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A Mensagem de

Eclesiastes

Derek Kidner
Editor - Antigo Testam ento---------------

J.A. M otyer
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apenas para avaliação, e, se gostar, abençoe autores, editoras livrarias,
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Se m ead o res da Pa l a v r a e-books evangélicos

A Mensagem de
Eclesiastes

Derek Kidner

A MENSAGEM DE ECLESIASTES
© Inter-Varsity Press, Leicester, Inglaterra

A Mensagem de Eclesiastes, de Derek Kidner, foi publicado em inglês em 1976 pela Inter-Varsity
Press, Inglaterra, com o título A time to mourn, and a time to dance.
A tradução em português e a publicação e distribuição pela ABU Editora, nos países de fala
portuguesa é um projeto de David C. Cook Foundation, uma organização filantrópica
constituída segundo as leis do Estado de Illinois, cuja finalidade é a divulgação do evangelho de
Cristo.

Direitos reservados pela


ABU Editora SC
Caixa postal 30505
01051 - São Paulo - SP

Tradução de Yolanda Mirdsa Krievin


Revisão de estilo de Silêda Silva Steuernagel e Milton A. Andrade
Revisão de provas de Solange Domingues da Silva

O texto bíblico utilizado neste livro é o da Edição Revista e Atualizada no Brasil, da Sociedade
Bíblia do Brasil, exceto quando outra versão é indicada. Comentários do autor quanto às
diferentes versões inglesas foram, sempre que possível, adaptados às principais versões da
Bíblia em português.

1â Edição - 1989

2
Conteúdo
Primeira Parte ...................................................................................................................................................... 5
O que este livro está fazendo na Bíblia? - Uma visão geral................................................................. 5
Segunda Parte..................................................................................................................................................... 10
O que o livro diz! - um breve comentário.............................................................................................. 10
Eclesiastes 1:1-11 - O autor, o tema e o reconhecimento do cenário......................................... 10
Eclesiastes 1:12-2:26 - Em busca de satisfação.................................................................................13
Eclesiastes 3:1-15 - A tirania do tem po.............................................................................................. 18
Eclesiastes 3:16-4:3 - A aspereza da vida..........................................................................................20
Eclesiastes 4:4-8 - Corrida desenfreada............................................................................................ 22
Primeiro Resumo: Retrospectiva de Eclesiastes 1 :1 -4 :8 ............................................................... 23
Eclesiastes 4:9-5:12 - Interlúdio: Algumas reflexões, máximas e verdades............................. 24
Eclesiastes 5:13-6:12 - A amargura do desapontamento.............................................................. 28
Segundo Resumo: Retrospectiva de Eclesiastes 4 :9 -6 :1 2 .............................................................. 32
Eclesiastes 7:1-22 - Interlúdio: Mais reflexões, máximas e verdades......................................... 32
Eclesiastes 7:23-29 - A busca continua.............................................................................................. 35
Eclesiastes 8:1-17 - Frustração............................................................................................................37
Eclesiastes 9:1-18 - Perigo....................................................................................................................40
Terceiro Resumo: Retrospectiva de Eclesiastes 7 :1 -9 :1 8 ............................................................. 44
Eclesiastes 10:1-20 - Interlúdio: Sê prudente!.................................................................................. 44
Eclesiastes 11:1-12:8 - Em direção do alvo.......................................................................................48
Eclesiastes 12:9-14 - Conclusão........................................................................................................... 53
Terceira Parte.....................................................................................................................................................56
E nós, o que temos a dizer? - um epílogo ............................................................................................. 56

Prefácio Geral
A Bíblia Fala hoje constitui uma série de exposições tanto do Antigo como do Novo
Testamento, que se caracterizam por um triplo objetivo: expor acuradamente o texto bíblico,
relacioná-lo com a vida contemporânea e proporcionar uma leitura agradável.
Esses livros não são, pois, “comentários”, já que um comentário busca mais elucidar o
texto do que aplicá-lo, e tende a ser uma obra mais de referência do que literária. Por outro lado,
esta série também não apresenta aquele tipo de “sermões” que, pretendendo ser
contemporâneos e de leitura acessível, deixam de abordar a Escritura com suficiente seriedade.
As pessoas que contribuíram nesta série unem-se na convicção de que Deus ainda fala
através do que já falou, e que nada é mais necessário para a vida, o crescimento e a saúde das
igrejas ou dos cristãos do que ouvir e atentar ao que o Espírito lhes diz através da sua Palavra,
tão antiga e, mesmo assim, sempre atual.

J.A. Motyer
J.R.W. Stott
Editores da série

3
Prefácio do Autor
Qualquer pessoa que leia as Escrituras (até mesmo o menos eclesiástico dos homens) há
de deparar-se com o espírito altamente independente e muito fascinante. Isto me leva a dizer
duas coisas.
Primeiro, desejo agradecer ao editor desta série por me dar uma desculpa para estudar o
livro mais detalhadamente do que nunca.
Segundo, quero sugerir que alguns leitores fariam bem em passar diretamente à Segunda
Parte, um breve comentário, onde ouvirão o próprio Pregador, com interrupções minhas, é claro,
sem aguardar o exame pretendido na Primeira Parte. Isso depende da pessoa: se ela prefere
primeiro ter um mapa das coisas ou mergulhar diretamente, andando às apalpadelas.
De qualquer maneira, que seja uma viagem rumo ao alvo.

Derek Kidner
Tyndale House
Cambridge

Principais Abreviaturas
ANET Ancient N ear Eastern Texts (Textos Antigos do Oriente Próximo) de
J.B. Pritchard (2âed., OUP, 1955)
AT Antigo T estamento
Barton Ecclesiastes (Eclesiastes) de G.A. Barton (International Critical
Commentary, Comentário Crítico Internacional), (T.&T. Clark, 1908)
BJ Bíblia de Jerusalém, 1966
BLH Bíblia na linguagem de Hoje (SBB)
BV A Bíblia Viva (Ed Mundo Cristão)
Delitzsch The Song o f Songs and Ecclesiastes (O Cântico dos Cânticos e
Eclesiastes) de F. Delitzsch (T.&T. Clark, 1891)
ERAB Edição Revista e Atualizada no Brasil (SBB)
ERC Edição Revista e Corrigida (IBB)
ER Edição Revisada (seg. os Melhores Textos) (IBB)
GR. Grego
Heb. Hebraico
Jones Proverbs, Ecclesiastes (Provérbios e Eclesiastes) de E. Jones (Torch
Bible com m entaries, SCM Press, 1961)
LXX A Septuaginta (versão grega pré-cristã do Antigo Testamento)
McNeile An Introduction to Ecclesiastes (Uma Introdução ao Eclesiastes) de
A.H. McNeile (CUP, 1904)
mg. À margem
MS(S) Manuscrito(s)
NT Novo Testamento
TM Texto Massorético
Scott Proverbs, Ecclesiastes (Provérbios, Eclesiastes) de R.B.Y. Scott,
Doubleday, 1965)

4
Primeira Parte
O que este livro está fazendo na Bíblia? -
Uma visão geral

A voz do Antigo Testamento tem muitas inflexões. Temos aí quase tudo, desde a
apaixonada pregação dos profetas até os comentários tranqüilos e prudentes do sábio,
entremeados de um mundo de poesia, lei, histórias, salmos e visões.
Nenhum há, porém, que se assemelhe ao Coelet1 (ou Qoheleth, seu intraduzível título
original). Não existe, em todo este grande volume, um único livro que tenha as mesmas ênfases.
Seu habitat, por assim dizer, fica entre os sábios que nos ensinam a usar os olhos e ouvidos
para descobrir os caminhos de Deus e os caminhos do homem. Alguns de seus ditados lembram
o livro de Provérbios. E quando, vez por outra, essas incursões com ele nos levam às situações
mais desconcertantes, ele tem um jeito de parar e, com a sua sabedoria simples e franca, fazer-
nos recobrar o ânimo e o equilíbrio. A sabedoria, muito prática e ortodoxa, é o seu campo
básico; mas ele é um explorador. Sua preocupação é com as fronteiras da vida, e especialmente
com as questões que a maioria de nós hesitaria explorar muito profundamente.
Suas investigações são tão implacáveis que ele pode facilmente ser tomado por cético ou
pessimista. Sua exclamação inicial, vaidade de vaidades! Ou Total fu tilid ad e!, quase que merece
isso; mas para ele há algo mais do que poderia caber numa única frase, mesmo que fosse uma
frase-tema. Tanto assim que em certa ocasião alguns mestres quiseram sugerir que dois, ou três
ou até mesmo nove2 diferentes cabeças haviam trabalhado no livro, tais as suas contra-correntes
e rápidas mudanças. Todas elas, porém, podem ser consideradas frutos de uma só mente,
abordando os fatos da vida e da morte sob vários ângulos.
No fundo descobrimos o axioma de todos os sábios da Bíblia, que o temor do Senhor é o
princípio da sabedoria. Porém a intenção de Coelet é levar-nos a esse ponto apenas no final,
quando estivermos desesperados por uma resposta. Embora seja insinuada algumas vezes, o seu
método principal é começar pelo fim: a determinação de ver até onde alguém consegue ir sem
essa base. Ele se coloca - e a nós - no lugar do humanista ou do secularista. Não do ateu, pois no
seu tempo o ateísmo não era uma preocupação, mas da pessoa que começa a pensar a partir do
homem e do mundo visível e que conhece Deus apenas à distância.
Naturalmente isto traz complicações. Surgem tensões entre o eu mais profundo do
escritor, como homem de convicção com uma fé a compartilhar, e o seu eu temporário, de um
homem que caminha às apalpadelas à luz da natureza. Este segundo eu tem os seus próprios
conflitos, familiares a todos nós, entre as vozes da consciência, dos interesses próprios e da
experiência, e entre Deus como reconhecemos e Deus como o tratamos.
Depois que captarmos o que se passa no livro de um modo geral, não nos será difícil
encontrar o caminho através dele; e o comentário fornecerá um pouco mais de ajuda. Enquanto
isso, convém juntar alguns dos ensinamentos que se encontram espalhados por suas páginas, e
buscar o conteúdo geral do argumento.

Fatos a encarar acerca de Deus


Se uma pessoa crê realmente em Deus, as implicações disto devem ser seguidas à risca. E o
que Coelet espera que façamos, sem imaginar que podemos tomar liberdades com o nosso

1 A palavra tem a ver com o termo hebraico usado para “reunir” ou “juntar”, e a sua forma sugere algum
tipo de cargo público. Era possivelmente um status eclesiástico (como um convocador da assembléia ou
aquele que a ela fala), uma vez que a palavra-padrão para congregação ou igreja tem a mesma raiz. As
muitas tentativas de traduzir este título incluem as seguintes: Eclesiastes, O Pregador, O Orador, O
Presidente, OPorta-voz, OFilósofo. Poderíamos talvez acrescentar OProfessor!
2 Como diz D.C Siegfried, “Prediger und Hohelied”, em W. Nowack, Handkommentar zum Alten Testament
(Gottingen, 1898)

5
criador ou manipulá-lo segundo nossos interesses. Somos confrontados com Deus na sua
condição mais temível: como alguém que não se impressiona com a nossa tagarelice, nem com
nossas ofertas rituais ou com nossas promessas vazias. Os primeiros parágrafos co capítulo 5
destacam estes pontos de maneira vigorosa: “...Deus está nos céus, e tu na terra; portanto sejam
poucas as tuas palavras... porque não se agrada de todos.”
Deus se revela a nós neste livro sob três aspectos principais: como Criador, como
Soberano e como a Sabedoria Inescrutável. Não que estes termos sejam exatamente assim
aplicados a ele, com exceção do primeiro; mas podem servir com um conveniente ponto de
convergência.
Como Criador, ele arma todo o cenário. Somos lembrados de que o seu mundo tem uma
forma própria definida, que não pode ser mudada a nosso gosto (e este, convenhamos, tem uma
certa resistência inata que é bastante complacente para conosco, como planejadores e
padronizadores);3 pois “quem poderá endireitar o que ele torceu?” (7:13). Esse mundo tem
também o seu próprio ritmo inexorável ao qual nos encontramos presos: tempo para isso e
tempo para aquilo, sem nos deixar muita escolha, como o capítulo 3 destaca. Mesmo como
procriadores, nada mais fazemos do que ativar o misterioso processo pelo qual Deus cria uma
nova vida. “Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no
ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que f a z todas as cousas"
(11:5).
No entanto, não podemos nos dar ao luxo de acusar o Criador pelas nossas confusões e
nossas maldades, com a Teodicéia Babilónica acusa os deuses,4 pois “Deus fez o homem reto". A
responsabilidade fica onde merece, nas conseqüências desta observação: “mas ele [o homem] se
meteu em muitas astúcias" (7:29).
Como Soberano, entretanto, Deus determina as frustrações que encontramos na vida. A
rotina da existência que é apresentada logo no início do livro (a propósito, Coelet teria feito uma
carranca diante do título espetacular: “Parem o mundo, eu quero descer!") - essa rotina é
decreto de Deus. “... Este enfadonho trabalho im pôs Deus aos filhos dos homens, para nele os
afligir... e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento" (1:13, 14). É verdade que existe nas
palavras de 7:29, que acabamos de ler, uma insinuação de que foia queda do homem que deu
lugar a esse decreto. Também é verdade que, em Romanos 8:18-25, Paulo pega essa figura da
“criação... sujeita à vaidade" para o forte impulso que esta gera. A ênfase de Eclesiastes, contudo,
está nas coisas que parecem nunca mudar, e sobre os desapontamentos com os quais temos de
conviver aqui e agora.
Tudo isto vem de Deus: a trama geral da vida e seus mínimos detalhes, estejam ou não de
acordo como nosso gosto e o nosso senso de propriedade. Algumas vezes eles fazem sentido
para nós, pois via de regra o pecador recebe uma dose extra de frustração ao ver que Deus cuida
dos seus (2:26); mas o fato é que nada nos pertence e não podemos contar com nada. Se o
pecador é atormentado, ele não é o único. A tragédia pode abater-se sobre qualquer um, e Deus
está por trás de tudo. O capítulo 6:1-6 é uma das passagens onde isto é considerado: apresenta o
fato de que, quanto mais a gente se acha com o direito e quanto mais coisas se tem, mais difícil se
torna quando Deus o retira, o que pode acontecer a qualquer momento (6:2ss) e ele certamente
o fará. Pois “não vão todos para o mesmo lugar?" (v. 6b) - isto é, para a sepultura.
Assim somos impulsionados a enfrentar os mistérios dos caminhos de Deus nos termos
desses três títulos, ele vem agora ao nosso encontro como S abedoria Inescrutável, reduzindo os
nossos mais brilhantes pensamentos a pouco mais que conjecturas.
A passagem onde isto aparece de forma mais promissora e cheia de graça é 3:11, um dos
inesperados pontos culminantes do livro. “Tudo fez formoso no seu devido tempo; também pós a
eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o
princípio até o fim." Esta simples sentença capta a beleza deslumbrante e assustadora de um
mundo tão mutante que o seu padrão total fica além do nosso entendimento. Mas é um padrão.
Nós, ao contrário dos animais, podemos captar o suficiente para termos a certeza disso, ainda
que nunca o suficiente para percebermos o todo.
Uma das conseqüências é que não podemos extrapolar o presente. Se as coisas vão bem ou

3 Cf. 11:1-6
4 Veja o comentário sobre 7:29

6
mal, temos de aceitá-las como são, sabendo que o quadro completo mudará e continuará
mudando. “Deus fez assim este como aquele" - os bons e os maus tempos - “para que o homem
nada descubra do que há de vir depois dele" (7:14).
Obviamente o futuro está assim oculto. O que não é tão óbvio é que o presente, que
permanece aberto à nossa inspeção, também nos engana. Assim como o futuro, ele pertence a
Deus. “Então contemplei toda a obra de Deus, e vi que o homem não pode compreender a obra
que se faz debaixo do sol" (8:17) - não pode, em outras palavras, compreender as atividades
comuns que o cercam. “por mais que trabalhe o homem para descobrir", Coelet prossegue, “não
a entenderá". Filosofias são criadas, mas cada uma delas acabará sendo insuficiente: “ainda que o
sábio diga que virá a conhecer, bem por isso a poderá achar". Isto está enfaticamente expresso
em 7:23,24: “(Eu) disse: Tornar-me-ei sábio, mas a sabedoria estava longe de mim. O que está
longe e mui profundo, quem o achará?"
Esta obscuridade é intelectualmente provocante; apesar disso, podemos desfrutrar um
grande problema como exercício mental. “A questão é totalmente outra se nos pomos a
conjeturar se o universo, ou até mesmo Deus, é ou não é hostil. Mas é exatamente isto que não
podemos descobrir sozinhos, e nada há que possamos fazer para assumir o controle. Este parece
ser o significado de 9:1, ao falar das coisas que “estão nas mãos de Deus". Mas que tipo de Deus?
Para o homem que conhece o Deus de Israel, nada poderia parecer mais tranqüilizador; mas
para quem esteja tateando em busca do significado da vida é uma idéia paralisante. “Se é amor
ou se é ódio que está à sua espera, não o sabe o homem". Ele deve orientar pelos prazeres da
natureza ou por sua crueldade? Pelos sorrisos da sorte ou por suas carrancas - e esta
certamente não pode ser controlada, seja através de um bom comportamento ou de uma boa
gerência.
Isto nos leva ao outro aspecto da vida que somos convidados a examinar.

Fatos a enfrentar a p artir da experiência


Uma das passagens mais fascinantes do livro é uma viagem de exploração através das
recompensas e satisfações da experiência.5 Com Coelet, vestimos o manto de um Salomão, o mais
brilhante e menos limitado dos homens, para iniciar essa pesquisa. Tendo todos os dons e
poderes à nossa disposição, seria estranho se voltássemos de mãos vazias.
Começamos com a sabedoria - a mais promissora das buscas. Neste mundo desordenado,
porém, “na muita sabedoria há muito enfado" (1:18) e isso decorre da própria percepção
adquirida. E, em última análise, seja o que for que a sabedoria possa fazer por alguém, ela nada
pode fazer quanto ao final da vida. Nesta crise o sábio fica tão desarmado quanto o estulto (2:15­
17), e se sua sabedoria não vale nada neste aspecto, não passa de um fracasso pretensioso.
Então passamos para a “loucura" e a “estultícia" (1:17; 2:3b). e isto parece bem atual,
fazendo coro com algumas de nossas tentativas de desviar-nos do que é racional, passando a
explorar o absurdo e o mundo das alucinações. O prazer, naturalmente, é um outro reino: um
reino de muitos aspectos que apena para os apetites sensuais numa das pontas da escala (2:3,
8c) e para as alegrias da estética do especialista e o trabalho criativo na outra.
Mesmo na melhor das hipóteses, esta busca só vai nos satisfazer de passagem. Então vem
o reconhecimento: “Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos" (2:11) e, pensando
na morte, o cómputo final resulta em nada. O que torna tudo ainda mais doloroso é saber que
este resultado nulo é uma obliteração, um desfazimento. Os valores existem , sim: “a sabedoria é
mais proveitosa do que a estultícia quanto a luz traz mais proveito do que as trevas" (2:13); mas
nenhum valor permanecerá quando não estivermos mais aqui, ou se não houver ninguém para
lhes dar valor.
O segundo fato é a existência do mal. Este é tão tirano quanto a própria morte, e ainda
mais trágico. A transitoriedade da vida é muito triste, mas os seus males podem ser suportáveis.
Coelet observa tanto os pecados banais quanto os grandes: a inveja que inspira ou até
mesmo resulta em sucesso (4:4); a fixação no dinheiro que transforma o magnata solitário em
uma figura patética e sem sentido (4:7,8); e a vaidade que mantém por muito tempo um tolo no
seu posto (4:13), considerando apenas alguns deles. Mas ele lamenta principalmente “as
opressões que se fazem debaixo do sol" (4:1). “No lugar do juízo reinava a maldade" (3:16). “A

5 Veja os comentários mais completos sobre esta passagem (1:16-2:26).

7
violência na mão dos opressores" (4:1). A própria estrutura da sociedade contribui para essas
coisas (5:8); no entanto, estas não são enfermidades apenas dos governantes, mas da
humanidade. “Não há homem justo sobre a terra" (7:20); realmente, “o coração dos homens está
cheio de maldade, neles há desvarios enquanto vivem" (9:3). O leitor pode refletir sobre a
insanidade coletiva que visivelmente toma conta de uma sociedade de tempos em tempos, mas
não pode ignorar também a loucura que permanece invisível porque participa dela como o clima
do seu século.
Ainda por cima, como se a morte e o mal não bastassem, há ainda o fator menor, mas
igualmente incontrolável, “do tempo e do acaso", que é preciso reconhecer (9:11). O homem bem
organizado pode regalar-se na sua auto-suficiência, porém Coelet vê através dela, é pura
decepção. Até mesmo os prêmios mais específicos e mais previsíveis da vida (para não se falar
da busca de algo definitivo) podem se perder, e o homem acaba sem nada. “Não é dos ligeiros o
prêmio, nem dos valentes a vitória" - pelo menos, não e assim tão garantido. “Pois o homem não
sabe a sua hora" (9:12). Ele pode até fingir que sabe, mas o faz-de-conta não serve como base
para a sua vida. Basta lembrarmos o comentário final acerca do homem que pensou em tudo
menos nisso: “Deus lhe disse: Louco!..."

De volta ao alicerce
Se pouca coisa restou depois desta análise, é exatamente isto que o escrito pretende, mas
apenas como trabalho preliminar. Ele está demolindo para reconstruir. Se prestarmos atenção,
veremos que as perguntas penetrantes que ele levanta são aquelas que a própria vida nos faz.
Ele pode fazê-las porque nos capítulos finais tem boas novas para nós, contanto que paremos de
fazer de conta que as coisas mortais no bastam, a nós que temos a capacidade de receber o que é
eterno.
São novas, paradoxalmente, de juízo.
Para tornar esse paradoxo mais inteligível, seria bom divagarmos por algum tempo
examinando um velho exemplo de secularismo radical, sem o abrandamento de nossas
modernas fantasias utópicas e sem a formalidade de algum sentimento transcendente: apenas
pela sua própria espirituosidade e fria imparcialidade. A passagem, muito livremente
parafraseada e apresentada aqui, é o diálogo entre um senhor e seu servo, ambos mesopotâmios,
escrito talvez antes do tempo de Moisés.6
- Servo, obedeça-me
- Sim, senhor, sim.
- A carruagem... Prepare-a. Vou ao palácio.
- Vá, meu senhor, vá!... O rei há de ser benevolente.
- Não, servo, não vou ao palácio.
- Não vá, meu senhor, não vá. O rei pode enviá-lo a algum lugar longínquo. O senhor não
terá mais um momento de paz.
Então ele resolve jantar, o que o servo acha muito conveniente. Não há nada mais
agradável e confortador, não é mesmo? Mas o capricho passa: ele resolve não jantar mais. O
servo acha isto muito adequado: existe algo mais vulgar do que comer?
E assim o diálogo prossegue. Ele vai caçar... Mas resolve não ir mais. Ou, quem sabe vai
liderar uma rebelião... ou não. Guardará um silencia esmagador quando encontrar o seu rival...
Ou melhor ainda, vai falar com ele. Cada idéia é rematada pelo servo com alguma observação
bajuladora, e cada idéia oposta com uma observação ainda mais profunda.
Então ele sente desejo de amar (“Oh, sim! Não há nada melhor do que isso, senhor, para
espairecer."), mas logo muda de idéia (“Que sabedoria! As mulheres são uma armadilha, uma
faca na garganta."). Isso! Ele será um filantropo. Mas, por outro lado... (“Certo, senhor; de que
adiantaria? Pergunte aos esqueletos no cemitério!").
Neste espírito ilusório e fútil, idéia após idéia, valor após valor são apanhados, desejados e
abandonados. No final, o cavalheiro brinca com uma questão séria: “O que seria bom?" Sua
própria resposta nos apanha de surpresa: “Quebrar o pescoço, o meu e o teu, jogar os dois no rio,
isto seria bom." É claro que ele muda de idéia: ele vai quebrar apenas o pescoço do seu servo e
mandá-lo na frente.

6 Traduzido, por exemplo em ANET, pág 438

8
Como já era de se esperar, o servo tem a última palavra: como poderia o senhor sobreviver
por três dias que fossem, sem ninguém para tomar conta dele?
Talvez apreciemos esta conversa de acabar com tudo em um pacto de morte. É um final
interessante para a comédia. Mas a verdade é mais real do que parece, pois quando aprendemos
a rir de tudo, logo descobrimos que não temos mais nada que valha a pena uma risada. A
trivialidade é mais asfixiante do que a tragédia, e a indiferença é o comentário mais desesperado
de todos.
A função de Eclesiastes é levar-nos ao ponto de começarmos a temer que esse comentário
seja o mais honesto. É o que acontece, quando tudo morre. Enfrentamos a espantosa conclusão
de que nada tem significado, nada vale a pena debaixo do sol. É então que podemos ouvir a boa
nova de que tudo vale a pena, “porque Deus há de trazer a juízo todas as obras até as que estão
escondidas, quer sejam boas, quer sejam más".
É assim que o livro termina. Sobre esta rocha podemos até ser destruídos: mas é uma
rocha, e não areia movediça. Pode ser que também possamos edificar.

9
Segunda Parte
O que o livro diz!
- um breve comentário

Eclesiastes 1:1-11 -
O autor, o tema e o reconhecimento do cenário
Apresentando o autor
1:1 Palavra do Pregador, filh o de Davi, rei de Jerusalém :

Existe na forma Omo este escritor se anuncia um quê de mistério - e este toque curioso
não parece ser involuntário. Primeiro, ele chega quase ao ponto de se chamar Salomão, mas não
o faz. Este nome mão aparece no livro, ao passo que tanto Provérbios quanto Cantares declaram
abertamente a sua autoria. Depois vem a curiosidade do título duplo, eclesiástico e real, 7 quase
como se alguém falasse de “O Vigário, Rei da Inglaterra!" Veremos uma outra observação
enigmática no versículo 16, com a reivindicação de uma sabedoria que sobrepujava “a todos os
que antes de mim existiram Jerusalém". Isto exclui qualquer sucessor do incomparável Salomão,
mas quase exclui também o próprio Salomão, que teve apenas um predecessor israelita. 8
Se acrescermos a isto o fato de que todos os sinais de realeza desaparece depois dos dois
primeiros capítulos,9 torna-se evidente que devemos considerar o título que não é real como
sendo o título do autor, e o real como um simples meio de dramatizar a busca por ele descrita
nos capítulos ume dois. Ele nos descreve um super-Salomão (como dá a entender como termo
“sobrepujei" em 1:16) para demonstrar que o homem mais dotado que posssamos imaginar, que
ultrapasse qualquer outro rei que já tenha ocupado o trono de Davi, ainda retornaria com as
mãos vazias na busca da auto-satisfação.10
Da descrição mais completa do autor em 12:9ss. temos o retrato de um mestre cuja
vocação é ensinar, pesquisar, editar e escrever. O que o seu livro como um todo nos ensina
indiretamente é que ele é tão sensível quanto corajoso, eu m mestre do estilo.

