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CAMPANHA NACIONAL DE ESCOLAS DA COMUNIDADE

FACULDADE CENECISTA DE RIO DAS OSTRAS


CURSO DE BACHAREL EM DIREITO

Daniela Yasmin Marques De Almeida

A COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL EM FACE DOS PRINCÍPIOS DA


SEGURANÇA JURÍDICA E DA SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO

RIO DAS OSTRAS


2017
Daniela Yasmin Marques De Almeida

A COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL EM FACE DOS PRINCÍPIOS DA


SEGURANÇA JURÍDICA E DA SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à


Faculdade Cenecista de Rio das
Ostras/FACRO como requisito para obtenção
do título de Bacharel em Direito

Orientador: Me. Juliano Soares Rangel.

Rio das Ostras


2017
Daniela Yasmin Marques De Almeida
Matrícula: 12000012609

A COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL EM FACE DOS PRINCÍPIOS DA


SEGURANÇA JURÍDICA E DA SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO

Trabalho de conclusão de curso submetido ao


corpo docente do curso de Direito da
Faculdade Cenecista de Rio das Ostras como
parte dos requisitos necessários para a
obtenção do grau de Bacharel em Direito.

Rio das Ostras, _______ de _________________ de _________

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________
Prof. Me. Juliano Soares Rangel - Orientador
Faculdade CNEC Rio das Ostras

______________________________________________
Prof. Me. Francisco de Assis Aguiar Alves
Faculdade CNEC Rio das Ostras

_____________________________________________
Prof. Camila de Castro Barbosa Bissoli do Bem
Faculdade CNEC Rio das Ostras

Rio das Ostras


Julho, 2017
DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho a minha filha, Agatha,


para que ela conheça o resultado de
perseverança e nunca desista de seus
objetivos.
RESUMO

No presente, o principal objetivo será analisar o instituto da coisa julgada inconstitucional


frente aos princípios da segurança jurídica e da supremacia da constituição. Para tanto,
inicialmente, fará uma análise minuciosa do instituto da coisa julgada no País. Abordará,
também, os meios jurídicos legalmente previstos para que seja possível a desconstituição da
coisa julgada, com o intuito de demonstrar que são estes institutos questionáveis para
desconstituir a coisa julgada inconstitucional. Buscará explicar o conceito da coisa julgada
inconstitucional e demonstrar como a coisa julgada inconstitucional fere o princípio
supremacia da Constituição, que é corolário do Estado Democrático de Direito, fazendo uma
análise comparativa com a teoria da nulidade absoluta aplicada ao controle de
constitucionalidade, assim como ao princípio da segurança jurídica que, apesar de estar
atrelado ao próprio conceito de coisa julgada, com ele não se confunde, não sendo absoluto.
Por último, abordará brevemente posições doutrinárias adotadas pelos juristas brasileiros a
respeito do tema, demonstrando ainda não haver um consenso sobre o assunto, entretanto
deixando evidente a importância do mesmo.

Palavras-chave: coisa julgada inconstitucional, segurança jurídica, supremacia da


Constituição
ABSTRACT

In the present the main objective will be to analyze the institute of the thing judged
unconstitutional in the face of the principles of legal security and the supremacy of the
constitution. In order to do so, initially, it will make a detailed analysis of the institute of the
thing judged in the Country. It will also address the legally prescribed legal means so that it is
possible to deconstitute the res judicata, in order to demonstrate that these institutes are
questionables to deconstitute the thing Judged unconstitutional. It will try to explain the
concept of the thing judged unconstitutional and to demonstrate how the thing judged
unconstitutional violates the principle of supremacy of the constitution, which is a corollary of
the Democratic State of Law, making a comparative analysis with the theory of absolute
nullity applied to the control of constitutionality, Principle of legal security that, although it is
tied to the very concept of res judicata, is not confused with it, not being absolute. Finally, it
will briefly address doctrinal positions adopted by Brazilian jurists on the subject,
demonstrating that there is still no consensus on the subject, however making the importance
of it clear.

Keywords: thing considered unconstitutional, legal certainty, supremacy of the constitution


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 8
2 COISA JULGADA .............................................................................................................. 10
2.2 ESPÉCIES DE COISA JULGADA ................................................................................... 11
2.2.1 Coisa julgada formal ..................................................................................................... 12
2.2.2 Coisa julgada material .................................................................................................. 13
2.3 EFICÁCIA NEGATIVA E POSITIVA DA COISA JULGADA ...................................... 14
2.4 LIMITES OBJETIVOS DA COISA JULGADA ............................................................... 15
2.5 LIMITES SUBJETIVOS DA COISA JULGADA ............................................................. 17
2.6 COISA JULGADA “REBUS SIC STANTIBUS” ................................................................ 18
2.7 COISA JULGADA “SECUNDUM EVENTUM LITIS” ..................................................... 19
3 MEIOS DE IMPUGNAÇÃO A COISA JULGADA ........................................................ 21
3.1 AÇÃO RESCISÓRIA ........................................................................................................ 21
3.1.1 Pressupostos gerais ........................................................................................................ 22
3.1.2 Legitimidade ativa e passiva ......................................................................................... 24
3.1.3 Hipóteses de cabimento ................................................................................................. 25
3.1.3.1 Prevaricação, concussão ou corrupção do juiz ............................................................. 25
3.1.3.2 Impedimento ou incompetência absoluta do juiz ......................................................... 26
3.1.3.3 Dolo ou coação da parte vencedora, em detrimento da parte vencida ou ainda de
simulação ou colusão entre as partes a fim de fraudar a lei ..................................................... 27
3.1.3.4 Ofensa à coisa julgada .................................................................................................. 27
3.1.3.5 Violação manifesta de norma jurídica .......................................................................... 28
3.1.3.6 Falsidade de prova ........................................................................................................ 29
3.1.3.7 Prova nova .................................................................................................................... 30
3.1.3.8 Erro de fato ................................................................................................................... 30
3.1.4 Competência ................................................................................................................... 31
3.1.5 Procedimento ................................................................................................................. 31
3.2 AÇÃO ANULATÓRIA DE ATO PROCESSUAL ........................................................... 32
3.3 QUERELA NULLITATIS INSANABILIS ............................................................................ 33
4 RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL EM FACE DOS
PRINCÍPIOS DA SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO E DA SEGURANÇA
JURÍDICA............................................................................................................................... 35
4.1 PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS ....................... 36
4.1.1 A Constituição como expressão do Estado Democrático de Direito ......................... 37
4.1.2 A Supremacia da Constituição frente à coisa julgada inconstitucional ................... 39
4.2 TEORIA DA NULIDADE DAS NORMAS INCONSTITUCIONAIS ............................. 42
4.3 COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL EM FACE DO PRINCÍPIO DA
SEGURANÇA JURÍDICA ...................................................................................................... 44
4.4 COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL E A RECEPÇÃO PELA DOUTRINA
PÁTRIA .................................................................................................................................... 47
5 CONCLUSÃO...................................................................................................................... 50
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 52
8

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como escopo trazer à baila a discussão sobre a coisa julgada
inconstitucional, tema de extrema relevância que outrora foi alvo de calorosos e profundos
debates e, até a presente data, se revela como tema polêmico e controvertido no meio jurídico,
não se chegando, nem mesmo as nossas Cortes raras, a um consenso, principalmente com o
advento do Código de Processo Civil (Lei n° 13.105/2015), diploma legal que, de forma
inaugural, prevê expressamente a revisão da coisa julgada inconstitucional após ultrapassado
o prazo convencional decadencial para propositura da ação rescisória, que é, de acordo com
art. 975 do Código de Processo Civil, de 02 (dois) anos, como será estudado adiante.
Com efeito, a maior parte da doutrina e da jurisprudência tomou o instituto da coisa
julgada como verdadeira autoridade (inclusive, assim denominada pelo art. 502, do Código de
Processo Civil), caracterizando-a como imutável e trazendo este entendimento como absoluto
dentro do ordenamento jurídico pátrio com o intuito de se evitar a eternização das demandas
levadas ao crivo do Judiciário, preservando-se a segurança jurídica.
O fato é que um operador do Direito, reconhecendo este como ciência social que é,
não se deve olvidar de que, muitas vezes, conceitos tomados como absolutos estão sempre em
constante mutação, uma vez que, por acompanhar a evolução da sociedade e do pensamento,
se vê constantemente diante de inúmeras situações que nem sempre o legislador é capaz de
prever. Dessa forma, deve analisar a norma de forma sistemática, social e principalmente
tendo como corolário a correta administração da justiça, uma vez que um direito revestido tão
somente pelo manto ‘frio’ da norma jamais alcançará seus jurisdicionados e somente servirá
para a falta de credibilidade pelo Judiciário e insegurança jurídica.
Nesta linha de raciocínio, se observa que a aceitação da permanência de decisões
eivadas de grave vício de constitucionalidade fere o Estado Democrático de Direito,
perpetuando verdadeiras injustiças na sociedade e fazendo com que os cidadãos a quem foram
entregues aquelas prestações jurisdicionais, adquirissem um direito maculado.
Assim é que, iniciaram-se os debates na doutrina acerca da possibilidade da
relativização da coisa julgada, criando-se hipóteses em que seria possível a sua relativização
quando verificada, em uma decisão, inconstitucionalidade, desproporcionalidade ou injustiça.
Não obstante a elevada relevância das demais hipóteses levantadas pelos doutrinadores para
relativização da res iudicata, o presente estudo cuidará apenas do vício de
inconstitucionalidade.
9

E isso porque, em um sistema jurídico em que se adota a Supremacia da


Constituição, ou seja, onde a Constituição ocupa posição de superioridade em relação as
demais normas jurídicas e, ainda, sendo esta legitimadora para a atuação dos Poderes, não se
pode aceitar, pela lógica, que uma decisão produzida pelo Poder Judiciário seja coberta pelo
caráter de imutabilidade e da indiscutibilidade quando contrariar as próprias normas que o
regem.
Ademais, como ensina a boa doutrina, não há hierarquia entre as normas
constitucionais, sendo certo que, em havendo conflito entre suas normas, deve o julgador
aplicar o instituto da ponderação, o que demonstra que a relativização da coisa julgada, na
verdade, revela uma outra face da segurança jurídica, que é a de harmonia do ordenamento
jurídico como um todo.
Portanto, se por um lado a coisa julgada protege a segurança jurídica, por dar
estabilidade à decisão e integrá-la ao patrimônio de seu titular por força da imutabilidade, por
outro, quando for inconstitucional estará ferindo a Lei Maior e, também, por via de
consequência, atentará contra a segurança jurídica, por não estar apresentando uma decisão
em harmonia com o núcleo formador de todas as demais normas jurídicas.
Ante os revezes trazidos, na sociedade brasileira, pelo papel desempenhado pelo
instituto da coisa julgada no âmbito processual, o presente trabalho aportará a sua análise
sobre a coisa julgada inconstitucional.
Neste sentido, o primeiro capítulo tem como abordagem a coisa julgada, tratando de
explicar o instituto, assim como trazendo todas as suas espécies e abordagens doutrinárias,
para que, antes do estudo da coisa julgada inconstitucional, seja possível compreender quando
será uma decisão acobertada pela coisa julgada.
No segundo capítulo, será feita abordagem quanto às formas previstas pela doutrina e
pela legislação brasileira de impugnação à coisa julgada, para compreensão de que a coisa
julgada inconstitucional ainda não tem proteção pelo direito pátrio, exceto com a hipótese
inovadora trazida pelo art. 525, §15°, do Código de Processo Civil, que serve apenas para
decisões exequendas.
O terceiro e último capítulo trará uma abordagem reflexiva de como a coisa julgada
inconstitucional fere ‘de morte’ princípios basilares para o exercício do Estado Democrático
de Direito, que são o da Supremacia da Constituição e da Segurança Jurídica, abordando a
doutrina favorável à relativização da coisa julgada, nessas hipóteses.
10

2 COISA JULGADA

A jurisdição, do termo em latim iuris e dicere, que significa “dizer o direito”, é o


poder que o Estado-juiz tem de aplicar o direito ao caso concreto, entregando a solução de
uma lide através de uma prestação jurisdicional de acordo com a ordem jurídica vigente.
Fato sabido é que, nem sempre as partes ficam satisfeitas com a prestação
jurisdicional entregue, razão pela qual provocam o Judiciário a rever suas decisões através dos
recursos previstos na legislação processual. Tais irresignações, entretanto, não podem se
prolongar a ponto de se tornarem eternas, sob pena de se viver numa infinita insegurança
jurídica e descrença no judiciário, devendo, portanto, em determinado momento, chegar-se a
uma solução definitiva. O que cobre uma decisão de definitividade e imutabilidade é a coisa
julgada, conforme leciona o ilustre doutrinador Luiz Guilherme Marinoni (2015, p. 620):

Isso significa basicamente que a coisa julgada – entendida como “autoridade que
torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso” art. 502
– constitui uma clara opção da Constituição brasileira a favor da estabilidade das
situações jurídicas em detrimento da possibilidade de infindáveis discussões e
rediscussões dos problemas em busca de uma decisão supostamente mais justa do
litígio1

A Constituição da República Federativa do Brasil tratou de prever o instituto da coisa


julgada em seu art. 5°, inciso XXXVI, protegendo-o no capítulo reservado aos direitos
fundamentais, porém sem deixar claro expressamente o seu significado, restando aos
doutrinadores difícil tarefa de delimitar seu conteúdo e permitir aos operadores do direito sua
aplicação. Assim dispõe o art. 5°, XXXVI, da Constituição da República:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade
do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes:
XXXVI - a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa
julgada;2

1
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Curso de Processo
Civil. Vol. 2: Tutela dos Direitos Mediante Procedimento Comum. 1ª ed. – São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais Ltda, 2015, p. 620
2
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> Acessado em: 12 de
junho de 2017.
11

Infraconstitucionalmente, a coisa julgada é prevista no Código de Processo Civil


(13.105/2015), no livro I, da Parte Especial, em seus arts. 502 a 508, cuidando o legislador,
logo no primeiro artigo da seção, de pretender definir, ainda que suscintamente, a res
iudicata, podendo utilizar-se tal dispositivo como ponto de partida para entendimento do
assunto. Aduz o art. 502, do Código de Processo Civil: “Denomina-se coisa julgada material a
autoridade que torna indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso”.3
Baseados nesses dispositivos, a doutrina brasileira trouxe inúmeros estudos da coisa
julgada, divergindo quanto a sua definição, porém convergindo quanto ao claro objetivo
constitucional de buscar a estabilidade das situações jurídicas a fim de evitar a eternização do
litígio e a espera infinita, pelo jurisdicionado, de uma resposta definitiva do Estado a sua
pretensão, uma vez que, não estabilizada, sujeita a tutela à revisão enquanto durar a
irresignação de uma das partes, não restará atendida a segurança jurídica.
Traremos neste capítulo de algumas das classificações doutrinárias mais relevantes
para entendimento, em toda sua extensão, da coisa julgada, para que seja possível entender
que a relativização da coisa julgada inconstitucional, só trará benefícios ao ordenamento
jurídico pátrio.

