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Francesco Carnelutti abre a obra construindo uma analogia entre o Processo e a

Representação Teatral. As pessoas são ávidas por diversão, diz ele, que seria, por definição, um
desvio do curso normal da vida, e é isso, precisamente, o que oferecem ao público o Processo e a
representação cênica. O Processo exala dramaticidade, é erigido em torno da discórdia entre
homens, o gérmen da guerra.
Em tal ponto da leitura afirma categoricamente Carnelutti que o Processo consistiria em
um combate, e, para escorar tal pensamento arrebata com o exemplo histórico dos duelos, nos quais
se tinha que o vencedor lograra êxito por ter razão. Mais recentemente, teria havido uma inversão
na relação entre vencer e ter razão, quem tem razão é aquele que vence, não mais o contrário.
No capítulo seguinte, põe-se a dissecar o Processo Penal. Assevera, logo de início, que ao
delito se deve seguir a pena, a fim de incentivar que se abstenham de cometer outros delitos,
perturbadores da ordem. Acerca do delito, expõe que o mesmo pode acontecer de forma deveras
célere, e a razão para tanto seria porque é realizado sem juízo, de forma que, se o delinquente
tivesse juízo, não o teria cometido. Por outro lado, se castigo fosse aplicado sem juízo, deixaria de
ser castigo para ser um novo delito. Disso tem-se que o julgador deve julgar cautelosamente, por
isso haveria a palavra “processo”, da qual se compreende um longo caminho.
O Processo leva à declaração do Juiz, que pode ser duas, o imputado como culpado ou
inocente. A absolvição seria a quebra do Processo Penal, um Processo com tal fim não deveria ter
sido realizado, sendo tal hipótese que se termina verdadeiramente o Processo Penal. A condenação,
por outro lado, não encerra o Processo, simplesmente ordena o castigo. Trazendo à baila a analogia
exordial, cai a cortina no Tribunal, para ser erguida na penitenciária, ao processo de cognição segue
o processo de execução.
O autor elabora outra analogia, então, ao apagar das luzes do segundo capítulo. O delito
teria como cura o Processo Penal, no entanto, não haveria como saber se o doente estaria
efetivamente curado, e se alguém o soubesse, os outros não haveriam de acreditar. Em casos como o
supra, a vida transformar-se-ia, uma vez restabelecida a liberdade do indivíduo, num desilusão
atroz, e o Processo teria fracassado em seu telos.
Feita a análise do Processo Penal, passa Carnelutti a examinar o Processo Civil. Logo nas
primeiras palavras atinentes ao Processo Civil, vislumbra o autor uma distinção entre ele e o
Processo Penal, a saber, não existiria um delito no Processo Civil, conforme sugere a etimologia da
palavra “civil”, civilitas, o modo de ser do cidadão e da cidade.
Um caso concreto no qual um indivíduo deseja algo inteiramente para si, e um outro a isso
se opõe. Não há, ainda, no caso em tela, uma guerra, e é para obstá-la que existe o Processo Civil.
Tal situação de fato seria a lide, um desacordo. A pretensão consistiria na exigência da satisfação do
interesse do requerente.
Sucintamente, se tem que o Processo Civil age para combater a lide, e o penal para
combater o delito, daí conclui-se que a reação do Processo Civil é mais complexa que a do Processo
Penal, posto que o último apenas tem andamento com, ao menos, a aparência de um delito,
enquanto o Civil pode operar, além de para a repressão, para a prevenção do litígio (Processo Civil
com lide e sem lide, respectivamente).
Posteriormente, cita outra classificação, que divide o Processo entre o Processo Civil
Voluntário, de caráter preventivo, e o Processo Civil Contencioso, que se desenvolve na presença de
um litígio.
Por fim, faz o autor crítica as constantes queixas acerca da morosidade da Justiça, não
raramente gerada pelas próprias partes, que impõem entraves à prestação jurisdicional,
embaralhando os papéis no ímpeto de ter a sua pretensão acolhida, mesmo quando não tem razão,
numa patente afronta ao Princípio da Lealdade Processual.
O quarto capítulo trata especificamente da figura do Juiz. O Processo seria necessário
devido à incapacidade das pessoas comuns de elaborar julgamentos sobre aquilo que deve ou não
ser feito, a fim de estabelecer juízo dentre os desprovidos do mesmo. É o Juiz que estabelece juízo
dentre os que não o tem.
No entanto, julgar mostra-se tarefa de imensurável complexidade, posto que envolve uma
abstração, enxergar o porvir. Revelam-se duas soluções lógicas para o aparente conflito, das quais
apenas uma me parece razoável, o julgamento realizado por vários homens ao mesmo tempo
(Princípio do Colégio Judicial ou do Juízo Colegiado), que ainda poderiam compor um colégio
heterogêneo, hipótese na qual nem todos tem a mesma preparação técnica, o que maximizaria a
probabilidade de se fazer a Justiça.
Todavia, surge outra questão, como encontrar o melhor Juiz? O melhor Juiz deve ser
objetivamente escolhido dentre aqueles que disponham da capacidade para escolher, cabendo tal
escolha ao Estado, que, a fim de garantir sua idoneidade, manterá com ele relação de emprego, que
o investe de poderes e o incumbe de certas obrigações.
Por fim, aborda brevemente o tema da competência, cuja distribuição será feita em sentido
horizontal e vertical, principalmente em razão do território ou da função.
O capítulo seguinte aborda as partes do Processo. Inicialmente, propõe o autor outra
distinção entre o Processo Penal e o Civil. No Civil, diz ele, o Juiz deve julgar sobre dois, não
podendo ele dar razão a um deles sem negar ao outro. No Penal, o juízo diria respeito apenas ao
imputado. Nas hipóteses em que haja a figura da parte Civil, não haveria Processo Penal puro, mas
um Processo Misto. Acrescenta ele que tal diferença também diz respeito ao Processo Voluntário
(pode ser unilateral) e ao Contencioso (essencialmente bilateral).
Dentre as partes, seria autor aquele que pede o requer o juízo ao Juiz, enquanto demandado
seria aquele a respeito do qual se demanda o juízo. No Processo Penal, a parte única recebe o nome
de imputado, aquele a ser submetido ao Processo Penal a fim de o Juiz comprovar se cometeu ou
não o delito. O imputado poderia ser um homem (humano) sempre que seja uma pessoa (capaz), e o
autor e demandado podem ser homens, ainda que não sejam pessoas (hipótese das crianças e
doentes mentais), ou pessoas, ainda que não sejam homens (hipótese das pessoas jurídicas).
Finalmente, expõe o autor que o juízo do Juiz tem a força de um mandato, e vincula como
a própria lei, no entanto, ao contrário da última, consiste em um mandato específico. O juízo do Juiz
tem eficácia de coisa julgada, de forma que não mais seria a decisão passível de discussão.