais de homem denodado.120 Começou o Frade a fazer o tordião
Aqui estou tão bem guardado e foram dançando até o batel do Anjo
440 como a palha n’albarda. desta maneira:

FRADE Ta-ra-ra-rai-rã; ta-ri-ri-ri-ri-rã;


tai-rai-rã; ta-ri-ri-rã; ta-ri-ri-rã.
460 Huhá!
113
corte de cabelo em forma de coroa, simbolizando o sacerdócio; 114 pessoa importante; 115 digna de Roland,
guerreiro medieval, cuja espada inquebrável ficou célebre; 116 ora vamos a isto!; 117 ao longo desta fala o Frade usa
termos técnicos de esgrima; 118 resto; 119 termo técnico de esgrima; 120 ousado; 121 as personagens usam termos
técnicos de esgrima; 122 permita;

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 77


Auto da Barca do Inferno: cena do Frade

Deo gratias! Há lugar cá Vamos onde havemos d’ir,


pera minha reverença? 470 não praza a Deos com a ribeira!
E a senhora Florença Eu não vejo aqui maneira
polo meu entrará lá! senão enfim… concrudir.124
465 JOANE Andar, muitieramá! DIABO Haveis, padre, de viir.
Furtaste o trinchão,123 frade? FRADE Agasalhai-me lá Florença,
FRADE Senhora, dá-me a vontade 475 e compra-se esta sentença
que este feito mal está. e ordenemos de partir.

123
mulher apetitosa; 124 concluir, ou seja, entrar na Barca do Inferno;
!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
1 Resolve as seguintes palavras cruzadas com os vocábulos
Consulta a ficha sobre do texto que correspondem aos significados apresentados.
o texto dramático,
p. 112.
1. Mulher apetitosa
2. Capacete
3. Tocarei
4. Pessoa que vive na corte
5. Dança
6. Pequeno escudo
7. Pessoa dadas aos prazeres mundanos
8. Espera, demora
9. Espantado 13. Termo de esgrima
10. Acordo, contrato 14. Termo de esgrima
11. Oração cantada 15. Termo de esgrima
12. Torturado 16. Ousado

2 Completa as frases que se seguem, assinalando a hipótese correcta e justificando a tua opção.

• O Frade entra em cena apresentando • O Frade…


comportamentos próprios… defende-se, utilizando, entre outros,
de uma pessoa que vive num mosteiro. argumentos de natureza religiosa.
de uma pessoa que vive na corte. não se defende e reconhece os seus
• Tal comportamento provoca… pecados.
o cómico de carácter. • A ironia do Diabo…
o desagrado no Diabo. está presente nesta cena.
• O Frade mostra… não está presente nesta cena.
vergonha pelo seu passado. • O Frade…
orgulho pelo seu passado. aceita conformado a sentença.
não se conforma e fica revoltado
com a sua condenação.
• Com esta cena, Gil Vicente pretende criticar…
apenas este membro do Clero.
todo o Clero.

78 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


3 A personagem do Frade pode ser caracterizada directamente através das palavras do Diabo.
Explica o significado das seguintes expressões: «Gentil padre mundanal»; «Devoto padre marido»;
«Ó padre Frei Capacete!».

3.1 Diz de que forma a utilização destas expressões contribui para realçar a contradição do
comportamento da personagem.

4 A personagem do Frade pode ser caracterizada indirectamente através dos símbolos cénicos que
transporta. Identifica os símbolos cénicos que acompanham o Frade.

4.1 Relaciona os símbolos cénicos com os pecados da personagem.

5 Explica a razão pela qual o Anjo se recusa a falar com o Frade.

5.1 Que personagem substitui o Anjo?

6 Descobre as semelhanças e as diferenças existentes entre a Moça na cena do Frade e o Pajem


na cena do Fidalgo.
!
7 «Haveis, padre, de viir» (verso 473). Que fenómeno fonético ocorreu na forma verbal «viir», dando HISTÓRIA
DA L Í N G UA
origem à palavra actual? Consulta a Unidade 1,
pp. 40-41.

8 Altera o número dos seguintes nomes: «cortesão» (verso 372); «serão» (verso 376).

8.1 Classifica-os quanto ao género.


!
F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
9 Identifica os elementos da oração presentes na seguinte passagem. Consulta o Caderno
de Funcionamento
da Língua,
«Vem um Frade com ũa Moça pela mão […]» pp. 240-243,
258-259, 261-265.
9.1 Reduz a oração aos seus elementos essenciais.

10 Aponta na primeira didascália a conjunção que permite a ligação entre os vários símbolos cénicos
do Frade.

10.1 Classifica-a, justificando.

10.2 Reescreve uma passagem dessa didascália, substituindo tal conjunção por uma locução
conjuncional do mesmo tipo.

P R O P O S TA D E E S C R I TA

À personagem do Frade, podemos aplicar o provérbio «O hábito não faz o monge». Cria um
pequeno texto, relacionando o provérbio com a cena do Frade.

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 79


Auto da Barca do Inferno: cena do Frade

A vela da fé que o mundo recusa

Segundo Gil Vicente, o mundo está condenado, Auto da Barca da Glória, horrorizado com a imi-
fundamentalmente, porque perdeu a fé e o temor nente degradação do seu corpo pela acção dos
a Deus, a consciência do que é pecado, o respeito vermes, demonstra a sua total inconsciência
pelos mandamentos; não mais louvou Deus nem moral ao considerar que, pelo seu próprio estado
cumpriu o seu culto; esquecendo o significado da na hierarquia social e eclesiástica, os bispos não
Paixão de Cristo, ignorou a sua própria redenção vão para o Inferno. Fora, contudo, o seu orgulho
e baniu do seu comportamento a bondade e a que o condenara em vida, sentimento esse que,
caridade cristãs. pelo menos numa concepção teórica, deveria
Os religiosos, regulares ou seculares, do alto estar bem apartado do indivíduo que ocupasse
ou do baixo clero, são um dos alvos preferidos de tal cargo.
Gil Vicente, porque, afastando-se de uma recta Se o orgulho em ocupar um alto cargo é motivo
conduta o seu crime é mais grave, uma vez que de condenação moral, não o é menos a ambição
sendo a sua missão velar pela solução espiritual que tantos demonstram por ocupar tais funções,
de toda a sociedade, ao praticarem-no compro- conseguindo prestígio e rendimento. Nesse sen-
metem tal função e, para mais, fornecem um pés- tido se dirige a crítica violenta do Diabo àqueles
simo exemplo de conduta que deveria constituir que, pilares da Igreja, a deveriam defender, mas,
para um cristão um modelo de fé e de virtudes. pelo contrário, eram dominados pela ambição de
Nesse sentido Gil Vicente não poupa os altos chegar à mitra papal: um Cardeal que, no dizer do
dignitários da Igreja nem o próprio Papa. Bem Diabo, morrera «llorando porque no fuisteis /
revelador dessa sua concepção da missão do siquiera dos dias papa» e um Arcebispo que, para
Papa é, sem dúvida, o julgamento efectuado no além de ambicioso, sempre se mostrara explora-
Auto da Barca da Glória (1519). Questiona-se aqui dor e desamparara os necessitados.
o comportamento moral de um mau Papa e não a Mas a sede de prestígio e a cobiça de maiores
própria dignidade, bem entendido. Nesta peça, a rendimentos mina, da mesma forma, os estratos
Morte arrebatara-o de um alto estado e poder que inferiores do clero. A ambição de vir a ser bispo é
durante a vida o fizeram esquecer que era mortal. frequentemente atribuída a religiosos nas obras
O Diabo rebaixa-o mais ainda, afirmando-lhe que de Gil Vicente. A figura mais acabada do ambicio-
o transportará no batel infernal até Lúcifer, onde so que, para obter um bispado e ganhar um lugar
definitivamente ele perderá a mitra e beijará os como privado do rei, arquitecta todo o género de
pés do senhor do Inferno. estratagemas, defumando e amarelecendo o
Pelas suas acções, este Papa deixara de ser rosto com palha, jejuando para parecer um mártir,
digno do cargo que ocupara, pois utilizara de é, sem dúvida, a do pregador Frei Narciso, da
forma vergonhosa o seu poder de mandatário da Romagem de Agravados (1533).
Igreja, dando um exemplo negativo ao ser desre- Mas, para além da cobiça, é sobretudo a negli-
grado e vendedor de graças. O seu crime tornava- gência do ofício divino e a violação das regras pró-
-se tanto mais grave quanto Deus o fizera o seu prias do sacerdócio que tornam este grupo social
pastor e o colocara como seu intermediário jun- vulnerável e objecto de violentos ataques.
tos dos homens. A vida abastada de uns, que levava o Parvo do
Vemos, desta forma, como é defendida por Gil Auto Pastoril da Serra da Estrela (1527) a conside-
Vicente a ideia de que a posição na hierarquia da rar, numa sensatez mascarada de ingenuidade
Igreja não absolve a acção dos homens que a ocu- popular, «os frades vermelhos, / e os leigos ama-
pam. À semelhança do Papa, também o Bispo do relos» (iv, 195, 8-9), a falta de vocação de muitos e

80 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


o excessivo número de membros do clero são
objecto de alusões críticas, particularmente na
Frágua de Amor (1524), veiculadas por Frei Rodri-
go. Revoltado com a disciplina e as obrigações de
tipo espiritual a que ficava obrigado a submeter-
-se, pretende voltar a ser leigo e fidalgo para
servir na guerra e no amor.
A mancebia e a proliferação de filhos ilegítimos
de membros do clero constituem, por outro lado,
a parte de leão da crítica vicentina relativamente
ao estado religioso. Se tais fenómenos se verifi-
cavam igualmente nos outros estratos sociais,
ganhavam neste, todavia, uma maior dimensão,
uma vez que violavam as regras básicas do sacer-
dócio e a sua legitimação moral. Desde há muito
que o tema do desregramento moral estava na
ordem do dia, não só em produções literárias, Alegoria da Pobreza, pormenor de fresco de Giotto
mas nas próprias reuniões e disposições do foro
eclesiástico. A sua verificação ganhava agora, mas tudo se mostra inútil e agravado quando,
todavia, uma perspectiva nova, sendo um dos para mais, se descobre mostrando um capacete e
motivos de reflexão dos movimentos latentes da manejando habilmente uma espada.
Reforma e, portanto, um dos pontos fracos da Também o jogo e o gosto pela comida e pela
estrutura eclesiástica católica e que urgia, mais bebida se imputam aos religiosos. São Diabos as
do que nunca, rectificar. figuras que frequentemente aludem ao vício da
Patenteando uma total irresponsabilidade e bebida de que o clérigo nigromante da Exortação
falta de pudor, sem dúvida com um objectivo cari- da Guerra (1514) sofria, rebaixando-o e insultan-
catural e satírico, dado o exagero manifesto na do-o, acusando-o de beber «sem desfolegar».
construção da personagem, surge no Auto da Mas uma das figuras vincentinas que, de uma
Barca do Inferno (1517) um frade de S. Domingos forma mais coesa e altamente satírica, consegue
acompanhado de uma moça, Florença, simboli- reunir em si próprio os principais vícios de que o
zando, como já tivemos ocasião de referir, a sua clero é vergastado é, sem dúvida, o Ermitão do
culpa de ordem moral, que desde logo o condena- Auto Pastoril da Serra da Estrela (1527). Pretende
rá às chamas infernais. O frade, dançando e can- habitar uma ermida que já estivesse construída,
tando, autoafirma-se cortesão. espaçosa, para que nela pudesse dançar, e situa-
Numa perspectiva que já vimos patenteada por da num local «deserto», mas abundante em vinho
altos dignitários da Igreja no Auto da Barca da e pão, caça e pescaria. A casa deveria ser quente
Glória, também este falso sacerdote julga que no Inverno e fresca no Verão, a cama confortável e
será salvo por usar o hábito ou ter rezado múlti- tendo à cabeceira um cravo. O repouso seria pro-
plos salmos, apesar de se declarar «namorado, / longado, por altura das orações, pela intervenção
e folgar c’hua mulher». O Diabo, ironicamente, de pastoras e sobretudo de uma que lhe fizesse a
denomina-o «Devoto padre e marido», numa alu- cama e, segundo as suas próprias palavras, «na
são directa à sua mancebia. Procura ainda o frade cella me abraçasse / e mordesse nas orelhas, /
refugiar-se no facto de manter a coroa de clérigo, inda que me lastimasse».
Maria Leonor García da Cruz, Gil Vicente e a Sociedade Portuguesa de Quinhentos, Gradiva (texto com supressões)

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 81


Auto da Barca do Inferno: cena da Alcoviteira

Tanto que o Frade foi embarcado, veio Três almários129 de mentir,


ũa Alcouveteira, per nome Brísida Vaz, e cinco cofres de enlheos,130
a qual, chegando à barca infernal, 495 e alguns furtos alheos,
diz desta maneira: assi em jóias de vestir,
guarda-roupa d’encobrir,
BRÍS. Hou lá da barca, hou lá! enfim – casa movediça;131
DIABO Quem chama? um estrado de cortiça
BRÍS. Brísida Vaz. 500 com dous coxins132 d’encobrir.
DIABO E aguarda-me, rapaz?
480 Como nom vem ela já? A mor cárrega133 que é:
COMP. Diz que nom há-de vir cá essas moças que vendia.
sem Joana de Valdês.125 Daquesta mercadoria
DIABO Entrai vós, e remarês. trago eu muita, bofé!134
BRÍS. Nom quero eu entrar lá. 505 DIABO Ora ponde aqui o pé…
BRÍS. Hui! e eu vou pera o Paraíso!
485 DIABO Que saboroso arrecear! DIABO E quem te dixe135 a ti isso?
BRÍS. No é essa barca que eu cato.126 BRÍS. Lá hei-de ir desta maré.136
DIABO E trazês vós muito fato?127
BRÍS. O que me convém levar. Eu sô ũa mártela137 tal,
DIABO Que é o qu’havês d’embarcar? 510 açoutes tenho levados
490 BRÍS. Seiscentos virgos128 postiços e tormentos soportados
e três arcas de feitiços que ninguém me foi igual.
que nom podem mais levar. Se fosse ò fogo infernal,
lá iria todo o mundo!
515 A estoutra barca, cá fundo,
me vou, que é mais real.138

Barqueiro mano, meus olhos,139


prancha a Brísida Vaz!
ANJO Eu não sei quem te cá traz…
520 BRÍS. Peço-vo-lo de giolhos!140
Cuidais que trago piolhos,
Duas Bruxas,
desenho
anjo de Deos, minha rosa?
de Hieronymus Eu sô aquela preciosa
Bosch
que dava as moças141 a molhos,

125
personagem conhecida na época; 126 procuro; 127 bens, roupa; 128 hímenes ou membranas que representam a
virgindade das mulheres; 129 armários; 130 enleios, intrigas; 131 casa de armar e desarmar; 132 almofadas; 133 carga;
134
na verdade; 135 disse; 136 vez; 137 mártir; 138 mais bonita, melhor; 139 tal como fazia com os seus clientes,
Brísida dirige-se carinhosamente ao Anjo; 140 joelhos; 141 raparigas do povo;

82 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


525 a que criava as meninas142
pera os cónegos da Sé…
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,143
olho de perlinhas finas!
530 E eu som apostolada,
angelada e martelada,144
e fiz cousas mui divinas.

Santa Úrsula nom converteo


Nobres e Cortesãs Banhando-se numa Fonte, miniatura renascentista
tantas cachopas como eu:
535 todas salvas polo meu,145
que nenhũa se perdeo.
E prouve Àquele do Céo146
que todas acharam dono.147
Cuidais que dormia sono? Torna-se Brísida Vaz à barca do Inferno,
540 Nem ponto se me perdeo!148 dizendo:

ANJO Ora vai lá embarcar, BRÍS. Hou barqueiros da má-hora,


não estês149 emportunando. 550 que é da prancha, que eis me vou?
BRÍS. Pois estou-vos eu contando E há já muito que aqui estou,
o porque me haveis de levar. e pareço mal cá de fora.
545 ANJO Não cures de emportunar, DIABO Ora entrai, minha senhora,
que nom podes ir aqui. e sereis bem recebida;
BRÍS. E que má-hora eu servi, 555 se vivestes santa vida,
pois não m’há-de aproveitar!150 vós o sentirês agora.

142
raparigas burguesas; 143 flores do campo; 144 a Alcoviteira compara-se com os apóstolos, com os anjos e com
os mártires; 145 graças a mim; 146 Deus; 147 amante ou marido; 148 nem uma só se perdeu; 149 estejas; 150 não me
há-de aproveitar o que trabalhei!;

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 83


Auto da Barca do Inferno: cena da Alcoviteira

1 Faz corresponder cada um dos substantivos retirados do texto ao seu significado.


!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S «fato» • • armários
Consulta a ficha sobre
o texto dramático, «almários» • • mexericos
p. 112, e a ficha sobre
o processo figurativo, «enlheos» • • almofadas
pp. 271-272.
«coxins» • • bens/roupas
«mártela» • • flores campestres
«giolhos» • • mártir
«boninas» • • joelhos

2 Partindo da leitura da Cena da Alcoviteira, completa as frases que se seguem.

• Os objectos carregados por Brísida Vaz revelam a sua profissão e são os seguintes:

• Tais objectos simbolizam as actividades ilícitas praticadas pela personagem:

• Com convicção, a Alcoviteira recusa-se a entrar na barca do Inferno, dizendo ao Diabo…

• A Alcoviteira considera-se uma mártir devido…

• Carinhosamente, Brísida tenta persuadir o Anjo através do elogio, tal como se verifica nas
seguintes expressões:

• A Alcoviteira autocaracteriza-se, afirmando ter sido «apostolada» e «angelada», porque…

• Brísida compara-se…

• Ao utilizar vocabulário religioso, a Alcoviteira pretende…

• A atitude do Anjo face aos argumentos da Alcoviteira é de…

84 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


• Nesta cena, Gil Vicente torna a criticar uma classe social já visada no auto, ou seja,…

• A crítica a essa classe social surge nos versos:

• Os últimos quatro versos desta cena são irónicos, porque…

3 A personagem da Alcoviteira pode ser caracterizada indirectamente através da linguagem que


utiliza. Dá exemplos de palavras do texto pertencentes aos campos semânticos da mentira e da
religião.

3.1 De que forma a linguagem utilizada permite captar/perceber o carácter da personagem?


!
4 Qual dos superstratos do português estará na origem das palavras «alcoviteira» e «açoites»? HISTÓRIA
DA L Í N G UA
Consulta a Unidade 1,
5 Actualmente, a palavra «alcoviteira» designa alguém que tem por hábito fazer intrigas, mas, no pp. 29-32, 41.

Auto da Barca do Inferno, essa palavra tem outro significado. Qual?

5.1 Que tipo de evolução sofreu então a palavra «alcoviteira»?


!
6 Identifica a classe morfológica comum às palavras destacadas na seguinte passagem. F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
Consulta o Caderno
«E eu som apostolada, / angelada e martelada, / e fiz cousas mui divinas.» (versos 530–532) de Funcionamento
da Língua, pp. 240,
256, 261-265.
6.1 Embora tais palavras pertençam à mesma classe morfológica, parecem-te desempenhar a
mesma função na oração? Porquê?

7 Identifica os complementos determinativos nas seguintes passagens.

• «e três arcas de feitiços» (verso 491)


• «guarda-roupa d’encobrir» (verso 497)
• «um estrado de cortiça» (verso 499)

7.1 A propósito da lista enunciada pela Alcoviteira, cria uma frase com um complemento deter-
minativo de posse.

8 Justifica o uso da conjugação perifrástica nas seguintes falas da Alcoviteira.

• «Lá hei-de ir desta maré.» (verso 508)


• «Pois estou-vos eu contando / o porque me havês de levar.» (versos 543–544)

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 85


Auto da Barca do Inferno: cena da Alcoviteira

Os Sete Pecados Mortais Dominados pela Morte, técnica mista de James Ensor

O julgamento da alcoviteira

A continuação da existência e da actividade da açoitada, levando «Com cent’açoutes no lombo, /


alcoviteira, muito embora punida pela justiça, e ũa carocha por capela», como era costume, ao
testemunha a persistência naquele modo de vida mesmo tempo que o pregão a acusava de grande
e na requisição dos seus préstimos. Intermediá- alcoviteira e degradada.
ria, podemos dizer que esta figura joga com a Alguns anos depois, em 1517, no Auto da Barca
oferta e a procura do mercado da imoralidade. É, do Inferno, procederá Gil Vicente ao julgamento
por isso, um barómetro da própria degradação moral de tal figura, desta feita a alcoviteira Brízi-
moral da sociedade. Gil Vicente leva-a a um julga- da Vaz.
mento moral, mas, automaticamente, condena O Diabo, irónico perante uma criatura que aos
aqueles que do seu mister se utilizam e que para olhos de toda a sociedade é classificada de não
isso lhe pagam. possuir escrúpulos nem sombra de respeito,
Logo em 1512, no Velho da Horta, surge Branca toma, desde logo, por «saboroso arrecear» o
Gil, adela e alcoviteira, com conhecimentos de facto de a Alcoviteira declarar não querer entrar
feitiçaria, requerida para medianeira. Conhece e na embarcação infernal. É abundante o «fato» ou
nomeia membros da Corte numa invocação em bens móveis que ela transporta.
forma de ladainha que dirige a cortesãos, poetas A sua mercadoria fundamentava-se na mentira
e donzelas enamorados, pedindo que consolem o e na arte de enganar, donde os «virgos postiços»,
velho apaixonado. «mentir», «enleios», «encobrir»; em feitiços,
Como alcoviteira já fora presa e solta diversas dada a sua actividade de feiticeira; em furtos,
vezes, três vezes açoitada. Volta a ser apanhada e fatos e jóias que obteria nas suas lides de regatei-

86 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


ra e de alcoviteira ou mesmo de mulher de má
vida, conforme se depreende da alusão à sua
«casa movediça».
Comparando-se ou, melhor, afirmando-se pre-
gadora, apóstola e mártir, qual outra santa, iden-
tifica a sua acção de conversão e salvação de
moças com a realizada por S.ta Úrsula. É, sem
dúvida, um discurso invertido, cuja ironia reside
no facto de tal salvação ser neste caso espiritual e
no de Brízida constituir uma conversão funda-
mentada no engano e uma verdadeira perdição
no campo espiritual. Brízida Vaz evitava que se
«perdessem» tais raparigas, não se referindo às
almas num sentido cristão, mas no sentido estri-
tamente literal, isto é, obstava a que elas esca-
passem ao destino que lhes reservava após as ter
convencido. Conforme afirma, os «donos» a
quem as dava eram geralmente religiosos.
O seu trabalho teria sido, desta forma, o de ser-
vir a Deus e à Sociedade.
Em 1521, na Comédia de Rubena, Gil Vicente põe
A Rameira da Babilónia, gravura de Albrecht Dürer
em cena de novo uma Alcoviteira, embora com
características exteriores um pouco específicas.
Na verdade, surgindo quando a jovem Cismena, cendo-lhe dinheiro, para conseguir o acesso a
de 15 anos, perde a mãe e herda avultados bens, a uma jovem moura por quem se enamora. Para
sua aparência é a de uma beata, cujo hábito servi- obtê-lo vendera algumas peças de vestuário e a
ria para realçar a missão que ali a trazia: a de con- viola e dera o montante assim obtido à alcovitei-
solar a jovem e de lhe procurar quem a protegesse. ra. Mas, logo ao primeiro recado, esta exigira-lhe
Da alcoviteira que em 1525 ou 1526 integra O mais dinheiro e ele vira-se obrigado a empenhar
Juiz da Beira, Ana Dias, já desenvolvemos algu- uma sela e a alugar o seu cavalo. Depois viera
mas referências. Vem junto do juiz queixar-se em ainda com a conversa de que a moura pretendia
vão da violação que sua filha sofrera mas, em con- que ele lhe pagasse a liberdade. Levara-lhe,
trapartida, será acusada por um sapateiro cris- assim, todos os seus bens.
tão-novo de ter agido como alcoviteira junto de Mas, casos que envolviam judias ou mouras
sua filha. A reacção de Ana Dias será violenta, eram de difícil resolução, pois a lei não as con-
insultando o acusador e frisando a sua qualidade templava com os mesmos direitos jurídicos de
de judeu, e lembrando-lhe os protectores – e seus que usufruíam as cristãs. E Pêro Marques, por
clientes – que tinha ali mesmo na Corte. isso e pelo facto de todos serem cúmplices da
Apelidada pelo sapateiro de «hembra mala», actividade da Alcoviteira, numa sentença aparen-
será ele quem descreverá ao juiz Pêro Marques a temente «louca» ou «sem senso», encara este
«arte» que constituía a actividade de alcoviteira. ofício como útil à sociedade e sujeita Ana Dias a
De Ana Dias também um Escudeiro se queixará, açoites somente no caso de ela deixar de cumprir
acusando-a de embusteira. Contactara-a, ofere- com perícia a sua profissão.
Maria Leonor García da Cruz, Gil Vicente e a Sociedade Portuguesa de Quinhentos, Gradiva (texto com supressões)

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 87


Auto da Barca do Inferno: cena do Judeu

Lê atentamente a cena do Judeu e traça o percurso cénico da personagem.


!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
Consulta a ficha sobre Tanto que Brísida Vaz se embarcou, JUDEU Porque nom irá o judeu
o texto dramático,
p. 112.
veo um Judeu, com um bode 151 às costas; onde vai Brísida Vaz?
e, chegando ao batel dos danados, diz: 575 Ao senhor meirinho153 apraz?
Senhor meirinho, irei eu?
JUDEU Que vai cá? Hou marinheiro! DIABO E ò fidalgo, quem lhe deu…
DIABO Oh! que má-hora vieste! JUDEU O mando, dizês, do batel?
JUDEU Cuj’é esta barca que preste? Corregedor, coronel,
560 DIABO Esta barca é do barqueiro. 580 castigai este sandeu! 154
JUDEU Passai-me por meu dinheiro.
DIABO E o bode há cá de vir? Azará, pedra miúda,
JUDEU Pois também o bode há-de ir. lodo, chanto, fogo, lenha,
DIABO Que escusado passageiro! caganeira que te venha!
Má corrença que te acuda!
565 JUDEU Sem bode, como irei lá? 585 Par el Deu, que te sacuda
DIABO Nem eu nom passo cabrões. co’a beca nos focinhos!155
JUDEU Eis aqui quatro testões Fazes burla dos meirinhos?
e mais se vos pagará. Dize, filho da cornuda!
Por via do Semifará152
570 que me passeis o cabrão! JOANE Furtaste a chiba,156 cabrão?
Querês mais outro testão? 590 Parecês-me vós a mim
DIABO Nenhum bode há-de vir cá. gafanhoto d’Almeirim
chacinado em um seirão.
DIABO Judeu, lá te passarão
porque vão mais despejados.
595 JOANE E ele mijou nos finados
n’ergueja de São Gião!

E comia a carne da panela


no dia de Nosso Senhor! 157
E aperta o salvador,
600 e mija na caravela!
DIABO Sus, sus! Dêmos à vela!
Sinagoga Espanhola,
manuscrito iluminado
Vós, Judeu, irês à toa,158
(1350) que sois mui ruim pessoa.
Levai o cabrão na trela!

151
o bode era imolado, como ritual da religião judaica; 152 provavelmente, o nome deste judeu ou de outro
conhecido; 153 antigo magistrado; aqui o Judeu refere-se ao Fidalgo; 154 tolo; 155 nestes versos, o Judeu roga pragas
ao Diabo; 156 cabra; 157 não respeitava o preceito cristão de não comer carne em dia de jejum; 158 a reboque;

88 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


1 Escolhendo uma das hipóteses dadas, completa o seguinte texto, de acordo com a cena do Judeu
e os teus conhecimentos acerca do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.

Mal o Judeu entra em cena, é recebido com palavras de _________________ (1), por parte do
Diabo, que revela _______________________ (2) interessado em transportá-lo. De facto, quando
o Judeu lhe pergunta de quem é a barca, o Diabo responde _______________________ (3), dizen-
do apenas que a «barca é do barqueiro», ___________________________ (4) faz com as outras
personagens, as quais convida insistentemente a embarcar.
Poder-se-á então dizer que a alma do Judeu _________________ (5) pelo próprio Diabo, que
chega a sugerir que ele _______________________________ (6), porque ___________________ (7).
Por seu turno, o Judeu teima em embarcar no batel do _________________ (8), fazendo uso do
seu _________________ (9) e pedindo auxílio ao _________________ (10).
Que razão levará o Judeu a preferir a passagem na barca do ________ (11), _____________ (12)
de todas as outras personagens que pretendem seguir para o _________________ (13)? Ora, não
sendo a religião do Judeu a _____________ (14), este não reconhece os valores opostos, o Bem e
o Mal, ali representados _______________________________ (15), respectivamente, e, assim,
prefere embarcar no batel onde _____________________________________________ (16).
Tal é a crítica dirigida aos judeus do tempo de Gil Vicente, ou seja, é-lhes criticado o facto de
quererem, a todo o custo, um lugar na sociedade portuguesa _________________ (17), sociedade
essa maioritariamente ________________ (18), sem abdicarem da religião ________________ (19),
nesta cena representada na figura do _____________ (20), não respeitando, portanto, os rituais
religiosos da sociedade onde desejam obter um lugar de destaque. É disso mesmo que o Judeu é
acusado pela voz do _____________ (21), uma acusação que tem de ser entendida no contexto
histórico-cultural do século _______ (22).
Deste modo, o castigo dado ao Judeu é o de seguir para o _____________ (23), mas contraria-
mente ao que desejava, viajará ________________________ (24) outras almas, por conseguinte,
__________________ (25) sociedade, representada pelas personagens embarcadas no batel do
_____________ (26).

(1) agrado / desagrado (15) pelo Fidalgo e por Brísida Vaz / pelo Anjo e pelo
(2) não estar nada / estar muito Diabo
(3) com enfado / animadamente (16) se encontra quase toda a sociedade / onde não se
(4) tal como / bem diferente do que encontra ninguém
(5) é rejeitada / é aceite (17) oitocentista / quinhentista
(6) permaneça no cais / embarque no batel divinal (18) católica / judaica
(7) está vazio / virá mais alguém (19) católica / judaica
(8) Paraíso / Inferno (20) dinheiro / bode
(9) estatuto social / dinheiro (21) Parvo / Diabo
(10) Fidalgo / Frade (22) XVI / XIX
(11) Anjo / Diabo (23) Paraíso / Inferno
(12) ao contrário/ à semelhança (24) juntamente com / separado das
(13) Paraíso / Inferno (25) isolado da / integrado na
(14) judaica / católica (26) Anjo / Diabo

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 89


Auto da Barca do Inferno: cena do Judeu

2 Justifica a utilização do calão nas falas do Judeu e do Parvo.


!
F U N C I O N A M E N TO 3 A partir da palavra «judeu» e dos sufixos «-ar» e «-aria», forma palavras da mesma família.
DA L Í N G UA
Consulta o Caderno
de Funcionamento 3.1 Consulta o dicionário e descobre os sentidos possíveis dessas palavras.
da Língua, p. 260.
3.2 «Vós, Judeu, irês à toa, / que sois mui ruim pessoa» (versos 602–603). Poderá este tipo de visão
dos judeus relacionar-se com alguns dos sentidos das palavras que pesquisaste? Porquê?

A «cegueira judaica»

A leitura da figura do judeu que depreendemos Nesta mesma linha – de concepção marcada-
da obra vicentina torna-se mais interessante mente ideológica –, Gil Vicente coloca, em 1514,
ainda, na óptica de uma história das mentalida- na Exortação da Guerra o seguinte esconjuro na
des, quando ela se gera numa época de grande boca do Clérigo nigromante:
contestação antijudaica e em que o poder real
tem um papel activo na conversão forçada dos CLÉRIGO
judeus portugueses, sob ameça de expulsão em Conjuro-te Berzebu,
1496 e sujeitos a reacções violentas e sangrentas pola ceguidade hebraica,
que persistirão no dealbar do século xvi. Até que e pola malicia judaica,
ponto, na sua obra, Gil Vicente reflecte ou omite com a qual te alegras tu,
uma opinião sobre a legitimidade dessa conver- (iv, 132, 23-26)
são compulsiva, tema que ao longo dos anos iria
gerar discussão e controvérsia, como encara o A cegueira judaica e a malícia implícita no
cristão-novo ou judeu converso na construção judeu, que propositadamente sublinhámos no
das personagens que coloca em cena, que carac- texto vicentino, são proposições que encontra-
terísticas atribui ao judeu nas suas peças, são mos em toda a documentação e literatura de cariz
questões que, a motivarem um esforço de respos- anti-semita. Reportam-se a todo um sistema de
ta, contribuem para o enriquecimento desta pro- ideias e valores de inspiração cristã que encara o
blemática que tão vincadamente marca a nossa judaísmo como um erro, uma heresia, uma vez
era de Quinhentos e envolve a própria questão do que nega dogmas da Igreja católica.
estabelecimento do Tribunal do Santo Ofício da Essa cegueira, isto é, a persistência em não
Inquisição em Portugal. aceitar a vinda do Messias, a sua identificação
Recordemos desde já dois versos que Gil Vicen- com Cristo, o Mistério da Trindade, é interpretada
te utiliza no Sermão de 1506 para, por compara- à luz de uma concepção que vê no renitente uma
ção, ilustrar a inutilidade da pregação das virtudes manifestação da acção do diabo. Daí uma tal ati-
e da verdade num mundo de falsidade e maldade: tude ser considerada maliciosa e o diabo com ela
se alegrar.
Es por demas pedir al judio A ideia do judeu como ser maléfico caiu, assim,
que sea cristiano en su corazon; por inspiração de toda uma doutrina e legislação
(vi, 195, 1-2) canónina, no domínio popular e na praça pública e
ficou de tal forma enraizada a tradição de o consi-
Alude-se claramente à persistência do judeu na derar um ser diferente, opressor (dado o carácter
sua crença e à consequente inoperacionalidade das suas principais actividades), e simultanea-
de qualquer tipo de conversão a outra fé. mente, inferior e a repelir, que são inúmeras as

90 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


expressões insultuosas que na sua composição
incluem a palavra «judeu», mesmo que dirigidas
a um cristão. Encontramos algumas nas peças
vicentinas, como, por exemplo: «Ó fideputa Ilustração de uma
colectânea de leis
judeu», na Exortação da Guerra, «dize, pulga de alemãs (século xii).
Judeu», no Auto da Barca do Purgatório, «almareo Os judeus encon-
de Judeu» ou «mulo de judeu», na Farsa dos Almo- tram-se no nível mais
baixo da pirâmide
creves, «cascarrea de judeu», n’O Juiz da Beira. social medieval.
Corrente se tornara também, por estas razões,
atribuir deformidades físicas aos judeus. De tal ati-
tude igualmente se encontra reflexo em passagens
da obra vicentina. Na Comédia de Rubena (1521),
Afonso, criado de D. Castro Liberal, referindo-se à
mulher do amo em tom depreciativo, denomina-a
de «judia», carregando a sua fealdade.
A arrogância que muitos atribuíam aos judeus,
e que está por vezes na base de sérios conflitos,
marcaria, do ponto de vista cristão, uma ambição
desmesurada no judeu e um abuso de poder,
dada a sua natural inferioridade. A arrogância de
uns teria, assim, a sua contrapartida no profundo
desprezo que os outros contra eles nutriam.
Intimamente relacionado com o desprezo que o
cristão sente pelo judeu situa-se, sem dúvida, a
atribuição que se lhe faz do sentimento de cobar-
dia, isto apesar do conhecimento de actos de bra-
vura efectuados por indivíduos judeus. Em Quem facilmente utilizando apenas a capa (sem neces-
Tem Farelos? (1515) é Ordonho quem, ao classifi- sitar de espada).
car o seu amo de fanfarrão e ao criticá-lo de cons- Também no Auto Chamado da Lusitânia (1532),
tantemente falar em guerras e heróis, fugindo, no o apodo de cobarde constituirá uma das tónicas
entanto, só de ver dois gatos a lutar, afirma para o principais do episódio centrado numa família de
seu colega Apariço: judeus. O alfaiate judeu, pai de Lediça, tem, ao
que se supõe, por hábito, dada a severa crítica de
ORDONHO sua filha, passear com outros judeus, enquanto o
Apuésto-te que un judio trabalho de costura se vai acumulando e atrasan-
con una beca lo mate. do a sua entrega. Segundo ela, o feitio dele con-
(v, 63, 9-10) cordaria mais com o estado de cavaleiro, fidalgo
ou escudeiro do que com o de alfaiate.
Serve-se, desta forma, da figura do judeu, tradi- Quando chega a casa, gaba-se de ter encontra-
cionalmente apodado de cobarde (provavelmen- do o Regedor, que lhe fez grande cumprimento, e
te por ter sido dispensado da guerra durante na sua banca, trabalhando juntamente com o seu
muito tempo e contemplado por isso na legisla- filho, ainda criança, enquanto a mulher e a filha
ção), para rebaixar o escudeiro seu patrão. Este tratam do almoço e da casa, o alfaiate canta um
seria tão fraco e temeroso que um judeu o mataria romance moçarábico do Cid e afirma que só gosta

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 91


Auto da Barca do Inferno: cena do Judeu

de entoar e ouvir cantar temas de guerra. Enquan-


to a mulher se mostra temerosa de qualquer vio-
lência, ele, pelo contrário, gaba-se de valentia.
Mas, na realidade, só se sentiria sem medo estan-
do à janela, mas armado, com a porta bem tranca-
da e o arruído longe. Da mesma forma, se o infan-
te D. Luís fosse guerrear no Norte de África, como
então constava, ele sairia prontamente a acom-
panhá-lo, levando consigo uma lança muito com-
prida, mas procuraria esconder-se dos mouros.
Revela-se, assim, um cobarde.
Mas a Gil Vicente não escapa a realidade do
cristão-novo. Contemporâneo e, sem dúvida,
observador das alterações ocorridas na socieda-
de portuguesa, particularmente a partir do último
quartel do século xv, com a vinda maciça de
judeus e conversos espanhóis fugidos à Inquisi-
ção, que os perseguia, reflecte na sua obra a inte-
gração mais ou menos conseguida do cristão-
-novo na sociedade cristã-velha, após a conver-
Página da Bíblia são forçada dos judeus portugueses, e, simulta-
Hebraica
neamente, veicula a opinião de que o judeu
convertido continua a ser judeu.
Maria Leonor García da Cruz, Gil Vicente e a Sociedade Portuguesa de Quinhentos, Gradiva (texto com supressões)

A questão judaica

Em 1492, os Reis Católicos decretaram a expul- Em 1496, D. Manuel seguiu o exemplo dos Reis
são dos judeus dos seus Estados (Aragão e Caste- Católicos; ordenou a expulsão de todos os
la) no prazo de quatro meses e sob pena de judeus, tanto os castelhanos como os portugue-
morte. Muitos dos judeus castelhanos procura- ses. Fê-lo por exigências no decurso das negocia-
ram refúgio em Portugal. D. João II autorizou a ins- ções com a filha dos monarcas do país vizinho;
talação das famílias mais ricas a troco de altas mas parece que os seus conselheiros se deram
quantias. Mas os refugiados eram uma verdadei- conta dos prejuízos que a medida acarretava:
ra invasão: cerca de cem mil. O rei autorizou-os, perda dos enormes produtos que os judeus paga-
também mediante uma propina por cabeça, a vam, sangria dos valores que levariam consigo,
ficarem oito meses em Portugal seguindo depois saída de milhares de úteis artesãos. O rei adop-
os seus destinos. Os que nada puderam pagar tou uma política de compromisso aparente: os
foram reduzidos a escravos. judeus ficavam, mas deixavam de ser judeus.
A maior parte dos refugiados ficou no país, Para o conseguir, ordenou o baptismo forçado
engrossando enormemente a população judaica, dos filhos, recusou meios de transporte para a
que já era numerosa. Muitas crianças, retiradas à saída por mar (o que equivalia à proibição de sair,
força aos pais, foram mandadas povoar a ilha de por a passagem por Espanha não ser possível) e
S. Tomé. Poucas sobreviveram. deu a todos a garantia de que, durante vinte anos,

92 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


não seriam perseguidos por motivos religiosos.
Era portanto a imposição da conversão aparente
e uma forma de iludir a obrigação contraída nos
acordos com os Reis Católicos.
As judiarias foram extintas, as sinagogas trans-
formadas em igrejas, os judeus passaram, oficial-
mente, a ser cristãos. Para distinguir uns dos
outros, passou a falar-se de cristãos-novos e de
cristãos-velhos.
O problema dos cristãos-novos iria arrastar-se
durante muito tempo. A fusão entre os dois gru-
pos, que durante séculos tinham vivido separa-
dos, foi lenta e difícil. Em 1506 houve em Lisboa
motins em que os cristãos-novos foram feroz-
mente perseguidos. O número de mortos foi Procissão de condenados a um auto de fé
cerca de dois mil. Apesar da garantia de não per-
seguição, os hebreus foram objecto de numero- da verdade, inimigo da inovação, farejador de
sas discriminações. À antiga distinção da popu- erros alheios, dogmáticos e repressivo, e a do
lação em duas nações, cristã e judaica, que per- cristão-novo, dissimulado, messianista, acossa-
mitiu aos judeus viver em paz durante séculos, do, intimamente revoltado, não solidário com o
sucedeu-se uma falsa unidade. A partir de 1534, conjunto da comunidade nacional que o repele e
as perseguições foram constantes e sistemáti- que ele no fundo não reconhece como sua. Esta
cas e levaram à formação de duas mentalidades fractura da consciência nacional chegaria até
viciosas e inimigas: a do cristão-velho, detentor muito tarde.
José Hermano Saraiva, História Concisa de Portugal, Publicações Europa-América

Judeus

Os Judeus formavam um grupo relativamente tores de cargos públicos, grupo pequeno mas
pequeno, talvez à roda dos 30 000 habitantes economicamente importante e privilegiado; os
nos finais do século xv. Vivendo nas cidades e artesãos, sobretudo alfaiates, ourives, ferreiros
entregues a profissões urbanas, estavam orga- e sapateiros, e os mercadores remediados; e os
nizados em comunas logo que o seu número pobres e indigentes, acaso uma minoria. Todos
excedia as dez famílias. Por todo o Portugal, eram obrigados ao pagamento de pesados
mas especialmente em Lisboa, seguida por San- impostos. Possuindo sinagogas e sendo relati-
tarém, Évora, Porto, Covilhã, Guarda, Lamego, vamente livres para praticar a sua religião, os
Coimbra e Setúbal, existiam comunas com o seu Judeus tinham, não obstante, de viver em bair-
funcionamento próprio copiado da organização ros separados, as judiarias, segregados das
municipal, sob a autoria suprema do rabi ou zonas cristãs por muralhas, cercas e portões
arrabi-mor, de nomeação régia. que se fechavam à noite. Nos séculos xiv e xv
Socialmente, os Judeus compunham pelos existiam em Lisboa nada menos de três judia-
menos três grandes classes: os banqueiros rias, com uma superfície total de quase 2 hecta-
ricos, mercadores, financeiros, físicos e deten- res, cerca de 1,6% da área da cidade.
A.H. de Oliveira Marques, História de Portugal, Editorial Presença

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 93


Auto da Barca do Inferno: cena do Corregedor e do Procurador

Lê atentamente a seguinte cena e descobre: as duas personagens em julgamento; os seus símbolos


!
CO N C E I TO S cénicos; o seu grupo social/profissional; a língua que utilizam frequentemente por ser muito usada
L I TE R Á R I O S
na sua actividade profissional; o seu destino final; as outras personagens intervenientes.
Consulta a ficha sobre
o texto dramático,
p. 112, e a ficha sobre Vem um Corregedor,159 carregado Ora, entrai, pois que viestes!
o processo figurativo,
pp. 271-272. de feitos,160 e, chegando à barca do Inferno, CORR. Nom é de regulae juris,164 não!
com sua vara na mão, diz: DIABO Ita, ita! 165 Dai cá a mão!
Remaremos um remo destes.
605 CORR. Hou da barca! 625 Fazê conta que nacestes
DIABO Que querês? pera nosso companheiro.
CORR. Está aqui o senhor juiz. Que fazes tu, barzoneiro?166
DIABO Oh amador de perdiz,161 Faze-lhe essa prancha prestes!
gentil cárrega trazeis!
CORR. No meu ar conhecereis CORR. Oh! Renego da viagem
610 que nom é ela do meu jeito.162 630 e de quem me há-de levar!
DIABO Como vai lá o direito? Há’qui meirinho167 do mar?
CORR. Nestes feitos o verês. DIABO Não há cá tal costumagem.
CORR. Nom entendo esta barcagem,
DIABO Ora, pois, entrai. Veremos nem hoc non potest esse.168
que diz i nesse papel… 635 DIABO Se ora vos parecesse
615 CORR. E onde vai o batel? que nom sei mais que linguagem…169
DIABO No Inferno vos poeremos.
CORR. Como? À terra dos demos Entrai, entrai, corregedor!
há-de ir um corregedor? CORR. Hou! Videtis qui petatis! 170
DIABO Santo descorregedor,163 Super jure magestatis 171
620 embarcai, e remaremos! 640 tem vosso mando vigor?
DIABO Quando éreis ouvidor172
nonne accepistis rapina? 173
Pois irês pela bolina174
onde nossa mercê fôr…175

O Bom e o Mau Juiz,


fresco de autor
desconhecido

159
magistrado judicial que está acima dos juízes ordinários; 160 processos judiciais; 161 a perdiz era usada para
subornar; 162 não gosto desta carga; 163 o juiz fazia exactamente o contrário do que a sua função lhe exigia;
164
não é conforme ao Direito; 165 sim, sim; 166 vadio (o Diabo dirige-se ao Companheiro); 167 oficial de
justiça; 168 isto não pode ser; 169 não sei falar latim; 170 vede o que pedis; 171 acima do direito do Rei; 172 juiz
especial; 173 não aceitastes roubos?; 174 navegar à vela; 175 onde for de nossa vontade;

94 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


645 Oh! que isca esse papel176 DIABO Ora entrai, nos negros fados!
pera um fogo que eu sei! 670 Irês ao lago dos cães189
CORR. Domine, memento mei! 177 e verês os escrivães
DIABO Non es tempus,178 bacharel! como estão tão prosperados.
Imbarquemini in batel CORR. E na terra dos danados190
650 quia judicastis malitia.179 estão os evangelistas?
CORR. Semper ego justitia 675 DIABO Os mestres das burlas191 vistas
fecit e bem per nivel.180 lá estão bem fraguados.192

DIABO E as peitas181 dos judeus Estando o Corregedor nesta prática193


que vossa mulher levava? com o Arrais infernal, chegou um
655 CORR. Isso eu não o tomava, Procurador,194 carregado de livros,
eram lá percalços182 seus. e diz o Corregedor ao Procurador:
Nom som peccatus meus,
peccavit uxore mea.183 CORR. Ó senhor Procurador!
DIABO Et vobis quoque cum ea, PROC. Bejo-vo-las mãos, Juiz!
660 não temuistis Deus.184 Que diz esse arrais? Que diz?
680 DIABO Que serês bom remador.
A largo modo adquiristis Entrai, bacharel doutor,
sanguinis laboratorum, e irês dando na bomba.
ignorantes peccatorum.185 PROC. E este barqueiro zomba.
Ut quid eos non audistis? 186 Jogatais195 de zombador?
665 CORR. Vós, arrais, nonne legistis
que o dar quebra os pinedos?187 685 Essa gente que aí está,
Os dereitos estão quedos, pera onde a levais?
sed aliquid tradidistis…188 DIABO Pera as penas infernais.
PROC. Dix! Nom vou eu pera lá!
Outro navio está cá,
690 muito milhor assombrado.196
DIABO Ora estás bem aviado!
Entra, muitieramá!