O tem a
1 :2 Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade.
Um pouquinho de fumaça, uma rajada de vento, um simples sopro - nada que se possa
pegar com as mãos, a coisa mais próxima do zero. Isto é a vaidade que se trata este livro.
O que nos perturba esta leitura sobre a vida é que tal nulidade não é considerada como
uma simples chamuscada sobre a superfície das coisas, ainda que tenha um certo charme. É a
soma total das coisas.
Se este é o caso, como argumenta no resto do livro, vaidade acaba tornando-se uma

7 Veja a nota de rodapé à pág 1, quanto ao significado de Coelet (“O Pregador").


8 Também o sentido e um longo retrospecto nesta frase parece ter surgido devido à forma aparentemente
avançado do hebraico neste livro, o qual parece ser um estágio no meio do caminho entre o hebraico
clássico e o rabínico. Contudo, isto não é conclusivo, uma vez que se pode argumentar que muitos dos seus
aspectos são do dialeto fenício, não indicando data. Sobre isto, veja os comentários feitos pod M.J. Dahood
em Biblica 33 (1952), pg 32-52 e 191-221; também em Bibliba 39 (1958), pg 302-318; e por G.L. Archer
em Bulletin o f the Evangelical Theological Society 12 (1969) pg 167-181. Este último argumenta em favor
da autoria de Salomão, chamando a atenção para os seus laços íntimos com os fenícios.
9 Apenas o título Coelet (“O Pregador) será usado daqui em diante (7:27; 12:8-10), e a postura do escritor
se tornará a de um simples observador, não a de um governante.Veja, por exemplo, 3:16; 4:1-3 5:8ss.
10 Veja também o comentário e anota de rodapé sobre 1:12

10
palavra desesperadora. Ela deixa de significa simplesmente o que é banal e passageiro e passa a
descrever, desastrosamente, aquilo que não tem sentido. O autor dobra e redobra esta palavra
amarga, usando-a duas vezes na mesma frase, como se fosse uma paródia do conhecido
superlativo “santo dos santos”. A nulidade completa apresenta-se aqui em mudo contraste com a
santidade completa, aquela realidade poderosa que deu forma e característica à tradicional
piedade de Israel. Finalmente ele conclui de maneira sucinta: “Tudo é vaidade.” Em termos
atuais a conclusão poderia ser:
“Futilidade total... futilidade total. Tudo isso não passa de futilidade”
Porém o que é “tudo isso” será que inclui a divindade - ou mesmo o próprio Deus? Ou será
que todas as coisas estão desprovidas disso?
O autor não tem pressa de responder. Antes de dar alguns toques sobre o seu próprio
ponto de vista, ele quer que examinemos muito de perto o mundo que vemos e as respostas que
este parece nos dar. A primeira destas leves indicações vem logo a seguir na frase debaixo do sol
(1:3), que vai se transformar em uma espécie de tônica do livro, repetindo-se cerca de trinta
vezes em seus doze pequenos capítulos. A menos que isto não passe de um hábito (se bem que
este autor não é de desperdiçar palavras) , fica bem claro que o quadro que ele tem em mente é
exclusivamente o mundo que podemos ver, e que o nosso ponto de vista está ao nível do chão.
Neste caso não só a exclamação “Vaidade de vaidades!”, mas todos os comentários sobre a
vida que se lhe acrescentam já têm seus limites, seu sistema de coordenadas, esboçados nessa
frase. No final do livro serão traçadas linhas muito firmes, e Coelet se revelará um homem de fé.
Até lá, elas são introduzidas co o mais leve dos toques, e suas implicações serão descobertas
posteriormente. Podemos tradicionalmente chamar este homem de “o Pregador”; mas ele
coloca-se tão perto de seus ouvintes que suas palavras poderiam lhes parecer a personificação
de seus pensamentos mais radicais. A diferença é que ele segue essas trilhas de pensamento
para muito além do que eles se disporiam a ir. Caminho após caminho, todos são
incansavelmente explorados até chegar ao ponto do nada. No final, apenas um caminho ficará.
O processo foi tão admiravelmente descrito por G.S. Hendry que seria uma pena não citá-lo
neste ponto:
“Coelet escreve a partir de premissas ocultas,e o seu livro é na realidade uma grande obra
de apologética... Seu aparente mundanismo é ditado pelo seu alvo: Coelet dirige-se ao público em
geral, cuja visão é limitada pelos horizontes deste mundo; ele vai ao encontro desse público no
seu próprio espaço, e prossegue convencendo-o de sua inerente vaidade. Isto se confirma ainda
mais CPOR sua expressão característica 'debaixo do sol’, com a qual ele descreve o que o Novo
Testamento chama de 'o mundo’... Seu livro é de fato uma crítica ao secularismo e à religião
secularizada.”11

A rotina
1 :3 Que proveito tem o hom em de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?
4 Geração vai e g era ç ã o vem; m as a terra perm an ece p ara sempre.
5 Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo.
6 O vento vai p ara o sul e fa z o seu giro p ara o norte; volve-se, e revolve-se, na sua carreira, e
retorna a os seus circuitos.
7 Todos os rios correm p a ra o mar, e o m ar não se enche; ao lugar para onde correm os rios,
p ara lá tornam eles a correr.
8 Todas as coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir; os olhos não se farta m
de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir.
9 O que f o i é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fa z e r ; nada há, pois, novo
debaixo do sol.
10 Há algum a coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não! J á f o i nos séculos que fo ra m
antes de nós.
11 J á não há lem brança das coisas que precederam ; e das coisas posteriores tam bém não
haverá m em ória entre os que hão de vir depois delas.

11 G.S. Hendry, Introdução ao artigo “Eclesiastes”, em The New Bible Commentary Revised (IVP, 1970) pg
570

11
Já demos uma olhada nesta passagem para observar a frase debaixo do sol, que arma o
cenário para o livro como um todo de acordo com esta introdução, a seqüencia considera a vida
dentro dos limites mundanos que são iguais para todos os homens.
Que proveito tem o homem...? é uma pergunta prática e característica. A palavra aqui
traduzida como “proveito” extraída do mundo dos negócios, só se encontra neste livro nas
Escrituras.12 Mas antes de a excluirmos como cínica ou mercenária, lembremo-nos de uma
pergunta parecida no Evangelho: “Que aproveita ao homem... ?”13 Esta não é a única passagem
em que Cristo e Coelet falam a mesma linguagem. É uma pergunta justa. Qualquer idéia
romântica que pudéssemos ter, enfrentado uma situação desesperadora, ela logo se evaporaria
se não houvesse um outro tipo de situação. Mas quem nos garante que um dia a situação será
outra? “A gente gasta a vida trabalhando, se esforçando, e a final que vantagem leva em tudo
isso?”14 - esta poderia ser uma tradução livre deste versículo.
Ah! Mas existe quem ache que pode transformar o mundo em um lugar melhor, ou pelo
menos deixar alguma coisa para aqueles que virão depois. Como se já esperasse esta resposta,
Coelet aponta para o constante fazer e desfazer na história da humanidade: gerações após
gerações se levantam e caem, homens vêm e logo são esquecidos; tudo isto tendo como
impassível cenário a terra, que vê todas as gerações passarem e continua existindo. Sem dúvida
ela verá o último de nós que ficar em cena - e o que homem lucrará com isso?
Além disso, por mais que a terra continue existindo, o próprio padrão do mundo é tão
intranqüilo e repetitivo quanto o nosso. Tantas coisas que começam bem voltam atrás. Tantas
jornadas acabam onde começaram. Coelet destaca três exemplos desta rotina infinita da
natureza, começando como mais óbvio de todos, o sol, que percorre a sua grande curva no céu
até o seu declínio; e, tendo concluído, apressa-se15 em repetir o que fez dia após dia. Os outros
dois exemplos parecem a princípio oferecer uma válvula de escape do círculo vicioso - pois o
que seria mais livre do que o vento ou menos reversível do que uma torrente? Mas acompanhe o
processo até o fim e você retornará ao começo. O vento “volve-se e revolve-se”; e as águas, como
é dito em Jó 36:27ss, são recolhidas para regar a terra novamente. Assim as coisas mais
regulares do mundo, que nos falam em nome de Deus e de suas misericórdias que “se renovam a
cada manhã”, dar-nos-ão uma resposta muito diferente se buscarmos algum significado nelas
mesmas. O versículo 8 resume esse infindável ciclo taxando-o de indizível canseira.16
Tudo isto apresenta um espelho para o cenário humano. Como o oceano, os nossos
sentidos são alimentados mais e mais, mas nunca se satisfazem. Como o ciclo da natureza,a
nossa história está sempre retornando, deixando de cumprir a sua promessa. E a jornada
continua, sem nunca chegarmos ao destino. Debaixo do sol não existe um lugar para onde ir,
nada que satisfaça completamente ou que seja realmente novo. Quanto a colocarmos as nossas
esperanças na posteridade, no final a posteridade terá perdido qualquer lembrança dos que
ficaram no passado (v.11).
A esta altura, temos que fazer uma pausa para esclarecer duas coisas. Primeiro, o que
vamos fazer com o famoso ditado: Não há nada novo debaixo do sol? Até que ponto ele é
verdadeiro? Talvez a própria forma como costumamos usá-lo nos dê a melhor resposta. Nós o
enunciamos como um comentário geral sobre o cenário da humanidade, e não como um
pronunciamento sobre as invenções. Ninguém - muito menos Coelet - há de negar a capacidade
inventiva do homem. Mas plus ça change, plus c'est La m êm e chose: quanto mais as coisas
mudam, mais se revelam as mesmas. As coisas antigas prosseguem em seu novo disfarce. Como
raça, jamais aprendemos.

12 A BLH força um pouco a tradução do v.12 dizendo: “Será que um rei pode fazer alguma coisa que seja
nova? Não. Só pode fazer o que fizeram os reis que reinaram antes dele"
13 Mc 8:36
14 1:3 (BLH)
15 A palavra aqui traduzida como volta (v.5) é literalmente o verbo “ofegar", se de avidez ou de cansaço o
autor não diz. Em outras passagens o termo tem quase uma conotação de avidez (p.e. Jó 5:5; 7:2; Sl
119:131), mas o contexto é sombrio (cf. v.8) e a palavra pode indicar também desespero (Is 42:14)
16 Uma outra tradução do versículo 8a, favorecida por alguns comentaristas seria: “Todas as palavras são
frágeis", isto é, “a cena está além da descrição". Mas o adjetivo em outras passagens significa “cansado" (Dt
25:18; 2Sm 17:2) e a passagem como um todo não está enfatizando a complexidade, mas o ciclo incessante
da natureza.

12
A segunda pergunta é sobre quanto abrange o tema do círculo vicioso. Para alguns
escritores esta idéia lembra os estóicos e sua visão totalmente circular do tempo, através da qual
toda a trama da existência deve tecer o seu próprio padrão repetidas vezes, até os mínimos
detalhes, a intervalos predeterminados, infinitamente. Desta forma todo o futuro estaria
destinado a voltar à mesma situação na qual você, leitor, encontra-se agora; e isto não uma só
vez, mas vezes incontáveis.
Por si mesmos, os versículos 9 e 10 (O que foi, é o que há de ser...) significariam exatamente
isso. Mas eles se encontram em um livro que apresenta escolhas morais genuínas usando
palavras tais como “justo” e “perverso”, e que aponta para um julgamento futuro que não teria
sentido caso fôssemos apanhados em um processo que não nos desse alternativas. O que vemos
aqui é a fadiga de se lutar e não conseguir nada; e, embora seja muito diferente do fatalismo que
estivemos considerando, também está muito longe do sentido de peregrinação que domina o
Antigo T estamento.
Seria isto um sinal de falta de convicção? Gerhard vol Rad comenta que com este autor “a
literatura da Sabedoria perdeu o último contato coma antiga maneira de pensar de Israel em
termos de história conservadora e, muito consistentemente, retrocedeu ao modo cíclico de
pensar comum no Oriente... apenas... de uma forma total secular”.17 Este é um comentário
correto, se “o modo cíclico de pensar” significa apenas uma preocupação com a sucessão das
estações e com os ritmos da vida.18 Mas é fácil esquecer que, se Coelet está assumindo a posição
do homem do mundo para mostrar no que isto implica, é justamente o ponto de vista que ele
tem que expor. E se assim o faz para denunciar tal posição e despertar o desejo de alguma coisa
melhor, como os últimos capítulos vão mostrar, então não deve ser identificado com ela a não
ser por causa de sua solidariedade e de sua profunda visão interior.

Eclesiastes 1 :1 2 -2 :2 6 -
Em busca de satisfação
O investigador
1 :1 2 Eu, o Pregador, venho sendo rei de Israel, em Jerusalém .
13 Apliquei o coração a esquadrinhar e a inform ar-m e com sabed oria de tudo quanto sucede
debaixo do céu; este enfadonho trabalho im pôs Deus a os filh o s dos homens, para nele os afligir.

O poema que acabamos de considerar estabelece a tônica do livro através do seu tema e do
quadro que apresenta de um mundo infinitamente ocupado e desesperadamente inconclusivo.
Agora o foco se define. Voltamo-nos de analogias e impressões para o que podemos
conhecer diretamente através da experiência. Vamos esquadrinhar uma vastidão de ocupações
humanas, indagando se existe na terra alguma coisa que tenha valor duradouro. O autor nos
impressiona coma urgência da investigação: acabamos fazendo parte dela. Mas a sua curiosa
mescla de títulos, “Coelet” e “Rei”, alerta-nos para o caráter duplo com que ele se apresenta,
como já vimos no início.19 Nesta passagem, o pregador torna-se um segundo Salomão, para que
em nossa imaginação possamos fazer o mesmo. Armados de tais vantagens, nossa pesquisa irá
muito além de uma experiência simples e limitada: será algo grandioso, explorando tudo o que o
mundo possa oferecer a um homem de gênio e de riqueza ilimitados. Nesta área de
conhecimento, podemos aceitar suas descobertas como definitivas. Cotando suas palavras
(2:12): “Que fará o homem que seguir ao rei?”

17 G. Von Rad, Old Testsament Theology (trad. Inglesa Oliver e Boyd, 1962), I, Pg 455
18 O. Loretz, Qohelet und der Alte Orient (Herder, 1964), pg 247ss, critica von Rad e outros por
descreverem o pensamento do antigo Oriente ou de Coelet como cíclico. Mas com cíclico quer dizer o firme
determinismo do sistema estóico (Lonretz, pg 251), que Von Rad não está discutindo neste ponto.
19 Veja os comentários acerca de 1:1. Compare a expressão: “Eu venho sendo rei” (ou “me tornei rei”, que
seria a tradução mais natural), no versículo 12, com Zc 11:7ss: “Apascentei as ovelhas (ou, tornei-me
pastor)... Dei cabo de três pastores...”, etc que usam igualmente uma linguagem autobiográfica, que não
deve ser tomada literalmente, ou com a intenção de enganar, mas que visa apresentar-nos uma sequência
iluminadora dos acontecimentos com muita vivacidade.

13
Talvez possamos, de passagem, comparar este reconhecimento superficial com outra
passagem escrita na primeira pessoa: o exame do coração humano que Paulo descreve no final
de Romanos 7. Cada uma destas duas confissões tem uma referência mais ampla do que o
homem que está falando. Entre elas, Coelet e Paulo exploram para nós o mundo exterior e o
interior do homem, sua busca por um significado e sua luta por uma vitória moral.
Com sua habitual franqueza, Coelet logo nos declara o pior: sua pesquisa resultou em
nada. Para nos poupar do desapontamento de nossas esperanças, ele nos adverte do resultado
(1:13b-15) antes de nos levar consigo em sua jornada (1:16-2:11); e finalmente compartilha
conosco as conclusões a que chegou (2:12-26).

O Resumo
1: 13 Apliquei o co ra çã o a esquadrinhar e a inform ar-m e com sabed oria de tudo quanto
sucede debaixo do céu; este enfadonho trabalho im pôs Deus a os filh os dos homens, p ara nele os
afligir.
14 Atentei p ara todas as o bras que se fa z em debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e
correr atrás do vento.
15 Aquilo que é torto não se p ode endireitar; e o que fa lta não se p ode calcular.

Discreta, mas significativamente, Coelet resume suas descobertas em termos que por um
breve momento saem do campo de visão do secularista. Ele vê a inquietação da vida que
qualquer observador poderia perceber; no entanto, relaciona-a coma vontade divina: foi Deus
que a im pôs aos filhos dos homens. Isto talvez pareça mais amargura do que fé, mas é na verdade
uma indicação de algo positivo que será retomado nos capítulos finais. Na pior das hipóteses,
implicaria que, por detrás da nossa situação, existe sempre algum sentido (e não o contra-senso
do acaso), mesmo que este nos pareça totalmente desanimador. Mas bem que poderia também
fazer parte da justa disciplina que Deus nos impôs como seqüela da Queda. Foi assim que Paulo
(com uma evidente perspectiva de Eclesiastes) interpretou o sofrimento do mundo: “Pois a
criação está sujeita à vaidade... por causa daquele que a sujeitou, na esperança..."20
Essa esperança, contudo, fica totalmente além do nosso próprio alcance, como veremos
adiante. E o versículo 15 traz mais dois lembretes das nossas limitações, coma concisão de um
provérbio. A ER capta bem o sentido: “O que é torto não se pode endireitar; o que falta não se
pode enumerar." Se esta tortuosidade e esta falta significam as nossas próprias falhas de caráter
ou as circunstâncias que não podemos alterar,21 deparamo-nos novamente com o que podemos
fazer. Com esta advertência, juntemo-nos agora a Coelet em suas diversas experiências.

Experimentando a vida
1 :1 6 Disse com igo: eis que m e engrandeci e sobrepujei em sabed oria a todos os que antes de
mim existiram em Jerusalém ; com efeito, o meu coração tem tido larga experiência da sabed oria e
do conhecim ento.
17 Apliquei o coração a conhecer a sabed oria e a s a b er o que é loucura e o que é estultícia; e
vim a sa b er que tam bém isto é correr atrás do vento.
18 Porque na muita sabed oria há muito enfado; e quem aum enta ciência aum enta tristeza.
2 :1 Disse com igo: vamos! Eu te provarei com a alegria; goza, pois, a felicid ad e; m as tam bém
isso era vaidade.
2 Do riso disse: é loucura; e da alegria: de que serve?
3 Resolvi no meu coração dar-m e ao vinho, regendo-m e, contudo, pela sabedoria, e entregar-
m e à loucura, a té ver o que m elhor seria que fizessem os filh o s dos hom ens debaixo do céu, durante
os poucos dias da sua vida.
4 Em preendi g ran d es obras; edifiquei p ara mim casas; plantei p ara mim vinhas.
5 Fiz jardin s e p om ares p ara mim e nestes plan tei árvores fru tíferas de toda espécie.
6 Fiz p ara mim açudes, p ara reg ar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores.

20 Rm 8:20
21 A segunda alternativa parece ser a mais provável, à vista de 7:13 com 7:29, que falam de Deus como
sendo o autor das coisas “tortas" no sentido de fatos estranhos e irreversíveis, mas não moralmente maus.

14
7 Comprei servos e servas e tive servos nascidos em casa; tam bém possuí bois e ovelhas, m ais
do que possuíram todos os que antes de mim viveram em Jerusalém .
8 Am ontoei tam bém p ara mim prata e ouro e tesouros de reis e de províncias; provi-m e de
cantores e can toras e das delícias dos filh o s dos hom ens: m ulheres e mulheres.
9 Engrandeci-m e e sobrepujei a todos os que viveram an tes de mim em Jerusalém ;
perseverou tam bém com igo a minha sabedoria.
10 Tudo quanto desejaram os m eus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria
alguma, pois eu m e alegrava com todas as m inhas fadigas, e isso era a recom pensa de todas elas.
11 Considerei todas as o bras que fizeram as m inhas mãos, com o tam bém o trabalho que eu,
com fadigas, havia feito ; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito
havia debaixo do sol.

Para um pensador tão famoso, a investigação tinha naturalmente de começar com a


sabedoria, a qualidade mais louvada em seus círculos. Contudo, ele nada diz sobre seu primeiro
princípio, o temor do Senhor, e podemos presumir que a sabedoria da qual ele fala é (segundo o
seu método) o melhor pensamento que o homem pode ter por si mesmo. A sabedoria é
esplêndida em toda a sua extensão: nada se pode comparar a ela (2:13); mesmo assim, ela não
dá respostas às nossas dúvidas acerca da vida. Apenas as aguça ainda mais com sua perspicácia.
Assim Coelet considera a sabedoria com a devida seriedade, como uma disciplina que se
ocupa de questões máximas, e não simplesmente como um instrumento para realizar as coisas.
Se isto fosse tudo, nada poderíamos esperar dela além do sucesso material. Mas a sabedoria
preocupa-se coma verdade,e a verdade nos compele a admitir que o sucesso nos faz mal e que
nada no mundo permanece. Ele ainda vai dizer algo mais sobre isto; por enquanto, seu primeiro
ponto sobre o descanso foi apresentado.
Então ele mergulha na frivolidade. Mas uma parte dele se retrai - regendo-m e, contudo,
p ela sabed oria - para ver a que a frivolidade como estilo de vida conduz, e o que faz ao homem.
Imediatamente ele percebe o “paradoxo do hedonismo”: quanto mais se busca o prazer, menos
ele é encontrado. De qualquer forma, a pessoa está buscando algo além do prazer e através dele,
pois isto é mais que uma simples indulgência. É uma fuga deliberada da racionalidade, para
chegar a um segredo da vida AL qual a razão talvez tenha bloqueado o caminho. Nisto reside a
força do versículo 3b: “entregar-me à loucura até ver o que melhor seria que fizessem os filhos
dos homens... ”
Neste ponto nos aproximamos muito do nosso próprio tempo com o seu culto irracional
em suas variadas formas, desde o romantismo até a ânsia que manifestam os diferentes estados
de consciência, e daí ao niilismo, que cultiva o feio, o obsceno e o absurdo, não por divertimento,
mas como um ataque aos valores racionais. Embora nada disso apareça em Coelet, sua avaliação
das experiências com a loucura prova que ele está perturbado e igualmente desapontado com o
veredito ainda mais forte acerca do riso (É loucura); e nas Escrituras tanto a “loucura” como a
“estultícia” pressupõem mais perversidade moral do que desarranjo mental.22 Para merecer tal
observação, o riso que acompanha este tipo de vida tem de ser cínico e destrutivo. Neste caso,
não estamos muito longe de nossas comédias trágicas e do humor negro.
Como que reagindo fortemente aos prazeres fúteis, agora se entrega às alegrias da
criatividade. Dedica suas energias a um projeto digno de seus talentos estéticos, de seu domínio
das artes e das ciências, e de sua habilidade para comandar um grande empreendimento. Ele cria
um pequeno mundo dentro do mundo: multiforme, harmonioso e exótico, um Jardim do Éden
secular, cheio de deleites civilizados e deliciosamente não civilizados (v.8),23 sem frutos

22 Por exemplo, em 9:3, “maldade” está associada a “mal” e, em 10:13, a palavra usada para “estultícia” é
considerada como um passo na direção da “loucura perversa”. Da mesma forma, agir estultamente
(usando uma palavra relacionada com “estultícia”) geralmente implica em uma atitude fatalmente
voluntariosa; cf 1Sm 13:13; 26:21; 2Sm 24:10).
23 A palavra sidda, que aparece apenas aqui, tem sido aceita como significando “instrumento musical”
(ERC). Mas em uma carta de Faraó Amenofis III ao príncile Milkilu de Gezer, em que são exigidas quarenta
concubinas, a palavra egípcia para concubina está acompanhada de uma palavra cananita explicatória de
sidda. “Concubina” é usada então corretamente na ER. A BJ traz a palavra “cofres” (isto é, “arcas de
tesouro”), mas sugere em suas anotações “princesas” ou “concubinas” e a ERAB, não erra, então, com a
tradução “mulheres”.

15
proibidos - ou algo que ele assim considere (v.10). para tanto, ele resolve fugir do tédio dos ricos
através de uma atividade constante, desfrutada e valorizada por seu próprio bem (v.10); e
mantém um olho crítico sobre os seus projetos, mesmo enquanto os executa. "Perseverou
tam bém com igo a minha sabedoria", ele nos diz (v.9). não perde de vista busca, a investigação do
significado da vida, que constituía o motivo principal de tudo.
No final qual foi o resultado? Um espírito menos exigente do que Coelet teria encontrado
muita coisa positiva para contar. As realizações foram brilhantes. No nível material, a ambição
perene do lavrador de fazer (com nossas palavras) “duas folhas de capim crescerem onde antes
só havia uma" foi indiscutivelmente atingida; esteticamente falando, ele criou um paraíso único.
Se “a beleza produz alegria", ele não buscou em vão pelo que é infinito e absoluto.
Assim pensamos nós.
Coelet não pensa assim. Chamar tais coisas de eternas não passa de retórica, e nada que
seja perecível vai satisfazê-lo. Nos termos coloquiais da BLH, ele diz: “Compreendi que tudo
aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento".

A avaliação
2 :1 2 Então, passei a considerar a sabedoria, e a loucura, e a estultícia. Que fa r á o hom em
que seguir ao rei? O m esm o que outros j á fizeram .
13 Então, vi que a sabed oria é m ais proveitosa do que a estultícia, quanto a luz traz m ais
proveito do que as trevas.
14 Os olhos do sábio estão na sua cabeça, m as o estulto anda em trevas; contudo, entendi
que o m esm o lhes sucede a ambos.
15 Pelo que disse eu com igo: com o acon tece ao estulto, assim m e sucede a mim; p o r que,
pois, busquei eu m ais a sabedoria? Então, disse a mim m esm o que tam bém isso era vaidade.
16 Pois, tanto do sábio com o do estulto, a m em ória não durará p ara sem pre; pois, passados
alguns dias, tudo cai no esquecim ento. Ah! Morre o sábio, e da m esm a sorte, o estulto!
17 Pelo que aborreci a vida, pois m e f o i penosa a obra que se f a z debaixo do sol; sim, tudo é
vaidade e correr atrás do vento.
18 Tam bém aborreci todo o meu trabalho, com que m e afadiguei debaixo do sol, visto que o
seu gan ho eu havia de deixar a quem viesse depois de mim.
19 E quem p od e dizer se será sábio ou estulto? Contudo, ele terá domínio sobre todo o gan ho
das m inhas fa d ig a s e sabed oria debaixo do sol; tam bém isto é vaidade.
20 Então, m e em penhei p o r que o coração se desesperasse de todo trabalho com que me
afadigara debaixo do sol.
21 Porque há hom em cujo trabalho é fe ito com sabedoria, ciência e destreza; contudo,
deixará o seu gan ho com o p orção a quem p o r ele não se esforçou; tam bém isto é vaidade e gran de
mal.
22 Pois que tem o hom em de todo o seu trabalho e da fa d ig a do seu coração, em que ele anda
trabalhando debaixo do sol?
23 Porque todos os seus dias são dores, e o seu trabalho, desgosto; a té de noite não descansa
o seu coração; tam bém isto é vaidade.
24 Nada há m elhor p ara o hom em do que com er, b eb er e fa z e r que a sua alm a g o z e o bem
do seu trabalho. No entanto, vi tam bém que isto vem da m ão de Deus,
25 pois, separado deste, quem p ode com er ou quem p ode alegrar-se?
26 Porque Deus dá sabedoria, conhecim ento e p ra zer ao hom em que lhe agrada; m as ao
p eca d o r dá trabalho, p ara que ele ajunte e am ontoe, a fim de d ar àqu ele que agrada a Deus.
Tam bém isto é vaidade e correr atrás do vento.

O rápido e brusco veredito do versículo 11 precisava ser explicado detalhadamente, pois


ao se aprofundar nas possibilidades da vida, Coelet não estava agindo puramente por conta
própria. Se ele, dentro todas as outras pessoas, regressou de mãos vazias, mesmo no manto de
Salomão, que esperança resta para os demais (v.12)?24 Então ele retorna às grandes alternativas,
a sabedoria e a loucura, comparando-as e avaliando-as radicalmente. Teria alguma delas uma

24 A BLH força um pouco a tradução do v.12 dizendo: “Será que um rei pode fazer alguma coisa que seja
nova? Não. Só pode fazer o que fizeram os reis que reinaram antes dele."

