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Upadeshasaram - A Essência da Instrução

De Bhagavan Sri Ramana Maharshi por Dr. David Frawley (Vamadeva Shastri), extraído do livro “Vedantic Meditation – Lighting the flame of awareness”, publicado nos EUA por North Atlantic Books,
primeira edição 2002, revisões posteriores retiradas de www.vedanet.com.

POR DR. DAVID FRAWLEY


Preliminares é o melhor.
Upadeshasaram significa a essência da instrução. Neste texto, Bhagavan Ramana Maharshi O Ramanashram, desde a época de Ramana, tem tido sempre canto Védico diário pelo seu poder
explica todas as principais práticas yoguicas culminando em jnana yoga, o yoga do de acalmar e purificar a mente. Ramana também recomendou a várias pessoas a entoação de
conhecimento, o seu método primordial de questionamento sobre Si-mesmo que ele enfatizava. mantras como OM e vários nomes Divinos, particularmente, o nome de Shiva ou a montanha
Ele mostra como os aspirantes crescem e amadurecem desde as práticas preliminares até ao mais Arunachala (Om Arunachala Shivaya Namah!).
alto conhecimento e, finalmente, à auto-realização.
A primeira metade do ensinamento consiste nas práticas base dos yogas de karma, bhakti, 7. Assim como o fluir do ghee num fio contínuo, o pensamento simples e constante é melhor do
mantra e prana. A segunda metade consiste numa explicação específica sobre jnana yoga e os que aquele que é complexo e partido.
seus vários métodos.
Algumas pessoas, tendo notado no ênfase de Ramana no questionamento sobre Si-mesmo, Este verso explica a base da meditação ou concentração (dharana). A meditação, em qualquer
chegaram à conclusão errada que ele rejeitou os outros yogas [e declarou-os] como sendo inúteis. formato, deve ser simples, pura e contínua como quando se verte um fio de ghee (manteiga
Neste ensinamento ele mostra o lugar que eles ocupam e o seu desdobramento por etapas. Que clarificada) aquecido. Isto acompanha a repetição mental do mantra, que deverá tornar-se numa
tanto possa ter sido contido nuns meros trinta versos é realmente extraordinário, no mínimo. corrente de meditação.
Adicionei um comentário que procura mostrar as práticas pretendidas pelos versos e a sua
relação. 8. Da meditação na diferença, procede-se
à meditação em “Ele sou eu.” A meditação
1. Pelo comando do Criador uma pessoa recebe o fruto das suas ações. Karma não é o supremo. sem diferença é vista como a mais
Karma, por si só, é inerte. purificadora.

2. Karma é a causa da queda no vasto oceano da ação. Os seu fruto é efémero e impede-nos de Este verso mostra o aspeto da meditação
alcançarmos a nossa meta de libertação. devocional numa forma ou bhakti yoga.
Uma pessoa inicia com meditação em
A primeira etapa da prática espiritual é reconhecer a lei do karma pela qual estamos presos no formas, em Deuses como Shiva, Vishnu
ciclo de renascimentos e o sofrimento resultante de nascimento e morte. Karma, o fruto das ou na Deusa, com sendo diferentes de si.
nossas ações, resulta da vontade de Deus, que tem o poder de nos levar além delas. Ao Depois, aos poucos, uma pessoa entende
Reconhecer que karma depende do Divino cessamos de buscar a ação como a nossa meta de vida que os Deuses são apenas formas de Si-
e olhamos para a sua fonte. mesmo mais profundo ou pura
Devido às nossas ações no passado estamos presos no oceano de samsara que nos prende ao consciência, a presença Divina no
transitório e nos impede de contactarmos com a liberdade da nossa natureza eterna. Ao coração. Esta é a realização como “Ele (o
reconhecermos isto ganhamos desapego das ações externas, que é a base necessária de todas as Ser na Divindade) sou eu.” Uma pessoa
práticas yoguicas. passa a meditar sobre a divindade como
sendo ela mesma. Esta visão do Ser na
3. A ação dedicada ao Senhor, que não foi feita por desejo, é o meio para purificar a mente e divindade é o real poder purificador , não
facilitar a libertação. a forma particular que uma pessoa usa, por mais útil que essa seja enquanto veículo.
Ramana, ele mesmo, reverenciava o Senhor Shiva na forma da montanha Arunachala e como a
Agora, em termos gerais, é definido karma yoga, que é a base da prática espiritual. O caminho principal divindade do templo Tiruvannamalai, experenciando diretamente o caminho com
para fora da teia do karma é através de karma yoga ou serviço abnegado, ação dedicada a Deus. forma de bhakti yoga. Ele também reverenciava a Deusa tanto em Madurai como em
Isto purifica as nossas mentes e ajuda-nos a atingir a libertação. Não é o karma que nos prende Tiruvannamalai. Muitos dos grandes devotos de Ramana, incluindo Ganapati Muni,
mas o desejo. A ação abnegada é a fundação do caminho espiritual e todos os seus métodos, que reverenciavam o próprio Ramana na forma do Senhor Skanda ou Dakshinamurti.
deve ser livre de motivação egoísta.
9. Da ausência de um estado em particular vem a residência no estado de ser. Da força dessa
4. Os deveres supremos do corpo, discurso e mente são ritual, mantra e meditação. sensação vem a mais elevada devoção.