2.2 ESPÉCIES DE COISA JULGADA

A coisa julgada pode ser classificada em dois atributos: formal, que possui efeitos tão
somente dentro do processo em que foi produzida, e material, que possui efeitos para fora do
processo em que foi produzida. Assim bem ensina o ilustre doutrinador Didier Jr. (2015, p.
517), para quem, “a coisa julgada é uma concretização do princípio da segurança jurídica. A
coisa julgada estabiliza a discussão sobre uma determinada situação jurídica, consolidando
um ‘direito adquirido’ reconhecido judicialmente”.

Apesar de a maior parte da doutrina tratar da coisa julgada apenas pelo seu aspecto
material, e às vezes tratar a coisa julgada formal e a coisa julgada material como espécies do
mesmo gênero, necessário fazer sua distinção.

3
BRASIL. Código de Processo Civil. Lei 13.105/2015. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm> Acessado em: 12 de junho
de 2017.
12

2.2.1 Coisa julgada formal

A coisa julgada formal é um atributo processual, uma espécie de preclusão, que


impede a interposição de novos recursos. Por guardar muita proximidade com a preclusão,
alguns doutrinadores a denominam de “preclusão máxima”. Entretanto, a diferença entre os
referidos fenômenos processuais é que a preclusão impossibilita a modificação de
determinado ato processual, enquanto que a coisa julgada formal se limita a encerrar o
processo.
Sobre o assunto, ensina Gonçalves (2017, p. 692-693), com louvor:

“É a manifestação da coisa julgada no próprio processo em que a sentença ou o


acórdão foi proferido. É fenômeno interno ao processo a impossibilidade de
modificar-se a sentença ou acórdão, quando já não caibam mais recursos, seja
porque foram esgotadas as possibilidades recursais, seja porque o recurso adequado
não foi interposto no prazo legal.”4

Reforçando, Donizetti (2017, p. 621):

“Diz-se que há coisa julgada formal quando a sentença terminativa transita em


julgado. Nesse caso, em razão da extinção da relação processual, nada mais pode ser
discutido naquele processo. Entretanto, como não houve qualquer alteração
qualitativa nem repercussão alguma na relação (intrínseca) de direito material, nada
impede que o autor ajuíze outra ação, instaurando-se novo processo, a fim de que o
juiz regule o caso concreto.”5

Dessa forma, percebe-se que a coisa julgada formal guarda semelhança com a
preclusão, se manifestando de forma endoprocessual, não abrangendo o mérito. Como
ensinado por Gonçalves (2017, p. 693): “Mas o aspecto formal da coisa julgada não esclarece
sobre a possibilidade de repropositura de idêntica ação, porquanto se restringe ao processo em
que a sentença ou acórdão foi proferido.”6.
Cumpre ressaltar, por último, que a coisa julgada formal é uma construção
meramente doutrinária, entendendo parte da doutrina, como Marinoni (2015, p. 621), citando
Giuseppe Chiovenda e Ega Dirceu Moniz de Aragão, que a coisa julgada formal é verdadeira

4
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Palo: Saraiva,
2017, p. 692-693.
5
DONIZETTI, Elpídio. Curso didático de direito processual civil. 20. ed. rev. atual. e ampl. – São Paulo:
Atlas, 2017, p. 728.
6
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Paulo: Saraiva,
2017, p. 692-693.
13

preclusão, sendo, para ele, os termos ‘formal’ e ‘material’ aplicados incorretamente, devendo-
se usar, tão somente, ‘coisa julgada’ e ‘preclusão’, senão vejamos:

“Se coisa julgada advém da expressão res iudicata, que de seu turno indica que a
coisa – o mérito – foi julgado, então de um lado a expressão coisa julgada material é
tautológica (porque apenas procura repetir com o adjetivo material algo que a
locução já expressa), e, de outro, a expressão coisa julgada formal é contraditória
(porque refere que a coisa – o mérito – na verdade não foi julgado”.7

Apesar da severa crítica feita pelo festejado doutrinador, a doutrina majoritária ainda
adota os termos ‘coisa julgada formal’ e ‘coisa julgada material’, devendo-se, portanto,
utilizá-los para fins didáticos.

2.2.2 Coisa julgada material

A coisa julgada material torna o conteúdo da decisão de mérito indiscutível e


imutável, projetando seus efeitos para fora do processo. Quando o Código de Processo Civil
denomina a coisa julgada, em seu art. 502, se refere especificamente à coisa julgada material,
uma vez que, como já dito, a coisa julgada formal é construção meramente doutrinária.
Distintamente da coisa julgada formal, que torna indiscutível a decisão num mesmo
processo, a coisa julgada material impede que seja proposta uma nova ação idêntica (com as
mesmas partes, causa de pedir e pedido) àquela em que se manifestou.
É este efeito que resolve a coisa litigiosa, não podendo esta ser mais discutida em
nenhum outro processo, sendo a espécie mais importante de manifestação da coisa julgada.
Nos ensina Wambier (2016, p. 414):

“Já o comando material é o que repercute sobre a esfera jurídico-substancial dos


jurisdicionados (condenando, declarando, constituindo, mandando...). A coisa
julgada que recai sobre esse comando – material – proíbe que mesmo em outro
processo entre as mesmas partes ele seja revisto.”8

Entretanto, nem toda decisão está apta a produzir a coisa julgada material. O art. 502
estabelece como pressupostos para que a decisão se revista da coisa julgada [material]: a)
decisão de mérito e b) não mais sujeita a recurso.

7
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Curso de Processo
Civil. Vol. 2: Tutela dos Direitos Mediante Procedimento Comum. 1ª ed. – São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais Ltda, 2015, p. 621
8
WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso Avançado de Processo Civil: Processo comum
de conhecimento e tutela provisória. Vol. 2. 16. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 414.
14

O primeiro pressuposto, ‘decisão de mérito’, é uma inovação legislativa, já


anteriormente levantado pela doutrina, uma vez que o antigo Código de Processo Civil (Lei n°
5.869/73), em seu art. 467, utilizava-se do termo ‘sentença’, enquanto que o art. 502 utiliza o
termo ‘decisão’, que se demonstra mais adequado, pois o Código de Processo Civil atual (Lei
13.105/2015) traz expressamente previsões, ainda que pontuais9, em que uma decisão
interlocutória produza coisa julgada material e, ainda, por não abranger o termo ‘sentença’,
tecnicamente, decisão monocrática e acórdão.
Sobre este ponto de se trazer à baila o entendimento do ilustre professor Didier Jr.
(2016, p. 516), que entende que o termo ‘decisão de mérito’ não lhe parece suficiente para
englobar todo o alcance da norma, razão pela qual prefere chamá-la de ‘decisão jurisdicional
fundada em cognição exauriente’, até porque, segundo ele, “é possível vislumbrar a coisa
julgada em decisões que não sejam de mérito”. Neste sentido, prossegue lecionando o
festejado professor:

“A decisão judicial apta à coisa julgada deve fundar-se em cognição exauriente.


Decisões proferidas em cognição sumária – decisões provisórias (arts. 294-311,
CPC) – não estão aptas à coisa julgada. A coisa julgada é uma estabilidade que
pressupõe tenha havido encerramento da cognição sobre a questão.” 10

O segundo pressuposto trata da irrecorribilidade da decisão, ou seja, ocorra o seu


trânsito em julgado, não sendo mais possível a interposição de qualquer recurso, seja ele de
qual espécie for. Isso significa, segundo ensina Donizetti (2017, p. 730), que “a coisa julgada
material pressupõe a coisa julgada formal”, ou seja, requer-se, para ocorrência da coisa
julgada material, que se tenha ocorrido a preclusão máxima.

2.3 EFICÁCIA NEGATIVA E POSITIVA DA COISA JULGADA

Uma vez formada a coisa julgada, a indiscutibilidade da decisão pode alcançar duas
dimensões: positiva e negativa.
O efeito negativo da coisa julgada é uma vedação para que a mesma questão, já
analisada em seu mérito e já transitado em julgado, seja decidida novamente. Esse efeito gera

9
______v. g., o art. 356, do CPC, trata do julgamento antecipado parcial do mérito, onde o juiz poderá
resolver parcialmente o mérito e, coberto pela preclusão máxima (ou coisa julgada formal), produzirá,
também, coisa julgada material.
10
DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, ações
probatórias, decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 10 ed. Salvador: Ed.
Jus Podivm, 2015. v.2, p. 516
15

uma defesa para o demandado (art. 337, VII, do CPC), impedindo que seja gerada uma nova
prestação jurisdicional de igual conteúdo.
Já o efeito positivo da coisa julgada é relacionado à utilização de uma decisão que
tenha produzido coisa julgada como fundamento de uma nova causa de pedir, em que a
primeira é pressuposto lógico para que seja possível a postulação da segunda em juízo, ou até
mesmo, quando a primeira faça modificação substancial no julgamento da segunda,
vinculando o julgador, que não poderá decidir de forma distinta. O exemplo clássico é o
pedido de alimentos de menor, fundado em decisão de mérito transitada em julgado em ação
de investigação de paternidade onde foi constada a filiação. O julgador não poderá negar os
alimentos, ao menos não sob o fundamento da ausência do vínculo familiar.
Discorrendo sobre o assunto, Marinoni (2015, p. 635):

“Se a eficácia negativa da coisa julgada está vinculada normalmente à utilização da


coisa julgada como matéria de defesa, a sua eficácia positiva atine à possibilidade de
invocação da coisa julgada como ponto de apoio a uma nova ação. Vale dizer: a
eficácia positiva da coisa julgada ocorre quando a parte alega na causa de pedir de
uma nova ação a indiscutibilidade de determinada questão decidida com força de
coisa julgada para fundar um novo pedido.”11

2.4 LIMITES OBJETIVOS DA COISA JULGADA

O art. 503 do Código de Processo Civil traça os limites objetivos da coisa julgada
material, ou seja, determina o que se torna imutável e indiscutível com a coisa julgada. Aduz:
“A decisão que julgar total ou parcialmente o mérito tem força de lei nos limites da questão
principal expressamente decidida”.
Quando a Lei Instrumental afirma que a decisão terá ‘força de lei’, o que se pretende
é ressaltar a “impositividade da norma jurídica concreta definida pelo órgão julgador, e que se
estabilizou pela coisa julgada” 12.
Ocorre que não é todo o conteúdo da decisão será alcançado pela coisa julgada. E
isso porque, afirma o art. 504, do Código de Processo Civil:

11
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Curso de Processo
Civil. Vol. 2: Tutela dos Direitos Mediante Procedimento Comum. 1ª ed. – São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais Ltda, 2015, p. 635
12
DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, ações
probatórias, decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 10 ed. Salvador: Ed.
Jus Podivm, 2015. v.2, p. 522.
16

“Art. 504. Não fazem coisa julgada:


I - os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva
da sentença;
II - a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença.”

Sendo uma decisão de mérito composta por três partes: relatório, fundamentação e
dispositivo, a interpretação a que se chega do referido artigo é que nenhuma parte da
fundamentação produz coisa julgada e, apesar de não estar expresso, muito menos o relatório,
uma vez que nessa parte da decisão nada será efetivamente, somente sendo agasalhado pela
coisa julgada a sua parte dispositiva.
Assim é, inclusive, o afirmado no próprio art. 503, quando se utiliza da expressão
‘questão principal expressamente decidida’, que dá ênfase ao fato de que a coisa julgada só
alcançará a parte dispositiva da decisão. Assim nos ensina Câmara (2016, p. 270):

“A leitura do caput do art. 503 e do art. 504 (que afirma que não fazem coisa julgada
“os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da
sentença” e “a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença”),
permite asseverar que apenas o dispositivo da sentença é alcançado pela coisa
julgada.
[...]
A coisa julgada, portanto, fica objetivamente limitada ao dispositivo da sentença.”13

Entretanto, apesar de a fundamentação não ser alcançada pela coisa julgada, deve-se
fazer um parêntese quanto às questões prejudiciais de mérito, que apesar de não constituírem
propriamente o mérito da demanda, são extremamente relevantes para solução do mérito, uma
vez que constituem a “existência, inexistência ou modo de ser de uma relação ou situação
jurídica”14, isto é, uma questão controvertida que guarde pressuposto lógico para com a
decisão final.
Sobre tais questões, o Código de Processo Civil permite que sejam alcançadas pela
coisa julgada, desde que preenchidos determinados requisitos. Aduz o art. 503, §1°, do CPC:

“Art. 503. A decisão que julgar total ou parcialmente o mérito tem força de lei nos
limites da questão principal expressamente decidida.
§ 1º O disposto no caput aplica-se à resolução de questão prejudicial, decidida
expressa e incidentemente no processo, se:
I - dessa resolução depender o julgamento do mérito;
II - a seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no
caso de revelia;

13
CÂMARA, Alexandre Freitas. O novo processo civil brasileiro. 3 ed. São Paulo: Atlas, 2017. p. 270.
14
WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso Avançado de Processo Civil: Processo comum
de conhecimento e tutela provisória. Vol. 2. 16. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 416.
17

III - o juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvê-la como
questão principal.”