16
resposta para esta busca de alguma coisa final? Eram estes os dois modos de vida que ele
estivera testando nas suas experiências dos versículos 1:17-2:10, pois ele inclui na “loucura” não
apenas a “insensatez” da auto-indulgência e do cinismo, mas também a busca do prazer em
qualquer nível, mesmo no mais elevado, como uma fuga dos pensamentos dolorosos que se deve
enfrentar. Isto estava bastante claro na sequência de 1:18, onde aparece o comentário: “quem
aumenta ciência, aumenta tristeza”, o que leva à firma resolução: “Vamos! eu te provarei com a
alegria; goza, pois, a felicidade.”
A simples comparação entre sabedoria e a loucura é despretensiosa, mas a avaliação final
é avassaladora. Nada poderia ser mais óbvio do que as duas serem comparadas com a luz e as
trevas (vs 13, 14a); mas Coelet tem a sagacidade de lembrar que estas não passam de abstrações
e que nós somos homens. De nada adiantaria nos recomendar o valor máximo da sabedoria, se
no fim nenhum de nós é capaz de exercê-la, e muito menos de avaliá-la. É por isso, naturalmente,
que as realizações puramente humanas que nós chamamos de duradouras não são nada disso.
Como humanos nós podemos reverenciá-las deste modo, mas isto apenas porque nos falta a
honestidade de Coelet em ver que passados alguns dias, tudo cai no esquecim ento (v.16). ele não
tem ilusões, sem bem que nós é que não deveríamos tê-las, nós que ouvimos dos próprios
secularistas que o nosso planeta está morrendo.
Assim, pela primeira vez no livro (mas não a última, naturalmente), o fato da morte leva a
pesquisa a uma súbita pausa. Se o m esm o (destino) lhes sucede a am bos (v.14b), e o destino é a
extinção, todo o homem fica privado, de sua dignidade e todo projeto, de sua finalidade. Vemos
estes dois resultados nos versículos 14-17 e 18-23.
Quanto à dignidade do homem, o que é mais mortificante (que palavra apropriada!)
quanto ao fato de que todos os homens, tanto sábios tanto tolos (ao que poderíamos acrescentar
“bons e maus”, ” santos e sádicos” Ou quaisquer outros antônimos) hão de finalmente se igualar
na morte, é que, se isto é verdade, a última palavra acaba ficando com um fato brutal que arrasa
qualquer juízo de valores que possamos fazer. Tudo pode nos dizer que a sabedoria não está no
mesmo nível que a loucura, nem o bem com o mal. Mas tanto faz: se a morte é o fim da linha, a
alegação de que não existe escolha alguma entre elas terá a sua última palavra. No final, as
escolhas que positivamente sabemos ser significativas serão postas de lado como irrelevantes.
Pelo que aborreci a vida. Se há uma mentira no centro da existência, e falta de sentido no
final da mesma, quem tem a coragem de fazer alguma coisa? Se, como poderíamos dizer, todas as
cartas em nossa mão estão trunfadas, que importa como jogamos? Por que tratar um rei com
maior respeito do que um velhaco?
A propósito, esta amarga reação é um testemunho de nossa capacidade de avaliar a nossa
condição desobrigando-nos dela. Sentir-se ultrajado diante do que é universal e inevitável dá a
idéia de um descontentamento divino, uma indicação do que 3:11 vai sabiamente chamar de
“eternidade” na mente do homem. De fato, o versículo 16 usa esta palavra a fim de lamentar a
falta de qualquer lembrança duradoura do sábio.
Os versículos 18-23 consideram um mal menor, mas um mal que pode solapar o espírito
do seu jeito: a frustrante incerteza de todos os nossos empreendimentos quando escapam ao
nosso controle, como acontece mais cedo ou mais tarde. O homem do mundo dificilmente
objetaria isto, com base em seus próprios princípios, contanto que eles durem toda a vida; mas
ainda assim ele se importa, pois compartilha do nosso anseio íntimo pelas coisas permanentes.
Quanto mais ele lutar durante a sua vida (e os versículos 22ss. mostram como essa luta pode ser
obsessiva), mais incômoda será a idéia de seus frutos irem parar nas mãos de outras pessoas e,
muito provavelmente em mãos erradas. Este é um outro golpe, já percebido antes no capítulo,
contra a esperança de encontrar realização no trabalho duro e nos grandes empreendimentos. O
próprio sucesso acentua o anticlímax.
Finalmente uma nota mais alegre se faz ouvir. Talvez nos tenhamos esforçado demais. O
trabalhador compulsivo dos versículos 22ss., sobrecarregando os seus dias com trabalho e as
suas noites com preocupações, esqueceu-se das alegrias simples que Deus colocou à sua
disposição. A questão principal para ele não era decidir entre o trabalho e o repouso mas, se ele
soubesse, entre as atividades sem sentido e as significativas. Como o versículo 24 destaca, o
próprio trabalho que o tiraniza seria um presente potencialmente cheio de prazer vindo de Deus

17
(e a própria alegria é um outro presente, v.25),25 bastando apenas que ele se dispusesse a aceitá-
los como tal.
Eis aí outro lado deste “enfadonho trabalho [que] impôs Deus aos filhos dos homens"
(1:13), pois em si mesmas e corretamente usadas, as coisas básicas da vida são doces e boas. O
alimento, a bebida e o trabalho são exemplos delas, e Coelet nos faz lembrar ainda de outras.26 O
que as estraga é a nossa ânsia de extrair delas mais do que podem dar; um sintoma do anseio
que nos diferencia dos animais, mas cujo uso deturpado é um tema subjacente deste livro.
Assim por um momento, no versículo 26 o véu é levantado para nos mostrar uma outra
coisa além da futilidade. O livro vai terminar com forte ênfase sobre esta nota positiva; mas, até
lá, nesses vislumbres vemos o suficiente para ter a certeza de que há uma resposta, e que o autor
não é um derrotista. Ele nos desilude para nos chamar à realidade.
O que ele está dizendo neste versículo final poderia ser lido descuidadamente como uma
cláusula de revogação para os favoritos de Deus, poupando-os dos riscos materiais que acabam
de ser descritos. A BLH esforça-se para não dar esta impressão, retirando a palavra “pecador"
(sem motivo), substituindo-a por “os maus" e descrevendo aqueles que agradam a Deus como
simplesmente aqueles “de quem ele gosta" ou “de quem ele gosta mais". Mas mesmo sem esta
distorção gratuita seria fácil passar por cima do vital contraste neste versículo, de um lado os
dons espirituais de Deus que trazem satisfação (sabedoria, conhecimento, alegria) e que só
aqueles que lhe agradam podem desejar ou receber, e do outro a frustração27 de acumular o que
não se pode guardar, que é a porção escolhida por aqueles que o rejeitam. O fato de que o
estoque do pecador vai parar finalmente nas mãos do justo é apenas uma ironia final daquilo
que não passava de vaidade e correr atrás do vento. E para o justo é uma reivindicação final, nada
mais que isso. Tal como acontece com os mansos, que têm a promessa de herdar a terra, o
tesouro deles está em outra parte e é de outro tipo.

Eclesiastes 3:1-15 -
A tirania do tempo
3: 1 Tudo tem o seu tem po determ inado, e há tem po p ara todo propósito debaixo do céu:
2 há tem po de nascer e tem po de m orrer; tem po de plan tar e tem po de arran car o que se
plantou;
3 tem po de m atar e tem po de curar; tem po de derribar e tem po de edificar;
4 tem po de chorar e tem po de rir; tem po de pran tear e tem po de saltar de alegria;
5 tem po de espalhar p ed ras e tem po de ajuntar pedras; tem po de a b ra ça r e tem po de
afastar-se de abraçar;
6 tem po de buscar e tem po de perder; tem po de gu ard ar e tem po de deitar fo r a ;
7 tem po de rasgar e tem po de coser; tem po de estar calado e tem po de fa la r;
8 tem po de am ar e tem po de aborrecer; tem po de gu erra e tem po de paz.
9 Que proveito tem o trabalhador naquilo com que se afadiga?
10 Vi o trabalho que Deus im pôs a os filh os dos homens, p ara com ele os afligir.
11 Tudo f e z Deus form o so no seu devido tem po; tam bém pôs a eternidade no coração do
homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus f e z desde o princípio a té ao fim.
12 Sei que nada há m elhor p ara o hom em do que regozijar-se e levar vida regalada;
13 e tam bém que é dom de Deus que possa o hom em comer, b eb er e desfrutar o bem de todo
o seu trabalho.
14 Sei que tudo quanto Deus fa z durará eternam ente; nada se lhe p ode acrescen tar e nada
lhe tirar; e isto fa z Deus p ara que os hom ens tem am diante dele.
15 O que é j á foi, e o que há de ser tam bém j á fo i; Deus fa r á renovar-se o que se passou.

25 As palavras, separado deste (v.25) são um acréscimo apoiado pela LXX. O TM diz “separado de mi", que
daria um bom sentido apenas se Deus estivesse falando na primeira pessoa. A tradução da ER e da ERC,
“melhor do que eu", é inteligível, mas dificilmente uma tradução aceitável.
26 Cf 9:7-10; 11:7-10
27 Trabalho, neste versículo é a mesma palavra que aparece na frase de 1:13, “este enfadonho trabalho
impões Deus aos filhos dos homens, para nele os afligir".

18
Talvez “tirania” seja uma palavra forte demais para o moderado fluxo e refluxo descrito
com essas palavras o qual nos leva durante a vida inteira de uma atividade para outra oposta, e
de volta novamente àquela. A descrição é agradável, com uma variedade de humor e de ação
revelando diferentes ritmos em nossas ocupações. Agrada-nos o ritmo, pois quem gostaria de
uma primavera perpétua (“tempo de plantar”, mas nunca colher), ou quem invejaria o homem
de negócios que não dorme, que nós ficamos conhecendo no capítulo anterior?
No contexto de uma busca de finalidade, no entanto, este movimento de cá para lá e de lá
para cá não é nada melhor do que o círculo vicioso do capítulo primeiro; e, além disso, traz
consigo suas próprias conseqüências perturbadoras. Uma delas é que nós dançamos ao som de
uma música, ou de muitas delas, que não foram compostas por nós; a segunda é que nada do que
buscamos tem alguma permanência. Atiramo-nos a uma atividade qualquer que nos dê
satisfação, mas com que liberdade a escolhemos? Dentro de quanto tempo estaremos fazendo
exatamente o oposto? Talvez as nossas escolhas nem sejam mais livres do que as nossas reações
diante do inverno e do verão, ou da infância e da velhice, ditadas pela marcha do tempo e por
mudanças espontâneas.
Vista desta forma, a repetição “tempo... e tempo” começa a tornar-se opressiva. Seja qual
for a nossa capacidade e iniciativa, o nosso verdadeiro senhor parece ser a inexorável mudança
das estações: não apenas as que se encontram no calendário como também aquela maré de
acontecimentos que ora leva a um determinado tipo de ação que nos parece adequado, ora a um
outro que coloca tudo de maneira inversa. Obviamente, pouco temos a dizer das situações que
nos levam a chorar, a rir, a pran tear e a saltar de alegria; mas os nossos atos mais deliberados
também podem ser condicionados pelo tempo, mãos do que supomos. “Quem diria”, falamos às
vezes, “que chegaria o dia em que eu acabaria fazendo tal ou tal coisa, e achando que é o meu
dever!” Assim, a nação pacifista prepara-se para a guerra; ou o pastor de ovelhas pega a faca
para matar a criatura que ele antes cuidou para que não morresse. O colecionador distribui o seu
tesouro; amigos têm desavenças amargas; a necessidade de falar vem depois da necessidade de
guardar silêncio. Nada do que fazemos parece, fica livre desta relatividade e desta pressão, quase
uma imposição, vinda de fora.
Nossa reação natural seria buscar a realidade em algo além das mudanças, tratando a
esfera das experiências cotidianas como um mero passatempo. Para nossa surpresa, no versículo
11 Coelet nos faz ver que essas perpétuas mudanças não são algo desordenado, mas um padrão
deslumbrante e revelador, uma dádiva de Deus. O problema não é que a vida se recuse a ficar
parada, mas sim que nós só percebemos uma fração do seu movimento e do seu plano sutil e
intricado. Em vez da ausência de mudanças, temos ma coisa melhor: um propósito dinâmico e
divino, com um princípio e um fim. Em vez de uma perfeição congelada temos o movimento
caleidoscópico de inúmeros processos, cada um com seu próprio caráter e com seu período de
florescer e amadurecer, form oso no seu devido tem po, contribuindo para a obra-prima total que á
obra do Criador. Nós captamos estes momentos brilhantes, mas mesmo à parte das trevas com
que se entremeiam, eles deixam-nos insatisfeitos devido à falta de um significado total que
possamos entender. Diferentemente dos animais, absorvidos pelo tempo, nós queremos vê-los
em seu contexto pleno, pois conhecemos um pouco da eternidade: o suficiente pelo menos para
comparar o efêmero com o “eterno”.28 Parecemos alguém desesperadamente míope,
percorrendo centímetro por centímetro uma grande tapeçaria ou pintura na tentativa de
entender o todo. Vemos o suficiente para reconhecer um pouco de sua qualidade mas o grande
desenho se nos escapa, pois nunca podemos nos afastar o suficiente para vê-lo como o Criador o
vê, completo e por inteiro, desde o princípio a té o fim.
Esta incompreensibilidade é desanimadora para o secularista pensante, mas não para o
crente. Ambos podem refugiar-se na vida aproveitando-a ao máximo, mas o homem que não têm
fé age no vazio. O versículo 12 não é tão frívolo como talvez pareça em algumas versões,l como
na ER a frase final, enquanto viverem, lança uma sombra sobre qualquer empreendimento. Se

28 Eternidade (v.11) é a mesma palavra traduzida por “eternamente” no v.14, mas usada aqui como
substantivo. A LXX a traduz aqui e em outras passagens por aion, o substantivo que dá lugar ao adjetivo
“eterno” no NT. Embora possa ser usada simplesmente em relação ao tempo passado ou futuro (cf a BLH),
ou em relação a uma época, o contraste com a palavra tempo (isto é, estação) no v.11a aponta para um
sentido mais forte do que fraco neste versículo. A ERC menciona aqui “o mundo”, usado no sentido arcaico
de uma dispensação (cf. a frase “mundo sem fim”).

19
nada é permanente, muito embora grande parte do nosso trabalho vá sobreviver a nós, estamos
apenas enchendo o tempo; e disso vamos nos dar conta mais cedo ou mais tarde.
O crente, por outro lado, pode aceitar o mesmo tipo de programa despretensioso, não
como um tapa-buraco mas como uma tarefa. É um dom de Deus (v.13), uma porção distribuída
em nossa vida cujo propósito é conhecido pelo Doador e é parte de sua obra eterna; pois Deus
não faz nada em vão. Como o versículo 14 destaca, os planos divinos são diferentes dos nossos e
em nada precisam ser corrigidos ou acrescidos: eles perduram. O eternam ente deste versículo
combina com a eternidade colocada no coração do hom em (v.11). Participar um pouco disto, por
mais modestamente que seja, é um escape da “vaidade de vaidades".
Assim todo o parágrafo fala coma “bondade" e a “severidade" simultâneas que
encontramos na conhecida frase de Romanos 11:22: “... para com os que caíram, severidade; mas
para contigo, a bondade de Deus..." O homem ligado às coisas da terra, à luz dos versículos 14 e
15 e de toda essa seção é prisioneiro de um sistema que ele não consegue quebrar nem sequer
vergar; e por trás disso está Deus na meio de fuga, e nenhum jeito de alijar-se da carga que o
estorva ou incrimina. Mas o homem de Deus ouve estes versículos sem tais receios. Para ele o
versículo 14 descreve a fidelidade divina que transforma o temor de Deus em um
relacionamento filial e frutífero;29 e o versículo 15 lhe assegura que Deus conhece todas as coisas
de antemão, e nada fica esquecido.30 Deus não tem empreendimentos abortivos, nem homens
que ele tenha esquecido. Novamente Coelet demonstra, de passagem, que o desespero que ele
descreve não é o seu próprio, e nem precisa ser o nosso.
Mas há muitos outros fatos acerca do mundo que ele precisa destacar. Agora ele volta-se
para o cenário da sociedade humana e a maneira de como nós exercemos o poder.

Eclesiastes 3:16-4:3 -
A aspereza da vida
3 :1 6 Vi ainda debaixo do sol que no lugar do juízo reinava a m aldade e no lugar da justiça,
m aldade ainda.
17 Então, disse com igo: Deus ju lg ará o justo e o perverso; pois há tem po p ara todo propósito
e para toda obra.
18 Disse ainda com igo: é p o r causa dos filh o s dos homens, para que Deus os prove, e eles
vejam que são em si m esm os com o os animais.
19 Porque o que sucede a os filh os dos hom ens sucede a os animais; o m esm o lhes sucede:
com o m orre um, assim m orre o outro, todos têm o m esm o fô le g o de vida, e nenhuma vantagem tem
o hom em sobre os animais; porqu e tudo é vaidade.
20 Todos vão p ara o m esm o lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão.
21 Quem sa be se o fô le g o de vida dos filh o s dos hom ens se dirige p ara cim a e o dos anim ais
para baixo, p ara a terra?
22 Pelo que vi não haver coisa m elhor do que alegrar-se o hom em nas suas obras, porque
essa é a sua recom pensa; quem o fa r á voltar p ara ver o que será depois dele?
4 :1 Vi ainda todas as opressões que se fa z em debaixo do sol: vi as lágrim as dos que fora m
oprimidos, sem que ninguém os consolasse; vi a violência na m ão dos opressores, sem que ninguém
consolasse os oprimidos.
2 Pelo que tenho p o r m ais feliz es os que j á m orreram , m ais do que os que ainda vivem;
3 porém m ais que uns e outros tenho p o r feliz aqu ele que ainda não nasceu e não viu as m ás
obras que se fa z em debaixo do sol.

Não temos aqui propriamente uma mudança de assunto, pois a idéia de tempos

29 Conf Sl 130:4, onde repousa sobre o perdão divino.


30 O que se passou considero uma referência ao passado. O “renovar-se" implica na ação de Deus para
julgar ou para restaurar, dependendo da natureza do que é renovado. Outras interpretações consideram o
que se passou como uma referência àquele que foi perseguido, tradução esta possível em muitos casos,
mas que dificilmente seria apropriada aqui; ou consideram toda a frase como uma expressão da
incansável busca de Deus dos acontecimentos no passado e, novamente, no futuro. A ERC diz: “Deus pede
conta do que passou".

20
estabelecidos e do seu poder sobre nós continua presente no versículo 17. Mas o problema da
injustiça é demasiadamente comovente para ser tratado como simples ilustração desse tema.
Transforma-se num assunto à parte por um breve espaço de tempo no capítulo 4, e vai retornar
de vez em quando em passagens posteriores.31
Primeiramente, entretanto, podemos vê-lo na apresentação das inversões e súbitas
mudanças de direção da vida, que são predominantes no capítulo 3. Pois se já uma coisa que
clama por uma reviravolta é a injustiça. Eis aí finalmente alguma coisa obviamente proveitosa
nas voltas e viravoltas de nossos negócios. O fato de que tudo na terra obedece à periodicidade
promete um fim ao longo inverno do mal e do desgoverno. Reforça convicção puramente moral
de que Deus ju lg ará (v.17), sabendo que para este acontecimento, como para tudo o mais, ele já
designou uma época adequada.
Isso é muito bom, achamos nós; mas por que a demora? Por que agora ainda não é o tempo
adequado para a justiça universal? A essa pergunta não enunciada, os versículos 18ss. dão uma
resposta tipicamente dura, considerando que a nossa primeira necessidade não é ensinar a Deus
o que ele deve fazer, mas aprender a verdade acerca de nós mesmos, uma lição que nós somos
muito lentos em aceitar. (Mesmo o século vinte nos encontra ainda muito inclinados a negar a
nossa maldade inata.) Portanto, quando o versículo 18 diz p ara que Deus os prove (ou melhor, os
desmascare)32 e eles vejam que são em si m esm os com o animais, ficamos profundamente
chocados. É verdade que o “como os animais” da ERAB é questionável.33 Mas temos de admitir
que totalmente à parte de nossas tendências par a crueldade e para a sordidez, que nos colocam
em uma categoria ainda mais inferior, há pelo menos dois fatores que dão respaldo à acusação:
a inclinação para a ganância e para a esperteza em nossos negócios (que é o assunto em
discussão, versículo 16), e a mortalidade que os homens partilham com todas as criaturas da
terra. O primeiro destes tristes fatos reaparece no próximo capítulo; o segundo ocupa o restante
deste e recebe influências de outras partes do Antigo Testamento. o versículo 20, que nos
apresenta o homem em sua caminhada do pó para o pó, como em Gênesis 3:19, confronta-nos
com a Queda e coma ironia de que morremos como os animais porque nos imaginávamos
deuses.
Mas existe em nós alguma coisa que sobreviva a morte? Do seu ponto de vista privilegiado,
Eclesiastes só pode responder: Quem sa be? 34 O fôlego de vida, ou o espírito,35 nestes versículos é
a vida que Deus dá tanto aos animais quanto aos homens, e cuja retirada resulta na morte, como
diz o Salmo 104:29ss. Está claro que pelo menos isso temos em comum com os animais; mas se
“espírito” implica em alguma coisa eterna para nós, ninguém pode chegar a uma conclusão
apenas pela observação do texto aqui.36
Mas o eco do Salmo49, aquele que faz a mesma comparação entre os homens e os animais,
nos faz lembrar que há uma resposta. O homem de fé pode dizer: “Mas Deus remirá a minha

31 Veja 5:8ss; 8:10-15; 9:13-16; 10:5-7; 10:36ss


32 A palavra para “provar” já parece ter o seu sentido posterior de “trazer à luz” (conf McNeile pg 64)
33 O texto não precisa dizer nada mais além disso, que os homens agem como os animais, ou que são
animais em certos sentidos indicados pelo contexto. Este versículo, um tanto difícil diz: “... para que Deus
os prove (ou os exponha, veja nota anterior), e eles vejam que são em si mesmos como os animais.” No Sl
14:2 quem vê a situação dos homens é Deus; aqui, ao contrário, o sujeito são as pessoas envolvidas (“e eles
vejam”); mas uma mudança de vogal daria “mostrar” (como diz a BJ e a maioria das traduções modernas
seguindo a LXX ET AL.). As palavra “em si mesmos” foram interpretadas como erro de copista, uma vez
que “animais” e “eles “ são palavras semelhantes; ou significando “entre si” (“denunciá-los e mostrar que
são animais uns para os outros”, BJ); ou, “de sua parte”; ou “em si mesmos” (Delitzsch). Eu me inclino a
aceitar Delitzsch ou a BJ.
34 Há versões, como a ERAB, que traduzem o versículo 21 como sendo uma afirmação implícita: “Quem
sabe que o fôlego de vida (ou o espírito) dos filhos dos homens se dirige para cima”, etc. A vogal hebraica
no começo de “se dirige” favorece esta versão (embora não de maneira exclusiva: veja o hebraico de, por
exemplo, Nm 16:22; Lv 10:19), mas o hi que vem a seguir comprova o contrário. O ponto de vista
geralmente defendido por Coelet, e o presente contexto em particular, apóiam a tradução da ER: “Quem
sabe se... ?”
35 Ambas são traduções de ruah aqui (19, 21). Em Gn 2:7 foi usada uma palavra diferente para o hálito da
vida que foi soprado nas narinas do homem no ato da criação.
36 À primeira vista, Ec 12:7 responde a esta pergunta. Mas não é preciso dizer mais do que foi dito em Sl
104:29ss., que Deus dá e retira o hálito da vida de suas criaturas quando quer.

21
alma do poder da morte, pois ele me tomará para si" (Sl 49:15). É o homem “em sua ostentação",
o homem sem entendimento, que é “como os animais, que perecem";37 e este é o homem com o
qual Eclesiastes se preocupa.
Para tal pessoa o versículo 22 oferece o melhor que pode dar: a satisfação temporária de
executar bem o seu trabalho. Não é coisa de se desprezar. A possibilidade é um legado de um
mundo bem criado, como esclarece o versículo 13. Tudo o que está faltando (mas é virtualmente
tudo) será a satisfação de aceitar esse trabalho como um dom do Criador (veja acima, versículo
13), e oferecê-lo a ele.
Com o capítulo 4:1-3 retornamos às opressões que se fa z em debaixo do sol, assunto
abordado em 3:16. A passagem é tão curta quanto dolorosa, pois se não há um meio de acabar
com estas coisas (como na verdade ao existe, no tempo presente), pouco se pode acrescentar aos
amargos fatos do versículo 1 além do lamento dos versículos 2 e 3. Talvez achemos que esta
atitude seja derrotista, pois sempre há muita coisa que pode ser feita pelos que sofrem, quando
queremos fazê-lo. Mas esta objeção dificilmente seria honesta. Coelet está observando a cena
como um todo, e ele pode muito bem retrucar que após cada intervenção concebível ainda
restariam inumeráveis bolsões de opressão nas “moradas de crueldade"38 - o suficiente para
fazer os anjos chorarem, se não os homens. Ele poderia acrescentar que não há coincidência
alguma no fato de o poder se encontrar do lado do opressor, uma vez que é o poder que mais
rapidamente desenvolve o hábito da opressão. Paradoxalmente, ele limita a possibilidade de
uma reforma, porque quanto mais controle o reformador tiver, maior a tendência para a tirania.
Assim um outro aspecto da vida terrena foi apresentado; e nada há mais triste em todo o
livro do que a melancólica alusão, nos versículos 2 e 3, aos mortos e aos que ainda não nasceram,
que são poupados da visão de tanta angústia. Isto é apropriado, pois embora de um modo geral
Eclesiastes esteja preocupado com a frustração, aqui ele se ocupa como reino do mal, e como mal
em sua chocante forma de crueldade. Se a melancolia de Coelet nos choca excessivamente neste
ponto, talvez devamos nos perguntar se a nossa visão mais otimista brota da esperança e não da
complacência. Se nós, os cristãos, vemos mais além do que ele se permitiu, não há motivos para
nos pouparmos das realidades do presente.

Eclesiastes 4:4-8 -
Corrida desenfreada
4 :4 Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do hom em
contra o seu próximo. Tam bém isto é vaidade e correr atrás do vento.
5 O tolo cruza os b raços e com e a própria carne, dizendo:
6 M elhor é um punhado de descanso do que am bas as m ãos cheias de trabalho e correr atrás
do vento.
7 Então, considerei outra vaidade debaixo do sol,
8 isto é, um hom em sem ninguém, não tem filh o nem irm ã; contudo, não cessa de trabalhar,
e seus olhos não se farta m de riquezas; e não diz: Para quem trabalho eu, se nego à minha alm a os
bens da vida? Tam bém isto é vaidade e enfadonho trabalho.

Nesta pequena amostra de atitudes para com o trabalho somos lembrados de alguns
extremos, estranhos mas familiares. Primeiro, a ânsia competitiva. O versículo 4 não deve sofrer
tanta pressão, pois este escritor, como qualquer outro, deve ter a liberdade de apresentar os
seus pontos com vigor. Poderemos tergiversar, se quisermos, lembrando-nos de pessoas tais
como os párias solitários ou os lavradores necessitados, que lutam simplesmente pela
sobrevivência, ou aqueles artistas que realmente amam a perfeição por amor a ela; mas
permanece o fato de que grande parte de nosso trabalho árduo e de nosso grande esforço está
misturada à ânsia de eclipsar os outros ou de não ser eclipsado. Até mesmo na rivalidade entre
amigos isto exerce um papel maior do que possamos imaginar, pois podemos até agüentar se

37 Veja Sl 49:12,14,15 e 20. A ER e a BLH roubam do salmo o seu clímax, fazendo o versículo 20
simplesmente repetir o v.12, quando no texto hebraico (e também na ERAB) há a frase: “O homem... sem
entendimento".
38 Cf. Sl 74:20 (ERC)

22
ultrapassados por algum tempo e por determinadas pessoas, mas não com tanta regularidade
nem tão profundamente. Sentir-se um fracasso é descobrir na alma a inveja que Coelet detecta
aqui, em sua patética forma de ressentimentos acalentados e queixumes autopiedosos.39
O segundo retrato (v.5) é pequeno e apresenta o extremo oposto: o indolente. Ele despreza
essas rivalidades frenéticas. Mas recebe o seu verdadeiro nome, tolo, pois a sua inércia é igual e
oposta ao erro dos outros. Ele é o quadro da complacência e da autodestruição inconsciente, pois
este comentário sobre ele destaca um prejuízo mais profundo do que o desperdício do seu
capital. Sua preguiça, além de acabar com o que ele tem, acaba também com o que ele é: destrói o
seu autocontrole, o seu senso de realidade, a sua capacidade de se cuidar e, finalmente, o seu
auto-respeito.
A estas duas formas infelizes de viver o versículo 6 apresenta uma alternativa sadia. A bela
expressão um punhado de descanso consegue transmitir a dupla idéia de desejos modestos e paz
interior: uma atitude tão distante da indolência egoísta do tolo quanto da luta desordenada do
diligente em busca da preeminência.
"Dá-me a minha concha de quietude,
Meu cajado de f é p ara m e apoiar,
Minha dieta im ortal de alegria,
Meu cântaro de salvação,
Minha veste de glória, real pen hor da esperança,
E assim vou iniciar
A minha peregrinação"40
Mas se é que existe algo mais opressor do que a inveja, é o hábito, quando este se
transforma em fixação. Os versículos 7e 8 descrevem o maníaco ganhador de dinheiro como
alguém completamente desumanizado, que se entregou à mera ganância e ao processo
infindável de alimentá-la. Subitamente o escritor identifica-se com tal homem, e nos leva a fazer
o mesmo, através da pergunta: Para quem trabalho eu...? estas palavras aparecem sem serem
anunciadas, como se expressassem o que a vida toda desse homem está dizendo. Embora, a bem
da clareza, estejamos examinando aqui a vida de um homem sem família, podemos imaginar que
a sua solidão não seja acidental e que, além disse, ele não tenha amigos, vivendo como vive na
sua rotina. Mesmo que tenha esposa e filhos, ele tem pouquíssimo tempo para lhes dedicar,
convencido de que está lutando em benefício deles, embora o seu coração esteja em outro lugar,
dedicado e enredado em seus projetos.
À semelhança da rivalidade invejosa descrita no versículo 4, este quadro de uma vida de
negócios solitária e sem sentido põe em cheque qualquer argumentação quanto às bênçãos do
trabalho duro. Não é aqui que jaz a resposta para a frustração,e muito menos na indolência do
versículo 8. Neste ponto Coelet parece fazer uma pausa em sua busca das coisas duradouras da
vida, o que nos dá oportunidade de olhar para trás e tornar a examinar o caminho que já
percorremos com ele.

