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KATZ, Jack. O que caracteriza „notícias‟ sobre o crime? Tradução de Raoni Borges Barbosa.

Sociabilidades Urbanas – Revista de Antropologia e Sociologia, v.1, n.3, p. 15-37, novembro de 2017.
ISSN 2526-4702.
Tradução
http://www.cchla.ufpb.br/sociabilidadesurbanas/

O que caracteriza notícias sobre o crime?1


What makes crime ‘news’?

Jack Katz
Tradução de Raoni Borges Barbosa

Resumo: Neste artigo, Katz problematiza um estudo sobre notícias de jornais,


questionando como se constrói o interesse cotidiano do leitor médio por notícias sobre o
crime. Nesse sentido, Katz apresenta uma classificação de quatro tipos de notícias sobre o
crime que impactam moralmente nos dilemas morais da população urbana a que se dirige:
os crimes de colarinho branco, os crimes contra a integridade moral coletiva, os crimes que
colocam em xeque as competências e as sensibilidades morais do homem médio e os
crimes que buscam potencializar conflitos políticos pré-existentes. Palavras-chave:
imprensa, notícias sobre o crime, fronteiras morais, dilemas morais cotidianos, vida urbana

Abstract: In this article, Katz problematizes a study of newspaper news on crime news,
questioning how the average reader's daily interest in news about crime is constructed. In
this sense, Katz presents a classification of four types of crime news that impact morally on
the moral dilemmas of the urban population to which it is directed: white collar crimes,
crimes against collective moral integrity, crimes that threaten the personal competence and
sensibilities of the average man and crimes that seek to moralize pre-existing political
conflicts. Keywords: press, crime news, moral boundaries, everyday moral dilemmas,
urban life

Como os leitores de notícias mantêm o apetite para relatos jornalísticos sobre um


crime? Dia após dia, muitas das novas histórias enquadradas no tópico criminalidade
apenas diferenciam-se, umas em relação às outras, quanto a detalhes do tipo data, lugar
e identidades das vítimas e do réu envolvidos na trama criminosa. Como os leitores vêm
a interessarem-se cotidianamente no relato hodierno sobre homicídio ou roubo, dado
que a narrativa que leram no dia anterior era substancialmente semelhante? Para ter
acesso a informações confiáveis sobre o fenômeno da criminalidade, leitores de jornais
poderiam recorrer a estudos sociológicos. Para ter acesso a entretenimento, eles
poderiam, e muitos, de fato, o fazem, ler novelas e romances policiais. Quais os
elementos distintivos de forma ou conteúdo que fazem as reportagens jornalísticas
diárias sobre o crime continuamente interessantes para o público moderno?
O estudo sociológico da mídia está crescendo, mas uma das suas questões
fundamentais, a explicação do “apetite por notícias” (CAREY, 1982; ver a conceituação
do problema na pesquisa sobre „gratificações‟: Katz, Blumer e Gurevitch, 1973),
permanece em aberto. Faz-se necessário, nesse sentido, considerar o sentido, para os
leitores, da estrutura, bem como da substância das narrativas midiáticas. No caso de
notícias sobre crimes, como se explica não somente a relativa importância dessa
categoria de notícias, mas, também: a ênfase no exercício narrativo da apropriação do
crime pelo processo de justiça criminal?; a diferenciação de tipos de narrativas sobre o

1
Este artigo foi gentilmente cedido para publicação na Sociabilidades Urbanas – Revista de Antropologia
e Sociologia pelo Prof. Dr. Jack Katz. O artigo foi originalmente publicado na Revista Media, Culture and
Society (SAGE, London, Beverly Hills, Newbury Park and New Delhi), Vol. 9 (1987), 47-75.
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crimes?; a recorrência cotidiana do apetite pela leitura?; a maneira como o relato sobre o
crime é construído para fazê-lo parecer atual; a dispersão de relatos sobre crimes pelo
jornal?
Uma resposta teórica coerente pode ser desenvolvida mediante a abordagem de
temas até então marginais para os estudos sociológicos tanto da mídia quantos dos
problemas sociais. Primeiramente oferecerei uma análise de conteúdo de narrativas
midiáticas cotidianas sobre o crime. Sociólogos tem se tornado cada vez mais
sofisticados em examinar a organização social do processo de produção das notícias de
jornal em relação a tendências que afetam se e como narrativas particulares são
reportadas (por exemplo, ver FISHMAN, 1980). Contudo, apesar das contingências que
afetam se um elemento particular será publicado, todas as narrativas sobre crimes que
são publicadas, com efeito, preenchem um ou mais das quatro formas clássicas de
dilemas morais. Estas categorias devem ser entendidas como condições necessárias, mas
não suficientes para a publicação da narrativa sobre crime. O argumento é que histórias
sobre o crime candidatas à publicação nos jornais diários devem ser construídas em
torno de uma ou mais destas quatro formas, antes que venham a ser classificadas como
noticiáveis.
A análise substantiva foi desenvolvida e testou até a exaustão conjuntos de
narrativas midiáticas extraídas de jornais diários de Nova York e de Los Angeles ao
longo de sete anos. A primeira seção abaixo descreve as amostras e, com ilustrações dos
casos mais novos e limítrofes, reproduz em efeito o livro de códigos utilizado para
analisar as notícias de jornais.
Na segunda seção, argumento que, indiferente de quais sejam as influências
sobre as formas de organização de notícias que afetam a seleção e a rejeição de
narrativas particulares, leitores de notícias diárias possuem em relação às narrativas
publicadas uma fascinação pessoal gerada independentemente das influências acima
aludidas. Esta fascinação não corresponde primeiramente ao aprendizado sobre o crime
em si: leitores de notícias diárias não mantêm um interesse em histórias sobre crimes
com o intuito de produzir teorias sociológicas tipo folk sobre os casos lidos, ou mesmo
para se tornarem mais preparados em lidar com as realidades da criminalidade na
sociedade.
Na seção final, busco compreender os padrões revelados, a partir dos conjuntos
atuais de dados e da literatura consultada, com uma teoria da reconstrução cotidiana dos
apetites dos leitores de jornais por narrativas midiáticas sobre o crime. Minha tese é a de
que o crime é transformado em „notícia‟ pelo público moderno que busca por recursos
para provocar as sensibilidades rotineiramente enquadradas e apropriadas como
problemáticas na vida urbana moderna cotidiana.
Fronteiras morais em notícias sobre crimes
Primeiramente me interessei sobre o conteúdo recorrente de notícias de jornais
quando estudava o Ministério Público Federal para o Distrito Leste de Nova York (a
partir de agora MPFNY). A liderança do Ministério mostrava-se altamente sensível em
relação à publicidade e tinha instituído uma rotina clerical de colecionar narrativas
locais que fizesse menção à própria instituição. Trabalhando com os oito volumes de
relatos colecionados, que cobriam o Ministério desde meados de 1974 até 1978,
desenvolvi definições de vários tipos de elementos de notícias sobre crimes e empreguei
seis estudantes de graduação para codificar as narrativas do New York Times e do
Newsday. O conjunto de dados resultantes incluía aproximadamente 550 narrativas
sobre mais ou menos 200 crimes específicos. As definições no livro de códigos foram
continuamente revisadas de modo a solucionar ambiguidades reveladas nas sessões de

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correção e a assegurar que cada narrativa midiática preencheria pelo menos uma
categoria de classificação.
Este conjunto de dados obviamente tinha deficiências, mas contava também
como uma força sutil. A jurisdição de um Ministério Público Federal cobre os „crimes
de rua‟ classificados como mais ofensivos (roubo, estupro, assalto, homicídio) apenas
de uma forma relativamente menor e incidental, quando comparado como Ministérios
Públicos Estaduais. Como resultado, aqueles crimes federais que perfazem as notícias
tendem a mostrar pequenas idiossincrasias ou exceções em relação à típica narrativa
midiática sobre o crime. No propósito de descobrir as dimensões fundamentais do
elemento noticiável, casos aparentemente excepcionais ou idiossincráticos assumiram
um valor especial. Neste estudo o objetivo de pesquisa foi o de articular, mediante a
lógica da indução analítica, a base essencial ou universal do elemento noticiável do
crime; ou os conteúdos necessários que devem ser dados a uma história sobre crime
antes que esta apareça como notícia. A freqüência relativa com a qual narrativas
midiáticas de tipos diferentes apareceram não configurou uma preocupação central.
O conjunto de dados sobre o New York tinha ainda uma limitação a mais em
relação a um possível viés no critério de seleção do Ministério Público. (Averiguamos o
índice do New York Times em relação às correspondências com dois dos oitos volumes
de recortes de jornais coletados pelo Ministério Público e encontramos um número
considerável de casos adicionais, mas nenhum que configurasse um tipo qualitativo
novo). De maneira a expandir o escopo da análise, empreguei dois outros estudantes na
codificação de todos os crimes, estudais e federais, publicados na capa e na primeira
página da seção Metro do Los Angeles Times em 1981, 1982 e 1983. Para cada ano,
cada edição de Sábado, de Domingo e de Segunda foi examinada; para os outros dias da
semana, uma edição diária diferente, em cada semana, foi examinada, em um esquema
de rotação. Esta operação de codificação selecionou eventualmente 1.348 narrativas
midiáticas. Uma vez mais as categorias de classificação foram continuamente revisadas
no estilo da indução analítica, de modo a definir categorias capazes de identificar a
característica noticiável de todos os casos2.
Uma abordagem inicial sobre „os fatores associados ao elemento noticiável‟ foi
desenvolvida por Bob Roshier (1973, p. 34) em sua análise da cobertura do crime pelos
jornais britânicos. Ele descobriu que „circunstâncias caprichosas‟ – „pessoais de flores‟
roubando flores do cemitério, o roubo do carro do detetive, um banco ludibriado por
uma criança de dez anos – provocavam consideravelmente: „Esta categoria, talvez
surpreendentemente, parecia ser provavelmente a mais importante em relação à
narrativa midiática sobre o crime, de forma geral‟. Outra categoria importante era o
envolvimento de uma pessoa importante, na posição de réu, vítima ou espectador. O
estudo de Roshier sugere a hipótese de que os crimes não se tornam noticiáveis em
razão do que se conta sobre eles, mas porque os crimes podem narrar especialmente
algo sobre outra coisa de interesse dos leitores.
Apesar da rica variedade de crimes nas notícias, descobrimos, eventualmente,
que um pequeno número de temas poderia abarcar todo o conjunto de dados da
pesquisa. De forma a ser transformado em elemento noticiável, concluímos, os crimes
2
Diferentemente dos exemplos tradicionais de indução analítica, busquei definir as condições causais
necessárias, mas não suficientes. O fato de que apresentei quatro caminhos alternativos para o elemento
noticiável da narrativa midiática não é inconsistente com essa metodologia; percebi como, a depender do
objetivo da pesquisa, os quatro caminhos podem ser sintetizados em três, dois ou um. A vantagem
principal da indução analítica estava em conduzir a análise para um nível mais profundo do que poderia
ser obtido em fixar, de partida, as categorias de codificação e de aplicá-las para a produção de resultados
quantitativos. Sobre as implicações diferenciais da indução analítica em relação às questões tradicionais
da metodologia em pesquisa social, ver Katz (1982).