O primeiro requisito expresso no Código é que o exame do mérito dependa, antes, da


solução da questão prejudicial. Ou seja, caso o julgador possa julgar a pretensão sem a
necessidade dessa análise, o julgamento não estará prejudicado, razão pela qual não há de se
falar em prejudicial acobertada por força de lei.
O segundo requisito, também expresso, é que no processo tenha sido assegurado ao
demandado o contraditório. Isso porque uma questão só será prejudicial caso seja
controvertida, razão pela qual também deixa o Código expresso que não será aplicada a coisa
julgada de questão prejudicial quando houver revelia do demandado.
O terceiro e último requisito expresso é que o juízo seja competente para exame da
questão prejudicial. Fato é que o juízo poderá sempre decidir acerca da questão prejudicial,
porém, caso não seja competente para análise da mesma, não será produzida coisa julgada
material.
Para Gonçalves (2017, p. 699), para evitar dúvidas quanto ao julgado, o Magistrado
deve decidir quanto à questão prejudicial também na parte dispositiva da decisão, tendo em
vista que o Código faz referência expressa de que a fundamentação não produz coisa julgada.
Aduz, ainda, festejado doutrinador, que para que a questão prejudicial produza coisa julgada,
é necessário que a decisão tenha sido produzida em cognição exauriente, “para que não haja
restrições probatórias ou limitações à cognição que impeçam o aprofundamento da análise da
questão prejudicial”.15

2.5 LIMITES SUBJETIVOS DA COISA JULGADA

Já o art. 506, do Código de Processo Civil, cuida de seus limites objetivos, ou seja,
determina a quem alcançará a coisa julgada, quando aduz: “A sentença faz coisa julgada às
partes entre as quais é dada, não prejudicando terceiros”.
Da leitura do referido artigo, é possível constatar a escolha clara do legislador pelo
efeito, como regra, inter partes da decisão, ou seja, só vincula as partes que figuraram no
processo em que foi produzida.

15
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Paulo:
Saraiva, 2017, p. 699.
18

Entretanto, diferente do Código anterior, que previa a impossibilidade tanto de


beneficiar, quanto de prejudicar a terceiros16, o Código atual, acertadamente, proibiu apenas
que a coisa julgada prejudique a terceiros, o que significa, nesta linha de raciocínio, que a
utilização da coisa julgada para benefício de terceiros é perfeitamente possível, produzindo,
dessa forma, efeito ultra partes. Gonçalves (2017, p. 702), afirma, inclusive, que haverá
produção de coisa julgada tanto para substituto quanto para substituído em caso de
legitimidade extraordinária.17
Para Donizetti (2016, p. 735), entretanto, a imutabilidade e indiscutibilidade da coisa
julgada não alcançam a terceiros, senão vejamos:

“O terceiro pode ser alcançado pelos efeitos naturais da sentença, mas não pela
imutabilidade e indiscutibilidade que emanam da coisa julgada, visto que a
autoridade da coisa julgada atua apenas para as partes da relação processual. Então,
mesmo em se aplicando à teoria da unidade da relação jurídica, caso alteradas as
partes da primitiva demanda, não há que se falar em coisa julgada”. 18

Didier (2015, p. 544), também prevê a possibilidade de que os efeitos da coisa


julgada tenham efeitos erga omnes, como no caso “das ações coletivas que versem sobre
direitos difusos ou diretos individuais homogêneos (art. 103, I e III do CDC) e nas ações de
controle concentrado de constitucionalidade”19.

2.6 COISA JULGADA “REBUS SIC STANTIBUS”

A cláusula “rebus sic stantibus” pode ser entendida como ‘enquanto as coisas estão
assim’. Aplicada à coisa julgada, trata da possibilidade de que a indiscutibilidade e
imutabilidade da decisão permaneça enquanto a situação jurídica que a ensejou permaneça a
mesma.

16
Dispositivo anterior: “Art. 472. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não
beneficiando, nem prejudicando terceiros”. (Lei 5.869/73. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5869impressao.htm> Acessado em 15 de junho de 2017.
17
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Paulo:
Saraiva, 2017, p. 702.
18
DONIZETTI, Elpídio. Curso didático de direito processual civil. 20. ed. rev. atual. e ampl. – São Paulo:
Atlas, 2017, p. 737.
19
DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, ações
probatórias, decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 10 ed. Salvador: Ed.
Jus Podivm, 2015. v.2, p. 544.
19

Basilar da teoria da imprevisão, este conceito abre a possibilidade de que uma


decisão coberta pela coisa julgada possa ser revista e modificada caso venha a ocorrer
situação imprevisível e extraordinária superveniente. Neste sentido, Gonçalves (2016, p. 695):

“A expressão rebus sic stantibus traduz a ideia de as coisas permanecerem iguais,


idênticas. Em regra, havendo coisa julgada material, não é mais possível rediscutir a
questão já definitivamente julgada.
Mas há certas situações, expressamente previstas em lei, em que a imutabilidade dos
efeitos da decisão só persiste enquanto a situação fática que a ensejou permanecer a
mesma, ficando autorizada a modificação, desde que haja alteração fática
superveniente”.20

Nesta toada, o art. 505, I, do CPC, também autoriza que uma relação jurídica de trato
continuado seja reexaminada em caso de modificação superveniente de fato ou de direito
mediante ação revisional e, em alguns casos, até mesmo automaticamente. Aduz o art. 505, I,
do CPC:

“Art. 505. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas relativas à


mesma lide, salvo:
I - se, tratando-se de relação jurídica de trato continuado, sobreveio modificação no
estado de fato ou de direito, caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi
estatuído na sentença;”

Alguns autores entendem que, na verdade, tais decisões não produzem coisa julgada
propriamente dita, uma vez que não se tornam imutáveis e indiscutíveis pela coisa julgada,
sendo, entretanto, uma visão minoritária.

2.7 COISA JULGADA “SECUNDUM EVENTUM LITIS”

Por último, a coisa julgada “secundum eventum litis” é aquela que dependerá do
resultado do processo, havendo casos em que “o legislador a excluirá de acordo com o
fundamento utilizado pelo juízo, ainda que ele tenha examinado a pretensão posta em juízo”21.
Para Didier (2015, p. 520), tal regime de formação da coisa julgada não se mostra
muito adequado, senão vejamos:

20
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Paulo:
Saraiva, 2017, p. 695.
21
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Paulo:
Saraiva, 2017, p. 696.
20

“[...] Este regime não é bem visto pela doutrina, pois trata as partes de forma
desigual, colocando uma delas em posição de flagrante desvantagem, já que a coisa
julgada dependerá do resultado do processo. É o caso da coisa julgada no processo
penal: a sentença condenatória sempre pode ser revista em favor do réu. Não parece
haver exemplo no processo civil.”22

Gonçalves (2017, p. 696), entende que são exemplos da coisa julgada “secundum
eventum litis” as decisões proferidas na ação civil pública e na ação popular em que não há,
segundo ele, coisa julgada material quando houver improcedência por insuficiência de provas.
Já Didier (2015, p. 520) as classifica como coisa julgada “secundum eventum probationis”,
permanecendo, até a data de encerramento do presente trabalho, a discussão doutrinária
acerca do tema.

22
DIDIER JR., Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, ações
probatórias, decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 10 ed. Salvador: Ed.
Jus Podivm, 2015. v.2, p. 520.
21

3 MEIOS DE IMPUGNAÇÃO A COISA JULGADA

Como já dito, a coisa julgada é uma forma de garantir a segurança jurídica e


confiabilidade da população no Poder Judiciário. Não obstante os diversos meios legalmente
previstos de revisão das decisões nos processos em curso, esgotadas tais possibilidades,
encerraria ao indivíduo a possibilidade de levantar vícios graves que maculam a prestação
jurisdicional.
Visto desta forma, a despeito da indiscutibilidade e imutabilidade da coisa julgada,
fechar as portas para revisão das decisões é crer numa utopia de que o Estado sempre acertará
ao proferir uma decisão. Conforme bem colocado por Donizetti (2017, p. 1512):

“Em face dessa possibilidade de dano irreparável, ficou o legislador no seguinte


dilema: assegurar a imutabilidade do que foi acertado na sentença definitiva
transitada em julgado, privando o interessado de meios para reparar o prejuízo
sofrido, ou permitir a reapreciação do caso e gerar insegurança das relações jurídicas
judicialmente acertadas”.23

Assim é que, prevendo a possibilidade da ocorrência de coisa julgada defeituosa,


eivada de vício ou nulidade, o legislador e a doutrina trouxeramalguns mecanismos pontuais
para o seu afastamento. São eles: ação rescisória, querela nullitatis insanabilis e impugnação
ao cumprimento de sentença, que serão estudadas, cada uma, no presente capítulo.

3.1 AÇÃO RESCISÓRIA

A ação rescisória é um dos principais e mais utilizados mecanismos que busca


desconstituir a decisão coberta pelo instituto da coisa julgada. Neste raciocínio, sua natureza
jurídica não é de recurso, mas sim de uma ação autônoma de impugnação de uma decisão de
mérito não mais sujeita a recurso que, em determinados casos pode, inclusive, levar ao
rejulgamento da ação principal. Nas lições de Didier Jr. (2016, p. 421):

“A ação rescisória é a ação autônoma de impugnação, que tem por objetivos a


desconstituição de decisão judicial transitada em julgado e, eventualmente, o

23
DONIZETTI, Elpídio. Curso didático de direito processual civil. 20. ed. rev. atual. e ampl. – São Paulo:
Atlas, 2017, p. 1512.
22

rejulgamento da causa. Ela não é recurso, exatamente porque dá origem a outro


processo para impugnar a decisão judicial”24

Entretanto, nem toda decisão pode ser revista através da rescisória, até porque,
diferente fosse, o instituto da coisa julgada se tornaria vazio e sem sentido, pois possível seria
a propositura de rescisória por simples insatisfação da parte vencida. Assim, o Código de
Processo Civil trouxe, em seu art. 966, o rol taxativo de hipóteses em que será possível a
rescisão, que serão estudadas adiante. O art. 966, in verbis:

“Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando:
I - se verificar que foi proferida por força de prevaricação, concussão ou corrupção
do juiz;
II - for proferida por juiz impedido ou por juízo absolutamente incompetente;
III - resultar de dolo ou coação da parte vencedora em detrimento da parte vencida
ou, ainda, de simulação ou colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei;
IV - ofender a coisa julgada;
V - violar manifestamente norma jurídica;
VI - for fundada em prova cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal
ou venha a ser demonstrada na própria ação rescisória;
VII - obtiver o autor, posteriormente ao trânsito em julgado, prova nova cuja
existência ignorava ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar
pronunciamento favorável;
VIII - for fundada em erro de fato verificável do exame dos autos.”

3.1.1 Pressupostos gerais

Como já dito, o que se infere do “caput” do art. 966, do CPC, o primeiro pressuposto
genérico para aforamento da rescisória é que seja em face de decisão definitiva, de mérito e
transitada em julgado.
Requer-se que seja a decisão definitiva de mérito, visto que uma decisão terminativa,
como regra, não tem o condão de produzir coisa julgada material, mas tão somente coisa
julgada formal, uma vez que proferida decisão terminativa, esgotados os recursos previstos, é
possível ao indivíduo que proponha nova demanda, restando claro que a rescisória só deve ser
utilizada caso não seja possível mais a rediscussão do mérito nas vias comuns.
De se ressaltar que em determinados casosa decisão terminativa impedirá ao
indivíduo a propositura de nova demanda, ou impediráadmissibilidade de seu recurso, casos
em que será possível o aforamento da rescisória, nos termos do art. 966, §2°, I e II, do CPC,
que serão estudados adiante.

24
DIDIER JR., Fredie. CUNHA, Leonardo Carneiro da. Curso de direito processual civil: meios de
impugnação as decisões judiciais e processos nos tribunais. 13 ed. reform. Salvador: Ed. Jus Podivm,
2016. v.3, p. 421.
23

O segundo e derradeiro pressuposto para propositura da rescisória consta do art. 975,


do CPC, que é o prazo 02 (dois) anos, contados do trânsito em julgado da última decisão
proferida no processo originário. Aduz o art. 975:

“Art. 975. O direito à rescisão se extingue em 2 (dois) anos contados do trânsito em


julgado da última decisão proferida no processo.
§ 1o Prorroga-se até o primeiro dia útil imediatamente subsequente o prazo a que se
refere o caput, quando expirar durante férias forenses, recesso, feriados ou em dia
em que não houver expediente forense.
§ 2o Se fundada a ação no inciso VII do art. 966, o termo inicial do prazo será a data
de descoberta da prova nova, observado o prazo máximo de 5 (cinco) anos, contado
do trânsito em julgado da última decisão proferida no processo.
§ 3o Nas hipóteses de simulação ou de colusão das partes, o prazo começa a contar,
para o terceiro prejudicado e para o Ministério Público, que não interveio no
processo, a partir do momento em que têm ciência da simulação ou da colusão.”