Primeiro Resumo:
Retrospectiva de Eclesiastes 1:1-4:8
Até agora, em nossa perspectiva o cenário terreno, examinamos o que o mundo pode
oferecer em quatro ou cinco diferentes níveis. Começamos com uma impressão de sua total
inquietude, as repetições infinitas e inconclusivas que se acham na natureza e no cenário
humano (1:1-11). Depois consideramos as satisfações dos diferentes estilos de vida, racionais e
irracionais, frívolos e austeros: os prazeres da arte e do trabalho, da construção para o futuro
(1:12-2:26). Se alguns deles têm alguma coisa para dar, nenhum sobrevive ao teste decisivo da
morte. Para encontrar alguma coisa que o tempo não desfaça, temos de procurar em outro lugar.

39 McNeile destaca que o Heb. Deste versículo simplesmente faz da inveja o predicado do trabalho e da
destreza, isto é: “Então vi que... correspondia à inveja, etc”. Sendo incitado por ela e sendo um resultado
dela. Muitas traduções modernas (tais como a ERAB, a ER e a BLH) fazem da inveja o incentivo para o
sucesso; e outras (como a ERC) fazem dela o efeito das realizações sobre os outros; o Heb. Deixa em aberto
essas duas possibilidades.
40 Sir Walter Raleigh, “His Pilgrimage” (Sua Peregrinação)

23
Mas o tempo, como foi apresentado no capítulo 3, além de ser inexorável, também nos faz flutuar
ao sabor de marés e correntezas que são mais fortes do que nós. Não somos donos de nossas
circunstâncias: nem sequer podemos nos orientar dentro delas.
Uma nota mais sinistra insinua-se em 3:16 com o tema da tirania humana e sua crueldade.
É o fato amargo que faz da morte, mesmo no momento de maior desespero, não mais o último
inimigo, como a vimos no capítulo 2, mas o último amigo que nos resta.
Finalmente vimos, em 4:4-8, não os perdedores nesta luta humana, mas os aparentes
ganhadores e sobreviventes: aqueles que conseguiram ser por ela ou em si mesmos totalmente
absorvidos. Ao que parece, estes entraram em um acordo com a vida. Mas será que receberam
um prêmio duradouro? E será que a sua maneira de obtê-lo poderia enfrentar uma inspeção? A
expressão “corrida desenfreada" resume a idéia principal destes versículos: uma rivalidade
frenética em um dos extremos, uma desastrosa escolha no outro; e para os poucos que obtêm
sucesso, uma vida dedicada à consecução de prêmios e mais prêmios sem significado algum.
Após esta avaliação inclemente, será um alívio voltarmo-nos um pouco de nossa busca
desesperada por algo duradouro, para assuntos mais corriqueiros, pois a vida continua
enquanto buscamos, e há maneiras melhores e piores de vivê-la. Pelo menos neste ponto
podemos ser sábios!
Para começar, podemos ser mais sensíveis do que os solitários e obsessivos ganhadores de
dinheiro que acabamos de considerar; e um padrão mais sábio do que o deles será o primeiro
assunto dos comentários que se seguem acerca da vida.

Eclesiastes 4:9 -5 :1 2 -
Interlúdio: Algumas reflexões, máximas e verdades
Companheirismo
4: 9 M elhor é serem dois do que um, porque têm m elhor p ag a do seu trabalho.
10 Porque se caírem , um levanta o com panheiro; ai, porém , do que estiver só; pois, caindo,
não haverá quem o levante.
11 Também, se dois dorm irem juntos, eles se aqu en tarão; m as um só com o se aquentará?
12 Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três d obras não
se rebenta com facilidade.

Tendo examinado a pobreza do “solitário", por maior que seja o seu sucesso exterior,
agora vamos refletir sobre algo melhor; e m elhor aqui será uma palavra-chave (4:9,13; 5:1,5), o
que acontece com muita freqüência na avaliação de valores pelos escritores da Sabedoria.
As idéias são simples e diretas; aplicam-se a muitas formas de companheirismo, inclusive
(embora não explicitamente) ao casamento. Com uma brevidade graciosa elas descrevem o
proveito, a elasticidade, o conforto41 e a força que existem em uma verdadeira aliança; e por isso
vale a pena aceitar suas exigências. Embora tais exigências não estejam explícitas aqui,
dificilmente teríamos de expor os benefícios do companheirismo se este não envolvesse algum
custo. Um preço óbvio é a independência da pessoa: uma vez comprometida, ela tem de
consultar os interesses e a conveniência da outra, ouvir-lhe as idéias, ajustar-se ao seu modo de
andar e estilo de vida, e cumprir com as promessas. Quanto às recompensas, são todas benefícios
conjuntos: um parceiro nunca haverá de explorar o outro.
O cordão de três dobras talvez seja um lembrete de que o verdadeiro companheirismo tem
mais de uma forma. Embora os números, quando erradamente entendidos, possam ser divisivos
e desastrosos (veja o versículo 11), na sua forma certa, além de acrescentarem algo aos
benefícios da união, também se multiplicam. Um exemplo óbvio deste enriquecimento, e o
predileto dos pregadores, é a força de um casamento, ou de qualquer aliança humana, quando
Deus é o fio mestre que faz com eles o cordão triplo. Mas talvez o escritor estivesse pensando
mais nesta metáfora em termos puramente humanos, de modo que, se aplicada ao casamento, o

41 Oversículo 11 poderia aplicar-se ao casamento, mas possivelmente aplica-se mais aos viajantes que
dormem ao relento. Barton observa que “as noites na Palestina são frias... , e o viajante solitário dorme às
vezes unto de sua montaria para se aquecer na falta de outra companhia."

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terceiro fio seria mais apropriadamente os filhos, com tudo o que eles acrescentam á qualidade e
à força do laço original. Mesmo assim provavelmente estejamos sendo mais específicos do que
ele pretendia que fôssemos.

Aplausos populares
4 :1 3 M elhor é o jovem p o bre e sábio do que o rei velho e insensato, que j á não se deixa
adm oestar,
14 ainda que aqu ele saia do cá rcere p ara reinar ou nasça p obre no reino deste.
15 Vi todos os viventes que andam debaixo do sol com o jovem sucessor, que fic a r á em lugar
do rei.
16 Era sem conta todo o povo que ele dom inava; tam pouco os que virão depois se hão de
regozijar nele. Na verdade, que tam bém isto é vaidade e correr atrás do vento.

Este parágrafo tem pontos obscuros, mas descreve uma coisa bastante familiar na vida
pública: a popularidade efêmera dos grandes. Apresenta as faltas de ambos os lados, começando
com a teimosia do homem há muito tempo montado na sela, que ao se deixa tocar e que já não
tem mais a simpatia da nova geração, esquecido de como é ser jovem, fogoso e impaciente, como
ele mesmo já foi.42 Há muita semelhança com Davi no começo e no final de sua vida, para que
reflitamos no fato de que os melhores homens podem acabar assim sem que o percebam. MS o
retrato não tema intenção de ser histórico.
Pode acontecer que um homem melhor o suplante e venha a ser melhor se tiver as
qualidades certas, ainda que lhe falte idade ou posição, como o versículo 13a destaca. Coelet,
com o seu jeito de nos presentear uma cena vivamente colorida, descreve a enorme massa de
homens, e a vê do lado43 do recém-chegado, que é jovem, sendo ela em quantidade incontável.
Ele mesmo acaba seguindo o caminho do velho rei, não necessariamente pelas faltas que
comete, mas simplesmente porque o tempo e a familiaridade, assim como a inquietude dos
homens, acabam por fazê-lo perder o interesse. Ele atingiu o pináculo da glória humana apenas
para ser abandonado ali. Este é contudo mais um processo de degradação humana, das
realizações que finalmente se revelam vazias.

Conversa piedosa
5 :1 Guarda o pé, quando en trares na Casa de Deus; chegar-se para ouvir é m elhor do que
o ferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fa z em mal.
2 Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra
algum a diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas
palavras.
3 Porque dos muitos trabalhos vêm os sonhos, e do muito falar, palavras néscias.
4 Quando a Deus fiz eres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porqu e não se agrada de
tolos. Cumpre o voto que fazes.
5 M elhor é que não votes do que votes e não cumpras.
6 Não consintas que a tua boca te fa ç a culpado, nem digas diante do m ensageiro de Deus
que f o i inadvertência; p o r que razão se iraria Deus p o r causa da tua palavra, a ponto de destruir as
obras das tuas m ãos?
7 Porque, com o na m ultidão dos sonhos há vaidade, assim tam bém , nas m uitas palavras; tu,
porém , tem e a Deus.

Prosseguindo com um interlúdio de retratos, Coelet volta aos olhos observadores para o

42 As opiniões diferem quanto àquele que conheceu a prisão e a pobreza (v.140: se é o rei velho (como eu
penso) ou se é ojovem nobre e sábio que o suplanta. Se é este último, então o versículo 15 apresenta-o
espoliado por sua vez, já que o jovem é literalmente “o segundo jovem”; ou “o jovem sucessor”, (como
traduzido na ERAB) isto é, o jovem rival do velho rei.
43 A expressão literal é “com o jovem”. “Com” pode significar tanto “assim como” ou “junto com”. Este
último sentido nos prepara melhor para a preeminência que o jovem desfruta no versículo seguinte. Já a
BLH desperta um interesse maior, parafraseando: “Eu pensei em todas as pessoas que vivem neste mundo
e imaginei que existe, entre elas, em algum lugar, um moço que tomara o lugar do rei”; mas é ir longe
demais.

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homem como adorador. Tal fomo os profetas, ele insiste na sinceridade nesta área; mas o seu
tom é calmo, embora suas palavras sejam afiadas com a navalha. Enquanto os profetas proferem
com veemência suas invectivas contra os maus e os hipócritas, o alvo do escritor é a pessoa bem
intencionada que gosta de cantar e de ir à igreja, mas que ouve com um ouvido só e nunca faz o
que se propõe fazer para Deus.
Esse homem esqueceu-se de onde está e de quem ele é; acima de todas as coisas,
esqueceu-se de quem Deu sé. A palavra tolo (s), várias vezes repetida é denunciadora, pois ser
negligente com Deus é um m al (v.1), uma culpa (v.6) e uma provocação que não ficará impune
(v.6b). se nós nos sentirmos tentados a deixar isto de lado por ser parte da severidade do Antigo
Testamento, o Novo Testamento vai nos deixar desconcertados com suas advertências contra
palavras piedosas sem significado, ou para com a nossa maneira de lidar levianamente com as
coisas sagradas (Mt 7:21ss.; 23:16ss.; 1Co 11;27ss.). nenhuma ênfase na graça pode justificar
qualquer tomada de liberdades com Deus, pois no próprio conceito da graça existe gratidão; e a
gratidão não pode ser negligente.
Ao repassarmos estes versículos com mais cuidado, somos advertidos nas primeiras
palavras (com o equivalente à nossa expressão “Cuidado!"), de como Deus se esmerou em
guardar o limiar de sua porta aqui na terra nos tempos antigos, até mesmo com a ameaça de
morte (“para que não morram nelas, ao contaminar o meu tabernáculo", Lv 15:31). Num certo
nível, isto nos torna claro o preço de nossa admissão no “santuário celestial" e a pureza que é
exigida de nós (“pelo sangue de Jesus... purificados... e lavado o corpo com água pura", Hb
10:19ss), enquanto em um outro nível nos faz entender a consideração que deveríamos ter para
com a igreja de Deus, o templo vivo.44
Ouvir (v.1b) tem uma força dupla no hebraico: prestar atenção e obedecer. Portanto esta
advertência nos lembra as famosas palavras de Samuel: “Eis que o obedecer é melhor do que
sacrificar" (1 Sm 15:22). Aqui, entretanto, o culto inexpressivo não é premeditado; o pecado é
mais do tolo45 do que do velhaco, se é que isso melhora a situação! Coelet dificilmente nos
encorajaria a pensar assim: o seu lembrete de que Deus não se agrada de tolos (v.4) é uma
observação tão calmamente esmagadora quanto qualquer outra do livro.
Dois provérbios destacam a questão ligando a conversa dos tolos coma irrealidade dos
sonhos. O elo é um tanto impalpável no versículo 3, e menos ainda no versículo 7, onde os
sonhos parecem ser divagações que reduzem o culto a um ato puramente mecânico. O versículo
3 parece significar que, pela sua própria quantidade, o excesso de palavras acaba em asneiras,
exatamente como o excesso de trabalho acaba em pesadelos.46 Tais palavras nos confrontam
com o fato de que os tolos não são um determinado tipo de pessoas, mas sim pessoas que se
comportam de um determinado jeito. No contexto do culto, é como despejar uma avalanche de
frases piedosas que zombam de nosso Soberano (v.2) e ultrapassam nossos verdadeiros
pensamentos e intenções. Se formos eventualmente interrogados sobre o que dissemos na
igreja, nossas justificativas soarão tão defeituosas quanto as palavras de um gozador ou de um
mentiroso.47
Predadores oficiais
5: 8 Se vires em algum a província opressão de p o bres e o roubo em lugar do direito e da
justiça, não te m aravilhes de sem elhan te caso; porque o que está alto tem acim a de si outro m ais
alto que o explora, e sobre estes há ainda outros m ais elevados que tam bém exploram.
9 O proveito da terra é p ara todos; a té o rei se serve do campo.

44 Cf 1Co 3:16ss.; Ef 2:19ss.; 1Pe 2:5


45 Sacrifício de tolos dá o sentido exato, mas a frase é mais exatamente “é melhor do que os sacrifícios que
os tolos poderiam oferecer" (McNeile)
46 Uma alternativa sugerida é que um sonho consiste de (“vem na forma de") muitos trabalhos (isto é, uma
torrente de acontecimentos e imagens), e a voz de um tolo consiste de uma torrente de palavras. Barton
inclina-se para esta sugestão de T. Tyler, mas duvida que trabalho possa ter este significado.
47 O mensageiro do versículo 6 tem sido interpretado de diversas maneiras: como “o anjo" (cf. a ERC e a
ER) pois a língua Heb. Não distingue entre os mensageiros terrestres e celestes; como sacerdote (BLH; cf.
Ml 2:27); como um funcionário do templo enviado para cobrar dívidas e impostos; e como o próprio Deus
(cf a expressão “o anjo do Senhor", usada neste sentido). Seja qual for o sentido, o ponto em questão é o
pecado que a sua chegada denuncia.

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Assim continuam as reflexões sobre como enfrentar as condições da vida de maneira
realista. Agora, Coelet passa a fazer uma avaliação da burocracia. O quadro, senão é de todo
universal, não deixa de ser bastante familiar. O vislumbre desse panorama de autoridades
sugere possibilidades de subterfúgios kafkanianos, para desconcertar o cidadão que insiste em
seus direitos: ele pode acabar sendo obstruído e derrotado. Quanto à responsabilidade mora, ela
pode ser deixada de lado com a mesma facilidade. Cada funcionário pode acusar o sistema,
enquanto as autoridades máximas governam a uma distância infinita das vidas que afetam. Mas
Coelet destaca outro aspecto da burocracia: sua autoconcentração predatória, cada funcionário
mantendo um olho malicioso sobre aquele que o segue na lista.48 Delitzsch descreve este
processo no antigo império persa! “O sátrapa ficava na liderança dos governadores de estado.
Em muitos casos, ele espoliava a província em seu próprio proveito. Mas acima do sátrapa
ficavam os inspetores, que freqüentemente faziam a sua própria fortuna através de denúncias
fatais; e acima de todos ficava o rei, ou melhor, a corte, com rivalidades intrigantes entre os
cortesãos e as mulheres reais.”49 Não é de admirar que o cidadão da base de uma tal estrutura
achasse que a justiça era um luxo que ele não podia almejar.
De acordo com o ponto de vista do livro, o comentário sobre o assunto é seco e realista.
Afinal, se estamos considerando o mundo em seus próprios termos de completo secularismo,
não podemos esperar ser a moral muito elevada quer do sistema que encontramos no poder,
quer de qualquer outra parte. Com todo este ódio contra a injustiça, Coelet não coloca
esperanças em algum esquema utópico ou em uma revolução. Ele sabe o que existe dentro do
homem.
Por isso o seu primeiro comentário é não te m aravilhes de sem elhan te caso, e acaba
concluindo que até mesmo a tirania é melhor do que a anarquia. O destaque do versículo 9 50
parece ser que nada se ganharia caso se retornasse à estrutura simples dos velhos dias nômades.
Um país desenvolvido precisa da força de um governo central, mesmo envolvendo o fardo do
funcionalismo.

Dinheiro
5 :1 0 Quem am a o dinheiro ja m a is dele se fa r ta ; e quem am a a abundância nunca se fa r ta da
renda; tam bém isto é vaidade.
11 Onde os bens se multiplicam, tam bém se multiplicam os que deles com em ; que m ais
proveito, pois, têm os seus donos do que os verem com seus olhos?
12 Doce é o sono do trabalhador, quer com a pouco, quer muito; m as a fartu ra do rico não o
deixa dormir.

O assunto destas reflexões é um dos mais constrangedores para nós, como Jesus deu a
entender ao advertir-nos contra o fazer de mamom um segundo Deus. Os três ditados expressam
o fato como ele realmente é, destacando a ânsia que ele gera, os parasitas que atrai e a dispepsia
que é a sua típica recompensa.
O versículo 10 é um clássico sobre o amor ao dinheiro, um bom companheiro de 1 Timóteo
6:9ss. com suas famosas palavras acerca das conseqüências morais e espirituais desse amor.
Aqui o interesse é psicológico, embora a observação final, tam bém isto é vaidade, nos dê a lição
máxima que devemos aprender. A gana implacável que desperta é muito óbvia no jogador, no
magnata e no bem-pago materialista que nunca tem o suficiente, pois o amor ao dinheiro cresce
na proporção com que é alimentado. Mas essa gana pode apresentar-se de maneira mais sutil, na

48 A ERC torna o V.8b um tanto ameno (“porque o que mais alto é do que os altos para isso atenta”), mas a
ER acha-se mais próxima do hebraico literal (“Pois quem está altamente colocado tem superior que o
vigia; e há mais altos ainda sobre eles”). O plural “mais altos” poderia ser um plural de majestade e referir-
se ao rei ou a Deus; mas neste caso, deveria ser expresso com maior clareza. Quanto ao verbo, “vigia”
implica em proteção; mas também pode ter um sentido hostil (“explora”) como na ERAB (cf 1Sm 19:11)
49 Delitzsch, ad loc.
50 Nenhuma traduçãod este versículo recebeu aprovação geral. Alguns comentaristas encontram nele o
louvor a um rei que, tal como Uzias, gostava da lavoura; outros vêem que até mesmo um déspota depende
do solo (cf. ERAB, ER, ERC, BLH). Algumas destas variações surgem com a possibilidade de se anexar a
palavra “servir” tanto ao “rei” como (no sentido de “cultivado”) ao “campo”. A pontuação massorética
indica este último caso.

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forma de um descontentamento geral: um desejo não necessariamente de mais dinheiro, mas de
satisfação interior. Se existe coisa pior do que o vício gerado pelo dinheiro é o vazio que ele deixa
na vida das pessoas. O homem, com a eternidade no coração, precisa de um alimento melhor do
que esse.
O segundo dos três ditados (versículo 11) parece referir-se não apenas à complexa
instituição que de certa forma cresce com o aumento da riqueza, mas também ao enxame de
parasitas. Sobre estes há uma profecia tragicômica em Isaías 22:23ss., que promete um alto
cargo a um certo cortesão, mas adverte-o de que vai se ver desastrosamente sobrecarregado:
“Nele pendurarão toda responsabilidade da casa de seu pai", aqueles que buscam numa posição;
e o profeta, entusiasmando-se com o assunto, descreve tal homem como um cabide em que se
pendurou quase a metade dos utensílios da cozinha, até que o cabide e tudo o que contém vem
abaixo. Nesse versículo, porém, não temos tal clímax; apenas a ironia de ter de viver o próprio
prestígio e um pouquinho mais.
O terceiro ditado sobre o dinheiro (v.12) tem como exemplo qualquer situação em que a
riqueza e a indulgência dão-se as mãos. Aqui o rico não consegue dormi,não por causa do
excesso de trabalho, como em 2:23, ou devido à preocupação, como dá a entender a BLH (“o rico
se preocupa tanto com as coisas que possui, que nem consegue dormir"). Não, simplesmente é
porque come demais, como bem coloca a ER (“a saciedade do rico...").
Sejam quais forem os desconfortos do trabalhador, este ele não terá. E sejam quais forem
os fardos que Adão recebeu na Queda, havia na sentença uma dura misericórdia: “No suor do
rosto comerás o pão". Quanto a isto, há um comentário inconsciente nos nossos modernos
aparelhos de fazer exercícios e nas academias de saúde, pois eles são um dos nossos absurdos
humanos: jogamos fora dinheiro e esforço apenas para desfazer os estragos causados pelo
dinheiro e pelo conforto.

Eclesiastes 5:13-6:12 -
A amargura do desapontamento
No capítulo quarto, e na metade deste capítulo quintão de Eclesiastes, ocupamo-nos mais
com o viver de maneira sensata no mundo como o encontramos (inclusive no mundo de nossas
obrigações religiosas) do que com a preocupação quanto a se estamos conseguindo alguma coisa
ou não. O problema ainda continua, refletido duas vezes no comentário “também isto é vaidade"
(4:16; 5:10); agora ele torna-se novamente o centro das atenções enquanto Coelet cita algumas
das amargas anomalias da vida. Ele conclui o capítulo6 - e com isso a primeira metade do livro -
enfatizando a pergunta que aparentemente já havia respondido antes: “Pois quem sabe o que é
bom para o homem... debaixo do sol?"

O choque
5 :1 3 Grave m al vi debaixo do sol: as riquezas que seus donos guardam p ara o próprio dano.
14 E, se tais riquezas se perdem p o r qualquer m á aventura, ao filh o que gerou nada lhe fic a
na mão.
15 Como saiu do ventre de sua mãe, assim nu voltará, indo-se com o veio; e do seu trabalho
nada p od erá levar consigo.
16 Tam bém isto é g r a v e mal: precisam ente com o veio, assim ele vai; e que proveito lhe vem
de haver trabalhado p ara o vento?
17 Nas trevas, com eu em todos os seus dias, com muito enfado, com enferm idades e
indignação.

Um exemplo em miniatura coloca-nos agora face a face com a frustração; este autor
prefere nos apresentar exemplos da própria vida e não apenas abstrações. Aqui, então, temos
um homem que perde todo o seu dinheiro de um só golpe, deixando a família desamparada. Isto
até teria sentido se fosse um castigo para negócios ilícitos (“os bens que facilmente se ganham" e

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que merecem desaparecer, Pv 13:11), ou se fosse a fortuna ganha em jogos de azar51 em vez das
economias de um pai de família; ou, então, se fosse dinheiro perdido no jogo e não um fracasso
nos negócios.52 Mas, na verdade, trata-se de dinheiro ganho com trabalho e preocupações. A vida
dele foi duplamente desperdiçada, primeiro ganhando, depois perdendo. E, se este é um caso
extremo, também nós enfrentamos algo parecido: todos nós partiremos tão nus quanto
chegamos. “Mas isto não é justo!", poderíamos dizer. A reação do próprio Coelet não é tão
impetuosa, pois ele está principalmente destacando o que acontece, e não o que deveria
acontecer, em u mundo no qual não podemos ditar ordens nem criar raízes. “Um mal fatal"53
talvez seja a tradução mais aproximada de sua expressão. Foi assim que ele apresentou o
assunto (v.13); e agora ele repete: “é grave mal... e que proveito lhe vem de haver trabalhado
para o vento?" (v.16).
Neste ponto convém lembrar que esse homem talvez quisesse da vida mais do que ela lhe
podia dar. Se os seus planos eram feitos apenas com base no que estava ao seu alcance e no que
lhe prometia alguma segurança, então ele estava olhando na direção errada. Assim o parágrafo
final vai nos acalmar, falando agora da vida em termos muito diferentes.

Um caminho mais excelente


5 :1 8 Eis o que eu vi: b oa e bela coisa é com er e b eb er e g o z a r cada um do bem de todo o seu
trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu;
porque esta é a sua porção.
19 Quanto ao hom em a quem Deus conferiu riquezas e bens e lhe deu p od er p ara deles
comer, e receb er a sua porção, e g o z a r do seu trabalho, isto é dom de Deus.
20 Porque não se lem brará muito dos dias da sua vida, porquanto Deus lhe enche o coração
de alegria.

À primeira vista isto talvez pareça um mero elogio à simplicidade e à moderação. Mas, de
fato, a palavra-chave é Deus, e o segredo da vida que nos é apresentado é a abertura para com
ele: uma disposição de aceitar tudo como vindo do céu, quer seja trabalho ou riqueza, ou ambos.
Isto é mais do que boa e bela cousa (v. 18): mais literalmente, é “uma coisa boa que é bela".
Novamente, uma nota positiva aparece, e no final do capítulo captamos um vislumbre do homem
por quem a vida passa rapidamente, não porque ela é curta e sem sentido, mas porque, pela
graça de Deus, ele a acha completamente arrebatadora. Este será o tema dos capítulos finais;
antes, porém ainda há algo mais a ser explorado na experiência humana e em suas duras
realidades.

Tantalização
6 :1 Há um m al que vi debaixo do sol e que pesa sobre os homens:
2 o hom em a quem Deus conferiu riquezas, bens e honra, e nada lhe fa lta de tudo quanto a
sua alm a deseja, m as Deus não lhe concede que disso com a; antes, o estranho o com e; tam bém isto
é vaidade e g rav e aflição.
3 Se alguém g e r a r cem filh os e viver muitos anos, a té avançada idade, e se a sua alm a não se
fa r t a r do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é m ais feliz do que ele;
4 pois debald e vem o aborto e em trevas se vai, e de trevas se cobre o seu nom e;
5 não viu o sol, nada conhece. Todavia, tem m ais descanso do que o outro,
6 ainda que aqu ele vivesse duas vezes mil anos, m as não g ozasse o bem. Porventura, não vão
todos p ara o m esm o lugar?

Imediatamente deparamo-nos com o fato de que o “poder" de desfrutar os dons de Deus,


que nos foi apresentado em 5:19, é em si mesmo um dom que pode ou não nos ser concedido.
Podemos ser privados dele de diversas maneiras. Em 5:13ss., temos o fracasso nos negócios:
aqui tudo foi sacrificado por um futuro que nunca se concretizou. Para este homem nunca houve

51 Cf Pv 11:24-26 sobre a infeliz influência disso; e 28:22 sobre sua transitoriedade.


52 Aventura (v.14) não implica necessariamente em risco; é a palavra traduzida por “trabalho" em 1:13;
3:10; 5:3 (Heb 2), etc.
53 Lit. “doença". Implica em problema que é perturbador e esta profundamente enraizado.

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uma manha. Mas a vida pode ter longos períodos de brilho e de alegria, e ainda assim sucumbir
em trevas, que parecerão ainda mais profundas por causa da luz que desfizeram. O homem do
versículo 2, exatamente por ser notável, tem mais a perder do que o lerdo que nunca chega a
nada. E ele pode muito bem perder tudo sem ter culpa alguma: é só vir a guerra, a enfermidade
ou a injustiça e lançar tudo no colo de outra pessoa. Se ele é atormentado, também o são aqueles
que têm riqueza material e pobreza interior, pois o problema não é simplesmente que alguns
bens são menos satisfatórios que outros, o que sem dúvida acontece, ou que estes nos são dados
escassamente. Uma pessoa pode ter tudo que os homens sonham (o que nos termos do Antigo
Testamento significava filhos às dezenas e anos de vida aos milhares) e ainda assim partir sem
ser percebido ou lamentado54 e sem ter satisfação.
A esta altura podemos protestar dizendo que afinal de contas a fida não é tão negra assim
para a maioria das pessoas. Normalmente, podemos aceitar as dificuldades junto com as
alegrias, achando que a vida decididamente vale a pena ser vivida. É claro que isto é verdade e
está muito bem fundamentado, se somos homens de fé como aqueles que conhecemos no final
do capítulo cinco. Mesmo que não o sejamos, ainda assim podemos viver satisfeitos, como
milhares de pessoas vivem, sem nos preocupar com o significado final das coisas.
A isto Coelet poderia responder, primeiramente, que ele está falando de algumas pessoas e
não de todas; e, em segundo lugar, que se nós não estamos interessados em significados e
valores, outras pessoas estão - e quem somos nós para descartar essa responsabilidade? Mais
uma vez ele nos convida a pensar, e particularmente a pensar através da posição do secularista.
Se esta vida é tudo, oferecendo a algumas pessoas mais frustração do que satisfação e nada lhes
deixando para dar àqueles que delas dependem; se, além disso, todos igualmente aguardam a
sua vez de ser esquecidos (v.6c) então alguns realmente podem invejar os natimortos, que
tiveram mais proveito. Em certas horas, Jó e Jeremias teriam concordado com isso
fervorosamente (Jó 3; Jr 20:14ss.); e se nós discordamos coma disposição de espírito desses dois
homens é porque julgamos suas vidas pelos valores que transcendem a morte e que ultrapassam
os sofrimentos e os prazeres desta vida, um critério que o secularista não pode logicamente usar.
Tudo isto estraga qualquer quadro cor-de-rosa que se tenha do mundo; a BLH destaca isso
dizendo “tenho visto outra coisa muito triste que acontece neste mundo..." (6:1), e faz 6:2 dizer:
“e não está certo".55 Coelet está muito longe de afirmar que o homem tem direitos que Deus
ignora; antes, o homem tem necessidades que Deus denuncia. Algumas delas, como já vimos, são
de um tipo que o mundo temporal não pode nem começar a usufruir, uma vez que Deus “pôs a
eternidade no coração do homem" (3:11); outras, mais limitadas, são de um tipo que o mundo
pode satisfazer um pouco e por algum tempo; nenhuma delas, porém, com certeza e em
profundidade. Se isto é sofrimento e pesa sobre os hom ens (v.1), também é uma coisa muito
salutar. O próprio mundo no-lo diz com a única linguagem que geralmente entendemos: “não é
lugar aqui de descanso".56
Mas, por enquanto, não somos incentivados a colher disso qualquer sabedoria, pois a
“corrida desenfreada" por si mesma não faz nenhum sentido. Assim o capítulo conclui com uma
nota depressiva e incerta, bem adequada ao estado do homem abandonado a si mesmo.