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devem ser retratados em uma ou mais das quatro formas já mencionadas. Cada uma
parece apontar para um questionamento da fronteira moral recorrentemente definida
pelos adultos na vida moderna cotidiana.
Competência pessoal e sensibilidade
Nesta categoria situamos o mais numeroso tipo singular de histórias sobre
crimes: narrativas de crimes engenhosos, viciosos e audaciosos - de engodos que
ludibriam o escrutínio aguçado de inspetores diligentemente preparados; dos mais
sangrentos assassinos; de grandes roubos na mais luminosa luz do dia. Tais histórias
instruem os leitores sobre a nature e os limites da competência e sensibilidade
individual. Em razão das implicações gerais das notícias que eles geram, trapaceiros
talentosos e matadores frios tem usualmente provocado um interesse público que beira à
afecção. Em uma tradição que se estende pelo menos até o tempo de Durkheim, crimes
e criminosos tem sido premiados pelo que eles dizem sobre a ingenuidade e a audácia
que leitores podem razoavelmente esperar, nem tanto dos criminosos, mas dos seus
colegas civis e deles próprios.
Uma subcategoria continha narrativas dramatizando as exceções aos modelos
demográficos presumidos de competência e de sensibilidade moral. Relatos de roubos
armados por parte de crianças (em 1982 houve um caso altamente publicizado em
Manhattan) ou por parte do homossexual (os fatos sobre o quais o filme A Dog Day’s
Afternoon se baseou), por parte de mulheres, e por parte de idosos desafiam os nossos
estereótipos não somente sobre o crime, mas sobre as capacidades associadas com
aqueles status geracionais e de gênero. Uma história sobre um ladrão de banco de 10
anos de idade apresenta uma surpreendente intencionalidade ou seriedade de propósito e
carrega implicações que atingem não apenas jovens envolvidos com crimes, mas
também atos agressivos performatizados entre crianças, assim como às exigências das
crianças em dispor de privilégios de adultos. Se uma criança de dez anos de idade é
vista como um potencial ladrão de banco, pode parecer ingênuo insistir em que a
criança vá para a cama às 21h ou que coma os seus cereais.
A jurisdição federal criminal EDNY, responsável pelo Aeroporto Kennedy,
produz regularmente narrativas que ilustram a competência em desafiar a ingenuidade.
Negociantes de contrabando, especialmente aqueles que devem atravessar seus bens
pelos pontos de inspeção, contribuem com uma série sem fim de exemplos
demonstrando as possibilidades da ingenuidade. Os leitores de notícias de Long Island e
da cidade de Nova York podem ler em um dia sobre pedras preciosas ou sobre
componentes de máquinas de alta tecnologia contrabandeadas em tubos de creme
dental, enquanto que no dia seguinte podem ler sobre quantidades surpreendentemente
grandes de heroína escondidas no interior de vaginas e de ânus.
Os relatos de notícias de crime ilustrando as dimensões da competência humana
e da sensibilidade moral incluem não apenas aqueles que retratam criminosos como
excepcionalmente insensíveis ou excepcionalmente audazes, mas também aqueles que
indicam os limites da insensibilidade criminosa. Ilustrativo deste último caso foi uma
história do NY Daily News (15 de Junho de 1977) sobre um jovem ex-presidiário de 21
anos que pulou do décimo andar do prédio da Corte Criminal do Brooklyn momentos
depois de ser sentenciado pelo crime de roubo armado. Ao perceber que o jovem “tinha
estado em problemas com a Lei desde os 15 anos de idade”, a narrativa enfatizou que
mesmo criminosos barra pesada aparentemente podem não ser totalmente insensíveis à
dor social. Muito embora este princípio particular da filosofia social jornalística possa
ser não usual, constitui uma rotina para as notícias sobre crimes implicar algum tipo de
lição sobre o estado contemporâneo do caráter moral. Com efeito, apesar da sua

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reputação como sensacionalista, o Daily News não relata rotineiramente, de fato,


suicídios ou roubos armados. Para fazer-se noticiável, um tema provocativo sobre a
competência moral pessoal será pitorescamente construído no interior da narrativa.
Integridade Coletiva
Um segundo tipo de histórias jornalísticas sobre crime endereça a integridade
moral da comunidade. Grandes roubos de bagagem no Aeroporto Kennedy e roubos na
Companhia Grumman, o maior empregador privado de „Long Island‟, serão noticiados
belo Newsday e pelo New York Times, enquanto que „subtrações‟ igualmente
significativas de estabelecimentos mentos centrais para a identidade coletiva da região
serão ignorados pela imprensa local. Virtualmente todos os roubos considerados
noticiáveis são explorados como eventos ameaçadores de uma ou outra fundação da
identidade coletiva. Com efeito, a subtração ilegal de pequenos mexilhões por parte de
pescadores comerciantes em Long Island se tornaria noticiável em razão do fato de
„piratas‟ terem sido retratados como tão cruéis a ponto de roubar „bebês‟ mexilhões,
mas também porque estas atividades seriam ditas como ameaças “aos arduamente
produzidos recursos da Great South Bay”.
O sequestro de produtos embarcados será mais adequado ao exercício de
produção de notícias se os mesmos, por acaso, são encabeçados por instituições
classificadas integrantes do caráter moral da comunidade, como, por exemplo, uma
igreja proeminente ou alguma escola pública do distrito. Perseguições de estudantes por
fumar não são geralmente noticiáveis, mas se tornam no caso de os estudantes
pertencerem a Academia de Marinha Mercante de Long Island. Tais histórias contem
uma qualidade melodramática não pronunciada: elas implicitamente tocam as ideias
populares sobre a vulnerabilidade de identidade coletiva, sugerindo que o crime ameaça
romper a sociedade em alguma parte essencial ou que o mesmo simboliza a presença, na
comunidade, de forças tão malevolentes como que para ameaçar a fábrica social
metafórica.
Na esfera nacional, a contrafacção constitui um candidato venerável para
notícias sobre crime, elencado como um perigo para as instituições comunitárias. A
contrafacção tem a distinção simbólica de representar um desafio à integridade da
economia como um todo. Sub voce ela grita o medo: “Então não pudermos confiar em
nosso dinheiro! Como o comércio poderia continuar?”
As ameaças à integridade coletiva também são representadas por crimes que
ocorrem em centros contemporâneos de bondade, lugares simbolizando a concepção
americana de vida boa: pequenos roubos de coleções de pratos em igrejas, assaltos na
Disneylândia, assassinatos no Bob‟s Big Boy ou McDonald. Estes relatos levantam o
espectro de que “o centro não suporta”, que nenhum lugar é seguramente sacro. Um
conjunto relacionado de histórias denota lugares e pessoas confiadas a serem saudáveis
para a alma e para o corpo, e descreve eventos que afetam a fé que dirige o público para
eles. Exemplos incluem narrativas de tortura ou de abuso sexual ocorrendo em centros
de cuidado de crianças ou durante o período de anestesia em consultórios de dentistas.
A identidade pessoal da vítima também pode fazer do crime um desafio
simbólico à identidade coletiva. Com efeito, o assassinato, em via pública, em 1982, da
sobrinha do ex-senador Ribicoff, em Venice (Los Angeles), gerou uma enorme
publicidade. Os crimes tornam-se noticiáveis quando vitimizam a elite, tal como foi o
caso em uma história do Newsday sobre o roubo de vários cruzeiros de cabine de 20 a
40 pés, mas também quando eles meramente encenam a penumbra carismática das
elites. Em Los Angeles, pode-se ler sobre assaltos que ocorreram exatamente na
vizinhança, não propriamente na casa, de uma estrela famosa do cinema; em

