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03/01/2018 aventurasnahistoria

Bestiário: 11 figuras surreais do folclore medieval


Imaginação fértil, medo e religiosidade deram origem a criaturas
assustadoras

Marina Ribeiro e Fábio Marton

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S
eres do tamanho de ilhas que afundam navios, dragões que destroem
cidades inteiras, monstros devoradores de homens, sereias que
encantam marinheiros, centauros letrados... É difícil compreender que
muitas das figuras mitológicas que conhecemos dos livros um dia
realmente atemorizaram alguém.

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No entanto, como lembra o historiador francês Lucien Fèbvre, na Idade


Moderna havia "excesso de plantas, de animais, de corpos minerais, de ☰
doenças, de tudo. O possível não se distinguia do impossível". Sem contar
que, durante a Idade Média, a maior parte do mundo ainda era
considerada terra incógnita.

Nesse contexto, seres fictícios nutriam as superstições e tomavam forma


graças a artistas talentosos e estudiosos da Antiguidade. Santo Agostinho,
um teólogo do cristianismo, foi um dos primeiros a perceber a importância
dos monstros no imaginário da população. Representações "antinaturais"
seriam também, em sua visão, parte do plano divino.

Como um adorno do universo para ensinar os homens sobre os perigos do


pecado. Mais do que interpretar a presença desses entes, foi papel dos
cristãos divulgar a existência de muitos deles - que, a partir dos séculos 12
e 13, passaram a ser frequentes na arte religiosa, considerados, como
desejava Santo Agostinho, criaturas de Deus.

Além de enfeitar os templos, monstros e maravilhas encontraram seu lugar


em bestiários — livros que somavam histórias e descrições de animais
verdadeiros e imaginários —, fazendo com que a erudição enciclopédica e
o pensamento religioso se reunissem.

Para a historiadora Mary Del Priore, em seu livro Esquecidos por Deus -
Monstros no Mundo Europeu e Ibero-Americano (Séculos XVI-
XVIII), "nesses bestiários, a ênfase na moralidade, apregoada pela Igreja
Católica, passa a dar novo sentido alegórico aos monstros". Com o
objetivo de conciliar a filosofia com a crença popular, a Igreja buscou um
significado espiritual nas entidades mitológicas e um ensinamento sobre
bons costumes em suas aventuras - a exemplo de Leviatã, utilizado dessa
maneira na Bíblia.

Primeiro enciclopedista cristão, Isidoro de Sevilha tornou-se a fonte na


qual vários autores se abasteceram quando se tratava de contar histórias
quase inacreditáveis. Uma de suas ideias era a de que não haveria forma
de criatura vivendo na terra firme que não pudesse ser observada também
no mar.

A teoria remetia aos escritos do naturalista romano Plínio, o Velho. Tal


suposição gerou muitas criaturas marinhas exóticas e acabou batizando
animais como leões-marinhos e porcos-do-mar (um parente do pepino-do-
mar que vive em grandes profundidades e tem pernas) - os nomes
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mar, que vive em grandes profundidades e tem pernas) os nomes
associados aos bichos podem não fazer muito sentido hoje, mas a
imaginação medieval interpretava de maneira literal a relação de animais ☰
híbridos

Na época, grandes espécies desconhecidas também eram consideradas


verdadeiras anomalias. Caso das baleias, que muitas vezes eram
ilustradas como uma colagem de elementos de outros animais - e
turbinadas com uma boa dose de imaginação. Com isso, trombas, patas,
cascos, chifres e barbatanas formavam, a cada nova ilustração, uma figura
diferente e ainda mais ameaçadora.

Muitos mapas medievais e da Renascença trazem exemplos de tais


criaturas. "Aos nossos olhos, quase todos os monstros parecem bastante
estranhos, mas, na verdade, muitos deles foram desenhados a partir do
que os cartógrafos consideravam como registro científico", afirma Chet Van
Duzer, autor de Sea Monsters on Medieval and Renaissance Maps (sem
edição em português). "Assim, a maioria refletia um esforço por parte
desses profissionais de serem precisos na descrição dos habitantes
marinhos."

A partir do final do século 17, conforme a compreensão europeia da


ciência foi crescendo e a imprensa tornou mais fácil a propagação de
imagens realistas, os seres imaginários começam a desaparecer dos
mapas. As ilustrações passaram a ser mais pragmáticas, com os animais
servindo para indicar áreas boas para a pesca.

Em um mapa do começo do século, por exemplo, desenhos indicavam


como matar e processar um enorme cetáceo. "As baleias, as maiores
criaturas do oceano, já não eram monstros, mas, sim, depósitos naturais
de mercadorias a serem aproveitados", escreveu Van Duzer.

1 Hipogrifo

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O cruzamento entre um grifo (corpo de leão, cabeça e asas de águia) e


uma égua gerou o hipogrifo, que acumula as características dos pais, com
patas dianteiras de felino e traseiras de cavalo. Grifos e cavalos seriam
como cães e gatos, por isso um ditado dos tempos medievais dizia que o
acasalamento dos dois seria algo impossível.