A nossa natureza compele-nos a agir. A ação libertadora consiste em práticas espirituais. Estas são Este verso mostra o aspeto sem-forma de bhakti yoga. Assim que uma pessoa ultrapassa o
tríplices de acordo com os três aspetos da nossa natureza como corpo, discurso e mente. O dever sentimento por uma forma particular chega ao estado de puro ser. Da força de sentir aquele puro
supremo do corpo é puja ou serviço a Deus e à humanidade. O dever supremo do discurso é ser em tudo vem a mais elevada devoção que vai além de todas as forma. Note-se que, o
mantra ou repetição de nomes Divinos. O supremo dever da mente é meditação. Maharshi primeiro explica karma, mantra e bhakti yogas como a base para jnana que é ensinado
depois.
5. O serviço ao mundo deverá ser feito com o pensamento em Deus. A reverência ritualística
deverá ser ao Senhor que tem como forma os oito aspectos da criação. 10. Quando a mente atinge a sua compostura na sua residência dentro do coração, isto é,
certamente, a essência de karma, bhakti e jnana.
Este verso explica os dois aspetos de karma yoga feitos com o corpo como serviço (seva) e
reverência devocional (puja). Serviço ao mundo deve ser feito com a ideia que o mundo é uma Este verso explica a essência de todas as práticas yoguicas descritas nos versos anteriores que é
manifestação de Deus. A reverência ritualística, como aquela feita a imagens Divinas, deverá ser saber a origem da mente dentro do coração. Apesar de usarem meios diferentes a sua meta é a
baseada no reconhecimento da presença Divina no mundo, o Criador que tem como forma dos mesma. Após isto, Ramana foca sobre como residir no coração, que tem, sobretudo, dois métodos
oito aspetos da criação. Estes são os cinco elementos, mente, ego e natureza que estão de yoga (controlo do prana) e jnana (controlo da mente), já que, o coração é a fonte tanto da
incorporados nos diferentes aspetos de puja. Sem este reconhecimento interior, o serviço ou o mente como do prana.
ritual continua sendo mecânico e ineficaz. Note-se que asanas yoguicos são tidos como um ritual
na forma de prática corporal. 11. Controlando a respiração, a mente pára assim como um pássaro numa rede. O controlo da
respiração é o meio para controlar a mente.
6. Melhor que o cântico audível de mantras, é o seu murmúrio suave, melhor ainda é a sua
repetição mental. A mente pode ser controlada através do controlo do prana. Esta é a base de yoga sadhana que a
prática de pranayama. Em geral, apenas raros aspirantes avançado conseguem controlar a mente
Este verso explica mantra yoga que lida com discurso, que, geralmente, é a etapa seguinte após diretamente. Para a maior parte dos praticantes o uso do prana para controlar a mente é uma
karma yoga que lida com o corpo. Mantras têm três formas. O cântico audível ajuda-nos a grande ajuda. Sem a rede do prana, o pássaro da mente é quase impossível de apanhar.
assimilar as qualidades básicas do mantra. O murmúrio suave de mantras associa-os à respiração. Ramana afirmou que se uma pessoa não está na companhia de um grande professor ou sadhu, o
A repetição mental, na qual eles chegam a reverberar na mente subconsciente, tem o efeito de pranayama é o melhor método de ganhar poder e energia na sua prática. Não deve ser ignorado
transformação mais poderoso. Praticar mantras destas três maneiras e ficar-se pela última etapa por nós no Ocidente que não temos tais companhias ou circunstâncias para nos inspirarem. O

Yoga Vadika 1
pranayama purifica o corpo e energiza a mente para a meditação. Ajuda-nos a controlar os todos estes instrumentos.
sentidos indisciplinados que direcionam a mente para fora para envolvimentos exteriores. Temos de praticar o auto-questionamento não apenas num nível conceptual mas nas nossas
atividades físicas, sensoriais e pranicas, assim como, em todas as camadas da mente até ao seu
12. A mente e o prana estão imbuídos com conhecimento e ação. São dois ramos cuja raíz é um núcleo. O questionamento sobre o Ser não é apenas rastrear a raíz do pensamento até ao coração
poder comum. mas à raíz da nossa existência inteira.