O prazo do referido artigo é decadencial, razão pela qual não está sujeito a
interrupção ou suspensão, somente se prorrogando para o primeiro dia útil subsequente, caso
o seu prazo se expire em oportunidade em que não haja expediente forense, nos termos do
§1°, do art. 975, do CPC.
Há divergência doutrinária quanto ao termo inicial do prazo para ajuizamento da
rescisória, quando da ocorrência do julgamento antecipado parcial do mérito, previsto no art.
356, do CPC.
A despeito do termo “a quo”genérico para contagem do prazo de 02 (dois) anos da
rescisória, o Código trouxe algumas exceções à regra do “caput” do art. 975.
A primeira delas, prevista no §2°, do art. 975, do CPC,diz respeito a rescisória
fundada no art. 966, VI, em caso de prova nova, oportunidade em que o termo inicial será o
da descoberta da prova, desde que observado o prazo máximo de 05 (cinco) anos do trânsito
em julgado da última decisão proferida no processo original.
A segunda delas, prevista no §3°, do art. 975, do CPC, poderá ser utilizada para
rescisória fundada na segunda parte do art. 966, III, oportunidade em que o termo inicial se
iniciará da ciência, por terceiro interessado ou pelo Ministério Público, de simulação ou
colusão entre as partes da ação originária.
A última exceção, embora não prevista no capítulo pertinente à rescisória, se
encontra no art. 525, §15, do CPC, que abre a possibilidade para rescisória de sentença que se
fundar em lei ou ato normativo declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, em
controle difuso ou concentrado, oportunidade em que o termo inicial para sua propositura será
contado a partir da decisão proferida pelo STF.
24

Por derradeiro, nas lições de Donizetti (2017, p. 1536): “Importa ressalvar que a
aplicação dessas exceções somente deve ocorrer em relação à coisa julgada formada após a
entrada em vigor do novo CPC, ou seja, a partir de 18 de março de 2016.”25

3.1.2 Legitimidade ativa e passiva

O art. 967, do CPC, trata dos legitimados ativos para propor a ação rescisória, senão
vejamos:

“Art. 967. Têm legitimidade para propor a ação rescisória:


I - quem foi parte no processo ou o seu sucessor a título universal ou singular;
II - o terceiro juridicamente interessado;
III - o Ministério Público:
a) se não foi ouvido no processo em que lhe era obrigatória a intervenção;
b) quando a decisão rescindenda é o efeito de simulação ou de colusão das partes, a
fim de fraudar a lei;
c) em outros casos em que se imponha sua atuação;
IV - aquele que não foi ouvido no processo em que lhe era obrigatória a intervenção.
Parágrafo único. Nas hipóteses do art. 178, o Ministério Público será intimado para
intervir como fiscal da ordem jurídica quando não for parte.”

O inciso I, por óbvio, dá a legitimidade para rescisória a quem foi parte no processo,
ou seja, autor, réu ou interveniente (por razões lógicas, a parte vencida). Também abre aos
sucessores a legitimidade, aqui englobando a sucessão causa mortis ou inter vivos.
O inciso II confere legitimidade ao terceiro juridicamente interessado para
propositura da rescisória. Para Gonçalves (2017, p. 713): “O terceiro que tem interesse
jurídico é aquele que poderia ter ingressado no processo, na qualidade de assistente”26. Já para
Donizetti (2017, p. 1530): “Terceiro juridicamente interessado, portanto, é quem tinha
legitimidade para intervir como assistente ou para recorrer como terceiro interessado”27.
O inciso III também dá ao Ministério Público legitimidade para propor a rescisória
nas hipóteses previstas nas suas alíneas a, b e c. As referidas alíneas se referem às situações
em que o Ministério Público não atuou como parte, ou mesmo em processos em que tenha
atuado na condição de “custus legis”. Ocorre que, nos dizeres da alínea c, esse rol é

25
DONIZETTI, Elpídio. Curso didático de direito processual civil. 20. ed. rev. atual. e ampl. – São Paulo:
Atlas, 2017, p. 1536.
26
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Palo: Saraiva,
2017, p. 713.
27
DONIZETTI, ibid, p. 1530.
25

meramente exemplificativo, podendo, de acordo com os interesses envolvidos, propor


rescisória em diversos outros casos.
Por último, o inciso IV traz ao rol de legitimados ativos para propositura da
rescisória aquele que cuja intervenção era obrigatória nos autos principais e a eles não foi
dada a oportunidade de manifestação. Distintamente do terceiro interessado, deveria compor o
polo ativo ou passivo da ação, eis que titular do direito material.
O Diploma atual não trouxe regulamentação expressa quanto à legitimidade passiva,
razão pela qual deverão integrar o polo passivo, como regra, todas as partes da ação
originária. Entretanto, em alguns casos, é possível que, em caso de ocorrência de
litisconsórcio facultativo na demanda originária, possam ser demandados na rescisória apenas
um ou alguns dos litisconsortes caso o pedido de rescisão, caso procedente, atinja somente
aquela parcela demandada.

3.1.3 Hipóteses de cabimento

Como já dito anteriormente, o art. 966, do Código de Processo Civil trouxe um rol
taxativo de hipóteses em que será possível o aforamento da rescisória. Assim, preenchidos os
pressupostos genéricos, que são o prazo decadencial de 02 (dois) anos e decisão de mérito
irrecorrível (ou decisão, ainda que não seja de mérito, que impeça a propositura de nova
demanda), de acordo com a fundamentação utilizada para a propositura da ação, necessário
será, também, o preenchimento de pressupostos específicos.

3.1.3.1 Prevaricação, concussão ou corrupção do juiz

O inciso I, do art. 966, trata de prevaricação, concussão ou corrupção do juiz.


Tratam-se as referidas condutas de ilícitos penais, respectivamente descritos nos arts. 319, 316
e 317 do Código Penal (Decreto-Lei n° 2.848/40). Aduzem os citados dispositivos:

“Concussão
Art. 316 - Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da
função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida:

Corrupção passiva
Art. 317 - Solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda
que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, ou
aceitar promessa de tal vantagem:

Prevaricação
26

Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo


contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:” 28

O objetivo do legislador ao incluir tais tipos penais como primeira possibilidade de


rescisão é claramente impedir que, com a descoberta da prática pelos julgadores de tais graves
delitos, sejam as decisões que apresentem suas seriedades comprometidasacobertadas pela
coisa julgada.
De se ressaltar, por último, que não é necessário que haja decisão proferida em
processo penal transitada em julgado para a apuração do crime, podendo ser feita
incidentalmente nos autos da própria rescisória. É como nos ensina Câmara (2017, p. 400):

“A prática do crime pode ter sido apurada em processo penal (em que o magistrado
tenha sido condenado) ou incidentemente no próprio processo da ação rescisória.
Importante terclaro, porém, que a condenação do magistrado em sede penal pela
prática de algum desses crimes vincula o tribunal que julgará a ação rescisória, o
qual não poderá negar a existência doilícito penal.” 29

3.1.3.2 Impedimento ou incompetência absoluta do juiz

O impedimento, previsto nos arts. 144 e 147, do CPC, e a incompetência absoluta,


prevista no art. 62, do mesmo diploma, são ausência de capacidade ao magistrado para
prolação de decisão. O impedimento visa preservar a imparcialidade da decisão, enquanto que
a incompetência absoluta visa preservar o princípio do juiz natural. Averbe-se que a suspeição
(art. 145, do CPC) e a incompetência relativa não integram o rol do art. 966, razão pela qual
não podem ensejar a rescisória.
Nas lições de Theodoro Jr. (2015, p. 857):

“A limitação prende-se ao fato de que na hipótese de incompetênciaapenas relativa


cabe à parte interessada o dever de excepcionar o juízo em tempo hábil (art. 64),sob
pena de prorrogar-se sua competência (art. 65), tornando-se, assim, o juízo
competente porforça da própria lei. Há, na prática, portanto, uma verdadeira
impossibilidade de prolação dedecisão por juiz relativamente incompetente.” 30

28
BRASIL. Código Penal. Decreto-Lei 2.848/40. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm> Acessado em 18 de junho
de 2017.
29
CÂMARA, Alexandre Freitas. O novo processo civil brasileiro. 3 ed. São Paulo: Atlas, 2017. p. 400
30
THEODORO JÚNIOR. Humberto. Curso de Direito Processual Civil - vol. III. 47. ed. rev., atual. e ampl.
Rio de Janeiro: Forense, 2015. p. 857
27

3.1.3.3 Dolo ou coação da parte vencedora, em detrimento da parte vencida ou ainda de


simulação ou colusão entre as partes a fim de fraudar a lei

O inciso III, do art. 966, é expressão dos princípios da boa-fé e da cooperação entre
as partes, presentes nos arts. 5° e 6°, do CPC. Como nos ensina Marinoni, Arenhart e
Mitidiero (2015, p. 589): “O desvirtuamento da função do processo é tão relevante para a
jurisdição que pode até mesmo ser invocado depois de concluído o julgamento o feito por
meio da ação rescisória.”31
A primeira das quatro causas de rescindibilidade previstas no referido inciso é o dolo
unilateral, previsto nos arts. 145 a 150 do Código Civil (Lei n° 10.402/2006), em que a parte
vencedora impende esforços para ludibriar o Judiciário ou a parte contrária no intuito de
influenciar no resultado da prestação jurisdicional. A segunda é a coação, prevista nos arts.
151 a 155, também do Código Civil, em que uma das partes exerce pressão psicológica ou
constrangimento ilegal a outra para que esta pratique ato que lhe prejudique
significativamente nos autos a ponto de influenciar o julgamento a seu desfavor.
A terceira hipótese é a simulação, prevista no art. 167, §1°, do Código Civil,
oportunidade em que as partes utilizam intencionalmente o processo para praticar ato
contrário a ordem jurídica. A simulação pode ser unilateral, quando é praticada por apenas
uma das partes, ou bilateral, quando ambas as partes simulam situação inexistente. A quarta é
a colusão que, diferentemente do dolo ou coação, é ato bilateral, e tem o mesmo objetivo da
simulação, que é fraude processual. Entretanto, se difere da simulação por algumas
características próprias, como leciona Theodoro Jr. (2017, p. 859):

“Além disso, a colusão pode consumar-se mediante ato puramenteomissivo, quando,


por exemplo, autor e réu combinam em que a ação de cobrança de dívidainexistente
não será contestada com o objetivo de fraudar credores. Já a simulação exige
atividadeconcreta de criação de um negócio jurídico que aparente conferir ou
transmitir direitos a pessoasdiversas daquelas às quais realmente se conferem ou
transmitem (Código Civil, art. 167, § 1º, I); ouem que conste declaração, confissão,
condição ou cláusula não verdadeira (idem, II); ou ainda,aqueles cujos instrumentos
sejam antedatados ou pós-datados (idem, III).”32

3.1.3.4 Ofensa à coisa julgada

31
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Curso de Processo
Civil. Vol. 2: Tutela dos Direitos Mediante Procedimento Comum. 1ª ed. – São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais Ltda, 2015, p. 635.
32
THEODORO JÚNIOR. Humberto. Curso de Direito Processual Civil - vol. III. 47. ed. rev., atual. e ampl.
Rio de Janeiro: Forense, 2015. p. 859.
28

A despeito do dispositivo expresso do art. 502, do Código de Processo Civil, que


dispõe que a decisão coberta pela coisa julgada se torna indiscutível e imutável, é possível que
seja proposta uma nova ação fundamentada em direito já decidido em julgamento coberto pela
preclusão máxima e ser essa nova ação julgada de forma contrária ao primeiro julgamento.
Nessa hipótese, possível a rescisão.
Caso ultrapassado o prazo para rescisão, a doutrina diverge quanto a validade ou não
do segundo julgamento, uma vez que irão conviver duas coisas julgadas distintas no mundo
jurídico. Para Marinoni, Arenhart e Mitidiero (2015, p. 590), o segundo julgamento
prevalecerá, pois “Além de a primeira coisa julgada não ter sido invocada no processo que
levou à formação da segunda, essa sequer foi mesmo lembrada em tempo oportuno [...]”33. Já
Gonçalves (2017, p. 718), citando Nelson e Rosa Nery, entende que “em caso de coisas
julgadas antagônicas, há de se prevalecer a primeira, pois a segunda foi prolatada quando já
havia decisão definitiva a respeito”34.

3.1.3.5 Violação manifesta de norma jurídica

A atribuição do termo “norma jurídica” pelo inciso V, do art. 966, Código atual é um
relevante avanço em relação ao Código anterior (Lei 5869/73), simplesmente abarcava
disposição de lei. Assim, a rescisão será possível não somente em face de decisão que viole a
lei, mas também em face de decisão que viole princípios e precedentes judiciais, podendo as
súmulas vinculantes serem utilizadas como fundamento para rescisão.
Nas palavras de Gonçalves (2017, p. 718): “Não se admite a rescisão por injustiça da
sentença ou por inadequado exame das provas. É indispensável que haja afronta direta e
induvidosa à norma jurídica (ou a princípio geral do direito), de natureza constitucional ou
infraconstitucional”.
Quanto aos precedentes judiciais, nem toda decisão, ainda que vinculante, constituirá
um precedente. De acordo com os §§ 5° e 6°, do art. 966:

“§5º Cabe ação rescisória, com fundamento no inciso V do caput deste artigo, contra
decisão baseada em enunciado de súmula ou acórdão proferido em julgamento de

33
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Curso de Processo
Civil. Vol. 2: Tutela dos Direitos Mediante Procedimento Comum. 1ª ed. – São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais Ltda, 2015, p. 590.
34
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Palo: Saraiva,
2017, p. 718.
29

casos repetitivos que não tenha considerado a existência de distinção entre a questão
discutida no processo e o padrão decisório que lhe deu fundamento.
§6º Quando a ação rescisória fundar-se na hipótese do § 5º deste artigo, caberá ao
autor, sob pena de inépcia, demonstrar, fundamentadamente, tratar-se de situação
particularizada por hipótese fática distinta ou de questão jurídica não examinada, a
impor outra solução jurídica.”

