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Goiânia, janeiro de 2018

A Sociedade do Desperdício

Será que sempre tivemos recursos em excesso? Me recordo de aulas de gestão sobre os
modelos de produção, nas quais não eram raras as comparações entre o sistema de produção da Ford
de 100 anos atrás, no qual se produzia tanto que peças eram feitas em excesso para cobrir o descarte
de itens defeituosos e até funcionários a mais eram contratados para suprir ausências, e o modelo
japonês de produção, no qual absolutamente tudo tinha que funcionar em perfeita sincronia e até
mesmo o tempo era um recurso escasso. Aspectos técnicos à parte, o segundo modelo de produção
permitia que os gestores enxergassem um número muito maior de falhas em seus sistemas produtivos,
falhas que antes estavam ocultas pelo excesso de recursos e de produção da mesma forma que o mar
esconde a maior parte de um iceberg sob a água. Saindo do universo das grandes corporações e
entrando na vida cotidiana, também me recordo das vezes em que minha mãe brigava com meu pai
para que ele fosse mais organizado, pois vivia a esparramar todo tipo de quinquilharia pelo nosso
quintal, que não era pequeno. Me recordo de minha tia reclamando da quantidade de alimentos que
estragavam na geladeira de meu primo, comprados para serem esquecidos sem nunca terem ido para
a panela. Hoje muito pouco disso tudo mudou, os desperdícios continuam, mas a crise econômica que
o país atravessa fez com que muitas famílias tivessem dificuldades em manter as despesas em dias, fez
com que muitas pessoas perdessem o emprego e impediu o ingresso de muitos no mercado do
trabalho, obrigando a população a viver com menos. Esses comportamentos me deixaram curioso e
munido de um multímetro fui investigar o consumo de energia elétrica em minha casa. Descobri que
para cada hora que a TV da sala ficava em stand-by, isto é, desligada, mas conectada à tomada, o
consumo era o mesmo que o do meu computador enquanto navegava e assistia a vídeos na internet.
Descobri ainda um freezer, quase vazio e cujos alimentos caberiam dentro do congelador da geladeira,
que a cada 24 horas gastava o equivalente a 30 minutos de chuveiro ligado. Também dei uma olhada
no negócio da família e encontrei produtos parados no estoque, produtos jogados fora por estragarem
ou perderem qualidade, gastos excessivos com gasolina, e o mais chocante de todos, equipamentos
parados, guardados como se fossem pneus de estepe. Mas o mais engraçado é que parece que essas
coisas nunca foram importantes, e voltando à pergunta inicial, talvez esses pequenos detalhes sempre
tenham ficado ocultos simplesmente porque a “bonança” de recursos era suficiente para bancar o luxo
do desperdício. Essa extravagância é encontrada nos lares brasileiros, nas empresas, na administração
pública, em todo lugar, e diante disto, qual seria o impacto de uma otimização do consumo, em todos
os níveis, para a economia brasileira? Conversando sobre o mesmo assunto, uma amiga me contou
sobre a empresa onde trabalha, que inicialmente contava com 500 colaboradores e teve o quadro
reduzido para 350 após ser adquirida por outra companhia, sem redução dos serviços e com melhora
da qualidade. “Tudo funciona redondinho”, contou, “se alguém faltar ao trabalho fica complicado, mas
isso raramente acontece”. Imagine o valor economizado com esses 30% no quadro de funcionários
revertidos na forma de um custo mais baixo para o usuário final ou na forma de novas vagas de
emprego! Também temos muitos exemplos de desperdícios de recursos públicos, temos uma máquina
administrativa que gasta acima da média de outros países e que falha miseravelmente na execução de
projetos e na fiscalização da aplicação do dinheiro público que acaba indo para onde não deveria, não
raramente para bancar o luxo de poucos em detrimento do que serviria à muitos. Ora, mas todo e
qualquer dinheiro que vai para algum lugar tem que vir de algum lugar, dinheiro não dá em árvore, e
a origem do dinheiro somos nós, cidadãos. O desperdício doméstico é pago diretamente por nós, o
desperdício público é pago na forma de impostos, e o desperdício no setor privado é pago na forma
de preços mais altos. Outro desperdício enorme é o de recursos humanos: uma pessoa que passa
quatro ou cinco anos em uma faculdade e não consegue encontrar emprego em sua área de formação
ou é alocada em uma função na qual seu conhecimento é subutilizado é igualmente desperdiçada, pois

Carlos L.
Goiânia, janeiro de 2018

poderia ter investido seu esforço, tempo e dinheiro em algo pudesse otimizar o retorno para si e para
o empregador, afinal, todo trabalho é realizado visando algum tipo de recompensa, seja ela monetária
ou não, e quanto a recompensa não vale o esforço, o resultado são problemas sociais como evasão
escolar, aumento da criminalidade, insatisfação com o trabalho, problemas emocionais e porque não,
crises políticas. No fim das contas, há muitos recursos escoando pelo ralo que poderiam ser investidos
em outras áreas para melhorar a vida das pessoas, seja na forma de um salário que fosse capaz de
suprir as demandas mínimas de um cidadão, na forma de serviços públicos com mais qualidade, e na
geração de mais oportunidades para este país, uma vez que o consumo das famílias gera demanda,
que gera produção e serviços, que geram lucro e empregos, que geram impostos, e assim
sucessivamente, fechando o ciclo econômico de crescimento. Só que diante de tamanha banalidade,
parece que o desperdício está entranhado em nós e isto talvez aconteça porquê de fato somos um
país rico, que tem tanto ao ponto de se dar ao luxo de desperdiçar recursos. Mas como poderia um
cidadão cobrar eficiência da administração pública ou da empresa onde trabalha se ele mesmo não
consegue gerir sua própria vida com eficiência? O diabo mora nos detalhes e é exatamente a
capacidade de enxergar os pequenos desperdícios no dia-a-dia e a disciplina de corrigi-los e evita-los
que nos capacita a enxergar os grandes. Aliás, foi exatamente essa disciplina, organização e atenção
aos detalhes que garantiu o sucesso da indústria japonesa, o que não foi conseguido às custas de
treinamento, pois tudo já fazia parte da cultura deles. Quando se tem pouco espaço se procura
aproveitar o máximo possível, quando se tem pouca comida não se desperdiça as migalhas, quando se
tem pouco dinheiro, se economiza. Para nós brasileiros, o melhor caminho talvez seja mudar os hábitos
na medida em que formos capazes de nos policiar (mudança cultural é algo complicado) e entranhar
essa consciência nas escolas, ensinado as crianças a aplicar o que aprendem para gerir bem suas vidas
na fase adulta, ensinando-as lições de cidadania, do funcionamento do país em suas diversas
entidades, e de economia básica aplicada, para que desta forma o país seja formado por uma geração
culturalmente melhor nestes aspectos. Se crianças ao redor do mundo são capazes de aprender
programação e robótica, por que não as ensinar pontos tão importantes que contribuirão para
melhorar suas vidas e a sociedade?

Carlos L.