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Washington, pode-se ler sobre tráfico de drogas às sombras do Capitólio; através do


país pode-se ler sobre criminalidade banal por parte de parentes distantes do presidente.
As notícias sobre crimes deste tipo buscam as pessoas e os lugares que podem vir a ser
considerados como centrais para a identidade coletiva. De fato, notícias sobre crimes
provem o sociólogo com um mapa acessível e detalhado para se perseguir a geografia
institucional do sagrado na sociedade moderna.
Ao reconhecer implicitamente a importância para o público desta forma de
crime, alguns estatutos federais diretamente definem ataques a certos símbolos de
caráter nacional como ações criminosas. Os jornais de New York têm feito a cobertura
de perseguições criminais de indivíduos patéticos que, de maneira óbvia e amadora o
suficiente para não ser realmente ameaçadora, tem enviado notas ameaçadoras ao
presidente; assim como o caso de um jovem aparentemente bem apessoado que de
alguma forma logrou encontrar e disparar contra uma Águia Americana em Long
Island.
O grande número de relatos sobre o crime organizado também podem ser
enquadrados na categoria de crimes retratados como ameaças ao caráter da comunidade.
O crime organizado, considerado como uma emanação do „submundo‟, tem se tornado
um imaginário poderoso e versátil para o mal nos Estados Unidos. Organizado
secretamente, de compleição escura („morena‟), sempre ameaçando manchar ou
contaminar as boas pessoas, o crime organizado é uma metáfora contemporânea
estruturada ao longo de imagens antigas de moléstias infecciosas e de perigo satânico.
Uma vez rotulado como um „membro‟ do crime organizado, a desgraça individual (um
acidente automobilístico, por exemplo) pode gerar relatos jornalísticos contendo
nenhuma referência em relação ao crime ou à vítima.
De modo semelhante, narrativas podem se tornar noticiáveis se documentam de
outra forma a existência, - ainda que na total ausência de alegações sobre agressores, -
de forças vastas, incontroladas e anti-sociais. Com efeito, lemos periodicamente sobre
descobertas de depósitos de armas, apreensões de grandes armazéns de narcóticos, e
feitos de que informações relevantes para a segurança nacional tem sido acessadas por
algum tipo de esperto inocente habilidoso o bastante na manipulação de computadores.
Conflitos políticos moralizados
A terceira categoria de notícias sobre crimes que abarcam mensagens mais
gerais sobre o caráter moral é explicada pelos relatos de ofensivas armadas por parte de
organizações locais simpáticas à PLO (Palestine Liberation Organization) ou ao IRA
(Irish Republican Army); de roubos a bancos por membros do Black Liberation Army; e
de exigências de extorsão por parte de grupos de independência de Porto Rico. As
platéias para tais histórias são constituídas como partidos interessados antes da
ocorrência do crime. Longe de o efeito surpresa ser uma condição essencial para o
interesse do leitor, muitos dos mais ávidos leitores serão aqueles que já estão
predispostos à oposição aos grupos criminosos. Para estes leitores, os agressores podem
ser apontados não somente como politicamente indesejáveis ou substancialmente
equivocados, mas também como situados além das fronteiras das sensibilidades morais
respeitáveis, de modo que não merecem ser ouvidos em suas afirmações políticas: „ Eles
são realmente (basicamente, essencialmente, depois de todas as amenidades do debate
serem ditas e feitas) pessoas más, nada além de criminosos‟. O mais óbvio desta
categoria de notícias remete ao fato de que o crime se torna noticiável não como uma
fonte de informação sobre o crime, mas como uma mensagem moralmente carregada
sobre outras questões de interesse para os leitores. Estes relatos sobre crimes preenchem
conflitos políticos com dimensões de caráter moral.

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A relação entre o conflito político e o potencial noticiável do crime é complexa.


Conflitos políticos intensos crescem ao nível do noticiável, crimes que de outra maneira
não seriam classificados como de interesse geral. Por outro lado, um crime audacioso
faz noticiável um conflito político que vinham sendo ignorados pela mídia e pelo
público mais geral. Um exemplo dos anos 1970 foi o sequestro de um avião sobre Long
Island por nacionalistas croatas, assim como a morte relacionada de um policial que se
esforçava em desarmar uma bomba. Antes de ler sobre esse crime, muitos nova-
iorquinos eram ignorantes em relação às exigências e acusações dos croatas para com o
estado iugoslavo. Na história recente, a estratégia irônica de terroristas frequentemente
tem sido bem sucedida: a seriedade de ferir as vítimas tem geralmente sido percebida
não (ou não somente) como razões para condenar a crueldade dos agressores, mas como
um estímulo para reconhecer a seriedade dos seus objetivos: „Eles estão tão insatisfeitos
que ousariam até fazer isso!‟
Crime de colarinho branco
O crime de colarinho branco compreende uma quarta categoria de itens
considerados noticiáveis, porque prove uma instrução moral sobre problemas que
preocupam os leitores independentemente do crime. Crimes de colarinho branco
algumas vezes parecem ser noticiáveis em razão da dimensão dos valores envolvidos.
Mas é a magnitude do poder ou da riqueza legítima do réu, não a medida do ganho
ilegítimo, que perfaz o caráter distintivamente noticiável. Os casos ABSCAM que
condenaram um senador, vários deputados, e um número significativo de oficiais locais
por receber suborno, geraram mais notícias que muitos roubos a bancos, em que a
subtração de valores tem sido bem maior do que os montantes recebidos pelas
autoridades públicas envolvidas. Os crimes de colarinho branco frequentemente não
publicizarão qualquer quantia monetária discernível. Com efeito, os procuradores de
justiça podem citar a gravidade da ofensa, as falsas afirmações feitas em documentos
submetidos ao governo ou, ainda, os perjúrios diante de um grande júri. Em adição aos
casos ABSCAM, os mais publicizados casos EDNY nos últimos cinco anos envolveram
pequenas quantidades de dinheiro. A perseguição bem sucedida a Joseph Margiotta, o
chefe republicano do Conde Nassau, verificou tão somente U$ 5,000 como suborno
pessoal; um caso contra Bedford-Stuyvesant, cujo chefe era o democrata Sam Wright,
alegou o mesmo valor como propina. Em outra questão altamente publicizada, o
procurador de justiça investigou (mas ultimamente não apresentou) cobranças que
Kenneth Axelrod, um executivo-sênior na Companhia J. C. e um indicado da
Administração Carter para uma alta posição no Departamento do Tesouro, recebeu
corruptamente no valor de U$ 5,0000 na forma de um trabalho em seu apartamento em
Manhattan. O status da pessoa envolvida, mais do que a estrutura do crime, justifica o
potencial noticiável destes casos.
Múltiplas fronteiras e a extensão do potencial noticiável
A depender do propósito do pesquisador, as quatro categorias de notícias sobre
crimes poderiam colapsar em duas ou mesmo em uma categoria3. Os crimes de
colarinho branco, que envolvem acusações de criminalidade contra pessoas investidas
com uma forma de confiança sagrada, podem ser compreendidos na segunda categoria,
ameaças contra centros de integridade coletiva, cuja categoria já incluiu crimes que

3
Nosso conjunto de 1.384 artigos do Los Angeles Times foi distribuído da maneira seguinte:
„competência pessoal‟, que incluía narrativas sobre crimes de violência que não preenchiam os requisitos
de qualquer uma das demais categorias, totalizou quase 50% de todos os artigos; „integridade coletiva‟
abarcou 33% dos artigos; „conflitos políticos moralizados‟, 8%; „crime de colarinho branco‟, 10%.

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vitimizam as elites. De alguma forma, todos os crimes preenchem os requisitos da


segunda categoria, haja vista que apontam para vulnerabilidades inerentes à ordem
social. Há, contudo, ao menos duas importantes razões para a distinção dos crimes em
quatro categorias.
Primeiramente as distinções nos permitem ver como os crimes se tornam
particularmente noticiáveis. Quanto mais categorias puderem ser preenchidas por um
crime, tanto maior será a história de jornal. Com efeito, o caso do sequestro de
Lindbergh (ver Hughes, 1936), uma vez promovido a „crime do século‟, foi inicialmente
o sequestro de um bebê, e, assim sendo, previsivelmente noticiável como um crime que
ilustrava uma extraordinária insensibilidade em relação a uma vítima distintamente
vulnerável; assim como um ataque a um herói nacional, e, portanto, adicionalmente
noticiável enquanto um assalto a um centro sagrado da sociedade. Mais tarde, depois
que um germano-americano, Bruno Hauptmann, foi considerado suspeito do crime, a
narrativa tornou-se um veículo para a moralização da tensão política crescente entre os
EUA e a Alemanha. Ainda mais tarde, quando questões foram levantadas sobre a
falsificação, por parte do estado, de evidências contra Hauptmann, o caso tornou-se uma
história que sugerira crimes de colarinho branco na forma de corrupção por parte de
autoridades públicas.
A história de Patty Hearst também conteve elementos que o enquadravam nas
quatro categorias de crimes: o famoso fotógrafo – Hearst portava uma metralhadora,
aparentemente fazendo guarda durante um roubo – retratava dramaticamente audácia; as
exigências feitas pelo Symbionese Liberation Army e a história política da família de
Hearst fizeram do evento um conto moral sobre os conflitos políticos dos anos de 1960;
e a riqueza e o prestígio da família de Patty Hearst lhe concederam uma cumplicidade
alegada de crime de colarinho branco.
As narrativas conectadas pela rubrica „Watergate‟ também mostram a relevância
das quatro categorias. Inicialmente relatadas como um roubo tentado, cuja vítima
pretendida seria o Partido Democrata, o caso foi explorado a princípio como um ataque
contra um centro de autoridade na sociedade americana. Watergate, então, tornou-se um
debate moral sobre a razoabilidade de suspeições sobre partidários possivelmente
tendenciosos, e, com efeito, um campo de teste para a ponderação moral das maiores
clivagens políticas no país. O caso tornou-se um fluxo de inundações de narrativas
sobre crimes de colarinho branco enquanto formas variadas da imoralidade da elite,
desde impostos pessoais falsificados até subornos envolvendo corporações
internacionais, tornaram-se implicados na investigação. E finalmente a fascinação com
Watergate transformou-se em uma inquisição sobre a competência pessoal e as
sensibilidades morais de Richard Nixon. Um roubo noticiável, a princípio, somente em
razão da estatura sagrada da vítima pretendida, Watergate tornou-se uma cobertura
midiática criminal extraordinariamente transparente e, assim sendo, extraordinariamente
reveladora.
A segunda, e, para os propósitos presentes, a mais relevante razão para distinguir
as quatro categorias de notícias sobre crimes é que cada uma aponta para aspectos
diferentes de uma explicação dos apetites por notícias de uma geração social. Cada uma
das quatro categorias ilumina uma pressão social distinta que leitores rotineiramente
confrontam em suas próprias vidas, para além de suas experiências pessoais com o
crime. As quatro distinções nos ajudam a investigar a questão sociológica mais ampla
sobre como a vida social dos leitores empresta ao crime um caráter noticiável.
Mas, antes de apreciarmos essa questão, devemos abordar uma preocupação
intermediária. Mesmo assumindo que notícias sobre crimes preenchem as delimitadas
categorias descritas acima, uma análise de conteúdos isolada não garante a assertiva