176
papel dos feitos (processos); 177 Ó Senhor, lembra-te de mim; 178 agora é tarde; 179 embarcai neste batel,
porque julgastes com malícia, isto é, com pouca honestidade; 180 sempre procedi de acordo com a justiça,
imparcialmente; 181 subornos; 182 lucros; 183 não são pecados meus, foi a minha mulher quem pecou; 184 e vós,
juntamente com ela, não temestes a Deus; 185 enriquecestes à custa do trabalho dos lavradores ingénuos;
186
Porque não ouvistes as suas queixas?; 187 não lestes que a justiça não actua quando os seus agentes são
subornados?; 188 a justiça não actua correctamente se recebestes alguma coisa; 189 Inferno; 190 condenados;
191
fraudes; 192 atormentados; 193 conversa; 194 o que trata de negócios de outrem, por procuração (sejam negócios
privados, ou de foro, ou das cidades, e vilas e cortes, ou dos negócios da coroa, e de seus feitos, ou da fazenda
nacional, ou ainda de alguma comunidade religiosa); 195 brincais, gracejais; 196 mais interessante, com melhor
aspecto;

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 95


Auto da Barca do Inferno: cena do Corregedor e do Procurador

CORR. Confessaste-vos, doutor?


PROC. Bacharel som… Dou-me ò demo!
695 Não cuidei que era extremo,197
nem de morte minha dor.
E vós, senhor Corregedor?
CORR. Eu mui bem me confessei,
mais tudo quanto roubei
700 encobri ao confessor…

Porque, se o nom tornais,198


não vos querem absolver,
e é muito mao de volver
depois que o apanhais.
705 DIABO Pois porque nom embarcais?
PROC. Quia speramus in Deo.199
DIABO Imbarquimini in barco meo…200
Pera que esperatis mais?
A Justiça, fresco de Giotto

Vão-se ambos ao batel da Glória, e,


chegando, diz o Corregedor ao Anjo: JOANE Hou, homens dos breviairos,
rapinastis coelhorum
CORR. Ó arrais dos gloriosos, et pernis perdiguitorum 203
710 passai-nos neste batel! 720 e mijais nos campanairos!
ANJO Oh! pragas pera papel,201 CORR. Oh! não nos sejais contrairos,
pera as almas odiosos! pois nom temos outra ponte!
Como vindes preciosos, JOANE Beleguinis ubi sunt? 204
sendo filhos da ciência! Ego latinus macairos.205
715 CORR. Oh! habeatis clemência202
e passai-nos como vossos! 725 ANJO A justiça divinal
vos manda vir carregados
porque vades embarcados
nesse batel infernal.
CORR. Oh! nom praza a São Marçal
730 com a ribeira, nem com o rio!
Cuidam lá que é desvario
haver cá tamanho mal.

197
fim; 198 se não devolverdes o que roubastes; 199 porque esperamos em Deus; 200 embarcai no meu barco;
201
processos e livros trazidos pelas personagens, que as incriminam; 202 tende clemência; 203 roubastes coelhos
e pernas de perdigotos; 204 onde estão os beleguins? (oficiais de justiça); 205 eu (falo) latim macarrónico;

96 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


CORR. Venha a negra prancha cá!
Vamos ver este segredo.
740 PROC. Diz um texto do Degredo…208
DIABO Entrai, que cá se dirá!

E tanto que foram dentro no batel


dos condenados, disse o Corregedor
a Brísida Vaz, porque a conhecia:

CORR. Oh! estês muitieramá,


senhora Brísida Vaz!
BRÍS. Já siquer209 estou em paz,
745 que não me leixáveis lá.210

Cada hora sentenciada:


A Injustiça, fresco de Giotto
«Justiça que manda fazer…»211
CORR. E vós… tornar a tecer
PROC. Que ribeira é esta tal! e urdir outra meada.
JOANE Parecês-me vós a mi 750 BRÍS. Dizede, juiz d’alçada:212
735 como cagado nebri,206 vem lá Pero de Lixbõa? 213
mandado no Sardoal. Levá-lo-emos à toa
Embarquetis in zambuquis! 207 e irá nesta barcada.

206
falcão, ave de rapina adestrada na caça; 207 embarcai no zambuco; 208 Decreto; 209 pelo menos; 210 na Terra;
211
palavras iniciais do pregão que anunciava o motivo pelo qual a alcoviteira era açoitada; 212 juiz superior;
213
escrivão da época;

1 Indica as palavras do texto a que se referem as seguintes:

• «ela» (verso 610) • «aí» (verso 685)


• «papel» (verso 614) • «a» (verso 686)
• «vos» (verso 616) • «lá» (verso 688)
• «lhe» (verso 628) • «vos» (verso 693)
• «nossa mercê» (verso 644) • «me» (verso 698)
• «fogo» (verso 646) • «filhos da ciência» (verso 714)
• «eu» (verso 646) • «homens de breviairos» (verso 717)
• «seus» (verso 656) • «vos» (verso 726)
• «lá» (verso 676) • «juiz d’alçada» (verso 750)

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 97


Auto da Barca do Inferno: cena do Corregedor e do Procurador

2 Resolve o seguinte crucigrama com expressões do texto relacionadas com a actividade profis-
sional do Corregedor e descobre o seu pecado.

1. Título profissional usado pelo Corregedor na sua auto- 6. Palavra que significa magistrado que ouve e dá sen-
-apresentação diante do Diabo. tenças sobre causas e acções judiciais, utilizada pelo
2. Ciência que se ocupa das leis e das instituições jurídi- Diabo no primeiro diálogo com o Corregedor.
cas, sobre a qual o Diabo pergunta ao Corregedor. 7. Título de quem concluiu estudos superiores, utilizado
3. Termo latino, com o significado de «conforme ao direi- pelo Diabo para se dirigir ao Corregedor.
to», utilizado pelo Corregedor para recusar a entrada 8. Funcionários públicos encarregues de escrever docu-
na barca do Diabo. mentos legais, em tribunais, os quais, segundo o
4. Oficial de justiça, por quem o Corregedor pergunta, a Diabo, costumam seguir para o Inferno.
fim de resolver a questão da sua passagem. 9. Palavra inicial do pregão que anunciava o motivo da
5. Expressão latina, que significa «acima do direito do pena atribuída, em vida, pelo Corregedor à Alcoviteira.
rei», utilizada pelo Corregedor para, mais uma vez,
não aceitar a ordem dada pelo Diabo.

3 Ainda antes da chegada do Procurador, o Diabo profere as seguintes acusações dirigidas ao


Corregedor. Numera-as de acordo com a ordem com que surgem no texto.

O Diabo acusa o Corregedor de ter julgado com malícia e não com correcção.
O Diabo acusa o Corregedor de aceitar subornos, para fazer favores nos julgamentos, o que
constitui a sua «cárrega», ou seja, os seus pecados.
O Diabo acusa o Corregedor de ter enriquecido à custa dos trabalhadores ingénuos, não os
ouvindo em tribunal, pois favorecia a parte contrária, que o subornava.
O Diabo acusa o Corregedor de ter absolvido os que roubavam.
O Diabo inclui o prefixo «des» no título profissional da personagem, acusando assim o
Corregedor de fazer o oposto do que deveria, acusando-o, pois, de não ser um profissional
cumpridor do seu dever.
O Diabo acusa o Corregedor de burla, de praticar uma justiça fraudulenta, quando refere
que os «escrivães» e os «mestres das burlas» estão no Inferno, destino que lhe está tam-
bém atribuído.
O Diabo acusa o Corregedor de saber que a sua mulher aceitava ofertas dos judeus, para que
ele os favorecesse em tribunal, pecando assim juntamente com ela sem temer a justiça divina.

98 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


3.1 Das acusações anteriores selecciona a que comprova que a crítica dirigida ao Corregedor se
alarga ao grupo social/profissional a que este pertence.

4 Completa o seguinte quadro com as defesas do Corregedor e respectivos significados.

DEFESAS SIG NIFICADOS

Em virtude da sua condição social e profissional, o Corregedor


mostra-se indignado com a hipótese de ser condenado ao
Inferno.

O Corregedor diz que a ordem do Diabo não está conforme


o direito.

O Corregedor solicita a presença de um oficial de justiça que


trate dos assuntos marítimos e, quando o Diabo o informa
da ausência de tal costume, refere que não entende o modo
de funcionamento daquela barca.

O Corregedor diz que o Diabo pretende ultrapassar o direito


do rei.

«Semper ego justitia


fecit e bem per nivel» (versos 651–652)

«Isso eu não o tomava,


eram lá percalços seus.
Nom som peccatus meus,
peccavit uxore mea.» (versos 655–658)

O Corregedor pergunta ao Diabo se ele não leu que a justiça


não actua quando os seus agentes são subornados.

5 Atenta no diálogo entre o Corregedor e o Procurador e na resposta que este último dá ao Diabo
(versos 693–706). Que crítica é aí dirigida aos católicos do tempo de Gil Vicente?

6 «Oh! pragas pera papel, / pera as almas odiosos!» (versos 711–712). Por que razão o Anjo amal-
diçoa os feitos do Corregedor e os livros do Procurador?

7 O Parvo acusa o Corregedor e o Procurador. Localiza essa acusação no texto.

7.1 Que verdade sobre o comportamento dessas duas personagens nos é dada pelo Parvo?

8 Localiza a sentença final aplicada ao Corregedor e ao Procurador.

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 99


Auto da Barca do Inferno: cena do Corregedor e do Procurador

9 Completa o seguinte texto sobre esta cena do Auto da Barca do Inferno.

Gil Vicente critica a _____________________ na magistratura, representada pelas figuras do


_________________ e do __________________________, condenando-os, pelas vozes do Diabo e
do Anjo, ao __________________________. Assim, no momento da sentença final, realça-se o
contraste entre a justiça __________________, corruptível e falível, e a justiça _______________,
incorruptível e ______________________. Poderá, então, aplicar-se a esta cena, no que respeita
à justiça divina, a seguinte máxima popular: «A _____________ tarda, mas não ____________».

10 «Imbarquimini in barco meo…» (verso 707); «rapinastis coelhorum / et pernis perdiguitorum / e mijais
nos campanairos!» (versos 718–720). Que tipo de cómico encontramos nestas passagens? Porquê?

10.1 Que efeito produz este tipo de cómico relativamente às duas personagens em julgamento?

10.2 Retira os versos onde o Diabo e o Parvo admitem não dominar o latim.

11 Aponta agora o tipo de cómico presente nos versos 740–741, justificando a tua resposta.

12 Identifica a ironia presente nos versos 608 e 619, bem como os eufemismos presentes nos ver-
sos 669–670.
!
HISTÓRIA
DA L Í N G UA
13 «Beleguinis ubi sunt?» (verso 723). Neste verso, o Parvo utiliza a forma verbal latina sunt, que
Consulta a Unidade 1, deu origem à forma verbal «são» no português. Por sua vez, o adjectivo latino sanu deu ori-
pp. 26-27, 31-32,
35-39. gem ao adjectivo «são» (saudável). Classifica essas duas palavras provenientes de étimos dife-
rentes e que evoluíram para a mesma forma vocabular.

13.1 Que designação atribuímos a estas palavras pelo facto de se escreverem e dizerem da mesma
maneira, embora tenham significados diferentes por terem origens também diferentes?

14 O latim está presente nesta cena por se ligar à área profissional dos réus. No entanto, a sua impor-
tância no português vai muito além do vocabulário específico de algumas áreas. Concordas com
esta afirmação? Porquê?

O julgamento dos magistrados e homens de leis

O tema da corrupção dos funcionários da justiça, Diabo apelida-o de «amador de perdiz» e «santo
desde o juiz ao escrivão, está frequentemente pre- descorregedor», num ataque directo à sua pro-
sente nas peças de Gil Vicente, numa condenação pensão para aceitar mimos e, em benefício pró-
que poderemos considerar constante, uma vez prio e alheio, calcar a seus pés a Justiça e todos os
que será desenvolvida regularmente até à sua últi- desgraçados, por ventura ou desventura, envolvi-
ma peça conhecida, Floresta de Enganos, de 1536. dos. Ficará salientada a sua falta de escrúpulos e
No Auto da Barca do Inferno (1517) surge em a distância a que se colocara de uma recta e
cena um Corregedor, carregado de processos. O imparcial conduta nas suas funções.

100 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


Mas não se pense que a malícia só aproveitava
aos juízes e outros magistrados. Não. Também os
escrivãos, esses então numerosíssimos, esta-
riam a arder no Inferno.
Em cena com o Corregedor coloca Gil Vicente um
Procurador. Vergastados pelo Anjo, de novo lhes é
lembrado o peso da malícia que empregaram no
desenvolvimento dos processos e, num pseudola-
tim, é o Parvo que os acusa das peitas recebidas.
Recordemos as particularidades que Gil Vicen-
te encontra nos homens de lei, independente- Os Sábios Juízes, pintura de James Ensor
mente das suas funções ou posição. No espectá-
culo que monta em 1521, por ocasião da partida que caracteriza os representantes e utilizadores
para Sabóia da infanta D. Beatriz, Cortes de Júpi- das leis da justiça.
ter, incorpora no cortejo marítimo os juízes trans- A cobiça que os cega, que os faz ignorar a recti-
formados em peixes-voadores e os ouvidores em dão a ter nas suas funções e os leva a aceitar
peixes-cavalos, dada, sem dúvida, a ambição e a subornos é de novo vergastada no Auto da Festa
arrogância de que os acusava (L. Cunha Gonçal- (1527?) e por uma figura que, devido à sua identifi-
ves encontraria nos «peixes voadores» uma iden- cação, não ocasiona qualquer equívoco ou dúvida
tificação com os juízes que, não estudando autos quanto à veracidade das palavras e à intenção crí-
nem leis, despachavam aereamente, só se preo- tica do seu autor: a Verdade. Para o caso do Vilão,
cupando em voar para comarcas rendosas e boas que com ela se aconselha, acusado de adultério,
conezias. Segundo hipótese do mesmo autor, os só lhe encontra uma saída: a corrupção do juiz
«peixes cavalos» seriam aqueles que se deixa- com duas dúzias de perdizes e outras peitas, para
vam dominar por poderosos). o comprar e obter uma sentença favorável. É este o
Alguns bacharéis iriam identificados com tuba- procedimento de quem tem posses para o fazer,
rões e os almotacés com cações. Trata-se, na ver- alimentando a cupidez daqueles que, por subor-
dade, de uma dura alusão à voracidade desmedida no, entortam voluntariamente a vara da justiça.
Maria Leonor García da Cruz, Gil Vicente e a Sociedade Portuguesa de Quinhentos, Gradiva (texto com supressões)

Juízes e corregedores

A legislação dos finais do século xv e dos come- (em especial a partir da promulgação do Regi-
ços do século xvi tornou-se também mais precisa. mento dos Corregedores, em 1524) e a interferên-
O processo sofreu mudanças várias, todas elas cia em toda a classe de feitos, com pouco respeito
visando maior eficiência mas exigindo igualmen- pelos juízes de eleição local, suscitaram vãos pro-
te maior burocracia. O número de juízes de fora, testos e mostraram, sem sombra de dúvida, o
nomeados pelo monarca, aumentou em cerca de advento de nova época. Depois de 1538, a maioria
50% entre 1481 e 1521 (outra prova do surto dos juízes passou a ser paga pelo tesouro, em vez
demográfico), com alargamento de atribuições. O de receber a tradicional aposentadoria e alimen-
mesmo sucedeu com os procuradores do número tação por parte das populações locais, fonte
e com os tabeliães. Em todas as províncias, a mais constante de abusos e queixas.
ampla autoridade assumida pelos corregedores
A.H. de Oliveira Marques, História de Portugal, Editorial Presença

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 101


Auto da Barca do Inferno: cena do Enforcado

Vem um homem que morreo enforcado, e,


chegando ao batel dos mal-aventurados,
disse o Arrais, tanto que chegou:

DIABO Venhais embora, enforcado! 770 E disse-me que a Deos prouvera


755 Que diz lá Garcia Moniz?214 que fora ele o enforcado;
ENFO. Eu te direi que ele diz: e que fosse Deos louvado
que fui bem-aventurado que em bo’hora eu cá nacera;
em morrer dependurado215 e que o Senhor m’escolhera;
como o tordo na buiz,216 775 e por bem vi beleguins.217
760 e diz que os feitos que eu fiz E com isto mil latins218
me fazem canonizado. mui lindos, feitos de cera.

DIABO Entra cá, governarás E no passo derradeiro219


atá as portas do Inferno. me disse nos meus ouvidos
ENFO. Nom é’ ssa a nao que eu governo. 780 que o lugar dos escolhidos
765 DIABO Mando-t’eu que aqui irás. era a forca e o Limoeiro;220
ENFO. Oh! nom praza a Barrabás! nem guardião do moesteiro
Se Garcia Moniz diz nom tinha tão santa gente
que os que morrem como eu fiz como Afonso Valente,
São livres de Satanás… 785 que é agora carcereiro.

DIABO Dava-te consolação


isso, ou algum esforço?
ENFO. Com o baraço no pescoço
mui mal presta a pregação…
790 E ele leva a devação,
que há-de tornar a jentar…221
Mas quem há-de estar no ar222
avorrece-lh’o o sermão.

A Vingança de Hip-Frog, técnica mista de James Ensor

214
talvez o tesoureiro da Casa da Moeda de Lisboa e superior de Gil Vicente; 215 enforcado; 216 armadilha
para caçar pássaros; 217 oficiais de justiça; 218 termos incompreensíveis; 219 momento do enforcamento;
220
prisão de Lisboa; 221 suporta a pregação porque sabe que vai continuar vivo; 222 ser enforcado;

102 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


O Julgamento Final,
pormenor do fresco
de Giotto relativo
ao Inferno

DIABO Entra, entra no batel, 810 DIABO Falou-te no Purgatório?


795 que ao Inferno hás-de ir! ENFO. Disse que era o Limoeiro,
ENFO. O Moniz há-de mentir? e ora por ele o salteiro226
Disse-me que com São Miguel e o pregão vitatório;227
jentaria pão e mel e que era mui notório
tanto que fosse enforcado. 815 que aqueles deciprinados228
800 Ora, já passei meu fado, eram horas dos finados
e já feito é o burel.223 e missas de São Gregório.229

Agora não sei que é isso. DIABO Quero-te desenganar:


Não me falou em ribeira, se o que disse tomaras,
nem barqueiro, nem barqueira, 820 certo é que te salvaras.
805 senão – logo ò Paraíso. Não o quiseste tomar…
Isto muito em seu siso.224 —Alto! Todos a tirar,230
E era santo o meu baraço… que está em seco o batel!
Eu não sei que aqui faço: —Saí vós, Frei Babriel!231
que é desta glória emproviso?225 825 Ajudai ali a botar!

223
luto; 224 juízo, bom senso; 225 como desapareceu de repente a glória esperada? 226 reza os sete salmos
penitenciais; 227 pregão que se soltava antes da execução de um condenado; 228 castigados, torturados;
229
missas por alma dos defuntos; 230 puxar; 231 nome do Frade anteriormente aparecido;

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 103


Auto da Barca do Inferno: cena do Enforcado

1 Com base no julgamento final do Enforcado, preenche o seguinte quadro.


!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
Réu
Consulta a ficha sobre
o texto dramático,
p. 112, e a ficha sobre
Objecto que traz consigo/ símbolo cénico
o processo figurativo,
pp. 271-272. Matéria julgada

Advogado de acusação

Advogado de defesa

Juiz

Tempo em que decorre o julgamento

Espaço onde decorre o julgamento

2 A personagem pode ser directamente caracterizada através daquilo que diz sobre si própria.
Como se autocaracteriza o Enforcado?

2.1 O que o leva a acreditar na sua salvação?

3 Identifica o recurso estilístico presente nos seguintes versos: «em morrer dependurado / como
o tordo na buiz».

3.1 Explica o seu sentido.

3.2 Com que intenção é usado esse recurso estilístico?

4 Indica algumas palavras do texto pertencentes ao campo semântico da religião.

4.1 Por que razão predominam as palavras ligadas a esse campo semântico nesta cena?

5 Esta personagem entra em cena logo a seguir ao Corregedor e ao Procurador, ou seja, logo após
a condenação dos representantes da justiça humana. Que outra justiça é aqui posta em con-
traste? Porquê?

6 Que mensagem pretende Gil Vicente transmitir aos católicos do seu tempo?
!
F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
7 «Vem um homem que morreo enforcado, […]». Identifica o processo de formação de palavras
Consulta o Caderno ocorrido no vocábulo salientado.
de Funcionamento
da Língua, p. 260.

104 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


8 Lê a seguinte definição do vocábulo «embaraçar» e, tendo em conta o significado da palavra
!
primitiva, justifica a evolução semântica ocorrida. HISTÓRIA
DA L Í N G UA

embaraçar. v. (De em + baraço + suf. -ar). 1. Pôr o cordel. o baraço em volta do pião. 2. Criar ou passar Consulta a Unidade 1,
p. 41.
dificuldades, empecilhos ou obstáculos.

PESQUISA HISTÓRICO-SOCIAL !
ESTUDO
Recolhe informação sobre a pena de morte em enciclopédias e/ou na internet, pesquisando ACO M PA N H A D O
Informa-te sobre
os seguintes aspectos: a consulta da
• Evolução da pena de morte e data da sua abolição em Portugal e noutros países europeus; enciclopédia
e da internet:
• Países onde exista ainda a pena de morte e justificações para a sua aplicação; Unidade 0,
• Organizações que lutam contra a pena de morte e justificação para a sua abolição. pp. 14-15.

O Enforcado

Na derradeira parte do auto, surge um ladrão a


quem a justiça condenou à forca, ainda com o
«baraço» em volta do pescoço e, convencido de
que irá para o Céu. Esta cena apresenta-se como
algo enigmática, pois parece visar directamente
uma figura da época, contemporânea do autor –
com efeito, Garcia Moniz, que o Enforcado refere
constantemente parece ter sido, segundo Bran-
caamp Freire, um tesoureiro da Casa da Moeda de
Lisboa, entre 1513 e 1517, e terá perdido o cargo
por irregularidades praticadas. O público do
tempo, conhecedor de factos que actualmente
desconhecemos, terá certamente visto esta cena
com outros olhos.
Na cena, é apresentado como aquele que con-
venceu o ladrão enforcado de que iria para o
Paraíso, visto ter-se já purificado dos pecados Esqueletos Lutando pela Posse de um Enforcado, pintura de James Ensor
cometidos no «purgatório» do Limoeiro; diz-lhe
ainda que se pode considerar «canonizado» por
ter sofrido muito em vida. Contudo o Enforcado, sua sorte na barca do Anjo. É nítida a intenção, de
desiludido pelo Diabo, reconhece finalmente que Gil Vicente, de satirizar mais a doutrina de Garcia
não tem perdão possível e, nem sequer tenta a Moniz do que o próprio ladrão enforcado.
Ana Paula Dias, Para uma Leitura de Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, Editorial Presença

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 105


Auto da Barca do Inferno: cena dos Quatro Cavaleiros

Vigiai-vos, pecadores,
que, despois da sepultura,
neste rio está a ventura
de prazeres ou dolores! 235
840 À barca, à barca, senhores,
barca mui nobrecida,
à barca, à barca da vida!
E passando per diante da proa do batel
dos danados assi cantando, com suas
espadas e escudos, disse o Arrais
da perdição desta maneira:
DIABO Cavaleiros, vós passais
Pormenor de
Lamentação, e nom preguntais onde is?
fresco de Giotto
845 1O CAV. Vós, Satanás, presumis?236
Atentai com quem falais!
2O CAV. Vós que nos demandais?
Vêm quatro Cavaleiros cantando, os quais
Siquer237 conhecê-nos bem.
trazem cada um a Cruz de Cristo, pelo
Morremos nas Partes d’Além,238
qual Senhor e acrecentamento de Sua santa
850 e não queirais saber mais.
fé católica morreram em poder dos mouros.
Absoltos232 a culpa e pena per privilégio DIABO Entrai cá! Que cousa é essa?
que os que assi morrem têm dos mistérios Eu nom posso entender isto!
da Paixão d’Aquele por Quem padecem, CAVs. Quem morre por Jesu Cristo
outorgados por todos os Presidentes Sumos não vai em tal barca como essa!
Pontífices da Madre Santa Igreja.
Tornam a prosseguir, cantando,
E a cantiga que assi cantavam, quanto
eu caminho direito à barca da Glória,
a palavra dela, é a siguinte:
e, tanto que chegam, diz o Anjo:
CAVs. À barca, à barca segura,
855 ANJO Ó cavaleiros de Deos,
barca bem guarnecida,233
a vós estou esperando,
à barca, à barca da vida!
que morrestes pelejando
Senhores que trabalhais por Cristo, Senhor dos céos!
830 pola vida transitória,234 Sois livres de todo mal,
memória, por Deos, memória 860 mártires da Madre Igreja,
deste temeroso cais! que quem morre em tal peleja
À barca, à barca, mortais, merece paz eternal.
barca bem guarnecida,
E assi embarcam.
835 à barca, à barca da vida!
232
absolvidos; 233 apetrechada; 234 a vida terrena, em oposição à vida eterna; 235 dores; 236 estais cheio de presunção
ou de vaidade?; 237 ao menos; 238 Norte de África.

106 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


1 Preenche o seguinte crucigrama e descobre um dos aspectos defendidos por Gil Vicente.
!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
Consulta a ficha
sobre o texto
dramático, p. 112.

1. Personagem colectiva que surge em cena


2. Símbolo cénico transportado
3. Outro símbolo cénico transportado
4. Outro símbolo cénico transportado 6. Uma característica dos Quatro Cavaleiros
5. Destinatários da mensagem transmitida pela cantiga 7. Outra característica dos Quatro Cavaleiros
que os Cavaleiros entoam 8. Destino final

2 Relaciona o percurso cénico dos Quatro Cavaleiros com o seu destino.

3 Descobre as semelhanças e as diferenças existentes entre os símbolos cénicos transportados


pelos Quatro Cavaleiros e alguns dos símbolos cénicos transportados pelo Frade.

4 A cantiga dos Quatro Cavaleiros funciona como uma síntese da moralidade do auto. Transcreve os
versos que melhor evidenciam essa moralidade, explicando-os por palavras tuas.

5 Por que razão terminará o auto com esta cena? !


HISTÓRIA
6 Identifica os processos fonéticos ocorridos nas seguintes palavras. DA L Í N G UA
Consulta a Unidade 1,
• acrecentamento › acrescentamento • despois › depois • assi › assim pp. 40-41.

7 De acordo com o exemplo, emprega cada segmento salientado numa frase onde tenha a função
!
de predicativo do complemento directo. Utiliza o verbo indicado.
F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
exemplo: «À barca, à barca segura» (dar como) – Os Cavaleiros dão a barca como segura. Consulta o Caderno
de Funcionamento
• «barca bem guarnecida» (achar) • «pola vida transitória!» (julgar) da Língua,
• «deste temeroso cais» (considerar) pp. 261-265.

7.1 A partir da fala do Anjo, cria uma frase sobre os Cavaleiros onde utilizes o verbo declarar
e um predicativo do complemento directo.

Cavalaria e bula da cruzada

Cavalaria: não foi, na origem, mais do que o grando-o numa «ordem» de carácter quase reli-
«conjunto dos cavaleiros», isto é, daqueles que gioso, considerando-o delegado de Deus para
possuíam um cavalo e o armamento completo promover a justiça e combater o mal sobre a Terra.
para combater a cavalo. Bula da cruzada: foi esta o grande meio de que
Desde o século xi que a Igreja procura sublimar a Igreja lançou mão para coadjuvar eficazmente
a tendência brutal e guerreira do cavaleiro, inte- os nossos reis, primeiro na luta contra os mouros

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 107


Auto da Barca do Inferno: cena dos Quatro Cavaleiros

do território metropolitano e depois nos Desco- sídios, e a cedência de uma parte dos rendimen-
brimentos e conquistas. Com efeito, a concessão tos eclesiásticos do Reino para as mesmas equi-
de abundantes graças e privilégios espirituais pararam os nossos arrojados empreendimentos
aos fiéis, que tomavam pessoalmente parte nes- às cruzadas da Terra Santa, contribuindo de modo
sas empresas ou para elas contribuíam com sub- eficaz para serem coroados de êxito.
Joel Serrão (dir.), Dicionário da História de Portugal, Figueirinhas (texto com supressões)

As cruzadas

Cruzada: a palavra só surge depois de 1250 tamento, a busca da salvação colectiva vai inserir-
para designar a expedição a Jerusalém dos solda- -se pouco a pouco numa esforçada marcha popu-
dos de Cristo. Nos séculos xi–xiii, fala-se de pre- lar. Por outro lado, sob a influência da Reconquis-
ferência em «viagem de Jerusalém», em peregri- ta, define-se a noção de guerra santa: lutar pela
Partida de um rei nação ou expedição, sem outra precisão. libertação do Santo Sepulcro é merecer, se se
e cavaleiros para
A cruzada é uma operação militar a que se atri- morre em estado de graça, a palma do martírio. É
as cruzadas
bui um objectivo religioso. A verdadeira causa da uma peregrinação armada, que se atribui como
cruzada é o estado mental e psicológico do Oci- objectivo o resgate dos cristãos do Oriente; é
dente nos finais do século xi. A cruzada resulta de colocada sob a autoridade da Igreja (o papa é
facto de uma dupla tendência: a tradição das representado por um legado), lançada por uma
peregrinações, a ideia nova de uma guerra por bula pontifícia; os seus participantes reconhe-
Deus ou guerra santa. A meta privilegiada é Jeru- cem-se por determinados sinais exteriores (o
salém porque os sofrimentos suportados pelo porte de uma cruz, a troca de santo-e-senha) e
peregrino ao longo de uma tão longa viagem per- beneficiam de privilégios espirituais e temporais
mitem-lhe unir-se aos de Cristo, merecendo a (indulgências*, moratórias das dívidas).
Jerusalém celeste. Sob a influência do Antigo Tes- *Indulgência: remissão pela Igreja das penas temporais que os pecados merecem.

Michel Balard e outros, A Idade Média no Ocidente, Publicações D.Quixote (texto com supressões)

! TRABALHO DE PROJECTO
C I DA DA N I A
ESTUDO Visita de estudo ao Museu Nacional de Arte Antiga
ACO M PA N H A D O
Propomos-te a realização de uma visita de estudo ao Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa)
Informa-te sobre
os procedimentos do para conheceres algumas das seguintes obras de arte dos séculos xv e xvi, entre outras:
trabalho de projecto: Sta. Ana e a Virgem, Ramon Destorrents (Catalunha); Casamento Místico de Sta. Catarina, autor
Unidade 0, p. 16.
desconhecido (Holanda); Anunciação, Frey Carlos (Flandres/Portugal); Nascimento da Virgem ou
Nascimento de S. João Baptista, autor desconhecido (Portugal); A Fonte da Vida, Hans Holbein
(Alemanha); S. Jerónimo, Albrecht Durer (Alemanha); O Inferno, autor desconhecido (Portugal); O
Julgamento das Almas, autor desconhecido (Portugal); As Tentações de Sto. Antão, Hieronymus
Bosch (Holanda); Custódia de Belém, peça de ourivesaria de Gil Vicente; Políptico de S. Vicente de
Fora: Painel do Infante, atribuído a Nuno Gonçalves (Portugal);
• em trabalho de grupo e em colaboração com os teus professores de Língua Portuguesa e de
Educação Visual, elabora uma ficha/grelha de registo, salientando aspectos que consideres
importante observar;
• em trabalho de grupo, e com a ajuda dos teus professores de História e de Educação Visual,
recolhe informação sobre algumas características das pinturas medieval e renascentista.

108 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


Auto da Barca do Inferno: Ficha de Análise Global

1 Preenche o seguinte texto, de acordo com os teus conhecimentos sobre o argumento do Auto da
!
Barca do Inferno. CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
Consulta a ficha
A cena, efectivamente, representa a margem de um ..................... – o ..................... do sobre o texto
dramático, p. 112.
«outro mundo» – com duas ..................... prestes a partir: uma delas, conduzida por um
....................., leva ao Paraíso; a outra, conduzida por um ....................., leva ao
...................... Uma série de personagens vão chegando ao cais: são os ..................... que aca-
bam de deixar o mundo. Aparecem sucessivamente um ..................... acompanhado pelo
seu Moço, que traz uma .....................; um ..................... (usurário) com uma grande
.....................; um Parvo; um Sapateiro carregado de .....................; um ..................... tra-
zendo uma rapariga pela mão e armado com uma .....................; uma ..................... carre-
gada com «seiscentos virgos postiços / e três arcas de feitiços»; um ..................... com um
bode às costas; um ..................... com ..................... («feitos»), logo seguido por um
..................... com .....................; e, a terminar, um homem que acaba de morrer enforca-
do e que vem ainda com a ..................... ao pescoço. Todas estas personagens vão para o
....................., com excepção do ....................., que é salvo pela sua ..................... de espírito
e que fica na margem (= o Purgatório) esperando a vez de ser admitido no ......................
Após este desfile de pecadores chegam quatro ..................... de Cristo que «morreram em
poder de mouros» e que são imediatamente acolhidos na barca de ......................
Cada personagem é portadora de um objecto simbólico: a ..................... do Fidalgo,
a ..................... do Onzeneiro, as ..................... do Sapateiro, etc. – objectos que são como
emblemas e que materializam o ..................... sob cujo peso são esmagadas. Os diálogos
que cada um trava com o ....................., com o ..................... e com as outras personagens
não deixam lugar a qualquer esperança: sabe-se logo que serão condenadas todas.
Nenhuma discussão é possível, nenhum arrependimento é admitido – e as falas que tro-
cam só têm a vantagem de porem em evidência as culpas pelas quais são condenadas.
Paul Teyssier, Gil Vicente – o Autor e a Obra, Instituto da Cultura e Língua Portuguesa (texto com supressões)

2 De acordo com o que sabes acerca da estrutura externa, da estrutura interna e das personagens
do Auto da Barca do Inferno, serão as seguintes afirmações verdadeiras ou falsas? Porquê?

• Seguindo o costume do teatro medieval, Gil Vicente não procedeu a uma divisão externa do
seu auto.
• Porém, podemos dividir o auto em cenas, de acordo com a tradição clássica.
• A acção do auto evolui, é encadeada e revela dinamismo, sendo que as personagens entram e
saem do palco várias vezes.

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO 109


Auto da Barca do Inferno: ficha de análise global

• No início do auto, o Anjo e o Diabo são as únicas personagens em cena.


• Não contando com as moças que acompanham a Alcoviteira e o Pajem, os quais se retirariam
do palco ao fim das respectivas cenas, por não entrarem em nenhuma barca, podemos dizer
que, no final do auto, deverão estar dezoito personagens em cena.
• Não é possível encontrar no auto as três partes clássicas: a exposição, o conflito e o desenlace.
• As personagens do auto têm personalidade própria.
• Os objectos e/ou outras personagens que as acompanham e a linguagem que utilizam são ele-
mentos que distinguem e caracterizam as personagens do auto.
• Nunca sabemos o nome da personagem que chega ao cais.
• O percurso cénico das personagens é sempre o mesmo.
• O Anjo e o Diabo são personagens alegóricas.
• De modo sisudo e, como tal, muito pouco divertido, Gil Vicente critica a sociedade do seu
tempo, seguindo o lema latino do ridendo castigat mores neste auto.
• Os vícios denunciados neste auto dizem respeito apenas à sociedade portuguesa do século xvi.

3 Atenta na seguinte passagem do Auto da Barca do Inferno e dá exemplos de rima emparelhada.

FIDAL. Esta barca onde vai ora,


que assi está apercebida?
DIABO Vai pera a ilha perdida
e há-de partir logo ess’ora.
FIDAL. Pera lá vai a senhora?
DIABO Senhor, a vosso serviço.
FIDAL. Parece-me isso cortiço…
DIABO Porque a vedes lá de fora.

3.1 Classifica os versos acima citados, tendo em conta o seu número de sílabas métricas.

3.1.1. Por que razão terá Gil Vicente escolhido essa medida de verso?

4 O Auto da Barca do Inferno (1517) é uma obra de transição do período medieval para o renas-
centista. Indica o período a que pertencem, tendencialmente, as seguintes características deste
auto de Gil Vicente.

• estrutura sem divisão externa em actos e cenas;


• unidade de acção conseguida pelo próprio argumento da peça, existindo na maior parte das
cenas uma exposição, um conflito e um desenlace;
• concepção religiosa da existência humana, a qual mantém em mente a preparação para o dia
do Juízo Final;
• dimensão crítica da peça.

5 Relembra agora todas as cenas do Auto da Barca do Inferno, em pormenor, preenchendo o


quadro-síntese da página seguinte.

110 U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


classes ou
símbolos grupos sociais/ destinos
personagens cénicos profissionais pecados/virtudes argumentos de defesa percursos cénicos atribuídos

U N I DADE 2 – O TE XTO DRAMÁTICO


111
FICHA DE CONCEITOS LITE RÁRIOS

Texto Dramático

O texto dramático, criado pelo dramaturgo, tem como finalidade ser representado, pas-
sando, assim, a texto teatral, onde se destaca a função do encenador, o qual interpreta o
texto escrito pelo dramaturgo e encena, ou seja, cria e põe em cena o espectáculo teatral.
O texto dramático é constituído por:
• falas ou réplicas das personagens, que aparecem em discurso directo, a seguir ao nome
de quem as diz, podendo apresentar-se sob a forma de diálogo, monólogo ou aparte;
• didascálias ou indicações cénicas, que surgem normalmente entre parêntesis e infor-
mam dos movimentos, gestos e atitudes das personagens, dos objectos utilizados em
cena, do guarda-roupa, do cenário, dos efeitos luminosos e sonoros, entre outros.
As intervenções das personagens são fundamentais para o desenvolvimento da acção,
que decorre num espaço e num tempo.

Algumas características do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.

Estrutura • ausência de divisão externa, embora se possa considerar que cada cena começa com
externa a entrada da(s) personagem(ns) e termina com a aceitação do destino atribuído;
• estrofes de oito versos, com sete sílabas métricas (redondilhas maiores), seguindo
o esquema rimático abbaacca, com predomínio da rima emparelhada.

Estrutura • presença de três partes clássicas: exposição (breve apresentação da personagem);


interna conflito (interrogatório feito pelo Diabo e pelo Anjo); desenlace (atribuição da sentença
pelo Anjo ou pelo Diabo).

Intenção • denúncia e correcção dos vícios da sociedade portuguesa quinhentista segundo o


crítica lema latino do ridendo castigat mores (a rir se corrigem os costumes), daí que:
Personagens – as personagens que desfilam no cais sejam tipos, representando o comportamento
comum a uma classe ou a um grupo social/profissional;
Símbolos – outras figuras e determinados objectos funcionem como símbolos cénicos, contri-
cénicos buindo para ilustrar esse comportamento;
Espaço – a acção decorra no cais onde tem lugar o Juízo Final, pelo que as personagens são
cénico condenadas ou absolvidas de acordo com esse comportamento;
Percurso – o percurso das personagens em palco se relacione com o destino que lhes é atribuído,
cénico em virtude de tal comportamento (a barca do Diabo ou a barca do Anjo);
Processos – se faça uso de processos de cómico como o cómico de linguagem (vocabulário,
de cómico jogos de palavras, registos de língua), o cómico de situação (não adaptação da per-
sonagem à situação em que se encontra) e o cómico de carácter (não adaptação da
personagem àquilo que deveria ser a sua realidade);
Figuras – se faça uso de figuras de estilo como a ironia (usada pelo Diabo, que dizendo o con-
de estilo trário da verdade perceptível acerca da personagem, com uma entoação reveladora
da mesma, a condena, ridicularizando-a) e o eufemismo (usado sobretudo pelo
Diabo para se referir ao destino comum à maior parte da sociedade representada no
auto – o Inferno).

