Você está na página 1de 4

DISTORÇÕES COGNITIVOS

As distorções cognitivas são erros no processamento das informações, em que


a pessoa interpreta a si mesma, os outros e o futuro, passando a enxergar os fatos de
maneira imprecisa, tirando conclusões generalizadas ou ilógicas. Geralmente ocorre
sofrimento emocional ou prejuízo comportamental.
Os erros cognitivos são bastantes comuns e caracterizam as crenças
autolimitantes, que por sua vez, comprometem o alcance de desempenhos
satisfatórios. No entanto, é possível aprender habilidades que permitem a flexibilização
dessas crenças e a escolha de outras que tragam nova percepção e significado para os
eventos da vida. As distorções frequentemente encontradas são:
1 - PERSONALIZAÇÃO - assumir-se como responsável por alguma situação
externa quando na verdade são outros os fatores responsáveis. Considerar-se
fundamentalmente responsável por eventos que não dão certo, mesmo se estando
além do seu controle.
Exemplos: “Meu funcionário mudou de empresa porque sou uma péssima
líder”; “Sou o responsável por meu partido ter perdido”; “Ele está distante, devo ter
feito algo de errado”; “Trago azar para as pessoas”.
Correção - Determinar os prováveis fatores que concorreram para as más
experiências e os critérios para estabelecer quando a pessoa é o foco de atenção. -
Quando eu realmente contribui para essa situação? Quem mais era responsável?
Há outras possibilidades? Ex: “Meu funcionário mudou de empresa porque gostaria
de ter outras experiências, faz parte do mundo do trabalho”.
2 - PENSAMENTO DICOTÔMICO OU POLARIZAÇÃO – perceber as
experiências pessoais/situações em apenas duas categorias extremas e excludentes,
em termos absolutos, branco ou preto, oito ou oitenta, perfeito ou totalmente inválido,
tudo ou nada, sem perceber exceções.
Exemplos: “Ela sempre me olha daquele jeito”; “Meu desempenho não foi
perfeito, devo ser um fracasso total”; “Meu apetite é totalmente descontrolado”; “Deu
tudo errado na festa”; “Ninguém gosta de mim”; “Se eu não tirar sempre nota máxima,
serei um fracasso”; “Não tenho ninguém, estou completamente sozinho”; “Ninguém
me dá valor”; “Já estou fazendo porcaria de novo”; “Ou faço a dieta rigorosamente ou
é a mesma coisa de que não fazer nada”.
Correção- Demonstrar que os eventos podem ser avaliados ao longo de uma
linha de continuidade. Cometer um erro não é a mesma coisa que falhar
completamente. – Qual seria uma forma de pensar mais equilibrada e menos
baseada em extremos? Ex: “É verdade que ela as vezes me olha de forma estranha,
mas de repente é só o jeito dela”.
3 - ADIVINHAÇÃO DO FUTURO OU PROFECIA AUTO-REALIZANTE - prever
como certo um evento negativo projetado no futuro, sem evidências concretas que o
justifiquem. Comportar-se e reagir como se sua expectativa negativa sobre o futuro já
fosse um fato estabelecido da realidade.
Exemplos: “Eu sei que eles vão me demitir na semana que vem”; “Quando
virem que jogo mal, todos rirão de mim”; “Ninguém vai dar atenção para mim na festa”;
“Vou ficar sozinha”; “Tive um problema no emprego, já não vou conseguir dormir
direito esta noite”; “Não vai dar certo”; “Ela não vai me perdoar”; “Agora só vou
conseguir sair na rua com remédio”; “Não vou conseguir resistir aos doces na festa”;
“Eu sei, ele vai me trair” ou “Nunca mais vou conseguir outro emprego”.
Correção - Especificar os fatores que poderiam influenciar resultados diferentes
para os eventos. Preparar-se com antecedência. – Não se pode prever o futuro,
pode-se construir o futuro. Ex: “A empresa está passando por uma crise, só o que
posso fazer é me dedicar e aumentar minhas chances de continuar”.