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seguinte de que há linhas correspondentes de interesse entre os leitores. A literatura


científica sobre o conhecimento do público sobre o crime, assim como os modelos de
leituras de notícias de crimes apresentam alguns fundamentos para a inevitavelmente
difícil passagem de uma análise de conteúdo de notícias para assertivas sobre a
experiência do leitor.
Notícias sobre crimes, estatísticas de criminalidade e o interesse do leitor
Como ponto inicial, é claro que os sentidos das notícias sobre crimes, quaisquer
que estes sejam, são importantes para os leitores. As notícias sobre crime têm estado
presente continuamente no cotidiano metropolitano por pelo menos 150 anos. Deve-se
argumentar que se este longo registro já indicou alguma vez um forte interesse entre os
leitores, já não mais o indica. Talvez, atualmente, os mais educados (e presumivelmente
mais sofisticados) leitores ignorem as notícias sobre crime ou as leiam apenas como
interesse superficial, falhando em absorver os conteúdos das notícias. A evidência
aponta, contudo, para outra coisa. Graber (1980, p. 50-51) solicitou a leitores de um
painel de notícias da área de Chicago que recitassem detalhes de narrativas midiáticas
sobre uma variedade de tópicos. A pesquisadora concluiu que a memória de relatos
sobre crimes excedia a memória sobre narrativas envolvendo outras questões, incluindo
educação, atividades políticas, conflitos no Oriente Médio, e o governo do estado.
Memórias de notícias sobre crimes eram praticamente da mesma magnitude,
relativamente alta, de memórias sobre notícias de acidentes e fofoca política. Em um dia
ordinário, narrativas sobre criminalidade e justiça compreendem aproximadamente 15%
dos tópicos realmente lidos4.
O fato de que leitores percebem as notícias sobre crimes espontaneamente
envolventes não significa que organizações midiáticas não estão enquadrando as
expectativas morais sobre o crime nas notícias. De fato, há tendências sistemáticas nos
relatos midiáticos sobre crimes, ao menos a forma em que o crime é apresentado
diariamente na mídia difere consistentemente do crime tal qual descrito nas estatísticas
policiais oficiais. De maneira a poder classificar o que os leitores acham tão interessante
nas notícias sobre crimes, deveríamos esclarecer a natureza deste „enquadramento‟.
As comparações de notícias sobre crimes e estatísticas criminais têm produzido
achados consistentes. Em estudos sucessivos, tem-se descoberto que o conteúdo de
notícias sobre crimes divergem enormemente dos padrões avaliados pelas estatísticas
oficiais. A relação não aparece ser aleatória ou incoerente: em muitos aspectos, o
quadro analítico que se obtém sobre o crime a partir de leituras de jornais inverte o
quadro analítico que se constrói com base em leituras de estatísticas criminais policiais.
Em um recente estudo de trinta anos sobre capas de notícias de jornal, em nove cidades,
Jacob (1980) concluiu que crimes violentos perfaziam 70% das notícias sobre crimes e
que isto correspondia a aproximadamente 20% da taxa criminal oficial. Sherizen (1978,
p. 215) contabilizou as porcentagens de crimes conhecidos pela polícia que eram
relatados em quatro jornais de Chicago em 1975: 70% dos casos de homicídios foram
relatados, 5% dos estupros, 1% dos furtos/roubos. O pesquisador concluiu: „quanto mais
prevalente o crime, tanto menos... relatado‟. Esta sistemática „sobre-representação‟ do
crime violento nas notícias é também característica dos jornais da comunidade negra
(AMMONS et al., 1982). E em um estudo sobre os jornais britânicos, Roshier (1973)
encontrou, de modo semelhante, que os c rimes contra a pessoa eram consistentemente

4
Outros estudos de suporte (DOMINICK, 1978, p. 110), (SCHRAMM, 1949, p. 264) não encontraram
padrões diferenciais nas leituras de „notícias de recompensas imediatas‟, uma categoria que incluía as
histórias em quadrinhos, notícias sobre crimes, notícias sobre esporte e sociedade, muito embora o status
econômico fosse significativamente (e diretamente) relacionado à leitura de notícias sobre casos públicos.

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sobre-representados, em contraste com as estatísticas criminais oficiais. (Ver também


Jones, 1976, sobre St. Louis; e a resenha em Garofalo, 1981, p. 323).
Os relatos de crimes de colarinho branco e de crimes comuns feitos pela mídia
tem também invertido a relação dos mesmos tal qual se verifica nas estatísticas oficiais.
Em nosso conjunto de narrativas midiáticas sobre crimes federais publicado em New
York entre 1974 e 1978, aproximadamente 66% do conjunto correspondia a crimes de
colarinho branco e 21% a crimes comuns. Em um estudo separado, contabilizamos os
tipos de casos que, de acordo com registros da corte federal, eram então processados
durante aqueles anos em jurisdições locais. Os registros da corte mostravam o inverso
dos relatos midiáticos: aproximadamente 22% dos casos criminais registrados eram de
crimes de colarinho branco, enquanto que 70% eram de crimes comuns. Esta sobre-
representação de crimes de colarinho branco tem sido documentada em estudos de
cobertura jornalística de todos os crimes, estaduais ou federais. Roshier (1974, p. 34),
sobre os jornais britânicos, e Graber (1980, p. 38 e 40), sobre a mídia impressa de
Chicago, também concluíram uma sobre-representação de aproximadamente 70% dos
criminosos como brancos e de aproximadamente 75% como criminosos de status
socioeconômico médio ou superior5.
Pra nossos propósitos, estes padrões de sobre-representação de crimes violentos
e de colarinho branco deve sugerir que organizações midiáticas tem gravemente
distorcido o entendimento dos leitores sobre o crime. Desta forma, os contos morais
isolados pela nossa análise de conteúdo de notícias de jornais – nos quais crimes
violentos e de colarinho branco assumem grande proporção – não deveriam ser
considerados como conduzindo a fontes especiais do interesse do leitor. Isto é o que eles
lêem, pode-se objetar, porque isto é o que os tem conduzido a acreditar o que o crime é!
Os leitores estão interessados nestes contos morais, porque eles acreditam que, através
dos mesmos, estão aprendendo sobre o crime na sociedade.
Tem-se frequentemente sugerido que a percepção dos leitores sobre o crime na
sociedade reflete mais os crimes como descritos na mídia do que como descritos nas
estatísticas oficiais. Mas uma inspeção mais próxima, o suposto poder das notícias de
modelar a percepção dos leitores de notícias sobre o crime na sociedade não tem sido
claramente estabelecida pela pesquisa científica. Talvez o mais famoso estudo nesta
área, a pesquisa de 30 anos sobre noticias sobre o crime nos jornais do Colorado, de F.
James Davis (1952), apresentou parcas evidências quanto à ausência de uma „relação
consistente‟ entre notícias sobre o crime e as compilações do FBI a partir de relatos da
polícia local. Mas Davis advertiu não ter encontrado evidências claras de que as
percepções públicas sobre o crime geralmente seguem mais de perto o conteúdo das
notícias de jornal do que as Taxas Uniformes de Crimes (UCR).
Com exceção de um contexto de “onda de crimes”, as notícias de jornal não
parecem dominar as percepções públicas sobre o crime. Há evidência de que o público é
consciente das diferentes imagens do crime retratadas pela estatística policial e pelas

5
Dominick (1978) pesquisou crimes relatados nas páginas de capa do New York Times e do Los Angeles
Times em 1950, 1960 e 1969. Muito embora ele tenha concluído que crimes violentos eram explorados
em uma taxa três vezes maior que crimes de colarinho branco, estes quadro analíticos, quando
comparados com as estatísticas processuais, ainda indicam uma sobre-representação de crimes de
colarinho branco. Advogados de distritos estaduais preenchem mais de dez vezes estes casos do que
advogados de distritos federais, e casos de crimes de colarinho branco são tão raros que quase são
invisíveis nas estatísticas da corte estadual. Ver a revisão de literatura em Davis (1982, p. 32). Gans
(1980, p. 141), ao examinar as notícias de TV e em revistas semanais, descobriu uma cobertura
aproximadamente semelhante de „conhecidos‟ e „desconhecidos‟ com problemas com a Lei, um padrão
de igualdade que, mais uma vez, quando comparado às estatísticas da ação oficial, mostra uma forte
tendência em direção a uma cobertura de pessoas de um status social mais elevado.