112 F ICHA DE CONCE ITOS LITE RÁR IOS


UNIDADE 3

O Texto Épico
Os Lusíadas: textos introdutórios

Observa a transparência 6 e descobre nas imagens apresentadas elementos que se relacionem com
a intensa actividade comercial da Lisboa quinhentista. Partilha as tuas descobertas com a turma.

Renascimento, Humanismo e Classicismo

Depois da lenta evolução cultural operada na


Idade Média, quando os homens pouco a pouco
se libertavam da barbárie em que as invasões, ao
mesmo tempo que submergiam o Império Roma-
no, haviam mergulhado a Europa, verifica-se um
movimento cultural que, baseado no conheci-
mento e na imitação dos clássicos (latinos e gre-
gos), trouxe uma nova concepção de homem,
encarado na sua integralidade, e veio abrir novos
horizontes à Humanidade e rasgar os caminhos
da Idade Moderna – foi o Renascimento.
Existem, pois, no Renascimento dois aspectos
aparentemente contraditórios: por um lado, a
imitação das culturas clássicas; por outro, de Alegoria da Escola de Sagres, pintura de Severo Portela
certo modo, a sua contestação, ao desvendar,
através da experiência, as realidades humanas e
científicas que vão conduzir ao espírito moderno. Descobrimentos, assumindo, portanto, uma fisio-
Com efeito, ao reconhecer a superioridade nomia específica, formulando-se através de uma
artística e literária das civilizações antigas, os análise contrastiva do real. A mensagem transmi-
homens do século xv foram levados a imitá-las, tida pelos descobridores vinha ser, afinal, a prova
mas, a partir delas, a conceber uma nova noção das teorias humanísticas: nem só raça branca,
que os antigos apenas haviam pressentido: a nem só civilização europeia, nem só as religiões
noção do homem integral, complexo harmonioso até então conhecidas – o cristianismo, o judaís-
de corpo e de espírito. A esse novo interesse pelo mo, o maometismo e as próprias línguas euro-
Homem, servido pelo estudo aprofundado das peias dos ramos já identificados (Românicas,
letras e das artes, se deu o nome de Humanismo. Germânicas e Eslavas) existiam no mundo, que
E é fácil ver como esta concepção humanística pela primeira vez se revelava em toda a sua vasti-
levou longe: dão e diversidade.
• estendendo o Humanismo não só ao homem Isto confere ao Humanismo Português uma
individual, mas à humanidade em geral; feição de precursor quanto à noção de relativi-
• incluindo o homem e a humanidade no vasto dade das coisas humanas e da própria vivência
conjunto da natureza universal – atitude que do relativo.
conduzirá ao naturalismo, isto é, ao interesse Ao lado do Humanismo, como sentido, o Classi-
pela natureza em geral. cismo, como forma, tinha na base a imitação
O Humanismo Português, inserto no Humanis- quase linear dos antigos, mas servia a nova orien-
mo Europeu, revestiu, contudo, aspectos particu- tação do espírito. Também o Classicismo Portu-
lares, sobretudo por um enriquecimento extraor- guês apresenta aspectos novos e originais, resul-
dinário proveniente da experiência trazida pelos tantes, igualmente, da expansão ultramarina: o

114 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Classicismo Português apresenta-se-nos enrique- prio introdutor do Renascimento – Sá de Miranda
cido com os motivos ornamentais, exóticos e mari- – opera essa conciliação duradoura e significativa.
nhos que lhe são próprios. O estilo arquitectónico As principais inovações do Renascimento lite-
manuelino é bem o reflexo desta simbiose da rário consistem na introdução:
Antiguidade e da Idade Moderna. Os Lusíadas, a) do decassílabo como metro poético por exce-
como obra literária, são, por seu lado, a síntese do lência (medida nova ou italiana);
Humanismo e do Classicismo Português, em toda b) de novas formas estróficas (oitava rima, ter-
a sua especificidade. No entanto, o Renascimento ceto, etc.);
impôs-se em Portugal sem substituir radicalmen- c) de formas clássicas: epopeia, tragédia, comé-
te as formas tradicionais da poesia, e os primeiros dia, écloga, ode, elegia, epitalâmio, epigrama,
grandes poetas do século, embora reflectindo já, carta (em verso); e, ainda, o soneto e a canção
em certos aspectos, a nova corrente, mantêm-se que, não tendo sido cultivados pelos antigos,
de algum modo depositários dos modelos tradi- mas sim criados por Petrarca, se incluem,
cionais. Assim, o Renascimento não constitui uma todavia, nos géneros clássicos, por participa-
ruptura em relação à literatura anterior, mas uma rem das suas características intrínsecas: equi-
busca de conciliação entre dois modelos. O pró- líbrio, sobriedade, racionalismo, serenidade.
Maria Leonor Buescu, Apontamentos de Literatura Portuguesa, Porto Editora

Os Lusíadas: tipos de inspiração e fontes

Os Lusíadas podem considerar-se como a obra • Inspiração medieval – com a referência a


literária que melhor sintetiza o Renascimento, episódios da história e da lenda medieval
dentro da literatura portuguesa: além do seu europeia (Rolando, Carlos Magno, etc.) e com
interesse literário, apresenta um interesse docu- a recriação do ambiente cavaleiresco, por
mental e humano representativo de uma época. exemplo, no episódio novelesco dos Doze de
Esse aspecto é principalmente apreciável tendo Inglaterra.
em vista a complexa constituição e a multiforme • Inspiração renascentista – através da busca
inspiração presente no poema. de um novo ideal estético e humano; com a
Podemos, pois, distinguir os seguintes tipos de ardente curiosidade em relação ao universo
inspiração: dos povos recém-encontrados e às particula-
• Inspiração patriótica – em todo o poema per- ridades dos seus costumes, trajos, etc.
passa uma vibração entusiástica de orgulho • Inspiração exótica – com a busca do efeito
nacional e amor pátrio. estético e ornamental a partir da descrição
• Inspiração clássica – visível sobretudo atra- dos aspectos da paisagem, fauna e flora exó-
vés da estrutura clássica do poema e da inter- ticas e marítimas.
venção da mitologia como artifício poético; • Inspiração científica – com a curiosidade e
através da alusão e conhecimento da história, o êxtase perante as novidades científicas
da literatura e da cultura das civilizações da baseadas numa experiência directa, com o
Antiguidade. interesse pelos fenómenos da natureza e sua
• Inspiração cristã – principalmente com a inter- explicação, e com o conhecimento das drogas
venção do maravilhoso cristão, e com a pre- simples da Índia (efectivamente, Camões foi
sença, em todo o poema, do pensamento cris- amigo e companheiro de Garcia de Orta, o pri-
tão e do ideal expansionista da Fé (espírito de meiro que revelou à Europa os efeitos medici-
Cruzada). nais das especiarias e drogas orientais).

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 115


Os Lusíadas: textos introdutórios

Fontes de Os Lusíadas • A Divina Comédia, de Dante.


1. Fontes literárias • Orlando Furioso, de Ariosto.
Sendo a epopeia um género clássico, baseia-se, 2. Fontes históricas
quanto ao plano e estrutura, nas epopeias greco- A. Para a narração do descobrimento e estabele-
-latinas e segue o exemplo das epopeias moder- cimento dos Portugueses na Índia:
nas que a precederam. • João de Barros;
A. Epopeias antigas • Diogo de Couto;
• Ilíada e Odisseia de Homero – cujos heróis são • Fernão Lopes de Castanheda;
Aquiles e Ulisses, respectivamente, e as acções • de modo geral, os cronistas dos feitos africa-
a cólera de Aquiles no cenário da Guerra de nos e orientais;
Tróia e os errores marítimos de Ulisses. • narrações de naufrágios (mais tarde compila-
• Eneida de Virgílio – cujo herói é Eneias e a das na História Trágico-Marítima).
acção resultante de uma combinação entre a B. Para a narração da parte anterior aos Descobri-
acção geográfica (a viagem de Eneias de Tróia mentos:
para a Itália) e a acção histórica (as glórias do • Fernão Lopes;
povo romano). • Gomes Eanes de Zurara;
B. Epopeias modernas • Rui de Pina;
Entre outras: • Outras crónicas e cronistas.
Maria Leonor Buescu, Apontamentos de Literatura Portuguesa, Porto Editora (texto com supressões)

As ideias do Renascimento, do Classicismo e do Humanismo em Os Lusíadas

dos artistas da Antiguidade clássica e como ideal


de clareza, de serenidade e de equilíbrio.
Por outro lado, o homem do Renascimento toma
consciência das suas capacidades que lhe permi-
tem dominar as forças da Natureza. O Humanismo
que foi, inicialmente, o estudo das «humanæ litte-
ræ», tornou-se depois, principalmente, uma nova
concepção do mundo, substituindo-se o Teocen-
trismo da Idade Média pelo Antropocentrismo. O
homem é a «medida de todas as coisas» e, para
tal, tem de se conhecer a si próprio. Ele é Sujeito e
Objecto do Saber.
Vejamos agora como estas novas ideias se
Uma Alegoria reflectem n’Os Lusíadas:
com Vénus e Cupido,
pintura de Agnolo O universalismo do Poema está expresso, desde
Bronzino o início, na intenção do Poeta: «Que se espalhe e
se cante no Universo». Não se confinando a um
espaço português, o canto será divulgado por
O Renascimento italiano tinha redescoberto os toda a parte. O próprio nacionalismo do assunto
clássicos e propunha a sua imitação como cami- tem de ser visto à luz da época: ser português
nho para atingir a perfeição. O Classicismo aparece era ser europeu, representante, no Oriente, do
numa dupla acepção: como estudo e imitação homem ocidental, do homem cristão.

116 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


O experimentalismo é também enaltecido no dos perigos da viagem. O amor das ninfas aguar-
Poema, quando se opõe o saber livresco dos anti- dava, por seu turno, o Gama e os seus homens,
gos ao dos «rudes marinheiros» que «têm por mas, em vez do prazer da paz que humaniza os
mestra a longa experiência». heróis, é-lhes concedida a Imortalidade, antes
Adoptando como modelo directo a Eneida de mesmo do regresso à terra amada.
Virgílio e, indirectamente, seguindo Homero na As semelhanças entre Os Lusíadas e a Eneida
Odisseia, Camões obedece aos cânones do Clas- são ainda mais flagrantes: a existência da Propo-
sicismo, revelando uma profunda erudição, como sição e da Invocação, o início da Narração in
demonstram as fontes de que se serviu. media res, a presença de deuses adjuvantes e
Com efeito, a acção é, em ambas as epopeias, oponentes que interferem na acção humana
uma viagem marítima; os deuses tentam opor-se (Vénus protege os Troianos na Eneida e os Portu-
aos homens, criando sucessivos entraves à via- gueses n’Os Lusíadas; Juno persegue os Troianos
gem; contudo, os homens ultrapassam essas for- e Baco persegue os Portugueses); Eneias e Vasco
ças antagónicas, ou pela astúcia, no caso de Ulis- da Gama têm o papel de narradores numa parte
ses, ou pela coragem e pela fé, no caso do Gama. significativa dos poemas e, finalmente, é também
É concedido ao herói o conhecimento do futuro: através de profecias que o herói é informado do
Ulisses é informado por Tirésias e Vasco da Gama Futuro. Depois da revelação de Anquises, no
por Tethys e pela ninfa. Inferno, Eneias será aquele para quem o presente
O amor da doce Penélope e a vida tranquila do só tem interesse porque é nele que se constrói o
tempo de paz aguardavam Ulisses no regresso a tempo das gerações futuras.
Ítaca, como recompensa dos horrores da guerra e
Maria Alda Soares da Silva, A Leitura como Viagem – Uma abordagem de «Os Lusíadas», Editorial Presença (texto com supressões)

Os Lusíadas e o ideal renascentista da epopeia

O tema d’Os Lusíadas é uma justaposição do ceu o próprio Cristo a D. Afonso Henriques na
ideal cavaleiro e do ideal humanista no cavaleiro- batalha de Ourique, incitando-o à destruição dos
-letrado que foi Camões. infiéis? Não foi no Salado, e em virtude do auxílio
Coube-lhe, no declinar do século xvi, realizar o decisivo de Afonso IV, que se decidiu a sorte do
projecto de epopeia já idealizado ou mesmo anun- domínio mouro na Península? Os reis cruzados
ciado em Zurara, João de Barros, Garcia de Resen- são objecto de especial desenvolvimento em Os
de e sobretudo António Ferreira. Camões aprovei- Lusíadas, como sucede com Afonso V, o Africano.
tou toda a matéria épica que antes dele tinha sido As dificuldades que surgem no caminho para a
preparada: dos lugares-comuns retóricos acu- Índia resultam de que um deus pagão, Baco, se
mulados por aqueles autores e também por Ange- persuade de que a implantação do cristianismo no
lo Policiano, um humanista italiano ao serviço de Oriente lhe roubará o culto dos seus fiéis.
D. João II, aproveitou principalmente a ideologia, Esta matéria épica é constituída por um certo
toda feita sobre os motivos religiosos dos Desco- número de ideias, de interpretações convertidas
brimentos, o ideal de cruzada, o destino providen- em lugares-comuns oficiais, e não por heróis ou
cial dos Portugueses, e fixou-os em verso lapidar. narrativas populares. Falta-lhes, por isso, aquilo
A história de Portugal aparece desde o começo que é característico das epopeias primitivas,
orientada para a missão providencial da dilatação como a Ilíada, a Odisseia, a Chanson de Roland ou
da fé. Não falando já nos singulares feitos de Viria- o Cantar de Mio Cid: os heróis, isto é, as persona-
to, que atestam a bravura da sua gente, não apare- gens cuja acção e cujas paixões são a própria

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 117


Os Lusíadas: textos introdutórios

mola da acção épica. Em Os Lusíadas o herói é sito de três minúsculos barquinhos que sulcam as
uma entidade abstracta, «o peito lusitano», isto águas do Índico. Enquanto uns, como Vénus e
é, Portugal considerado colectivamente. Marte (os Portugueses são amorosos e valentes),
Foi por meio da mitologia greco-latina que capricham em protegê-los, outros, como Neptu-
Camões conseguiu resolver o problema estético no, cioso do velho senhorio dos mares, e Baco,
com que se debatiam os poetas que aspiravam à que defende o seu domínio no Oriente, pretendem
realização da epopeia. Serve-se dos deuses cele- impedir a continuação da viagem. O Olimpo treme
brados nas epopeias da antiguidade e constrói sob as altercações dos deuses, mas Júpiter acaba
com os seus diversos caracteres e paixões uma por aderir ao partido de Vénus. Os deuses são,
intriga que é o verdadeiro enredo do poema: os assim, com os seus caprichos, a sua agitação, os
deuses do Olimpo dividem-se e disputam a propó- seus planos e manhas, os verdadeiros humanos.
António José Saraiva, Iniciação na Literatura Portuguesa, Gradiva (texto com supressões)

O projecto de Camões e as epopeias clássicas

Sob o ponto de vista da temática nacional, o em Cartago. No mesmo discurso Vasco da Gama
projecto camoniano é comparável ao de Virgílio, narra também a história de Portugal por ordem cro-
inspirado pela intenção de cantar Roma e a histó- nológica desde Viriato até D. Manuel. Mais tarde,
ria romana. Com a diferença de que a Eneida chegados a Calicute, Paulo da Gama, o segundo
herói, em dignidade, apresenta a um catual do
Samorim episódios e personagens da história pas-
sada de Portugal pintados nas bandeiras da nau.
Quanto aos acontecimentos futuros – essencial-
mente a história do Oriente português – são conta-
dos por personagens divinas, Júpiter num encon-
tro com Vénus (muito semelhante a outro encontro
O Último Encontro
das mesmas personagens na Eneida), uma sereia
de Dido e Eneias,
ilustração da Eneida (que os soube do deus marinho Proteu), e a deusa
de Virgílio Tétis na ilha de Vénus. Estes acontecimentos futu-
ros são todos heróicos e gloriosos. Mas há tam-
bém alguns episódios trágicos, que são narrados
evoca as futuras glórias de Roma dentro de uma por um dos filhos da Terra destronados pelos deu-
acção central que é inteiramente e deliberada- ses olímpicos, o gigante Adamastor.
mente fabulosa; ao passo que n’Os Lusíadas o Mas diferentemente de Virgílio e Homero,
próprio acontecimento central que une as dife- Camões separa completamente a esfera dos deu-
rentes partes do poema e os diferentes quadros ses e a esfera histórica desde o princípio ao fim da
históricos é também histórico – a viagem de des- viagem e da missão de Vasco da Gama. Os homens
cobrimento do caminho marítimo para a Índia. e os deuses não se tocam. As intervenções de
A narrativa começa no meio da viagem («in Baco ou de Vénus manifestam-se sob a forma de
medias res»), quando a frota já se encontra na fenómenos naturais (tempestades, correntes),
costa oriental africana. Os episódios anteriores da humanos (conselheiros pérfidos, cristãos fingi-
viagem são narrados por Vasco da Gama ao rei de dos) ou de sonhos. Desta forma os heróis não têm
Melinde, durante uma pausa da viagem, similar à que lutar contra qualquer espécie de sobrenatu-
de Ulisses na terra do rei dos Feácios e à de Eneias ral, como por exemplo os companheiros de Eneias

118 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


são obrigados a bater-se contra as harpias, imen- Porém, quando a acção histórica acabou, os
sos pássaros de ferro, ou os de Ulisses com o deuses e homens encontram-se finalmente numa
gigante Polifermo. Camões seguiu com rigor ilha encantada que Vénus preparou, povoou de
(metódico) esta regra da separação do mundo belas ninfas e fez levar por cima das águas ao
maravilhoso e do mundo histórico de modo a encontro dos heróis.
poder afirmar a verdade histórica do seu poema.
Os Lusíadas, de Luís de Camões (edição organizada por António José Saraiva), Figueirinhas (texto com supressões)

O desejo de um poema épico nacional

Já no século xv se manifestava a ideia de se representada sobretudo pelos poemas homéri-


escrever uma epopeia sobre a expansão portu- cos – a Ilíada e a Odisseia – e pela Eneida, de Virgí-
guesa. E não só em Portugal. Sabe-se, que Luís lio. Por outro lado, havia o tema a impor o livro. As
Vives, humanista espanhol, exaltou os des- proezas marítimas dos portugueses,
cobrimentos lusíadas numa dedicató- indo com os seus barcos a todos os
ria ao rei D. João III. E que Ângelo pontos do mundo, eram, acaba-
Policiano, humanista italiano, se das de praticar, um desafio
propôs cantar em verso latino os permanente aos poetas. Que
feitos do reinado de D. João II. faltava, pois? Que apareces-
Por sua vez, em Portugal tudo se o épico, o cantor digno
parecia impor o aparecimento daquela epopeia e daquele
de um poeta épico, isto é, de um movimento.
poeta que cantasse as glórias Camões surge, assim, na
da sua nação. Garcia de Resen- altura própria. Nem cedo
de, no prólogo do Cancioneiro nem tarde. Era a hora. Quan-
Geral, lamenta que não estejam do ele atinge os vinte anos,
devidamente cantados os fei- a meio do século xvi, tudo
tos lusíadas. E, em 1533, ainda está à mão de semear, à
Camões estava na infância, mão de colher. Só lhe falta-
João de Barros, o historiador, va o estudo e, a par deste, a
desejava igualmente uma epo- experiência. O poeta reco-
peia. Declarava-se a favor de lhe ambos e, com o seu
tuba épica e clamorosa, pois génio, pode então compor
entendia que «mais proveito a epopeia, esse livro mara-
de tal música nasceria, do que vilhoso em que há, como já
Vasco da Gama na sua Chegada à Índia,
de saudosas cantigas e trovas pintura de Domingos Rebelo disse um escritor de livros
de namorados». para a juventude, «toques
Duas causas contribuíam de clarins, estridor de bata-
essencialmente para este anseio generalizado. lhas, ranger de enxarcias, perfume do mar, visões
Por um lado, a evolução literária, com o renasci- magníficas de terras distantes, lágrimas de mães
mento do gosto pelos modelos da antiguidade. e de noivas, o pulsar do coração de um povo»!
Os humanistas desejavam ressuscitar os géneros O tempo era propício a Camões. E Camões
clássicos, entre os quais se contava a epopeia, apareceu.
In Boletim, n.o 4, 1980, Fundação Calouste Gulbenkian (texto com supressões)

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 119


Os Lusíadas: textos introdutórios

Camões e os descobrimentos

Tudo o que se sabe ao certo da vida de Luís de como funcionário incumbido de zelar pelos bens
Camões pode ser dito em poucas linhas: ignora- dos que morressem durante a viagem. Na ida ou
-se o ano e o lugar em que nasceu (provavelmente na vinda, também não se sabe ao certo, naufra-
Lisboa, 1525), ignora-se que estudos fez e onde gou na foz do rio Mekong, no Camboja, conse-
(talvez em Coimbra), praticamente desconhece- guindo salvar o manuscrito das suas obras.
-se quase tudo sobre a sua vida até partir para o De volta a Goa, talvez tenha sido preso nova-
Oriente, onde passou 17 anos, e pouco mais sabe- mente. Entre 1567-69 encontrava-se na ilha de
mos sobre a sua estada naquelas paragens. Há Moçambique, tendo regressado a Portugal em
todavia factos biográficos que, aqui e ali, podem 1570, reduzido à miséria mais extrema, mas já
deduzir-se dos seus textos. Pode supor-se, por com o texto da sua epopeia praticamente pronto
para edição.
Em Lisboa, publicou Os Lusíadas em 1572. O rei
concedeu-lhe uma pequena tença ou pensão,
cujo pagamento em atraso Camões veio a recla-
mar mais tarde.
Mas não se sabe mais nada da sua biografia tar-
dia em Portugal, a partir de 1570. Parece que foi
alvo de vários epigramas de autores bem aceites
na corte, o que pode significar que era invejado,
quer pela grandeza da sua obra, quer pelo facto
de beneficiar da tença.
Também se ignora a data exacta da sua morte,
entre 1579 e 1580, e a localização exacta da sua
campa na Igreja de Santa Ana, mais tarde destruí-
da pelo terramoto de 1775.
Camões viveu a fase terminal da expansão por-
tuguesa e depois a da decadência e do desmoro-
Lisboa no Século XVI, gravura da obra de Hans Staden sobre o Brasil
namento político do seu país. A sua morte, um ou
exemplo, que teve uma vida amorosa agitada. Tal- dois anos depois da derrota de Alcácer Quibir,
vez por causa dessa vida, na juventude terá sido coincide praticamente com a perda da indepen-
desterrado da corte, e tem-se como certo que ser- dência portuguesa em favor da Espanha, situação
viu como militar no norte de África, em Ceuta, aí que iria durar até 1640. Mas, ao mesmo tempo,
por 1547-48, onde perdeu o olho direito. Camões viveu um período intelectual singular da
Em 1552, passou vários meses na prisão, em história sociocultural, económica e política de
Lisboa, depois de se ter envolvido numa desor- Portugal, da Europa e do Mundo.
dem, tendo sido libertado para embarcar para a Com as navegações, os homens acabavam de
Índia, na primavera de 1553, a fim de prestar três adquirir novas dimensões, muitas vezes contradi-
anos de serviço, como era de regra. Na Índia parti- tórias, para o pensamento, e novos horizontes,
cipou em expedições militares. Depois, em data muitas vezes alucinantes, para as suas andanças,
imprecisa, entre 1556 e 1558, Camões partiu para o que tornava possível a mistura de vontade e
o extremo Oriente, talvez provido nas funções de audácia, especulação e riqueza, viagem e perigo,
provedor «menor» dos bens dos defuntos, isto é, livre arbítrio e fatalismo. Tudo isso os levava a

120 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


viver dramaticamente uma época em que os por-
tugueses mais esclarecidos viam a aventura por-
tuguesa como uma forma de expansão europeia
sob o denominador comum que lhes era possível
conceber: a propagação da fé cristã, mesmo que,
como Camões, se vissem forçados a criticar a
fragmentação e as divergências dos cristãos e a
reivindicar para Portugal o papel de agente privi-
legiado da propaganda católica fora da Europa.
Camões foi seguramente o poeta de um sistema
de valores que eram os da cultura e da civilização
europeias do seu tempo.
Foi sobre este pano de fundo que o poeta viveu
e escreveu a sua obra épica e lírica. Em Camões
assiste-se ao movimento contraditório entre uma
concepção do Homem como «um bicho da terra
tão pequeno» e a grandeza das suas realizações
à escala do Universo, entre o microcosmo frágil
que pode vencer os obstáculos, se ajudado pelo
céu ou pelas suas qualidades de coragem e de
audácia, e tudo o que pode deitá-lo a perder se se
torna o joguete das forças obscuras da natureza,
da fortuna ou do destino. Retrato de Luís de Camões, por Fernando Gomes (1570)
Camões fez portanto todo o percurso: durante
17 anos viveu as peripécias de uma viagem à das suas aptidões e da sua disponibilidade para
Índia, fez a guerra, foi ao Extremo Oriente, conhe- continuar a cantar as glórias presentes e futuras
ceu o exílio, as dificuldades, os perigos, as des- da sua pátria.
graças, o sofrimento, o desespero, enfim, ele pró- Toda a obra de Camões (centenas de poemas
prio viveu e exprimiu o preço humano e material líricos de todos os géneros, cartas e algumas
dos descobrimentos. peças de teatro) põe em evidência as contradi-
É por isso que, se procurarmos n’Os Lusíadas ções do seu ser, dilacerado entre a nostalgia de
vestígios da sua experiência pessoal, facilmente uma harmonia suprema e um sentido muito
os encontramos nalguns planos principais: ora agudo do absurdo e do desconcerto do mundo,
ele torna evidente o modelo humano de quem entre uma afirmação dos valores da liberdade
maneja com idêntica destreza a espada e a pena, humana e do livre arbítrio e a consciência revolta-
enquanto faz amargas lamentações, mais ou da de não passar de um joguete nas mãos do des-
menos moralizadoras, sobre o esquecimento ou a tino, entre a permanência inelutável da desventu-
injustiça de que se sente vítima; ora evoca o nau- ra e a fugacidade efémera da vida e da felicidade
frágio que sofreu; ora alude aos seus dramas humanas, desembocando na oposição «mal pre-
amorosos personificados na figura patética do sente/bem passado» que inspirou alguns dos
gigante Adamastor e na perseguição das ninfas acentos mais dramáticos e pungentes de uma
pelo soldado Leonardo Ribeiro, na ilha dos Amo- obra que é um dos cumes mais altos da criação
res; ora, enfim, afirma a consciência do seu génio, cultural da humanidade.
Vasco Graça Moura, in O Correio, Junho 1989 (adaptado)

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 121


Os Lusíadas: poemas dedicados a Luís Vaz de Camões

LUÍS, O POETA, SALVA A NADO O POEMA

Era uma vez


um português
de Portugal.
O nome Luís
há-de bastar
toda a nação
ouviu falar.
Estala a guerra
e Portugal
chama Luís
para embarcar.
Na guerra andou
a guerrear Camões Salva
e perde um olho Os Lusíadas
do Naufrágio,
por Portugal. pintura de José
Livre da morte de Guimarães
pôs-se a cantar
o que sabia
de Portugal.
Fora da água
Dias e dias
um braço no ar
grande pensar
na mão o livro
juntou Luís
há-de salvar.
a recordar.
Nada que nada
Ficou um livro
sempre a nadar
ao terminar
livro perdido
muito importante
no alto mar.
para estudar.
—Mar ignorante
Ia num barco
que queres roubar?
ia no mar
A minha vida
e a tormenta
ou este cantar?
vá d’estalar.
A vida é minha
Mais do que a vida
ta posso dar
há-de guardar
mas este livro
o barco a pique
há-de ficar.
Luís a nadar.
Estas palavras
hão-de durar
por minha vida
quero jurar.

122 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Tira-me as forças À nossa terra
podes matar irão parar
a minha alma lá toda a gente
sabe voar. há-de gostar.
Sou português Só uma coisa
de Portugal vão olvidar:
depois de morto não vou mudar. o seu autor
Sou português aqui a nadar.
de Portugal É fado nosso
acaba a vida é nacional
e sigo igual. não há portugueses
Meu corpo é Terra há Portugal.
de Portugal Saudades tenho
e morto é ilha mil e sem par
no alto mar. saudade é vida
Há portugueses sem se lograr.
a navegar A minha vida
por sobre as ondas vai acabar
me hão-de achar. mas estes versos
A vida morta hão-de gravar.
aqui a boiar O livro é este
mas não o livro é este o cantar
se há-de molhar. assim se pensa
Estas palavras em Portugal.
vão alegrar Depois de pronto
a minha gente faltava dar
de um só pensar. a minha vida
para o salvar.
Almada Negreiros,
Obras Completas,
Editorial Estampa

Luís de Camões, desenho de Almada Negreiros

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 123


Os Lusíadas: poemas dedicados a Luís Vaz de Camões

CAMÕES
Nem tenho versos, cedro desmedido,
Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza.

Quem te pode cantar, depois do Canto


Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto
Chega aos teus pés e como que arrefece.
CAMÕES E A TENÇA
Chamar-te génio é justo, mas é pouco. Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Chamar-te herói, é dar-te um só poder. Seja paga na data combinada
Poeta dum império que era louco, Este país te mata lentamente
Foste louco a cantar e louco a combater. País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce
Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e confesso, Em tua perdição se conjugaram
Única nau do sonho insatisfeito Calúnias desamor inveja ardente
Que não teve regresso. E sempre os inimigos sobejaram
Miguel Torga, Poemas Ibéricos, Edição de Autor
A quem ousou mais ser que a outra gente

E aqueles que invocaste não te viram


Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao paço irás pacientemente


Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente


Sophia de Mello Breyner Andresen,
Obra Poética II, Círculo de Leitores

Luís de Camões, ilustração de Pedro Proença

124 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


A LUÍS DE CAMÕES
Sem lástima e sem ira o tempo arromba
As heróicas espadas. Pobre e triste
À tua pátria nostálgica voltaste,
Ó capitão, para nela morrer
E com ela. No mágico deserto
Tinha-se a flor de Portugal perdido
E o áspero espanhol, antes vencido,
Ameaçava o seu costado aberto.
Quero saber se aquém da ribeira
Última compreendeste humildemente
Que tudo o perdido, o Ocidente
E o Oriente, o aço e a bandeira,
Perduraria (alheio a toda a humana
Mutação) na tua Eneida Lusitana.
Luís de Camões, ilustração de Pedro Proença
Jorge Luís Borges, O Fazedor, Difel

FALA APÓCRIFA DE CAMÕES CAMÕES, GRANDE CAMÕES…


É inútil buscarem o meu signo Camões, grande Camões, quão semelhante
procurarem-me em ruas ou retratos Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
sequer em grutas gritos manuscritos Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
muito menos em fósseis ou em falsas Arrostar co sacrílego gigante;

pistas que de meus ossos não existem Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
É inútil julgarem-me comparsa Da penúria cruel no horror me vejo;
de quem quer que julgou viver comigo Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
já que em lugar algum terei passado Também carpindo estou, saudoso amante.

comigo mais que um prazo muito exíguo Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
mais ambíguo aliás e mais escasso Meu fim demando ao Céu, pela certeza
que o vivido com Bembo ou com Virgílio De que só terei paz na sepultura.

com Petrarca Ariosto ou Garcilaso Modelo meu és, mas… oh, tristeza!…
Só estes os contei por meus amigos Se te imito nos transes da Ventura,
E só de astros que tais rompe o meu rasto Não te imito nos dons da Natureza.
David Mourão-Ferreira, Obra Poética, Editorial Presença Bocage, Opera Omnia, Livraria Bertrand

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 125


Os Lusíadas: Canto I, Proposição

Frontispício da primeira edição de Os Lusíadas.

126 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Canto I
[1–3] [4–5] [6 –18] [19] [20 – 41] [42–99] [100 –102] [103–104] [105–106]
Proposição Invocação Dedicatória Narração >
Início da Episódio Chegada a Moçambique O falso piloto dirige a Chegada a Reflexões
narração do Consílio Vasco da Gama recebe os armada para Quíloa, Mombaça, porto do poeta
com a armada dos Deuses. mouros e o Régulo a bordo. porto inimigo. inimigo. sobre a
no Índico. Baco toma a forma de um Vénus salva os Baco, que tomara fragilidade
mouro e instiga o Régulo portugueses, mudando a forma de outro do Homem.
contra os portugueses. os ventos. mouro, previne
O Régulo ataca os Portugueses, Várias tentativas o Rei contra os
mas é vencido. do piloto para destruir portugueses.
Fingindo arrependimento, os portugueses.
o Régulo oferece-lhes um Nova intervenção de
falso piloto. Vénus para os salvar.

Plano da viagem · Plano dos deuses · Plano das intervenções do poeta [Estrofes para leitura orientada]

1 3

As armas e os barões assinalados


1 2
Cessem do sábio Grego8 e do Troiano9 A presente versão
das estrofes
Que, da Ocidental praia Lusitana, As navegações grandes que fizeram; de Os Lusíadas
é o resultado
Por mares nunca dantes navegados, Cale-se de Alexandro10 e de Trajano11 da consulta
Passaram ainda além da Taprobana,3 A fama das vitórias que tiveram; de várias edições
por parte
Em perigos e guerras esforçados Que eu canto o peito ilustre Lusitano, das autoras.
Mais do que prometia a força humana, A quem Neptuno12 e Marte13 obedeceram.
E entre gente remota edificaram Cesse tudo o que a Musa antiga14 canta,
Novo Reino,4 que tanto sublimaram; Que outro valor mais alto se alevanta.
2

E também as memórias gloriosas


Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas5
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando:
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho6 e arte.7

Marinheiros portugueses, ilustração de Pedro Proença

1
feitos guerreiros; 2 homens ilustres; 3 Ilha de Ceilão, actual república do Sri Lanka; 4 Império Português do Oriente;
5
não cristãs; 6 talento; 7 eloquência; 8 Ulisses, herói da Odisseia; 9 Eneias, herói da Eneida; 10 Alexandre Magno, rei da
Macedónia; 11 imperador romano; 12 deus do mar; 13 deus da guerra; 14 poesia épica da antiguidade.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 127


Os Lusíadas: Canto I, Proposição

1 Concentra-te nas duas primeiras estrofes da Proposição e completa o seguinte quadro.


!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S C A M Õ E S P RO P Õ E - S E A C A N TA R P O RQ U E
Consulta a ficha sobre
a epopeia, p. 188, Os guerreiros e os homens ilustres Saíram da ________________________________, passaram por
e a ficha sobre o
processo figurativo,
(«As armas e os barões assinalados») mares nunca ________________ , enfrentaram ________________
pp. 271-272.

e ___________________ , e edificaram um ________________ ,

que _____________________.

Os _______________________ Dilataram a ___________________ e o ___________________ , e

(«E também as memórias gloriosas/ devastaram as _________________ viciosas de ________________

Daqueles reis […]») e da ___________________ .

Os homens merecedores da Realizaram _________________________

_________________________

(«E aqueles que […] / Se vão da lei

da morte libertando:»)

2 Aponta o verso da segunda estrofe onde o poeta dá a conhecer o seu propósito.

3 Que condição necessária ao cumprimento desse propósito é referida pelo poeta? Explica-a por
palavras tuas.

4 Atenta na terceira estrofe da Proposição e transcreve o verso onde o poeta reafirma o seu propósito.

4.1 Transcreve a expressão que, dentro desse verso, faz a síntese das figuras de heróis apontadas
pelo poeta nas estrofes anteriores.

4.2 Quem é então o herói colectivo do poema?

5 Na terceira estrofe, o poeta refere alguns heróis da Antiguidade Clássica. Quais?

5.1 Que feitos realizaram esses heróis?

5.2 Que ordem dá o poeta relativamente aos feitos desses heróis?

6 Para além dos heróis, o poeta refere deuses da Antiguidade Clássica. Quais?

6.1 De acordo com o poeta, a quem obedeceram esses deuses?

6.2 Tendo em conta o que é dito nas duas primeiras estrofes e os deuses em causa, explica o
sentido do antepenúltimo verso da Proposição.

128 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


7 Explica agora o porquê das ordens dada pelo poeta quanto aos feitos antigos.

8 Achas possível os dois últimos versos da Proposição anunciarem não só um novo herói, capaz
de feitos gloriosos, como também um novo poeta, também ele glorioso? Porquê?

9 Faz corresponder os seguintes versos da Proposição ao plano de Os Lusíadas que te pareça aí


anunciar-se.

«A quem Neptuno e Marte obedeceram.» • • plano da viagem

«Cantando espalharei por toda a parte, •


• plano da História de Portugal
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.»

«Por mares nunca dantes navegados •


• plano dos deuses/mitológico
Passaram ainda além da Taprobana,»

«E também as memórias gloriosas •


• plano das intervenções do poeta
Daqueles Reis que foram dilatando […]»

10 Preenche os espaços substituindo as expressões assinaladas por uma única palavra equivalente.

• «Da Ocidental praia lusitana» = de _________________________


parte (referência à praia) pelo todo (o país)

• «o peito ilustre lusitano» = os _________________________


parte (referência ao peito) pelo todo (o povo)

10.1 Identifica a figura de estilo que consiste em dar a parte pelo todo, a qual está presente nas
passagens anteriores.
!
11 Camões escolheu para título da sua obra a palavra «Lusíadas», termo inventado pelo huma- HISTÓRIA
DA L Í N G UA
nista Garcia de Resende, o qual significa os portugueses, imaginados descendentes de Luso Consulta a Unidade 1,
(filho ou descendente de Baco). Tendo em conta o contexto da época, aponta uma razão para pp. 35-36, 43.

essa escolha de Camões.

11.1 Ainda à luz da época em causa, classifica essa palavra sabendo-a criada de propósito para
designar os portugueses.
!
12 Na seguinte passagem do texto, aponta e classifica a oração que dá conhecimento da condição F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
necessária ao poeta: «[…] espalharei por toda a parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte». Consulta o Caderno
de Funcionamento
12.1 Aponta e classifica agora a palavra que introduz tal condição. da Língua,
pp. 258-259,
267-268.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 129


Os Lusíadas: Canto I, Proposição

13 Atenta na palavra «que» no segundo verso da segunda estrofe e no último verso da terceira
estrofe e classifica-a morfologicamente em cada um dos casos.

13.1 Identifica e classifica as orações introduzidas por essa palavra.

14 Que função da linguagem te parece predominar na última estrofe?

14.1 Que modo verbal contribui para a existência de tal função da linguagem? Retira exemplos
do texto.

PROPOSIÇÃO E INVOCAÇÃO DA ILÍADA


Canta-me, ó deusa, a cólera funesta de Aquiles,
filho de Peleu, que causou aos Aqueus sofrimentos sem conta
e precipitou no Hades muitas almas ilustres
de heróis, fazendos deles mesmos as presas dos cães (…)
(I, 1-4)
Ilíada, de Homero
Maria Helena da Rocha Pereira (org.), Hélade – Antologia da Cultura Grega, Fundação Calouste Gulbenkian

PROPOSIÇÃO E INVOCAÇÃO DA ODISSEIA


Canta-me, ó Musa, o homem fértil em expedientes, que muito sofreu
depois que destruiu a cidadela sagrada de Tróia,
que viu as cidades de muitos homens e conheceu o seu espírito,
que padeceu, sobre as ondas, muitas dores no seu coração,
em luta pela vida e pelo regresso dos seus companheiros.
(…)
(I, 1-5)
Odisseia, de Homero
Maria Helena da Rocha Pereira (org.), Hélade – Antologia da Cultura Grega, Fundação Calouste Gulbenkian

PROPOSIÇÃO DA ENEIDA
Canto as armas e o varão, o primeiro que, das plagas troianas,
perseguido pelo destino, aportou à Itália e às praias de Lavínio,
tão acossado em terra e mar pelo poder
dos deuses das alturas, devido à ira desperta de Juno cruel,
e sofreu também muito na guerra, até fundar a cidade
e trazer os deuses para o Lácio. Daí vem a raça latina,
os nossos pais Abanos e da alta Roma as muralhas.
(I, 1-7)
Eneida, de Virgílio
Maria Helena da Rocha Pereira (org.), Romana – Antologia da Cultura Latina, Universidade de Coimbra

130 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


À semelhança de Camões, também Fernando Pessoa se propôs glorificar heróis nacionais, nomeada-
mente numa obra a que deu o título de Mensagem. Lê atentamente o seguinte poema retirado dessa
obra, e descobre:
• a figura histórica a quem é dedicado;
• o grande acontecimento histórico em que participou e que o poema refere implicitamente;
• a entidade máxima responsável por esse acontecimento, visto como missão dos portugueses;
• o verbo utilizado no poema, que significa «investir em acções sagradas, benzer», e que se pode
ligar a Sagres, lugar de partida para esse grande acontecimento histórico;

• o verso que indica a glória desse acontecimento mas também a decadência que se lhe seguiu.

O INFANTE
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,


clareou, correndo, até ao fim do mundo,
e viu-se a terra inteira, de repente,
surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.


Infante D. Henrique,
Do mar e nós em ti nos deu sinal. ilustração de Pedro
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Proença

Senhor, falta cumprir-se Portugal!


Fernando Pessoa, Mensagem, Ática

1 As ideias de unidade e de claridade estão presentes neste poema. Retira passagens do texto
que o comprovem.

2 Que importância terá a forma verbal «foste desvendando» no poema?

3 Sabendo que «o Império se desfez», atribui um sentido ao último verso do poema.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 131


Os Lusíadas: Canto I, Invocação e Dedicatória

E vós, Tágides1 minhas, pois criado


Tendes em mim um novo engenho2 ardente,
Se sempre em verso humilde3 celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,4
Um estilo grandíloco e corrente,5
Por que de vossas águas Phebo6 ordene
Que não tenham enveja às de Hypocrene.7
5

Dai-me ũa fúria8 grande e sonorosa,


E não de agreste avena ou frauta ruda,9
Mas de tuba canora e belicosa10
Que o peito acende11 e a cor ao gesto12 muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda,
Que se espalhe e se cante no Universo,
Se tão sublime preço13 cabe em verso.
Camões e as Tágides, ilustração de Roque Gameiro

1
Ninfas do Tejo; 2 talento; 3 poesia lírica; 4 estilo elevado próprio da epopeia; 5 grandioso e fluente; 6 Apolo, deus do Sol,
da música e da poesia; 7 fonte da Grécia, inspiradora de poetas e onde as Musas habitavam; 8 inspiração poética; 9 flauta
de pastor (neste caso refere-se à poesia lírica); 10 trombeta clamorosa e guerreira; 11 inflama os corações; 12 rosto; 13 valor.

!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
1 De acordo com as indicações dadas e a partir das estrofes 4 e 5, descobre as palavras escondidas
Consulta a ficha sobre na sopa de letras.
a epopeia, p. 188.
• parte do poema à qual correspondem
P H E U U N I V E R S O C R I F S
as estrofes 4 e 5 do canto I
C R C G R A N D Í L O C O S V Ç O
• nome das divindades inspiradoras do poeta
• modo verbal utilizado no verso 5 da est. 4
O S O R T V E R N A S O R U F Ã N
e nos vv. 1 e 5 da est. 5 R O P A Á T P H E B O T R Z A O O
• adjectivo que caracteriza o estilo pretendido U F F N G R A N D G I D E T M A R
pelo poeta N Ú A D I N R O Z A U Ã N V O C Q
• outro adjectivo que caracteriza esse estilo I R M E D F Ú M O S L O T C S Ç Z
• nome do deus do Sol, da música e da poesia V I M P E R A T I V O X E F A M O
• nome que significa inspiração poética
P A G R S O N O R O S A M A R T E
• adjectivo que caracteriza a inspiração poética
I N V L U N I N V O C A Ç Ã O C A
pretendida pelo poeta
• outro adjectivo que caracteriza a inspiração • nome do deus a quem os portugueses ajudam
poética pretendida pelo poeta • local onde o poeta pretende que os feitos dos portugueses
• adjectivo que caracteriza a «gente» portuguesa sejam conhecidos

P R O P O S TA D E E S C R I TA

Inspirando-te nas estrofes lidas, redige uma invocação às tuas Ninfas do Sucesso Escolar.