Isso significa, de acordo com Donizetti (2017):

“Se, por exemplo, no processo de conhecimento a parte invoca uma súmula do STJ
como norma jurídica, a sua aplicação ao caso concreto depende da realização do
distinguishing, ou seja, da demonstração de semelhança ou de distinção entre os
fundamentos determinantes do precedente e os do caso sob julgamento. Somente se
houver semelhança pode-se aplicar a ratio decidendi do precedente. A não aplicação
do precedente ao caso concreto exige que o julgador demonstre a inexistência de
semelhança entre a decisão paradigma e o caso proposto ou fundamente a eventual
superação do precedente (overrulling)”.35

Por último, sobre esse requisito, de se trazer à baila a súmula n° 343 do Supremo
Tribunal Federal, existente desde o Código anterior, que reforça o conteúdo do inciso V sobre
a necessidade de que a violação a norma jurídica seja manifesta: “Não cabe ação rescisória
por ofensa a literal disposição de lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto
legal de interpretação controvertida nos tribunais.”.

3.1.3.6 Falsidade de prova

De acordo com o inciso VI, do art. 966, a prova falsa também poderá ensejar a ação
rescisória. Entretanto, não basta que a prova seja falsa, devendo também ser extremamente
relevante e decisiva para o resultado do julgamento, de forma que, caso esta não existisse, o
julgamento seria totalmente contrário ao existente.
O próprio inciso afirma que a falsidade da prova poderá ser apurada através de
processo criminal ou através da própria rescisória. Ocorre que, devido ao prazo decadencial
de dois anos da rescisória, difícil será utilizar-se de uma sentença penal transitada em julgado,
devido aos entraves burocráticos próprios de uma persecução penal, para comprovação da
falsidade da prova, pois, como bem coloca Gonçalves (2017, p. 719): [...] no primeiro,

35
DONIZETTI, Elpídio. Curso didático de direito processual civil. 20. ed. rev. atual. e ampl. – São Paulo:
Atlas, 2017, p. 1524
30

asentença que reconhecer a falsidade deverá estar transitada em julgada, o que torna a
hipótese rara, diante do prazo de dois anos.”36

3.1.3.7 Prova nova

O inciso VII, do art. 966, busca mais uma vez preservar o julgamento para que esteja
cada vez mais em harmonia com a realidade dos fatos. A prova nova pode ser considerada
como a prova que a parte desconhecia ou não pode utilizá-la no curso da causa principal por
circunstâncias alheias a sua vontade, que tenha o condão, por si só, de mudar o conhecimento
dos fatos nos autos e, assim, modificar completamente o julgamento a seu favor.
Nas lições de Theodoro Junior (2017, p. 867): “O que importa é a força de
convencimento do novo elemento probatório, diante da qual seria injusta a manutenção do
resultado a que chegou a sentença.”37
De se ressaltar que o referido inciso aduz expressamente que a prova nova deverá ser
obtida ‘posteriormente a coisa julgada’, o que significa dizer que caso a prova seja obtida
após a sentença, porém em tempo em que seria possível a interposição de recursos, não
poderá ser utilizada com fins rescisórios, excetuando-se quando a descoberta se dá no
momento em que os únicos recursos cabíveis devem possuir fundamento única e
exclusivamente de direito, oportunidade em que não poderá a parte discuti-la e sobre ela
estabelecer contraditório.

3.1.3.8 Erro de fato

O inciso VIII, do art. 966, traz o erro de fato como a última das hipóteses de rescisão
da decisão e é o próprio art. 966, em seu §1°, que trata por definir a referida figura jurídica:

Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando:
[...]
§ 1o Há erro de fato quando a decisão rescindenda admitir fato inexistente ou
quando considerar inexistente fato efetivamente ocorrido, sendo indispensável, em
ambos os casos, que o fato não represente ponto controvertido sobre o qual o juiz
deveria ter se pronunciado.

36
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Palo: Saraiva,
2017, p. 719.
37
THEODORO JUNIOR. Humberto.Curso de Direito Processual Civil - vol. III. 47. ed. rev., atual. e ampl.
Rio de Janeiro: Forense, 2015. p. 867.
31

Neste contexto, de se ressaltar, mais uma vez, que não serve a rescisória para simples
reexame dos fatos. O que se pretende aqui é que sejam impedidos de permanecer no mundo
jurídico julgamentos baseados em fatos ‘inventados’, ou mesmo julgamentos completamente
longe da realidade trazida aos autos.
Pensando nisso, para evitar enxurrada de ações por simples inconformismo da parte
vencida é que a doutrina extraiu do conteúdo do inciso e do §1° requisitos para propositura da
rescisória baseada em erro de fato. São eles: a) que a apuração do erro seja possível sem a
necessidade de produção de novas provas; b) que o fato não tenha sido controvertido entre as
partes; e c) que o magistrado não tenha se pronunciado sobre o fato em nenhuma outra
oportunidade nos autos.

3.1.4 Competência

Apesar de ser ação autônoma de impugnação, e não um recurso em si, os juízos de


primeiro grau não possuem competência para julgamento da rescisória. E isso se infere da
própria inclusão dar rescisória pelo legislador no título “Da ordem dos processos no
Tribunal”. Assim, será de competência do Tribunal de segunda instância quando as decisões
de mérito forem produzidas por juízo de primeiro grau, quando produzidas em ações de
competência originária do próprio tribunal ou quando produzidas em recurso conhecido, em
que se tenha operado efeito substitutivo.
Sobre o assunto, leciona Gonçalves (2017, p.721):

“A ação rescisória de sentença deve ser proposta perante o Tribunal que teria
competência para julgar recursos contra ela; se de acórdão, a competência será do
mesmo Tribunal que o proferiu, mas o julgamento será feito por um órgão mais
amplo”.38

Também de se ressaltar que, de acordo com o §3°, do art. 966, “§ 3o A ação


rescisória pode ter por objeto apenas 1 (um) capítulo da decisão”. Dessa forma, poderão ser
propostas tantas rescisórias quantos forem os vícios que comportem rescisão.

3.1.5 Procedimento

38
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Direito processual civil esquematizado. 8. ed. – São Palo: Saraiva,
2017, p. 721.
32

De acordo com o art. 968, do CPC, a petição inicial da rescisória deverá atender os
requisitos do art. 319, do CPC, na qual o Autor deverá argüir ao menos uma das causas de
rescisão previstas no art. 966. Deve apresentar pedido de rescisão e, quando for o caso,
cumular o pedido de novo julgamento (art. 968, I) , o que na maioria dos casos se faz
necessário.
Por último, deve apresentar caução de 5% (cinco por cento) sobre o valor da causa,
valor este que será convertido em multa, caso a ação seja inadmitida ou improcedente (art.
968, II). Nos termos do art. 968, §1°, tal dispositivo não se aplica “à União, aos Estados, ao
Distrito Federal, aos Municípios, às suas respectivas autarquias e fundações de direito
público, ao Ministério Público, à Defensoria Pública e aos que tenham obtido o benefício de
gratuidade da justiça”. Entretanto, de acordo com Donizetti (2017, p. 1539), sobre os
beneficiários da assistência judiciária gratuita:

Entretanto, se o pedido rescindente, ao final, for julgado improcedente à


unanimidade, estará o autor obrigado a promover o pagamento da quantia respectiva
(art. 974). O depósito prévio tem nítido caráter cominatório, porquanto será
revertido em multa a favor do réu, ao passo que a assistência judiciária “pretende
livrar as partes dos ônus decorrentes do processo, e não das indenizações devidas em
virtude de atos de sua responsabilidade”.39

Com relação ao valor da causa, este deve corresponder ao benefício econômico


pretendido pelo autor da rescisória. Geralmente, utiliza-se o valor da causa originária,
corrigido monetariamente, mas há casos em que o benefício econômico pretendido alcance
valores maiores do que o do valor atribuído a causa original, razão pela qual deverá ser
utilizado aquele que corresponda ao benefício pretendido, ainda que superior ao da causa
originária.

3.2 AÇÃO ANULATÓRIA DE ATO PROCESSUAL

Apesar de não ser exatamente tema de direito processual civil, e sim de direito
material, necessário se traçar breves linhas sobre sua utilidade, pois, apesar de não ser
instrumento desconstitutivo de coisa julgada material, é instrumento desconstitutivo da coisa
julgada formal, ou seja, decisão judicial transitada em julgado. Averbe-se que, a despeito de
não ser procedimento próprio de competência dos Tribunais, o legislador trouxe essa previsão
no artigo 966, §4°, em capítulo referente à rescisória. Aduz o referido dispositivo:
39
DONIZETTI, Elpídio. Curso didático de direito processual civil. 20. ed. rev. atual. e ampl. – São Paulo:
Atlas, 2017, p. 1539
33

“§ 4o Os atos de disposição de direitos, praticados pelas partes ou por outros


participantes do processo e homologados pelo juízo, bem como os atos
homologatórios praticados no curso da execução, estão sujeitos à anulação, nos
termos da lei.”

O que se pretende, com a anulatória, são os atos homologatórios de direito. Mas não
o ato homologatório em si, mas sim o ato jurídico perfeito que a homologação dá ao ato
processual praticado. Tais atos homologatórios não podem ser revistos ou impugnados através
de rescisória, uma vez que não são cobertos pela coisa julgada material, mas tão somente pela
coisa julgada formal. Com fins didáticos, Marinoni (2015, p. 598), traz exemplos de atos que
estão sujeitos a anulação:

“[...] os atos processuais praticados pelas partes no processo (como, por exemplo, o
reconhecimento jurídico do pedido, a transação, a renúncia ao direito), assim como
aqueles atos homologatórios praticados no curso da execução (como, por exemplo, o
ato que homologa a arrematação) [...]”40

A ação anulatória buscará fundamento no Código Civil ou até mesmo no Código de


Defesa do Consumidor, podendo-se alegar tanto defeitos dos negócios jurídicos (arts. 138 a
165, do Código Civil), assim como as causas de invalidade do negócio jurídico (arts. 166 e
167, do Código Civil). Seguirá o procedimento comum e não suspenderá a eficácia da decisão
homologatória, exceto se obtiver tutela provisória neste sentido.

3.3 QUERELA NULLITATIS INSANABILIS

A doutrina moderna construiu mais uma forma de afastamento da coisa julgada, além
dos recursos e da rescisória, que é a ação denominada querela nullitatis insanabilis.
Normalmente a referida ação é confundida com a ação rescisória, entretanto guarda
especificidades próprias que a distinguem da rescisória, além de ter objeto mais restrito,
conforme se verá a seguir.
Denominada por Gonçalves (2017, p.704), de “ação declaratória de ineficácia”, tem
o objetivo de declarar nulidade absoluta da decisão eivada de vícios transrecisórios, que são
vícios tão graves que, a despeito do prazo de 02 (dois) anos da rescisória, não se convalidam

40
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo Curso de Processo
Civil. Vol. 2: Tutela dos Direitos Mediante Procedimento Comum. 1ª ed. – São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais Ltda, 2015, p. 598
34

com o tempo, ou seja, subsistirão mesmo ultrapassado o prazo para propositura da ação
rescisória. Tais vícios são aqueles que estão relacionados à inexistência de relação jurídica
processual, que prejudicam a própria existência do processo.
Donizetti (2017, p. 1545) traz como consolidação da doutrina os seguintes
pressupostos processuais que implicam na inexistência de relação processual: investidura de
juiz, demanda e citação.41 Já Didier Jr., Braga (2016, p. 575), prevê apenas duas hipóteses
para o seu aforamento, que são: “[...] decisão proferida em desfavor do réu, em processo que
correu à sua revelia, quer porque não fora citado, quer porque o fora de maneira defeituosa
(art. 525, I, e art. 535, I, CPC)”.42
Em qualquer das hipóteses, por estar o processo viciado já em sua existência, a
querela nullitatis não possui qualquer prazo para aforamento.