4 - INFERÊNCIA ARBITRÁRIA OU LEITURA MENTAL OU TIRAR
CONCLUSÕES - chegar a uma conclusão sem evidências adequadas ou apesar de
evidências em contrário. Pensar, sem evidências, que sabe o que os outros estão
pensando, desconsiderando outras hipóteses também possíveis.
Exemplos: ”Tenho certeza que ele está tramando contra a minha promoção”;
“Ela não gosta mais de mim”; “Ele não gostou de meu projeto”; “Ele está me
desprezando porque percebeu que tomo remédio para depressão”; “Não estou
agradando”; “Eles pensam que sou um chato; ou “Eles estão escondendo algo de mim”.
Correção - examinar as evidências que corroboram e as que são contrárias à
conclusão. – O fato de você pensar X não significa que X também esteja na mente
das pessoas. EX: “Na verdade, não sei se ele está tramando contra a minha promoção”.
5 - ABSTRAÇÃO SELETIVA, FILTRO MENTAL OU VISÃO EM TÚNEL - um
aspecto de uma situação complexa é foco da atenção, enquanto outros aspectos
relevantes da situação são ignorados. Considerar válidos para uma conclusão apenas
a parcela negativa dos dados, que é realçada e lidar então exclusivamente com ela.
Exemplos: “Fiz a comida, mas minha esposa disse que precisava de um pouco
mais de sal; está na cara que o jantar foi um desastre”; “Ela não é uma boa filha, pois
não lava a louça depois do jantar”; “Ele não gosta de mim, porque não quer me levar
no cinema”; “Aquela nota cinco arruinou meu currículo”; “Eu trabalho direito, mas o
que importa se meus pais não me respeitam”; “Existe algo de muito errado comigo”;
“Estou sem namorada, nada na vida tem valor” ou “Eu estou gorda, sou uma pessoa
horrível”.
Correção - Gerar mais conclusões baseando-se na totalidade dos dados
disponíveis. - Ver as coisas em perspectiva, de forma mais objetiva. Ex: “A comida
podia estar com pouco sal, mas ela me agradeceu por eu ter feito o jantar. Foi só o sal
mesmo, porque ela até repetiu”.
6 - HIPERGENERALIZAÇÃO OU SUPERGENERALIZAÇÃO - Se for verdade em
um caso, aplica-se a todos os casos, mesmo que levemente similar. Se uma vez for
verdade no passado, será sempre assim. A pessoa enxerga um único evento negativo
como um padrão de derrota que nunca vai terminar.
Exemplos: “A venda esse mês foi muito ruim, perdemos para a concorrente,
mas um fracasso”; “Para mim nada nunca dá certo”; “Nunca mais vou me casar”; “Eu
nunca termino o que começo”; “Nunca mais alguém vai querer ficar comigo”; “Não
dormi bem ontem, minha insônia vai durar para sempre” ou “Nunca mais vou conseguir
um emprego bom como este”.
Correção - estabelecimento de critérios de semelhanças e diferenças entre os
casos.- Onde estão as evidências? Ex: “A venda esse mês foi realmente ruim, mas os
outros meses mostram que não é sempre assim”.
7 - CATASTROFIZAÇÃO - acreditar que o que ocorreu ou que pode acontecer
será terrível, intolerável ou insuportável, exagerando os aspectos negativos da situação.
Exemplos: “A entrevista foi um fiasco, é mesmo o meu fim”; “Perder o emprego
será o fim de minha carreira”; “Eu não suportarei a separação de minha mulher”;
“Devido ao meu problema de insônia a minha saúde está seriamente comprometida”;
“Se eu perder o controle será o meu fim”; “Vou ficar dependente”; “Vou morrer se não
tiver ninguém para me ajudar”; “O que será de mim se desmaiar” ou “Eu não
sobreviverei se tiver que ser tratado em um hospital”.