132 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


6

E vós, ó bem nascida segurança


Da Lusitana antigua liberdade,1
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,2 D. Sebastião,
Maravilha fatal3 da nossa idade,4 ilustração de Pedro
Dada ao mundo por Deus (que todo o mande) Proença

Pera do mundo a Deus dar parte grande;


7 9

Vós, tenro e novo ramo florescente Inclinai um pouco a majestade


De ũa árvore, de Cristo5 mais amada Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que nenhũa nascida no Ocidente, Que já se mostra qual na inteira idade,11
Cesárea6 ou Cristianíssima7 chamada: Quando subindo ireis ao eterno templo;12
Vede-o no vosso escudo, que presente Os olhos da real benignidade
Vos amostra a vitória8 já passada, Ponde no chão: vereis um novo exemplo
Na qual vos deu por armas e deixou De amor dos pátrios feitos valerosos,
As que Ele pera si na Cruz tomou; Em versos devulgado numerosos.13
8 10

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império Vereis amor da pátria, não movido
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; De prémio vil, mas alto e quasi eterno;
Vê-o também no meio do Hemisfério, Que não é prémio vil ser conhecido
E quando desce o deixa derradeiro; Por um pregão14 do ninho meu paterno.
Vós, que esperamos jugo e vitupério Ouvi: vereis o nome engrandecido
Do torpe Ismaelita9 cavaleiro, Daqueles de quem sois senhor superno,15
Do turco oriental e do Gentio E julgareis qual é mais excelente:
Que inda bebe o licor do santo Rio:10 Se ser do mundo Rei, se de tal gente.
1
O poeta dirige-se a D. Sebastião: chama-lhe garantia da independência de Portugal; 2 exércitos mouros; 3 determinada pelo
destino, pelos fados; 4 época; 5 linhagem, dinastia dos reis de Portugal; 6 dos imperadores da Alemanha; 7 dos reis de França;
8
na batalha de Ourique, onde se diz que D. Afonso Henriques viu as cinco chagas de Cristo; 9 os mouros, descendentes de
Ismael; 10 o Ganges, rio da Índia; 11 idade adulta; 12 glória eterna; 13 harmoniosos, bem ritmados; 14 louvor; 15 supremo, superior.
!
CO N C E I TO S
1 As estrofes 6 a 10 correspondem ao início da Dedicatória de Os Lusíadas. Como exalta o poeta a L I TE R Á R I O S
figura de D. Sebastião? Consulta a ficha
sobre a epopeia,
p. 188.
1.1 Que pedido lhe dirige?

2 Atenta na estrofe 10 e diz de que forma poderá esta epopeia glorificar, ao mesmo tempo, o poeta
e o rei. !
ESTUDO
ACO M PA N H A D O
PESQUISA HISTÓRICA
Informa-te sobre
a consulta do
Consulta uma enciclopédia, um dicionário de História ou um manual dessa disciplina e recolhe
dicionário e da
informações sobre o rei D. Sebastião. enciclopédia:
Unidade 0, p. 14.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 133


Os Lusíadas: Canto I, episódio do Consílio dos Deuses

Lê atentamente o episódio do Consílio dos Deuses e descobre: o local onde se encontra a armada
de Vasco da Gama; o espaço onde se realiza o Consílio; quem convoca e preside à assembleia; o
modo como se processa a convocatória dos deuses; o objectivo do Consílio; os deuses que estão
a favor dos portugueses; o deus que está contra os portugueses; a decisão final do Consílio.

19 22

Já no largo Oceano navegavam,


1
Estava o Padre14 ali, sublime e dino,
As inquietas ondas apartando; Que vibra os feros raios de Vulcano,15
Os ventos brandamente respiravam, Num assento de estrelas cristalino,
Das naus as velas côncavas inchando; Com gesto alto, severo e soberano
Da branca escuma os mares se mostravam Do rosto respirava um ar divino,
Cobertos, onde as proas vão cortando Que divino tornara um corpo humano;
As marítimas águas consagradas,2 Com ũa coroa de ceptro rutilante,
Que do gado de Próteo3 são cortadas. De outra pedra mais clara que diamante.
20 23

Quando os Deuses no Olimpo4 luminoso, Em luzentes assentos, marchetados16


Onde o governo está da humana gente, De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
Se ajuntam em consílio5 glorioso, Os outros Deuses todos, assentados
Sobre as cousas futuras do Oriente. Como a Razão e a Ordem concertavam:17
Pisando o cristalino Céu fermoso, Precedem os antiguos, mais honrados,
Vem pela Via Láctea juntamente, Mais abaixo os menores se assentavam;
Convocados, da parte do Tonante,6 Quando Júpiter alto assi dizendo,
Pelo neto gentil do velho Atlante.7 C’um tom de voz começa grave e horrendo:18
21 24

Deixam dos Sete Céus8 o regimento,9 —Eternos moradores do luzente,


Que do poder mais alto lhe foi dado, Estelífero polo19 e claro assento:20
Alto poder, que só c’o pensamento Se do grande valor da forte gente
Governa o Céu, a Terra e o Mar irado. De Luso21 não perdeis o pensamento,
Ali se acharam juntos, num momento, Deveis de ter sabido claramente
Os que habitam o Arcturo10 congelado Como é dos Fados22 grandes certo intento
E os que o Austro11 tem12 e as partes onde Que por ela se esqueçam os Humanos
A Aurora nasce e o claro Sol se esconde.13 De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

1
Oceano Índico; 2 sagradas; 3 Próteo, deus marinho, guardador dos peixes do Oceano; 4 monte grego e morada dos deu-
ses; 5 assembleia deliberativa; 6 Júpiter, deus dos trovões e dos raios; 7 Mercúrio, mensageiro dos deuses; 8 segundo
Ptolomeu, as sete órbitas dos planetas Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vénus, Mercúrio e Diana; 9 governação; 10 estrela de
uma constelação do Pólo Norte; 11 o sul; 12 habitam; 13 nascente/poente; 14 Júpiter, pai dos deuses; 15 deus do fogo, filho
de Júpiter e de Juno, fabricava os raios para o pai; 16 esmaltados, ornamentados; 17 determinavam; 19 que impõe respeito;
19
céu estrelado; 20 morada luminosa; 21 os portugueses são o povo descendente de Luso, filho ou descendente de Baco;
22
destino;

134 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


O Olimpo, pintura
de Luigi Sabatelli

25 27

Já lhe foi, bem o vistes, concedido, Agora vedes bem que, cometendo31
C’um poder tão singelo e tão pequeno, O duvidoso mar, num lenho leve,32
Tomar ao Mouro23 forte e guarnecido Por vias nunca usadas, não temendo
Toda a terra que rega o Tejo ameno. De Áfrico e Noto33 a força, a mais se atreve:
Pois contra o Castelhano24 tão temido Que, havendo tanto já que as partes vendo
Sempre alcançou favor do Céu sereno. Onde o dia é comprido e onde breve,34
Assi que sempre, enfim, com fama e glória, Inclinam seu propósito e perfia
Teve os troféus pendentes da vitória.25 A ver os berços onde nasce o dia.35
26 28

Deixo, Deuses, atrás a fama antigua Prometido lhe está do Fado eterno,
Que co’a gente de Rómulo26 alcançaram, Cuja alta lei não pode ser quebrada,
Quando, com Viriato,27 na inimiga Que tenham longos tempos o governo
Guerra Romana tanto se afamaram. Do mar que vê do Sol a roxa entrada.36
Também deixo a memória que os obriga Nas águas tem passado o duro Inverno;
A grande nome, quando alevantaram A gente vem perdida e trabalhada.37
Um28 por seu capitão, que, peregrino,29 Já parece bem feito que lhe seja
Fingiu na cerva espírito divino.30 Mostrada a nova terra que deseja.

23
mouros; 24 castelhanos; 25 os troféus da vitória ficavam pendentes nos ramos das árvores; 26 os Romanos; 27 chefe
Lusitano que se distinguiu lutando contra os Romanos; 28 Sertório, general romano; 29 estrangeiro; 30 através da corça
que o acompanhava, Sertório considerava-se inspirado pelos deuses; 31 enfrentando; 32 pequeno navio; 33 Áfrico e Noto:
ventos do sudoeste (em relação a Itália) e do sul; 34 a costa africana situada a sul do Equador, onde os dias são longos
quando a norte são curtos e vice-versa; 35 regiões do Oriente; 36 Oceano Índico; 37 cansada da longa viagem;

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 135


Os Lusíadas: Canto I, episódio do Consílio dos Deuses

29 33

E, porque, como vistes, tem passados Sustentava contra ele Vénus50 bela,
Na viagem tão ásperos perigos, Afeiçoada à gente Lusitana,
Tantos climas e céus experimentados, Por quantas qualidades via nela
Tanto furor de ventos inimigos, Da antiga tão amada sua Romana:
Que sejam, determino, agasalhados38 Nos fortes corações, na grande estrela
Nesta costa Africana como amigos; Que mostraram na terra Tingitana,51
E, tendo guarnecida a lassa39 frota, E na língua, na qual quando imagina,
Tornarão a seguir sua longa rota. — Com pouca corrupção crê que é a Latina.
30 34

Estas palavras Júpiter dezia, Estas causas moviam Cyterea,52


Quando os Deuses, por ordem respondendo, E mais, porque das Parcas53 claro entende
Na sentença40 um do outro difiria, Que há-de ser celebrada a clara Dea,
Razões diversas dando e recebendo. Onde a gente belígera54 se estende.
O padre Baco41 ali não consentia42 Assi que, um, pela infâmia que arrecea,55
No que Júpiter disse, conhecendo E o outro,56 polas honras que pretende,
Que esquecerão seus feitos no Oriente Debatem e na perfia permanecem;
Se lá passar a Lusitana gente. A qualquer seus amigos favorecem.
31 35

Ouvido tinha aos Fados que viria Qual Austro57 fero ou Bóreas,58 na espessura59
~
Ua gente fortíssima de Espanha43 De silvestre arvoredo abastecida,
Pelo mar alto, a qual sujeitaria Rompendo os ramos vão da mata escura,
Da Índia tudo quanto Dóris44 banha, Com ímpito e braveza desmedida;
E com novas vitórias venceria Brama toda a montanha, o som murmura,
A fama antiga, ou sua ou fosse estranha. Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
Altamente45 lhe dói perder a glória Tal andava o tumulto levantado
De que Nisa46 celebra inda a memória. Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.
32 36

Vê que já teve o Indo47 sojugado Mas Marte,60 que da Deusa sustentava61


E nunca lhe tirou Fortuna ou Caso Entre todos as partes em porfia,
Por vencedor da Índia ser cantado Ou porque o amor antiguo o obrigava,
De quantos bebem a água de Parnaso.48 Ou porque a gente forte o merecia,
Teme agora que seja sepultado De antre os Deuses em pé se levantava.
Seu tão célebre nome em negro vaso (Merencório62 no gesto63 parecia),
D’água do esquecimento,49 se lá chegam O forte escudo ao colo pendurado
Os fortes Portugueses que navegam. Deitando pera trás, medonho e irado.

38
bem recebidos; 39 fatigada; 40 opinião; 41 deus do vinho, conquistador da Índia e adorado no Oriente; 42 discordava; 43
Península Ibérica; 44 deusa do mar, filha de Oceano e de Tétis; aqui, designa o mar; 45 profundamente; 46 cidade lendá-
ria onde Baco fora criado ou fundada por este deus; 47 a Índia; 48 monte na Grécia cujas fontes davam inspiração poé-
tica; 49 alusão ao rio Letes cujas águas firmavam a memória; 50 deusa do amor e da beleza; 51 o Norte de África, con-
quistado pelos portugueses; 52 Vénus; 53 divindades do destino; 54 guerreira; 55 Baco receia perder a fama; 56 Vénus; 57
vento sul; 58 vento norte; 59 floresta; 60 deus da guerra; 61 defendia Vénus; 62 aborrecido; 63 rosto;

136 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Vénus e Marte,
pintura de
Sandro Botticelli

37 40

A viseira do elmo de diamante


64
E tu, Padre de grande fortaleza,
Alevantando um pouco, mui seguro, Da determinação que tens tomada
Por 65 dar seu parecer se pôs diante Não tornes por detrás, pois é fraqueza
De Júpiter, armado, forte e duro; Desistir-se da cousa começada.
E, dando ũa pancada penetrante Mercúrio,72 pois excede em ligeireza
C’o conto do bastão no sólio puro, Ao vento leve e à seta bem talhada,
O céu tremeu, e Apolo,66 de torvado,67 Lhe vá mostrar a terra onde se informe
Um pouco a luz perdeu, como infiado. Da Índia, e onde a gente se reforme. —73
38 41

E disse assi: —Ó Padre, a cujo império Como isto disse, o Padre poderoso,
Tudo aquilo obedece que criaste: A cabeça inclinando, consentiu
Se esta gente que busca outro Hemisfério,68 No que disse Mavorte valeroso,
Cuja valia e obras tanto amaste, E néctar74 sobre todos esparziu.
Não queres que padeçam vitupério,69 Pelo caminho Lácteo glorioso
Como há já tanto tempo que ordenaste, Logo cada um dos Deuses se partiu,
Não ouças mais, pois és juiz direito, Fazendo seus reais acatamentos,75
Razões de quem parece que é suspeito. Pera os determinados apousentos.
39 42

Que, se aqui a razão se não mostrasse Enquanto isto passa na fermosa


Vencida do temor demasiado, Casa etérea do Olimpo omnipotente,
Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Cortava o mar a gente beliciosa76
Pois que de Luso vem, seu tão privado;70 Já lá da banda do Austro e do Oriente,
Mas esta tenção sua agora passe, Entre a costa Etiópica e a famosa
Porque enfim vem de estâmago danado;71 Ilha de São Lourenço;77 e o Sol ardente
Que nunca tirará alhea enveja Queimava então os Deuses que Tifeu78
O bem que outrem merece e o Céu deseja. C’o temor grande em pexes converteu.

64
parte da armadura que protegia a cabeça e o rosto, com uma abertura para os olhos; 65 para; 66 deus do Sol, das letras,
artes e medicina; 67 perturbado, assustado; 68 a Índia; 69 humilhação, ofensa; 70 favorito; 71 maus sentimentos; 72 mensa-
geiro dos deuses; 73 se restabeleça, ganhe forças; 74 bebida dos deuses que lhes dava a vida eterna; 75 cortesias, reverên-
cias; 76 os portugueses; 77 Madagáscar; 78 gigante responsável pela transformação de Vénus e Cupido em peixes.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 137


Os Lusíadas: Canto I, episódio do Consílio dos Deuses

1 Reconstitui o episódio do Consílio dos Deuses, ordenando numericamente as sequências apre-


!
CO N C E I TO S sentadas.
L I TE R Á R I O S
Consulta a ficha sobre Júpiter, pai dos deuses, preside ao Consílio e os restantes deuses encontram-se hierarqui-
a epopeia, p. 188,
e a ficha sobre o camente dispostos, de acordo com o seu grau de importância. estrofe(s) ___________
processo figurativo,
pp. 271-272.
A divisão de opiniões provoca um enorme tumulto no Olimpo. estrofe(s) ___________

Enquanto os portugueses navegam, os deuses reúnem-se no Olimpo. estrofe(s) __________

Marte discursa, pedindo a Júpiter o cumprimento da sua decisão. estrofe(s) ___________

Baco, deus do vinho e do Oriente, discorda da posição favorável de Júpiter e pretende


impedir a chegada dos portugueses ao seu destino. estrofe(s) ___________

Após ter ouvido Marte, Júpiter decide ajudar os portugueses e dá por terminado o Consílio.
estrofe(s) ___________

Através de Mercúrio, e por ordem de Júpiter, todos os deuses são convocados e juntam-se
para uma importante reunião. estrofe(s) ___________

Vénus, deusa do amor e da beleza, discorda de Baco e assume a defesa dos portugueses.
estrofe(s) ___________

Marte, deus da guerra, apoiante dos portugueses, impõe o silêncio. estrofe(s) ___________

Júpiter discursa; expõe o problema e argumenta a favor dos portugueses, por forma a
serem ajudados e alcançarem o seu objectivo. estrofe(s) ___________

1.1 Indica agora as estrofes correspondentes a cada sequência ordenada.

2 Diz, justificando, se as afirmações são verdadeiras ou falsas.

• A Narração corresponde à parte em que o poeta apresenta o assunto da sua epopeia.

• De acordo com as epopeias clássicas, a Narração em Os Lusíadas inicia-se in media res, ou seja,
num momento já adiantado da acção.

3 Identifica os dois planos narrativos presentes nas estrofes 19 e 20.

3.1 Que relação temporal poderemos estabelecer entre eles?

4 Faz o levantamento das palavras e das expressões que sugerem as ideias de riqueza e de poder
nas estrofes 22 e 23.

4.1 Relaciona a insistência nessas ideias com o espaço descrito e aqueles que aí se encontram.

5 Caracteriza o pai dos deuses.

138 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


6 O discurso de Júpiter destina-se a convencer os seus ouvintes sobre o futuro dos lusitanos.
Aponta três razões pelas quais o deus apoia esse povo.

6.1 Que qualidades demonstram então os portugueses possuir? Justifica a tua resposta com
passagens do texto.

6.2 Refere a figura de estilo presente no seguinte verso, explicando o seu sentido: «Do mar que
vê do Sol a roxa entrada».

6.3 Transcreve os versos reveladores da decisão de Júpiter e explica-os por palavras tuas.

7 Que motivos levam Baco a discordar de Júpiter? Justifica a tua resposta com passagens do texto.

8 Vénus, por seu lado, apoia e defende os portugueses. Porquê?

9 Explica, por palavras tuas, os quatro últimos versos da estrofe 34.

9.1 Explica o sentido da comparação, da hipérbole, das aliterações e das sonoridades nasais
presentes na estrofe 35.

9.1.1 Relaciona esse uso expressivo da linguagem com a forma como os deuses se envolvem
no debate.

10 Relaciona os símbolos do deus Marte e a sua atitude com o facto de ele ser o deus da guerra.

11 Indica as razões que levam Marte a ajudar os lusitanos.

12 O que pensa Marte da argumentação apresentada por Baco?

13 Marte finaliza o seu discurso fazendo um pedido a Júpiter. Qual?

13.1 Que significado teria para Marte o não cumprimento desse pedido?

14 Como termina então o Consílio?

15 Relaciona a criação do episódio do Consílio dos Deuses com a intenção glorificadora d’Os
Lusíadas, tendo em conta os seguintes aspectos:

• a existência de um motivo para os deuses se reunirem;


• a existência de deuses que estão a favor dos portugueses (o pai dos deuses, a deusa do amor
e o deus da guerra) e de um deus que está contra os portugueses (deus do vinho e do Oriente);
• a exaltação das qualidades dos portugueses realçadas (directa e indirectamente) pelos deuses.
!
16 Num dicionário procura a origem das palavras «consílio» e «concílio», recolhendo depois infor- HISTÓRIA
DA L Í N G UA
mação sobre o seu significado. Consulta a Unidade 1,
pp. 36-38.
17 «—Ó Padre, a cujo império / Tudo aquilo obedece que criaste» (est. 38). Que outra palavra, tam-
bém vinda do étimo que originou o vocáculo «padre» (pater), terá entrado na língua portuguesa?

17.1 Justifica a diferença entre ambas.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 139


Os Lusíadas: Canto I, episódio do Consílio dos Deuses
! 18 Divide e classifica as orações na seguinte passagem: «Já no largo Oceano navegavam, […] Quando
F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA os Deuses no Olimpo luminoso […] Se ajuntam em consílio glorioso».
Consulta o Caderno
de Funcionamento 18.1 Identifica e classifica a expressão que estabelece a relação entre essas orações.
da Língua,
pp. 258-259,
261–265, 267–268. 18.2 Que sentido dá essa expressão às acções expressas nas orações que classificaste?

19 Identifica os elementos da oração presentes no primeiro verso da estrofe 40.

19.1 Explica a função do segundo elemento nessa passagem do discurso de Marte.

!
ESTUDO
P R O P O S TA D E E S C R I TA
ACO M PA N H A D O
Consulta a Unidade 0,
Partindo da leitura do episódio do Consílio dos Deuses, introduz um novo deus no Consílio e
p.20, sobre o texto
expositivo. atribui-lhe um discurso argumentativo a favor ou contra a empresa dos portugueses.

PE SQU ISA M ITOLÓGIC A

Organiza e elabora um pequeno dicionário mitológico, recolhendo informações sobre os deu-


ses que intervêm no Consílio e sobre outros deuses que consideres interessantes. Partilha o teu
dicionário com a turma.

A viagem de Vasco da Gama

Partida a 8 de Julho de 1497


• lisboa

oceano
atlântico índia

ilhas • • goa
de cabo
verde •
Partida áfrica calecute
a 3 de Agosto Chegada
de 1497 a 20 de Maio
de 1498
melinde •
mombaça • Chegada a 14 de Abril de 1498
Chegada a 7 de Abril de 1498

moçambique • Chegada a 1 de Março de 1498


quelimane •
Chegada a 25 de Janeiro de 1498

oceano
índico
Viagem de ida
2000Km
Viagem de regresso

140 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


A árvore genealógica dos deuses

Geia Urano

Ciclopes Titãs Gigantes Outros

Crono Reia Mnemósine Ceu Febe Oceano Tétis Témis Crio Jápeto Tia Hiperón
Saturno

Ásia

Posídon Héstia Hades Deméter Hera Zeus Leto Ninfas Menécio Epimeteu Prometeu Atlas Eos Hélio Selene
Neptuno Vesta Plutão Ceres Juno do mar Luna
Júpiter

Pandora Héspero
Etra Persefóne Hefesto
(Mortal) Prosérpina Vulcano
Ares Ilitia Hebe
Marte Héspérides
Teseu Ariadne Afrodite Héracles
Hércules
Vénus
Fedra

Cadmo Harmonia Dánae Leto Calisto Maia Europa Alemena Sémele Leda Témis Métis Mnemósine Dione
(Mortal) (Deusa) (Mortal) (Titânide) (Ninfa) (Ninfa) (Mortal) (Mortal) (Mortal) (Mortal) (Titânide) (Ninfa (Titânide) (Deusa)
do mar)
Aristeu Autónoe
Perseu Arco Hermes Herácles Dioniso Parcas Atena As Nove
Mercúrio Hércules Baco Minerva Musas
Actéon
Andrómeda
Filha de Rei Minos Hebe Clitemnestra Helena Castor Pólux
Dríope Pólux

Pasífae Agamémnon Páris


Afrodite
Legenda (Mortal)
Apolo Ártemis Menelau
Hera = Deuses do Olimpo Diana
Marte = Nome romano
Ares Anquises
Corónis (Mortal)
(Ninfa) = Descritivo (Ninfa)

= União Touro de Posídon


= Casamento Asclépio Pã Ariadne Fedra Minotauro Eros Eneias
Fauno (Metade touro, metade homem) Cupido

Neil Philip, Comentar Mitos e Lendas, Editora Civilização (adaptado)

Canto II
[1–9] [10–13] [14–18] [19–24] [25–28] [29–32] [33–63] [64–71] [72–113]
Narração >
O Rei de Mombaça Baco finge- Vasco da Gama Vénus O piloto de Vasco da Gama, Vénus comove-se com as A armada Os portugueses
convida a armada -se sacerdote recebe a falsa e as Moçambique apercebendo-se palavras de Vasco da Gama parte de chegam a Melinde,
a entrar no porto, cristão e dá informação de Nereidas e os mouros do perigo que e, no Olimpo, intervém junto Mombaça porto amigo, onde
com o intuito de falsas infor- que se trata afastam de Mombaça correra, suplica de Júpiter, o qual lhe para são saudados
a destruir. mações aos de terra cristã a armada fogem, com a Deus que o promete ajudar os portu- retomar com festejos.
Vasco da Gama condenados. e decide entrar do perigo. medo de conduza à terra gueses, profetizando-lhes a sua O Rei de Melinde
manda dois no porto, onde terem sido desejada. grandes feitos. viagem. visita a armada
condenados é preparada descobertos. Júpiter envia Mercúrio e pede a Vasco
a terra, para uma cilada. a terra, com a missão de da Gama que lhe
obterem preparar uma boa recepção conte a história
informações. em Melinde e indicar de Portugal
o caminho a Vasco da Gama e a sua viagem
em sonhos. desde Lisboa.

Plano da viagem · Plano dos deuses

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 141


Os Lusíadas: Canto III, episódio de Inês de Castro

Canto III
[1–2] [3–5] [6 –21] [22–117] [118–137] [138 –143]
Narração >
Camões invoca Calíope, Vasco da Gama Vasco da Gama descreve Vasco da Gama fala de Viriato, Vasco da Gama conta Vasco da Gama
musa chefiada por começa a sua a Europa e faz a localização do Conde D. Henrique, bem como o episódio de Inês fala do reinado
Apolo, para que o narração, expondo geográfica de Portugal dos reis de Portugal, desde de Castro, ocorrido no de D. Fernando
ensine a contar o que ao Rei de Melinde nesse continente, D. Afonso Henriques (início reinado de D. Afonso IV, e reflecte sobre
Vasco da Gama disse o que lhe vai contar. mencionando Luso, filho da 1.a Dinastia) até D. Afonso IV. e fala do reinado o amor.
ao Rei de Melinde. ou descendente de Baco. de D. Pedro I.

Plano da viagem · Plano da História de Portugal · Plano das intervenções do poeta [Estrofes para leitura orientada]

Atenta nas imagens das transparências 7 e 8, intituladas respectivamente «O Nascimento de


Vénus» e «Alegoria da Primavera», do pintor renascentista italiano Sandro Botticelli (1444-1510).
Partindo da observação de Vénus e das outras figuras femininas, recolhe elementos sobre o ideal
de beleza renascentista e partilha-os com a turma.

Lê agora o episódio de Os Lusíadas e descobre uma ou outra semelhança entre Inês de Castro e a
deusa Vénus da imagem que observaste.

118 120

Passada esta tão próspera vitória, 1


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
Tornado Afonso2 à Lusitana terra, De teus anos colhendo doce fruito,
A se lograr3 da paz com tanta glória Naquele engano8 da alma, ledo9 e cego,
Quanta soube ganhar na dura guerra, Que a Fortuna não deixa durar muito,
O caso triste4 e dino da memória, Nos saudosos campos do Mondego,
Que do sepulcro os homens desenterra, De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aconteceu da mísera e mesquinha Aos montes insinando e às ervinhas
Que despois de ser morta foi Rainha. O nome10 que no peito escrito tinhas.
119 121

Tu, só tu, puro Amor, com força crua, Do teu Príncipe11 ali te respondiam
Que os corações humanos tanto obriga,5 As lembranças que na alma lhe moravam,
Deste causa à molesta6 morte sua, Que sempre ante seus olhos te traziam,
Como se fora pérfida inimiga. Quando dos teus fermosos se apartavam;
Se dizem, fero Amor, que a sede tua De noite, em doces sonhos que mentiam,
Nem com lágrimas tristes se mitiga, De dia, em pensamentos que voavam.
É porque queres, áspero e tirano, E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Tuas aras7 banhar em sangue humano. Eram tudo memórias de alegria.

1
vitória obtida pelos cristãos junto do Salado, na batalha do Salado; 2 D. Afonso IV; 3 gozar; 4 a morte de Inês de Castro;
5
domina, subjuga; 6 lastimosa; 7 altares; 8 enlevo de felicidade; 9 alegre; 10 nome de D. Pedro; 11 D. Pedro;

142 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


122 126

De outras belas senhoras e Princesas —Se já nas brutas feras, cuja mente16
Os desejados tálamos12 enjeita, Natura17 fez cruel de nascimento,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, deprezas E nas aves agrestes, que somente
Quando um gesto suave te sujeita. Nas rapinas aéreas tem o intento,
Vendo estas namoradas estranhezas,13 Com pequenas crianças viu a gente
O velho pai sesudo,14 que respeita Terem tão piadoso sentimento
O murmurar do povo, e a fantasia Como co’a mãe de Nino18 já mostraram,
Do filho, que casar-se não queria, E c’os irmãos que Roma edificaram:19
123 127

Tirar Inês ao mundo determina, Ó tu, que tens de humano o gesto20 e o peito
Por lhe tirar o filho que tem preso, (Se de humano é matar ũa donzela,
Crendo c’o sangue só da morte indina Fraca e sem força, só por ter sujeito
Matar do firme amor o fogo aceso. O coração a quem soube vencê-la),
Que furor consentiu que a espada fina A estas criancinhas tem respeito,
Que pôde sustentar o grande peso Pois o não tens à morte escura21 dela;
Do furor Mauro, fosse alevantada Mova-te a piedade sua e minha,
Contra ũa fraca dama delicada? Pois te não move a culpa que não tinha.
124

Traziam-na os horríficos algozes15


Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,
125

Pera o céu cristalino alevantando,


Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Pera o avô cruel assi dizia:

Assassínio de Inês
de Castro, ilustração
de Roque Gameiro
12
leitos conjugais, núpcias; 13 loucuras da paixão; 14 prudente; 15 executores da sentença de morte contra D. Inês: Álvaro
Gonçalves, Pêro Coelho e Diogo Lopes Pacheco; 16 instinto; 17 natureza; 18 Semíramis, rainha da Assíria, cuja mãe a expôs
num monte, onde pombas bravas a alimentaram; 19 Rómulo e Remo que, segundo a lenda, são os fundadores de Roma e
que foram alimentados por uma loba; 20 rosto; 21 horrível;

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 143


Os Lusíadas: Canto III, episódio de Inês de Castro

128 132

E se, vencendo a Maura resistência, Tais contra Inês os brutos matadores,


A morte sabes dar com fogo e ferro, No colo de alabastro, que sustinha
Sabe também dar vida, com clemência, As obras32 com que Amor matou de amores
A quem pera perdê-la não fez erro. Aquele que despois a fez Rainha,
Mas, se to assi merece esta inocência, As espadas banhando, e as brancas flores,33
Põe-me em perpétuo e mísero desterro, Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Na Cítia22 fria ou lá na Líbia23 ardente, Se encarniçavam, férvidos e irosos,
Onde em lágrimas viva eternamente. No futuro castigo não cuidosos.
129 133

Põe-me onde se use toda a feridade, 24


Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Entre leões e tigres, e verei Teus raios apartar aquele dia,
Se neles achar posso a piedade Como da seva mesa de Tyestes,
Que entre peitos humanos não achei. Quando os filhos por mão de Atreu34 comia.
Ali, c’o amor intrínseco25 e vontade Vós, ó côncavos vales, que pudestes
Naquele por quem mouro, criarei A voz extrema ouvir da boca fria,
Estas relíquias suas 26 que aqui viste, O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Que refrigério27 sejam da mãe triste. — Por muito grande espaço repetistes.
130 134

Queria perdoar-lhe o Rei benino, Assi como a bonina, que cortada


Movido das palavras que o magoam; Antes do tempo foi, cândida e bela,
Mas o pertinaz povo e seu destino Sendo das mãos lacivas35 maltratada
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam. Da minina que a trouxe na capela,36
Arrancam das espadas de aço fino O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Os que por bom tal feito ali apregoam. Tal está, morta, a pálida donzela,
Contra ũa dama, ó peitos carniceiros,28 Secas do rosto as rosas e perdida
Feros vos amostrais e cavaleiros? A branca e viva cor, co’a doce vida.
131 135

Qual contra a linda moça Policena,29 As filhas do Mondego37 a morte escura


Consolação extrema da mãe velha, Longo tempo chorando memoraram,
Porque a sombra30 de Aquiles a condena, E, por memória eterna, em fonte pura
C’o ferro o duro Pirro se aparelha; As lágrimas choradas transformaram.
Mas ela, os olhos com que o ar serena O nome lhe puseram, que inda dura,
(Bem como paciente e mansa ovelha) Dos amores de Inês, que ali passaram.
Na mísera mãe31 postos, que endoudece, Vede que fresca fonte38 rega as flores,
Ao duro sacrifício se oferece: Que lágrimas são a água e o nome Amores.

22
região gélida do Turquestão e da Sibéria Ocidental; 23 África setentrional, região muito quente; 24 ferocidade; 25 profun-
do; 26 os filhos que D. Inês tinha de D. Pedro; 27 consolação; 28 corações sedentos de sangue; 29 filha de Príamo, rei de Tróia,
a qual foi imolada por Pirro sobre o túmulo de Aquiles, pai de Pirro; 30 alma; 31 mãe de Policena e esposa do rei Príamo;
32
seios; 33 as «rosas» das faces; 34 Atreu, para se vingar do irmão Tiestes que seduzira a sua esposa, serviu-lhe um banquete
cruel, no qual lhe deu a comer os filhos dessa relação ilícita, sendo que nesse dia o sol retrocedeu horrorizado com tal crime;
35
traquinas; 36 grinalda de flores; 37 ninfas do rio 38 Fonte dos Amores na Quinta das Lágrimas;

144 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


136

Não correu muito tempo que a vingança


Não visse Pedro39 das mortais feridas,
Que, em tomando do Reino a governança,
A tomou dos fugidos homicidas.
Do outro Pedro cruíssimo os alcança,40
Que ambos, imigos das humanas vidas,
O concerto fizeram, duro e injusto,
Que com Lépido e António fez Augusto.42
137

Este43 castigador foi rigoroso


De latrocínios, mortes e adultérios;
Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
Eram os seus mais certos refrigérios.44
As cidades guardando, justiçoso,
De todos os soberbos vitupérios,45
Mais ladrões, castigando, à morte deu, Súplica de Inês, pintura de Columbano Bordalo Pinheiro
Que o vagabundo46 Alcides47 ou Theseu.48

39
D. Pedro I, de Portugal; 40 D. Pedro I de Castela entregou a D. Pedro I de Portugal dois dos homicidas de Inês de Castro
que se tinham refugiado em Espanha; 41 acordo, pacto; 42 Os romanos Lépido, António e Augusto, andando em guerra,
fizeram um acordo pelo qual cada um entregou aos outros os respectivos inimigos que tinha em seu poder; 43 D. Pedro I;
44
passatempos; 45 crimes; 46 viajado; 47 Hércules; 48 rei de Atenas, vencedor do Minotauro.

!
CO N C E I TO S
1 Descobre na sopa de letras as palavras do episódio de Inês de Castro que correspondem às indi- L I TE R Á R I O S
cações dadas. Consulta a ficha sobre
a epopeia, p. 188,
• nome próprio da protagonista do episódio. e a ficha sobre o
D A V T N Ê U S S P R R A I F processo figurativo,
• nome do Rei que a condena à morte. pp. 271-272.
E N H A V I N G A N Ç A D R P • o que o Rei acabara de ganhar.
S R A I Ê N S O G O D R N S R • o que foi a protagonista depois de morta.
T R M V O F G U E R R A Ô V Í • o responsável («fero», «áspero» e «tirano») pela
I A O A Ô O Í N A F O I M O N sua morte.
• nome do rio, junto ao qual a protagonista vivia.
N A R M V N A I N Ê S N Í B C
• título real do seu amado.
O F A M R T N H G A N H N S I
• nome do seu amado.
G O V I N E Í U P Q X A Ê Q P • grau de parentesco do Rei em relação aos filhos
P N I P M O N D E G O Z A B E da protagonista.
E S N H I N A F D L P O V O D • quem não perdoa a protagonista (duas palavras).
R O M G D E M P R Í A F Ô S E • o que tem o nome de Amores e cuja água são
lágrimas pela sua morte.
A Ê Ç A R Ô A L O T V I N X G
• o que leva a cabo o seu amado logo que sobe
ao trono.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 145


Os Lusíadas: Canto III, episódio de Inês de Castro

2 Partindo da estrofe 118 e respectivas notas, bem como dos teus conhecimentos sobre a estru-
tura interna de Os Lusíadas, indica, transcrevendo passagens do texto sempre que possível:

• a acção narrada;
• o tempo em que decorre a acção;
• o espaço onde decorre a acção;
• a personagem principal;
• o narrador.

3 Concentra-te na estrofe 119 e diz a quem se dirige o narrador.

3.1 Com que intenção se dirige o narrador a essa entidade?

3.2 Identifica a figura de estilo utilizada nessa interpelação do narrador.

4 Faz corresponder as características do Amor às passagens da estrofe 119 onde mais se evidenciam.

O Amor é…
cruel • • «áspero e tirano»
feroz • •«Deste causa à molesta morte sua, / Como se fora pérfida inimiga.»
implacável • • «fero Amor»
injusto • • «Que os corações humanos tanto obriga,»
insaciável • • «com força crua»
opressivo • • «Tuas aras banhar em sangue humano.»
fonte de sacrifícios • • «a sede tua / Nem com lágrimas tristes se mitiga,»

5 Localiza nas estrofes 120-134 os seguintes momentos, procedendo à sua ordenação.

Discurso directo de Inês de Castro.

Comparação de Inês de Castro, já morta, a uma flor que murchou.

Narração dos amores de Inês e Pedro, com localização geográfica da acção e caracterização
de ambas as personagens.

Narração da morte de Inês de Castro, com indignação do narrador.

Caracterização de Inês de Castro na presença do Rei.

Narração da sentença do Rei, seus motivos, e indignação do narrador.

146 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


6 Completa o quadro, retirando passagens da estrofe 120 que comprovem a caracterização física
e psicológica de Inês de Castro.

C A R AC T E R I Z A Ç Ã O F Í S I C A C A R AC T E R I Z A Ç Ã O P S I CO L Ó G I C A

Características Características
físicas passagens psicológicas passagens

Beleza/ Serenidade
formosura
Paixão

Juventude Saudade

7 Que papel é atribuído à natureza nessa estrofe?

7.1 Identifica a figura de estilo que permite a atribuição de tal papel à natureza.

8 Baseando-te na estrofe 121 e na primeira metade da estrofe 122, diz, justificando, se os amores
de Inês são correspondidos.

9 Observa ainda as estrofes 119-121 nas quais, entre outros momentos deste episódio, se revelam
características quer da tragédia, pela presença do destino e da fatalidade que dominam a heroína,
quer do lirismo, pela transmissão de emoções e sensações íntimas dessa personagem. A que
associas o Amor caracterizado na estrofe 119 e os amores narrados nas estrofes 120-121: à tragédia
ou ao lirismo?

9.1 Justifica a tua resposta com passagens do texto.

10 Atenta na segunda metade da estrofe 122 e na estrofe 123 e refere:

• os motivos da decisão de D. Afondo IV;


• o verso que corresponde a tal decisão;
• a figura de estilo utilizada nesse verso;
• o motivo da indignação do narrador.

11 Apoiando-te nas estrofes 124 e 125 caracteriza: os executores da sentença de morte de Inês de
Castro; o Rei; e o povo.

11.1 Faz o levantamento dos sentimentos que dominam Inês de Castro nesse momento do texto.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 147


Os Lusíadas: Canto III, episódio de Inês de Castro

12 De acordo com o discurso argumentativo de Inês de Castro nas estrofes 126-129, assinala a
opção correcta.

• D. Afonso IV deverá seguir o exemplo dos animais selvagens. Esta afirmação é…


falsa: os animais selvagens são ferozes e o Rei é piedoso.
verdadeira: embora sejam ferozes, os animais selvagens mostraram, em ocasiões diversas,
sentimentos piedosos para com crianças indefesas.
falsa: o Rei é mais forte do que as próprias feras, visto que venceu os mouros, inimigos for-
tíssimos.

• Condenar à morte uma dama inocente, mãe dos seus próprios netos, não será uma atitude
reveladora de humanidade por parte do Rei. Esta afirmação é…
verdadeira: até porque ela não tem culpa de se ter apaixonado.
verdadeira: até porque D. Pedro é que deverá ser castigado porque a seduziu.
falsa: as atitudes do Rei são sempre humanas, mesmo quando aparentemente cruéis.

• D. Afonso IV, que soube dar a morte com fama e glória, também deverá dar a vida com cle-
mência. Esta afirmação é…
falsa: o Rei, sendo clemente, nunca deu a morte a ninguém.
verdadeira: o Rei que soube vencer os mouros, com tanta honra, deverá saber perdoar,
magnânimo, uma mãe inocente, poupando-lhe a vida.
verdadeira: o Rei é tão poderoso que pode dar a vida e a morte indiscriminadamente.

• Face à sua inocência, o desterro seria uma decisão clemente, a qual deixaria Inês de Castro
eternamente feliz. Esta afirmação é…
verdadeira: Inês poderia cuidar dos seus filhos, em paz e harmonia, apesar de ficar longe
do seu amado.
falsa: a morte seria preferível ao desterro.
falsa: o desterro seria terrível, mas preferível à morte, porque Inês poderia cuidar dos seus
filhos.

13 Atenta na reacção do Rei ao discurso de Inês de Castro e no motivo da manutenção da sua decisão.
Poderemos afirmar que o narrador o desculpabiliza? Porquê?

14 Explica, por palavras tuas, a interrogação do narrador na estrofe 130.

15 Por que razão é Inês de Castro comparada com Policena?

16 Na estrofe 132, que contrastes existem entre a caracterização de Inês e a dos «matadores»?

17 Substitui o verso «Aquele que despois a fez Rainha» por um único nome.

17.1 Identifica a figura de estilo empregue nesse verso, em tudo semelhante ao último verso da
estrofe 118.

148 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


18 Explica o sentido das apóstrofes presentes na estrofe 133 e da comparação utilizada na estrofe 134.

19 Atenta nos sons nasais que predominam na estrofe 135. Que poderão sugerir essas sonoridades?

19.1 Que sentimentos visam despertar no leitor?

20 A morte de Inês de Castro não foi esquecida. Diz que papel tiveram na perpetuação da sua
memória: a natureza; D. Pedro; o próprio poeta, autor destas estrofes.
!
21 «Que furor consentiu que a espada fina / […] fosse alevantada / Contra ũa fraca dama delicada?» F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
(est. 123). Actualizando a grafia dos vocábulos utilizados, reescreve a passagem de modo a que Consulta o Caderno
o rei pratique a acção expressa nas palavras destacadas. de Funcionamento
da Língua, pp. 261,
258-259.
21.1 Que alteração ocorreu quanto à forma da frase?

22 «Assi como a bonina, que cortada / Antes do tempo foi […] / Tal está, morta, a pálida donzela»
(est. 134). Classifica morfologicamente a expressão destacada, a qual é responsável pelo esta-
belecimento desta comparação.

Lê o seguinte texto, do poeta português Herberto Helder, inspirado na trágica morte de Inês de
Castro, e descobre qual dos intervenientes nessa tragédia narra os acontecimentos descritos.