41
DONIZETTI, Elpídio. Curso didático de direito processual civil. 20. ed. rev. atual. e ampl. – São Paulo:
Atlas, 2017, p. 1545
42
DIDIER JR., Fredie. CUNHA, Leonardo Carneiro da. Curso de direito processual civil: meios de
impugnação as decisões judiciais e processos nos tribunais. 13 ed. reform. Salvador: Ed. Jus Podivm,
2016. v.3, p. 575
35

4 RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL EM FACE DOS


PRINCÍPIOS DA SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO E DA SEGURANÇA
JURÍDICA

Estabeleceu-se nos capítulos anteriores a noção do instituto da coisa julgada,


fixando-se seu conceito, suas espécies, seus efeitos e limites, bem como os meios de impugná-
la dispostas pelo sistema jurídico, como forma de, sobretudo, perquirir a segurança jurídica.
Ocorre que o inconveniente da impugnação da coisa julgada pode assentar-se em
situação um tanto quanto diversa daquelas previamente estabelecidas pelo ordenamento, qual
seja: ter a decisão indiscutível e imutável fundamento em norma declarada inconstitucional
por meio de controle concentrado ou difuso de constitucionalidade exercido pelo Supremo
Tribunal Federal.
Sabe-se que o controle de constitucionalidade é o mecanismo que consiste na
verificação da adequação da norma infraconstitucional à Constituição. Tem como
fundamento, portanto, a ideia de supremacia da Constituição escrita e da rigidez da sua
observância. Dessa forma o que estiver em desacordo com a texto normativo constitucional,
cerne de todo o sistema jurídico, deve ser declarado inconstitucional.
O nosso país optou por exercer o controle de constitucionalidade das leis de forma
híbrida. Assim, existentes atualmente no ordenamento jurídico duas modalidades de controle
de constitucionalidade: difuso e concentrado.
O controle de constitucionalidade difuso se dá em processos subjetivos, onde há
litígio, partes e um caso concreto a ser analisado. Nesta forma de controle o Magistrado
analisará a constitucionalidade da lei na fundamentação de sua decisão, como uma prejudicial
de mérito. Entretanto, tal decisão vinculará somente as partes do litígio, não projetando a
declaração de inconstitucionalidade ou constitucionalidade para fora do processo, eis que não
integrará a parte dispositiva da fundamentação.
Já no controle concentrado de constitucionalidade, sem intuito de aprofundamento do
tema, mas apenas com objetivo de estabelecer a premissa científica, uma de suas espécies é
designada pela doutrina de controle concentrado repressivo, sucessivo ou a posteriori, que é
justamente aquele por meio do qual o Supremo Tribunal Federal, órgão encarregado por
assegurar a supremacia do texto constitucional, retira da ordem jurídica a norma tida por
inconstitucional.
Essa forma de controle é denominada repressiva, ou a posteriori, justamente porque
realizado após a promulgação e consequente inserção da norma no sistema jurídico. Assim,
36

tendo em vista que no país a regra é de presunção de constitucionalidade das leis, a norma
produzirá seus efeitos normalmente até que venha esta a ser declarada inconstitucional.
Ocorre queeste interregno entre a promulgação e produção dos efeitos da norma até a
sua declaração de inconstitucionalidade, pelo próprio lento caminhar inerente de ações de
tamanha complexidade de julgamento, muitas vezes pode levar anos, e a lei que se pretende
declarar inconstitucional poderá servir de fundamentação para julgamentos pelos Tribunais
pátrios e muitas vezes, devido ao tempo, tais decisões serão acobertadas pelo instituto da
coisa julgada material.
Entretanto, apesar de a declaração pelo Supremo Tribunal Federal de
inconstitucionalidade produzir efeitos erga omnes, a desconstituição das decisões que foram
julgadas com base na lei julgada inconstitucional não é automática, devendo, para tanto, ser
proposta ação rescisória. Todavia, em alguns casos, o prazo para propositura da referida ação
já terá se esgotado.
Questiona-se, a partir daí, se a coisa julgada inconstitucional, ultrapassado o prazo
para a propositura da rescisória, contrapõe-se ou não à ideia de segurança jurídica, e, mais, se
vai de encontro à supremacia da Constituição.

4.1 PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS

A Constituição de um país é a norma fundamental de um Estado, onde se encontram


descritas as suas principais características, como forma de governo, forma de Estado,
organização dos poderes, direitos e garantias fundamentais dos governados, etc. É a norma
mãe, de onde será tirado o fundamento jurídico de validade das outras normas e o coração do
ordenamento jurídico pátrio:

A Constituição será, assim, o conjunto de normas que instituem e fixam as


competências dos principais órgãos do Estado, estabelecendo como serão dirigidos e
por quem, além de disciplinar as interações e controles recíprocos entre tais órgãos.
Compõem a Constituição também, sob esse ponto de vista, as normas que limitam a
ação dos órgãos estatais, em benefício da preservação da esfera de autodeterminação
dos indivíduos e grupos que se encontram sob a regência desse Estatuto Político.
Essas normas garantem às pessoas uma posição fundamental ante o poder público
(direitos fundamentais). (MENDES, 2014, p. 67)43

43
MENDES, Gilmar Ferreira. Curso de Direito Constitucional. 9. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2014,
p. 67.
37

Hans Kelsen, assim, desenvolveu a teoria da pirâmide da hierarquia das leis44,


colocando no topo, como lei suprema, a Constituição e as normas constitucionais, enquanto
que todas as demais leis foram abaixo delas estratificadas. Em seu raciocínio, as normas
hierarquicamente inferiores devem estar subordinadas à ‘lei suprema’ e a ela adequadas, razão
pela qual o legislador infraconstitucional, ao elaborar a lei, deve sempre ter a Constituição
como parâmetro, com ela sempre guardando harmonia.
O fato de a Constituição ser a norma suprema, o ordenamento jurídico se deve ao
próprio histórico da existência do Estado [Democrático] de Direito, eis que este último, para
que exista, necessário se faz estar sua regulamentação e legitimidade afirmada em uma norma
que se sobreponha a todas as demais, para que haja segurança dos cidadãos de que não será
possível a desconstituição das regras ali dispostas pela simples vontade de uma minoria. Em
outras palavras, a própria segurança da estabilidade do Estado Democrático de Direito se
estabelece através da Constituição, como abaixo será estudado.

4.1.1 A Constituição como expressão do Estado Democrático de Direito

A existência do Estado de Direito é explicada de maneira brilhante pelo estudioso


inglês Henry Summer Maine, que desenvolveu a fórmula de criação do Estado de Direito hoje
conhecida como “lei de Maine”, que exprime a ideia de que o Estado de Direito nasce da
transição do status ao contrato. E, isso porque, nas sociedades antigas as relações entre os
indivíduos eram determinadas de acordo com o nascimento, origem ou comunidade em que
estivesse inserido, ou seja, o seu status, que acompanharia o indivíduo por toda a sua vida, o
que perpetrava injustiças da nobreza em face dos mais pobres e das minorias.
Já na sociedade moderna, o advento do contrato passou a determinar as relações dos
indivíduos de acordo com as suas vontades, iniciativa pessoal e vontade autônoma,
permitindo o acúmulo do capital, a redistribuição de riquezas e se tornando o símbolo de sua
atuação, erradicando os vínculos corporativos e privilégios hereditários.
Isso tornou possível a liberdade social e econômica dos indivíduos, que foram os
pilares da introdução no sistema jurídico de uma lei impessoal e genérica, que tratasse a todos
com igualdade, evitando-se o pluralismo jurídico, consolidando-se um novo Estado através de
uma Constituição onde seriam exprimidos os principais objetivos e valores que regeriam toda

44
KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito, Martins Fontes, São Paulo, 1987, p. 24
38

a população, fechando as portas o livre arbítrio.Assim, a Constituição e o Estado de Direito


possui suas origens em momentos praticamente simultâneos.
Percebe-se que o Estado de Direito nasceu dos anseios da população por liberdade,
igualdade e segurança do capitalismo. Assim, suas principais características são: divisão dos
poderes estatais, soberania do Estado Nacional, unificação do ordenamento jurídico, a
afirmação do Direito como um valor político fundamental, a garantia de uma Constituição,
igualdade de todos perante a lei (princípio da igualdade), reconhecimento e resguardo dos
direitos individuais, civis e políticos,livre iniciativa econômica, reconhecimento da
propriedade privada, distinção entre público e privado, primazia da lei sobre as outras fontes
jurídicas.
Ocorre que, apesar do avanço da criação do Estado de Direito, este se mostrou
insuficiente quando da ocorrência das duas grandes guerras mundiais, não conseguindo evitar,
por exemplo, a ocorrência de regimes ditatoriais, como os instituídos na Alemanha Nazista e
na União Soviética nos meados do século XX, precisando ser revisto; obrigando o Estado a
intervir de forma direta na economia e no social. E, isso porque, o Estado de Direito, até então
formado, era liberal eformal, que oferecia aos cidadãos garantias mínimas, prevendo direitos
tão somente de primeira geração, como vida, liberdade e segurança, não atendendo aos
anseios da nova ordem que se formava. A livre iniciativa econômica gerou grande colapso e
descrença no mercado, visto que este atuava de maneira desenfreada.
Assim é que mais uma vez necessária a modificação da ordem jurídica, mudança
essa que somente se torna possível através da recriação do Direito através da Constituição.
Nesta oportunidade, nasce um estado mais preocupado com o bem-estar dos indivíduos,
criando-se os direitos chamados de segunda geração, como a saúde, o trabalho, etc. O Estado
passa a atuar de forma direta na circulação e distribuição de riquezas, limitando a autonomia
dos indivíduos, formando-se o conceito de igualdade formal, recriando-se o princípio da
igualdade (tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais), passando de mero
Estado legislador para um Estado Gestor, dotado de ações prestacionais, promovendo a
concretização dos direitos individuais e sociais que não inerentes ao mercado.
Ocorre que essa maior intervenção do Estado gerou o que Jurgen Habermas, filósofo
e sociólogo alemão, nomeia de “carência democrática de legitimação”,45 ou seja, a
composição do Estado tomador de decisões nem sempre coincide com a composição daqueles
que serão afetados por essas decisões. Daí surge a necessidade da formação de um Estado em

45
HABERMAS, J. Legitimationsprobleme im Spätkapitalismus. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1973.
39

que se busque maior participação da população na Administração Pública e na política. Esse


ideal visa que os representantes conheçam melhor os problemas que atingem seus
representados, permitindo melhor representação dos interesses da coletividade. A democracia
surge exatamente dessa necessidade, estabelecendo-se no Estado Democrático de Direito a
premissa do povo como origem formal de todo e qualquer Poder.
De todas essas premissas, mais uma vez se é possível afirmar que todos esses
avanços necessitam estar consolidados em uma norma para que seja possível instituir-se um
equilíbrio para a utilização do Direito pelo Estado como meio de coerção e limitação de
direitos, ao mesmo tempo em que é gestor e garantidor de direitos, evitando-se, assim, a
prática de excessos, também, evitando-se a omissão do Estado. A este conjunto de normas se
dá o nome de Constituição.
Na nossa Constituição o Estado Democrático de Direito é estabelecido logo no
preâmbulo:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional


Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o
desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade
fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida,
na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias,
promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. 46 (grifo intencional)

4.1.2 A Supremacia da Constituição frente à coisa julgada inconstitucional

A Constituição é a pedra fundamental do Estado, situando-se em posição


hierarquicamente superior em relação a demais normas. Como já dito, é assim posta porque
determina todos os elementos necessários para organizar e gerir um Estado harmonicamente.
Legitima, ainda, a atuação dos Poderes, inclusive a forma de aquisição, a competência dos
órgãos e entes federativos, e também estabelece os direitos e deveres dos indivíduos, razão
pela qual limita não apenas o Estado, mas também os seus representados.
A Lei Maior dispõe, entre outras matérias, sobre os direitos mais preciosos do ser
humano. É a Constituição Federal que organiza o Estado brasileiro, conforme nos ensina
SILVA (2005, p. 46):

46
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> Acessado em: 12 de
junho de 2017.
40

“Nossa Constituição é rígida. Em consequência, é a lei fundamental e suprema do


Estado brasileiro. Toda autoridade só nela encontra fundamento e só ela confere
poderes e competências governamentais. Nem o governo federal, nem os governos
dos Estados, nem os dos Municípios ou do Distrito Federal são soberanos, porque
todos são limitados, expressa ou implicitamente, pelas normas positivas daquela lei
fundamental. Exercem suas atribuições nos termos nela estabelecidos” 47.

Assim, nenhum Poder é absoluto, só podendo atuar nos limites autorizados pela
Constituição, e também conforme os princípios e regras nela estabelecidos. Nesta linha de
raciocínio, nenhuma expressão de Poder poderá violar as liberdades, os direitos e as garantias
individuais ou coletivas, devendo os atos do Poder Público estar sempre pautados nos ditames
constitucionais. Impor aos poderes estatais esse respeito ao texto constitucional configura uma
garantia que os direitos e liberdades ali previstos jamais poderão ser ofendidos.
Nas preciosas lições de BARROSO (2014 p. 165):

Toda interpretação constitucional se assenta no pressuposto da superioridade jurídica


da Constituição sobre os demais atos normativos no âmbito do Estado. Por força da
supremacia constitucional, nenhum ato jurídico, nenhuma manifestação de vontade
pode subsistir validamente se for incompatível com a Lei Fundamental. 48

Dessa forma, todo o corpo do texto constitucional deve ser sempre norte para o
intérprete da norma jurídica, seja para o legislador, responsável pela elaboração das normas,
seja para o gestor ou para o julgador, que são responsáveis pela aplicação das normas.
Neste ínterim, qualquer ato ou decisão emanados por qualquer dos Poderes, com
vício de inconstitucionalidade, deverá ser retirado do ordenamento jurídico, eis que os
fundamentos de validade para todas as normas são encontrados na Constituição, uma vez que
todos os Poderes estão sujeitos ao controle de constitucionalidade. Ao violar-se a Carta
Magna estar-se-á atingindo todos os indivíduos que esperam dos Poderes uma atuação
genuína e legítima.
Infere-se, assim, que o princípio da Supremacia da Constituição é princípio norteador
do ordenamento jurídico pátrio, o ponto de referência para ser seguido na prática de qualquer
ato no exercício da função pública. Quando não observado esse princípio, forma-se um ato
inconstitucional.