A mente é o poder de conhecimento e prana é o poder de ação. São como duas as duas asas de 23. Como o iluminador do Ser como pode a Consciência ser diferente dele? A Consciência existe
um pássaro. Conhecimento implica ação e ação requere conhecimento. A mente tem a sua como Ser. Essa consciência sou eu.
energia e o prana a sua inteligência. Ambos têm um poder comum po detrás deles que é o do Ser.
Uma pessoa pode controlar ambos indo à sua energia raíz, o poder da consciência. Outro método é ver o ser como consciência e consciência como eu ou pura subjectividade. Assim
que nós tenhamos regressado aquele Ser Uno passamos a percebê-lo como pura consciência e o
13. União e dissolução são os dois tipos de controlo da mente. A mente que é unificada voltará de verdadeiro Ser.
novo. A mente dissolvida está morta.
24. Deus e a alma são distintos pela suas vestimentas. A natureza de Si-mesmos como puro ser é a
14. Através do controlo do prana, a mente é unificada. Da meditação no Um, a mente é dissolvida. realidade suprema.

15. O yogui superior possui uma mente dissolvida. Que dever mais pode ele ter, aquele que reside 25. Eliminando as vestimentas na percepção da natureza de Si-mesmo, a visão de Deus toma a
na sua própria natureza? forma do Ser.

O controlo da respiração, temporariamente, suspende a mente. O auto-conhecimento dissolve a Deus e alma são os dois fatores derradeiros do universo, que é o seu campo de ação. Diferenciam-
mente permanentemente. Portanto, por mais útil que uma ferramenta como o controlo da se pelas suas vestimentas- Deus tem uma toda poderosa mente e prana. A alma tem uma mente e
respiração seja, sem avançar para o controlo direto da mente o objetivo de dissolver a mente não prana limitados. Porém, a sua natureza de Si-mesmos comum une-os na realidade suprema. O
pode ser atingido. Desta forma, uma pessoa deve usar pranayama como um meio para controlar caminho para unir Deus e a alma individual é negar os seus nomes e formas e reconhecer o Ser e
a mente e não parar aí, como o objetivo. O yogui mais elevado vai além disso. a Consciência comuns por detrás de ambos. Uma pessoa apenas pode conhecer verdadeiramente
Deus como o seu Ser. Em caso contrário, o conhecimento de Deus é indireto e não-real. Este
16. A mente dissolvida no Ser repele toda a objetividade. A visão da pura consciência é a visão da método inclui e une tanto jnana como bhakti.
verdade.
26. A condição do Ser é a perceção do Ser. A partir da natureza não-dual do Ser há permanência
A chave para dissolver a mente é a pessoa desviar a atenção de toda a objetividade. Isto é a prática no Ser.
de pratyahara ou controlo da mente que se dirige para o exterior e dos sentidos. Relaciona o
controlo do prana com controlo da mente. O próprio Ramana praticava pratyahara total, Ver é ser. Ver o Eu é ser o Eu. Ser o Eu é ver o Eu. Meditar na unidade de ser e ver é uma outra
simulando a experiência da morte, e recolhendo todo o seu prana no coração, quando teve a sua aproximação importante. Na verdade, não há aproximação porque o Ser, simplesmente, é o que
realização sendo ainda um jovem de dezasseis anos. Sem a recolha da atividade sensorial e apegos é.
externos, a prática de auto-questionamento é como recolher água num recipiente com buracos.
Portanto, deve-se praticar pratyahara como a base do auto-questionamento. 27. Consciência desprovida de conhecimento e não-conhecimento é o conhecimento verdadeiro.
Tendo explicado o controlo da mente em termos gerais, Ramana foca agora nos métodos Que mais há para saber?
específicos de auto-questionamento que se debruçam sobre isso.
Outro método é meditar em “O que é o conhecimento?” O conhecimento verdadeiro é
17. Qual é a natureza da mente? Quando a procura termina, não há mente. Este é o caminho desprovido de qualquer objeto a ser conhecido. É sabedoria auto-luminescente e auto-consciente.
direto. Isto não é apenas um salto teorético mas uma revolução no âmago da consciência.

Quando se consegue pratyahara e a abstração do mundo é atingida, uma pessoa pode olhar 28. Qual é a natureza do Ser? Na perceção do Ser está a imutável, não-nascida consciência plena
diretamente para a natureza da mente. Sem o suporte de qualquer objeto externo do qual absoluta.
dependa, a própria mente desaparece. Este é o caminho direto para o qual o qual uma pessoa tem
de manter a mente no coração. Se procurarmos a mente não a vamos encontrar porque a Outro método é inquirir sobre qual a é, verdadeiramente, a natureza de Si-mesmo de todas as
própria mente é uma forma de busca externa que a introversão remove. A primeira etapa do coisas. O ser não pode ser algo limitado pela objetividade, tempo, espaço ou causa. É não-corpo e
caminho direto é olhar a natureza da mente. não-coisa.