El-rei D. Pedro, o Cruel, está à janela, sobre a praça onde sobressai a estátua municipal
do marquês de Sá da Bandeira. Gosto deste rei louco, inocente e brutal. Puseram-me de
joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, mas endireito a cabeça, viro o pescoço
para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico do meu pobre Senhor. Por baixo
da janela aonde assomou há uma outra, em estilo manuelino, uma relíquia, delicada obra
de pedra que resiste ao tempo. D. Pedro deita a vista distraída à porta fechada pelos solda-
dos. Contempla um momento a monstruosa igreja do Seminário, retórica de vidraças e
nicho, as pombas pousadas na cabeça e nos braços do marquês, e detém-se em mim, em
baixo, em mim que me ajoelhei no meio de um grupo de soldados. O rei olha-me com sim-
patia. Fui condenado por assassínio da sua amante favorita, D. Inês. Alguém quis defender-
-me, alegando que eu era um patriota. Que desejava salvar o Reino da influência castelhana.
Tolice. Não me interessa o Reino. Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o. Ele diz
um gracejo. Toda a gente ri.
—Preparem-me esse coelho, que eu tenho fome.
O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho.
Herberto Helder, «Teorema», in Os Passos em Volta, Assírio & Alvim (texto com supressões)

PESQUISA BIBLIOGRÁFICA E ICONOGRÁFICA

Os amores de Pedro e Inês inspiraram inúmeras criações artísticas. Em trabalho de grupo, e


em colaboração com os teus professores de Língua Portuguesa e de Educação Visual, recolhe
textos e imagens inspirados nessa trágica história de amor. Organiza um dossier temático.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 149


Os Lusíadas: Canto III, episódio de Inês de Castro

A narração – descrição no episódio de Inês de Castro

O caso de Inês de Castro tem um percurso de Não há factos narrados, existem factos em
história a pedir uma narrativa. No entanto não foi duração e sentimentos expressos pelo imperfeito
assim que o poeta fez, elaborou antes uma des- e pelo gerúndio. Poderia ser um quadro de pintu-
crição de quadros sucessivos, se quisermos, rea- ra em cujo primeiro plano estivesse Inês enamo-
lizou telas de pintura que fez sucederem-se umas rada; noutros planos sucessivamente: algo que
às outras. Está, aliás, de acordo com o princípio indiciasse uma tragédia, algo que sugerisse o
então vigente, com o conhecimento e aplicação amado no coração e talvez, como cenário de
do princípio de Horácio, ut pictura poesis, a poe- fundo, os «campos do Mondego».
sia é como a pintura. Todo o episódio de Inês de Castro é uma série
Aliás, sabe-se o prestígio social e cultural de de quadros picturais justapostos; mas esta, que
artistas e pintores como Leonardo da Vinci, Miguel poderíamos chamar, narração-descrição, não
Ângelo e Rafael no Renascimento. deixa de suscitar interesse, pois há uma dinâmica
Reparemos na estrofe 120: Inês é apresentada expressa pela linha de tragédia a crescer para um
como enamorada num sonho «ledo e cego»; a desfecho.
«Fortuna» pressagia que não poderá durar muito A maior parte dos textos importantes n’Os
tal estado; apresentam-se os «saudosos campos Lusíadas estão assim tratados: como uma pintu-
do Mondego» que as lágrimas de Inês vão enchen- ra, com descritivismo, com uma narração-descri-
do; apresentam-se os «montes» e as «ervinhas», ção. Os episódios são narrados e descritos para
perante os quais Inês repete o nome amado. serem conhecidos e contemplados.
Silvério Benedito, Para uma leitura de Os Lusíadas de Luís de Camões, Editorial Presença (texto com supressões)

O drama de Inês de Castro

É no reinado de D. Afonso IV que se uma espécie de irmão adoptivo de


situa o episódio da morte de Inês de Inês de Castro. Este usou certamente a
Castro. sua influência sobre Inês para envol-
Inês de Castro fazia parte de uma ver o infante D. Pedro, que com ela
família muito poderosa de fidalgos vivia maritalmente, nas guerras civis
galegos e descendia, por via bastarda, castelhanas.
do rei Sancho IV de Castela. Havia tam- João das Regras, nos seus famosos
bém qualquer ligação com a família discursos das Cortes de Coimbra, reve-
Albuquerque. Afonso Sanches, o bas- lou que D. Afonso IV, três anos antes
tardo de D. Dinis que D. Afonso IV da morte de D. Inês (portanto em 1351),
odiou de morte e por causa do qual o País mergu- escreveu ao arcebispo de Braga, que se encontra-
lhou em guerra civil, casou com a dona do castelo va então na corte do papa, para que convencesse
de Albuquerque. A esta dona chamava Inês de o sumo pontífice a não conceder as dispensas
Castro mãe, porque foi ela quem a criou. necessárias para o casamento de D. Pedro com
Em 1350 estalou em Castela uma revolta dos D. Inês. Ora nessa carta há uma alusão directa às
grandes senhores contra o rei Pedro I. O chefe da manobras de João Afonso de Albuquerque.
revolta era precisamente João Afonso de Albu- Um outro indício da importância decisiva que
querque, filho de Afonso Sanches e, portanto, Inês de Castro tinha em toda essa intriga política é

150 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


o casamento do rei de Castela, em 1354, com a
irmã dela, Joana de Castro. Talvez contasse, desse
modo, desarmar uma eventual intervenção portu-
guesa, chamando os Castros para o seu partido.
No mesmo dia do casamento, o rei repudiou a con-
sorte, por ter recebido a notícia de que Albuquer-
que organizara nova liga de nobres contra ele. O
repúdio de Joana Castro agravou a situação. Os
irmãos dela utilizaram o território português para
hostilizar Pedro, o Cru. Nesse mesmo ano de 1354,
João Afonso de Albuquerque insistiu no plano de
uma aliança portuguesa com os rebeldes: man-
dou a Portugal um irmão de Inês de Castro propor
ao infante D. Pedro que reclamasse para si a coroa Discurso de Inês
de Castro, ilustração
da Castela, visto ser neto do rei Sancho IV de Roque Gameiro
(a mãe de D. Pedro, rainha D. Beatriz, era filha de
Sancho IV). D. Pedro estava disposto a aceitar e só
a terminante proibição de D. Afonso IV evitou o mente com Inês de Castro e, pela mesma ocasião,
nosso envolvimento na guerra civil castelhana. mandou construir os monumentais túmulos de
Foi para o impedir que D. Afonso IV decidiu a Alcobaça, que são os mais notáveis exemplares de
morte de D. Inês de Castro, que foi degolada em 7 arte tumular existentes em Portugal. Logo que
de Janeiro de 1355, nos paços de Santa Clara, em ficou concluído o que se destinava a Inês de Cas-
Coimbra, numa ocasião em que o infante estava tro, realizou-se a trasladação desde Coimbra.
ausente. Este não acatou a justiça mandada fazer Estes factos – o desvario amoroso do infante, o
pelo rei e declarou-se em revolta. Durante meses, conflito com o rei, a imolação de Inês à razão políti-
o País foi assolado pelas tropas do infante, forma- ca, a solidariedade de uma grande parte da nobre-
das sobretudo de nobres portugueses e galegos za, a guerra civil, a ferocidade da vingança, a
(entre estes últimos, os Castros). Chegaram a cer- pompa de trasladação, a própria grandeza e valor
car o Porto durante duas semanas, cobiçosos das artístico dos túmulos – fizeram nascer uma lenda
riquezas dos moradores. Estes defenderam-se de origem provavelmente erudita, mas que não
colmatando as brechas das muralhas com os pen- tardou a passar às camadas populares. Nessa
dões das naus que estavam ancoradas no Douro. lenda incluíam-se pormenores sem qualquer fun-
O estranho pormenor, revelado pelo Livro de damento, como o da coroação e do beija-mão do
Linhagens do Conde D. Pedro, parece mostrar a cadáver. Ficaram célebres a peça de António Fer-
adesão das forças populares à causa do rei. reira A Castro e sobretudo as comovidas estrofes
Apesar de todos os perdões solenemente jura- d’Os Lusíadas, que contribuíram muito para a
dos, D. Pedro, logo que subiu ao trono, conseguiu popularização e internacionalização do episódio.
que o rei de Castela lhe entregasse os conselhei- Só em língua italiana foram recenseados, no início
ros de D. Afonso IV que tinham decidido a morte deste século, cento e vinte e seis composições
de Inês e fê-los executar com rigor atroz, que musicais ou balécticas sobre o tema. Da literatura
impressionou os contemporâneos. Em 1360 anun- passou ao cinema e às artes plásticas e deixou
ciou formalmente que chegara a casar secreta- profunda marca no teatro de origem popular.
José Hermano Saraiva, História Concisa de Portugal, Publicações Europa-América (texto com supressões)

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 151


Os Lusíadas: Canto III, episódio de Inês de Castro

Inês de Castro: história e literatura

Com uma primeira referência num poema pra- Tal ânsia pode revelar-se na crença da força do
ticamente contemporâneo de Ibn Bilia e regista- amor para além da morte, mito que se procurou
do sucintamente nas obras históricas do século exprimir de várias formas e que nesta história de
xiv, o episódio de Inês de Castro teve lugar de amor tragicamente contrariado encontrou um
relevo nas crónicas de Fernão Lopes e dos histo- assunto exemplar para todos os elementos que o
riadores que se lhe seguiram. A literatura portu- tema pode implicar: sentimento, perseverança,
guesa dedicou-lhe obras importantes desde o valores humanos que despertam simpatia e pie-
início do século xvi, e até aos nossos dias auto- dade, crueldade que suscita indignação, lealda-
res nacionais e estrangeiros não deixaram per- de e formas de a expressar que provocam admira-
ção e respeito, a dor insuperável do bem perdido
e a tentativa desesperada de o recuperar. Ao
ajustar-se tão completamente às linhas deste
padrão, o episódio dos amores de Pedro e Inês
tornou-se ele próprio um mito, característico do
que a literatura apresentou como sendo o amor
português.
Considerando a escassez de dados das ver-
sões iniciais, várias vezes se chamou a atenção
para as variantes sem fundamento histórico.
Apenas se procurou, ao apontá-las, mostrar até
que ponto os criadores literários exercitaram a
sua imaginação na tentativa de preencher as
lacunas de um episódio de que se conhecem uni-
camente as linhas gerais. O que foram, sentiram,
pensaram, disseram, agiram as suas persona-
Inês de Castro,
pintura de gens pertence à Literatura e não à História con-
Costa Pinheiro cretizar.
À História compete discutir e analisar ques-
tões como a existência de um casamento e as
der um assunto que, sujeito às interpretações razões que levaram D. Pedro a recusá-lo em vida
mais variadas, a condicionantes sociais, políti- de Inês e a declará-lo depois da sua morte. À
cas e estéticas de índole diversa, demonstrou Literatura é lícito explorar razões e sentimentos,
potencialidades infinitas, de que resultaram acentuar o que lhe agrada, criar o que os docu-
obras sempre capazes de agradar e mesmo de mentos omitem ou ignoram, para ela é válido que
fazer escola. o coração tem razões que a razão desconhece.
A razão de tão grande vitalidade e da hipótese Tanto para a História como para a Literatura –
verificada de se adaptar a qualquer época deve numa palavra, para a tradição – a verdade é que o
procurar-se no seu interesse humano e no facto episódio de Inês de Castro é algo que mais de
de ser um caso real de concretização da ânsia que seis séculos não conseguiram ainda esgotar, e
o Homem sempre exprimiu de superar as limita- nessa medida se justifica que sobre ele se conti-
ções do tempo, o esquecimento e a destruição. nue a pensar e a escrever.
Maria Leonor Machado de Sousa, Inês de Castro, Um Tema Português na Europa, Edições 70 (texto com supressões)

152 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Os túmulos de Alcobaça

O seu túmulo real assenta nos lombos de seis


animais que são quadrúpedes com rosto humano.
As caras desses quadrúpedes agachados são
retratos flagrantes de seis humanos, retratos indi-
viduais e personalizados; um dos homens tem
barba e os outros cara rapada; alguns têm cabelo,
os outros são calvos. Quem são os retratados? Na
época em que foram esculpidos os túmulos, toda Túmulo de D. Inês
a gente os reconhecia. Eram certamente os inter-
venientes no assassínio de Inês, quer como execu-
tores, quer como conselheiros. Uns tinham sido já
mortos, como Álvaro Gonçalves e Pêro Coelho,
outros andavam fugidos.
O que nos impõe esta identificação é que o
túmulo de D. Pedro também assenta sobre qua-
drúpedes, mas neste caso, meros leões decorati-
vos. D. Pedro quis que, para toda a eternidade, os
assassinos carregassem o peso da sua culpa e Túmulo de D. Pedro
que as gerações presentes e as futuras conheces-
sem as suas caras.
Os túmulos estão profusamente esculpidos e de alegria e tristeza repete-se na secção exterior
lavrados. O do rei narra a história de São Bartolo- do círculo.
meu, um rei que foi apóstolo de Cristo e lutou con- O rei morto aguarda o Juízo Final, em que Jesus
tra os ídolos, tendo por isso sido esfolado, morto Cristo julgará os vivos e os mortos. Ora o Juízo
e descabeçado, e que depois de morto, pegando Final está representado no túmulo de Inês. Os
na própria pele e na própria cabeça como quem mortos de várias categorias hierárquicas, desde
pega num saco, se apresentou ao rei que o mata- o papa aos simples fiéis, abrem a campa dos
ra. Quem sabe se não há nesta escultura uma alu- túmulos perante o Deus-juiz, assistido da Virgem
são à sobrevivência espiritual da que «depois de e dos seus anjos e santos. Os justos, com túnicas
ser morta foi rainha»? compridas e mãos postas, encaminham-se pela
Se considerarmos agora as figuras das circunfe- direita para a porta do Paraíso; os condenados,
rências da direita para a esquerda (esquerda para nus e com gestos descompostos, vão, por um
a direita do observador), na zona média temos, no plano inclinado, cair nas goelas de um monstro,
lado direito do diâmetro, D. Pedro acariciando onde são atormentados por Diabos, no canto
Inês no ombro; Pedro e Inês juntos e enlaçados esquerdo. A uma janela geminada que anuncia o
numa cena de ternura; e Pedro e Inês no trono manuelino divisam-se dois vultos de bem-aven-
(como ele sonhou); depois, no lado esquerdo do turados que merecem o Paraíso: são Pedro e
mesmo diâmetro, o rei D. Afonso dando com o Inês. Os pecadores subiram ao Céu.
índex a ordem de expulsão a Inês e uma outra Estes túmulos são o documento mais espanto-
cena que representa dois corpos em movimento, so que a Idade Média nos deixou sobre o amor de
numa atitude indecifrável. Essa mesma sucessão homem e mulher, o amor-paixão.
António José Saraiva, O Crespúsculo da Idade Média em Portugal, Gradiva (texto com supressões)

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 153


Os Lusíadas: Canto IV, episódio da Batalha de Aljubarrota

Canto IV
[1–27] [28–45] [46 –82] [83–93] [94–104]
Narração >
Vasco da Gama conta Vasco da Gama conta o episódio Vasco da Gama conta a última parte do reinado Vasco da Gama conta Vasco da Gama conta
a crise de 1383-1385 da Batalha de Aljubarrota de D. João I e os reinados de D. Duarte, a preparação da partida o episódio do Velho
e parte do reinado e os acontecimentos seguintes, D. Afonso V, D. João II, bem como parte da armada e as do Restelo.
de D. João I (início referentes ainda ao reinado do reinado de D. Manuel, com o seu sonho despedidas em Belém.
da 2.a Dinastia). de D. João I. profético de alcançar a Índia, até ao momento
que antecede a partida da armada.

Plano da viagem · Plano da História de Portugal [Estrofes para leitura orientada]

29

Quantos rostos ali se vem sem cor,


Que ao coração acode o sangue amigo!
Que, nos perigos grandes, o temor
É maior muitas vezes que o perigo;
E se o não é, parece-o; que o furor
Batalha de Aljubarrota, iluminura da Crónica de Inglaterra, de Jean Wavrin De ofender ou vencer o duro imigo
Faz não sentir que é perda grande e rara
Dos membros corporais, da vida cara.
28 30
Deu sinal a trombeta Castelhana, Começa-se a travar a incerta guerra3:
Horrendo, fero, ingente e temeroso; De ambas partes se move a primeira ala;
Ouviu-o o monte Artabro,1 e Guadiana Uns leva a defensão da própria terra,
Atrás tornou as ondas de medroso. Outros as esperanças de ganhá-la.
Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;2 Logo o grande Pereira4, em quem se encerra
Correu ao mar o Tejo duvidoso; Todo o valor, primeiro se assinala:
E as mães, que o som terribil escuitaram, Derriba e encontra5 e a terra enfim semea
Aos peitos os filhinhos apertaram. Dos que a tanto desejam, sendo alhea.

1
cabo da Galiza; 2 Alentejo; 3 batalha de Aljubarrota; 4 D. Nuno Álvares Pereira; 5 ataca;

154 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


31

Já pelo espesso ar os estridentes


Farpões, setas e vários tiros voam;
Debaxo dos pés duros dos ardentes D. João I, ilustração
Cavalos treme a terra, os vales soam. de Pedro Proença
Espedaçam-se as lanças, e as frequentes
Quedas c’o as duras armas tudo atroam.
Recrecem os imigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.6
32

Eis ali seus irmãos7 contra ele vão


(Caso feio e cruel); mas não se espanta,
Que menos é querer matar o irmão,
Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta.
Destes arrenegados7 muitos são
No primeiro esquadrão, que se adianta
Contra irmãos e parentes (caso estranho),
Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.9
33 35

Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano, Com torva vista os vê, mas a natura
Catilina,10 e vós outros dos antigos Ferina e a ira não lhe compadecem16
Que contra vossas pátrias, com profano 11 Que as costas dê, mas antes na espessura
Coração, vos fizestes inimigos: Das lanças se arremessa, que recrecem.
Se lá no reino escuro de Sumano12 Tal está o cavaleiro,17 que a verdura
Receberdes gravíssimos castigos, Tinge c’o sangue alheio;18 ali perecem
Dizei-lhe que também dos Portugueses Alguns dos seus, que o ânimo valente
Alguns tredores houve algũas vezes. Perde a virtude contra tanta gente.
34 36

Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,13 Sentiu Joane a afronta que passava
Tantos dos inimigos a eles vão. Nuno, que, como sábio capitão,
Está ali Nuno, qual pelos outeiros Tudo corria e via e a todos dava,
De Ceita15 está o fortíssimo leão Com presença e palavras, coração.19
Que cercado se vê dos cavaleiros Qual parida leoa, fera e brava,
Que os campos vão correr de Tutuão:16 Que os filhos, que no ninho sós estão,
Perseguem-no com as lanças, e ele, iroso, Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
Torvado um pouco está, mas não medroso; O pastor de Massília20 lhos furtara,

6
reduz a poucos, dizima; 7 D. Diogo e D. Pedro, irmãos de D. Nuno Álvares Pereira; 8 traidores à pátria; 9 Júlio César
e Pompeu, seu adversário; 10 Sertório, Coriolano e Catilina são três militares da antiguidade que pegaram em armas con-
tra a pátria; 11 sacrílego; 12 reino de Plutão, inferno pagão; 13 vanguarda; 14 Ceuta; 15 praça forte, situada ao sul de Ceuta;
16
permitem; 17 D. Nuno Álvares Pereira; 18 sangue dos Castelhanos; 19 ânimo, coragem; 20 região do Norte de África;

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 155


Os Lusíadas: Canto IV, episódio da Batalha de Aljubarrota

38

Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,


Que entre as lanças e setas e os arneses22
Dos inimigos corro e vou primeiro,
Pelejai, verdadeiros Portugueses! —
Isto disse o magnânimo guerreiro
E, sopesando a lança quatro vezes,
Com força tira;23 e deste único tiro
Muitos lançaram o último suspiro.
39

Porque, eis, os seus acesos24 novamente


Dũa nobre vergonha e honroso fogo,25
Sobre qual mais, com ânimo valente,
Perigos vencerá do Márcio jogo,26
Porfiam; tinge o ferro o fogo ardente;
Rompem malhas primeiro e peitos logo.
Assi recebem junto e dão feridas,
Como a quem já não dói perder as vidas.
40

A muitos mandam ver o Estígio lago,27


Em cujo corpo a morte e o ferro entrava.
O Mestre morre ali de Santiago,
Que fortissimamente pelejava;
Morre também, fazendo grande estrago,
Outro Mestre cruel de Calatrava.
Batalha de Aljubarrota, ilustração de Roque Gameiro Os Pereiras também, arrenegados,
Morrem, arrenegando o Céu e os Fados.
37 41

Corre raivosa e freme e com bramidos Muitos também do vulgo vil, sem nome,
Os montes Sete Irmãos21 atroa e abala: Vão, e também dos nobres, ao Profundo,28
Tal Joane, com outros escolhidos Onde o trifauce Cão29 perpétua fome
Dos seus, correndo acode à primeira ala: Tem das almas que passam deste mundo.
—Ó fortes companheiros, ó subidos E por que mais aqui se amanse e dome
Cavaleiros, a quem nenhum se iguala, A soberba do imigo furibundo,
Defendei vossas terras, que a esperança A sublime bandeira Castelhana
Da liberdade está na vossa lança! Foi derribada aos pés da Lusitana.

21
montes situados na parte setentrional de Marrocos, no Norte de África; 22 armaduras completas; 23 atira, arremessa; 24
inflamados; 25 entusiasmo; 26 guerra; 27 um dos lagos do inferno pagão; 28 inferno; 29 Cérbero, cão de três cabeças que
guardava a porta do inferno;

156 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


42 44

Aqui a fera batalha se encruece Alguns vão maldizendo e blasfemando


Com mortes, gritos, sangue e cutiladas; Do primeiro que guerra fez no mundo;
A multidão da gente que perece Outros a sede dura vão culpando
Tem as flores da própria cor mudadas. Do peito cobiçoso e sitibundo,32
Já as costas dão e as vidas; já falece Que por tomar o alheio, o miserando
O furor e sobejam as lançadas; Povo aventura às penas do Profundo,
Já de Castela o Rei desbaratado Deixando tantas mães, tantas esposas,
Se vê, e de seu propósito30 mudado. Sem filhos, sem maridos, desditosas.
43 45

O campo vai deixando ao vencedor, O vencedor Joane esteve os dias


Contente de lhe não deixar a vida. Costumados no campo, em grande glória;
Seguem-no os que ficaram, e o temor Com ofertas, despois, e romarias,
Lhe dá, não pés, mas asas à fugida. As graças deu a quem lhe deu vitória.33
Encobrem no profundo peito a dor Mas Nuno, que não quer por outras vias
Da morte, da fazenda despendida, Entre as gentes deixar de si memória
Da mágoa, da desonra e triste nojo31 Senão por armas sempre soberanas,34
De ver outrem triunfar de seu despojo. Pera as terras se passa Transtaganas.

30
objectivo de conquistar Portugal; 31 tristeza; 32 ambicioso; 33 a Deus; 34 altos feitos de armas.
!
CO N C E I TO S
1 Resolve o crucigrama com as palavras do texto que correspondem às indicações dadas e descobre L I TE R Á R I O S
um símbolo da batalha aí narrada, o qual perdura até aos nossos dias. Consulta a ficha sobre
a epopeia, p. 188,
1. Instrumento musical que anuncia o início e a ficha sobre o
1 E processo figurativo,
da batalha (est. 28).
11 A pp. 271-272.
2. Origem desse instrumento musical (est. 28).
3. O que começa a travar-se (est. 30). 6 S
4. Nome de um dos heróis portugueses (est. 30). 13 O
5. Uma das armas de guerra (est. 31). 4 R
6. Outra das armas de guerra (est. 31). 9
7. Animais utilizados na batalha (est. 31).
8. Parentesco entre alguns dos traidores e o grande
3 U
Nuno Álvares Pereira (est. 32).
8 M
9. Uma das entidades traídas por esses
«arrenegados» (est. 32). 17 C
10. A outra entidade traída (est. 32). 7 S
11. Nome de outro herói português (est. 36).
12. Valor pelo qual o Rei diz, no seu discurso, que
os guerreiros devem combater (est. 37).
12 A
13. Aqueles a quem o rei pede para combater (est. 38). 5 P
14. A sua arma, com a qual derruba muitos inimigos 15 S
(est. 38). 16 A
15. Título de alguns dos inimigos mortos (est. 40). 14
16. Reino ofensor, cujo Rei sai humilhado do campo
de batalha (est. 42).
2 N
17. O que Joane é no final da batalha (est. 45).
10 T

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 157


Os Lusíadas: Canto IV, episódio da Batalha de Aljubarrota

2 Os seguintes versos introduzem momentos-chave no episódio que leste. Identifica esses momen-
tos atribuindo um título a cada um.

• «Deu sinal a trombeta castelhana,»;


• «Começa-se a travar a incerta guerra:»;
• «Aqui a fera batalha se encruece».

3 Com base nas estrofes 28 e 29, indica:

• os adjectivos que caracterizam o som da trombeta castelhana;


• os elementos naturais afectados por esse som;
• os elementos humanos igualmente afectados por esse som.

3.1 Para além da personificação dos elementos naturais, que figura de estilo contribui aqui para
ampliar as dimensões invulgares do inimigo dos Portugueses?

4 Explica, por palavras tuas:

• a passagem da estrofe 29 que melhor ilustra a motivação dos guerreiros portugueses quanto
a esta batalha;
• a passagem da estrofe 30 que resume os motivos desta batalha.

5 Aponta as características e os comportamentos que conferem a Nuno Álvares Pereira e ao futuro


Rei D. João I o estatuto de heróis épicos.

5.1 Identifica as hipérboles que contribuem para esse estatuto das personagens.

5.2 Que comparações contribuem igualmente para esse estatuto? Porquê?

6 Atenta nas estrofes 31 e 39. Que aliterações sugerem o combate travado entre as duas partes
em conflito?

6.1 A que sentido apelam então essas aliterações?

7 «Eis ali seus irmãos contra ele vão» (est. 32); «Rompem-se aqui dos nossos os primeiros, / Tantos
dos inimigos a eles vão. / Está ali Nuno» (est. 34); «ali perecem / Alguns dos seus» (est. 35). A que
sentido apelam as formas verbais no presente histórico e os advérbios de lugar salientados nestas
passagens?

8 Que modo de representação do discurso te parece predominar neste episódio? Porquê?

9 «A sublime bandeira Castelhana / Foi derribada aos pés da Lusitana» (est. 41). O narrador mos-
tra respeito para com o inimigo, afirmando o seu valor. De que forma contribui essa afirmação
para o enaltecimento dos Portugueses?

158 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


10 Retira do texto os eufemismos utilizados para narrar a morte dos inimigos.

11 O Rei de Castela, ao contrário do que acontece com o seu reino, não é alvo do respeito do nar-
rador. Com base no texto, comprova esta afirmação.

12 Identifica a estrofe onde é dada uma opinião sobre a guerra, em geral.

12.1 Concordas com essa opinião? Porquê?


!
13 Qual dos superstratos do português terá estado na origem das palavras «guerra» (est. 30) e HISTÓRIA
DA L Í N G UA
«guerreiro» (est. 38)? Consulta a Unidade 1,
pp. 28-32, 35.

14 Justifica a utilização da expressão «Márcio jogo» (est. 39) neste episódio.

14.1 Tendo em conta a história da língua portuguesa, que relação poderá existir entre essa
expressão e a época cultural em que se inserem Os Lusíadas?

15 Procura agora no dicionário a origem e o significado das expressões «bélico», «belicoso» e «beli-
gerante», também relacionadas com a ideia de «guerra».
!
16 «Começa-se a travar a incerta guerra» (est. 30). Identifica o tipo de conjugação verbal presente F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
nesta passagem. Consulta o Caderno
de Funcionamento
16.1 Justifica a sua utilização neste momento do episódio. da Língua, p. 256.

16.2 Descobre outros exemplos deste tipo de conjugação nas estrofes 43 e 44 e explica o seu
sentido.

P R O P O S TA D E E S C R I TA

Em trabalho de grupo, cria algumas vinhetas de banda desenhada, inspiradas no episódio da


Batalha de Aljubarrota. Tenta utilizar planos gerais, médios e aproximados, assim como balões
de diversos tipos.

A batalha de Aljubarrota

Entrando por Almeida em meados de Julho, o rei Tomar e Porto de Mós, interceptando o inimigo um
de Castela avançou sobre Pinhel, Trancoso, Celori- pouco a sul da actual Batalha e a norte de Aljubar-
co da Beira, Fornos, Mortágua e Mealhada, atin- rota, único povoado existente nas redondezas. Os
gindo Coimbra – que não atacou – em começos de efectivos prováveis dos dois exércitos eram: uns 17
Agosto. Daí marchou para sul, por Pombal e Leiria, 500 a 19 000 combatentes do lado castelhano, dis-
visando Lisboa. O exército português, comandado tribuídos por 6500 a 7000 cavaleiros, 5000 bestei-
pelo novo rei D. João I e por D. Nuno Álvares Pereira, ros, 6000 a 7000 homens de pé, a que haveria a
concentrou-se em Abrantes, de onde seguiu para somar mais uns 10 000 não combatentes; e uns

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 159


Os Lusíadas: Canto IV, episódio da Batalha de Aljubarrota

7000 combatentes do lado português, sendo 1700 çada pela experiência e precisão de tiro dos Ingle-
cavaleiros, 800 besteiros, 700 archeiros ingleses e ses. Nada disto diminui a capacidade de resistên-
4000 homens de pé, a que haveria acrescentar uns cia e a bravura das forças portuguesas que soube-
5000 não combatentes. ram combater contra o inimigo duas vezes supe-
A batalha travou-se em 14-8-1385, ao fim da rior. A batalha travou-se assim, principalmente,
tarde, e durou poucas horas. O exército castelha- entre a vanguarda dos Castelhanos e a totalidade
no achava-se cansado por vários dias de marcha e dos Portugueses, visto que aqueles penetraram
pelo calor próprio da estação, e o seu comando era como uma cunha no exército de D. João I, ficando a
deficiente, até pelo facto de o monarca castelhano breve trecho cercados. A sua derrota provocou o
se encontrar doente e precisar de ser transporta- pânico nas restantes forças que debandaram e
do. O exército português escolhera cuidadosa- foram perseguidas e mortas em grande número.
mente a posição que mais lhe conviera, instalan- Como afirmou Gastão de Melo de Matos, «foram
do-se num planalto com um único acesso fácil. muito mais os mortos pelos povos que os encon-
Para dificultar este, construiu uma paliçada defen- traram isolados do que os que pereceram na bata-
siva e abriu fossos e numerosas covas disfarça- lha propriamente dita». A lenda da padeira de
das, tornando assim quase impossível o avanço Aljubarrota, que teria morto sete castelhanos com
rápido da cavalaria. Esta estratégia foi ainda refor- a pá do seu forno, ilustra bem esta afirmação.
A.H. de Oliveira Marques, História de Portugal, Editorial Presença

O triunfo militar dos portugueses

O rei de Castela voltava a invadir o País com um


numeroso exército, que incluía a maioria da
nobreza portuguesa. Os dois exércitos reais
encontraram-se em Aljubarrota no dia 14 de Agos-
to de 1385. A acção de Nuno Álvares, já então con-
destável do exército, voltou a ser decisiva. As for-
ças portuguesas, dispostas em quadrado, aguen-
taram com firmeza o assalto da cavalaria feudal e
infligiram-lhe uma derrota que teve consequên-
cias políticas definitivas.
Também neste ponto a versão de Froissart se
afasta da versão portuguesa, e tem o mérito de
Batalha de Aljubarrota, iluminura da Crónica de Inglaterra,
conter uma explicação para um triunfo militar de Jean Wavrin
que, sem essa explicação, chega a parecer mara-
vilhoso. Segundo o relato que Froissart colheu, a tugueses, animados com a vitória sobre os fran-
batalha desenvolveu-se em dois combates sepa- ceses, levaram a melhor sobre um adversário divi-
rados por um longo intervalo. Quem acometeu o dido e desmoralizado. Esta narrativa explica mui-
quadrado português foram as forças francesas, tos pormenores que têm causado a estranheza
que andavam mal-avindas com as castelhanas. dos nossos historiadores militares, e contém pro-
Desbaratadas e aprisionadas em grande parte, o valmente a verdade. Em nada diminui o valor do
exército castelhano veio vingá-las já quase ao pôr feito português, embora acentue cruelmente a
do Sol. Também nesse segundo encontro os por- ferocidade dos costumes de guerra.
José Hermano Saraiva, História Concisa de Portugal, Publicações Europa-América (texto com supressões)

160 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Nuno Álvares Pereira: o homem e a lenda

Nascera em 1360, ao tempo em que o rei Por morte do prior D. Álvaro ficara no lugar do
D. Pedro proclamara rainha, com grande pompa, pai, como chefe da família, o irmão promogénito
a falecida Inês de Castro. Era filho de um dos Pedro Álvares, que teve de vigiar e acalmar o
homens poderosos da Espanha, o prior do potro rebelde e impaciente, Nuno. Na guer-
Hospital D. Álvaro Gonçalves, e neto ra expunha-se com temeridade e
do arcebispo de Braga, D. Gonça- parecia que queria matar-se. Em
lo Pereira. 1382, em Santo, fez frente, sozi-
O jovem Nun’Álvares, bastar- nho, a dezenas de castelhanos e
do, filho de bastardo, como não morreu por um triz. E nas
Galaaz, deixou-se enlevar por bodas de Badajoz do casa-
este herói de romance, que, mento do rei de Castela com
pelas suas virtudes, e espe- D. Beatriz fez cair com um
cialmente pela virgindade, empurrão, na presença dos
alcançou o mais alto prémio reis e convidados, uma mesa
que é dado a um homem mor- preparada para o banquete.
tal ver e entender: o Santo Parecia um homem oprimido,
Graal, momento supremo que sem saber porquê, desaba-
não se repete, porque antece- fando em violências súbitas e
de a passagem à outra vida. inexplicáveis.
Encaminhado para a corte Um dia, como um trovão,
de D. Fernando, adolescente uma grande nova abalou o
ainda, fora escolhido como Reino: D. João, o mestre de
escudeiro por D. Leonor Teles, Avis, matara o Andeiro e toma-
essa mulher formosa como ra o poder em Lisboa; a rainha,
a rainha Genebra e também com um séquito de fidalgos,
pecadora como ela (segundo fugira para Alenquer. Final-
as línguas maldizentes). O pai mente, a atmosfera desabafou
casou-o com uma rica viúva e começou a aventura.
do Norte e foi provavelmente do dote da mulher Que motivo levou Nun’Álvares a tomar partido
que Nuno se sustentou nos primeiros tempos. pelo jovem mestre quando Pedro Álvares e os
A política ziguezagueante de D. Fernando trazia irmãos juravam fidelidade a D. Beatriz? Foi leva-
ora a guerra com Castela, ora a aliança garantida do pelo «amor da terra»? Tinha uma amizade
pelo casamento da filha D. Beatriz, inocente juvenil com o mestre de Aviz? Rebelou-se contra
objecto de trocas e destrocas. Os últimos anos de a solidariedade familiar, ou contra o clã dos
D. Fernando criaram problemas aos seus cavalei- Pereiras? No fundo continuou onde estava: a
ros. Ora se combate em Lisboa cercada pelas tro- combater os exércitos que invadiam Portugal.
pas do rei de Castela, ora se celebram bodas em Fazendo assim, jogava tudo por tudo. Enjeitava
que os Portugueses e Castelhanos fraternizam. O os próprios irmãos, porque todo ou quase todo o
rei morria e dizia-se que a rainha paria filhos de clã dos Pereiras passara para o lado castelhano.
João Fernandes Andeiro, o fidalguinho galego E apostava num milagre.
promovido a conde de Ourém. O milagre era ele próprio, sem o saber.
António José Saraiva, O Crepúsculo da Idade Média em Portugal, Gradiva (texto com supressões)

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 161


Os Lusíadas: Canto IV, Despedida em Belém

Ouve a canção «Praia das Lágrimas», de Rui Veloso, gravada no cd áudio, e assinala a afirmação
verdadeira. Nesta canção fala-se…

da alegria sentida por quem está perto dos seus entes queridos;
da tristeza sentida por quem está longe dos seus entes queridos;
do ódio sentido por quem não pôde viajar.

Lê agora as estrofes da Despedida em Belém e descobre o que têm em comum com a canção escutada.

85

Pelas praias vestidos os soldados


De várias cores vem e várias artes,
E não menos de esforço aparelhados
Procissão em Belém,
Pera buscar do mundo novas partes.
ilustração de Roque Nas fortes naus os ventos sossegados
Gameiro
Ondeiam os aéreos estandartes.
Elas12 prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos.13
83 86

Foram de Emanuel 1 remunerados, Despois de aparelhados,14 desta sorte,


Por que com mais amor2 se apercebessem, De quanto tal viagem pede e manda,
E com palavras altas3 animados Aparelhámos a alma pera a morte,15
Pera quantos trabalhos sucedessem. Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Assi foram os Mínias4 ajuntados, Pera o sumo Poder, que a Etérea Corte
Pera que o véu dourado combatessem, Sustenta só co’a vista veneranda,
Na fatídica nau,5 que ousou primeira Implorámos favor que nos guiasse
Tentar o mar Euxínio,6 aventureira. E que nossos começos aspirasse.16
84 87

E já no porto da ínclita Ulissea, 7


Partimo-nos assi do santo templo17
C’um alvoroço nobre e c’um desejo Que nas praias do mar está assentado,
(Onde o licor 8 mestura e branca area Que o nome tem da terra, pera exemplo,
Co salgado Neptuno9 o doce Tejo) Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
As naus prestes estão; e não refreia Certifico-te, ó Rei, que, se contemplo
Temor nenhum o juvenil despejo,10 Como fui destas praias apartado,
Porque a gente marítima e a de Marte11 Cheio dentro de dúvida e receio,
Estão pera seguir-me a toda parte. Que apenas nos meus olhos ponho o freio.18

1
rei D. Manuel I; 2 entusiasmo; 3 de louvor; 4 argonautas; 5 a nau Argo; 6 mar Negro; 7 Lisboa; 8 água; 9 mar; 10 ousa-
dia, determinação; 11 os marinheiros e os guerreiros; 12 as naus; 13 de serem mortalizadas no Olimpo, como acontecera,
na antiguidade, à nau de Argos que Minerva colocou entre as constelações; 14 preparados; 15 ouvimos missa e comun-
gámos; 16 favorecesse; 17 ermida de Nossa Senhora de Belém; 18 dificilmente consigo reter as lágrimas;

162 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Partida da Armada
de Vasco da Gama
para a Índia, pintura
de Roque Gameiro

88 91

A gente da cidade, aquele dia, Qual23 em cabelo: —Ó doce e amado esposo,


(Uns por amigos, outros por parentes, Sem quem não quis Amor que viver possa,
Outros por ver somente) concorria, Porque is aventurar em mar iroso
Saudosos na vista e descontentes. Essa vida que é minha e não é vossa?
E nós, co’a virtuosa companhia Como, por um caminho duvidoso,
De mil religiosos diligentes, Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Em procissão solene, a Deus orando, Nosso amor, nosso vão contentamento,
Pera os batéis19 viemos caminhando. Quereis que com as velas leve o vento? —
89 92

Em tão longo caminho e duvidoso Nestas e outra palavras que diziam,


Por perdidos as gentes nos julgavam, De amor e de piadosa humanidade,
As mulheres c’um choro piadoso, Os velhos e os mininos os seguiam,
Os homens com suspiros que arrancavam. Em que menos esforço põe a idade.24
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso Os montes de mais perto respondiam,
Amor mais desconfia,20 acrecentavam Quase movidos de alta piedade;
A desesperação e frio medo A branca area as lágrimas banhavam,
De já nos não tornar a ver tão cedo. Que em multidão com elas se igualavam.
90 93

Qual vai dizendo: —Ó filho, a quem eu tinha


21
Nós outros, sem a vista alevantarmos
Só pera refrigério22 e doce emparo Nem a Mãe, nem a Esposa, neste estado,
Desta casada já velhice minha, Por não nos magoarmos, ou mudarmos
Que em choro acabará, penoso e amaro, Do prepósito firme começado,
Porque me deixas, mísera e mesquinha? Determinei de assi nos embarcarmos,
Porque de mi te vás, ó filho caro, Sem o despedimento25 costumado,
A fazer o funéreo enterramento Que, posto que é de amor usança boa,
Onde sejas de pexes mantimento? — A quem se aparta, ou fica, mas magoa.

19
pequenas embarcações que conduziam os homens desde terra até às naus; 20 receia; 21 uma; 22 consolação; 23 outra; 24
a quem a idade torna mais fracos; 25 despedida.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 163


Os Lusíadas: Canto IV, Despedida em Belém

1 Retira passagens do texto que te permitam confirmar as seguintes afirmações:


!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
• O Rei D. Manuel pagou aos marinheiros e, com palavras de louvor, encorajou-os a esforçarem-se
Consulta a ficha sobre o mais possível.
a epopeia, p. 188,
e a ficha sobre o • No porto de Lisboa, soldados e marinheiros estão prontos para acompanhar Vasco da Gama.
processo figurativo,
pp. 271-272. • A brisa faz ondear as bandeiras das naus e os heróis que as conduzirão estão destinados a subir
aos céus, isto é, a tornarem-se imortais.
• Depois de as naus estarem prontas, os marinheiros ouvem missa, comungam e pedem protecção
a Deus.
• Quando se lembra da partida da praia do Restelo, o narrador emociona-se.

2 Atenta no seguinte verso: «Aparelhámos a alma pera a morte». Relaciona a utilização da primeira
pessoa com a participação do narrador.

2.1 Quem é o narrador deste episódio?

3 Refere as emoções dos marinheiros e das gentes que testemunham a partida das naus portu-
guesas para o Oriente, ilustrando a tua resposta com passagens do texto.

4 Concentra-te nos quatro últimos versos da estrofe 92. Identifica as duas figuras de estilo aí
empregues e explica-as por palavras tuas.

4.1 Justifica a utilização dessas figuras de estilo.

5 Atenta na estrofe 93. De que forma o comportamento dos marinheiros contribui para o enalteci-
mento do herói do poema?
!
HISTÓRIA 6 A palavra «fatídica» (est. 83) derivou do étimo latino «fatidicus». Seguindo as indicações dadas,
DA L Í N G UA
Consulta a Unidade 1,
descobre palavras da mesma família, derivadas dos étimos indicados.
pp. 35-38.
fatidicus › fatídico (adjectivo: que revela ou anuncia o que o destino ordenou; profético)
fatum › ............................... (nome: destino)
fata › ............................... (nome: ser imaginário de sexo feminino capaz de modificar os desti-
nos dos homens)
fatalitas › ............................... (nome: carácter do que está marcado, fixado pelo destino)
fatalis › ............................... (adjectivo: que foi antecipadamente fixado pelo destino; inevitável)
6.1 Forma um advérbio de modo, por sufixação, a partir do adjectivo que descobriste.

7 Nas estrofes de Camões encontramos as palavras «Argos» (est. 85) e «nautas» (est. 86). Com a
ajuda de um dicionário, descobre a origem e o sentido mitológico da palavra «Argonauta».

7.1 Para o narrador da «Despedida em Belém», quem são os novos «Argonautas»?

7.2 Tendo em conta a história da língua portuguesa, justifica a presença dessa referência clássica
nas estrofes de Camões.

164 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


7.3 Que palavra do português terá derivado do elemento de formação latina «astrum» e do
substantivo latino «nauta»?
!
8 Divide e classifica as seguintes orações: «Aparelhámos a alma pera a morte, / Que sempre aos F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
nautas ante os olhos anda» (est. 86). Consulta o Caderno
de Funcionamento
9 Faz o levantamento dos vocativos presentes nas estrofes que leste e explica a razão da sua utilização. da Língua, pp. 261-265,
267-268.

P R O P O S TA D E E S C R I TA !
ESTUDO
Imagina que és um jornalista e te encontras na Praia do Restelo. De forma clara e objectiva, ACO M PA N H A D O
Consulta a Unidade 0,
escreve uma notícia onde relates os acontecimentos presenciados. p. 19, sobre a notícia.

Acompanha a tua leitura silenciosa do poema «Mar Português» da Mensagem, de Fernando Pessoa,
com a leitura expressiva gravada no cd áudio.