47
SILVA. José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 25. ed. São Paulo: Malheiros. 2005, p.
46.
48
BARROSO. Luís Roberto. Interpretação e Aplicação da Constituição. 7. ed. rev. São Paulo: Saraiva,
2009, p. 165.
41

Entretanto, a maior parte da doutrina busca se preocupar apenas com a


inconstitucionalidade dos atos emanados pelo Poder Legislativo e pelo Poder Executivo,
muitas vezes deixando de lado os atos judiciais e especialmente, esquecendo-se da decisão
acobertada pelo manto da coisa julgada.
O ilustre professor português Paulo Otero49 tenta explicar esse hábito de se elevar a
coisa julgada ao grau de autoridade absoluta, mesmo que contenha vício de
inconstitucionalidade, apontando para o fato de ser o que se acredita que por ser o Poder
Judiciário o órgão responsável por fazer cumprir a lei, suas decisões seriam, em tese, sempre
harmônicas com os preceitos constitucionais.
Isso criou a ideia de que a imutabilidade e indiscutibilidade da coisa julgada, por ser
resguardada pela própria Constituição da República,seria valor soberano dentro da ordem
jurídica, fazendo com que fosse fincada uma bandeira de segurança jurídica em torno do
instituto, princípio que é um dos corolários para o Estado Democrático de Direito, para
legitimar as decisões eivadas de inconstitucionalidade.
Entretanto, considerar válida essa premissa é o mesmo que afirmar que o Poder
Judiciário está isento de submissão ao princípio da Supremacia da Constituição, como se
fosse preferível ou até mesmo superior em face dos outros poderes do Estado, quando, na
verdade, não há qualquer hierarquia entre os poderes estatais, sendo estes apenas autônomos,
porém harmônicos entre si, como expresso no art. 2°, da Constituição da República
Federativa: “Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o
Legislativo, o Executivo e o Judiciário.”.
Neste sentido, bem aduz Carlos Valder do Nascimento (2005, p.26):

O controle dos atos do poder público não exclui, de modo algum, aqueles emanados
do Poder Judiciário, mesmo porque não se trata de poder acima da Constituição,
sendo a ela submisso, sem qualquer demérito para sua independência. Os valores
constitucionais hão de ser cultuados, porquanto eles são que permeiam a
convivência em sociedade. De maneira que todos os atos de qualquer natureza ou
procedência devem guardar conformidade com a Constituição, sob pena de
invalidade da sentença que com ela colidir devido a impossibilidade de sua
sobrevivência.50

49
OTERO, Paulo Manoel Cunha da Costa. Ensaio Sobre a Caso Julgado Inconstitucional. Lisboa: Lex,
1993.
50
NASCIMENTO. Carlos Valder. Coisa Julgada Inconstitucional. 5. ed. Rio de Janeiro: América Jurídica,
2005.
42

Seguindo esse raciocínio, a despeito da imutabilidade da coisa julgada, não é crível


manter uma decisão no ordenamento jurídico quanto esta afronta os valores maiores que
compõe um Estado, que se encontram consolidados no texto constitucional.
Assim, a flexibilização da coisa julgada inconstitucional tem como fundamento a
própria Constituição, cuja essência decorre da própria interpretação determinada pelo
Supremo Tribunal Federal ao texto constitucional quando do julgamento da
inconstitucionalidade das leis ou atos normativos.
Dessa forma, muito pior do que desconstituir uma coisa julgada sem os meios legais
para impugná-la, estudados no capítulo dois, seria permitir que uma decisão baseada em uma
lei que o próprio Excelso Pretório Nacional declara inconstitucional seja validada; seria
permitir a manutenção da injustiça gravíssima, o que vai contra ao próprio sentido da
existência da Constituição, que é a estabilização das ações e relações sociais.

4.2 TEORIA DA NULIDADE DAS NORMAS INCONSTITUCIONAIS

No Brasil, copiando-se o modelo norte-americano, foi adotada,para fins de controle


de constitucionalidade, a teoria da nulidade da norma inconstitucional. Segunda esta teoria, a
decisão que reconhecer a inconstitucionalidade, seja em controle de constitucionalidade
concreto, seja em controle abstrato, declara que aquela norma já nasceu defeituosa, razão pela
qual atingirá, por lógica, os atos produzidos anteriormente à análise da inconstitucionalidade.
Segundo essa teoria, se a norma é considerada inconstitucional, será também nula de
pleno direito, produzindo a declaração de inconstitucionalidade efeitos ex tunc, ou seja,
retroagem ao passado de forma absoluta, desde nascimento da norma.
Essa teoria fundamenta-se principalmente no já explicado princípio da Supremacia
da Constituição, em que todas as normas do ordenamento jurídico devem subordinação à
Constituição e com ela devem guardar harmonia. Assim não se apresentando, sua existência
não poderia ser lícita e, portanto, é nula de pleno direito.
Os efeitos retroativos da declaração de inconstitucionalidade, segundo essa teoria, se
justificam pelo fato de que não desfazeratos jurídicos produzidos com base na norma
inconstitucional, seria o mesmo que afirmar que a referida norma é válida, ou seja, seria
reconhecer uma norma inconstitucional, enquanto não reconhecida como tal, no período em
que produziu seus efeitos, assim permaneceu com status superior à própria Constituição.
43

MENDES(2004, p. 288-289) entende, inclusive, que a permanência de uma norma


inconstitucional no meio jurídico atual importaria na suspensão parcial da Constituição51.
A origem do controle de constitucionalidade e da nulidade da norma inconstitucional
é o julgamento do caso Marbury v. Madson, pela Suprema Corte Americana, em 1803, em
que John Marshall pronunciou um voto histórico em que defende que uma norma contrária à
Constituição é nula e vazia (null and void), sendo seus efeitos inválidos, devendo ser desfeita
desde o seu nascimento:

Toda construção do direito americano tem por base a noção de que o povo possui
originariamente o direito de estabelecer, para o seu futuro governo, os princípios,
que mais conducentes se lhe afigurem à sua utilidade. O exercício desse direito
original é um insigne esforço: não pode, nem deve repetir-se freqüentemente. Os
princípios, que destarte uma vez se estabeleceram, consideram-se, portanto,
fundamentais. E, como autoridade, de que eles dimanam, é suprema, e raro se
exerce, esses princípios têm destino permanente. A vontade primitiva e soberana
organiza o governo, assinando-lhe os diferentes ramos, as respectivas funções. A
isto pode cingir-se; ou pode estabelecer raias, que eles não devam transpor. Nesta
última espécie se classifica o governo dos Estados Unidos. Definiram-se e
demarcaram-se os poderes da legislatura; e, para que tais limites não ocorresse erro,
ou deslembrança, fez-se escrita a Constituição. Com que fim se estipulariam esses
poderes, e com que fim se reduziria essa estipulação a escrito, se os limites
prescritos pudessem ser ultrapassados exatamente por aqueles, que ela se propunha a
coibir? Acabou-se a distinção entre os governos de poderes limitados e os de
poderes indefinidos, se os cofins, que se estabelecem, não circunscreverem as
pessoas, a que se impõem, e ficarem igualmente obrigativos os atos permitidos e os
atos defesos. Ou havemos de admitir que a Constituição anula qualquer medida
legislativa, que a contrarie, ou anuir em que a legislatura possa alterar por medidas
ordinárias a Constituição. Não há contestar o dilema. Entre duas alternativas não se
descobre meio termo. Ou a Constituição é uma lei superior, soberana, irreformável
por meios comuns; ou se nivela com os atos de legislação usual, e, como estes, é
reformável ao sabor da legislatura. Se a primeira é verdadeira, então o ato
legislativo, contrário à Constituição, não será lei; se é verdadeira a segunda, então as
Constituições escritas são absurdos esforços do povo, por limitar um poder de sua
natureza ilimitável. Ora, com certeza, todos os que têm formulado Constituições
escritas, sempre o fizeram com o intuito de assentar a lei fundamental e suprema da
nação; e, conseguintemente, a teoria de tais governos deve ser que qualquer ato da
legislatura, ofensivo da Constituição, é nulo. Esta doutrina está essencialmente
ligada às Constituições escritas, e, portanto, deve-se observar como um dos
princípios fundamentais de nossa sociedade.52

Rui Barbosa (2004, p. 42) foi o introdutor dessa teoria no direito pátrio, sendo
visionário no sentido de que o modelo norte-americano deveria ser observado por todos os
países que possuíssem regime de separação de Poderes, como é o caso do Brasil.53 Esse

51
MENDES, Gilmar Ferreira. Jurisdição Constitucional: o controle abstrato de normas no Brasil e na
Alemanha. 4.ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 288-289.
52
MARSHALL apud BARBOSA, Rui. Atos inconstitucionais. 2.ed. Campinas: Russel Editores, 2004, p. 40-
41
53
45 BARBOSA, Rui. Atos inconstitucionais. 2.ed. Campinas: Russel Editores, 2004, p. 42.
44

entendimento passou a ser adotado pela Corte Rara do país (STF), inclusive pode ser extraído
implicitamente da própria lei que trata das ações do controle de constitucionalidade do país,
Lei n° 9.868 de 10 de novembro de 1999, que aduz, em seu art. 27:

Art. 27. Ao declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, e tendo em


vista razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse social, poderá o
Supremo Tribunal Federal, por maioria de dois terços de seus membros, restringir os
efeitos daquela declaração ou decidir que ela só tenha eficácia a partir de seu trânsito
em julgado ou de outro momento que venha a ser fixado.

O referido artigo trata da modulação dos efeitos pelo Supremo Tribunal Federal, que
é o ato de decidir a Corte Suprema qual a partir de qual momento se operarão os efeitos da
inconstitucionalidade. Assim, verifica-se que, não havendo modulação, os efeitos se operarão
ex tunc.
Portanto, em virtude do Princípio da Supremacia da Constituição, qualquer ato do
poder público que venha a afrontar a Constituição será nulo, eis que é a partir dela que se
verifica a validade dos atos estatais. Neste raciocínio, a decisão judicial portadora de defeito
de inconstitucionalidade, por ser, também, norma jurídica, restará inválida assim como a lei
declarada inconstitucional.
Finalizando o raciocínio, Marcos Bernardes de Melo (2000, p.46 e 50) explica que:

A invalidade, por isso, tem o caráter de uma sanção que o ordenamento jurídico
adota para punir certa espécie de ato contrário ao direito (= ilicitude). [...] Em
qualquer da espécies há punição ao infrator da norma, só que a invalidade, se não o
alcança em sua pessoa, diretamente, ou em seus bens, o atinge, recusando-lhe possa
obter o objetivo colimado com a prática do ato jurídico invalidado. [...] Se constitui
um revide do ordenamento à violação de suas normas, é evidente que se trata de uma
sanção. [...] Os negócios jurídicos8 são inválidos sempre que infringem uma norma
jurídica cogente, quando a própria norma não prevê sanção de outra natureza para a
espécie. A nulidade por ilicitude [...] decorre de infração contra o próprio
ordenamento jurídico, que tem na ilicitude sua negação.54

4.3 COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL EM FACE DO PRINCÍPIO DA


SEGURANÇA JURÍDICA

Fato é que se afirmou nos capítulos anteriores que a razão de ser da coisa julgada é a
segurança jurídica, que é um dos pilares do Estado Democrático de Direito e, isso porque, a
própria ideia de Direito vem casada com a necessidade de segurança, de estabilidade das

54
MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do fato jurídico: plano da validade. 4. ed. São Paulo: Saraiva,
2000.
45

relações e de ordem social.Até porque não é crível que em um Estado em que se pretende
haver liberdade, dignidade, democracia e justiça, impere caos e incerteza.
Para THEODORO JR. (2006, p. 92-118), o princípio da segurança jurídica pode ser
visto de dois lados: a) a segurança de que os órgãos estatais aplicarão as normas vigentes; e b)
a segurança da estabilidade das relações jurídicas.
Assim, para o ilustre doutrinador, de um lado o legislador deve ter cuidado no
momento de elaboração das normas, uma vez que deve ser redigida para que o comando seja
claramente compreendido pelos cidadão. Aduz THEODORO JR.:

O primeiro cuidado a ser tomado pelo legislador, para garantir segurança jurídica
aos indivíduos, é o da publicidade adequada, em que se inclui o período de vacatio
legiscompatível com a necessidade de conhecer a lei nova a tempo de adaptar-se aos
seus preceitos inovadores. Mas, acima da publicidade, há também, na consciência
jurídica italiana, a convicção de que é fundamental o problema ligado a exigência
de que os atos normativos sejam redigidos de modo a serem ‘compreensíveis pelos
destinatários’55

De outro lado tem-se a estabilização das relações através da coisa julgada, do ato
jurídico perfeito e do direito adquirido, previstos no art. 5°, XXXVI, da CRFB/88. Assim,
resguarda-se ao cidadão a garantia de que nenhum poder estatal interfira nas relações já
estabilizadas.
Entretanto, esse princípio não pode ser visto como absoluto, haja vista que, maculada
uma prestação jurisdicional por inconstitucionalidade, não revestirá pelo caráter da
imutabilidade, pois, em razão do princípio da Supremacia da Constituição e com base na
teoria da nulidade, será nula, pois ofende o texto constitucional.
Não é crível consentir-se que os efeitos de um ato emanado pelo Poder Judiciário,
Poder este constituído, estariam na mesma posição hierárquica da própria Constituição, que é
o documento que institui o Estado de Direito, consequente do Poder Constituinte originário.
Não se afigura razoável desejar que um aspecto, entre tantos, do Estado Democrático esteja
em posição de afrontar a expressão máxima do ente estatal, que é a carta constitucional.
Assim, vislumbra-se que o princípio da segurança jurídica não é um absoluto em
nosso ordenamento. Assim se pronuncia Cândido Rangel Dinamarco (2002, p. 8 e 22):

[...] o valor da segurança das relações jurídicas não é absoluto no sistema, nem o é,
portanto, a garantia da coisa julgada, porque ambos devem conviver com outro valor

55
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Onda Reformista do Direito Positivo e suas Implicações com o
Princípio da Segurança Jurídica. In.: Revista da Escola Nacional de Magistratura, n. 1, p. 92-118, abr.
2006.
46

de primeiríssima grandeza, que é o da justiça das decisões judiciarias,


constitucionalmente prometido mediante a garantia de acesso à justiça (CF, art. 5º,
XXXV) [...] se salienta a necessidade de estabelecer uma convivência equilibrada
entre os princípios e garantias constitucionais, a partir da ideia de que todos eles
existem para servir o homem e oferecer-lhe felicidade, sem que nenhum seja
absoluto ou constitua um valor em si mesmo. Não há uma garantia sequer, nem
mesmo a da coisa julgada, que conduza invariavelmente e de modo absoluto à
renegação das demais ou dos valores que elas representam. Afirmar o valor da
segurança jurídica (ou certeza) não pode implicar desprezo ao da unidade federativa,
ao da dignidade da pessoa humana e intangibilidade do corpo, etc. É imperioso
equilibrar com harmonia as duas exigências divergentes, transigindo razoavelmente
quanto a certos valores em nome da segurança jurídica, mas abrindo-se mão desta
sempre que sua prevalência seja capaz de sacrificar o insacrificável.