Perguntas sem resposta


6: 7 Todo trabalho do hom em é p ara a sua boca; e, contudo, nunca se satisfaz o seu apetite.
8 Pois que vantagem tem o sábio sobre o tolo? Ou o p obre que sa be andar peran te os vivos?
9 M elhor é a vista dos olhos do que o andar ocioso da cobiça; tam bém isto é vaidade e correr
atrás do vento.
10 A tudo quanto há de vir j á se lhe deu o nome, e sabe-se o que é o homem , e que não p ode
contender com quem é m ais fo r te do que ele.

54 Esta é a força de não tiver sepultura (6:3); veja Jr 22:18ss


55 OAT pode usar a palavra mal (6:1) em um sentido neutro, para indicar dificuldade ou desastre; cf., por
exemplo, Is 45:7 (“o mal"); Am 3:6 (“Sucederá algum mal à cidade..."). semelhantemente, bem nesta
passagem é traduzido por “gozar do bem" e “fartar do bem" (5:18; 6:3). A última frase do versículo 2, tão
distante do significado de “não está certo" (BLH), é lit. “é uma grave enfermidade" (como na ERC “má
envermidade") ou com o sentido próximo de grande aflição (ERAB).
56 Mq 2:10

30
11 É certo que há m uitas coisas que só aum entam a vaidade, m as que aproveita isto ao
hom em ?
12 Pois quem sa b e o que é bom p ara o hom em durante os poucos dias da sua vida de
vaidade, os quais g asta com o som bra? Quem p ode declarar ao hom em o que será depois dele
debaixo do sol?

As idéias e as perguntas do parágrafo final do capítulo voltam a tocar em alguns assuntos


que já vimos antes, para consubstanciar o lema do livro, “vaidade de vaidades!”.
A primeira delas (v.7) insiste em um ponto que é tão real para o homem moderno em sua
rotina industrial quanto o era para o lavrador primitivo que mal tirava da terra o seu sustento:
que se trabalha para comer, a fim de ter forças para continuar trabalhando e continuar comendo.
Mesmo quando se gosta do que faz - e do que se come - a compulsão continua existindo. Quem
governa, parece, é a boca e não a mente.
Quando objetamos que os homens tema algo mais do que isso, e coisas melhores pelas
quais viver, o versículo 8 não permite que tal argumentação fique sem resposta. A sabedoria, por
exemplo, pode ser infinitamente melhor que a loucura, como já vimos numa passagem anterior
(2:13); mas será que o sábio vive em melhores condições do que o tolo? Materialmente, tanto
pode ser que sim como não, embora ele certamente o mereça; e nós já vimos que a morte vai
nivelar os dois com total indiferença.57 Quanto à felicidade, a clareza de visão do homem sábio
não se constitui só de alegria: “Porque na muita sabedoria”, como vimos em 1:18, “há muito
enfado; e quem aumenta ciência, aumenta tristeza.”
Como que sentindo que nós ainda não estamos muito convencidos, uma vez que avaliamos
a qualidade da vida de um homem acima do seu conforto, Coelet faz a prática pergunta de 8b: o
que um pobre, por mais respeitado que seja,58 realmente recebe em troca do seu sofrimento? É
uma pergunta honesta. Invertendo um dos conhecidos ditados de R.L Stevenson, para a maioria
de nós é melhor chegar do que viajar cheio de esperanças. Esta é a ênfase do versículo 9a, e o seu
senso prático não dá lugar a fantasias. O problema é que “chegar”, em qualquer sentido final e
realizador, está alem do nosso poder. Qualquer coisa que nós consigamos vai se desfazer como
vaidade e correr atrás do vento, quer seja o espírito de iniciativa do pobre, quer seja o sucesso do
rico.
Será isto derrotismo ou realismo? Em termos da vida “debaixo do sol” é realismo total,
como a argumentação do livro já no-lo provou. Por mais palavras magníficas que
multipliquemos acerca do homem ou contra o seu Criador, os versículos 10 e 11 nos fazem
lembrar que não podemos alterar a maneira como nós e o nosso mundo foram feitos. Estas
coisas já receberam um nom e e sabe-se (v.10) o que são, o que é uma outra maneira de dizer,
como o restante das Escrituras, que devem a sua existência à ordem de Deus; e esta ordem inclui
agora a sentença passada a Adão na Queda. É claro que achamos tal sentença dura e queremos
protestar. A idéia de discutir com o Todo-poderoso (VS. 10b,11) fascinava Jó, que a abandonou
apenas depois de muito sondar o seu coração;59 a mesma idéia recebeu uma repreensão clássica
em Isaías 45:9ss., com o exemplo do barro dando ao oleiro um conselho intrometido. Mas nós
continuamos achando mais fácil exagerar a maneira como achamos que as coisas deveriam ser
do que enfrentar a verdade do que elas são.
Mas esta verdade, para que seja a verdade total, deve incluir o que elas estão se tornando e
o que vai ser de nós. Uma parte disto, que vamos morrer, já sabemos muito bem; do restante,
apenas um pouquinho. Assim o capítulo, no meio do livro, acaba com uma enfiada de perguntas
sem resposta. O homem secular, que caminha para a morte e precipita-se ao léu das mudanças,
só pode fazer-lhes eco: "Pois quem sa be o que é bom... ? Quem p ode d eclarar ao hom em o que será
depois dele... ?”
É um duplo espanto. Ele fica sem valores absolutos pelos quais viver (“o que é bom?”) e
sem nenhuma certeza prática (“o que será?”) para fazer planos.

57 Ec 2:14ss.
58 A expressão “que sabe andar... ” pode dar a entender uma vida moral ou socialmente bem conduzida. A
palavra aqui usado como pobre é aquela que em outras passagens tende a distinguir o oprimido que busca
ajuda de Deus.
59 Veja, por exemplo, Jó, capítulos 9,13 e 23; também 31:35-37; 42:1-6

31
Segundo Resumo:
Retrospectiva de Eclesiastes 4:9-6:12
Em nosso primeiro resumo, fomos lembrados de quão amplamente se estenderam os
primeiros capítulos em busca de um fim satisfatório para a vida. Então, por um pouco, a
investigação parece que ficou suspensa. De 4:9 até mais ou menos 5:12 conseguimos fazer uma
pausa para olhar à nossa volta e estudar o cenário humano com certa neutralidade. Os
comentários foram penetrantes como sempre, mas o tom foi tranqüilo, quase condescendente.
Mas foi a ironia, não aceitação. De 5:13 em diante já não fomos mais poupados à
inquietação que as anomalias e tragédias do mundo deveriam despertar em nós. Nós
experimentamos seus causticantes desapontamentos: a súbita ruína do trabalho de toda uma
vida (5:13-17) e também as realizações deslumbrantes que não trouxeram felicidade alguma
(6:1-6). Houve m vislumbre de coisas melhores no final do capítulo 5, um sinal de que Coelet nos
levaria a uma reposta no final; mas o alívio teve curta duração. O capítulo 6, que começou com a
denúncia de algumas vidas vazias, continuou desmascarando a atividade constante e sem
sentido (6:7-9) do nosso formigueiro humano, e concluiu repudiando nossos belos discursos
sobre o progresso (6:10-12). Pois, apesar de todo esse falatório, o homem por si não tem a
capacidade de mudar-se a si mesmo; não tem nenhuma permanência nem sequer um lugar para
onde ir.

Eclesiastes 7:1-22 -
Interlúdio: Mais reflexões, máximas e verdades
Com um toque seguro, o autor introduz agora uma mudança estimulante no seu estilo e
método. Em vez de refletir e argumentar, ele vai nos bombardear com o forte impacto e variados
ângulos de ataque dos provérbios. Os primeiros são provocativamente melancólicos; os
restantes (na sua maioria) são provocativamente tranqüilos e sagazes.

Você pode também enfrentar os fatos!


7 :1 M elhor é a boa fa m a do que o ungüento precioso, e o dia da morte, m elhor do que o dia
do nascimento.
2 M elhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim
de todos os hom ens; e os vivos que o tom em em consideração.
3 M elhor é a m ágoa do que o riso, porqu e com a tristeza do rosto se f a z m elhor o coração.
4 O coração dos sábios está na casa do luto, m as o dos insensatos, na casa da alegria.
5 M elhor é ouvir a repreensão do sábio do que ouvir a canção do insensato.
6 Pois, qual o crepitar dos espinhos debaixo de uma panela, tal é a risada do insensato;
tam bém isto é vaidade.

Nada na primeira metade do versículo 1 nos prepara para o golpe da segunda metade.
Houve algo parecido no capítulo anterior (6:1-6), mas falava de casos especiais. Estas palavras
são tão arrasadoras e tão contrárias à opinião normal que temos de dar um pulo até o Novo
Testamento, onde “partir e estar com Cristo" é considerado “muito melhor" do que ficar aqui
(em 3:21, contudo, Eclesiastes já se recusou a pressupor a existência de uma vida futura); ou,
então, temos de continuar lendo, na esperança de que haja esclarecimento a seguir.
Isto não vamos encontrar, com certeza; e fica enunciado mais explicitamente no final do
versículo seguinte, em especial na expressão e os vivos que o tom em em con sideração. Em outras
palavras, o dia da m orte tem mais a nos ensinar do que o dia do nascim ento; suas lições são mais
concretas e, paradoxalmente, mais vitais. No nascimento (e, como falam os versículos seguintes,
em todas as ocasiões alegres e festivas) o ambiente é de excitação e expansividade. Não é hora
de se pensar na brevidade da vida ou nas limitações humanas: deixamos que nossas fantasias e
esperanças subam alto na casa onde há luto, por outro lado, o ambiente é sério e a realidade é
evidente. Se não pensamos nela, a culpa é nossa: não teremos outra oportunidade melhor de

32
encará-la. O grande salmo sobre a mortalidade humana, o Salmo90, expõe o assunto com
majestosa simplicidade:
"Ensina-nos a contar os nossos dias,
p ara que alcan cem os coração sábio.”
Assim como o salmo, esta passagem tem em vista um resultado positivo, o que fica
explícito com a insistência na palavra melhor, e especialmente na última parte do versículo 3
conforme a ER: a tristeza do rosto torna m elhor o co ra çã o . A idéia de que a tristeza, além de ser
substituída pela alegria, também é em si mesma uma preparação para uma forma mais perfeita
de gozo (ao contrário da jovialidade confusa e vazia dos tolos, rápida em se acender e rápida em
se apagar60) é mais claramente exposta em João 16:20ss., onde se usa a analogia do parto, cujas
dores preparam o caminho para uma alegria especial. Em outros termos, veja-se 2Coríntios
4:17ss. e, no Antigo Testamento, Jó 33:19-30.
Já a BLH toma “coração” como o sentido de “mente”: “a tristeza faz o rosto ficar abatido,
mas torna o coração compreensivo.” Apesar de ocorrer com freqüência este sentido no AT, a
expressão encontrada aqui é um padrão para o sentimento de alegria (cf., por ex., Rt 3:7)

Você também pode ser racional!


7: 7 Verdadeiramente, a opressão fa z endoidecer a té o sábio, e o suborno corrom pe o
coração.
8 M elhor é o fim das coisas do que o seu princípio; m elhor é o paciente do que o arrogante.
9 Não te apresses em irar-te, porque a ira se abriga no íntimo dos insensatos.
10 Jam a is digas: Por que fo ra m os dias passados m elhores do que estes? Pois não é sábio
perguntar assim.
11 Boa é a sabedoria, havendo herança, e de proveito, p ara os que vêem o sol.
12 A sabed oria proteg e com o p roteg e o dinheiro; m as o proveito da sabed oria é que ela dá
vida ao seu possuidor.
13 Atenta p ara as o bras de Deus, pois quem p od erá endireitar o que ele torceu?
14 No dia da prosperidade, g o z a do bem ; mas, no dia da adversidade, considera em que Deus
fe z tanto este com o aquele, p ara que o hom em nada descubra do que há de vir depois dele.
15 Tudo isto vi nos dias da minha vaidade: há justo que p erece na sua justiça, e há perverso
que prolonga os seus dias na sua perversidade.
16 Não sejas dem asiadam ente justo, nem exageradam ente sábio; p o r que te destruirias a ti
mesmo?
17 Não sejas dem asiadam ente perverso, nem sejas louco; p o r que m orrerias fo r a do teu
tempo?
18 Bom é que retenhas isto e tam bém daquilo não retires a m ão; pois quem tem e a Deus de
tudo isto sai ileso.
19 A sabed oria fo r ta le c e ao sábio, m ais do que dez poderosos que haja na cidade.
20 Não há hom em justo sobre a terra que fa ç a o bem e que não peque.
21 Não apliques o coração a todas as p alavras que se dizem, p ara que não venhas a ouvir o
teu servo a am aldiçoar-te,
22 pois tu sa b es que m uitas vezes tu m esm o tens am aldiçoado a outros.

Há aqui quase tantas opiniões e pontos de vista quantas afirmações; uma certa melancolia
para com o assunto, porém, destaca-se na maioria delas. Encarando o homem do mundo no seu
próprio ambiente não muito elevado, Coelet destaca que há vantagens auto-evidentes em se
tentar dar sentido à vida, em vez de cair no cinismo e no desespero.
No versículo 7 podemos reconhecer a essência de uma lei que, nos tempos modernos, Lord
Acton formulou da seguinte maneira: “Todo poder tende a corromper...”. É interessante que a
exortação implícita aqui é para com o auto-respeito, pois ninguém gosta de se fazer de tolo, o
que o funcionário cruel ou corrupto faz por definição, uma vez que age sem referência aos
méritos de um caso. Sua mente foi adulterada: em vez de servir à verdade, transformou-se em
ferramenta da avareza e da malevolência.
Reunindo os versículos 8 e 9, vemos de novo o lado puramente louco das atitudes que o

60 Oversículo 6 faz um trocadilho com os dois sentidos de sir no heb., “espinho” e “panela”.

33
moralista condenaria sob fundamentos mais graves, mas que são fundamentos que pouco dizem
ao homem mundano. Considerando ou não a paciência uma virtude e a disputa um vício,
podemos finalmente ver o bom senso prático do autocontrole: examinar uma questão por
completo, em vez de abandoná-la diante da primeira afronta contra a nossa dignidade. Este não
é o único setor em que a atitude errada também pode ser acertadamente descrita como infantil.
O versículo 10 é ainda mais esmagador, pois condiz com uma reação nostálgica, que é um
estado de ânimo enervante e auto-indulgente. Suspirar pelos “bons dias do passado" é uma coisa
(podemos refletir) duplamente irreal: um substituto não somente para a ação como também
para um raciocínio adequado, uma vez que invariavelmente são esquecidos os males que
tiveram uma forma diferente ou que prejudicaram uma outra seção da sociedade em outros
tempos. O esclarecido Coelet é a última pessoa a se impressionar com esta neblina dourada do
passado; ele já declarou que uma época é muito parecida com outra. “O que foi, é o que há de
ser... nada há, pois, novo debaixo do sol" (1:9). Tudo isto, ele agora dá a entender, é bastante
óbvio para que valha a pena argumentar: ele só precisa nos pedir que falemos com mais
sensatez.
Nos versículos 11 e 12 surge uma estimativa invulgarmente mundana de sabedoria.
Embora haja algumas dúvidas sobre a tradução correta, é certo que a sabed oria está sendo
tratada, no momento, em pé de igualdade com o dinheiro, pois é um valor vantajoso: uma
garantia comparável ou superior contra os riscos da vida.61 Neste caso, dificilmente seria uma
comparação lisonjeira para alguma coisa cujo verdadeiro valor é incalculável, de acordo com
Provérbios 8:11 e muitas outras passagens. O versículo 12b talvez esteja dizendo que a
sabedoria, ao contrário do dinheiro, dá vida;62 mas para estarmos dentro dos modestos alvos
desta passagem temos que considerar apenas o valor prático e protetor do dinheiro. A frase em
11b, de proveito p ara os que vêem o sol, talvez seja uma observação ambígua, um lembrete de que
há um limite de tempo para o benefício que até mesmo a sabedoria, neste nível de bom senso
geral, pode oferecer. Não produz dividendo algum na sepultura.
O restante dessas variadas afirmações, que seguem até o versículo 22, mostra como é
inconstante o conselho do bom senso quando não tem um princípio unificante. Vai da resignação
piedosa até o cinismo moral (vs 13-18); e observa as imperfeições da natureza humana, embora
muitíssimo interessada em tentar conviver com elas (vs. 20-22).
Examinando essas afirmações um pouco mais detalhadamente: o versículo 13 não está
falando de defeitos morais, mas da forma das coisas e dos acontecimentos que nós achamos
estranhos, mas temos de aceitar como vindos de Deus. Isto inclui os seus juízos - pois ele
"transtorna" o caminho dos ímpios", como o Salmo 146:9 declara literalmente (ou “torce",
usando um outro verbo) - mas também presumivelmente muitas das provações da vida, como
sugere o versículo seguinte (v.14). este versículo é um clássico sobre a maneira correta de se
comportar quando tudo vai bem ou quando tudo vai mal, ou seja, aceitar ambas as situações
como vindas de Deus: nem com a impassividade do estóico nem com a inquietação daqueles que
não conseguem aceitar um prêmio com deleite, ou um golpe da sorte com espírito aberto e
refletivo.
“Aceite o que Ele dá,
E louve-o, igual:
No bem e na doença
Ele é Deus eternal."63
Mas, de acordo com este tema, Coelet deve destacar o mistério daquilo que Deus dá, e
especialmente a sua imprevisibilidade, o que apara as asas da nossa auto-suficiência. Esse ponto
já foi destacado em 3:11, onde o tempo e a eternidade, assim como a obscuridade e a clareza, nos
tantalizam e nos alertam, no caso de imaginarmos sermos nada mais do que animais ou nada

61 Oversículo 11 pode significar que ter as duas coisas, riqueza e sabedoria, é uma dupla vantagem (como
na ERAB); mas provavelmente, o sentido seja o de comparar uma com outra (ER, BLH, ERC): “boa é
sabedoria como a herança" (ER); cf. o heb. De, por exemplo, 2:16b; Jó 38:18, onde “da mesma sorte" é lit.
“com".
62 A simples expressão traduzida por dá a vida também pode significar “preserva a vida" (ER) ou
“conserva" (BLH) - cf., por exemplo, 1Sm 2:6; Sl 85:6 (Heb. 7). E “vida" no AT, como no NT, geralmente
significa vitalidade espiritual e não simplesmente existência física.
63 Richard Baxter, "Ye holy angels bright".

34
menos do que deuses.
Agora surge o cinismo, nos versículos 15-18: o lado desgastado e egoísta do senso prático.
Para nos mostrar a lógica da posição secular, Coelet abandona por uns instantes qualquer indício
de uma fé genuína, e introduz a religião no final apenas em uma forma de superstição, o que
reduziria Deus ao status de uma cláusula de compensação.
De maneira bastante esclarecedora (embora o versículo 15 possa ser comparado e até
ultrapassado pelas meditações de Jó, que pinta quadros evocativos do pecador tranqüilo e do
santo atormentado, como nos capítulos 21 e 30-31), Jó nunca chega à conclusão mesquinha
apresentada nos versículos 16ss. ele preferiria morrer a renunciar suas reivindicações de justiça,
ainda que para sustentá-las tivesse de desafiar o próprio céu. “Eis que me matará, já não tenho
esperança; contudo defenderei o meu procedimento.”64
Ao lado dessa resolução vigorosa, o lema “não sejas demasiadamente” jamais pareceu tão
vulgar como nestes versículos, que recomendam covardia moral com uma atitude tão séria que
sentimo-nos forçados a aceitá-la com seriedade no momento. Ao fazê-lo, percebemos que na
verdade se trata da moralidade, reconhecida ou não do homem mundano, se ele é fiel aos seus
princípios. Poderíamos acrescentar que isso está se tornando cada vez mais normal em nossa
atual sociedade. O versículo 18 sonda as profundidades, advogando, um tanto
misteriosamente,65 não apenas a falta de sinceridade no bem ou no mal, mas uma generosa
mistura ambos, uma vez que a religião vai resolver tudo e a pessoa vai, portanto, desfrutar
ambos os estilos de vida.
Depois disso, a declaração irrepreensível do versículo 19 restaura um pouco a nossa
confiança no valor do bom senso (embora não, talvez, no valor dos políticos). Mesmo tratando da
sabedoria, um versículo posterior (9:16) vai nos lembrar que não devemos esperar muito
reconhecimento por uma qualidade tão intangível.
Isolado do cinismo dos versículos 16-18, o versículo 20 pode ser aceito ao pé da letra,
como uma confissão e não uma justificativa. Não se trata de uma postura indiferente, como os
versículos anteriores dariam a entender; em continuação, Coelet parece suavizar um pouco essa
verdade. Os versículos 21 ss. são em si mesmos, um excelente conselho, uma vez que, quando
encaramos com muita seriedade o que as pessoas dizem de nós ficamos magoados; e de
qualquer forma todos nós já dissemos coisas ferinas algum dia. Mas talvez os três versículos (20­
22) juntos considerem nossas falhas com um pouco mais de negligência do que as Escrituras
costumam fazê-lo, e quem sabe ainda estejamos dando ouvidos aqui ao Sr Sensato (tomando
emprestado o nome de C.S. Lewis),66 em vez de ouvir a voz autêntica da sabedoria. Certamente
Coelet não encontra um ponto de apoio em nenhuma dessas máximas: ele está profundamente
insatisfeito com sua superficialidade, conforme veremos em suas próximas palavras.

Eclesiastes 7 :2 3 -2 9 -
A busca continua
7 :2 3 Tudo isto experim entei pela sabedoria; e disse: tornar-m e-ei sábio, m as a sabedoria
estava longe de mim.
24 O que está longe e mui profundo, quem o achará?
25 Apliquei-me a conhecer, e a investigar, e a buscar a sabed oria e meu juízo de tudo, e a
conhecer que a perversidade é insensatez e a insensatez, loucura.
26 Achei coisa m ais am arga do que a m orte: a m ulher cujo coração são redes e laços e cujas
m ãos são grilhões; quem f o r bom diante de Deus fu g irá dela, m as o p eca d o r virá a ser seu
prisioneiro.
2 7 Eis o que achei, diz o Pregador, conferindo uma coisa com outra, p ara a respeito delas
fo r m a r o meu juízo,
28 juízo que ainda procuro e não o achei: entre mil hom ens ach ei um com o esperava, m as
entre tantas m ulheres não achei nem sequ er uma.

64 Jó 13:15; cf., por exemplo, 27:1-6


65 Isto e daquilo referem-se ao que acaba de ser citado no v.15, isto é, a justiça e a perversidade. A linha
final ficou bem parafraseada pela BLH: “Se você temer a Deus, terá sucesso em tudo”.
66 C.S. Lewis, The Pilgrim's Regress (2âed., Bles, 1943) pg 82ss

35
29 Eis o que tão-som ente achei: que Deus f e z o hom em reto, m as ele se m eteu em muitas
astúcias.

A admissão honesta de fracasso na busca da sabedoria (na verdade, quando a observamos,


recuamos a cada passo, ao percebermos que nenhuma de nossas sondagens chega até o fundo
das coisas) é, se não co começo da sabedoria, pelo menos um passo na direção do começo.
Depois da ambiciosa busca do capítulo 2, a investigação passa agora a áreas menos exóticas,
mergulhando na experiência comum e fazendo pausas de vez em quando para ver o que se pode
fazer da vida no dia-a-dia, sejam quais forem finalmente os seus segredos. Neste nível, as
descobertas talvez tenham sido bastante sagazes, até sagazes demais. Mas tendo dito tudo isto
experim entei-o (v.23), em busca de uma resposta à pergunta “o que é a vida?", elas não deram
nem sobra de resposta.
Portanto a confissão de 7:23 tem uma finalidade devastadora. Poderia ser o epitáfio de
qualquer filósofo, e nós poderíamos dispô-la nesta forma, adequada para qualquer sepultura:
“Eu disse:
tornar-me-ei sábio,
mas a sabedoria estava longe de mim.
O que está longe e mui profundo,
quem o achará?"
Como qualquer pergunta sem resposta, este quebra-cabeças acerca da vida tinha sido um
estímulo no princípio. A série de verbos, conhecer... investigar... buscar (v.25), transmite a
sinceridade da busca, como Edgar Jones destaca.67 Mas faz parte da condição do homem que,
embora ele possa formular a sua tarefa em termos de pesquisa imparcial e com filosofias
(buscando um resumo total das coisas,68 consciente do mal como estultícia e loucura)69, ele tem
também de se voltar para a esfera dos relacionamentos humanos em sua busca de significado
para o mundo, ainda que os vendo necessariamente através das lentes distorcidas do pecado.
Assim o nosso autor nos deixa perplexos com o seu amargo veredito: entre mil homens ele
encontrou apenas um que não fosse um desapontamento, mas mulher nenhuma. Como vamos
encarar isso?
Para começar, devemos observar que ele não está dogmatizando, mas informando. É a
experiência de um homem e ele não a universaliza.70 Mas o mais pertinente é que ele nos
apresenta o papel que o pecado pode desempenhar em ambos os lados de um encontro entre os
sexos. Um caso profundamente desenganador como o descrito no versículo 26 pode distorcer ou
até mesmo destruir qualquer tentativa subseqüente de relacionamento. Sem dúvida Coelet
conseguiu escapar, como ele dá a entender no versículo 26b - mas não sem ferimentos. Sua
busca infrutífera de uma mulher em que pudesse confiar pode nos dizer muita coisa sobre ele e
sobre a sua maneira de pensar, como também sobre as suas amizades. Sentimo-nos tentados a
acrescentar (e isto poderia ser concebivelmente relevante) que, tal como Salomão, cujo manto
ele assumira anteriormente,71 Coelet teria feito melhor se tivesse lançado a sua rede sobre um
número menor, e não sobre “mil"! ele quase diz o mesmo em 9:9, com um elogio à simples
fidelidade conjugal.
No último versículo do capítulo 7 sua conclusão sobre a natureza humana é mais firme do
que ele poderia ter adquirido por sua simples experiência. Ele se volta para o que foi revelado,
baseando-se evidentemente em Gênesis 1-3. Para apreciarmos a importância deste ponto de
vista bíblico acerca de Deus e o homem, só precisamos ouvir a narrativa sobre o assunto na
Teodicéia Babilônica, onde os deuses são os responsáveis pela malignidade dos homens: “com
mentiras, e não verdade, eles os dotaram para sempre."72 Tal perspectiva é paralisante, pois a

67 Jones, pg 321
68 Ojuízo (vs 25,27) poderia ser traduzido por “o balanço" com os dois sentidos que esse termo possui;
isto é, a “totalidade" e a “exposição" das coisas (cf. McNeile).
69 Oversículo 25b está bem traduzido na ERAB: “...a perversidade é insensatez, e a insensatez é loucura";
melhor do que “a maldade e a falta de juízo são loucura" (BLH).
70 Por outro lado, o v.20 mostra que ele não deixará de universalizar, quando for o caso.
71 Veja os comentários iniciais da sessão 1:12-2:26
72 “The Babylonian Theodicy", linha 280 em Babylonian Wisdom Literature de W. G. Lambert (Claredon,
Oxford, 1960) pg89

36
virtude já é bastante difícil sem o acréscimo da suspeita de que não existe verdade do seu lado, e
de que de fato ela vai contra tudo o que há de mais humano. A propósito, esta idéia não se
restringe aos antigos babilônios. Na prática ela é a opinião (sem a teologia) de todos os que
crêem ser reto (v.29) é ser ingênuo e um tanto infantil.
Essa suspeita e esse ponto de vista, somos advertidos, levam-nos de volta à Queda, mas
não às nossas origens. Depois das apalpadelas deste capítulo, o versículo 29 nos dá a certeza
restauradora de que nossas m uitas astúcias (nosso obscurecimento moral, nossa recusa a andar
corretamente) são nossa culpa, não nosso destino. Já é muito mau termos estragado o que era
perfeito; isso é culpa. Mas simplesmente fazer parte do que não tem sentido levaria ao
desespero. As palavras, Deus f e z o hom em reto, muito embora tenham seus efeitos trágicos, já são
suficientes para levantar uma questão sobre o refrão “vaidade de vaidades”. Considerando que
“futilidade” não foi a primeira palavra enunciada sobre o nosso mundo, também não tem de ser a
última.