MAR PORTUGUÊS

Ilustração de Teresa Conceição


Ó mar salgado, quanto do teu sal Valeu a pena? Tudo vale a pena
São lágrimas de Portugal! Se a alma não é pequena.
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quem quer passar além do Bojador
Quantos filhos em vão rezaram! Tem que passar além da dor.
Quantas noivas ficaram por casar Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Para que fosses nosso, ó mar! Mas nele é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa, Mensagem, Ática

1 De acordo com o poema, resolve as palavras cruzadas. 7

11
2
1. primeira estrofe, quanto ao número de versos 3
2. tipo de rima presente no poema 5
3. recurso expressivo presente no primeiro verso da primeira estrofe
4. substantivo que expressa a dor de um povo
5. forma verbal que sugere o sinal da cruz 6 4
6. quem chora 8
7. quem fica por casar
8. quem reza 1
9. para ultrapassar o Bojador é necessário vencê-la
10. o que Deus deu ao mar 9
11. o que Deus espelhou no mar 10

2 Explica, por palavras tuas, o significado dos dois primeiros versos da segunda estrofe.

2.1 E tu? O que responderias à pergunta formulada pelo poeta? Porquê?

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 165


Os Lusíadas: Canto V, episódio do Gigante Adamastor

Canto V
[1–3] [4–34] [37– 60] [61–85] [86 –91] [92–100]
Narração >
Vasco da Gama conta Vasco da Gama conta a viagem até ao Zaire, Vasco da Gama Vasco da Gama conta Concluindo a sua O poeta censura os
o início da sua viagem, os fenómenos naturais observados, tais como conta o episódio a viagem até Melinde, narrativa, Vasco seus contemporâneos
com a partida o Fogo de Santelmo, a Tromba Marítima, do Adamastor. referindo o escorbuto. da Gama elogia que desprezam
de Lisboa. e o incidente entre Fernão Veloso e os nativos. os portugueses. a Poesia.

Plano da viagem · Plano das intervenções do poeta [Estrofes para leitura orientada]

Lê atentamente o episódio do Gigante Adamastor e descobre o local exacto onde os marinheiros


navegam.

37 40

Porém já cinco Sóis eram passados


1
Tão grande era de membros que bem posso
Que2 dali3 nos partíramos, cortando Certificar-te que este era o segundo
Os mares nunca de outrem navegados, De Rodes estranhíssimo Colosso,9
Prosperamente os ventos assoprando, Que um dos sete milagres10 foi do mundo.
Quando ũa noite, estando descuidados C’um tom de voz nos fala, horrendo e grosso,
Na cortadora proa vigiando, Que pareceu sair do mar profundo.
Ũa nuvem que os ares escurece, Arrepiam-se as carnes e o cabelo,
Sobre nossas cabeças aparece. A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!
38 41

Tão temerosa vinha e carregada, E disse: —Ó gente ousada, mais que quantas
Que pôs nos corações um grande medo; No mundo cometeram grandes cousas,
Bramindo, o negro mar de longe brada, Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
Como se desse em vão nalgum rochedo. E por trabalhos vãos nunca repousas,
—Ó Potestade,4 disse, sublimada, Pois os vedados términos quebrantas11
Que ameaço divino ou que segredo E navegar meus longos12 mares ousas,
Este clima5 e este mar nos apresenta, Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Que mor cousa parece que tormenta? — Nunca arados de estranho ou próprio lenho:13
39 42

Não acabava, quando ũa figura Pois vens ver os segredos escondidos
Se nos mostra no ar, robusta e válida,6 Da natureza e do húmido elemento,14
De disforme e grandíssima estatura; A nenhum grande humano concedidos
O rosto carregado, a barba esquálida,7 De nobre ou de imortal merecimento,
Os olhos encovados, e a postura8 Ouve os danos de mi que apercebidos15
Medonha e má, e a cor terrena e pálida; Estão a teu sobejo atrevimento,
Cheios de terra e crespos os cabelos, Por todo o largo mar e pola terra
A boca negra, os dentes amarelos. Que inda hás-de sojugar com dura guerra.

1
dias; 2 desde que; 3 da ilha de Santa Helena; 4 poder divino; 5 esta região; 6 forte; 7 desalinhada, suja; 8 aspecto; 9 a está-
tua de Apolo, na Ilha de Rodes, uma das sete maravilhas do mundo, era tão grande que os navios passavam por baixo
do arco das suas pernas; 10 maravilhas; 11 ultrapassados os limites proibidos; 12 remotos, antigos; 13 jamais navegados por
barco algum; 14 mar; 15 preparados;

166 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Litografia alusiva
ao Adamastor

43 46

Sabe que quantas naus esta viagem Outro23 também virá, de honrada fama,
Que tu fazes, fizerem, de atrevidas, Liberal, cavaleiro, enamorado,
Inimiga terão esta paragem, E consigo trará a fermosa dama24
Com ventos e tormentas desmedidas. Que Amor por grão mercê lhe terá dado.
E da primeira armada16 que passagem Triste ventura e negro fado os chama
Fizer por estas ondas insofridas,17 Neste terreno meu, que, duro e irado,
Eu farei de improviso tal castigo Os deixará dum cru naufrágio vivos,
Que seja mor o dano que o perigo.18 Pera verem trabalhos excessivos.
44 47

Aqui espero tomar, se não me engano, Verão morrer com fome os filhos caros,
De quem me descobriu19 suma vingança. Em tanto amor gerados e nacidos;
E não se acabará só nisto o dano Verão os Cafres, ásperos e avaros,25
De vossa pertinace confiança: Tirar à linda dama seus vestidos;
Antes, em vossas naus vereis, cada ano, Os cristalinos membros e perclaros
Se é verdade o que o meu juízo20 alcança, À calma, ao frio, ao ar, verão despidos,
Naufrágios, perdições de toda sorte, Despois de ter pisada, longamente,
Que o menor mal de todos seja a morte! C’os delicados pés a areia ardente.
45 48

E do primeiro Ilustre,21 que a ventura E verão mais os olhos que escaparem


Com fama alta fizer tocar os Céus, De tanto mal, de tanta desventura,
Serei eterna e nova sepultura, Os dous amantes míseros ficarem
Por juízos incógnitos de Deus. Na férvida e implacábil espessura.
Aqui porá22 da Turca armada dura Ali, despois que as pedras abrandarem
Os soberbos e prósperos troféus; Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
Comigo de seus danos o ameaça Abraçados, as almas soltarão
A destruída Quíloa com Mombaça. Da fermosa e misérrima prisão. —26

16
a armada de Pedro Álvares Cabral (Adamastor inicia aqui as suas profecias, que terminam na estrofe 48, profecias essas
baseadas em narrações de naufrágios, posteriormente compiladas na História Trágico-Marítima); 17 não navegados, indo-
máveis; 18 o naufrágio seria tão repentino que as vítimas não teriam tempo para se aperceberem do perigo; 19 Bartolomeu
Dias; 20 pensamento; 21 D. Francisco de Almeida, primeiro vice-rei da Índia; 22 deporá; 23 Manuel de Sousa Sepúlveda;
24
D. Leonor, esposa de Manuel de Sousa Sepúlveda; 25 brutais e ladrões; 26 corpo;

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 167


Os Lusíadas: Canto V, episódio do Gigante Adamastor

49 53

Mais ia por diante o monstro horrendo Como fosse impossibil alcançá-la,


Dizendo nossos fados, quando, alçado,27 Pola grandeza fea de meu gesto,
Lhe disse eu: —Quem és tu? Que esse estupendo28 Determinei por armas de tomá-la,
Corpo, certo, me tem maravilhado! — E a Dóris39 este caso manifesto.
A boca e os olhos negros retorcendo De medo a Deusa40 então por mi lhe fala.
E dando um espantoso e grande brado, Mas ela, c’um fermoso riso honesto,
Me respondeu, com voz pesada e amara,29 Respondeu: —Qual será o amor bastante
Como quem da pergunta lhe pesara: De Ninfa, que sustente o dum Gigante?
50 54

—Eu sou aquele oculto e grande Cabo Contudo, por livrarmos o Oceano
A quem chamais vós outros Tormentório, De tanta guerra, eu buscarei maneira
Que nunca a Ptolomeu,30 Pompónio,31 Estrabo,32 Com que, com minha honra, escuse o dano. —
Plínio33 e quantos passaram fui notório. Tal resposta me torna a mensageira.41
Aqui toda a Africana costa acabo Eu, que cair não pude neste engano
Neste meu nunca visto Promontório, (Que é grande dos amantes a cegueira),
Que pera o Pólo Antárctico se estende, Encheram-me, com grandes abondanças,
A quem vossa ousadia tanto ofende! O peito de desejos e esperanças.
51 55

Fui dos filhos aspérrimos da Terra, Já néscio,42 já da guerra desistindo,


Qual Encelado, Egeu e o Centimano; 34 Ũa noite, de Dóris prometida,
Chamei-me Adamastor, e fui na guerra Me aparece de longe o gesto lindo
Contra o que vibra os raios de Vulcano;35 Da branca Tétis, única, despida.
Não que pusesse serra sobre serra, Como doudo corri de longe, abrindo
Mas, conquistando as ondas do Oceano, Os braços pera aquela que era vida
Fui capitão do mar, por onde andava Deste corpo, e começo os olhos belos
A armada de Neptuno, que eu buscava. A lhe beijar, as faces e os cabelos.
52 56

Amores da alta esposa de Peleu36 Oh! Que não sei de nojo43 como o conte:
Me fizeram tomar tamanha empresa. Que, crendo ter nos braços quem amava,
Todas as Deusas desprezei do Céu, Abraçado me achei c’um duro monte
Só por amar das águas a Princesa.37 De áspero mato e de espessura brava.
Um dia a vi, co’as filhas de Nereu,38 Estando c’um penedo fronte a fronte,
Sair nua na praia: e logo presa Que eu polo rosto angélico apertava,
A vontade senti, de tal maneira Não fiquei homem, não, mas mudo e quedo
Que inda não sinto cousa que mais queira. E, junto dum penedo, outro penedo!

27
erguendo-me; 28 enorme; 29 amarga; 30 geógrafo grego do séc. II d.C.; 31 geógrafo romano do séc. I d.C.; 32 geógrafo
grego, viveu entre 58 a.C. e 25 d.C.; 33 grande cientista da Roma antiga; 34 nomes de gigantes; 35 Júpiter; 36 Tétis, Deusa
do Mar; 37 Tétis; 38 Nereidas, irmãs de Tétis; 39 mãe de Tétis; 40 Dóris, mãe de Tétis; 41 Dóris; 42 louco, estúpido; 43 pesar,
amargura;

168 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


57

Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano,


Já que minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?
Daqui me parto, irado e quasi insano
Da mágoa e da desonra ali passada,
A buscar outro mundo, onde não visse
Quem de meu pranto e de meu mal se risse.
58

Eram já neste tempo meus Irmãos44


Vencidos45 e em miséria extrema postos,
E, por mais segurar-se os Deuses vãos,
Alguns a vários montes sotopostos.46
E, como contra o Céu não valem mãos,
Eu, que chorando andava meus desgostos, Ilustração de
Comecei a sentir do Fado imigo, Júlio Resende

Por meus atrevimentos, o castigo.


59 60

Converte-se-me a carne em terra dura; Assi contava; e, c’um medonho choro,


Em penedos os ossos se fizeram; Súbito d’ante os olhos se apartou.
Estes membros que vês, e esta figura, Desfez-se a nuvem negra, e c’um sonoro
Por estas longas águas se estenderam. Bramido muito longe o mar soou.
Enfim, minha grandíssima estatura Eu, levantando as mãos ao santo coro47
Neste remoto Cabo converteram Dos Anjos, que tão longe nos guiou,
Os Deuses; e, por mais dobradas mágoas, A Deus pedi que removesse48 os duros
Me anda Tétis cercando destas águas. — Casos, que Adamastor contou, futuros.
44
os outros gigantes; 45 vencidos na guerra contra Júpiter; 46 postos debaixo dos montes; 47 o céu; 48 afastasse.
!
1 O que vêem, o que ouvem e o que sentem os marinheiros antes do aparecimento do gigante? CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
Consulta a ficha sobre
1.1 Retira o verso da estrofe 38 onde se sugere o ruído ouvido pelos marinheiros. Que figura de a epopeia, p. 188,
e a ficha sobre o
estilo permite essa sugestão?
processo figurativo,
pp. 271-272.
2 Apoiando-te no texto, preenche os espaços em branco, e obtém referências à caracterização do
gigante (estrofes 39 e 40).

Figura e Cor e
Estatura grandíssima e Cabelos crespos e de
Rosto Boca e dentes
Barba Membros
Olhos horrenda e grossa
Postura e

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 169


Os Lusíadas: Canto V, episódio do Gigante Adamastor

2.1 Atenta na estrofe 40 e identifica a comparação aí empregue.

3 Explica de que forma a caracterização do gigante Adamastor contribui para acentuar a despro-
porção existente entre os portugueses e o mar, seu adversário.

4 Localiza as duas partes em que o discurso do gigante se divide.

4.1 Quem provoca a mudança de tom no discurso do gigante? Porquê?

5 De acordo com a primeira parte do discurso de Adamastor, assinala a hipótese correcta e justifica
a tua opção.

• Adamastor considera os portugueses… • Vasco da Gama supera…


ambiciosos e mesquinhos. o medo e parte sem ouvir a história
corajosos e audaciosos. do gigante.
o medo e enfrenta o gigante.
• O gigante profetiza…
mortes e naufrágios para todos aqueles
que se atreverem a ultrapassar os limites.
o fracasso total da viagem
dos portugueses.

6 Na segunda parte do seu discurso, Adamastor conta uma história. De que história se trata?

6.1 Que emoções dominam agora o gigante? Porquê?

7 Explica, por palavras tuas, a estrofe 60.

8 Explica a simbologia de Adamastor, tendo em conta o que essa figura representa ao nível geo-
gráfico, psicológico e de um possível conflito entre homens e deuses.

9 Poder-se-á dizer que estão presentes neste episódio quer o tom épico, pelo enaltecimento dos
feito pátrios, quer o tom lírico, pela expressão de emoções e sensações íntimas por parte de
determinada personagem? Justifica a tua resposta, apoiando-te em exemplos do texto.
!
HISTÓRIA 10 Atenta no significado da palavra «nojo» no seguinte verso: «Oh! Que não sei de nojo como o
DA L Í N G UA
Consulta a Unidade 1, conte:» (est. 56). Explica a evolução semântica sofrida por essa palavra.
pp. 36-38, 40-41.
11 Já a palavra «mágoa» (est. 57) proveio do étimo latino macula (mancha). Indica os dois tipos
de evolução que ocorreram nesta palavra.

11.1 A partir da observação do esquema da sua evolução, classifica as palavras «mácula» e


«mancha». Justifica a tua resposta.

mácula
macula >
> mancha

11.1.1 Por que via(s) terão entrado estas palavras na língua portuguesa? Porquê?

170 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


!
F U N C I O N A M E N TO
12 Classifica as orações salientadas nas seguintes passagens. DA L Í N G UA
Consulta o Caderno
• «Ũa nuvem que os ares escurece, / sobre nossas cabeças aparece» (est. 37) de Funcionamento
• «Tão temerosa vinha e carregada / Que pôs nos corações um grande medo» (est. 38) da Língua,
pp. 246-248, 267-268.
• «Sabe que […] / inimiga terão esta paragem» (est. 43)
• «Aqui toda a africana costa acabo / Neste meu nunca visto Promontório, / Que pera o Pólo
Antártico se estende» (est. 50)

12.1 Classifica agora as orações que não estão salientadas.

13 Indica o tempo verbal predominante nas estrofes 43–48, justificando essa utilização.

P R O P O S TA D E E S C R I TA
!
ESTUDO
ACO M PA N H A D O
Redige um novo texto autobiográfico do gigante Adamastor, recriando, ao sabor da tua ima-
Consulta a Unidade 0,
ginação, a história contada nas estrofes 50-59. p. 17, sobre a
autobiografia.

Acompanha a tua leitura silenciosa do poema «O Mostrengo» da Mensagem, de Fernando Pessoa,


com a leitura expressiva gravada no cd áudio.

O MOSTRENGO

Ilustração de Teresa Conceição


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D.João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço? Três vezes do leme as mãos ergueu,
De quem as quilhas que vejo e ouço?» Três vezes do leme as reprendeu,
Disse o mostrengo, e rodou três vezes, E disse no fim de tremer três vezes:
Três vezes rodou imundo e grosso, «Aqui ao leme sou mais do que eu:
«Quem vem poder o que só eu posso, Sou um Povo que quer o mar que é teu;
Que moro onde nunca ninguém me visse E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E escorro os medos do mar sem fundo?» E roda nas trevas do fim do mundo,
E o homem do leme, tremeu e disse: Manda a vontade, que me ata ao leme,
«El-Rei D.João Segundo!» De El-Rei D.João Segundo!»
Fernando Pessoa, Mensagem, Ática

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 171


Os Lusíadas: Canto V, episódio do Gigante Adamastor

1 Faz a leitura expressiva do poema.

2 Analisa comparativamente o episódio do Gigante Adamastor d’Os Lusíadas, de Camões, e o poema


«O Mostrengo» da Mensagem, de Fernando Pessoa, tendo em conta os seguintes aspectos:

• localização geográfica e localização temporal;


• aparecimento e movimentações do gigante e do mostrengo (sensações visuais e auditivas);
• a reacção dos portugueses;
• relação entre emissor (quem fala) e receptor (quem responde);
• exaltação/ elogio dos portugueses;
• desaparecimento do gigante;
• conhecimento que o gigante tem dos portugueses;
• significado do gigante e do mostrengo;
• elementos específicos do poema de Fernando Pessoa (verbos e tempos verbais utilizados,
uso de interrogações e exclamações, referência constante ao número 3).

Adamastor

Os Portugueses ouvem a voz do gigante contar logo que a nuvem se desfaz em chuva. O Adamas-
as histórias futuras e a sua própria história. Mas o tor existe só na subjectividade dos portugueses,
Adamastor é uma visão, um espectro que os Por- é uma alucinação; e eles têm que se bater, não
tugueses julgaram ouvir no meio da noite escure- com o próprio gigante, que não tem mãos, mas
cida por uma nuvem, e a sua voz é o bramir do mar com o medo que infundia aquela região que os
nos rochedos do Cabo. O espectro desaparece naufrágios haviam de tornar célebre.
Os Lusíadas, de Luís de Camões (edição organizada por António José Saraiva), Figueirinhas (texto com supressões)

Cabo da Boa Esperança

Cabo da África austral cujo extremo está a de Moçambique, tem uma temperatura mais ele-
34o22´ de lat. S., e que geralmente se crê ser vada 9o que a da outra no verão. Os primeiros
a ponta mais meridional do continente africano, brancos que dobraram o cabo foram os Fenícios,
a qual é o cabo das Agulhas, situado a 150km a no séc. VII a. C. Em 1486, Bartolomeu Dias foi
ESE. do primeiro. O da Boa Esperança fica na impelido para além do cabo por uma forte tem-
extremidade S. duma pequena península que faz pestade que acossou os navios durante catorze
parte da Colónia do Cabo e se acha a 50km da dias. Chegado ao rio do Infante, viu-se obrigado
cidade do mesmo nome, entre a baía da Mesa e a a retroceder. Foi neste retrocesso que avistaram
Falsa. Os ventos do NE. tornam perigosa a baía o cabo, que tinham ultrapassado à ida, sem
da Mesa de Abril a Setembro. As correntes são darem por ele. Bartolomeu Dias, por causa do
distintas, tanto no sentido da marcha como na temporal que passou ao dobrá-lo, pôs-lhe o
temperatura, dos dois lados do cabo: a do O. é nome de cabo Tormentoso, trocado depois pelo
a corrente fria, antártica, e a de E., procedente da Boa Esperança pelo rei D. João II.
In Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

172 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Vénus Aplaca os Ventos e as Tormentas, ilustração da edição
de Os Lusíadas, organizada pelo Morgado de Mateus

Naufrágios

João Baptista Lavanha e Melchior Estácio de


Amaral são os dois escritores que com mais indi-
viduação tratam das causas dos naufrágios, o pri-
meiro na relação da perda da nau «Santo Alber-
to», o segundo no Tratado das Batalhas e Suces-
sos do Galeão «Santiago». Ambos coincidem em
apontar como principal razão de todos esses O que era esse delírio da sobrecarga dos navios
desastres a querena ao modo italiano e a carga está bem representado na perda do galeão «San-
excessiva das embarcações, ao partirem da Índia. tiago», apresado pelos holandeses em 1602.
A querena italiana consistia em uma reparação Depois de se terem alijado inúmeras mercadorias,
superficial do costado do navio, sem uma perfeita suficientes para carregarem uma grande nau, os
calafetação; as madeiras, apodrecidas com a corsários estavam espantados de o verem ainda
longa permanência no mar, recebiam mal a esto- tão cheio de fazenda e increpavam os nossos, cus-
pa, por estarem pouco enxutas; depois, nos tem- pindo-lhes a verdade nua e crua: — «Dizei, gente
porais, largavam as estopas e deixavam entrar a portuguesa, que nação haverá no mundo tão bár-
água. O processo de reparação por empreitada bara e cobiçosa, que cometa passar o Cabo da Boa
agravava este mal; para pouparem o tempo, o ser- Esperança na forma que todos passais, metidos
viço fazia-se defeituosamente e as naus ficavam no profundo do mar com a carga, pondo as vidas a
mal consertadas. Acresce ainda que se não tinha tão provável risco de as perder, só por cobiça; e por
o devido cuidado em escolher boa madeira para isso não é maravilha que percais tantas naus e tan-
os navios. Resultado: com a humidade da água, tas vidas».
por fora, e ardência da pimenta e outras drogas Juntemos a tudo isto a largada tardia das embar-
que iam dentro, as tábuas apodreciam logo na cações; a vaidade e a ambição que levava os ofi-
primeira viagem. O naufrágio da nau «Santo ciais das naus a separarem-se das outras, para
Alberto» foi um bom exemplo deste criminoso terem a glória de chegar primeiro e obterem assim
desmazelo: a madeira da quilha estava tão podre boas promoções; a ignorância e a teimosia dos
que, quando deu à costa, Nuno Velho Pereira a pilotos, como sucedeu com o da nau «S. Paulo»,
desfez em pedaços com uma cana. que trazia cartas e astrolábios dourados e passava
Como causa suprema dos desastres marítimos o tempo a contemplar os cursos das estrelas,
é apontada por todos os autores a desordenada «tudo filosofia mera», até que se deu com o navio
cobiça, que fazia sobrecarregar as naus de merca- à costa; o desmazelo em não levar na nau velas de
doria muito além da sua capacidade. Assim se per- sobressalente e suficiente pregadura para os con-
deu o galeão grande «S. João», em que viajava sertos; enfim, os ataques dos corsários franceses,
Sepúlveda, assim como a «S. Bento» e tantas ingleses, holandeses e turcos, que se aproveita-
outras, atochadas de fazenda, por vezes bem mal vam de todas estas faltas, – e teremos compreen-
adquirida, e quase sempre mal arrumada, pois a dido os motivos principais daqueles desastres,
prudência mandava dispor a mais pesada no que empobreciam e dessangravam o país. Mel-
fundo e a mais leve em cima. Se a nau era obrigada chior Estácio de Amaral oferece-nos esta estatísti-
a invernar em Moçambique, então punham-lhe ca impressionante: só na carreira da Índia, de 1582
mais carga ainda, com o que dificilmente podia a 1602, se perderam 38 naus, a maior parte delas
arrostar com as tormentas da costa do Natal. devido a excesso de carga.
Rodrigues Lapa, Prefácio de Quadros da História Trágico-Marítima, Colecção Textos Literários (texto com supressões)

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 173


Os Lusíadas: Canto VI, episódio da Tempestade

Canto VI
[1–5] [6–37] [38– 69] [70–94] [95–99]
Narração >
Após festas de despedida Descendo ao palácio de Neptuno, A viagem continua e, para Dá-se o episódio da Tempestade, O poeta faz considerações
em Melinde, a armada Baco convoca os deuses marinhos vencerem o sono, os durante o qual Vasco da Gama sobre o valor da Fama
parte rumo à Índia, para um consílio, sendo marinheiros contam histórias. dirige uma súplica a Deus. e da Glória, alcançadas
guiada por um piloto. a decisão final a de que Éolo Fernão Veloso conta Vénus intervém, mandando por meio dos grandes
soltará os ventos contra o episódio dos Doze as Ninfas acalmarem os ventos. feitos.
os navegadores portugueses. de Inglaterra. Os Portugueses avistam Calecute
e Vasco da Gama agradece a Deus.

Plano da viagem · Plano dos deuses · Plano da História de Portugal · Plano das intervenções do poeta [Estrofes para leitura orientada]

Lê atentamente o seguinte episódio de Os Lusíadas e numera as imagens de acordo com a ordem


dos acontecimentos narrados.

Ilustrações de Teresa Conceição

174 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


70 74

Mas, neste passo, assi prontos1 estando, Os ventos eram tais que não puderam
Eis o mestre,2 que olhando os ares anda, Mostrar mais força de impito cruel,
O apito toca. Acordam, despertando, Se pera derribar então vieram
Os marinheiros dũa e doutra banda. A fortíssima Torre de Babel.11
E, porque o vento vinha refrescando, Nos altíssimos mares, que cresceram,
Os traquetes das gáveas 3 tomar manda. A pequena grandura dum batel
—Alerta, disse, estai, que o vento crece Mostra a possante nau, que move espanto
Daquela nuvem negra que aparece. — Vendo que se sustém nas ondas tanto.
71 75

Não eram os traquetes bem tomados, A nau grande,12 em que vai Paulo da Gama,
Quando dá a grande e súbita procela.4 Quebrado leva o masto pelo meio,
—Amaina,5 disse o mestre a grandes brados, Quasi toda alagada; a gente chama
Amaina, disse, amaina a grande vela! — Aquele que a salvar o mundo veio.13
Não esperam os ventos indinados Não menos gritos vãos ao ar derrama
Que amainassem, mas, juntos dando nela, Toda a nau14 de Coelho, com receio,
Em pedaços a fazem c’um ruído Conquanto teve o mestre tanto tento
Que o Mundo pareceu ser destruído. Que primeiro amainou que desse o vento.
72 76

O céu fere com gritos nisto a gente, Agora sobre as nuvens os subiam
C’um súbito temor e desacordo; As ondas de Neptuno furibundo;
Que, no romper da vela, a nau6 pendente Agora a ver parece que deciam
Toma grão suma de água pelo bordo. As íntimas entranhas do Profundo.15
—Alija,7 disse o mestre rijamente, Noto, Austro, Bóreas, Áquilo16 queriam
Alija tudo ao mar, não falte acordo! 8 Arruinar a máquina do Mundo;
Vão outros dar à bomba, não cessando. A noite negra e feia se alumia
À bomba, que nos imos alagando! — C’os raios em que o Pólo17 todo ardia!
73 77

Correm logo os soldados animosos As Alcióneas aves18 triste canto


A dar à bomba; e, tanto que9 chegaram, Junto da costa brava levantaram,
Os balanços que os mares temerosos Lembrando-se de seu passado pranto,
Deram à nau, num bordo os derribaram. Que as furiosas águas lhe causaram.
Três marinheiros, duros e forçosos, Os delfins19 namorados, entretanto,
A menear o leme não bastaram; Lá nas covas marítimas entraram,
Talhas10 lhe punham, de dũa e doutra parte, Fugindo à tempestade e ventos duros,
Sem aproveitar dos homens força e arte. Que nem no fundo os deixa estar seguros.

1
atentos à narrativa de Fernão Veloso; 2 comandante das manobras; 3 velas superiores 4 tempestade; 5 toma, carrega; 6 a
nau «S. Gabriel»; 7 lança carga ao mar; 8 calma, presença de espírito; 9 «tanto que» – logo que; 10 cordas que se prendem
à cana do leme para lhe facilitar o manejo; 11 Segundo a Bíblia, torre que os hebreus terão feito erguer para atingir o
Céu, o que fez com que Jeová os castigasse, confundindo-lhes as línguas; 12 a nau «S. Rafael»; 13 Jesus Cristo; 14 a cara-
vela «Bérrio»; 15 Inferno; 16 Noto e Austro são ventos do Sul; Bóreas e Áquilo são ventos do norte; 17 céu; 18 maçaricos,
pica-peixes ou guarda-rios; 19 golfinhos;

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 175


Os Lusíadas: Canto VI, episódio da Tempestade

78 82

Nunca tão vivos raios fabricou Se tenho novos medos perigosos


Contra a fera soberba dos Gigantes Doutra Cila e Caríbdis29 já passados,
O grão ferreiro20 sórdido que obrou Outras Sirtes e baxos arenosos,
Do enteado as armas radiantes; Outros Acroceráunios30 infamados,31
Nem tanto o grão Tonante21 arremessou No fim de tantos casos trabalhosos,
Relâmpados ao mundo, fulminantes, Porque somos de Ti desemparados,
No grão dilúvio22 donde sós viveram Se este nosso trabalho não Te ofende,
Os dous 23 que em gente as pedras converteram. Mas antes Teu serviço só pretende?
79 83

Quantos montes, então, que derribaram Oh! Ditosos aqueles que puderam
As ondas que batiam denodadas! Entre as agudas lanças Africanas
Quantas árvores velhas arrancaram Morrer, enquanto fortes sustiveram
Do vento bravo as fúrias indinadas! A santa Fé nas terras Mauritanas!
As forçosas raízes não cuidaram De quem feitos ilustres se souberam,
Que nunca pera o céu fossem viradas, De quem ficam memórias soberanas,
Nem as fundas areas que pudessem De quem se ganha a vida, com perdê-la,
Tanto os mares que em cima as revolvessem. Doce fazendo a morte as honras dela. —
80 84

Vendo Vasco da Gama que tão perto Assi dizendo, os ventos que lutavam
Do fim de seu desejo se perdia, Como touros indómitos, bramando,
Vendo ora o mar até o Inferno aberto, Mais e mais a tormenta acrecentavam,
Ora com nova fúria ao céu subia, Pela miúda enxárcia32 assoviando.
Confuso de temor, da vida incerto, Relâmpados medonhos não cessavam,
Onde nenhum remédio lhe valia, Feros trovões, que vem representando
Chama aquele remédio24 santo e forte Cair o céu dos eixos sobre a terra,
Que o impossibil pode, desta sorte: Consigo os Elementos terem guerra.
81 85

—Divina Guarda, angélica, celeste, Mas já a amorosa estrela33 cintilava


Que os céus, o mar e terra senhoreas: Diante do Sol claro, no Horizonte,
Tu, que a todo Israel refúgio deste Mensageira do dia, e visitava
Por metade das águas Eritreias;25 A terra e o largo mar, com leda fronte.
Tu, que livraste Paulo26 e defendeste A deusa,34 que nos Céus a governava,
Das Sirtes27 arenosas e ondas feas, De quem foge o ensífero35 Orionte,36
E guardaste, cos filhos, o segundo Tanto que o mar e a cara armada vira,
Povoador28 do alagado e vácuo mundo: Tocada junto foi de medo e de ira.

20
Vulcano, o qual forjou as armas para Eneias, que era seu enteado; 21 Júpiter; 22 dilúvio mítico com que Júpiter teria
querido aniquilar a humanidade; 23 Deucalião e Pirra, únicos sobreviventes do dilúvio, que repovoaram o mundo ati-
rando para trás das costas pedras que se converteram em homens e mulheres; 24 Divina Providência; 25 passagem do mar
Vermelho pelos hebreus; 26 S. Paulo; 27 golfos perigosos, situados no Mediterrâneo; 28 Noé; 29 nomes de um escolho, no
estreito de Messina, e de um sorvedouro, em frente do primeiro, do lado da Sicília; 30 cordilheira de montes ao longo
da costa do Epiro; 31 perigosos para a navegação; 32 conjunto de cabos; 33 planeta Vénus; 34 Vénus; 35 portador de espa-
da; 36 Oríon, caçador que foi transformado em constelação, que trás consigo a tempestade e a chuva;

176 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


86

—Estas obras de Baco são por certo,


Disse; mas não será que avante leve
Tão danada tenção, que descoberto
Me será sempre o mal a que se atreve. —
Isto dizendo, dece ao mar aberto,
No caminho gastando espaço breve,
Enquanto manda as Ninfas amorosas
Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.
87

Grinaldas manda pôr de várias cores


Sobre cabelos louros a porfia.
Quem não dirá que nacem roxas flores
Sobre ouro natural, que Amor infia?
Abrandar determina, por amores,
Dos ventos a nojosa37 companhia,
Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
Que mais fermosas vinham que as estrelas.
88

Assi foi; porque, tanto que chegaram


À vista delas, logo lhe falecem
As forças com que dantes pelejaram,
E já, como rendidos, lhe obedecem.
Os pés e mãos parece que lhe ataram
Os cabelos que os raios escurecem.38
A Bóreas, que do peito mais queria, Virgem dos Navegantes, pintura de Alejo Fernández
Assi disse a belíssima Oritia:39
89 90

—Não creas, fero Bóreas, que te creio Assi mesmo a fermosa Galatea40
Que me tiveste nunca amor constante, Dizia ao fero Noto, que bem sabe
Que brandura é de amor mais certo arreio, Que dias há que em vê-la se recrea,
E não convém furor a firme amante. E bem crê que com ele tudo acabe.
Se já não pões a tanta insânia freio, Não sabe o bravo tanto bem se o crea,
Não esperes de mi, daqui em diante, Que o coração no peito lhe não cabe,
Que possa mais amar-te, mas temer-te; De contente de ver que a dama o manda,
Que amor, contigo, em medo se converte. — Pouco cuida que faz, se logo abranda.

37
incómoda; 38 os cabelos das Ninfas tornam escuros os raios do Sol, por serem ainda mais doirados do que eles; 39 filha
de um rei de Atenas, pela qual Bóreas se apaixonou; 40 uma das Nereidas;

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 177


Os Lusíadas: Canto VI, episódio da Tempestade

91 93

Desta maneira as outras amansavam Esta é, por certo, a terra que buscais
Subitamente os outros amadores; Da verdadeira Índia, que aparece;
E logo à linda Vénus se entregavam, E, se do mundo mais não desejais,
Amansadas as iras e os furores. Vosso trabalho longo aqui fenece. —
Ela lhe prometeu, vendo que amavam, Sofrer aqui não pôde o Gama mais,
Sempiterno favor em seus amores, De ledo em ver que a terra se conhece:
Nas belas mãos tomando-lhe homenagem Os geolhos no chão, as mãos ao Céu,
De lhe serem leais esta viagem. A mercê grande a Deus agradeceo.
92 94

Já a manhã clara dava nos outeiros As graças a Deus dava, e razão tinha,
Por onde o Ganges murmurando soa, Que não somente a terra lhe mostrava
Quando da celsa41 gávea42 os marinheiros Que, com tanto temor, buscando vinha,
Enxergaram terra alta, pela proa. Por quem tanto trabalho exprimentava,
Já fora de tormenta e dos primeiros Mas via-se livrado, tão asinha,43
Mares, o temor vão do peito voa. Da morte, que no mar lhe aparelhava
Disse alegre o piloto Melindano: O vento duro, férvido e medonho,
—Terra é de Calecu, se não me engano. Como quem despertou de horrendo sonho.
41
alta, elevada; 42 cesto da gávea; 43 depressa.

!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
1 Completa o quadro com as passagens das estrofes 71-84 que ilustram a violência da tempestade
Consulta a ficha sobre e que correspondem aos recursos expressivos indicados.
a epopeia, p. 188,
e a ficha sobre o E LE M E N TO S RECURSOS
processo figurativo,
N AT U R A I S E ST RO F E S PA S S AG E N S E X P R E S S I VO S
pp. 271-272.
Ventos Est. 71 Adjectivação
Hipérbole
Est. 74 Comparação
Adjectivação
Hipérbole
Est. 76 Personificação
Hipérbole
Est. 77 Adjectivação
Hipérbole
Est. 79 Comparação
(iniciada na est. 78)
Adjectivação
Exclamação
Hipérbole
Est. 84 Comparação
Adjectivação

178 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


E LE M E N TO S RECURSOS
N AT U R A I S E ST RO F E S PA S S AG E N S E X P R E S S I VO S

Mar Est. 72 Adjectivação

Est. 73 Adjectivação

Est. 74 Adjectivação
Antítese
Est. 76 Anáfora
Advérbio de Tempo
Personificação
Adjectivação
Hipérbole
Est. 77 Adjectivação
Hipérbole
Est. 79 Comparação
(iniciada na est. 78)
Adjectivação
Exclamação
Hipérbole
Est. 79 Comparação
(iniciada na est. 78)
Adjectivação
Hipérbole
Est. 80 Personificação
Hipérbole

Raios Est. 76 Adjectivação


e Trovões Exclamação
Hipérbole
Est. 78 Comparação
Adjectivação
Hipérbole
Est. 84 Adjectivação
Hipérbole

1.1 Observando o quadro que completaste, indica o recurso expressivo predominante.

1.1.1 Por que razão é esse o recurso estilístico predominante neste momento do texto?

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 179


Os Lusíadas: Canto VI, episódio da Tempestade

2 Imagina que és um dos marinheiros que enfrentam esta tempestade e que ouves o teu capitão,
Vasco da Gama, lançar a sua prece à «Divina Guarda». Diz:

• como caracteriza ele o poder da «Divina Guarda»;


• como caracteriza a viagem que decidiu empreender;
• como, segundo afirma, gostaria ele de morrer.

3 De acordo com este episódio, assinala a opção correcta.

• Nestas estrofes evidencia-se a grandiosidade dos portugueses, a quem nada abala, nada
afecta, nada causa sofrimento. Esta afirmação é…
verdadeira: o povo português é imune a quaisquer ameaças.
falsa: os marinheiros portugueses saem derrotados desta peripécia.
falsa: os marinheiros portugueses representam a fragilidade do Homem diante das forças
naturais, o que valoriza o êxito que obtêm.

• Neste episódio confrontam-se a força da inveja, destrutiva, e a força do amor, construtiva,


saindo esta vitoriosa. Esta afirmação é…
falsa: Noto, Austro, Bórias e Áquilo não têm inveja dos portugueses, apenas cumprem as
ordens de Neptuno.
verdadeira: Vénus, deusa do Amor, e as suas Ninfas acalmam os Ventos enviados por
Neptuno, por pressão de Baco, sempre invejoso dos feitos portugueses.
falsa: Os discursos amorosos de Oritia e de Galatea não seduzem Bóreas e Noto nem apla-
cam a sua força destrutiva.

• Este episódio insere-se totalmente no plano da viagem. Esta afirmação é…


falsa: embora se narre a tempestade enfrentada pelos marinheiros portugueses no final da
sua viagem, a intervenção dos Ventos, de Vénus e das Ninfas faz com que se interli-
gue aqui o plano dos deuses.
falsa: a intervenção dos Ventos, de Vénus e das Ninfas permite integrar este episódio uni-
camente no plano dos deuses.
verdadeira: tratando-se da narrativa do final da viagem dos portugueses, este episódio diz
apenas respeito ao plano da viagem.
!
HISTÓRIA 4 Por que via terão entrado as seguintes palavras, provenientes do latim, na língua portuguesa?
DA L Í N G UA
Consulta a Unidade 1, Porquê?
pp. 36-38, 40-41.
procella › procela (est. 71) insania › insânia (est. 89)
indomitus › indómitos (est. 84) sempiternus › sempiterno (est. 91)

4.1 Indica, nos segundo e terceiro casos apresentados, o prefixo latino aí presente e explica a ideia
que introduz.

180 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


5 Identifica os processos fonéticos assinalados na seguinte palavra.

stella › estrela (est. 85)


!
6 Reescreve os seguintes versos colocando os elementos da oração na ordem mais frequente. F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
Consulta o Caderno
• «Quebrado leva o mastro pelo meio,» (est. 75) de Funcionamento
da Língua,
• «Aquele que a salvar o mundo veio.» (est. 75) pp. 258-259, 261-265,
267-268.
• «As Alcióneas aves triste canto / Junto da costa brava levantaram,» (est. 77)
• «Enquanto manda as Ninfas amorosas / Grinaldas na cabeça pôr de rosas.» (est. 86)

6.1 Relaciona essa inversão dos elementos da oração com os efeitos rimáticos alcançados.

7 Relaciona a dupla utilização do advérbio de tempo «agora» (est. 76) e a utilização da locução
conjuncional coordenativa disjuntiva «ora… ora» (est. 80) com as ideias transmitidas.

8 Classifica as orações subordinadas presentes nas seguintes passagens.

• «Eis o mestre, que olhando os ares anda, o apito toca.» (est. 70)
• «[…] porque o vento vinha refrescando,» (est. 70)
• «Não eram os traquetes bem tomados, / Quando dá a grande e súbita procela.» (est. 71)

8.1 Que relação existe entre estas orações e a ordem dos acontecimentos narrados nas duas
estrofes iniciais deste episódio?

9 Forma frases complexas a partir das frases simples que se seguem, unindo-as com a conjunção e
as locuções conjuncionais apresentadas e fazendo as alterações que consideres necessárias.

• A fúria dos ventos era enorme. O amor saiu vitorioso. (embora)


• Deus parecia ter abandonado os portugueses. A viagem era um serviço em nome da Fé Cristã.
(ainda que)
• Os portugueses tentavam dominar as embarcações. O mar mantinha-se indomável. (se bem que)
• Os marinheiros alcançaram a terra desejada. A tempestade era muito violenta. (apesar de que)

9.1 Classifica as orações que introduziste, nas tuas frases, com a conjunção e as locuções conjun-
cionais indicadas.

P R O P O S TA D E E S C R I TA

Imagina-te na nau capitaneada por Vasco da Gama a viver todas as emoções que antecedem
a chegada à Índia, terra tão desejada! Escreve uma página do teu diário, contando o que vives
e o que sentes.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 181


Os Lusíadas: Canto VI, episódio da Tempestade

A personagem Vasco da Gama no episódio da Tempestade

Depois das celebrações para festejar as boas mentação com Deus que trata por «Tu», evocando
relações estabelecidas pelo Gama com o rei idênticas situações, solucionadas pelo seu
de Melinde, a armada parte, larga para auxílio; na queixa pessoal, quando
a Índia, com o desejo veemente dos toda a sua acção está ao «serviço
navegantes, posto nesse objectivo final. de Deus» (6,80-82); no invejar
O episódio da tempestade pode da sorte daqueles que tinham
ter origem, segundo Hernâni morrido pela «santa fé», o que
Cidade, na tempestade concreta supunha, na mentalidade
referida pelos cronistas e pelo cristã, o alcançar a «sal-
Roteiro do Gama, acontecida vação eterna»; no desejo
nesta viagem entre a Angra de de ter atingido, como eles,
S. Brás e a Terra do Natal: «à sexta- a imortalização pelas
-feira, dia de Nossa Senhora da «memórias» das letras;
Conceição, pela manhã, demos no tom emotivo desta
nossas velas e seguimos estância, bem expressos
nosso caminho. E à terça- pelas exclamações (6,83).
-feira seguinte, que era Há aqui algo de pessoal
véspera de Santa Luzia, hou- que foge ao retrato oficial
vemos ũa grande tormenta e corremos a que muitas vezes é li-
à popa com o traquete muito baixo.» mitada à personagem de
O próprio Camões tivera uma expe- Vasco da Gama.
riência concreta duma tempestade, na sua via- Aliás, esta personagem, também com vida inte-
gem para a Índia, ao dobrar o cabo, e descrita na rior, está patente ao longo do Canto V, em que ela
Elegia, O poeta Simónides, falando… relata subjectivamente as experiências passadas e
Mas também pode ter sido a descrição duma vividas com sentimentos humanos nos «adeuses
tempestade, originada a partir de todas as expe- em Belém» (4,87-93); com a pequenez e solidão
riências que o próprio Camões deve ter vivido, na sentida no vasto mar (5,3); com os sofrimentos
sua ida e vinda da Índia ou nas viagens múltiplas provenientes dos elementos naturais (5,16) e do
feitas durante a sua estadia no Oriente. escorbuto (5,81-83); com o alívio, alvoroço e curio-
A sua colocação no canto VI e no Oceano Índico sidade nas aproximações a terra (5,24-25); com o
deve ter sido para obter uma melhor distribuição espanto, a curiosidade e as interrogações perante
dos acontecimentos, tanto na estrutura da obra fenómenos naturais novos (5,14; 5,18-23; 5,81-83);
como na distribuição espacial. com os medos sofridos perante a figura sinistra e
Vasco da Gama, no auge da tempestade, vendo simbólica do Gigante Adamastor (5,37-60).
o seu altíssimo desejo, oficial e particular, de che- Têm-se atribuído ao poeta – e com certa razão
gar à Índia, em perigo de esfumar-se, sentindo mas não toda – estes sentimentos mais caracterís-
a fúria dos elementos, tolhido pelo medo e com a ticos da visão e sensação do humanista Camões,
vida em perigo, agarra-se à única tábua de salva- mas dalgum modo têm de ser atribuídas a Vasco
ção e poderoso «remédio», Deus. da Gama, pois foi a subjectividade da sua perso-
Repare-se: nas vivências da fragilidade humana nagem que os exprimiu, viveu, passou e sofreu na
em «confuso de temor, da vida incerto»; na argu- espantosa viagem marítima.
Silvério Benedito, Para uma Leitura de Os Lusíadas de Luís de Camões, Editorial Presença (texto com supressões)

182 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Ilustração de Teresa Conceição
HORIZONTE
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praia e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
‘Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa – O sonho é ver as formas invisíveis


Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Em árvores onde o Longe nada tinha; Movimentos da esp’rança e da vontade,
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: Buscar na linha fria do horizonte
E, no desembarcar, há aves, flores, A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Onde era só, de longe a abstracta linha. Os beijos merecidos da Verdade.
Fernando Pessoa, Mensagem, Ática

1 De acordo com o poema, serão as seguintes afirmações verdadeiras ou falsas? Porquê?

• O medo marcou inicialmente a relação dos portugueses com o mar.