Correção - focar sobre recursos de enfrentamento disponíveis para o pior
cenário. Avaliar os eventos em perspectiva. – Qual seria uma forma mais
proporcional de pensar? Ex: ‘A entrevista teve pontos bons e pontos ruins. Mesmo
que não seja desta vez, não quer dizer que não será melhor da próxima”.
8 - IMPERATIVO OU DECLARAÇÃO DE OBRIGATORIEDADE (PODER, DEVER
E PRECISAR) - interpretar eventos em termos de como as coisas deveriam ser, ao invés
de focar em como elas são. Demandas feitas sobre si, os outros e situações por não
aceitar as consequências do não cumprimento das mesmas. A pessoa pensa de forma
rígida e inflexível sobre como ela e os outros deveriam/devem ou teriam/tem de ser.
Exemplos: “Eu tinha que ter me oferecido para participar daquela negociação
antes dele”; “Só deve ficar em casa quem estiver doente”; “Preciso da aprovação de
meus pais”; “Todos os erros precisam ser castigados”; “Não posso falhar”; “Devo me
esforçar ao máximo em tudo o que faço”; “Eu tenho que ter controle sobre tudo”; “Eu
não posso desobedecer à vontade de minha mãe”; “Os erros são imperdoáveis”; “Uma
traição jamais pode ser perdoada”; “Uma boa esposa não deve contrariar seu marido”;
“Não posso ofender, tenho que respeitar a opinião dos mais velhos”; “Uma mulher
independente não deve aceitar as ordens de seu marido” ou “Para ser feliz, necessito
da aceitação de todos”.
Correção - Solicitar ao paciente que defina a validade de seu pressuposto e
fundamente porque isso é tão importante para si. – O mais adequado é substituir a
linguagem emocional por termos de preferência: “SERIA PREFERÍVEL/DESEJÁVEL
QUE”. Ex: “Preferiria participar da negociação, mas nem tudo é como gostaríamos”.
9 - ROTULAÇÃO - avaliação global de uma pessoa ou situação através de
estereótipos e desconsiderando as características específicas de cada caso. Colocar um
rótulo global e rígido em alguém ou situação ao invés de avaliá-los como um todo.
Exemplos: “Sou incompetente”; “Ele tem um defeito de caráter”; “Sou covarde”;
“Me alimento como uma porca”; “Ele é louco”; “Hoje eu tive um dia péssimo, agora
mereço dar um gole”; “Sou incapaz”; “Sou muito homem para precisar de ajuda”; “Ele
é burro”; “Sou fria”; “Não tem jeito, ele é um caso perdido” ou “Ele é esquisito”.
Correção - análise semântica do significado dos termos empregados. – Os
comportamentos específicos, não as pessoas, devem ser avaliados. Ex: “Realmente,
meu desempenho esse mês não foi muito bom, vendi pouco, mas isso não faz de mim
totalmente incompetente”.
10 - MAGNIFICAÇÃO E MINIMIZAÇÃO - características e experiências
negativas são maximizadas enquanto as positivas são minimizadas. Supervalorizar ou
desvalorizar a importância de um atributo pessoal, evento ou uma possibilidade futura.
Exemplos: “Eles estavam muito desesperados em preencher a vaga, por isso
eu consegui o emprego”; “Se eu não tiver alguém a minha vida vai ficar sem sentido”;
“Essa tosse seca significa que estou morrendo de pneumonia”; “Um drink a mais não
vai me fazer mal algum”; “Foi apenas um sonho”; “Isso é inadmissível”; “Não tem graça
fazer qualquer coisa sozinho”; “Não vou suportar os efeitos colaterais.
Correção - Relacionar o atributo, evento ou possibilidade futura com seus
contextos. Foco sobre as evidências de que o pior realmente ocorrerá. Cálculo de
probabilidades. Qual seria uma forma mais proporcional de pensar? Ex: “Eles
estavam realmente desesperados para conseguir alguém para a vaga, mas, se eu fosse
muito ruim, teriam procurado um pouco mais por alguém melhor”.