A primeira referência ao hipogrifo foi feita pelo poeta latino Virgílio, no


século 1 a.C. No entanto, o ser foi definido apenas no começo do século
16, pelo também poeta Ludovico Ariosto.

2 Ictiocentauros

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Entre os seres marinhos da mitologia grega estão os gêmeos Bythos e


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Entre os seres marinhos da mitologia grega estão os gêmeos Bythos e
Aphros, dois ictiocentauros. Eram similares aos centauros, tendo a parte
superior do corpo de homem e cauda de peixe. Alguns exemplares ☰

usavam coroas, enquanto outros eram representados com chifres


parecidos com garras de crustáceos.

A falta de informações sobre ele não atrapalhava sua fama: figurava em


mapas séculos depois do surgimento de sua lenda.

3 Leviatã

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Aparece no folclore judaico como o monstro que engoliu o profeta Jonas.


No Livro de Jó é descrito como um grande dragão que simbolizava o mal.
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Sua origem está na divindade cananeia Yam, deus do caos e do mar


indomado. Seu inimigo era Baal, o rei do céu. ☰

Hoje a palavra tem um sentido mundano em hebraico: quer dizer apenas


'baleia'.

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O morador do oceano era conhecido por afundar navios. Habitava o Mar


da Noruega, que separa a Islândia das terras escandinavas, em regiões ☰
repletas de peixes para saciar seu imenso apetite. Pescadores procuravam
justamente esses lugares, mas fugiam ao primeiro sinal de movimentação
da criatura.

Uma das teorias é a de que a lenda tenha surgido com base na


observação de lulas gigantes, já que em sua descrição mais comum o
kraken era caracterizado como sendo do tamanho de uma ilha e possuidor
de 100 braços.

5 Serpe

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Dragões europeus tinham quatro patas e eram inteligentes, conversando


com as pessoas. Serpes (Wyvern para quem quer se localizar em inglês),
com apenas duas patas, eram apenas lagartos voadores. Mas aparecem
frequentemente em heráldica: eram um dos símbolos de Portugal, que foi
herdado pelo Império do Brasil. O cetro de D. Pedro II tinha uma serpe.

6 Tarascona

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Espécie de dragão com pernas curtas e garras enormes como as de um


urso, acopladas a um corpo de boi coberto com uma carapaça de tartaruga
de espinhos curvos e cauda longa e escamosa, que termina com um ferrão
de escorpião. Para completar tinha cabeça de leão, mas com rosto de um
velho amargo e triste.

A besta não podia ser destruída pela força humana ou das armas. Até que
uma menina decidiu ir atrás dela com sua fé. De posse de dois gravetos
em cruz, borrifou água benta no dragão, que parou de cuspir fogo. Então a
garota cortou os próprios cabelos e utilizou as tranças como coleira para
levar a Tarasca de volta à cidade. Ao chegar, os habitantes mataram a
criatura inerte a pedradas, para tristeza da menina.

7 Cinocéfalos e São Cristóvão

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Pessoas com cabeça de cachorro, que viviam em tribos próprias. Teólogos


medievais discutiam se podiam ser considerados humanos e, assim,
aceitar o cristianismo. São Cristóvão era frequentemente desenhado com
cabeça de cachorro - por conta de um problema linguístico. Ele era
chamado de cananeus (cananeu), mas ilustradores leram canineus -
canino.

8 Mantícora

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Um animal lendário com cabeça de homem (muitas vezes dotado de


chifres), corpo de leão, e cauda de dragão ou escorpião, com várias fileiras
de dentes. Ele devorava suas presas inteiras, sem deixar roupas, ossos ou
posses para trás. É assim a mantícora, descrita pelo historiador grego
Ctésias com base na mitologia persa. Ainda que tenha surgido no Oriente,
o ser mitológico era parte do imaginário medieval europeu.

9 Banshee

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Thomas Crofton Croker, 1825

Figura do folclore celta irlandês bastante cristianizada. Banshees eram


mulheres que cantavam anunciando a morte de alguém. Podia ser após o
fato, para a família, por exemplo quando alguém era morto numa batalha
distante. Ou antes, avisando de uma situação perigosa. Quando era um
figurão, como um rei ou papa, ouvia-se um coral de dezenas delas ao
mesmo tempo.

10 Ghoul

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Nascido no folclore persa e descrito nas Mil e Uma Noites, é


provavelmente a inspiração maior para os zumbis de Hollywood (no Haiti,
de onde vem a palavra, zumbi era um corpo dominado por um feiticeiro).
Ghouls eram gênios canibais e horrendos, que devoravam corpos, mas
não tinham problemas com matar pessoas vivas, principalmente crianças.

11 Gênios

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Figuras centrais no Islã - não só na mitologia, mas na religião mesmo -, os


gênios (djinn em árabe) são criaturas dotadas de livre-arbítrio, que serão
julgados por Alá no dia do Juízo Final. Satã é um deles, mas nem todo
gênio é mau. Sua forma e poderes variam muito, deste os gigantescos e
pavorosos ifrit, nuvens gigantes de fogo, a simpáticos concededores de
desejos vivendo em garrafas.

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