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Faiança do século XVII: alguns tipos decorativos

 Por faiança entendem-se todos os corpos cerâmicos, independentemente da forma,


revestidos a esmalte estanífero (CASIMIRO, 2010).

 Publicações recentes, baseadas em peças exumadas em contextos arqueológicos (CASIMIRO,


2016), permitem colocar, embora com alguma (in)certeza, a produção de faiança estanífera
em Portugal, já a partir de finais do século XVI.

 Ultimamente, as escavações arqueológicas e a arqueologia subaquática, muitas delas


realizadas em diferentes zonas do mundo - tendo em conta os locais onde os Portugueses
chegaram ou navegaram - deram, em termos de datação cronológica, um contributo precioso
para esclarecer as muitas dúvidas que perduram e que, não obstante, continuam de difícil
esclarecimento.

 Reinaldo dos Santos apontou quatro grandes períodos para a faiança do século XVII, fazendo-
os corresponder aos quatro quartéis do século. O segundo período, que apelidou de "áureo",
era, em sua opinião, aquele que melhor expressava a produção deste século, porquanto foi,
nessa época, o segundo quartel do mesmo, que passaram a inserir-se elementos decorativos
portugueses numa ornamentação maioritariamente oriental. Em seu entender, teriam sido,
então, também introduzidos na paleta cromática o manganés e o amarelo, surgindo temas
decorativos nacionais relacionados com a Restauração, tais como soldados e brasões reais.

 Inicialmente, a organização ornamental da faiança seiscentista denota profundas influências


orientais, reproduzindo, com bastante fidelidade, a decoração da porcelana do período Wanli,
dado que a procura por parte das elites é muito forte, havendo, para esta produção cerâmica
nacional, mercado certo, nomeadamente na Alemanha, onde se encontra grande número de
exemplares.

 No entanto, vão aparecer novos elementos decorativos nascidos da própria imaginação dos
artistas pintores, que introduzem elementos externos à gramática oriental. Daí a inserção de
temas de origem portuguesa, mantendo, no entanto, uma clara predominância decorativa
oriental - soldados armados, escudos e figuras tipicamente ocidentais-, tendo em conta a
recente independência face a Espanha.
 Uma tão profícua diversidade de elementos ornamentais, permite a agregação em famílias
decorativas: desenho miúdo, aranhões, faixa barroca, rendas, contas, conventual.

 Todas as peças que de seguida se apresentam são de dimensões reduzidas, variando entre os
dezoito e vinte e dois centímetros. Contrastando com as de maiores dimensões - as peças de
aparato, destinadas unicamente a ser vistas - revelam sinais de uso, permitindo concluir que
eram efetivamente utilizadas pelos seus possuidores.

 Prato oitavado, com Decoração de Desenho Miúdo, a azul cobalto, com contornos a vinoso de
manganés. Uma cartela central, com a palavra ESCUTA, entre flores. Uma miscelânea de
elementos vegetalistas e zoomórficos percorre a aba.
 Esta família decorativa caracteriza-se por combinar elementos decorativos orientais e
ocidentais, numa pulverização que se espraia por toda a superfície da peça.
Pequeno prato com Decoração de Aranhões, a azul cobalto e vinoso de manganés. O nome desta
família decorativa provém dos elementos decorativos das abas, os quais mais não eram que as
interpretações feitas pelos artesãos da ornamentação oriental usada na porcelana chinesa.

Duas peças com Decoração de Faixa Barroca. A designação desta família decorativa atribui-se aos
objetos produzidos na segunda metade do século XVII, contendo uma faixa ou tarja decorada com
folhas de acanto estilizadas (MONCADA, 2008). Para além dos pratos, foi, também, usada noutro tipo
de peças, como canudos de farmácia e bacias de barba. Contêm as mesmas cores: azul de cobalto e
vinoso de manganés: no primeiro, a letra F surge enquadrada entre vegetação; no segundo, uma
paisagem com árvores e rochedos. Ambos apresentam, nas abas, cercaduras formadas por
enrolamentos de folhas de acanto.

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Pequeno exemplar com Decoração de Rendas. A flor central, unicamente em azul cobalto, mostra uma
ornamentação densa e rica, de arcos e volutas, decoradas com rendas. Numa clara demonstração do
horror vacui, o artista preencheu toda a superfície da peça.
O nome desta família decorativa tem, como provável origem, as rendas usadas no "vestuário
português de quinhentos e seiscentos (CALADO, 1992).

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Decoração de Contas. Ao centro sobressai um coração asseteado, circunscrito por círculos
concêntricos, entre grupos de três contas, inseridas num triângulo. A aba mostra o mesmo esquema
decorativo. Os mesmos tons: azul cobalto e vinoso de manganés.
A temática desta família decorativa, datável essencialmente da segunda metade do século XVII,
continuou a ser usada ao longo mesmo século. Mais não é que a interpretação feita pelos nossos
oleiros de um tema da porcelana chinesa, a cabeça de um ruyi, exprimindo poder e boa sorte.

Uma faiança com uma ornamentação extremamente simples, conhecida por conventual, uma vez que
muitas destas peças procediam de encomendas feitas principalmente por conventos e personalidades
ligadas a casas religiosas.
Apresentam uma decoração muito simples, na qual a ausência de ornatos é manifestamente
demonstrativa de uma inspiração mais arcaica. O fundo é esmaltado de branco, nele sobressaindo o
azul cobalto e, mais tarde, também o vinoso de manganés. Este tipo de faiança perdurou até meados
do século XVIII.
Prato com as armas da Ordem de São Domingos ao centro, despojado de qualquer outra decoração.

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Uma outra peça que, pelo singelo da ornamentação, também cabe nesta categoria. É um prato, talvez
de produção exclusiva para a sua encomendante, "D. Thereza Maria". A inscrição do nome surge
rodeada por uma grinalda de flores.

A faiança do século XVII constitui matéria de atração irresistível, não só por representar historicamente o início
da produção de faiança em Portugal como pela riqueza e diversidade das decorações oferecidas.

Bibliografia:

1. CASIMIRO, Tânia Manuel (2010) – Faiança Portuguesa nas Ilhas Britânicas (dos finais do século XVI até
inícios do século XVII), dissertação de doutoramento apresentada à FCSH – UNL.
2. CASIMIRO, Tânia Manuel (2016) – Faiança Portuguesa: datação e evolução crono-estilística. In Revista
Portuguesa de Arqueologia, volume 16, p. 352.
3. Moncada, Miguel Cabral de (2008) – Faiança Portuguesa: Séc. XV a XVIII, Scribe, pp. 98-111.
4. CALADO, Rafael Salinas (1992) – Faiança Portuguesa. Pub. Correios de Portugal.

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Pigmentos ou corantes cerâmicos

 São materiais sólidos compostos por óxidos de metais, inorgânicos, brancos, pretos ou coloridos, que
devem ser insolúveis nos substratos que venham a ser incorporados (fundentes ou vidrados cerâmicos),
não reagindo química ou fisicamente com estes. Após a cozedura, à temperatura adequada, o conjunto
desenvolve uma cor, dependente da composição desse pigmento e do substrato.

 A cor da tinta ou do vidrado é determinada pela presença de óxidos metálicos:

COR EXEMPLO DE ÓXIDO CORRESPONDENTE


Azul
Verde
Bege

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