Eclesiastes 8 :1-17 -
Frustração
8 :1 Quem é com o o sábio? E quem s a b e a interpretação das coisas? A sabed oria do hom em
f a z reluzir o seu rosto, e m uda-se a dureza da sua face.
2 Eu te digo: observa o m andam ento do rei, e isso p o r causa do teu ju ram ento fe ito a Deus.
3 Não te apresses em deixar a presen ça dele, nem te obstines em coisa má, porque ele fa z o
que bem entende.
4 Porque a palavra do rei tem autoridade suprem a; e quem lhe dirá: Que fazes?
5 Quem gu arda o m andam ento não experim enta nenhum m al; e o coração do sábio conhece
o tem po e o modo.
6 Porque p ara todo propósito há tem po e m odo; porquanto ég r a n d e o m al que pesa sobre o
homem.
7 Porque este não sa b e o que há de suceder; e, com o há de ser, ninguém há que lho declare.
8 Não há nenhum hom em que tenha domínio sobre o vento p ara o reter; nem tam pouco tem
ele p o d er sobre o dia da m orte; nem há tréguas nesta p eleja; nem tam pouco a perversidade livrará
aqu ele que a ela se entrega.
9 Tudo isto vi quando m e apliquei a toda obra que se f a z debaixo do sol; há tem po em que
um hom em tem domínio sobre outro homem, p ara arruiná-lo.

Talvez, como muitos pensam, Coelet tenha tomado emprestado uma citação familiar para
o versículo de abertura em que elogia a sabedoria e o sábio. Mas com os perigosos caprichos de
um rei a levar em conta, a sabedoria tem de recolher suas asas e assumir uma forma discreta,
contentando-se em poder manter longe de problemas o seu possuidor. Esta é apenas a primeira
de suas frustrações, e a menor delas; pelo menos há uma coisa útil que ela pode realizar nesta
situação, ao passo que mais adiante, no capítulo ela terá de enfrentar problemas delicados, tais
como a morte, a perversidade moral e o mistério do governo divino.
A discrição é, então, o aspecto principal da sabedoria nesta situação, embora o versículo
1a, com um lembrete acerca de José e Daniel, Aitofel e Husai,73 enfatize a parte que o talento
mais positivo do sábio, a interpretação das cousas, desempenha na corte do rei. A não ser aqui, a
sabedoria é uma figura decorosa e modesta neste parágrafo, onde podemos refletir sobre a
loucura de um rei (ou de qualquer líder) cujo desprezo ou temor da verdade reduz a sabedoria
ao silêncio, mediante o expediente de fazer calar as mentes pensantes.
Cauteloso como deve ser o homem sábio, ele não está aqui sendo pressionado a abandonar
a sua integridade. Sua disposição em agradar não precisa ser servil. A expressão alegre e
agradável de sua fisionomia, que o versículo 1b destaca, não é fingimento: realmente é a sua
expressão, a pessoa que ele é e a disposição de sua mente. Há em sua obediência, não
oportunismo, mas também princípios, fato este revelado pela correta tradução do versículo 2: “...

73 2Sm 16:20-17:14

37
Observa o mandamento do rei, e isso por causa do teu juramento feito a Deus."74 Dentro dessa
estrutura, ele usa também, como todo sábio,75 sua capacidade de discernimento para avaliar
uma situação perigosa (v.3)76 e o senso de oportunidade de suas ações (vv 5b, 6â). Muitas
passagens no Antigo Testamento dão testemunho dos limites que a lealdade a Deus deve
estabelecer quando é necessário agir com tato, submissão e dignidade; basta lembrar a
franqueza dos profetas e, entre os sábios, do indômito Daniel e seus companheiros. Se tais
exemplos nos enchem de vergonha e nos arrancam do conformismo, estes versículos mantêm o
equilíbrio ideal, ensinando-nos o devido respeito para com o governo. Da mesma forma, o Novo
Testamento as vezes enfatiza um lado da questão, às vezes outro.77
A menção do tem po e do m od o 78 (vv 5,6) que o sábio aprende a reconhecer (a verdade e o
momento da verdade que pode ser aproveitado ou deixado de lado) lembra o tema do capítulo 3,
os traços de um mundo condicionado pelo tempo, sempre mutante. Lá, estávamos tateando em
busca de alguma coisa permanente; aqui, buscamos algo previsível (v.7). É um consolo
desanimador descobrir que apenas a morte se encaixa neta categoria; e um pouco melhor
quando a pessoa se recupera da perspectiva para ser confrontada com um presente cheio de
sofrimento, em que um hom em tem domínio sobre outro homem , para arruiná-lo (v.9). há uma
ironia toda especial nesta última observação, onde a expressão que mais choca ao falar do abuso
do poder humano (tem domínio) relembra claramente o que acaba de ser dito sobre a
impotência humana em outras áreas: sua incapacidade de dominar os eu próprio espírito,79 ou
de dominar a morte, visto que uma só família de palavras soberbas dão colorido a todas estas
declarações. O restante do versículo 8 apresenta o último encontro em termos bem vivos, que
permitiriam uma paráfrase: “Há uma batalha à qual não podemos fugir; não podemos trapacear."

Perversidade m oral
8 :1 0 Assim tam bém vi os perversos receberem sepultura e entrarem no repouso, ao passo
que os que freqü en tavam o lugar santo fo ra m esquecidos na cidade onde fizeram o bem ; tam bém
isto é vaidade.
11 Visto com o se não executa logo a sentença sobre a m á obra, o coração dos filh o s dos
hom ens está inteiram ente disposto a praticar o mal.
12 Ainda que o p eca d o r fa ç a o m al cem vezes, e os dias se lhe prolonguem , eu sei com certeza
que bem sucede a o s que tem em a Deus.
13 Mas o perverso não irá bem, nem prolon gará os seus dias; será com o a som bra, visto que
não tem e diante de Deus.

Se existe algo que mais nos revolte é ver os perversos progredindo e cheios de si. Mas a
perversidade respeitada e recebendo a bênção da religião (v.10a)80 é ainda mais enojante. No

74 No TM o versículo refere-se ao “juramento de Deus"; quer seja a legitimação do rei feita por Deus, quer
seja o juramento de lealdade do indivíduo (os dois casos são possíveis); a questão fica de qualquer forma
colocada numa situação religiosa. O fato de a obediência compensar (v.5) é um incentivo adicional, que o
NT também considera digno de menção (Rm 13:3-5)
75 Cf., por exemplo, Pv 14:15ss.; 22:3
76 Ov.3 que começa com a frase “Não te apresses", é difícil. De início pode ser um conselho contra a
ocupação de altos cargos, ou contra uma renúncia impulsiva (Barton, Jones). Sua sintaxe é ambígua. A
cláusula seguinte pode significar “não insista em fazer uma coisa errada" (como na BLH) ou ainda como na
BJ, “Nem te coloques em má situação".
77 Por exemplo, Mt 23:2, 3a, em contrapartida com o restante deste capítulo, Cf. 1Pe 2:13ss. com Atos 5:29
78 Alternativamente, talvez, seja correto entender modo (v.5ss) e mal (v.6) em seus sentidos primários,
como “juízo" e “mal" ou “misericórdia" (como na ER). Neste caso (como Delitzsch destaca) a passagem
logra o seu intento ao dizer que o homem sábio aguardará o tempo de Deus para o juízo (ou julgamento) e
não tomará a situação em suas próprias mãos com rebeldia.
79 A palavra heb. Para “vento" (ERAB) serve também para “espírito" (ER). O “vento" é proverbialmente
incontrolável (cf Pv 27:16), mas “espírito" é mais diretamente relevante neste ponto. A BV registra:
“Ninguém pode se manter vivo para sempre, ninguém pode evitar o dia de sua morte!"
80 Oversículo 10 está longe de ser claro. Temos apoio esmagador em ativas versões (e muitos MSS) para
ler “louvados" (Vsbh) no lugar de “esquecidos" (Vskh). A BLH segue esta interpretação: “Eu vi o enterro de
pessoas más. Na volta do cemitério notei que eram elogiadas, e isso na mesma cidade onde haviam feito o
mal".

38
espetáculo aqui descrito, os parasitas não têm sequer a justificativa da ignorância. Os vilões
estão sendo honrados no próprio cenário de suas maldades, e já não estão mais vivos para
conquistar o temor ou o favor de alguém. Assim, por mais incrível que pareça, a admiração tem
de ser genuína, tornando bem claro que o julgamento moral popular pode estar totalmente
desviado, dominado pela evidência do sucesso ou do fracasso e recebendo a paciência dos céus
como aprovação. O ditador ou o magnata corrupto pode ter contornado as regras, dizem; mas
afinal eles fizeram alguma coisa, eles tinham talento, viviam com estilo.
Isso é demais para Coelet. Ele acaba fazendo uma de suas raras declarações de fé, deixando
cair a máscara do secularismo que normalmente usa a bem da exposição. Isso já acontecera
antes (veja 2:26; 3:17; 5:18-20; 7:14), e nos capítulos finais já não será mais exceção, mas a
regra.
O que ele certamente afirma aqui é o julgamento. No final, a coisa certa será feita, de
qualquer jeito: ... bem sucede a o s que tem em a Deus. Mas o perverso não irá bem... o que ele
também talvez esteja tenuemente despertando em nossas mentes é a idéia de uma vida após a
morte para os piedosos. Neste caso, ele o faz através de um paradoxo não solucionado acerca dos
perversos, pois na mesma tirada ele fala do vilão cuja vida é prolongada (v.12) e daquele que não
prolongará os seus dias (v. 13). isto talvez signifique que, enquanto o homem piedoso tem
esperanças além da sepultura, o ímpio não a tem; por mais adiada que seja, a morte será o seu
fim. Esta é a maneira como alguns dos salmos apresentam o assunto.81
Mas a recusa de Coelet de pronunciar-se mais sobre isto, contentando-se coma pergunta
“Quem sabe?” (3:21), indica mais provavelmente que ele está generalizando o assunto. A
perversidade, declara, não produz benefícios reais (v.13a); e, como regra, por mais notáveis que
sejam as exceções (vs 12, 14), ela criva de incertezas. A carreira do homem perverso é toda
aparência, não tem substância.82

Pequenas expectativas
8 :1 4 Ainda há outra vaidade sobre a terra: ju stos a quem sucede segundo a s o bras dos
perversos, e perversos a quem sucede segundo as obras dos justos. Digo que tam bém isto é vaidade.
15 Então, exaltei eu a alegria, porquanto p ara o hom em nenhuma coisa há m elhor debaixo
do sol do que com er, b eb er e alegrar-se; pois isso o acom pan hará no seu trabalho nos dias da vida
que Deus lhe dá debaixo do sol.

Há um momento fomos lembrados da regra geral de que a perversidade cava a sua própria
sepultura e a justiça, por assim dizer, o seu próprio jardim. Mas com muita freqüência o padrão é
invertido, confundindo tudo;83 não há maneira certa de saber quando (ou por quê) a vida vai
desferir sobre nós o seu próximo golpe OUA sua próxima bênção. Esforços morais talvez não
paguem dividendos, e embora isso torne tudo ainda mais nobre, é natural buscar algum tipo
mais seguro de investimento. Naqueles termos - que no versículo 15 são duas vezes acentuados
com as palavras debaixo do sol - os prazeres simples da vida são os mais sadios. Não é a primeira
vez que somos trazidos de volta a eles, nem será a última; mas Coelet jamais os valoriza
demasiadamente. Coloca-os sempre lado a lado com algum lembrete do lado duro da vida (aqui,
o seu trabalho), que eles só podem mitigar.

O enigma perm anece


8 :1 6 Aplicando-m e a con hecer a sabed oria e a ver o trabalho que há sobre a terra—pois
nem de dia nem de noite vê o hom em sono nos seus olhos—,

81 Por exemplo, Sl 49:14ss.; 73:18ss


82 A frase acerca da sombra no v.13 deveria provavelmente ser entendida como “os seus dias, que são
como uma sombra”; cf. por exemplo 6:12, Sl 102:11; 109:23, etc. Com menos probabilidade, poderia
descrever o prolongamento das sombras ao entardecer; mas esse prolongamento anuncia, e não adia, a
aproximação da noite.
83 A BLH, contudo, aplica a frase “isso não tem sentido” às declarações dos versículos 12ss., depois de
mudar a afirmação “eu sei ” para “eu sei que dizem...”. isto é muito engenhoso, mas não faz parte do
texto..

39
17 então, contem plei toda a obra de Deus e vi que o hom em não p od e com preen der a obra
que se f a z debaixo do sol; p o r m ais que trabalhe o hom em p ara a descobrir, não a entenderá; e,
ainda que diga o sábio que a virá a conhecer, nem p o r isso a p o d erá achar.

Se precisávamos ser lembrados de que o trabalho árduo e a vida simples só podem


protelar nossas perguntas mais importantes, mas nunca respondê-las, bastaria esta continuação
do conselho suave do versículo 15. Os próprios negócios84 da vida nos levam a perguntar para
onde estão nos levando, e o que significam, se é que significam alguma coisa. Nem é preciso
Coelet nos indicar que esta é exatamente a questão que nos derrota. A longa história das
filosofias do mundo, cada uma por sua vez denunciando as omissões de suas predecessoras,
torna isso mais o que claro.
Coelet o destaca, entretanto, dando-nos um raio de esperança através da maneira como o
faz. É a obra de Deus que nos desconcerta (v.17); não é “uma história contada por um idiota”.
Mas, e se ela for contada a um idiota? Parece que o capítulo termina assim, sem deixar aos
nossos homens mais sábios qualquer perspectiva de sucesso. Não obstante, captaremos melhor
o seu significado se considerarmos a alusão do versículo 17â concernente à grande declaração de
3:11. Ali também encaramos nossa incapacidade de conhecimento, mas vimos que tanto a
eternidade quanto o tempo tem acesso às nossas mentes. Embora os, como habitantes do tempo,
vejamos a obra de Deus em lampejos tantalizantes, o próprio fato de podermos indagar acerca
de todo o plano e de desejarmos vê-lo é uma evidência de que não somos prisioneiros totais do
nosso mundo.
Em palavras promissoras, esta é uma evidência não só de como fomos feitos, mas também
de por quem fomos criados.

Eclesiastes 9 :1-18 -
Perigo
Antes que a ênfase positiva dos três capítulos finais possa vir à tona, temos de nos
certificar de que estaremos edificando sobre algo que não está desprovido da realidade nua e
crua. E, caso acariciemos alguma ilusão confortadora, o capítulo 9 nos coloca diante do pouco
que sabemos e a seguir com a vastidão daquilo que não podemos controlar: particularmente, a
morte, os altos e baixos da sorte e os possíveis favores caprichosos da multidão. Em primeiro
lugar, porém, ele faz uma pergunta crucial: estamos nas mãos de um amigo ou de um inimigo?

Será am or ou ódio?
9 :1 D everas m e apliquei a todas estas coisas p ara claram ente entender tudo isto: que os
justos, e os sábios, e os seus fe ito s estão nas m ãos de Deus; e, se é am or ou se é ódio que está à sua
espera, não o sa b e o homem. Tudo lhe está oculto no futuro.
Só precisamos usar os olhos sem preconceito, de acordo com o Salmo 19 e Romanos
1:19ss., para ver que há um Criador poderoso e glorioso. Mas é preciso mais do que uma simples
observação para descobrir qual a disposição dele para conosco. Quer tomemos aqui as palavras
am or e ódio como uma forma bíblica de dizer "aceitação ou rejeição", ou simplesmente em seu
sentido primário, teremos, de qualquer maneira, apenas uma vaga resposta acerca do caráter do
Criador se considerarmos o mundo em que vivemos, com sua mistura de deleite e terror, de
beleza e repugnância.85
Se a questão fosse colocada no lugar exato, ainda seria desconcertante; e quanto menos à
vontade nos sentíssemos, tanto mais nos sentiríamos entregues nas m ãos de Deus (v. 1a). Mas

84 O insone do v. 16b é considerado pela BLH como o pensador com o problema. Mas seria mais honesto
traduzir aplicando a referência às pessoas que ele observa. Cf. a BV: “observei tudo o que acontecia em
toda a terra - uma atividade contínua, dia e noite sem parar.”
85 Podemos imaginar, entretanto, que o versículo 1b fala de atitudes humanas e não divinas; cf. BJ: "O homem não conhece o amor
nem o ódio". Delitzsch e alguns outros, inclusive a BLH, concluem a partir de 1a que o homem não é suficientemente dono de si
mesmo para saber se vai amar ou odiar numa determinada situação (em bora não negando ser responsável por aceitar ou rejeitar o
sentimento que experimenta). Para mim, a ênfase na inescrutabilidade de Deus em 8:17, imediatamente antes deste versículo, torna
mais provável (e mais relevante ao argumento) que aqui se trata da atitude de Deus e não do homem.

40
agora Coelet torna a questão ainda mais difícil para nós, destacando um fato que parece colocar a
balança decisivamente contra nós (sempre supondo que estamos raciocinando apenas baseados no
que podemos ver). Então, ainda por cima, antes de concluir o capítulo, ele nos faz enfrentar dois
fatos associados ao anterior. O primeiro dos três é a morte.

A morte
9:1 D everas m e apliquei a todas estas coisas p ara claram ente entender tudo isto: que os
justos, e os sábios, e os seus fe ito s estão nas m ãos de Deus; e, se é am or ou se é ódio que está à sua
espera, não o sa b e o homem. Tudo lhe está oculto no futuro.
2 Tudo sucede igualm ente a todos: o m esm o sucede ao justo e ao perverso; ao bom, ao puro e
a o impuro; tanto ao que sacrifica com o ao que não sacrifica; ao bom com o ao pecador; ao que ju ra
com o ao que tem e o juram ento.
3 Este é o m al que há em tudo quanto se fa z debaixo do sol: a todos sucede o m esm o;
tam bém o coração dos hom ens está cheio de m aldade, nele há desvarios enquanto vivem; depois,
rumo a o s mortos.
4 Para aqu ele que está entre os vivos há esperança; porque m ais vale um cão vivo do que um
leão morto.
5 Porque os vivos sabem que hão de morrer, m as os m ortos não sabem coisa nenhuma, nem
tam pouco terão eles recom pensa, porqu e a sua m em ória ja z no esquecim ento.
6 Amor, ódio e inveja p ara eles j á pereceram ; p ara sem pre não têm eles p arte em coisa
algum a do que se f a z debaixo do sol.
7 Vai, pois, com e com alegria o teu p ã o e b eb e gostosam en te o teu vinho, pois Deus j á de
antem ão se agrada das tuas obras.
8 Em todo tem po sejam alvas as tuas vestes, e ja m a is fa lt e o óleo sobre a tua cabeça.
9 Goza a vida com a m ulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu
debaixo do sol; porque esta é a tua p orção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo
do sol.
10 Tudo quanto te vier à m ão p ara fazer, fa z e-o conform e as tuas forças, porqu e no além,
p ara onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecim ento, nem sabed oria alguma.
Se estamos certos em iniciar o versículo 2 com as palavras "Tudo lhe está oculto no futuro (v.
1c), o fato é que, embora as coisas que nos cercam não nos dêem qualquer indicação do que Deus
pensa de nós, nossas esperanças tornam tudo muito claro. A julgar pelas aparências, Deus
simplesmente não se importa. As coisas que supostamente deveriam lhe interessar mais acabam não
fazendo diferença alguma (pelo menos, nenhuma que se perceba) na forma como somos descartados
no final. Moral ou imoral, religioso ou profano, somos todos ceifados da mesma maneira. Daqui a cem
anos, como dizemos, continuará sendo a mesma coisa.
Mas, embora a morte pareça dizer isso - e ela sempre dá um jeito de ficar com a última
palavra - nós imediatamente apresentamos um protesto. Coelet fala por nós todos ao exclamar:
"isso é o pior de tudo o que acontece neste mundo" (v. 3b - BLH). O que talvez não tenhamos
notado, pois ele não chama a nossa atenção para isso neste ponto, é que este sentimento de ultraje é
um fato tão certo a nosso respeito quanto a nossa mortalidade. O que torna este livro tão fascinante
são principalmente estas colisões entre os fatos obstinados da observação e as intuições igualmente
obstinadas. Assim ele nos impulsiona rumo a uma síntese que fica muito além de suas páginas -
neste caso, a perspectiva da recompensa e do castigo no mundo futuro.
Enquanto isso, examinamos o mundo como ele se nos apresenta, tendo a morte como
obliteradora universal e o mal aumentando em profusão. As duas coisas têm uma certa relação.
Viver em um mundo aparentemente sem significado é profundamente frustrante, e a desilusão dá
lugar à aniquilação e ao desespero, à loucura dos violentos ou ao desespero dos solitários.
Será que o desespero é tudo que nos resta? Para nossa surpresa, o homem de um modo
geral pensa que não, ou, então, a raça humana já teria acabado há muito tempo. E Coelet concorda
com isso. A vida decididamente vale a pena ser vivida. Afinal, na pior das hipóteses, ou quase isso,
a vida é melhor do que o nada, que é o que a morte parece ser. O forte senso prático do versículo
4,86 com o popular provérbio ilustrando o seu ponto de vista, abre caminho para uma recusa

86 O TM diz "aquele que é escolhido" (Vbhr), que dá pouco sentido e parece ser um erro de copista na palavra "junto" (com os
vivos) (Vhbr), que tem o apoio da LXX et al.

41
vigorosa nos próximos dois versículos em deixar que a morte intimide os vivos antes da hora. Antes,
que a vida meta a morte no chinelo! Será que o homem vivo sabe tanto para se sentir consolado?
Mas de que valeria ser um cadáver sem saber nada,87 sem esperar nada, sem nenhum valor no
mundo?
Sob a própria sombra da morte, este espírito positivo ilumina o restante da passagem (vs. 7-10)
tanto quanto o faria uma coisa temporal, pois, embora não seja a resposta completa, desfruta da
aprovação de Deus. Não é à toa que ele é a fonte de todos os dons da vida terrena: o pão e o vinho,
as festas e o trabalho, o casamento e o amor.
Há notáveis semelhanças entre esta passagem (9:7-10) e algumas linhas da Epopéia de
Gilgamesh, um poema acadiano que data do tempo de Abraão ou antes e que era muito conhecido
no mundo antigo. Neste ponto da história o herói, impelido pela morte de seu grande amigo a ir em
busca da imortalidade, chega ao jardim dos deuses. Ali a jovem Siduri, a fabricante de vinhos, lhe
fala:
"Gilgamesh, por onde você está vagueando?
A vida que está procurando, você nunca encontrará,
pois os deuses, quando criaram o homem, deram-lhe
a morte como quinhão, e a vida
ficou retida nas mãos deles.
Gilgamesh, encha o estômago!
Alegre-se dia e noite,
encha os seus dias de alegria,
dance e faça música de dia e de noite.
Use roupas limpas,
tome banho e lave a cabeça.
Olhe para o filho que lhe segura a mão,
e que sua esposa se deleite com o seu abraço.
Apenas essas coisas dizem respeito ao homem."88
Este não é o único lugar onde se encontram sentimentos deste tipo. A canção de um banquete
fúnebre egípcio, talvez mais ou menos contemporâneo de Gilgamesh, contém o seguinte conselho,
após advertir os vivos acerca do que terão de enfrentar:
"Realiza os teus desejos enquanto estiveres vivo. Unge a tua cabeça com mirra, veste-te de
linho fino, e unge-te..., e não aborreças o teu coração, até que chegue o dia da lamentação."89
Um escritor moderno, no entanto, destaca acertadamente a nota diferente tocada por Coelet
ainda que ele escreva nesse mesmo tom. "Os seus conselhos recomendando aceitar e gozar o que é
possível em cada caso contêm um lembrete da existência de Deus", na verdade de "uma vontade
positiva de Deus".90 Isto está particularmente claro na convicção do versículo 7b, de que Deus já
aceitou o gesto de gratidão. Esse gesto é considerado não apenas de gratidão, mas de humildade e
avidez, na máxima faze-o conforme as tuas fo rça s (v. 10). E, neste ponto, a brevidade da vida tornou-
se um impulso, como o foi para o nosso Senhor quando falou da chegada da "noite ... quando
ninguém pode trabalhar" (Jo 9:4). Mas uma característica deste livro é que, até mesmo nesta
conexão, a morte não é apresentada com uma visão passageira, mas com um olhar fixo para os seus
aspectos desoladores. A morte, porém, não é o único perigo.

Mudanças e oportunidades
9:11 Vi ainda debaixo do sol que não é dos ligeiros o prêm io, nem dos valentes, a vitória,
nem tam pouco dos sábios, o pão, nem ainda dos prudentes, a riqueza, nem dos inteligentes, o fav or;
porém tudo depende do tem po e do acaso.

87 Fora do contexto, os mortos não sabem cousa nenhuma (v. 5) tem às vezes sido tratado como uma declaração doutrinária
direta. Mas, mesmo à parte do método do autor, tanto esta declaração como a seguinte (nem tão pouco terão eles recompensa)
entrariam em choque com outras passagens bíblicas se fossem assim interpretadas. Cf., por exemplo, Lc 16:23ss.; 2 Co
5:10.
88 A Epopéia de Gilgamesh, parte da placa X, traduzida por H. Frankfort e t al., em B efore P hilosophy (Pelican, 1949), pág.
226.
89 Traduzido para o inglês por A. Erman, em The Literature o f the Ancient Egyptians (Methuen, 1927), pág. 133.
90 G. von Rad. Old Testam ent Theology (Tradução inglesa, Oliver and Boyd, 1962), I, pág. 457.

42
12 Pois o hom em não sa b e a sua hora. Como os peixes que se apanham com a rede traiçoeira
e com o os passarinhos que se prendem com o laço, assim se enredam tam bém os filh o s dos hom ens
no tem po da calam idade, quando cai de repente sobre eles.
O tem po e o acaso estão lado a lado, sem dúvida porque ambos têm um jeito de arrancar
subitamente as coisas de nossas mãos. Isto é bastante óbvio no que se refere às oportunidades, pois
a providência opera em segredo, e na perspectiva do homem a vida é feita principalmente de passos
rumo ao desconhecido e de acontecimentos que surgem do nada, que podem mudar totalmente o
padrão da nossa existência num dado momento. Quanto ao tempo, o capítulo 3, com o "tempo de
nascer ... tempo de morrer", e assim por diante, já provou quão inexoravelmente nossas vidas são
jogadas de um extremo para o outro pela força das vagas da maré que não podemos controlar. Tu­
do isso vem contrabalançar a impressão que podemos adquirir das máximas acerca do trabalho duro,
de que o sucesso é nosso quando queremos. No mar da vida somos mais como os peixes que se
apanham com a rede traiçoeira, ou os que são inexplicavelmente poupados, e não os donos de
nosso destino nem os capitães de nossas almas.
A terceira coisa que perturba os nossos cálculos apresenta-se-nos de forma um tanto
enternecedora na pequena parábola dos versículos 13-16, e nas reflexões que perpassam o resto
do capítulo.

A inconstância dos homens


9 :1 3 Tam bém vi este exem plo de sabed oria debaixo do sol, que f o i p ara mim grande.
14 Houve uma pequ en a cidade em que havia poucos hom ens; veio contra ela um gran de rei,
sitiou-a e levantou contra ela g ran d es baluartes.
15 Encontrou-se nela um hom em pobre, porém sábio, que a livrou pela sua sabedoria;
contudo, ninguém se lem brou m ais daqu ele pobre.
16 Então, disse eu: m elhor é a sabed oria do que a força, ainda que a sabed oria do p o bre é
desprezada, e as suas p alavras não são ouvidas.
17 As palavras dos sábios, ouvidas em silêncio, valem m ais do que os gritos de quem governa
entre tolos.
18 M elhor é a sabed oria do que as arm as de guerra, m as um só p eca d o r destrói m uitas
coisas boas.