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descrições jornalísticas do crime, e que, com efeito, o público lê as duas abordagens do


crime para propósitos distintos. Stinchcombe et al. (1980) comparou a cobertura do
crime em revistas publicadas entre 1932 e 1975, com surveys periódicos inquirindo o
público sobre se a criminalidade era o maior problema social. Houve quase que uma
mudança aleatória no nível da cobertura do crime pelas revistas, mas a opinião do
público sobre a criminalidade como o maior problema social mudou de acordo com um
padrão claro, elevando-se em 1969 e permanecendo alta até 1974. Entre 1970 e 1974,
crimes violentos aumentaram dramaticamente de acordo com estatísticas oficiais, assim
como o medo do crime por parte do público, enquanto que a atenção dada ao crime na
literatura jornalística decresceu. Os autores concluíram (STINCHCOMBE et al, 1980,
p. 36-37):
O peso da evidência é que as pessoas prestam mais atenção às reais taxas de
crime do que ao nível de cobertura jornalística. Tanto quanto se pode contar
sobre os recentes desenvolvimentos do medo do crime, o aumento radical na
taxa de criminalidade observado pela polícia (e relatado pelo FBI nos Relatos
Criminais Uniformes) é também observado pelas pessoas, e isto as
amedronta6.
Estes dados são complementados por aqueles descobertos por Herbert Jacob
(1980). Jacob não relatou sobre atitudes públicas, mas, diferentemente de Stinchcombe
et al., pesquisou relatos de jornais sobre a criminalidade. Durante o período de 1948 até
1978, o pesquisador encontrou um aumento tímido de notícias sobre o crime nas capas
de jornais, mesmo quando, nas nove cidades pesquisadas, as estatísticas da UCR (Taxas
Uniformes de Crimes) aumentaram em 300%. (As notícias sobre crimes nas capas de
jornais aumentaram de 2% a 4 %). Com efeito, o aumento no medo da criminalidade
relatado por Stinchcombe et. al, mais uma vez, parece ser relatado muito mais em
consonância com as estatísticas policiais oficiais do que com a cobertura jornalística.
Evidências sincrônicas, assim como históricas, mostram um entendimento do
crime na sociedade, por parte do público, que é mais próximo das pistas oficiais do que
das descrições midiáticas do crime. Graber (1980, p. 49) comparou características de
agressores e de vítimas em notícias e em percepções de entrevistados: „A imprensa não
retrata os criminosos e as vítimas largamente como não-brancos, pobres, e de classe
baixa, mas os entrevistados assim o fazem‟. Em seu estudo, o Chicago Tribune
identificou aproximadamente 70% dos criminosos como brancos, aproximadamente
dois terços das vítimas como femininas, e aproximadamente 75% dos criminosos como
de status socioeconômico médio ou superior. Os entrevistados de Graber, por sua vez,
estimaram a raça, o sexo e o status socioeconômico dos criminosos e das vítimas quase
que inversamente ao quadro analítico apresentado pelo Tribune7.
Um recente estudo feito em New Orleans (SHELEY & ASHKINS, 1981)
comparou a escala de criminalidade dos Índices do FBI nas estatísticas policiais e em
um levantamento por telefone feito com os moradores da área. O público classificou o
homicídio como o quarto mais comum tipo de crime; enquanto que as estatísticas
policiais o colocavam em sétimo lugar. O público classificou o furto como o segundo
mais tipo de crime, o mesmo acontecendo nas estatísticas policiais. O roubo foi

6
Conferir Jones (1976, p. 240), ao comparar periodicamente estatísticas do FBI e artigos de jornais
diários: „suspeita-se que os leitores são mais propensos a confiar nos mais comuns estímulos cotidianos
para formar suas impressões sobre as tendências em relação à quantidade e à distribuição da
criminalidade‟.
7
O quadro analítico de entrevistas de Graber viu também o „crime de rua‟ ocorrendo em uma freqüência
menor do que muitos crimes que são raramente narrados pela mídia: delitos envolvendo narcóticos, dirigir
bêbado, negociar com bens roubados, violações de armas, prostituição, fraude aos serviços públicos de
bem-estar, fraude ao consumidor, violação à liberdade condicional.

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classificado em primeiro lugar pelo público, mas em terceiro lugar pelam estatística
policial. Tal como em outras cidades, um morador de New Orleans que recebeu
informação sobre a criminalidade tão somente pela mídia local classificaria o homicídio
e o roubo no topo da lista e furto na base. Roshier (1973, p. 37) fez uso de uma
metodologia semelhante com leitores britânicos e concluiu: „As percepções do público
não parecem ser influenciadas pelas tendências dos seus jornais, mas, de fato, são
surpreendentemente próximas aos quadros analíticos oficiais‟.
O público não parece ler notícias sobre crimes em uma pesquisa ingênua pela
verdade empírica sobre a criminalidade. Outras preocupações parecem sustentar os
interesses dos leitores. Isto é sugerido pela comparação do crime tal qual representado
pela mídia jornalística e pela mídia de entretenimento. Os mais comuns crimes sérios,
de acordo com as estatísticas policiais (Índice do FBI, Parte I), os roubos e os furtos,
muito raramente são o foco de narrativas midiáticas, shows de TV (DOMINICK, 1973,
p. 245) ou de cinema; assassinatos e estupros, entre os menos frequentes crimes nas
estatísticas do FBI, estão entre os mais frequentes temas criminosos tanto nos shows
jornalísticos quanto nos de entretenimento. (Ver Garofalo, 1981, p. 326, sobre as
„similaridades nas características dos crimes, agressores e vítimas transmitidos pela
mídia jornalística e pelo drama televisivo‟.). E há um paralelo bem evidente entre o
crime nas notícias e na ficção: „o autor de um dos primeiros narradores britânicos de
detecção de crime, “Clement Lorimer; ou o Livro com Fivelas de Ferro” (1848), tornou-
se um repórter criminal para o jornal... Através das histórias deles os gêneros criminais
de ficção literária e o jornalístico caminharam de mãos dadas e mesmo atualmente são
ocasionalmente difíceis de distinguir um do outro‟ (CHINBNALL, 1980, p. 209-210). É
menos plausível assumir que o público se apropria de representações cinemáticas,
novelísticas e jornalísticas do crime como evidências sobre o crime do que sugerir que,
ao aproximar a mídia jornalística e a de entretenimento, o público não está tentando
essencialmente aprender sobre o crime.
Não há uma assertiva desprezível sobre a ingenuidade do público sob a
perspectiva de que as pessoas geralmente lêem notícias sobre o crime para entender
sobre a criminalidade? Se os especialistas criminais podem ler as notícias sobre o crime
em um contexto cotidiano, enquanto permanecem céticos sobre o material enquanto
informação criminológica, talvez o leitor leigo não seja mais um tolo. Em razão da
cultura criada pelo pessoal de aplicação da Lei, os crimes que perfazem as notícias de
ocupação cotidiana, ou que são temas de conversas informais, aparecem
substancialmente semelhantes àquelas que fazem o mesmo no âmbito dos jornais. De
acordo com o estudo de Sudnow (1965) sobre interações entre defensores e promotores
públicos, os casos que geram a maior parte dos comentários informais entre estes
profissionais da justiça criminal não são aqueles que mais acuradamente representam os
crimes estatisticamente típicos com que eles lidam. Idiossincrasias pessoais e
situacionais, não os crimes „normais‟, geram distintamente duas notícias populares. No
escritório da promotoria federal em que pude realizar uma pesquisa de observação,
vários dos casos que recebiam a maior parte dos comentários informais eram também
aqueles que se tornavam grandes narrativas de novidades e a maioria dos filmes de
Hollywood (A Dog Day‟s Afternoon, The French Connection, Prince of the City). O
mesmo „senso comum‟ parece governar os oficiais de aplicação da lei quando fofocam
sobre os seus casos e a ambos, leitores leigos e especialistas de notícias de relatos sobre
o crime. Por que não deveriam os repórteres e editores seguir o mesmo „senso comum‟
ao selecionar notícias sobre o crime? Tal como Park há muito percebeu (1940, p. 13-
14), os jornalistas são disciplinados a serem não teóricos no exercício de determinar o

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que é noticiável e no de colocarem-se na perspectiva do leitor médio ao responder


emocionalmente aos eventos.
A geração social do apetite por noticias sobre o crime
Nós já rejeitamos uma explicação hipotética do interesse do leitor, a teoria
utilitarista de que as notícias sobre o crime, ao descrever eventos não esperados,
capacita aos leitores a reduzir seus problemas práticos com o crime através da
reorganização do conhecimento sobre a criminalidade em direção a uma maior acuidade
empírica. Os leitores parecem ser tão bem conscientes da atipicidade do crime, tal como
abordado pelas notícias, que sua leitura parece ser a busca pelo „inesperado‟. Mas „o
inesperado‟ oferece apenas os princípios elementares de uma teoria adequada. Devemos
ainda especificar em que sentido mais exato o crime noticiável é „inesperado‟.
Ambiguidades do ‘inesperado’ em notícias sobre o crime
Consideremos as implicações teóricas do padrão de „novidade‟ nos crimes
noticiáveis. Assim como quase todos os sociólogos interessados em notícias tem notado,
há uma urgência a partir da qual uma narrativa desse publicada para que esta não perca
o seu caráter de „notícia‟. (TUCHMAN, 1978, p. 51, sobre notícias „duras‟ e „leves;
HUGHES, 1940, p. 67, sobre notícias „grandes‟ e „pequenas‟; e ROSHCO, 1975, p. 10-
12, sobre a „novidade‟, „imediaticidade‟ e „atualidade‟ das notícias.). Mas, se no relato
do crime, se parte do pressuposto de que algo noticiável deveria ter acontecido no
passado imediato, este algo necessário é, de fato, apenas raramente o crime em si. De
200 crimes relatados na amostra previamente descrita dos jornais da área de New York,
aproximadamente 100 eram casos de crimes comuns e 70 eram casos de crime de
colarinho branco. Apenas 6% dos relatos iniciais de crimes de colarinho branco
claramente descreviam os crimes que ocorreram seis meses passados desde a data da
publicação, isto em parte porque a criminalidade indicada era tipicamente um padrão de
fraude ou corrupção que não parecia começar ou terminar em uma data particular. Mas
mesmo para crimes comuns, tais como roubos, assaltos aos correios ou a aeroportos, e
vendas de produtos contrabandeados, apenas 30% dos casos foram descritos depois de
passados seis meses desde a publicação do primeiro artigo de jornal referindo-se à
violência produzida.
Uma indicação semelhante apareceu em nossa análise de aproximadamente
1.400 artigos sobre crimes publicados no Los Angeles Times em 1981, 1982 e 1983.
Incidentes e casos de crimes foram codificados separadamente: os crimes eram
codificados como casos singulares quando já tinham sido processados até o ponto da
prisão ou para mais além disso (acusação, triagem de indícios e provas, sentença,
procedimentos pós-prisionais, etc.). Destes artigos jornalísticos sobre o crime, apenas
45% relatavam incidentes criminais ou crimes que não tinham sido oficialmente
processados até o ponto da prisão do agressor. Se o potencial noticiável do crime
pudesse ser explicado pelas expectativas violadas pelo crime em si – a experiência da
vítima do inesperado na forma de surpresa, ou as ondas de choque liberadas na
consciência do público, quando da consumação do crime – então deveríamos encontrar
uma predominância significativa de incidentes criminais recentes nas notícias sobre o
crime.
Enquanto as notícias enfatizam eventos de ontem, os crimes abordados nos
jornais diários não necessariamente aconteceram no dia anterior ou mesmo no passado
recente. Alguns aspectos da narrativa sinalizam uma atualidade que faz o crime
noticiável, mas o elemento atual é menos frequentemente e menos claramente a
incidência do crime do que uma característica do caso criminal, um evento subsequente
afetando a vítima, ou uma vicissitude alegada da vida do criminoso. Se a violação do