[...] conclui-se que é inconstitucional a leitura clássica da garantia da coisa julgada,


ou seja, sua leitura com a crença de que ela fosse algo absoluto e, como era hábito
dizer, capaz de fazer do preto, branco e do quadrado, redondo.56

Impende observar-se que o princípio da segurança jurídica se presta, também,a


proteger os direitos adquiridos à luz de determinada lei. Seguindo este raciocínio, não é
possível proteger um direito que se incorporou ao patrimônio de alguém através de decisão
com base em lei inconstitucional com o simples fundamento que a sua revisão ofenderia a
segurança jurídica.
Fato é que a coisa julgada, o ato jurídico perfeito e o direito adquirido, receberam da
Lei Maior o mesmo nível de proteção. Isso demonstra o claro objetivo constitucional de
proporcionar certeza e estabilidade às relações. Aliás, é a própria Corte Rara do país que
entende que o ato jurídico em desconformidade com a Constituição não mais será perfeito e
que não existe direito contrário às normas constitucionais, ainda menos adquirido, senão
vejamos:

Ementa: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE - CONTROLE


NORMATIVO ABSTRATO - NATUREZA DO ATO INCONSTITUCIONAL -
DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE - EFICACIA RETROATIVA
- O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL COMO "LEGISLADOR NEGATIVO" -
REVOGAÇÃO SUPERVENIENTE DO ATO NORMATIVO IMPUGNADO -
PRERROGATIVA INSTITUCIONAL DO PODER PÚBLICO - AUSÊNCIA DE
EFEITOS RESIDUAIS CONCRETOS - PREJUDICIALIDADE.
- O REPUDIO AO ATO INCONSTITUCIONAL DECORRE, EM ESSENCIA, DO
PRINCÍPIO QUE, FUNDADO NA NECESSIDADE DE PRESERVAR A
UNIDADE DA ORDEM JURÍDICA NACIONAL, CONSAGRA A
SUPREMACIA DA CONSTITUIÇÃO. ESSE POSTULADO FUNDAMENTAL
DE NOSSO ORDENAMENTO NORMATIVO IMPÕE QUE PRECEITOS
REVESTIDOS DE "MENOR" GRAU DE POSITIVIDADE JURÍDICA
GUARDEM, "NECESSARIAMENTE", RELAÇÃO DE CONFORMIDADE
VERTICAL COM AS REGRAS INSCRITAS NA CARTA POLITICA, SOB
PENA DE INEFICACIA E DE CONSEQUENTE INAPLICABILIDADE. ATOS

56
______.DINAMARCO, Candido Rangel. Relativizar a Coisa Julgada Material. Revista Síntese de Direito
Civil e Processual Civil. n. 19, p. 06-31, Set/Out. 2002.
47

INCONSTITUCIONAIS SÃO, POR ISSO MESMO, NULOS E DESTITUIDOS,


EM CONSEQUENCIA, DE QUALQUER CARGA DE EFICACIA JURÍDICA.
- A DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE UMA LEI
ALCANCA, INCLUSIVE, OS ATOS PRETERITOS COM BASE NELA
PRATICADOS, EIS QUE O RECONHECIMENTO DESSE SUPREMO VÍCIO
JURÍDICO, QUE INQUINA DE TOTAL NULIDADE OS ATOS EMANADOS
DO PODER PÚBLICO, DESAMPARA AS SITUAÇÕES CONSTITUIDAS SOB
SUA EGIDE E INIBE - ANTE A SUA INAPTIDAO PARA PRODUZIR EFEITOS
JURIDICOS VALIDOS - A POSSIBILIDADE DE INVOCAÇÃO DE
QUALQUER DIREITO. [...]57

4.4 COISA JULGADA INCONSTITUCIONAL E A RECEPÇÃO PELA DOUTRINA


PÁTRIA

Na corrente daqueles que sustentam que a decisão inconstitucional é inválida e,


portanto, inexistente, destaca-se Teresa Arruda Alvim Wambier(2007, p.406), que, possui
clara inspiração em Hans Kelsen e coloca-nos que a sentença inconstitucional, ao ser
executada, traria pedido juridicamente impossível, sendo inexistente, estando em harmonia
com dispositivo do art. 525, §15°, do atual Código de Processo Civil, que prevê a
possibilidade de aforamento da ação rescisória para desconstituição de decisões exequendas
baseadas em normas declaradas inconstitucionais pelo STF em controle de
constitucionalidade, contando-se o prazo a partir da declaração.58
No mesmo sentido, Francisco Barros Dias (1998, p. 34-42), por sua vez, entende que
a decisão inconstitucional seria inexistente por sua “incoerência com o ordenamento jurídico
vigente”, defendendo, ainda, que a ação rescisória não deveria possuir prazo para
ajuizamento.59
Ainda neste sentido, para Pontes de Miranda (1998, p. 201), sendo inexistente a
decisão, nem ao menos seria o caso de uso da ação rescisória.60Para o referido doutrinador, a
ação rescisória só deve ser cabível de ação existente, uma vez que não se pode desconstituir
aquilo que não existe.

57
ADI 652MA. Relator: Min. Celso de Mello. Julgamento em 02/04/1992, publicado no DJ de 02/04/1993
p. 5615. Disponível em:
<http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=266472> Acessado em 22 de
junho de 2017
58
WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Nulidades do Processo e da Sentença. São Paulo: RT, 2007, p. 406.
59
DIAS, Francisco Barros. Breve Análise sobre a coisa julgada inconstitucional. São Paulo: RT, Ano 87, V.
758. Dezembro de 1998, p. 34-42.
60
MIRANDA, Pontes, Tratado das Ações, Tomo I, Atualizado por Vilson Rodrigues Alves, 1ªedição.
Campinas: Bookseller, 1998, p. 201.
48

O último dos defensores da referida tese é Cândido Rangel Dinamarco (2004, p. 585)
também possui a posição de que as decisões inconstitucionais são inexistentes.61
Entre os contrários a tese de inexistência da decisão inconstitucional, está Érica
Barbosa e Silva (2007, p. 83-105), que defende que o sistema processual civil brasileiro não
apresenta nulidade processual de pleno direito, de modo que a sentença inexistente não
encontra refúgio no ordenamento jurídico brasileiro, conforme suas palavras:

Ainda que se admita a diferenciação entre existência fática e existência jurídica,


como fazem alguns autores, somente a inexistência fática não gerará qualquer efeito.
No sistema processual brasileiro, não existe nulidade de pleno direito, em razão da
natureza pública do processo, sendo assim cumpre sempre ao Estado a verificação
de qualquer mácula ao instrumento e, mesmo considerando a inexistência de
determinado ato jurídico, ele emanará efeitos até a decisão judicial em sentido
contrário, revelando imprescindível à impugnação do ato, ainda que não possa ser
convalidado.62

Contrário, também, à tese da inexistência da decisão inconstitucional é José Maria


Rosa Tesheiner (2001, p. 11-17), norteado por uma visão formalista da competência das
instâncias judiciais. Leciona o autor:

O que absolutamente não pode prevalecer é a ideia de que possa qualquer juiz ou
tribunal desrespeitar a coisa julgada decorrente de decisão proferida por outro órgão
judiciário, de igual ou superior hierarquia, a pretexto de sua nulidade ou erronia.63

Alexandre Freitas Câmara (2008, p. 17) numa visão sistemática ordenamento


jurídico, por sua vez, entende que a inconstitucionalidade não é obstáculo à formação da coisa
julgada, senão vejamos:

A sentença, mesmo a inconstitucional, é alcançada pela autoridade de coisa julgada.


Preclusa a faculdade de interpor recurso contra tal sentença, terá a mesma alcançado
a auctoritas rei iudicatae. E, sendo de mérito a sentença, alcançadas serão a coisa
julgada formal e a material.64

61
DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. Vol. 2. São Paulo: Malheiros,
2004, p. 585.
62
SILVA, Érica Barbosa e. O vício existente na “coisa julgada inconstitucional” in Revista de Processo.
Ano 32. nº 145. março/2007, p. 83-105.
63
TESHEINER, José Maria Rosa. Relativização da Coisa Julgada in Revista Nacional de Direito e
Jurisprudência. nº 23. Ano 2. Novembro/2001, p. 11-17.
64
CÂMARA, Alexandre Freitas, Relativização da Coisa Julgada Material in Relativização da Coisa
Julgada, Fredie Didier Jr. (Coordenador), Salvador: Podivm, 2008, p. 17
49

Para Paulo Otero (1993, p. 64-65) o “caso julgado” inconstitucional é inválido,mas


assevera que a invalidade não se confunde com inexistência jurídica. Assim é que afirma o
ilustre jurista:

A invalidade de um ato jurídico não significa a ausência de produção de efeitos


jurídicos. Por isso mesmo, as normas inconstitucionais produzem efeitos jurídicos
até que a respectiva inconstitucionalidade seja judicialmente declarada, ainda
que,reconheça-se, o princípio geral seja a destruição retroactiva dos efeitos
produzidos.65

Constata-se, assim, uma grande variedade de posicionamentos sobre o tema. A


despeito da divergência doutrinária evidencia-se que o posicionamento mais adequado ao
sistema jurídico brasileiro é aquele que informa que a sentença inconstitucional é inválida,
pois não é crível aceitar-se que uma decisão continue a produzir seus efeitos mesmo após a
sua declaração de inconstitucionalidade, por todos os motivos expostos no presente capítulo.

65
OTERO, Paulo Manoel Cunha da Costa. Ensaio Sobre a Caso Julgado Inconstitucional. Lisboa: Lex,
1993, p. 64-65.
50

5 CONCLUSÃO

A coisa julgada, prevista no art. 5°, XXXVI, da CRFB/88, é instituto de elevada


importância no ordenamento jurídico pátrio, pois garante imutabilidade e indiscutibilidade dos
atos jurídicos transitados em julgado, não permitindo que nenhuma norma jurídica, seja de
qual espécie for, a atinja.
Analisada por vários aspectos se percebe que a coisa julgada visa preservar a
segurança jurídica, a ela estando atrelada, cujo fim primordial é evitar a eternização das
demandas, a fim de proporcionar estabilidade das relações. Também verificou-se que o
legislador, pautando-se na falha natureza humana, previu possibilidades, em rol taxativo, para
que fosse possível o afastamento da res iudicata.
Entretanto, mesmo diante das hipóteses previstas em lei, existem casos que a
normatização vigente no País não é suficiente para suprir todas as hipóteses de falha no
julgamento das demandas, como ocorre no caso da coisa julgada inconstitucional, que macula
a decisão com vício gravíssimo, sem que seja possível, entretanto, desconstituí-la.
Diante disso, a doutrina moderna, pautada em uma interpretação constitucionalista
do processo, vem admitindo não ter a autoridade da coisa julgada um caráter absoluto,
podendo ser relativizada quando ferir os próprios preceitos constitucionais, através do
instituto da ponderação.
A ideia de imutabilidade da coisa julgada se configura na intenção de que sua
permanência invulnerável estabiliza a estrutura do sistema processual. Contudo, quando a
decisão que acobertou estiver eivada de inconstitucionalidade, (e, portanto, nulidade), tal vício
deve ser removido, de modo a se restabelecer a ordem jurídica lesionada, tendo em vista que
nenhuma lesão ou ameaça a direito, nos termos da Carta Magna, pode escapar ao controle
judicial, ainda que este dano tenha se originado em atos do próprio Poder Judiciário.
Nesta linha de raciocínio, salienta-se que as regras relacionadas ao instituto da coisa
julgada são criadas na esfera da legislação infraconstitucional, que se colocam em posição
hierarquicamente inferior a Constituição.
A ponderação de princípios, por sua vez, é o instrumento próprio à relativização da
coisa julgada inconstitucional, tendo em vista que permite ao Poder Judiciário proceder a
equacionalização dos princípios da segurança jurídica, da constitucionalidade e da justiça das
decisões judiciais.
A doutrina vem se controvertendo quanto a invalidade da coisa julgada
inconstitucional, pois ainda há uma grande resistência em aceitar a desconstituição da coisa
51

julgada, pois acredita-se que o próprio Estado que faz com que um Direito integre o
patrimônio de um indivíduo venha, depois de já estar este último seguro de que aquele direito
lhe pertence (direito adquirido), a lhe ser tomado, por ser a norma que lhe garantiu o direito
posteriormente declarada inconstitucional
Entretanto, analisando a teoria da nulidade adotada pelo Brasil, uma norma
inconstitucional nasce nula e, portanto, todos os atos decorrentes e acessórios a ela também
serão nulos, não havendo sentido em se dizer que há justiça em obtenção e manutenção de um
direito inconstitucional.
Até porque, ao declarar a inconstitucionalidade de uma norma, pode o Supremo
Tribunal Federal utilizar o art. 27, da Lei 9.868/99, que permite a Corte Rara a modulação dos
efeitos, o que significa que, assim não o fazendo, a inconstitucionalidade da norma se
demonstrou tão grave que se tornou impossível sua manutenção no mundo jurídico.
Assim, não nos parece crível que, em um Estado Democrático de Direito, em que a
Constituição é a norma maior garantidora de permanência da democracia e do próprio direito,
se permita que relações jurídicas eivadas de inconstitucionalidade permaneçam no mundo
jurídico sob o fino manto da segurança jurídica, nos correta a doutrina que sustenta a
possibilidade de relativização da coisa julgada inconstitucional em prol de um ato perfeito e
da busca pela verdade real e da justiça.
52

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