Podemos identificar-nos imediatamente com o povo da pequena cidade sitiada, e sentimos o seu
alívio quando o estrategista amador (ou seria um diplomata?) dá o seu golpe de mestre. Se formos
honestos, poderemos ver-nos ainda na última cena, quando todos se esqueceram totalmente dele.
Mas a parábola não é uma fábula que visa mostrar o que as pessoas deveriam fazer: é uma história
de advertência para mostrar como elas são. Se formos nos identificar com alguém, será com o homem
pobre, porém sábio. Não que devamos nos imaginar como consultores universais, mas simplesmente
que, é triste dizer, deveríamos aprender a não contar com nada tão transitório como a gratidão
pública.
"O frio, por mais intenso,
Não machuca tanto quanto
Um benefício não lembrado,
E, embora as águas congele,
Não traz sofrer mais agudo
Que o de um amigo olvidado.9 1 "
No padrão do capítulo este é mais um exemplo do que é imprevisível e cruel na vida, para
solapar a nossa confiança naquilo que poderíamos fazer com nossas próprias forças. Os dois
últimos versículos (vs. 17ss.) constituem um arremate à parábola, mostrando, primeiro, como a
sabedoria é preciosa e, então, como ela é vulnerável. Somos abandonados com a suspeita de que, na
política humana, a última palavra fica geralmente com os gritos do versículo 17 ou com o aço frio do
versículo 18. Raramente com a verdade, raramente com o mérito.

91 Shakespeare, As You L ike It, Ato II, Cena 7.

43
Terceiro Resumo:
Retrospectiva de Eclesiastes 7:1 -9 :1 8
As palavras do nosso autor, como as de Jeremias, poderiam ser assim resumidas:
"para arrancares e derribares,
para destruíres e arruinares,"
mas, então, e apenas então,
"para edificares e para plantares".92
Ao chegar ao final do capítulo 9 ele já apresentou os argumentos contra a nossa auto-
suficiência. A primeira metade do livro, cujo andamento resumimos rapidamente às páginas 36 e 51,
deixou-nos poucas desculpas para a complacência, e os três últimos capítulos têm insistido ainda
mais no assunto.
Ao contrário dos textos anteriores, os provérbios e as reflexões de 7:1-22 não nos aliviaram de
nossa preocupação principal, embora os intitulássemos de interlúdio. Com poucas exceções, as
afirmações são todas severas (por exemplo, 7:1-4) e até mesmo, sob certo aspecto, cínicas (7:15-18),
impelindo duramente o secularista contra o fato e as implicações da morte (para ele). E quando o
argumento foi retomado em 7:23, levantou novas dúvidas quanto à sabedoria humana. O capítulo 2
já apresentara o fato de que o sábio é tão mortal quanto o estulto. Agora, porém, surge a questão
premente: se, afinal de contas, a sabedoria na verdade pode ser alcançada. Por mais sábio que
alguém possa ser em muitos detalhes da vida (8:1-6; 9:13-18), tornou-se claro que ele nunca chegará
ao âmago das coisas ou sequer à certeza de que a verdade, caso a descubra, poderá ser enfrentada.
"Quem o achará?" (7:24); "como há de ser" (8:7); "se é amor ou se é ódio ... não o sabe o homem"
(9:1).
Sob outros aspectos também o quadro se obscureceu. Agora temos relances de torpeza moral,
de injustiça não apenas desenfreada mas também admirada (8:10ss.), e do homem que, além de
fraco, também "está inteiramente disposto a praticar o mal", seguindo o seu caminho "cheio de
maldade" (8:11; 9:3). E, ao longo da destruição que a morte traz e que já foi enfatizada por todo
o livro, surgem agora os perigos do tempo e da casualidade (9:11ss.), para tornar ainda mais inúteis
os planos do homem.
Apesar de tudo isto, houve alguns lampejos de coisas melhores, mantendo dentro de nós um
pouco de esperança, a ser acalentada e justificada nos capítulos restantes, pois finalmente Coelet
acabou sua obra de demolição. O local foi desobstruído: ele pode começar a edificar e a plantar. Quer
consideremos o próximo capítulo como um modesto começo deste processo, quer como um
interlúdio para aliviar a tensão (comparável a 4:9 - 5:12 e 7:1-22), ele vai permitir que retomemos o
fôlego antes de voltarmos à veemente questão do livro: se a vida tem algum significado e, se tem,
qual é.
No início, então, há questões de senso prático que convém notarmos, pois fazem parte da
sabedoria e de uma vida sã tanto quanto as perguntas que temos de responder, dentro dos limites
do nosso conhecimento. Após sermos estabilizados com os lembretes para sermos sensatos (capítulo
10), podemos nos atirar com mais segurança ao convite para sermos corajosos (11:1-6), alegres (11:7­
10) e tementes a Deus (capítulo 12).

Eclesiastes 10:1-20 -
Interlúdio: Sê prudente!
Este capítulo apresenta uma visão calma da vida, escolhendo os exemplos a esmo a fim de
ajudar-nos a manter elevados os nossos próprios padrões, sem nos surpreendermos demais com as
esquisitices das outras pessoas nem ficarmos indefesos ao nos depararmos com os poderosos.

Loucura
10:1 Qual a m osca m orta fa z o ungüento do perfum ador exalar mau cheiro, assim é p ara a
sabed oria e a honra um pouco de estultícia.
2 O coração do sábio se inclina p ara o lado direito, m as o do estulto, p ara o da esquerda.

92 Jr 1:10.

44
3 Quando o tolo vai pelo caminho, falta-lh e o entendim ento; e, assim, a todos m ostra que é
estulto.
O versículo 1 coloca de forma pitorescamente desagradável o princípio com o qual se concluiu
o capítulo anterior: que é preciso muito menos para arruinar uma coisa do que para criá-la. Isto, a
propósito, faz parte das vantagens do mal e do apelo que este exerce sobre a nossa parte má, pois
dizendo-o da maneira rude como Coelet o faz, é mais fácil criar fedor do que perfume. Mas neste
versículo o que cria o problema é a súbita falta ou o impulso tolo; e há infinitos exemplos de
prêmios que foram perdidos e de bons começos que foram estragados em um só momento de
imprudência, não apenas pelos irresponsáveis, como Esaú, mas também pelos que estavam sendo
dolorosamente provados, como Moisés e Arão.
No versículo 2 algumas versões modernas foram infelizes ao usar uma anatomia duvidosa,
tipo "o coração do sábio está à sua mão direita... "(ERC). Talvez a BJ seja a melhor tradução, ainda
que livre: "O sábio se orienta bem, o insensato se desvia". A mão direita e a mão esquerda sempre
foram generalizadamente consideradas como sendo respectivamente de boa sorte e de má sorte;
coisa boa e má (cf. o sentido da palavra latina sinistro, que significa "esquerda"). Na figura que o
nosso Senhor usou para com as ovelhas e os bodes, os dois lados correspondem a dois vereditos
contrários. Mas, de maneira menos decisiva, também há bênçãos provenientes da mão direita e da
mão esquerda, diferindo apenas em grau.93 O estulto, portanto, inclina-se para o que tem menos
valor, o menos bom e, além disso, para o que é positivamente errado. A preferência apresenta-se
de muitas maneiras, não apenas moral e espiritualmente. Por outro lado, as predileções do
homem sábio são enunciadas na grande lista dos "tudo o que é" de Filipenses 4:8.
No versículo 3 surge a comédia, como acontece freqüentemente em Provérbios ao tratar deste
tema. No parecer prático de Coelet, o estulto não tem como disfarçar o que é,94 a não ser talvez com
o silêncio total (cf. Pv 17:28). Mesmo assim o seu comportamento de algum modo o acabará
denunciando. Mas de fato ele é convencido demais para se abster de expor seus pontos de vista a
todos que venha a conhecer. Julgando a partir de Provérbios, suas frases elaboradas são incongruentes
(Pv 17:7) e suas observações sem tato, impertinentes (Pv 18:6); e quando se fala com ele, não presta
atenção (Pv 18:2). Se tem uma mensagem para alguém transmite-a com erros, e se de repente faz uma
observação sábia, é por acaso (Pv 26:6ss.). Felizmente pode-se sentir a sua aproximação pelos
esforços que todos fazem para desaparecer (Pv 17:12).

A corda bamba social


10 :4 Levantando-se contra ti a indignação do governador, não deixes o teu lugar, porque o
ânimo sereno acalma grandes ofensores. 5 Ainda há um mal que vi debaixo do sol, erro que procede
do governador: 6 O tolo posto em grandes alturas, mas os ricos assentados em lugar baixo. 7 Vi os
servos a cavalo, e os príncipes andando a pé como servos sobre a terra.
Por trás do suave conselho do versículo 4, percebe-se um agudo senso de observação, pois o
que ele nos convida a notar é o mais absurdo fenômeno humano: o acesso de raiva. Se a pessoa
consegue reconhecer os seus sintomas, pode livrar-se de prejuízos provocados por ela mesma, pois,
embora possa sentir-se sublime "demitindo-se do seu posto" (ostensivamente por princípio, mas na
realidade em um acesso de orgulho), na verdade isto é menos impressionante e mais imaturo do
que parece. Submeter-se às autoridades, além de ser dever do crente (como o Novo Testamento nos
ensina, 1 Pe 2:18ss.), também é sábio, uma vez que a ira que pode ser acalmada pelo ânimo sereno
(v. 4b) tem ela mesma os sintomas de um acesso de raiva; e uma pessoa nessa condição é melhor
do que duas.
Pior ainda, talvez, do que o autocrata é o covarde. Com ele no poder tudo pode acontecer. As
transformações sociais do versículo 6 e 7 acontecem por causa do governador do versículo 5 e nos
fazem pensar em quão frágeis são as nossas pequenas hierarquias. Mas qualquer época pode ser
tomada de surpresa. Do antigo Egito, muitos séculos antes destas palavras terem sido escritas,
recebemos as desoladas observações que nos parecem tão oportunas quanto as de Coelet:
"Ora, imaginem, os nobres estão se lamentando, enquanto os pobres se alegram..."
"Imaginem só, todas as servas soltaram a língua. Quando as senhoras falam, as servas se

93 Cf. Efraim e Manasses, Gn 48:13ss.; veja também Pv 3:16.


94 Um sentido alternativo para 3b seria gramaticalmente possível: "chama a todos de estultos". Os comentaristas se dividem
a esse respeito, mas a maioria das traduções portuguesas concordam com a ERAB.

45
aborrecem... Eis que as senhoras da nobreza são agora respigadeiras, e os nobres estão na
oficina."95
Se há quem se sinta inclinado a aplaudir, Coelet não vai exatamente discutir com eles, pois o
seu alvo, do começo ao fim, é sacudir a nossa fé patética na permanência de nossas ações; e, de forma
alguma, ele tem ilusões quanto aos homens que estão por cima.96 Mas ele tampouco considera tais
deposições como triunfos da justiça social. Os exemplos que ele testemunhou foram tanto giros da
roda da fortuna (v. 7), como também, nomeações de pessoas erradas (o tolo posto em grandes
alturas, v. 6). Podemos nós mesmos imaginar as intrigas, as ameaças, as bajulações e os subornos
que lhes abriram o caminho.

Fatos concretos da vida


10:8 Quem ab re uma cova nela cairá, e quem rom pe um muro, m ordê-lo-á uma cobra.
9 Quem arranca ped ras será m altratado p o r elas, e o que racha lenha expõe-se ao perigo.
10 Se o fe r r o está em botado, e não se lhe afia o corte, é preciso red ob rar a fo r ç a ; m as a
sabedoria resolve com bom êxito.
11 Se a cobra m order antes de estar encantada, não há vantagem no encantador.
O ponto de vista em que se baseiam estas observações não é o fatalismo, como se poderia
deduzir dos versículos 8 e 9 por si mesmos,97 mas um realismo elementar. O lampejo ofuscante do
óbvio no versículo 10, apoiado pelo humor sarcástico do versículo seguinte, acaba com qualquer
dúvida. Somos instados a usar a cabeça, olhando um pouco mais adiante, pois qualquer ação
vigorosa envolve riscos, e a pessoa que nós chamamos de desastrada geralmente deve culpar-se a si
mesma e não à sua sorte. Ela deveria saber, deveria tomar cuidado. Mas Coelet faz-nos entrever
uma parábola falando em cova e serpente, pois a cova que serve de arapuca para quem a fez era uma
figura proverbial da justiça poética,98 e a serpente que não se percebe era a própria imagem da
retribuição que nos pega de emboscada. Era assim que o profeta Amós entendia, como também as
testemunhas do encontro de Paulo com a víbora.99
Assim, talvez o versículo 8 esteja apresentando um aspecto diferente do versículo 9, dirigido
mais aos inescrupulosos do que aos irresponsáveis. Quanto a estes últimos, eles (ou nós?) são muito
bem atingidos nos versículos 10 e 11, primeiro com a esmerada paciência que se deve ter para com
os ignorantes e, então, com um lampejo de bom senso e um toque de farsa. Depois do
surpreendente começo, onde a cobra é rápida demais, quase podemos perceber a indiferença que
acompanha a última linha, como a dizer: "o encantador perde a sua remuneração". Quanto à
vítima... para que perguntar?

Bom senso e falta de senso


1 0 :1 2 Nas palavras do sábio há favor, m as ao tolo os seus lábios devoram.
13 As prim eiras palavras da boca do tolo são estultícia, e as últimas, loucura perversa.
14 O estulto multiplica as palavras, ainda que o hom em não sa b e o que sucederá; e quem lhe
m anifestará o que será depois dele?
15 O trabalho do tolo o fatig a, pois nem sa b e ir à cidade.
As palavras são naturalmente um assunto preferido pelos escritores da Sabedoria, pois
desempenham um papel óbvio na arte de viver; e é a arte, e não o objetivo da vida, que predomina
neste capítulo.
Mas depois de examinarmos rapidamente o uso correto das palavras, enfrentaremos
demoradamente o seu mal uso. Quem sabe a proporção desses enfoques seja justa.
Dizer, como muitas versões modernas, que nas palavras de um homem sábio há fa v o r (v. 12) é
apenas meia verdade, embora isto faça um perfeito contraste com a segunda linha. O que realmente
está sendo dito é que suas palavras são "cheias de graça" (ER). Mais do que outra coisa, é

95 "As Advertências de Ipu-wer", traduzidas para o inglês por John A. Wilson em ANET, págs. 441s. Provavelmente
escritas antes de 2 0 0 0 a.C.
96 Cf. 3:16; 4:lss., 13ss.; 5:8s.
97 As afirmações dos versículos 8ss. são generalizações, deixando de fora as exceções e meras probabilidades por causa do
resumo bem definido. A BV os traduz: "pode acabar caindo nele... pode ser mordido", etc. sacrificando um pouco a sua
potência.
98 Por exemplo, Sl 7:15; 9:15; 35:7ss.; 57:6.
99 Am 5:18-20; 9:3; Atos 28:4.

46
certamente isto que abrange igualmente encanto e delicadeza, que obtém o favor. Acima de tudo,
porém, ela é desinteressada e brota da humildade básica que é o princípio da sabedoria.
Da mesma forma, o pequeno retrato do tolo indica as atitudes interiores que jazem por trás
de suas palavras. Se rimos dele no versículo 3, vemos agora o seu lado trágico e perigoso. Nas
Escrituras ele é considerado mais teimoso do que obtuso: as suas idéias (e, portanto, suas palavras)
recusam-se a aceitar a existência de Deus. É o que se diz claramente no versículo 13, desdobrando-se
todo o processo, desde o seu tolo início até o seu fim desastroso. Esse fim, a loucura perversa, talvez
pareça chocante demais para ser verdade; mas os seus dois elementos, o moral e o mental, são os
frutos finais da recusa em aceitar a vontade e a existência de Deus. Se há incontáveis incrédulos cujo
fim terreno dificilmente poderia ser descrito como perversidade ou loucura, é apenas porque a
lógica de sua incredulidade não foi levada aos extremos, devido à graça misericordiosa de Deus.
Mas, quando toda uma sociedade se torna secular, o processo é muito mais evidente e completo.
Os versículos seguintes examinam dois aspectos da conversa de um tolo. Ela é imprudente, não
lhe fazendo bem algum (v. 12); e indecorosa, não demonstrando qualquer acanhamento diante do
desconhecido (v. 14). Embora este seja o caso com todos nós, em nossos próprios momentos de
tolice, é verdade em um nível mais sério na vida do verdadeiro tolo, do homem sem Deus, cuja
maneira de falar trai em tudo os seus pontos de vista (cf. Mt 12:34-37) e cujas opiniões confiantes
jovialmente ignoram a nossa necessidade humana de revelação.
O versículo 15 é um apêndice do próprio tolo, mas apenas um sábio saberia exatamente o que
significa! A segunda linha é evidentemente um arremate proverbial sobre o tipo de pessoa que
consegue errar nas coisas mais simples (cf. Is 35:8); ele se perderia, como diríamos hoje, até mesmo
se o colocássemos numa escada rolante. Esta linha ficaria mais simplesmente traduzida sem o
"pois" com que inicia: (alguém) que "nem sabe ir à cidade!" Assim começa a surgir o quadro de um
homem que, por causa de sua estupidez, torna as coisas desnecessariamente difíceis para si próprio.
Muito possivelmente há uma conexão com o tolo loquaz do versículo anterior, que faz tempestade
em um copo de água em assuntos que estão totalmente além de sua alçada; mas muito
provavelmente estamos sendo apresentados a apenas mais um lado da estrutura de uma pessoa
tola. Neste caso, isto também se encaixa no tema do livro, com a sua ênfase sobre a inutilidade de
qualquer trabalho que não tenha objetivo (cf., por exemplo, 1:8; 2:18-23); e quem sabe devemos
lembrar que, em última análise, é isto que pode fazer-nos de tolos. O livro termina com uma
advertência ao tolo culto, cujo "muito estudo" apenas o desgasta e o afasta do que é mais importante
(a suma, 12:12ss.), que é o temor de Deus. Estar sempre aprendendo, nunca alcançando nada, como 2
Timóteo 3:7 descreve algumas pessoas, é ser uma pessoa frívola que consegue se perder até mesmo
no caminho mais direto para a cidade. Isto é loucura que não tem sequer a justificativa da
ignorância.

Principalmente acerca dos governantes


10:16 Ai de ti, ó terra cujo rei é criança e cujos príncipes se banqueteiam j á de manhã.
17 Ditosa, tu, ó terra cujo rei é filh o de nobres e cujos príncipes se sentam à m esa a seu
tem po p ara refazerem as fo r ç a s e não p ara bebedice.
18 Pela muita preguiça d esaba o teto, e pela frouxidão das m ãos g o teja a casa.
19 Ofestim faz -se p ara rir, o vinho alegra a vida, e o dinheiro atende a tudo.
20 Nem no teu pensam ento am aldiçoes o rei, nem tam pouco no m ais interior do teu quarto,
o rico; porqu e as aves dos céus poderiam levar a tua voz, e o que tem a sas daria notícia das tuas
palavras.
O capítulo termina, assim como começou, com observações sagazes sobre procedimentos na
vida prática, como que para tornar a enfatizar que o interesse do sábio nas questões importantes não
afeta o seu interesse pelo presente. O homem sábio importa-se muito com a forma como o seu país é
governado, e como deve se comportar e dirigir os seus negócios em um mundo que é ao mesmo
tempo exigente (v. 18), gostoso (v. 19) e perigoso (v. 20).
Os versículos 16 e 17 fazem-nos lembrar da influência que emana dos homens que estão lá em
cima, para estabelecer o ambiente de toda uma comunidade. Aplica-se tanto às comunidades
menores quanto às maiores. O primeiro quadro é o de um governante sem dignidade ou sem
sabedoria, rodeado de homens responsáveis. Caso queiramos considerar criança ou nobres nestes
versículos em um sentido muito limitado, uma passagem anterior já nos fez ver que idade e status
não significam nada, mesmo para o rei, e já falou do jovem joão-ninguém que chega com nada

47
mais a seu favor além dos seus dotes naturais (4:13). A criança, ou "rapaz", do versículo 16, bem
pode ser que seja um homem feito que nunca amadureceu (cf. Is 3:12), em contraste, por assim
dizer, com o jovem Josias que "sendo ainda moço, começou a buscar o Deus de Davi",100 para
bênção do seu país. E a menção de nobres, ou "príncipes", não é um toque de esnobismo, mas
apenas de estabilidade política. Eles não são descritos nas Escrituras como exemplos de virtude,101
nem homens como Davi ou Jeroboão são desqualificados por não terem saído desse círculo. A ênfase
de ambos os versículos é dada pela profecia da derrocada social em Isaías 3:1-5, onde os homens de
peso na comunidade seriam desapossados:
"Dar-lhes-ei meninos por príncipes,
crianças governarão sobre eles...
o menino se atreverá contra o ancião
e o vil contra o nobre."
Quanto aos cortesãos decadentes (v. 16), Israel os conhecia muito bem. Os profetas pintam
quadros fiéis de suas farras diárias (Is 5:11,22), sua ociosidade acalentada (Am 6:4ss.) e seu
aviltamento até o estupor e a obscenidade (Is 28:7ss.). Em tais situações, a justiça e a verdade
transformam-se nos principais desastres nacionais, "tropeçando pelas praças" (Is 59:14).
Parece que os provérbios dos versículos 18 e 19 foram colocados aí especialmente por sua
aplicação à vida dos poderosos, seus mandos e desmandos, seu uso e abuso dos dons de Deus, como
já vimos nos versículos anteriores. Então o versículo 20 volta-se mais explicitamente para essa
gente.
Certamente a preguiça (v. 18), que silenciosamente destrói uma casa negligenciada ou um
espírito indolente, é tão fatal para um reino quanto para um prédio ou uma pessoa. Nada mais é
preciso para que desabe, e nada é mais devastador. Sejam quais forem os prejuízos que possam ser
considerados, o apodrecimento não está entre eles, pois o tempo está a seu favor. Quanto às
autoridades indolentes castigadas pelos profetas nas passagens que consideramos, sua própria
decadência iria espalhar a sua podridão à estrutura que os abrigava, até que esta desmoronasse
sobre suas cabeças.
No provérbio do versículo 19, as duas primeiras linhas podem empatar com as cenas dos
festins, boas e más, que dão início ao parágrafo (16ss.); mas em qualquer outro contexto nós as
veríamos relacionadas à questão do dinheiro. Não é preciso ser cínico: a questão não é que todo
homem tem o seu preço, mas que cada bem tem o seu uso; e a prata, na forma de dinheiro, é o mais
versátil de todos. Nosso Senhor fez o mesmo tipo de observação em Lucas 16:9, e
caracteristicamente descortinou uma nova visão ao fazê-lo. No contexto atual, entretanto, as duas
primeiras linhas dos provérbios talvez destaquem que comer para refazer as forças, e não para
bebedice (v. 17), é uma coisa boa, ao passo que os excessos não têm sentido. Os dons de Deus são
todos eles bons, e o seu uso adequado e agradável é perfeitamente suficiente.
Com o versículo 20 retornamos explicitamente aos homens do poder, inclusive do poder
financeiro (a que o versículo 19c vai se referir especificamente). Eles não são uma companhia
agradável. Para o leitor do século vinte, há algo de familiar em sua hipersensibilidade em relação aos
diz-que-diz, mas eles não precisam de espionagem eletrônica. Eles não teriam atingido alturas
vertiginosas, nem permanecido lá, sem um sexto sentido para com os dissidentes.
Prático como sempre, o escritor vê isso como um fato da vida, e conclui o capítulo com o
conselho de que se aprenda a conviver com isso. Sobreviver é o primeiro passo, embora não seja de
forma alguma o último. Agora ele já pode nos conduzir adiante até o clímax do livro.

Eclesiastes 1 1 :1 -1 2 :8 -
Em direção do alvo
Agora o passo torna-se mais acelerado. O cenário permanece inalterado: tem as mesmas
sombras profundas e ocasionais fachos de luz, mas agora o consideramos com resolução e não com
ansiedade. Conhecemos o pior - melhor ainda: podemos partir na direção certa.
Três diferentes investidas nos colocam no caminho dos "finalmentes". Podemos resumi-las

100 2 Cr 34:3.
101 São covardes em 1 Rs 21:8,11; excessivamente transigentes em Ne 6:17ss.; 13:17; e parte de um regime desastroso em
Jr 39:6.

48
nos títulos que escolhemos aqui para as três partes que abrangem estes dois últimos capítulos: Sê
corajoso! Alegra-te! Teme a Deus!

Sê corajoso!
11:1 Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de m uitos dias o acharás.
2 R eparte com sete e ainda com oito, porque não sa b es que m al sobrevirá à terra.
3 Estando as nuvens cheias, derram am aguaceiro sobre a terra; caindo a árvore p ara o sul
ou para o norte, no lugar em que cair, aíficará.
4 Quem som ente observa o vento nunca sem eará, e o que olha p a ra as nuvens nunca segará.
5 Assim com o tu não s a b es qual o cam inho do vento, nem com o se form am os ossos no ventre
da m ulher grávida, assim tam bém não sa b es as o bras de Deus, que fa z todas as coisas.
6 Sem eia p ela m anhã a tua sem ente e à tarde não repouses a mão, porque não sa b es qual
prosperará; se esta, se aqu ela ou se am b as igualm ente serão boas.
Isto nos leva diretamente ao sábio conselho do capítulo 10, que nós resumimos na expressão:
"Sê prudente!" A cautela teve então o seu devido lugar; agora, tem de ceder o caminho ao
empreendimento.
Uma das coisas frustrantes da vida observadas em 9:11 ss. foi o fato de que o tempo e as
oportunidades podem inverter os nossos melhores planos. Se isso é um pensamento paralisante,
também pode ser um incentivo à ação, pois, se há riscos por toda parte, é melhor falhar sendo
arrojado do que agarrando os recursos e guardando-os para nós mesmos. Até parece que
sentimos o Novo Testamento soprando através dos dois primeiros versículos, um reflexo do
paradoxo predileto de nosso Senhor, que disse: "Quem ama a sua vida, perde-a" e "com a medida
com que tiverdes medido vos medirão também".102 Isto é verdade, numa certa proporção, quer
Coelet esteja falando aqui de ousadia nos negócios ou de simples generosidade, pois é difícil
discernir ao certo do que ele está realmente falando,103 ou se ele fala primeiro de um e depois do
outro.
O pensamento dos versículos 3 e 4 trazem novamente à tona coisas sobre as quais nada
podemos fazer e aquelas que exigem uma firme decisão e ação. Os dois exemplos dados (as
nuvens que seguem suas próprias leis e tempos, não os nossos, e a árvore caída que não consul­
tou a conveniência de ninguém) podem nos levar a pensar no que pode acontecer e no que
poderia ter acontecido; a nós, porém, cabe apenas agarrar o que realmente existe e o que está ao
nosso alcance. São poucos os grandes empreendimentos que aguardaram condições ideais; nós
também não podemos esperar. Então o versículo 5 relaciona o reino do desconhecido e do
desconhecível com Deus, que f a z todas as cousas. O exemplo que ele escolheu é o das mais
notáveis obras divinas, do qual dependem todos os nossos questionamentos e pensamentos: a
maravilha do corpo humano e o espírito humano. Será que nosso Senhor tinha este versículo em
mente ao falar a Nicodemos sobre o segundo nascimento? Tal como Coelet, ele usou
apropriadamente o fato de que uma mesma palavra serve na linguagem bíblica para vento (v. 4)
e para espírito como algumas versões traduzem no versículo 5,104 e captou os mesmos pontos:
sua invisibilidade e sua liberdade em relação ao nosso controle, mas também a sua poderosa
realidade.
O versículo 6, arrematando a passagem, tem uma leveza de espírito que novamente nos faz
lembrar o Novo Testamento. A verdadeira reação para com a incerteza é um esforço redobrado,
"aproveitando o tempo", "quer seja oportuno, quer não", expressa por Coelet em termos de um
fazendeiro e o seu trabalho, e por Paulo em termos de colheita espiritual da boa semente do
evangelho e das obras de misericórdia.105
É um conselho estimulante, sem idéias de vacilação, mas sem traços de bravata ou
irresponsabilidade. A própria pequenez de nosso conhecimento e de nossa capacidade de

102 Jo 12:25; Mt 7:2.


103 "Envia" (não lança, que pode ser enganoso) dá idéia de comércio, caso p ão represente cereais ou a subsistência de alguém.
Da mesma forma, o versículo 2 com a sua referência a um futuro incerto já foi muitas vezes comparado ao ditado: "Não
colocar todos os ovos num único cesto". Por outro lado, p ão é o presente apropriado para o faminto (embora geralmente
este se encontre na localidade, não além do mar), e a possibilidade de vir a enfrentar maus dias (2b) pode muito bem ser um
argumento para dar com liberalidade enquanto se pode. Cf. Atos 11:27-30; 2 Co 9:6ss.; Gl 6:7ss.
104 Cf. Jo 3:8.
105 Cf Ef 5:16; 2 Tm 4:2ss.; 2 Co 8:2; 9:6.