18. Todas as atividades mentais estão enraizadas na noção-de-eu. A mente é os seus pensamentos. 29. A suprema plenitude além do aprisionamento e libertação, quem a atinge aqui é uma alma
Saiba que o ego é a mente. Divina.

19. Meditando em “de onde vem este eu?” o ego desmorona-se. Isto é auto-questionamento. A alma torna-se Divina ao atingir aquele estado além do aprisionamento e libertação. Esta é a
suprema meta da prática que está para além de todas as metas. Atingi-la é uma oferta Divina e
20. Quando o ego é destruído, o puro eu, o coração, abre-se por si mesmo como a suprema resulta de todas as práticas iniciadas nos versos anteriores. Esta plenitude é a nossa origem e
plenitude de ser. término, como as Upanishads afirmam.

Estes três versos explicam a prática de auto-questionamento que envolve rastrear o pensamento 30. A própria consciência de uma pessoa livre de ego, este é o grande tapas e a Palavra de Ramana.
“eu” até à sua origem no coração. Ao voltar de novo a mente e o ego ao coração, uma pessoa
descobre o ser infinito como a sua real consciência. Este é o ensinamento mais característico de Esta pura consciência para além do ser separado é o conhecimento mais elevado. Mas não é
Ramana e o principal caminho de jnana yoga. conceptual. É como um grande fogo. É o tapas ou a prática ascética que Ramana provou nas suas
ações diárias. Ramana não falou, meramente, sobre a auto-realização ou ensinou-a como uma
21. Este coração é conhecido pela palavra “eu” na nossa experiência diária. Até mesmo quando o mera teoria, fantasia ou emoção. Ele viveu-a, ao ponto de deixar o seu corpo ser picado por
ego é esquecido no sono profundo, ele continua como o seu ser base. formigas e mosquitos enquanto estava em samadhi. Aquele que querem atingir este estado têm
de ter o tapas necessário para o fazer surgir ou estarão apenas a criar pensamentos otimistas
Outro método de auto-questionamento é rastrear a nossa consciência-vigília de volta à exagerados. Muitos anos de tapas são, geralmente, necessários para atingir o objetivo.
consciência que persiste mesmo durante o sono profundo quando a mente é posta em descanso. Este ensinamento é, também, a Palavra Divina de Ramana. Proveio da Palavra Divina no coração e
Aquele “eu” do sono profundo é o Ser real, enquanto que o ego-acordado é uma ilusão. Assim que não é o produto do pensamento humano ou do ego de alguém, nem mesmo de Ramana. É muito
uma pessoa tenha aprendido o questionamento sobre o Ser no estado de vigília terá de o fácil ler tais ensinamentos e não é difícil entendê-los através da lógica. Uma pessoa pode usá-los
continuar durante o sonho e o sono profundo para que ele seja realmente eficaz. para criar um estado mental ou emocional elevados. Mas a sua verdadeira realização é um
assunto diferente e inteiramente além das nossas limitações humanas. Para atingir isso
22. Eu não sou o corpo, os sentidos, o prana, o intelecto ou a ignorância por detrás deles. Eu sou o precisamos dedicar-mo-nos a essa tarefa em tudo o que fazemos e em tudo o que somos.
Ser Uno. Aquele que é dependente é não-Ser.

Todavia, um outro método é discriminar entre aquele que vê e o que é visto (drig drishya viveka).
Isto é feito em todos os níveis do nosso ser. Temos de aprender a diferenciar o nosso verdadeiro Retirado de www.vedanet.com, também disponível numa versão mais antiga publicada no
Ser, subjectividade e senciência dos nossos vários corpos, veículos ou instrumentos que livro "Vedantic Meditation: Lighting the Flame of Awareness", e traduzido do Inglês por
dependem dele. Esta prática começa como corpo físico que é um instrumento de ação, aos Gustavo Cunha para www.YogaVaidika.com com a permissão do autor ( David Frawley).
Copyright © 2000 por David Frawley. Todos os Direitos Reservados. Este material não pode
sentidos, que são instrumentos de conhecimento, ao prana, que é o poder de ação, e à mente que ser reproduzido em nenhuma forma ou vendido sem permissão escrita prévia do autor.
é o poder de conhecer. O Ser do qual estes dependem é diferente e reside no coração por detrás de Imagem de Ramana retirada da Wikipedia, usada sob licença Creative Commons.

Yoga Vadika 2

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