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„inesperado‟ de algum modo deve qualificar o crime como noticiável, o elemento


surpresa necessário não é uma questão da experiência da vítima, e tampouco do choque
empático por parte do leitor de que algo tão horrível também pode lhe acontecer.
Mais diretamente, deveríamos questionar se a surpresa é uma característica
comum, menos essencial, na experiência de ler notícias sobre o crime. Aqui eu
solicitaria ao leitor que passasse em revista sua experiência própria, de modo a
evidenciar que os mais ávidos leitores de narrativas de crimes particulares podem ser
justamente aqueles que menos se surpreendem. Durante o caso Watergate, não foram
necessariamente os leitores republicanos que eram os mais religiosos seguidores do
partido a seguirem a narrativa midiática sobre o caso; muitos americanos de esquerda se
rejubilavam com as revelações diárias do que eles consideravam como mais provas do
que já acreditavam desde há muito.
Crimes especialmente noticiáveis não parecem ser eventos especialmente
inesperados, seja para a vítima ou para os leitores de notícias. De acordo com
levantamentos de opinião bastante publicizados, os americanos acreditam que uma
proporção substancial de políticos não declarados é corrupta. Ainda assim uma acusação
oficial de corrupção contra um político sempre gerará novas coberturas midiáticas do
caso. Bancos são assaltados muito mais frequentemente que outros tipos de
estabelecimentos comerciais, mas ainda assim permanece distintamente noticiável como
um lugar de ocorrência de crimes.
Em síntese, se as notícias sobre crimes inevitavelmente carregam um senso de
inesperado, o que este senso exatamente significa, não é algo óbvio. Talvez, seguindo
Durkheim, deveríamos redirecionar a explicação e considerar se o crime é noticiável por
seu valor simbólico em articular o normativamente esperado.
As limitações históricas da perspectiva durkheimiana
Durkheim (1958, p. 67; 1964, p. 108) argumentou que no ato de violação do
social, os desviantes podem, de fato, promover o consenso coletivo – a coesão
normativa, a integração moral da sociedade, um senso generalizado de ordem na
sociedade – ao oferecer ocasiões para reações massificadas contra o desvio. As notícias
sobre crimes podem ser o melhor exemplo contemporâneo que Durkheim tinha em
mente. A leitura de notícias sobre crimes é uma experiência ritual coletiva. Lidas
diariamente por uma expressiva parcela da população, noticiais sobre o crime geram
experiências emocionais em leitores individuais, experiências que cada leitor pode
assumir que são compartilhadas por muitos outros. Muito embora cada leitor leia
isoladamente, fenomenologicamente a experiência poder ser uma coletiva
„efervescência‟ emocional de indignação moral. Mas a aplicação da perspectiva
durkheimiana na análise de notícias sobre o crime requer um raciocínio torturado.
Há uma diferença histórica fundamental entre os sentidos sociais das notícias
sobre o crime contemporâneas e aquelas das cerimônias públicas de rotulação desviante
que Durkheim tinha em mente e que Kai Erikson (1966) documentou em seu celebrado
livro sobre os puritanos do século dezessete. Narrativas contemporâneas sobre o crime
enfatizam as fases da justiça criminal que precedem a punição. Em nosso conjunto de
informações sobre notícias de crimes publicadas nos jornais da área de Nova York entre
1974 e 1979, a perspectiva da autoridade oficial, como representada por uma descrição
de uma ação ou comentário por parte de um agente de aplicação da lei, estava presente
em menos da metade dos artigos analisado. Aproximadamente 65% dos artigos
apareciam em uma fase anterior à disposição, quando a conclusão das investigações e
alegações oficiais ainda estava indefinida. Menos de 12% dos casos primeiramente
aparecia nas notícias durante ou depois da fase de sentença. Em linhas gerais, a leitura

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contemporânea de notícias sobre o crime mais desconcerta do que reafirma a ordem


social.
O estudo previamente citado sobre o Los Angeles Times oferece um suporte
adicional a essa assertiva. Aproximadamente 45 dos artigos de 1981, 1982 e 1983 (n =
1,384) tratavam de incidentes ou eventos criminosos como distintos casos de crime ou
crimes relatados como oficialmente processados até o ponto da prisão ou para mais
além. Há, portanto, uma variedade de indicadores de que as notícias sobre o crime
provocam tantas questões sobre a integridade coletiva quanto resolvem; sua estrutura
parece tão propensa a aumentar as dúvidas sobre a ordem social, mediante a
publicização de crimes que ainda são casos criminais em aberto, quanto a fortalecer um
senso de ordem coletiva mediante a celebração de um triunfo do poder coletivo sobre os
desviantes e sobre a desordem8.
Em uma perspectiva histórica de tempo longo, o jornal moderno aparece como
uma estrutura social distintiva para a observação coletiva do desvio, uma estrutura
dramaticamente diferente daquela que existia antes do século XIX. Pouco antes de um
jornal de massas de domingo ter sido fundado, na Inglaterra dos anos de 1830, as
notícias sobre crimes circulavam em broadsheets9. Um dos últimos e mais bem
sucedidos broadsheets foi amplamente disseminado nos anos de 1820; a „Última
confissão e fala antes da morte‟ do assassino de Maria Marten vendeu mais de 1.100.00
cópias (WILLIAMS, 1978, p. 43). Antes do século XIX, nas sociedades primitivas e nas
sociedades ocidentais, entre os puritanos de Erikson e entre os primitivos analisados por
Durkheim em seu livro sobre religião (1965), o desvio era encarado como um símbolo
público de massas de forma mais enfática, mediante formas exemplares de punição e de
fofoca correspondente, mesmo depois qua dúvida sobre a responsabilidade criminal era
resolvida. Broadsheets eram escritos para detalhar o comportamento do condenado
durante as torturas: „Os mais vendidos eram a literatura sobre os enforcamentos. Estes
eram as últimas confissões de morte dos assassinos e também uma justificativa para
suas execuções‟ (HUGHES, 1940, p. 140). O puritano rebelde era primeiramente posto
em julgamento, então postado sobre um estrado para a exibição pública e feito alvo
sermão, isto depois de a punição ser decidida e o rebelde ser conduzido por oficiais que
simbolizavam a identidade coletiva da sociedade. Julgamentos sobre o exercício de
magia, nas colônias americanas, e através da Europa medieval eram instrumentos de
dramatização da vontade coletiva de execução do condenado, e não processos em que
um resultado problemático era alvo de escrutínio por parte de uma oposição habilitada
(CURRIE, 1968).
Em sociedades ocidentais, a comunicação de massas para a disseminação de
notícias sobre o crime primeiramente ameaçou a confiança an ordem coletiva, então,
com a emergência da mídia impressa, veio a servir o interesse oficial na ordem social, e,
por fim, com o advento do jornal diário, mais uma vez assumiu um papel de provocação
do público. Chibnall (1980, p. 180) descobriu que na Grã-Bretanha, na idade média,
antes do advento da mídia impressa transmitindo notícias sobre crimes, as baladas de
trovadores frequentemente menosprezaram a função de controle social mediante a
dramatização do desafio heróico dos fora-da-lei. Então, no século XVII, quando os
panfletos e broadsheets emergiram para dar uma forma escrita às notícias de crimes,

8
Ver também Garofalo (1981): „a imprensa dá pouca atenção aos processos do sistema de justiça
criminal‟, citando três estudos. Mas conferir Roshier (1973, p. 33), sobre os jornais britânicos: „ todos os
jornais deram uma impressão exagerada das probabilidades do agressor ser apanhando pela polícia e,
quando apanhado, de ser sancionado com uma punição séria‟.
9
Folhetos de notícias e publicidades caracterizados pelo formato vertical longo.

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eles enfatizavam „últimos discursos antes da morte‟ em que as autoridades oficiais,