49
controle, e a própria probabilidade de tempos difíceis (v. 2b), tão freqüentemente enfatizados
para nós em todo o livro, transformam-se em motivos para nos reanimar e levar à atividade.
Neste estado de espírito, podemos agora voltar-nos para os prazeres da vida, assunto dos
próximos versículos, não como se fossem ópio para nos tranqüilizar, mas como revigorantes
dons de Deus.

Alegra-te!
11:7 Doce é a luz, e agradável a o s olhos, ver o sol.
8 Ainda que o hom em viva m uitos anos, regozije-se em todos eles; contudo, deve lem brar-se
de que há dias de trevas, porqu e serão muitos. Tudo quanto sucede é vaidade.
9 Alegra-te, jovem , na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua m ocidade;
anda pelos cam inhos que satisfazem ao teu coração e agradam a o s teus olhos; sabe, porém , que de
todas estas coisas Deus te pedirá contas.
10 Afasta, pois, do teu coração o desgosto e rem ove da tua carne a dor, porqu e a juventude e
a prim avera da vida são vaidade.
Com a sinceridade de sempre, estes versículos combinam o deleite de viver com a
seriedade da vida. Cada alegria aqui é confrontada com o seu oposto, ou o seu complemento; não
há nenhuma tinta cor-de-rosa. A bem-aventurança de estar vivo é captada pela beleza da sen­
tença que inicia a passagem: Doce é a luz ... (v. 7). E esta jovial radiância pode durar, como
destaca o versículo 8a, até o final. Mas não além. O autor não se retrata de sua insistência em
dizer que, por si mesmos, o tempo e todas as coisas temporais vão nos desapontar, pois temos a
eternidade em nossos corações (cf. 3:11). Essa luz tem de dar lugar aos dias de trevas e à
destruição de tudo que há debaixo do sol; e temos de enfrentar o fato, ou então seremos
destruídos por ele. A alegria não precisa de pretextos para se intensificar. Mas como ela pode
sobreviver diante da morte e das frustrações do mundo é um segredo que apenas o próximo
capítulo vai começar a desvendar.
Enquanto isso o versículo 9 nos faz lembrar de um outro aspecto da alegria: sua relação
com aquilo que é certo. À primeira vista este lembrete do julgamento parece uma espada de
Damocles pendurada sobre a nossa cabeça, para roubar à festa todo o seu sabor. Talvez seja
verdade, mas apenas se a nossa alegria for uma paródia da verdadeira alegria. Os caminhos que
satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos, ou, em outras palavras, a verdadeira liberdade,
devem ter um alvo que valha a pena alcançar, um "muito bem!" que desejamos ouvir para ter
satisfação. Caso contrário, a trivialidade ou, o que é pior ainda, o vício assume a direção. Seja qual
for a conotação que a palavra "playboy" tenha para nós, sabemos que é uma pessoa que não re­
laciona a sua vida com coisa alguma que seja exigente, e muito menos com os valores eternos; é uma
pessoa miserável. Assim este versículo, ao insistir que nossos caminhos interessam a Deus e são,
portanto, significativos em toda a sua extensão, não rouba alegria alguma, mas apenas acaba com o
vazio.
A meu ver, o versículo 10 acompanha esta linha de pensamento. À primeira vista talvez não
pareça mais que um simples escapismo, uma tentativa desesperada de extrair o prazer de uma
situação sem sentido. Mas ele adquire mais sentido106 se for uma extensão do convite feito ao
"jovem" do versículo 9 para regozijar-se na sua juventude, porém de maneira responsável.
Idolatrar a condição de jovem e temer perdê-la é desastroso: prejudica o dom, mesmo enquanto
ainda o desfrutamos. Considerá-lo, por outro lado, como uma fase passageira, "bela no seu tempo"
mas não além dele, é libertar-se de suas frustrações. O desgosto do qual se fala neste versículo vem a
nosso encontro mais de uma vez no livro como a amargura provocada por um mundo duro e frus­
trante.107 Ele tem o seu lugar para tornar-nos realistas, como destaca 7:3; não é motivo, contudo,
para nos tornarmos pessimistas. Desde o seu início, este versículo afasta a depressão; e a segunda
linha, remove da tua carne a dor, pode muito bem ser um eco a reforçar a primeira, segundo o estilo da
poesia hebraica. Mas também pode estar levando o pensamento um passo além, ao reino moral, uma
vez que a palavra aqui traduzida por dor significa basicamente "mal"108. Neste caso, ela sincroniza

106 Observe a relação existente entre as duas frases: a segunda dá razão à primeira.
107 Veja 1:18; 2:23; 7:3 (heb.).
108 Isto não é mais que uma possibilidade, pois em geral é moralmente neutro (c f 12:1). Contudo o conselho "remove da tua
carne o mal" (ER, ERC) dá uma introdução mais adequada para a linha final: p orqu e a juventude e a prim avera da vida são
vaidade.

50
com o lembrete que diz que todos os nossos caminhos interessam a Deus, que é o nosso juiz (v. 9c).
A alegria foi criada para dançar junto com a bondade e não sozinha.
Mas essa maneira positiva de encarar a vida, que perpassou todo este capítulo, deve
repousar sobre alguma coisa mais substancial do que jovialidade, coragem, ou até mesmo
moralidade perfeita. O capítulo final dedica-se ao que é básico e insta conosco a que não percamos
tempo ocupando-nos também com isso.

Teme a Deus!
12:1 Lem bra-te do teu Criador nos dias da tua m ocidade, antes que venham os m aus dias, e
cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer;
2 antes que se escureçam o sol, a lua e as estrelas do esplendor da tua vida, e tornem a vir as
nuvens depois do aguaceiro;
3 no dia em que trem erem os g u ard as da casa, os teus braços, e se curvarem os hom ens
outrora fortes, as tuas pernas, e cessarem os teus m oedores da boca, p o r j á serem poucos, e se
escurecerem os teus olhos nas jan elas;
4 e os teus lábios, quais p ortas da rua, se fech a rem ; no dia em que não puderes fa la r em alta
voz, te levantares à voz das aves, e todas as harm onias, filh a s da música, te diminuírem;
5 com o tam bém quando tem eres o que é alto, e te espan tares no caminho, e te
em branqueceres, com o flo resc e a am endoeira, e o g afan h oto te f o r um peso, e te p erecer o apetite;
porqu e vais à casa eterna, e os pran teadores andem rodeando pela praça;
6 antes que se rom pa o fio de prata, e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro
junto à fon te, e se desfaça a roda junto ao poço,
7 e o pó volte à terra, com o o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.
8 Vaidade de vaidade, diz o Pregador, tudo é vaidade.
Finalmente estamos prontos, se a nossa intenção tem sido essa, para olhar além das vaidades
terrenas para Deus, que nos fez para si. O título Criador109 foi bem escolhido, fazendo-nos lembrar
a partir de passagens anteriores no livro, que só Deus vê o padrão da existência como um todo
(3:11), que nós estragamos a obra de suas mãos com as nossas "astúcias" (7:29) eque a sua
criatividade é contínua e inescrutável (11:5). A nossa parte, lembra-te dele, não é um atoperfunctório
ou puramente mental: é deixar de lado a nossa pretensão à auto-suficiência, entregando-nos a ele.
Isto é o mínimo que as Escrituras exigem do homem em seu orgulho ou em situações extremas.110 No
seu sentido melhor e mais forte, a lembrança pode ser uma questão de fidelidade apaixonada, uma
lealdade tão intensa quanto a do salmista para com a sua terra natal:
"Apegue-se-me a língua ao paladar,
se me não lembrar de
ti, se não preferir eu Jerusalém
à minha maior alegria."111
Quando a lembrança significa tudo isto, não pode haver meias medidas ou contemporização. A
juventude e o todo da vida não são suficientes para extravasá-la. É neste espírito que de novo somos
instados a enfrentar o fato de nossa mortalidade. Desta última vez o trecho é mais demorado. Ao
mesmo tempo é uma das mais belas seqüências de figuras de palavras deste mestre da linguagem,
uma realização suprema de sua dupla ambição: achar "palavras agradáveis" e "palavras de
verdade" (v. 10).
No começo e no final desta passagem ele escreve diretamente, sem metáforas. Ouvimos a
cadência da própria idade avançada nas palavras de saudade: Não tenho neles prazer" (v. 1), e no
versículo 7 somos lembrados da sentença de Deus a Adão: "ao pó tornarás". Mas entre estes
pontos há uma profusão de imagens, algumas das quais vão evocar com a máxima vividez alguns
aspectos do envelhecimento ou da morte, enquanto outras nos provocam com alusões que a esta
distância mal podemos captar, despertando em nós o poeta ou o pedante.
Deveria ser o poeta, ou pelo menos o apreciador da poesia. Se algumas obscuridades nestas
linhas podem ser esclarecidas, tanto melhor para acender a nossa imaginação; tanto pior, no

109 A versão inglesa (Today's English Version) sugere a possibilidade de haver um trocadilho entre "Criador" e "sepultura", já
que em heb. essas duas palavras têm o mesmo som, mas grafia diferente. Contudo "sepultura" nunca vem acompanhada de
um possessivo (tua, etc), exceto quando usada em sentido primário de "poço" ou "cisterna".
110 Dt 8:17,18; Jn 2:7.
111 Sl 137:6.

51
entanto, se elas nos levam a tratar este gracioso poema como se fosse um elaborado criptograma,
forçando cada detalhe em um simples e rígido esquema.
No versículo 2 percebemos no ar o frio do inverno, enquanto a chuva persiste e as nuvens
transformam a luz do dia em penumbra, e, então, a noite em trevas de breu. É uma cena bastante
sombria para fazer-nos pensar não apenas nos nossos poderes físicos e mentais que se desvanecem,
mas nas desolações mais generalizadas da idade avançada. São muitas as luzes que ficam então
sujeitas a serem apagadas, além dos sentidos e das faculdades, quando os velhos amigos vão
partindo um a um, os costumes familiares vão mudando e esperanças há muito acalentadas têm de
ser abandonadas. Tudo isto chegará num estágio da vida quando já não haverá mais a capacidade
de recuperação da juventude ou a perspectiva de uma compensação. No começo da vida e na
maior parte dela os problemas e as enfermidades são geralmente apenas contratempos, mas não
desastres. Esperamos que o céu finalmente clareie de novo. É difícil ajustar-se à conclusão deste
longo capítulo, e saber que agora, no trecho final, não haverá mais possibilidade de melhora: as
nuvens vão sempre se ajuntar de novo e o tempo já não vai mais curar, mas sim matar.
Assim, estes fatos inexoráveis são melhor enfrentados, não na idade avançada, mas na
mocidade, quando ainda podem nos levar à ação, aquela reação total para com Deus que foi o
assunto do versículo 1, sem desespero e arrependimentos vãos.
Nos versículos 3 e 4a o quadro muda.112 Já não é mais a noite que cai, nem a tempestade ou o
inverno, mas uma grande casa em declínio. Suas antigas glórias de poder, estilo, vivacidade e
hospitalidade podem agora ser percebidas apenas através do contraste com suas poucas e patéticas
relíquias. Na corajosa luta pela sobrevivência há um lembrete da decadência quase mais perceptível do
que a ruína total. Ainda faz parte do nosso próprio cenário; o futuro nos aguarda e não podemos
fugir ao envolvimento com esse seu aperitivo.
Este quadro, na minha mente, fica mais visível na sua inteireza e não quando é
laboriosamente quebrado nas metáforas que o constituem (braços, pernas, dentes humanos e
assim por diante) e que sem dúvida se encontram aí como se o poeta se houvesse expressado inade­
quadamente. A casa que está em decadência revela-nos a nós mesmos como nenhum catálogo ou
inventário poderia fazê-lo.
Com a segunda metade do versículo 4, entretanto, o método muda, embora não a disposição.
Já não há mais um simples esquema, mas metáforas separadas, particulares, que exigem, portanto,
um estudo individual.
No versículo 4b, a ER fala "no dia em que... nos levantarmos à voz das aves, e todas as filhas
da música ficarem abatidas"; esta versão parece estar bem de acordo com o heb., com o sentido de
abordar o despertar de um velho de madrugada.113 "Harmonias" (ERAB) pode, entretanto, significar
as filh as da música, como diz o hebraico; de qualquer forma, quer o entendamos deste modo ou
significando canções ou notas musicais, pouca diferença faz para o sentido do texto.
Com a idade avançada, estas alegres evidências de um mundo vivo ao nosso redor tornam-se
distantes e frágeis; a pessoa já não se sente mais parte integrante de tudo isso.
O versículo 5 acrescenta um toque novo ao quadro; primeiro através da observação de um
homem idoso com medo de cair ou de ser empurrado, agora que já não tem mais firmeza e anda
devagar; depois, com o pequeno conjunto de metáforas que nos levam a meditar; e, finalmente,
pelo vislumbre de um funeral em andamento. Quanto às metáforas, o cabelo branco da idade
avançada é vivamente sugerido pela am endoeira que troca as negras cores do inverno por sua coroa
de flores brancas. A falta de naturalidade da marcha lenta e dura do velho, uma paródia da
flexibilidade e leveza da juventude, apresenta-se através da visão incongruente de um gafanhoto, a
personificação da leveza e a agilidade, arrastando-se pesadamente em virtude de algum acidente ou
do frio.114 A terceira metáfora é convenientemente interpretada para nós nas palavras e te perecer o

112 Alguns, entretanto, veriam uma simples estrutura de referências por todo o poema; por exemplo, uma alegoria anatômica
do começo ao fim; ou uma impressão do inverno, da tempestade ou do anoitecer no que eles afetam o mundo da natureza e as
atividades dos homens; ou a narrativa de uma família a caminho do velório na morte do seu patriarca. Quanto a discussões
dessas teorias, veja os grandes comentários.
113 Com a surdez, dificilmente ele será despertado ou assustado pelas aves; mas talvez a frase seja simplesmente uma
observação de horário, como "ele acorda com as galinhas" para nós (cf. a BLH: "levantará cedo, quando os pássaros
começam a cantar"). O heb. também daria lugar, apenas como uma possibilidade, à tradução: "Ele (isto é, a sua voz) tem o
timbre da voz das aves"; mas seria uma maneira estranha de falar.
114 A ERAB segue a interpretação de um verbo que significa "sobrecarregar-se" ou "tornar-se um peso", ao dizer: e o
gafanhoto te f o r um peso. Neste caso, o significado é que, por menor que seja o fardo, é pesado para o idoso (Cf. a BV:

52
apetite ou, melhor traduzidas, "e falhar o desejo" (ER), que é o verdadeiro sentido da expressão
hebraica "e o fruto da alcaparra falhar". Esse fruto era altamente apreciado como estimulante do
apetite e como afrodisíaco. A resposta do idoso Barzilai à oferta de Davi, que queria lhe dar um lu­
gar na corte, tem sido citada freqüentemente por sua semelhança com todo este contexto: "Oitenta
anos tenho hoje; poderia eu discernir entre o bom e o mau? Poderia o teu servo ter gosto no que
come e no que bebe? Poderia eu mais ouvir a voz dos cantores e cantoras?"115
Assim, no final deste versículo 5, o fluxo das metáforas é interrompido pela conversa explícita
sobre o final da jornada do homem e sobre o funeral, a última cerimônia (aliás, sem efeito algum) que
os amigos vão realizar. A expressão casa eterna refere-se aqui apenas ao final de tudo, e não da
perspectiva cristã de uma "casa não feita por mãos, eterna, nos céus" (2 Co 5:1).
É impressionante como as figuras do versículo 6 captam a beleza e a fragilidade da estrutura
humana: uma obra-prima de delicadeza trabalhada como qualquer obra de arte, mas tão frágil
quanto uma peça de cerâmica e tão inútil no final quanto uma roda quebrada. A primeira metade
deste versículo parece descrever um candelabro de ouro suspenso por uma corrente de prata;
bastará apenas que se quebre repentinamente um elo para que caia e se quebre. E se isto parece um
quadro sutil demais para descrever nosso ser tão familiar, temos o equilíbrio da cena do poço
abandonado: quadro eloqüente da transito riedade das coisas mais simples e mais básicas que
fazemos. Haverá uma última vez para cada caminhada familiar, para cada tarefa rotineira. No
versículo 7 há um lembrete da tragédia por trás desta seqüência, a escolha fatal que conduz à
sentença:
"Porque tu és pó e ao pó tom aras. "116
Esta não é a única alusão que o escritor faz à queda do homem: já antes, em 7:29, ele havia
colocado a culpa de nossa condição em seu devido lugar: "Deus fez o homem reto, mas ele se meteu
em muitas astúcias." E se, aos nossos ouvidos, há uma nota de esperança no final do versículo 7, e o
espírito volte a Deus, que o deu, certamente estamos querendo ouvir mais do que ele pretendia. Ele já
levantou antes a questão de uma vida após a morte, e recusou-se a dizer uma coisa dessas.117 O
significado destas últimas palavras não precisam ir além do que diz o Salmo 104:29 a respeito dos
homens e dos animais: "Se ocultas o teu rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração,118
morrem, e voltam ao seu pó." Em outras palavras, a vida não nos pertence. O corpo reverterá ao seu
próprio elemento; e o hálito da vida sempre pertenceu a Deus e a Deus cabe tomá-lo.
No versículo 8, portanto, tendo atrás de nós a experiência de todo o livro e à nossa frente o
reforço trazido pelas incisivas figuras deste capítulo acerca da mortalidade, retornamos à
exclamação inicial, Vaidade de vaidade!, concluindo que ela tem razão de ser. Nada em nossa busca
nos levou ao alvo; nada que nos seja oferecido debaixo do sol nos pertence de fato.
Mas estamos esquecendo o contexto. Esta passagem mesma indica-nos uma coisa além daquilo
que está "debaixo do sol", nas palavras teu Criador, e nos convida a responder. Também nos aponta
o presente como o momento da oportunidade. A morte ainda não nos alcançou: que ela sacoleje
suas correntes diante de nós e nos desperte para a ação!

Eclesiastes 1 2 :9 -1 4 -
Conclusão
O pensador como ensinador
12:9 O Pregador, além de sábio, ainda ensinou ao povo o conhecim ento; e, atentando e
esquadrinhando, com pôs m uitos provérbios.
10 Procurou o P regador ach a r palavras agradáveis e escrever com retidão palavras de
verdade.
Afastamo-nos um pouco para ver a pessoa e o processo que se escondem por trás deste
notável livro. As observações iniciais apontam para a parceria entre as idéias e a expressão, a busca e
os ensinamentos, que o próprio livro ilustrou. Vimos como os capítulos de conselhos práticos

"...anda se arrastando").
115 2 Sm 19:35.
116 Veja Gn 3.
117 3:21.
118 Lit. "o espírito". É a mesma palavra que foi usada em nosso versículo.

53
equilibraram e suplementaram as profundas reflexões por eles interrompidas. O que surge no
restante destes dois versículos é a grande importância que o autor dá ao seu papel de ensinador. Ele
não é o orgulhoso pensador que não tem tempo para as mentes menos privilegiadas; antes, aceita o
ideal desafiador da perfeita lucidez. Como destaca o versículo 10, é preciso ter a habilidade e a
integridade, o encanto e a coragem de um artista e de um mestre para fazer justiça à tarefa. Na força
deste único versículo, este homem poderia ser o santo patrono dos escritores.

Ensinamentos penetrantes
12:11 As palavras dos sábios são com o aguilhões, e com o pregos bem fix ad os as sentenças
coligidas, d ad as pelo único Pastor.
12 Demais, filh o meu, atenta: não há limite p ara fa z e r livros, e o muito estudar é enfado da
carne.
Eis aí mais duas qualidades que caracterizam os oportunos ensinamentos do sábio: eles
despertam a vontade e se fixam na memória. Com isto, Coelet, mestre como é, paga um tributo
involuntário ao maior de todos os mestres da sabedoria: nosso Senhor, cujas palavras apresentam
estas duas marcas de maneira suprema, da mesma forma como ultrapassam o critério do versículo
10, de "palavras agradáveis" e "palavras de verdade". Elas casam a justeza com a intrepidez,
parceiras que não devem ser separadas.
O que importa acima de tudo é que são palavras de autoridade. Com toda a sua variedade e
evidente humanidade, elas são dadas aos sábios. Constituem uma unidade, e provêm de Deus. Este
segundo termo aplicado a Deus, o único Pastor, é um complemento apropriado ao majestoso título
do versículo 1, "teu Criador". O Deus "distante", cuja ordem alcança a todos, também é o Deus
"próximo",119 que conhece e pode ser conhecido, que nos fala com voz humana mas decisiva.
O curioso é que, como percebemos no versículo 12, isto não nos agrada. Nós nos tornamos
viciados na pesquisa propriamente dita, apaixonados pelas nossas perguntas mais difíceis. Uma
resposta estragaria tudo. C. S. Lewis, em uma de suas confrontações no livro The Great Divorce (O
Grande Divórcio), capta o tom e a qualidade desta atitude, à altura em que ela finalmente se apossa
do homem. Nessa cena, na fronteira do céu, um "pesquisador" vitalício é convidado a entrar.
Dizem-lhe:
"Não posso lhe prometer... qualquer campo de ação para os seus talentos: apenas o perdão
por havê-los pervertido. Nenhuma atmosfera de pesquisa, pois vou introduzi-lo na terra onde não
há perguntas, apenas respostas, e você verá a face de Deus."
"Ah! mas nós devemos interpretar essas belas palavras à nossa própria maneira! Para mim não
existe resposta final. O vento livre da pesquisa deve continuar sem pre soprando através de nossa
mente, não deve?"...
... "Ouça!", disse o Espírito Branco. "Você já foi criança. Você aprendeu para que servia a
pesquisa. Houve um tempo em que você fazia perguntas porque queria respostas, e ficava satisfeito
quando as encontrava. Torne-se essa criança novamente, agora mesmo."
"Ah! mas quando eu me tornei um homem eu deixei de lado as coisas infantis!120
Nenhum argumento, nenhum apelo valerá contra esta infinita elasticidade. O encontro, já
infrutífero, acaba com o gentil sofista lembrando-se de que tem um encontro; desculpa-se, então, e
corre para o seu grupo de debates no inferno.

O ponto de chegada
12:13 De tudo o que se tem ouvido, a sum a é: Teme a Deus e gu arda os seus m andam entos;
porque isto é o dever de todo homem.
14 Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, a té as que estão escondidas, quer sejam
boas, qu er sejam más.
Até agora, nenhum dos nossos caminhos nos levou a parte alguma. Eles acabaram muito
antes de alcançarmos qualquer coisa eterna e absoluta. Mas o caminho a que nos trouxe este
capítulo aponta para Deus, o Eterno, para quem "a eternidade no coração do homem" (cf. 3:11) foi
criada para ali habitar e gravitar:
Se esta maneira de colocar as coisas destaca mais a necessidade do homem do que a exigência

119 Cf. Jr 23:23ss.


120 C. S. Lewis, The G reat Divorce (Bles, 1945), págs. 40ss.

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de Deus, estes dois versículos logo vão restabelecer o equilíbrio. Mas eles prazerosamente concedem
ao elemento humano o seu devido direito, através das palavras porque isto é o todo do homem. É
verdade que, entre outras cousas, é o seu dever; mas o heb. não diz isso; deixa esse todo indefinido.
"Isto", como poderíamos traduzir, "é tudo o que o homem tem"; mas é um "tudo" que fica em total
contraste com a "vaidade" com que nos tem confrontado o livro. Aqui finalmente encontraremos
realidade e nos encontraremos a nós mesmos.
Não, entretanto (e com isto o equilíbrio é restaurado), como perfeccionistas que buscam
para si o que é melhor, mas como servos apresentando-se ao seu legítimo senhor. Teme a Deus é uma
convocação que nos coloca no nosso devido lugar, e a todos os demais temores, esperanças e
perplexidades nos seus devidos lugares.
O derradeiro versículo destaca o ponto que acabamos de apresentar, com um golpe final que
é bastante forte para machucar, mas bastante inteligente para nos fazer sair da apatia. Acaba com a
complacência, avisando-nos de que nada passa despercebido e sem avaliação, nem mesmo as coisas
que nós escondemos de nós mesmos. Mas ao mesmo tempo transforma a vida. Se Deus se importa
tanto assim, então nada pode ser sem sentido.
Esta é a verdade que já nos foi apresentada em 11:9; e, além do mais, ela dá colorido a todos
os ensinamentos de Cristo, para quem nenhum detalhe aqui na terra poderia ser pequeno demais
para ser importante no céu: uma palavra fútil, a morte de um pássaro, um copo de água fria, o
arrependimento de um pecador. Foi isto também que incitou Paulo a ser insistente "a tempo e fora
de tempo" e a concluir a sua carreira com alegria. Para qualquer outro senhor, ou para nenhum.
"As nações labutam - apenas para o fogo, e os povos se fatigam - tudo para nada."121
É uma coisa totalmente diferente ficar sob as ordens de um senhor que se importa
profundamente tanto com o trabalhador como com o trabalho e cujo julgamento é infalível.
Não compete ao nosso autor pesquisar mais sobre este julgamento, como e quando será
realizado. Há um lugar para isso. Mas há um lugar também, e é aqui, para o silêncio que chama a
atenção para o simples fato da aprovação ou da desaprovação de Deus. Quando todos os detalhes
tiverem sido concluídos, este continuará sendo o ponto crucial. Em torno disto e nada mais gira a
questão: se "tudo é vosso" (como Paulo o colocou, especificando ainda: "o mundo ... a vida ... a
morte ... as cousas presentes ... as futuras")122 ou se, irremediavelmente, "tudo é vaidade".

121 Hc 2:13, conforme traduzido para o inglês por J. H. Eaton (Torch Bible Commentaries, SCM Press, 1961).
122 1 Co 3:21ss.

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Terceira Parte
E nós, o que temos a dizer?
- um epílogo

O cristão pode acrescentar o seu am ém a esta voz do Antigo Testamento. Nosso autor foi
breve: podemos seguir o seu exemplo. Uma confissão, um poema, uma oração e uma das grandes
perorações de Paulo serão suficientes para concluir este livro.

A confissão é de Agostinho. Bastante conhecida para ser repetida, contudo poderia ter sido
escrita como uma coda para este livro, em vez de um prelúdio à sua própria história:

Tu nos fizestes para ti mesmo,


e nosso coração não tem descanso até que repouse em ti

O poema é de George Herbert, e a sua adequabilidade torna-se mais e mais aparente, à


medida que se aproxima da sua perfeita conclusão.

No começo, quando Deus fez o homem,


tomando um cálice cheio de bênçãos, disse:
Vamos derramar sobre ele o máximo possível
para que as riquezas do mundo, que são dispersas
contraiam-se em um pequeno espaço.

Assim a força foi a primeira a cair;


então fluiu a beleza, a sabedoria, a honra e o prazer.
Quando quase tudo já havia sido derramado, Deus fez uma pausa,
percebendo que apenas um de todos os seus tesouros,
bem no fundo, tinha restado.

Se eu, disse ele,


concedesse esta jóia também à minha criatura,
ela adoraria os meus dons e não a mim,
e confiaria na natureza, não no Deus da natureza:
e ambos seriam perdedores assim.

Deixemos-lhe, contudo, o restante,


mas com uma inquietação aflitiva:
Que seja rico e exausto, para que ao menos,
se a bondade não o orientar,
a fadiga o impulsione ao meu seio, enfim.

Esta oração foi escrita por William Laud:

Permite, ó Senhor, que possamos viver no teu amor,


morrer no teu favor, repousar na tua paz,
ressuscitar no teu poder e reinar na tua glória;
por amor do teu próprio Filho amado,
Jesus Cristo, nosso Senhor.

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A peroração é de 1Coróintios 15:54,58, aquela resposta final ao grito: “Vaidade!”

E, quando este corpo corruptível se revestir de


incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de
imortalidade, então, se cumprirá a palavra que está escrita:
Tragada foi a morte pela vitória.

Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis


e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que,
no Senhor, o vosso trabalho não é vão.

57
A MENSAGEM DE ECLESIASTES
Será que a vida é um absurdo, um caos, totalmente sem sentido?
A função de Eclesiastes é levar-nos ao ponto de
ver que a vida parece ser sem sentido. "E realmente
o é, se de fato tudo está morrendo. Defrontamo-nos com
a espantosa conclusão de que nada tem significado,
nada vale a pena debaixo do sol. É então
que podemos ouvir, como uma boa nova, que
tudo vale a pena, que tudo tem sentido..."
Com grande discernimento e clareza Derek Kidner leva o
leitor a conhecer este livro do Antigo Testamento que
fala de maneira tão poderosa à nossa geração.

Derek Kidner foi deão da Tyndale House, em Cambridge.


É autor de comentários bíblicos sobre Gênesis,
Esdras e Neemias, Salmos e Provérbios,
e do livro A Mensagem de Oséias.

ABU EDITORA — LIVROS PARA GENTE QUE PENSA

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