• Os portugueses nunca se iniciaram no desconhecido.
• Os portugueses jamais tiveram a visão do longe.
• A linha abstracta do horizonte concretizou-se em coisas belas.
• Os portugueses sonharam, nas formas invisíveis do horizonte, algo que vieram a descobrir.
• O medo inicial foi vencido pela esperança e pela vontade.

2 Descobre a estrofe do poema onde são descritas as etapas da viagem marítima.

3 O horizonte é muitas vezes associado a um sonho por concretizar. O que vislumbras no teu horizonte?

Canto VII
[1] [2–14] [15–22] [23–27] [28–41] [42– 66] [67–72] [73–77] [78–87]
Narração >
A armada O poeta elogia Entrada Primeiros Visita Cria-se grande O Catual Visita do Catual O poeta invoca as
chega a o espírito de no porto contactos do mouro expectativa em terra em recebe à armada, Ninfas do Tejo e do
Calecute. cruzada dos de Calecute entre os Monçaide relação aos portugueses informações sendo recebido Mondego, enquanto
portugueses, e descrição portugueses à armada Desembarque de Vasco dos por Paulo da se queixa da sua
criticando as da terra. e os indianos. e sua da Gama e dos outros portugueses Gama, ao qual pouca sorte
nações descrição nobres, os quais são através do pergunta de poeta incompre-
estrangeiras do Malabar. recebidos pelo Catual mouro o significado endido e perseguido,
que não lhes e depois pelo Samorim, Monçaide. das figuras prometendo cantar
seguem o que dialoga com Vasco das bandeiras apenas os que
exemplo. da Gama. portuguesas. o merecerem.

Plano da viagem · Plano dos deuses · Plano da História de Portugal · Plano das intervenções do poeta

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 183


Os Lusíadas

Canto VIII
[1–43] [44–46] [47–50] [51–78] [79–90] [91–95] [96–99]
Narração >
Paulo Regresso Baco aparece Em Calecut nasce a revolta Subornado pelos muçulmanos, O Catual, com medo O poeta faz
da Gama do Catual a terra. em sonhos a um contra os portugueses. o Catual pede a Vasco da Gama de ser punido pelo considerações
explica Os magos sacerdote O Samorim, após grande que ordene a aproximação da Samorim, propõe a amargas
ao Catual prevêem, maometano, discussão com Vasco armada para poder embarcar, Vasco da Gama deixá-lo sobre o vil
as figuras nas entranhas instigando-o contra da Gama, ordena o seu sendo o seu verdadeiro reembarcar a troco poder do ouro.
pintadas nas de animais, os portugueses ao regresso à armada, propósito destruí-la. de fazendas europeias.
bandeiras a subjugação dizer-lhe que estes desejando trocar Vasco da Gama, apercebendo-se Regresso de Vasco
portuguesas. da terra aos vêm com o intuito as especiarias orientais do propósito do Catual, recusa da Gama a bordo,
portugueses. de pilhagem. pelas fazendas europeias. a proposta, pelo que fica preso. a troco das fazendas.

Canto IX
[1–12] [13 –17] [18 –50] [51– 84] [85–88] [89 –95]
Narração >
Os dois feitores portugueses encarregados de vender Tem início Vénus decide recom- Os portugueses Tétis explica a Vasco da Explicação
as mercadorias não o conseguem fazer devido a intrigas a viagem pensar os portugueses avistam a Ilha Gama a razão daquele do sentido
dos infiéis, cujo objectivo é demorá-los em terra o tempo de regresso fazendo-os chegar dos Amores, encontro, ou seja, ensinar- alegórico
suficiente até à chegada de uma armada muçulmana, à Pátria. à Ilha dos Amores, pelo desembarcam -lhe os segredos do mundo. da Ilha dos
vinda de Meca, para destruir os portugueses. que manda o seu filho e vêem as Tétis conduz Vasco da Gama Amores.
Ao tomar conhecimento desse propósito pelo Monçaide, Cupido desfechar setas Ninfas, que ao seu palácio, para que os Reflexões
bem como da prisão dos dois feitores, Vasco da Gama sobre as Ninfas, se deixam navegadores portugueses, do poeta
retém a bordo vários mercadores indianos e ordena inflamando-as de Amor perseguir na companhia das Ninfas, sobre
a partida. para receberem e seduzir. possam disfrutar do prémio os que
O Samorim ordena a restituição dos feitores portugueses apaixonadamente final. alcançam
e os mercadores indianos regressam a terra. os portugueses. a Fama.

Canto X
[1–7] [8–9] [10 –74] [75–141] [142–143] [144] [145–156]
Narração >
As Ninfas oferecem O poeta invoca A Ninfa continua Tétis conduz Vasco da Gama Os portugueses Chegada O poeta lamenta o seu próprio
um banquete Calíope, a sua profecia, ao alto de um monte, para despedem-se a Portugal. destino (que considera infeliz
aos navegadores para que lhe referindo lhe mostrar uma miniatura da Ilha por ser incompreendido pelos
portugueses na Ilha dê o gosto futuros heróis do universo, ou seja, dos Amores seus contemporâneos, entregues
dos Amores. de escrever, e governadores a Máquina do Mundo, e regressam à ganância e a uma tristeza,
Uma Ninfa profetiza expressão da Índia. e lhe indicar os lugares onde à Pátria. apagada e mesquinha), exorta
feitos gloriosos do seu amor chegará o Império Português. o Rei D. Sebastião, oferecendo-se
dos portugueses. pela Pátria. para lhe cantar feitos futuros.

Plano da viagem · Plano dos deuses · Plano da História de Portugal · Plano das intervenções do poeta

! TRABALHO DE PROJECTO
C I DA DA N I A
ESTUDO Visita de estudo a propósito de Os Lusíadas.
ACO M PA N H A D O
Informa-te sobre Propomos-te a realização de um dos itinerários abaixo apresentados:
os procedimentos do • Camões e a arte manuelina – Constância e Tomar (Igreja de S. João Baptista e Convento de Cristo);
trabalho de projecto:
Unidade 0, p. 16. • um passeio pela época quinhentista – Mosteiro dos Jerónimos, Capela de Nossa Senhora de
Belém, Torre de Belém, Padrão dos Descobrimentos e Museu de Marinha (Lisboa);
• mosteiros de encantar – Alcobaça e Batalha.
Em trabalho de grupo:
• recolhe informações sobre os pontos de interesse dos locais a serem visitados;
• selecciona e organiza a informação recolhida, com a ajuda do teu professor de Língua Portuguesa;
• recolhe informações sobre os estilos gótico e manuelino em Portugal, com a ajuda dos teus
professores de História e de Educação Visual;
• elabora o roteiro/guia da tua visita, em colaboração com os professores de Língua Portuguesa,
História, Geografia e Educação Visual.

184 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


Os Lusíadas: ficha de análise global

1 Cada uma das seguintes imagens ilustra um dos momentos de Os Lusíadas que estudaste ante-
riormente. Identifica cada momento.

Ilustração da edição de Os Lusíadas, org. Morgado de Mateus

Ilustração de Roque Gameiro

Ilustração de Roque Gameiro


Ilustração de Roque Gameiro

Ilustração da edição de Os Lusíadas, org. Morgado de Mateus

Ilustração de Roque Gameiro


1.1 Insere cada um desses momentos na estrutura interna da obra.
!
2 Completa as seguintes frases sobre aspectos relacionados com a estrutura interna de Os Lusíadas, CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
assinalando a opção correcta. Consulta a ficha
sobre a epopeia,
p. 188
• Na Proposição, o poeta… • Na Invocação geral, o poeta…
pede inspiração a entidades divinas. pede inspiração às Tágides.
anuncia o seu propósito. conta o episódio do Adamastor.
narra a história que decidiu contar. dedica o poema ao Rei de Portugal.

• A Proposição… • Na Dedicatória, o poeta dedica o poema a…


não era uma parte integrante D. Manuel.
das epopeias clássicas. D. Sebastião.
era a única parte integrante D. João I.
das epopeias clássicas.
era uma das partes integrantes
das epopeias clássicas.

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 185


Os Lusíadas: ficha de análise global

• A Dedicatória… • Falamos em plano paralelo e em plano


é uma parte obrigatória de qualquer encaixado, porque…
epopeia. Vasco da Gama conta várias histórias de
não faz parte da estrutura interna deuses, à medida que a viagem
de Os Lusíadas. prossegue, e o poeta acrescenta episódios
é uma parte opcional, que Camões da História de Portugal a essas histórias.
decidiu incluir no seu poema. O poeta narra a actuação dos deuses do
Olimpo em paralelo com o plano da
• Na Narração, o poeta conta…
viagem da descoberta do caminho
apenas a história da viagem da desco-
marítimo para a Índia e coloca, por
berta do caminho marítimo para a Índia,
exemplo, Vasco da Gama a contar ao Rei
protagonizada por Vasco da Gama.
de Melinde, em dada altura dessa
a história da viagem da descoberta do viagem, episódios da História de
caminho marítimo para a Índia, protago- Portugal, os quais surgem, portanto,
nizada por Vasco da Gama, a actuação encaixados no plano principal.
dos deuses do Olimpo relativamente
Os deuses do Olimpo contam também, e
a tal viagem, bem como vários episódios
em paralelo, a viagem da descoberta do
da História de Portugal, protagonizados
caminho marítimo para a Índia, assim
por diversos heróis nacionais.
como encaixam nessa sua narrativa os
histórias de deuses da Antiguidade vários episódios da História de Portugal.
Clássica, que são o tema central
• A expressão «narração in media res»,
do poema.
aplicável a Os Lusíadas, significa que…
• Os diferentes planos a considerar a narração da viagem da descoberta do
em Os Lusíadas são…
caminho marítimo para a Índia inicia-se
quatro: o plano da viagem da descoberta no começo da acção, isto é, com a
do caminho marítimo para a Índia (plano partida das naus na praia de Belém.
narrativo principal); o plano dos deuses
a narração da viagem da descoberta do
(plano narrativo paralelo); o plano da
caminho marítimo para a Índia inicia-se
História de Portugal (plano narrativo
quando a acção já vai a meio, isto é, no
encaixado); o plano das intervenções
momento do encontro com o Gigante
do poeta.
Adamastor, que corresponde à
dois: o plano da viagem da descoberta dobragem do Cabo da Boa Esperança.
do caminho marítimo para a Índia (plano
a narração da viagem da descoberta do
narrativo principal) e o plano dos deuses
caminho marítimo para a Índia inicia-se
(plano narrativo paralelo).
quando a acção já vai a meio, isto é,
três: o plano da viagem da descoberta quando a armada de Vasco da Gama já
do caminho marítimo para a Índia (plano navega no Oceano Índico, na zona do
narrativo principal); o plano dos deuses Canal de Moçambique.
(plano narrativo paralelo); o plano das
intervenções do poeta.

186 U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO


• Os episódios do gigante Adamastor
e da Tempestade situam-se,…
respectivamente, antes e depois do
início da narração, inserindo-se o
primeiro na narrativa de Vasco da Gama
ao Rei de Melinde.
depois do início da narração.
respectivamente, depois e antes
do início da narração, inserindo-se
o segundo na narrativa de Vasco
da Gama ao Rei de Melinde.

3 Resolve as seguintes palavras cruzadas sobre aspectos da estrutura externa de Os Lusíadas.

6 3
1 Nome de cada uma das partes em que
se divide o poema.
2 Número total dessas partes.
7
3 Número de versos em cada estrofe. 8
4 Nome das estrofes.
5 Rima presente nos seis primeiros versos
4
de cada estrofe.
2
6 Rima presente nos dois últimos versos
9
de cada estrofe.
7 Número de sílabas métricas de cada verso.
8 Nome dos versos. 5 1

9 Nome também dado aos versos por serem


acentuados nas sexta e décima sílabas.

4 Faz a escansão dos seguintes versos de Os Lusíadas.

• «Cantando espalharei por toda a parte,» (Proposição)

• «Que não tenham enveja às de Hypocrene.» (Invocação)

• «Vê-o também no meio do Hemisfério,» (Dedicatória)

• «Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:» (Narração / Consílio dos Deuses)

• «As filhas do Mondego a morte escura» (Narração / Inês de Castro)

• «Que menos é querer matar o irmão,» (Narração / Batalha de Aljubarrota)

• «A branca areia as lágrimas banhavam,» (Narração / Despedidas)

• «Medonha e má e a cor terrena e pálida;» (Narração / Adamastor)

• «Tanto os mares que em cima as revolvessem.» (Narração / Tempestade)

U N I DADE 3 – O TE XTO ÉPICO 187


FICHA DE CONCEITOS LITE RÁRIOS

A Epopeia

Género narrativo de origem remota, a epopeia tem as suas mais notáveis manifestações
literárias na Antiguidade Clássica de que são exemplos universais a Odisseia e a Ilíada, do
poeta grego Homero, e a Eneida, do poeta latino Virgílio. Foi caracterizada pelo filósofo grego
Aristóteles na primeira parte da sua Poética, logo no século iii antes de Cristo. A epopeia toma
como fonte inspiradora a memória de um feito histórico que a lenda transfigurou. Na epopeia:
• A acção deve mostrar heroísmo e grandeza e destacar acontecimentos com interesse
universal;
• O protagonista ou herói deve ser alguém que possua qualidades excepcionais;
• Deve existir uma unidade de acção (os factos devem ter uma ligação entre si);
• A inclusão de episódios, de pequenas narrativas reais ou imaginárias, serve para embe-
lezar e enriquecer a acção;
• O maravilhoso (intervenção de seres sobrenaturais) deve fazer parte da acção;
• O poeta deve intervir fazendo breves considerações pessoais, logo depois da Proposição
e da Invocação (duas das partes constituintes da epopeia);
• O início da Narração deve ser in media res, ou seja, quando a acção já se encontra numa
fase adiantada.

A estrutura de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões.

Estrutura Dez cantos • estrofes de oito versos – oitavas (num total de 1102, variando entre
externa 87, no canto vii, e 156, no canto x)
• versos decassilábicos (com predomínio dos decassilábicos herói-
cos, acentuados na 6.a e 10.a sílabas)
• esquema rimático abababcc (rima cruzada nos seis primeiros ver-
sos e emparelhada nos dois últimos)

Estrutura Quatro partes • Proposição – o poeta apresenta o assunto da sua obra (canto i,
interna constituintes estrofes 1–3)
• Invocação – o poeta pede inspiração às Tágides, musas do Rio Tejo
(canto i, estrofes 4 e 5)
• Dedicatória – o poeta dedica o poema ao Rei D. Sebastião (canto i,
estrofes 6–18)
• Narração – o poeta narra os acontecimentos da viagem de Vasco da
Gama até à Índia, iniciando-se a narração numa fase adiantada da
acção: narração in media res (início no canto i, estrofe 19)

Quatro planos • Plano da viagem – narração da acção principal, a viagem de Vasco da


Gama até à Índia (plano narrativo principal)
• Plano da História de Portugal – narração de factos alusivos à História
de Portugal (plano narrativo encaixado)
• Plano dos deuses/mitológico – intervenção dos deuses do Olimpo
na acção (plano narrativo paralelo)
• Plano das intervenções do poeta – reflexões críticas feitas pelo poeta

188 F ICHA S DE CONCE ITOS LITE RÁR IOS


UNIDADE 4

O Texto Narrativo
Contos integrais
Excertos narrativos
Contos Integrais

A AIA

Era uma vez um rei, moço e valente, senhor de um reino abundante em cidades e sea-
ras, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e triste a sua rainha e um
filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das suas faixas.
A Lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama, começa-
5 va a minguar – quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rotas, negro do san-
gue seco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma batalha perdida e da morte
do rei, trespassado por sete lanças entre a flor da sua nobreza, à beira de um grande rio.
A rainha chorou magnificamente o rei. Chorou ainda desoladamente o esposo, que
era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai que assim deixava o filhi-
10 nho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua frágil vida e do reino que seria seu,
sem um braço que o defendesse, forte pela força e forte pelo amor.
Desses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, homem deprava-
do e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só a realeza por causa dos seus
tesouros e que havia anos vivia num castelo sobre os montes, com uma horda de rebeldes, à
15 maneira de um lobo que, de atalaia no seu fojo, espera a presa. Ai! a presa agora era aquela
criancinha, rei de mama, senhor de tantas províncias, e que dormia no seu berço com seu
guizo de ouro fechado na mão!
Ao lado dele, outro menino dormia noutro berço. Mas este era um escravozinho, filho
da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. Ambos tinham nascido na mesma
20 noite de Verão. O mesmo seio os criava. Quando a rainha, antes de adormecer, vinha beijar
o principezinho, que tinha o cabelo louro e fino, beijava também por amor dele o escravo-
zinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras precio-
sas. Somente, o berço de um era magnífico e de marfim entre brocados – e o berço do outro
pobre e de verga. A leal escrava, porém, a ambos cercava de carinho igual, porque se um era
25 o seu filho – o outro seria o seu rei.
Nascida naquela casa real, ela tinha a paixão, a religião dos seus senhores. Nenhum
pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do grande rio. Per-
tencia, porém, a uma raça que acredita que a vida da Terra se continua no Céu. O rei seu
amo, decerto, já estaria agora reinando num outro reino, para além das nuvens, abundante
30 também em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os seus pajens tinham
subido com ele às alturas. Os seus vassalos, que fossem morrendo, prontamente iriam,
nesse reino celeste, retomar em torno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno,
remontaria num raio de luz a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das
suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; seria no Céu como fora na
35 Terra, e feliz na sua servidão.
Todavia, também ela tremia pelo seu principezinho! Quantas vezes, com ele pendura-
do no peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa infância, nos anos lentos que corre-
riam antes que ele fosse ao menos do tamanho de uma espada, e naquele tio cruel, de face
mais escura que a noite e coração mais escuro que a face, faminto do trono, e espreitando
40 de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua horda! Pobre principezinho da sua alma!
Com uma ternura maior o apertava então nos braços. Mas se o seu filho chalrava ao lado –

190 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


era para ele que os seus braços corriam com um ardor mais feliz.
Esse, na sua indigência, nada tinha a recear da vida. Desgraças,
assaltos da sorte má nunca o poderiam deixar mais despido das
45 glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu berço, sob o
pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A existên-
cia, na verdade, era para ele mais preciosa e digna de ser conser-
vada que a do seu príncipe, porque nenhum dos duros cuidados
com que ela enegrece a alma dos senhores roçaria sequer a sua
50 alma livre e simples de escravo. E, como se o amasse mais por
aquela humildade ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos
pesados e devoradores – dos beijos que ela fazia ligeiros sobre as
mãos do seu príncipe.
No entanto um grande temor enchia o palácio, onde agora
55 reinava uma mulher entre mulheres. O bastardo, o homem de
rapina, que errava no cimo das serras, descera à planície com a sua
horda, e já através de casais e aldeias felizes ia deixando um sulco
de matança e ruínas. As portas da cidade tinham sido seguras com
cadeias mais fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas à
60 defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa como uma
espada. Toda a nobreza fiel perecera na grande batalha. E a rainha
desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao berço do seu
filhinho e chorar sobre ele a sua fraqueza de viúva. Só a ama leal
parecia segura – como se os braços em que estreitava o seu prínci-
65 pe fossem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia pode
transpor.
Ora uma noite, noite de silêncio e escuridão, indo ela a
adormecer, já despida, no seu catre, entre os seus dois meninos,
adivinhou, mais que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga,
70 longe, à entrada dos vergéis reais. Embrulhada à pressa num
pano, atirando os cabelos para trás, escutou ansiosamente. Na
terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e
rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando mole-
mente, sobre lajes, como um fardo. Descerrou violentamente a
75 cortina. E além, ao fundo da galeria, avistou homens, um clarão
de lanternas, brilhos de armas… Num relance tudo compreen- Os Espinhos
Vermelhos,
deu – o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu príncipe! Então, pormenor
rapidamente, sem uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o príncipe do seu berço de mar- de pintura de
Odilon Redon
fim, atirou-o para o pobre berço de verga – e tirando o seu filho do berço servil, entre bei-
80 jos desesperados, deitou-o no berço real que cobriu com um brocado.
Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sobre a
cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que erguiam lanternas. Olhou – cor-
reu ao berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança, como se arranca uma
bolsa de ouro, e abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente.

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 191


Contos Integrais

85 O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na treva.
Mas brados de alarme atroaram de repente o palácio. Pelas janelas perpassou o longo fla-
mejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater das armas. E desgrenhada, quase nua, a
rainha invadiu a câmara, entre as aias, gritando pelo seu filho. Ao avistar o berço de marfim,
com as roupas desmanchadas, vazio, caiu sobre as lajes, num choro, despedaçada. Então cala-
90 da, muito lenta, muito pálida, a ama descobriu o pobre berço de verga… o príncipe lá estava,
quieto, adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus
cabelos de ouro. A mãe caiu sobre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto.
E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão das guar-
das, a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, porém, mais tristeza que triunfo. O bastardo
morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e a cidadela, esmagado
pela forte legião de archeiros, sucumbira, ele e vinte da sua horda.
O seu corpo lá ficara, com flechas no flanco, numa poça de san-
gue. Mas, ai! dor sem nome! O corpozinho tenro do príncipe lá
ficara também, envolto num manto, já frio, roxo ainda das mãos
ferozes que o tinham esganado!… Assim tumultuosamente lan-
çavam a nova cruel os homens de armas – quando a rainha, des-
lumbrada, com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lho
mostrar, o príncipe que despertara.
Foi um espanto, uma aclamação. Quem o salvara? Quem?…
Lá estava junto do berço de marfim, vazio, muda e hirta, aquela
que o salvara! Serva sublimemente leal! Fora ela que, para conser-
var a vida ao seu príncipe, mandara à morte o seu filho… Então,
só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria extática, abraçou
Perfil de Mulher, apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã
pormenor do seu coração… E de entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova, arden-
de pintura de
Odilon Redon te aclamação, com súplicas de que fosse recompensada, magnificamente, a serva admirável que
salvara o rei e o reino.
Mas como? Que bolsas de ouro podem pagar um filho? Então um velho de casta nobre
lembrou que ela fosse levada ao tesouro real, e escolhesse de entre essas riquezas, que eram
115 como as maiores dos tesouros da Índia, todas as que o seu desejo apetecesse…
A rainha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse a rigidez,
com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim conduzida para a câmara dos
tesouros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam num respeito tão comovido que ape-
nas se ouvia o roçar das sandálias nas lajes. As espessas portas do tesouro rodaram lenta-
120 mente. E, quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, já clara e rósea,
entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de
ouro e pedrarias! Do chão de rocha até às sombrias abóbadas, por toda a câmara, reluziam,
cintilavam, refulgiam os escudos de ouro, as armas marchetadas, os montões de diamantes,
as pilhas de moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino, acumuladas
125 por cem reis durante vinte séculos. Um longo «ah!», lento e maravilhado, passou por sobre
a turba que emudecera. Depois houve um silêncio, ansioso. E no meio da câmara, envolta
na refulgência preciosa, a ama não se movia… Apenas os seus olhos, brilhantes e secos, se

192 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


tinham erguido para aquele Céu que, além das grades, se tingia de rosa e de ouro. Era lá,
nesse Céu fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava lá, e já o Sol se
130 erguia, e era tarde, e o seu menino chorava decerto, e procurava o seu peito!… Então a ama
sorriu e estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar, aquele lento mover da sua mão aber-
ta. Que jóia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de rubis, ia ela escolher?
A ama estendia a mão – e sobre um escabelo ao lado, entre um molho de armas, agar-
rou um punhal. Era um punhal de um velho rei, todo cravejado de esmeraldas, e que valia
135 uma província.
Agarrara o punhal, e com ele apertado fortemente na mão, apontando para o Céu,
onde subiam os primeiros raios do Sol, encarou a rainha, a multidão, e gritou:
— Salvei o meu príncipe — e agora vou dar de mamar ao meu filho!
E cravou o punhal no coração.
Eça de Queirós, Contos, Lello e Irmãos Editores

Eça de Queirós (1845–1900)


Nasceu na Póvoa do Varzim e faleceu em Paris. É um dos maiores escritores da literatura por-
tuguesa. Autor de uma vasta obra, encontra-se traduzido em várias línguas. Formado em
Direito pela Universidade de Coimbra, foi advogado, jornalista, ensaísta e diplomata. Fez parte
da chamada «Geração de 70», movimento contestatário composto por um grupo de intelec-
tuais, do qual faziam parte Antero de Quental, Teófilo Braga, Guerra Junqueiro, entre outros.
Introduziu o Realismo em Portugal, expondo, de forma realista, os males sociais do seu tempo.
Algumas obras: O Crime do Padre Amaro; A Relíquia; A Cidade e as Serras; Os Maias.
!
CO N C E I TO S
1 De acordo com o conto, assinala a hipótese correcta e justifica a tua opção. L I TE R Á R I O S
Consulta a ficha sobre
• O conto «A Aia»… • Entre o principezinho e o escravozinho… o texto narrativo,
pp. 217-218,
tem um começo típico de um conto não existem quaisquer semelhanças. e a ficha sobre o
tradicional. existem semelhanças e diferenças. processo figurativo,
pp. 271-272.
não tem um começo típico de um
• A Aia acreditava…
conto tradicional.
apenas na vida terrena.
• Ao partir para terras distantes, o rei deixa na vida eterna.
um reino…
• A Aia demonstra…
rico e próspero, mas desprotegido.
pobre, cheio de problemas por resolver. sentimentos absolutamente idênticos
pelas duas crianças.
• A rainha chora a morte do rei… sentimentos diferentes pelas duas
como esposa desolada e triste. crianças.
como rainha, como esposa e como mãe.
• O bastardo e a sua horda…
• A segurança do reino encontra-se atacam o reino.
ameaçada por causa… decidem não atacar o reino.
da inocência do principezinho.
• Ao pressentir o perigo, e sem hesitar,
do tio, irmão bastardo do rei.
a Aia salva…
o principezinho.
o escravozinho.

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 193


Contos Integrais

• O bastardo e a sua horda… • A Aia suicida-se porque…


conseguem alcançar os seus objectivos. cumpriu a sua missão terrena e vai
são derrotados. cuidar do filho.
se sente culpada.
• A rainha…
não reconhece a lealdade da serva.
reconhece a lealdade da serva
e decide recompensá-la.

2 Trata-se de uma narrativa aberta ou fechada? Justifica.

3 Resolve as palavras cruzadas com os adjectivos correspondentes aos substantivos indicados.


Consulta o dicionário para esclareceres as tuas dúvidas.

1. ambição 9

2. angústia 16 18
15
3. beleza
4. coragem 10 14

5. crença 17 12
21
6. crueldade
13 19
7. desespero
3 2
8. ferocidade
11 4
9. gratidão
10. lealdade
11. maldade 5

12. perspicácia 8
6
13. poder
7
14. preocupação
15. respeito
20
16. riqueza 19. tristeza
17. robustez 20. valentia
1
18. ternura 21. violência

3.1 Completa o quadro, distribuindo os adjectivos anteriormente encontrados e de acordo com


o tipo de caracterização das personagens do texto. Deverás alterar o género dos adjectivos,
de acordo com a personagem em causa.
REI RAI NHA AIA TIO

Caracterização
directa

Caracterização
indirecta

3.1.1 Retira algumas passagens do texto que permitam justificar a caracterização indirecta de
cada uma das personagens.

194 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


4 Atenta na construção das personagens dos dois bebés e transcreve os diminutivos que os referem.

4.1 Relaciona a utilização dos diminutivos com as características dessas personagens.

5 Identifica a comparação utilizada na caracterização do tio bastardo (linhas 36–40).

5.1 De que forma essa comparação acentua o contraste existente entre as figuras do tio e do
principezinho?

6 Recolhe alguns elementos que descrevam o espaço físico do conto.

7 Dá exemplos de algumas palavras ou expressões do texto pertencentes ao campo semântico da


riqueza.

7.1 Relaciona a utilização desse campo semântico com a caracterização do espaço social em
que a acção se desenrola.

8 Atenta no momento em que a Aia é conduzida à câmara do tesouro (linhas 116–126). Identifica,
justificando, as três figuras de estilo aí utilizadas.

8.1 Que modo de representação do discurso predomina nesse excerto? Porquê?

9 Concentra-te no momento em que a Aia, pressentindo o perigo, troca os bebés de berço (linhas
76–80). Faz o levantamento dos verbos que contribuem para o avanço da acção.

9.1 Que modo de representação do discurso predomina nesse excerto?

10 Com base no texto, completa o seguinte quadro.

REFE RÊNCIAS TEMPORAIS ACO N T E C I M E N TO S

Lua cheia Partida do rei


Lua a minguar
Noite de Verão
Antes de adormecer Rainha beija os bebés
Noite Ataque ao palácio
Noite
Noite
Noite Morte dos inimigos
Escolha do punhal
Raiar do Sol

11 A noite pode significar a escuridão onde o conhecimento toma forma e também a preparação
de um novo dia, de onde a luz da vida surgirá. Atenta nas linhas 67–80 e diz que relação poderá
existir entre a simbologia da noite e os acontecimentos relatados.

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 195


Contos Integrais

12 Classifica o narrador quanto à participação/não participação e quanto à sua subjectividade/objec-


tividade. Justifica a tua resposta com exemplos do texto.
!
F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
13 «[…] rei, moço e valente, […]» é um exemplo de dupla adjectivação, recurso estilístico tão utili-
Consulta o Caderno zado ao longo do conto. Transcreve outros exemplos de dupla adjectivação.
de Funcionamento
da Língua, 13.1 Qual o objectivo do seu emprego recorrente?
pp. 243-244,
256-259, 261-265,
267-269. 14 Atenta na seguinte passagem do texto: «Desses inimigos o mais temeroso era seu tio […]»
(linha 12) e indica o grau em que o adjectivo se encontra.

14.1 Reescreve esse adjectivo no grau superlativo absoluto sintético.

15 Localiza no texto os seguintes advérbios e sublinha as palavras que eles intensificam ou determi-
nam: «magnificamente» (linha 8); «desoladamente» (linha 8); «ansiosamente» (linha 9); «senti-
damente» (linha 27); «molemente» (linhas 73–74); «violentamente» (linha 74); «Bruscamente»
(linha 81).

15.1 De que forma o uso do advérbio contribui para o enriquecimento da linguagem?

16 «Mas à defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa como uma espada.» (linhas 59–61).
Forma uma nova frase, unindo as duas frases do texto com uma conjunção (ou locução conjun-
cional) subordinativa causal.

16.1 Identifica, sublinhando, a oração subordinada da tua frase.

17 Identifica os elementos da oração assinalados na seguinte passagem.

• « A mãe caiu sobre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto» (linha 92).

17.1 Indica a classe morfológica da palavra «como».

17.1.1 Classifica a oração introduzida por essa palavra.

18 Identifica, com exemplos, diferentes tipos de frase utilizados no conto.

19 Atenta no penúltimo parágrafo do texto e explica por que razão é aí utilizado o discurso directo.

20 «Quem o salvara? Quem?…» (linha 104). Estas palavras do narrador fazem também parte do
discurso da personagem colectiva. Que personagem é essa?

20.1 Que nome dás a este discurso proferido simultaneamente pelo narrador e pela personagem?

P R O P O S TA D E E S C R I TA

Tendo em conta a leitura do conto, elabora um texto de acordo com um dos seguintes provér-
bios: «A ambição cerra o coração» ou «Querer é poder».

196 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


MESTRE FINEZAS

Agora entro, sento-me de perna cruzada, puxo um cigarro, e à pergunta de sempre


respondo soprando o fumo:
— Só a barba.
Ora é de há pouco este meu à-vontade diante de mestre Ilídio Finezas.
5 Lembro-me muito bem de como tudo se passava. Minha mãe tinha que fingir-se zan-
gada. Eu saía de casa, rente à parede, sentindo que aquilo era pior que ir para a escola.
Mestre Finezas puxava um banquinho para o meio da loja e enrolava-me numa enor-
me toalha. Só me ficava a cabeça de fora.
Como o tempo corria devagar!
10 A tesoura tinia e cortava junto das minhas orelhas. Eu não podia mexer-me, não
podia bocejar sequer. — «Está quieto, menino» — repetia mestre Finezas segurando-me
a cabeça entre as pontas duras dos dedos: — «Assim, quieto!» — Os pedacitos de cabelo
espalhados pelo pescoço, pela cara, faziam comichão e não me era permitido coçar. Por
entre as madeixas caídas para os olhos via-lhe, no espelho, as pernas esguias, o carão seve-
15 ro de magro, o corpo alto curvado. Via-lhe os braços compridos, arqueados como duas
garras sobre a minha cabeça. Lembrava uma aranha.
E eu – sumido na toalha, tolhido numa posição tão incómoda que todo o corpo me
doía – era para ali uma pobre criatura indefesa nas mãos de mestre Ilídio Finezas.
Nesse tempo tinha-lhe medo. Medo e admiração. O medo resultava do que acabo de
20 contar. A admiração vinha das récitas dos amadores dramáticos da vila.
Era pelo Inverno. Jantávamos à pressa e nessas noites minha mãe penteava-me com
cuidado. Calçava uns sapatos rebrilhantes e umas peúgas de seda que me enregelavam os
pés. Saíamos. E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila, eu conhecia pela voz
famílias que caminhavam na nossa frente e outras que vinham para trás. Depois, ao entrar
25 no teatro, sentia-me perplexo
no meio de tanta luz e gente
silenciosa. Mas todos pareciam
corados de satisfação.
Daí a pouco, entrava num
30 mundo diferente. Que coisas
estranhas aconteciam! Ninguém
ali falava como eu ouvia cá fora.
E mesmo quando calados tinham
outro aspecto; constantemente a
35 mexerem os braços. Mestre Fine- Sol sobre a
zas era o que mais se destacava. E nunca, que me recorde, o pano desceu, no último acto, com Aldeia, pormenor
de pintura de
mestre Finezas ainda vivo. Quase sempre morria quando a cortina principiava a descer e, na Marc Chagall
plateia, as senhoras soluçavam alto.
Aquelas desgraças aconteciam-lhe porque era justo e tomava, de gosto, o partido dos
40 fracos. E, para que os fracos vencessem, mestre Finezas não tinha medo de nada nem de
ninguém. Heroicamente, de peito aberto e com grandes falas ia ao encontro da morte.

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 197


Contos Integrais

Eu arrepiava-me todo. Uma noite mestre Finezas morreu logo no primeiro acto. Foi
um desapontamento. Todos criticaram pelo corredor, no intervalo. — «O melhor artista
morrer mal entra em cena…! Não está certo! Agora vamos gramar quatro actos só com
45 canastrões!» — dizia o doutor delegado a meu pai.
Mas a cena tinha sido tão viva e a sua morte tão notada durante o resto do espectá-
culo que, no outro dia, me surpreendi ao vê-lo caminhando em direcção à loja.
Ora havia também um outro motivo para a minha admiração. Era o violino. Mestre
Finezas, quando não tinha fregueses, o que era frequente durante a maior parte do dia,
50 tocava violino. E muita vez aconteceu eu abandonar os companheiros e os jogos e quedar-
-me, suspenso, a ouvi-lo, de longe.
Era bem bonito. Uma melodia suave saía da loja e enchia a vila de tristeza.
Passaram anos. Um dia, parti para os estudos. Voltei homem. Mestre Finezas é ainda a
mesma figura alta e seca. Somente tem os cabelos todos brancos.
55 — Olha bem para mim, — pede-me às vezes — olha bem e diz lá se este é o mesmo
homem que tu conheceste?…
Finjo-me admirado de uma tal pergunta. Procuro convencê-lo de que sim, de que
ainda é. Compreende as minhas mentiras e abana docemente a cabeça:
— Estou um velho, Carlinhos…
60 Vou lá de vez em quando. A loja está sempre deserta. As mãos muito trémulas de
mestre Finezas mal seguram agora a navalha. E também abriram, na vila, outras barbea-
rias cheias de espelhos e vidrinhos, e letreiros sobre as portas a substituírem aquela bola
com um penacho que mestre Finezas ainda hoje tem à entrada da loja.
Mestre Finezas passa necessidades. Vive abandonado da família, com a mulher entreva-
65 da, num casebre próximo do castelo. Eu sou o seu único confidente e um dos raros fregueses.
Algo de comum nos aproximou. Ilídio Finezas sonhou ser um grande artista, ir para
a capital, e quem sabe se pelo mundo fora. Eu falhei um curso e arrasto, por aqui, uma
vida de marasmo e ociosidade. Há entre mim e esta gente da vila uma indiferença que não
consigo vencer. O meu desejo é partir breve. Mas não vejo como. E, quando o presente é
70 feio e o futuro incerto, o passado vem-nos sempre à ideia como o tempo em que fomos
felizes. Daí eu ser o confidente de mestre Finezas.
Ele ajuda as minhas recordações, contando-me dos dias a que chama da «sua glória».
Estamos sozinhos na loja. De navalha em punho, mestre Finezas declama cenas inteiras dos
«melhores dramas que ainda se escreveram». E há nele uma saudade tão grande das noites
75 em que fazia soluçar de amor e mágoa as senhoras da vila, que, amiúde, esquece tudo o que
o cerca e fica, longo tempo, parado. Os seus olhos ganham um brilho metálico. Fixos,
olham-me mas não me vêem. Estão a ver para lá de mim através do tempo.
Lentamente, aflora-lhe aos lábios, premidos e brancos, um sorriso doloroso.
— Eu fui o maior artista destas redondezas… — murmura.
80 Na cadeira, com a cara ensaboada, eu revivo a infância e sonho o futuro. Mestre
Finezas já nem sonha; recorda só.
— A navalha magoa-te?
Uma onda de ternura por aquele velho amolece-me. Dá-me vontade de lhe dizer que
não, que a navalha não magoa e nem sequer a sinto. O que magoa é ver a presença da

198 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


O Tempo é um Rio
sem Margens,
pormenor
de pintura
de Marc Chagall

85 morte alastrando pela paredes escuras da loja, escorrendo dos papéis caídos do tecto,
envolvendo-o cada vez mais, dobrando-lhe o corpo para o chão…
Mas mestre Finezas parece nada disto sentir. Salta de um assunto para outro com
facilidade. Preciso de tomar atenção para lhe seguir o fio do pensamento. Agora faz-me
queixas da vila. E termina como sempre:
90 — Esta gente não pensa noutra coisa que não seja o negócio, a lavoura. Para eles, é
a única razão da vida…
Volto a cabeça e olho-o. Sei o que vai dizer-me. Vai falar-me do abandono a que o
votaram. Vai falar-me do teatro, da música, da poesia. Vai repetir-me que a arte é a mais
bela coisa da vida. Mas não. Já nos entendemos só pelo olhar. Mestre Finezas salta por
95 cima de tudo isto e ergue a navalha num lance teatral:
— Que sabem eles da arte? Tu que estudaste, tu sabes o que é a arte. Eles hão-de mor-
rer sem nunca terem gozado os mais belos momentos que a vida pode dar.
Atravessou a loja, abriu um armário cavado na parede, e tirou o violino.
— Eu não te disse nada, Carlinhos… mas, olha, tenho vendido tudo para não mor-
100 rer de fome… Tudo. Mas isto!…
Estendeu o violino na minha direcção e continuou reprimindo um soluço:
— Isto nem que eu morra!… É a minha última recordação…

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 199


Contos Integrais

Calou-se por muito tempo com os olhos no chão. Depois, de boca muito descerrada,
disse-me como quem pede uma esmola:
105 — Tu queres ouvir uma música que eu tocava muito, Carlinhos?…
— Quero… — respondi forçando um sorriso de agrado.
Nem me ouviu. Estava, ao meio da loja, entre mim e a porta e prendia o violino no
queixo.
O arco roçou pelas cordas e um murmúrio lento começou, no silêncio que vinha das
110 ruas da vila e enchia a casa.
Lentamente, o fio de música ia engrossando. Era agora mais forte – agudo, desam-
parado como um choro aflito. E demorava, ondeava por longe, vinha e penetrava-me de
uma sensação dolorosa.
Levantei-me, de toalha caída no peito, cara ensaboada, preso não sei de que vagos
115 desgostosos pensamentos. Talvez pensasse em fugir, pedir-lhe que não tocasse mais aque-
la música desafinada e triste.
Mas, na minha frente, mestre Finezas, alheio a tudo, fazia gemer o seu violino, as suas
recordações. O sol da meia tarde entrava pela porta e aureolava-o de uma luz trémula. E
erguia o corpo como levado na toada que os seus dedos desfiavam; ficava nos bicos dos
120 pés, todo jogado para o tecto.
De súbito, uma revoada de notas soltaram-se, desencontradas, raivosas. Encheram a
loja, e ficaram vibrando…
Os braços caíram-lhe para os lados do corpo. Numa das mãos segurava o arco, na
outra o violino. E, muito esguio, macilento, mestre Finezas curvou a cabeça branca, deva-
125 gar, como a agradecer os aplausos de um público invisível.
Manuel da Fonseca, Mestre Finezas (in Aldeia Nova), Editorial Caminho

Manuel da Fonseca (1911–1993)


Escritor português, nascido em Santiago do Cacém. Concluiu os estudos secundários em
Lisboa. Colaborou em revistas literárias e fez parte do grupo do Novo Cancioneiro. Poeta e fic-
cionista, aderiu à corrente do neo-realismo, o qual assentava na vontade de participar na cons-
trução de uma sociedade nova, apostando na apresentação do movimento próprio do mundo
social e no contacto permanente com os homens, seus problemas e aspirações, pelo que ao
escritor caberia a missão de imergir no mundo exterior e solidarizar-se com os fenómenos em
seu redor. Algumas obras: Rosa-dos-Ventos; Aldeia Nova; Cerro Maior; Seara de Vento.