muito frequentemente através de palavras citadas (ou inventadas) do condenado, exibia
os terríveis custos do crime e louvava o caminho da virtude. Mas o jornal do século XXI
oferece um formato muito menos moralista para notícias sobre o crime. Em muitos
aspectos o jornal mais claramente celebra do que desfigura moralmente os criminosos10.
Como Foucault (1979) analisou a mudança histórica no sentido social do desvio,
em sociedades anteriores ao Iluminismo o processo de adjudicação, no âmbito da justiça
criminal, era privado (como simbolizado pelos procedimentos na „câmara estrela11‟) e a
punição era pública (como exemplificado pelas elaboradas cerimônias de tortura e de
execução); em sociedades posteriores ao Iluminismo, julgamentos tornaram-se o drama
público da justiça criminal, enquanto que a punição foi retirada para a privacidade das
prisões, emergindo publicamente somente raramente e, nesses casos, de forma
envergonhada. Antes do século XIX, a perspectiva do público sobre o desvio podia ter
tido um efeito moralmente integrador sobre a comunidade; mas fazer o mesmo tipo de
análise das notícias atuais sobre o crime implica ignorar sua organização social
contemporânea distintiva.
Um sub-padrão de classe social é notável nesse contexto. Quanto mais alto o
nível educacional e econômico dos leitores de um jornal, tanto mais este parece
empregar uma forma que provoca mais do que resolve as ansiedades morais dos seus
leitores. Comparando os jornais New York Times e Daily News, de Nova York, estudos
apontam que o último é mais sensacionalista e que contem uma maior proporção de
notícias sobre o crime (DEUTSCHMANN, 1959). Mas, comparando as narrativas sobre
crimes publicadas nos dois jornais, há uma pequena diferença no fato relatado. Ambos
se pautam essencialmente nas mesmas fontes e registros policiais. A diferença repousa
na linguagem utilizada para descrever o crime.
O Daily News moraliza, enquanto o New York Times usa o que é
convencionalmente considerado como termos técnicos, emocionalmente neutros, em
particular o formalmente não-preconceituoso, a linguagem oficialmente regulada da
corte e dos advogados (MEYER, 1975). Com efeito, o Daily News relata a pesca ilegal
de mexilhões subdimensionados como mexilhões que foram „apanhados‟, enquanto que
o New York Times refere-se ao evento como um „furto‟. O New York Times, sob uma
manchete de tamanho moderado, descreve um conluio em que oficiais de uma
companhia privada pagaram em dinheiro para que oficiais de alfândega assegurassem o
aceite de lâmpadas fora das especificações legais, como suborno; enquanto que o Daily
News estampa uma manchete enorme de capa: „Trapaça subterrânea com lâmpadas‟. A
diferença, que se torna ainda mais pronunciada quando se compara os jornais diários
contemporâneos nos EUA com aqueles publicados há sessenta anos, é que os jornais
com leitores de uma classe social mais alta deixam o exercício de execração moral para
os leitores, ao menos enquanto questão formal; enquanto jornais com leitores de uma
classe social relativamente mais baixa conduzem o coro de invectivas. Portanto, parece
que quanto mais moderno o jornal, ou quanto mais formalmente educados os leitores,
tanto mais parece que as notícias sobre o crime são estilizadas para mais provocar do
que para resolver dúvidas12.

10
Os crimes abordados na mídia de entretenimento, contudo, pode seguir o padrão durkheimiano. Na TV,
mas nãos nos jornais, a audiência aprende que „o mal sempre é punido, no fim‟. Ver Schattenberg (1981).
11
Denominação para a corte judicial inglesa situada no palácio de Westminster, Inglaterra.
12
Conferir Schudson (1978, p. 119): „Talvez... o Times estabeleceu-se como o „alto jornalismo‟. Porque
adaptou-se à experiência de vida das pessoas, cujas posições na estrutura social lhes permite o maior nível
de controle sobre suas próprias vidas‟.

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Leitura diária de notícias sobre crimes como um exercício ritual moral


Muito embora a freqüência de narrativas sobre crimes de homicídio, assaltos
violentos e estupros devam ser evidências de uma insensibilidade inculta no público
moderno, uma interpretação oposta é mais reveladora e mais consistente com os padrões
gerais de noticiais sobre crimes. O interesse é menos mórbido do que inspirador. Se
abordagens do crime violento mostram ao extremo a ausência de sensibilidade com a
qual membros de nossa sociedade podem tratar-se reciprocamente, o apetite dos leitores
por tais narrativas sugere que eles não são tão grosseiros e rudes a ponto de considerar
como evidente uma insensibilidade pessoal destrutiva. O fato de que, assaltos à
propriedade são menos noticiáveis do que assaltos à pessoa indica que as preocupações
fundamentais dos leitores são mais humanísticas do que materiais. Ou ainda, ao ler
sobre mais um crime brutal, os leitores podem esforçar-se em sustentar suas convicções
de que sua sensibilidade moral própria não foi ainda brutalizada a ponto de uma
indiferença fatigada. A predominância de narrativas de crimes violentos nos jornais
contemporâneos pode ser entendida como servindo ao interesse dos leitores em recriar
cotidianamente suas sensibilidades morais através do choque e do pulso da ofensa e da
violência.
Em vez da ideia empiricamente ambígua de que o crime se torna interessante na
medida em que é „inesperado‟, e no lugar de uma simples invocação das ideias de
Durkheim, argumentarei que notícias sobre o crime é tida por interessante em um
processo através do qual os adultos, na sociedade contemporânea, desenvolvem suas
perspectivas individuais sobre questões morais de relevância eminentemente pessoal,
ainda que de modo generalizado.
Cada uma das de notícias sobre o crime aponta para um tipo de questão moral e
não-criminal com a qual os adultos são confrontados diariamente. Primeiramente,
narrativas sobre o crime com implicações sobre competência e sensibilidade pessoal são
tomadas como interessantes porque os leitores sentem que devem lidar com questões
análogas na vida cotidiana. Em interações rotineiras com os outros, devemos fazer
pressuposições sobre suas qualidades essenciais, pressuposições sobre as competências
geracionais do jovem e do velho, sobre qualidades associadas ao gênero, ou sobre
qualidades como inteligência (que atualmente são menos politicamente controversas,
mas não mais visíveis que as competências supostamente associadas com a geração e
com o gênero). Se crianças podem assaltar bancos, deveríamos, então, levar a sério, em
relação ao nosso filho de sete anos de idade, o postulado de que ele gostaria de matar
seu irmão mais novo? Se há uma „Vovó Mafiosa‟, deveríamos nos preocupar com a
mulher idosa atrás de nós, na fila do supermercado, que pode ter a intenção letal de
avançar com seu carrinho sobre o nosso traseiro?
Também devemos constantemente fazer pressupostos sobre nossas próprias
competências e sensibilidades essenciais. A questão da audácia é encarada não somente
por criminosos. Quão audacioso, quão engenhoso, posso eu ser? Seria admiravelmente
audacioso; apenas razoavelmente cauteloso; ou realmente imprudentemente tolo em
submeter um artigo para publicação neste esboço atual? Notícias sobre o crime são de
amplo interesse porque dialogam dramaticamente com questões que são de relevância
direta para os desafios existenciais dos leitores, indiferente se os leitores estão
preocupados ou não com a possibilidade de uma desgraça pessoal tornando-se vítimas
do crime.
De maneira semelhante, o segundo grupo de narrativas de notícias sobre o crime,
aqueles que retratam ameaças aos centros sagrados da sociedade, são considerados
interessantes porque os leitores entendem que eles próprios devem trabalhar, dia após
dia, para definir as perspectivas morais sobre questões alusivas às entidades coletivas. O

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interesse em tais narrativas não advém somente da necessidade prática de avaliar a


segurança física de diferentes lugares, mas dos encontros inescapáveis com enigmas da
identidade coletiva. Na vida burguesa contemporânea, questões de segurança pessoal
são de menor relevância, quando comparadas a questões sobre o caráter moral coletivo
– questões mundanas, recorrentes, tais como: O que é um lugar „adequado‟ (moralmente
limpo) para levar à família para jantar?
A questão levantada por este tipo de notícia sobre o crime – a sociedade se
mantem integrada? – constitui a forma global de questões colocadas mais estreitamente
pelos leitores em suas rotinas diárias. Nos locais de trabalho cotidianos e concretos,
você é capaz de sentir a identidade coletiva do universo em que você está empregado?
Se assim é, o seu comportamento terá um significado de alguma forma ainda em falta:
você acomodará seu comportamento de algum modo a complementar ou contrariar o
caráter do todo. Os sociólogos têm por muito tempo argumentado que fatos sociais são
reais, que há uma realidade para a identidade coletiva que transcende a experiência
individual. O debate sobre a realidade da identidade coletiva é um incômodo não
somente para teóricos da sociologia, mas para os leigos e para os sociólogos em suas
ações práticas cotidianas.
As formas dessa questão, como aparecem nas vidas de cada membro da
sociedade, são extremamente diversas. Alguns se preocupam sobre o nível de „pujança‟
ou de „bem-estar‟ da „economia‟ (ou „‟os militares, ou suas „famílias‟). Nessa
ansiedade, „a economia‟ é endereçada como um todo, como uma coisa que
presumivelmente existe objetivamente, não apenas como uma síntese metafórica
conveniente para resumir alguns agregados arbitrários de eventos econômicos
individuais. Mas a medida objetiva de „sua‟ identidade está sempre em disputa. „A
economia‟ é recorrentemente experenciada como uma entidade precária coletiva, cuja
integridade pode ser ameaçada por forças ocultas, uma entidade que sobe e desce em
resposta a pressões que ninguém tem sido capaz de localizar precisamente. Muitos
leitores de notícias adaptam seus humores emocionais cotidianos, assim como suas
decisões de consumo e de investimento à base de um sentimento de otimismo ou de
pessimismo sobre o destino da „economia‟.
Ao passo que os membros de uma sociedade continuamente confrontam
questões de competência pessoas e coletiva, eles desenvolvem um apetite para notícias
sobre o crime. Preocupados sobre calcular equivocadamente suas habilidades pessoais e
a dos outros, as pessoas acham interessante o questionamento da competência moral
pessoal que é frequentemente dramatizada intensamente nas narrativas sobre crime.
Repetitivamente acessando se, como e quão efetivamente certas pessoas, organizações e
lugares representam a identidade coletiva, os membros da sociedade consomem contos
sobre a integridade vulnerável de personagens instituições e lugares.
Em relação á terceira categoria de notícias sobre o crime, narrativas que refletem
tensões pré-existentes entre grupos, as pessoas em conflitos políticos persistentes
frequentemente estão sedentos por acusações morais para serem usadas contra o caráter
de seus oponentes. Eles encontram oportunidades satisfatórias nas noticias sobre crimes.
Finalmente, que processo de estimulação diária pode estar por atrás do gosto
amplo por notícias de crimes de colarinho branco? Eu sugeriria que o potencial
noticiável de crimes de colarinho branco é construído em uma relação dialética com as
rotinas morais cotidianas. Os crimes das pessoas em ocupações superiores de colarinho
branco são especialmente noticiáveis, não porque eles são chocantes ou surpreendentes
– não porque presume-se que tais pessoas devem ser mais decentes, respeitáveis ou
confiáveis que os trabalhadores de colarinho azul ou do que os desempregados; mas
porque elas devem ser tratadas tal como se elas assim o fossem.

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É certamente inadequado atribuir o potencial noticiável de crimes de colarinho


branco às expressões chocadas de honra. Leitores de notícias mantem apetites por
narrativas de crimes de colarinho branco, dia após dia – outro político pego recebendo
suborno!; outra corporação multinacional pega corrompendo governos estrangeiros! –
enquanto crimes comuns cometidos por jovens masculinos pobres pertencentes a
minorias étnicas continuam em suas redundantes e não noticiáveis procissões, porque
todos os dias, de infinitas formas, leitores de jornais apenas sentem-se forçados a
performatizar confiança em e deferência em direção à tradição. Indiferente do quão
cínica seja a visão pessoal sobre a moralidade dos negócios, dos processos políticos e
dos líderes da vida institucional civil, ele ou ela vive cercado pelos símbolos de seus
status superiores: suas torres de escritórios, suas qualidades propagandeadas nas placas
do metrô ou do ônibus ou nos comerciais de TV, seus nomes nos hospitais. Os leitores
de narrativas midiáticas sobre crimes de colarinho branco recordam que fizeram muitos
pagamentos àquela companhia; que foram deslocados por aquela companhia de avião
ou de ônibus; que eles tiveram suas vizinhanças ou ambientes recreativos definidos por
aqueles políticos ou líderes leigos; que em cada dia de trabalho devem prestar
deferência para a pessoa naquele tipo superior de status. O potencial noticiável do crime
de colarinho branco deve muito ao caráter moral rotineiro da divisão de trabalho. (Sobre
a „divisão moral do trabalho‟, ver Hughes, 1971).
Eu argumentei que as notícias sobre o crime atraem interesse a partir de
dilemas confrontados rotineiramente, não de preocupações focadas no crime. A leitura
de notícias sobre o crime não é um processo de reflexão moral ociosa do passado
vivido; mas uma atividade eminentemente prática e orientada para o futuro. Ao ler
notícias sobre o crime, as pessoas reconhecem e usam o conto moral no contexto da
narrativa midiática para orientarem-se em direção a dilemas existenciais cujo confronto
elas não podem evitar. Que nível de competência eu deveria imputar a aquele menino de
10 anos? A economia está se fortalecendo ou enfraquecendo? Deveriam ser ouvidos e
respeitados os argumentos políticos do PLO (Palestine Liberation Organization)? Sou
sábio ao prestar deferência fervorosa ao patrão, ou deveria equilibrar devoção aparente
com cinismo auto-respeitador?
O conteúdo de notícias sobre o crime não oferece soluções, nem mesmo
conselhos sobre como o leitor deveria resolver os dilemas que ele confrontará. Em vez
disso, as notícias sobre o crime oferecem material para um desenvolvimento literal de
perspectivas morais que devem ser aplicadas a dilemas da vida cotidiana. O crime está
nos jornais de hoje, não porque contradiz as crenças que os leitores tiveram ontem, mas
porque os leitores buscam oportunidades de reinventar atitudes morais que terão de usar
hoje.
A ideia de que as notícias sobre o crime servem aos interesses dos leitores em
performatizar um desenvolvimento moral cotidiano explica não apenas o conteúdo, mas
vários aspectos da estrutura das notícias sobre os crimes. As noticiais sobre o crime
apresentam detalhes sobre as identidades da vítima e do agressor, e sobre o tempo e o
lugar do crime. Desta forma, isto encoraja os leitores a ver o evento como
potencialmente próximo ao contexto de sua própria experiência. Esta forma serve para
mobilizar a resposta do leitor na medida em que causa um choque moral ou convida ao
ultraje; este é um tipo de „notícia quente‟ (HUGHES, 1940, p. 234), especialmente
provocadora de uma experiência emocional, induzindo uma resposta de „organismo
completo‟ (PARK, 1940, p. 670). O foco da notícia sobre o crime sobre as fases iniciais
da justiça criminal, sobre as fases posteriores à adjudicação formal e à punição, também
provocam as emoções dos leitores, desafiando-os a reagir em relação às fachadas de
incerteza presentes no caso.

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Como vários estudos têm documentado (GRABER, 1980, p. 49; SHERIZEN,


1978), as notícias sobre o crime enfatizam os criminosos muito mais do que as vítimas.
Em nosso conjunto de informações sobre a área de Nova York desde a metade dos anos
de 1970, um comentário feito pela vítima ou por um representante da vítima foi relatado
em apenas 21% de 527 artigos, comparado aos 162 comentários por parte da defesa e
185 comentários por parte da promotoria. A ênfase nas vítimas teria uma relevância
prática substancial para os leitores, se eles se preocupassem em aprender como evitar os
custos do crime. Alguns jornais provincianos de „jogar fora‟ respondem diretamente a
essas preocupações. Diferentemente dos maiores jornais metropolitanos, os jornais
provincianos frequentemente apresentam notícias sobre o crime a partir do relato de um
policial local que conta a história da perspectiva interpretada da vítima (por exemplo:
„Quando dirigia de volta à casa dela, por volta das 23h, no dia cinco de Setembro, uma
residente do quarteirão 600, de Lucerne, contou que viu um carro desconhecido em seu
caminho. Quando ela saiu do carro...‟ ) e conclui com uma advertência explícita sobre o
que a vítima deveria ter feito para evitar a vulnerabilidade. Os mesmos leitores não são
menos pragmáticos em suas perspectivas sobre as notícias sobre o crime, mas suas
preocupações práticas parecem ser diferentes – mais amplas e mais generalizadas
quanto à sua relevância.
A ênfase dos jornais citadinos sobre o criminoso, bem mais do que sobre a
vítima, é compreensível se entendemos que as preocupações do leitor estão menos
concentradas em evitar a vitimização do que em desenvolver posições morais sobre as
quais o seu próprio comportamento será embasado. Se o comportamento da vítima é
geralmente tão importante quanto o do criminoso para o entendimento da causalidade da
vitimização, a ênfase no comportamento criminoso estimula as sensibilidades morais
com as quais o leitor pode desejar identificar-se. Cada dia, em uma miríade de formas, o
leitor das notícias metropolitanas deve desenvolver sua posição em dimensões de
insensibilidade moral, audácia pessoal e fé nos empreendimentos coletivos, e estas são
as questões fundamentais em relação às quais as notícias classificam os criminosos
como desafiadores da ordem social.
Esta perspectiva sobre o interesse em notícia sobre o crime torna compreensível
a contradição aparente de redundância substantiva e de interesse constantemente
continuado do leitor. Posto lado a lado, as narrativas sobre crimes violentos publicadas
em uma sequencia de dias podem parecer bastante semelhantes. Mas são experenciadas
como novidade, como „notícia-novidade‟ („new-s‟), porque as questões que abordam
emergem reiteradamente nas vidas sociais dos leitores.
A experiência de ler notícias sobre o crime induz o leitor a uma perspectiva útil
para a tomada de posições sobre dilemas morais existenciais. Os dilemas de imputação
de competência moral pessoal e de afirmação da própria sensibilidade moral, de honrar
os centros sagrados da vida coletiva, de acreditar e de desacreditar os oponentes
políticos, e de prestar deferência à superioridade moral das elites, não pode ser resolvida
por dedução de um discurso racional. Nestas áreas morais, uma medida de fé – de
compreensão da posição ou do exercício de um compromisso que sublinha as razões
que podem ser dadas paras as crenças individuais – é uma parte essencial da vida social
cotidiana. As notícias de crime, de acordo com o exposto, mobilizam o leitor mais para
a experiência de emoções do que para uma lógica discursiva, desencadeando antes raiva
e medo do que argumentação.
De forma semelhante a vitaminas úteis ao corpo apenas por um dia, e como
exercícios físicos, cujo valor, decorre de sua prática recorrente, notícias sobre o crime
são experenciadas como interessante pelos leitores em razão de seu lugar em uma rotina
moral cotidiana. A localização mesma das narrativas de crimes nos jornais indica que

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editores e leitores entendem dessa forma. Muito embora narrativas menores sobre
crimes locais tenham um espaço regular nas seções de jornal reservadas para os eventos
da cidade, as narrativas sobre crimes podem ser espalhadas de forma imprevisível ao
longo das seções gerais de notícias; elas não são ordenadamente confinadas em uma
seção substancialmente especializada como notícias de esportes ou finanças. A
localização estrutural das notícias sobre crimes reproduzem o caráter imprevisível do
fenômeno do crime, e transferem para o leitor a medida de responsabilidade em
organizar o lugar do mesmo em sua vida particular.
Os jornais modernos parecem enfatizar este papel. Quanto mais moderno e
sofisticado o jornal, quanto menos moralista é o seu estilo narrativo; quanto mais impõe
responsabilidade pela reação moral em relação ao crime sobre o leitor enquanto questão
formal. Outro aspecto moderno de notícias sobre o crime, a ênfase nas fases iniciais do
sistema de justiça criminal, situa a responsabilidade pelo „convencimento‟, - tanto em
um sentido estrito, relacionado à justiça criminal, quanto em um sentido existencial de
compromisso mediante a fé, - sobre o leitor.
Esta responsabilidade não é necessariamente desejada pelos leitores, ainda que
pareça ser que os mesmos reconheçam que não podem ignorar ou escapar dela. Muito
embora as pessoas geralmente temam o crime e critiquem as notícias como
demasiadamente negativas e perturbadoras, elas aparentemente consideram ainda mais
inquietante não lê-las. Para entender o que caracteriza as narrativas e notícias sobre o
crime, deve-se explicar a aflição voluntária de experiência de perturbação emocional
sobre o self individual, a nível coletivo das massas, dia após dia, que atravessa a
sociedade moderna. A leitura de notícias sobre o crime parece servir ao propósito
semelhante ao do banho matinal, do exercício físico rotineiro, e de fazer a barba
(DOUGLAS, p. 1966): o ritual, o valor não racional da experiência que é, de certa
forma, chocante, inconfortável, e auto-destrutivo, e que é voluntariamente assumido
pelos adultos como reconhecimento do seu fardo individual em sustentar a fé em um
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