!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
1 De acordo com o texto, serão as seguintes afirmações verdadeiras ou falsas? Porquê?
Consulta a ficha sobre
o texto narrativo,
• O narrador é também personagem.
pp. 217-218,
e a ficha sobre
• O protagonista é o narrador.
o processo figurativo,
pp. 271-272.
• Só existem duas personagens no conto.
• A acção decorre num tempo único.
• O teatro é o espaço com maior destaque ao longo do conto.

200 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


2 Diz qual das dimensões temporais, passado e presente, é introduzida na narrativa pelas seguintes
passagens.

• «Agora entro, sento-me de perna cruzada […]» (linha 1);


• «Lembro-me muito bem de como tudo se passava.» (linha 5);
• «Passaram anos. Um dia, parti para os estudos. Voltei homem.» (linha 53).

3 Tendo em conta os momentos do texto correspondentes à introdução dessas dimensões tempo-


rais, parece-te haver coincidência entre a ordem real ou cronológica e a ordem textual dos acon-
tecimentos? Porquê?

4 Refere os espaços físicos correspondentes a cada momento do texto.

5 Caracteriza o espaço social do conto.

5.1 Que diferenças descobres no conto ao nível do passado e do presente desse espaço?

6 Observando agora a relação entre as duas personagens destacadas no texto, refere-te à sua
evolução em termos de sentimentos e formas de tratamento entre ambas.

6.1 Que características as aproximam no presente?

7 Faz o retrato físico da personagem principal, de acordo com as informações dadas no texto
quanto ao seu passado e presente.

8 Que diferenças encontras no texto entre o enquadramento social passado dessa personagem e o
presente?

8.1 Quais são as suas consequências relativamente ao retrato psicológico da personagem no


presente?

9 Descobre no texto marcas da subjectividade do narrador.

9.1 Poderá essa subjectividade relacionar-se com a utilização da 1.a pessoa, ao longo do conto?
Porquê?

10 Retira do conto um exemplo para cada modo de representação do discurso.

• narração;
• descrição;
• diálogo.

11 «—Isto nem que eu morra!… É a minha última recordação…» (linha 102). Explica o contexto em
que surgem estas palavras.

11.1 Relaciona-as com o final do conto.

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 201


Contos Integrais

12 Identifica as figuras de estilo empregues nas seguintes passagens e explica o seu significado.

• «Como o tempo corria devagar!» (linha 9);


• «Via-lhe os braços compridos, arqueados como duas garras sobre a minha cabeça. Lembrava
uma aranha.» (linhas 15–16);
• «Uma onda de ternura por aquele velho amolece-me.» (linha 83);
• «[…] mestre Finezas, alheio a tudo, fazia gemer o seu violino, as suas recordações.» (linhas
117–118).
!
F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
13 Indica os advérbios e a locução adverbial utilizados nas seguintes passagens e a subclasse a
Consulta o Caderno que pertencem.
de Funcionamento
da Língua,
pp. 246-248, • «Agora […] sento-me de perna cruzada.» (linha 1);
256-257, 261-265,
267-268.
• «Nesse tempo tinha-lhe medo.» (linha 19);
• «[…] mestre Finezas morreu logo […]» (linha 42).

13.1 Refere os tempos verbais empregues, justificando a sua utilização nessas passagens.

13.2 Indica o tipo de conjugação verbal empregue nas duas primeiras passagens.

14 «Uma melodia suave saía da loja e enchia a vila de tristeza» (linha 52). Divide e classifica as
orações desta frase.

14.1 Classifica agora o sujeito de cada oração.

14.2 Transforma sucessivamente a frase, de modo a conter duas orações coordenadas:

• adversativas;
• disjuntivas;
• conclusivas.

! P R O P O S TA D E E S C R I TA
ESTUDO
ACO M PA N H A D O Mestre Finezas, artista talentoso, foi esquecido pela grande maioria dos seus conterrâneos,
Consulta a Unidade 0,
p. 20, sobre o texto
que antes o haviam admirado e respeitado. Será este o destino inevitável de todos os que enve-
expositivo. lhecem? Se não, como é então possível evitá-lo? Com base no que possas ter observado ou
ouvido contar sobre alguém nas condições do mestre Finezas ou em condições contrárias, cria
um pequeno texto expositivo onde dês a tua opinião sobre este assunto.

202 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


ASSOBIANDO À VONTADE

Àquela hora o trânsito complicava-se. As lojas, os escritórios, algumas oficinas, atiravam


para a rua centenas de pessoas. E as ruas, as praças, as paragens dos eléctricos, que tinham
sido planeadas quando não havia nas lojas, nos escritórios e nas oficinas tanta gente, ficavam
repletas dum momento para o outro. Nos largos passeios das grandes praças havia encon-
5 trões. As pessoas de aprumo tinham de fechar os olhos àquele desacato e não viam remédio
senão receber e dar encontrões também e praguejar algumas vezes. Os eléctricos apinhavam-
-se na linha à frente uns dos outros. Seguiam morosamente, carregados até aos estribos e por
fora dos estribos, atrás, no salva-vidas, com as tais centenas de pessoas que saltavam àquela
hora apressadamente das lojas, dos escritórios, das oficinas. Além disso, nos dias bonitos
10 como aquele, as ruas da Baixa enchiam-se de elegantes que iam dar a

Ilustração de Teresa Conceição


sua volta, às cinco horas, pelas lojas de novidades e pelas casas de chá,
para matar o tempo de qualquer maneira, ver caras conhecidas, cum-
primentar e ser cumprimentadas, e só voltavam a casa à hora do jantar.
A multidão propunha uma confraternização à força. Era preciso
15 pedir desculpa ao marçano que se acabava de pisar, implorar às pessoas
penduradas no eléctrico que se apertassem um pouco mais para se poder
arrumar um pé, nada mais que um pé, num cantinho do estribo, muitas
vezes sorrir para gente que nunca se tinha visto antes e apetecia insultar.
Os elegantes e as elegantes achavam naturalmente tudo isto muito abor-
20 recido. Sobretudo a necessidade absoluta de seguir naquelas plataformas
repletas em que não viajavam só cavalheiros, mas muitos homenzinhos
pouco correctos e onde esses mesmos homenzinhos e mulheres vulgares deitavam um cheiro
insuportável. Que fazer, no entanto, senão atirar-se uma pessoa também para aquele mar de
gente que empurrava, furava, pisava e barafustava até chegar ao carro? Que fazer senão
25 empurrar, furar, pisar e barafustar também?
O carro seguia morosamente e repleto como os outros. Felizmente, ainda havia alguns
homens correctos na cidade e algumas mulherezinhas que conheciam o seu lugar. Só graças
a isso as senhoras que tinham arriscado os seus sapatos e os seus chapéus naquela refrega e
alguns cavalheiros respeitáveis conseguiam sentar-se.
30 Nos primeiros momentos de viagem, as pessoas voltavam-se nos bancos, preocupadas, ten-
tando ver se o marido, uma amiga, um filho, não teriam ficado em terra. Os que seguiam de pé
ousavam dar um passo no interior do carro, a ver se teria ficado algum lugar vago por acaso.
Havia logo protestos na plataforma. Depois as pessoas acomodavam-se o melhor que podiam,
punham os braços no ar para livrar os embrulhos do aperto, fechavam bem os casacos e as
35 malas onde levavam o dinheiro, o condutor puxava energicamente o cordão da campainha
muitas vezes, lotação completa, e o carro arrastava-se em silêncio.
Os senhores respeitáveis, com compreensível e muda zanga dos companheiros do lado,
começavam a desdobrar os jornais da tarde e a ler as notícias por alto. As senhoras, visivelmen-
te mal dispostas, compunham os chapéus e as golas dos casacos. Tiravam os espelhinhos da
40 mala e passavam tudo em revista: o chapéu, os cabelos, os olhos, os lábios. Era incrível. Uma
tinha ficado com o chapéu completamente de banda, outra perdera uma luva na confusão.

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 203


Contos Integrais

Depois guardavam os espelhos, acomodavam-se melhor, percorriam com os dedos os anéis


duma mão e da outra, para ver se estavam no lugar, se estavam todos. Olhavam umas para as
outras, muito sérias, como quem não repara em nada. Recuperavam pouco a pouco a dignida-
45 de que aquele despropósito da subida para o carro evaporara.
Nas curvas, as rodas chiavam nas calhas, debaixo do grande peso. Silêncio enfim — embo-
ra de vez em quando cortado pela campainha, quando alguém tinha a triste ideia de querer
descer, pelo desdobrar dos jornais, pela voz dos populares, encaixados na plataforma da frente.
Tudo voltara à normalidade. A marcha do carro, a cobrança dos bilhetes, a separação entre
50 as pessoas, que rigorosamente não conseguiam separar-se umas das outras um centímetro que
fosse. E, assim, morosamente, por curvas e rectas, por ruas e praças, aquele carro cumpria o
seu destino de acarretar gente e ser insultado, numa das várias linhas que ligavam o centro da
cidade aos bairros relativamente novos, onde a separação entre a chamada classe média e as
camadas mais baixas da população não fora ainda convenientemente estabelecida.
55 Em dada altura, porém, na plataforma de trás levantou-se burburinho. Protestos. Indig-
nação. Cabeças voltaram-se no interior do carro. E viu-se um homenzinho a empurrar toda
a gente e a dizer que havia lugares à frente, que o deixassem passar. Em vão lhe asseguravam
que não havia lugar nenhum, que não podia passar, que não fosse bruto. O homem empur-
rava e teimava que havia lugares à frente. Tanto empurrou que furou. Tanto furou que con-
60 seguiu entrar no interior do eléctrico, avançou e foi sentar-se num lugar de lado que estava
efectivamente vago lá à frente, ao lado duma senhora por sinal opulenta.
Foi um espanto geral e silencioso. Ninguém tinha reparado no lugar. E menos que nin-
guém, como é fácil de compreender, a própria senhora opulenta. Todos os atrevidos têm sorte.
O homem, que usava um chapéu coçado e um sobretudo castanho bastante lustroso nas
65 bandas, não se sentou propriamente. Enterrou-se no lugar, com as mãos enfiadas pelas algi-
beiras dentro. Que sujeito! Devia ser mais novo do que parecia por causa do cabelo grisalho e
da barba por fazer. A senhora opulenta franziu a testa e remexeu-se no lugar, se assim se pode
dizer, como quem procura ocupar menos espaço. Na verdade, apenas se instalou melhor. A
sua intenção era fazer o homenzinho reparar na inconveniência da atitude que tomara. Mas
70 ele não viu nada disso ou fingiu que não viu. Olhou vagamente as pessoas que tinha na fren-
te, estendeu os lábios e começou a assobiar. A assobiar muito à vontade no interior do carro!
Primeiro, foi um assobio baixinho, pouco seguro, imperceptível quase. Depois, a pouco
e pouco, o sujeitinho entusiasmou-se. E o assobio aumentou de intensidade. Ouvia-se já
em todo o eléctrico. Os passageiros, que tinham recuperado com tanto custo a sua dignida-
75 de, fingiam que não davam pelo homem nem pelo assobio. E sossegaram quando o condu-
tor se dirigiu ao recém-vindo. Ia aconselhá-lo a calar-se, com certeza. Mas qual! Com o
maço dos bilhetes na mão e de alicate espetado, limitou-se a dizer: «O senhor?» O passagei-
ro tirou a mão da algibeira e, sem deixar de assobiar, estendeu-a com a palma voltada para
cima. Esperou que lhe levassem a moeda, recebeu o bilhete e tornou a enfiar a mão pela
80 algibeira dentro. Toda a gente seguia a cena, interessada. Mas, quando o homem olhou as
pessoas, ao acaso, voltaram todas os olhos como se ele afinal não existisse.
O assobio, umas vezes, era baixo, mal se ouvia, outras vezes, alto, muito alto, com trinados
ridículos e irritantes. Ninguém sabia o que ele assobiava. E o homem também não. Qualquer
coisa que lhe apetecia que fosse assim mesmo. Às vezes repetia os sons como um estribilho.

204 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


Ilustração de Teresa Conceição
85 Outras vezes, porém, a maior parte das vezes, passava a novas combinações, ora brandas, ora
violentas, sem querer saber para nada das que ficavam para trás.
As pessoas começavam a olhar umas para as outras à socapa. Já se tinha visto coisa
assim? Um ou outro cavalheiro levantava os olhos do jornal, franzia a testa, fitava com
dureza o homem do chapéu coçado e sobretudo castanho, na esperança de que ele, enver-
90 gonhado, parasse com aquilo. A senhora opulenta, no auge do espanto, nem se atrevia a
olhar para lado nenhum, vexadíssima porque, sem ter culpa nenhuma, se encontrava em
plena zona do escândalo. A que uma pessoa está sujeita!
E, no silêncio do carro, o assobio aumentava de volume. Talvez, no fundo, aquele gorjeio
ridículo não fosse desagradável de todo. Simplesmente, um eléctrico não é o local mais pró-
95 prio para exibições daquelas. Porque não interferiria o condutor? O condutor era a autoridde
do carro. Porque não interferiria? Estava-se a ver. Era tão bom como ele. A verdade, porém, é
que não se conhecia nenhum regulamento que impedisse os passageiros de assobiar. Colados
aos vidros do eléctrico, havia papéis que proibiam fumar, cuspir no carro. Era proibido abrir
as janelas durante os meses de Inverno. Mas nem uma palavra a respeito de assobios.
100 De repente, uma criança que ia sentada junto duma janela e já se sentia enfastiada de olhar
para a rua interessou-se pelo homem. Achava-lhe tanta graça, com o seu chapéu coçado, o seu
sobretudo castanho, o seu assobio… Era uma criança muito pálida, de cabelos louros e encara-
colados, vestida de azul. Interessou-se tanto pelo homem que começou a bater palmas. Mas
uma senhora nova e bonita, que ia ao lado dela, segurou-lhe as mãos com gentileza e afastou-
105 -lhas. Devia ir calada e quietinha. Era muito feio fazer barulho no eléctrico. Uma menina bonita
não fazia barulho. «Que disse eu à minha filha?» No entanto, a senhora nova e bonita não anti-
patizava com o homem. Olhava os embrulhos de papel vistoso que trazia nos joelhos e pensava:
se não pudesse mais e começasse também a assobiar? No fundo, admirava a sem-cerimónia do
homem do chapéu coçado. Não seria adorável ela própria, uma senhora casada e mãe duma
110 garota de cinco anos, começar a assobiar num eléctrico se lhe apetecesse? Quando era da idade
da filha, a senhora bonita ia muitas vezes ao campo vestida com coisas velhas para poder atirar-
-se para a relva à vontade. Tinha uma voz muito suave e muito fresca, gostava de fazer precisa-
mente aquilo que uma menina bonita não deve fazer. Os amigos do pai pegavam-lhe ao colo,

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 205


Contos Integrais

atiravam-na ao ar. E ela ria, ria, ria até ficar sufocada. A mãe dizia: «Pronto, pronto, vamos a ter
115 juízo, não se ri assim dessa maneira.» E, quanto mais lho diziam, mais lhe apetecia, rir, rir, rir.
De vez em quando, um passageiro saía. A plataforma do carro ia-se esvaziando. E, pouco a
pouco, os que ficavam foram-se habituando àquele estúpido assobio. Os cavalheiros tinham
esquecido os jornais. Algumas senhoras sorriam. Já se vira um disparate assim? Principalmente
a senhora opulenta não podia mais. Apertava os lábios. Sentada num banco de lado, encontra-
120 va os olhos de toda a gente. Era irresistível. E a senhora bonita pensava em ar livre e nos tempos
da infância. Na escola aprendera a assobiar e a lançar o pião. Havia vozes que tinham ficado
dentro dela: «Uma menina a assobiar, Nini?»
Em dada altura, o homem, sem deixar de assobiar, levantou-se e puxou o cordão da cam-
painha. Era um homenzinho insignificante, ainda novo e já de cabelos grisalhos, chapéu
125 coçado, sobretudo castanho muito lustroso nas bandas. Mas havia nele uma indiferença sobe-
rana pelo eléctrico inteiro. Toda a gente o olhava. Com desprezo? Com ironia? Com inveja?
Abriu a porta, fechou-a e saltou com o carro ainda em andamento.
As pessoas voltaram-se então umas para as outras, não resistiram mais e riram mesmo.
Que homenzinho patusco! Desculpavam-se, explicavam-se sem palavras. Entendiam-se.
130 Um minuto de simplicidade e simpatia iluminou-as. A criança que batera palmas limpou
com a mão o vidro embaciado da janela à procura do estranho passageiro. Viu-o atravessar a
rua, seguir pelo passeio agarrado às casas, desaparecer.
Só então a senhora nova e bonita, que era a mãe da criança, abriu os olhos. Ninguém
hoje lhe chamava Nini. Nini era a filha. Ela agora é que dizia à filha: «Uma menina a asso-
135 biar, Nini! Uma menina bonita não faz barulho.»
Ficara nos lábios e nos olhos de todos um sorriso de bondosa ingenuidade. Depois esse
sorriso foi-se apagando. Morreu. As pessoas tomaram consciência da sua momentânea que-
bra de compostura. Lembraram-se dos seus embrulhos, dos seus anéis, dos seus jornais.
Que patetice! Não havia outra palavra para aquilo. Que patetice! Os cavalheiros recomeça-
140 ram a ler os títulos das notícias. As senhoras deram um toque nas golas dos casacos. A
criança tornou a olhar para a rua.
Tudo voltou, pesadamente, a encher-se de silêncio e dignidade.
Mário Dionísio, in O Dia Cinzento e Outros Contos, Publicações Europa-América

Mário Dionísio (1916–1993)


Escritor português, nascido em Lisboa. Formou-se em Filologia Românica na Faculdade de
Letras de Lisboa, onde veio a leccionar, após vários anos como professor de liceu. Para
além de ficcionista, foi poeta, ensaísta, pintor e crítico de artes plásticas. Algumas obras:
Introdução à Pintura; Poesia Incompleta; Monólogo a Duas Vozes; Terceira Idade.

!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S 1 Divide o conto em três partes e atribui um título a cada uma, justificando as tuas opções.
Consulta a ficha sobre
o texto narrativo,
2 Identifica o espaço exterior e o espaço interior onde decorre a acção do conto.
pp. 217-218,
e a ficha sobre o
processo figurativo, 2.1 Qual deles te parece ter maior importância quanto ao desenvolvimento da acção? Porquê?
pp. 271-272.

206 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


3 «A multidão propunha uma confraternização à força» (linha 14). Explica esta frase, por palavras
tuas, apoiando-te nas informações dadas no texto.

4 Identifica a figura de estilo presente na expressão «aquele mar de gente» (linhas 23–24) e expli-
ca-a por palavras tuas.

5 Refere três personagens que te pareçam salientar-se no conto, justificando as tuas opções.

6 Concentra-te nas linhas 123–127. Que contraste descobres entre o aspecto físico e o aspecto
psicológico da personagem aí caracterizada, segundo a opinião dos que a observam?

6.1 Relaciona o comportamento evidenciado por tal personagem, ao longo da viagem, com esse
seu aspecto psicológico.

7 Concordas com a última frase do texto? Porquê?


!
F U N C I O N A M E N TO
8 «Primeiro, foi um assobio baixinho, pouco seguro, imperceptível quase. Depois, a pouco e pouco, DA L Í N G UA
o sujeitinho entusiasmou-se» (linhas 72–73). Identifica a classe e a subclasse das palavras des- Consulta o Caderno
de Funcionamento
tacadas. da Língua,
pp. 240-243,
8.1 Justifica a sua utilização nesse momento do texto. 246-248, 256-257,
268-269.

8.1.1 Substitui a expressão «a pouco e pouco» por uma palavra com sentido próximo e da
classe morfológica das mencionadas no exercício anterior.

8.2 Que sentido atribuis ao diminutivo «sujeitinho», empregue neste momento do texto?

8.3 Identifica o tipo de conjugação verbal utilizado na segunda frase transcrita.

9 Justifica o predomínio das formas verbais nas linhas 23–25.

10 Retira do conto dois exemplos de discurso directo e dois exemplos de discurso indirecto livre.

D E B AT E !
C I DA DA N I A
No conto «Assobiando à Vontade», alguém tem comportamentos que, à partida, incomodam ESTUDO
ACO M PA N H A D O
outras pessoas, pelo que parecem confrontar-se, neste texto, os direitos de uns e a liberdade
Consulta a Unidade 0,
de outrem. p. 16, sobre as regras
do debate.
• Ao expressar a sua liberdade, estará aquele passageiro em especial a desrespeitar, de facto,
os direitos dos seus companheiros de viagem? Porquê?
• Que situações do teu dia-a-dia associas à situação do conto? Porquê?
• De que forma poderão os nossos direitos/liberdades não entrar em confronto com os direitos/
liberdades dos outros?

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 207


Excertos Narrativos

UMA AVENTURA

António de Faria, homem sagaz e de sangue-frio, mal viu os juncos amarrados um ao


outro, procurou fugir para o largo, não só para não lhes deixar perceber a nossa nacionali-
dade, mas ainda para termos ocasião de concertar a defesa. Eles, porém, não menos expe-
rientes, temendo que a presa lhes escapasse, desataram-se logo, e correram à abordagem,
5 lançaram-nos as suas infinitas armas de arremesso, o que nos obrigou a buscar refúgio na
coberta. Daí, durante coisa de meia hora, esteve António de Faria jogando com eles as
arcabuzadas, na manha de lhes fazer gastar as munições. E, em verdade, atacaram-nos
com tal prodigalidade, que o convés ficou juncado de ferraria.
De súbito, quarenta dos inimigos assaltaram o junco pela proa, decididos a acabar. Saiu
10 António de Faria a fazer-lhes frente com vinte e cinco soldados e uma dúzia de escravos e mari-
nheiros, com tal ardor e denodo que, em menos de nada, derrubou vinte e seis e atirou os res-
tantes pela borda. E, para remate do êxito, arrojando-se sobre o junto inimigo, tomou-o sem
grande resistência, visto a guarnição de peleja estar desbaratada e a do mar render-se. A esta,
necessária para a mareação dos nossos navios, se poupou a vida.
15 Ultimado aquele lance, acudiu António de Faria a Cristóvão Borralho, cuja lorcha, abor-
dada pelo segundo junco, não se encontrava, para que digamos, em excelente postura. Com o
reforço que lhes chegou, a vitória decidiu-se pelos nossos, mortos ou afogados os inimigos.
Fez-se resenha daquele encontro; havíamos perdido um português, cinco escravos e
nove marinheiros, sem contar os feridos; o agressor tivera oitenta mortos e quase outros
20 tantos feridos.
Recolhidos os que andavam à tona de água nas vascas da agonia, perguntou-se-lhes
quem eram e como se chamava o seu capitão. Mas eles deixavam-se morrer sem abrir a
boca. De repente ouviu-se a voz de Borralho do outro junco:
— Acuda, acuda cá depressa, senhor, que temos ainda pano para mangas!
25 Saltou logo o capitão para o outro junco com dezasseis soldados, de armas na mão:
— Que há?
— Há que na proa deste navio está muita gente escondida. Ouvi grande gritaria…
Correram à proa e com resguardo e silenciosa expectativa se abriu a escotilha. Entre
urros e prantos, ouviu-se um lancinante clamor: «Senhor Deus, misericórdia!» E quem José Ruy, Fernão Mendes Pinto e a sua Peregrinação, Meribérica Liber

208 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


30 haviam de ser? Nada menos de dezassete pessoas cristãs, dois homens e cinco meninos de
nação portuguesa com duas moças e oito moços escravos. Traziam golilhas ao pescoço e
algemas nas mãos, que logo lhes foram serradas. E um dos portugueses contou que acabá-
vamos de ter batalha com o temível pirata renegado chamado, pelo nome gentio, Necodá
Xicaulem, pelo nome cristão, Francisco de Sá, que assim o baptizara Garcia de Sá, capitão
35 de Malaca.
Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, adaptação de Aquilino Ribeiro, Livraria Sá da Costa

Fernão Mendes Pinto (1510/14–1583)


Escritor português, nascido em Montemor-o-Velho. Veio como criado para Lisboa ainda na
adolescência. Nessa cidade tiveram início as suas aventuras. Em 1537 embarcou para a Índia,
permanecendo vinte e um anos fora do reino. Durante esse período foi soldado, marinheiro,
comerciante, pirata, feitor e diplomata. Segundo afirma, foi «treze vezes cativo e dezassete
vendido». Viajou por todo o Oriente, de Meca à Mongólia, do Tibete ao Japão. Foi amigo de
São Francisco Xavier e, depois da morte deste, fez-se jesuíta, partindo para o Japão em 1554.
Dois anos depois, abandonou a Companhia de Jesus e o Japão, regressando a Lisboa em 1558. Adquiriu então
uma pequena propriedade no Pragal, perto de Almada, onde se instalou com a família e onde escreveu a sua
obra Peregrinação, a qual se inscreve no campo da literatura de viagens.
Na Peregrinação, Fernão Mendes Pinto conta as suas inúmeras aventuras, as quais parecem aproximar-se
mais da fantasia do que da realidade, muito embora o autor as narre com realismo, dando pormenores geográ-
ficos e cronológicos, relatos de costumes chineses, japoneses e de outros povos asiáticos assim como um
retrato, nem sempre favorável, da presença portuguesa no Oriente do século xvi. Sendo o protagonista de tais
aventuras, não se apresenta como herói mas sim como um pobre diabo que pagou pelos seus pecados. A Pere-
grinação de Fernão Mendes Pinto só seria publicada em 1614, aparentemente com alterações e lacunas.
!
CO N C E I TO S
1 De acordo com o exemplo, escolhe o significado mais adequado a cada vocábulo do texto. Consulta L I TE R Á R I O S
o dicionário para esclareceres as tuas dúvidas. Consulta a ficha sobre
o texto narrativo,
pp. 217-218.
«sangue-frio» (linha 1) serenidade ódio
«juncos» (linha 1) embarcações armas
«abordagem» (linha 4) conversação assalto
«arcabuzadas» (linha 7) cartas estrondos
«prodigalidade» (linha 8) superabundância escassez
«ferraria» (linha 8) água ferros
«denodo» (linha 11) incerteza bravura
«peleja» (linha 13) paz combate
«mareação» (linha 14) condução afundamento
«lorcha» (linha 15) templo embarcação
«resenha» (linha 18) contagem esquecimento
«vascas» (linha 21) náuseas delícias
«escotilha» (linha 28) alçapão varandim
«golilhas» (linha 31) manchas argolas

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 209


Excertos Narrativos

2 Neste texto é-nos narrado um combate. Indica:

• o espaço onde decorre; • as duas personagens que lideram essas partes;


• as partes envolvidas; • o seu desenlace.

3 Descobre no texto algumas marcas da participação do narrador.

3.1 Será este narrador objectivo/imparcial ou subjectivo/parcial? Porquê?

4 Explica o significado da expressão «temos ainda pano para mangas» (linha 24), de acordo com
o contexto em que surge.
!
F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
5 Identifica os elementos da oração assinalados na seguinte passagem.
Consulta o Caderno
de Funcionamento • « António de Faria, homem sagaz e de sangue-frio, mal viu os juncos amarrados um
da Língua,
pp. 243-244,
258-259, 261-265,
ao outro procurou fugir para o largo […]» (linhas 1–2)
267-268.

5.1 Identifica a classe e a subclasse da palavra «mal».

5.1.1 Indica a oração introduzida por essa palavra, classificando-a.

5.2 Identifica a classe morfológica da palavra «sagaz».

5.2.1 Classifica-a quanto ao género e ao número.

6 Propomos-te a leitura na íntegra de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, adaptação de


Aquilino Ribeiro. Podes fazer o levantamento de alguns dos locais percorridos por Fernão
Mendes Pinto na sua aventura (a qual começa logo entre Lisboa e Setúbal,
quando a caravela em que seguia é aprisionada e roubada por um corsário fran-
cês) e tentar situá-los geograficamente assim como caracterizá-los, com a ajuda
de um atlas e/ou do teu professor de Geografia. Podes ainda fazer o retrato de
personagens da obra, como por exemplo o famoso corsário António de Faria, ou
escolher um episódio que consideres particularmente emocionante e recontá-lo.
Podes também fazer o levantamento de alguns dos costumes orientais descritos
na obra ou retirar exemplos do olhar crítico quer de algumas personagens quer do próprio autor
em relação à presença portuguesa no Oriente.

! P R O P O S TA D E E S C R I TA
ESTUDO
ACO M PA N H A D O Imagina que também tu realizas uma viagem aventurosa, repleta de incidentes. Cria um texto
Consulta a Unidade 0,
pp. 17-19, sobre a
narrativo onde contes um episódio dessa tua viagem. Podes incluir na tua narrativa a descrição
criação do texto do lugar onde decorre o episódio, o retrato das personagens intervenientes, bem como os seus
narrativo, do texto
descritivo, do retrato diálogos.
e do diálogo.

210 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


O DUELO

O velho teria gostado de conservar mais tempo a mão na água salgada, mas temia outro
sacão brusco do peixe, e endireitou-se, passou os braços no banco, e pôs a mão ao sol. Era
apenas uma esfoladela da linha, que o corta-
ra até à carne. Mas era na parte útil da mão.
5 E sabia que, antes do fim, precisaria das
mãos, e não gostava de se ver cortado antes
daquilo principiar.
O velho vira muito peixe graúdo. Vira
muitos que pesavam mais de quinhentos
10 quilos, e pescara já dois dessa envergadura,
mas nunca só. E agora, só, sem terra à vista,
estava amarrado ao maior peixe que jamais
vira, maior do que jamais ouvira, e a mão
esquerda continuava enclavinhada como as
15 garras de uma águia.
«Há-de abrir-se, pensou. Não há-de
deixar de se abrir, para ajudar a mão direita. O Peixe Dourado,
Há três coisas que são irmãs: o peixe e as minhas duas mãos. Tem de abrir-se. É indecente pintura de
Paul Klee
estar assim». O peixe abrandara o andamento, voltara à velocidade habitual.
20 «Porque terá ele saltado?, pensou o velho. Saltou quase que para me mostrar como
era grande. Seja como for, já sei. Quem me dera poder mostrar-lhe que homem eu sou. É
melhor ele julgar que sou mais homem do que sou, e assim serei. Quem me dera ser o
peixe, com tudo o que ele tem, só contra a minha vontade e a minha inteligência».
Instalou-se confortavelmente contra a madeira, e aceitou o sofrimento tal qual vinha,
25 e o peixe nadava firmemente, e o barco ia devagar na água escura. Estava a levantar-se um
pouco de mar, trazido pelo vento leste, e ao meio-dia a mão esquerda do velho voltara a si.
— Más notícias, peixe — disse, e acomodou a linha no saco que lhe cobria os ombros.
Sentia-se bem, mas sofria, embora não admitisse que sofria.
— Não sou religioso. Mas vou dizer dez Padre-Nossos e dez Avé-Marias, para que apa-
30 nhe este peixe, e prometo ir em peregrinação à Virgem de Cobre, se o apanhar. Isto é promessa.
Começou a dizer mecanicamente as orações. Às vezes estava tão cansado que não se
lembrava da oração, e tinha de as dizer depressa, para que saíssem automaticamente. E
pensou: as Avé-Marias são mais fáceis de dizer que os Padre-Nossos.
— Avé Maria, cheia de Graça, o Senhor é convosco. Bendita sois Vós entre as mulhe-
35 res, bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós,
pecadores, agora e na hora da nossa morte. Ámen. — E, depois, acrescentou: — Santa
Virgem, roga pela morte deste peixe. Apesar de ele ser maravilhoso.
Ditas as orações, sentindo-se muito melhor, mas sofrendo exactamente na mesma,
ou talvez um pouco mais, recostou-se na madeira da proa e começou, mecanicamente, a
40 mexer os dedos da mão esquerda.
O sol estava quente, embora estivesse a levantar-se levemente uma brisa.

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 211


Excertos Narrativos

— O melhor é eu iscar essa linhazita pendurada à popa. Se o peixe decide passar mais
outra noite, hei-de precisar de comer, e a água é pouca na garrafa. Não me parece que apa-
nhe por aqui mais que um peixito. Mas, se o comer bem fresco, não cairá mal. Quem me
45 dera que, esta noite, me saltasse para bordo um peixe-voador. Mas não tenho luz para os
atrair. Um peixe-voador cru é excelente, e não tinha de o arranjar, pois preciso de poupar
as forças. Deus meu, não supunha que ele fosse tão grande!
— Mas hei-de matá-lo! Em toda a sua magnificência e glória.
«Embora seja injusto, pensou. Mas hei-de mostrar-lhe do que um homem é capaz e
50 o que pode aguentar».
Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, tradução de Jorge de Sena, Edição «Livros do Brasil» (texto com supressões)

Ernest Hemingway (1889–1961)


Escritor norte-americano, nascido em Chicago. Filho de um médico, herdou do seu pai o
gosto pelos desportos, em especial a caça e a pesca. Torna-se jornalista e escritor, viaja mui-
tíssimo e inspira-se nas suas vivências para escrever os seus livros. Combateu nas duas
guerras mundiais e foi correspondente na Guerra Civil de Espanha. Sendo considerado um
dos maiores escritores do século xx, recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1954.
Suicidou-se a 2 de Julho de 1961. Algumas obras: Fiesta; O Adeus às Armas; Por Quem os
Sinos Dobram; O Velho e o Mar.
!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
1 Localiza a acção no espaço e no tempo. Justifica a tua resposta com expressões do texto.
Consulta a ficha sobre
o texto narrativo, 2 Concentra-te no parágrafo inicial e refere o incidente que preocupa o velho.
pp. 217-218,
e a ficha sobre o
processo figurativo,
2.1 Qual o motivo de tal preocupação? Justifica a tua resposta com expressões do texto.
pp. 271-272.
3 Trata-se de um pescador experiente ou inexperiente? Porquê?

4 Identifica, justificando, a figura de estilo empregue no segundo parágrafo do texto.

5 «Quem me dera poder mostrar-lhe que homem eu sou.» (linha 21). A que ser se refere o pescador?

5.1 Que ligação estabelece com esse ser?

6 Caracteriza a personagem do velho pescador, baseando-te no que o narrador nos diz e também
nas suas próprias atitudes.

7 Tendo em conta a forma de pensar do pescador, explica a seguinte passagem do texto: «Embora
seja injusto, pensou. Mas hei-de mostrar-lhe do que um homem é capaz e o que pode aguentar.»
! (linhas 49–50).
F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA
8 Analisa sintacticamente os segmentos assinalados nas seguintes passagens.
Consulta o Caderno
de Funcionamento
da Língua,
• « — Más notícias, peixe —»
pp. 246-248,
258-259, 261-265, • « — Deus meu, não supunha que ele fosse tão grande!»
267-268.

212 U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO


9 «O sol estava quente, embora estivesse a levantar-se levemente uma brisa». Analisa sintacti-
camente os segmentos assinalados.

9.1 Indica a classe morfológica da palavra «embora».

9.1.1 Classifica a oração introduzida por essa palavra.

9.2 Refere o tempo e o modo das formas verbais «estava» e «estivesse».

9.3 Reescreve a frase indicada na questão 9, começando por «O sol está…».

9.3.1 Que alterações sofreram as formas verbais?

10 Propomos-te a leitura na íntegra de O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, de


modo a saberes como o corajoso pescador enfrenta o espadarte de dimensões
invulgares e o traiçoeiro mar. Selecciona um dos vários momentos da obra,
atribui-lhe um título e elabora o seu resumo.

P R O P O S TA D E E S C R I TA

Continua o texto, imaginando um desenlace para o duelo entre o pescador e o peixe.

UMA EXPERIÊNCIA DE SONHO

Chegadas a casa, tia Vitória levou-a para o seu quarto. Abriu o imenso guarda-vestidos
que, como o pesado baú, tinha sempre fechado, e pôs-se a tirar os preparos. Surgiu o velho e
lindo vestido azul pálido, com preciosos raminhos cor de oiro – relíquia de qualquer bisavó.
Guarnecido a franzidos duma larga fita de seda marfim antigo,
5 levantava-se atrás em tufados e laços que as duas mulheres arran-
jaram como puderam. Mas tia Vitória saiu-se ainda com finos
sapatinhos de cetim, que não ficaram mal a Rosa Maria, embora
um bocadinho largos; meias a dizer; fitas para enastrar nos cabelos
com flores de veludo; um leque de marfim; e até um lindo colar
10 (fossem, ou não valiosas as pedras) que tirou do célebre baú, vol-
tando-se para não deixar ver o mais que lá tivesse.
A toilette levou-lhes muito tempo: era preciso ajustar,
coser aqui e além, o penteado não foi fácil, e tia Vitória quis até
que Rosa Maria se pintasse um pouco. No fim, estivessem, ou
15 não, morfologicamente condizentes as várias peças, o conjunto
resultou encantador. Tia Vitória admirava, enlevada, a sua
obra. E Rosa Maria sorria, sem dar por isso, mirando-se em
corpo inteiro ao espelho. O decote era bastante ousado, via-se Nu Sentado
num Divã,
aparecer o fino sulco entre os seios solevados pelo corpete espartilhado… Percebendo a pormenor
20 hesitação da sobrinha, tia Vitória meteu-lhe no decote uma rosa de renda que velava o nas- de pintura
de Modigliani
cer das suaves redondezas. Pôs-lhe, depois, aos ombros uma capa muito rica, toda veiada

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 213


Excertos Narrativos

de reflexos marmoreados, – também desencantada no maravilhoso guarda-vestidos; e disse


com visível satisfação:
— Vamos, que já não deve ser cedo! Ora veremos se não metes a Lá-Lá num chinelo,
25 com os seus penduricalhos de cigana…
Estas expressões não agradaram a Rosa Maria. A gratidão que estava sentindo por tia
Vitória arrefeceu um pouco: tinha, agora, a certeza, pelo tom em que a tia Vitória falara,
que ela odiava Lá-Lá; – e sobretudo procurava atingi-la, humilhá-la (talvez, mesmo, atingir
e humilhar a própria tia Alice) apresentando mais bela a sobrinha pobre… Caindo em si,
30 teve como que um arrependimento, ou um desgosto, de ser aquela espécie de manequim,
instrumento de não sabia bem que vingança. Consolou-a a ideia de aparecer bela aos olhos
de Fernando. E tudo aquilo lhe parecia passar-se não bem na existência ordinária, mas
numa vida irreal semelhante à dos sonhos.
Pararam dentro de minutos, e já encontraram uns cinco ou seis carros na estrada. Os
35 assaltantes haviam chegado, as senhoras e um ou outro cavalheiro de carro, os mais novos a
pé. A casa estava cheia de luz; já havia serpentinas e papelinhos pela escada. Contratado para
tocar, o Saraivinha martelava um maxixe no piano mais ou menos desafinado. Tia Vitória
pegou na mão de Rosa Maria e entraram na sala. Apesar de o maxixe continuar, requebrado
e brutal, alguns pares se detiveram. Os rapazes abriram passagem e deram palmas à recém-
40 -chegada. Tia Vitória levava-a de modo a chamar sobre ela as atenções, afastando-a um pouco
de si como apresentando-a, num palco, aos aplausos do público. E Rosa Maria avançou,
toda a tremer interiormente mas com um sorriso imóvel nos lábios, meio estonteada pelas
luzes, defendida, em parte, pela pintura contra a palidez que subitamente sentira invadi-la:
palidez de orgulho, de temor, de exaltação… Não havia dúvida: era um sucesso!
José Régio, Davam Grandes Passeios aos Domingos, Editores Associados

José Régio (1901–1969)


Escritor português, nascido em Vila do Conde. Licenciado em Filologia Românica pela Facul-
dade de Letras de Coimbra, foi professor de liceu no Porto e em Portalegre. Foi co-fundador
da revista e do movimento literário da Presença. A sua escrita capta as inquietações do seu
mundo interior, com as suas aspirações variadas, e da condição humana, com as suas con-
tradições e oscilações. Algumas obras: Poemas de Deus e do Diabo; Jogo da Cabra-Cega; As
Encruzilhadas de Deus; O Príncipe com Orelhas de Burro; A Velha Casa.

!
CO N C E I TO S
L I TE R Á R I O S
1 Divide o texto em duas partes, referindo o acontecimento que marca cada uma.
Consulta a ficha sobre
o texto narrativo, 2 Indica o(s) espaço(s) físico(s) respeitante(s) a cada parte do texto.
pp. 217-218,
e a ficha sobre o
processo figurativo, 3 Nomeia as personagens comuns às duas partes do texto e explica a relação existente entre elas.
pp. 271-272.
3.1 Classifica-as quanto ao seu relevo, justificando.

3.2 Atenta nas outras personagens referidas nas linhas 24–33. De acordo com as informações
dadas, que sentimentos despertarão elas nas personagens que mencionaste anteriormente?

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4 «E tudo aquilo lhe parecia passar-se não bem na existência ordinária, mas numa vida irreal seme-
lhante à dos sonhos» (linhas 32–33). Relaciona esta passagem com o acontecimento narrado no
parágrafo seguinte.

5 Descobre a época festiva em que decorre a acção.

5.1 Parece-te possível que o dia em que decorre a acção possa vir a ser recordado, em especial,
por alguma personagem? Por quem e porquê?

6 Refere-te ao narrador do texto, no que diz respeito à participação/não participação e ao seu !


conhecimento do que narra. Justifica as tuas opções. HISTÓRIA
DA L Í N G UA
Consulta a Unidade 1,
7 «A toilette levou-lhes muito tempo» (linha 12). Procura num dicionário a origem da palavra p. 43.
salientada e classifica-a, tendo em conta essa sua origem.
!
8 Retira oito atributos presentes nas linhas 2–11. F U N C I O N A M E N TO
DA L Í N G UA

9 Indica a função sintáctica das expressões salientadas nas seguintes passagens: «fita de seda» Consulta o Caderno
de Funcionamento
(linha 4); «sapatinhos de cetim» (linha 7); «flores de veludo» (linha 9); «leque de marfim» (linha 9). da Língua,
pp. 238-239,
246-248, 261-265.
10 Relaciona as funções sintácticas referidas nos dois exercícios anteriores com o modo de repre-
sentação do discurso utilizado nessa passagem do texto.

11 Que figura de estilo te parece salientar-se nessa mesma passagem, contribuindo também ela
para o modo de representação do discurso aí utilizado? Dá um exemplo do texto.

12 Faz o levantamento das formas verbais que sugerem acções de personagem nas linhas 1–2.

12.1 Identifica o tempo verbal empregue e justifica a sua utilização.

13 Justifica o uso dos sinais de pontuação presentes na linha 44.

14 Sugerimos-te a leitura na íntegra de Davam Grandes Passeios aos Domingos,


de José Régio. Elege uma das personagens que povoam essa obra, acompa-
nhando o seu percurso ao longo do conto a que pertence. Faz o levantamento
dos aspectos que consideres mais interessantes acerca da mesma e partilha-
-os com os teus colegas, referindo também os motivos por que a elegeste entre
todas as outras. Podes também criar um diálogo imaginário com essa perso-
nagem, dando-lhe a possibilidade de «falar» sobre si mesma.

P R O P O S TA D E E S C R I TA !
ESTUDO
ACO M PA N H A D O
Como observaste, uma das personagens do texto causa grande sensação entre os convivas de
Consulta a Unidade 0,
determinada festa. Imagina, agora tu, uma personagem incrivelmente capaz de captar a atenção p. 18, sobre o retrato.
dos outros, criando o texto onde faças o seu retrato.

U N I DADE 4 – O TE XTO N ARRAT IVO 215


Excertos Narrativos

O OBSERVADOR

Era um copo facetado, uma mesa de mármore negro com


veios brancos como rastos de nuvens. A superfície escura do café
baixava no copo, foi por fim o resto barrento e pastoso do açúcar.
E M teve enfim de encarar a multidão. Num extremo do café,
que assim longo sugeria um troço de estrada subterrânea, a porta 5

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